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O Porto turístico: olhares sobre a cidade

Tiago Miguel Ribeiro Miranda

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Tiago Miguel Ribeiro Miranda O Porto turístico: olhares sobre a cidade Dissertação realizada no âmbito do Mestrado em Sociologia, orientada pela Professora Doutora Natália Azevedo Faculdade de Letras da Universidade do Porto Setembro de 2015 O Porto turístico: olhares sobre a cidade Tiago Miguel Ribeiro Miranda Dissertação realizada no âmbito do Mestrado em Sociologia, orientada pela Professora Doutora Natália Azevedo Membros do Júri Professor Doutor Carlos Manuel Gonçalves Faculdade de Letras – Universidade do Porto Professora Doutora Teresa Mora Universidade do Minho Professora Doutora Natália Azevedo Casqueira Faculdade de Letras – Universidade do Porto Classificação obtida: 18 valores 5 Sumário Agradecimentos 7 Resumo 8 Abstract 9 Índice de ilustrações 10 Índice de quadros 11 Lista de abreviatura e siglas 13 Introdução – (embarque) 14 Capítulo 1 – Afinidades manifestas: (viagem) pelo turismo, cidade e turista 19 1.1. Sobre o turismo 19 1.1.1. Da marginalidade à centralidade 19 1.1.2. O contexto nascente do turismo em Portugal – recortes do século XIX 22 1.1.3. O olhar do turista, entre a viagem e o turismo 23 1.1.4. O desenvolvimento do turismo nacional, até 2015 e pelo city break do Porto 28 1.2. Sobre a cidade 34 1.2.1. As cidades dentro da cidade 34 1.2.2. O espaço da cidade, e os usos que o fazem 37 1.2.3. A aura da cidade no mundo globalizante 41 1.3. Sobre o turista 51 1.3.1. Mundos virados ao contrário - a distância e a experiência no turista 51 1.3.2. Os olhares imaginários e fotográficos do turista 54 Capítulo 2 – O analítico e o metodológico: (paragens) pelo Porto 58 2.1. Um objeto de estudo tripartido – (1ª paragem) 58 2.2. Desenho metodológico – (2ª paragem) 61 2.2.1. A observação 63 2.2.2. A análise de conteúdo 64 2.2.3. O inquérito por questionário 65 2.2.4. As entrevistas 66 2.3. De como encontrámos o Porto turístico – (3ª paragem) 67 6 Capítulo 3 – O (destino) dos dados do Porto turístico 72 3.1. Modos de relação do turista com a cidade 72 3.2. Um corpus de imagens fotográficas, entre a simplicidade e a imaginação 81 3.3. As regularidades da visita ao Porto... 105 3.3.1. Caracterização sociodemográfica dos turistas estrangeiros inquiridos 105 3.3.2. A viagem ao Porto 108 3.3.3. A experiência do turismo no indivíduo 113 3.3.4. As dimensões turísticas da cidade 117 3.4. ... e as suas matizações 121 Considerações finais – (partida) 124 Referências bibliográficas 128 Anexos 134 Anexo n.º 1 – Poema “Periclitam os grilos”, de Alexandre O‟Neill (2001) 134 Anexo n.º 2 – Inquéritos por questionário, em português, espanhol, inglês e francês 135 Anexo n.º 3 – Guião de entrevista exploratória 160 Anexo n.º 4 – Guiões de entrevista semidiretiva, em português, espanhol, inglês e francês 161 Anexo n.º 5 – Excertos selecionados do diário de campo 171 Anexo n.º 6 – Passagens de uma tentativa de análise às fotografias do “Visit Porto” 173 Anexo n.º 7 – Grelha de análise vertical da entrevista exploratória (turista A) 176 Anexo n.º 8 – Grelhas de análise vertical das entrevistas semidiretivas 181 Anexo n.º 9 – Categorias/dimensões de análise – entrevistas e corpus de imagens 190 Anexo n.º 10 – Ilustrações – figuras 192 Anexo n.º 11 – Quadros e caixas de texto 213 7 Agradecimentos Sem querer instituir uma hierarquia de importância aos contextos e às pessoas presentes neste texto – pela ordem de chegada às respetivas linhas – tomo a liberdade de lhes deixar um breve e encarecido tributo, pelo apoio que me prestaram na fruição deste trabalho. Direto, indireto, visível ou meramente latente, o sentido da ajuda revela-se de forma diversa e entrecruzada, tanto na inspiração humana como na do lugar. As duas confundem-se no contexto académico da Faculdade de Letras da Universidade do Porto: ao seu geral – os seus espaços e personagens-miríade – e ao seu particular – os cursos sucessivos de Sociologia, os colegas na aprendizagem sociológica, e os professores de craveira singular – o meu singelo agradecimento. Um especialíssimo louvor é dirigido, no entanto, à professora Natália Azevedo: além de rigorosa orientadora desta investigação, coube-me o prazer de ter estado em convivência mais próxima com ela durante ano e meio. Da sua porfia (justificada) em combater a minha teimosia (algo pétrea), a possibilidade de aprender escancarou-se; a gratidão, neste sentido, será sempre o sentimento que se segue. Em registo mais pessoal, a lembrança e o reconhecimento são repartidos por entre coordenadas afetivas: à domus paternalis, quer dizer, à minha família mais próxima, da quente domesticidade de casa, sem esquecer a mais distante por essa Europa fora; aos amigos, os antigos e os novos da recente aventura universitária, momentos que são inolvidáveis; e, particularizando, à minha namorada, por me ter acompanhado ao longo de todo este processo, ajudando, acarinhando, resistindo quando eu não podia mais. Aos lugares também, concerteza: bibliotecas múltiplas, um ou dois cafés de íntimo valor, e o Porto, tela sentimental e prática da minha vivência, a presença do espaço na ingenuidade humana, às vezes apenas simbólica. As últimas palavras são devidas àqueles sem os quais esta investigação não teria sido viável na sua vertente… investigativa: os turistas que tive a felicidade de poder encontrar nas ruas portuenses, predispostos a darem um pouco do seu tempo de visita às minhas inquirições, bem como alguns agentes do aparato turístico da cidade que me foram dilucidando certas dúvidas sobre o turismo patente. A todos eles um profundo obrigado, e a minha vénia de investigador. 8 Resumo A presente dissertação resulta de uma investigação em Sociologia sobre o turismo na cidade do Porto, tanto a partir das representações dos turistas que a visitam como das suas imagens. A cidade e o turismo surgem como temáticas fundamentais, entendidas como dois fenómenos que se influenciam mutuamente, ao mesmo tempo que consagramos a figura do turista como intermediário privilegiado desse contexto dialético. O objetivo principal desta investigação é duplo, procurando descobrir, pelos olhares do turista estrangeiro, o que faz uma cidade ser autêntica e diferente das outras – neste caso, o Porto; e, em paralelo, explorar o papel do turismo e da globalização na construção das suas possíveis representações sobre ela. A especificidade da nossa pesquisa reside no turismo urbano, e em particular, nas configurações emergentes do city break, um tipo de viagem turística mais curta e cada vez mais popular nas escolhas dos turistas internacionais que visitam o Porto. Da mesma maneira, a cidade do Porto tem vindo a constituir-se como um destino turístico de crescente atração para o estrangeiro, reforçando gradualmente a sua presença no circuito turístico europeu desde meados da primeira década do século XXI: nesse contexto e nessa relação, o city break revela-se decisivo. Sustentada numa lógica hipotético-dedutiva, a aproximação empírica ao Porto fez-se através do turista estrangeiro, pela observação, inquéritos por questionário e entrevistas; não descurando a forma, analisando fontes documentais, como a cidade é apresentada nalguns círculos publicitários pelas suas imagens. As conclusões mais relevantes apontam para a viragem turística e global do Porto, recebendo cada vez mais visitantes, e a braços com efeitos potencialmente nefastos daí derivados; mas mantendo - aos olhos do turista estrangeiro que o visita - a sua autenticidade, única à sua maneira, e à maneira distinta de cada um que contempla e vivencia esta cidade. Palavras-chave: cidade; turismo; olhares dos turistas; globalização; city break. 9 Abstract This dissertation is the outcome of a research in Sociology about tourism in the city of Porto, from the representations of visiting tourist, to its images. City and tourism spring forth as fundamental themes, regarded as two mutually influenced phenomena, at the same time placing the tourist as a favoured intermediary in that dialectical context. The chief objective of this research is twofold, looking to find out, through the gazes of the foreign tourist, what makes a city be authentic and different from others – in our case, Porto; and, on the other hand, to explore tourism and globalisation‟s roles in the making of their possible representations of said city. The specific nature of our work dwells in urban tourism and, in particular, in the emerging configurations of city break, a tourism trip-taking kind noted for its shorter length and increasing popularity amidst the choices of foreign visitors to Porto. Accordingly, the city of Porto has come to be established of late as a touristic destination of growing appeal to the foreigner, gradually reinforcing its presence in the tourist trails of Europe since the middle of the first decade of the twenty-first century: in this milieu and through this relationship, city break is seen as decisive. Sustained in a hypothetical-deductive logic, the empirical approach to Porto was conducted through the foreign tourist, by observation, surveys and interviews; albeit not disregarding the manner, analysing documental sources, in which the city is presented in certain publicity circles through its images. The most relevant conclusions point to the touristic and global turn of Porto, with its evergrowing visitors, grappling with potentially nefarious effects derived therefrom; but keeping, - in the eyes of the foreign tourist who visits it - its authenticity, unique in its own way, and in the distinct way of each one who experiences and beholds this city. Keywords: city; tourism; the gazes of the tourist; globalisation; city break. 16 desenvolvimento, num registo triplo de responsabilidade, sustentabilidade e acessibilidade (UNWTO, 2014: 15). Então, o turismo importa? Seguramente que sim, e ao levantar um pouco o véu de como a OMT trabalha, o que ela aprofunda dentro do objeto de estudo turístico, somos inclinados a concordar com ela. Tratará, de igual modo, de muitas mais questões adstritas ao campo, projetos, necessidades, know-how, regulamentações, medidas, políticas - ao turismo importa isso. No entanto - e como facto social total 2 - o turismo é pertinente porque também foge, não raras vezes, à operacionalização e à contagem dos seus atributos quantificáveis, mesmo que depois relate o alcance social e cultural das suas ações. Estamos a falar de algumas características que o turismo esconde nas suas asas, a certos predicados que não se coadunam com o critério tecnicista e economicista que costuma sobressair nas leituras do fenómeno enquanto indústria e domínio económico. A esses predicados – mormente aqueles que se relacionam com a cidade, o leitmotiv deste trabalho – procuraremos dirigi-los rumo às ciências sociais, em geral, e à sociologia, em específico, dadas as condições teóricas e metodológicas que elas nos poderão dispor na busca de compreensão do funcionamento do turismo nos vários contextos em que emerge (Gagliardi, 2009: 252). Não pretendemos, com estes trechos inaugurativos, insinuar uma desmistificação da documentação oficial relativa ao turismo, nem tão-pouco consagrar os efeitos positivos da sua indústria, naturalmente chamados à colação quando o fenómeno turístico é analisado e validado pelas entidades do seu direito. Por esta ordem de ideias, não queremos igualmente alinhar pelo diapasão de diabolizar as consequências menos elegantes, ou mais discutíveis, que são imputadas ao turismo (principalmente ao de teor massificado), a saber, a destruição do ideal-tipo da antiga viagem, a falsificação da experiência “real” pela “invenção” turística, e os males da vertente maciça da sociedade de consumo, entre outros (Fortuna, 1999a: 47-8). A análise sociológica que pretende revestir estas páginas prima por tentar afastar-se da realidade maniqueísta que sempre pareceu acompanhar o turismo desde o dealbar do século XX: ou é bom, ou é mau. Se por um lado (e como, grosso modo, tentamos apresentar) a forma “benéfica” do turismo tende a encostar-se demasiado aos proveitos económicos da sua atividade, por outro, a figura “maléfica” inspira-se com certa inflexibilidade num tipo específico de turismo – o de massas – para fundar a sua crítica generalizante do fenómeno, como também aponta Fortuna (1999a: 48). Este autor enunciou estas considerações corria o ano de 1999, porém elas conservam atualidade, senão ironia – especialmente a última. O turismo hoje em dia, enquanto indústria, esforçase cada vez mais para se diversificar, para apelar a novos públicos, para abrir novos destinos e criar 2 Regressamos, ainda e hoje, aos clássicos autores da Sociologia para falar de espaços-tempo tão contemporâneos, como o turismo. Ao mesmo tempo é legítimo, ao terem “partido a pedra” das primeiras dúvidas sociológicas. Não nos abstemos de conceptualizar o turismo como um “facto social”, devendo ser levado em linha de conta nas interações sociais e quotidianas que compõem as sociedades humanas (Durkheim, 1998), especialmente naquelas que o indivíduo protagoniza enquanto turista; e como “total”, ao ecoar pelos diversos quadrantes dessas mesmas sociedades, tanto a um nível individual como coletivo (Mauss, 1988). 17 novas experiências, na senda do negócio capitalista 3 , mas quiçá também para se distanciar passo-apasso do anátema das “massas”. Ele persiste, claro, mas parece afundar-se no mar de designações onde flutua o turismo contemporâneo, umas antigas mas recauchutadas, outras novas e anglicizadas: rural, urbano, cultural, desportivo, ecológico, social, religioso, termal, balnear, sénior, de saúde ou bemestar, de aventura, montanha e vida selvagem, eno-turismo, city break, war tourism, dark tourism, slum tourism… 4 À medida que novos epítetos, vulgo turismos, são acrescentados à corrente, mais a crítica estereotipada do passado é minada, e o turismo reafirma-se pela incrível diversidade que, agora, o anima. É então verdade que o turismo importa, não tanto pela espetacularidade dos seus números como pelo aparente espetáculo das suas mutações recentes. Para a sociologia importará, no idóneo termo empregado por Fortuna, “desdramatizar” o seu funcionamento (1999a: 48), oscilante entre o elogioso e o reprovável. Deste modo, para nós, importará trilhar outros caminhos, outras viagens na interpretação deste fenómeno, da mesma forma de como ele procurou (ou lhe foram procuradas) outras especificidades; exercer um saudável direito à contradição em ambos os lados, pensar, como Susan Sontag, que “toda a possibilidade de compreensão está enraizada na capacidade de dizer não” (2012: 31). Estas questões adensam-se com o folhear das seguintes páginas: como é consuetudinário, isto somente é uma introdução, que desejámos transformar em espécie de préfacio à própria viagem da nossa investigação. Como terá reparado o leitor ou a leitora, demos o título de “embarque” a estas notas de entrada. Quando viajamos, embarcamos num qualquer meio de transporte para chegar ao destino; e hoje, mais o avião do que propriamente o barco. Com isto quisemos reproduzir, em jeito de metáfora, os ritmos da deslocação física do turismo na organização do nosso conteúdo textual e investigativo. Deste modo, começamos sempre pelo “embarque” – de decisão feita para viajar, damos de caras com esta introdução, o “bilhete de avião” para o nosso trabalho. Segue-se a “viagem”, configurando o primeiro capítulo de direito próprio, o da definição dos contornos teóricos do nosso objeto de estudo, onde lidamos com a teoria social e sociológica sobre o turismo, a cidade, e o turista, por esta ordem. 3 Se seguirmos a reconstituição histórica do capitalismo segundo Gilles Lipovetsky (2010) – composta por três ciclos, num lapso temporal de finais do século XIX aos dias de hoje – a afirmação aparenta ser provedora de legitimidade: o primeiro, desde as últimas décadas do século XIX até à Segunda Guerra Mundial, quando se começa a idealizar a produção e consumo de massas, a sedução e ócio de consumir; o segundo, compreendido nas três décadas seguintes ao pós-II Guerra Mundial, que aprofunda a sociedade de consumo de massa, abrindo alas a novas técnicas de marketing, como a segmentação de mercado firmada em variáveis socioculturais; e o terceiro, no qual ainda vivemos, caracterizado como “hipermoderno” pelo autor e onde a dinâmica de consumo quase não olha a fronteiras – mercantilizando espaços-tempo outrora inimagináveis de se consumir, como palcos de guerra no caso turístico –, fundada na busca reforçada de experiências que o consumidor contemporâneo empreende. 4 Em perspetiva análoga à do capitalismo “hipermoderno” de Lipovetsky (2010) socorro-me de uma expressão de Walter Benjamin sobre a influência do cinema nas artes de representação do ator, que seria uma “(…) ampliação do domínio do que pode ser testado, que o equipamento concretiza no ator de cinema (…)” (1992: 91). As facetas mais “obscuras” do turismo, como essa dos palcos de guerra, serão ampliações do que antes parecia impossível sequer de ser testado… 18 A viagem não se resume a esperar pela chegada: antes o caminho parecia importar mais do que o objetivo, e por isso efetuámos algumas “paragens” no segundo capítulo, o do desenho analítico e metodológico da investigação, explicando a nossa prática de investigação situada no contexto turístico do Porto. Porém, há que chegar a bom (aero)porto: no “destino” apresentamos o terceiro capítulo, o da apresentação dos dados por nós recolhidos e tratados, abordando os comportamentos do turista estrangeiro no Porto, as suas representações da cidade, as fotografias vistas e tiradas, os lugares, as ideias com que ficou, e as com que vai. A “partida” é inevitável no fim: com este último capítulo, o da conclusão, terminamos a nossa viagem pelo Porto turístico, mostrando as estórias do passado, as pistas do presente, e o olhar do futuro. Aqui arruma-se tudo à pressa, sedentos de voltar, ou talvez não: depende de quem falar, pois cada turista tem o seu olhar. Incluímos na partida (ou será regresso a casa? Ao “nosso” Porto?) todas as recordações que fomos cuidadosamente guardando com vistas à explanação do nosso trabalho, qual álbum de fotografias – leia-se, aqui, os anexos. Boa viagem! 19 1. Afinidades manifestas: (viagem) pelo turismo, cidade e turista 1.1. Sobre o turismo 1.1.1. Da marginalidade à centralidade Se pensarmos em Portugal, apenas e só neste pequeno canto ocidental da Europa, podemos afirmar com propriedade que a indústria turística tem levado longe o nome do país 5 : ao natural, e expectável, desenvolvimento do turismo enquanto instituição específica da sociedade capitalista (Gagliardi, 2009: 245-6) – intensificado, em parte, pela globalização tentacular do capitalismo e pelas diversas mobilidades que produz – acresce o interesse mediático da comunicação social portuguesa pelo fenómeno, cuja atenção tem sido atraída pela miríade de prémios internacionais 6 que têm recaído sobre a oferta turística que Portugal apresenta e se orgulha. Não se descura o facto indisputável de que o país sempre dispôs de condições naturais e ambientais para a expansão e consolidação de um dos padrões da atividade turística, o do famigerado turismo dos três “esses”, “Sun, Sea and Sand”, sol e mar consumidos em forma de invenção turística (Maricato, 2012: 16); porém, verifica-se nos últimos anos o apelo e abertura turística do território nacional por via da repercussão mediática das suas virtudes e inflexões face ao passado 7 . Por outras palavras, Portugal está cada vez mais involucrado nas dinâmicas do turismo internacional, captando, de permeio, levas crescentes de visitantes (e receitas), seguidas de perto por um aparato político-cultural mais preocupado e sustentador da atividade homóloga. Ora, ao nos depararmos com tamanho panorama aparentemente “recém-descoberto”, dado o élan do seu momento, corremos o risco de ignorar o quadro mais vasto, estrutural e histórico, onde se inscreve o turismo, enquanto conceito, atividade, prática e fenómeno, inclusive em território português: a ele segue-se-lhe um considerável passado no encalço. O turismo, em 2015, é uma questão central, mas antes não era assim: como aponta Zygmunt Bauman, o turista e o turismo ocupavam as bordas da vida social, da ação que aí se desenrolava, configurando-se numa atividade marginal à sociedade europeia, às maiores “importâncias” que se digladiavam no seu seio (1996: 29). O turismo deixou de ser um ritual relativamente raro protagonizado por poucos indivíduos, para restituir-se num 5 Veja-se, a título exemplo, a quantidade de galardões arrecadados por Portugal em 2013 e 2014 nos chamados “óscares” do turismo mundial, os World Travel Awards, na vertente europeia: 9, no primeiro ano, e 16, no segundo, em pouco mais de 40 nomeações, com destaque para o reconhecimento do Turismo de Portugal como melhor organismo oficial de turismo na Europa em 2014 (como constante no website destes prémios, disponível em www.worldtravelawards.com, e na notícia do caderno “Fugas” do jornal “O Público”, “Portugal arrasa nos óscares do turismo europeu, disponível em www.fugas.publico.pt, ambos consultados pela última vez, no âmbito deste trabalho, a 3 de dezembro de 2014). 6 Oriundos de revistas e websites da especialidade, para além das organizações de turismo, como a World Travel Awards: no caso da cidade do Porto, distinguida como “Melhor Destino Europeu” em 2012 e 2014 pela European Consumers Choice, uma organização independente baseada em Bruxelas que se especializa em premiar organizações ou empresas pela inovação e facilidade de uso dos seus produtos/serviços (informação recolhida no website desta organização, disponível em www.europeanconsumerschoice.org/about-us/, consultado pela última vez, no âmbito deste trabalho, a 3 de dezembro de 2014). 7 Das quais o city break, tendência e forma de turismo em evidência e estudo no nosso trabalho, é um claro exemplo. 20 modo fundamental de organizar a vida transnacional contemporânea, mais uma dimensão de uma vida social veramente global (Crang e Franklin, 2001: 7). Com centralidade conquistada, o turismo apresenta-se, na sua explicação mais ortodoxa (ou comum), como uma atividade humana de elevado vulto económico, por conseguinte tornando-se num alvo preferencial do poder político dos Estados-Nação dos quatros cantos do globo. O interesse público por ele cresceu, e não faltam medidas de fomento à sua atividade e indústria, sejam elas políticas, económicas ou culturais. Neste status quo, o turismo nutre o interesse sociológico, ao delinear uma realidade tão específica quão movediça nas sociedades de organização humana - à qual a sociedade portuguesa não é exceção, apesar da semiperiferia europeia (Estanque, 2009: 311; 315). Os problemas impostos são, assim, de variada ordem, esquivando-se à tendência de “fetichizar” o turismo como um conjunto estanque de coisas económicas (Crang e Franklin, 2001: 6), como aliás abordamos sumariamente na introdução. A marginalidade de antanho e a centralidade atual dão-nos o mote necessário para empreender um breve périplo de ida e volta aos anais do turismo. Conforme referido supra, o turismo corre a par e passo com os processos capitalistas resultantes da modernidade, numa estreita relação que vai mudando à medida que o capitalismo atravessa as suas etapas históricas, quais companheiros de viagem. Igualmente inseridos na intitulada modernidade estão, e com distinta clareza, outros processos significativos para o desenvolvimento do turismo, destacando-se dentre destes a urbanização e a emergência de uma nova estrutura de classes (Gagliardi, 2009: 245-6). Com efeito, o turismo desenvolveu-se por trâmites deveras atreitos à estrutura classista procedente da modernidade, ainda que lastrada pela inclusão da nobreza. Queremos com isto dizer que a sua evolução passou justamente pela relação específica que cada uma das suas configurações históricas teve com certa classe social, em dinâmica de top-down, do topo da hierarquia social aos patamares mais inferiores: nos inícios, com a aristocracia; a meio, com a burguesia; no fim (passe a expressão) com as classes ditas populares ou proletárias, as massas. O prólogo do turismo enquanto turismo propriamente dito situa-se, a bem da verdade, na aristocracia, a inglesa à cabeça e a europeia a posteriori (Gagliardi, 2009: 246-8). As próprias raízes terminológicas do termo “turismo” (tourism em inglês) residem no léxico anglófono, nomeadamente no britânico, pela mão da aristocracia inglesa nos séculos XVII e XVIII. Neste lapso temporal, e no seu afã de distinguir-se de tudo o resto, ela instituiu a prática do “grand tour” (2009: 246) aos e pelos seus constituintes, uma viagem além-fronteiras, com escala em França e estadia impreterível em Itália, entre outras paragens consideradas ilustres. A par das evidentes estratégias de distinção social para com outros agrupamentos sociais, esta tipologia de viagem funcionava como programa educativo: inspirada pelas leituras dos clássicos helénicos, a aristocracia fomentava a luz intelectual e a cultura dita superior, assim incluindo na formação do imberbe aristocrata uma espécie de viagem escolar, um 21 “circuito pedagógico” 8 (2009: 247) que tinha como desígnio-mor nutrir um conhecimento universal e sensível ao teatro da História - no qual Itália, por exemplo, sempre tinha sido partícipe como palco privilegiado, fosse pelo Império Romano, fosse pelo Cristianismo. Nas suas origens, e no seu âmago, a figuração turística era deste modo exercida por reduzidos estratos populacionais da sociedade da vetusta Europa. A viagens tantas, e à medida que esta prática espraiava-se pela realeza europeia, o conceito de lazer imiscui-se nas dinâmicas do “pré-turismo” (leia-se grand tour), ampliando o roteiro da viagem no sentido de passar a incluir a distração e o ócio (a par dos motivos supramencionados) nas suas linhas-mestras – dessa sorte abrindo alas a um turismo mais próximo (porém, ainda distante) dos sentidos atuais, protagonizado pela classe burguesa. Aqui finalmente a História cruza-se com a modernidade, aos seus processos e condições: a Revolução Industrial (ligada ao capitalismo industrial) e a divisão marcadamente classista da sociedade (em inspiração marxista), encimada pela burguesia e contrapesada pelo proletariado. Uma panóplia de fatores entra em jogo para que tal se suceda, tais como a produção industrial de bens e o enriquecimento da burguesia que detinha os meios de produção (2009: 248-9); e, maxime, os inimagináveis progressos da tecnologia dos transportes e meios de deslocação espacial (Lash e Urry, 1998). É assim fundada, no século XIX, uma novel viagem de distração e de lazer, previamente popularizada pela aristocracia, que atua como sorvedouro do tempo e do dinheiro que a condição burguesa começava a ostentar e a acumular (Veblen apud Gagliardi, 2009: 248). Neste ponto do percurso pelo turismo, efetiva-se a outra transição anteriormente referida: da aristocracia para a burguesia, prosseguimos para a abertura da viagem às classes ditas populares nos primeiros fôlegos do século XX, no fundo, a grandes falanges da população. No seguimento do capitalismo industrial desponta um outro tipo de capitalismo, mais organizado – entremeando com o turismo, este nasce verdadeiramente quando é apropriado por aquele. As malhas da viagem, agora recosidas em roupagem de turismo, predispõem-se a “vestir” todos aqueles com tempo e dinheiro e, através dessa condição, capacidade de mobilidade e consumo. Não obstante, a diferença definitiva para com a especificidade prévia cinge-se na edificação de uma diversidade de direitos, como os que consagram a relação salarial, as férias, o prazer e o lazer, em essência alargando (e unindo) a própria gama de possibilidades do turismo às capacidades de uma fatia cada vez maior de indivíduos disponíveis para viajar (Gagliardi, 2009: 250-1). Carlos Fortuna replica este argumento, falando de um capitalismo organizado em torno do turismo, ancorado pelo contínuo aprofundamento das tecnologias de transporte que permite a viagem coletiva (ou em massa) e democratiza a deslocação espacial inerente à atividade, ao mesmo tempo cerceando-lhe algum do elitismo herdado (1999a: 48-51). Deste 8 Apesar de realizado muito depois desta época, o trabalho de Pierre Bourdieu sobre a estratificação social firmada no gosto da cultura francesa é relevante neste contexto (2010): o capital cultural da aristocracia inglesa atribuía uma matiz de excelência à nova prática do grand tour. Para lá da fruição estética de contemplar outros lugares, o aristocrata ainda jovem entregava-se a uma experiência educativa apadrinhada pelo seu estrato social, capaz de lhe moldar uma disposição e posição sociais determinadas, a um outro nível separando-o [distinguindo-o] de quem não viajava [de outros estratos sociais]. 22 status quo nasce o turismo per se, uma atividade capitalista de fulgor próprio que as massas passam a interiorizar como direito individual dos seus constituintes, por um lado, e como um direito coletivo de cidadania, por outro (Urry, 1995) - a “organização social do lazer”, estruturada pelos direitos supracitados, uma cidadania enquanto direito de consumir (Fortuna, 1999a: 49). A centralidade do turismo na sociedade europeia – e, por osmose, noutras em semelhantes condições de ocidentalidade – ganha forma. 1.1.2. O contexto nascente do turismo em Portugal – recortes do século XIX Na perspetiva de cartografar Portugal no mapa-múndi do então-novo fenómeno da viagem turística, é-nos imprescindível uma referência a Licínio Cunha (2010), estudioso do turismo português. Este autor é célere a identificar os mesmos propósitos da viagem que enunciamos acima, quiçá revestindo de maior preponderância o sentimento de prazer nessa mesma prática 9 . Não descurando a época dos Descobrimentos, espaço-tempo que teve Portugal como um dos grandes empreendedores da novidade, não podemos estritamente subsumir esse período à prática da viagem-turismo ao não existir ainda enquanto conceito, facilitando, desde logo, a identificação da primeira práxis turística dos portugueses. Nesse sentido, é a partir somente da segunda divisória do século XIX que o cidadão português se consciencializa de tal ordem de eventos, à laia do que transparecia no resto da Europa a ritmo galopante da Revolução Industrial: mudanças económicas, sociais, tecnológicas, laborais, tempo definido de trabalho (e de não-trabalho), férias, enfim, o descanso que o lazer poderia acalentar, alargando a exclusivista viagem turística a outros estratos sociais (Cunha, 2010: 128-9). É neste período semissecular que a práxis turística nacional, denominada “consciência turística” por Cunha (2010: 129), é inaugurada e seguidamente consolidada, muito pela arte e engenho do talento literário que brotava nesse Portugal de outrora. Nesse entrementes, alguns escritores nacionais começaram a fazer escola no género literário dos livros de viagens, ansiosos de replicar ficcionalmente no papel as experiências viajantes que tinham vivido. Cunha elenca alguns (2010: 12930): Eça de Queirós, um cosmopolita já de si, que viaja, em diferentes alturas, para países como Cuba, Inglaterra e França, inclusive instalando-se neles devido ao seu cargo de cônsul; Ramalho Ortigão, “infatigável viajante (…) que percorre longamente o país” (Cunha, 2010: 129); e Almeida Garrett, que comungava da opinião de que as viagens enriqueciam o processo formativo e educativo do homem. O registo em papel desta corte de ilustres é outrossim elucidativo: Eça, com a obra a título póstumo “O Egito”, relatando a jornada que fez até ao país das pirâmides aquando da inauguração do Canal de Suez, ou a bem mais conhecida, “A Relíquia”, que acompanha a viagem de Teodorico Raposo ao mesmo Egito e à Palestina; Ortigão, com obras que desvelam França (“Em Paris”), Inglaterra (“John 9 “É (…) a partir dos finais do século XVI que surgem os novos viajantes que percorrem a Europa por instrução, conhecimento, prazer ou simples curiosidade. Os europeus estão ávidos de saber: à descoberta de novos mundos sucede-se a descoberta do céu; à exploração do espírito sucede-se a do corpo.” (Cunha, 2010: 128). 23 Bull”) e Holanda (“A Holanda”); e Garrett, pelas “Viagens da Minha Terra”, embora num registo mais lusitano e aquém-fronteiras de viagem. Todos estes escritores discorrem sobre a configuração do turismo que antes era simplesmente viagem, desenhando um retrato de uma certa população burguesa da sociedade portuguesa que procurava clareza intelectual e corporal, sensitiva e espiritual, acompanhada pelo tempo e dinheiro de que dispunha com fartura. 1.1.3. O olhar do turista, entre a viagem e o turismo É partir da viagem, e daqueles vários escritores da literatura portuguesa do séc. XIX, que podemos expor o turismo a uma análise teórica mais fina: em especial, a partir das derivações individuais que correspondem largamente a um e outro tipo de deslocação espacial pelo mundo, o viajante e o turista. Mais uma vez, sem ceder a uma realidade dualista, e estanque, que interpõe o lado positivo com o lado negativo, duas faces na mesma moeda, mas antes predispondo um confronto entre esses dois aventureiros que se deseja profícuo, e revelador de regularidades e descontinuidades que nos interessam. Pelo papel pioneiro que deteve na teorização do turismo, Daniel Boorstin (1992) afigura-se uma referência importante em trabalhos deste caráter, apesar da simplicidade algo cruel e antiturista da sua tese (Urry, 2002: 7). Partícula de uma sociedade norte-americana do pós-Segunda Guerra Mundial, inebriada por um excesso de ilusões e imagens que “desrealiza” a realidade, o turismo constitui-se como um “pseudo-acontecimento”: um produto a ser consumido, estancado da realidade, logo inventado para o prazer do turista (Boorstin, 1992). A caricatura turística deste modelo (com certas homologias com o chamado turismo de massas) apresenta-se na forma de um turismo de quarentena, em que a população local é isolada dos turistas, tornada objeto de visualização, construíndo-se à volta dessa relação amorfa para lhe apresentar um pseudo-acontecimento: uma ilusão de população e de vida local, um artifício para ludibriar o olhar superficial e desinteressado de quem de fora visitava, no limite uma atração turística que, ao invés de aproximar, afastava ainda mais o encontro entre duas culturas diferentes (Boorstin, 1992). Nesta leitura, o turista é colocado numa redoma de vidro, totalmente dependente e consumidor do que se lhe apresenta, passivo e quase esfíngico, protegido do “mundo estranho” 10 . Boorstin é conhecido em particular pela sua faceta de historiador da vida norte-americana, e pela sua preocupação com os efeitos e significados dos avanços tecnológicos no nosso mundo (apud AAVV, 2004: 97). O seu conceito de pseudo-acontecimento é a metáfora da vida norte-americana que escalpelizou uma sociedade que a dado passo do século XX começou a autoperspetivar-se pela ilusão, 10 Diga-se que este “turista” de que Boorstin nos fala é bastante próximo do “homem uni-dimensional” que Herbert Marcuse, em tempos, conceptualizou como o indivíduo da sociedade industrial avançada, calcorreando apenas um mapa de comportamento, o do consumo de falsas necessidades (atrações turísticas?), de maneira acrítica, sem percalços de caminho, e sujeito ao controlo silencioso dos modos capitalistas de produção e consumo de bens e serviços (1968). Ou até, com Garfinkel, da lógica do cultural dope, de indivíduos que se limitam a seguir as diretivas padronizadas pelo modelo cultural das suas sociedades (2006). 24 fomentada pela publicidade e pelos media em geral – uma realidade que se desviava gradualmente de si própria, rumo ao espetáculo e à deceção (AAVV, 2004: 98). Lado-a-lado aos exemplos mais fraturantes que Boorstin enunciou, como o de fazer notícias em vez de reuni-las junto da realidade, o turista surge como substituto fatal do viajante, e a imagem como a destruição do ideal (AAVV, 2004: 98). Deste modo, diríamos nós e prosseguindo a opinião deste autor, o turista ascende ao lugar do viajante, e a imagem turística, com tudo o que isso significará, delapida o ideal da viagem. Mas a que ideal de viagem Boorstin se refere? Que viagem? Como escrevemos em ponto prévio, consideramos que essa viagem inicia-se no século XVII, na velha Albion: conjura-se na aristocracia inglesa e na prática do grand tour, realizada por poucas pessoas, se e quando comparadas com os padrões da viagem turística de 2015 e, até, do século XX. Aqui forma-se o protótipo de viajante, o herdeiro da viagem: os aristocratas primeiro, um pouco por toda a Europa, seguidos paulatinamente de alguns estratos da burguesia, à medida que iam enriquecendo em capital económico e status. A divisão entre viagem e turismo far-se-á pelos fluxos diferenciais de indivíduos que cada uma agiliza, e pelo “ideais” que lhes subjazem (Urry, 2002: 4-5): na primeira, movimentando poucas pessoas, de origens socialmente muito precisas, as classes altas; a segunda, deslocando um número crescente de pessoas, provindos dos quadrantes mais diversos da hierarquia classista. À primeira associamos um conjunto de motivações intelectuais, educativas, de lazer ainda não consumista; à segunda, é o ideal de “tirar umas férias” (consumir) que norteia a decisão da pessoa em viajar (Urry, 2002). Se, como vimos acima, o turismo implica uma boa dose de manipulação do real, a viagem estaria nos seus antípodas: seria, portanto, real, ou consentânea com a realidade que pensamos estar a ver, numa palavra, autêntica. A autenticidade duma viagem, estamos em crer, não se conjuga somente com o que percecionamos como real ou “não-real” na paleta visual do mundo: se atentarmos nalguma literatura de viagens, associa-se a uma deslocação mais solitária e introspetiva, em contraponto à modalidade coletiva e expansiva do turismo (mesmo se realizada a sós, pois o consumo está e é tácito). Em Bruce Chatwin (2008) encontramos essa literatura de viagens, um autor no qual a viagem e a escrita misturam-se. A própria vida mistura-se com a viagem, o desejo de ser escritor, e de escrever sobre ela. Para tomar emprestado um conceito sociológico, a “life career” de Chatwin foi sempre marcada pela viagem, tanto pela sua omissão, como pela sua concretização. A teoria também passou pelos seus dedos de escritor da viagem (e não de viagens, no sentido turístico). No ensaio “O Mundo é nómada nómada”(2008: 130-8), ele disserta sobre a viagem enquanto derivação da errância humana, demonstrando um profundo respeito e elogio pelo movimento e nomadismo humano ao longo da História. Para ele, viajar tinha de ser uma aventura, ativando a adrenalina dos seres humanos (“a adrenalina é o nosso subsídio de viagem”), ao fazê-los caminhar, nadar; era descobrir obstáculos da vida na própria viagem, confrontos que “mantêm a adrenalina a circular” (2008: 133). Para algumas tribos nómadas da Ásia, a viagem-migração seria inevitável, adquirindo caráter ritualístico que sacudia 25 necessidades espirituais da vida (2008: 135). Mesmo que reconheçamos que este ensaio de Chatwin é sobretudo sobre o movimento humano – tanto da viagem como da migração e da peregrinação – o seu valor heurístico para a discussão do binómio viagem-turismo é manifestado na característica da exploração, sublinhando que é pela exploração que as crianças, por exemplo, apreendem o mundo envolvente: os atalhos, os carreiros, a casa onde nascem, o caminho para escola, o espaço como “matéria-prima da inteligência” que eles vão tateando, descobrindo (2008: 131). Pensamos, como ele, que o ideal de viagem (ao qual Boorstin (1992) aludia na sua crítica do turismo) tem muito da sua explicação na exploração. Para lá da viagem introspetiva, talvez solista, real e autêntica, a viagem é viagem porque se vai fazendo no caminho. Ou como Michel de Certeau (1980) diria, por “atos de fala pedestres” – mas moldados à viagem –,o espaço caminhado como uma linguagem que se vai enunciando. O turismo, na deslocação massificada de pessoas para lugares distantes, neutraliza esse caminho, até pela rapidez; quantos de nós não apanhamos o comboio, vamos de carro, maxime apanhamos o avião – e voltamos da mesma forma? Ao fazê-lo, consumimos, e consumimos o espaço que nos separa de um lado ao outro. John Urry (2002) tem para estes dois tipos de deslocação humana dois olhares: o “romântico”, correspondente ao ideal de viagem, mais privativa para o seu intérprete, dispondo de vagar para estabelecer uma relação real (mas subjetiva) com o objeto que visita; e o “coletivo”, onde a viagem torna-se turismo, e o turista torna-se parte do própria atmosfera turística, com a sombra da data de regresso a casa sempre presente (como a data do bilhete de avião). É aqui que Boorstin assinala a sua crítica (1992): ao serem criados pseudo-acontecimentos para servir o turismo, ele-próprio torna-se um pseudo-acontecimento de consumo; turistas destinados a consumir o que de falseado lhes apresentam, não querendo mais do que isso; sem exploração possível porque amputado nos movimentos físicos. Por onde andará a adrenalina? A invenção e superficialidade do real turístico, apontadas por Boorstin, são, mais tarde, criticadas por um segundo téorico relevante do turismo: Dean MacCannell, com o seu escrito “The Tourist” (1999). Este autor afirma que o turista é movido mormente pela busca de autenticidade, essa matéria que estimula a mente, o conhecimento e a cultura de quem a absorve, numa sociedade presa aos grilhões da artificialidade (1999). Se neste autor e em Boorstin o ardil turístico encontra lugar na sociedade, é no pensamento do turista que detetamos o contraste maior entre ambos: ele já não seria tão fleumático em relação ao que visita, mas antes seria movido por um genuíno interesse pela autenticidade desse lugar visitado, as suas pessoas e relações, tal qual um peregrino dos tempos modernos, disposto a descobrir e a explorar algo mais, algo diferente, talvez sagrado (MacCannell, 1999). O estranho, no entanto, continua a ser um estranho para o nativo 11 . À possibilidade daquele não querer mostrar-se como realmente é, nos seus afazeres quotidianos, ao turista, une-se a 11 A categoria sociológica do “estranho”, tal como enunciada por Georg Simmel no ensaio do mesmo nome, oferece uma interpretação desta situação de interação social (Wolff, 1950: 402-8). O “estranho” é o turista, aquele que “chega hoje e fica 32 do turismo urbano, portanto, em que se enfatiza a estadia num só lugar durante a totalidade da viagem, antes do regresso (2010: 409) 17 . O city break obtém a sua especificidade através de cinco características substanciais: a duração, a distância, a sua natureza discricionária, a flexibilidade da data e a composição do grupo de turistas (2010: 412). A duração de um city break tem a tendência de se fixar nas três noites ou menos de estadia, embora a expansão da mesma seja um facto incerto mas possível (2010: 412). A distância geralmente subsome-se à proximidade do mercado emissor, ligado a uma certa ideia de viagem curta para estadia curta, reforçada pela emergência de passagens aéreas baratas (quanto mais perto, mais baratas são) (2010: 412-3). Uma viagem deixada à discrição do turista é exatamente isso: é a vontade do turista de viajar a qualquer altura do ano que o impele a optar pelo city break, visto como um período adicional de férias que se conjuga com as férias tradicionais do verão, dependente, por exemplo, de oportunidades e descontos de viagem que surgem na internet (2010: 413-4). A flexibilidade da data da viagem interliga-se justamente com a sua indefinição, visto que a decisão esporádica de viajar a uma cidade pouco tem de relação com as estações do ano: por vezes, é mesmo a realização de um evento na cidade que suscita o interesse de a visitar, tornando o city break uma modalidade de viagem anualmente perene (2010: 414). Por fim, a composição do grupo desta viagem denota a persistência da viagem a dois: marido com esposa, e namorado e namorada. Mais irregulares são os grupos de amigos, seguidos da família, e especialmente, da famíla com crianças (2010: 414-5). Com Lipovetsky, analisamos o city break como uma nova prática de consumo turístico, dentro do contexto maior das crescentes despesas individuais com o lazer (2010: 87). Nesta mundividência, as férias tornam-se ininterruptas, logo, o turismo – não que estejamos sempre em férias, mas que possamos imaginar-nos em férias a qualquer altura do ano (2010: 92); e o turismo conforma-se, adaptando as suas tarifas e preços aos modos diferenciados de o viver (2010: 63-4). Pelas veredas do consumo inclinamo-nos a aprofundar o city break como um fenómeno contemporâneo do turismo que contribui para rejuvenescer certas cidades da Europa, numa dinâmica turística europeia que desacelarava a olhos vistos (Dunne et al., 2010: 409-10). A perceção da cidade enquanto destino próprio (por oposição a mero lugar de trânsito), as viagens low cost de avião, a internet, e a vontade de viajar “apenas por uns dias” despoletaram o atual magnetismo desta viagem pelo urbano, aliás desenhando novas territorialidades citadinas no mapa europeu de viagens (2010: 410). Isto pretende significar que cidades mais “anónimas”, passe a expressão, entram nesse mapa, ombreando com cidades plenamente estabelecidas no mercado turístico, como Barcelona ou Roma. Incluiríamos o Porto nesse elenco aparentemente debutante. Miguel Torga, no seu sentido compêndio do lés a lés a Portugal publicado em 1950, escreve um capítulo sobre a cidade (2015). Viajante inveterado do território português, e ainda mais zeloso de compreendê-lo, ele dedica uma profundo tributo ao burgo portuense: por exemplo, ao seu “cartaz gustativo”, cuja ligação à cidade lhe 17 Pela natureza efémera de tal deslocação, esta leitura parece-nos contingente, dado que a possibilidade de unir um período curto passado num lugar a outro período curto noutro lugar antes do regresso a casa é verosímil. 33 impregna de autenticidade (2015: 40); mas sobretudo, às suas gentes trabalhadoras e honestas, de dignas e velhas virtudes que acabam por suster Portugal pela sua solidez e liberdade (2015: 43). O Porto, “espraiado na sua encosta, firme, amplo, de boas cores camoesas” (2015: 39). Ele próprio um turista de visitas telegráficas a estas margens (2015: 37), a sua interpretação desaguava no Porto como raiz de Portugal (2015: 45), traduzindo, entre outros méritos, uma cidade que era mais portuguesa que Lisboa, esta mundializada pela epopeia marítima de antigamente (2015: 43-4). A conclusão de Torga era sincera: não achava que o Porto estava “fadado para cavalarias cosmopolitas”, devendo ser a “segunda cidade do Portugal Europeu e a primeira do Portugal Peninsular” (2015: 49). Não uma cruz sobre ela, valorizando-lhe antes a pacatez e a casticidade, mas deixando para o ancoradouro de Lisboa “a pressa que percorre o mundo” (2015: 49). À roda das palavras de Torga - que preferimos citar em vez de tergiversar pois que nunca lhes conseguíriamos equiparar – surge-nos um Porto autêntico, talvez de limites mais curtos, mas com a lembrança de que “espanejado do pó do tempo” lograria competir “com qualquer terra que se lhe queira medir” (2015: 50). Havia uma faísca no Porto de Torga face ao futuro: e constata-se que a cidade mudou, hoje em dia não se imaginando sem o turismo ao lado, esse “equídeo” cosmopolita. Após a crise internacional de 2009, Portugal conhece um surto proveitoso de turismo – segundo o estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos – , e a dinâmica do Norte português, onde se inclui incisivo o Porto, é feita ao lado da região lisboeta, ambos sendo os que mais cresceram no país em termos de receção de estrangeiros desde aquele ano (2015: 114-5). A pressa que percorre o mundo apressa-se rumo ao Porto turístico. Dentro das limitadas capacidades destas linhas, não podemos analisar com todo o rigor a historicidade da cidade portuense e da sua inusitada vocação turística, apenas nos remetendo a menções 18 e breves resenhas. Se nos atendermos à história recente do Portugal democrata e, em segunda fase, europeu, podemos precisar uma viragem na administração local a nível cultural em finais do anos 1980: a partir daqui, e segundo Augusto Santos Silva, os pelouros municipais da cultura vão se autonomizando face a políticas nacionais do mesmo âmbito, ligados a crescentes estruturas técnicas associadas e ao reforço de uma identidade cultural local (2007: 15-6; 28). No caso portuense, é o pelouro da Animação, integrando cultura e turismo, (dos mandatos socialistas) que traduz esta tendência, de 1989 a 2001 (Silva, 2007: 18): neste lapso temporal, o Porto serve de “laboratório” bem sucedido na sua intervenção política, desenhando na cidade uma face vincadamente cultural; e, no turístico, precipitando-a além-portas, pela mão de grandes eventos (como a Capital Europeia da Cultura), pela valorização conjugada do património local com redes internacionais de cultura (Património Mundial da UNESCO), em essência virando-a para fora ao readaptar simbolicamente recursos locais, em jeito de marketing urbano (2007: 18-9; 26-7). 18 Esse rigor, por exemplo, está patente em toda uma vida dedicada à historiografia do Porto como a de Germano Silva (2011). Apenas queremos deixar constante, pela sua referência, que o Porto também soube ser “europeu” ao lado de Lisboa: nos idos do século XVI, e pela sua têmpera comercial, surtiram inúmeros contactos com o resto do continente, bem como se propagaram na sua vida social ecos da cultura do Renascimento, então pululando por toda a Europa (2011: 229). 34 A partir de 2001, e com nova configuração político-camarária no Porto (social-democrata), a atenção e esforço dedicados à cultura são estancados (Silva, 2007: 20-2); mas se outras áreas da “animação e cultura” sofreram bastante com a mudança de visão política, o turismo na cidade prosseguiu incólume. Veja-se - a título de exemplo e como nos refere Natália Azevedo - a dinâmica de marketing municipal digital que se gerou nos concelhos da Área Metropolitana do Porto (AMP) ao longo da primeira década do século XXI, com a criação de websites apostados na promoção do turismo e da cultura da região (2007: 251-4). Mesmo, a dado tempo, desatualizados e com raro conteúdo traduzido para outras línguas, eles representam um primeiro esforço de “estarem online”, destinando-se a divulgar informações de âmbito histórico, patrimonial, cultural e, claro, turístico (2007: 255-9), alertas, diríamos nós, à “pressa do mundo” que começava a evidenciar-se na realidade da internet e, em particular, na procura de informações e destinos turísticos nesse contexto virtual. O discurso dos responsáveis políticos da AMP sobre o turismo, no mesmo espaço-tempo, é revelador: para lá das conceções (e práticas, e políticas) tradicionais do turismo balnear do passado, surge um enfoque dominante nas “novas formas de turismo” que o distrito do Porto pode desenvolver para se promover no mercado global, como o de cariz urbano, cultural, e de negócios (2007: 291). Ao mesmo tempo que enriquece o tecido económico e social local, estes tipos de turismo, vistos como de curta permanência, ajudariam a combater a vivência turística do clima relativamente bravio do Porto no verão, época par excellence das férias (2007: 297-301): são assim (e têm sido) alvo de investimento autárquico e concelhio, potenciados em forma de segmentação do produto turístico para grupos diferenciados de turistas (2007: 332-3). A inversão da teoria e prática sobre o turismo (e a cultura) na AMP é patente desde 1989, como dissemos: face ao vácuo cultural e turístico dos anos 1980 do Porto, centralizador da região distrital, e até nortenha, nestes contextos (2007: 352; 480), a cidade e as suas periferias souberam redefinir-se global e turisticamente pela vertente local das suas virtualidades. O turismo corre hoje diversa e renovadamente pelo Porto, configurando-lhe um perfil bastante premente de city break, de estadias curtas voltadas para o turismo cultural e de negócios (2007: 497-8). “Espanejado”, como diria Torga, e agora – no século XXI – aprofundado em construção turística, o Porto consegue distender-se nesse domínio globalizante. 1.2. Sobre a cidade 1.2.1. As cidades dentro da cidade A um só tempo e frase, Carlos Fortuna sumariza um dos traços mais consensuais quando se fala de cidade hoje em dia, quer através do senso comum, quer pelo crivo científico, a pluralidade: “(…) a metrópole revela-se na pluralidade dos seus significados, polissémica, entrecruzada, sobreposta, transgressora, estonteante, irrepetível e sem fronteiras” (2001: 23). A cidade, na especificidade moderna que todos identificamos por ainda se insinuar nas vivências urbanas da 35 sociedade atual, deixou de ser falada no registo unívoco e unicolor do passado, moldada pelas mãos teóricas de uma sociologia urbana positivista que a coisificava (2001: 3). Ela, a cidade moderna, descamou a homogénea pele “burguesa” que a envolvia e definia, uma camada traduzida em oposições – agora datadas – que a separavam do rural e do campo, das suas formas de trabalho e duma suposta vida rudimentar, que estaria nos antípodas da sofisticação citadina da burguesia industrial (Marx e Engels, 2001: 71). Claro que ainda continuam a vigorar “oposições” (nem que seja a parte “rica” da cidade versus a parte “pobre”) mas, hoje, basta pensar no manancial de figurações sociais que flui, quase caoticamente, pelo ethos citadino para formar-se a opinião, senão constatação factual, de que a cidade é sobremaneira heterogénea: dos comportamentos e práticas sociais às culturas e estilos de vida, passando pelos espaços-tempo (re)construídos simbólica e socialmente ao sabor das intenções individuais e coletivas (Lefebvre, 1991). A cidade fragmentou-se, distanciou-se do pano-de-fundo da industrialização europeia de séculos pretéritos, e nessa implosão formou uma cultura urbana diferente e de tonalidades constantemente diferentes; num só termo, hibridizou-se (Fortuna, 2001: 3-4). A unidade na diversidade, digamos, da cidade atual, é a tónica que tem acompanhado as análises de Carlos Fortuna sobre o elemento urbano (2001); é através dessa “múltipla diversidade”, das diversidades dentro da própria diversidade, que ele arrisca “ler sociologicamente a(s) cidade(s) dos nossos dias” (2001: 5). A proposta poderá parecer romântica e difícil, anunciando incontáveis contextos empíricos necessitados de pesquisa porque visados por novo óculo analítico; porventura, no fundo, será a única maneira de ganhar crescente compreensão sobre um espaço icónico e mitificado ao longo dos tempos, a cidade, ela própria uma entidade, espaço ou fenómeno histórico que cresce e ruma em inesperadas direções. Não pretendemos exaurir o repertório dessas novas coordenadas investigativas neste texto e nesta pesquisa sociológica. É suficiente referir que a rendibilidade máxima dessas coordenadas será somente atingível pela miscigenação (saudável, entenda-se) de discursos e interrogações díspares provenientes de campos disciplinares igualmente distintos, à imagem, mutatis mutandis, do conjunto de “cidades” diferentes que se fazem sentir no interior da mesma cidade. Essa é uma das bandeiras, quiçá a mais importante, que Fortuna empunha nas suas deambulações teóricas pela cidade (2001: 123), sendo o turismo um legítimo exemplo de cruzamento possível. Será de elementar justiça considerar o turismo, neste contexto, como uma das tais cidades dentro da cidade, umas das suas múltiplas facetas e uma das suas cores no respetivo arco-íris: a cidade turística. Nesta linha de pensamento, o turismo seria mais um fenómeno - mais um modo de fazer, usar e consumir a cidade – a revelar o seu próprio recanto no ambiente urbano, vis-à-vis e sobreposto com os restantes e variegados territórios que o perfazem. Nos seus escritos mais recentes, Fortuna e Rogerio Leite (2009) reafirmam o seu compromisso com esta ideia: cada vez mais não podemos sonegar a existência de uma constelação de cidades numa só, tal como não devemos excluir qualquer cidade, seja ela qual for, desta hipótese. Deste modo, qualquer cidade do hemisfério Norte ou Sul, quer seja rica ou pobre, histórica ou “menos” histórica, democrática ou totalitária, turística ou menos 36 turística, terá uma gama de possibilidades, inscrita nas suas particulares idiossincrasias, obrigatoriamente vasta, dependendo da força de cada uma da suas pulsões – o turismo, o trabalho, a cultura, a habitação, entre inúmeras outras – a expressão que consigamos enxergar delas (2009: 7). Se as cidades hoje mudam em dinâmicas mais vertiginosas do que no passado, é igualmente plausível sugerir que as suas cidades avançam tanto a compasso como a descompasso umas das outras: a título de exemplo, imaginemos os efeitos, tantas vezes contestados, do turismo nas cidades sobre as quais a respetiva indústria se debruça com mais zelo, implicando nos seus territórios culturais, residenciais ou ambientais. É nessas eurritmias e arritmias, constantes e conflituantes, que devemos focalizar os nossos esforços analíticos atuais e futuros da cidade, cientes da sua revigorada complexidade. Dessa sorte, a dificuldade de estudá-las atualiza-se, invocando ecos de renovação dos critérios teórico-metodológicos e conceptuais que principiam a análise do urbano. Para uma tradução da cidade contemporânea (que se quer original ou desassombrada), novas ruturas, novas linguagens, novos vocabulários; esta é a sugestão de Fortuna e Leite (2009: 7-8). As nossas meditações são decisivamente inspiradas à luz destes contributos. Temos, porém, outro ponto de partida para esta discussão, intimamente imbricado no anterior e, em específico, na necessidade de lavrar novos tratamentos dos fenómenos em questão, a cidade e o turismo. Ele é inspirado, em parte, por Raymond Williams 19 (1985). Ao adentrarmos pelos conceitos de “cidade” e “turismo” revemo-nos na posição de Williams quando confrontado com o termo “cultura”, logo após a Segunda Guerra Mundial: nesse tempo (bem como hoje, diga-se), perscrutar as novas formações do termo “cultura” era tentar compreender os problemas do mundo de então, algo que o autor via como problemas do seu mundo “imediato”, ele próprio um académico e estudioso da cultura (1985: 12-3). Hoje, nós vislumbramos um “turismo” fulgurante na “cidade” do Porto; logo - porque familiar, próximo e presente - um “problema imediato”, cuja compreensão será facilitada, ou ajudada, por uma sondagem aos vocábulos correspondentes. A inquietação pelo termos e conceitos da nossa pesquisa (ou “palavras-chave”, na terminologia de Williams) foi-se autojustificando ao longo dos parágrafos precedentes: ao respeitar o apelo de Fortuna e Leite das cidades dentro da cidade e da criação de linguagens inovadoras para tratar por tu aquelas (re)configurações; e ao questionar os instrumentos conceptuais de interpretação e representação dos objetos de estudo. Não obstante, ela é adensada ao suspeitarmos de que palavras como “cidade” e “turismo” incluem-se naquele rol de termos que não se deve ir consultar aos dicionários convencionais de uma qualquer língua: ação que, pelas ideias e valores que estão por detrás de tais palavras, seria impraticável e quase irrelevante. São dois termos, no nosso entendimento, que emanam uma confiança difícil de questionar na sua utilização comum dentro de um grupo ou de uma época, aliás possuindo uma “continuidade nominal”, distendida ao longo do tempo, que não raras 19 Que, por seu turno, foi por nós encontrado pela sugestão de um recente seminário que viajou pelo país em 2011 sobre o universo operário em Portugal (cf. “De pé sobre a terra: estudos sobre a indústria, o trabalho e o movimento operário em Portugal” (Monteiro e Pereira, 2013)). 37 vezes oculta as drásticas variações e transformações dos seus significados por detrás de um significado geral (Williams, 1985: 16-7). É por estas razões que nos pusemos de atalaia face ao universo de significados que a cidade e o turismo contêm. Tentamos, assim, estar avisados quanto às armadilhas e alçapões que aqueles universos poderiam destapar no nosso pensamento, conscientes das continuidades e descontinuidades das suas estruturas internas, das suas relações de passado com presente, das mudanças e dos conflitos que se sucederam e ainda ocorrem (1985: 23). Um desígnio não tanto para resolver as disputas que se mantêm nas realidades que eles – os universos – transmitem (seria utópico presumir resolver os problemas de um fenómeno, como a cidade ou o turismo, apenas e só por clarificarmos o seu labirinto de significados, como diz Williams) como para acrescentar um grão extra de consciência num domínio – o dos significados – onde várias das suas mais importantes elaborações foram moldadas pelas classes dominantes de turno (1985: 24). Será essa consciência, portanto, a trasladar-se para a exploração, para o uso de um conceito, e que Williams especialmente enfatiza. Devemos “usar” os conceitos, os termos e a linguagem, assumindo o que significam, mas tendo em vista o nosso próprio caminho, investigação, contexto e história, mudando o vocabulário usado conforme as circunstâncias que se nos deparam; em essência, não dever respeito inamovível e intransigente aos conceitos em liça (1985: 24-5). Por esta ordem de razões, o “nosso” caminho é a nossa pesquisa, e o propósito usar - não de instrumentalizar mas de movimentar – o turismo para pavimentar mais uma rua da topografia da cidade, rasgar uma avenida simbólica; isto é, adicionar mais uma camada de conhecimento à cultura urbana através da cidade turística e, em paralelo, revestir o turismo da capacidade insuspeita, mas cada vez mais premente, de criar uma cidade específica dentro da cidade, de permeio com as restantes. Do desfecho dessa missão esperamos obter uma outra leitura da cidade dos tempos correntes, um léxico capaz de fazer jus à sua galopante complexidade. 1.2.2. O espaço da cidade, e os usos que o fazem Sondámos numa narrativa prévia, quase por automatismo teórico, o advento e constituição duma cisão espacial nas comunidades humanas: de um lado da fenda, o campo, e do outro, a cidade. Ainda no mesmo gesto, afastamos essa preocupação, à laia de uma cidade híbrida, tanto no seu bojo como nas relações que mantém hoje com o chamado campo. Não descuramos, contudo, a novidade que esta divisão representou nas tribulações da Sociologia aquando do seu nascimento. Ela instigou o fenómeno da urbanização: a deslocação numerosa de população humana do mundo rural para o mundo urbano, em busca da promessa laboral contida neste último. A isto associamos, claro, a explosão do capitalismo industrial e do seu epicentro na cidade (Ritzer, 2008: 5-7). Como uma tocha que alumia um corredor escuro e labiríntico, o pensamento sociológico nunca deixou de digladiar com o campo e a cidade, daí nutrindo uma 38 controvérsia que perdura e onde se perde - praticamente até às últimas décadas do século XX (Carmo, 2009). O espaço da cidade. Não se julgue, todavia, que a fonte de problemas sociais na cidade começou a jorrar na passagem da sociedade pré-moderna para a moderna, pelos brutais aumentos demográficos no espaço urbano que daí decorreram. Desde tempos imemoriais que as diversas configurações citadinas trouxeram algo de novo e disruptivo em relação que vinha de trás: Diógenes, o filósofo cínico da Grécia Antiga, dizia que os indivíduos se refugiavam na cidade para evitarem a fúria dos que estavam do lado de lá, daí fomentando escaramuças entre si, cercados de muros a toda a volta (Chatwin, 2008: 112). Lewis Mumford será um sociólogo especialmente mordaz da vida urbana, consciente que desde muito cedo teria provocado atrito à condição humana: a ascensão da civilização humana ligada ao progresso tecnológico (1961: 33); a junção desse progresso ao poder humano, pouco direcionado socialmente (1961: 33-4); a estrutura paranoica da cidade muralhada (1961: 39); e a instituição da guerra, necessariamente urbana ao originar na cidade e entre cidades, o cataclismo recorrente da civilização humana (1961: 42-6). Uma idiossincrasia urbana que mergulhava o indivíduo - e a cidade como construção humana, feita e desfeita - numa espiral de ódio e destruição, que o “recrutamento” às terras rurais ia atenuando, essas levas de população que iam rejuvenescendo a(s) cidade(s) com o seu vigor e esperanças 20 : o autor dá alguns exemplos de urbes que ainda se encontram no seu sítio original, vivas hoje, embora desfiguradas em relação a outros passados, como Atenas e Jerusalém (1961: 54). Embora pessimista, o cômputo geral dessa obra magna de Mumford - “The City in History” (1961) - releva que o espaço urbano não deve ser deixado a si próprio, órfão de ação articulada com o espaço de cada um dos seus ocupantes. Nem só de nuvens negras é feito o céu da cidade: não podemos apagar aquelas imagens “negativas” da cidade, mas também não devemos menosprezar o potencial “positivo” que elas encerram ad aeternum. A chamada “cultura urbana” de que fala Carlos Fortuna (1999) nos seus variados escritos é, diríamos nós, uma camada da necessidade social de se fazer cidade, sempre detetada e resgatada pelo indivíduo enquanto coletivo. Na sua sobrevivência enquanto espécie… e não só (Soja, 2003: 276-7). É nesse sentido, e na esteira de Jane Jacobs, segundo a qual sem as cidades seríamos todos mais pobres, que Edward Soja precipita-nos para um espaço urbano jovial e criador de vida, ao invés de extingui-la, ou de vê-la passar nos seus tumultos e absurdos (2003). Influenciado pelo Henri Lefebvre, Soja coloca o espaço no escaparate do seu pensamento sobre a cidade (2003: 272); noutros termos, isto significa que a cidade é conceptualizada a partir das propriedades causais (especialmente positivas) que denota para a vida social dos seres humanos, ao contrário de ser, meramente, o local privilegiado dessa mesma vida, qual cenário teatral (2003: 275). Assim, com Soja, falamos do 20 Os “ares da cidade” (Fortuna, 1999b: 23)? E que melhor exemplo histórico do que as migrações urbanizantes que surtem da Revolução Industrial, do rural à cidade recém-industrializada? 39 conceito de synekism 21 - derivado de palavras gregas mais familiares, como oikos (casa) ou polis, e da filosofia de Aristóteles -, um processo de aglomeração urbana, distinto de banal ajuntamento, ao designar, e ser ele próprio, um poderoso estímulo de sinergias sociais (2003: 274). O synekism compreende tanto a formação da cidade como o seu contínuo desenvolvimento, representando a faísca de inovação social que advém de vivermos juntos em áreas urbanas densas e heterogéneas (2003: 274). Uma (con)vivência social criativa, em vez de desinspiradora; sustentável e poupada socialmente, ao reduzir a fricção da distância geográfica; enfim, o urbano como um ponto-de-contacto entre várias “espacialidades” (ou geografias), das visíveis (reais e materiais) às invisíveis (imaginadas), criando problemas, sim, mas oferecendo incentivos maiores para a realização da vida no urbano (2003: 274-6). Este conceito parece-nos nobre e demonstrativo de uma cidade que não é apenas um espaço de conflito: no seu interior realizam-se várias cidades, quer dizer, espacialidades. A um primeiro nível, isto traz à colação diferentes usos do espaço, formas de usá-lo, de pensá-lo – e imaginá-lo. A um segundo, que a reprodução daquelas representações de caos, confusão e problema urbanos impedia a cidade de escapar para a sua própria realidade, a fim de se realizar tout court. Pelo contrário, quisemos evidenciar a variação interna do seu universo espacial, para, agora, tentar mostrar como esse chão finalmente fecundo pode dar frutos, em especial aqueles de sabor(es) turístico(s). Convém também dizer que o espaço da cidade é hoje o espaço da sociedade. Ferdinand Tönnies (1977) não foi profético, estamos a ver a questão de outra maneira. Hoje podemos analisar as sociedades humanas a partir do urbano sem cometer uma heresia: o urbano transcende a cidade, e “(…) identifica-se com as forças mais dinâmicas, hegemónicas e expansivas das sociedades contemporâneas” (Lopes, 2002: 40). À medida que o tamanho das cidades aumenta pelo território circundante, mais e mais pessoas vêm viver para elas; e a uma população mundial urbanizada justapõem-se autênticas cidades-região, esticando a sua influência à escala global (Soja, 2003: 26970). “Pôr as cidades em primeiro lugar” para pensar a sociedade é uma espécie de credo para Edward Soja (2003), refletindo sobre o trabalho de Henri Lefebvre que, justamente, considerava que o desenvolvimento da sociedade não podia ser desamparado da evolução da vida urbana (Soja, 2003: 272). A muralha de outrora era a margem da cidade. Se certas imagens de espaço, como vimos atrás, se atribuíam à cidade, tal era ajudado pelo facto de se encerrarem no seu microclima social, específico (Lopes, 2002: 36). Quanto mais território é urbanizado, mais difícil se torna distinguir os seus contornos: a cidade espraia-se pelo mundo, tornando-se sinónimo de sociedade, como nos diz Alfredo Mela (1999). As dinâmicas que a caracterizavam não mais se atêm exclusivamente ao seu espaço físico, volvem-se e revolvem-se em fluxos globalizados, simbólicos e digitais, levando uma cidade a outras cidades, os seus locais a outros locais – mais uma consequência da modernidade (Giddens, 2005), ou mesmo uma consequência da globalização. Talvez seja por aí que o turismo assume a sua 21 Optámos por manter a grafia original em inglês, ao não encontrarmos uma tradução ideal, sequer idónea. 40 propensão cada vez mais urbana (Gagliardi, 2009: 245). Porque não arriscar que as fotografias turísticas do Porto que navegam pelo ciberespaço não são “desmaterializações” do seu espaço físico, de uma cidade sem limites? É importante perceber neste contexto que o espaço não se evapora, nem ganha vida própria ao ser desenraizado: ele é sempre significado, e significante, das ações dos agentes sociais (Lopes, 2002: 33). A vida social, mesmo se a enquadrarmos primeiro pelo espaço (urbano), não denega este pressuposto. Recordamos, com Lefebvre, o espaço como produto e produtor da vida social (1991). O espaço, no autor francês, ele surge tripartido, como prática, representação e vivido: o primeiro, balizando a tese do espaço como produzido e produtor em simultâneo; o segundo, aquele que é efetivamente concebido, projetado e desenhado por uma plêiade de arquitetos e urbanistas, entre outros; e o terceiro, aquele em que nós vivemos, sobre o qual agimos e realizamos as nossas ideias e ações, possivelmente a contrario das intenções de quem o concebe em primeira instância (Lefebvre, 1991). No turismo, e em termos “lefebvrianos”, a representação do lugar turístico é, não raro, contraordenado pelo espaço que o turista vive, deseja ou imagina viver: mais uma vez, Certeau guianos pelo quotidiano, pelas formas de resistência que dado indivíduo consegue pôr em marcha contra o que acha injusto ou desadequado no seu espaço, aquele que é vivido (1980). Um turista que não se considere “turista como os outros”, por exemplo, desafiará a homogeneização de um lugar criado “para turistas”, querendo criar um espaço diferente para si (Lopes, 2002: 21). Esta possibilidade de encontrar brechas na armadura social do espaço, por vezes, é cortada ao turista. Do turista passivo e desinteressado de Boorstin (1992), ao olhar “coletivizado” do turismo em que o turista parece criar a própria atmosfera em que participa, teorizado por Urry (2002), temos um indivíduo que parece não (querer) sair do espaço-representação de Lefebvre (1991). A tese de David Chaney (1994), a este respeito, é liminar, defendendo que o turista contemporâneo pouco mais tem com que se preocupar do que ser ajudante do processo de invenção turística dos lugares da cidade, um colaborador precioso, ou conivente, nessa representação primeira do espaço. Noutra linha de interpretação, cremos nós, Michel Foucault (1984) reafirma aquele sentido independente, talvez rebelde ou contrassistema, do turista face ao espaço que tem diante de si. As conhecidas “heterotopias” do espaço, propostas por este autor na década de 1960, refletem uma época em que o espaço detém infanda importância, onde o distante e o lado-a-lado se entrelaçam, numa espécie de retícula de pontos dispersos, mas eminentemente juntos. Nesse contexto, a heterotopia desponta, um contrassítio que passa a existir num sítio que percecionamos como real, mas que está e vem fora dele. O melhor exemplo que Foucault nos facilita – até para relacionar com o turismo – é o do jardim oriental, aquele pequeno retângulo que alberga a totalidade do mundo, isto é, uma flora dos 41 quatro cantos do mundo, com uma fonte no meio a simbolizar o seu umbigo. Em essência, um microcosmos sagrado para quem vivia esse jardim, o mundo num recanto, um contrassítio 22 . Este raciocínio tem para nós um significado em especial. O turismo torna-se heterotopia, um contrassítio, real e irreal ao mesmo tempo, porque o turista consegue, não raro, reinterpretar o espaço que lhe é apresentado por quem o faz em primeira linha: rasga-o ao vivê-lo, transporta em si em imagens suas - o jardim oriental, ou, se quisermos, todo um mundo à escala global - e antecipações do local que irá visitar que não serão coincidentes, já lá, com o vivido, assim revivendo-o, socialmente reproduzindo-o para si 23 . Esses lugares turísticos, reprojectados por “recém-nomeados” arquitetos e urbanistas, deste modo tornam-se ainda mais indecifráveis e ambíguos. É como se estivéssemos a relacionar o turismo “heterotópico” com o mundo-da-vida de cada agente social, neste caso, o do turista e o do nativo: na fenomenologia de Alfred Schütz, descobrimos que cada um nós herda uma realidade social e cultural daqueles que nos precederam no mundo social, amiúde dura e inexorável (apud Ritzer, 2008: 80). O turista arriba, na sua visita turística, a um espaço prenhe de preparação (de tecnocratas que imaginam como um espaço deve ser vivido) e, para além disso, a um mundo-da-vida intersubjectivado com a população local. Como não mostrar-se arisco? Como não o ser? Como Teixeira Lopes nos diz, um espaço “(…) é sempre um produto inacabado, e (…) o agente, ao usá-lo, implica-se nessa construção permanente (2002: 74-5). O espaço turístico - quiçá como outro de distinto âmbito - não pode ser entendido senão como recomeçado a toda e qualquer altura em que um turista o cruza pela primeira vez. Espaço, depois, que fica para ele, um espelho dele próprio, não regressando ao mundo-da-vida do lugar… (2002: 48). Seria elementar presumir dos resorts turísticos (como aqueles à beira-mar, areia à frente e palmeiras ao lado) como espaços pouco heterotópicos, no sentido de exalarem sentidos pouco contraditórios. No nosso trabalho, ao invés, é a cidade histórica e monumental que tratamos em tandem com o turismo, convocando toda uma heterotopia do local, toda um espaço novo vivenciado pelo turista. Uma cidade que poderá parecer de “fantasia”, tal como propugnada por John Hannigan (2000), ilusória, temática, gentrificada, em jogo com o virtual, no turismo longe da cidade dos residentes em redor… mas que desvela um espaço de conflitos - não entendidos pelos tons retintos que esse termo contém - duma cidade que se faz e refaz (Lopes, 2002: 75-6). 1.2.3. A aura da cidade no mundo globalizante No mundo globalizado, os indícios deste aparente facto parecem ser evidentes à vista desarmada: a atual experiência social das nossas vivências é decisivamente influenciada por toda uma corrente de formas globalizantes que aproximam o que está longe, desde a economia à cultura, 22 Foucault (1984) já suscitava o turismo nas entrelinhas destas considerações, ao considerar certos locais destinados a férias (como resorts turísticos) como heterotopias temporais, transitórias ao darem-nos a conhecer um outro local durante pouco tempo e, principalmente por fundirem toda uma cultura local aos olhos de um visitante, como se a história da humanidade (aquela humanidade) fosse acessível por instantâneo. 23 O turista, em si, é um indivíduo justaposto enquanto nesse papel: vem de um espaço, longe, para outro espaço, que se torna próximo. 48 duma cidade nos processos da globalização cultural (1999a: 66), a “chave” de acesso do local ao palco global. A UNESCO, ao habilitar uma cidade com o epíteto referido, admite que um certo local é único e valioso, digno de ser preservado e reconhecido pelo mundo inteiro: eufemismo para ser globalizado, entrando no chamado “mercado da autenticidade” que espalha pelos quatro cantos do globo os seus ares exclusivos, acrescentando-lhe quiçá adornos de valor por ser, finalmente, mais conhecido e procurado (1999a: 66). A esta entrada num grupo egrégio de cidades podemos designar de “sacralização", no esquema teórico avançado por Dean MacCannell (1999). Num processo multifásico, a cidade – através do seu centro histórico, usualmente – é nomeada; depois, é enquadrada e elevada, sendo “canonizada” no clímax dessa elevação, qual santo, qual santuário religioso; e numa derradeira etapa é reproduzida, no mecânico – filmes, fotografia, postais, kitsch – e no social – quando o seu nome é falado, apadrinhado, promovido, especialmente por canais mediáticos e publicitários (MacCannell, 1999). A cidade turística, não só a celebrada pela UNESCO, é assim idealizada, um “lugar-mito”, ao redor do qual os turistas se congregam (Fortuna, 1999a: 57). “Único, valioso, exclusivo, autêntico” – uma série de adjetivos que apraz a grande maioria dos turistas, com o devido apreço pelos perigos das generalizações precipitadas. “Mercado” é igualmente um termo elucidativo: em linguagem consuetudinária, engloba entidades que vendem e outras tais que compram; e, neste contexto – simplificando –, é o turismo que vende e os turistas que compram. O mercado da autenticidade, assim, parece ser um domínio turístico globalizante (apadrinhado por alguns enquadramentos institucionais, como a UNESCO, que a legitimam) em que a autenticidade pode ser “comprada”, isto é, visitada e absorvida como se fosse mesmo a verdade verdadeira. O pleonasmo é justificado, se atendermos às ideias de MacCannell (1999), transversais a bastante da literatura que se debruça sobre esta questão. Quando sabemos hoje que a cultura é presença indelével nas redes do comércio mundial, e que o interesse económico impõe-se quase sempre aos restantes, o dilema da autenticidade é exacerbado em grande medida: o próprio labor do aparato turístico (agentes, intermediários, promotores, autarquias, a sua instituição, no fundo) leva ao esbatimento da autenticidade dos locais que “turisfica”, na medida em que eles terão sempre de ser (re)inventados para se tornarem turísticos (Fortuna, 1999a: 62). A autenticidade pode diminuir, mas a complexidade aumenta. O caso de um centro histórico, obviamente envernizado pela História, porém redefinido pela indústria turística nos significados que deve conter e nas tradições que deve exalar, é um exemplo acabado: se a própria história de um local é artificializada conforme os interesses turístico-económicos, mas mantém-se lá inobstante (como ponto de partida), as distinções entre o que é verdadeiro e não é enevoam-se (1999a: 62-3). Mas então que significam estas dinâmicas para a autenticidade de uma cidade, como o Porto? A inserção da cidade no mercado turístico contemporâneo transporta esta pergunta para a dimensão aurática dos seus elementos, como um centro histórico. A aura de um objeto de arte, sobre a qual Walter Benjamin demorou-se no ensaio “A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica” 49 (1992: 71-113), é a pedra de toque teórica que nos foi lançada por Carlos Fortuna para dirimirmos esta contenda: será que as cidades, hoje, guardam essa aura de objeto de arte único, perseverantes ante um turismo que nivela e tenta mercadorizar tudo, como um rolo compressor (1999a: 57)? Contextualizemos. Em primeiro lugar, não será dificultoso associar o conceito de obra de arte (apesar dos seus incontáveis declives) a uma cidade e ao seu centro histórico, ou se quisermos ao seu património histórico e monumental: como o próprio Benjamin nos diz, a arquitetura e a construção de edifícios são a arte mais duradoura e antiga da humanidade – “(…) a necessidade humana de um abrigo é duradoura” – ao contrário de outras formas artísticas mais volúveis da história humana (1992: 109). A referida “aura” de um objeto de arte é o “aqui e agora” da sua criação original, a sua verdadeira autenticidade, digamos, o espaço-tempo onde foi criado (1992: 77): seria aurática somente pelo facto de existir, detendo valor de culto, uma função social talvez mágica, inclinada para o sagrado (1992: 84-6). A reprodução técnica, em massa, mecânica, fácil, da obra de arte, desatada a partir dos inícios do século XX, seria, para Benjamin, a decadência da sua aura, na medida em que passaria de ocorrência única para uma ocorrência em massa, indo ao encontro dos (e a mais) indivíduos (1992: 79): neste estádio, a função social de dada obra de arte estaria mais relacionada com o seu valor de exposição, a sua função social de ser vista finalmente pelos homens (1992: 84-6). No objeto de arte citadino, podemos perscrutar o horizonte de várias formas: por um lado, é difícil acreditar que uma cidade, rua por rua, edifício por edifício, seja reproduzível noutro espaço físico, por exemplo colocando uma cópia total do Porto noutras coordenadas geográficas, para não falar do “aqui e agora” – aqui somos tentados a asseverar que uma cidade consegue conservar a sua aura na respetiva singularidade espacial (Fortuna, 1999a: 57). Porém, infiltram-se cada vez mais na cidade espaços “tecnicamente reproduzíveis”, frutos proibidos da globalização: aeroportos, redes de transportes, restaurantes e lojas de multinacionais, novos hotéis, comunicações, em parte fomentados pelo turismo (1999a: 58). Espaços que germinam pelas cidades de todo esse mundo, turísticas ou não turísticas: os chamados “não-lugares”, opostos aos lugares antropológicos – históricos, identitários e relacionais –, espaços efémeros e de passagem na rotina urbana, quase improvisados, mas que estão lá não obstante (Augé, 1994). Esses não-lugares, semelhantes entre si e espalhados por todo o mundo, inserem-se na perspetiva benjaminiana da reprodução técnica em massa: a cidade, na sua configuração artística, tê-los-á ao lado e no meio. A própria viagem turística é um não-lugar, rápida e frequente 30 , ainda mais intensificada pelo city break. Que efeitos sobre a aura e a autenticidade da cidade, especialmente para o turista 31 ? 30 Numa metástese teórica dos argumentos de Benjamin, porque não o turismo como reprodução técnica em massa da viagem, nos termos propostos nos capítulos anteriores? O turismo, com as suas formas de deslocação espacial (aérea, marítima, ferroe rodoviária) e virtual (internet, media, imaginação), reproduzindo maciçamente a viagem “aurática”? 31 Até no som esta situação é “audível”: a fala dos guias em sítios históricos embrenha esses locais numa certa sonoridade discursiva (por oposição ao silêncio), seja dentro do bus turístico ou numa excursão pedonal (Fortuna, 1999c: 109); e a familiaridade sonora de certos atos banais e globalizados, como levantar dinheiro num multibanco, aproxima espaços diferenciados desse mundo inteiro (1999c: 116). Podemos, inclusive, traçar uma evolução do não-lugar a partir de Ivan Illich 50 Porém, como Benjamin notou, definhando a aura na reprodução técnica, a obra de arte ganha noutros departamentos: leva o original a situações em que ele próprio não conseguiu alcançar, não só para um público em larga escala, como dissemos, mas especialmente através desse público (1992: 78). Não conseguimos deixar de afiliar esta circunstância à mobilidade virtual (Urry, 2000) duma cidade, pela fotografia, pelo filme, ou simbioses: ela chega mais longe, chega a essas situações que não lograva alcançar, pela reprodução técnica em massa das suas paisagens, qual obra de arte. Benjamin, na sua erudição, também não deixou escapar a fotografia, considerando-a o primeiro meio de reprodução verdadeiramente revolucionário (1992: 83), capaz de eclodir um terramoto nas avaliações que se faziam de arte (1992: 89). A agonia da aura mostra-se igualmente nas alterações sensoriais que a reprodução fotográfica suscitou no observador: de supetão víamos o que estava longe pela fotografia, ou, no seu local, víamos a obra de arte pela lente da objetiva (1992: 80-1). O crescente público observador (“as massas” em Benjamin) captaria assim o fenómeno artístico pela sua reprodução. Que dizer então desta reprodução técnica da cidade pela fotografia e formas análogas de imagem, no âmbito turístico? Porventura já poderíamos dizer que a cidade perde a sua aura de objeto de arte único ao ser fotografada: uma cidade que entra no circuito turístico passa a ser uma “ocorrência em massa”, reproduzida total e infinitamente no virtual; deixa de existir por si, ganha valor de exposição; é quase uma arte “que cai na rua”, nas palavras de Madureira Pinto (1994), mas no sentido em que o espaço urbano torna-se num espaço coletivo de apreciação artística, na observação do seu património histórico-monumental, eliminando a distância que normalmente separa a obra de arte do seu espectador… a sua aura? No universo específico do city break, teríamos cidades “menos famosas” que entraram, assim, no circuito turístico, abrindo a sua “arte” para um espectador longínquo – numa espécie de transfusão de um valor de culto, assente nos nativos, para um valor de exposição, alargado aos visitantes. Mesmo que o “aqui e agora” da obra de arte seja hoje irremediavelmente banido, à cidade élhe atribuída autenticidade “suplementar”, por exemplo ao ser sacralizada como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO, ou até mesmo pelo aparato turístico no geral. Neste contexto a reprodução técnica em massa já não será dos elementos urbanos específicos a cada cidade; mas sim de uma autenticidade e de uma aura universais, uma etiqueta que funde conceitos díspares como “beleza”, “história”, “cultura”, “diversidade”, e que se cola aos destinos turísticos 32 . Tudo, então, e da motorização da sociedade, a respeito da proliferação de automóveis e outros meios de locomoção técnica pelas cidades (1982: 466), ao ponto destes elementos fazerem parte indelével da paisagem urbana por todo o mundo, onde quer que vamos. 32 Num documento de 2013 do Instituto de Planeamento e Desenvolvimento do Turismo, intitulado “Análise dos Atributos de Portugal”, conseguimos encontrar uma glosa dos “elementos diferenciadores do país” – os tais atributos – informação recolhida tanto de operadores turísticos como de visitantes passados. A resposta do documento é elucidativa, e o destino “Portugal” apresenta os atributos magnos de “História”, “Cultura”, “Beleza”, e “Diversidade” (2013: 4). Para além disso, a promoção turística tenta insinuar a compra do destino “Portugal”, ao elencar mil-milhares de atributos tão diferentes quão iguais entre si: belo, acolhedor, cosmopolita, grandioso, histórico, puro, quente, verdejante, magníficas vistas e paisagens esplendorosas, paraíso (2013: 5-6). A maioria destes atributos faz apelo a descrições pitorescas e imagéticas do destino “Portugal”; e assim Portugal entra no circuito do turismo desorganizado, quase como se fosse um país como qualquer outro: que país não tem “História”, “Cultura”, “Diversidade”, vistas e paisagens de fino recorte? 51 poderá ser único e aurático, desde que trabalhado em segunda instância (Fortuna, 1999a: 57). Na linha de Susan Sontag, pensar que “(…) não há nada que não deva ser visto (…)”, tudo podendo ser beleza e tudo contendo interesse e arte (2012: 171). Benjamin oferece-nos mais trilhos interpretativos desta questão, centrados no observador massificado da obra de arte, agora reproduzida e exposta. Do culto à exposição, a obra de arte começa a exigir uma “receção” por parte de quem a vê: um caminho a procurar para se poder refletir sobre ela, como uma legenda de fotografia (1992: 88). O observador no turismo é o turista, e é dele que tratamos com particularidade no seguinte trecho. 1.3. Sobre o turista 1.3.1. Mundos virados ao contrário - a distância e a experiência no turista Um aspeto totalmente indissociável da experiência turística é a distância: física, entre dois lugares separados por terra ou mar, mas também simbólica, cultural, experiencial, entre povos, personalidades e caractéres. Distância entre dois tempos também: o de férias, onde vulgarmente impulsionamos a viagem turística, e o da vida “normal”, da rotina de todos os dias. Um exemplo idóneo é o do filme “Lost in Translation”, de Sofia Coppola, realizado em 2003: a experiência de visita dos protagonistas a uma terra distante (o Japão, vindos dos Estados Unidos da América) é sinónimo de um determinado tipo de turismo, de indivíduos autocentrados que desvalorizam, por conseguinte, a população e cultura locais, ora percecionadas como inacessíveis, ora como estereótipos - ou ainda carnavalizadas, numa perspetiva de consumo da viagem turística. Aqui, uma sociologia da “separação” entre duas esferas de vida é bastante prática para expormos o nosso ponto. Ou, se quisermos, uma antropologia, pois é a partir do antropólogo Victor Turner (1990) que começamos a analisá-la. Ao analisar o movimento da peregrinação, Turner fala de uma certa linguagem de passagens e ritos, onde o indivíduo sai das coordenadas sociais da sua vida “normal” e “habitual”, reentrando algum tempo depois. John Urry reescreve o enredo para fins turísticos: o turista que sai do seu mundo habitual, numa primeira etapa; numa segunda, a viagem em si, um espaço-tempo liminar e antiestrutural onde ele se entrega à experiência turística, ao seu consumo e emoção; e uma última, onde se efetiva o regresso cansado a casa, ingressando de novo na vida laboral e familiar, social e rotineira de todos os dias (2002: 10-1). O que está em causa neste movimento é a mudança experiencial do sujeito, da busca efémera de alguma coisa, de novos contornos de identidade e self; e no turismo em concreto, porventura o enaltecimento do prazer dos sentidos, ao mesmo tempo que se visita uma paisagem diferente da habitual (Fortuna, 1999d: 1-7). Porquê a experiência, no entanto? A experiência canalizada pela utilização do nosso corpo? No turismo é dado assente que, quando compramos uma viagem, estamos a comprar uma experiência, em vez de um bem material: um estilo de vida, talvez cosmopolita, imbricado na cultura do consumo, esta subsidiária de outras variáveis como os tempos livres e o lazer, enfim, a felicidade (Fortuna, 52 1999a: 56). O turismo, por força da sua dinâmica capitalista, vende essas experiências quase como se fossem mercadorias materiais; porém fá-lo apelando a outros céus, a outros sentidos: nesse capitalismo experiencial, o consumo é não raro escondido por detrás de lógicas de expressão individual e de “exteriorização das subjetividades” (Lopes, 2002: 45-6). Lógicas consideradas “luminosas”, valorizando a diferença, louvando a multiculturalidade, intensificando a festa e o lado lúdico da vida (Lopes, 2002: 45-6). Em espécie de disclaimer, todavia, não queremos com isto dizer que este exemplário de lógicas é mau para nós enquanto seres sociais: cometendo o risco de soarmos pueris, o diferente é algo que devia ser sempre estimado, em vez de execrado, e que nos devemos divertir. Mas neste contexto, o turista compra uma experiência, um estilo de vida, um “lugar ao sol” cosmopolita: porque não dizer que ao viajar por territórios díspares e distantes, o turista não poderá afirmar que o faz para ser mais “multicultural”, mais do mundo, mais feliz? Ou mesmo que não o afirme, será que o sente pela inerência de viajar? O problema é a capa do consumo, qual maldição omnipresente na nossa relação atual com a satisfação e, a um outro nível, com a felicidade; o sentimento de não podermos ser “multiculturais” se não viajarmos, invocando o exemplo supramencionado, ou a sensação de que esse conhecimento do mundo pelo turismo é superficial ao invés de profundo. Não querendo essencializar em demasia, podemos dizer que a experiência é trabalhada pelo turismo porque vende. A psicologia social tem vindo a descobrir que as experiências, de facto, fazem as pessoas mais felizes do que as posses materiais. A compra de uma experiência, vis-à-vis à compra materialista, gera mais sentimentos felizes; a antecipação de viver uma experiência é mais forte do que a de consumir um bem material; e a experiência, em si, é mais propensa a ser positivamente reinterpretada, mais identitária, e mais relacional que o bem material comprado e usado (e descartado) (Boven e Gilovich, 2003). No contexto do turismo, quando sabemos que a proposta do destino turístico é um fator essencial na publicidade correlativa, a antecipação, por parte do turista, ganha contornos volumosos. A importância da experiência é seguidamente teorizada pelo psicólogo húngaro Mihaly Csikszentmihalyi, especialmente a “ótima”. Nesta configuração de tipo ideal, a experiência provoca um estado de grande prazer e exaltação interior, tornando-se numa referência memorial para aquilo a que vida devia sempre ser (apud Ritchie e Hudson, 2009: 112). Turner, agora em conjunção com Edward Bruner (1986), adiciona mais camadas à experiência do ser humano. Na “Antropologia da Experiência”, uma divisão é sulcada entre “a” experiência e “uma” experiência: a primeira, uma morna aceitação dos eventos quotidianos; a segunda, um processo que a distingue da similitude dos dias. Por outras palavras, a oposição entre uma experiência ordinária, dimanada das rotinas do nosso dia a dia, e uma experiência extraordinária, previamente planeada, e largamente ansiada – como a experiência de comprar uma viagem turística, a sua antecâmara, seguida da fruição e do seu término. Se nos prepararmos para o que pudemos encontrar, formam-se expectativas novas, positivas e grandiloquentes, que nos roubam do nosso chão no momento do seu cumprimento. A isto acoplamos, normalmente, o conceito de “férias”, especialmente aquelas realizadas através do turismo: Chris Ryan 53 (2002) outorga a essas férias um lugar importante na vida dos indivíduos, nelas residindo um potencial de “catarse”, de experiências que podem virá-la do avesso. A alteridade visual dos ambientes visitados, o olhar do turista visto com Urry (2002), demonstra, assim, a sua coerência nestes considerandos. Antiestrutural, subjetivo, consumista, feliz, ótimo, extraordinário, catártico. Os ingredientes misturam-se para a preparação turística, cavando um fosso entre o tempo sonhado das férias e o tempo das obrigações que regulam a rotina da nossa vida quotidiana – estrutural, objetiva, desgastante, infeliz, aborrecida, ordinária, repressiva. Claro está, este contraste propositado é um tipo-ideal em si mesmo, existindo, nos seus meandros, dissonâncias e contradições: o tempo de férias pode ser totalmente o contrário do que enumeramos, e o tempo da vida quotidiana também. Apostamos, antes, na probabilidade weberiana (Weber, 1978), na correspondência que aqueles predicados encontram na maior parte dos indivíduos quando pensam, binariamente, em “férias” e “obrigações”. Para um lado ou para o outro da barricada, fica em evidência que as férias causam uma rutura na vida “do resto do ano”. O mundo do turista é um mundo virado do avesso, em que as obrigações de um certo regime de vida social – trabalho, família, pêndulos urbanos, interconhecimentos – são suspensas por um curto espaço de tempo (até nova ordem, ou o dia do regresso a casa), em favor de variadíssimos motivações - frequentemente sobrevalorizadas pelo próprio - tais como o descanso, o hedonismo, a busca de conhecimento e de si próprio, a procura de novidade e alteridade. Um “tempo de exceção”, ou um “intervalo de vida”, nas expressões felizes de Carlos Fortuna (1999a: 69). A cisão entre dois tempos diferentes encontra desenvolvimentos na personalidade do indivíduo-turista: ou antes, na sua identidade. Uma das temáticas recorrentes nos textos de Fortuna sobre a cidade e o turismo é justamente o papel crucial da identidade dos sujeitos na sociedade da viragem de milénio (1999a). A “destruição criadora das identidades” é a divisa, baseada na destruição criadora do capitalismo que Joseph Schumpeter enunciou como condição intrínseca do mesmo: a destruição da mercadoria antiga é feita para dar lugar ao ato criador da mercadoria nova, renovando, deste modo e incessantemente, a dinâmica capitalista (Fortuna, 1999a). A “destruição” da identidade por parte do sujeito (leia-se redefinição) é assim conduzida num processo em que ele tenta conciliar a sua condição pessoal e coletiva com um mundo em constante mutação: um mundo em aceleração, das tecnologias de informação à cidade, passando pelo mercado de consumo e pela relação labiríntica entre o global e local (Fortuna, 1999d: 2). Onde pertencemos, afinal? Desses contextos e situações sociais fluidas, para utilizar um termo característico de Urry, surge a necessidade do indivíduo se reposicionar a partir de dentro, gerando novas representações sobre si mesmos que consigam compactuar com um certo caos (Fortuna, 1999e: 17). Numa troca ajustada de conceções realizada for Fortuna, temos menos “identidade” - a substância durável das nossas coordenadas - e mais “identificação” - ligações efémeras, fragmentárias e trocáveis de acordo com o que se passa à nossa volta (1999e: 16), que já não é só o próximo, mas também o longínquo (1999e: 21). A questão, cremos nós, até é relativamente simples: “menos identidade” significa um descentramento do foco identitário 54 dos indivíduos na modernidade: a classe, o sexo, a etnia, a condição laboral, a família; “mais identificação”, o recentramento a partir de outros modos de vida do self, como o consumo, o gosto de viver, o lazer, a importância do corpo e da estética (1999b: 25), em inocente inclinação para o individualismo pós-moderno 33 . O turismo é, deste modo, ideal no seu sentido de permitir ao indivíduo (turista) experimentar outra vida, outras referências, outras identidades em forma de identificações transitórias durante um curto hiato temporal (1999d: 4), imaginando-se para fora de si mesmo. O facto de estar desfasado da estrutura da vida normal, rumo à "experiência extraordinária”, torna um turista um espécime curioso, ao não podermos precisar na sua prática estritamente turística a forma como ele representa o mundo, por momentos lost in translation. É um mundo à parte, volvendo a ponderação dos seus universos simbólicos e imaginários sociais – também patentes antes e após a viagem – um exercício incontornável (1999: 125). 1.3.2. Os olhares imaginários e fotográficos do turista O turista é um observador admirável, aliando a sua visão à capacidade imaginativa que possui a rodos, manifesta ou latente. A efemeridade da viagem turística, as solicitações que recebe daí, o seu imaginário específico, e a evasão temporária da vida ordenada produzem as possibilidades de identificação que entrevimos acima: no espaço que visitará, a gama de possíveis é considerável, atribuindo sentidos e significados múltiplos ao que observa (Fortuna, 1999a: 54). Na cidade histórica e monumental - espaço primeiro da nossa pesquisa - o turista depara-se com a preciosidade do tempo: ao tesouro da arquitetura antiga, acrescenta-se a pátina do tempo, soltando as rédeas da sua imaginação, repartida entre a história pretensamente oficial e transmitida (um texto produzido para dado objeto), e o significado imaginado que o turista lhe pretenda dar, a sua estória (1999b: 34). Simmel, no seu ensaio “The Ruin” (1958), mostra como o tempo finito da viagem se confronta com o tempo "pesado", acumulado, do passado dos edifícios do Homem. Diante destas construções, cujo tempo já passou, vislumbramos o alegórico revés do Homem perante a Natureza, da cidade perante o desfiar do tempo cronológico. No entanto, para a ruína nos conquistar, enquanto turistas e indivíduos, ela terá de ser embelezada, ornamentada e encantada, o acrescento de um certo prazer estético – e com isso nos relacionamos (imaginamos), encontrando uma paz interior nas “antas” 33 Não pretendemos descerrar o complexo debate entre modernidade e pós-modernidade nestas páginas. Fortuna escreveu estes textos quando a pós-modernidade parecia irresistível, em finais do século XX (Ritzer, 2008: 88-9): hoje, com o dom da retrospetiva, podemos concluir contingentemente que a modernidade continua, todavia enriquecida com alguns contributos teóricos pós-modernos. O muito-citado Gilles Lipovetsky (2010) é um genuíno exemplo, passando a trabalhar com o conceito de “hipermodernidade” (um aprofundamento da modernidade) ao mesmo tempo que renunciava ao de pós-modernidade como explicação decisiva do mundo. O dilema identitário é nesse sentido estudado por ele: ainda valorizamos o trabalho e a família, sendo âncoras sociais; a divisão injusta dos papéis de género ainda se mantém, mudando apenas vagarosamente pelo mundo ocidental; ainda falamos de classes – baixas, médias, altas - embora as reconfigurações sejam evidentes; a raça e a etnia ainda pressupõem incontáveis problemas na relação com o outro diferente, sendo poderosas marcas de identidade, para o bem e para o mal. Com o individualismo contemporâneo, não cortamos o cordão umbilical do passado; passamos é a viver num "regime de geometria variável, sem obrigação nem sanção", aberto a mais referências, a uma liberdade que antes não experimentávamos, mas ainda firme em aspetos da vida sem os quais não nos imaginamos (2010: 105-7). 55 conservadas e herdadas do passado, conscientes de que o ser humano pouco pode fazer face à Natureza; mas se deixadas ao desbarato (não estetizadas, como ruínas per se), a derrota face a esta seria "inimaginável", sinal da decadência e da negligência incorrigíveis da raça humana. Daí, talvez, inúmeras ações de reabilitação urbana se desenrolem para atrair visitantes aos centros históricos: se já de si estes últimos contêm vidas de comunidades imaginadas, o adjacente património histórico e monumental acrescenta-lhes mais sentido(s) (Peixoto, 2003). A “materialidade estruturante” deste património já não está presente, é do passado que não volta; ele é perspetivado a partir do presente e das suas referências, tanto pelos seus estrategas políticos e municipais, como pelos turistas (e residentes) (Fortuna, 1999b: 30-2). Aqui reencontramos Lefebvre (1991), de Certeau (1980) e Foucault (1984), nessa capacidade do espaço físico interferir nas categorias simbólicas dos agentes sociais e, maxime, no potencial heterotópico, ambíguo, dos lugares históricos e monumentais. Daí, talvez, a paixão dos turistas pela arquitetura temporalmente definida da cidade, da sua história em particular e do seu trajeto sócio-histórico, em derradeira instância distinguindo-a de outras cidades (Fortuna, 1999c: 116): uma torre dos Clérigos, uma torre Eiffel, um coliseu de Roma. A aura retorna ao escaparate analítico por estes processos. A obra de arte neste contexto é o património histórico-monumental da cidade: e apesar do esforço que o turismo lhe canaliza para transformá-lo a seu preceito, os turistas não deixam de a contemplar com interesse e imaginação, tentando destrinçarlhe uma aura. Para Walter Benjamin, a aura de uma obra de arte demandava recolhimento e severidade (1992: 108-9); mas a arquitetura, no seu estado visual e habitual (porque em nosso redor na vida urbana), acusaria uma receção distraída, uma apreciação à rama da superfície, como o público no cinema, à procura da diversão pela distração (1992: 109-110). Estas condições repercutem-se no turista examinador da cidade histórica: por um lado, e como demonstrou Carlos Fortuna para Coimbra e Évora, o turista concentra-se mais nos aspetos arquitetónicos do que nos elementos vivos da cidade, como a população local; por outro, a sua aparente concentração dilui-se no estado geral de divertimento e distração que caracteriza a viagem turística (1999a: 54-6). Em jeito paradoxal, o turista encontra no património histórico e monumental a chave da autenticidade, da aura de uma cidade – apesar de produzida, reproduzida, encenada talvez 34 – no fundo, o foco da sua imaginação, a paz e o prazer de um determinado turismo urbano. Ao mesmo tempo, vota ao esquecimento ou à depreciação acérrima outros elementos da cultura urbana, como a sua população local, não tão inertes e manipuláveis como a pedra dos edifícios, não tão “dóceis” às objetivas das suas câmaras fotográficas, 34 Voltamos às questões da autenticidade da visita turística. O turista vê-se, deste modo, num divisão tradicional do turismo, rasgado entre o que é fidedigno e o que é desvirtuado – na linguagem goffmaniana que Dean MacCannell (1999) emprega, entre os bastidores e a fachada – mas também, e sobretudo, entre as “zonas cinzentas” que diluem fronteiras tão demarcadas. No momento em que os “bastidores-verdadeiros” e a “fachada-artificial” se tornam indistinguíveis por ação do aparato turístico, a complexidade adensa-se: o autor fala então na “autenticidade encenada” para designar tais redutos, supostamente autênticos porque montados com esse fito, mas que na realidade são apenas isso, montagens, sentidos postiços nas fronteiras de um espaço. 56 não tão imagináveis – não contando para diferenciar cidades 35 , quando comparadas entre si, e no contexto intensificado do city break. É justamente na imagem fotográfica que a visão do turista reafirma-se. Podemos considerar essa visão como sensorial – o nosso sentido de ver – como também improvisada – a lente do dispositivo fotográfico. Um dos “rituais canónicos” do turista é fotografar o que observa, bem como fotografar-se junto e no meio dessa paisagem (Fortuna, 1999a: 60). (Hoje as famigeradas selfies catapultam esse segundo objetivo a inefáveis caminhos.) Por ritual canónico, não queremos dizer que a fotografia impõe-se como destino inamovível ao turista: embora seja provável tirar fotografias durante a sua visita (a prevalência da visão, mais uma vez), esse ato inscreve-se, pensando com John Urry, numa "não-rotina" rotinizada (2002: 11), característica da viagem turística. A licença para divertir-se e abstrair-se da vida normal, concedida pelas férias turísticas, formata novas rotinas nesse espaçotempo; e embora o ato de fotografar seja hoje banal a qualquer altura do ano e em qualquer situação, na visita turística ele tem a capacidade de se realmente soltar, capitalizando-se na "distração concentrada" do turista, de querer captar tudo na sua ligeireza observacional. O ambiente visual diferente, como temos visto, perfaz esse comportamento. As relações entre turismo e fotografia podem ser bem mais complexas, todavia, e como nos indica Susan Sontag. É de sua opinião que a fotografia encontrou no turismo um móbil eficaz para se desenvolver (e vice-versa): a fotografia possui a força probatória de que a viagem foi realmente feita, de que tudo se cumpriu e de que toda a gente desfrutou (2012: 17) - longe dos nossos interconhecimentos quotidianos, este fator chama a atenção. Nesse vórtex de tentar avalizarmos a nossa experiência pela fotografia, podemos pelo mesmo caminho anular a realidade: a viagem tornada mera acumulação de fotografias, uma recordação logo ali, no momento do click (!). Mais a mais, a desorientação recrudesce num espaço diferente e estranho ao nosso: a fotografia age como alívio instantâneo, fotografando-se quando há indecisão perante o que fazer, como se a fosse a única reação possível ao desconhecido (“Como não fazer nada? Que aborrecido”) 36 . Sontag caricaturiza: para além 35 Não queremos soar desajustados nem maquiavélicos, mas por vezes o turismo, e as reações que se lhe desenham, criam um apartheid urbano (Lopes, 2002: 53) que separa a sua esfera da dos residentes numa lógica segregacionista. A figura dos “sítios para turistas” é ilustrativa disso mesmo. A isso não ajuda as estratégias de estigmatização do turista, não raro visto como um anticorpo, perturbador, na vida corrente dos nativos, quase um “making trouble” que desconjunta as normas sociais aceites, na linguagem de Garfinkel (2006). Esse estatuto de perturbador configura aquilo que Howard Becker (1985) designou como “master status”, um estatuto social excecionalmente influenciador da identidade percebida do indivíduo, usualmente negativo, e corporizado na figura do desviante. Qual contágio, se apenas um turista é percebido assim pelo residente, todos o serão, estigmatizando a sua “classe”. A consciência que os turistas ganham disso implica, possivelmente, na relação que mantêm com a população dos sítios visitados: tratá-la com indiferença poderá ser uma resposta estratégica, jogando o “master status” ao contrário, numa atitude de amor-próprio e reputação pessoal (não tanto de egoísmo), como Erving Goffman (1982) estudou nos “desviantes” dos manicómios e asilos, entre outros lugares. 36 Como Walter Benjamin notou, a fotografia libertava a mão de importantes obrigações artísticas, reproduzindo imagens facilmente e em massa (1992: 76). Com Sontag, ela também liberta a memória individual e coletiva, agindo como substituto seu, mas sendo somente a imagem da realidade, e não ela própria (2012: 160). Se ela ajuda o turista a visitar um sítio novo e diferente, é porque consegue captar o que de interessante lhe parece, abrindo espaço mental para o próximo momento ou situação porque o que aconteceu já estará registado e armazenado. A fotografia é tanto memória como desmemória para o turista: regista a memória do que vê, e ao mesmo tempo poupa-lhe a memória acerca do que viu, a postos para a próxima constatação urbana. 57 do endinheirado turista norte-americano, surge o japonês, "geralmente munido de duas câmeras, uma em cada ombro" (2012: 18-9). Os significados que a fotografia comporta para o turismo e para a realidade são sobremaneira diversos. O sobredito não esgota o manancial. A câmara é um passaporte de entrada no exótico, um “superturista, um prolongamento do antropólogo” (2012: 48). (Porque não um turista com um "superfotógrafo"?) É igualmente uma extensão da figura baudelairiana do flâneur, esse calcorreador que "explora, ronda e percorre o inferno urbano", agora equipado com câmera fotográfica (2012: 5960). (Porque não um turista como flâneur contemporâneo?) A fotografia possibilita-nos consumir e apreciar a pronto a realidade, tornando-nos "turistas da realidade" (2012: 111) (Pressente-se o desgosto da autora pelo turismo, mas isto significa que podemos ser turistas mesmo sem viajar.) Mesmo as realidades mais "difíceis", como Auschwitz, o "horror amortecido (...) pela atmosfera turística" (2012: 193). Com tudo isto queremos sublinhar que é fácil fotografar quando fazemos turismo, o que por vezes muda por completo a natureza da nossa viagem. Somos tentados, com ela, a compreender o sítio que visitamos; mas no fundo, apenas o colecionamos sob a forma de imagens (2012: 85). No frenesim do tempo curto da viagem, é mais simples colecionar do que compreender: pela fotografia, a sensação de que a nossa cabeça pode conter o mundo inteiro é real, nesses termos (2012: 11). A fotografia turística, ao invés, pode mostrar ao potencial turista o que vale a pena ser olhado (e fotografado por ele) aquando da sua visita: o monumento histórico e a paisagem pitoresca são leais exemplos, porque subjugados à estética da beleza, e não da fealdade. Num derradeiro tributo a Sontag - ela que fez o mesmo para Walter Benjamin, amante e colecionador de citações -, cremos que o turismo, quando casado com a fotografia, “proporciona história instantânea, sociologia instantânea e participação instantânea” (2012: 78). Nesse dueto totalmente provável, podemos consumir a realidade urbana mais rápido, como um city break fotográfico dentro do city break turístico. 64 para o turista visitante. Aqui, resta dizer que nem o mais avisado investigador (e nós ainda nem fazemos parte dessa categoria) deixa de tropeçar nas armadilhas do real social. Seguimos a sugestão do autor francês na temporização dos procedimentos observacionais: uma primeira fase de observação direta que abordasse genérica e cronologicamente o espaço e os seus atores (2000: 121-3), tentando apenas destrinçar os fluxos instáveis (os turistas estrangeiros) dos permanentes (os portuenses), numa inversão de personagens principais e secundárias 39 (2000: 106-7); e uma segunda fase, que rentabilizasse esses dados em ações centrais dos turistas a observar cuidadosamente (2000: 121-3). Em ambos os casos, em vez de escrevermos as notas diretamente em grelhas pré-construídas, fizemo-lo por extenso, de certa forma inspirados pelo trabalho etnográfico de Luís Fernandes nos territórios psicotrópicos (“drogas na rua”) de alguns bairros sociais do Porto (2005: 23-40). Apenas nos faltou arrendar um quarto num qualquer hostel da nossa própria cidade por duas semanas, a fim de submergirmos por inteiro na experiência da investigação, tal como aquele autor fez ao arrendar um quarto no bairro da Pasteleira por quase um ano. No final destas contas, obtivemos um retrato seletivo do meio observado, implicando escolhas e ângulos (Peretz, 2000: 127). A partir daí, o “bom senso sociológico” ditou a nossa imaginação, porque antes de termos entrado e saído do meio ele já existia (2000: 162): o mérito desta técnica (e dos dados qualitativos revelados), no contexto da nossa investigação, consistiu em dar-nos um conhecimento situado e inédito duma cidade que pensávamos conhecer como a palma da nossa mão. 2.2.2. A análise de conteúdo Interpondo-se entre a cidade e o turista surge a imagem. A análise de conteúdo da imagem em diversos veículos permitiu-nos averiguar o papel que protagoniza nas representações do turista estrangeiro: na busca de informação sobre os locais a visitar (Ritchie e Hudson., 2009: 116); na sacralização dos lugares turísticos (Fortuna, 1999a: 53-60); e na fantasia de “imaginar” e de “sonhar acordado” sobre potenciais destinos turísticos (Löfgren apud Crang e Franklin, 2001: 7). A declinação fotográfica da imagem é por nós relevada, conscientes da sua importância na prática do turismo (Urry e Crawshaw, 1995: 56-7) (Sontag, 2012), e na “fetichização” de uma cidade e da conversão do seu valor em capital simbólico (Gagliardi, 2009: 260). Neste(s) sentido(s), edificámos um corpus de fotografias do centro histórico do Porto que nos fizesse avançar, desta feita, pelo meio representacional dos turistas. A dois níveis, reparámos a meio caminho: por um lado, concentrámos toda a nossa atenção na inventariação de fotografias de alguns websites oficiais do turismo portuense, adaptando tipologias analíticas mais próprias do guia turístico (Gorp, 2012) para desgranar o seu conteúdo e possíveis leituras, paralelamente categorizando os aspetos formais de cada um daqueles sítios cibernéticos. Mas pelo outro, a impossibilidade de extrair 39 Um a priori que, por exemplo, nos impede de caracterizar estes rituais de observação como totalmente indutivos: sabíamos de antemão que procurávamos indivíduos com aparência de turistas, e embora o senso comum nunca nos deixe de ajudar nessa identificação provisória (a língua estrangeira, os mapas…), a leitura de certas tipologias de compreensão (como o olhar do turista de Urry) revelou-se fundamental para reperspetivarmos o seu comportamento. 65 fotografias totalmente oficiais de um deles forçou-nos a ponderar uma ideia que, em retrospetiva, devia ter sido desenrolada desde o princípio: a análise de fotografias tiradas pelos próprios turistas, conjurando assim o segundo nível deste debruçamento ao conteúdo imagético do Porto, mais pessoal e individualizado, íntimo e etnográfico. Intitulámo-lo justamente de desafio etnográfico, colocado ao turista depois de ter respondido ao nosso inquérito por questionário. O respetivo trecho na análise dos dados irá narrar com mais detalhe este passo no nosso trabalho, impondo-se, antes, a reconstituição metodológica daquela técnica. A análise de contéudo, do mesmo modo, foi o instrumento apto para retirar significado ao discurso dos turistas nas entrevistas realizadas, através de categorias analíticas por nós definidas ao passo que emergiam dos dados; e às perguntas abertas do inquérito do por questionário, nomeadamente quando perguntámos que cidades os turistas tinham visitado durante o ano anterior às suas visitas ao Porto. 2.2.3. O inquérito por questionário As duas últimas técnicas mostraram dados de natureza qualitativa; pelo inquérito por questionário, temos acesso a dados de ordem mais quantitativa e extensiva, aplicáveis a situações mais gerais (Ghiglione e Matalon, 2005). Neste sentido, ele prognosticou-se como a técnica mais ideal para abordar a efemeridade da experiência turística dos visitantes internacionais do Porto, podendo até ser intensificada na brevíssima variante (até 3-4 noites de estadia) que o city break configura (Dunne et al.¸ 2010: 412). Os turistas notabilizam-se como indivíduos em permanente movimento nos locais em que visitam, na ânsia de conhecer e cientes do reduzido tempo que têm em mãos para o fazer: a operacionalização, do ponto de vista empírico, da teoria, dos conceitos e das relações possíveis e a descobrir (Fortuna, 1999a: 64-6) teria de refletir esse pressuposto durante a pesquisa, sendo o inquérito por questionário, na comparativa com outras técnicas, uma forma mais viável de a traduzir por ser rápido. Em acréscimo, e a fomentar esta escolha, impunha-se uma caracterização mais convencional do turismo portuense, conscientes de que estudos do género são habitualmente apadrinhados pela indústria turística - uma tentativa de preencher o vazio analítico de certos grupos de visitantes que perfazem o turismo urbano, como o dos “city breakers” (Dunne et al., 2010: 409). Depois de algum trial and error, e de perguntas, categorias e escalas de medida feitas e desfeitas (Hill e Hill, 2000: 83-133), chegámos ao estado final do nosso inquérito por questionário, o que foi realmente aplicado à nossa população-alvo - os turistas estrangeiros - no espaço delimitado pelo centro histórico do Porto, a rua e os seus espaços públicos. Em bom rigor, este apenas serviu de base para as traduções em espanhol, inglês e francês 40 que empreendemos: uma abordagem ao turista internacional requeria instrumentos multilingue. 40 Cf. Anexo n.º 2 – “Inquéritos por questionário, em português, espanhol, inglês e francês”. 66 Por entre estas e as etapas de racionalização teórica de cada pergunta do mesmo, procedemos a um pré-teste no terreno a duas turistas inglesas, a fim de lhe descortinar insuficiências e ambiguidades (Ghiglione e Matalon, 2005: 155-8). Esta sessão demorou mais de vinte minutos a ser realizada, o que era demasiado tempo; mesmo com a atenuante de saberem que nos estavam a ajudar a calibrá-lo para futuras aplicações, com anotações, comentários e sugestões (e até umas pequenas revisões ao nível da tradução para inglês). Deste modo, avançámos para o seu encurtamento e correção, com o intuito de nos aproximarmos da meta teoricamente aceitável dos dez minutos de tempo de preenchimento no contexto de rua ou lugar público (2005: 113). O espaço referido distendeu-se por todo o centro histórico: nomeadamente Ribeira, Clérigos, Cordoaria, Sé, Aliados. A ideia consistiu em abordar os turistas que identificávamos como internacionais nas suas itinerâncias por estes locais. A taxa de aceitação foi surpreendemente regular, embora não tenhamos feito a contagem desse item em particular; mas descia a rodos nos grupos de maior número, mais confusos e menos solícitos. Percebemos desde muito cedo a melhor forma de descerrar esta interação interessada: ao invés de inquirir se tinham uns minutos livres – o que causava dúvida e imagens de vendedores chatos nos turistas –, começamos simplesmente por perguntar se estavam de visita ao Porto, e se estariam interessados em responder a algumas questões relacionadas com ela. Ademais, os espaços de repouso, à sombra, ao lanche ou ao almoço, revelaram-se mais frutíferos do que parar os turistas nos seus andamentos 41 . Às múltiplas anuências seguiram-se 82 inquéritos preenchidos, e teriam sido mais caso tivéssemos planeado melhor os marcos temporais da sua aplicação, realizada inteiramente em agosto de 2015. A turistas que nos pareciam mais “curiosos” acerca da nossa demanda, nós lançávamos o supramencionado “desafio etnográfico” – 18 imagens foram assim recolhidas. Mas nesse entrementes, a própria experiência de aplicar esta técnica estabeleceu-se como etnográfica, configuracional: retiram-se da sua vivência alguns episódios singulares que, embora não generalizáveis, nos desvelam as peculiaridades de se ser turista na própria cidade, à procura de turistas fidedignos – como pretendemos mostrar com alguns excertos diários desses dias 42 . 2.2.4. As entrevistas Entre os miradouros caminhantes das observações, e o mergulho imagético nas fotografias do Porto, detetámos uma maré do carvoeiro, na pessoa de um portuense emigrado em outras cartografias, em abril de 2015. Visitante recorrente, portanto turista, da sua própria cidade de nascença, recorremos a uma entrevista de cariz exploratório, nãodiretiva, para perspetivar o(s) significado(s) atribuído(s) pelo respondente à sua cidade em mutação turística, estando ele mesmo involucrado nessa dinâmica. 41 A estes predicados acrescemos a nossa disponibilidade para ajudar no que precisassem acerca do Porto, claro: levámos uma mnemónica de alguns dos melhores restaurantes da cidade para se comer uma francesinha, e outros afins gastronómicos, em registo de incentivo extra. Em alguns turistas, revelou-se um êxito. 42 Cf. Anexo n.º 5 – “Excertos selecionados do diário de campo”. 67 Em formato genérico, como se constata pelo guião 43 , introduzindo o tema do turismo no Porto, guiando-o apenas subtilmente pelos diferentes contextos, procurando o seu raciocínio abrangente (Ghiglione e Matalon, 2005: 83-4). O registo de ambiguidade que normalmente acompanha este tipo de entrevistas, foi, a nosso ver, plenamente atingido, até pelo entrevistado, dividido entre ser turista e portuense (2005: 84). Após a aplicação do inquérito por questionário - e dada a fluidez de deslocalização do turista rumo a casa ou a outras paragens – fomos realizando algumas entrevistas de âmbito mais restrito, quer dizer, semidiretivas. Tentando fecundar sementes extraídas da entrevista exploratória e das observações e, mais tarde, da análise de imagens fotográficas do Porto e dos dados dos inquéritos respondidos, desenvolvemos um guião planeado de questões, traduzido(s) 44 . Com uma adenda: as suas perguntas caracterizam-se por ser relativamente longas, querendo indiciar um trilho de resposta, sem deixarem de apontar, em paralelo, para os atalhos possíveis que cada entrevistado pode sempre tomar – daí a semidireção escolhida por nós como entrevistadores (2005: 83-4). A justificação é mais funda, no entanto: numa só gestualidade, quisemos dar o máximo de informação possível ao entrevistado, face à natureza específica do nosso objeto empírico entrelaçado com o modus metodológico. Por outras palavras, sabíamos que as entrevistas realizar-se-iam à distância e por meios tecnológicos, quer em regime de copresença, quer em ausência do entrevistador. Os turistas não ficariam eternamente à nossa espera no Porto: voltando a casa, a maneira possível era esta, pedindo-lhes um endereço eletrónico para depois do regresso participarem na nossa inquirição. Assim foi, situando a interação social da situação de entrevista num outro cenário que não o real: o virtual. Por este caminho arriscado, os resultados não foram os mais desejados: apenas 3 entrevistas realizadas em setembro de 2015, numa perspetiva de pelo menos 5 previstas. Os contextos da nossa investigação - unidos à volatilidade que o papel de turista situado no tempo e no espaço conforma - assim o exigiram, mas fica a contrição por não termos feito mais, e de outra forma. 2.3. De como encontrámos o Porto turístico – (3ª paragem) Uma confissão deve ser prestada por nós neste momento: a dúvida, aquela que mói, foi uma constante nos nossos procedimentos analíticos e metodológicos, na sua planificação e execução. Consideramo-nos tão-só aprendizes de Sociologia, mas ficou claro que só experimentando, errando e, esperamos, sucedendo em algum grau, é que chegamos a bom porto com o desenho analítico e metodológico de uma investigação. A experiência da investigação estruturada, nas suas alegrias e frustrações, é que nos torna sabedores de quão contingentes podem ser os modos previamente aprendidos de fazer ciência – espécie de pacto kantiano entre experiência e razão. Esses “modos” foram regularmente questionados por nós, não por duvidarmos da sua legitimidade, mas porque nos preocupámos, a cada esquina, com a forma e com o conteúdo do que 43 Cf. Anexo n.º 3 – “Guião de entrevista exploratória”. 44 Cf. Anexo n.º 4 – “Guiões de entrevista semidirectiva, em português, espanhol, inglês e francês”. 68 estávamos a escrever e a tentar transmitir. Eric Dunning, no seu prefácio a uma obra magna de Norbert Elias, fala-nos do enquadramento sociológico alemão de começos do século XX, e da “luta pelo método” científico mais adequado ao estudo dos seres humanos e das suas sociedades que as diferentes escolas desse espaço-tempo protagonizavam – methodenstreit, chamavam-lhe (Elias e Dunning, 1992: 20). Em jeito de metáfora, travámos uma particular methodenstreit do princípio ao fim da nossa investigação, lutando com inquietações várias sobre o modo mais acertado de abordarmos o nosso objeto de estudo. E não só, pois perspetivámos, ao mesmo tempo, a nossa nóvel qualidade de investigadores de Sociologia, pensando sobre a forma com a qual estaríamos mais confortáveis de pesquisar e de passar a mensagem. Em simultâneo dois fatores, que não se dissociam mas que se autonomizam: a dimensão discursiva da sociologia – como fazer o discurso da pesquisa e sobre a pesquisa; e a dimensão teórica e metodológica – como estudar o objeto. Mas então qual é a raison d‟être destas ponderações do espírito? Estamos bem cientes do contexto contemporâneo do produto científico: Mary Midgley (2001), por exemplo, denuncia o frenesim da produção subjacente, característica duma sociedade de conhecimento em expansão, derradeiramente destinada a não ser lida na totalidade porque, na verdade, não haveria tempo para tal. A aceleração do tempo, à parte de outras leituras, é igualmente uma componente deste panorama “dromocrático” que o francês Paul Virilio (2006) nos apresenta, isto é, uma sociedade estruturada pela procura da velocidade, em que o tempo “rápido” é valorizado acima dos outros, mudando, neste contexto, a natureza do campo científico outrora mais regido por padrões de qualidade e não pela quantidade de páginas ou respetiva agilidade com que são dadas à estampa 45 . Dir-nos-ão que o saber não ocupa lugar, esse velho adágio, e concordamos; mas estas duas reflexões harmonizam-se com a nossa constatação nascente de que este texto poderá não ser muito difundido. Então porquê entrar em desassossego com os modos de o fazer, se os seus ecos poderão são limitados? Talvez por querer termos feito as coisas bem, apesar de tudo – ou um para quê em vez de um para quem. O contexto supramencionado, mais ou menos aterrador dependendo da perspetiva, impeliu-nos a valorar estas páginas como mais um degrau da nossa formação em Sociologia, e como uma ocasião de subi-lo de certa forma, apostando na síntese da pesquisa mista, num discurso de construção do objeto de estudo, na teoria e na prática. No campo específico da investigação social do turismo, quisemos afastarmo-nos da “reprodução social de seriedade” científica que parecia pejar as suas prosas acinzentadas, esquecidas do mote central da viagem turística: o prazer e o entretenimento do indivíduo ao viajar e conhecer lugares novos (Crang e Franklin, 2001: 14). Noutra metáfora, talvez uma escrita de “sociologia pública”, nos termos da oposição que ela descreve com a “sociologia profissional”, como nos diz Michael Burawoy (2007: 23-64): com as devidas distâncias face àquele 45 Mesmo em Portugal – com uma investigação científica de alicerces teóricos e empíricos de mais de meio século de idade – o produto sociológico atinge proporções condizentes à institucionalização avançada da disciplina, acrescentando, à lavra de investigadores passados, a abundância de trabalhos atuais provenientes dos mais díspares quadrantes e canais do campo, ao ponto de Fernando Luís Machado referir que hoje é “verdadeiramente difícil mantermo-nos a par da produção sociológica em Portugal” (2009: 300). 69 debate, uma escrita mais lembrada da vida lá fora versus uma escrita científica ensimesmada na sua torre de marfim 46 , muito embora, já em 2015, esta separação já não se coloque com tanta clivagem. Porém, a ciência pós-moderna insurge-se a cada passo, e somos tentados a concordar com alguns dos seus aspetos. O mais providencial para nós será a de que todo o conhecimento é “autoconhecimento”, tal como defendido por Boaventura de Sousa Santos dentro do mesmo paradigma (2003: 50-5). Nele, não mais há a obsessão do conhecimento totalmente objetivo, prole da distinção binária entre sujeito-investigador e objeto-estudado (2003: 51-2); assumindo que o conhecimento que produzimos é inseparável da nossa experiência, o objeto surge então como “continuação do sujeito por outros meios” (2003: 52), antecedido pelas crenças e valores de quem o investiga, por aí até dando coerência e legibilidade ao valor científico que produz sobre ele. A tal “vida lá fora” (e vinda de trás, diríamos nós), porque tanto o sujeito e o objeto, na Sociologia e se insistirmos nessa cisão arbitrária, entrelaçam-se um no outro nos caminhos e recontros da realidade social. Isto pode ser interpretado por nós através de várias dimensões do nosso percurso investigativo. O nosso autoconhecimento é a nossa biografia, portanto todo o conhecimento científico pode ter partículas autobiográficas (2003: 52-3): pode dar-se o caso de lavrar-se uma relação íntima com ele, de lhe extrair satisfação pessoal por qualquer razão, por ser nosso também (2003: 54). Sousa Santos fala justamente do exemplo da escrita, e do valor estético e literário que o discurso científico pode ganhar por causa disso, uma obra de arte e de ciência em paralelo, assim concedendo iguais níveis de satisfação a quem o acede (2003: 54). Talvez aqui nos reencontremos com a preocupação inaugurante deste trecho em querermos fazer as coisas bem: mais para quê, uma forma de dizer que o escrevemos é definitivamente nosso mas sociológico; e menos para quem, pelo que foi dito acima, apesar de desejarmos as boas-vindas, não obstante, a quem estiver a ler estas linhas 47 ! Pela matriz do conhecimento autobiográfico, podemos avançar que o que investigámos também se confundiu com a nossa mui-própria sociografia de ação e pensamento. A este respeito, lembramos o amigo invisual de Carlos Fortuna, que o guiava pelas ruas de Nova Iorque, ajudando-o a conhecê-las: desses contactos surgiram as motivações do autor para ouvir (leia-se, investigar) as paisagens sonoras dos ambientes urbanos (1999c: 103-4). Em nós, podemos dividir esse tipo de motivação autobiográfica em dois estratos. O primeiro – um substrato, se quisermos – corresponde ao facto de investigarmos, na cidade de sempre (o Porto), uma mudança populacional, e até paisagística e representacional. Com os crescentes fluxos turísticos, começámos a cruzarmo-nos com mais e mais faces “estranhas”, claramente estrangeiras: aos rostos mais ou menos conhecidos dos “de cá”, quase sempre mergulhados no anonimato urbano, interpunha-se cada vez mais o sotaque espanhol, o riso 46 Sem querermos, com tudo isto, resvalar para os pântanos da fun morality, conceito introduzido por Martha Wolfenstein (1951): uma moralidade que substitui as tradições de seriedade das instituições culturais - de fazer as coisas bem – pela necessidade de divertimento, e de o mostrar. (A academia, e a ciência moderna, serão exemplos desse rol de instituições culturais.) A dificuldade estará sempre em manter esse equilíbrio entre “fazer as coisas bem” e “divertir” ao mesmo tempo, sem que o conhecimento científico caia numa superficialidade intolerável. 47 Com humildade reconhecendo que longe estão de padrões verdadeiramente artísticos e literários: não quisemos dar a entender que o nosso labor era uma obra-prima de arte, literatura e sociologia por apenas ser nosso. 70 francês, os trejeitos ingleses, os olhos rasgados dos asiáticos. A nossa biografia portuense tornava-se, de supetão, marcada por estas novidades moderadas, gerando um crescente senso comum de uma cidade voltada, em definitivo, para o turismo. O segundo estrato forma-se numa visita-relampâgo a Florença, num dia com duração de 10 ou 12 horas: sem possibilidade de pernoitar, a visita começa e termina na viagem de comboio até à cidade-símbolo do Renascimento. Sucedem-se vistas, estátuas, jardins, catedrais, algum descanso: leva-se uma boa memória, um cachecol do clube de futebol local… e inquietação. O tempo não tinha permitido sequer, a nosso ver, uma aproximação superficial à riqueza da cidade: foi muito rápido, muito em movimento, como se estivéssemos a fugir de algo. Pensando nisso em retrospetiva, ganhamos uma “consciência excessiva” do que tínhamos acabado de viver 48 : turista por um dia (e amputado) em Florença, a experiência catapultou o pensamento para a natureza da viagem urbana em city break, que por sua vez tornou-se a faísca deste trabalho, unido ao substrato da nossa geografia sentimental no Porto. A referida sociografia pessoal também se inculca a um nível mais mental e de hábitos: os de leitura, e do conhecimento do mundo daí adquirido. Imaginemos as referências bibliográficas a que fomos lançando mão: elas fazem parte da nossa “biblioteca”, aquilo que fomos lendo para o âmbito desta investigação, mas igualmente, aquilo que já tínhamos lido no passado, dos mais variados registos literários. Essa “biblioteca” é mais um dos trilhos autobiográficos que percorrem a nossa tentativa de produzir conhecimento; mas ao lado, pousamos o contrário, aquilo que ainda não lemos, que adiámos ler, ou que simplesmente nunca ouvimos falar: a antibiblioteca. Este conceito é abordado por Nassim Taleb (2007), analisando a biblioteca de 30 mil tomos de Umberto Eco: será que o homem tem tempo para lê-los a todos?! Da “antibiblioteca” de Eco fazem parte todos daqueles 30 mil livros que ainda não leu, mas que tenciona a ler; mais aqueles sobre os quais esboçou interesse, e que ainda não tem. Em suma, aquela sabedoria não lida, mas que gostaríamos de ler. E, quem sabe, aquela que nem sabemos existir! No mundo rápido da produção científica de hoje, não mais pudemos excluir a “antibiblioteca” de cada investigador e de cada leitor. Sem queremos estar a soar apologéticos por qualquer falha possível, o nosso conhecimento bibliográfico é, deste modo, autobiográfico. O próprio Umberto Eco via na biblioteca a função primordial de descobrir livros cujos títulos e interesse desconhecíamos (1987: 28-9); e a sua travessia, uma aventura (1987: 32). Que a nossa investigação seria escrita e norteada de modo diferente, caso tivéssemos enveredado por aquele corredor ou por aquela biblioteca (hoje, também virtuais) nos caminhos do tempo, parece já uma convicção… Fica no entanto uma evidência: o turista (objeto) é uma continuação de nós, investigadores e cidadãos como eles (sujeito), e vice-versa. Reforçamo-nos múltipla e mutuamente (Lopes, 2002: 7148 Esse ganho de consciência parece ser o que distingue o turista do etnólogo, diz-nos Carlos Fortuna, parafraseando um Dean MacCannell preocupado com a sobreposição dos papéis de ambos (1999a: 60-2). A tristeza com que saímos de Florença, em lugar de felicidade despreocupada por termos conhecido novo local, ressubjectivou-se em consciência investigativa: passamos de turistas a sociólogos interessados na temática. Um sociólogo-cidadão (Lopes, 2002: 69)? 71 2), nós que fomos e somos turistas às vezes, e eles que são “não-turistas” a maior parte do tempo, nas suas diversas profissões e modos de vida – essa vida que nos é comum. Roland Barthes uma vez escreveu que “a ciência nada tem a ver com o inefável: ela tem de falar da vida, se quiser transformá-la” (1997: 183). O nosso discurso sobre os turistas será, então, tudo menos inefável; transformar é, contudo, uma ambição bem mais gigante, talvez nem sequer concretizável pela natureza desta investigação. O nosso desassossego permanece. 72 3. O (destino) dos dados do Porto turístico 3.1. Modos de relação do turista com a cidade Nos traços do desenho metodológico da nossa investigação, a técnica da observação precipitou-se como primeiro passo a dar: serviu de pórtico para o trabalho de campo propriamente dito, pois o terreno, esse, era o nosso de todos os dias, os espaços públicos e semipúblicos da cidade do Porto que nos habituámos a calcorrear e a frequentar ao longo dos anos. O objetivo que guiou as nossas pisadas desta vez era, no entanto, diferente, de outra ordem: era sociologicamente estruturado, numa transmutação do olhar de sempre para um olhar cientificamente atento no contexto do nosso tema. Esse tema é o turismo na cidade portuense, e a análise-pela-observação desse fenómeno tornou-se imperativa para nos desgarrarmos da constância do dia a dia, daquele quotidiano desde onde começamos a ver turbas de turistas a visitar uma cidade volvida qual tesouro escondido. Estas considerações remetem para outros redutos, contudo. Neste texto, procedemos à inventariação narrada dos dados recolhidos pelos nossos olhares do Porto turístico. A “parcela” escolhida da cidade recaiu no seu centro histórico – por sinal Património Mundial da Humanidade - ao agir de chamariz para o pássaro turístico, nesta e noutras cidades. A delimitação espacial foi importante para nos limitarmos, passe a redundância: não quisemos nem podíamos abarcar todas as expressões turísticas da cidade 49 , além de que o seu núcleo histórico entrelaçava-se decisivamente com as interrogações que acalentaram a chama investigativa. A entrada neste meio “reconfigurado” foi relativamente simples, como pensávamos que fosse. Era a nossa cidade, ao fim e ao cabo, e os sítios que consideramos como turísticos (ou turistificados, dependendo do óculo analítico) no espaço público do núcleo histórico são abertos aos seus habitantes (ainda que alguns os banem dos seus percursos portuenses por via daquela condição). Abertos e inevitáveis: se são históricos na génese e nas funções atuais, são pendulares para muita gente que passa lá todos os dias em direção a outras paragens. Quando “vamos à Baixa” passamos por alguns deles sem reais tenções de os visitar; ou quando saímos da estação de S. Bento para a cidade circundante. As possibilidades são diversas, e quisemos justamente tentar afastarmo-nos dessas realidades transparentes, porque familiares (o que nem sempre foi praticável). Ao mesmo tempo, quisemos que essa transparência se tingisse de alguma opacidade: na medida do possível, libertarmonos das leituras imediatistas do “turista que invade a nossa cidade e os nossos espaços”. Tornar essa presença mais opaca, isto é, mais complexa de interpretar, esperando rebentos futuros que depois nos ajudassem nos nossos objetivos. Por isto dizemos que a entrada no meio de sempre foi “relativamente” simples: fisicamente sim, era chegar e entrar logo, sentar, andar, olhar sem merecer trejeitos reprovadores, sem ter de pedir permissão pois era mais um transeunte no caos urbano; mas nas nossas 49 A língua inglesa oferece-nos a expressão idiomática perfeita para esta situação: não nos ocupámos com muitas coisas ao mesmo tempo para depois não dar atenção a nada, ao jeito de um spreading too thin. 73 categorias mentais, tivemos de nos esforçar para reinterpretar os sentidos turísticos dos espaços observados, “nossos”, mas noutros sentidos. A estratégia temporal foi bifásica: efetuámos 10 observações ao longo de duas semanas, de 23 março a 5 de abril de 2015, apanhando os ritmos prévios ao período pascoal, e à Páscoa em si. O fluxo turístico desta época costuma ser intensificado, e achámos que serviria de antecâmara para o verão, tempo de excelência das férias e do turismo (embora, com modalidades de viagem como o city break, os destinos urbanos recebam visitantes todo o ano). Analítica também: na primeira semana, fizemos 5 observações livres, mais ou menos cronológicas, preparando o terreno e as categorias para observações mais seletivas na segunda semana (que igualmente viriam a ser 5) 50 . As primeiras cinco observações foram um maná, se nos é permitida a expressão (de 23 a 31 de março): duas não participantes na Ribeira, em momentos distintos do dia e até com climas antagónicos; duas participantes/conversacionais em dois postos de turismo da cidade, um privado e outro público, da Câmara Municipal do Porto; e uma “deambulatória”, ao ter sido realizada no Dia Nacional dos Centros Históricos (DNCH), onde abrimos uma exceção saudável (e cansativa) para percorrermos o núcleo histórico do Porto de fio a pavio. Exceção porque marcou distâncias relativamente às outras quatro, fixas num dado espaço, onde postávamos fronteiras simbólicas e dizíamos “daqui não passo”, apenas mudando os ângulos de observação no seu interior. A Ribeira surgiu como primeira escolha óbvia: será um dos lugares a que um turista recémchegado ao Porto virá ritualisticamente. Vejam-se as nossas notas nesse sentido: “Apesar de não conter um monumento histórico-arquitetónico tão conhecido como a torre e igreja dos Clérigos, por exemplo, a Ribeira configura-se como um monumento „gigantesco‟ em si, traçando, com as suas ruas e vielas, história e paisagem, declive e edificado, uma área amplamente turistificada no contexto do centro histórico do Porto” (observação n.º 1, 23 mar. 2015, Ribeira) O mote destas primeiras observações era sempre o turista, quer dizer, aqueles que nós conseguíamos identificar como tal, e as suas relações com o espaço visitado. Não viria a ser um desafio hercúleo: há traços distintivos no turista, salvaguardando algumas generalizações perigosas. A presença de um mapa urbano na mão, a câmara fotográfica ao pescoço ou a trabalhar, um ou outro guia turístico, uma expressão corporal vagarosa e curiosa em relação ao que o rodeia, são parte desses traços que volta e meia engavetámos como “de turistas”. Nos primeiros dias, na Ribeira (e em todos os restantes, bem entendido) sentimos a prevalência de casais jovens, de homem e mulher, a rarefação de grupos numerosos dentro da falange turística, a tarde (soalheira) mais popular que a manhã (chuvosa). A câmara fotográfica, igualmente e nas mutações mais recentes em smartphones ou tablets, foi um dado adquirido logo à partida: é bastamente usada pelos turistas, tanto para fotos de perfil como da paisagem em redor. 50 Ao longo deste relatório, não exoneramos a consulta das duas tabelas-síntese das nossas observações, cada qual com cinco ocorrências: cf. Quadro n.º 5, e quadro n.º 6. 80 conhecedor da “sua” cidade, mas não descura a utilidade dos postos de turismos para sair do Porto rumo a outras paragens periféricas. “(…) quando vens sabes mais ou menos o que visitar, onde ir, como ir… o importante é como ir também. Como funcionam as coisas… Por exemplo, eu queria ir a Fátima, eu já sabia onde é que tinha de ir para comprar o bilhete e o caraças. (…) Mas já sabia, e eles [os turistas] fazem igual como nós.” Depois do espaço, as pessoas. É da sua opinião que o Porto abre-se cada vez mais ao turismo, e que os turistas respondem de igual forma, reconhecendo a hospitalidade e relacionando-se facilmente com a população local. Para trás fica um passado obscuro, onde o local tentava enganar o visitante. Fala mais dos turistas em geral sem se percecionar como tal, certamente ciente de estar a entrar na sua cidade, e da simplicidade daí advinda quando contacta com as suas gentes. “As pessoas [do Porto] começam a…como é?, a investir-se, estás a ver… (…) é, querem falar com as pessoas. (…) antes, havia aquela coisa de tanga, não é, é camone ou o carago, vamos lixá-lo, agora não… Não, não, agora vê-se que não é assim, mesmo na Ribeira.” Nos consumos que realizou na sua estadia, a alimentação surge clara favorita, valorizando, ao mesmo tempo, a autenticidade da gastronomia local, que não encontra, com o mesmo paladar, na Suíça “aportuguesada”. Desconfia dos espaços mais turísticos a este nível, como a Ribeira, e que os turistas também sabem que não é neles onde se poderá comer melhor na cidade. Mas depois surge o preço acessível face ao país de origem, e o turístico prevalece. “Ir aqui é imbatível. Um gajo come por… 5 euros, o que é isso? (…) O pessoal que vem não é burro nenhum, depois começa a perceber os gostos daqui: aqui é bom”, “ali não é”, “ali é menos bom” (apontando para diferentes direções com a mão direita). (…) e a comida, eles [os turistas] sabem perfeitamente que não é para portuenses, é para pessoas estrangeiras. Os gostos não podem ser iguais. (…) [mas] não falha – é sempre mais barato.” O entrevistado tem plena consciência dos tipos de deambulação que o turismo urbano proporciona, tanto o dos percursos pré-determinados pelos roteiros oficiais, como o dos cantos e recantos que possa encontra num passeio mais atento e “desviante”. Curiosa a ideia de que a Ribeira, por exemplo, não é para “nós”, portuenses; e pela força da turistificação, parece fadada, hoje, à vista do visitante. A ideia expande-se quando refere que há certos lugares numa cidade desconhecida onde impreterivelmente se tem de ir; e outros, escondidos, ligados ao local de alojamento do turista, indicando o caminho (“bastidores”) que leva ao destino (“fachada”). “A Ribeira é um ex libris, faz parte do Património Mundial da UNESCO... (…) Quem não vai à Ribeira? É como ir a Roma e não ir a S. Pedro. Ou ao Coliseu. (…) há sítios onde tens que ir. A Paris tens que ir à Torre Eiffel. (…) E depois, se és curioso como eu sou… (…) depois saio, e vou explorar sozinho…” Confrontando o Porto com outras cidades da sua experiência turística, o entrevistado assevera que a primeira leva todas à frente no departamento da hospitalidade, muito por culpa de estar no início da epopeia turística, e pelo caráter da sua população. Barcelona, Paris, Nova Iorque, e outras citadas, 81 já naturalizaram o turismo, englobando-o na sua vida quotidiana (cosmopolita?), não o vendo tão estranho, mas perdendo humanidade nessa exata medida. “ (…) acho o Porto muito mais acolhedor. Mesmo na chegada do aeroporto, és bem recebido, estão ali, dão-te os mapas, as pessoas riem-se… dá-te vontade. (…) [Sobre Barcelona] chegas, acabou. Desenrasca-te (…) estou a falar à chegada do aeroporto. Ninguém te liga!... Podes cair, ninguém te vai levantar. Em Nova Iorque, então, tem de ser mesmo a sério para que os gajos olhem para ti. (…) Sabem que as pessoas vêm, porque é conhecido, e é assim. Enquanto que aqui [no Porto], está no início duma grande aventura. Há que ver só há dez anos atrás… poça…” Faltava a opinião definitiva sobre a sua própria cidade, ainda sob o ponto de vista do visitante que já conhece estas margens. Aos seus olhos, o Porto não é único, é apenas diferente das outras, com as suas virtudes e defeitos. A autenticidade parece residir na sua população, sempre solícita a ajudar amigo ou desconhecido. O contraexemplo de Paris é fornecido. “É, pertence aos portuenses, e vê-se na vida de todos os dias, no autocarro, andas de autocarro e vês, as pessoas começam a falar… ainda há bocadinho aquela senhora, que estava com o outro senhor, o outro vem se sentar, ela começou a falar com ele, por causa da EDP, da bicha, e não conhecia o senhor de lado nenhum. Eh, carago… isto é… (…) Vais em Paris no metro, (…) ninguém fala contigo. (…) olha-te é de lado, mas é... (risos). Começas a olhar muito para alguém, é logo um „que é que você quer?‟, ai é…” Uma entrevista exploratória deste género foi proveitosa para o porvir do trabalho em mãos, repercutindo os seus ecos nas etapas de formalização do corpus de fotografias do Porto e na construção do inquérito por questionário. Mesmo considerando o vaivém entre o visitante e o portuense que o turista A protagonizou (ou se calhar até por causa disso), obtivemos ganhos de consciência sobre um Porto preparado e disposto para o turismo, onde há sítios inevitavelmente “mais visitáveis” que outros, e uma população que constitui a diferença da cidade, assim separando-a do resto. 3.2. Um corpus de imagens fotográficas, entre a simplicidade e a imaginação Uma simples procura na internet no motor de busca do Google - com as palavras-chave “visit Porto”, os termos usados pelo turismo do Porto para dar nome ao seu website oficial - oferece-nos uma pletora de fotografias da cidade portuense, cada uma representando um lugar desse espaço urbano, e todas hiperligadas a páginas informativas. O foco da procura recai no cabeçalho do Google, que mostra um menu horizontal, pontuado pelas imagens referidas, sendo denominadas de “pontos de interesse” 54 . Esses pontos distribuem-se de acordo com a tabela abaixo, em quatro categorias por nós definidas: Quadro n.º 1 - “Pontos de interesse” do Porto em imagens (pesquisa pelo Google) 54 Cf. Figura n.º 2 - Cabeçalho do Google sob a pesquisa “Visit Porto”. 82 A categorização acima não é exclusiva, isto é, haverá imagens que poderão facilmente integrar-se em mais do que uma categoria: as pontes de D. Luís e de D. Maria na das paisagens; alguns museus naquela que engloba os edifícios históricos (como o Museu Nacional de Soares dos Reis); a Livraria Lello & Irmão, nos edifícios históricos. Ademais, poder-se-ia alegar a existência de mais categorias: lugares, ruas, streetscapes. Diríamos que as imagens apresentadas pelo cabeçalho da Google não permitem tamanha afinação. O critério espacial que nos interessa é delimitado, porém, pelo centro histórico do Porto, a sua Baixa, o espaço consagrado como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO em 1996. Um corpus de imagens oficiais passível de ser aglutinado e analisado por nós começará, e acabará, nestas coordenadas. Procedemos a fazer um “mosaico” das imagens do cabeçalho da Google que cumprem neste pressuposto 55 . A disposição das imagens foi arbitrária, tornando irrelevante qualquer critério de hierarquização entre elas. E foram as imagens que apareceram. O Google disponibilizará milhares de imagens sobre o Porto através do seu motor de busca, mas é elucidativo que opte pelas do Wikipédia (na maior parte dos casos) para ilustrar o menu horizontal da figura n.º 2, sumariamente definidas como “pontos de interesse”. A Wikipédia, sendo outra espécie de motor de busca, representará os 55 Cf. Figura n.º 3 - Mosaico das imagens do cabeçalho do Google. Monumentos e edifícios históricos Museus, arte e interiores Paisagens Outros “Pontos de interesse” Torre dos Clérigos Fundação de Serralves Rio Douro Estádio do Dragão Palácio da Bolsa Livraria Lello & Irmão (interior) Funicular dos Guindais Ponte de D. Luís Casa da Música Sea Life Center Igreja de S. Francisco Museu Nacional de Soares dos Reis Estádio do Bessa Sé do Porto Igreja de Santa Clara (interior) Igreja de Santo Ildefonso Coliseu do Porto Forte de São Francisco Xavier do Queijo Teatro Rivoli Ponte de D. Maria Pia Museu Militar do Porto Paço Episcopal do Porto Mosteiro de São Bento da Vitória (interior) Igreja de S. Martinho de Cedofeita Casa-Museu Guerra Junqueiro Palácio de S. João Novo Casa de Serralves Fonte: www.google.pt (pesquisando com os termos “visit Porto”, consultado pela última vez a 29 de maio de 2015. 83 lugares dos quais tem informação com imagens representativas (ou identificativas) dos mesmos, ajudando o Google, que, por seu lado, ajudará quem escrever “visit Porto” a situar-se rapidamente. O mosaico da figura n.º 3 expõe imagens superficiais, algumas até cuidadosamente montadas (a da Torre dos Clérigos, com o elétrico parado em baixo, extrapola, de uma penada, dois ícones da cidade), mas entendemos aqui a superfície como a primeira camada de perceção da realidade, e não como algo a ser censurado. E a superfície destas imagens, não sendo ainda oficialmente turísticas (ao virem da Google, da Wikipédia, e não de um órgão oficial ou empresa turística), denota, contudo, um sintoma típico do processo de turistificação de um lugar: a sua transformação simbólica para um “lugar diferente”, aos olhares de quem o visita de fora. A literatura de análise a guias de papel turísticos assenta, em grande medida, na compreensão dessa transformação simbólica do lugar (Gorp, 2012). Não falamos de guias aqui; todavia, a compreensão dos seus modos de fazer é-nos útil para o trabalho em mãos. Eles, os guias, baseiam-se bastante na imagem fotográfica e no seu respetivo compêndio, ou melhor, nas imagens projetadas de um lugar - uma representação dentre várias possíveis - tornando-o, por via disso, num destino turístico para quem as olha. Deste modo, a fotografia (lado-a-lado com o texto) revela-se fundamental no supramencionado processo de turistificação, e quem a usa para fins turísticos seleciona fragmentos de um lugar (Sontag, 2012), ao mesmo tempo determinando a superfície da realidade que passa a ser conhecida pelos potenciais turistas que as veem (no nosso caso, estrangeiros). O famoso Guia Azul – a coleção mais antiga de guias turísticos franceses – é um tipo-ideal de realidade seletiva: Roland Barthes diz-nos que esta coleção de guias notabilizava-se pela descrição monumental dos lugares que apresentava nas suas páginas, afastando a geografia humana (do tempo presente) da compreensão do leitor (1997: 113-4). A “descrição monumental do lugar” é uma evidência habitual na imagética do turismo. Não sendo ainda turísticas nos termos descritos acima, as imagens deste mosaico encerram uma estratégia atuante da máquina turística: a petrificação, e/ou a fossilização de lugares, a primeira reportando mais a edifícios, a segunda a pessoas mortas, costumando atuar em conjunto (Gorp, 2012). A transformação simbólica do lugar em destino turístico está subjacente a esta estratégia, tendo por objetivo transportar um lugar para “outro tempo”, invocando o seu passado, as suas glórias (passadas), a sua história. Torna-se assim patente que o foco (fotográfico, literalmente) da petrificação é o património monumental-histórico de um lugar, os seus monumentos e museus, a pedra que simboliza o passado, e, no caso da fossilização, é a pessoa morta, o ilustre que arquitetou um edifício histórico ou o pintor que obrou maravilhas artísticas, o sangue de quem já viveu (mais presente nas narrativas e discursos sobre um lugar, e não tanto nas imagens per se). Não se exclui desta estratégia a arquitetura mais recente: também ela, misturada com o edificado de outros tempos, transforma uma cidade em algo diferente, em “outro lugar”, pela mistura calculada de “tradição” e “modernidade” (Gorp, 2012). Em quase todas as fotografias da figura n.º 3 notamos a petrificação, não obstante assumindo que a do rio Douro será a que menos nos transportaria para “outro tempo” (embora a fachada da 84 Ribeira esteja presente), bem como a do Teatro Rivoli e a do Coliseu do Porto. Tanto no interior como no exterior, a história pressente-se, e a beleza monumental do passado ressurge. As pessoas vivas quase não fazem parte do ângulo: estas imagens dizem-nos que servem de figurantes no contexto geral da petrificação, no fundo, da transformação de um lugar em destino turístico pelos caminhos do passado. Por outro lado, a maior parte destas imagens reporta a elementos distintivos do Porto, daí serem hiperligadas da Wikipédia: a Torre dos Clérigos, o rio Douro, a Sé, a ponte de D. Luís. Elementos configurados pela sua materialidade, mas que distinguem a cidade de outras: ela será diferente na medida em que qualquer outra cidade não terá exatamente a mesma semelhança e disposição física (Fortuna, 1999a). Por si só, isso não é suficiente para turistificar um lugar: é preciso transformá-lo em único, segundo variadas estratégias. É preciso estabelecer ainda mais diferença, especialmente para lugares física e culturalmente próximos da origem geográfica do turista estrangeiro - em requinte caricatural, um ocidental que visita o Ocidente (Gorp, 2012). Ou talvez numa palavra só, autenticidade. Neste ponto da estrada surge-nos o primeiro percalço. Não podemos, em bom rigor, incrementar o nosso corpus de imagens com as fotografias que estão sob a égide do turismo oficial do Porto, no seu acervo de fotografias no Flickr – a nossa intenção depois do Google. A sua natureza é mais própria de um esquema “público-privado”, onde cada pessoa que adere ao grupo pode carregar uma fotografia da cidade, encobrindo-a no manto do Visit Porto. A realidade é mais dura do que o imaginado: não sabemos quem são e, nas fronteiras públicas das suas vidas, se são portuenses ou turistas. Esta distinção fará algum sentido quando tomamos em linha de conta os diferentes modos de olhar uma cidade entre um residente e um visitante, de alguém que já está lá há anos versus um indivíduo recém-chegado para uma curta estadia. O turismo é pródigo em acidentes de percurso: malas extraviadas, desilusões, expectativas furadas, saudades de casa. Turistas na nossa cidade, daquela feita por caminhos cibernéticos, tomamos um atalho, intentando formalizar um corpus de imagens oficiais por outras paragens: o exercício que ainda fizemos sobre o turismo oficial do Porto fica como curiosidade do nosso percurso analítico, patente em anexo 56 . Deste modo, um outro website de notada reputação para o turismo portuense é o “visitportoandnorth.travel”. Em título muito similar ao do turismo oficial do Porto, este representa os esforços das agências regionais de promoção turística do Norte de Portugal, englobando tanto empresas privadas como entidades públicas na expansão internacional da atividade turística daquela região. A Associação de Turismo do Porto, juntamente com agentes privados e a chancela do Turismo de Portugal, encabeça o respetivo rol de instituições, assumindo o turismo como um setor estratégico da economia, tal qual previsto no modelo nacional para a área 57 . 56 Cf. Anexo n.º 6 - Passagens de uma tentativa de análise às fotografias do “Visit Porto”. 57 Cf. http://visitportoandnorth.travel/About-ARPT-in-Porto-and-the-North (consultado pela última vez no dia 11 de junho de 2015). 85 O primeiro facto a realçar-se neste portal é a adição da região Norte de Portugal à cidade do Porto na eleição das regiões turísticas a promover. O seu cabeçalho ilustra a constatação: “Porto and the north, the essence of Portugal”. Mais uma vez, a terminação do endereço é “.travel”; e, a exemplo do Visit Porto, a primeira página do website não abunda em imagens 58 . A diferença é que abre em inglês por defeito, ao contrário da Visit Porto (em português). O website espraia-se verticalmente, apresentando, em sucessão, as vertentes turísticas que a toda região nortenha portuguesa tem para oferecer aos seus visitantes. Na figura n.º 5 vemos as duas primeiras: “city breaks”, paisagem do Porto atrás, com o subtítulo “tradition and modernity” 59 ; “touring”, um cruzeiro em águas durienses, com a legenda “history, culture and religion”. As vertentes sobrantes incluem “Golf, sport and leisure”, “health and wellness, emotions and sensations”, “nature, natural parks and sports activities in nature”, e finalmente a que respeita ao “business, congresses, incentives and events”. A oferta parece ser superior à do Visit Porto, até por compreender toda a região norte do país; e cada vertente assim designada possui, pelo menos, três imagens, uma maior, e as restantes em tamanho mais reduzido em comparação. Como dissemos, as imagens não abundam, mas ocupam espaço considerável no layout da página: são poucas mas relativamente grandes, detetando-se uma maior preocupação de se fazerem chegar aos olhos do cibernauta, ao invés das imagens da página principal do Visit Porto. As funcionalidades de informação mais recorrentes neste tipo de websites estão igualmente presentes, no cabeçalho: o que visitar, onde ficar, o que fazer, ofertas especiais, agenda de eventos. Procurando um banco de imagens, apercebemo-nos que o método é idêntico ao do Visit Porto: as fotografias em bruto estão alojadas no Flickr, cuja hiperligação nos leva diretamente ao grupo do “Visit Porto and North” no serviço, sem dar azo a um tipo de galeria que mostre imagens devagar, a exemplo do homólogo portuense. O grupo é bem mais parco em palavras (e imagens, diga-se) que o primeiro, tendo sido aberto em maio de 2012: intitula-se “Porto Convention & Visitors Bureau”, repartindo o seu património fotográfico em quatro categorias diferenciadas: Trás-os-montes (34 fotos), Minho (57 fotos), Douro (48 fotos) e Porto (141 fotos), à data de 11 de junho de 2015. O perfil do grupo assegura-nos que o “Porto Convention and Visitors Bureau” é uma associação sem fins lucrativos com membros dos setores público e privado do turismo português, tendo sido implantada pela Associação de Turismo do Porto, e criada para efeitos do esforço conjunto de publicitação turística do Porto e do Norte de Portugal. 58 Cf. Figura n.º 5 - Imagem recortada da página principal do website “visitportoandnorth.travel”. 59 O subtítulo da vertente de city break, “tradition and modernity” é mais um exemplo de como a transformação simbólica de um lugar operacionaliza-se: embora a fotografia atrás do Porto não denuncie explicitamente a “tradição” e a “modernidade”, as duas palavras, quando conjugadas na mesma linha de um texto turístico, traduzem amiúde uma mistura de dois tempos diferentes, o “velho” e o “novo”, como que dizendo que um lugar pode ser tradicional (antigo, histórico, velho num sentido elogioso) e moderno (novo, na moda e na atualidade, inconformado) ao mesmo tempo, seduzindo visitantes por via dessa condição (Gorp, 2012). 86 Caixa de texto n.º 1 – Descrição do perfil do grupo “Porto Convention and Visitors Bureau” no Flickr A língua inglesa é novamente a eleita para transmitir os desígnios do grupo, claramente virada para os mercados internacionais de captação de turismo: o texto subscreve essa posição. Ao alargar o perímetro destinado à atividade turística, o “Porto Convention and Visitors Bureau” diversifica o perfil de turistas/visitantes que quer e pode receber, nomeadamente desejando as boas-vindas ao chamado turismo de negócios. A estratégia está bem explanada, e a diversidade turística assegurada. Lembrando as vertentes de turismo acima mencionadas, somos tentados a afirmar que um destino turístico também se constrói pela diversidade de experiências que conceptualiza, e não só pela diferenciação geográfica que uma região pode descrever em relação a outra (Gorp, 2012). Assim temos o turismo de negócios, bem como o turismo de natureza, o turismo desportivo e o turismo de saúde. O mesmo se aplica a um espaço aparentemente confinado às fronteiras urbanas, como o Porto, adicionando às declinações anteriores, por exemplo, o turismo cultural ou o turismo gastronómico (no Porto, até o turismo vínico, aprofundado Douro acima). Fica, contudo, explícito que o conteúdo imagético deste grupo é estritamente oficial - indo a contrario do que ocorre no homólogo do Visit Porto no Flickr -, abrindonos a possibilidade de começarmos a construir o nosso corpus de imagens. A repartição do acervo feita por este organismo institucional é-nos frutífera, ao isolar logo à partida as fotografias que relevam na nossa investigação. Ao polarizar toda uma região, não é surpreendente que seja o Porto a reclamar o maior número de imagens, com 141 60 . Entrando na pasta da cidade portuense, verificamos que uma descrição foi produzida para o respetivo álbum. 60 Mesmo assim, distantes das mais de mil do espólio do Visit Porto entrevisto acima. O matiz público desse grupo autoriza, na nossa opinião, o crescimento exponencial e contínuo do número de fotografias disponíveis. Fonte: flickr.com/people/visitportoandnorth (consultado pela última vez no dia 11 de junho de 2015) “Our principal objective is to promote Porto and Northern Portugal in foreign markets as a Business and Visitors Tourism Destination. To achieve this, our marketing campaign includes participating in international conference and incentive trade shows, advertising in the main international media that target the business travel market and organizing workshops, familiarization tours and special events, both under the aegis of the Portuguese Institute for Tourism and with the support of our Members.” (trad.: O nosso objectivo principal é promover o Porto e o Norte de Portugal, enquanto destino turístico de negócios e para visitantes, nos mercados estrangeiros. Para atingir isto, a nossa campanha de marketing inclui participações em conferências internacionais e feiras de incentivo, publicidade nos principais media internacionais que tratam o mercado das viagens de negócio, organização de workshops, tours de ambientação e eventos especiais, tudo sob a égide bipartida do Instituto Português para o Turismo e do apoio dos nossos Membros.) 87 Caixa de texto n.º 2 – Descrição do álbum de fotografias “Porto”, do grupo “Porto Convention and Visitors Bureau” no Flickr Este texto franqueia-nos as portas de outra categoria de focagem fotográfica, passível de ser identificada como estratégica na nossa análise: a virtualização. Não que ela esteja ausente nos tipos de fotografia supramencionados: apenas encontra-se mais intensamente nesta categoria. A virtualização é outra estratégia que subjaz à transformação simbólica de um lugar em destino turístico. Através dela, o lugar material passa a incorporar uma aura de “ambiente”, isto é, uma atmosfera que é criada em redor do espaço físico (Gorp, 2012). O lugar não desaparece, como se verá pelas fotografias: haverá, pelo contrário, uma ênfase especial no ambiente, baseado em elementos como o pôr do sol, a alvorada, ou o pitoresco, entre muitos outros. Virtualizar, criar uma experiência que ainda não o é, destinada a ser vivida no exato local virtualizado pela imagem, aparentemente inalcançável no dia a dia do turista potencial – reunindo-se, neste preciso ponto, com as outras estratégias, demonstrando o objetivo comum de edificar outra coisa que capture a atenção de visitantes presentes e futuros. É uma estratégia assaz empregue na narrativa dos textos turísticos, como não seja pela abundante utilização de adjetivos na descrição dos lugares: dos mais singelos, como “cidade dinâmica” e “população hospitaleira”, aos mais arrebatadores, como “lugar charmoso, magnífico e encantador” (Gorp, 2012). Uma fotografia, por si só, não consegue acompanhar o cortejo imparável de qualificativos para o qual um texto pode servir de palco; pode, no entanto, mostrar-nos a facilidade com que se pode olhar de uma determinada maneira para um lugar. E essa compreensão é-nos muito útil para entrarmos nos olhares do turista: são modos de ver um lugar, às vezes com aquela representação muito sedimentada do património histórico-monumental, outras vezes com expectativas “paisagísticas”, capazes de desencadear emoções de espanto e entusiasmo (Gorp, 2012). A fotografia (ou imagem, em sentido lato) aciona a visão, mas invocará, de passo, os restantes sentidos do turista em vias de o ser, a entrada antes do prato principal – que implicará a deslocação ao sítio prometido. A “There are thousand charms and corners that are worth discovering in Porto, capital of the North. Porto is one of the oldest cities of the country, and, as such, its path is sinuous and picturesque. It is a unique experience to stroll through its streets and feel the pulse of the city. Take the tram to the mouth of the river Douro and get to know the excellent beaches and the outdoor cafés, visit admiring churches and monuments and encounter the non-conformist modernism of the new contemporary buildings of architects like Siza Vieira, Souto Moura or Rem Koolhaas.” (trad.: Existem milhares de encantos e recantos que valem a pena serem descobertos no Porto, capital do Norte. O Porto é uma das cidades mais antigas do país e, como tal, os seus caminhos são sinuosos e pitorescos. É uma experiência única caminhar pelas suas ruas e sentir o pulso à cidade. Vá de eléctrico até à foz do rio Douro e conheça as praias excelentes e os cafés ao ar livre, visite igrejas e monumentos admiráveis, e depara-se com o modernismo não-conformista de novos edifícios contemporâneos, autoria de arquitectos como Siza Vieira, Souto Moura ou Rem Koolhas.) Fonte: flickr.com/people/visitportoandnorth (consultado pela última vez no dia 11 de junho de 2015) 88 chamada virtualização, diríamos, começa na mente do indivíduo em casa, imaginando como seria se estivesse “naquele lugar, naquele momento”. Servindo de antecâmara ao álbum de fotografias, uma descrição como a presente na caixa de texto n.º 2 representa um exemplo acabado da estratégia que acabamos de designar. Os textos turísticos denotam traços de virtualização nas suas linhas: constrói-se uma narrativa, uma história que pode ser vivida por qualquer um que esteja ler as mesmas linhas, a mesma descrição. A visualização das fotografias posteriores começará nos “recantos” que o Porto tem em abundância; passará pela ruas “sinuosas” e pelas ambiências “pitorescas”; acabará numa qualquer esplanada à beira-mar, depois de visitados monumentos “admiráveis”, talvez a meditar sobre o “modernismo não conformista” da mais recente arquitetura da cidade. Ironizamos, como é óbvio, mas parece-nos que caricaturizar um percurso similar ao da descrição é um procedimento útil para compreender o que está em jogo. Aqui, as imagens seguintes ganham renovado vigor: já não serão “só” caminhos, mas sim “sinuosos e pitorescos” caminhos; às igrejas e monumentos acrescem-lhes características de admiração e espanto; a arquitetura mais recente já será porta-estandarte de um espírito “não-conformista” (face a quê?), moderno e atual, e não só “nova”. Ir até à foz do rio Douro de elétrico será diferente do que ir a pé (será melhor?). A cidade em si é uma das “mais antigas do país”, e por esse facto em específico, os seus caminhos têm de mostrar sinuosidade, têm de ser autênticas pinturas. A narrativa textual deixa, assim, a porta entreaberta para a captura de determinadas superfícies da realidade pela fotografia 61 . O próximo passo será divulgar as imagens tal qual, abrindo a possibilidade de um potencial turista imaginar-se no meio do acontecimento e “daquele” ambiente ao visioná-las 62 . Quisemos recriar este percurso implícito na narrativa textual por meio das fotografias que o próprio acervo apresenta, e a figura n.º 6 é resultado disso. A primeira fotografia é tirada desde Vila Nova de Gaia, captando parte do centro histórico portuense pelo cais da Ribeira. Excetuando o laivo de humanização no canto inferior direito (um casal a degustar um copo de vinho à beira-rio, Porto ao fundo), a Ribeira – com os seus edifícios a subirem em escadinha colina acima, seguramente ligados por ruas e vielas “sinuosas” ao estilo medieval (Mumford, 1961) – confere um verniz de antiguidade à fotografia, um panorama digno de ser pintado; e, por conseguinte, ao Porto, “uma das cidades mais antigas do país”. Depois, é um tiro descer essas ruas tortuosas, sentindo “o pulso à cidade”, e 61 Não desejando simplificar demasiado esta questão, concordamos com Fortuna quando diz que uma narrativa, ao conter uma descrição de algo material, “não diminui a complexidade do mundo, antes a amplia” (1999b: 42). O autor fala, neste caso, dos museus e dos objetos lá expostos, aos quais são apostos histórias e descrições contadas por alguém, uma narrativa dentre das possíveis, dependente da maneira de como quem a conta converte o passado em presente. Se, como dissemos acima, uma fotografia de uma paisagem estereotipa um local (ao simplificar, ao mostrar uma superfície facilmente apreensível por quem a visiona), uma narrativa, por sua vez, aprofundará (penetrará) nessa superfície, descrevendo-a a partir de um certo ponto de vista, ou cosmovisão. No exemplo acima, o Porto é apresentado como antigo, sinuoso ou pitoresco, mas a possibilidade de um percurso como o descrito – um modo de viver a cidade – reveste a cidade de um “encanto” (complexidade) que uma imagem não poderia transmitir por si só. Mas mais do que questionar o que vem primeiro, se a imagem se a narrativa, devemos atentar na simbiose entre as duas, reforçando-se mutuamente. 62 Esse visionamento, parece-nos, é similar ao que Barthes conceptualizou como o studium de uma foto: imagens que derivam um “afeto médio” do espectador, um interesse (e investimento) geral mas sem grande particularidade (1998: 45-6). Se as fotos turísticas tentam criar expectativas incumpridas no potencial turista, é pelo studium que estes as irão receber, provocando um “meio-desejo, um meio-querer” pelo que está representado (neste caso, a cidade do Porto), um maior ou menor prazer – “gosto/não gosto” - , uma aprovação ou uma recusa (1998: 48-9). 89 apanhando o elétrico que circula pela marginal ribeirinha, rumo à Foz. Antes, talvez uma visita à Igreja de S. Francisco, a uns passos da apeadeiro do elétrico (fotografia n.º 3); ou quem sabe, à incontornável Torre dos Clérigos (fotografia n.º 4), perfilada de “admirável” monumento, provocando esgares de surpresa. A última paragem poderá residir na Casa da Música (mas não de elétrico, já não passa lá…), obra do arquiteto Rem Koolhas, para se poder absorver o espírito “modernista e nãoconformista” que ela exala, em contraste com outros edifícios já não tão contemporâneos (quiçá “conformistas”). Num itinerário apenas, capturamos fase por fase as mais variadas estratégias de transformação turística, ora em solitário, ora em diálogo: a petrificação (igrejas e monumentos), os estereótipos (o elétrico e a paisagem), a virtualização (também a paisagem portuense, e o ambiente de cidade “antiga” miscigenada com o da cidade “moderna”), a diversidade (o contraste de experiências possíveis, ou, com mais afinação, a existência de uma “modernidade não-conformista” que lança a cidade para os tempos presentes), e até mesmo uma fossilização “atual”, se considerarmos a menção de arquitetos famosos com obra feita no Porto. O texto e a imagem funcionam aqui em tandem, duas forças que funcionam melhor quando unidas: e será por isso que detêm importância sem paralelo na transformação simbólica do lugar em destino turístico. Afora este exercício, e pela quantidade relativamente diminuta do acervo deste grupo, procedemos à sua categorização pelas características levantadas acima. Alargamos o número de categorias em relação à última tabela (referente aos pontos de interesse mostrados pela Google), uma vez que a diversidade do conteúdo imagético deste acervo assim o autoriza. Quadro n.º 2 – Frequência e variedade das fotografias do álbum “Porto” do grupo “Porto Convention and Visitors Bureau” no Flickr Variedade Frequência % Monumentos e edifícios históricos 22 16 Museus, interiores e arte 35 25 Paisagens 24 17 Acontecimentos e eventos 34 24 Outros i) Gastronomia ii) Iconografia iii) Aeroporto 14 3 9 10 2 6 Total 141 100% Mais uma vez, a categorização não é exclusiva: por exemplo, haverá paisagens que se enquadram na perfeição na categoria dos monumentos e edifícios históricos, e vice-versa. E o pressuposto que subjaz a cada uma poderia uni-las numa só: nesse caso, tanto a dos monumentos Fonte: flickr.com/people/visitportoandnorth (consultado pela última vez no dia 11 de junho de 2015) 96 porque não se pode provar de longe, a comida (fotografada) espelhará com propriedade o rifão popular “mais olhos que barriga”, mostrando-se visualmente impactante (bonita, até artística) para depois se inculcar nos desejos comportamentais do turista que há de chegar. O último ingrediente da virtualização é colocado na confeção: temos paisagem, ambiente, pessoas... faltará algo insubstituível à condição humana, a alimentação. Se existe um elemento capaz de virtualizar ao máximo a préexperiência turística do potencial visitante é justamente a comida – porque para além da visão, é uma virtualização que experimenta com o nosso paladar e olfato (Gorp, 2012) -, e o Porto oferece um vasto cardápio nesse departamento. As fotos gastronómicas não estariam desfasadas, todavia, se se incluíssem na categoria da “iconografia”. Como referido, alguns pratos da gastronomia portuense já se alpendoraram ao título de “ícones” urbanos, associando-se a sua visualização à própria cidade: são elementos temáticos do Porto. Porém, elementos deste âmbito, centralmente focados pela lente fotográfica, encontramos pouco: apenas dois elétricos e um barco rabelo, este exposto na foto n.º 2. Mais espalham-se, aqui e ali, pelas fotos do acervo; e outras fotografias serão, elas próprias, autênticos ícones, como a Torre dos Clérigos ou a Ribeira, capazes de nos localizar e fazer divagar por um espaço, uma cidade. Serão âncoras de referência para quem nos visita, espaços-tempo e experiências que terão de ser, a todo custo, ocupados e cumpridas. No fundo, um lugar estereotipado, simplificado por “temas”, com caminho livre para se tornar em destino turístico (Gorp, 2012). Para perorar esta análise, escolhemos um terceiro portal cibernético, com origem no estrangeiro: neste caso, o do European Consumers Choice (ECC), uma organização não-lucrativa baseada em Bruxelas que avalia produtos de consumo que vão desde o design ao turismo. Emparceirando-se com organizações de foro turístico, ela vem outorgando, desde 2013 e anualmente, o prémio de “Melhor Destino Europeu”, valendo-se de estatísticas e do conselho de profissionais da área para definir um quadro seletivo de 20 cidades, as quais entram num escrutínio online feito por cidadãos europeus. A iniciativa tem granjeado sucesso e, como sabemos, o Porto foi a cidade mais votada na edição de 2014 68 . Este galardão goza de importância relativa, mas convém assinalar a aclamação turística de que o Porto é alvo depois de recebê-lo: publicidade, fama, mais visitas e maior diversidade de públicos, especialmente estrangeiros. Uma das consequências imediatas foi a de o website do ECC começar a disponibilizar um pequeno guia turístico da cidade após a decisão, servindo de rampa de lançamento para quem tenha ganho interesse em visitá-la 69 . Esta hiperligação representa uma das três primeiras arroladas pelo motor de busca da Google ao inserir os termos de pesquisa “Visit Porto”. O guia turístico em formato de website do ECC apresenta-se extenso e recheado de informações de âmbito turístico: “see, do, shop, eat, live, sleep” são as palavras que encimam o guia 68 Informação recolhida, e disponível, em www.europeanconsumerschoice.org/about-us/, website consultado pela última vez a 15 de junho de 2015. 69 Informação recolhida, e disponível, em www.europeanconsumerschoice.org/travel/visit-porto-travel-guide/, website consultado pela última vez a 15 de junho de 2015. 97 em si, qual arcada. O guia turístico é a primeira e última página do website, isto é, apresenta-se ao longo de uma largura considerável, apenas dispondo de alguns pontos de escape ao discriminar as zonas do Porto da seguinte forma: “City centre of Porto” (centro da cidade do Porto), “Ribeira & Miragaia”, “Vila Nova de Gaia”, e “Seafront” (beira-mar), cada qual com um texto descritivo e um mosaico de fotografias hiperligadas às palavras acima enumeradas 70 . Afora esse conteúdo primordial, o resto reparte-se entre uma introdução à cidade, um vídeo, dois mapas interativos, uma ferramenta de planeamento de estadia, a previsão meteorológica mais próxima, direções, e várias informações relativas aos meios de transportes da cidade, não descurando as hiperligações aos websites das instâncias oficiais do turismo da cidade – visitporto.travel – e do país – visitportugal.com – bem como ao Facebook. A língua escolhida é o inglês, sem aparente alternativa. Num website de vocação internacional fará pleno sentido, mas é interessante verificar que não tem outras línguas francas europeias como o francês ou o alemão. Uma nota de relevo vai para o título da introdução à cidade - “Bem-vindo ao Porto!” – em português sem tradução, enquanto o texto abaixo desfia-se em inglês: é tão-só um par de palavras no idioma do destino, mas com as quais o potencial turista pode exprimir uma primeira identificação com o propósito da viagem, comparável com aqueles dizeres fáceis e simplificados na língua do país do destino (um “olá” ou um “por favor”) que o indivíduo aprende apressadamente antes de seguir viagem para o mesmo (Fortuna, 1999a). No que toca a um possível banco de imagens, à semelhança dos anteriores websites, apenas nos deparamos com quatro mosaicos de imagens na própria página principal do guia turístico do ECC, cada qual referente às zonas portuenses que listámos. No escopo da nossa investigação, privilegiamos duas desse grupo: o “City centre of Porto”, e “Ribeira e Miragaia”, estando cientes, contudo, da relevância de Gaia e das suas caves do Vinho do Porto na estruturação dos roteiros turísticos da marca Porto. A categorização que o guia faz da informação que concentra é por nós capitalizada na seguinte tabela, subjacente à primeira zona em análise. Quadro n.º 3 - Categorização dos lugares da zona “City centre of Porto” presentes no guia turístico do Porto do European Consumers Choice (ECC) 70 Cf. Figura n.º 12 - Exemplo do mosaico de fotografias do guia turístico do Porto do European Consumers Choice (ECC). 98 Categorias See (ver) Do (fazer) Shop (comprar) Eat (comer) Live (viver) Sleep (dormir) See & Shop Eat & Live Lugares S. Bento Railway Station Tram 22 & 18 Rua de S. Catarina Book Restaurant (Papelaria Aviz) Night life Hotel Infante Sagres Bolhão Market Café Majestic Lello Bookshop Clérigos Tower Creators Area (Rua Miguel Bombarda) DOP Restaurant (Degustar e Ousar no Porto) 17º Panoramic Bar Hotel B&B Rua Formosa Casa da Música A Vida Portuguesa Hotel Teatro Chapel of Almas Miradouro da Vitória Gardens of P. de Cristal Sé Catedral Como entrevimos acima, cada fotografia de cada mosaico – adstrita a uma categoria – levanos a outra página, aprofundando a informação do lugar que representa com um curtíssimo texto (e mais algumas fotografias). No que concerne ao “centro da cidade do Porto”, tal qual conceptualizado pela guia do ECC, notamos principalmente que a categoria “see” sobrepõe-se a todas as outras, reforçando a prevalência do sentido da visão nas dinâmicas turísticas de visita e estadia num lugar – pelo menos, nos discursos e cosmovisões das instituições e entidades que constroem o turismo num dado local. Alguns lugares foram hibridizados por duas categorias, como o mercado do Bolhão, ou a adjacente Rua Formosa – see & shop, algo digno de se olhar com demora, mas também para fazer algumas compras da variedade local. Quadro n.º 4 - Categorização dos lugares da zona “Ribeira e Miragaia” presentes no guia turístico do Porto do ECC Categorias See (ver) Do (fazer) Eat (comer) Live (viver) Lugares Bridges of Porto Stock Exchange Palace D. Tonho Restaurant Ribeira‟s Bars Helicopter Tour Funicular dos Guindais Cais da Ribeira / Tram 1 Fonte: europeanconsumerschoice.org/travel/visit-porto-travel-guide (consultado pela última vez no dia 15 de junho de 2015) Fonte: europeanconsumerschoice.org/travel/visit-porto-travel-guide (consultado pela última vez no dia 15 de junho de 2015) 99 A tabela imediatamente acima, por seu lado, traduz os lugares representados no mosaico da zona da Ribeira e de Miragaia. Notam-se duas constatações fortes: a redução de categorias para esta zona (menos lugares expostos) e uma transferência de importância do “ver” para o “fazer”. O “fazer” – ou o “ato” – é uma dimensão sensorial que se harmoniza à visão e aos demais sentidos (Crang e Franklin., 2001); poderíamos até dizer que se configura através deles. No contexto desta Ribeira e Miragaia, o “fazer” prende-se com uma visita guiada ao Palácio da Bolsa; a uma viagem de helicóptero pelos céus da cidade; a um passeio pelo Cais da Ribeira, com as suas múltiplas opções em termos de consumo; a uma viagem ribeirinha no elétrico n.º 1; às descidas e subidas pelo Funicular dos Guindais, percorrendo os declives da malha urbana sem dificuldade. É de realçar que a visão não deixa nunca de se infiltrar nos “afazeres” do turista, ou nos lugares propostos por este guia. Vejam-se, literalmente, as vistas panorâmicas a partir do helicóptero e do funicular; e, na primeira tabela, do topo da Torre dos Clérigos, também incluída na categoria “fazer” ao anunciar a experiência da subida dos seus degraus. A função de comando da visão sobre os outros sentidos - embora praticando com eles um diálogo saudável - não deixa de ser sentida, igualmente, nos elétricos, na novidade da paisagem que vai surgindo no lento matraquear dos carris, ou no aspeto antigo e rústico da carruagem que envolve os passageiros. Se quisermos, o “fazer” adiciona uma dimensão performativa à visita do turista, o qual, farto de só olhar, deseja experimentar, tocar, sentir e sentir-se. À visão não é cerceada a sua preponderância, pelo contrário: ela junta-se aos demais sentidos, talvez comandando-os, trabalhando em função de viver uma experiência ao invés de assistir passivamente aos acontecimentos. A categoria “live” é fiel exemplo disso, convocando a animação noturna, o repouso num bar panorâmico, o espaço-tempo do Café Majestic ou os bares da Ribeira para designar algo que se pode viver através da ação do turista e não só pelo olhar. As fotografias deste guia turístico não são descarregáveis como as dos restantes websites escrutinados, sendo aliás poucas em comparação. Na zona designativa do centro do Porto, a petrificação é a estratégica mais recorrente, dada a presença de variados monumentos e edifícios históricos 71 ; e a falta de pessoas, uma realidade acérrima 72 . A fachada reclama dividendos em quase todos os lugares listados: na figura n.º 13, escolhemos a propósito a Igreja da Sé, a Torre dos Clérigos, e a estação de S. Bento, com o seu relógio central e um painel de azulejos, este representativo do casamento de D. João I com Filipa de Lencastre (Fernandes, 2010: 66, 75-9). Se a mostra da Igreja é algo banal, ao expor a sua entrada principal com certo ângulo fotográfico, a imagem da Torre dos Clérigos configura um exemplo cabal de como um edifício se pode tornar em personagem principal: capturada em enfoque central, encima todo o casario envolvente, tornando-se no elemento destacável de todo o panorama urbano, uma torre 71 Cf. Figura n.º 13 - Imagens exemplificativas da petrificação do centro histórico do Porto no guia do ECC sobre a cidade. 72 Cf. Figura n.º 14 - Petrificação atenuante da presença humana nas fotografias do centro histórico do Porto no guia do ECC sobre a cidade. 100 “personificada”. As fotografias da estação de S. Bento, por sua vez, encerram uma dupla constatação 73 : por um lado, nenhuma foto do seu exterior, uma fachada que consideraríamos relevante para a petrificação deste edifício centenário; por outro, e analogamente, apenas a existência de fotos do interior. No primeiro caso, dá-se a curiosidade de não se mostrar a estação a partir de um ponto de vista exterior. No último, a azulejaria nacional é soberana, oferecendo um exemplar claro de fossilização (ainda que conjugada e corporizada na estação de S. Bento) ao retratar determinados momentos da História portuguesa. O relógio central tece o elo com a petrificação no seu estrito senso, de forma e feitio industrial, cujos ponteiros de aço rodam rumo ao passado. Deste modo, a transformação simbólica de lugar em destino turístico pela petrificação prossegue a todo o transe. Todos os lugares supramencionados fazem parte da monumentalidade portuense, se assim a podemos chamar. Encontram-se todos protegidos no âmbito da conservação do Património Mundial, localizam-se no centro histórico da cidade. São locais de passagem “obrigatória” para os turistas, devidamente turistificados, perfazendo o postal perfeito da cidade para quem vem do seu exterior. A todos lhes encontramos o terreno comum da pedra, do edifício, do passado. Mais haverá, como sabemos: mais locais inevitáveis, ângulos de observação, ainda outras materialidades mais recentes (como a Casa da Música). Porém, a petrificação não deixa de ser “petrificar” como estratégia repetente de criação de diferença (e interesse) para o visitante de fora. Ainda no centro do Porto, a variável humana some-se no contexto do lugar e do espaço físico. Na figura n.º 14 reporta a certos locais que imaginávamos poderem ser preenchidos por pessoas no decurso dos seus quotidianos. No mercado do Bolhão, vislumbram-se pessoas ao fundo na primeira fotografia, figurantes no emaranhado deste mercado antigo; na segunda, é a perspetiva cimeira do mercado que ganha prioridade, aliada a uma matiz a preto-e-branco que nos impele para representações do passado, reforçando o cariz petrificador do respetivo edificado 74 . Na terceira fotografia, um corrupio de pessoas sobe e desce a escadaria da Livraria Lello, fragmentos corporais desfocados com o intuito de movimentar uma imagem parada; resta uma imóvel escadaria, por sinal icónica, como que dizendo que estará ali independentemente das passadas fugidias que a percorrerem. A quarta imagem continua esta regularidade, não expondo qualquer pessoa sentada na esplanada do Café Majestic, e derradeiramente revelando a intenção do fotógrafo, um timing e um enquadramento que não deixam de ser nunca uma manipulação fotográfica da realidade 75 . A quinta e última fotografia, 73 Às duas que estão expostas na figura n.º 16 apenas falta uma fotografia, a de outro painel de azulejo presente no interior do estação: a chegada do primeiro comboio ao Minho, a 20 de maio de 1875 (Fernandes, 2010: 66, 77). 74 O preto-e-branco é uma técnica por demais conhecida para conceder a ilusão do passado a fotografias: conduz-nos a um tempo, necessariamente passado, onde o desenvolvimento tecnológico da fotografia só permitia imagens dessa qualidade. A fotografia a preto-e-branco tenta transmitir-nos o passado, nunca saindo do presente. Noutro plano, o mercado do Bolhão insere-se num contexto de mercado de rua: num tempo onde o comércio local – de rua – definha face a outras modalidades de compra e venda de bens, a sua fotografia bicromática transporta o observador para “outro tempo”. Não estritamente petrificação ou fossilização, esta fotografia, pelo contrário, destapa o uso de estereótipos e clichés, ao representar um hábito supostamente antigo que as pessoas locais ainda mantêm vivo (Gorp, 2012). Por outras palavras, um Porto de mercados de rua, instâncias possivelmente extintas noutras geografias. Para o turista potencial, um “outro” lugar que oferece “outras” experiências que não encontra em sua casa, ao serem diferentes. 75 Aqui pensamos novamente como Barthes, e no conceito de studium atrás referido. Este autor atribui à Fotografia algumas funções primordiais - como informar, representar, dar sentido ou desencadear desejo pela imagem - cujos intérpretes (os 101 ainda inscrita no “centro do Porto”, representa o interior de um elétrico, sem vivalma - o 22 ou o 18, de acordo com a categorização do site, da Batalha até ao Carmo, terminando no Museu do Carro Elétrico em Massarelos. Se não petrificação, é o estereótipo, do antigo meio de transporte, que subjaz à estratégia turística, mostrando o interior de uma carruagem em estado total de pureza, esperando pela chegada de alguém que o ocupe. Todas estas imagens dizem-nos que o espaço físico sobrepuja o elemento humano: figurante ou mesmo inexistente, ele afunda-se no contexto. Estes locais serão lugares-fantasmas apenas na aparência, um chamariz para o potencial turista seu visitante. A diversidade de locais turísticos explana-se pela própria categorização do guia: locais para olhar, fazer, comer, dormir, comprar. Um olhar simplificado, que as fotografias reforçam com estereótipos portuenses sobejamente conhecidos 76 . Na zona que designa a Ribeira e Miragaia no guia turístico do ECC, esta circunstância é evidente. Veja-se a primeira imagem da figura n.º 15: o referido elétrico “desumanizado” reaparece nas fotografias desta zona – desta feita o 1, que faz a marginal duriense da Ribeira até à Foz –, na forma de um assento solitário e desocupado. A falta de pessoas, confirmada no parágrafo anterior, é igualmente um estereótipo na imaginação turística: o assento de couro vermelho do elétrico será um poderoso símbolo da cidade, na medida em representa um lugar potencialmente desconhecido, intocado, “à espera de alguém”. Para o turista, um lugar mais ou menos exótico (dependendo do que ele achar por exótico), mas sobretudo um destino turístico por descobrir, talvez ainda imune às agruras e às multidões do turismo de massas. A seguinte foto, dos barcos rabelos ancorados, reafirma a diversidade das experiências turísticas do Porto: mais um meio de transporte que nos transporta subtilmente para o passado da cidade, quando nele, Douro abaixo, se traziam as pipas de vinho do Porto até Vila Nova de Gaia. Os tempos são outros, e os barcos rabelo fotografados são os modelos adaptados, de recreação e passeio turístico, festoados com as bandeiras de diversos países, como que dizendo ao que vão. Como a gôndola em Veneza (devidamente turistificada), o rabelo no Porto, acomodando passeios por entre as águas, configurando um estatuto de ícone urbano que não deve ser negligenciado na visita. A última fotografia desta figura expõe um restaurante no Cais da Ribeira, mesa posta defronte do rio, da Ponte D. Luís, e da margem gaiense. Comer – o eat da categorização – também configura o aspeto performativo (e estereotipado, bem entendido) da visita turística: onde, o quê, como. Sem nada na mesa, o que se pretende transmitir com esta fotografia é a harmonia entre paisagem idílica e bem-estar pessoal: como será degustar uma refeição no coração da Ribeira, olhando semelhante paisagem entre garfadas? Comer-se-á tanto com a boca (comida) como com os olhos (paisagem) – uma refeiçãoexperiência, dinamizando palato e visão numa lógica plena de satisfação e prazer. fotógrafos, ou “operators” na sua linguagem) irão desenvolver através das suas práticas e intenções. O studium dessas fotografias será aplicado por quem as visiona (os “spectators”), permitindo-lhes discernir o propósito de certa fotografia, para depois concordar ou discordar dela e, por consequência, do enquadramento do “operator” (1998: 48-9). O studium de cada fotografia é reconhecido pelo “spectator” segundo as suas motivações ou, se adotarmos uma categorização barthesiana, de acordo com os seus “fantasmas” (1998: 62). 76 Cf. Figura n.º 15 - Diversidade e estereótipos presentes nas fotografias da zona da “Ribeira & Miragaia” no guia do ECC sobre a cidade. 102 Por fim, a virtualização pela paisagem é um dado adquirido na zona referente à Ribeira e Miragaia 77 . O respetivo espólio paisagístico tem na Ponte D. Luís um denominador comum, coroando o panorama portuense à beira-rio mercê da sua altura e vultuosidade. Desde o funicular dos Guindais (primeira foto da figura n.º 16), a Vila Nova de Gaia (segunda foto da mesma figura), a Ponte D. Luís surge como condição sine qua non para a moldura fotográfica de uma cidade à beira-rio. A descer ou a subir as ruas íngremes das colinas da cidade, a caminhar no centro histórico de Gaia ou no Cais da Ribeira, a Ponte D. Luís configura-se como uma referência visual incontornável da paisagem, virtualizando, ao olhar do potencial turista que ainda não arribou, um ex-líbris urbano pleno de significado – até pela sua aparente omnipresença. A paisagem da Ribeira, ângulo sobranceiro, compõe a última fotografia escolhida. Das poucas que exclui a Ponte D. Luís do seu enquadramento, ela mostra-nos o Cais da Ribeira visto de cima, esplanadas de toldo branco alinhadas em fila, a natureza do rio em permanente diálogo com a cultura da cidade. As fotografias de altitude costumam metamorfosear o que está em baixo, até ao ponto em que as pessoas parecem formigas, e os edifícios e os carros de brincar. Neste caso são os barcos ancorados que se tornam em “barquinhos”, e o edificado da Ribeira em charme inocente. Uma paisagem deste género virtualiza um espaço urbano e humano, logo com as suas tensões, num espaço imaginário, atreito a um parque de diversões, de fácil vivência e entretenimento despreocupado. A Ribeira, desta forma, torna-se mais amigável ao estranho e, paralelamente, num espaço festivo que lhe alarga a rutura do quotidiano - um apanágio da viagem turística 78 . A ideia que apresentamos a seguir surge de um volte-face inopinado. Ao nos confrontarmos com as fotografias híbridas da galeria do portal oficial do Turismo do Porto (“Visit Porto.”) no Flickr, reparamos na impossibilidade que tal condição causava no corpus de imagens turísticas que pretendíamos construir. Eram fotografias “público-privadas”, como lhes chamámos no seu momento, uma vez que a referida galeria estava aberta a quem quisesse contribuir com as suas fotografias. Por outras palavras, as fotografias catalogadas como turísticas tanto podiam provir de anónimos – portuenses ou turistas, quem sabe, não dando para rastrear senão pelo nome mais português ou mais estrangeirado do contribuidor – como de instâncias oficiais, como o próprio Turismo do Porto. O problema impunha-se à vista desarmada: como poder incluir estas imagens no nosso corpus específico, não sabendo de quem vinham? Como há males que vêm por bem (diz-se), começamos a ver o problema doutra maneira: e porque não seguir estes trilhos na mesma, reproduzindo o seu caráter oficioso e anónimo, mas “pegando” diretamente na câmera fotográfica dos turistas? Porque não pedir-lhes que nos captassem fotograficamente um momento da sua visita, em locais e contextos situados no centro histórico do Porto, como forma de exemplificar os olhares turísticos sobre a cidade? Afinal de contas, o olhar seria sempre o deles, na mesma; porém, ao ir ao seu encontro, estaríamos a legitimar o processo de 77 Cf. Figura n.º 16 - Virtualização pela paisagem nas fotografias da “Ribeira & Miragaia” no guia do ECC sobre a cidade. 78 Deixámos a análise formal de todos estes websites, bem como o do Visit Porto, para anexo, conferível no quadro n.º 7. 103 descoberta, tornando-o personalizado ao invés de anónimo, próximo em lugar de distante-pelainternet. O olhar turístico, aqui, seria o olhar do próprio turista, e não da aceção oficial do turismo: quem sabe, uma positiva (e lefebvriana) obstinação do agente social face ao poder técnico e político da formatação do espaço urbano, uma fotografia só que desvendasse uma forma pessoal e individualizada de viver esse mesmo espaço. A verdade é que o problema tornado solução revestia-se de contornos rocambolescos, incapacitando a prática desta ideia. Como ficar com as imagens tiradas nesses momentos para nós? E será que os turistas achariam graça ao facto de querermos guardá-las para os nossos intentos? O desbloqueio surgiu a partir do nosso dispositivo fotográfico, integrado no smartphone pessoal: emprestá-lo-íamos ao turista para tirar essas fotografias, como que transferindo, em pezinhos de lã, a propriedade das suas câmeras e fotografias para a nossa (e obviamente facilitando a posse das ditas, visto que não teríamos de empreender nenhuma transferência de dados on the run, por bluetooth ou algo do género, nem esperar que as enviassem por e-mail mais tarde). Numa penada, resolvíamos o contencioso, correndo somente o risco de nos furtarem o telemóvel, algo esbatido ao deliberarmos a quem poderia caber tal esforço – risco talvez infundado, em retrospetiva: os turistas mostraram-se na generalidade deveras simpáticos e disponíveis. Esse esforço foi transfigurado em desafio etnográfico: depois de aplicarmos o inquérito por questionário a dado turista, desafiávamo-lo a tirar uma fotografia do espaço circundante, não dando sugestões nem imposições. “Anything you want, really”. Nos inquéritos mais rápidos, especialmente, dávamos o toque, e assim a fotografia era feita. Uma por turista, logo, um olhar específico e próprio, uma etnografia do olhar turístico, um olhar visitante sobre a cidade. Os locais eram designados pela feitura do referido inquérito, não divergindo muito daí. No fim, dispusemos as dezoito imagens assim obtidas em três mosaicos diferentes, seis em cada, sem preocupação excessiva pelos critérios organizativos, embora admitindo que o cronológico não tenha sido um deles, como veremos doravante. O mosaico da figura n.º 17 agrupa exemplares fotográficos que julgamos quiçá os mais “heterodoxos”, mostrando a ambivalência que o mesmo espaço pode ter nas representações de quem o visita de longe. A fotografia n.º 1 e n.º 2 foram tiradas no jardim da Cordoaria por duas turistas inglesas: a primeira optou pelo retrato de uma árvore nas margens do pequeno lago, enquadrando um Porto mais bucólico, quem sabe, mimetizado do seu próprio contexto de referência, ou até em pleno contraste com ele; a segunda, detetado o absurdo, optou por uma bancada das infames esculturas públicas instaladas naquele jardim em 2001, no âmbito da Capital Europeia da Cultura 79 : a rirem-se uns dos outros, estas estátuas despertaram o interesse da mesma, vincando uma pegada realmente única (e artística) neste espaço - não existem em mais lado nenhum! 79 Arte pública intitulada “Treze a rir uns dos outros”, de autoria do artista espanhol Juan Munõz (informação recolhida, e disponível, em artepublica.blog.com/2008/11/16/treze-a-rir-uns-dos-outros-de-juan-munoz/, consultado pela última vez a 31 de agosto de 2015. 104 As três fotografias seguintes foram captadas por três turistas italianas na parte inferior da Avenida dos Aliados, na Praça da Liberdade. Desvalorizando o vulto imponente da estátua de D. Pedro IV, a primeira lente (n.º 3) recaiu em dois transeuntes sentados e a entabular conversa, como que dizendo que nem só do passado se fazem estes monumentos (também são bons para nos sentarmos na sua sombra). A segunda (n.º 4) selecionou a subida da Praça para a Rua da Fábrica, com uma carrinha da polícia parada defronte: tendo-lhe dito para não se afastar muito, talvez tenha optado por esta representação “policial”, num dia em que a Avenida mais acima estava em estado de sítio por causa de uma manifestação dos lesados pelo Banco Espírito Santo, com concomitante aparato de segurança pública. A terceira deste set transalpino (n.º 5) construiu um colorido cruzamento de autocarros turísticos, a partir do seu apeadeiro geral nesta Avenida: terá andado neles? Ou ainda estava para andar? Num sítio característico da cidade, apontou a objetiva para um dos seus novos ícones paisagísticos: o transporte vocacionado para turistas. A última fotografia deste mosaico (n.º 6) transmite novamente a hipótese de algo supostamente “menor” ser alvejado na presença de uma materialidade grandiosa: neste caso, o pelourinho do terreiro da Sé, por oposição à igreja do mesmo nome. Mal sabia esta turista inglesa que este tipo de edificações (mas não esta, inaugurada já em 1945) eram utilizadas para punir os criminosos, servindo o poder judicial do concelho (AAVV, 2010: 20)! (Não sabia, nós dissemos-lhe depois de tirada a foto.) O mosaico da figura n.º 18 prossegue o estilo eclético do primeiro. Quase todas, excetuando a foto n.º 2, foram tiradas no largo em frente à Torre dos Clérigos, e foi por essa circunstância que as reunimos no mesmo agrupamento. Em cinco ocasiões, cinco turistas e cinco fotografias neste sítio em específico, só por uma vez (!) a Torre foi enquadrada (n.º 6). Não haverá olhar mais plural que este, sonegando porventura o ícone máximo do Porto em termos turístico-mediáticos, em favor de outras miradas, diferentes e pessoais à sua maneira. A Casa Oriental atrai a primeira captação (n.º 1), sensibilizada pelo comércio de rua local e tradicional; a n.º 3 e a n.º 4 desviam o foco para os começos da estreita Rua da Assunção, por onde sobe e desce o elétrico: um sinal de que as pequenas ruas e ruelas que polvilham o núcleo histórico merecem a atenção (e as pisadas) dos turistas, espécie de bastidores lado-a-lado com a fachada resplandescente da Torre; e, maxime, a n.º 5, onde um tuk tuk centraliza a objetiva do turista - oferenda globalizante a uma cidade cada vez mais popular -, no seu recorrente lugar de estacionamento à beira da Torre. (De mãos dadas, o local e o global.) A imagem n.º 2, embora na estação de S. Bento, prolonga essa mirada personalizada versus a sacramental do património histórico-monumental: o turista holandês que a fotografa reproduz o corrupio, ida e volta e volta e ida, das pessoas nos seus pêndulos ferroviários, não se focando diretamente na azulejaria de tamanha fama internacional. A estação de S. Bento é a ponte para o mosaico da figura n.º 19, e para as derradeiras seis imagens deste repto. A fotografia n.º 6 é justamente o interior da referida estação, mas ao contrário da anterior, a objetiva eleva-se, não apanhando pessoas, captando o relógio antigo e a traça geral do edifício. Sugere, ao mesmo tempo, a temática deste último mosaico: a obviedade, se lhe podemos 105 chamar assim, do que fotografar em dado sítio. As suas fotos são todas particípes do “óbvio”, daquilo que “temos” de fotografar enquanto turistas no destino eleito. A ambivalência do espaço, como sobredito, também é ambivalência do olhar: de um lado, a pluralidade de significados e ângulos cénicos que queiramos emprestar às nossas fotografias, ilustrada mais intensamente nos primeiros dois mosaicos; do outro, as fotografias que se impõem a dado momento e em dado lugar, como as deste mosaico. Mesmo saindo da órbita do centro histórico portuense, indagámos que o alvo das fotografias tiradas do lado de Gaia era o Porto e o Douro, como nos mostram a foto n.º 1 e n.º 2. Vale o que vale: noutro momento, e noutras mãos, a câmera podia ter-se ensimesmado nesta margem e em pormenores e em vez de “pormaiores”; mas queda um possível exemplo do magnetismo quase irreprimível da paisagem portuense e duriense, mesmo (e talvez principalmente) no cais de Gaia. Da mesma forma, na Ribeira (foto n.º 3), o olhar “fotografado” é guiado pelas fachadas dos seus edifícios, o turista espanhol optando por um aspeto imediato do encanto desta zona. Mas mesmo aqui pode haver dissidência: a foto n.º 5 também foi tirada na Ribeira, e o foco desviou-se para o Mosteiro da Serra do Pilar, apanhando metade da Ponte D. Luís: um foto que se impõe, sim, mas talvez menos que a anterior. (É verdade que só pedimos uma, mas probabilidade de um turista captar os dois enquadramentos analisados – as câmeras já quase nem usam rolo… – é enorme.) Por fim, a foto n.º 4 remata o argumento: é a Igreja da Sé que é fotografada, em contraponto, por exemplo, ao pelourinho no terreiro. O íman da sua altura, beleza e história é polarizador: é uma materialidade capaz de dominar a reação (fotográfica) de avistá-la. Apreciamos as considerações de Roland Barthes sobre a existência do mito, apesar da complexidade semiológica que encerra, e pela qual não nos desviaremos aqui: no plano prático, a mitologia é um acordo com o mundo, não tal qual ele é, mas tal como ele quer fazer-se (1997: 221). Claro que Barthes discorria sobre as implicações e origens burguesas do mito; mas porque não imaginar que os turistas, através da sua visão fotográfica, criam os seus próprios mitos, captando um mundo (visitado) tal como eles gostariam de o fazer e ver? O álbum fotográfico que acima compomos, ora mais rebelde, ora mais conformista, é exemplo disso, e os mitos diferenciados plasmam-se em cada fotografia tirada. 3.3. As regularidades da visita ao Porto... 3.3.1. Caracterização sociodemográfica dos turistas estrangeiros inquiridos Ao contrário do que aconteceu na fase da administração, a interpretação dos dados recolhidos via inquérito por questionário principia pela caracterização sociodemográfica dos respondentes. No primeiro item, a distribuição dos inquiridos por sexo faz-se salomónica 80 : 50% de homens (n = 41) e 50% de mulheres (n = 41). Não pensaríamos doutra forma em termos de género, porém não imaginávamos esta repartição perfeita: não se descortina na viagem turística tensões de género que se 80 Cf. Quadro n.º 8. 112 E como descobriram os nossos inquiridos o Porto enquanto destino turístico? Para esta questão, aberta a escolha múltipla 99 , adquirimos dados talvez não muito surpreendentes. Das opções oferecidas, 55 inquiridos admitem ter descoberto o Porto turístico através do conselho de amigos, conhecidos ou familiares, sendo esta a opção mais popular dentre todas; os websites informais, compostos pelas redes sociais, blogues ou diários de viagem, são consagrados como segunda opção preferida, embora distante da primeira categoria (16 escolhas); seguido dos websites de voos baratos e imprensa, com 12 escolhas, websites institucionais com apenas 7, e as agências de turismo com tão-só uma seleção. O poder do passa-palavra ainda é real hoje em dia, embora não saibamos em que moldes aqueles conselhos terão sido passados: talvez por redes sociais e afins? Do mesmo modo, a informalidade do conteúdo suplanta a formalidade nos nossos dados; e o facto dos websites de voos baratos surgirem tão baixo no ranking de escolhas pode dever-se ao facto de não terem sido a chave de descoberta do Porto. Finalmente, os turistas inquiridos expõem a quase irrelevância das agências de turismo no turismo urbano de curta duração, um facto que podemos ainda associar à crescente autonomia do indivíduo na organização da sua própria viagem turística, ela própria mais fácil e acessível. As restantes opções presenteadas pelos turistas são, no mínimo, curiosas, 9 escolhas tão variadas quanto o tipo de turistas que pode existir: desde a descoberta através do senso comum da “cultura geral” e “por mim próprio”, até pelo facto de certo turista estudar a língua portuguesa ou por ter certo fascínio pelo país em geral. Mais uma vez, um inquérito não consegue desgranar todas estas mundividências, e os modos de descobrir um destino podem ser tão aventureiros e plurais quanto a viagem (aventura) em si. A viagem de turismo urbano, ao ser tendencialmente mais lacónica do que longa, dilata a frequência da sua própria realização. Por outras palavras, conseguimos viajar mais se passarmos menos dias em cada destino, variegando os panoramas observados e visitados num mesmo espaço de tempo. Perguntamos aos nossos inquiridos quantas viagens de turismo tinham feito para o estrangeiro no último ano (últimos 365 dias) excetuando a do Porto, e as respostas validam estas ponderações 100 : de apenas 21 (25,6% da amostra) que não realizaram mais nenhuma, deparamo-nos com 61 que realizaram pelo menos mais uma (74,5%). 18 turistas fizeram mais uma, outros 18 mais duas, e é de todo revelador que a categoria mais prevalente seja aquela dos que fizeram mais do que duas viagens extra no último ano: aqui, é o ritmo de 3 viagens anuais que arrecada maior regularidade, com 13 casos, decrescendo gradualmente até ao caso único de 6 viagens realizadas nos últimos 365 dias. O city break não se faz num vácuo; e os padrões do modo de viajar europeus têm-se alterado nos últimos anos, com viagens mais baratas a abrirem possibilidades mais vastas de viajar amiúde num espaço de um ano, acrescidas que estão à abertura de novos destinos e à entrada de cidades previamente algo ausentes do principal circuito turístico europeu (como é o caso do Porto). 99 Cf. Quadro n.º 27. 100 Cf. Quadro n.º 28. 113 Em jeito de desafio, pedimos aos respondentes que nos revelassem em resposta aberta que cidades visitaram nessas viagens extra do último ano, no sentido de exemplificarem o que escrevemos supra. Criámos para esse efeito uma nuvem de cidades com as palavras recolhidas, tanto para mostrar a multiplicidade de urbes que foram visitadas nesse ano, como para entrever as mais populares dentro das escolhas dos turistas inquiridos 101 . A análise é liminar: cidades habitués nestas andanças turísticas, como Londres, Barcelona, Roma, Berlim e até Lisboa, perfazem o repertório das mais visitadas pelos nossos respondentes no espaço do último ano. Ademais, a diversidade é rica: desde Tóquio a Nova Iorque, passando por cidades europeias menos “badaladas”, como Oostende (Bélgica), Liubliana (Eslovénia), e porque não Coimbra, a riqueza de soluções e escapes turísticos é quase ilimitada. O turismo chega aos quatro cantos do planeta, já o sabíamos; mas hoje, talvez mais vezes, se alinharmos por este diapasão. 3.3.3. A experiência do turismo no indivíduo A experiência de turismo nos indivíduos inquiridos, aspetos porventura um pouco mais intrínsecos neles (ainda que sob alguma influência externa) é uma dimensão de análise reveladora do seu comportamento enquanto transfigurados em turistas. Inspirados por Carlos Fortuna (1999a), pretendemos saber a importância que cada turista conferia a um conjunto de motivações individuais na realização da sua viagem ao Porto. Apresentamos quatro pares de motivações possíveis, cada qual desdobrado em duas razões, sem acusar ao respondente a motivação que subjazia a cada duo de razões proposto 102 . Pensamos, deste modo, em quatro macro-motivações: a busca da experiência única inerente ao turismo, descrita na “procura de novidade e diferença” (uma busca mais experiência em si) e na “especificidade da cidade visitada” (uma busca centrada mais pela cidade); os aspetos fisiológicos da viagem, patente nas justificações da “gastronomia” e do “repouso físico”; o aspeto hedonista ou consumista da viagem, em elementos como o “divertimento” e o “conhecimento da cultura local”; e por último, o aspeto simbólico da viagem, encontrado em sentimentos individuais como o “desejo de se conhecer melhor” e o “prazer de viajar”, ligadas intimamente à identidade de cada turista. Calculamos os valores médios para cada par de motivações a partir das percentagens recolhidas em cada razão, sempre mediante a escala de medida. É por este valores que inferimos que a busca de uma experiência única no turismo surge como a motivação que deteve mais regularidade na categoria “importante” (61,6%), sem grandes contrastes entre a procura da experiência diferente e a especificidade da cidade: isto parece indicar que a escolha da cidade figura como decisiva ao lado da vivência da experiência, não se diluindo nesta última, não se tornando indiferente na decisão de viajar. Por seu lado, os aspetos fisiológicos da viagem surgem como os menos importantes dentre todos (34,15%), ainda que decisivamente desvirtuados pela falta de 101 Cf. Figura n.º 20 - Nuvem de palavras referente à diversidade e frequência de cidades que os respondentes visitaram no último ano (agosto 2014 – agosto 2015). 102 Cf. Quadro n.º 29. 114 importância conferida ao “repouso físico” (56,1%) face à gastronomia (apenas 12,2% neste capítulo). A gastronomia, na sua experimentação tanto material como sensorial, é um aspeto cada vez mais fulcral no conhecimento da cultura local (65,9% disseram que era “importante”) e, como os dados demonstram, já quase não é sentida como aspeto fisiológico assegurado, mas sim como hábito indissociável da prática turística. Ao invés do repouso físico, que parece definitivamente não ser importante no turismo urbano, propenso ao movimento e à descoberta de cada rua e esquina. A gastronomia talvez pudesse ter sido, destarte, tratada como mais uma partícula do “conhecimento da cultura local”, inserida na macro-motivação do aspeto hedonista ou consumista da viagem. Esse conhecimento sobrepuja o “divertimento” em termos de importância, incumbindo ainda mais peso a esta lógica da viagem turística: o conhecimento do “outro diferente”, da alteridade, parece ser uma motivação inelutável do turista (98,8% da amostra, unindo as duas últimas categorias nesta razão), derrubando aspetos mais lúdicos sumarizados no “divertimento”, talvez pela perceção de História viva que reveste, seriamente, o Porto e o seu centro histórico. Menção especial é endereçada aos aspetos simbólicos da viagem, a macro-motivação que contabilizou mais frequências na categoria de “muito importante” (45,75%). O “prazer de viajar” e o “desejo de se conhecer melhor” surgem como expressões duma renovada autoestima e autorrealização da identidade do indivíduo pela viagem: viajar para conhecer, viajar para me conhecer, e o prazer frutificado na lonjura das obrigações quotidianas de casa. Igualmente, viajar é consumir, dedicar tempo a nós próprios, à otimização e estetização do nosso ser, às reforçadas importâncias que temos dado ao nosso corpo e ao lúdico, à nossa presença no mundo que desejamos significativa. Pudéssemos ter explicado melhor num inquérito o que é isso de “conhecermo-nos melhor” (40,2% considerou-o como “nada importante”) e talvez esta categoria tivesse catapultado para maiores alturas o simbolismo de viajar. Fomos na esteira de Walter Benjamin (1992) para colocar a próxima questão aos respondentes - a atenção que dedicavam aos diferentes aspetos da cidade do Porto 103 . À vista primeira, são as “vistas e paisagens” que se apresentam como aspetos aos quais os turistas mais dedicam “muita” atenção (81,7%), sem ninguém afirmar que lhes presta “muito pouca”. Os “monumentos e edifícios históricos” são alvo igual de atenção, com “alguma” e “muita” a somarem 97,5% da amostra. Como vimos na análise de conteúdo, a paisagem é uma estratégia de virtualizar um destino na preparação de uma viagem, e de o diferenciar face a outros, daí a concentrada atenção que lhe dedicam os turistas já aqui, perante elas. Com um centro histórico Património da Humanidade, o património histórico-monumental é outra “invariável”: será sempre alvo de toda a atenção, e a diferença entre “alguma” (45,1%) e “muita” (52,4%) transmite precisamente a ideia que referimos atrás: a “História” da cidade estará sempre lá, segura mas serena, dando espaço a outros elementos urbanos, alvo daquela atenção distraída pela qual o turista se notabiliza (Fortuna, 1999a) (Benjamin, 1992): um aspeto diferente na multitude de aspetos diferentes que encontramos numa cidade à qual nunca fomos. Num menor grau, 103 Cf. Quadro n.º 30. 115 mas neste contexto, podemos incluir a “população local”, os “parques e jardins públicos”, e o “comércio e restaurantes locais”, reflexos dessa diferenciação. A familiaridade da arquitetura contemporânea ecoa no sobredito: ainda que a maioria lhe dedique “alguma atenção” (58,5%), já poucos lhe dedicam “muita” (14,6%), visto que é um aspeto mais “homogéneo” quando comparado com os ambientes e quotidianos de partida do turista (mas como estão lá, até para comparar, terão também alguma atenção perene). Nota para os “museus, galerias e exposições”, e para o “entretenimento noturno”, aspetos que mereceram a menor atenção dentre todos do Porto. Se por um lado, a amostra mais juvenilizada talvez não se interessasse pelo património museológico da cidade, por outro, talvez diria que o entretenimento noturno lhes motivasse o espírito, não obstante a pouca importância conferida ao “divertimento” nas motivações individuais de visita, como vimos atrás. Os dados alvitram uma tendência negativa para ambos, o que só pode perspetivado a partir do livre arbítrio de cada turista, e quiçá, pela publicidade menos cerrada que a indústria turística produz sobre estes dois aspetos urbanos. A atenção pode ser sobressaltada de diversas formas: pelos sentidos naturais, por meios artificiais, pela mescla de ambos. Dada a omnipresença do dispositivo fotográfico nas mãos dos turistas (constatável pelas observações não participantes efetuadas), elencamos uma série de afirmações sobre a sua utilização no decurso das suas visitas ao Porto, com o fito de se posicionarem perante cada uma de acordo com uma escala de concordância 104 . Para facilitar a leitura do leitor, dispomos cada afirmação em separado neste texto, não dispensando todavia a visualização do quadro referido em nota de rodapé. “O que visito na cidade está relacionado com o que pretendo fotografar” Ela pretende transmitir que o “roteiro” de visita da cidade relaciona-se com o desejo de fotografar os seus aspetos superficiais, porque visuais. O contrário seria válido: não visito lugares que não pretendo fotografar. Pode parecer estranho, mas a fotografia é como uma linguagem que age ao serviço do turista, para registar e armazenar panoramas vistos (é um processo que por vezes domina a experiência da viagem, fotografar freneticamente sem olhar com olhos de ver). Mais de metade da amostra demonstra um grau de concordância positiva (32,9% mais 23,2%, do parcial ao total) com esta afirmação; e 26,8% mostram-se indiferentes, com a discordância unida a ser de 15,9%. A indiferença normalmente demonstra a incerteza face algo; e assim podemos afirmar que a maioria dos respondentes visita aquilo que quer fotografar, e não visita aquilo que não quer fotografar. Como não ir à Torre dos Clérigos e não fotografá-la, registá-la em imagem para visionamento futuro, mas uma imagem nossa? “Não me imagino a visitar a cidade sem a possibilidade de tirar fotografias” 104 Cf. Quadro n.º 31. 116 Na peugada da anterior, esta afirmação designa a possibilidade, apresentada pelo processo fotográfico, de um turista poder captar mais “coisas” do que poderia sem ela. Recordar mais, fotografar mais, ver mais. Uma poupança de pensamento – ao guardar na memória da câmera o que foi visto pela superfície -, ao mesmo tempo precipitando a atenção para o próximo elemento (qual presa, diríamos meramente em caricatura) que irá surgir. A discordância unida foi um pouco maior do que a registada na afirmação prévia (19,5% vs.15,9%), mas a concordância também (70,7% vs.56,1%), efeito da menor incidência na categoria neutra, talvez pela afirmação ser menos esotérica que a anterior. A tendência é para que não mais nos esqueçamos da câmera fotográfica quando vamos de viagem, ainda mais exacerbada pelo facto de ser já uma característica banal dos telemóveis atuais. “Sinto-me satisfeito e positivamente surpreendido com o que vejo ao vivo durante a visita, apesar de poder ter visto o mesmo em fotografias antes da viagem” Por outro lado, esta afirmação remete para um segmento da experiência turística que ainda acontece em solo caseiro, num quotidiano com laivos insinuantes de turismo: a visualização de fotografias sobre o destino turístico, que agem não raro como catalisador da visita ao vivo a esses locais. O facto de já se ter visto o mesmo não deslustra a experiência real: 75,6% demonstram concordância com esta afirmação, e 36,6% até concordam fortemente com ela, face a uma discordância unida quase negligente (6,1% da amostra). Ver ao vivo, tocar, quem sabe, (e fotografar por si próprio, bem entendido), ainda são ações que fascinam o indivíduo em papel de turista, percebido no escopo geral da sua visita a locais diferentes – apesar da presença imaginária do destino formulada antes da partida. “A proliferação de imagens fotográficas sobre o Porto banaliza a cidade vista ao vivo” Ter visto o mesmo antes da viagem em si pode produzir uma espécie de cansaço metafórico no observador/espectador: as imagens fotográficas de uma cidade, como o Porto, proliferam no mundo virtual, podendo banalizar ou nivelar o seu significado intrínseco. A ideia não é comungada pelos respondentes: 54,9% da amostra discorda parcial ou totalmente da afirmação, pelo menos 22% depositam a sua escolha na categoria neutra, e somente 19,5% demonstra algum grau de concordância. Ligando à afirmação imediatamente anterior, a interpretação esclarece-se: viver e olhar, a meros passos de distância física, tendencialmente contribui para refrescar a perceção da cidade, e não tanto para desgastá-la. “Tiro muitas fotografias durante a minha visita porque sei que a capacidade de armazená-las e partilhá-las hoje em dia é virtualmente infinita” Finalmente, a derradeira afirmação tentava passar a ideia de que o turista poderia fotografar bastante porque sabia que essas imagens seriam partilhadas com outras pessoas, e armazenadas ad infinitum pelas hodiernas possibilidades tecnológicas. Essa ação de partilhar é normal na viagem e no 117 turismo: voltámos de uma terra estranha e damos a mostrar o que trouxemos a familiares e amigos, narrando aventuras e desventuras, expondo as fotografias do que vivemos. No caso das fotografias, e encaixando naquilo que temos dito a respeito delas nos parágrafos anteriores, entra em jogo um círculo de reprodução das imagens turísticas, por vezes nutrida pela imagética publicitária (do género, tiro fotos ao que vi pela publicidade), outras vezes pelas fotografias dos próprios turistas, e até – convenhamos – por ver outras pessoas a fazerem o mesmo em certos espaços de verniz turístico (em jogo de mimética social). A concordância dos inquiridos face a esta afirmação é maioritariamente positiva, representando 57,3% da amostra, com o resto a dividir-se quase equitativamente entre a categoria neutra e a discordância. No ato turístico, tirar fotografias ajuda: para comprovar e partilhar a experiência, para registar e rememorar, para reagir em lugar de não fazer nada perante o “exótico”. Se o turismo é uma viagem temporária para fora da nossa vida customeira, a fotografia, diríamos nós, é uma forma de manter esse vínculo. 3.3.4. As dimensões turísticas da cidade Na parte final do nosso inquérito por questionário, entreabrimos as dimensões turísticas da cidade, isto é, o que significa para a cidade ter, e reproduzir, turismo. Para tal, socorremo-nos justamente das opiniões dos protagonistas maiores dessa relação – os turistas, em específico aqueles que conseguimos inquirir. Na primeira interrogação deste tema perguntamos aos turistas se achavam que o centro histórico do Porto era autêntico por ser Património Mundial da UNESCO (desde 1996, precisamos no texto do inquérito) 105 . A formulação da pergunta é complexa, tanto a operacionalizar o conceito de autenticidade, como ao nível da extração das diferentes cosmovisões dos turistas sobre o que é ser autêntico ou não. A verdade é que a maioria da amostra demonstrou concordância parcial ou total com o facto de ser autêntica por ser Património Mundial (40,2% mais 28%, por respetivo); 20,7 alinharam pela indiferença; e apenas 9 inquiridos (11%) discreparam. Ao ver o seu centro histórico declarado como Património Mundial da Humanidade, o Porto entrou de caras no chamado “mercado de autenticidade”, operado, entre outras instâncias, pela UNESCO: ao decidirem o que é ou não é património digno de ser preservado, estão também a anunciar o que é importante, valioso e único da condição humana no mundo. Por um lado, a cidade torna-se mais conhecida; por outro, é mais procurada, trazendo mais curiosos por via dessa circunstância, ansiosos de se sentirem no meio da História e da aura da cidade. A credenciação da UNESCO traz valor e autenticidade; resta saber como o turista perceciona essa situação. Recorremos uma vez mais a uma série de afirmações para medirmos um parâmetro, desta feita a avaliação do centro histórico do Porto por parte dos respondentes; no fundo, tentando descrever a relação dos turistas com a autenticidade percebida da cidade, tal qual ele a representa. Como no caso 105 Cf. Quadro n.º 32. 118 anterior, isolamos cada afirmação para aligeirar a leitura, não omitindo a consulta do quadro em nota de rodapé 106 . “A minha imaginação é importante quando visito lugares históricos” Esta afirmação consagra a importância da imaginação na compreensão de um lugar histórico, do controlo que o turista exerce na sua própria narrativa ao visitá-lo, criando-a, desfazendo-a: a imaginação que tem da História daquele lugar, perspetivado a partir do seu presente e das suas referências pessoais. Nos dados, observamos que a grande maioria entrou em concordância com a afirmação, 77,8% da amostra; e apenas 4 turistas discordaram, e parcialmente. Acima de tudo, demonstram a “rebeldia” do turista face às padronizações da história oficial; e logo a seguir, o pendor imaginativo que inculca na autenticidade de um lugar, no seu valor, na sua aura. Cada turista negociará o significado que lhe parecer mais acertado, e edificar, pela imaginação, a sua presença no espírito destes lugares. “Não consigo distinguir o que é real do que é artificial neste tipo de lugares” Ao sabermos que certas camadas da autenticidade de um lugar são produzidas para parecerem como a realidade supostamente real, a dificuldade de distinção entre o que é real e não é impõe-se ao turista. Em linguagem goffmaniana, a fronteira entre as regiões dos bastidores e as da fachada enevoam-se, e o turista pode ficar confuso quanto à autenticidade que “retira” de certo espaço. A maioria da nossa amostra discordou da afirmação (34,1% mais 26,8%), embora com a subsistência de um número considerável de duvidosos (23 inquiridos, 28% da amostra); e tão-só 9 turistas lhe anuíram. A verdade é que os nossos inquiridos parecem demonstrar a tranquilidade necessária para distinguirem o que é verdadeiro do falso no centro histórico do Porto, assim negociando, convictos, o significado a retirar das suas experiências lá. “A minha experiência nestes lugares traduz uma mudança em relação ao meu dia a dia” Mais facilmente explicável que todas as outras afirmações, esta sublinha a nuance extraordinária da viagem: o bater em retirada de casa para outras fronteiras, da igualdade dos dias para o (en)canto das experiências novas. 4 dos turistas inquiridos discordaram parcialmente, e nenhum de forma total, o que abre alas para a vasta concordância que esta afirmação granjeou junto dos restantes (45,1% mais 39%, respetivamente). No contexto da autenticidade, isto significa uma mente e uma ação liberto de grilhões, o turista esquecediço da banalidade do seu quotidiano, ao mesmo tempo que investe de qualidades extraordinárias e genuínas aquilo que acha diferente disso. “Não me importo de ver algo encenado nestes lugares desde que bem feito” 106 Cf. Quadro n.º 33. 119 Esta afirmação entronca com a de há dois compassos atrás: e se virem algo mesmo encenado, que reação possível? Que tipo de autenticidade resulta daí? 52,4% da amostra assinala concordância, parcial ou total, mas a indiferença (23,2%) e a discordância (6,1% mais 18,3%) rivalizam. As leituras podem ser plurais, mas indicam sobretudo o realismo daquilo que alguns autores apelidam de “pósturismo”, e dos turistas conscientes da sua condição desvantajosa num meio que não é o deles. Sabendo que não conseguirão penetrar na autenticidade do lugar visitado (os bastidores), eles perdem a ilusão, por conseguinte não se importando com situações que são totalmente criadas para eles, extraindo a sua satisfação a partir de uma autenticidade coreografada e encenada. “Questiono-me sobre quem sou quando visito lugares históricos” A partir da imaginação, a redefinição da condição social do indivíduo pode ser empreendida, em particular num ambiente diferente e afastado das coordenadas habituais da vida social. Os lugares históricos e monumentais, prenhes de significados postos e apostos, são locais ideais para o turista de reposicionar perante o (seu) mundo, podendo divagar sem limites na reconstrução identitária do seu self, ainda que de modo transitório. A afirmação revelou-se hermética, pois foi a que obteve mais regularidade na categoria neutra (37,8%), para lá de arrecadar apenas um pouco mais de concordância do que dissensão dos inquiridos. Com resultados tão repartidos, não podemos desdenhar a possibilidade de tanto questionarem-se sobre quem são como não questionarem-se de todo neste tipo específico de lugares, podendo ou não apropriarem-se do seu valor intrínseco (autenticidade, o encanto, a gravidade da História humana) para reconstituírem a verdade do seu self. “A comunidade destes lugares não tem nada a ver com a minha própria” A afirmação terminal deste conjunto recentra o confronto entre o global e o local nas perceções dos turistas inquiridos, no momento em que se situam no centro histórico do Porto. Porque não asseverar que um sítio é autêntico devido à diferença de costumes da sua comunidade face à minha de origem? O que eles fazem é real, isto é, genuíno, não parece inventado para turista ver. No entanto, no mundo globalizante de hoje, a expressão local é, não raras vezes, uma expressão da comunidade global, estilos de vida, por exemplo, que vemos repercutidos por esse mundo fora. A neutralidade foi menor nesta afirmação (17,1%), mas a equilibrada divisão de resultados procedente da anterior continua: 37,8% da amostra discordou, de uma forma ou de outra, enquanto que 45,1% concordou, parcial ou totalmente. Podemos referir aqui que os turistas, ao serem quase todos europeus, não encontram razões de sobra para afirmar que a comunidade portuense é muito diferente da deles: encontram-se ambas em condições de ocidentalidade, e o tempo telegráfico que passam aqui é demasiado fragmentado para extraírem um conhecimento mais profundo e, assim, demarcar diferenças definitivas. No países do Oriente, para um turista do Ocidente, talvez as perceções sejam inteiramente diferentes… Quanto mais diferente, mais a autenticidade refulge; e a pequena tendência estatística para a concordância desta afirmação por parte dos inquiridos expande as margens do debate. 120 A penúltima questão do inquérito tentava abordar a autenticidade do centro histórico do Porto doutro ângulo, partindo da mesma base globalizante. Perguntamos aos turistas se consideravam que certos aspetos globais lhes reduziam a perceção de autenticidade que tinham do centro histórico do Porto, novamente através de uma escala de concordância 107 . Mais uma vez, relevamos a dificuldade de operacionalizar, e até de apresentar, esta questão; mas também dizemos que o regime de copresença com o inquirido, no preenchimento do inquérito, ajudou a desanuviar quaisquer dúvidas emergentes na interpretação da pergunta. Como vimos noutras paragens, os elementos constituintes desta questão apontam para o sentido globalizante das marcas de consumo, e do seu efeito na disposição espacial da cidade do Porto: alimentação, hotéis, comércio, transportes. Marcas que são reproduzíveis pelas urbes de todo mundo, e que o turista conseguiria encontrar com facilidade nas suas próprias cidades de partida. O cerne da questão reside na perda da aura única da cidade face a estes “elementos técnicos” que se espacializam em qualquer cidade, homogeneizando alguns dos seus traços. Sem grande surpresa, pelo menos três dos itens avançados desenham uma concordância bastante mais premente do que a discordância entre os turistas inquiridos: os restaurantes de marcas mundialmente conhecidas (69,5% vs. 14,7%); os hotéis e unidades de alojamento de redes internacionais (69,5% vs 9,8%); e o comércio de multinacionais de variado caráter, do vestuário às telecomunicações e serviços (72% vs. 8,5%). Todos estes elementos parecem homogeneizar alguns espaços das cidades de todo o mundo e, em paralelo, cercear um pouco da autenticidade que é única a cada uma delas. Segundo os nossos respondentes, o Porto é um desses casos. A última categoria apresenta, todavia, resultados passíveis de um enfoque particular: os sistemas de transportes similares entre cidades (tuk tuks, autocarros para turistas, comboios rodoviários) e para cidades (avião) indiciam uma concordância unida menos forte (47,6%) e uma discordância mais acentuada no cômputo geral (26,8%), além de apresentar mais frequências na categoria neutra entre todos os aspetos (25,6%). A categoria é equívoca, porque não distinguimos o transporte que a maioria utiliza para viajar para o estrangeiro – o avião, fomentado pelas dinâmicas low cost – do transporte efetivamente circulável nas ruas da cidade. O avião está totalmente naturalizado no seio do turismo, enquanto modo de deslocação rápido e relativamente barato, esbatendo o caminho para consagrar o destino. (Apreciamos as amabilidades recentes das companhias de aviação para valorizarem o caminho feito dentro do avião, como a inclusão de internet, refeições quentes, massagens, enfim, luxos que encontramos de pé na terra.) Igualmente, como os transportes ajudam a desbravar o caos urbano, parece-nos verosímil que não entrem nas contas dos turistas nas questões da autenticidade de uma cidade – mesmo que o autocarro turístico seja igual em Barcelona e no Porto, e que o tuk tuk não origine desta última. A pergunta que finda a análise dos dados do inquérito é decalcada duma questão que Carlos Fortuna fez no passado, para Évora e Coimbra (1999a). Tendo em conta todos os lugares históricos e/ou monumentais que os turistas tinham visitado no transcurso dos seus percursos pedestres no centro 107 Cf. Quadro n.º 34. 121 histórico do Porto, oferecemos-lhes a escolha de uma proposição dentre duas 108 . Sabendo que aquele centro é Património Mundial da Humanidade, a resposta parecia óbvia de antemão, e os dados assim o confirmam: 90,2% da amostra (n = 74) considerou que o caráter histórico daqueles lugares devia ser protegido, mesmo que isso prejudicasse as condições de conforto dos visitantes; para apenas 8,5% (n = 7) do universo amostral que optou pela proposição B, alegando que esse caráter histórico não devia ser estimado, em favor da melhoria das mesmas condições de conforto. Os tesouros do passado não parecem, desde logo, ser facilmente ultrapassáveis pelas exigências de conforto e consumo que caracterizam certas estirpes de turismo, como aquele apelidado de “pós-turismo”. Na nossa vertente analítica, isto pode significar que autenticidade de um sítio, para os turistas inquiridos, estará umbilicalmente ligada à sua pátina histórica, não se imaginando sem essa relação. Mas acima de tudo, a forma como a questão foi colocada inquietou-nos desde o início, temendo que estivéssemos a dar a resposta “certa” pelo fraseamento da proposição A; e a univocidade dos dados parece dar a entender que errámos de facto. Fica uma tentativa honesta de acesso às representações dos turistas, ao invés de uma demonstração estatisticamente sustentada. 3.4. ... e as suas matizações Após a aplicação dos inquéritos por questionário, tentamos entrevistar online alguns turistas que tinham deixado o contacto eletrónico nessa instância, como previamente dito. Desse risco (assumido), granjeámos 3 entrevistas, respondidas a um guião já semidiretivo que aprofundou o conteúdo da entrevista exploratória e alguns dados emergentes dos referidos inquéritos 109 . Ao contrário da entrevista exploratória - por ter sido apenas uma - procedemos à análise conjunta das 3 entrevistas, antepondo as dimensões de análise escolhidas ao discurso isolado de cada entrevistado 110 . Deste modo, definimos o entrevistado espanhol como B, a entrevistada suíça como C, e a entrevistada francesa como D, conforme a ordem estabelecida nas grelhas, e pelo motivos maiores de anonimato e confidencialidade. Os diversos modos de relação com a cidade prosseguem nesta fase, acoplados a novas questões. Constatamos as similitudes do olhar de cada entrevistado, muitas vezes direcionados para os lugares históricos e para a arquitetura típica do edificado portuense (embora a turista D distinga-se pelo interesse fotográfico na parte devoluta desse património); as semelhanças da deambulação urbana, feita a pé para os caminhos mais esguios e misteriosos, porém nunca elidindo o carro para chegar aos locais periféricos de interesse (B e D), e o elétrico para conhecer sítios dos quais não fazíamos ideia (C). Enquanto que o consumo gastronómico, visto como cultural e por ser feito no local, é valorizado por todos, a turista D via-o mais como ponte para comunicar com a população nativa, em pleno hábito diário; nos outros, o contacto local parece ser dirigido apenas por pedidos de 108 Cf. Quadro n.º 35. 109 Cf. Anexo n.º 4 - Guiões de entrevista semidirectiva, em português, espanhol, inglês e francês. 110 Mais uma vez, as grelhas de análise são preciosas para a interpretação enriquecida deste texto (cf. Anexo n.º 8). 128 Referências bibliográficas - AA.VV. (2004). Daniel J. Boorstin, RIP. The New Atlantis, a Journal of Technology & Society, Spring 2004 (5), 97-99. - AA.VV. (2010). Porto Património Mundial, passo a passo – da Estação de S. Bento à Casa do Infante. Porto: Greca, Artes Gráficas, Lda. - Ash, J. & Turner, L. (1975). The Golden Hordes: International Tourism and the Pleasure Periphery. London: Constable. - Augé, M. (1994) [1992]. 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Websites consultados - ANA, Aeroportos de Portugal, SA, disponível em www.ana.pt/ptPT/Aeroportos/Porto/Porto/OAeroporto/ConhecaoAeroporto/ [consultado em julho de 2015]. - Caderno “Fugas” do jornal “O Público”, notícia disponível em http://fugas.publico.pt/Viagens/337663_portugal-arrasa-nos-oscares-do-turismo-europeu [consultada em dezembro de 2014]. - “Café Majestic é o sexto mais bonito do mundo”, notícia do “Jornal de Notícias”, disponível em http://www.jn.pt/VivaMais/Interior.aspx?content_id=1826259&page=-1 [consultada em junho de 2015]. - European Consumers Choice (informação geral), disponível em http://www.europeanconsumerschoice.org/about-us/ [consultado em junho de 2015]. - European Consumers Choice (vertente turística), disponível em http://www.europeanconsumerschoice.org/travel/ [consultado em dezembro de 2014]. - Glossário básico da United Nations World Tourism Organization (UNWTO), disponível em http://media.unwto.org/content/understanding-tourism-basic-glossary [consultado em outubro de 2014]. 133 - Google Cultural Institute, disponível em https://www.google.com/culturalinstitute/ [consultado em agosto de 2015]. - “Livraria Lello. Já era a mais bela do mundo e agora é a mais „cool‟”, artigo do “Jornal i”, disponível em http://www.ionline.pt/274864 [consultado em junho de 2015]. - “Most Beautiful Cafes in the World”, artigo do “U.City.Guides”, disponível em http://www.ucityguides.com/cities/top-10-cafes.html [consultado em junho de 2015]. - “Treze a Rir Uns dos Outros, de Juan Munõz”, artigo publicado no blog “Arte Pública”, disponível em http://artepublica.blog.com/2008/11/16/treze-a-rir-uns-dos-outros-de-juan-munoz/ [consultado em agosto de 2015]. - World Travel Awards, disponível em http://www.worldtravelawards.com/ [consultado em dezembro de 2014]. Materiais audiovisuais - Katz, R. (Produtora), & Coppola, S. (Diretora). (2003). Lost in Translation [Filme]. Estados Unidos da América: Focus Features. 134 Anexos 111 Anexo n.º 1 – Poema “Periclitam os grilos”, de Alexandre O’Neill (2001) “Periclitam os grilos” Periclitam os grilos a noite é nada. Quem tem filhos tem cadilhos. (Que quadra tão bem rimada!) Não espere, leitor, que eu diga: «Debaixo daquela arcada…» Não venho fazer intriga: versejo só – e mais nada. Se a noite é nada e os grilos não estão de asa parada, não vou puxar, só por isso, o fio à sua meada, leitor que me pede a história que já traz engatilhada, leitor que não se habitua a que não aconteça nada em poesia que comece como esta foi começada e acabe como esta vai ser agora acabada… 111 Assumimos o antigo acordo ortográfico na totalidade dos anexos, devido à especificidade processual e operacional dos mesmos. 135 ANEXO N.º 2 Inquéritos por questionário em português, espanhol, inglês e francês 136 Inquérito por questionário em português Este questionário enquadra-se numa investigação em Sociologia para efeitos de dissertação de mestrado, incluída no curso correspondente da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. O seu título é “O Porto turístico: olhares sobre a cidade”, e o seu tema é o turismo na cidade do Porto e os interesses e as motivações que levam os turistas estrangeiros a visitá-la. Toda a informação recolhida nestas respostas será tratada com confidencialidade e anonimato na respectiva análise. Demonstramos, desde já, a nossa maior gratidão pelo seu contributo. I – a viagem ao Porto 1. País de partida: ________________________________________ 2. Com quem veio ao Porto? (Escolha só uma opção) Sozinho(a) Namorado(a)/cônjuge Grupo de amigos Família (com crianças) Família (sem crianças) Excursão (tour turístico) Outra opção. Qual? ________________________ 3. Quantas noites fica/ficará (ou esteve, no caso de saída) no Porto? 4. O tempo que permanece no Porto - medido em número de dias/noites - é-lhe suficiente para ver tudo o que planeou? 5. Já tinha visitado o Porto antes? Sim Não 6. Visitaria de novo o Porto? 3 noites ou menos 4 ou 5 noites Mais de 5 noites É muito pouco É pouco É razoável É muito É demasiado Improvável Pouco provável Provável Muito provável De certeza 137 7. Que grau de importância confere aos seguintes factores na sua decisão de visitar o Porto? (Responda a cada um deles de acordo com a escala de medida) 8. De acordo com as modalidades de viagem abaixo enumeradas, qual é a que mais se adequa à sua presente visita ao Porto? (Escolha só uma opção) 9. Como descobriu o Porto enquanto destino turístico? (Pode escolher mais do que uma opção) 10. Excluindo esta, quantas mais viagens de turismo fez para o estrangeiro no último ano (últimos 365 dias)? Zero Uma Duas Mais do que duas. Quantas?_________ Nada importante Importante Muito importante História da cidade Clima Distância geográfica para o país de partida Cultura local (eventos, museus, exposições, desporto, gastronomia) Oportunidade de viagem (promoções, descontos, anúncio na internet) Publicidade turística Sem roteiro (apenas este destino antes do regresso) Incluída em roteiro pelo território português Incluída em roteiro internacional Outro tipo. Qual? _________________________ Agências de turismo Por conselho de amigos, conhecidos ou familiares Websites institucionais (portais oficiais de Turismo) Websites informais (redes sociais, blogues, diários de viagem) Websites de voos baratos Imprensa (revistas, jornais de papel e/ou online, televisão, rádio) Outro. Qual? ____________________________________ 144 10.1. ¿En caso de haber ido a pelo menos una ciudad en esas viajes, cuáles han sido esas ciudades? _________________________________________________________________ II – la experiencia de turismo en el individuo 11. ¿Qué grado de importancia le da a las siguientes motivaciones individuales en la realización de su viaje a Porto? (Conteste a cada una de ellas según la escala de medición) 12. ¿Qué atención dedica a los distintos aspectos de la ciudad de Porto enumerados abajo? (Conteste a cada uno de ellos según la escala de medición) Muy poca Poca Alguna Mucha Monumentos y edificios históricos Arquitectura contemporánea Vistas y paisajes Museos, galerías, exposiciones Populación local Parques y jardines públicos Comercio e restaurantes locales Entretenimiento nocturno (bares, discotecas, espacios al aire libre) Nada importante Importante Muy importante Demanda de novedad y diferencia Especificidad de la ciudad visitada Gastronomía Descanso físico Divertimiento Conocimiento de la cultura local Deseo de sé conocer mejor a sí mismo Placer de viajar 145 13. En qué medida concuerda o discuerda de las afirmaciones siguientes, relacionadas con la utilización del dispositivo fotográfico (cámara, smartphone, tablet) en el transcurso de su visita a Porto? (Conteste a cada una de ellas según la escala de medición) III – turismo en la ciudad 14. ¿El centro histórico de Porto le parece auténtico por ser Patrimonio Mundial de UNESCO (desde 1996)? 15. ¿En qué medida concuerda o discuerda de las afirmaciones siguientes, relacionadas con su valoración del centro histórico de Porto? (Conteste a cada una de ellas según la escala de medición) Discuerdo totalmente Discuerdo en parte Indiferente Concuerdo en parte Concuerdo totalmente Mi imaginación es importante cuando visito lugares históricos No logro diferenciar lo que es real de lo que es artificial en este tipo de lugares Mi experiencia en estos lugares es un cambio en relación a mí día a día A mí no me importa ver algo escenificado en estos lugares si es bien hecho Me cuestiono acerca de quién soy cuando visito lugares históricos La comunidad de estos lugares no tiene nada que ver con la mía Discuerdo totalmente Discuerdo en parte Indiferente Concuerdo en parte Concuerdo totalmente Lo que visito en la ciudad está relacionado con lo que deseo fotografiar No me imagino a visitar la ciudad sin la posibilidad de sacar fotos Me siento satisfecho e positivamente sorprendido con lo que veo en persona durante la visita, aunque es posible que haya visto lo mismo en fotografías antes de la viaje La abundancia de imágenes fotográficas de Porto vulgariza la ciudad vista en persona Saco muchas fotografías durante mi visita porque lo sé que la capacidad de almacenarlas y compartirlas es virtualmente infinita hoy en día Discuerdo totalmente Discuerdo en parte Indiferente Concuerdo en parte Concuerdo totalmente 146 16. ¿En qué medida concuerda o discuerda que los siguientes factores globales pueden reducir su percepción de autenticidad del centro histórico de Porto? (Conteste a cada uno de ellos según la escala de medición) 17. Teniendo en cuenta los lugares históricos y/o monumentales que tiene visitado en el centro histórico de Porto, señale su preferencia por una de las dos proposiciones siguientes: IV – descripción sociodemográfica 18. Sexo 19. ¿En qué año nació? _________________ 20. Nacionalidad ________________________________________ 21. Estado Civil Discuerdo totalmente Discuerdo en parte Indiferente Concuerdo en parte Concuerdo totalmente Restaurantes de marcas conocidas a nivel mundial Hoteles e unidades de alojamiento de redes internacionales Comercio de multinacionales de variado carácter (ropa, telecomunicaciones, servicios) Sistemas de transporte similares entre ciudades, y para ciudades (tuk tuks, autobuses para turistas, trenes de calle, avión) Proposición A: El carácter histórico de estos lugares debe ser protegido, mismo que eso va en perjuicio de las condiciones de hospitalidad dadas a los visitantes. Proposición B: El carácter histórico de estos lugares no debe ser protegido, a favor de la mejoría de las condiciones de hospitalidad dadas a los visitantes. Masculino Femenino Soltero(a) Casado(a) Unión de hecho Divorciado(a)/separado(a) Viudo(a) No lo sé; no quiero contestar 147 22. Nivel de educación (Elija sólo una opción – su nivel más alto) Puele leer y escribir sin grado de educación (EQF 1*) 1º ciclo de la educación básica (EQF 2) 2º ciclo de la educación básica (EQF 3) 3º ciclo de la educación básica (EQF 4) Estudios secundarios (EQF 5) Bachillerato (EQF 6) Licenciatura (EQF 6) Estudios de posgrado (EQF 7) Maestrazgo (EQF 7) Doctorado (PhD) (EQF 8) No lo sé; no quiero contestar 23. Condición hacia el trabajo 24. ¿Si trabaja, cuál es su situación en la profesión? 24.1. Profesión ejercida ______________________________________ 24.2. ¿Si desempleado (a) o retirado(a)/jubilado(a), cuál fue su última profesión ejercida? ___________________________________________ Existe una pequeña posibilidad de necesitar de una aportación extra para esta investigación. Si desea proporcionar un poco de su tiempo para una entrevista online después de su regreso a casa (e.g. Skype o e-mail), deje por favor su e-mail: ________________________________________________. En cualquier caso, les damos las gracias de nuevo por colaborar con nosotros. MUITO OBRIGADO! Estudia Trabaja Estudia y trabaja Desempleado(a) En busca de su primer empleo Retirado(a)/jubilado(a) Sin capacidad para el trabajo Otra situación. ¿Cuál?___________________________ No lo sé; no quiero contestar Patrón con más de 10 trabajadores bajo su responsabilidad Patrón con menos de 10 trabajadores bajo su responsabilidad Trabajador por cuenta ajena Trabajador por cuenta propia Trabajador familiar sin remuneración Otra situación. ¿Cuál?_______________________________________ No lo sé; no quiero contestar *Niveles del European Qualifications Framework 148 Survey by questionnaire This questionnaire is part of an investigation in Sociology, for the purpose of a master‟s degree dissertation in the same science at the Faculty of Arts of the University of Porto. “The touristic Porto: gazes over the city” is its title, dealing with tourism in the city of Porto and its foreign visitors‟ interests and motivations in visiting it. All information gathered here will be treated with privacy and anonymity in the corresponding analysis. We extend, here and foremost, our greatest gratitude for your help. I – the trip to Porto 1. Country of departure: ________________________________________ 2. With whom have you come to Porto? (Pick just one option) Alone Girlfriend or boyfriend/Spouse Group of friends Family (with children) Family (without children) Tour/excursion (of touristic nature) Another. Which? ________________________ 3. How many nights are you staying/have stayed in Porto? 4. Does the time you‟re staying in Porto - measured in number of days/nights spent – suffice to see everything you‟ve planned? 5. Had you visited Porto before? Yes No 6. Would you visit Porto again? 3 nights or less 4 or 5 nights More than 5 nights It‟s too little It‟s little It‟s reasonable It‟s much It‟s too much Very unlikely Unlikely Likely Very likely Certainly 149 7. Which degree of importance do you attribute to the following factors in your decision to visit Porto? (Answer every one of them according to the scale) 8. According to the travel options listed below, which one would you say fits your present trip to Porto? (Pick just one option) 9. How did you discover Porto as a tourism destination? (You can pick more than one option) 10. Excluding this one, how many more tourism trips abroad have you made during the last year (the last 365 days)? Not important Important Very important History of the city Weather Geographic distance to the country of departure Local culture (events, museums, exhibits, sports, food) Travel opportunity (promotions, discounts, internet advert) Tourism advertising Without itinerary (just this destination before returning home) Included in itinerary throughout portuguese regions Included in an international itinerary Another type. Which? _________________________ Travel agencies On behalf of friends, family or acquaintances Institutional websites (official tourism pages) Informal websites (social networks, blogs, travel diaries/journals) Cheap flights websites Press (magazines, paper or online newspapers, TV, radio) Another. Which? ____________________________________ Zero One Two More than two. How many? _________ 150 10.1. In case you went to at least one city in those trips, which ones were they? _________________________________________________________________ II – the experience of tourism in the individual 11. Which degree of importance do you attribute to the following individual motives in the making of your trip to Porto? (Answer every one of them according to the scale) Not important Important Very important Search of novelty and difference The specific nature of the visited city Food Physical rest Entertainment Getting to know the local culture Desire to learn more about oneself Pleasure of travelling 12. What kind of attention do you pay to the different aspects of Porto listed below? (Answer every one of them according to the scale) Very little Little Some A lot Monuments and historical buildings Contemporary architecture Sights and landscapes Museums, galleries, exhibits Local population Public parks and gardens Local commerce and restaurants Night life (bars, discos, outdoor spaces) 151 13. To what extent do you agree or disagree with the following sentences, related to the use of the photographic device (camera, smartphone, tablet) during your trip to Porto? (Answer every one of them according to the scale) III – tourism in the city 14. Does the historical centre of Porto seem authentic to you because it is a World Heritage Site since 1996 (distinction given by UNESCO)? 15. To what extent do you agree or disagree with the following sentences, related to your evaluation of the historical centre of Porto? (Answer every one of them according to the scale) Totally disagree Partially disagree Indifferent Partially agree Totally agree My imagination is important when visiting historical places I can‟t distinguish what‟s real from what‟s artificial in this kind of places My experience at these places is a change in relation to my day-to-day life I don‟t mind seeing something staged at these places if it‟s well done I question myself about who I am when I visit historical places The community of these places is unlike my own Totally disagree Partially disagree Indifferent Partially agree Totally agree What I visit in the city is related to what I intend to photograph I can‟t imagine visiting the city without the possibility of taking photos I feel satisfied and positively surprised with what I see in person during the trip, despite having seen the same in photos before the journey The abundance of photographic images of Porto makes the city seem unimportant when seen in person I take many photos during my trip because I know the ability to store and share them today is virtually infinite Totally disagree Partially disagree Indifferent Partially agree Totally agree 152 16. To what extent do you agree or disagree that the following global factors might reduce your perception of authenticity of the historical centre of Porto? (Answer every one of them according to the scale) 17. Given the historical and/or monumental places you might be visiting in the historical centre of Porto, mark your preference for one of the two following statements: IV – sociodemographic description 18. Sex 19. What year were you born? _________________ 20. Nationality ________________________________________ 21. Civil status Totally disagree Partially disagree Indifferent Partially agree Totally agree Restaurants of known worldwide brands Hotels and accommodation units of international companies Multinational commerce of diverse nature (clothing, telecommunications, services) Similar transport systems between cities, and to cities (tuk tuks, tourist buses, road trains, airplanes) Statement A: The historical nature of these places should be protected, even if that harms conditions of hospitality given to visitors. Statement B: The historical nature of these places should not be protected, in favour of improving conditions of hospitality given to visitors. Male Female Single Married Together but not married Divorced/separated Widow/widower Don‟t know/don‟t want to answer 153 22. Level of education (Pick just one option – your highest level) Knows how to read and write without level of education (EQF 1*) 1º cycle of basic education (EQF 2) 2º cycle of basic education (EQF 3) 3º cycle of basic education (EQF 4) Secondary education (high school, grammar school) (EQF 5) Bachelor‟s degree (EQF 6) Graduate‟s degree (EQF 6) Postgraduate studies (EQF 7) Master‟s degree (EQF 7) PhD (EQF 8) Don‟t know/don‟t want to answer 23. Condition towards work 24. If you work, what‟s your work situation? 24.1. What‟s your profession? ______________________________________ 24.2. If unemployed or retired, what was your last profession? _______________________________ There‟s a small chance of needing an extra step for this research. If you wish to lend a little bit of your time for an online interview after you return home (e.g. Skype or e-mail), please leave an e-mail by which we may contact you: _____________________________________ In any case, we thank you again for your priceless contribution! MUITO OBRIGADO! Study Work Study and work Unemployed Looking for first job Retired Without the capacity for work Another. Which?____________________________ Don‟t know/don‟t want to answer Employer with more than 10 workers under his responsability Employer with less than 10 workers under his responsability Worker on behalf of others Self-employed Unpaid family worker Another. Which? _______________________________________ Don‟t know/don‟t want to answer *European Qualifications Framework levels