ATAS DO COLÓQUIO INTERNACIONAL CABO VERDE E GUINÉ-BISSAU: PERCURSOS DO SABER E DA CIÊNCIA
LISBOA, 21-23 de Junho de 2012
IICT - Ins i u o de In es igação Cien í ica T opical e ISCSP-UTL - Ins i u o Supe io de Ciências Sociais e Polí icas da Uni e sidade Técnica de Lisboa
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ISBN 978-989-742-004-7
©Ins i u o de In es igação Cien í ica T opical, Lisboa, 2013
UM PROJETO DE (RE)CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO EM CABO VERDE: O RELATÓRIO DO
ENGENHEIRO ANTÓNIO CARLOS ANDRÉIS DE 1780
MARIA JOÃO SOARES
Cen o de His ó ia, Ins i u o de In es igação Cien í ica T opical
ma iajoaosoa
[email protected]
Resumo
À medida que se caminha no século XVIII o a quipélago de Cabo Ve de encon a a-se um pouco en egue a si p óp io,
dado que as ligações polí icas e económicas com o Reino se o am o nando cada ez mais escassas. Em Po ugal não
ha ia uma es a égia pa a o a quipélago no quad o a lân ico em que as ilhas se inham o nado ma ginais e me as
o necedo as de aguada e e esco pa a os na ios es angei os que escala am Cabo Ve de e domina am o comé cio
miúdo local, a maio pa e das ezes, po con abando.
O pode inha sido omado de assal o pela eli e local que domina a câma a, milícia, mise icó dia e o iciala o e
ap o ei a a as equen es in e inidades dos go e nado es e dos ou ido es pa a se apode a do pode sobe ano e,
quando aqueles exe ciam os seus manda os manie a am o pode colonial a a és de uma es a égia delibe ada de
cisão da es e a de compe ências dos go e nado es e dos ou ido es ou do seu assassina o, quando ameaça am a
au onomia dos po en ados locais.
Nos cí culos polí icos do Reino pensa a-se em alguns meios que as ilhas e am inú eis, que odos os gas os nelas se iam
semp e sem p és imo mas que se de e iam man e «(…) po que nelas se conse a o nome de Deus e do Rei.»,
O consul ado pombalino e e ecos di e os em Cabo Ve de não só com a ida de um sindican e com pode es ala gados
mas sob e udo com a «p i a ização» das ilhas» às mãos da companhia do G ão Pa á e Ma anhão, a a és da qual se
p ocu a a ein eg a Cabo Ve de no eixo a lân ico neg ei o Guiné-B asil como pla a o ma de o necimen o de panos de
algodão à cos a a icana e de u zela aos me cados do no e da Eu opa.
A suble ação da eli e e ol osa oi solucionada com a «incon idência cabo e diana» e os seus maio ais o am
sen enciados ao pa íbulo ou ao en o camen o em Lisboa pelo assassina o do ou ido João Viei a de and ade em 1762,
sendo as suas cabeças expos as na ila da P aia pa a se i de exemplo.
Con udo, o p oje o pombalino não ingou em Cabo Ve de com a alência da companhia do G ão Pa á e Ma anhão e da
emp esa que lhe sucedeu e sob e udo com a ome ge al de 1773-1775 que dizimou en e 25 a 40 % da população.
Em Po ugal, Cabo Ve de a igu a a-se depois des a calamidade como um e i ó io cujos ecu sos na u ais e
populacionais e am desconhecidos, não se eco dando já o capi al de conhecimen os acumulados nos séculos XVI e
XVII. O go e nado Saldanha Lobo (1770-1776) oi enca egue de di igi os abalhos de um écnico al amen e
quali icado – o capi ão-engenhei o An ónio Ca los And éis que o a deg edado pa a o a quipélago depois de pa icipa
nos abalhos de econs ução da baixa lisboe a.
O obje i o des a comunicação se á o ques ioná io subjacen e ao ela ó io de 1780 do engenhei o And éis, bem como o
eo do mesmo, al como o p oje o polí ico-ideológico a que eio da espos a.
Pala as-cha e: Iluminismo, Conheicmen o do e i ó io e seus agen es, ag icul u a, pecuá ia, omes
*
A pa i da segunda me ade do século XVII, o egime esc a oc a a de Cabo Ve de conheceu uma
deses u u ação p ecoce e acele ada, enquan o na ou a ma gem do A lân ico as sociedades esc a is as do
B asil e An ilhas se mani es a am pujan es e em ciclo económico ascenden e. O censo populacional de 1731,
mesmo com os limi es des e ins umen o de cômpu o pa a o século XVIII, é bem e elado do desabamen o
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LISBOA, 21-23 de Junho de 2012
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p ema u o do sis ema esc a is a cabo- e diano, uma ez que o mon an e de esc a os a inge o seu máximo
na ilha do Fogo, ci ando-se num qua o da sua população
1
.
A sociedade esc a oc a a de Cabo Ve de eme giu ainda em inais do século XV, com base na sua posição
geo-es a égica de pla a o ma e en epos o pa a o comé cio neg ei o do Rios de Guiné e na concessão de
la gos p i ilégios come ciais e iscais aos mo ado es einóis naquele espaço a icano, uma ez que só des a
o ma se conseguiam a ai pa a po oa es a e a á ida e inóspi a
2
. A escassez de ecu sos na u ais e a
impedi i a de uma economia ag á ia expo ado a, como ha ia sucedido nos a quipélagos da Madei a e
Aço es. Além disso, a ilha de San iago e es ia unção de escala das emba cações que sulca am o a lân ico
umo ao B asil e Índia e que aqui se ap o isiona am de água, man imen os, homens ou e ec ua am
pequenas epa ações na ais. A ilha de San iago conhece ia um empo de o una de pouco mais de um
século como cen o de eexpo ação de esc a os pa a a Península Ibé ica, ou os a quipélagos a lân ico e
sob e udo Índias de Cas ela
3
.
Con udo, o exclusi o come cial dos a mado es de San iago, cons uído com base em diplomas legisla i os e
não em po encial económico cedo i ia se queb ado com a en ada em cena na 2.ª me ade do século XVI de
no os e mais pode osos conco en es come ciais. F anceses, Ingleses e Holandeses passa am a abas ece -se
nos me cados neg ei os dos Rios de Guiné, negociando di ec amen e com os o necedo es a icanos,
con o nando a in e mediação dos a mado es insula es, cuja posição ac i a no a o decai p og essi amen e.
Além disso, os no os modelos de o necimen o de esc a os as Amé icas a a és de con a os, a ema ados
sis ema icamen e po c is ãos-no os po ugueses du an e a p imei a me ade do século XVII i iam da o
golpe de mise icó dia no agenciamen o insula no á ico neg ei o
4
.
A pa i da Res au ação de 1640, acassadas as en a i as de companhias come ciais nacionais pa a in e i
no a o neg ei o nos Rios de Guiné, as ligações en e Cabo Ve de e o Reino o nam-se Cabo Ve de mais
escassas e i egula es, ao mesmo empo que a p io idade que o B asil assumiu no con ex o a lân ico,
conduzi am a uma queda de impo ância do a quipélago pa a a Co oa Po uguesa.
1
Ca ei a, An ónio (1984), “O p imei o censo da população das Ilhas de Cabo Ve de (1731)”, Re is a de His ó ia
Económica e Social, n.º 13, pp. 51-66.
2
Sil a, An ónio Co eia e Sil a (1990), “Os undamen os do po oamen o de Cabo Ve de”, Oceanos, n.º 5, pp. 68-77. Do
mesmo au o e (1989) A in luência do Al ân ico na o mação de Po os em Cabo Ve de, Lisboa, Cen o de Es udos de
His ó ia e Ca og a ia An iga, sé ie Sepa a as Ve des, n.º 228.
3
To ão, Ma ia Manuel (1999), T á ico de Esc a os en e a Cos a da Guiné e a Amé ica Espanhola. A iculação dos
Impé ios Ibé icos num Espaço A lân ico (1466-1595), Lisboa, Ins i u o de In es igação Cien í ica T opical, disse ação
pa a e ei os de acesso à ca ego ia de in es igado auxilia , (polic.).
4
To ão. Ma ia Manuel (1995), “Ro as come ciais, agen es económicos, meios de pagamen o” in His ó ia Ge al de Cabo
Ve de, coo d. de Ma ia Emília Madei a San os, ol. II, Lisboa, Ins i u o de In es igação Cien í ica T opical, pp. 17-124.
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Pa adoxalmen e, no momen o em que se iniciou o a o ansa lân ico em la ga escala, as ilhas i am
diminui as ligações egula es com as g andes o as a lân icas, es ando-lhes uma posição pe i é ica e
ma ginal que ica a com as sob as daqueles luxos come ciais, limi ando-se a o nece aguada, e esco e
o necimen o de pequenas quan idades de gado às emba cações eu opeias que escala am o a quipélago
umo às suas colónias ame icanas. Es e comé cio miúdo, como oi designado po Ilídio Baleno, mui as ezes
in o mal e sob a o ma de con abando, ai domina a economia ex e na de Cabo Ve de du an e odo o
século XVIII, sendo os p incipais pa cei os come ciais os ingleses
5
.
Cabo Ve de deixa a se pa e ac i a da es a égia impe ial a lân ica e as ilhas são p a icamen e abandonadas
pela Co oa Po uguesa à sua so e, no p eciso momen o e, al ez na medida, em que o ciclo da g ande
p odução açuca ei a a ingia a sua ma u idade e o su o au í e o do B asil despon a a. Em 1713, numa
consul a do Conselho Ul ama ino sob e a in asão da ilha de San iago po co sá ios anceses no ano
an e io , o p ocu ado da azenda p o e iu uma sen ença lapida que aduzia o que em ce os sec o es do
eino se pensa a sob e Cabo Ve de. A i ma que odas as despesas nas es u u as de de esa se iam inú eis e
que as ilhas só se de iam man e po que “(…) nelas se con e sa o nome de Deus e do Rei”
6
.
Os esc a oc a as empob ecem d as icamen e e ans e em-se pa a a economia ag á ia, baseada na
ag icul u a e pecuá ia ex ensi a, onde a única mais- alia signi ica i a esidia na p odução dos panos da e a
de algodão, p odu o es a égico pa a o esga e nos Rios de Guiné, além da u zela e do sal
7
.
En e an o, Pombal en ega a Cabo Ve de às mãos da companhia do G ão Pa á e Ma anhão, cujo exclusi o
come cial i ia exau i ainda mais os já de si empob ecidos e a enen es locais, uma ez que es es são
o çados a ende os seus ecu sos es a égicos – panos, u zela, esc a os e me ais p eciosos en esou ados a
p eços mui o baixos em oca de me cado ias eu opeias sob e co adas
8
.
A economia esc a oc a a icou em si uação de alência eminen e, si uação que se agudizou com os di e sos
ciclos de omes e secas que se o na am mais eco en es no a quipélago desde meados do século XVIII,
5
Ilídio Baleno (2002),”Recon e são do comé cio ex e no em empo de c ise e o impac o da companhia do G ão Pa á e
Ma anhão” in His ó ia Ge al de Cabo Ve de, coo d. de Ma ia Emília Madei a San os, ol. III, Lisboa, Ins i u o de
In es igação Cien í ica T opical, pp. 157-233.
6
Consul a do Conselho Ul ama ino de 27 de Janei o de 1713 sob e a in asão de co sá ios anceses na ilha de
San iago, AHU, Cabo Ve de, cx. 9, doc. 75.
7
Ca ei a, An ónio (1973), “A u zela e o pano de es i : dois p odu os de expo ação das ilhas de Cabo Ve de” Re is a
do Cen o de Es udos de Cabo Ve de, sé ie Ciências Humanas. Vol. I, n.º 1,, pp. 3-35. Do mesmo au o e Pana ia Cabo-
Ve diano- Guineense. Aspec os his ó icos e sócio-económicos, Lisboa, Jun a de In es igações do Ul ama . Amo im, Inês
(2010), “Las islas de Cabo Ve de en la u a de la sal. La cons ucción de um complex economic de época mode na in
Islas y sis emas de an egacóin du an e las edads media e mode na, ed. Adela Fáb egas Ga cía, G anada, Alhulia, pp.
359-411.
8
Ca ei a, An ónio (1983), As companhias pombalinas do G ão Pa á e Ma anhão e Pe nambuco e Pa aíba, Lisboa, ed.
P esença.
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endo o seu co olá io com a 1.ª ome ge al de Cabo Ve de en e 1773-1775
9
. Es a ome pa a além dos
ele ados cus os humanos que se ci am en e 25 a mais de 40% de mo alidade, acele ou a deses u u ação
da economia ag á ia insula , dado que os e a enen es se i am cons angidos a ende esc a os ao
desba a o em oco de bens alimen a es ca os ou simplesmen e a abandoná-los, dado que não inham
condições pa a os alimen a
10
. Uma pa e signi ica i a da mão-de-ob a esc a a oi al o iada ou
simplesmen e la gada à sua so e, abandonando San iago e Fogo, ilhas do po oamen o p imi i o umo
sob e udo às ilhas do Ba la en o onde busca am no as o mas de sob e i ência
11
. Só pe an e os ela os
exc ucian es des a ome e da alência económica insula , a Co oa eage a diamen e a es e des ino de há
mui o anunciado.
O pode cen al, pela mão do sec e á io de Es ado da Ma inha e Ul ama Ma inho de Melo e Cas o
decidiu pô em p á ica em 1780 um p ojec o já an e io men e discu ido no Conselho Ul ama ino de
epo oa Cabo Ve de e ans o ma o a quipélago numa colónia ag ícola. Consis ia es e emp eendimen o
em cus ea pela azenda eal o en io pa a as ilhas de 100 casais po ugueses deg edados, pelos quais se iam
dis ibuídos 1000 esc a os a adqui i na Cos a da Guiné, e as, semen es e al aias ag ícolas, além de
sus en o ga an ido po ês anos, bem como isenção do pagamen o de o os. T a a-se de um p ojec o ípico
dos e o mismos pombalino e ma iano de e i alização económica ul ama ina e, pela p imei a ez em mais
de ês séculos de his ó ia insula , o que se isa a como ac i idade económica basila e a a ag icul u a e não
o comé cio ex e no.
Con udo, es e p ojec o ca ecia de in o mações quan o à sua exequibilidade, pelo que Ma inho de Melo e
Cas o enca egou o capi ão de in an a ia com exe cício de engenhei o An ónio Ca los And éis de da um
pa ece sob e o mesmo, dado que de inha um la go cu ículo de sabe es sob e Cabo Ve de saídos da sua
expe iência pessoal de ce ca de 13 anos de pe manência no a quipélago. An ónio Ca los And eis e a um
p es igiado engenhei o mili a que se i a em Po ugal no isco de á ias o i icações e na econs ução da
baixa pombalina em colabo ação com Eugénio dos San os. Em 1766 oi mandado se i em Cabo Ve de po 6
9
Sil a, An ónio Co eia e (1994), “Subsídios pa a a His ó ia Ge al de Cabo e de. As secas e as omes ns séculos XVII e
XVIII”, S dia, n.º 53, pp. 365-382.
10
And eis a i mou que nunca se pode iam conhece os quan i a i os exac os da mo alidade causada pela ome de
1773-1775 pelo que apon ou uma media de alecimen o de 25 % pa a odas as ilhas, embo a econhecesse que a sua
in ensidade i esse sido a iá el, consoan e as ilhas conside adas, sendo San iago a menos a ingida. Um ou o cômpu o
da população que mo eu du an e a ome è ap esen ado po Seena Ba cellos, sem no en an o especi ica a sua o igem.
Ve Ba cellos, Ch is iano José de Senna, (1905) Subsídios pa a a His ó ia de Cabo Ve de e Guiné, pa e III, Lisboa,
Academia Real das Sciencias.
11
Sob e o segundo ciclo de po oamen o e Sil a, An ónio Co eia e (2002), “Dinâmicas de demposição e ecomposição
de espaços e sociedades” in His ó ia Ge al de Cabo Ve de, coo d. de Ma ia Emília Madei a San os, Lisboa, Ins i u o de
In es igação Cien í ica T opical, pp. 1-66, sob e udo as páginas 1-12.
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anos, endo iniciado o seu labo nas ob as de cons ução da o aleza de Bissau em 1767
12
. De ido a
desen endimen os que aí e e com o condu o de al emp esa, o sa gen o-mo Manuel Ge mano da Ma a,
And eis oi mandado deg edado pa a Cabo Ve de, endo-lhe sido dada baixa do seu pos o mili a de capi ão
de in an a ia com exe cício de engenhei o e eduzido à ca ego ia de soldado. A sua es adia coincidiu com o
manda o do go e nado Joaquim Salema Saldanha Lobo (1770-1776) que decidiu ap o ei a o ele ado
po encial p o issional de And eis, enca egando-o de aze uma expedição po odo o a quipélago, de endo
elabo a mapas das ilhas, cidades e ilas de Cabo Ve de. Em 1771 iniciou o gi o das ilhas passando de
San iago ao Fogo e des a ilha à B a a, ha endo no ícias de que es a a no ano seguin e na ilha do Maio e
pos e io men e em San o An ão, endo o seu abalho nes a ilha sido elogiado pelo bispo D. F ei Ped o
Jacin o Valen e que pa a aí ans e i a a sua mo ada. Há ambém no ícia da sua es adia na ilha de S. Nicolau.
Em 1773, já inha concluído a sua expedição po odas as ilhas, al ando-lhe no en an o ape echos e in as
pa a desenha as plan as e mapas. En e an o, And eis ol ou pa a San iago e acolheu-se à somb a do
ou ido João Gomes Fe ei a, an agonis a de Saldanha Lobo, queb ando-se a elação p óxima que se
es abelece a an e io men e en e o go e nado e o engenhei o mili a . En e as múl iplas a e as
desempenhadas po And eis em Cabo Ve de, con am-se no as ob as na o i icação da ila da P aia,
colabo ação nas ob as de bene iciamen o da sé ca ed al, esquisso pa a eabili ação do palácio episcopal que
es a a a uinado, conse o da o aleza eal de S. Filipe e dema cação da es ada eal en e a cidade da
Ribei a G ande e a ila da P aia.
Te e licença pa a eg essa ao eino po o dem égia e a conselho de Ma inho Melo e Cas o e se á já em
Lisboa que i á da o seu pa ece sob e o e e ido plano em 1780. Com base na sua i ência local de ce ca de
13 anos e no sabe acumulado em di e sas unções e nas expedições cien í icas que aí ealiza a, i á elabo a
um ela ó io ci cuns anciado sob e a sociedade e economia ag á ias de Cabo Ve de, o que só pela na u eza
des e objec o az des e documen o um e a o ino ado e e dadei amen e singula sob e o a quipélago
13
.
Pa a esponde à ques ão de Ma inho de Melo e Cas o sob e se o a quipélago se pode ia ans o ma
numa colónia ag ícola capaz de acolhe po oado es einóis e esc a os, And eis aça o p imei o e c emos
que único ela ó io sob e a uma ag icul u a em egime opical saheliano com um olha ag onómico, is o é,
um en oque que con empla o es udo dos solos, plan as e clima em conjun o e in e acção, com is a a
alcança a melho p odução e p odu i idade com o meno cus o possí el, obse ando as condições na u ais
12
Sob e a cons ução da o aleza de Bissau a expensas da companhia do G ão Pa á e Ma anhão e Sa ai a, José
Mendo da Cunha (1946), “A cons ução da o aleza de Bissau e a companhia do G ão Pa á e Ma anhão” in Cong esso
Comemo a i o do V Cen ená io do Descob imen o da Guiné, Lisboa, pp. 157-191; San os, Nuno Valdez dos (1971), “As
o alezas de Bissau, Bole im Cu u al da Guiné Po uguesa, n.º 103, pp. 481-519 e And ade, Be na dino An ónio Ál a es
de (1990), Plan a de Bissau e suas adjacen es, ed. e no as de Damião Pe es, Lisboa, Academia Po uguesa da His ó ia,
2.ª ed..
13
AHU, Cabo Ve de, cx 40, doc. 9. O ela ó io de An ónio Ca los And eis em acompanhado de uma abela que
ep oduzimos em Quad o I.
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locais
14
. Com is a a essa inalidade, And eis açou o p imei o quad o de zonas ag ícolas do a quipélago
calculando em cada ilha a supe ície das e as de egadio, semen ei a e mon ado.
Po pa adoxal que hoje possa pa ece , uma das ideias que And eis p ocu ou con a ia oi a noção que se
inha no Reino ace ca de uma p e ensa abundância ag ícola das ilhas de Cabo Ve de “cuja ama de
e ilidade excede udo o c iado nes e mundo depois do e al pa aizo”. Conside ou que as únicas e as
e dadei amen e é eis e am as e as al as p óximas às mui as ibei as da ilha de San iago onde e am
p oduzidos “(…) os u os das qua o pa es do mundo”, pelo que não se podia inco e no e o de oma a
pa e pelo odo
15
. And eis açou um quad o e dadei amen e luxu ian e des es ales onde c esciam u os
ão di e sos quan o os ananases, u as, papaias, caju, goiabas, ama indos, cid as, la anjas, limões maçãs,
ma melos, nêspe as, e c., á o es e plan as di e si icadas como a cola da Guiné, calabacei a, iguei a-b a a,
oli ei a, cibes, chabéus ou onde se cul i a a a oz, se bem que em pequenas quan idades.
And eis passou em e is a odas as ilhas, começando pela que conside a a se a ilha com maio ocação
ag ícola de odo o a quipélago, is o é, San iago
16
. Como ac o ecológico de e minan e, And eis conside ou a
aca p ecipi ação, sua i egula dis ibuição no empo e no espaço, sua concen ação num cu o pe íodo do
ano ou mesmo a sua ausência po di e sos anos conduzia a um p edomínio da paisagem á ida e semi-á ida
incapaz pa a qualque cul u a ag ícola ou pecuá ia consis en es e sob e udo pa a a ag icul u a de egadio,
eduzida a uma supe ície o al ín ima. Em ce ca de 13 anos de pe manência nas ilhas de Cabo Ve de,
And eis a i mou só ha e p esenciado um ano com uma es ação de chu as abundan e. T açou assim o
e a o de um egime de um egime ag ícola de al o isco e ele ada ulne abilidade alimen a .
O engenhei o conside ou igualmen e que a di e sidade climá ica insula e a ambém p odu o da
di e enciação dos ele os insula es que agiam nos ní eis de plu iosidade e humidade. Assim uma das
p imei as di isões con empladas po And eis, além da segmen ação geog á ica adicional en e ilhas do
So a en o e ilhas do Ba la en o oi a das ilhas com ele o ele ado e acen uado como San iago, Fogo, B a a,
S. An ão e S. Nicolau e as ilhas baixas como Maio, Boa Vis a e Sal, a que co espondiam egimes ag ícolas
dis in os.
Con udo, além dos ac o es climá icos, exis iam ou os cons angimen os es u u ais na ag icul u a da ilha
de San iago. Um dos mais signi ica i os e a o egime undiá io, dado que uma pa e signi ica i a da
14
Sob e a ex ensão do clima saheliano con inen al ao a quipélago de Cabo Ve de e Sil a, An ónio Co eia e (1996),
His ó ias de um Sahel Insula , P aia, Spleen edições.
15
Sob e a di e ença de paisagens en e o início do po oamen o e a ac ualidade, o esgo amen o das e as po acção do
homem e e en uais al e ações climá icas e Lingskog, Ped e Delai e, Benoi (1996), “Deg ading land: an En i onmen al
His o y o he Cape Ve de Islands”, En i onmen and His o y, ol. II, n.º 3, pp. 271-290.
16
Ama al, Ilídio do (1964), San iago: A Te a e os Homens, Lisboa, Jun a de In es igações do Ul ama ; Ama al, Ilídio do
(1974), Aspec os geomo ológicos da ilha do Fogo, Lisboa, Jun a de In es igações do Ul ama .
ATAS DO COLÓQUIO INTERNACIONAL CABO VERDE E GUINÉ-BISSAU: PERCURSOS DO SABER E DA CIÊNCIA
LISBOA, 21-23 de Junho de 2012
IICT - Ins i u o de In es igação Cien í ica T opical e ISCSP-UTL - Ins i u o Supe io de Ciências Sociais e Polí icas da Uni e sidade Técnica de Lisboa
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ISBN 978-989-742-004-7
©Ins i u o de In es igação Cien í ica T opical, Lisboa, 2013
p op iedade, sob e udo a mais é il, se encon a a inculada a mo gadios e capelas, egime esse
es ei amen e associado ao modelo de ep odução social a is oc á ico da eli e local. Dada a g ande
ulne abilidade da ag icul u a em egime opical seco, os mo gados só cul i a am o es i amen e
necessá io pa a sus en o das suas casas, a endando o es o a uma mul idão de a enda á ios mui o pob es
aos quais impunham condições de a endamen o se e as. Nes as p op iedades a endadas, conhecidas
localmen e como luga es, os endei os con a am ainda com a ameaça animal que pai a a sob e as suas
cul u as, dado que um olume ap eciá el de co os, galinhas do ma o, macacos e a os ameaça am come
g ande pa e das colhei as, pelo que aqueles e am ob igados a assis i quase inin e up amen e nas suas
e as pa a debela al ameaça.
And eis salien ou que du an e a sua pe manência em Cabo Ve de nenhuma p op iedade inculada ha ia
agado pa a a Co oa. A única ans e ência de p op iedade que obse ou oi a de pequenos p op ie á ios
que du an e a ome de 1773-1775 ende am boa pa e das suas p op iedades aos mais icos, aumen ando
assim ainda mais a concen ação undiá ia.
O modelo analí ico sob e o modo como se cons i uía a economia ag á ia ai se a ilha de San iago que
conside ou ace adamen e se a ilha com maio ocação ag ícola. Aqui o que mais se plan a a nas ín imas
supe ícies de egadio, nas e as al as dos ales das ibei as do maciço mon anhoso cen al e a a cana-de-
açúca , conside ada localmen e como a cul u a ag ícola mais en á el, dado que e a ans o mada em
agua dan e que inha g ande p ocu a no me cado in e no local, sendo ocada po ou os p odu os. Além de
se uma cul u a mode adamen e exigen e em e mos de água, conseguia-se p oduzi açúca nas e as
esgo adas pelo cul i o da mandioca.
As e as mais i igadas pela densa ede hid og á ica de San iago e am ambém u ilizadas pa a plan io de
mandioca, pa a sus en o dos esc a os, bem como u icul u a, ho icul u a, coquei os pa a madei amen os
das casas e co das e pu guei as pa a iluminação
17
.
Nas e as de sequei o, conhecidas localmen e po e as de semen ei a plan a a-se a milho, eijão e
abóbo as que cons i uíam a base alimen a da população san iaguense
18
. No es o das e as de sequei o,
conhecidas localmen e como e as de semen ei a, plan a a-se algodão, manu ac u a dos chamados “panos
da e a” unciona a como moeda de oca nos me cados neg ei os dos Rios de Guiné. O algodão e a
plan ado nas e as menos i igadas e é eis dos ales - as chamadas achadas - onde se encon a a
esgua dado dos en os e de se comido pelo gado.
17
Rela i amen e à mandioca, And eis obse ou que e a de o igem ame icana e que inha de se p epa ada pa a
ex acção da pa e enenosa, sendo comida assada ou cozida.
18
Ma ia Manuel To ão (1995), Die as alimen a es: ans e ências e adap ações nas ilhas de Cabo Ve de: 1460-1540,
Lisboa, Ins i u o de In es igação Cien í ica T opical.
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Dado con udo a escassez do egime plu ial, em que mui as ezes não se p oduzia milho bas an e pa a
ga an i a su iciência alimen a , as e as, sob e udo as de egime de sequei o e am ocupadas na c iação de
gado acum e cap ino, dado que o lei e, o queijo e a man eiga inham g ande ele ância na alimen ação dos
habi an es de San iago, pelo que deixa am incul as pa e das e as pa a mon ado, es a égia seguida
sob e udo pelos pequenos p op ie á ios dispe sos pelas e as mais á idas. C ia a-se igualmen e gado
ca ala , mua e o ino. O gado e a ou a ese a es a égica dos mo ado es de San iago, dado que endiam
ca ne às emba cações es angei as que escala am as ilhas pa a abas ecimen o alimen a ou espécies i as
u ilizadas como acção nas colónias ame icanas. Em San iago, a supe ície ocupada pelo mon ado a ingia
ce ca de 2/3 da á ea global.
And eis in e ogou-se sob e as al e na i as dos san iaguenses en e a c iação de gado e o plan io de
algodão, conside ando que o p imei o nunca pode ia se sac i icado a es e géne o, dado não só o gado
cons i uía uma ese a alimen a es a égica da população de San iago, como se se p oduzisse algodão em
excesso se da ia luga a uma manu ac u a excessi a da pana ia de algodão, azendo desce os p eços nos
me cados neg ei os dos Rios de Guiné e aumen ando o con abando. A p odução manu ac u ei a de panos
da e a e a um dos un os da ag icul u a expo ado a de San iago e um p odu o de alo ac escen ado,
pelo que se alia da impo ação de algodão em espécie da izinha ilha do Maio e da mais longínqua ilha de
San o An ão.
Rela i amen e à ilha do Fogo, And eis des acou que a supe ície dedicada à ag icul u a de egadio e a meno
em p opo ção ela i amen e a San iago que de ido à cobe u a ulcânica de uma pa e signi ica i a dos
solos, que de ido à meno capacidade híd ica das suas ibei as. Dado que os e enos ag ícolas não e am
ão ele ados como em San iago, a sua e ilidade e a meno . En e as ac i idades ag ícolas da ilha do ulcão,
And eis salien ou o p edomínio do cul i o de algodão, no qual os seus habi an es se ha iam especializado
desde os inícios do po oamen o, ocupando a quase o alidade dos e enos de egadio. A ilha do Fogo e a
não só a maio p odu o a de algodão em espécie como a melho p odu o a de manu ac u a de panos, o que
se de ia, segundo And eis, ao ac o único no a quipélago de se em p oduzidos po mulhe es ecedei as.
Dado que a ilha do Fogo ca ecia de po os acessí eis, os seus habi an es con abandea am o algodão a a és
da B a a ou oca am-no pela agua den e p oduzida em San iago.
No egadio, e a cul i ada alguma u icul u a, nomeadamen e melancias, papaias, bananei as, goiabas e
ananases, enquan o o sequei o e a dominado pelas cul u as anuais do milho e do eijão, embo a em
meno es quan idades que em San iago. Também a ac i idade pecuá ia e a meno que em San iago,
a ul ando sob e udo o gado acum e o gado cab um.
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Rela i amen e à ilha B a a, And eis des acou que o ele o ele ado e o mado em socalcos p opicia a a
i igação de uma supe ície eduzida de e as, emp egues na cul u a da inha, mandioca, alguma
u icul u a e ag icul u a, além de algodão nas e as mais baixas jun o ao ma . A ilha B a a ambém possuía
alguma pecuá ia ex ensi a, pelo que e a mui o equen ada po es angei os que aí se bas eciam de gado
nos po os da Fu na, Fajã de Água e Fe ei os.
Já nos Ba la en o, a ilha de San o An ão pa ilha a com a B a a, o emp ego da supe ície de egadio no
cul i o da inha. And eis des acou que a má qualidade das e as impedia o cul i o da mandioca, além de e
uma p odução de milho insu icien e pa a as necessidades alimen a es da sua população. Os ecu sos em que
San o An ão se e ela a mais a o á el e am a u zela, cujo olume de ecolecção e a o maio de odas as
ilhas e os d agoei os. Nes a ilha, And eis des acou a di isão do abalho po géne o, obse ando que as
mulhe es se dedica am à pesca e ca egamen o da lenha, enquan o os homens se dedica am à ag icul u a.
O pescado e a u ilizado pa a conse as.
Um das pa icula es que a ilha de San o An ão e es ia no en ende de And eis e am os ele ados iscos de
abalho e os inúme os aciden es mo ais. Na pesca, apanho de u zela e cap u a de cab as b a as, os
homens a en u a am-se po p ecipícios e ochas mui o esca padas, de que esul a am mui as mo es po
queda, pelo que And éis conside a a que os eu opeus se iam inap os pa a ão ipo de a e as.
A supe ície de sequei o e a u ilizada pa a cul i o do milho, eijão e abóbo as.
O mon ado ocupa a g ande pa e da supe ície da ilha, mas a sua qualidade e a ão má que não pe mi ia a
alimen ação de gado acum, mas apenas de gado cap ino b a o.
Tal como em San o An ão, em S. Nicolau, o egadio e a emp egue no cul i o na inha e subsidia iamen e em
algodão. Con udo, dado que a á ea do cul i o de algodão não se encon a a sepa ada das pas agens,
exis iam ele ados iscos de se comido pelo gado. Apenas nos sí ios de Juncalinhos e Figuei inhas, o cul i o
do algodão es a a p o egido da acção p edado a do gado. Possuía boa c iação de gado ca ala , mua , suíno,
galinhas mansas e b a as de que os ingleses e am os p incipais comp ado es a a és dos po os da P eguiça,
Velho, Inglês, Palha do Inglês e Ta a al.
Quan o à ilha da Boa is a, dado que se a a a de um ele o com al i udes mui o baixas quase oda a
supe ície da ilha e a emp egue em mon ado, dominando o gado acum e cab um. O egime de en os
dominan e aço ea a e cob ia de a eia as poucas ibei as exis en es, impedindo qualque ipo de ac i idade
ag ícola, mesmo que de subsis ência.
Na ilha do Maio domina a o mesmo ipo de paisagem ag á ia e à excepção de uma á ea diminu a na Ribei a
de San o An ónio dedica ao cul i o de algodão, mandioca e bananei as, odos os e enos e am emp egues