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Instrumentos, objetos e coleções como fontes para a história do ensino das ciências

Gomes, Inês

Abstract

Um elevado número de escolas secundárias portuguesas possui coleções científicas, elementos centrais para a memória e identidade das instituições que as preservam, concorrendo para a compreensão das características que foram definindo a instrução pública de nível secundário em Portugal ao longo do tempo. Porém, esse património é ainda largamente desconhecido. O artigo chama a atenção para o debate historiográfico que envolve o uso de fontes materiais na história do ensino das ciências, dando a conhecer a relevância das coleções de história natural dos liceus de Portugal, bem como sua vulnerabilidade, dada a ausência de uma política geral ou diretrizes orientando sua conservação.

Full text

.26, n.4, ou .-dez. 2019, p.1211-1222 1211 Ins umen os, obje os e coleções como on es pa a a his ó ia do ensino das ciências Ins umen s, objec s, and collec ions as sou ces o he his o y o science educa ion Inês Gomesi i Pesquisado a, Ins i u o de Ciências Sociais/Uni e sidade de Lisboa/ Cen o In e uni e si á io de His ó ia das Ciências e da Tecnologia. Lisboa – Po ugal o cid.o g/0000-0001-9210-9959 [email protected] Recebido em 27 ma . 2018. Ap o ado em 6 ago. 2018. h p://dx.doi.o g/10.1590/S0104-59702019000400011 GOMES, Inês. Ins umen os, obje os e coleções como on es pa a a his ó ia do ensino das ciências. His ó ia, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janei o, .26, n.4, ou .-dez. 2019, p.1211-1222. Resumo Um ele ado núme o de escolas secundá ias po uguesas possui coleções cien í icas, elemen os cen ais pa a a memó ia e iden idade das ins i uições que as p ese am, conco endo pa a a comp eensão das ca ac e ís icas que o am de inindo a ins ução pública de ní el secundá io em Po ugal ao longo do empo. Po ém, esse pa imónio é ainda la gamen e desconhecido. O a igo chama a a enção pa a o deba e his o iog á ico que en ol e o uso de on es ma e iais na his ó ia do ensino das ciências, dando a conhece a ele ância das coleções de his ó ia na u al dos liceus de Po ugal, bem como sua ulne abilidade, dada a ausência de uma polí ica ge al ou di e izes o ien ando sua conse ação. Pala as-cha e: cul u a ma e ial; his ó ia da ciência; his ó ia da educação; coleções de his ó ia na u al; ensino secundá io. Abs ac A la ge numbe o Po uguese seconda y schools ha e scien i ic collec ions, which a e cen al elemen s o he memo y and iden i y o he ins i u ions ha main ain hem, and con ibu e o unde s anding he cha ac e is ics ha o e ime ha e de ined public seconda y educa ion in Po ugal. Howe e , his he i age is s ill la gely unknown. This a icle d aws a en ion o he his o iog aphic deba e su ounding he use o ma e ial sou ces in he his o y o science educa ion, desc ibing he ele ance o na u al his o y collec ions in Po uguese seconda y schools as well as hei ulne abili y, conside ing he lack o a gene al policy o guidelines ela ed o conse a ion. Keywo ds: ma e ial cul u e; his o y o science; his o y o educa ion; na u al his o y collec ions; seconda y educa ion. FONTES 1212 His ó ia, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janei o Inês Gomes His o iado es e sociólogos da educação en a izam há mui o que a pedagogia é udo exce o uma a i idade passi a ou neu a. O que con a como pedagogia ‘ap op iada’ ou ‘acei á el’ num de e minado con ex o é semp e condicionado po decisões ace ca das compe ências que os alunos de em adqui i (e po quê), e po p eocupações elacionadas com o o necimen o de mão de ob a e luxo de capi al humano pa a e além do con ex o de ensino. As ins i uições educa i as se em de cadinhos pa a a ep odução dos alo es cul u ais, polí icos e mo ais, bem como pa a a eplicação de compe ências en e as no as ge ações. As escolas o ien am os alunos (com di e en es ons de sub ileza e e icácia) pa a se o na em bons cidadãos e o ja em iden idades e papéis ap op iados à sociedade. Cla o, o que con a como ‘boa cidadania’, assim como o que con a como ‘compe ências ap op iadas’, e le e semp e decisões a i as (e mui as ezes ca egadas de con o é sias e ama gas negociações) ei as em con ex os especí icos (Kaise , 2005a, p.251; ên ases no o iginal).1 Nos úl imos anos, á ios au o es êm indo a chama a a enção pa a a necessidade de es udos que c uzem á eas de in es igação como a his ó ia das ciências e a his ó ia da educação. No a igo “T aining he gene alis ’s ision in he his o y o science”, acima ci ado, Da id Kaise (2005a) ouxe, p ecisamen e, à discussão o papel que o es udo da educação cien í ica pode e pa a a his ó ia, no seu sen ido mais la o. Nos anos seguin es, ou os his o iado es ea i ma am a posição de Kaise , chamando a a enção pa a a na u eza agmen ada dos es udos his ó icos sob e educação das ciências (Rudolph, 2008) e de endendo que a “his ó ia da educação cien í ica não é, nem pode mais se , ex e io à his ó ia das ciências” (Belhos e, 2011, p.51). De a o, no campo da his ó ia das ciências, o es udo das p á icas e con ex os de p odução de ciência em sido p i ilegiado em ace ao es udo das p á icas e con ex os da educação e disseminação. Ao mesmo empo, na his ó ia da educação, o es udo das disciplinas da á ea das ciências em sido adicionalmen e p e e ido ao es udo das disciplinas da á ea das humanidades.2 Toda ia, nos úl imos in a anos, a in es igação na á ea da his ó ia da educação das ciências em indo a in ensi ica -se e a di e si ica -se, deixando de se uma me a desc ição c onológica cen ada nos planos de es udo e nas ins i uições.3 Ou os emas são, ago a, alo izados: as elações en e os pode es polí ico e económico e a educação; a o mação das disciplinas; os manuais escola es; os exames; os p o esso es; os alunos; a o mação da pe sona cien í ica e da comunidade cien í ica; a “cul u a escola ” (Mole o Pin ado, 2000); as aulas na sua p á ica quo idiana; en e ou os.4 Em pa icula , a impo ância do es udo dos ins umen os e das coleções de ensino, ou po ou as pala as, o papel das on es ma e iais, como on e pa a o conhecimen o das p á icas ealizadas na sala de aula, bem como ca alisado da ap oximação en e his ó ia das ciências e his ó ia da educação, em sido de e as en a izado.5 Es e a igo em, p ecisamen e, como obje i o chama a a enção pa a a o ma como, an o a his o iog a ia das ciências quan o a his o iog a ia da educação se êm deb uçado sob e a p oblemá ica das on es ma e iais. Não se p e ende se exaus i o – nomeadamen e po limi ações de espaço –, mas an es da con a do deba e his o iog á ico que en ol e o Ins umen os, obje os e coleções como on es pa a a his ó ia do ensino das ciências .26, n.4, ou .-dez. 2019, p.1211-1222 1213 uso de ins umen os, obje os e coleções como on es pa a a his ó ia do ensino das ciências. Po ou o lado, p e ende-se da a conhece , de uma o ma ge al, as coleções de ensino de his ó ia na u al dos an igos liceus po ugueses, en a izando a sua ele ância pa a a pesquisa sob e a his ó ia das ciências, assim como a sua ulne abilidade, dada a ausência de uma polí ica ge al ou di e izes o ien ando a sua conse ação. Cul u a ma e ial: a p oblemá ica das on es ma e iais na his ó ia das ciências As on es ma e iais são, na maio ia das ezes, p e e idas, p i ilegiando os his o iado es o uso de on es documen ais ex uais (Mosley, 2007). Tem-se indo a econhece , no en an o, a impo ância das p imei as, a sabe , a impo ância dos obje os, coleções, gene icamen e designados de “cul u a ma e ial”, pa a a his ó ia e, em pa icula , pa a a his ó ia das ciências: O papel dos ins umen os mudou, é cla o, à medida que a ciência mudou desde o século XVII, an o em mé odos quan o na sua o ganização social. Ao es uda ins umen os, podemos en ende melho como oco e am as mudanças. ... Po que os ins umen os de e minam o que pode se ei o, eles ambém de e minam, a é ce o pon o, o que se pode pensa (Van Helden, Hankins, 1994, p.4). O que nos dizem Albe an Helden e Thomas L. Hankins, po ou as pala as, é que os obje os associados à p odução e disseminação de conhecimen o cien í ico, no seu sen ido mais la o (Wa ne , 1990), são e idências ma e iais de uma de e minada comunidade ou sociedade. Eles co po izam impo an es aspec os das p á icas cien í icas, do conhecimen o áci o, do desen ol imen o do inqui y expe imen al e da sua elação com a especulação eó ica, da ino ação e de múl iplas ading zones (cien is as, écnicos, p epa ado es, p o esso es, es udan es, indús ia, ges o es, en e ou os).6 Ou seja, quando in e p e ados, os obje os pe mi em a comp eensão do passado (P own, 1996, p.25), is o é, p omo em o en iquecimen o da análise his ó ica, possibili ando olha es e pe spec i as que sem a ma e ialidade e iam sido igno ados (Gessne , 2012; Mosley, 2007). É impo an e en a iza que o signi icado de cul u a ma e ial ul apassa ins umen os e coleções, sendo um e mo mais ab angen e. Os p óp ios locais onde a ciência se desen ol e, p oduz e ansmi e são c uciais na de e minação das p á icas.7 Espaços e p á icas es ão indele elmen e ligados (Mo us, 2010), in luenciando o conhecimen o que é p oduzido (Li ings one, 2003). É, po isso, de espe a , como no a Fo gan (1986), que os edi ícios onde se desen ol em a i idades cien í icas nos deem, ambém, in o mações aliosas sob e o desen ol imen o da ciência, bem como sob e a p á ica eal da ciência.8 Cul u a ma e ial: a p oblemá ica das on es ma e iais na his ó ia da educação No con ex o da his ó ia da escola, ou seja, da his ó ia da educação, obje os, coleções e espaços são, ambém, conside ados mani es ações de p á icas e sabe es. Pa a Depaepe e Simon (1995, p.10), as on es ma e iais cons i uem a “caixa neg a” da his ó ia da educação, ep esen ando a “ e dadei a a i idade educa i a” e pe mi indo, assim, acede à “his ó ia da ealidade educa i a quo idiana”.9 A his ó ia da escola já não se esume a es udos c onológicos 1214 His ó ia, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janei o Inês Gomes da e olução do pensamen o pedagógico, ou à análise das p incipais ins i uições dedicadas ao ensino. Uma no a his ó ia es á hoje em ma cha (Escolano Beni o, 2000); uma his ó ia cul u al e social da escola que en a des enda a “cul u a escola ” (Mole o Pin ado, 2000). Po ou as pala as, a his ó ia da escola p ocu a desc e e “um conjun o de “no mas” que de inem conhecimen os a ensina e condu as a inculca , e um conjun o de “p á icas” que pe mi em a ansmissão desses conhecimen os e a inco po ação desses compo amen os” (Juliá, 2001, p.10), podendo, ainda, se desc i a como um conjun o de ês cul u as: a cul u a empí ico-p á ica, elacionada com a ida quo idiana das ins i uições; a cul u a cien í ica da educação, elacionada com as disciplinas académicas e a in es igação educa i a; e a cul u a social e polí ica, elacionada com os discu sos e p á icas de o dem polí ico-ins i ucional e que se exp essa na linguagem no ma i a que se e de supo e à o ganização o mal da educação (Escolano Beni o, 2002, p.31-32). Nesse âmbi o, um as o conjun o de on es de e se le ado em con a: ex os pedagógicos, nomeadamen e, em a igos de e is as especializadas, pa a acede à cul u a cien í ica da educação; legislação, egulamen os e ou os documen os adminis a i os, pa a acede à cul u a polí ica; e cade nos, ca as, biog a ias, o og a ias, exames, ela ó ios de p o esso es, ela ó ios de inspe o es, assim como mobília e ma e iais didá icos, pa a acede à cul u a empí ico-p á ica. A his ó ia da educação passou, nesse con ex o, a es uda as p á icas, com en oques e nog á icos e mic o-his ó icos (Escolano Beni o, 2000, p.315, 317 e 319). Os obje os pedagógicos são sinais ou pegadas (Sacche o, 1986, ci ado em Escolano Beni o, 2007, p.19) que exp essam ca ac e ís icas da escola (Escolano Beni o, 2000, p.319); são ma cas que podem in o ma sob e os “ i uais” quo idianos (He nández Díaz, 2002, p.225-226).10 Em pa icula , no âmbi o do ensino das ciências, e apesa de a impo ância de se es uda em espaços e obje os e sido assinalada há mais de in a anos,11 só na úl ima década o c escimen o oi mais conside á el.12 A ma e ialidade e o pa imónio associados à escola o am obje o de á ios núme os de e is as da especialidade;13 á ias disse ações de mes ado e eses de dou o amen o o am ealizadas (Gue a, 2008; Lopes, 2004; Simón Cas el, 2002; Gomes, 2014; Meloni, 2008); di e sos li os o am publicados (Gaspa da Sil a, Pe y, 2012; López-Ocón, A agón, Ped azuela, 2012; Mo eno Ma ínez, Sebas ián Vicen e, 2012) e á ios cong essos o am e e uados.14 O li o Lea ning by doing: expe imen s and ins umen s in he his o y o science eaching é pa adigmá ico dessa endência, eunindo dois emas, nas pala as dos au o es, nunca an es eunidos num único abalho, (a) a p á ica expe imen al, ins umen os cien í icos e cul u a ma e ial e (b) a his ó ia do ensino das ciências (Hee ing, Wi je, 2011, p.7).15 Começa, assim, a c ia -se um co po concep ual e me odológico conside á el ela i o à u ilização das on es ma e iais na his ó ia do ensino das ciências. As coleções de his ó ia na u al dos an igos liceus po ugueses O in e esse em in eg a a educação cien í ica na na a i a da his ó ia das ciências, embo a c escen e, não em incluído de igual o ma os di e en es g aus de ensino, cen ando-se, a maio ia dos es udos, no ensino supe io . Se é e dade que é a esse ní el que exis e maio sob eposição en e os con eúdos e p á icas de o mação e de in es igação (Kaise , 2005b; Ins umen os, obje os e coleções como on es pa a a his ó ia do ensino das ciências .26, n.4, ou .-dez. 2019, p.1211-1222 1215 Wa wick, 2003; Kohle , 2008; Geison, 1981; Geison, Holmes, 1993), ambém é e dade que é o ensino das ciências no ensino secundá io que pe mi e que se desen ol am ocações cien í icas. Nesse con ex o, os séculos XIX e XX i am a p omoção de um g ande co po de p o esso es de ciências, sob e o qual epousa oda a es u u a ins i ucional das comunidades cien í icas (Belhos e, jan. 1989, p.4).16 Po ou o lado, o ensino das ciências ao ní el do ensino médio e le e o papel social a ibuído à ciência, uma ez que o seu obje i o anscende a p epa ação dos indi íduos pa a o ensino supe io : 17 se p ocu a mos conside a ques ões sob e a o ma de como o conhecimen o cien í ico é ap op iado e de como ci cula en e os cidadãos comuns, e emos di iculdade em encon a um luga mais adequado do que a sala de aula de ciências. A sala de aula é, a inal, um dos poucos luga es onde a ciência oi delibe adamen e moldada pa a consumo público. Todo o cená io ins i ucional da escola idade o mal – com suas leis de escola idade ob iga ó ia, ins ução sis emá ica e expec a i as de esponsabilidade na ap endizagem dos alunos – dá à ciência escola uma legi imidade que in luencia pode osamen e a o ma como o público en ende os con eúdos e os p ocessos da ciência (Rudolph, 2005, p.357). No que oca à cul u a ma e ial do ensino secundá io os abalhos não êm sido de g ande mon a. No en an o, um olha sob e, po exemplo, as coleções de his ó ia na u al dos an igos liceus po ugueses deno a um pa imónio com um eno me po encial como on e pa a o es udo da his ó ia do ensino das ciências. Em Po ugal, uma ede de escolas secundá ia su ge a pa i de 1836, num con ex o em que a ideia de que e am necessá ias ins i uições públicas e secula es pa a p epa a os cidadãos pa a o ensino supe io p oli e a a po oda a Eu opa, seguindo os exemplos anceses e alemães (G een, 2004; Ande son, 2004). No que diz espei o ao ensino das ciências, o p imei o dec e o publicado e le e, cla amen e, o c escen e in e esse pela educação cien í ica (Po ugal, 17 no . 1836). A ciência e a undamen al pa a mode niza o país e desen ol e a nação. Consequen emen e, o es o ço pa a ins i ui disciplinas cien í icas no cu ículo da escola secundá ia oi simul âneo ao es abelecimen o de uma ede escola nacional de ensino médio. Ao mesmo empo, as a i idades p á icas in eg a am, semp e, os cu ículos de ciências. Quando, em 1836, Passos Manuel de e minou a c iação da já mencionada ede de escolas secundá ias, onde se leciona ia a cadei a de p incípios de his ó ia na u al dos ês einos da na u eza aplicados às a es e o ícios, o denou, ambém, a cons ução em cada um dos liceus de “um Ja dim expe imen al des inado às aplicações de Bo ânica, e um gabine e que e [ia] … di isões co esponden es às aplicações … da Zoologia e da Mine alogia” (Po ugal, 17 no . 1836, a . 68). Esses espaços c ia iam as necessá ias condições pa a que o mé odo indu i o pudesse se de idamen e aplicado. O ensino de e ia e po base a obse ação e pa i do simples pa a o complexo e do conc e o pa a o abs a o, sendo, dessa o ma, p á ico e in ui i o. O gabine e ou museu cons i uía-se, en ão, como pa e in eg an e e c ucial pa a o ensino das ciências, e assim se man e e du an e odo o século XIX e g ande pa e do século XX. O ca á e desc i i o dos p og amas e dos manuais omen a a, concomi an emen e, a necessidade de se obse a em os espécimes al o de desc ição. Ap ende a classi ica e a um dos p incipais obje i os da aula.18 O ensino dependia, assim, da ealidade ma e ial do liceu. 1216 His ó ia, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janei o Inês Gomes Gabine es ou museus e am e amen as indispensá eis e, nesse con ex o, desde 1854 – quando as cadei as de ciências o am e e i amen e incluídas nos cu ículos dos liceus – chega am às escolas de odo o país milha es de obje os. Ao longo dos anos, o go e no assumiu p o agonismo na es u u ação da sala de aula, de e minando os p og amas a leciona e os mé odos a u iliza . Toda ia, a cons i uição de coleções de ensino en ol eu um as o conjun o de a o es. O p ocesso de cons ução da “sala de aula de ciências” eque eu um es o ço o ganiza i o po pa e do co po docen e. Os p o esso es, nas elações que es abelece am com ou as ins i uições, com a sociedade ci il e com o p óp io Es ado, i e am um papel c ucial como mo o que desencadeou e pe mi iu a o ganização de coleções. Pa a aumen a as coleções das escolas de aco do com a polí ica educa i a, os p o esso es encon a am al e na i as ao Es ado pa a o ape echamen o dos liceus. A Escola Poli écnica, a Uni e sidade de Coimb a, os Se iços Geológicos, alunos, ex-alunos, pais e “ilus es cidadãos” das comunidades onde os liceus se encon a am o am on es undamen ais pa a a cons i uição, desen ol imen o e manu enção das coleções dos liceus. De um abalho conjun o de depu ados, minis os, go e nado es coloniais, p o esso es uni e si á ios e p o esso es de liceus, mili a es, pais de alunos e sociedade ci il, o ganiza am-se os museus escola es, o denados de aco do com os p ecei os cien í icos que o ien a am o ensino das ciências (Gomes, 2014, p.121-186). Não se conhece, ao ce o, o núme o de coleções de ensino de his ó ia na u al – associadas aos an igos liceus – que exis em, a ualmen e, em Po ugal. Em 1978, quando os liceus o am ex in os, passando a designa -se escolas secundá ias, a sua maio ia possuía coleções pa a o ensino p á ico das ciências na u ais. Tendo em con a que a passagem de liceu pa a escola secundá ia oi apenas nominal, não endo aca e ado mudanças de ins alações, as escolas secundá ias do pós-25 de ab il ecebe am das suas p edecesso as um conjun o de ma e iais, nomeadamen e as coleções de his ó ia na u al, sendo de espe a que mui as dessas coleções ainda exis am, podendo cons i ui -se como elemen os cen ais pa a a memó ia e iden idade das ins i uições que as possuem. No en an o, ninguém sabe com igo o que exis e, dado que es e pa imónio em pe manecido desconhecido e inacessí el. Apesa do as o pa imónio das escolas secundá ias po uguesas no que conce ne ao ensino das ciências na u ais – animais na u alizados e conse ados em líquido; coleções os eológicas, he bá ios; ochas, mine ais e ósseis; modelos ana ómicos de animais e plan as; modelos c is alog á icos; mic oscópios e lupas e quad os pa ie ais –, pa e do qual ab icado no século XIX e início do século XX, podendo se , po ezes, de épocas an e io es, e sendo alguns p o enien es de impo an es ab ican es eu opeus, como as casas Émile Dey olle, Robe B endel ou Louis Auzoux, o abalho de base – a sua in en a iação, p ese ação e acessibilidade, bem como da documen ação e a qui os a ele associados – encon a-se, ainda, po aze . Na e dade, as coleções de his ó ia na u al das escolas secundá ias po uguesas encon am-se numa si uação de semiabandono, como consequência do declínio do seu uso nas aulas, da al a de pessoal, da al a de empo e da al a de conhecimen o dos esponsá eis. As condições de acondicionamen o dessas coleções não são as melho es: os exempla es são, mui as ezes, gua dados em caixo es de ca ão em só ãos e a mazéns, e elando sinais de de e io ação e con aminação po mic o-o ganismos. Ao mesmo empo, na maio ia das Ins umen os, obje os e coleções como on es pa a a his ó ia do ensino das ciências .26, n.4, ou .-dez. 2019, p.1211-1222 1217 escolas não exis em in en á ios comple os ou ca álogos do ma e ial, bem como es udos sob e as suas coleções. Po um lado, os exempla es não se encon am iden i icados quan o à axonomia, o igem geog á ica ou da a de colhei a, o que ob iga ao c uzamen o com ou os documen os his ó icos pa a a ecupe ação da his ó ia da coleção e dos dados associados. Po ou o, o seu es udo en ol e ainda um as o leque de in o mação eunida em li os de ex o, in en á ios, legislação escola , apon amen os de p o esso es, cade nos de alunos, ca álogos de ab ican es, egis o de comp as, li os de con abilidade, co espondência, anuá ios, exames e c. (Simón Cas el, 2008; Simon, 2006; Moga o, 2006; Simon, Be omeu Sánchez, Ga cía Belma , 2009). Po ém, na maio ia das escolas isi adas, as coleções de his ó ia na u al não êm a qui os ou documen ação associada. Em suma, há nas escolas secundá ias po uguesas, de uma o ma ge al, um desconhecimen o p o undo da impo ância desse pa imónio e, sob e udo, das p á icas adequadas à p ese ação desses ma e iais. Toda ia, e apesa desse cená io, alguns es udos ecen es apon am pa a o a o de essas coleções conco e em pa a a comp eensão das ca ac e ís icas que de inem a ins ução pública de ní el secundá io em Po ugal, du an e o século XIX e g ande pa e do século XX (Lopes, 2004; Gue a, 2008; Leal, 2007; Gomes, 2014, 2017, 2018). Essas coleções são e idência da o ma como a ciência oi minis ada, assim como do seu es a u o no seio do ensino, ma e ializando de o ma sis emá ica e coe en e a e olução do ensino cien í ico em Po ugal. As coleções dos an igos liceus não são, apenas, “obje os empoei ados”, cons i uindo, an es, um pa imónio cien í ico ico, nacionalmen e dis ibuído e com signi icado con empo âneo (Gomes, 2014, p.67). Mesmo econhecendo a ele ância desse pa imónio, colocam-se ainda múl iplos desa ios no que diz espei o à sua p ese ação e acessibilidade. Desde logo desa ios ins i ucionais, nomeadamen e p oblemas inancei os, de pessoal quali icado e de espaço. É p eciso, u gen emen e, conhece e es uda o que exis e (Gomes, 2014, p.68). Conside ações inais No âmbi o da eno ação dos es udos sob e his ó ia da educação das ciências a que a ualmen e se assis e, a his ó ia das ciências e a his ó ia da educação c uzam-se ine i a elmen e. Segundo as no as pe spec i as, a di e ença en e o discu so no ma i o e a ealidade é g ande, sendo necessá io olha pa a no os elemen os que e li am o quo idiano, em que os obje os, as coleções e os espaços assumem um papel de g ande ele ância. Es udos que conside em as coleções de ensino de ciências – na sua cons i uição, desen ol imen o, uso e a é desman elamen o e dispe são – como elemen os de análise cen ais pa a uma comp eensão mais ica das p á icas e con ex os locais e globais de p odução e disseminação da ciência são u gen es. Essas abo dagens, ainda pouco equen es nos es udos his ó icos, que em Po ugal que no ní el in e nacional, o nam-se ainda mais pe inen es quando in es igações ecen es apon am pa a o a o de, ao conhece a his ó ia desse pa imónio, se em e elados no os aspec os ela i os ao ensino das ciências e ao uso de ins umen os e coleções nas salas de aula (Gomes, 2018). Finalmen e, é impo an e no a a ele ância capi al da ca alogação de coleções. É u gen e e uma ideia mais cla a de como é cons i uído, exa amen e, o pa imónio cien í ico 1218 His ó ia, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janei o Inês Gomes po uguês das escolas de ensino médio. Pa a além do mais, é impe a i o que se de inam polí icas e di e izes pa a a ca alogação, conse ação, es au ação, a mazenamen o, p omoção, es udo e econhecimen o desse ão ico pa imónio cien í ico. AGRADECIMENTOS Es e abalho oi desen ol ido no Cen o In e uni e si á io de His ó ia das Ciências e da Tecnologia e inanciado po Fundos Nacionais po meio da Fundação pa a a Ciência e a Tecnologia (FCT) no âmbi o dos p ojec os SFRH/BD/47653/2008 e UID/HIS/00286/2013. Gos a ia, ambém, de ag adece ao Luís Vicen e, que me “ap esen ou” os museus escola es de his ó ia na u al, e à Ma a Lou enço, que acolheu desde o p imei o momen o o meu p oje o de in es igação sob e eles, e cujas con ibuições pa a a sua génese e desen ol imen o o am essenciais. Gos a ia, ainda, de ag adece à Ana Nunes pelo apoio na elabo ação des e a igo. NOTAS 1 Nes a e nas demais ci ações de ex os publicados em ou os idiomas, a adução é li e. 2 Algumas exceções são, po exemplo, Rudolph (2002, 2005) e Belhos e (jan. 1989). 3 B ock (1975) e Rudolph (2008) ize am uma e isão bibliog á ica da in es igação desen ol ida na á ea da his ó ia da educação das ciências. 4 En e ou os, e : Rudolph (2002, 2005); Kohls ed (1988, 1990, 2005); Kaise (2005b); Simon (2008); Wa wick (2003); Kohle (2011); Simon, He an (2008); Simon, Be omeu Sánchez, Ga cía Belma (2009). 5 Recen emen e, Be omeu Sánchez e Simón Cas el (2012) ie am sis ema iza , de o ma cla a, a impo ância da g adual ap oximação en e his ó ia das ciências e his ó ia da educação, alo izando, de es o, o papel das on es ma e iais como ca alisado dessa déma che. 6 Mosley (2007) ai mesmo mais longe, a i mando que o p óp io desenho, cons ução e p odução de ins umen os cien í icos az, ambém, pa e do “p ocesso de conhecimen o cien í ico”. 7 Os es udos de Hannaway (1986) ou Shapin (1988) são alguns exemplos que deixam cla o o pode iden i á io dos espaços cien í icos. O núme o da e is a Isis onde oi publicado o a igo ci ado de Shapin oi in ei amen e dedicado à “p á ica cien í ica in si u”. Ve ambém, po exemplo, Ga cía Belma e Be omeu Sánchez (2009). 8 Ve ambém Kohle (2008). 9 Be omeu Sánchez e Ga cía Belma (2002, p.11) designam p ecisamen e de “caixas neg as” a coleção de ins umen os cien í icos da Uni e sidade de Valência, explicando: “Ab i las cajas neg as implica una e lexión sob e los usos de los ins umen os cien í icos an iguos como uen es pa a la his o ia de la ciencia como ins umen os didác icos al se icio de la enseñanza de las ciencias y como obje os museog á icos con una eno me po encialidad en la di ulgación cien í ica”. 10 Ve ambém G os eno , Lawn, Rousmanie e (1999). 11 B ock (1975, p.73-74) chama a a a enção de que o ensino p á ico das ciências implica a o uso de apa elhos e ins umen os e que a sua u ilização en ol ia a adap ação de salas e a cons ução de labo a ó ios. Es e e a, pa a B ock, um assun o que “me ecia in es igação” e que, a é a da a, inha sido um “ ópico negligenciado”. O au o e e iu-se, mesmo, aos “apa elhos ‘his ó icos’ sob e i en es” das escolas de Yo kshi e, conside ando imp escindí el que se isi assem as escolas an igas e se ca alogassem os seus ins umen os. 12 Em 2008, Rudolph no a a que es udos ecen es com ecu so a on es ma e iais começa am, en ão, a ajuda a pe cebe o papel dos obje os, ins umen os e coleções no ensino das ciências, ci ando apenas in es igações ealizadas a pa i dos inais da década de 1990: Bucchi (1998), Mo us (2006). 13 P o-Posições (Cul u a escola ..., 2005); Re is a B asilei a de His ó ia da Educação (A qui os, 2011; A cul u a..., 2007); Pa icipación Educa i a (His ó ia..., ma . 2008). 14 O nono Cong esso Luso-b asilei o de His ó ia da Educação oi subo dinado ao ema “Ri uais, espaços e pa imónios escola es”, e o e cei o Fo o Ibé ico de Museísmo Pedagógico – quin as Jo nadas Cien í icas de la Sociedad Española pa a el Es udio del Pa imonio His ó ico Educa i o –, dedicado ao “Pa imonio y e nog a ía de la escuela en España y Po ugal du an e el siglo XX”. 15 Sob e a mesma emá ica, e o núme o especial da e is a Science and Educa ion (The his o y..., 2012), cujo ema é “The his o y o expe imen al science eaching”. Ins umen os, obje os e coleções como on es pa a a his ó ia do ensino das ciências .26, n.4, ou .-dez. 2019, p.1211-1222 1219 A CULTURA... A cul u a ma e ial na his ó ia da educação: possibilidades de pesquisa. Re is a B asilei a de His ó ia da Educação, .7, n.2 [14]. [Dossiê]. Disponí el em: <h p://pe iodicos.uem.b /ojs/ index.php/ bhe/issue/ iew/1378/showToc>. Acesso em: 19 jul. 2019. 2007. ANDERSON, Robe . The idea o he seconda y school in nine een h- cen u y Eu ope. Paedagogica His o ica, .40, n.1- 2, p.93-106. 2004. ARQUIVOS... A qui os, obje os e memó ias educa i as: p á icas de in en á io. Re is a B asilei a de His ó ia da Educação, .11, n.1 [25]. [Dossiê]. Disponí el em: <h p://pe iodicos.uem.b /ojs/ index.php/ bhe/issue/ iew/1369/showToc>. Acesso em: 19 jul. 2019. 2011. BELHOSTE, B uno. Das ciências ins i uídas às ciências ensinadas, ou como le a em con a a a i idade didá ica na his ó ia das ciências. Re is a B asilei a de His ó ia da Educação, .11, n.3, p.47-61. 2011. 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