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Uma tarefa crucial para a economia política: a crítica da inovação tecno-liberal

Garcia, José Luís

Abstract

Este artigo procede a uma crítica à inovação impulsionada, desde as décadas finais do século xx, como grande projecto das sociedades. O texto apresenta duas contribuições principais para a elucidação do que está em causa nesse empreendimento. A primeira consiste em sustentar que a orientação para a inovação é uma política económica, de carácter neoliberal, que tem como objectivo o aumento da produtividade e dos lucros, através da anexação da ciência e da tecnologia, e abrindo o caminho aos mercados de novos âmbitos do mundo natural e da vida humana. A segunda é sugerir que o projecto da inovação é uma nova manifestação de historicismo, mais propriamente de historicismo tecno-liberal. O texto conclui com a defesa da necessidade de avaliar as políticas da inovação segundo valores adequados para alcançar fins socialmente equitativos e ecologicamente viáveis.

Full text

Re is a C í ica de Ciências Sociais 119 | 2019 Núme o semi emá ico Uma a e a c ucial pa a a economia polí ica: a c í ica da ino ação ecno-libe al A C ucial Task o he Poli ical Economy: A C i ique o Techno-libe al Inno a ion Une âche c uciale pou l’économie poli ique: la c i ique de l’inno a ion echno- libé ale José Luís Ga cia Edição elec ónica URL: h p://jou nals.openedi ion.o g/ ccs/9316 DOI: 10.4000/ ccs.9316 ISSN: 2182-7435 Edi o a Cen o de Es udos Sociais da Uni e sidade de Coimb a Edição imp essa Da a de publição: 1 Se emb o 2019 Paginação: 171-198 ISSN: 0254-1106 Re ê encia ele ónica José Luís Ga cia, « Uma a e a c ucial pa a a economia polí ica: a c í ica da ino ação ecno-libe al », Re is a C í ica de Ciências Sociais [Online], 119 | 2019, colocado online no dia 06 agos o 2019, c iado a 08 agos o 2019. URL : h p://jou nals.openedi ion.o g/ ccs/9316 ; DOI : 10.4000/ ccs.9316 JOSÉ LUÍS GARCIA Uma a e a c ucial pa a a economia polí ica: a c í ica da ino ação ecno ‑libe al* Es e a igo p ocede a uma c í ica à ino ação impulsionada, desde as décadas inais do século xx, como g ande p ojec o das sociedades. O ex o ap esen a duas con i‑ buições p incipais pa a a elucidação do que es á em causa nesse emp eendimen o. A p imei a consis e em sus en a que a o ien ação pa a a ino ação é uma polí ica eco‑ nómica, de ca ác e neolibe al, que em como objec i o o aumen o da p odu i idade e dos luc os, a a és da anexação da ciência e da ecnologia, e ab indo o caminho aos me cados de no os âmbi os do mundo na u al e da ida humana. A segunda é suge i que o p ojec o da ino ação é uma no a mani es ação de his o icismo, mais p op iamen e de his o icismo ecno ‑libe al. O ex o conclui com a de esa da necessi‑ dade de a alia as polí icas da ino ação segundo alo es adequados pa a alcança ins socialmen e equi a i os e ecologicamen e iá eis. Pala as ‑cha e: economia do conhecimen o; his o icismo; ino ação ecnológica; neolibe alismo; polí ica de ino ação. In odução O objec i o des e a igo é ap esen a uma e lexão c í ica da polí ica de ino- ação implemen ada, desde inais da década de 1980, como g ande desígnio das sociedades. Es a c í ica p e ende demons a que a polí ica de ino ação em sido uma cons ução polí ica, de cunho neolibe al, ins i ucionalizada e desen ol ida po Es ados, agências nacionais, en idades sup anacionais e g andes emp esas, ao se iço da expansão do con olo p i ado da economia, do me cado em mais domínios da ida humana e na u al e da p odução pa a o luc o. A discussão ealizada elucida como o comp omisso da ac ual polí ica de ino ação é sob e udo com a c iação cons an e de in enções, * Es e a igo é uma e são al e ada de uma comunicação do au o ap esen ada, como um dos keyno e speake s, no I Encon o de Economia Polí ica, que se ealizou en e 25 e 27 Janei o de 2018, no ISCTE -IUL, em Lisboa. Po on ade do au o , o ex o não segue as eg as do Aco do O og á ico de 1990. Re is a C í ica de Ciências Sociais, 119, se emb o 2019: 171-198 172 | José Luís Ga cia em especial ecnológicas ou com componen e ecnológica, passí eis de se em con e idas em me cado ias al amen e en á eis na p esen e economia mundial, e que pa a esse im, em sido ulc al a coop ação e ans o mação da in es igação cien í ica e ecnológica e de ou as o mas de conhecimen o e in o mação. Es e ensaio a as a -se das p essuposições eó icas que jus i icam o iés p ó -ino ação hegemónico no campo de pesquisa da ino ação em ciências sociais e inse e -se na co en e de es udos c í icos e na p ocu a de al e na i as (Godin, 2016, 2017; Ga cia e al., 2018; G unwald, 2018; Ke schne e al., 2018; Pollex e Lenschow, 2018; S and e al. 2018). As p incipais ques ões- -cha e a que o a igo busca da espos a são: como comp eende que a polí ica de ino ação seja acolhida socialmen e como se osse um inelu á el des ino? Qual o sen ido de a polí ica de ino ação e como en endimen o undamen al a mudança ecnológica e a economia? Quais as implicações ge adas pela aga de ino ações das úl imas décadas? O p esen e ex o suge e uma abo dagem o iginal nes e campo de es u- dos a a és da in odução de duas pe spec i as. A p imei a de ende que o p ojec o de ino ação cons i ui uma no a mani es ação de his o icismo, em conc e o o his o icismo simul aneamen e ecnológico e me cadoló- gico, numa exp essão, o his o icismo ecno -libe al. O a igo sus en a que, a pa i de uma alaciosa ep esen ação da his ó ia como o cump imen o de um p ocesso e olu i o e ascenden e da libe dade e da acionalização das elações en e os se es humanos e des es com a na u eza, as ecnologias/ /me cado ias p oduzidas pela ino ação apa ecem como sendo semp e supe- io es às do passado e o sis ema de me cado como um sis ema e minal. A segunda pe spec i a ompe com a endência, p óp ia das eses mains eam da sociologia económica, pa a en a iza a in luência social no me cado e, no mesmo passo, subes ima a in luência do me cado na sociedade. Ac edi a que a ajec ó ia do a anço ecnológico e do me cado co espondem a um supos o desen ol imen o da acionalidade na his ó ia, e que a expansão do mecanismo do me cado não implica consequências sociais d amá icas mais não signi ica do que acei a um no o ipo de a alismo e as ilusões que ajudam a sus e a sociedade de me cado na ac ual ase neolibe al. O ex o es á o ganizado em qua o secções. A p imei a expõe o con ex o de mobilização da ino ação, os seus an eceden es e a eme gência da noção de ino ação ecnológica com ins de come cialização. A segunda e ela a pas- sagem de uma isão nega i a do no o a é aos al o es da mode nidade pa a uma isão a o á el, já no século XX. A gumen a -se que o p es ígio ecen e do no o cons i ui o con ex o cul u al mais la o pa a a admissão ac í ica da ino ação e que na sua base se encon a o las o da pe spec i a mode na A c í ica da ino ação ecno‑libe al | 173 e his o icis a do p og esso con e ido hoje no que é aqui concep ualizado como “his o icismo ecno -libe al”. Na e cei a secção, incide -se o olha no es udo de Ka l Polanyi com o es a u o de clássico, A g ande ans o mação (2012 [1944]). A es a égia é ecupe a o sen ido da sua ese ace ca da endência, impulsionada pelo libe alismo económico, pa a a subo dinação da sociedade à o ça e magni ude do mecanismo de me cado como base pa a o en endimen o da aga de “ino ação desinc us ada” ao se iço dos gigan es ecnológicos e emp esa iais, que se em indo a desen ol e nas úl imas décadas. A qua a secção analisa a con inuidade daquela dinâmica a a és da ex ensão de p odução abundan e de “me cado ias ic ícias” em âmbi os social e ecologicamen e c uciais, ais como os do conhecimen o, da comunicação humana, sociabilidade, abalho, ida biológica, saúde e alimen ação. O a igo conclui com a sus en ação da ideia de que a ino ação não de e se conside ada uma panaceia pa a odos os p oblemas, não de e se o ien ada po me os p opósi os de come cialização e é necessá ia a sua a aliação e egulação é ica, polí ica, social e ambien al. Mobilização pa a a ino ação É sob o pano ama amplo dos e ei os do choque da c ise pe olí e a dos anos 1970, da ascensão nos anos 1980 das dou inas do libe alismo de me cado – conhecidas sob as e ique as do ha che ismo, eaganismo, neolibe alismo e “consenso de Washing on” –, do im da Gue a F ia nos inícios dos anos 1990 e da o mação de um me cado plane á io mais in e ligado, que a ino a- ção começou a se ab açada como um concei o básico da polí ica económica e se a i mou a exp essão ino ação ecnológica. Desde en ão, a ino ação em indo a se uma ideia cen al que apon a uma o ien ação pa a as econo- mias, emp esas, indús ias, uni e sidades e pa a os campos da ciência e da ecnologia. A in e enção es a al em odo o mundo di o desen ol ido ou em desen ol imen o empenhou -se, emanando di ec izes, o mando en i- dades p omo o as e in es indo com undos, na implemen ação da ino ação. Um no o ac i ismo oi es imulado, ab angendo campanhas, ei as, concu sos e p opaganda, que pe seguem a c iação de no idades, ge almen e com o e ca ác e ou in e enção ecnológica. Slogans angua dis as são e ocados com equência a a o da e olução pe manen e de ac i idades, ma é ias- -p imas, ecnologias, indús ias, o mas labo ais, p o issões es abelecidas e me cados. Embo a seja incen i ada nos mais di e sos planos, a maio en âse em sido na ino ação ecnológica com po encial come cial, conside ada um ac o undamen al do aumen o da p odu i idade e da busca de maio es luc os. É ex ao diná ia a a enção p es ada às conquis as ecnológicas, ao papel das g andes co po ações no inc emen o ecnológico, às an agens 174 | José Luís Ga cia e ganhos que as emp esas podem e em e mos de economização da o ça e cus os de abalho, aos me cados das ecnologias e aos encadeamen os da ecnologia com o comé cio mundial. É saudada a supos a ou eal ul apas- sagem das ecnologias an e io es, o adas a uma sen ença de obsolescência p og amada, assim como o papel que as no idades ecnológicas desempe- nham na ans o mação do mundo social. No quad o des a c uzada pela ino ação, o mou -se igualmen e um no o campo de pesquisa no meio uni e si á io e cien í ico, designado po “es udos de ino ação”, bem como uma as a bibliog a ia académica que ab ange um conjun o de handbooks, expondo modelos e eo ias da ino a- ção, o mais das ezes i ados ou pa a a ele ância do desen ol imen o do ac o écnico e económico ou, em casos mais a os, pa a a impo ância das condições sociais e cul u ais, mas quase semp e com escassa e lexão c í ica.1 Além desses handbooks, cons a a -se ambém a publicação de um ace o mui o conside á el de ob as das mais a iadas á eas, da economia às engenha ias, da ges ão à sociologia, em que a ino ação é com equência abo dada segundo o p incípio do me cado.2 É impo an e no a que, enquan o o ien ação dos go e nos, oi sob e- udo após a Segunda Gue a Mundial que começa am a se cla amen e abandonados os obs áculos à ino ação e que o am concebidas noções a o á eis à mesma enquan o ins umen o de acção económica di igida, em pa e ou na sua o alidade, po alo es e objec i os de p odu i idade e luc os. É ce o que o capi alismo de me cado es e e semp e associado à in enção de no as ecnologias pa a p oduzi mais me cado ias com meno es cus os de abalho, maio disciplina da o ça labo al e em busca de maio- es luc os. No en an o, a i agem cada ez mais a o á el à ino ação, no século XX, oi pa icula men e anunciada nas eses o muladas, nos começos da década de 1940, po Joseph Schumpe e (1996: 125), segundo as quais a ino ação c ia i a, des uido a do equilíb io o inei o, se ia endógena e undamen al ao desen ol imen o económico, e não uma condição ex e na. 1 A li e a u a espei an e à ino ação, e elado a da apos a das en idades polí icas, económicas e uni e si á ias, c esceu ao i mo do incen i o que lhe oi dado como o ien ação pa a as sociedades. Uma lis a dos mais des acados handbooks publicados na úl ima década inclui: Hall e Rosenbe g (2010); Os e walde e Pigneu (2010); Smi s e al. (2010); Aud es sch e al. (2011); Kwok e G ondzik (2011); Lund all e al. (2011); A ena e al. (2012); Mum o d (2012); Rooney e al. (2012); Dodgson e al. (2013); Gaul (2013); Moulae e al. (2013); Red o d (2013). 2 Ve S oneman (1995, 2010); on Hippel (2006, 2017); Dodgson e al. (2008); E zkowi z (2008); Van de Ven e al. (2008); Swann (2009, 2014); Ve gan i (2009); Fe nández Pé ez e Rose (2010); A chibugi e Filippe i (2011); Ka lsson e al. (2012); Le ne e S e n (2012); S eiby e al. (2012); Teece (2012); Fage be g e al. (2013); B ynjol sson e McA ee (2014); Dola a (2014); Engel (2014); Moh e al. (2014); Mazzuca o e Penna (2015); Niwa (2016); Schilling (2017); Schwab (2017); Chaminade e al. (2018). A c í ica da ino ação ecno‑libe al | 175 “A e e na empes ade da des uição c iado a”, esc e eu, “é o ac o essen- cial do capi alismo”, endo como ac o cen al o “emp esá io ino ado ” (Schumpe e , 1976 [1942]: 87; adução do au o ). Pa a o economis a aus- íaco, o emp esá io ino ado é o esponsá el po no os p odu os pa a o me cado, po meio de combinações mais e icien es dos ac o es de p odução. As ino ações dos emp esá ios são conside adas mo o es do c escimen o económico a longo p azo, no qual no os p odu os des oem elhas emp esas e modelos de negócio. Mas icando -se a de e a Schumpe e a in odução da ino ação na eo ia económica, como maio ou meno iés ecnológico segundo os seus in é - p e es, ele não cunhou a exp essão “ino ação ecnológica” e ainda menos a analisou com de alhe. Tal denominação só su ge após 1950 a a és de Rupe W. Maclau in, his o iado económico do Massachuse s Ins i u e o Technology, que pode se des acado como o p imei o eó ico em ino ação ecnológica nos inais de 1940 e inícios de 1950, embo a con inue a se bas an e igno ado nos es udos sob e as o igens dessa ino ação. Não apenas Maclau in u iliza desde cedo a designação “ino ação ecnológica”, como a desen ol e enquan o p ocesso sequencial no empo, com início na in es i- gação cien í ica e cujo úl imo es ádio é a come cialização. Numa ques ão de décadas, a ino ação ecnológica eclipsou ou os e mos e o nou -se a ep e- sen ação p edominan e da ino ação (Godin, 2008). Em inais do século XX, a polí ica cien í ica e ecnológica undiu -se com a polí ica de ino ação e indicado es de ciência e ecnologia o am ede- senhados como pa âme os de ino ação. I ompeu en ão a linguagem da in es igação e do desen ol imen o (I&D) pa a de ini o complexo que oi es abelecido en e a indús ia e a in es igação cien í ica e ecnológica ao se iço da ino ação come cial. Tal complexo oi iden i icado como uma ala anca da o inização da ino ação em odas as á eas possí eis na p ocu a de no as en es indus iais, de come cialização, de ganhos de p odu i idade e de con olo do mundo labo al. O chamado modelo linea da ino ação impôs -se como um p ocesso sequenciado de ases, ac i idades e e en os com início na ciência ou na in es igação básica e e minando no me cado (nacional e global). Nessa sequência, o am c iadas agências de ino ação pa a p omo e essa mesma ino ação; es abelece am -se p io idades de inanciamen o pa a a o ece as in es igações com maio es possibilidades de o igina ino ações; ins i uí am -se incen i os económicos pa a in es i- gações ealizadas em con ex o emp esa ial; e alo izou -se a ob enção de pa en es po pa e dos in es igado es. Em odos esses es o ços, os go e nos bem como en idades sup anacionais – como a União Eu opeia – e de alcance mundial – como a OCDE e o Banco Mundial – o am apoiados po sec o es 176 | José Luís Ga cia académicos enquan o consul o es que imagina am modelos de ino ação como um meio pa a enquad a e guia polí icas (en e ou os, e Ba bosa, 2011; Fe nández -Esquinas, 2012; Ga cia, 2012; Godin e Vinck, 2017).3 Ino ação como no o his o icismo – O his o icismo ecno ‑libe al Se, no p esen e, a ino ação em uma cono ação cla amen e posi i a, se é uma o ien ação polí ica enco ajada e pa ocinada, se os ino ado es são lou ados, a p e ensão ao no o e e no passado uma ca ga de suspeição, oi is a como pe u bado a da o dem social e quem buscasse a no idade conside ado indesejá el. O ac ual sen ido da pala a – quase incon es a- elmen e a o á el à no idade – não de e, po an o, encob i os di e sos signi icados e isionomias que e e nos séculos an e io es, e inclusi e os deslizamen os que a ideia de no o e e no século XX. Godin (2016 [2014]), au o de um obus o es udo sob e a ep esen ação his ó ica da ino ação, a gumen a que es a noção es á hoje de al modo ligada a uma ideologia económica que se descu a e sido du an e séculos uma noção de cunho polí ico con es ada. A abo dagem de Godin é oda uma en a i a de a as a a noção de ino a- ção da p esen e mi i icação, começando po e ela como o p óp io e mo é apenas um en e mui os ou os usados pa a ala do no o e da acção de in oduzi uma no idade. No seu abalho, dis ingue duas “epis emes”: uma p imei a, que se es ende da Re o ma ao século XIX, pe íodo no qual a ino ação e a essencialmen e ejei ada; e uma segunda, no século XX, p eci- samen e quando a ino ação al e ou o seu signi icado e adqui iu um ca ác e de nob eza (Godin, 2016 [2014]). No e -se que es a dema cação ei a pelo au o en e duas g andes lógicas não de e se en endida como um quad o de al manei a as ixian e que impedi ia econhece a sedução pelo no o e a assunção de c ia i idade nou os pe íodos, como são exemplos á ios mo imen os li e á ios e cul u ais, écnicos e pionei os da ciência desde o Renascimen o a é inais do século XVIII.4 Godin (ibidem) escla ece que apenas na segunda me ade do século XX é que a ino ação se o nou uma e dadei a pala a de o dem, ag upando uma di e sidade de ou os e mos 3 É ácil cons a a que a li e a u a da ino ação es á sa u ada de modelos. Embo a an es da década de 1960 o e mo “modelos” enha sido pouco usado, Godin (2017) suge e que esse e mo em an o uma unção cien í ica quan o e ó ica. 4 Rela i amen e à c iação cul u al e écnica, He mínio Ma ins (2011: 85 -86) e e e a exis ência de pa alelos eológico -cien í ico - ecnológicos em que a is as e a esãos, desde o Renascimen o, e oca am coope ações com a Di indade no quad o de uma cul u a c is ã que ealça a a imagem de Deus como “c iado de c iado es”. Is o pe mi iu a concepção de que a esãos, a is as ou enge- nhei os podiam c ia como demiu gos, não ex nihilo, mas sob e ma e iais p eexis en es, ampliando a po ência disponí el ao Homem e c iando belezas inédi as. A c í ica da ino ação ecno‑libe al | 177 e concei os, embo a a exp essão “ino ação ecnológica” enha passado a ocupa quase oda a ex ensão semân ica da no idade.5 A apologia do no o – ou “neola ia” – das úl imas décadas pode en ão se comp eendida como essonância do espí i o p og essis a nascido da consciência mode na, pa a o qual oi decisi o o iun o de uma no a noção de empo his ó ico ol ado pa a o u u o e abe o à no idade e à mudança. Con ém ap o unda es a ques ão. Na An iguidade pagã p edomina a a alo ização do passado, pa alelamen e à ideia de um p esen e decaden e; na Idade Média o p esen e es a a ence ado en e o peso do passado e a espe ança num u u o esca ológico; e no mundo mode no em o mação desde o Renascimen o su ge um no o concei o de empo que o eme e pa a o u u o. As explo ações ma í imas e a o mação do conhecimen o cien í ico dos séculos XV, XVI e XVII, conjugados mais a de com a e olu- ção indus ial, o p ocesso de p odução em massa e a expansão económica, se i am de alen o à a i mação da supe io idade dos mode nos sob e os an igos e de alice ce de uma consciência his ó ica di eccionada pa a o de i . Nos séculos XVIII e XIX, ce as exp essões de desen ol imen o social e um no o conjun o de ideias es u u an es pe mi i am asga ho izon es e nega o a alismo nas elações en e os homens e na elação des es com a na u eza e com Deus, as quais e am p óp ias da men alidade eu opeia. A ideia de que o se humano e a li e pa a de e mina o umo da sua p óp ia ida, a con iança na in eligibilidade da ealidade e na aculdade au ónoma da azão pa a a o na e iden e, bem como a c ença na p edisposição da humanidade pa a a pe ec ibilidade, con ibuí am pa a compo a noção de p og esso que se oi impondo na Eu opa. No con ex o desc i o, o sen ido da his ó ia i ompeu como p oblema, e uma iloso ia da his ó ia pôde se o mulada enquan o execução de um plano sequenciado, g andioso e bené olo, cujo im de e minado e a o eng andecimen o da humanidade. Pa a mui os sis emas de pensamen o in luen es da época, na qual se des aca o hegeliano e a sua ideia da conquis a do empo his ó ico pela azão, a his ó ia su ge egida po um desígnio úl imo de melho amen os segu os e con ínuos, insc i o numa 5 A es e espei o cabe ia ambém lemb a o papel do u u ismo, com início an es da P imei a Gue a Mundial po esc i o es e a is as i alianos, mas com in luxos pos e io es nou os con ex os, endo sido uma angua da cul u al lauda ó ia an o do no o como do no o ecnológico. Pa a os u u is as i alianos, o locus p imo dial dos alo es es é icos e a undamen almen e o u u o, e não a na u eza ou a a e do passado, o qual e a p ojec ado e sublimado como um mundo em p ocesso de mecanização da exis ência. Os u u is as i alianos o am eículos da “neola ia” em e são ecnoc á ica. A sua glo i icação do no o acompanha a a glo i icação da ecnologia, incluindo a que es a a associada à gue a. Bons apon amen os sob e es a ques ão encon am -se em Be man (1982) e Ma ins (2011: 152 -155). 178 | José Luís Ga cia dinâmica ascenden e da acionalidade que em do passado pa a o p e- sen e. Os eu opeus mode nos se iam os ac o es p incipais do p og esso e os an agonismos, padecimen os e o men os i idos pela humanidade ep esen a iam apenas me os es o os na sua ma cha ascenden e. A libe - ação dos se es humanos apa ecia con o me os impe a i os da his ó ia, impe a i os que se econheciam, a inal, como no passado se econhecia a on ade de Deus. O en endimen o do p ocesso his ó ico como seguindo um encadeamen o ou di ecção especial, concomi an e à acionalidade, ab angendo di e sas a ian es, é conhecido sob a designação de “his o icismo”.6 O concei o que nes e ex o é adop ado de ine -o como uma ep esen ação do empo his ó ico de ipo de e minís ico, na qual odos os acon ecimen os his ó icos apa ecem como obedecendo a leis ou endências mais ou menos ígidas. São mui os os c í icos do his o icismo assim en endido, no século XX, ha endo um la go consenso ace ca da ejeição de qualque isão do cu so da his ó ia em que es a igu e como o cump imen o de um plano ou de um p og ama.7 Em aços la gos, o ipo de his o icismo p o essado po mui as isões mode nas da ideia de p og esso endeu a concebe a his ó ia no seu conjun o como um io e olu i o, acumula i o, ascenden e e eleológico de pad ão acional, cujas leis conduzem i esis i elmen e a humanidade pa a o u u o. Essas leis podiam se descobe as, o nando possí el con- diciona decisi amen e – ou mesmo de e mina – a di ecção da acção polí ica e social. O “his o icismo” alo iza o p esen e como sendo supe io ao passado, jus i ica -o como p enúncio do u u o e celeb a a no idade 6 Um en endimen o an e io do his o icismo conce ne a concepção, su gida em meados do século XIX po pa e de pensado es alemães, nos quais se des aca Dil hey, de enso a de que o conhecimen o da sociedade e da condição humana em um ca ác e in insecamen e his ó ico, sendo po isso necessá ia uma ap oximação ilosó ica do conhecimen o his ó ico. Es a endência ca ac e iza -se pela ecusa dos modelos cien i icis as do conhecimen o e p opunha a sua subs- i uição po modelos his ó icos, en aizados em con ex os conc e os e de ipo pe spec i ís ico e in e p e a i o, aplicá eis não apenas à his ó ia, mas ambém à economia, ao di ei o, à eo ia polí ica e a g andes domínios da iloso ia. C oce e Collingwood são apon ados como igu as des acadas des a pe spec i a o iginal do his o icismo. 7 É mui o comum e e i como expoen es da c í ica ao his o icismo pensado es libe ais como Ka l Poppe (1957) e Isaiah Be lin (1954) e a c í ica ao his o icismo como uma espécie de p e oga i a libe al e de con inamen o do his o icismo, no campo das co en es polí icas, ao p og essismo socialis a e comunis a. Es a endência em con ibuído p o a elmen e pa a negligencia que em mui o p og essismo libe al dos séculos XIX e XX se encon a um a aen e his o icismo. Tal si uação le a ambém a esquece abalhos in elec uais ele an es que pode ão se incluídos na e lexão c í ica do his o icismo, de que são expoen es Reinha Koselleck (1988 [1959]; 2004 [1979]), E nes Gellne (1992), Fe nando Ca oga (2009) na li e a u a po uguesa, e no p óp io campo do ma xismo, Hen i Le eb e (1970). É e dade, no en an o, que as co en es socialis as e comunis as, ao longo século XX, com escassas excepções, se dis ingui am po uma é inabalá el ela i amen e ao p og esso da humanidade. A c í ica da ino ação ecno‑libe al | 185 Po udo o que se disse, o mecanismo do me cado e a sua ligação com a p odução indus ializada, acei ando a ese polanyiana, mani es a -se como p ocu a incessan e de ap eensão de mais e mais elemen os passí eis de en a na cadeia p odu i a e me can il, de modo a amplia a quan idade e a di e sidade de me cado ias e os luc os, buscando em simul âneo econo- miza os cus os do abalho e disciplina a o ça labo al, odo es e caminho abe o pela in odução de no os e mais po en es meios ecnológicos de p odução. O que in eg a a a ida humana, social e na u al é ansmu ado em ac o de p odução, sujei o à comp a e enda e, po an o, adqui e a o ma de me cado ia, des inada a se consumida e a ge a mais dinhei o do que aquele que oi in es ido. Sob a condução do libe alismo económico a o- á el a um sis ema económico baseado apenas na au o - egulação me can il, es e p ocesso de p odução é, logicamen e, uma o ma de espoliação p o- g essi a da na u eza, da ida humana, do abalho, das o mas de conheci- men o, do p óp io desen ol imen o ecnológico e de udo o que possa se ans igu ado em me as ias pa a p oduzi luc o a a és do consumo de p odu os e se iços. Ao implica o inci amen o ao consumismo ou como o ma de ob e al as axas de luc o, é i al que a icção da me cado ia ab anja ambém o p óp io dinhei o a a és da p odução de especulação inancei a, mone á ia e do c édi o, e daí a impo ância que o am assumindo os me - cados inancei os e o capi alismo inancei o. Ino ação desinc us ada Sob o pano de undo do mecanismo desc i o, a ino ação em sido – mesmo quando a pala a não exis ia e não e a uma polí ica económica ins i uída – uma disposição de ein enção indus ial e de odo o ipo de se iços que p ocu a na ciência e na ecnologia a p o isão de um manancial de sabe es e meios pa a a ep odução do p óp io mecanismo. Ac esce ainda que a ino ação em ambém ido como objec i o a c iação de odo o géne o de a mas e meios bélicos i ados pa a o domínio polí ico (e impe ial). O que a ino ação p omo ida desde a década de 1980 signi icou de di e en e oi a sua p óp ia ins i ucionalização enquan o polí ica económica e a de e - minação em eduzi con inuamen e a au onomia dos uni e sos da ciência e da ecnologia pa a os con e e plenamen e num emp eendimen o em p ol de mais e mais adicais ein enções, anco adas em p omessas e u o- pias ecnológicas, pa a objec i os de p odu i idade, al e ações no abalho e en abilidade económica. Essa polí ica em sido conjugada igualmen e com a ein enção inancei a como agen e undamen al na especulação do p óp io capi al e no consumo enquan o an ecipação de luc os. A ino ação em sido um ins umen o polí ico que ac i a a in enção e a in odução de no idades 186 | José Luís Ga cia no âmbi o económico, de modo p a icamen e i es i o, an o nas á eas já exis en es como em no as á eas, semp e segundo o p incípio de que só à lógica de me cado cabe de ini que opções de e ão p e alece . T a a -se, pois, de uma ino ação cujo in ui o undamen al é o luc o, uma ino ação que con inua a lógica da desinc us ação da economia da sociedade, mas ago a de modo acele ado e exace bado – uma “ino ação desinc us ada”, pa a usa a noção polanyiana. Is o po que al como é a sociedade que dá sen ido e im à economia, ambém é a sociedade que de e da signi icado e p opósi o à ino ação, e não o con á io. Sob o alinhamen o do p ojec o de ino ação das úl imas décadas, a conjun u a dos nossos dias pode se in e p e ada à luz da ans o mação de uma “economia do abalho” pa a uma “economia do conhecimen o” (Powell e Snellman, 2004; Mu ei a, 2004; Rooney e al., 2012; S eiby e al., 2012), ou da ansição pa a um “capi alismo cogni i o” (Fumagalli e Luca elli, 2007; Moulie -Bou ang, 2011; Ve cellone, 2005; Lazza a o, 2014; Pasquinelli, 2015), dada a c escen e in ensidade do ac o cogni i o en ol ido nos p ocessos de p odução, dis ibuição e ecepção, bem como nos p odu os, se iços e inclusi amen e on es de abas ecimen o, ou ainda pa a um “capi alismo digi al” (Schille , 1999; Picciano e Sp ing, 2012; Fuchs e Mosco, 2015), uma ez que o elemen o cogni i o es á cada ez mais a se inco po ado na ecnologia digi al. Colocam -se, de seguida, sob o esc u ínio c í ico ês ace as ca deais da ino ação. A e e ência a uma economia do conhecimen o ou, mais adequadamen e, a um capi alismo cogni i o/digi al, p ocu a da con a da insc ição da ciência e da ecnologia, e a p óp ia in e pene ação des as duas es e as, bem como de ou os sabe es e aculdades, na c iação de alo económico e na com- pe ição dos me cados enquan o endência ideológica e ealidade conc e a desde inais do século XX. Es a con o mação da ciência e do desen ol imen o ecnológico é a p imei a das ques ões c í icas que é indispensá el apon a e chegou a e , na década de 1990, uma o mulação bas an e saudada e acolhida pelo mains eam uni e si á io: a chamada “ ipla hélix”, uma exp essão usada po E zkowi z e Leydesdo (1995) pa a apelida a aliança en e a uni e sidade, a indús ia e o go e no ela i amen e à ino ação em acção. Não obs an e a ausência de su icien es es udos documen ados que apon em o sen ido das mudanças de econ igu ação dos campos cien í ico e ecnológico quan o à sua inco po ação na es e a indus ial e come cial – em á eas como a das ciências dos compu ado es, In e ne e digi al, e ciên- cias biológicas e da saúde –, exis em indicações conside á eis da anexação des as nos objec i os indus iais, na lógica emp esa ial e come cial, assim como de al e ações impo an es no es a u o e manda o dos in es igado es, A c í ica da ino ação ecno‑libe al | 187 i endo cada ez mais sob a imposição de se ans o ma em em p odu o es de me cado ias.11 A p op iedade in elec ual sob a o ma de pa en es cump e aqui um papel de p imei o plano. No e -se, po ém, que o ac o cogni i o não se es inge apenas à mobilização (e p i a ização e exp op iação) do conhecimen o cien í ico e do conhecimen o ecnológico, en ol endo ou os como o design, o es é ico, o ma ke ing, o es udo dos me cados e dos consu- mido es, bem como os ecu sos comunicacionais e imagina i os da o ça de abalho e de ou os c iado es po enciais. Ainda nes e âmbi o, uma conse- quência ex emamen e nega i a das polí icas de ino ação é ma ginaliza em as á eas de in es igação menos suscep í eis de po encial ino ado segundo uma lógica ecnológica e me can il, de que são exemplos a in es igação undamen al, as humanidades, á ios p oblemas ambien ais, as ince ezas associadas às ecnologias, as o mas de ag icul u a al e na i a e o melho a- men o das condições de ida e de saúde das populações mais ca enciadas. Um segundo ac o c í ico da polí ica pa a a ino ação diz espei o à abe u a ao sis ema p odu i o e ao p ocesso de me cado ização de no os âmbi os, que não podiam an es se inse idos nesse mecanismo po ausência de capacidade cien í ica - ecnológica e de legi imação. É o caso das ans o mações em cu so que es ão a conduzi à cons i uição de no as á eas indus iais e come ciais, dis inguindo -se as que êm como base a noção de in o mação (compu ado es, digi alização, In e ne , mas ambém bio ecnologia, a macêu ica, alimen ação, e c.). Os no os amos indus iais ope am à escala global e conjugam o conhecimen o cien í ico- - ecnológico, a ap op iação da unção de ep odução e o con olo ce ado sob e a dis ibuição e o uso pa a impedi a ep odução.12 Obse a -se, nes e pe íodo, a p opensão pa a as ino ações se associa em em cachos, ab angendo as á eas das ciências dos compu ado es, ecnolo- gias da in o mação (so wa e, In e ne , sma phones, dados, able s, ipads, gaming, no os media, in eligência a i icial…) e bio ecnociências (alimen os gene icamen e modi icados, melho amen o ege al, genómica lo es al, medicina genómica, p oc iação a i icial, diagnós ico e aconselhamen o gené ico, bioengenha ia de ecidos, a mocogenómica…), en e ou os campos. Os me cados de ecnologia, de in o mação, de dados, de imagens, os biome cados, passa am a se , cla amen e, essenciais na ac ual economia 11 A es e espei o, e , en e ou os, Pes e (2003); K imsky (2003); Ga cia (2006); Ga cia e Ma ins (2008); Nowo ny e al. (2010). 12 Os concei os de ecnologia p o unda e ino ação p o unda assen am bem nes a ealidade, que po esul a em de domínios cien í icos de g ande complexidade, que pelo po encial pa a ins iga as as mudanças económicas e sociais. No en an o, ambém ab angem possibilidades de ino ação inc emen al. 188 | José Luís Ga cia de me cado, comandados pelos gigan es ecnológicos (Alphabe , Mic oso , Amazon, Apple, Facebook, Baye , No a is…). É possí el a i ma que inúme as o mas de conhecimen o, ecnologia, aculdades i ais dos se es humanos e o mas de ida biológicas êm es ado sujei as a um come imen o de deslaçamen o das suas o denações sociais e da na u eza. Um caso exempla de “ino ação desinc us ada” – mui o discu ido nos planos polí ico, sociológico, ilosó ico e objec o de g a es con li os sociais – é o das semen es ansgénicas e a sua disseminação em plan ações e come cialização. T adicionalmen e, as semen es e am en idades biológicas eno á eis e egene a i as cons i uin es de ecossis emas que ge a am p o- du os p edominan emen e ol ados pa a as necessidades locais, em con- sonância com a cul u a e a o ganização social, endo sido seleccionadas a a és de conhecimen os compa ilhados pelos ag icul o es ao longo de séculos. Já as semen es ansgénicas, nas quais a engenha ia gené ica queb a a unidade da semen e como on e de uma colhei a e simul aneamen e ep odu o a de si mesma, são me cado ias p oduzidas po emp esas de capi al in ensi o que êm a sua pa en e e cujo objec i o é ob e luc os no me cado mundial da alimen ação.13 Tal como oco eu com a e a, o abalho e o dinhei o analisados po Polanyi, conhecimen o cien í ico, ecnologias, genes, genomas, en idades biológicas – a a és da capacidade ecnocien í ica e da ex ensão dos di ei os de p op iedade in elec ual e das pa en es – êm es ado sujei os à sua con e são em me cado ias “ ic ícias” de indús ias eme gen es p opulsionado as de no os me cados. Tudo indica e sido decisi o o papel jogado pelas ciências dos compu- ado es e pelas ecnologias da in o mação no quad o des a ci cuns ância. O que possibili ou, em e mos écnicos, aos agen es ansnacionais e nacio- nais mo imen a em -se no me cado global oi a exis ência de uma base ins- umen al em e olução cons an e, a qual ga an e o aumen o da capacidade de ecolhe , ep oduzi , a a e ansmi i in o mação de di e sos ipos, assim como modi ica p o undamen e as o mas de p odução e dis ibui- ção. Em oda a as a á ea da economia digi al há ealmen e que e em con a o mo imen o de con e gência en e as ciências dos compu ado es, as ecnologias da in o mação, a in eligência a i icial e as bio ecnociências. As in a -es u u as ecnológicas que sus en am o ag upamen o das ino ações dependem das capacidades de p ocessamen o dos compu ado es e do uso da In e ne . Ad ém ainda que o desen ol imen o de campos ecnológicos e indus iais – como o das ecnologias da in o mação, bio ecnociências e da 13 Nes a ma é ia, e , en e ou os, Kloppenbu g (1988), Shi a (1997), Al ie i (2001), Lacey (2005) e Ga cia (2006). A c í ica da ino ação ecno‑libe al | 189 in eligência a i icial – em es imulado incessan emen e no os ciclos de negócios, sendo que o p imei o desses âmbi os em indo a po encia g andes al e ações na p odução, dis ibuição, consumo, o mas labo ais, modos de ida, o mas de comunicação, conhecimen o e de en e enimen o. Não se a a, pois, de uma mudança ecnológica que possa se conside ada um me o p olongamen o de ecnologias an e io es – a exp essão adequada pa a a menciona é de mudança ecnológica cesu ial. O p ocesso em cu so de hegemonia digi al, em associação com as p ojecções sob e a in eligência a i icial e a obo ização, es á igualmen e a a o ece – al ez mais ele an e do que o espec o da subs i uição do abalho ou as p omessas de ganhos de p odu i idade – no as modalidades de desquali icação e agilidade labo al (Caldas e Teles, 2019; Teles e Caldas, 2019). Um e cei o ac o c í ico da concepção hegemónica de ino ação con- ce ne a disposição que pode se denominada de “pseudo -ino ação” e que eme e pa a o in es imen o, sob e udo na dimensão es é ica dos p odu os, conjugada com ma ke ing e publicidade, de modo a con e i o alo de no o e o iginal, enquan o es a égia de di e enciação de p odu o. Nes e caso, a po encialidade es é ica de oda a ealidade social é explo ada em ba alhas económicas que p essupõem a sujeição da sensibilidade e o consumismo. Mui os dos p odu os ecnológicos das g andes emp esas p ocu am ac es- cen a ao seu lado uncional ca ac e ís icas de ipo cul u al que mobilizem o gos o e a sensibilidade pa a a p odução de consumo. Es a in lexão es é ica da p odução indus ial indica que as emp esas in es em na c iação inces- san e de no os bens pa a compe i com os já exis en es, u ilizando -os no es ímulo ao consumismo.14 Mos a ainda que mui a ino ação é, não p op ia- men e inc emen al, mas supe icial. T a a -se de uma ób ia sob eposição do alo de oca sob e o alo de uso, ca ac e ís ica bem conhecida – apelidada de e ichismo da me cado ia – do capi alismo de me cado. O concei o aqui a ançado de pseudo -ino ação p ocu a des enda a camu lagem que encob e a domes icação da c ia i idade (Mould, 2018), os mé odos de massi icação, as ope ações de mon agem e os cálculos de me cado que i e am luga no p odu o e isam a mobilização indus ial do gos o e a comp a. Tais mé o- dos icam o uscados pela dimensão comunica i a ou cul u al in ojec ada nos p odu os, de modo a que apa eçam sob uma epu ação de c iação. Os meand os mais ecôndi os das emoções, dos a ec os e da cul u a são cap- u ados po ealizações des inadas a se em um mo o económico. Como 14 O undado e ex -di ec o da e is a Wi ed, Da id Rowan (2019), designa es e ipo de ino ação de “bullshi inno a ion”. Alguns dos seus exemplos incluem cuecas an i - adiação, esp eme- do es de sumo inú eis e o os ligados à In e ne . 190 | José Luís Ga cia mui os au o es êm sus en ado, o ac ual modelo pós -indus ial e pós - o dis a, em que a in o mação e o conhecimen o êm um papel c ucial, es á en ol ido num mo imen o de cul u alização da p odução indus ial ( e , en e ou os, Assouly, 2008; Alonso Beni o e Fe nández Rod íguez, 2018). O mundo da c iação e da p odução a ís icas e á an ecipado o caminho pa a o os no os p ocessos indus iais. Se a bandei a da c ia i idade oi assimilada pela ino- ação ecnológica, en ão a indus ialização do século XX e a come cialização seguem as pisadas da indus ialização da cul u a. Conclusão Na adição da economia polí ica, na sua pe spec i a c í ica, es a e lexão dedicada ao concei o hegemónico de ino ação p ocu ou da con a das ela- ções sociais, em especial as elações de pode que dão co po aos p ocessos de p odução, dis ibuição e consumo das sociedades. Ainda no quad o da mesma pe spec i a, hou e a p eocupação de examina os en ec uzamen os das á eas económica, polí ica e social, bem como em es abelece um com- p omisso com alo es mo ais. Tendo como objec o de análise a polí ica de ino ação, es e a igo p o- cu ou demons a que a ino ação em sido essencialmen e uma cons ução polí ica di igida pa a a busca incessan e da p odu i idade e do luc o, a a és da ex ensão do mecanismo do me cado a no as es e as do mundo na u al e da ida humana, como as do conhecimen o, comunicação, abalho, ida biológica, alimen ação e saúde. Deu con a do en iesamen o ecnológico da polí ica de ino ação em duas dimensões: po um lado, a acele ação da in en- ção de apa elhos e sis emas ecnocien í icos capazes de aumen a de o ma con ínua a p odução nas mais di e sas á eas e com maio economização dos cus os do abalho; po ou o, a ab icação de odo o ipo de disposi i os ecnológicos, ma e iais e ima e iais, ou p odu os com o e componen e ecnológica, semp e de aco do com a expec a i a da en abilidade come cial. Pa a es es objec i os, o p esen e a igo ealçou o papel da ins i ucionalização da in es igação cien í ica e ecnológica como pa e da polí ica económica p ó -me can il, a qual em es ado ao se iço de ans o mações p o undas em amplas á eas possí eis de ino ação, ab angendo não só p odu os e p o- cessos, mas ambém sabe es, o mas de abalho, modelos o ganizacionais e ainda on es de ma é ias -p imas e es u u as de me cado. Como co olá io, êm sido accionadas no as o mas de espoliação da na u eza e dos se es humanos, desembocando num aumen o e iginoso – e de concen ação – de conhecimen o e pode , com e e be ações pe igosas, o a numa escala global, o a em nome do nacionalismo económico. O capi alismo, ao con o ma a ino ação ecnológica, ambém é po ela con o mado. A c í ica da ino ação ecno‑libe al | 191 Sob a sedução da ideia alaciosa de que a ajec ó ia da ecnologia e a e olução dos me cados são co ela as ao desen ol imen o di ec o e linea da acionalidade, pe spec i a que aqui se cunhou como mani es ação de his o icismo ecno -libe al, as me cado ias ecnológicas an o apa ecem enquan o p omessa, como jus i ica i as de cada no idade. Assim, o no o ecnológico é concebido de o ma necessi a is a e eleológica, con i - mando semp e as apos as ei as. Em consequência, icam na obscu idade os in e esses, os cálculos económicos, as lógicas de pode , as al e na i as possí eis, os con li os ine en es aos p ojec os de ino ação e às opções ecnológicas. A de ocada de sec o es p odu i os in ei os e o desemp ego ecnológico azem -se ao compasso da descobe a de no os ecu sos, da aplicação de mé odos de p odução, dis ibuição e consumo, o mas de abalho p ecá ias e agilizadas (“ube izadas”) e da cons i uição de me - cado ias ic ícias. São descu adas as consequências inespe adas de odo o ipo, os e ei os ca as ó icos sociais, os p oblemas ambien ais e a con usão mo al que acompanha a ino ação. Mesmo na agenda polí ica da p omoção da sus en abilidade que apa ece a desa ia a o ien ação dominan e da ino ação, se bem que os alo es ambien ais es ejam p esen es e o oco não seja exclusi amen e na p odu i idade, no luc o e na expansão do me cado, no a -se uma p opensão pa a o solucionismo ecnológico (Mo ozo , 2014) e pa a a manu enção de pad ões de ida de al o consumo. A in lação de expec a i as ela i amen e à ino ação, mo men e em des a o da implemen ação de polí icas sociais, não em a o ecido uma ampla a i ude c í ica à o ien ação dominan e da ino ação, à ino ação como panaceia, à sua inse ção no plano me amen e ecno -me can il, ao seu elã cesu ial sem pa âme os é icos, sociais e polí icos. É necessá- io a alia o pe il de alo es da ino ação pa a se pode oma decisões in o madas a espei o do que se que ino a e de como se que ino a , e em con a pe spec i as al e na i as de ino ação e a ende às esis ên- cias à ino ação, udo is o pa a alcança ins socialmen e equi a i os e ecologicamen e iá eis. Re is o po So ia Sil a Re e ências bibliog á icas Alonso Beni o, Luis En ique; Fe nández Rod íguez, Ca los J. (2018), Pode y sac i icio. Los nue os discu sos de la emp esa. Mad id: Siglo XXI. Al ie i, Miguel A. (2001), Gene ic Enginee ing in Ag icul u e: The My hs, En i onmen al Risks, and Al e na i es. Oakland: Food Fi s . 192 | José Luís Ga cia A chibugi, Daniele; Filippe i, And ea (2011), Inno a ion and Economic C isis Lessons and P ospec s om he Economic Down u n. London: Rou ledge. A ena, Richa d; Fes é, Agnès; Laza ic, Na halie (o gs.) (2012), Handbook o Knowledge and Economics. Chel enham: Edwa d Elga Publishing. 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