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Re isi a o Mi o
Re isi a o Mi o · My hs Re isi ed
My hs Re isi ed
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REVISITAR O MITO | MYTHS REVISITED
O ganização: Abel Nascimen o Pena, Ma ia de Jesus C. Rel as,
Rui Ca los Fonseca, Te esa Casal
Capa: Sand o Bo icelli, O Nascimen o de Vénus, ca. 1485 (po meno )
Concei o g á ico: Ma ia de Jesus C. Rel as
Paginação: Ângela And ade
© EDIÇÕES HÚMUS, 2015
End. Pos al: Apa ado 7081
4764 -908 Ribei ão – V. N. Famalicão
Tel. 926 375 305
E -mail: [email p o ec ed]
Imp essão: Papelmunde, SMG, Lda. – V. N. Famalicão
1.ª edição: Fe e ei o de 2015
Depósi o legal: 387047/15
ISBN 978 -989 -755-112-3
Re isi a o Mi o-V2.indb 835 23-01-2015 07:07:25
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“NÃO FOI DESTA MANEIRA QUE O TOURO CARREGOU
SOBRE O DORSO O PESO DO AMOR” (BATRAC. 78-79)
Uma Ve são Pa ódica do Rap o de Eu opa po Zeus
Rui Ca los Fonseca!
A pa ódia lo esce em pe íodos de ans o mações cul u ais como géne o li e á io
que, pa indo de um ou o já exis en e, a epopeia, desa ia as eg as ins i uídas, pa a
múl iplos ins, en e os quais se con am a c í ica mo daz, a e e ência lauda ó ia,
a ec eação lúdica e o exe cício pedagógico!1. Rebelde e ansg esso a, a poesia
pa ódica (de que o he ói-cómico, nas li e a u as mode nas, é he dei o) não se
deixa ap isiona en e ba ei as genológicas ígidas. Desen ol e an es uma na u-
eza p o eica, ma cada pelo c uzamen o de sis emas á ios, aliando à g a idade da
o ma a exposição concisa de um ema meno .
Na e dade, desde empos bas an e ecuados que a li e a u a g ega de p es í-
gio coexis e com o mas eci a i as conside adas de ní el in e io (como se odo o
modelo sé io i esse que possui o seu e lexo baixo co esponden e). Da adição
dos can os épicos o ais, eme ge ou o ipo de composições, os can os não he óicos,
como p odu o ma ginal que pe mi e aze os ou in es descon aí em da se iedade
exaus i a com que e am p oduzidas e escu adas as na a i as épicas.
Es a p á ica sub e so a das con enções começou a se p omo ida nos in e -
alos das ac uações aédicas e apsódicas, desen ol endo-se median e a epe ição
adul e ada dos e sos declamados em es ilo solene: pa a que os ou in es pudessem
descansa do ambien e de ensão, p óp io dos ela os mui o ex ensos, os poe as mani-
pula am a dicção dos e sos épicos, ac escen ando ou os de ema cómico. T a a-se,
pois, de um “con acan o” (nas pala as de Gene e e de Delepie e), um can o aces-
só io que acompanha em con apon o pa ódico a eci ação sé ia, da qual ap o ei a
os ecu sos o mais, pa a dela se ap oxima e, pa adoxalmen e, pa a a ela se opo !2.
* Cen o de Es udos Clássicos da Uni e sidade de Lisboa.
1 A p opósi o das ci cuns âncias que en ol em e pe mi em o su gimen o das ca ego ias li e á ias que se
si uam à ma gem dos cânones adicionais, á ias en a i as de explicação êm já sido apon adas: Bakh in
de ende que a p odução de pa ódias adqui e um igo eno ado num clima de polilinguismo (Es hé ique
e héo ie du oman 418-419) e associa os es i ais ca na alescos a pe íodos de c ise e de up u a na ida
social (Rabelais and his Wo ld 9); pa a Hu cheon a pa ódia p ospe a em pe íodos de so is icação cul u al
(19 e 94); e segundo Den i h a pa ódia lo esce em momen os his ó icos pa icula es, não lhe sendo
possí el delinea uma p og essão diac ónica de sen ido único, mas an es uma sé ie de mo imen os de
luxo e e luxo, go e nados pelas p á icas cul u ais igen es em cada época (54).
2 Escalíge o [Scalige ] (113-114), Sallie (402-403), Delepie e (8), Leliè e (66-81), Pöhlmann (144-
156), (Bliquez 11-25), Gene e (20-23) e Fe ei a (279-300) são alguns dos es udiosos que êm
Re isi a o Mi o-V2.indb 59 23-01-2015 07:06:32
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A Ba acomiomaquia é a composição pa ódica mais céleb e que nos chegou da
An iguidade g ega ( endo inaugu ado na cul u a eu opeia o géne o he ói-cómico,
de que é ep esen an e mais pe ei o!3) e ela a, no es ilo g andioso da epopeia,
uma ques iúncula oco ida en e a aça dos a os e a das ãs. Es e b e e poema ani-
malesco possui uma au o ia e da ação ince as e uma ansmissão ex ual con o-
e sa, que lhe con e em um ca ác e a empo al, is o que as ci cuns âncias da sua
p odução não encon am uma posição ixa, oscilando en e a época g ega a caica
(século VI a.C.) e a helenís ica (a é ao século II d.C.).
Se indo-se do uni e so da ábula e da cosmo isão épica ( an o a de Home o,
como a dos poe as helenís icos), a Ba acomiomaquia celeb a as e âncias de um
he ói, que êm desencadea a gue a en e dois exé ci os de o igens mui o di e-
en es, os a os (se es e es es) e as ãs (habi an es do lago). O encon o aciden-
al en e dois memb os da ealeza, Psicá pax, o p íncipe dos mu ídeos, e Fisígna o,
o egen e dos ba áquios, esul a na mo e do se e es e em meio aquá ico. Essa
desg aça mo i a a ingança po pa e das duas populações animalescas, que, em
concílio e po unanimidade, decidem en en a -se com a mas.
No âmbi o des e es udo, examina ei, do pon o de is a in e ex ual e des a-
cando os e ei os pa ódicos ob idos, o episódio do passeio aquá ico, a al a Psicá -
pax e causa di ec a do con li o.
Psicá pax chega às ma gens de um lago a im de sacia a sede e ecupe a
ene gias da co e ia que em ei o pa a escapa à pe seguição de uma doninha.
Nesse local, Fisígna o abo da o es angei o e, numa a i ude de apa en e xeno ilia,
con ida-o a conhece o palácio das ãs, seduzindo-o com a p omessa de lhe mos-
a as ma a ilhas do lago. Fascinado com o esplendo p ome ido e cu ioso quan o
aos cos umes es anhos que espe a ap ende , como lhe o a ga an ido, Psicá pax
acede ao con i e e à o e a de anspo e às cos as do seu an i ião. O início da
iagem aquá ica deco e em anquilidade, com o egozijo do passagei o. Quando,
po ém, os dois animalejos se a as am das ma gens, a u bulência das águas p o oca
no a o o sen imen o de insegu ança e pa o , de ido à al a de cos ume em ia-
ja num ambien e aquá ico. Ape cebendo-se da di iculdade em aze a a essia,
Psicá pax a epende-se de e anuído ao con i e e, desespe ado, implo ando aos
deuses o eg esso a e a, usa a cauda como emo, cho a copiosamen e e a anca o
pêlo com as pa as.
Nes e momen o, o poe a pa ódico es abelece uma compa ação, pela nega i a,
com um episódio e i ado da adição mi ológica, con e indo ao passeio dos dois
animalejos as eições de um ap o.
p ocu ado desc e e os possí eis con ex os cul u ais e pe o ma i os da An iguidade onde os can os
pa ódicos e ão sido p oduzidos enquan o e sões ec ea i as dos poemas épicos.
3 “Le con as e cons i u i de l’hé oï-comique es ob enu aux moind es ais, e p odui son maximum
d’e e . Ni Tassoni, ni Boileau, ni Pope ne e ou e on une elle e icace, ni une elle élégance, qui
se pe den chez eux dans l’à-peu-p ès, l’ampli ica ion, la dig ession, dans des sa i es annexes e des
polémiques la é ales. Le gen e, sans dou e enco e ès p ès de sa naissance, es à son zéni h” (Gene e
148).
Re isi a o Mi o-V2.indb 60 23-01-2015 07:06:32
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&/63!57$8&9$:"3);<($=*>$?@A/&!5$BC9$,;D$E3F&<(7
G5$A6($HI)+/5$,;*()&*!($BC0($,5$!J?!(
-.&3/#!5$K;L)+/5$M#3N($=OA/5$%=/&*$L0P?Q*R$(Ba ac. 78-81)
Não oi des a manei a que o ou o ca egou sob e o do so o peso do amo quando
le ou Eu opa a a és do ma pa a C e a; não oi assim o modo como a ã colocando o
a o às cos as o le ou pa a o palácio, desdob ando o co po dou ado na água límpida.
!4
A iagem u bulen a de Psicá pax às cos as de Fisígna o cons i ui uma des-
cons ução pa ódica da conhecida his ó ia do ap o de Eu opa po Zeus. Enamo-
ado, o sobe ano olímpico assume a apa ência de um ou o de inigualá el beleza, a
pon o de chama a a enção da p incesa, que se di e e jun o à p aia. Deslumb ada,
dele se ap oxima, subindo pa a as cos as do animal. O deus a as a-se de e a com
Eu opa em cima dele, le ando-a pa a C e a, onde consuma o seu amo .
Es e mi o oi a ado na An iguidade po á ios au o es, g egos e la inos, como
Apolodo o (Biblio eca 3.1.1), Mosco (Eu opa), Luciano (Diálogos dos deuses ma inhos
15), Aquiles Tácio (Leucipe e Cli o on e 1.1.2-13), O ídio (Me amo oses 2.833-75) e
Ho ácio (Odes 3.27.25-76), endo sido ela ado com di e en es po meno es li e á-
ios, mas man endo semp e a his ó ia de base: o ap o da p incesa pelo sobe ano
dos deuses me amo oseado em ou o.
Leopa di de ende que a Ba acomiomaquia é um p odu o helenís ico do seculo II
a.C., uma ez que o poe a pa ódico e á omado o idílio de Mosco, in i ulado Eu opa,
como modelo pa a o in e lúdio mi ológico do ap o p epa ado po Zeus. En e o idí-
lio e o poema dos dois animalejos exis em de ac o pa alelos emá icos e lexicais que
pe mi em ap oxima ambos os ex os e e o ça a ese do es udioso i aliano.
A composição animalesca e o idílio de Mosco mos am a seguin e imagem: um
jo em memb o da ealeza passeia às cos as de um mona ca dissimulado. Na Ba a-
comiomaquia, Psicá pax é o p íncipe que sobe pa a as cos as de Fisígna o, o sobe ano
anino; na adição mi ológica e na e são de Mosco, a jo em p incesa é Eu opa, que
sobe pa a o la go do so de um ou o, que é, na e dade, Zeus dis a çado.
Ambos os passeios aquá icos são p omo idos po Zeus: na Ba acomiomaquia,
na qualidade de deus hospi alei o, e no poema de Mosco, de ido ao impulso amo-
oso dessa di indade. Pa a con ence Psicá pax a acede ao con i e pa a o ban-
que e no palácio dos ba áquios, Fisígna o unda-se na au o idade de Zeus, pa a
assim jus i ica a o e a de hospi alidade que o a o es anha.
S0T(07$URRRVW$4+&*!?/D!XAT(
;!LL>!C>3!,(!LYA(<*!?/D!,;D!#Z!(D!Z/@A/&9$[=O+Z/*R
A1Y-*!(!C>3!4='?0!(!A](!-/&3.#!*+*!E3!(Y'("
+?*3&^+/*!?/&>!C/T/("!,(!%=/+*!+QA/!?/L@I/*W$(Ba ac. 57-60)
Es angei o, [...]; ambém nós emos mui as ma a ilhas no lago e em e a pa a
4 Sigo pa a o ex o g ego da Ba acomiomaquia a edição de Wes de 2013. Todas as aduções da língua
g ega aqui ap esen adas são da minha esponsabilidade.
Re isi a o Mi o-V2.indb 61 23-01-2015 07:06:32
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se em is as, pois o C ónida concedeu às ãs um pas o de na u eza dupla, pa a
sal i a em sob e a e a, e nas águas camu la em o co po.
O deus p o ec o dos hóspedes cons i ui a ga an ia de que a emp esa segui á
as no mas de condu a, p óp ias ao encon o en e um isi an e e o an i ião po
quem é ecebido.
Psicá pax e Eu opa são ambos a aídos a subi pa a as cos as de um animal: ele
po que ica seduzido pelas ma a ilhas p ome idas que espe a ap ende num meio
que lhe é desconhecido; ela, ao ape cebe -se da p esença de um ou o de aspec o
e amanho nunca an es is os, deslumb a-se com o animal de excepcional beleza.
Em e mos de apa ência ísica, an o a ã como o ou o pa ilham a mesma onali-
dade de pele: os dois animais ap esen am-se e es idos de uma colo ação dou ada
(“KπL)+/5 M#3N( =OA/5”, Ba ac. 81; “=OA/5 S/(Z2#3!!( 4+?0”, Eu opa 84)!5. Ainda
a p opósi o de ques ões c omá icas, o es ido que a p incesa az e que segu a pa a
não molha é de co pú pu a (“0_3P0 π!31P3O<( ?!Lπ!6 π&@#/”, Eu opa 127) como
pu pú eas são ambém as ondas nas quais o a o eceia a oga -se (“?@A/+* π!31P#
3O!*+* ,?L@`0&!”, Ba ac. 69).
No início da a en u a, Psicá pax e Eu opa aleg am-se com o passeio enquan o
êem p óximas as ma gens. Começam, po ém, a p eocupa -se à medida que a dis-
ância se ala ga ao se em le ados pa a o meio do ma . Não medem as consequên-
cias das acções que omam ao acede em ao con i e indo de animais audulen os.
A pa ódia não se ope a, con udo, median e a ep odução iel dos mesmos ópi-
cos ou uso das mesmas pala as e exp essões. A imi ação pa ódica implica an es
epe ição com di e ença e dis anciamen o c í ico, como demons a Hu cheon
(32). Assim, no idílio helenís ico e no poema animalesco, a a essia não em o
mesmo esul ado. Numa in e são humo ís ica do mi o de Eu opa, como ela ado
po Mosco, o pêlo encha cado de Psicá pax pesa sob e o a o, puxando-o pa a o
undo do lago (Ba ac. 91), enquan o o delicado es ido de Eu opa o na a jo em
le e (Eu opa 129-130). A p incesa é conduzida em segu ança pa a C e a, onde
Zeus conc e iza os p aze es amo osos. Pelo con á io, o pe cu so do a o é, num
mo imen o pa ódico, in e ompido a meio, de ido ao a ogamen o inespe ado de
que é í ima, não alcançando assim o des ino p e endido, nem des u ando das
delícias gas onómicas que a ã p ome e a.
O nascimen o da pa ódia ocul a-se na noi e dos empos (Gene e 22). No seio
das ince ezas que en ol em as o igens emo as das p á icas pa ódicas, os especia-
lis as êm conside ado, no âmbi o da adição épica an iga, o p es ígio de Home o,
uni e salmen e econhecido como “il ‘g ande codigo’ che do e a egola e ogni
enomeno le e a io” (Fusillo 20). Conjec u a-se, en ão, que a p odução des e
géne o polimó ico enha ido o seu começo a pa i da elação de dependência e
con as e com a epopeia, mais conc e amen e, com a epopeia homé ica.
É bas an e comum es uda -se a Ba acomiomaquia a pa i da elação in e -
ex ual com a Ilíada, sob e udo po causa da amilia idade das sé ies de con on-
5 Pa a as ci ações do idílio de Mosco sigo a edição de Edmonds de 1960.
Re isi a o Mi o-V2.indb 62 23-01-2015 07:06:32
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os indi iduais dos úl imos cem e sos com os esquemas con encionais das lu as
he óicas a adas en e os comba en es iliádicos. A p imei a pa e da na a i a (os
ce ca de cem e sos iniciais) ela a con udo os e en os que an ecedem a gue a e
a mo i am: o encon o en e um p íncipe es angei o e um sobe ano an i ião. É
a ase das jo nadas ba acomiomaquianas, em que Psicá pax se compo a como
um iajan e desa o unado e um na egado pouco expe ien e, sendo e a ado à
imagem de um an i-Ulisses.
À semelhança do na egado de mui os a dis que padece in o únios no ma
após a pa ida de Ogígia e de Eeia, ambém Psicá pax se o na í ima do mo i-
men o umul uoso das águas do lago, mas ao con á io do modelo he óico, não
consegue escapa ileso. Na desg aça aquá ica que sob e ele se aba e, con luem alu-
sões aos episódios de Ci ce e Calipso, e da isi a ao Hades. Mui os des es pa alelos
suge idos no desas e do lago assumem uma ele ada ca ga i ónica ou p ocedem a
um exage o cómico quan o ao modelo homé ico no qual se undam.
Ape cebendo-se da di iculdade em aze a a essia do lago, Psicá pax a e-
pende-se de e anuído ao con i e e, desespe ado, começa a cho a copiosamen e e
a a anca o pêlo com as pa as (Ba ac. 69-70). A i ude idên ica omam os compa-
nhei os de Ulisses, quando es e, ins uído po Ci ce, lhes comunica o caminho em
di ecção ao Hades (Odisseia 10.567-68). A exp essão “&YLL0 =a #/b&/5” (Ba ac. 70) é
adap ada a pa i de “&bLL!(&c &0 #/b&/5” (Odisseia 10.567), ambas em posição inal
de e so, e con i ma o pa alelo como indício de uma desg aça p es es a sucede
!6.
Lemb a Fusillo (99) que a anca os cabelos e a um ges o “ equen e nell’epica
pe esp ime e dispe azione”, ac escen ando que “l’a ibui lo al opo app esen a
il momen o di maggio e incong uenza comica di ques a ase”. O ges o adequa-se
con udo ao con ex o de uma iagem in e nal que que o a o, que a ipulação
homé ica emp eendem: an o a pe sonagem indi idual como a colec i a, desejando
eg essa à e a pá ia, cho am e a ancam o pêlo (no caso de um) e os cabelos (no
caso dos ou os) ao ape cebe em-se de que emba cam numa iagem que os le a á
à mo ada dos mo os. O pa alelo com es a a en u a odisseica é e o çado pelo uso
pa ilhado do e bo ?/&/=@', u ilizado pa a indica as subme sões cons an es de
Psicá pax no lago (“?/&O=P(0(”, Ba ac. 89), bem como a ga an ia i me de Ulisses
aos ipulan es de que não desce ão (“?/&/=P+cA0Z/”, Odisseia 10.174) ao mundo
das almas in e nais an es do dia a al, quando, na e dade, é isso mesmo que a ão
após a pa ida da ilha de Ci ce, desce ao Hades an es de e em mo ido. Em opo-
sição ao que o he ói diz aos cama adas, es e passo conc e o do poema pa ódico
cons i ui o momen o da mo e de Psicá pax, que chega assim ao e mo da iagem.
O espe nea incessan e de Psicá pax na água, de ido ao pêlo molhado que
o sob eca ega e o puxa epe idas ezes pa a o undo (Ba ac. 89-91), molda-se a
pa i do episódio em que Ulisses, subjugado pelo peso das oupas encha cadas,
quase mo e a ogado (Sens 240). O pa alelo emá ico em sido conside ado uma
ampli icação pa ódica do nau ágio de Ulisses, após a pa ida de Ogígia (Fusillo
6 Sigo pa a os passos ci ados da Odisseia a edição de Mu ay de 1995.
Re isi a o Mi o-V2.indb 63 23-01-2015 07:06:33
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102): enquan o es e pe manece bas an e empo debaixo de água, acabando po
eme gi uma única ez (Odisseia 5.319-323), o duplo pa ódico do he ói ê-se mui-
as ezes en ol ido pelas águas do lago e mui as ou as ezes consegue chega à
supe ície (Ba ac. 89-90).
O co po elpudo, p ejudicial pa a o se mu ídeo, uma ez que o a as a pa a o
undo do lago, pode ambém cons i ui , como c eio, um con apon o pa ódico do
éu de Ino, peça de oupa que pe mi e esga a Ulisses em pe igo de mo e a o-
gado. Conside ando que a pa ódia, numa das de inições possí eis, implica a in e -
são da si uação sé ia imi ada, o éu possibili a a sal ação do he ói homé ico e a
sua chegada ao palácio de Esqué ia, ao con á io de Psicá pax pa a quem a camada
peluda que en ol e odo o seu co po unciona como elemen o an agónico à p os-
secução do passeio aquá ico a é ao palácio das ãs. De ins umen o sal í ico na epo-
peia, a indumen á ia o na-se num ins umen o uinoso em con ex o an iépico.
A e eminização do a o nau agado, suge ida pela e e ência ao pêlo molhado,
o na-se mais exp essi a no in e lúdio mi ológico do ap o de Eu opa. Nes e símile,
Psicá pax ocupa o mesmo luga da donzela, que o a ap ada po Zeus me amo -
oseado em ou o, o que az o passeio aquá ico ( esul an e da acei ação de um
con i e) assumi a eição de um ap o conseguido po meio de dolo. Os meios de
na egação de que Psicá pax e Ulisses se se em são ambos compa ados a animais:
Fisígna o a um ou o e a jangada despedaçada a um ca alo. Assim como o a o ea-
liza um passeio agi ado às cos as da ã hospi alei a, qual donzela ingénua sob e o
do so de um ou o audulen o, assim ambém Ulisses em plena empes ade sobe
pa a uma das p anchas da emba cação de madei a como que mon ando um ca alo
(Odisseia 5.371). Os dois ma ean es êem-se ob igados a abandona os espec i os
anspo es e ambos icam à de i a nas águas (Ba ac. 105-107; Odisseia 5.388-89),
sendo po elas le ados, um pa a a mo e, o ou o pa a a p aia de Esqué ia!7.
O idílio de Mosco e o enquad amen o nas con enções da épica helenís ica e o -
çam o a gumen o de que a Ba acomiomaquia é um p odu o de uma época a dia. A
inse ção do poema animalesco no uni e so da ábula não alida necessa iamen e a
mesma da ação, se se conside a que Esopo, o mais conhecido composi o de b e es
his ó ias de animais, e á i ido na época g ega a caica, en e os séculos VII-VI a.C.
A ábula de Esopo in i ulada “A ã e o a o” con ém um en edo análogo ao da
epopeia animalesca, a pon o de alguns es udiosos es abelece em um ínculo de
dependência mui o es ei o en e as duas composições que celeb am as des en-
u as de um es anho pa o mado po um se mu ídeo e um se anídeo!8. Con a a
ábula que um oedo e um ba áquio iajam jun os, a ados um ao ou o, em busca
de jan a , a é o animal e es e se a as ado pelo companhei o pa a o undo do
lago. O a o mo e a ogado e é cap u ado po uma a e. Es ando a ã a ada ao cadá-
e , é ambém ela ei a p isionei a do a acan e dos céus. No início da his ó ia, a o
7 Sob e o episódio do nau ágio de Ulisses an es da chegada a Esqué ia e a sua ca ac e ização de he ói
a es ido, que p ecisa de en e ga oupa de mulhe pa a pode sal a a ida, ide Ka dulias (23-51).
8 Wölke (92-98), Glei (48-53), Saldanha da Gama (101-110) e Lopes (32-38) são alguns dos es udiosos
que associam a Ba acomiomaquia à adição abulís ica de Esopo.
Re isi a o Mi o-V2.indb 64 23-01-2015 07:06:33
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e ã andam jun os à p ocu a de alimen o, no inal o nam-se ambos comida pa a
ou o animal. A mo al com que a ábula ence a unda-se no pode da ingança e
na jus iça di ina que udo obse a.
d&*, ?e( (0?3N5 &*5, [+#@0* π3N5 gAP(/(˙ X C>3 Z0Y/ =Y?< ,1!3h π.(&/ ?/D &N _+!(
π!=Y='+* `PC!+&/&!6+/. (Esopo, Fábula 244)!9
A his ó ia mos a que, mesmo quando alguém es á mo o, exis e pode na in-
gança, pois a jus iça di ina obse a udo e udo dis ibui de o ma equi a i a pelos
p a os da balança.
À pa e as analogias e os pa alelos emá icos mani es os en e a ábula de
Esopo e a Ba acomiomaquia, de enho-me no in ui o mo alizado . A Ba acomioma-
quia, na qualidade de ábula épica, se e-se dos ecu sos de dois géne os, a epopeia
e a ábula, pa odiando es a úl ima ao não assumi uma o ien ação mo alizan e. É
e dade que, como a his ó ia esópica, ambém a e são pa ódica mos a o a o a
e oca a jus iça di ina e a ingança u u a con a a ã.
!" LF+0*5 C0 Z0!i5, jP+YC(/Z0, &/6&/ π!*F+/5
(/P<CN( kYI/5 πN +)A/&!5 G5 πN πO&3<5. (Ba ac. 93-94)
[...] 4#0* Z0N5 4?=*?!( lAA/˙
π!*(]( /m &0Y+0*5 +n APQ( +&3/&Q*, !"=’ Hπ/LiS0*5. (Ba ac. 97-98)
Não escapa ás aos deuses, Fisígna o, po is o que izes e, ao e es abandonado um
náu ago das uas cos as como de uma ocha. [...] Tem o deus olho ingado , pois o
c ime expia ás e ao exé ci o dos a os não escapa ás.
Os deuses, con udo, ausen es do campo de ba alha, acabam po in e e i a
a o dos habi an es do lago, en iando o auxílio dos ca anguejos. As no as opas
mudam o cu so da gue a no seu e e so ao decepa em as pa as e as caudas dos
a os. Não há, po an o, na Ba acomiomaquia, uma mo al, uma ez que os deuses a
des oem, concedendo a i ó ia aos animais go e nados po um sobe ano aiçoei o,
des espei ado dos laços de xeno ilia. O desenlace des a ob a pa ódica pode á, con-
udo, se pensado como mo alizan e, se nele i mos, como suge e González Del-
gado (45-46), uma in ec i a con a a gue a de con o nos épicos e a inu ilidade
que ep esen a, quando aplicada a um con ex o baixo e a pe sonagens não he óicas.
No âmbi o da p odução pa ódica an iga, a Ba acomiomaquia não é senão
um jogo li e á io, um mosaico de e e ências omadas de emp és imo de di e -
sas on es e modelos. O mi o do ap o de Eu opa po Zeus enlaça-se na na a-
i a animalesca: não é apenas epe ido, mas descons uído e eciclado, median e
a in e secção de di e en es géne os e modalidades discu si as. O sobe ano olím-
pico, o deus hospi alei o, é con e ido, nes a e são pa ódica, num go e nan e de
mandíbulas inchadas, que não espei a os laços de hospi alidade com os isi an es
9 A edição seguida das Fábulas de Esopo é a de Chamb y de 1985.
Re isi a o Mi o-V2.indb 65 23-01-2015 07:06:33
517 FROM OBSCURITY TO THE PANTHEON OF PORTUGUESE AMERICAN HEROES:
RECYCLING PETER FRANCISCO FOR ETHNIC MINORITY ‘FEEL GOOD’ AND UPLIFT
Reinaldo F ancisco Sil a
529 IRACEMA PARA ALÉM DAS EXPECTATIVAS
Ti o Ba os Leal
539 CASSANDRA REVISITADA
Sand a Pe ei a Vinag e
551 O MITO COMO LEITURA DA HISTÓRIA
I one Da é Rabello
559 A ERÓTICA DO ÊXTASE
Loli a Guima ães Gue a
575 DEVOLVER O FOGO AOS DEUSES
So ia San os
5. MITOS NA CULTURA POPULAR
MYTHS IN POPULAR CULTURE
587 RARIDADE E DIVERSIDADE COMO FACES DA MESMA MOEDA
Ma ina Pelluci Dua e Mo oza
595 MITOLOGIA NA FÁBULA
Ana Pai a Mo ais
Te esa A aújo
607 TEMAS MÍTICOS NOS CONTOS POPULARES PORTUGUESES
C is ina Ab anches Gue ei o
615 “A SERRANA” E “A GALHARDA”, DOIS RETRATOS DA MULHER DEVORADORA NO
ROMANCEIRO DE TRADIÇÃO PORTUGUESA
Ana Si gado
625 A LENDA DAS ÁGUAS SANTAS DO VIMEIRO
Na ália Albino Pi es
637 O HERÓI MÍTICO E A IMAGEM DO PRÍNCIPE NOS CONTOS DE JOSÉ LEITE DE
VASCONCELOS
Te esa M. Gonçal es de Cas o
651 MITO E CONTO POPULAR
Ma ia Auxiliado a Fon ana Baseio
659 AS MÃOS DOS PRETOS, DE LUÍS BERNARDO HOWANA
Ma ia Zilda da Cunha
671 ANGELA CARTER E BARBA-AZUL
Cleide An onia Rapucci
Re isi a o Mi o-V2.indb 832 23-01-2015 07:07:25
6.MITOS NA RELIGIÃO E NAS CIÊNCIAS
MYTHS IN RELIGION AND SCIENCE
685 THE JUDGMENT BETWEEN HORUS AND SETH AS A PARADIGM FOR THE
JUDGMENT OF THE DEAD
And é de Campos Sil a
697 REVISITANDO O MITO EGÍPCIO DAS LUTAS ENTRE HÓRUS E SET
José das Candeias Sales
715 DA PALAVRA AO ACTO
Miguel Pimen a-Sil a
727 LILITH: FROM POWERFUL GODDESS TO EVIL QUEEN
Ma ia Fe nandes
737 ENTRE MITO E CIÊNCIA
Abel N. Pena
749 A MIGRAÇÃO DOS PORTENTOS
Isabel de Ba os Dias
763 O MITO DA CRIAÇÃO NO CORÃO E O SEU REFLEXO NA MÍSTICA SUFI
Na ália Ma ia Lopes Nunes
777 REVISITAR A CATÁBASE
Daniela Di Pasquale
789 REMINISCÊNCIAS DE VERGÍLIO NA OBRA POÉTICA DE PEDRO JOÃO PERPINHÃO
Helena Cos a Toipa
805 NARCISO E LEONARDO NA PERSPETIVA DE FREUD
Isabel Cas o Lopes
815 À PROCURA DE UM FINAL FELIZ, OU A NARRATIVA ADÂMICA REVISITADA POR
LLANSOL
C is iana Vasconcelos Rod igues
Re isi a o Mi o-V2.indb 833 23-01-2015 07:07:25
Re isi a o Mi o
Re isi a o Mi o · My hs Re isi ed
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