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Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia

Jessica Iracema Meireles Valadas de Castro

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Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia Jessica Castro Ciências e Tecnologia do Ambiente, Departamento de Geociências, Ambiente e Ordenamento do Território 2015 Orientador Nuno Eduardo Malheiro Magalhães Esteves Formigo Professor Auxiliar, Faculdade de Ciências da Universidade do Porto Coorientador Pedro Miguel Teiga Doutor em Engenharia do Ambiente, Engenho e Rio ii Agradecimentos Antes de mais queria agradecer ao Professor Guerner, o responsável por me ter lançado nesta aventura. Obrigada pelo incentivo, apoio, compreensão e ajuda, sem a qual nunca teria iniciado este Mestrado. De seguida queria agradecer ao Professor Nuno Formigo, que me acompanhou desde o início deste Mestrado. Todo o apoio, conselhos e acompanhamento são impagáveis. Ao Pedro Teiga, por ter recebido a minha proposta de Dissertação de braços abertos, como recebe tudo o que vem por bem. Um constante acompanhamento e disponibilidade sempre presentes. Obrigada à Paula Casal e ao Professor Espinha, pelo empurrão que precisava. Aos meus colegas de trabalho, por me ouvirem, aturarem e ajudarem neste trabalho. Obrigada pela paciência, constantes saídas de campo e sugestões para este trabalho. Muito Obrigada Ana Alves, Henrique Alves, Alexandra Cruz, Paulo Faria e Francisco Saraiva. Obrigada às minhas colegas de curso, Sofia Tártaro e Diana Pinheiro, por todo o acompanhamento e pelo material de trabalho cedido e ajuda com a Universidade Júnior. Sem vocês muito material e trabalho se perderia. Ao meu grupo de trabalho de Recuperação de Ecossistemas que me ajudou no início das saídas de campo. Obrigada Rui Francisco, Luís Santos, Helder Nunes e Bruna Oliveira. Os meus sinceros agradecimentos à Professora Helena Sant´Ovaia e Professor José Alberto pela disponibilidade em ajudar e dados cedidos. Obrigada à Sofia Tavares pela saída de campo ao Rio Uima e toda a informação partilhada. Obrigada à Engenheira Manuela Oliveira do Projecto Rios pelo material cedido. Muito Obrigada à Professora Natividade e ao Professor Honrado pelos comentários finais e sugestões de correções. E por fim, e como não poderia deixar de ser, “Last but definitely Not least” agradeço à minha Família e a todos os meus Amigos. Muito Obrigada por estarem SEMPRE lá, nos bons e maus momentos. Eu sei que é difícil (por vezes) aturar-me, mas se fosse fácil também não tinha piada! iii Resumo Considerado um dos recursos mais valiosos do nosso planeta, a água doce é também, e cada vez mais, um bem escasso. Dada a sua variada utilização pelo homem, para consumo, agricultura, indústria e rega, tem sido um bem sobre explorado mas também subvalorizado. Apesar de ser um bem essencial encontra-se, cada vez mais, num estado de degradação avançado e sujeito a inúmeras pressões, essencialmente antropogénicas. É urgente compreender que apenas ecossistemas ribeirinhos bem conservados permitem a disponibilização, de água doce em quantidades e qualidades suficientes para preencher todas as nossas necessidades. Apesar de todas razões existentes para conservação dos rios, estes ecossistemas estão, hoje em dia, em declínio, de forma bastante acentuada. A degradação dos habitats, alterações físicas a que estão sujeitos, a sua sobreexploração, poluição e introdução de espécies exóticas são apenas alguns dos exemplos e razões para a sua degradação, para a perda de biodiversidade e para a constante diminuição da qualidade da água. No entanto, e felizmente, cada vez mais, têm-se vindo a desenvolver trabalhos com aplicação de diferentes técnicas para recuperação, reabilitação e remediação destes ecossistemas tão ricos a nível de diversidade biológica, paisagem e prestação de serviços. Com este trabalho pretende-se, para além de dar a conhecer um pouco melhor o Rio Febros, demonstrar a sua importância como parte integrante da paisagem do Parque Biológico de Gaia e o seu uso como ferramenta de Educação Ambiental para sensibilização da população em geral e jovens em especial. Alertar para a necessidade de conservação, preservação, proteção e valorização destes espaços tão únicos e tão frágeis é o principal objetivo deste trabalho. Com a metodologia adotada neste trabalho foi possível caracterizar e monitorizar o troço do rio no Parque Biológico de Gaia, identificar alguns problemas e até apresentar algumas soluções para a reabilitação do mesmo. Avaliando pelas respostas aos inquéritos e pelo envolvimento dos participantes, podemos considerar que a actividade foi muito bem recebida e causou o impacto pretendido. O balanço torna-se ainda mais positivo pelo facto de esta ação ter sido integrada no Plano de Atividades do Parque Biológico de Gaia e agora ser possível dar a conhecer a outros grupos, a vida no Rio Febros e a importância da sua preservação. iv Abstract Considered one of the most valuable resources in our planet, fresh water is also, becoming a rare commodity. Due to its varied uses by man, for consumption, agriculture, industry and irrigation, it has been a greatly exploited and underrated commodity Although it is an essential good, it is found to be at a very high level of degradation and is under several pressures, mainly anthropogenic. It is vital and urgent to understand that only well conserved riparian ecosystems allow us to obtain fresh water in sufficient quality and quantity to fulfill all our needs. Despite all the reasons to preserve rivers, these ecosystems are nowadays in a high and very strong decline. Habitats lost, physical alterations, over exploitation, pollution and the introduction of exotic species are only some of the examples and reasons for its degraded state, loss of biodiversity and constant low level quality water. Fortunately, more and more, different techniques and efforts have been developed in order to rehab, recover and remediate these ecosystems so rich in life, landscape and services With this Thesis we intend to get to know better the Febros River, to show its importance as an integrated part of the Biological Park’s landscape and to use it as an Environmental Educational tool for the general population and young people in particular. The main goal of this paper is to create an awareness for the need to preserve, conserve, protect and value these unique and fragile places. With the methodology adopted in this study was possible to characterize and monitor the stretch of the river on the Gaia Biological Park, to identify some problems and to present some solutions for its rehabilitation. Considering the surveys responses and the involvement of participants, we can consider that the activity was very well received and caused the desired impact. The balance is even more positive because this action has been incorporated in the Gaia Biological Park Environmental Activities Plan and now it is possible to show to other groups the life in the Febros River and the importance of its preservation Índice AGRADECIMENTOS .......................................................................................................... II RESUMO ........................................................................................................................... III ABSTRACT ........................................................................................................................ IV ÍNDICE ................................................................................................................................ V ÍNDICE DE FIGURAS ....................................................................................................... VII ÍNDICE DE TABELAS ......................................................................................................... X 1. INTRODUÇÃO ................................................................................................................ 1 1.1. Sistema Ribeirinho ................................................................................................................... 1 1.2. Recuperação de Ecossistemas Ribeirinhos ......................................................................... 6 1.2.1 Educação Ambiental ........................................................................................................... 15 1.2.2 Recuperação de Habitat .................................................................................................... 17 1.2.3 Técnicas de Reabilitação .................................................................................................. 18 1.2.4 Legislação ............................................................................................................................... 27 2. METODOLOGIA ........................................................................................................... 31 3. CASO DE ESTUDO ...................................................................................................... 33 3.1 Caracterização do Rio Febros ............................................................................................... 34 3.1.1 Bacia Hidrográfica............................................................................................................... 34 3.1.2. Ocupação do solo .............................................................................................................. 39 3.1.2 Geologia .................................................................................................................................. 40 3.1.3 Clima ....................................................................................................................................... 42 3.1.4 Flora ......................................................................................................................................... 44 3.1.5 Fauna ...................................................................................................................................... 46 3.2. Caso de Estudo - Unidade de Paisagem ............................................................................. 49 3.3. Caso de Estudo – Troço ........................................................................................................ 51 3.3.1 Análise SWOT ........................................................................................................................ 52 3.3.2 Levantamento de possíveis focos de poluição ................................................................. 55 3.3.3. “Pelos Caminhos do Rio Febros” ....................................................................................... 56 3.4. Caso de estudo – Caracterização de Pontos ..................................................................... 63 3.4.1 Índice de Qualidade do Bosque Ribeirinho (QBR) ........................................................... 67 3.4.2 Índice do Grau de Qualidade do Canal (GQC) ................................................................. 68 3.4.3 Parâmetros Físico-Químicas ............................................................................................... 68 vi 4. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DE RESULTADOS ................................................ 73 4.1 Índices de Qualidade .............................................................................................................. 73 4.2 Análises Físico-Químicas....................................................................................................... 73 4.3. Respostas aos Inquéritos ..................................................................................................... 80 5.CONCLUSÕES .............................................................................................................. 86 BIBLIOGRAFIA ................................................................................................................. 89 ANEXOS ........................................................................................................................... 92 Anexo ALista de espécies .......................................................................................................... 92 Anexo BFichas das espécies-alvo seleccionadas ................................................................. 97 Anexo CFicha Projecto Rios .................................................................................................... 110 Anexo D - QBR ............................................................................................................................. 112 Anexo E - GCQ ............................................................................................................................. 115 Anexo FTabela adoptada com valores limite para os diferentes parâmetros físicoquímicos ....................................................................................................................................... 118 Anexo GInquéritos ................................................................................................................... 119 vii Índice de Figuras Figura 1Zonamento transversal do vale fluvial de uma bacia hidrográfica (Saraiva, 1999). .......... 1 Figura 2Funções dos corredores ribeirinhos in (Saraiva, 1999). ..................................................... 3 Figura 3Vista tridimensional dum ecossistema ripícola in (Mendes et al., 2009). ........................... 4 Figura 4Esquematização das funções desempenhadas pela vegetação ripícola (Saraiva, 1999) . 5 Figura 5Os cinco elementos chave da saúde de um sistema ribeirinho (Rutherfurd et al., 2000). . 7 Figura 6Os 12 passos de um plano de reabilitação (Rutherfurd et al., 2000). .............................. 10 Figura 7Representação esquemática dos conceitos de reabilitação, restauração e requalificação, adaptado de (Lovett & Edgar, 2002 in (Lemos, 2010). ..................................................................... 11 Figura 8Medidas de atuação ou de prevenção em planos de restauração. ................................. 14 Figura 9Quatro vertentes básicas de atuação num plano de reabilitação (Rutherfurd et al., 2000). .......................................................................................................................................................... 15 Figura 10Declive das margens como fator essencial na seleção do tipo de intervenção adaptado de Cortes, 2007. ............................................................................................................................... 26 Figura 11Esquema geral das etapas básicas da reabilitação de sistemas ribeirinhos (Teiga et al., 2006). ................................................................................................................................................ 31 Figura 12Esquema geral de metodologia de seleção de espécies-alvo em projetos de reabilitação ribeirinha (Teiga,2011). ................................................................................................. 33 Figura 13Escala de abordagem para a avaliação da paisagem ribeirinha – desde a bacia hidrográfica até à perspectiva local (adaptado de Moreira et al., 2004 in Mendes et al., 2009). ..... 34 Figura 14Redes hidrográficas adaptado de IgeoE, 1997 in (Silva & Graça, 2006). ...................... 34 Figura 15 - Rio Febros em Vila Nova de Gaia (Silva & Graça, 2006). ............................................ 35 Figura 16Bacias hidrográficas nas Freguesias de Vila Nova de Gaia (Silva & Graça, 2006). ...... 36 Figura 17Bacia hidrográfica do rio Febros sob a carta militar de 1997 adaptado de (Silva & Graça, 2006). .................................................................................................................................... 37 Figura 18Perfil longitudinal do Rio Febros in Gaia, 2015. ............................................................. 37 Figura 19Delimitação Bacia Hidrográfica a ponteado in Gaia, 201 ............................................... 38 Figura 20Carta de ocupação do solo em 2000, para a Bacia do rio Febros in Carvalho, 2008 (Fonte: Corine Land Cover) .............................................................................................................. 39 Figura 21Enquadramento geológico in Cartas Geológicas - Serviços Geológicos de Portugal .... 42 viii Figura 22Escala de abordagem para a avaliação da paisagem ribeirinha – desde a bacia hidrográfica até à perspetiva local (adaptado de Moreira et al., 2004 in (Mendes, Rabaça, & Azirpe, 2009)). ............................................................................................................................................... 49 Figura 23Integração da Paisagem Protegida Local do Vale do Febros na REN e na Estrutura Ecológica Municipal in Gaia, 2015. ................................................................................................... 50 Figura 24Escala de abordagem para a avaliação da paisagem ribeirinha – desde a bacia hidrográfica até à perspetiva local (adaptado de Moreira et al., 2004 in (Mendes et al., 2009). ..... 51 Figura 25Planta humanizada do Parque Biológico de Gaia com destaque para a linha de água do rio Febros. .................................................................................................................................... 51 Figura 26Objetivos e metas a cumprir ........................................................................................... 53 Figura 27-Planta do Parque Biológico de Gaia com possíveis focos poluição marcados............... 55 Figura 28Escala de abordagem para a avaliação da paisagem ribeirinha – desde a bacia hidrográfica até à perspetiva local (adaptado de Moreira et al., 2004 in (Mendes, Rabaça, & Azirpe, 2009)). ............................................................................................................................................... 63 Figura 29Mapa representativo do Parque Biológico de Gaia com troço do rio Febros e respetivos pontos de amostragem ..................................................................................................................... 63 Figura 30Ponto de Estação de amostragem na Foz do Febros. ................................................... 74 Figura 31Determinação, in situ, de parâmetros físico-químicos da água. .................................... 74 Figura 32Leituras de Temperatura para Foz do Febros e 3 pontos de amostragem .................... 75 Figura 33Leituras de Concentração de oxigénio dissolvido em mg/L para Foz do Febros e 3 pontos de amostragem ..................................................................................................................... 75 Figura 34Leituras de pH para Foz do Febros e 3 pontos de amostragem. ................................... 75 Figura 35Leituras de Condutividade em uS/cm para Foz do Febros e 3 pontos de amostragem. .......................................................................................................................................................... 76 Figura 36Leituras de Sólidos Suspensos totais em mg/L para Foz do Febros . ........................... 76 Figura 37Leituras de Carência Bioquímica de oxigénio em mg/L para Foz do Febros ................ 77 Figura 38Leituras de Carência química de oxigénio em mg/L para Foz do Febros. ..................... 77 Figura 39Leituras de Concentração total de nitratos em mg/L NO3 para Foz do Febros. ............ 78 Figura 40Leituras de Concentração de Ortofosfatos em P2O5/L para Foz do Febros. ................. 78 Figura 41Respostas às perguntas gerais dos inquéritos antes e depois das actividades. ........... 81 Figura 42Respostas sobre problemáticas dos riosinquéritos antes e depois das actividades. .. 82 FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 5 relevantes do papel dos corredores ripários deve-se à taxa de desnitrificação dos solos aluviais, promovida pela vegetação através da capacidade de filtragem, remoção e absorção de nutrientes (Saraiva, 1999). Estudos referem que através da metabolização das plantas e da atividade dos microrganismos do solo, é possível remover das águas superficiais, até 99% de fósforo e entre 10 a 60% de azoto total (Saraiva, 1999), daí a importância do estabelecimento de bandas ou faixas de proteção de vegetação ripícola nas margens dos cursos de água. Figura 4Esquematização das funções desempenhadas pela vegetação ripícola (Saraiva, 1999) Variáveis de Controlo Água Clima Geomorfologia Uso do solo Vegetação Ripícola Habitats aquáticos Vida selvagem terrestre Benefícios sócioeconomicos Regulação dos ecossistemas - Influências de montante - Variação natural - Influências antropogénicas - Microclima - Macroclima - Natureza e textura do substrato - N.º ordem do curso de água - Largura do leito de cheia - Agricultura - Floresta - Recreio - Outros - Controlo de temperatura - Provisão de alimento - Provisão de substrato - Recursos de alimentação - Microclima - Coberto vegetal - Recursos de alimentação - Território/Locais de nidificação - Conectividade dos corredores - Defesa contra cheias - Qualidade cénica e estética - Recreio - Estabilidade do leito - Controle da erosão - Filtragem/Retenção de sedimentos - Defesa contra cheias - Tratamento de águas residuais - Controlo de pesticidas FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 6 1.2. Recuperação de Ecossistemas Ribeirinhos A situação de elevado grau de degradação encontrada em diversos ecossistemas ribeirinhos, provocada por intensas ações de regularização, poluição e artificialização, deu origem a atuações no sentido da recuperação e restauro desses sistemas, baseadas fundamentalmente no conhecimento do funcionamento e estrutura dos ecossistemas aquáticos e ripícolas (Saraiva, 1999). Para Rutherfurd et al., 2000 existem seis princípios para Reabilitação de Sistemas Ribeirinhos que são enumerados de seguida: Para melhor compreensão de cada um destes princípios, segue-se uma sucinta explicação e pequena abordagem de cada um dos pontos. Para poder avaliar a condição de um sistema ribeirinho, existem cinco parâmetros importantes a estudar, estando todos eles interligados entre si, como se verifica no esquema da figura 5. 1. Avaliar as condições 2. Avaliar os estragos 3. Perceber o tipo de reabilitação possível 4. A reabilitação em si 5. Copiar em caso de dúvida 6. Prevenir, de forma a evitar o estrago FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 7 Figura 5Os cinco elementos chave da saúde de um sistema ribeirinho (Rutherfurd et al., 2000). Para poder caracterizar um sistema ribeirinho é necessário descrever estes cinco parâmetros o mais pormenorizadamente possível:  A estrutura física do sistema (forma, dimensões do canal e sedimentos)  A qualidade da água (parâmetros físicos, químicos e biológicos)  A quantidade da água (caudal de estiagem e caudal de cheia)  As margens do rio (corredor ripário)  A diversidade e composição dos organismos presentes no sistema Muitas vezes só através da presença de bioindicadores ou sabendo quais os organismos que vivem no sistema ribeirinho é possível saber o estado de saúde do mesmo, dado serem estes os responsáveis A análise de fatores como a alteração da biodiversidade e da integridade biótica dos ecossistemas aquáticos, para além da qualidade físico-química das águas, permite detetar os impactes de ações antrópicas, como a regularização dos rios, a redução das planícies inundáveis e a drenagem das zonas húmidas. Estas ações provocam, entre outros efeitos, modificações no regime de caudais, na concentração de nutrientes e poluentes e no transporte de sedimentos (Pio & Henriques, 2000). De seguida enumeramos as principais atividades antrópicas que afetam os sistemas ribeirinhos a quatro diferentes níveis: FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 8 Global • Mudanças Climáticas • Chuvas ácidas • Transferência entre bacias Bacia Hidrográfica • (Des)florestação • Urbanização • Adaptação ao regadio • Drenagem de solos • Defesa contra cheias Corredores Ribeirinhos • Regularização fluvial • Barragens e albufeiras • Extracção de inertes • Limpezas e desobstruções de cursos de água • Remoção de vegetação ripícola Intra-leito • Poluição orgânica e inorgânica • Captação de água • Navegação • Exploração de espécies autóctones • Introdução de espécies exóticas FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 9 Dentro dos elementos-chave de qualquer sistema ribeirinho conseguimos identificar, como se verifica no esquema seguinte, as várias condicionantes específicas que sobre eles atuam: Identificando o(s) problema(s) existentes podemos posteriormente atuar sobre eles utilizando diferentes metodologias e até apresentando diferentes propostas para o mesmo problema. Há que estabelecer assim objetivos e prioridades para assim traçar um plano. Segundo o trabalho de (SER, 2004) os Planos dos Projetos de Restauração devem incluir no mínimo:  Uma razão para a necessidade de restauração  Uma descrição ecológica do local a restaurar  Definição dos objetivos e metas a atingir  Descrição do ecossistema de referência  Explicação de como a suposta Restauração integra a paisagem e a ocorrência dos organismos e materiais  Existência de planos, cronogramas e orçamentos  Protocolos com ações de desempenho bem definidas e planos de monitorização de forma a avaliar o projeto  Proteção do ecossistema restaurado através de estratégias descritas em planos de monitorização e manutenção. Geológicos Sedimentos Erosão Incêndios florestais Agricultura Qualidade de água Nutrientes Temperatura Oxigénio dissolvido Salinidade Tóxicos pH Biológicos Vegetação ripária Presença de exóticas Ausência de habitat Quantidade de água Sazionalidade Cheia Seca Barragens Açudes FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 10 Rutherfurd et al., 2000 propõem um procedimento de 12 passos para implementação de um projeto de Reabilitação. Cada passo consiste num plano de tarefas a cumprir. Apesar de se intitular de 12 passos, o nome talvez não seja o mais indicado dado que nem sempre será um trabalho contínuo sendo por vezes até necessário voltar atrás ou mesmo avançar alguns passos. Porém, no final, todos serão revistos como se verifica na figura seguinte Figura 6Os 12 passos de um plano de reabilitação (Rutherfurd et al., 2000). 1. Estabelecer objetivos gerais 2. Identificar grupos de interesse 3. Percurso histórico 4. Identificar Pontos fortes e pontos fracos 5. Estabelecer prioridades 6. Definir estratégias 7. Identificar os objetivos 8. Os objetivos são executáveis? 9. Definir metodologia 10. Como avaliar o nosso projeto 11. Como planear e implementar o projeto? 12. O Projeto funcionou? FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 11 A ecologia da restauração é a ciência em que se baseia a prática da restauração. Possui conceitos, modelos, metodologias e ferramentas claras e necessárias para implementar um projeto (SER, 2004). Apesar de ainda haver uma grande discussão em torno dos conceitos utilizados na restauração segundo (Lemos, 2010; Teiga, 2003; Teiga, 2011) o importante não é resolver os problemas de terminologia, mas sim, investir todos os esforços para resolver os problemas existentes, e para definir potenciais soluções e técnicas aplicáveis como referido por (Mendes et al., 2009). As designações Restauração, Reabilitação e Remediação/Mitigação/Requalificação de rios são, por vezes, utilizadas com significados idênticos, existindo no entanto para alguns autores, diferenças significativas, como descrito de seguida e observável na figura 7. Figura 7Representação esquemática dos conceitos de reabilitação, restauração e requalificação, adaptado de (Lovett & Edgar, 2002 in (Lemos, 2010). Restauração Restauração consiste em Recuperar a composição natural, a estrutura, os processos e as funções dum rio, permitindo deste modo que este atinja novamente uma integridade total preservando o seu balanço dinâmico autorregulado (Mendes et al., 2009). Para (Rodrigues, 2009) restauração implica a reposição das condições originais do rio, incluindo as condições naturais de qualidade da água, sedimentos e regime de cheias, FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 12 geometria do canal, plantas e animais autóctones e galeria ripícola. Este conceito tornase mais complicado quando não se sabe qual é o ecossistema de referência, ou seja, quais as condições originais do rio. Por Ecossistema de referência compreende-se o ecossistema original e um modelo para planear uma restauração ecológica e a qual mais tarde servirá de termo de comparação e avaliação do projeto. Como se pode observar na figura a restauração tende e tenta fazer com que o ecossistema volte ao seu trajeto histórico. Segundo o (SER, 2004) a Restauração ecológica é uma atividade intencional que inicia ou acelera a recuperação de um ecossistema no que diz respeito à sua saúde, integridade e sustentabilidade. No final este ecossistema é autossustentável ao mesmo nível do ecossistema de referência e tem potencial para persistir sob condições ambientais existentes. Falamos aqui do seu poder de resiliência, no entanto a sua estrutura e funções podem variar consoante o seu desenvolvimento em resposta ao que o rodeia. Outro problema que se coloca na restauração é que ela implica uma atuação sobre todo o sistema da bacia hidrográfica, o que nem sempre é tangível. Assim nos casos em que não é possível restaurar, a atuação sobre o meio deve ocorrer de qualquer forma para não haver avanço na degradação do sistema e assim falamos em reabilitação (Rodrigues, 2009). Reabilitação Falamos em Reabilitação quando conseguimos recuperar a composição, estrutura, processos e funções, de modo que fiquem tão perto quanto possível das condições naturais do rio (Mendes et al., 2009). Assim, no final da reabilitação obtemos um ecossistema, que embora se assemelhe às condições originais, apenas algumas das suas características são repostas, criando, no assim, uma melhoria no sistema degradado. No que diz respeito à trajetória que nos leva para um novo ecossistema, demonstrado na figura pelo número 3, temos três conceitos diferentes, segundo três diferentes autores.  Mitigação Atingir um estado que, sendo significativamente diferente do estado natural do rio, atinja um compromisso com as condições limitantes inevitáveis a que o rio está sujeito (Mendes et al., 2009). São medidas implementadas para compensar os danos e estragos no ambiente (SER, 2004). FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 13  Remediação Solução última, quando nem a restauração nem a reabilitação são possíveis. Neste caso são promovidas as condições ecológicas do rio, não sendo possível prever as condições finais, mas estando certamente afastadas das condições originais (Rodrigues, 2009).  Requalificação Este termo pressupõe a existência de atribuição de mais-valias, de novos valores ambientais a esse local, podendo ser um processo repetível ao longo do tempo (Teiga, 2003). Seja qual for a decisão tomada sobre o que fazer, existem segundo (Saraiva, 1999), alguns cuidados a ter aquando da intervenção:  Atuar em troços limitados em função dos objetivos a atingir e do plano global de intervenção  Escolher a realização dos trabalhos fora da época de reprodução das espécies, devendo na generalidade ser efetuadas nos meses de Agosto a Outubro  Limitar as intervenções sobre o fundo do leito para manter a máxima diversidade de habitats  Utilizar material adequado circulando fora do leito  Trabalhar alternadamente entre uma margem e outra. Como já referido anteriormente, nem sempre é fácil ou possível conseguir chegar ao ecossistema de referência, no entanto enumeram-se de seguida algumas fontes de informação que podem ser utilizadas e úteis para esta descrição:  Descrições ecológicas, listas de espécies e mapas anteriores à degradação do ecossistema  Fotografias aéreas históricas e atuais do local com indicações das condições físicas e do biota  Descrições ecológicas e listas de espécies de ecossistemas semelhantes intactos  Herbário e espécies de museu  Histórias locais e memórias por parte da população local  Evidências paleontológicas, e.g., anéis de crescimento das árvores, carvão vegetal, pólen fossilizado Embora seja importante, um cenário de referência, este não é suficiente, visto que o rio imaculado que pretendemos obter é frequentemente, e não raras as vezes, uma utopia FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 14 que, embora deva ser conhecida e valorizada, não pode ser o objetivo final, a não ser que exista de facto uma possibilidade realista de ser atingido (Mendes et al., 2009). Por vezes o nosso ecossistema já atingiu um novo estado clímax ou uma nova harmonia, a qual devemos respeitar e ponderar a necessidade e importância da intervenção ou avaliar as perdas que daí ocorreriam caso houvesse intervenção para o cenário original de referência. Devemos conseguir enumerar os benefícios da restauração, identificar o tipo de restauração a implementar e depois decidir entre a:  Reparação do ecossistema danificado ao seu estado anterior  Criação de um novo ecossistema para substituir um que foi completamente removido (e.g. canalização do rio)  Criação de um outro tipo de ecossistema para substituir um que foi retirado ou completamente alterado (e.g. áreas urbanas)  Criação de ecossistema de substituição onde o anterior já não é suportado  Criação de um ecossistema de substituição porque não há dados suficientes sobre o ecossistema de referência para servir de modelo. A única forma de evitar um plano de restauração ou reabilitação é inicialmente prevenir e evitar o dano ou estrago. Isso apenas é possível, como representado na figura 8, através de medidas de: Proteção Gestão Valorização Sensibilizaçã o Educação Ambiental Figura 8Medidas de atuação ou de prevenção em planos de restauração. FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 21 inserção das mesmas no solo. Nos enrocamentos, as estacas colocam-se nos espaços entre as pedras, devendo ser inseridas até atingirem o solo. Devem eliminar-se os ramos laterais e cortar o extremo inferior em ângulo para fácil inserção da estaca no solo. Aplicação: Mais útil em áreas semiáridas ou em taludes com reduzido ensombramento Eficácia: Estabelece rapidamente a vegetação ripícola e reduz a velocidade da corrente junto aos taludes Limitações: Requer proteção do sopé quando prevista erosão. É praticável apenas em áreas com bons acessos e há necessidade de tempo para o enraizamento da vegetação. Esteiras de ramos vegetativos Descrição: Cobertura da margem do rio com estacas e varas de espécies com capacidade de reprodução por via vegetativa. Execução: Efetua-se uma cobertura da margem do rio, previamente remodelada, com varas ou estacas vivas de espécies vegetais com capacidade de reprodução vegetativa (Salix spp., Tamarix spp.). Estas são colocadas perpendicularmente à direção da corrente do rio. Depois são fixadas no terreno com um arame tensionado e no final, cobertas com uma fina camada de solo. Aplicação: Em zonas acima do nível normal das águas, onde os taludes sejam ameaçados pelos caudais de cheia. Eficácia: Proporciona proteção imediata, restaurando rapidamente as condições ripícolas. Limitações: Altitude e limitações climáticas e edáficas das espécies utilizadas Muros de suporte vivos em madeira, tipo Cribwall Descrição: Caixas de troncos, interligadas entre si, preenchidas com camadas alternadas de terra e estacas vivas. FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 22 Execução: Caixas feitas com toros de madeira, não tratada, interligados, preenchidos com camadas alternadas de solo e ramos, instalando-se sobre uma fundação em gravilha Aplicação: Adequado em cursos de água com taludes de declive muito acentuado mas não com substrato rochoso) e forte erosão Eficácia: Comparado com os gabiões ou enrocamentos proporciona uma aparência natural e reabilita taludes onde tenha ocorrido uma grande perda de solo. Limitações: pode ser uma técnica complexa e dispendiosa, requer mão-de-obra relativamente experiente e material lenhoso adequado. Configuração da margem e plantação Descrição: Correção do declive do talude para que não exceda a altura crítica, seguida da reposição das camadas superficiais do solo e plantação; reforço prévio na base do talude. Execução: É utilizado em conjunto com outras técnicas de proteção quando as velocidades do escoamento excedem o intervalo de tolerância das plantas disponíveis. Os constituintes do solo, a provável variação do nível freático e a resistência do talude determinam o declive adequado. Os constituintes do solo, a provável variação do nível freático e a resistência do talude determinam o declive adequado. Aplicação: Em cursos de água com poder energético mediano, com baixos níveis de erosão e para utilização em conjunto com outras técnicas. Eficácia: Favorece a colonização por espécies autóctones. Limitações: Apropriado apenas para margens sujeitas a erosão moderada, sendo muitas vezes necessário reforçar o sopé do talude. Gabiões com vegetação Descrição: Caixas de rede de arame, preenchidas com pedras e cobertas com solo, onde são introduzidas estacas vivas para enraizamento. FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 23 Execução: Estas caixas são enchidas com qualquer tipo de pedra não friável (pedra de pedreira ou seixo) ou outro material inerte. Estão disponíveis com revestimento de vinil ou aço galvanizado que lhes confere durabilidade. Aplicação: Adequados em declives acentuados e em locais de corrente forte, com fundações estáveis. Apenas pode ser utilizado na base do talude. Eficácia: Permite uma elevada proteção da base dos taludes declivosos, onde outras técnicas poderão não ter sucesso. Limitações: Exigem fundação estável e a sua instalação e substituição são dispendiosas. Enrocamento Descrição: Cobertura da margem com camada de materiais rochosos para controlo da erosão. Execução: Conjunto de rochas (pedras) de diferentes tamanhos aplicado livremente e a granel, ao longo do declive. Nos espaços entre pedras são introduzidas estacas vivas. Aplicação: Utiliza-se em áreas sujeitas a erosão intensa, frequentemente após uma aplicação prévia duma cobertura geotêxtil, e onde a correção do declive do talude é difícil. Eficácia: Durabilidade de longo prazo em declives moderados e correntes moderadas a fortes, como o exterior das curvas. Limitações: Elevado custo do material e transporte. Dificuldade de implementação por falta de acessibilidade; equipamento pesado para a obra, podendo aumentar a degradação da zona envolvente; complexidade de instalação da base do enrocamento. Empacotamentos de arbustos Descrição: Camadas alternadas de ramos vivos e cascalho ou pedras. Execução: Colocação de camadas sobrepostas de ramos e gravilha, ancorados por estacas ou arame galvanizado, e eventualmente reforçados por faxinas, e cobertos por solo ou geotêxtil. Cobre todo o FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 24 talude, com ramos colocados perpendicularmente ao eixo do rio e com a base em contacto com a água. Aplicação: Em zonas erodidas das margens, desde que não sujeitas a submersão regular. Eficácia: Estabelece rapidamente um talude vegetado, proporcionando maior estabilidade do solo e permitindo também a colonização por espécies locais. Limitações: Pode necessitar de um grande número de ramos de salgueiros, nem sempre disponível e pode atrasar a recolonização por outras espécies, diminuindo a diversidade florística nos primeiros anos. Geotêxteis ou Biorolos Descrição: Estrutura cilíndrica composta por fibra de casca de coco normalmente disponível em rolos de 300 mm de diâmetro por 6m de comprimento colocado no sopé da margem. Execução: Se apropriado, pode ser usado conjuntamente com outras técnicas de bioengenharia Aplicação: Tapetes de fibras naturais dispostas sobre os taludes, fixadas através de estacas dormentes. Os rolos de fibra de coco são cravados com estacas na base do talude. Adequados após modelação dos taludes, onde não se verifiquem forças transversais elevadas e seja necessária estabilização moderada. Eficácia: Reduz a erosão ao longo de todo o talude e proporciona condições para um acréscimo da humidade do solo, o que aumenta a viabilidade das plantas enraizadas. Limitações: Pode ser dispendioso e não é indicado para sítios com elevadas velocidades de escoamento. Vida útil de 6 a 10 anos. Agrupamento de pedras no leito Descrição: Consiste na colocação de pedras em determinados locais da base da linha de água, usadas para cobrir, criar buracos ou reduzir a velocidade de corrente. FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 25 Execução: As pedras devem ser colocadas em grupo. Apenas em pequenos riachos podem ser colocadas individualmente. Normalmente, são utilizadas pedras angulares de forma irregular. Aplicação: Pode utilizar-se na maioria dos tipos de linhas de água mas a sua aplicação é mais eficaz em canais com escoamento médio superior a cerca de 0,60 m/s e em leitos que não sejam de areia. Eficácia: potencia o aumento da diversidade de habitats, a formação de substrato para os organismos bentónicos, abrigo e repouso para a ictiofauna e a dissipação de energia, bem como o arejamento da água. Limitações: Implica equipamento pesado para a colocação das pedras, podendo provocar áreas de sedimentação em rios onde exista elevado transporte de material. Grade viva Descrição: É uma construção em madeira constituída por uma estrutura em forma de caixa, formada por troncos de madeira Execução: Os troncos são dispostos perpendicularmente, com a colocação no seu interior de plantas ou estacas vegetativas autóctones. Aplicação: É utilizada em intervenções de consolidação de taludes e escarpas em risco de deslizamento de terra, e na proteção de margens fluviais. Deverá ser construído durante o período de repouso vegetativo das plantas. Eficácia: É uma obra deformável e permeável, que se adapta bem a intervenções em taludes instáveis. Sementeira ou hidrossementeira Descrição: Plantação de mistura de sementes adequadas ao local Execução: Devem ser utilizadas espécies de instalação rápida, de enraizamento profundo e intensivo. O sistema radicular melhora a capacidade de drenagem do solo. Aplicação: As sementeiras podem ser realizadas com combinações coloidais, que confiram uma maior agregação física do solo, FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 26 no entanto são mais frequentes com fertilizantes naturais (estrume e palha), de forma a proporcionar um bom desenvolvimento da vegetação instalada. Eficácia: Método mais eficaz na cobertura do solo, a menor custo e tempo, com vasta utilização e muito pouco dispendiosa. Limitações: A escolha das sementes deve ser de acordo com a caracterização fitossociológica do local a reabilitar. A seleção da técnica de estabilização apropriada é extremamente importante e depende de diversos fatores tais como:  Declive das margens;  Velocidade do escoamento;  Tipo de solo e margens;  Existência ou não de vegetação;  Disponibilidade de espaço;  Objetivos da reabilitação pretendidos. Na figura 10 encontra-se representada a importância do declive das margens e a escolha do tipo de técnica de estabilização subjacente Figura 10Declive das margens como fator essencial na seleção do tipo de intervenção adaptado de Cortes, 2007. Seja qual for a opção tomada e a intervenção possível, existem alguns princípios básicos a presidir aquando das operações, mantendo a: FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 27  Continuidade funcional, permitindo o fluxo de energia e a circulação de materiais e seres vivos  Elasticidade ou capacidade de adaptação à diversidade de situações  Meandrização (maximização do efeito de orla)  Intensificação ou incremento da atividade ecológica nos elementos estruturais dos ecossistemas e capacidade da sua autorregeneração. 1.2.4 Legislação Neste subcapítulo é desenvolvido um breve enquadramento legislativo (Tabela 4), onde são mencionados os principais diplomas legais, com maior relevância para a análise que se pretende efetuar, no âmbito da reabilitação de sistemas ribeirinhos. Tabela 4-Legislação no âmbito do domínio hídrico in AtrevoLaboratório Ambiental, 2015; Agência Portuguesa do Ambiente, 2015; Lemos, 2010; Vinagre, 2008. Ano Âmbito Legislação 1997 Estabelece a recolha, tratamento e descarga de águas residuais urbanas no meio aquático. Transpõe para a ordem jurídica interna a Diretiva n.º 91/676/CEE, do Conselho, de 12 de Dezembro de 1991, relativa à proteção das águas contra a poluição causada por nitratos de origem agrícola Decreto-Lei n.º 152/97, 19 de Junho Decreto-Lei n.º 235/97, de 3 de Setembro Alterações:  Decreto-Lei n.º 68/99, de 11 de Março 1998 Estabelece as normas, critérios e objetivos de qualidade com a finalidade de proteger o meio aquático e melhorar a qualidade das águas em função dos seus principais usos. Estabelece a obrigatoriedade de elaboração da carta de zonas inundáveis nos municípios com aglomerados urbanos atingidos por cheias Decreto-Lei n.º 236/98, de 1 de Agosto Decreto-Lei n.º 364/98, de 21 de Novembro 2000 Estabelece um Quadro de Ação Comunitária no Domínio da Política da Água. Diretiva n.º 2000/60/CE, de 23 de Outubro 2001 Regula a qualidade da água destinada a consumo humano e tem por objetivo proteger a saúde humana dos efeitos nocivos resultantes de qualquer contaminação assegurando a sua salubridade e limpeza Decreto-Lei n.º 243/2001, de 5 de Setembro 2002 Aprova o Plano Nacional da Água Decreto-Lei n.º 112/2002, de 17 de Abril 2005 Estabelece a titularidade dos recursos hídricos. Lei n.º 54/2005, de 15 de Novembro FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 28 Estabelece as bases e o quadro institucional para a gestão sustentável das águas superficiais, designadamente águas interiores, de transição, costeiras e águas subterrâneas Alterações:  Lei n.º 78/2013, de 21 de Novembro;  Retificação n.º 4/2006, de 11 de Janeiro;  Lei n.º 34/2014, de 19 de Junho Decreto-Lei n.º 58/2005, de 29 de Dezembro Alterações:  Decreto-Lei n.º 130/2012, de 22 de Junho 2006 Lei-quadro das contraordenações ambientais Complementa a transposição da Diretiva n.º 2000/60/CE, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 23 de Outubro, que estabelece um quadro de ação comunitária no domínio da política da água, em desenvolvimento do regime fixado na Lei n.º 58/2005, de 29 de Dezembro Lei n.º 50/2006, de 29 de Agosto Alterações:  Lei n.º 89/2009, de 31 de Agosto;  Declaração de Retificação n.º 70/2009 de 1 de Outubro Decreto-Lei n.º 77/2006, de 30 de Março 2007 Regula os títulos de utilização de recursos hídricos (autorização, licença ou concessão) nos termos da Lei n.º 58/2005, determinando que toda a utilização privativa carece de um título de utilização a ser emitido por uma administração de região hidrográfica (ARH). Transpõe para a ordem jurídica interna a Diretiva n.º 91/676/CEE, do Conselho, de 12 de Dezembro de 1991, relativa à proteção das águas contra a poluição causada por nitratos de origem agrícola. Estabelece o regime da qualidade da água destinada ao consumo humano procedendo à Decreto-Lei n.º 226-A/2007, de 31 de Maio Alterações:  Decreto-Lei n.º 391A/2007, de 21 de Dezembro;  Decreto-Lei n.º 93/2008, de 4 de Junho;  Decreto-Lei n.º 137/2009, de 08 de Junho;  Decreto-Lei n.º 245/2009, de 22 de Setembro;  Decreto-Lei n.º 82/2010, de 02 de Julho de 2010;  Lei n.º 44/2012, de 31 de Agosto) Decreto-Lei n.º 235/1997, de 03 de Setembro Decreto-Lei n.º 306/2007, de 27 de Agosto FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 29 revisão do Decreto-Lei n.º 243/2001, de 5 Setembro, tendo por objetivo proteger a saúde humana dos efeitos nocivos resultantes da contaminação dessa água e assegurar a disponibilização tendencialmente universal de água salubre. Delimitação das Regiões Hidrográficas. Aprova o regime das associações de utilizadores do domínio público hídrico. Estabelece o regime a que fica sujeito o procedimento de delimitação do domínio público hídrico. Fixa as regras do regime de utilização dos recursos hídricos estabelecido pelo Decreto - Lei nº 226-A/2007, de 31 de Maio. Decreto-Lei n.º 347/2007, de 19 de Outubro Decreto-Lei n.º 348/2007, de 19 de Outubro Decreto-Lei n.º 353/2007, de 26 de Outubro Portaria n.º 1450/2007, de 12 de Novembro 2008 Estabelece o regime económico e financeiro dos recursos hídricos previsto pela Lei n.º 58/2005, de 29 de Dezembro, disciplinando a taxa de recursos hídricos, as tarifas dos serviços públicos de águas e os contratosprograma em matéria de gestão dos recursos hídricos. Estabelece o regime jurídico da responsabilidade por danos ambientais e transpõe para a ordem jurídica nacional a Diretiva n.º 2004/35/CE, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 21 de Abril de 2004, que aprovou, com base no princípio do poluidor -pagador, o regime relativo à responsabilidade ambiental aplicável à prevenção e reparação dos danos ambientais, com a alteração que lhe foi introduzida pela Diretiva n.º 2006/21/CE, do Parlamento Europeu e do Conselho, Aprova o Regulamento do Fundo de Intervenção Ambiental Estabelece o regime jurídico da Reserva Ecológica Nacional, abreviadamente designada por REN. A REN é uma estrutura biofísica que integra o conjunto das áreas que, pelo valor e sensibilidade ecológicos ou pela exposição e suscetibilidade perante riscos naturais, são objeto de proteção especial. Decreto-Lei n.º 97/2008, de 11 de Junho Decreto-Lei n.º 147/2008, de 29 de Julho Alterações:  Decreto-Lei n.º 245/2009, de 22 de Setembro Decreto-Lei n.º 150/2008, de 30 de Julho Decreto-Lei n.º 166/2008, de 22 de Agosto 2009 Aprova o novo regime jurídico da Reserva Agrícola Nacional. Decreto-Lei n.º 79/2009, de 31 de Março FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 30 O novo regime da RAN introduz na ordem jurídica a nova metodologia de classificação das terras, conforme recomendação da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação. Cria o Fundo de Proteção dos Recursos Hídricos Cria o fundo de proteção de recursos hídricos. Estabelece os termos da delimitação dos perímetros de proteção das captações destinadas ao abastecimento público de água para consumo humano, bem como os respetivos condicionamentos. Normas para utilização dos recursos hídricos públicos e particulares. Decreto-Lei n.º 172/2009, de 03 de Agosto Decreto-Lei n.º 172/2009, de 3 de agosto Portaria n.º 702/2009, de 6 de Junho Despacho n.º 14872/2009, de 2 de Julho 2010 Estabelece as normas de qualidade ambiental no domínio da política da água e transpõe a Diretiva n.º 2008/105/CE, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 16 de Dezembro, e parcialmente a Diretiva n.º 2009/90/CE, da Comissão, de 31 de Julho. Aprova o Regulamento de Gestão do Fundo de Intervenção Ambiental Aprova o Regulamento de Gestão do Fundo de Proteção dos Recursos Hídricos Define os elementos necessários à instrução dos processos de delimitação do domínio público hídrico por iniciativa dos proprietários, públicos ou privados, de terrenos nas áreas confinantes com domínio público hídrico e estabelece igualmente a taxa devida pela apreciação dos procedimentos de delimitação do domínio público por iniciativa dos particulares. Decreto-Lei n.º 103/2010, de 24 de Setembro Portaria n.º 485/2010, de 13 de Julho Portaria n.º 486/2010, de 13 de Julho Portaria n.º 931/2010, de 20 de Setembro 2011 Altera o crime de incêndio florestal e os crimes de dano contra a natureza e de poluição, tipifica um novo crime de atividades perigosas para o ambiente, procede à 28.ª alteração do Código Penal e transpõe a Diretiva n.º 2008/99/CE, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 19 de Novembro, e a Diretiva n.º 2009/123/CE, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 21 de Outubro. Lei n.º 56/2011, de 15 de Novembro FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 37 Figura 17Bacia hidrográfica do rio Febros sob a carta militar de 1997 adaptado de (Silva & Graça, 2006). O rio possui uma inclinação suave sendo o desnível relativamente reduzido (entre a nascente e a foz este é de 220 metros), o que torna a velocidade de escoamento superficial pequena. A morfologia do rio Febros apresenta algumas características diferenciadoras o que permite a distinção de três sectores, aos quais correspondem níveis altimétricos diferentes. Figura 18Perfil longitudinal do Rio Febros in Gaia, 2015. FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 38 Sector I (Baixo Febros) - Um sector inferior onde o rio se torna encaixado e o povoamento humano concentrado. Depois de atravessar uma zona de aluvião de baixo declive onde o leito apresenta meandros, o rio torna-se mais torrencial. Salienta-se que as variações do pendor do rio tornam-se mais evidentes (acentuam-se) com a diminuição da altitude e aproximação à foz. Sector II (Febros Superior) - Sector médio em que o vale do rio se encaixa em que o rio atravessa uma zona de paisagem rural caracterizada pelo cultivo agrícola, com povoamento humano dispersado. Sector III (Febros Nascente) - Sector correspondente à cabeceira e nascente do rio que constitui um vale aberto em que o rio Febros apresenta características de pequena linha de água Tabela 5Afluentes do Rio Febros Afluentes Zona Altitude de confluência com Rio Febros Afluentes Sector I - Baixo Febros Rib.ª de Jaca Ponte Pereiro 60 m Afluentes Sector II – Febros Superior Ribeira “Rio de Lobo” Rio de Lobo 104 m Ribeira do Barroco Casaldrijo 84 m Ribeira da Costa Pisão 96 m Ribeira “de Pordes” Alheira 75 m Figura 19Delimitação Bacia Hidrográfica a ponteado in Gaia, 201 FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 39 3.1.2. Ocupação do solo Como se pode verificar na Figura 19, a classe dominante de ocupação de solo na bacia do rio Febros, corresponde à agricultura com 27%, seguida do tecido urbano com 21% e das florestas mistas com 19%. Tem-se vindo a observar, nos últimos anos, uma diminuição da agricultura em espaços naturais e das florestas mistas e verificado um acréscimo da área ocupada pelo tecido urbano descontínuo e aumento da área ocupada pela indústria, comércio e equipamentos gerais (Carvalho, 2008). Figura 20Carta de ocupação do solo em 2000, para a Bacia do rio Febros in Carvalho, 2008 (Fonte: Corine Land Cover) FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 40 3.1.2 Geologia A geologia do vale do Febros resume-se às formações sedimentares de cobertura, às formações metamórficas e às formações de origem ígnea. Cronologicamente do mais recente para o mais antigo, temos as:  Rochas sedimentares - Com a designação de rochas sedimentares é referido o conjunto de rochas detríticas que constituem os diferentes tipos de depósitos póspliocénicos. 1. Atual e Holocénico É a unidade que compreende os depósitos mais modernos que foram agrupados em dois conjuntos: Praias (p) que correspondem à praia fluvial cartografada na margem esquerda do rio Douro e é constituída essencialmente por areias e cascalhos. Aluviões (a) que correspondem a depósitos fluviais que ocupam os vales e são essencialmente constituídos por sedimentos argilosos. Estes depósitos ocupam a margem do Rio Douro e o vale do Rio Febros. 2. Quaternário antigo e Pliocénico recente (PQ) Nesta unidade são incluídos todos os depósitos constituídos por areias grosseiras e cascalhos considerados como fluviais e que correspondem a terraços fluviais.  Rochas ígneas - Resultam da consolidação ou cristalização, de porções da crosta ou do manto, total ou parcialmente fundidas, a que se chama magma. Consoante o contexto geológico em que se dá a solidificação, ou seja, conforme o seu modo de jazida, as rochas dizem-se vulcânicas, hipabissais e plutónicas. 1. Hercínicas - A petrografia e a geologia permitem o agrupamento dos diferentes tipos de granitos em função da sua mineralogia e idade relativa. Assim, adaptando a classificação atualmente utilizada para os granitos portugueses os granitos da área cartografada são granitos de duas micas sintectónicos relativamente a F3 (3a fase de deformação hercínica). Em termos de idade absoluta, embora sejam ainda escassos os dados relativos aos granitos da região, pode-se, face aos conhecimentos atuais sobre a geocronologia dos granitos, apontar uma idade de 310 a 315 m.a. para os granitos sintectónicos de duas micas. 2. Granitos de duas micas - Os granitos cartografados ocorrem segundo um alinhamento N20W, paralelo ao vale do rio Febros, e são granitos de duas FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 41 micas, com predomínio de moscovite, que exibem por vezes uma textura orientada. Sob o ponto de vista mineralógico os feldspatos potássicos representam geralmente os cristais de maiores dimensões e possuem uma cor variável com o grau de alteração do granito. 3. Filões e massas - O granito e os metassedimentos são por vezes cortados por filões, geralmente centimétricos, aplíticos e pegmatíticos, associando-se, por vezes, as duas litologias. As fácies pegmatíticas são dominantemente constituídas por feldspato potássico (ortoclase) e quartzo, e as micas quando existem são a moscovite e a biotite, podendo estar presente muito acessoriamente a turmalina, a granada e o berilo.  Rochas metamórficas - compreendem fundamentalmente micaxistos e metagrauvaques, constituindo uma sequência relativamente monótona recortada pelos granitos de duas micas. Na zona de contacto entre os metassedimentos e o granito de duas micas observam-se, por vezes, litologias que se assemelham a gnaisses e migmatitos que se interpretam como devidas ao contacto. 1. Complexo Xisto-Grauváquico - As rochas metamórficas aflorantes pertencem ao "Complexo Xisto-Grauváquico". Esta unidade compreende uma espessa sequência metassedimentar que foi o encaixante metamórfico dos granitos hercínicos da Zona Centro Ibérica, razão pela qual os afloramentos do Complexo Xisto-Grauváquico são frequentemente recortados por rochas graníticas. Aqui a sequência do Complexo Xisto-Grauváquico é essencialmente constituída por micaxistos e metagrauvaques finos, intensamente deformados e com o grau metamórfico aumentado pela proximidade do contacto ígneo Às formações do Complexo Xisto-Grauváquico, consideradas precedentemente como anteordovícicas de idade indeterminada, é atualmente atribuída uma idade maioritariamente Câmbrica ou Precâmbrica/Câmbrica.  Tectónica A Orogenia Hercínica desempenhou papel fundamental na evolução geológica do NW Peninsular. Os terrenos do Orógeno Hercínico da Península Ibérica são caracterizados pela existência de várias zonas geotectónicas, com características paleogeográficas, tectónicas, metamórficas e plutónicas distintas, que se dispõem paralelamente às linhas estruturais da cadeia hercínica. A área cartografada, situa-se na Zona Centro-Ibérica. O alinhamento do rio Febros corresponde precisamente a um destes sistemas. Da análise da carta em que estão assinalados os principais sistemas FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 42 de diaclases observados verifica-se que estão representadas as orientações ENEWSW, bem como as orientações mais tardias NNE-SSW a NS (Figura 21). Figura 21Enquadramento geológico in Cartas Geológicas - Serviços Geológicos de Portugal 3.1.3 Clima A estação climatológica mais próxima do Rio Febros é a da Serra do Pilar, que começou a funcionar regularmente em 1859. Desde o seu início registou a pressão atmosférica, temperatura, humidade relativa do ar, precipitação e vento e que posteriormente passou a registar a velocidade média do vento, a evaporação e a insolação, estas duas já neste século (1922). Embora haja uma diferença de situação topográfica entre o Observatório e o Rio, estando o Observatório num ponto elevado e exposto e o Febros numa situação mais baixa, de vale, e por isso mais protegido em termos de ventos, o que pode criar condições microclimáticas diferentes, em termos gerais, pode admitir-se que as diferenças entre os valores para a maioria dos parâmetros determinados não serão grandes. Tendo sido estudados s dados recolhidos neste observatório podemos confirmar que  As temperaturas médias mensais são sempre positivas e situam-se entre: 5,0 e 25 º C;  As temperaturas extremas variam entre -4,1 e 39,9 º C; muito raramente as temperaturas mínimas são inferiores a 0 º (6 a 8 dias por ano) FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 43  A humidade relativa do ar é menor durante o dia e varia entre 60 e 88 %;  Há geralmente nebulosidade elevada, superior a 5 numa escala de 0 a 10 e sendo ainda mais acentuada nos meses de outono e inverno;  A insolação total anual é próxima das 2 600 horas, correspondendo a mais de 55 % da insolação possível;  A precipitação total é próxima dos 1 200 mm;  A evaporação total é próxima dos 1 000 mm;  O regime de ventos apresenta-se muito instável com rajadas praticamente de todos os quadrantes e predomínio dos de sudoeste e este; a velocidade do vento raramente excede os 55 km/h  O nevoeiro e o orvalho são frequentes, mas as geadas e saraivadas são raras e a queda de neve é muito rara, com média inferior a meio dia por ano, o que faz com que praticamente nunca haja solo coberto de neve. A análise da variação da temperatura ao longo do ano demonstra que Janeiro é o mês que apresenta as temperaturas médias mais baixas rondando os 8,7 °C, enquanto Julho apresenta uma média de 19,7 °C, comportando-se como mês mais quente. Deste modo verifica-se que a amplitude térmica anual é pequena rondando os 11 °C, facto que não é alheio à proximidade do Oceano Atlântico. Apesar deste clima ameno, cuja temperatura média ronda os 14 °C não significa que não haja valores extremados de temperatura quer no que se refere às temperaturas baixas, quer para as mais altas. Deste modo, a análise do clima demonstra a existência de dias com temperaturas médias inferiores a 0°C. Estes dias situam-se fundamentalmente nos meses de Dezembro e Janeiro. No que se refere às temperaturas máximas podem, durante os meses de Julho e Agosto, apresentarem valores médios superiores a 30°C. A precipitação apresenta valores médios sempre superiores a 1200 mm ano Os meses mais pluviosos são Dezembro e Janeiro com valores médios superiores a 170 mm, apresentando-se os meses de Julho e Agosto como os mais secos já que, em média, não se atinge os 50 mm. Um dos fatores que maior influência exerce sobre a distribuição da precipitação é, sem dúvida, o relevo. Mesmo nas áreas de baixa altitude, a rugosidade da superfície terrestre provoca no seio das massas de ar turbulências que podem originar movimentos ascendentes e subsidentes, que conforme as características das massas de ar podem ou não originar queda pluviométrica. FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 44 Para finalizar esta caracterização muito sumária faremos apenas uma breve referência à frequência dos nevoeiros e à distribuição mensal dos rumos dos ventos. Relativamente à frequência dos nevoeiros verifica-se que o número médio de dias anual em que este fenómeno ocorre é superior a 120, sendo a sua distribuição quase uniforme ao longo de todo o ano, com um ligeiro mínimo nos meses de Maio a Junho e dois máximos, um em Agosto e outro em Dezembro. A origem dos nevoeiros é diversa e a sua frequência e distribuição relativamente uniforme ao longo de todo o ano explica-se pela proximidade do Oceano Atlântico e do Rio Douro que criam condições para a ocorrência deste tipo de fenómeno (Caldas, 1999). 3.1.4 Flora A vegetação da área encontra-se fortemente intervencionada, sendo as formações vegetais naturais muitas vezes constituídas por formas alteradas com alguma degradação, não deixando, no entanto, de ter valor de conservação. Os sistemas, agrícola e florestais, são relativamente próximos dos ecossistemas naturais e proporcionam situações para a ocorrência de muitas espécies de animais e plantas que se adaptam bem a este tipo de habitats intervencionados. Nos casos em que há substituição de comunidades, subsistem muitas espécies espontâneas nas zonas de bordadura das áreas cultivadas ou como infestantes das culturas, e o enriquecimento nutritivo dos terrenos proporciona a instalação de espécies nitrófilas ruderais, que não aparecem nas comunidades naturais de terrenos pobres. Nos biótopos de paisagem de mosaico, os carvalhais, zonas de matos e zonas agrícolas, assumem um valor importante estando associados a zonas de ecótono. As espécies mais vulgares nas das orlas são, o pilriteiro (Crataegus monogyna), a madressilva (Lonicera periclymenum), o sanguinho-de-Água (Frangula alnus), o catapereiro (Pyrus cordata), a silva (Rubus sp.), etc. o codesso (Adenocarpus complicatus subsp. lainzii), a giesta-dasvassouras (Cytisus multiflorus), Cytisus scoparius subsp. scoparius, Ulex europaeus, Erica arborea, Pteridium aquilinum, etc. Estas orlas ou sebes naturais desempenham um papel importante na alimentação e como habitat de nidificação de diversas espécies de aves, constituem as orlas naturais de diversos bosques, ou que colonizam campos agrícolas abandonados. Apesar de este território estar bastante alterado pelas atividades humanas é ainda possível reconhecer algumas pequenas e localizadas unidades de vegetação natural, que FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 45 tendem a desaparecer, que se podem enquadrar como locais de importância comunitária, enquadrando-se nos Habitats Rede Natura 2000, Diretiva Habitats. Vegetação Ripícola e habitats de interesse comunitário A vegetação ribeirinha apresenta galerias ripícolas, onde o copado da vegetação arbórea existente nas duas margens dos rios e ribeiras se entrelaçam formando um continuum vegetal nos cursos de água, constituído ao nível arbóreo essencialmente por (Alnus glutinosa), (Populus sp.), (Salix atrocinera), (Frangula alnus). Estas estruturas arbóreas e comunidades de plantas a elas associadas, desempenham uma função muito importante na manutenção das margens dos rios, bem como na regularização e retenção das águas em picos de cheia. São ainda muito importantes na preservação da fauna, pois são o habitat de muitas espécies. Zonas Especiais de Conservação:  Florestas mediterrâneas caducifólias – Habitat 9230  Carvalhais galaico-portugueses de Quercus robur e Quercus. pyrenaica  Floresta de amiais de Alnus glutinosa e Fraxinus excelsior – Habitat 91E0 (apesar da representatividade e cobertura do habitat ser fragmentada). Esta última, por se tratar de um Habitat prioritário, tem a proteção legal do Decreto-Lei nº 140/99 de 24 de abril, anexo B-I e da Diretiva Habitats, anexo I. Este habitat ameaçado pelo abandono da gestão tradicional dos amiais, pela limpeza desregrada das margens dos cursos de água e pela construção de obras de hidráulica exige uma necessidade de manutenção da área de ocupação e também uma melhoria do grau de conservação através da recuperação de amiais degradados através de medidas como:  Condicionamento das práticas de limpeza das margens dos cursos de água em áreas com o habitat  Proceder à gestão ativa dos amiais através de poda de formação e poda preventiva em árvores com sintomas de podridão ou vergadas pelo peso da copa  Utilização de estacas colhidas para restauração de amiais degradados  Manutenção de habitats associados (lameiros, juncais e prados)  Condicionamento à construção de aproveitamentos hidráulicos O amieiro tem uma excelente capacidade de estabilização das margens dos rios, dado o seu sistema radicular criar uma verdadeira malha, podendo chegar a estabilizar até 6 metros de margem. As suas raízes têm a particularidade de fixar o azoto presente no solo, regulando assim o ciclo de nutrientes mas também captam azoto atmosférico ao FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 46 formar simbioses com os actinomicetos. Além disso esta espécie tem inúmeras aplicações para a sua madeira (tamancos), casca e folhas, incluindo fins medicinais. 3.1.5 Fauna Os estudos de inventariação e caracterização das comunidades de vertebrados constituem um passo fundamental para o conhecimento do património natural de uma dada área, fornecendo informações valiosas sobre a diversidade de espécies, padrões de distribuição e situação atual das suas populações. A integração destes dados, nomeadamente com os das comunidades florísticas, permite identificar as zonas com maior diversidade específica e/ou com populações ameaçadas, contribuindo, desta forma, para a elaboração de planos de ordenamento e definição de estratégias de conservação destas áreas. Os trabalhos desta índole servem, ainda, como base de referência para a monitorização, a longo prazo, das comunidades de vertebrados, permitindo constatar a regressão ou expansão das suas populações. Estes estudos poderão também permitir a avaliação do estado de conservação dos habitats, bem como do impacto de determinadas ações do Homem sobre o meio, uma vez que algumas das espécies de vertebrados são bastante sensíveis a alterações e contaminações químicas do habitat. A intensa pressão urbanística, industrial, agrícola e turística, na maioria dos casos localizada junto aos cursos de água, tem vindo progressivamente a provocar alterações na qualidade e disponibilidade de água, sendo este, atualmente, um dos principais problemas para as comunidades mais dependentes deste recurso. A caracterização da ictiofauna de determinado ecossistema constitui um valioso instrumento na avaliação da qualidade da água uma vez que a diversidade das comunidades piscícolas reflete a situação do meio que as suporta. Os anfíbios e répteis foram, até há algum tempo, grupos relativamente pouco estudados. Recentemente, porém, essa tendência tem-se invertido, tendo o número de publicações contribuído para aumentar significativamente o conhecimento sobre a biologia e distribuição de grande parte das espécies. Neste contexto, merece especial relevância o facto de estes organismos estarem frequentemente ligados a habitats muito particulares, bem como serem caracterizados por uma fraca mobilidade, tornando-os, assim, fortemente vulneráveis a qualquer intervenção humana. Deste modo, o estudo das comunidades de anfíbios e répteis é indispensável, não só porque se podem considerar, FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 53 Figura 26Objetivos e metas a cumprir Tabela 8 - Requisitos das espécies selecionadas Medidas já implementadas pelo PBG Medidas executadas Medidas propostas Manutenção do coberto vegetal ripícola autóctone Projeto de Educação Ambiental Valorização de Habitat prioritário 91E0 Monitorização da qualidade da água  Levantamento de todos os possíveis focos de contaminação  Projeto de Educação Ambiental Restringir uso de agroquímicos Prática de Agricultura Biológica Controlo de espécies exóticas e invasoras Serviços de Voluntariado Projeto de Educação Ambiental Corte, manutenção e poda de vegetação em alturas apropriadas Efetuada pela equipa do Parque Biológico Consolidação das margens Aplicação de técnicas de Engenharia Natural Manutenção de habitats complementares como lameiros, turfeiras e charcos Acompanhamento de trabalho desenvolvido por estagiária da UTAD (Inventário de espécies de Anfíbios e seus habitats) Estudo de habitats complementares ao ecossistema ribeirinho (charcos, tanques, lagos). Informação e sensibilização do público  Projeto de Educação Ambiental  Visitas guiadas noturnas nas noites dos Pirilampos  Orientação de estágios (sensibilização e educação para conservação do morcego) Objectivos Participação pública através do Projecto Rios Implementação de actividade de EA Identificação dos principais focos de poluição Requisitos das espécies seleccionadas Valorização de habitats complementares ao Rio Erradicação de espécies invasoras e exóticas Estabilização das margens Limpeza e desobstrução do leito FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 54 Para ilustrar algumas das atividades desenvolvidas para implementação das medidas implementadas e acima mencionadas, estão retratadas na tabela 9, algumas das ações iniciadas no decorrer deste ano. Tabela 9Fotografias de algumas das atividades desenvolvidas aquando da implementação das medidas “Pelos caminhos do rio Febros” Projeto de Educação Ambiental Apresentação de mini-teatro sobre morcegos Sensibilizaçao para conservação de morcegos Inventário de espécies de anfíbios no Parque Levantamento de possíveis habitats de anfíbios Reconhecimento de espécies de pirilampo presentes no Parque Visitas guiadas noturnas nas noites de pirilampos FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 55 3.3.2 Levantamento de possíveis focos de poluição Para ser possível identificar os diferentes focos de possível poluição da linha de água do rio Febros, foi feito o levantamento de pontos de contaminação dentro dos limites do Parque Biológico de Gaia (figura 27). Estes pontos, segundo as suas problemáticas, estão identificados com diferentes símbolos como mostra a tabela 10. Figura 27-Planta do Parque Biológico de Gaia com possíveis focos poluição marcados FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 56 Tabela 10Pontos de possíveis focos de contaminação. Entrada directa no rio, de águas pluviais, provenientes de passagem aérea Presença de fossas séticas capazes de contaminar lençóis freáticos Situações de anteriores focos de contaminação resolvida Escoamento de águas provenientes de cercados directamente para o rio 3.3.3. “Pelos Caminhos do Rio Febros” Esta atividade tem como objetivo dar continuidade ao trabalho efetuado pelo Projeto Rios, programa no qual o troço do Rio Febros do Parque Biológico de Gaia, está inscrito desde Junho de 2013. O Projeto Rios visa a adoção e monitorização de um troço de rio, de modo a promover a sensibilização da sociedade para os problemas e a necessidade de proteção e valorização dos sistemas ribeirinhos. Através deste Programa, é possível dar a conhecer aos participantes o património natural (Fauna e Flora), património cultural e etnográfico (moinhos, engenhos de buchas, quintas) e a situação ambiental do rio e do seu bosque ribeirinho. Ao percorrer o corredor verde ao longo do Rio Febros vamos poder dar a conhecer a vida no rio, descobrir o seu estado de saúde através da análise de características físicoquímicas da água (temperatura, pH, NO2, dureza, transparência) e até tirar algumas medidas ao rio (largura, profundidade, velocidade). À medida que se preenche a ficha de campo, conta-se a história do Rio e vai-se desvendando alguns segredos que o rio esconde. Recorrendo às fotografias (tabela 11), é possível reconhecer o Percurso delineado e percorrido para a atividade de Educação Ambiental – Pelos Caminhos do Rio Febros. Na tabela seguinte, encontram-se indicados os diferentes pontos de interesse e as diferentes problemáticas e temáticas a abordar no decorrer do percurso. FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 57 Tabela 11Pontos de passagem no percurso delineado para a atividade “Pelos Caminhos do Rio Febros” 1. Início do percurso 2. Porta de serviço de passagem 3. Entrada do Rio no Parque - Identificar as principais problemáticas 4. Caminho 1 - Curiosidades da vegetação ripícola 5. Saída de Caminho 1 para ponte 6. Passagem na Ponte - Importância dos amieiros e vegetação ripícolaHabitat 91E0 FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 58 7. Entrada para Caminho 2 8. Passagem no açude – Alertar para fauna ribeirinha 9.Açude - Explicar sua função 10. Desvio de rio para MoinhoPresença de espécies exóticas 11. Muro - Vida no muro e função do mesmo 12. Continuação do Caminho 2 - Recolha de macroinvertebrados FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 59 13Saída Caminho 2 . Moinho - Mostrar e explicar como funciona um moinho 15. Passagem na ponte de pedra 16. Entrada Caminho 3 17. Caminho para casa - Focar problemática da poluição agrícola 18. Passagem na casa - Focar problemática da poluição doméstica FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 60 19. Passagem nos viveiros - Explicar diferentes formas de reprodução vegetativa, como por exemplo a estacaria, utilzada como processo de Engenharia Natural e referir outras técnicas possíveis de reabilitação ribeirinha. 20. Engenho de Buchas – Explicar sua função e a existência de lençóis freáticos 21. Fim da passagem do rio no Parque 22. CharcoReferir outros habitats importantes para certas espécies como anfíbios 23. Pedreira -Explicação Geológica 24. Quinta e Capela de Santo Tusso - Agricultura Biológica - focar importância do não uso de agro-químicos. Lembrar antigas tradições. FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 61 Documentado por fotografias, encontramos na tabela 12 as diferentes atividades desenvolvidas num período de quatro semanas com quatro grupos de jovens da Universidade Júnior, num total de 87 participantes com idades compreendidas entre os 12 e 15 anos, ao longo de um dia completo. Tabela 12Ações desenvolvidas com jovens da Universidade Júnior Apresentação do Projeto Rios e seus objetivos Deslocação ao rio Preenchimento de fichas de campo Observação e identificação de espécies de fauna Recolha de parâmetros pH, nitratos, dureza Colheita de macroinvertebrados e sua importância como bioindicadores FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 62 Limpeza do leito do rio Recolha de lixo Descasque de Acácias Corte de Cana-Índica Arranque de Tradescância Além de ficarem a conhecer melhor a fauna e flora dos ecossistemas ribeirinhos, foram alertados para as diferentes problemáticas que neste momento assolam os nossos rios. Para tornar a participação mais dinâmica e interativa, os jovens deslocaram-se ao rio preencheram as fichas de campo do Projeto Rios (anexo C), efetuaram limpezas no leito e procederam ao controlo de plantas exóticas, através do descasque de acácia, arranque de tradescância e corte de cana-índica. FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 69 A temperatura está muito relacionada com a quantidade de oxigénio dissolvido. Quanto mais alta a temperatura, menos oxigénio dissolvido encontramos no rio e maior é a dificuldade para os animais respirarem. A temperatura é um parâmetro de grande importância, dado que tem influência na velocidade das reacções químicas, na solubilidade dos gases, na taxa de crescimento dos microrganismos, entre outras (Sousa, 2001). Certos organismos precisam de determinadas condições de temperatura da água para viverem e portanto uma variação significativa da temperatura pode provocar a diminuição da sua população ou até desaparecimento da mesma. Oxigénio dissolvido Todos os organismos vivos estão dependentes, de uma forma ou de outra, do oxigénio para manter a actividade metabólica que produz a energia necessária para o seu crescimento e para a reprodução. Nas massas de água, a solubilidade do oxigénio depende de diversos factores, dos quais se salientam a pressão atmosférica, a temperatura e a salinidade. À medida que a temperatura e a salinidade aumentam a solubilidade do oxigénio diminui. A baixa solubilidade do oxigénio na água limita a capacidade de autodepuração das águas naturais, o que torna necessário o tratamento das águas residuais antes da sua descarga nos meios receptores (linhas de água, lagos, naturais ou artificiais, e oceanos) (Sousa, 2001). CBO A carência bioquímica de oxigénio representa o oxigénio consumido pelos microrganismos na oxidação da matéria orgânica duma determinada água em condições aeróbias. Como este processo de oxidação é, ainda assim, duma certa lentidão, convencionou-se tomar, como parâmetro representativo do teor em matéria orgânica duma água, o valor da CBO ao fim de cinco dias de incubação, a 20 °C. CQO O teste da carência química de oxigénio mede a quantidade de oxigénio necessária para oxidar quimicamente, em determinadas condições, a matéria orgânica presente na água. Para este efeito, o oxigénio equivalente à matéria orgânica é medido pela utilização de um agente oxidante químico forte como o dicromato de potássio (K2 Cr2 O7). Este teste é particularmente útil para medir a matéria orgânica em águas residuais industriais e domésticas que contenham compostos tóxicos para os microrganismos. FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 70 Condutividade X A condutividade elétrica é uma medida da quantidade de substâncias inorgânicas dissolvidas na água, o que permite uma avaliação do seu grau de mineralização e de uma forma indireta, a concentração de poluentes existentes na mesma. pH A concentração do ião hidrogénio [H+] é um parâmetro de qualidade muito importante das águas naturais e das águas residuais porque o seu valor determina todos os equilíbrios que se estabelecem numa água (Sousa, 2001). De forma natural a geologia da bacia hidrográfica pode influenciar o pH das águas, por exemplo, bacias graníticas como é o caso do Rio Febros têm pH mais ácido. Por outro lado, os efluentes industriais com valores elevados de pH, podem originar grandes alterações do pH e assim provocar grandes danos nas comunidades do rio. Alcalinidade A alcalinidade de uma água é uma medida da sua capacidade de neutralização de ácidos. Corresponde à presença de sais de ácidos fracos, bases fortes e bases fracas. Dureza da água A Dureza da água mede a quantidade de sais de cálcio e magnésio dissolvida na água, em consequência da dissolução das rochas carbonatadas da bacia hidrográfica. Nas bacias onde predominam calcários os cursos de água apresentam elevados níveis de dureza. Existem organismos como os crustáceos ou moluscos que utilizam estes minerais para fabricarem as suas conchas. Embora a dureza da água não implique problemas para a saúde pública, pode trazer repercussões para o nosso quotidiano, como por exemplo afetar as resistências elétricas e degradar as canalizações. Sólidos Suspensos Totais Os sólidos em suspensão têm efeitos importantes sobre o rio e as suas comunidades, como por exemplo, a obstrução dos sistemas fisiológicos de organismos filtradores, o efeito abrasivo sobre as superfícies respiratórias e a limitação da visão dos predadores. Estas partículas limitam ainda a quantidade de luz que atravessa a água, diminuindo assim a capacidade fotossintética das comunidades vegetais. Esta turvação pode ser de origem natural, como no caso dos sedimentos que ocorrem durantes as chuvas fortes, ou de origem antropogénica através da extração de areias ou através dos sedimentos de águas residuais. FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 71 Azoto Este elemento é essencial para os sistemas biológicos, de tal forma que o tratamento biológico de águas residuais não pode ter êxito se não existir azoto suficiente para o desenvolvimento dos microrganismos. Azoto orgânico: azoto sob a forma de proteínas, aminoácidos e ureia. Amónia: azoto sob a forma de sais do ião amónia (NH4 +), como por exemplo (NH4)2 CO3, ou amónia livre. Nitritos (NO2 -): azoto que corresponde a um estádio intermédio de oxidação, não existindo normalmente em grandes quantidades dado que é bastante instável. Nitratos (NO3 -): azoto que corresponde a um produto final de oxidação. Os nitratos são o resultado da depuração natural do rio e são imprescindíveis para o crescimento das plantas. No entanto, um excesso deste componente pode provocar um crescimento excessivo de vegetação aquática e assim uma eutrofização, que irá diminuir a quantidade de oxigénio disponível na água e essencial para os organismos aquáticos. Os nitratos convertem-se em nitritos, composto, este tóxico para muitos organismos. Da mesma forma que no pH, a geologia e os resíduos de efluentes têm influência na presença de nitratos e nitritos, assim como os efluentes e escoamentos de origem agrícola. Fósforo A presença do fósforo na água pode se dar de diversas formas. A mais importante delas para o metabolismo biológico é o ortofosfato. Vestígios de sais de fósforo ocorrem naturalmente em muitas fontes de água e concentrações elevadas são associadas a efluentes de esgotos tratados e fertilizantes agrícolas. Concentrações elevadas de fósforo podem contribuir, da mesma forma que o azoto, para a proliferação de algas e acelerar o processo de eutrofização. A utilização crescente de detergentes de uso doméstico e industrial favorece muito o aumento das concentrações de fósforo nas águas. Por outro lado, o fósforo é um nutriente fundamental para o crescimento e multiplicação das bactérias responsáveis pelos mecanismos bioquímicos de degradação da matéria orgânica. FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 72 Metais Pesados Os metais pesados são poluentes inorgânicos provenientes, na sua maioria, de efluentes industriais e são altamente tóxicos para a vida aquática e são cumulativos no organismo e podem mesmo provocar diversos tipos de doenças no ser humano com a ingestão de pequenas doses. Os principais metais pesados presentes na água em forma dissolvida são o cádmio, chumbo, mercúrio, níquel e zinco. Em geral, as concentrações de metais pesados na água estão muito aquém dos padrões de qualidade estabelecidos. Por outro lado, a tendência dos metais pesados é de se aderirem aos sólidos em suspensão que por sua vez, sedimentam-se no fundo do leito. No anexo F, são indicados os valores limite para os diferentes parâmetros físico-químicos consoante as distintas classes (Tabela 21). Tabela 22Classes de qualidade da água e seu significado com cores Classe Nível da qualidade da água A Excelente Águas com qualidade equivalente às condições naturais, aptas a satisfazer potencialmente as utilizações mais exigentes em termo de qualidade B Boa Águas com qualidade ligeiramente inferior à classe A, mas podendo também satisfazer todas as utilizações C Razoável Águas com qualidade “aceitável”, suficiente para irrigação, para usos industriais e produção de água potável após tratamento rigoroso. Permite a existência de vida piscícola, mas com reprodução aleatória. Apta para recreio sem contacto direto. D Má Águas com qualidade “medíocre”. Apenas potencialmente aptas para irrigação, arrefecimento e navegação. A vida piscícola pode subsistir, mas de forma aleatória. E Muito má Águas extremamente poluídas e inadequadas para a maioria dos usos FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 73 4. Apresentação e Discussão de Resultados Tendo por base as ações desenvolvidas no decorrer deste trabalho, os resultados obtidos, encontram-se divididos em subcapítulos, consoante as diferentes temáticas abordadas. 4.1 Índices de Qualidade Para conseguir avaliar o grau de qualidade do canal e qualidade do bosque ribeirinho foram então utilizados os índices de GQC e QBR, anexo E e D, respetivamente. Os resultados obtidos, encontram-se descritos na tabela 23. Tabela 23Resultados obtidos nos 3 pontos de amostragem para os índices QBR E GQC. Local de amostragem Pontuação QBR Índice QBR Pontuação GCQ Índice GCQ Ponto 1 35 IV 18 IV Ponto 2 70 III 22 III Ponto 3 50 IV 17 IV Tanto para o ponto 1 como 3 os índices de QBR e GQC demonstram que o corredor ripário se encontra com grandes alterações, apresentando uma má qualidade. Já no ponto 2, talvez devido à existência de uma galeria ripícola já mais desenvolvida o canal e cortina ripária apresentam apenas início de alterações importantes mas com um grau de qualidade intermédio. 4.2 Análises Físico-Químicas Tendo como base os valores de referência da tabela no anexo F, é possível classificar o estado da qualidade da água do rio Febros, para os dados recolhidos pela ARH Norte no ponto demonstrado na figura 30 e descrito na tabela 24. As leituras para os parâmetros físico-químicos, Temperatura, Oxigénio dissolvido, pH, Condutividade, Sólidos Suspensos Totais, CBO, CQO, Nitratos e Ortofosfatos recolhidas no período de 04-042007 a 05-04-2011 e os dados consultados a 17-03-2015 no site do SNIRH. FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 74 Tabela 24Dados dos pontos de amostragem Nome Bacia Coord X (m) Coord_Y (m) Latitude (ºN) Longitude (ºW) Entidade Foz Febros Douro 163294 461364 41.12059 -85702 ARH Norte Figura 30Ponto de Estação de amostragem na Foz do Febros. Comparativamente, mas apenas para alguns dados (Temperatura, Oxigénio dissolvido, pH, Condutividade) teremos as leituras efetuadas com a sonda paramétrica a 08-04-2015 (figura 31) nos três pontos de amostragem selecionados no troço do rio. As leituras encontram-se descritas nos gráficos (figura 32 a 40). Figura 31Determinação, in situ, de parâmetros físico-químicos da água. FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 75 Figura 32Leituras de Temperatura para Foz do Febros e 3 pontos de amostragem Figura 33Leituras de Concentração de oxigénio dissolvido em mg/L para Foz do Febros e 3 pontos de amostragem Figura 34Leituras de pH para Foz do Febros e 3 pontos de amostragem. 11,3 15 19 16 11 11,5 13 16 19 17,5 11 10 10 20 18 18 11 11 25 17,8 14,2 19,7 20 14 18,4 18,3 18,9 0 5 10 15 20 25 30 Temperatura ºC Data Temperatura 9,6 9 8,1 8,1 9,4 5,5 8,2 7,9 6,4 6,7 7,6 7,41 7,93 6,21 0 2 4 6 8 10 12 Concentração de oxigénio dissolvido em mg/L Data Oxigénio dissolvido 7,4 6,7 7,5 7,6 7,4 7,6 7,6 7,23 7,26 7,25 7,42 6,98 7,21 7,3 7,24 7,2 7,1 7,5 7,4 7,3 7,6 7,5 6,86 7,12 7,43 6 6,5 7 7,5 8 8,5 pH Data pH Excelente Excelente Classificação da qualidade da água FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 76 Figura 35Leituras de Condutividade em uS/cm para Foz do Febros e 3 pontos de amostragem. Figura 36Leituras de Sólidos Suspensos totais em mg/L para Foz do Febros . 172 236 559 274 305 498 706 294 238 238 239 0 100 200 300 400 500 600 700 800 Condutividade em uS/cm Data Condutividade Excelente Classificação da qualidade da água FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 77 Figura 37Leituras de Carência Bioquímica de oxigénio em mg/L para Foz do Febros Figura 38Leituras de Carência química de oxigénio em mg/L para Foz do Febros. 52 10 10 67 32 14 39 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 Carência química de oxigénio (mg/L) Data CQO Excelente Boa Razoável Má CQO (mg/L) Classificação do curso de água FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 78 Figura 39Leituras de Concentração total de nitratos em mg/L NO3 para Foz do Febros. Figura 40Leituras de Concentração de Ortofosfatos em P2O5/L para Foz do Febros. Classificação da qualidade da água FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 85 Ao contrário do expectável e contrariando as ideias já pré-formadas para esta pergunta, à questão do que mais gostaram de fazer, os jovens preferiram as limpezas ao longo do leito do rio. Conjugando a possibilidade de entrada no rio (segunda resposta mais dada) com a possibilidade de poderem ajudar na limpeza do rio, apesar de terem de sujar as mãos e tratarem com o lixo diretamente, esta foi a atividade que mais “adeptos” juntou. Na categoria “Outras”, também uma das categorias mais respondidas a principal resposta foi a da possibilidade de conhecer novas partes do parque, inacessíveis ao visitante comum. Figura 46Respostas à pergunta “ O que mais gostaste?” Por fim, com a pergunta, “o que mudavas na atividade?”, tínhamos o objetivo primordial de ter ideia do poderíamos alterar em futuras atividades para assim irmos de encontro ao gosto e vontade dos que os jovens. A maioria, na realidade não mudaria nada, outros gostariam de ter tido a oportunidade de poder entrar no rio (visto só o poderem fazer com calçado apropriado), e na categoria outros, temos respostas tão variadas ou mesmo impraticáveis como “mergulhar no rio ou “andar de barco” e outras até se poder aplicar no futuro como ”plantar uma árvore”. Figura 47Respostas à pergunta “O que mudavas na atividade?” 17 8 28 7 14 13 O que mais gostou Estar no rio Fauna/Flor a Limpezas Exóticas 32 4 10 23 18 O que mudava Nada Limpezas Outros FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 86 5.Conclusões A despoluição das massas de água, envolvendo todos os focos de poluição química, orgânica e física deveria ser a intervenção primordial em qualquer projeto de reabilitação ou restauração ecológica. Para isso seria benéfico o levantamento de todos os, ainda existentes, pontos de possível contaminação ao longo de toda a bacia do rio Febros. No entanto, no decorrer deste trabalho, o levantamento dos possíveis focos de poluição foi apenas feito no troço localizado no Parque Biológico de Gaia. Apesar de tudo e como forma de sensibilização, a remoção de detritos e lixos menores encontrados ao longo do troço no Parque Biológico deve continuar a ser feito, com a ajuda de voluntários ou jovens inscritos na atividade de educação ambiental. A monitorização de alguns parâmetros físico-químicos de qualidade de água deveria ser realizada de uma forma mais assídua e com alguma regularidade de forma a detetar algumas irregularidades e alertar as identidades responsáveis. Favorecer a manutenção e desenvolvimento de vegetação ripícola autóctone deveria ser uma medida a implementar em conjunto com a referida acima. Devem-se preservar as árvores adultas, com ajuda de poda seletiva e poda de formação e proceder à plantação de novos exemplares já adultos ou recorrer à estacaria de exemplares já presentes no local. Aqui mais uma vez inseria-se em simultâneo a ideia de valorização, proteção e preservação do habitat natural de interesse comunitário 91E0 de Florestas de Amiais, para criação da galeria ripícola ao longo de todo o troço selecionado. Deve-se ter o cuidado de plantar espécies vegetais que disponibilizem alimento para as diversas espécies de fauna e com ciclos de vida distintos e complementares entre si, de forma a estar disponível ao longo de todo o ano (Ribeiro, 2009). Para ajudar nesta valorização e desenvolvimento da vegetação autóctone deve-se desenvolver um plano de controlo de espécies exóticas, principalmente as que apresentem um carácter infestante, como é o caso da tradescância. Outras atividades como descasque das acácias, controlo de bambu, canas-indicas e ligustros também devem ser incentivadas e desenvolvidas ações no sentido de travar o desenvolvimento desregrado destas espécies. Ações de forma a valorizar outros habitats associados e complementares ao rio Febros, como limpeza, manutenção de pequenos charcos são essenciais para manter a diversidade de habitats. Criar, favorecer ou manter estruturas de refúgio para fauna, como por exemplo manutenção de muros de pedra solta em complementaridade com FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 87 galeria ripícola desenvolvida, criar amontoados de pedra ou troncos, ou mesmo criar estruturas artificiais de refúgio, abrigos ou alimentação (caixas-ninho, comedouros) são exemplos de iniciativas que ajudam a fixação das diferentes espécies animais e assim o enriquecimento do património natural do local (Ribeiro, 2009). Qualquer intervenção efetuada, como já anteriormente referido, deve ter em atenção o ciclo de vida das espécies, de forma a evitar a mortalidade ou perturbação da fauna. O agendamento deve ter sempre em consideração os períodos mais sensíveis, como época de criação ou hibernação. Devem ser garantidas, de qualquer forma, possibilidade de passagem ou refúgio e mantida sempre a conectividade entre habitats ou locais com condições de forma a manter as populações. Aqui revela-se a importância de as intervenções no rio terem de ser feitas alternadamente entre as duas margens. No que diz respeito à implementação de um trilho interpretativo ao longo do troço do rio Febros no Parque Biológico de Gaia, este revela-se uma mais-valia tanto para diversificar o plano de atividades de Educação Ambiental do Parque Biológico, ampliar a área de acesso de visitação e valorizar certos locais, incentivando assim a sua recuperação (Capela de Santo Tusso, Engenho de Buchas e os diferentes charcos distribuídos ao longo do Parque). Relativamente à qualidade da água e no que se refere aos parâmetros analisados, os valores encontram-se bastante alterados e elevados para a CBO5, CQO e SST o que já por si só demonstra uma má qualidade da água. No entanto, outro parâmetro que deveria ter sido em conta e analisado seria o parâmetro biológico através da análise de coliformes fecais. Como referido por Carvalho em 2009 os valores de CF foram extremamente elevados, principalmente a jusante da ETAR, indicando uma forte contaminação por águas residuais. A elevadíssima contaminação de origem fecal, ultrapassou em 86 vezes o VMA para águas de banho (2000 ufc 100ml-1), durante o primeiro ano de amostragens, e excedeu esse limite em 38 vezes, durante o segundo ano, representando um importante risco potencial para a saúde humana. Estes valores representam, indubitavelmente, um enorme risco potencial para a saúde humana, impossibilitando que esta água seja utilizada para rega de produtos hortícolas e contacto direto como banhos e outros fins recreativos. Provavelmente, um tratamento terciário na ETAR seria aconselhável para remoção de bactérias, sólidos em suspensão, nutrientes em excesso e outros compostos tóxicos específicos. Por fim, salienta-se a importância e ambição de criação no Parque Biológico de Gaia de um espaço de demonstração de boas práticas de intervenção ribeirinha através do Laboratório de RioLabRios+ (Engenho e Rio, 2015). Esta seria certamente, uma mais-valia a complementar com a atividade de Educação Ambiental, dado este ser um excelente exemplo para sensibilização, tendo FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 88 agora em consideração, o público em geral, mas também um excelente exemplo de valorização e preservação destes locais. FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 89 Bibliografia Agência Portuguesa do Ambiente. (2015). Obtido em 7 de Março de 2015, de http://www.apambiente.pt/index.php?ref=16&subref=7&sub2ref=15&sub3ref=93 Alencoão, A., Costa, A., Monzón, A., Cortes, R., & Travassos, P. (2012). Biodiversidade Vila Real. Município de Vila Real. Amorim, L. (2002). Intervenções em Linhas de Água. Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte: Porto. 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FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 92 Anexos Anexo ALista de espécies REINO: ANIMALIA MAMÍFEROS Erinaceidae Ouriço-comum Erinaceus europaeus Talpidae Toupeira Talpa caeca Talpidae Toupeira-d'água Galemys pyrenaica Soricidae Musaranho Crocidura russula Rhinolophidae Morcego-deferradura-grande Rhinolophus ferrumequinum Vespertilionidae Morcego-anão Pipistrellus pipistrellus Vespertilionidae Morcego-de-água Myotis daubentonii Leporidae Coelho Oryctolagus cuniculus Sciuridae Esquilo Sciurus vulgaris Muridae Rato-toupeiro Pitymys lusitanicus Muridae Rato-de-água Arvicola sapidus Muridae Ratazana-cinzenta Rattus norvegicus Muridae Rato-do-campo Apodemus sylvaticus Muridae Rato-das-casas Mus musculus Muridae Rato-do-campo Microtus sp. Canidae Raposa Vulpes vulpes Mustelidae Fiunha Martes foina Mustelidae Doninha Mustela nivalis Mustelidae Texugo Meles meles Mustelidae Lontra Lutra lutra Viverridae Gineta Genetta genetta AVES Podicipedidae Mergulhão-pequeno Tachybaptus ruficollis FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 93 Ardeidae Garça-branca Egrettta garzetta Ardeidae Garça-boieira Bublucus ibis Ardeidae Garça-real Ardea cinerea Ciconiidae Cegonha-branca Ciconia ciconia Anatidae Pato-real Anas platyrhynchos Anatidae Marrequinho Anas crecca Accipitridae Águia-calçada Hieraaetus pennatus Accipitridae Águia-de-asaredonda Buteo buteo Accipitridae Açor Accipiter gentilis Accipitridae Gavião Accipiter nisus Accipitridae Milhafre-preto Milvus migrans Accipitridae Peneireiro-de-dorsomalhado Falco tinnunculus Phasianidae Perdiz-vermelha Alectoris rufa Phasianidae Faisão-de-caça Phasianus colchicus Rallidae Frango-d´água Rallus aquaticus Rallidae Galinha-d´água Gallinula chloropus Charadriidae Galispo Vanellus vanellus Scolopacidae Galinhola Scolopax rusticola Scolopacidae Maçarico-das-rochas Actitis hypoleucos Laridae Gaivota-de-asascinzentas Larus fuscus Laridae Gaivota-de-patasamarelas Larus chachinans Laridae Gaivota-argêntea Larus argentatus Columbidae Pombo-doméstico Columbia livia domesticus Columbidae Pombo-torcaz Columba palumbus Columbidae Rola-brava Streptopelia turtur Columbidae Rola-turca Streptopelia decaocto Cuculidae Cuco Cuculus canorus Strigidae Mocho-pequeno-deorelhas Otus scops FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 94 Strigidae Mocho-galego Athene noctua Strigidae Coruja-do-mato Strix aluco Tytonidae Coruja-das-torres Tyto alba Caprimulgidae Noitibó da Europa Caprimulgus europaeus Apodidae Andorinhão Apus apus Alcedinidae Guarda-rios Alcedo atthis Upupidae Poupa Upupa epops Picidae Peto-real Picus viridis Picidae Pica-pau-malhado Dendrocopos major Picidae Gira-pescoço Jynx torquilla Hirundinidae Andorinha-daschaminés Hirundo rustica Hirundinidae Andorinha-dosbeirais Delichon urbica Motacillidae Lavandisca-amarela Motacilla cinerea Motacillidae Lavandisca-cinzenta Motacilla alba Laniidae Picanço-real Lanius excubitor Sturnidae Estorninho-preto Sturnus unicolor Sturnidae Estorninho-malhado Sturnus vulgaris Corvidae Gaio Garrulus glandarius Corvidae Pega Pica pica Corvidae Gralha Corvus corone corone Troglodytidae Carriça Troglodytes troglodytes Prunellidae Ferreirinha Prunella modularis Sylviidae Rouxinol-bravo Cettia cetti Sylviidae Carriça-do-mato Cisticola juncidis Sylviidae Felosa-poliglota Hippolais polyglotta Sylviidae Toutinegra-dosjardins Sylvia borin Sylviidae Toutinegra-debarrete-preto Sylvia atricapilla Sylviidae Toutinegra-de-olhosvermelhos Sylvia melanocephala FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 101 Descrição O melro-d'água é um habitante típico da alta e média montanha, preferindo cursos de água de caudal razoavelmente rápido e águas límpidas, com rápidos ou pequenas cascatas com pedras expostas e cascalho. Este material emerso proporciona pousos preferenciais para a detecção, manuseamento e ingestão das presas. Quando as águas são batidas por correntes e redemoinhos, o fundo é rochoso e de baixa profundidade, a poluição inexistente e as margens dos cursos de água são constituídas por uma vegetação abundante, é provável a presença desta relíquia ornitológica. Normalmente, a localização do ninho encontra-se em cavidades ou saliências de rochas, próximas do nível da água, sendo mais comum atrás das cascatas onde estão a salvo da predação. Por vezes, nidificam em estruturas humanas relacionadas com os cursos de água (moinhos e pontes). Ameaças  Poluição de cursos de água  Destruição do coberto vegetal das margens.  Alteração do caudal e dinâmica dos cursos de água através dos planos de irrigação e os empreendimentos hidro-eléctricos  As alterações do uso das margens e leitos dos cursos de água  Utilização de adubos, pesticidas e herbicidas nas zonas de alimentação, contaminando e reduzindo os recursos alimentares Acções  Manter as áreas de habitat de suporte potencial para nidificação da espécie;  Condicionar intervenções nas margens e leitos das linhas de água;  Manter e melhorar as condições nos habitats de alimentação;  Restringir o uso de agro-químicos e adoptar técnicas alternativas;  Manter ou melhorar a qualidade da água num estado ecológico favorável à conservação da espécie.  Assegurar o caudal dos cursos de água adequado às necessidades ecológicas da espécie e que simule as variações naturais dos regimes hidrológicos.  Monitorizar o estado ecológico dos cursos de água, com particular ênfase dos parâmetros físico-químicos FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 102 Mauremys leprosa (Schweiger, 1812) Cágado-mediterrânico Taxonomia Kingdom Phylum Class Order Family ANIMALIA CHORDATA REPTILIA SQUAMATA BATAGURIDAE Descrição O corpo e a carapaça têm coloração cinzento-esverdeado ou castanho com manchas claras e difusas. O pescoço e patas anteriores apresentam linhas alaranjadas. O plastrão tem coloração esverdeada ou amarela com manchas pretas distribuídas simetricamente. Os tamanhos máximos medidos foram de 189mm e 212 mm para machos e fêmeas respectivamente, factor que distingue os sexos assim como o facto do plastrão no macho apresentar uma ligeira concavidade para facilitar a cópula. È uma espécie de hábitos diurnos (Ferrand de Almeida et al. 2001). Justificação Espécie não se encontra catalogada a nível global pela IUCN mas a nível nacional segundo Cabral et al tem estatuto Pouco preocupante (LC) mas está presente no anexo II e IV da Directiva Habitats e anexo II da Convenção de Berna. Houve uma redução na sua área de distribuição, ocorreu a extinção de algumas populações e verificou-se a diminuição do número de efectivos noutras. A tardia maturidade sexual das fêmeas - cerca dos 6-10 anos de idade (Da Silva 2002) contribui para uma reduzida taxa de crescimento populacional. Requisitos ambientais O Cágado-mediterrânico pode ser encontrado numa grande variedade de habitats aquáticos, dulciaquícolas ou de baixa salinidade, de águas paradas ou de corrente lenta, permanentes ou temporárias, como charcos, pauis, represas, albufeiras, ribeiras e rios), preferindo locais com elevada cobertura de vegetação aquática e elevada insolação das margens. (Ferrand de Almeida et al. 2001) A sua alimentação é à base de uma elevada componente vegetal e de invertebrados, o que está de acordo com a sua preferência por locais com maior cobertura de vegetação, podendo ainda incluir peixes e anfíbios (larvas e adultos) (Ferrand de Almeida et al. 2001). FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 103 Ameaças  A drenagem e aterro de zonas húmidas para aproveitamento agrícola, florestal e/ ou urbanístico o que leva ao desaparecimento e fragmentação dos habitats desta espécie.  A destruição da vegetação ripícola reduz as condições de abrigo e de alimentação e provoca mortalidade dos próprios indivíduos, pela maquinaria utilizada no processo.  A regularização de sistemas hídricos leva à destruição total da mata ripícola e vegetação aquática, provocando a diminuição e homogeneização do habitat e destruição de posturas  A sobre-exploração dos recursos hídricos, provoca a diminuição dos caudais, reduzindo drasticamente o habitat disponível e concentração de substâncias poluentes.  A construção de empreendimentos hidráulicos e hidroeléctricos provoca alteração do regime hídrico,  A poluição resultante de descargas de efluentes não tratados de origem industrial, urbana e de unidades de pecuária, a par com  Utilização de pesticidas e fertilizantes na agricultura, cria situações de elevada eutrofização do meio, com a consequente perda da qualidade da água  As capturas ilegais para animais de estimação, fabrico de objectos ornamentais e alimentação (petisco gastronómico)  Por outro lado, a mortalidade por afogamento devida às redes e outras artes de pesca utilizadas em habitats dulciaquícolas,  Introdução de espécies animais exóticas como por exemplo a tartaruga-verde Trachemys scripta leva a introdução de doenças e parasitas e alteração de cadeia alimentar  Introdução de espécies vegetais exóticas infestantes, como o jacinto-de-água, são também um problema pois aumentam os níveis de eutrofização, causando a diminuição da qualidade da água Acções  Conservação e/ou recuperação da vegetação ripícola autóctone, sem prejuízo das limpezas necessárias ao adequado escoamento.  Remover espécies vegetais exóticas.  Consolidação das margens, limpeza do leito e corte de vegetação marginal  Condicionar a extracção de inertes nos locais conhecidos e/ou prováveis de ocorrência da espécie,  Condicionar a regularização dos sistemas hídricos em áreas de ocorrência da espécie  Restringir a captação de água, nas zonas mais sensíveis e durante os meses de menor escoamento  Manter ou melhorar a qualidade da água  Implementar a construção de pequenos açudes, complementados com vegetação natural  Restringir o uso de agro-químicos, adoptando técnicas alternativas como a protecção integrada e outros métodos biológicos.  Monitorizar a qualidade da água FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 104  Salvaguardar de pastoreio áreas consideradas mais sensíveis  Regulamentar a actividade piscatória com redes  Controlar e erradicar introduções de espécies não autóctones,  Informar e sensibilizar o público para a importância da espécie bem como da conservação do seu habitat.  Promover estudos sobre a ecologia da espécie Rana iberica (Boulenger, 1879) Rã-Ibérica Taxonomia Reino Filo Classe Ordem Familia ANIMALIA CHORDATA AMPHIBIA ANURA RANIDAE Descrição Rã de tons acastanhados que raramente ultrapassa os 55 mm. Cabeça com focinho pontiagudo com olhos proeminentes grandes e pupila horizontal elíptica. Membros anteriores com quatro dedos e posteriores muito compridos, adaptados ao salto, com cinco dedos com membranas interdigitais bem desenvolvidas que fazem dela também uma excelente nadadora. Pregas cutâneas dorso-laterais paralelas e bem separadas entre si que se estendem desde o olho até à parte posterior do corpo. Justificação A rã-ibérica é uma espécie classificada como Quase Ameaçada (NT) de acordo com a IUCN e integra o Anexo IV da Directiva Habitats e o apêndice II da Convenção de Berna. Trata-se de uma espécie endémica do quadrante norocidental da Península Ibérica. Requisitos ambientais A rã-ibérica é uma espécie associada a ribeiros com água corrente, fresca e oxigenada, podendo ser encontrada tanto dentro de água como nas suas imediações, desde que aí haja locais frescos e húmidos. O desenvolvimento larvar ocorre dentro de água, normalmente em zonas de remanso de ribeiros. Habita tipicamente em zonas montanhosas, junto a ribeiros de água limpa, com substrato rochoso e vegetação abundante nas margens. Pode ainda ser observada numa grande variedade de habitats, incluindo charcos, prados húmidos e terrenos encharcados, normalmente com abundante vegetação herbácea ou arbórea envolvente. A sua dieta baseia-se em pequenos invertebrados, tais como aranhas, larvas de insectos, caracóis e escaravelhos. FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 105 Ameaças  Poluição dos cursos de água por efluentes industriais e domésticos  Destruição dos habitats ribeirinhos, devido a construção urbanística, agricultura intensiva e monoculturas florestais de produção.  O abandono de algumas práticas agrícolas tradicionais, como os lameiros  Utilização de adubos, pesticidas e herbicidas nas zonas de alimentação, contaminando e reduzindo os recursos alimentares.  Desertificação e perda de habitat por construção de barragens  Disseminação de doenças infecciosas  Alterações climáticas  Introdução de espécies exóticas predadoras como o Visão-americano  Incêndios florestais  Perseguição por mitos, superstições  Morte por atropelamento Acções  Protecção e manutenção dos habitats, particularmente dos pequenos ribeiros de regiões montanhosas, bem como dos bosques ribeirinhos e florestas caducifólias que os rodeiam  Estabelecer planos de reflorestação em áreas degradadas com condições apropriadas para a ocorrência da espécie.  Manter ou melhorar a qualidade da água num estado ecológico favorável à conservação da espécie.  Assegurar o caudal dos cursos de água adequado às necessidades ecológicas da espécie e impedir o seu encanamento  Preservar os meios aquáticos associados a prados húmidos, incluindo os lameiros e as turfeiras. Chioglossa lusitanica (Bocage, 1864) Salamandra-lusitânica Taxonomia Reino Filo Classe Ordem Família ANIMALIA CHORDATA AMPHIBIA CAUDATA SALAMANDRIDAE FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 106 Descrição Os machos têm o abdómen azul vivo com uma risca dorsal negra, o tórax e a cabeça são verdes e possuem olhos azuis ou esverdeados proeminentes. As fêmeas apresentam o tórax e o abdómen esverdeados e coloração acastanhada nos últimos segmentos do abdómen. Ambos os sexos têm patas castanhas, exibindo uma cor amarelada na base. As asas possuem veios negros e com e a idade ganham uma tonalidade amarelada acastanhada. As larvas aquáticas (ninfas) são acastanhadas, possuem a cabeça arredondada e olhos grandes. Os adultos atingem 78 mm de comprimento e 106 mm de envergadura. As larvas medem entre 45 a 66 mm de comprimento. Justificação É a maior libélula da fauna portuguesa. São sensíveis à poluição aquática e considerados óptimos bioindicadores. Requisitos Habita charcos, lagos, lagoas, tanques, canais de irrigação ou cursos de água lentos com vegetação aquática abundante. Durante o estado larvar (fase aquática), possui uma máscara bucal muito potente que a ajuda a alimentar-se de diversos animais aquáticos como larvas e adultos de anfíbios, pequenos peixes, crustáceos, moluscos, larvas de mosquitos e outros invertebrados. Na fase aérea continua a ser um predador voraz alimentando-se de outras libélulas e libelinhas, borboletas e outros insectos voadores. Ameaças  Alterações climáticas  Contaminação de solos e massas de água  Perda de habitat  Introdução de espécies exóticas  Captação de água  Fragmentação dos habitats através da construção de barragens  Uso de herbicidas e pesticidas Acções  Conservação e recuperação de meios aquáticos  Controlo e eliminação de vegetação e fauna exóticas  Corte e limpeza de vegetação em épocas apropriadas  Restringir o uso de agro-químicos, adoptando técnicas alternativas, como a protecção integrada e outros métodos biológicos  Estudo e monitorização da espécie FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 107 Luciola lusitanica (Charpentier, 1825) Pirilampo-lusitânico Taxonomia Reino Filo Classe Ordem Família ANIMALIA ARTHROPODA INSECTA COLEOPTERA LAMPYRIDAE Justificação O estatuto de conservação dos pirilampos é actualmente desconhecido em Portugal, devido às lacunas de informação sobre a sua distribuição, ecologia e factores de ameaça, para além do inventário não estar ainda concluído. No entanto são excelentes bioindicadores e como animal tão curioso e peculiar que é, vale a pena preservar e conhecer melhor. Requisitos Uma vez que a visualização, pelos machos, da luz emitida pelas fêmeas é essencial para a reprodução da espécie, as condições de obscuridade natural ao crepúsculo e início da noite constituem uma característica fundamental do seu habitat. Como são carnívoros e alimentam-se de caracóis e outros vermes é importante o uso de outros métodos de controlo que não herbicidas ou pesticidas. Descrição O corpo é mole e achatado e as asas anteriores têm consistência coriáceas, ou seja menos enrijecidas do que na maioria dos coleópteros. A característica mais familiar dos pirilampos prende-se como facto de todas as larvas e adultos emitirem luz. Esta emissão de luz resulta de uma reacção química na qual uma substância, denominada luciferina é transformada por acção da enzima luciferase. As larvas emitem luz para protecção, enquanto os adultos o fazem para atrair e encontrar parceiros. A Luciola lusitanica é a única espécie ibérica que emite flashes amarelos, tanto macho como fêmea e larva mas o macho fá-lo em voo. A cabeça da larva está munida de duas mandíbulas fortes, atravessadas por um pequeno canal. Estas mandíbulas são utilizadas pelo pirilampo para morder a presa e injectar-lhe uma substância anestesiante e enzimas digestivas. A presa fica liquefeita e o pirilampo alimenta-se do suco. FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 108 Ameaças  A poluição luminosa e Excesso de iluminação artificial interfere com os movimentos e o comportamento reprodutor através da atracção, pelas fontes de iluminação artificial, dos indivíduos em busca de parceiro, distraindo-os dessa busca e provocando uma redução da eficiência reprodutiva das populações  Uso de pesticidas para controlo de caracóis e lesmas provoca um efeito negativo pela redução da disponibilidade de alimento  Limpezas de vegetação sem controlo  Invasão de vegetação exótica nomeadamente por Tradescantia  Alterações climáticas  Incêndios florestais Acções  Preservação do habitat  Conservação da vegetação autóctone  Controlo e eliminação de espécies vegetais infestantes  Cortes e limpeza de vegetação em épocas apropriadas  Restringir o uso de agro-químicos, adoptando técnicas alternativas, como a protecção integrada e outros métodos biológicos, em áreas contíguas ao habitat da espécie. Anax imperator (Leach, 1815) Libelinha Taxonomia Reino Filo Classe Ordem Família ANIMALIA ARTHROPODA INSECTA ODONATA AESHNIDAE Justificação É a maior libélula da fauna portuguesa. São sensíveis à poluição aquática e considerados óptimos bioindicadores. FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 109 Descrição Os machos têm o abdómen azul vivo com uma risca dorsal negra, o tórax e a cabeça são verdes e possuem olhos azuis ou esverdeados proeminentes. As fêmeas apresentam o tórax e o abdómen esverdeados e coloração acastanhada nos últimos segmentos do abdómen. Ambos os sexos têm patas castanhas, exibindo uma cor amarelada na base. As asas possuem veios negros e com e a idade ganham uma tonalidade amarelada acastanhada. As larvas aquáticas (ninfas) são acastanhadas, possuem a cabeça arredondada e olhos grandes. Os adultos atingem 78 mm de comprimento e 106 mm de envergadura. As larvas medem entre 45 a 66 mm de comprimento. Requisitos Habita charcos, lagos, lagoas, tanques, canais de irrigação ou cursos de água lentos com vegetação aquática abundante. Durante o estado larvar (fase aquática), possui uma máscara bucal muito potente que a ajuda a alimentar-se de diversos animais aquáticos como larvas e adultos de anfíbios, pequenos peixes, crustáceos, moluscos, larvas de mosquitos e outros invertebrados. Na fase aérea continua a ser um predador voraz alimentando-se de outras libélulas e libelinhas, borboletas e outros insectos voadores. Ameaças  Alterações climáticas  Contaminação de solos e massas de água  Perda de habitat  Introdução de espécies exóticas  Captação de água  Fragmentação dos habitats através da construção de barragens  Uso de herbicidas e pesticidas Acções  Conservação e recuperação de meios aquáticos  Controlo e eliminação de vegetação e fauna exóticas  Corte e limpeza de vegetação em épocas apropriadas  Restringir o uso de agro-químicos, adoptando técnicas alternativas, como a protecção integrada e outros métodos biológicos  Estudo e monitorização da espécie FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 110 Anexo CFicha Projecto Rios FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 117 FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 118 Anexo FTabela adoptada com valores limite para os diferentes parâmetros físico-químicos FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 119 Anexo GInquéritos Inquérito (antes) Nome I__________________________________________________________________________________I Residência |_______________________________________________________________I Idade |______| SIM NÃO 1. Consideras a passagem do rio Febros no Parque Biológico uma mais valia para a sua paisagem? Porquê? 2. Achas que a qualidade da água do rio é boa? Porquê? 3. Conheces alguma fauna típica do ecossistema ribeirinho? Se respondeste SIM, indica PF alguns exemplos 4. Conheces alguma flora típica do ecossistema ribeirinho? Se respondeste SIM, indica PF alguns exemplos de espécies de flora ribeirinha que conhece 5. Sabes da existência de alguma ETAR no Febros? 6. Sabes qual a função de uma ETAR? Se sim, explica qual, resumidamente 7. Achas importante a existência de uma ETAR? 8. Entre os problemas mencionados em seguida diz quais são, para ti, os mais importantes Poluição Industrial Construções no leito de cheia Poluição doméstica Presença de espécies exóticas Poluição agrícola Falta de conhecimento e envolvimento da população Despejo de lixos e entulhos 9. Entre as soluções quais seriam, para ti, as melhores Entubar a linha de água Melhorar qualidade da água Saneamento Construir acessos e habitações Criar zonas de lazer Aumentar a vegetação ribeirinha Aumentar campos agrícolas até à margem Envolver e melhorar o conhecimento da população 10. A tua escola desenvolve alguma actividade com rios? 11. O que esperas deste dia em volta do rio? FCUP Educar para a Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos: O Caso do Rio Febros no Parque Biológico de Gaia 120 Inquérito (depois) SIM NÃO 1. Consideras a passagem do rio Febros no Parque Biológico uma mais valia para a sua paisagem? Porquê? 2. Achas que a qualidade da água do rio é boa? Porquê? 3. Conheces alguma fauna típica do ecossistema ribeirinho? Se respondeste SIM, indica PF alguns exemplos 4. Conheces alguma flora típica do ecossistema ribeirinho? Se respondeste SIM, indica PF alguns exemplos de espécies de flora ribeirinha que conhece 5. Sabes da existência de alguma ETAR no Febros? 6. Sabes qual a função de uma ETAR? Se sim, explica qual, resumidamente 7. Achas importante a existência de uma ETAR? 8. Entre os problemas mencionados, diz quais foram, para ti, os mais importantes Poluição Industrial Construções no leito de cheia Poluição doméstica Presença de espécies exóticas Poluição agrícola Falta de conhecimento e envolvimento da população Presença de lixos e entulhos Outros (quais?) 9. Entre as soluções quais seriam, para ti, as melhores Entubar a linha de água Melhorar a qualidade da água Saneamento Construir acessos e habitações Criar zonas de lazer Aumentar a vegetação ribeirinha Aumentar campos agrícolas até à margem Envolver e melhorar o conhecimento da população Outros (quais?) 10. O que esperavas deste dia em volta do rio foi concretizado? 11. O que gostaste mais? 12. O que mudavas neste dia ou gostarias ter feito e não fizeste? Após preenchido, P.F. entrega às monitoras. Obrigada pela colaboração!