scieee Open visual document viewer

‘Não foi desta maneira que o touro carregou sobre o dorso o peso do amor’ (Batrac. 78-79). Uma Versão Paródica do Rapto de Europa por Zeus

Fonseca, Rui Carlos Reis, 1984-

Abstract

A Batracomiomaquia é o mais conhecido poema paródico que nos chegou da antiguidade grega e relata, em estilo épico, o conflito travado entre os ratos e as rãs por causa da morte de Psicárpax, o príncipe roedor, provocada por Fisígnato, o soberano ranino. A descrição deste incidente resulta do cruzamento de várias referências literárias, uma vez que nele se reconhecem diferentes intertextos. O episódio fatal do passeio aquático toma como base o mito referente ao rapto de Europa por Zeus metamorfoseado em touro. Esta história mitológica penetra a narrativa animalesca: não é apenas repetida, mas desconstruída e reciclada a partir de outros modelos que nela se intersectam (o discurso épico, fabular e helenístico). Neste trabalho, analisa-se o processo intertextual usado na versão paródica do rapto de Europa, e destacam-se os efeitos produzidos pelas transformações literárias do episódio mitológico em questão.

Full text

Re isi a o Mi o Re isi a o Mi o · My hs Re isi ed My hs Re isi ed ! " # $ % & ' $ ( ! " ) *+ $,-.+%/0123-456+7-4/ 8/92/+:-+;-0<0+=>+"-.?/0 "<2+=/9.60+@640-1/+ A-9-0/+=/0/. !"#$%&' $(!")*+ $,-.+%/0123-456+7-4/ 8/92/+:-+;-0<0+=>+"-.?/0 "<2+=/9.60+@640-1/+ A-9-0/+=/0/. !"#$%$&'()*)+$&*),)+-&.%)!"#$%$&"/)!"#$%$&'()(*$&)("()(*)+)(,)*)("-"(&'.&)( /"!'("('-$*".&'()($*'/$.0!$)(12*'.)(+"(&)+)%()%(&"*3)%("(-2/'!"%4(,)*)( .)%(3"!*$&"(!"3".%'!()%('5$%*)%("('%(6).'%(3!)72.+'%("(%)*5!$'%(82"( !"#$%&%'(&%()'(*""+$*#,+-('*.#-/0*$#1(2+".*,&#(&#(3-4#($-566*$#7(#6($#,9 &!$52&)%(*2-&$+$%,$3-$.'!"%(!"2.$+)%(."%&"(#)-2*"($.,$+"*(%)5!"('(3-'%9 &$,$+'+"(+)(*$&)4(*'&"!$'-$6'+)(.'%(%2'%(":3!"%%;"%(-$&"!0!$'%4('!&<%&$,'%4( !#-8.*$+6(#)($*%,.83$+6(%(-*&#(9(-):(&+6(,#;+6($*<,$*+6(%(5"%+6(&#(6+=%"1( !"#$%$&'()*)+$&*),)+-&.%)!"#$%$&"/(!"#$%$&%(*=&1('.+(1)>($&(1'%(5)&1(/"."!'&"+( '.+(.2!&2!"+(12*'.($*'/$.'&$).(',!)%%(&$*"('.+(%3',"4('.+('--)>"+(2%(&)( !"&1$.?(&1"('5=%*'-('.+(%)*5!"(+"3&1%(&1'&(3!),""+(7!)*(&1"(*=&1)-)/$,'-( $!!'&$).'-@(A))&"+($.(&1"(,-'%%$,'-(!"3)%$&)!=4(&1"(,).&!$52&$).%('%%"*5-"+( $.(&1$%(#)-2*"(3!$#$-"/"(+=.'*$,('.+($.&"!+$%,$3-$.'!=('33!)',1"%(&)(&1"(3-'%&$,$&=( #>('?.@7(+6('+,*>%6.(*,(-*.%"+"?7(+".*6.*$7(!#-*.*$+-(#"(6$*%,.*3$(%A!"%66*#,1 REVISITAR O MITO | MYTHS REVISITED O ganização: Abel Nascimen o Pena, Ma ia de Jesus C. Rel as, Rui Ca los Fonseca, Te esa Casal Capa: Sand o Bo icelli, O Nascimen o de Vénus, ca. 1485 (po meno ) Concei o g á ico: Ma ia de Jesus C. Rel as Paginação: Ângela And ade © EDIÇÕES HÚMUS, 2015 End. Pos al: Apa ado 7081 4764 -908 Ribei ão – V. N. Famalicão Tel. 926 375 305 E -mail: [email p o ec ed] Imp essão: Papelmunde, SMG, Lda. – V. N. Famalicão 1.ª edição: Fe e ei o de 2015 Depósi o legal: 387047/15 ISBN 978 -989 -755-112-3 Re isi a o Mi o-V2.indb 835 23-01-2015 07:07:25 59 “NÃO FOI DESTA MANEIRA QUE O TOURO CARREGOU SOBRE O DORSO O PESO DO AMOR” (BATRAC. 78-79) Uma Ve são Pa ódica do Rap o de Eu opa po Zeus Rui Ca los Fonseca! A pa ódia lo esce em pe íodos de ans o mações cul u ais como géne o li e á io que, pa indo de um ou o já exis en e, a epopeia, desa ia as eg as ins i uídas, pa a múl iplos ins, en e os quais se con am a c í ica mo daz, a e e ência lauda ó ia, a ec eação lúdica e o exe cício pedagógico!1. Rebelde e ansg esso a, a poesia pa ódica (de que o he ói-cómico, nas li e a u as mode nas, é he dei o) não se deixa ap isiona en e ba ei as genológicas ígidas. Desen ol e an es uma na u- eza p o eica, ma cada pelo c uzamen o de sis emas á ios, aliando à g a idade da o ma a exposição concisa de um ema meno . Na e dade, desde empos bas an e ecuados que a li e a u a g ega de p es í- gio coexis e com o mas eci a i as conside adas de ní el in e io (como se odo o modelo sé io i esse que possui o seu e lexo baixo co esponden e). Da adição dos can os épicos o ais, eme ge ou o ipo de composições, os can os não he óicos, como p odu o ma ginal que pe mi e aze os ou in es descon aí em da se iedade exaus i a com que e am p oduzidas e escu adas as na a i as épicas. Es a p á ica sub e so a das con enções começou a se p omo ida nos in e - alos das ac uações aédicas e apsódicas, desen ol endo-se median e a epe ição adul e ada dos e sos declamados em es ilo solene: pa a que os ou in es pudessem descansa do ambien e de ensão, p óp io dos ela os mui o ex ensos, os poe as mani- pula am a dicção dos e sos épicos, ac escen ando ou os de ema cómico. T a a-se, pois, de um “con acan o” (nas pala as de Gene e e de Delepie e), um can o aces- só io que acompanha em con apon o pa ódico a eci ação sé ia, da qual ap o ei a os ecu sos o mais, pa a dela se ap oxima e, pa adoxalmen e, pa a a ela se opo !2. * Cen o de Es udos Clássicos da Uni e sidade de Lisboa. 1 A p opósi o das ci cuns âncias que en ol em e pe mi em o su gimen o das ca ego ias li e á ias que se si uam à ma gem dos cânones adicionais, á ias en a i as de explicação êm já sido apon adas: Bakh in de ende que a p odução de pa ódias adqui e um igo eno ado num clima de polilinguismo (Es hé ique e héo ie du oman 418-419) e associa os es i ais ca na alescos a pe íodos de c ise e de up u a na ida social (Rabelais and his Wo ld 9); pa a Hu cheon a pa ódia p ospe a em pe íodos de so is icação cul u al (19 e 94); e segundo Den i h a pa ódia lo esce em momen os his ó icos pa icula es, não lhe sendo possí el delinea uma p og essão diac ónica de sen ido único, mas an es uma sé ie de mo imen os de luxo e e luxo, go e nados pelas p á icas cul u ais igen es em cada época (54). 2 Escalíge o [Scalige ] (113-114), Sallie (402-403), Delepie e (8), Leliè e (66-81), Pöhlmann (144- 156), (Bliquez 11-25), Gene e (20-23) e Fe ei a (279-300) são alguns dos es udiosos que êm Re isi a o Mi o-V2.indb 59 23-01-2015 07:06:32 60 A Ba acomiomaquia é a composição pa ódica mais céleb e que nos chegou da An iguidade g ega ( endo inaugu ado na cul u a eu opeia o géne o he ói-cómico, de que é ep esen an e mais pe ei o!3) e ela a, no es ilo g andioso da epopeia, uma ques iúncula oco ida en e a aça dos a os e a das ãs. Es e b e e poema ani- malesco possui uma au o ia e da ação ince as e uma ansmissão ex ual con o- e sa, que lhe con e em um ca ác e a empo al, is o que as ci cuns âncias da sua p odução não encon am uma posição ixa, oscilando en e a época g ega a caica (século VI a.C.) e a helenís ica (a é ao século II d.C.). Se indo-se do uni e so da ábula e da cosmo isão épica ( an o a de Home o, como a dos poe as helenís icos), a Ba acomiomaquia celeb a as e âncias de um he ói, que êm desencadea a gue a en e dois exé ci os de o igens mui o di e- en es, os a os (se es e es es) e as ãs (habi an es do lago). O encon o aciden- al en e dois memb os da ealeza, Psicá pax, o p íncipe dos mu ídeos, e Fisígna o, o egen e dos ba áquios, esul a na mo e do se e es e em meio aquá ico. Essa desg aça mo i a a ingança po pa e das duas populações animalescas, que, em concílio e po unanimidade, decidem en en a -se com a mas. No âmbi o des e es udo, examina ei, do pon o de is a in e ex ual e des a- cando os e ei os pa ódicos ob idos, o episódio do passeio aquá ico, a al a Psicá - pax e causa di ec a do con li o. Psicá pax chega às ma gens de um lago a im de sacia a sede e ecupe a ene gias da co e ia que em ei o pa a escapa à pe seguição de uma doninha. Nesse local, Fisígna o abo da o es angei o e, numa a i ude de apa en e xeno ilia, con ida-o a conhece o palácio das ãs, seduzindo-o com a p omessa de lhe mos- a as ma a ilhas do lago. Fascinado com o esplendo p ome ido e cu ioso quan o aos cos umes es anhos que espe a ap ende , como lhe o a ga an ido, Psicá pax acede ao con i e e à o e a de anspo e às cos as do seu an i ião. O início da iagem aquá ica deco e em anquilidade, com o egozijo do passagei o. Quando, po ém, os dois animalejos se a as am das ma gens, a u bulência das águas p o oca no a o o sen imen o de insegu ança e pa o , de ido à al a de cos ume em ia- ja num ambien e aquá ico. Ape cebendo-se da di iculdade em aze a a essia, Psicá pax a epende-se de e anuído ao con i e e, desespe ado, implo ando aos deuses o eg esso a e a, usa a cauda como emo, cho a copiosamen e e a anca o pêlo com as pa as. Nes e momen o, o poe a pa ódico es abelece uma compa ação, pela nega i a, com um episódio e i ado da adição mi ológica, con e indo ao passeio dos dois animalejos as eições de um ap o. p ocu ado desc e e os possí eis con ex os cul u ais e pe o ma i os da An iguidade onde os can os pa ódicos e ão sido p oduzidos enquan o e sões ec ea i as dos poemas épicos. 3 “Le con as e cons i u i de l’hé oï-comique es ob enu aux moind es ais, e p odui son maximum d’e e . Ni Tassoni, ni Boileau, ni Pope ne e ou e on une elle e icace, ni une elle élégance, qui se pe den chez eux dans l’à-peu-p ès, l’ampli ica ion, la dig ession, dans des sa i es annexes e des polémiques la é ales. Le gen e, sans dou e enco e ès p ès de sa naissance, es à son zéni h” (Gene e 148). Re isi a o Mi o-V2.indb 60 23-01-2015 07:06:32 61 !"#$!%&'$()&!*+*($,-.+&/+0$123&!($43'&!5 &/63!57$8&9$:"3);<($=*>$?@A/&!5$BC9$,;D$E3F&<(7 G5$A6($HI)+/5$,;*()&*!($BC0($,5$!J?!( -.&3/#!5$K;L)+/5$M#3N($=OA/5$%=/&*$L0P?Q*R$(Ba ac. 78-81) Não oi des a manei a que o ou o ca egou sob e o do so o peso do amo quando le ou Eu opa a a és do ma pa a C e a; não oi assim o modo como a ã colocando o a o às cos as o le ou pa a o palácio, desdob ando o co po dou ado na água límpida. !4 A iagem u bulen a de Psicá pax às cos as de Fisígna o cons i ui uma des- cons ução pa ódica da conhecida his ó ia do ap o de Eu opa po Zeus. Enamo- ado, o sobe ano olímpico assume a apa ência de um ou o de inigualá el beleza, a pon o de chama a a enção da p incesa, que se di e e jun o à p aia. Deslumb ada, dele se ap oxima, subindo pa a as cos as do animal. O deus a as a-se de e a com Eu opa em cima dele, le ando-a pa a C e a, onde consuma o seu amo . Es e mi o oi a ado na An iguidade po á ios au o es, g egos e la inos, como Apolodo o (Biblio eca 3.1.1), Mosco (Eu opa), Luciano (Diálogos dos deuses ma inhos 15), Aquiles Tácio (Leucipe e Cli o on e 1.1.2-13), O ídio (Me amo oses 2.833-75) e Ho ácio (Odes 3.27.25-76), endo sido ela ado com di e en es po meno es li e á- ios, mas man endo semp e a his ó ia de base: o ap o da p incesa pelo sobe ano dos deuses me amo oseado em ou o. Leopa di de ende que a Ba acomiomaquia é um p odu o helenís ico do seculo II a.C., uma ez que o poe a pa ódico e á omado o idílio de Mosco, in i ulado Eu opa, como modelo pa a o in e lúdio mi ológico do ap o p epa ado po Zeus. En e o idí- lio e o poema dos dois animalejos exis em de ac o pa alelos emá icos e lexicais que pe mi em ap oxima ambos os ex os e e o ça a ese do es udioso i aliano. A composição animalesca e o idílio de Mosco mos am a seguin e imagem: um jo em memb o da ealeza passeia às cos as de um mona ca dissimulado. Na Ba a- comiomaquia, Psicá pax é o p íncipe que sobe pa a as cos as de Fisígna o, o sobe ano anino; na adição mi ológica e na e são de Mosco, a jo em p incesa é Eu opa, que sobe pa a o la go do so de um ou o, que é, na e dade, Zeus dis a çado. Ambos os passeios aquá icos são p omo idos po Zeus: na Ba acomiomaquia, na qualidade de deus hospi alei o, e no poema de Mosco, de ido ao impulso amo- oso dessa di indade. Pa a con ence Psicá pax a acede ao con i e pa a o ban- que e no palácio dos ba áquios, Fisígna o unda-se na au o idade de Zeus, pa a assim jus i ica a o e a de hospi alidade que o a o es anha. S0T(07$URRRVW$4+&*!?/D!XAT( ;!LL>!C>3!,(!LYA(<*!?/D!,;D!#Z!(D!Z/@A/&9$[=O+Z/*R A1Y-*!(!C>3!4='?0!(!A](!-/&3.#!*+*!E3!(Y'(" +?*3&^+/*!?/&>!C/T/("!,(!%=/+*!+QA/!?/L@I/*W$(Ba ac. 57-60) Es angei o, [...]; ambém nós emos mui as ma a ilhas no lago e em e a pa a 4 Sigo pa a o ex o g ego da Ba acomiomaquia a edição de Wes de 2013. Todas as aduções da língua g ega aqui ap esen adas são da minha esponsabilidade. Re isi a o Mi o-V2.indb 61 23-01-2015 07:06:32 62 se em is as, pois o C ónida concedeu às ãs um pas o de na u eza dupla, pa a sal i a em sob e a e a, e nas águas camu la em o co po. O deus p o ec o dos hóspedes cons i ui a ga an ia de que a emp esa segui á as no mas de condu a, p óp ias ao encon o en e um isi an e e o an i ião po quem é ecebido. Psicá pax e Eu opa são ambos a aídos a subi pa a as cos as de um animal: ele po que ica seduzido pelas ma a ilhas p ome idas que espe a ap ende num meio que lhe é desconhecido; ela, ao ape cebe -se da p esença de um ou o de aspec o e amanho nunca an es is os, deslumb a-se com o animal de excepcional beleza. Em e mos de apa ência ísica, an o a ã como o ou o pa ilham a mesma onali- dade de pele: os dois animais ap esen am-se e es idos de uma colo ação dou ada (“KπL)+/5 M#3N( =OA/5”, Ba ac. 81; “=OA/5 S/(Z2#3!!( 4+?0”, Eu opa 84)!5. Ainda a p opósi o de ques ões c omá icas, o es ido que a p incesa az e que segu a pa a não molha é de co pú pu a (“0_3P0 π!31P3O<( ?!Lπ!6 π&@#/”, Eu opa 127) como pu pú eas são ambém as ondas nas quais o a o eceia a oga -se (“?@A/+* π!31P# 3O!*+* ,?L@`0&!”, Ba ac. 69). No início da a en u a, Psicá pax e Eu opa aleg am-se com o passeio enquan o êem p óximas as ma gens. Começam, po ém, a p eocupa -se à medida que a dis- ância se ala ga ao se em le ados pa a o meio do ma . Não medem as consequên- cias das acções que omam ao acede em ao con i e indo de animais audulen os. A pa ódia não se ope a, con udo, median e a ep odução iel dos mesmos ópi- cos ou uso das mesmas pala as e exp essões. A imi ação pa ódica implica an es epe ição com di e ença e dis anciamen o c í ico, como demons a Hu cheon (32). Assim, no idílio helenís ico e no poema animalesco, a a essia não em o mesmo esul ado. Numa in e são humo ís ica do mi o de Eu opa, como ela ado po Mosco, o pêlo encha cado de Psicá pax pesa sob e o a o, puxando-o pa a o undo do lago (Ba ac. 91), enquan o o delicado es ido de Eu opa o na a jo em le e (Eu opa 129-130). A p incesa é conduzida em segu ança pa a C e a, onde Zeus conc e iza os p aze es amo osos. Pelo con á io, o pe cu so do a o é, num mo imen o pa ódico, in e ompido a meio, de ido ao a ogamen o inespe ado de que é í ima, não alcançando assim o des ino p e endido, nem des u ando das delícias gas onómicas que a ã p ome e a. O nascimen o da pa ódia ocul a-se na noi e dos empos (Gene e 22). No seio das ince ezas que en ol em as o igens emo as das p á icas pa ódicas, os especia- lis as êm conside ado, no âmbi o da adição épica an iga, o p es ígio de Home o, uni e salmen e econhecido como “il ‘g ande codigo’ che do e a egola e ogni enomeno le e a io” (Fusillo 20). Conjec u a-se, en ão, que a p odução des e géne o polimó ico enha ido o seu começo a pa i da elação de dependência e con as e com a epopeia, mais conc e amen e, com a epopeia homé ica. É bas an e comum es uda -se a Ba acomiomaquia a pa i da elação in e - ex ual com a Ilíada, sob e udo po causa da amilia idade das sé ies de con on- 5 Pa a as ci ações do idílio de Mosco sigo a edição de Edmonds de 1960. Re isi a o Mi o-V2.indb 62 23-01-2015 07:06:32 63 os indi iduais dos úl imos cem e sos com os esquemas con encionais das lu as he óicas a adas en e os comba en es iliádicos. A p imei a pa e da na a i a (os ce ca de cem e sos iniciais) ela a con udo os e en os que an ecedem a gue a e a mo i am: o encon o en e um p íncipe es angei o e um sobe ano an i ião. É a ase das jo nadas ba acomiomaquianas, em que Psicá pax se compo a como um iajan e desa o unado e um na egado pouco expe ien e, sendo e a ado à imagem de um an i-Ulisses. À semelhança do na egado de mui os a dis que padece in o únios no ma após a pa ida de Ogígia e de Eeia, ambém Psicá pax se o na í ima do mo i- men o umul uoso das águas do lago, mas ao con á io do modelo he óico, não consegue escapa ileso. Na desg aça aquá ica que sob e ele se aba e, con luem alu- sões aos episódios de Ci ce e Calipso, e da isi a ao Hades. Mui os des es pa alelos suge idos no desas e do lago assumem uma ele ada ca ga i ónica ou p ocedem a um exage o cómico quan o ao modelo homé ico no qual se undam. Ape cebendo-se da di iculdade em aze a a essia do lago, Psicá pax a e- pende-se de e anuído ao con i e e, desespe ado, começa a cho a copiosamen e e a a anca o pêlo com as pa as (Ba ac. 69-70). A i ude idên ica omam os compa- nhei os de Ulisses, quando es e, ins uído po Ci ce, lhes comunica o caminho em di ecção ao Hades (Odisseia 10.567-68). A exp essão “&YLL0 =a #/b&/5” (Ba ac. 70) é adap ada a pa i de “&bLL!(&c &0 #/b&/5” (Odisseia 10.567), ambas em posição inal de e so, e con i ma o pa alelo como indício de uma desg aça p es es a sucede !6. Lemb a Fusillo (99) que a anca os cabelos e a um ges o “ equen e nell’epica pe esp ime e dispe azione”, ac escen ando que “l’a ibui lo al opo app esen a il momen o di maggio e incong uenza comica di ques a ase”. O ges o adequa-se con udo ao con ex o de uma iagem in e nal que que o a o, que a ipulação homé ica emp eendem: an o a pe sonagem indi idual como a colec i a, desejando eg essa à e a pá ia, cho am e a ancam o pêlo (no caso de um) e os cabelos (no caso dos ou os) ao ape cebe em-se de que emba cam numa iagem que os le a á à mo ada dos mo os. O pa alelo com es a a en u a odisseica é e o çado pelo uso pa ilhado do e bo ?/&/=@', u ilizado pa a indica as subme sões cons an es de Psicá pax no lago (“?/&O=P(0(”, Ba ac. 89), bem como a ga an ia i me de Ulisses aos ipulan es de que não desce ão (“?/&/=P+cA0Z/”, Odisseia 10.174) ao mundo das almas in e nais an es do dia a al, quando, na e dade, é isso mesmo que a ão após a pa ida da ilha de Ci ce, desce ao Hades an es de e em mo ido. Em opo- sição ao que o he ói diz aos cama adas, es e passo conc e o do poema pa ódico cons i ui o momen o da mo e de Psicá pax, que chega assim ao e mo da iagem. O espe nea incessan e de Psicá pax na água, de ido ao pêlo molhado que o sob eca ega e o puxa epe idas ezes pa a o undo (Ba ac. 89-91), molda-se a pa i do episódio em que Ulisses, subjugado pelo peso das oupas encha cadas, quase mo e a ogado (Sens 240). O pa alelo emá ico em sido conside ado uma ampli icação pa ódica do nau ágio de Ulisses, após a pa ida de Ogígia (Fusillo 6 Sigo pa a os passos ci ados da Odisseia a edição de Mu ay de 1995. Re isi a o Mi o-V2.indb 63 23-01-2015 07:06:33 64 102): enquan o es e pe manece bas an e empo debaixo de água, acabando po eme gi uma única ez (Odisseia 5.319-323), o duplo pa ódico do he ói ê-se mui- as ezes en ol ido pelas águas do lago e mui as ou as ezes consegue chega à supe ície (Ba ac. 89-90). O co po elpudo, p ejudicial pa a o se mu ídeo, uma ez que o a as a pa a o undo do lago, pode ambém cons i ui , como c eio, um con apon o pa ódico do éu de Ino, peça de oupa que pe mi e esga a Ulisses em pe igo de mo e a o- gado. Conside ando que a pa ódia, numa das de inições possí eis, implica a in e - são da si uação sé ia imi ada, o éu possibili a a sal ação do he ói homé ico e a sua chegada ao palácio de Esqué ia, ao con á io de Psicá pax pa a quem a camada peluda que en ol e odo o seu co po unciona como elemen o an agónico à p os- secução do passeio aquá ico a é ao palácio das ãs. De ins umen o sal í ico na epo- peia, a indumen á ia o na-se num ins umen o uinoso em con ex o an iépico. A e eminização do a o nau agado, suge ida pela e e ência ao pêlo molhado, o na-se mais exp essi a no in e lúdio mi ológico do ap o de Eu opa. Nes e símile, Psicá pax ocupa o mesmo luga da donzela, que o a ap ada po Zeus me amo - oseado em ou o, o que az o passeio aquá ico ( esul an e da acei ação de um con i e) assumi a eição de um ap o conseguido po meio de dolo. Os meios de na egação de que Psicá pax e Ulisses se se em são ambos compa ados a animais: Fisígna o a um ou o e a jangada despedaçada a um ca alo. Assim como o a o ea- liza um passeio agi ado às cos as da ã hospi alei a, qual donzela ingénua sob e o do so de um ou o audulen o, assim ambém Ulisses em plena empes ade sobe pa a uma das p anchas da emba cação de madei a como que mon ando um ca alo (Odisseia 5.371). Os dois ma ean es êem-se ob igados a abandona os espec i os anspo es e ambos icam à de i a nas águas (Ba ac. 105-107; Odisseia 5.388-89), sendo po elas le ados, um pa a a mo e, o ou o pa a a p aia de Esqué ia!7. O idílio de Mosco e o enquad amen o nas con enções da épica helenís ica e o - çam o a gumen o de que a Ba acomiomaquia é um p odu o de uma época a dia. A inse ção do poema animalesco no uni e so da ábula não alida necessa iamen e a mesma da ação, se se conside a que Esopo, o mais conhecido composi o de b e es his ó ias de animais, e á i ido na época g ega a caica, en e os séculos VII-VI a.C. A ábula de Esopo in i ulada “A ã e o a o” con ém um en edo análogo ao da epopeia animalesca, a pon o de alguns es udiosos es abelece em um ínculo de dependência mui o es ei o en e as duas composições que celeb am as des en- u as de um es anho pa o mado po um se mu ídeo e um se anídeo!8. Con a a ábula que um oedo e um ba áquio iajam jun os, a ados um ao ou o, em busca de jan a , a é o animal e es e se a as ado pelo companhei o pa a o undo do lago. O a o mo e a ogado e é cap u ado po uma a e. Es ando a ã a ada ao cadá- e , é ambém ela ei a p isionei a do a acan e dos céus. No início da his ó ia, a o 7 Sob e o episódio do nau ágio de Ulisses an es da chegada a Esqué ia e a sua ca ac e ização de he ói a es ido, que p ecisa de en e ga oupa de mulhe pa a pode sal a a ida, ide Ka dulias (23-51). 8 Wölke (92-98), Glei (48-53), Saldanha da Gama (101-110) e Lopes (32-38) são alguns dos es udiosos que associam a Ba acomiomaquia à adição abulís ica de Esopo. Re isi a o Mi o-V2.indb 64 23-01-2015 07:06:33 65 e ã andam jun os à p ocu a de alimen o, no inal o nam-se ambos comida pa a ou o animal. A mo al com que a ábula ence a unda-se no pode da ingança e na jus iça di ina que udo obse a. d&*, ?e( (0?3N5 &*5, [+#@0* π3N5 gAP(/(˙ X C>3 Z0Y/ =Y?< ,1!3h π.(&/ ?/D &N _+!( π!=Y='+* `PC!+&/&!6+/. (Esopo, Fábula 244)!9 A his ó ia mos a que, mesmo quando alguém es á mo o, exis e pode na in- gança, pois a jus iça di ina obse a udo e udo dis ibui de o ma equi a i a pelos p a os da balança. À pa e as analogias e os pa alelos emá icos mani es os en e a ábula de Esopo e a Ba acomiomaquia, de enho-me no in ui o mo alizado . A Ba acomioma- quia, na qualidade de ábula épica, se e-se dos ecu sos de dois géne os, a epopeia e a ábula, pa odiando es a úl ima ao não assumi uma o ien ação mo alizan e. É e dade que, como a his ó ia esópica, ambém a e são pa ódica mos a o a o a e oca a jus iça di ina e a ingança u u a con a a ã. !" LF+0*5 C0 Z0!i5, jP+YC(/Z0, &/6&/ π!*F+/5 (/P<CN( kYI/5 πN +)A/&!5 G5 πN πO&3<5. (Ba ac. 93-94) [...] 4#0* Z0N5 4?=*?!( lAA/˙ π!*(]( /m &0Y+0*5 +n APQ( +&3/&Q*, !"=’ Hπ/LiS0*5. (Ba ac. 97-98) Não escapa ás aos deuses, Fisígna o, po is o que izes e, ao e es abandonado um náu ago das uas cos as como de uma ocha. [...] Tem o deus olho ingado , pois o c ime expia ás e ao exé ci o dos a os não escapa ás. Os deuses, con udo, ausen es do campo de ba alha, acabam po in e e i a a o dos habi an es do lago, en iando o auxílio dos ca anguejos. As no as opas mudam o cu so da gue a no seu e e so ao decepa em as pa as e as caudas dos a os. Não há, po an o, na Ba acomiomaquia, uma mo al, uma ez que os deuses a des oem, concedendo a i ó ia aos animais go e nados po um sobe ano aiçoei o, des espei ado dos laços de xeno ilia. O desenlace des a ob a pa ódica pode á, con- udo, se pensado como mo alizan e, se nele i mos, como suge e González Del- gado (45-46), uma in ec i a con a a gue a de con o nos épicos e a inu ilidade que ep esen a, quando aplicada a um con ex o baixo e a pe sonagens não he óicas. No âmbi o da p odução pa ódica an iga, a Ba acomiomaquia não é senão um jogo li e á io, um mosaico de e e ências omadas de emp és imo de di e - sas on es e modelos. O mi o do ap o de Eu opa po Zeus enlaça-se na na a- i a animalesca: não é apenas epe ido, mas descons uído e eciclado, median e a in e secção de di e en es géne os e modalidades discu si as. O sobe ano olím- pico, o deus hospi alei o, é con e ido, nes a e são pa ódica, num go e nan e de mandíbulas inchadas, que não espei a os laços de hospi alidade com os isi an es 9 A edição seguida das Fábulas de Esopo é a de Chamb y de 1985. Re isi a o Mi o-V2.indb 65 23-01-2015 07:06:33 517 FROM OBSCURITY TO THE PANTHEON OF PORTUGUESE AMERICAN HEROES: RECYCLING PETER FRANCISCO FOR ETHNIC MINORITY ‘FEEL GOOD’ AND UPLIFT Reinaldo F ancisco Sil a 529 IRACEMA PARA ALÉM DAS EXPECTATIVAS Ti o Ba os Leal 539 CASSANDRA REVISITADA Sand a Pe ei a Vinag e 551 O MITO COMO LEITURA DA HISTÓRIA I one Da é Rabello 559 A ERÓTICA DO ÊXTASE Loli a Guima ães Gue a 575 DEVOLVER O FOGO AOS DEUSES So ia San os 5. MITOS NA CULTURA POPULAR MYTHS IN POPULAR CULTURE 587 RARIDADE E DIVERSIDADE COMO FACES DA MESMA MOEDA Ma ina Pelluci Dua e Mo oza 595 MITOLOGIA NA FÁBULA Ana Pai a Mo ais Te esa A aújo 607 TEMAS MÍTICOS NOS CONTOS POPULARES PORTUGUESES C is ina Ab anches Gue ei o 615 “A SERRANA” E “A GALHARDA”, DOIS RETRATOS DA MULHER DEVORADORA NO ROMANCEIRO DE TRADIÇÃO PORTUGUESA Ana Si gado 625 A LENDA DAS ÁGUAS SANTAS DO VIMEIRO Na ália Albino Pi es 637 O HERÓI MÍTICO E A IMAGEM DO PRÍNCIPE NOS CONTOS DE JOSÉ LEITE DE VASCONCELOS Te esa M. Gonçal es de Cas o 651 MITO E CONTO POPULAR Ma ia Auxiliado a Fon ana Baseio 659 AS MÃOS DOS PRETOS, DE LUÍS BERNARDO HOWANA Ma ia Zilda da Cunha 671 ANGELA CARTER E BARBA-AZUL Cleide An onia Rapucci Re isi a o Mi o-V2.indb 832 23-01-2015 07:07:25 6.MITOS NA RELIGIÃO E NAS CIÊNCIAS MYTHS IN RELIGION AND SCIENCE 685 THE JUDGMENT BETWEEN HORUS AND SETH AS A PARADIGM FOR THE JUDGMENT OF THE DEAD And é de Campos Sil a 697 REVISITANDO O MITO EGÍPCIO DAS LUTAS ENTRE HÓRUS E SET José das Candeias Sales 715 DA PALAVRA AO ACTO Miguel Pimen a-Sil a 727 LILITH: FROM POWERFUL GODDESS TO EVIL QUEEN Ma ia Fe nandes 737 ENTRE MITO E CIÊNCIA Abel N. Pena 749 A MIGRAÇÃO DOS PORTENTOS Isabel de Ba os Dias 763 O MITO DA CRIAÇÃO NO CORÃO E O SEU REFLEXO NA MÍSTICA SUFI Na ália Ma ia Lopes Nunes 777 REVISITAR A CATÁBASE Daniela Di Pasquale 789 REMINISCÊNCIAS DE VERGÍLIO NA OBRA POÉTICA DE PEDRO JOÃO PERPINHÃO Helena Cos a Toipa 805 NARCISO E LEONARDO NA PERSPETIVA DE FREUD Isabel Cas o Lopes 815 À PROCURA DE UM FINAL FELIZ, OU A NARRATIVA ADÂMICA REVISITADA POR LLANSOL C is iana Vasconcelos Rod igues Re isi a o Mi o-V2.indb 833 23-01-2015 07:07:25 Re isi a o Mi o Re isi a o Mi o · My hs Re isi ed My hs Re isi ed ! " # $ % & ' $ ( ! " ) *+ $,-.+%/0123-456+7-4/ 8/92/+:-+;-0<0+=>+"-.?/0 "<2+=/9.60+@640-1/+ A-9-0/+=/0/. !"#$%&' $(!")*+ $,-.+%/0123-456+7-4/ 8/92/+:-+;-0<0+=>+"-.?/0 "<2+=/9.60+@640-1/+ A-9-0/+=/0/. !"#$%$&'()*)+$&*),)+-&.%)!"#$%$&"/)!"#$%$&'()(*$&)("()(*)+)(,)*)("-"(&'.&)( /"!'("('-$*".&'()($*'/$.0!$)(12*'.)(+"(&)+)%()%(&"*3)%("(-2/'!"%4(,)*)( .)%(3"!*$&"(!"3".%'!()%('5$%*)%("('%(6).'%(3!)72.+'%("(%)*5!$'%(82"( !"#$%&%'(&%()'(*""+$*#,+-('*.#-/0*$#1(2+".*,&#(&#(3-4#($-566*$#7(#6($#,9 &!$52&)%(*2-&$+$%,$3-$.'!"%(!"2.$+)%(."%&"(#)-2*"($.,$+"*(%)5!"('(3-'%9 &$,$+'+"(+)(*$&)4(*'&"!$'-$6'+)(.'%(%2'%(":3!"%%;"%(-$&"!0!$'%4('!&<%&$,'%4( !#-8.*$+6(#)($*%,.83$+6(%(-*&#(9(-):(&+6(,#;+6($*<,$*+6(%(5"%+6(&#(6+=%"1( !"#$%$&'()*)+$&*),)+-&.%)!"#$%$&"/(!"#$%$&%(*=&1('.+(1)>($&(1'%(5)&1(/"."!'&"+( '.+(.2!&2!"+(12*'.($*'/$.'&$).(',!)%%(&$*"('.+(%3',"4('.+('--)>"+(2%(&)( !"&1$.?(&1"('5=%*'-('.+(%)*5!"(+"3&1%(&1'&(3!),""+(7!)*(&1"(*=&1)-)/$,'-( $!!'&$).'-@(A))&"+($.(&1"(,-'%%$,'-(!"3)%$&)!=4(&1"(,).&!$52&$).%('%%"*5-"+( $.(&1$%(#)-2*"(3!$#$-"/"(+=.'*$,('.+($.&"!+$%,$3-$.'!=('33!)',1"%(&)(&1"(3-'%&$,$&=( #>('?.@7(+6('+,*>%6.(*,(-*.%"+"?7(+".*6.*$7(!#-*.*$+-(#"(6$*%,.*3$(%A!"%66*#,1