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A Poesia Herói-Cómica e a Memória de Bagatelas: A Celebração Épica de Trivialidades n’O Hissope de Cruz e Silva

Fonseca, Rui Carlos Reis, 1984-

Abstract

Os poemas homéricos integram no tecido narrativo evidências do processo oral de transmissão poética a que as suas origens estão associadas. Seria, pois, a voz hábil e poderosa do aedo o meio através do qual os heróis do passado alcançavam renome, passando à póstuma memória como protagonistas das mais notáveis façanhas. Contudo, enquanto a epopeia celebriza em tom solene e grave a memória de um passado glorioso, contrariamente a poesia herói-cómica, que se caracteriza pelo contraste entre a expressão elevada e o tema vulgar, torna objecto de canto incidentes triviais. Neste capítulo, reflectirei sobre a subversão do valor encomiástico da poesia épica antiga n’ O Hissope de Cruz e Silva, poema herói-cómico português, que celebra, num estilo alto e sublimado, próprio da epopeia, uma das mais frívolas questiúnculas ocorridas na Sé de Elvas, na segunda metade de setecentos, entre o Deão José Lara e o Bispo D. Lourenço de Lancastro. Demonstrarei que o poema em causa glorifica, de forma paródica e satírica, acções grosseiras e insignificantes, inserindo a realidade social, não num passado heróico, mas num presente vicioso e ordinário. Assiste-se, assim, neste texto, a uma imitação dos recursos épicos não para imortalizar feitos gloriosos, mas para preservar a memória de bagatelas. Significativo é o episódio (cuja análise dou especial atenção) em que Vidigal entretém o banquete em casa do deão, no canto VII de O Hissope. O padre cantor afirma categórico que deixará em silêncio os grandes sucessos “em mais remotos tempos celebrados”, optando por glorificar a memoranda Elvas com o relato musical de três incidentes triviais nela ocorridos.

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& Sabedoria Memória José Pedro Serra Helena Carvalhão Buescu Ariadne Nunes Rui Carlos Fonseca COORDENAÇÃO & Sabedoria Memória José Pedro Serra Helena Carvalhão Buescu Ariadne Nunes Rui Carlos Fonseca COORDENAÇÃO 533 A POESIA HERÓI-CÓMICA E A MEMÓRIA DE BAGATELAS: A CELEBRAÇÃO ÉPICA DE TRIVIALIDADES N’O HISSOPE DE CRUZ E SILVA Rui Carlos Fonseca* O canto, no âmbito da tradição oral em Homero, é, afi rma Scodel, “the most powerful form of memory” (1998, 183). Não é tarefa difícil comprovar a validade desta afi rmação com exemplos retirados dos poemas homéricos. Reunidos os Aqueus em assembleia, Agamémnon considera o fracasso da campanha contra Tróia uma vergonha de que irão ouvir falar os vindouros (Ilíada 2, 119). No combate entre Aquiles e Heitor, o príncipe troiano, apercebendo-se da fatalidade da sua morte, profere as seguintes palavras: “μὴ μὰν ἀσπουδί γε καὶ ἀκλειῶς ἀπολοίμην, ἀλλὰ μέγα ῥέξας τι καὶ ἐσσομένοισι πυθέσθαι” [“Que eu não morra é de forma passiva e inglória, mas por ter feito algo de grandioso, para que os vindouros de mim oiçam falar!”] (Ilíada 22, 304-305)1. Ora, os heróis que povoam o universo iliádico têm plena consciência de que as suas acções serão transmitidas à posteridade, resistindo às condicionantes inevitáveis do tempo e do esquecimento. Essa perdurabilidade da memória de feitos gloriosos torna-se possível graças ao canto dos aedos. É precisamente um dos poetas representados na Odisseia, Demódoco, que propaga a fama alcançada pelos Aqueus na guerra de Tróia ao cantar na corte do rei Alcínoo o episódio do cavalo de madeira (Odisseia 8, 499-521). Os poemas homéricos integram, portanto, no tecido narrativo evidências do processo oral de transmissão poética a que as suas origens estão associadas. É a voz hábil e poderosa do aedo o meio através do qual os heróis do passado alcançam renome, passando à póstuma memória como protagonistas das mais notáveis façanhas. Porém, enquanto a epopeia celebriza em tom solene a memória de um passado glorioso, a poesia herói-cómica, que nasce da imitação épica e que se caracteriza 1 As traduções dos poemas homéricos apresentadas neste trabalho são da autoria de Frederico Lourenço. O texto original citado segue as edições de Page et al. 534 pelo contraste entre a expressão elevada e o tema vulgar, torna objecto de canto incidentes triviais. No âmbito deste estudo, refl ectirei sobre a subversão do valor encomiástico da poesia épica antiga em O Hissope de Cruz e Silva, poema herói-cómico português, composto em 1769 e apenas publicado em 1802. O poema em causa glorifi ca, de forma paródica e satírica, acções grosseiras e insignifi cantes, inserindo a realidade social não num passado heróico mas num presente vicioso e ordinário. Na verdade, a imitação dos recursos épicos (marca fundamental do género paródico) não visa, neste texto, imortalizar feitos gloriosos, mas preservar a memória de bagatelas do quotidiano social da época. Tendo em conta esse pressuposto, organizarei o estudo que se segue em torno de dois grandes eixos temáticos: um referente à celebração de trivialidades, cujo referente heróico (histórico e mitológico) vem omisso ou sugerido no poema (procedimento incomum no estudo de obras ditas paródicas – uma vez que a paródia só funciona com o reconhecimento do texto parodiado naquele que parodia –, mas nem por isso menos pertinente para o que me proponho tratar); outro que consistirá na análise intertextual de alguns episódios deste poema com os referentes literários que lhe servem de modelo, pois, sendo o poema herói-cómico um reverso da epopeia, nele naturalmente abunda material épico, que é todavia transfi - gurado e aplicado a um novo contexto, de modo a que do deslocamento e da reutilização desse material resulte um efeito subversivo, onde justamente a paródia reside. O assunto de que se ocupa O Hissope consiste na querela entre os dois membros mais prestigiados da hierarquia eclesiástica de Elvas, o Bispo D. Lourenço de Lancastro e o Deão José Lara, por causa de um asperges que um deseja receber e o outro se recusa a entregar. Esta disputa eclesiástica, que adquire nesta obra de Cruz e Silva contornos risíveis, despertou a curiosidade pública, não passando, contudo, refere Cerqueira Moreirinhas, de um incidente quase insignifi cante em comparação com outros confl itos de que está repleta a história do cabido elvense (Moreirinhas 1962, 116 e 126). Coadjuvados ou contrariados pelo arbítrio de entidades superiores, governadas pelo Génio Tutelar das Bagatelas, Bispo e Deão enredam-se nos meandros da burocracia jurídica: Lancastro manda lavrar um acórdão para repor a norma de cortesia entretanto interrompida; Lara apela Rui Carlos Fonseca 535 a uma fi gura conceituada de Elvas para não ter de cumprir o obséquio anterior de honrar o Bispo com o bento hissope. No início do canto 5, Lara dirige-se, então, ao Convento dos Capuchos, a fi m de solicitar ao padre guardião que suspenda os efeitos do acórdão assinado pelos partidários do Bispo. A localização do convento é descrita nestes modos: Sobre uma montanheta que se estende Em piquena distância dos soberbos Guerreiros muros da triunfal Elvas O célebre convento se levanta. (O Hissope 5, 24-282) O uso dos epítetos “guerreiros” (aplicado aos muros do convento) e “triunfal” (que qualifi ca a cidade) não é senão uma forma de se aludir à memoranda Batalha das Linhas de Elvas, que opôs as tropas portuguesas, comandadas pelo conde de Cantanhede, ao exército fi lipino, chefi ado por D. Luís de Haro. A alusão a esta batalha, ocorrida em 1659 no contexto da Guerra da Restauração, torna-se signifi cativa precisamente por constituir não mais do que uma breve referência indirecta, sem direito a um excurso textual mais desenvolvido. Este confl ito travado nos campos de Elvas e que implicou um cerco ao convento da cidade foi, segundo o historiador Veríssimo Serrão, decisivo para o futuro do país, na medida em que a derrota portuguesa signifi caria a entrega de Lisboa ao inimigo espanhol. Mas Elvas foi palco da “primeira grande vitória da Restauração” (Serrão 1996, 44-45). Seria de esperar que um poema que tem Elvas como cenário histórico celebrasse o passado glorioso da cidade. O momento do canto 5 em que se refere a ida do Deão ao convento seria sem dúvida oportuno para um relato mais amplo da vitória elvense. No entanto, o poema herói- -cómico caracteriza-se não pelo assunto grandioso mas pelo conteúdo baixo e trivial, razão pela qual recusa celebrar a fama e a glória passadas, fazendo assim passar despercebido qualquer evento histórico de mérito nacional. Aguardando ser recebido pelo padre guardião, Lara passeia no jardim conventual, observando as estátuas e bustos que representam per2 As citações de O Hissope transcritas no presente trabalho seguem a edição crítica de Ana María García Martín e Pedro Serra. A POESIA HERÓI-CÓMICA E A MEMÓRIA DE BAGATELAS... 536 sonagens mitológicas. Curioso e ignorante, o “farfante Deão” (assim é designado no poema) trava um longo diálogo com um outro padre provincial, questionando-o sobre a identidade dessas fi guras. A última das estátuas observadas, a que tem representado o semblante de Héracles, leva o padre capucho a contar os admiráveis trabalhos deste herói, referindo a limpeza às cavalariças de Augias e a captura do leão de Némea (O Hissope 5, 405-437). O relato dos trabalhos de Héracles é, todavia, interrompido pela chegada do padre guardião, que consente em redigir a certidão solicitada. Assim, dos doze feitos executados pelo fi lho de Zeus apenas dois são dados a conhecer ao Deão. Héracles é talvez o mais popular e o mais célebre de entre todos os heróis que povoam a mitologia greco-romana (Grimal 2004, 205) e no entanto é a fi gura mitológica que, neste canto 5 de O Hissope, não vê celebrados nem metade dos prodigiosos trabalhos que teve de cumprir por imposição de Hera. Depois de criada expectativa em torno dos feitos que executou, o poema como que opera um apagamento deste herói, que nem sequer é identifi cado pelo nome que o tornou famoso, mas pelo nome original, menos conhecido, Alcides (patronímico de Alceu, avô paterno de Héracles). Enquanto no início do canto 5 se deixa no esquecimento um evento histórico de importância nacional, agora, no fi nal do mesmo canto, as façanhas mitológicas do famoso herói grego fi cam igualmente por contar. Numa versão pouco conhecida de O Hissope, em que o poema é confi gurado em nove cantos, o padre capucho não chega a ser interrompido e relata cinco outras aventuras protagonizadas por Héracles, ainda que apenas três delas integrem o ciclo dos doze trabalhos: a hidra de Lerna, as maçãs de ouro das Hespérides e a corça de Cerineia. O manuscrito 3047 da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra contém um trecho de 175 versos, que constitui uma das maiores interpolações da versão de nove cantos. O texto de O Hissope foi massivamente divulgado entre os séculos XVIII e XIX, tendo sofrido sucessivas reelaborações até ser publicado na sua versão defi nitiva de oito cantos. Não é possível asseverar, reconhece García Martín, que a metamorfose do poema tenha obedecido a uma intervenção autoral directa (García Martín 2004, 42). No entanto, no âmbito que aqui nos interessa, importa notar que um excerto textual de longa extensão contendo informação pertinente sobre o famoso herói grego, fi lho do soberano dos deuses, não foi contemplado Rui Carlos Fonseca 537 na versão defi nitiva deste poema. Mais uma vez, a poesia herói-cómica rejeita celebrar feitos grandiosos, dignos de memória e de louvor. Conseguida a apelação, o Deão organiza em sua casa um lauto banquete, para o qual convida os membros mais prestigiados da alta sociedade elvense. O festim é acompanhado de um espectáculo musical, cujo clímax se atinge com a actuação do padre Francisco Vidigal, músico da Sé, que, em “duros berros”, louva a cara pátria, começando o seu canto da seguinte forma: – Ó grande Elvas, cidade em todo o tempo Por teus famosos filhos memoranda! Hoje até às estrelas meus acentos Teu nome levarão e tua fama, Mas donde minha língua a teus louvores Dará princípio? Tu, ó brincão Baco, Como tens por costume, tu me inspira. Mil em silêncio deixarei sucessos Em mais remotos tempos celebrados, Que tua glória ilustram, pois não pode Um ingenho mortal todas as cousas [...]. (O Hissope 7, 245-255) A afamada cidade vai ser então celebrada em canto, mas não pela memória de feitos ancestrais. O padre cantor afi rma categórico que deixará em silêncio os grandes sucessos “em mais remotos tempos celebrados”, optando assim por glorifi car a terra pátria com o relato musical de três incidentes triviais nela ocorridos. Um sino rachado, uma inscrição ilegível e um espectáculo de tourada são os três casos do quotidiano social da cidade recitados por Vidigal para entretenimento dos convivas. Segundo a edição crítica de García Martín e Pedro Serra (Silva 2006, 146), no ano de 1750 ou 51, foi proposta pelos vereadores da Câmara a fundição de um novo sino municipal, uma vez que o antigo se encontrava rachado. A fi m de se evitarem maiores despesas para a cidade, o Senado da Câmara decidiu que não se haveria de fundir um sino novo, podendo-se remendar com quatro malhetes de ferro aquele que estava lascado (O Hissope 7, 256-268). O estupendo caso que se segue respeita à ilegibilidade de uma inscrição lapidar, mandada gravar por cima da porta Esquina, uma das três portas da fortifi cação de Elvas. Vidigal refere-se a esta famosa inscrição de leitura imperceptível como “mais A POESIA HERÓI-CÓMICA E A MEMÓRIA DE BAGATELAS... 538 escuro enigma” do que aquele que a monstruosa Esfi nge propunha aos viandantes às portas de Tebas (O Hissope 7, 269-277). Por fi m, o clérigo ocupa-se com ânimo renovado do relato de um evento popular ocorrido num passado histórico recente. Trata-se do combate de touros de 1760 a que o povo de Elvas assistia divertido, no decorrer do qual começou a circular um rumor “ainda incerto” do casamento entre os futuros reis de Portugal, D. Pedro III e D. Maria I. Esta notícia não ofi cial espalhou-se rapidamente entre as gentes, que a celebraram com vivos aplausos e enérgicos movimentos de bandeiras, seguindo-se ainda uma distribuição de doces. Este último episódio cantado por Vidigal não só evidencia a lealdade exagerada por parte do vulgo elvense, como também assinala o início da ceia em casa do Deão, há muito aguardada pelos convidados esfomeados (O Hissope 7, 291-305). No contexto da sociedade homérica, o aedo – como voz de uma tradição antiga difundida através do tempo e à qual se tem acesso por inspiração divina (Scully 1981, 78) – transmite, ensina e preserva os códigos de conduta social. Cabe-lhe não só celebrar acções gloriosas, mas também assegurar e construir para o futuro o nome e a fama dos homens e dos deuses (Goldhill 1991, 59). Não é débil o poder da voz aédica. Graças a ela, Fémio (o aedo que entretém os pretendentes em casa de Ulisses) é poupado do massacre fi nal levado a cabo pelo herói regressado à terra pátria (Odisseia 22, 344-453). Vidigal desempenha no banquete em casa do Deão um papel semelhante àqueles de Demódoco em Esquéria e de Fémio em Ítaca. Mas enquanto estes dois aedos homéricos deleitam a assistência com o relato de célebres façanhas protagonizadas por heróis famosos, contrariamente o padre cantor imortaliza em canto acções banais e populares, subvertendo deste modo o valor encomiástico da poesia épica ao torná-la laudatória de bagatelas. Enquanto na epopeia o canto aédico causa admiração pela heroicidade do gesto praticado, um gesto nobre, no poema herói- -cómico a admiração é produzida pela vulgaridade temática celebrada em estilo elevado. O canto de Vidigal está assim intrinsecamente relacionado com o enredo principal desenvolvido em O Hissope: um sino rachado, uma inscrição ilegível e um espectáculo de tourada revelam-se temas tão insignifi cantes como uma questão mínima entre clérigos. “A mock-heroic poem should, in as many respects as possible imitate the true heroic. Th e more particulars it copies from them, the more Rui Carlos Fonseca 539 perfect it would be” (Cambridge apud Broich 1990, 50). Na qualidade de poema herói-cómico, O Hissope reaproveita os recursos da epopeia, o que não implica, porém, uma cópia exacta dos mesmos mecanismos temáticos e/ou formais, mas antes uma adaptação ao novo contexto, como, aliás, o tratamento do canto aédico acima exposto comprova. A invocação às Musas (O Hissope 1 e 7), o concílio dos deuses (O Hissope 1 e 8), a interferência divina (O Hissope, passim), o uso de epítetos (O Hissope, passim – e.g.: “o farfante Deão”, “o gordo Bispo”), as descrições ecfrásticas e catalógicas (O Hissope 7) constituem outros exemplos de expedientes tradicionais da poesia épica de que Cruz e Silva se serve para epopeizar a questiúncula entre o Bispo e o Deão. A aplicação herói-cómica desses mecanismos que caracterizam a magnifi cência épica serve neste poema um propósito trivial. As Musas Olímpias invocadas para a enumeração das naus e dos comandantes dos Aqueus no canto 2 da Ilíada cedem lugar às deusas do Parnaso, entidades às quais se solicita inspiração no canto 7 de O Hissope para celebração condigna dos nomes e manhas dos “altos varões” que vão chegando ao banquete oferecido em casa do Deão. O catálogo das naus é o recurso épico imitado, aqui transmutado num rol de convidados da alta sociedade elvense, insignes não pelas gestas heróicas, mas pelos vícios por que são conhecidos. Desfi lam nesse festim tipos sociais, como o agiota avarento, o fi dalgo galante e namoradeiro e o glutão. Estes e outros varões, que coroam com a sua presença o “vistoso salão” onde decorre a festa organizada por Lara, são considerados “dignos todos de fama e maravilha” (O Hissope 7, 165), expressão que corresponde a um verso de Os Lusíadas (10, 73, 2) e que é proferida por uma Ninfa, quando se refere aos futuros navegadores portugueses, guerreiros triunfantes que alcançarão “honras e glórias” pelas “árduas empresas” a que se irão aventurar. Cruz e Silva elenca, portanto, personalidades da alta estirpe elvense, várias fi guras do mundo provinciano de Elvas, num misto de simpatia e troça (Saraiva e Lopes 2005, 610), e, denunciando os vícios que lhes são próprios, imortaliza-as, neste poema, quais guerreiros aqueus e navegadores portugueses, dignos de passarem à memória das gerações vindouras. Procedimento semelhante (a sublimação de caracteres viciosos) se toma em relação ao herói deste poema, o Bispo, personagem heroifi - cada pelos deuses por se dedicar a “cousas vãs, ridículas e fúteis”, por desprezar o cuidado das “funções mais piedosas” e ainda por ostentar A POESIA HERÓI-CÓMICA E A MEMÓRIA DE BAGATELAS... 548 II. MEMÓRIA, SABEDORIA E HISTÓRIA Onde está a sabedoria medieval? 181 José Mattoso A sabedoria de Petosíris: um repositório condensado de memória e de moral 199 José das Candeias Sales Historia magistra vitae (variações nos tempos de um conceito antigo) 241 Joana Duarte Bernardes Escrever para a imortalidade: praecipuum munus annalium 253 Ricardo Nobre O saber do texto 269 Teresa Amado Experiencia, memoria y sabiduría en el Libro del Caballero Zifar 279 Cristina Almeida Ribeiro Sermão de António (Lobo Antunes) aos peixes: 291 sapiência e memória no pós-colonial Norberto do Vale Cardoso III. MEMÓRIA, SABEDORIA E HERANÇA GRECO-LATINA “Mémoire” et “sagesse” dans le néoplatonisme grec: 307 quelques réfl exions à partir de la Vie de Pythagore de Jamblique Jean-Marie Flamand A memória que herdámos dos gregos: da poesia, história e fi losofi a 331 Martinho Tomé Martins Soares O homem grego e a sua memória 349 Maria Mafalda Viana Musa, testemunho e textualidade 365 Henrique Carvalho O philosophos e a politeia em Plutarco 377 Joaquim Pinheiro 549 Beatus ante mortem nemo – Creso, Sólon e o conceito de felicidade 389 Cristina Abranches Guerreiro Tradução como memória: a tradução do Pro Archia 397 por Matias Viegas da Silva Joana Serafi m Tópicos da sabedoria monástica em Cassiano 405 Maria João Toscano Rico A escada de Electra: de Sófocles a Richard Strauss 419 Pedro Braga Falcão IV. MEMÓRIA, ORALIDADE E SABEDORIA POPULAR Romanceiro e memória 435 Pere Ferré O canto como anagnorisis e identifi cação 459 em romances de Tradição Oral Moderna Portuguesa Ana Sirgado Um discurso signifi cante sobre o incesto na Literatura Oral e Tradicional 471 (Silvana e Delgadinha) Ana Maria Paiva Morão O Cancioneiro Popular: da voz poética à memória 483 Lina Santos Mendonça “Once upon a time there was a country…” 509 Photography, travel and knowledge Susana S. Martins A imagética animal no discurso político: 523 a tradição popular em Demóstenes – Contra Aristogíton Nelson Henrique da Silva Ferreira A poesia herói-cómica e a memória de bagatelas: 533 a celebração épica de trivialidades n’O Hissope de Cruz e Silva Rui Carlos Fonseca 550 551 MEMÓRIA & SABEDORIA Coordenação: José Pedro Serra | Helena Carvalhão Buescu Ariadne Nunes | Rui Carlos Fonseca Capa: António Pedro Revisão: Marta Pacheco Pinto, Rui Carlos Fonseca, Ariadne Nunes e Edições Húmus © EDIÇÕES HÚMUS, 2011 End. postal: Apartado 7097 – 4764-908 Ribeirão, V. N. Famalicão Tel. 252 301 382 / Fax 252 317 555 E-mail: [email protected] Impressão: Papelmunde, SMG, Lda. – V. N. Famalicão 1.a edição: Setembro de 2011 Depósito legal: 333261/11 ISBN 978-989-8139-89-4 o contributo de autores oriundos de múltiplas áreas, incidindo sobre a ´ loso ´ a, as tradições religiosas e sapienciais, a história, a literatura, a linguística, a literatura oral, a obra que agora se publica, sob a égide do Centro de Estudos Clássicos e do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, constitui uma visão plural sobre a sabedoria, sobre o lugar da memória na compreensão sábia da realidade, en ´ m, sobre o modo como sabedoria e memória se cruzam. REUNINDO ISBN 978-989-8139-89-4 9 7 8 9 8 9 8 1 3 9 8 9 4