scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental

João David Ferreira Lapa

Abstract

Esta dissertação resultou de um processo de continuidade relativamente a uma experiência prática antecedente à sua realização, no âmbito da disciplina de Projeto IV, durante o ano letivo 2012/13, e que consistiu no desenvolvimento de uma proposta para um edifício de planta circular. Atualmente, no panorama urbanístico e arquitetónico ocidental, em geral, a planta circular é ainda vivenciada de um modo excecional relativamente ao tecido edificado existente. Na maioria das obras em que surge utilizada, verifica-se que a sua adoção resulta normalmente, de uma aplicação de um programa de uso igualmente muito específico. Este estudo, procura demonstrar que ao longo da História se verifica a existência de uma multiplicidade de exemplos de planta circular, que possuem uma elevada heterogeneidade programática, assim como adquiriram um elevado grau de complexidade na sua geometria de compartimentação. Existiu sempre durante a realização deste trabalho, o critério de manter à margem qualquer abordagem quantitativa ou absoluta, sobre o tema da planta circular. Trata-se sobretudo, de um estudo que se debruça essencialmente em matéria relativa ao posicionamento da geometria do círculo no contexto historiográfico da arquitetura ocidental, assim como nas questões de natureza plástica, no que respeita essencialmente à exploração desta geometria para fins espaciais e utilitários. Este trabalho, conta também com o desenvolvimento de um estudo tipológico experimental, onde foram considerados alguns dos problemas inerentes à especificidade da "planta circular" enquanto base formal na conceção de espaço. No campo bibliográfico, ainda se verifica uma certa escassez de abordagens específicas ao tema, o que se tornou também um fator de motivação para o investimento neste estudo.

Full text

FAUP ANO LETIVO 2014/2015 Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental João David Ferreira Lapa DISSERTAÇÃO DE MESTRADO APRESENTADA À FACULDADE DE ARQUITETURA DA UNIVERSIDADE DO PORTO EM ARQUITETURA SOB ORIENTAÇÃO CIENTÍFICA DO PROFESSOR DOUTOR MANUEL GRAÇA DIAS Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental Agradecimentos O espaço limitado da seção de agradecimentos, seguramente, não me permite agradecer, como devia, a todas as pessoas que, ao longo do meu Mestrado em Arquitetura me ajudaram, directa ou indirectamente, a cumprir os meus objetivos e a realizar mais esta etapa da minha formação académica. Desta forma, deixo apenas algumas palavras, mas um sentido e profundo e reconhecido agradecimento: ao Professor Doutor Manuel Graça Dias, pela orientação e apoio incondicionais que muito elevaram os meus conhecimentos e, sem dúvida, muito estimularam o meu desejo de querer, sempre, saber mais e a vontade constante de querer fazer melhor. à minha família, em especial, à minha namorada e aos meus pais e irmão, um enorme obrigado por acreditarem sempre em mim. Espero que esta etapa, que agora termino, possa, de alguma forma, retribuir e compensar todo o carinho, apoio e dedicação que, constantemente, me ofereceram. A eles, dedico todo este trabalho. Agradecimentos Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental Índice Resumo 5 Abstract 7 Objeto / Objetivo / Metodologia 9 1 INTRODUÇÃO 13 Introdução Geral 15 1.1 Primeiras aparições da planta circular na arquitectura ocidental 19 1.2 Evolução da planta circular na arquitetura ocidental: Contextualização e Excecionalidade 31 1.2.1 1.2.2 1.2.3 1.2.4 1.2.5 1.2.6 1.2.7 1.2.8 1.2.9 1.2.10 Primeiras cidades Cidades da Antiga Mesopotâmia e Antigo Egipto Arquitetura do Mar Egeu e Oriente Menor Arquitetura Grega Arquitetura Etrusca Arquitetura Castreja e Citanense Arquitetura Romana Arquitetura Paleocristã e Bizantina Arquitetura Românica Arquitetura Gótica 31 39 47 51 55 57 61 69 75 79 Índice 1.2.11 1.2.12 1.2.13 1.2.14 1.2.15 Arquitetura Renascentista e Maneirista Arquitetura Barroca Arquitetura Neoclássica e Historicista Arquitetura do Movimento Moderno Da arquitetura Pós-Moderna à Contemporaneidade 83 91 95 103 107 2 VARIAÇÕES TIPOLÓGICAS DA PLANTA CIRCULAR 113 2.1 2.2 2.3 2.4 2.5 2.6 2.7 2.8 2.9 Neutro Peristilo Deambulatório Arena Pátio Panóptico Híbrido Compósito - Compósito-Hall Compósito - Claustro/Pátio 117 123 129 135 139 143 145 151 159 3 PROPOSTA DESENVOLVIDA EM PROJETO IV: ANÁLISE E REFLEXÃO CRÍITICA 165 3.1 3.2 3.3 Dados gerais acerca do projeto Principais condicionalismos atribuídos ao uso da planta circular Base para uma proposta alternativa 167 171 175 4 CONCLUSÃO 179 5 BIBLIOGRAFIA 185 6 ANEXOS 199 Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 5 Resumo Esta dissertação resultou de um processo de continuidade relativamente a uma experiência prática antecedente à sua realização, no âmbito da disciplina de Projeto IV, durante o ano letivo 2012/13, e que consistiu no desenvolvimento de uma proposta para um edifício de planta circular. Atualmente, no panorama urbanístico e arquitetónico ocidental, em geral, a planta circular é ainda vivenciada de um modo excecional relativamente ao tecido edificado existente. Na maioria das obras em que surge utilizada, verifica-se que a sua adoção resulta normalmente, de uma aplicação de um programa de uso igualmente muito específico. Este estudo, procura demonstrar que ao longo da História se verifica a existência de uma multiplicidade de exemplos de planta circular, que possuem uma elevada heterogeneidade programática, assim como adquiriram um elevado grau de complexidade na sua geometria de compartimentação. Existiu sempre durante a realização deste trabalho, o critério de manter à margem qualquer abordagem quantitativa ou absoluta, sobre o tema da planta circular. Trata-se sobretudo, de um estudo que se debruça essencialmente em matéria relativa ao posicionamento da geometria do Resumo 6 círculo no contexto historiográfico da arquitetura ocidental, assim como nas questões de natureza plástica, no que respeita essencialmente à exploração desta geometria para fins espaciais e utilitários. Este trabalho, conta também com o desenvolvimento de um estudo tipológico experimental, onde foram considerados alguns dos problemas inerentes à especificidade da "planta circular" enquanto base formal na conceção de espaço. No campo bibliográfico, ainda se verifica uma certa escassez de abordagens específicas ao tema, o que se tornou também um fator de motivação para o investimento neste estudo. Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 7 Abstract This dissertation resulted from a continuing process regarding a practical experience carried out prior to this study, within the discipline of Project IV, which consisted on the development of a proposal for a circular plan building. Currently, in the western urban and architectural landscape, in general, the circular plan is still experienced in an exceptional manner relatively to the existing build-up structure. In most of the constructions where it’s used, it is found that its adoption results normally of the application of a program for a very specific use. This study attempts to demonstrate that throughout History can also be seen the existence of a plurality of circular plan examples, which have a high programmatic heterogeneity, as well as, have gained a high degree of complexity in their compartmentalization geometry. In this work has always existed the criteria of keeping on the sidelines any quantitative or absolute approach, on the issue of circular plan. It is primarily a study that focuses essentially on matters relating to the positioning of the circle geometry in the historiography context of Western architecture, as well as on the issues of plastic nature, with mainly regard to the exploitation of this geometry for space and utilities purposes. 14 Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 15 1 Introdução Geral 1 O círculo enquanto figura, está diretamente relacionado com a noção de centro. Geometricamente a sua forma resulta da extensão contínua de um ponto (uma linha) equidistantemente de um ponto central. Segundo a definição simbólica sugerida por vários autores como Jean Chevallier e Alain Gheerbrant na sua obra Dictionnaire des symboles (1991), ou Federico Revilla, no Diccionario de Iconografia y Simbologia (1995), a forma circular foi adquirindo ao longo do tempo múltiplos significados consoante os diferentes contextos culturais e geográficos, mas encontrando-se porém, globalmente associada à ideia de unidade, perfeição, harmonia, continuidade, ou eternidade. Desde a Antiguidade que a forma da roda estava associada a 1 Rilke, 1926, apud Bachelard 2000 [1957]: 242; Arvore sempre no meio De tudo o que a cerca Arvore que saboreia Toda abóbada dos céus1 1. Introdução Geral 16 uma representação da ideia cíclica do tempo; para a sua medição, na antiga Babilónia, era utilizado o círculo num processo que se desenvolvia através da sua subdivisão radial; o seu nome, shar designava o universo, o cosmos. A especulação religiosa Babilónica extraiu daí a noção de tempo infinito, cíclico, universal, que é transmitida na Antiguidade; na época grega por exemplo, sob a imagem da serpente que morde a própria cauda (Chevallier & Gheerbrant, 1994). No zodíaco o círculo representa o Sol. Também para os Índios da América do Norte a forma circular era o símbolo do tempo; representava igualmente o Sol e a Lua, nas suas várias fases, que eram círculos por cima do mundo, assim como a circularidade das suas trajetórias ao longo do ano (Chevallier & Gheerbrant, 1994). Na Antiga Grécia, matemáticos e filósofos neoplatónicos defendiam a hipótese de as órbitas dos astros se desenvolverem em trajetórias perfeitas, ou seja, circulares. No budismo Zen o círculo representava a iluminação: o mesmo que dizer o sentido da perfeição humana. Na cultura celta teria um significado mágico, sagrado, e até mesmo religioso (Chevallier & Gheerbrant, 1994). Na igreja católica o círculo também chega a ter um significado divino. Na liturgia, a óstia que simboliza o corpo de Deus possui forma circular. O trio da Santíssima Trindade é também representado através de três círculos que se intersetam. Durante o século XX, também o pintor Wassily Kandinsky sugeriu o círculo como a forma mais pura de movimento, forma cósmica, podendo nascer unicamente pelo desprendimento dos seus laços terrestres (Revilla, 1995). Precisar com exatidão as primeiras construções em que a planta circular teria sido adotada no contexto ocidental revelou-se uma tarefa particularmente difícil. Porém, numa fase inicial deste trabalho surgem referenciados alguns exemplos que remontam ao período Préhistórico, através dos quais se procura um entendimento sobre algumas das principais razões terão motivado o Homem a construir espaços de Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 17 planta circular. Dever-se-ia a alguma exigência mais pragmática, funcional ou do âmbito construtivo? Ou resultaria de algum tipo de crença, sendo a sua configuração o reflexo de manifestações de cariz metafísico? No âmbito arquitetónico, surge referenciada a tendência da circularidade na configuração dos santuários dos povos nómadas, enquanto uma configuração quadrada nos dos povos sedentários (Chevallier & Gheerbrant, 1994). Em contraposição ao círculo encontra-se o quadrado, e a relação entre ambas as formas é simbolicamente muito eloquente; vários estudiosos evidenciam o seu contraste como uma representação das dicotomias céu-terra, perfeição-imperfeição, estabilidade-mutação. O esquema do quadrado, encimado por um arco (fragmento do círculo) ou prolongado por um arco na horizontal, a estrutura cubo-cúpula, tão frequente na arte muçulmana como na arte romana, materializam a dialética do terrestre e do celeste, do imperfeito e do perfeito. (Revilla, 1995). Na arquitetura religiosa bizantina e muçulmana, é também comum verificar-se a combinação entre massas cúbicas e semiesféricas, como simbolismo da passagem do mundano ao sobrenatural, traduzindo ao espaço edificado o movimento místico da alma que se eleva (Chevallier & Gheerbrant, 1994). Num período mais tardio, também Palladio descreveu o círculo como sendo a forma mais adequada para representar a unidade, a essência infinita, a uniformidade e a justiça de Deus (Revilla, 1995). Todavia, além da reflexão inicial acerca das possíveis razões que possam estar na origem do tema da circularidade no contexto arquitetónico, outra questão particularmente inquietante e que manteve um permanente interesse ao longo deste trabalho, prende-se com o caráter de excecionalidade que os edifícios de planta circular adquiriram no contexto urbano ocidental. Partindo de uma observação direta dos diferentes contextos urbanos atuais na Europa Ocidental, desde os aglomerados mais 1. Introdução Geral 18 concentrados aos mais fragmentados, ou considerando até unidades edificadas mais isoladas, independentemente da sua dimensão, que fatores poderão estar na base deste fenómeno de excecionalidade, que os edifícios de planta circular manifestam entre as variadíssimas composições edificadas? Trata-se de um fenómeno que remonta desde à quanto tempo? Terá sido constante ao longo da evolução da arquitetura que se foi desenvolvendo nos diferentes contextos urbanos do mundo ocidental? Ou ter-se-ão verificado exceções, ou seja, a existência de assentamentos em que as edificações de planta circular seriam a regra? Na tentativa de traçar uma evolução do fenómeno de excecionalidade da adoção da planta circular, e tendo em conta os prolongados processos de consolidação urbana que se foram verificando ao longo do tempo no contexto ocidental da Europa, procurou-se fazê-lo não apenas de um modo limitado aos temas arquitetónicos diretamente ligados ao edifício per si, mas também considerando como base algumas questões de natureza urbanística. Tendo em conta a existência de uma notável diversidade de tipologias entre alguns dos vários exemplos de planta circular analisados ao longo deste estudo, assim como uma evolução no sentido de uma crescente complexidade tipológica ao longo do tempo, existe um campo de relações possíveis que podem ser estabelecidas entre os vários modelos tipológicos. Que semelhanças poderão existir entre a planta de um templo grego e um parque de estacionamento do século XX? Ou entre uma habitação castreja e uma igreja do século XV? Assim como também entre a estrutura tipológica da Villa Capra (Rotonda) de Palladio, e a Biblioteca de Estocolmo de Asplund, do século XX? Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 19 1.1 Primeiras aparições da planta circular na arquitectura ocidental Embora sejam escassos vestígios de construções artificialmente construídas pelo homem, que remontam ao período Paleolítico, Leonardo Benevolo & Benno Albrecht na sua obra intitulada Le origini dell'architettura (2002), referem que é sobretudo o período de passagem para o Neolítico que marca o inicio da arquitectura, no sentido em que o homem passa a dominar a capacidade de manipulação do território habitado, desenvolvendo estruturas nas quais imprime uma linguagem intelectual que denota o novo agente que surgiu no mundo (Benevolo & Albrecht, 2003: 59). Contudo, a historiografia em geral sustenta que durante o período Paleolítico, as cavernas terão sido os locais preferencialmente utilizados como habitat pelo ser humano. Registos gráficos, que constituem a arte rupestre, demonstram, que o homem desenvolvia manifestações com um caráter mais profundo no espaço interior, superando as mais básicas funções de abrigo e proteção. (Fig. 1.1-1) Benevolo & Albrecht (2003) consideram que as mais primitivas formas de construção do Neolítico podem ser classificadas de acordo com três diferentes atitudes: 1.2 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Primeiras cidades 20 [...] mantê-la ao nível do terreno circundante, elevá-la a um nível superior ou encaixá-la a um nível inferior; para realizá-las é preciso recorrer a três operações diferentes: aplanar o terreno, juntar material para obter uma elevação, ou retirar material para obter uma escavação. Se for possível, essas três operações Fig. 1.1-1 - Cavernas de Lascaux: desenhos superiores a e b - cortes; desenho inferior - planta Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 21 tornam-se complementares, de modo a compensar entre si as movimentações de terras. Assim tiveram origem os terraços sobrelevados do Médio Oriente, os "henges" da Europa Ocidental, as valas e os basamentos salteados do mundo chinês, os "mounds" e as pirâmides com degraus do continente americano. Vários exemplos permitem considerar que a planta circular passou a ser adquirida como um modelo estável e transversal a vários tipos de construções desenvolvidas ao longo do período Neolítico, tendo sido adotada desde as mais arcaicas movimentações de terra, aos mais complexos alinhamentos megalíticos, assim como na configuração geral de túmulos funerários. Monumentos Segundo o historiador Spiro Kostof (1988), entre as edificações concebidas durante os períodos iniciais do Neolítico no contexto ocidental, e destinadas à habitação, não existiriam construções diferenciadas para personalidades de maior distinção. No entanto, no âmbito funerário encontram-se referenciados vários monumentos megalíticos que se destinariam principalmente ao enterramento de personalidades destacadas, enquanto os mortos comuns seriam geralmente cremados ou simplesmente deixados ao ar livre. Vários exemplos dessas construções megalíticas encontram-se espalhados ao longo do território ocidental europeu, desde a GrãBretanha, norte da Europa, e ao longo das margens do Mediterrâneo. Segundo o autor, tomando em conta as suas principais caraterísticas espaciais e o modo como influenciam a paisagem, as construções podem ser definidas basicamente segundo dois modelos diferenciados: menires, ou túmulos (Kostof, 1988). O menir, pode considerar-se como sendo o modelo mais elementar. Trata-se de um elemento de pedra disposto verticalmente, isolado ou organizado em sequência com outros elementos Fig. 1.1-2 - Carnac, alinhamentos de pedras, França, III milénio a. C. (vista aérea) 1.2 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Primeiras cidades 22 semelhantes ao longo de alinhamentos contínuos, cujas extensões podem atingir vários quilómetros, ou circularmente. (Fig. 1.1-2) Benevolo & Albrecht (2003) referem que, a estas "esculturas", poderá estar associado um significado antropomórfico, possivelmente ligado a uma tentativa de eternizar a memória de personalidades dignas de distinção por parte de algum grupo ou comunidade. Os túmulos, envolvem já um sistema arquitetónico mais evoluído. Contrastando com o caráter escultórico dos menires, estas edificações já compreendiam uma tectónica de maior complexidade. Alguns túmulos de pedra do Neolítico eram já concebidos com base num conjunto cujos elementos circunscrevem um espaço coberto, criando um mais acentuado nível de interioridade. Encontram-se referenciados vários exemplos deste tipo de monumentos por todo o território da Europa ocidental, existindo contudo, variações quanto à morfologia das suas plantas; podem ser de forma retangular, assim como de planta circular ou com configurações arredondadas muito próximas do círculo (Kostof, 1988). (Fig. 1.1-3, 1.1-4) Benevolo & Albrecht (2003), referem que as construções megalíticas teriam como objectivo principal a marcação de um território, com o objetivo de definir os campos agrícolas que estavam sob a autoridade de uma família ou de uma comunidade. Fig. 1.1-3 - Locmariaquer, França, dólmen III milénio a. C. Fig. 1.1-4 - Túmulos de terra que recobrem as sepulturas megalíticas, Newgrange, Irlanda 3250 a.C. (vista geral) Fig. 1.1-5 - Plantas tipo de: a) dolmen redondo b) dólmen com pórtico c) dólmen retangular. Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 23 Relativamente ao caso dos henges2, os autores referem que estes constituir-se-iam essencialmente como centros cerimoniais na Inglaterra meridional (Benevolo & Albrecht, 2003). Embora na sua essência não se tratem objetivamente de edifícios "fechados", poderiam numa fase inicial, constituir-se apenas como grandes anéis com um fosso no interior, escavados na terra, onde seriam adicionados, numa fase mais avançada, blocos megalíticos ou até construções dolménicas, adquirindo uma expressão semelhante à lógica escultural dos agrupamentos de menires, mas neste caso manifestando a intenção de circunscrever (circularmente) uma determinada área (Benevolo & Albrecht, 2003). (Figs. 1.1-6, 1.1-7) O monumento de Stonehenge, construído entre o terceiro e segundo milénio a. C., trata-se de um dos mais emblemáticos de toda a história da cultura ocidental. Atualmente ainda permanecem em aberto múltiplas teorias que procuram consolidar um esclarecimento exato acerca da sua função ou significado, embora seja consensual a existência de pertinentes relações entre as posições dos elementos megalíticos de Stonehenge e o movimento dos astros em vários períodos do calendário. Segundo o que algumas interpretações indiciam, poderá ter sido um local onde presumivelmente se realizassem rituais de culto que contemplassem uma união cósmica entre o Céu e a Terra (Kerr, 2000). Contudo, existem centenas de estruturas megalíticas semelhantes espalhadas por todo o território meridional do Reino Unido; embora apresentem ligeiras diferenças de escala e configuração, a sua forma é geralmente circular, ou muito próxima do círculo (Benevolo & Albrecht, 2003). Segundo Benevolo & Albrecht (2003) este tipo de construções poderiam ter sido edificadas em terrenos que Fig. 1.1-6 - Jutland, Dinamarca. túmulos sepulcrais. Movimentos de terras para destacar lugares especiais sobrevive no Norte da Europa até à época viking (vista aérea) Fig. 1.1-7 - Monumento de Stohenge, Salisbury, 2750 a 1500 a.C., (vista aérea) 2 [...] os lugares cercados por aterros, que não têm uma função funerária específica, foram denominados por "henges", por Thomas Kendrick e Christopher Hawks, em 1932. Benevolo & Albrecht, 2003: 128; 1.2 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Primeiras cidades 30 individualizada do homem pré-sedentário, assim como ao método "aligeirado" que este adotaria nas suas primeiras construções de caráter efémero. Contudo, os autores não deixam também de aludir, paralelamente, a fatores de caráter psicológico/intuitivo/emotivo, relativamente ao significado que a forma circular poderia representar naquele tempo, na sua materialização fenomenológica de habitat. Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 31 1.2 Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - contextualização e execionalidade 1.2.1 Primeiras cidades Remontando aos mais primitivos processos de urbanização, a formação das primeiras cidades terá sido um processo gradual que se foi desenrolando ao longo de muito tempo. Condições climáticas mais favoráveis, e o aperfeiçoamento de técnicas agrícolas e de criação de gado, surgem, apontados por vários autores Benevolo & Albrecht (2003) Kostof (1988), e Schoenauer (1984), como os principais factores que permitiram o prolongar dos períodos de permanência do homem num determinado contexto, e levando, consequentemente, a estados mais evoluídos de sedentarização e gerando um expressivo aumento das populações. Contudo, os processos iniciais de urbanização não ocorreram de um modo sincronizado em todo o território do planeta. Os mesmos autores partilham da leitura arqueológica que aponta para o facto de que as primeiras cidades se estabeleceram na região da Ásia Menor (Jordânia, Turquia) e na região do Egeu, onde as condições 1.2.1Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Primeiras cidades 32 climáticas e geográficas seriam mais favoráveis, e onde, do ponto de vista social, as comunidades já tivessem adquirido uma dimensão e um nível socialmente mais desenvolvido. Benevolo & Albrecht (2003) consideram, no entanto, exagerado tratar estes assentamentos como "cidades", ainda que manifestassem já um avançado nível de complexidade face à maioria das comunidades daquele período. Jericó (7000 a. C.), Israel Segundo Kostof (1988) a primeira cidade de que atualmente há registo é Jericó, que remonta a 7500-5000 a. C., e que terá albergado um número superior a 2000 habitantes. Localiza-se no território adjacente ao rio Jordão e terá sido num período mais tardio confinada por muralhas, construídas em pedra. Num primeiro assentamento de vida sedentária, cuja área seria aproximadamente de três hectares, as primeiras habitações tinham forma retangular, e seriam construídas em adobe (Kostof, 1988). Curiosamente, um elemento desconhecido na forma urbana de Jericó era a rua. As casas comunicavam entre si sobretudo através de sucessivos pátios e espaços sobrantes entre as construções (Kostof, 1988). Além das muralhas, a única edificação de que há vestígios ter sido construída em pedra seria uma torre maciça, cuja escala permitiria destacar-se como elemento excecional em relação a toda a malha; a sua forma seria arredondada, muito próxima da circular (Benevolo & Albrecht, 2003). (Figs. 1.2.1-1, 1.2.1-2) Fig. 1.2.1-1 - Jericó, ruínas da torre construída contra a muralha Fig. 1.2.1-2 - Jericó, muralha e torre (corte e vista em perspetiva) Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 33 Çatal Huyuk (6250 a. C.) Anatólia A estrutura arquitetónica é uma grande construção em série, tornada homogénea pela repetição de células que a compõem, como uma colmeia.10 Com uma área de aproximadamente 12 hectares, este aldeamento sugere já um elevado grau de interdependência social (Benevolo & Albrecht, 2003). Estima-se que o aldeamento terá funcionado sem interrupções durante cerca de 800 anos, talvez mais, não manifestando, contudo, indícios de uma sociedade hierárquica. Segundo o autor, da parte de fora, o burgo devia apresentar-se como uma parede contínua, sem aberturas, desempenhando funções defensivas e servindo de dique em caso de cheias. As casas possuem uma distribuição, e escala, unificadas, e possivelmente teriam sido construídas e ampliadas todas em conjunto, não admitindo acréscimos individuais (Benevolo & Albrecht, 2003). Nenhuma casa teria acesso a partir de uma rua ou de um pátio; o único acesso para entrada e saída seria através da cobertura Fig. 1.2.1-3 - Çatal Huyuk (Planta) 10 Benevolo & Albrecht, 2003: 86; 1.2.1Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Primeiras cidades 34 (Giedion, 1997). Khirokitia (6000 a. C.) Chipre Segundo Kostof (1988), será preciso remontar ao sexto milénio a. C. para encontrar a primeira rua de que há registo; localizava-se no assentamento de Khirokitia. Giedion (1997), refere que neste assentamento é visível uma coexistência de habitações de configuração diferenciada, desde casas redondas até formas mais regulares, como a retangular, assim como a existência de conjuntos em que se verificam combinações entre duas formas. Contrariamente com o que acontecia em Jericó e Çatal Huyuk, cujo crescimento estaria condicionado por muralhas, e a malha edificada apresenta camadas relativas a um tecido justaposto e em constante renovação, em Khirokitia a ausência de um limite físico terá sido um possível contributo para que as habitações se dispusessem livremente ao longo de ambos os lados da rua principal, semelhante a Fig. 1.2.1-4Khirokitia, Chipre, 6000 a. C. (Planta) Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 35 uma espinha dorsal que atravessa a colina. (Fig. 1.2.1-3) Além do caráter morfológico das habitações ser diferenciado dos exemplos de Jericó e Çatal Huyuk, a sua organização também demonstra já a existência de uma acentuada diferenciação entre espaço público e privado, pois a rua tratar-se-ia de uma estrutura comunitária, existindo já uma lógica de preservação do seu espaço como sendo público. A manutenção da sua artéria principal livre de usurpações exigiria vigilância, entendimento geral e maturidade social (Kostof, 1988). Considerações Com base nestes três exemplos, é já possível verificar que desde os mais primitivos processos de urbanização, a evolução terá seguido no sentido de abandono da planta circular, sobretudo no que respeita à necessidade de adaptação da morfologia das habitações a um processo de justaposição. Por questões geométricas, a forma circular, não admite uma tão rentável partilha de parede, no aproveitamento de área de solo. Partilhando também desta interpretação, relativamente a este fenómeno Benevolo & Albrecht (2003) referem: Para a associação próxima de muitos edifícios, a forma circular é menos conveniente, prevalecendo a forma quadrangular, que tem a vantagem de funcionar da mesma maneira em escalas diversas, na medida em que a irregularidade do terreno o permite.11 Porém, entre exemplos aqui demonstrados o assentamento de Khirokitia é o que manifesta uma mais prolongada sobrevivência de edifícios de planta circular, inclusive a sua coexistência e até combinação com habitações de forma retangular, o que permite também considerar que, em comparação com os outros exemplos, o 11 Benevolo & Albrecht, 2003: 82; 1.2.1Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Primeiras cidades 36 confinamento por muralhas e a consequente necessidade de rentabilização de solo que estaria presente em Jericó e Çatal Hüyük, poderá efetivamente ter sido um dos motivos que mais tenha contribuído para uma escassez de edifícios de planta circular, relativamente à formação dos primeiros contextos de urbanização. Numa análise convergente com esta leitura, também Schoenauer (1984) defende que a morfologia dos abrigos terá evoluído no sentido da ortogonalidade, na medida em que o homem foi prolongando os seus níveis de permanência. Segundo o autor, o modelo de planta circular, que teria sido preferencialmente adotado nos primeiros abrigos construídos artificialmente pelo homem, terá apresentado, em contextos de maior permanência, alguns obstáculos, na sua adaptação a novas exigências: La planta circular tiene dos características intrínsecas que restringem su máximo desarollo; un engrandecimiento del área implica un aumento proporcional del diâmetro. Este conduce a la expansión de la estructura, lo cual es difícil tarea, especialmente em comunidades donde se utilizan herramientas y materiales constructivos muy primitivos. Por contra, en el caso del rectángulo, mientras la expansión en ancho está limitada, a lo largo, no lo está en absoluto. La segunda resticción de la planta circular es su adaptación a un crescimiento evolutivo. La susceptibilidad de un rectángulo o cuadrado a expandirse es mucho más factible y económica en términos de materiales constructivos y de una utilización eficiente del espacio. Puede observarse que en el desarollo de los protótipos de viviendas está manifestado por una secuencia en la forma de las plantas, comenzando con el círculo, pasando por el óvalo, el cual se desarolla hasta llevar al rectángulo alargado con esquinas redondeadas, hasta finalmente, llegar al rectángulo o cuadrado angulares.12 Convergindo com estas declarações de Schoenauer, também Benevolo & Albrecht (2003) referem essa tendência evolutiva: 12 Schoenauer, 1984: 108; Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 37 Aos abrigos precários e multiformes seguem-se moradias duradouras, construídas com materiais uniformes e adequados para serem agrupados em aldeias. A referência às formas geométricas mentais está na origem da predominância de duas figuras planimétricas: o círculo - próprio, sobretudo, para caracterizar uma construção individual - e o rectângulo, que facilita a associação de várias construções orientadas da mesma maneira, e se torna predominante com o decorrer do tempo (o mais antigo achado de uma cabana rectangular ocorreu em Jarno, no Iraque, e remonta a 6.500 a. C.). É sobremaneira significativo que estas duas figuras sejam pensadas como "plantas", isto é, secções horizontais a partir das quais nascem, verticalmente, as paredes da construção. Também os materiais mudam, segundo uma sucessão constante: a palha e a argila são substituídas por materiais mais estáveis - a argila e a pedra.13 Este fenómeno de abandono da planta circular irá perpetuarse de um modo mais amadurecido na formação das cidades da Antiga Mesopotâmia e Antigo Egipto, assim como se verificará também nos processos de formação das primeiras cidades no contexto ocidental. 13 Benevolo & Albrecht, 2003: 50; 1.2.1Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Primeiras cidades 38 Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 39 1.2.2 Cidades da Antiga Mesopotâmia e Antigo Egipto Mesopotâmia Vários autores como Kostof (1988) e Schoenauer (1984), partilham da ideia que, os primeiros povoamentos primitivos mais conhecidos e que demonstravam já uma certa dimensão na sua complexidade remontam à antiga Mesopotâmia. Convergindo com este facto, também Benévolo & Albrecht (2003) referem: As primeiras civilizações urbanas que se formam no "crescente fértil" são as mais antigas em absoluto e as que são estudadas há mais tempo. As primeiras cidades de extensão considerável - acima dos 100 hectares - os primeiros edifícios colectivos conscientemente diferenciados das habitações particulares e as primeiras inscrições pictográficas aparecem no sul da Mesopotâmia no decurso do IV milénio a. C., e, pouco depois, na Síria e no Egipto.14 Os assentamentos iniciais datam do período entre 7.500 a. C e 5.000 a. C., chegando em algumas cidades a albergar populações com cerca de 50.000 habitantes (Kostof, 1988). Relativamente ao processo de organização urbana, embora Giedion (1997) refira que a Babilónia, por volta do ano 700 a. C., já estaria organizada segundo uma malha ordenada, Kostof (1988) 14 Benevolo & Albrecht, 2003: 180 1.2.2 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Cidades da Mesopotâmia e Antigo Egipto 46 Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 47 1.2.3 Arquitetura do Mar Egeu e Oriente Menor Permanecem ainda muitas incertezas relativamente aos fenómenos ocorridos durante o período da Idade do Bronze, sobretudo devido a uma grande escassez de registos escritos. No entanto, segundo Kostof (1988), os mais antigos povoados que se estabeleceram na Grécia Continental num período inicial, não se encontravam cercados por muralhas e as habitações possuíam configurações diversificadas; com planta retangular e circular, eram colocadas indiscriminadamente e próximas umas das outras. Porém, com a chegada dos micénicos, a formação das cidadelas terá representado o primeiro grande episódo arquitetónico da cultura grega (Kostof, 1988). (Fig. 1.2.3-1) O autor refere ainda que, na arquitetura dos principais assentamentos da região da Ásia Menor e Egeu, verificava-se sobretudo uma carência de edifícios religiosos de alcance público. A maior parte da estrutura construída seria essencialmente constituída por zonas residenciais e administrativas (Kostof, 1988). As cidadelas eram edificadas preferencialmente segundo princípios estrategicamente defensivos, em locais que permitissem um abrangente domínio visual sobre a paisagem envolvente, e assegurassem facilmente o abastecimento de água. Estes complexos Fig. 1.2.3-1 - Hattusa, Turquia, Templo I dedicado ao deus do clima, 1400 a. C. (Planta) 1.2.3 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Cidades do Egeo e Ásia Menor 48 defensivos estariam normalmente cercados por muralhas, e a sua densa compartimentação estava organizada segundo uma lógica ortogonal. Eram essencialmente constituídos pelo palácio real, armazéns de abastecimento de azeite ou outros bens agrícolas e albergavam um recinto que se destinaria à ocupação por parte da população durante as guerras. (Fig. 1.2.3-1). Na grande maioria dos palácios micénicos, o seu coração estava fixado pelo megaron, uma sala do rei onde se brindava à hospitalidade aos deuses. Era o elemento maior da composição e a sua configuração era retangular; o seu acesso axial de maior consistência destacava-se no seu traçado geral, criando uma hierarquia de uso inequívoco (Kostof, 1988). (Fig. 1.2.3-2). Contrastando com a geometria e com lógica de justaposição dos vários compartimentos que constituem a organização das cidadelas micénicas, os cemitérios e os túmulos micénicos possuem plantas cuja configuração é arredondada, ou mesmo circular, conferindo a estas edificações de culto funerário um caráter excecional, face à convencional estrutura/morfologia ortogonal dos espaços dos palácios reais e das cidadelas (Fig. 1.2.3-3, 1.2.3-4). Estas construções funerárias encontram-se situadas nas áreas circunscritas pelas Fig. 1.2.3-2 - Pilos, Grécia; sala principal do megaron do palácio, século XIII a. C. (Reconstrução) Fig. 1.2.3-3 - Micenas, Grécia; vista aérea a partir de oeste. Fig. 1.2.3-4 - Micenas, Círculo de tumbas, século XIV (reconstrução) Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 49 cidadelas e, à semelhança do que se encontra referenciado acerca dos túmulos funerários do neolítico no capítulo de introdução deste trabalho, a maioria também se destinariam ao enterramento de personalidades destacadas (Robertson, 1974). Fig. 1.2.3-5 - Micenas, o chamado "Tesouro de Atreo", tumba em tholo, séc. XIV a. C. (vista isométrica) 1.2.3 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Cidades do Egeo e Ásia Menor 50 Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 51 1.2.4 Arquitetura Grega Vários autores, como Schoenauer (1984), Kostof (1988) ou Morris (2007), referem que inicialmente, na antiga Grécia, as cidades seriam geralmente de pequena dimensão e o seu traçado organizado segundo uma malha irregular. Atendendo ao que já foi anteriormente referenciado, a Fig. 1.2.4-1 - Mileto (Turquia), refundada após o saque persa em 479 a. C. (Planta com a linha costeira original) 1.2.4 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Arquitetura Grega 52 planificação ortogonal é tão antiga como o Antigo Egipto. Contudo, o famoso plano hipodâmico de Mileto foi apenas introduzido no século V a. C., após a anterior e decisiva campanha de retaliação contra os persas, passando a ser difundido durante o período da fase do expansionismo grego conduzido por Péricles. O traçado das novas cidades coloniais passaria a obedecer a uma lógica de planificação segundo uma malha ortogonal, pois teriam que ser construídas num só momento, face à urgente posição estratégica que viriam a determinar. (Morris, 2007). (Fig. 1.2.4-1) No entanto, circunscrevendo a análise à escala do edifício, Schoenauer (1984) refere que as habitações gregas, que constituíam a grande parte do tecido urbano edificado, seriam originalmente organizadas segundo uma lógica de interioridade, cuja articulação da sua compartimentação se desenvolvia em torno de um pátio central, de acordo com um modelo muito semelhante ao desenvolvido nas habitações da Antiga Mesopotâmia (Fig. 1.2.4-2). A sua configuração ortogonal, correspondia à base formal da organização aditiva da compartimentação que constituía o conjunto, acabando por estabelecer uma harmoniosa correspondência com a geometria ortogonal da malha urbana. Com base neste facto, pode ser lançada a questão no sentido se não terá sido a malha ortogonal hipodâmica uma influência direta na perpetuação de uma lógica ortogonal no que respeita à morfologia dos edifícios que constituem a grande generalidade do tecido edificado urbano? Embora, à semelhança do que acontecia em contextos urbanos do passado, como na Antiga Mesopotâmia e Antigo Egipto, fosse escassa a existência de edifícios redondos ou de planta circular, no tecido edificado em geral, esta surge na arquitetura grega adotada pontualmente, sobretudo em alguns edifícios que se constituem como excecionais na malha urbana. Apesar de relativamente ao templo grego, que surge destacado por vários autores como Norberg-Schulz (1979), Kostof Fig. 1.2.4-2 - Atenas, casas do séc. V, IV a. C. (Reconstruções) Fig. 1.2.4-3 - Exemplos de diferentes tipologias de templos na grega e período helenístico (Planta) Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 53 (1988), ou Benevolo (2007), como sendo a categoria edificatória principal, e terem ao longo da sua evolução ocorrido múltiplas alterações ao nível de proporção, escala, assim como na linguagem de ornamentação de alguns dos seus fundamentais elementos, a sua tipologia formal foi-se mantendo constante ao longo período clássico, sobretudo no que respeita à sua configuração ortogonal. (Fig. 1.2.4-3). No entanto, os curiosos templos redondos designados por tholos, constituem um conjunto de exemplos pontuais, em que a planta circular foi utilizada de um modo integral. Embora ainda seja desconhecido o seu concreto significado, poderá estar relacionado com cultos funerários especiais (Kerr, 2000). (Fig. 1.2.4-4) No entanto, contrariamente ao que acontecia com a malha urbana, o esquema organizativo do conjunto edificado que constituía a acrópole, não obedecia a uma regra rígida de perpendicularidade, sendo a sua disposição dos volumes/elementos efectuada de um modo aparentemente aleatório, procurando uma interação mais particularizada entre cada um dos edifícios que constitui o conjunto da acrópole e a paisagem envolvente (Norberg-Schulz, 1979). (Fig. 1.2.45) Na arquitetura civil, a planta circular surge também utilizada, embora parcialmente, no teatro. Sendo uma construção de grande escala relativamente à maioria das construções que constituem o tecido urbano edificado trata-se, no entanto, de um edifício que alberga um programa muito específico. A configuração do seu limite, ainda que parcialmente circular, resulta da sua natural relação com o esquema radialmente concêntrico da organização da bancada, que acaba por ser inevitavelmente interrompida pela estrutura plana que constitui a cena. (Fig. 1.2.4-6) Curiosamente, a planta circular surge também adotada de um modo integral num outro edifício, designado por skias, onde terá funcionado, um refeitório frequentado pelos membros da elite militar (Kostof, 1988). (Fig. 1.2.4-7) Fig. 1.2.4-4 - Ruínas de Tholos de Epidauro, Grécia, século IV a. C. Fig. 1.2.4-5 - Santuário de Athena Pronaia, Delfos, século IV a. C. (Planta) Fig. 1.2.4-6 - Teatro Epidauro, 300 a. C. (Planta) Fig. 1.2.4-7 - Skias, ágora, vista interior (reconstrução) 1.2.4 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Arquitetura Grega 54 Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 55 1.2.5 Arquitetura Etrusca Contam-se pelos dedos das mãos o número de exemplos que na arquitetura grega tivessem adotado formas redondas. Kostof (1988) e R. Marta (1985) referem que, as formas curvas, nomeadamente o arco e o seu prolongamento tridimensional - a verdadeira abóbada - é algo que surge referenciado como congenitamente atribuído aos itálicos - etruscos, e não aos gregos. Segundo Roberto Marta (1985), mais do que num desenho arquitetónico coerente, os etruscos usavam falsas abóbadas e os arcos surgem isolados nas entradas de cidades assim como na arquitetura doméstica. O autor refere que, é sobretudo na cultura etrusca que está o gérmen da arquitetura desenvolvida na cultura romana, no que concerne a uma arquitetura envolvente, que envolve espaço (Marta, 1985). Contudo, tal como no planeamento das cidades gregas também na civilização etrusca se verificava um uso da malha ortogonal na organização dos seus povoados. Sem entrar em detalhes muito precisos relativamente à forma geral destas cidades, Marta (1985), refere que estas não seriam necessariamente quadradas, podendo algumas vezes ter adquirido forma oval ou contornos irregulares. As cidades etruscas estariam maioritariamente situadas no 1.2.7 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Arquitetura Romana 62 princípios ter-se-ão constituído como verdadeiras heranças que ao longo de uma extensa evolução temporal ainda se verificam presentes na base da nossa cultura ocidental, desde os mapas de redes viárias, os tradicionais métodos de organização no território segundo uma lógica de articulação entre malha edificada e espaço público, os processos de centralização de redes de abastecimento e centralização de infraestruturas urbanas, e estrutura e métodos de articulação tipológica dos edifícios. Em convergência com estes factos, relativamente aos efeitos de uniformização e normalização levados a cabo pelos romanos no contexto ocidental, Benevolo refere: Os Romanos nunca sobrestimaram a importância do aspecto físico da cidade, e não pensaram em identificar os valores arquitectónicos, e grande parte dos "standards" arquitectónicos - por conseguinte a "centuratio" nos territórios agrícolas, a forma rectangular da cidade com as ruas em xadrez, a intersecção das estradas mais importantes segundo os eixos principais, a forma de alguns edifícios como os anfiteatros e o esquema distributivo de outros como as termas públicas, os sistemas construtivos de algumas obras públicas como estradas e aquedutos, o revestimento arquitectónico dos edifícios representativos mais Fig. 1.2.7-2 - Roma tal como seria no final do período Imperial, século IV d. C.; detalhe de uma maqueta (Museu da Cidade Romana, Roma). No centro está o Panteão; à sua esquerda estão os banhos de Nero (54-58 d. C.) tal como foram reconstruídos no século III, e mais à esquerda o estádio de Domiciano (81-96 d. C.) cujo contorno terá sobrevivido na atual Praça Navona. Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 63 directamente ligados ao poder central - são consideravelmente uniformizados nas diversas províncias, e referem-se a uma série de aspectos na vida a eles associada que pareceu oportuno vincular de um modo rígido, para permitir exactamente uma grande variedade e elasticidade de outros aspectos.24 Autores, como Morris (2007) e Kostof (1988), referem que inicialmente os assentamentos originais que constituíam a cidade de Roma não obedeciam a uma organização ortogonal. No entanto, por sua vez foram, ao longo do tempo, adotando de várias formas esquemas semelhantes aos que tinham sido desenvolvidos pelos gregos e etruscos na planificação das suas novas colónias (Kostof, 1988). Neste sentido, Marta (1985) refere que, como potência e colónia militar os romanos aprenderam a desenvolver um método especial na escolha dos lugares para a construção da castra das suas colónias, localizadas sobretudo segundo interesses estratégicos e comerciais. Existem exemplos evidentes como: Londinium (Londres, Inglaterra), Lutetia (Paris, França), Augusta Treverorum (Trier, Alemanha Ocidental), Colonia Agrippina (Colónia, Alemanha Ocidental), Vindobona (Vienna, Áustria) e Barcino (Barcelona, Espanha). (Figs. 1.2.7-3, 1.2.7-4) Segundo o autor, os romanos desenvolveram o castrametatio como uma ciência livre de critérios empíricos, místicas fantasias e aproximações, tão presentes nos métodos utilizados no ritual de fundação etrusco; mantiveram um método de organização semelhante com a hierarquização de dois eixos estruturantes mediante a mesma ordem de perpendicularidade segundo a direção dos pontos cardeais, o cardos - norte-sul, e o decumanos - no sentido do movimento solar (Marta, 1985). (Fig. 1.2.7-5) Porém, Norberg-Schulz (1979) refere que, para os romanos em vez de uma acrópole sagrada, era no cruzamento axial desses dois eixos principais onde seria gerado o forum, que acabaria por conferir Fig. 1.2.7-3 - Castra da colónia romana de Priene séc. I a. C. (Planta) Fig. 1.2.7-4 - Timgad (Argélia); cidade romana fundada no ano 100 a. C.; vista aérea. Colónia de militares veteranos traçado sob uma planta ortogonal; a cidade posteriormente desenvolveu-se ao longo dos percursos, no exterior das suas portas. Fig. 1.2.7-5 - Esquema base de divisão do castrametatio. 24 Benevolo, 2007: 57; 1.2.7 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Arquitetura Romana 64 ao lugar central não só uma centralidade estratégica, assim como, seria também dotada de uma centralidade cósmica (Norbert-Schulz, 1979). O autor, reconhece nos romanos um novo feito especial: o desejo humano de conquistar o universo através de um centro/núcleo notável e significativo, sobretudo segundo um sistema que procura a valorização de uma ideia de centralidade, que adquire em Roma a sua máxima expressão (Norberg-Schulz, 1979). Obedecendo à mesma ordem simbólica de organização da cidade, Norberg-Schulz defende também que, os edifícios romanos e as suas plantas possuem rasgos fundamentais em comum, sendo em geral organizados segundo uma base axial rígida. (Fig. 1.2.7-6) Contudo, no que respeita particularmente aos edifícios habitacionais que constituíam a grande maioria dos conjuntos edificados de Roma, Schoenauer (1984), refere que estes se constituíam essencialmente segundo dois tipos: domus e insulae. Ambos assentavam numa lógica organizativa e possuíam uma configuração geral, geometricamente ortogonal. (Fig. 1.2.7-7, 1.2.7-8) Com base no que já teria ocorrido em períodos anteriores, poder-se-á deduzir que, à semelhança dos assentamentos egípcios, ou da malha hipodâmica grega, também em Roma, e sobretudo nas colónias romanas, existia uma correspondência direta entre a geometria da malha e os conjuntos edificados. Isto permite relançar a questão já levantada anteriormente, se poderia já ser a geometria da malha, a pré-determinar a morfologia ortogonal dos edifícios? Todavia, Kostof (1988) refere que a arquitetura romana demonstra uma obsessão pelas formas curvas e redondas, e o arco surge na arquitetura romana como o elemento estrutural de eleição, assim como se verifica um significativo recurso a inovadores sistemas de suporte em abóbada e cobertura em cúpula. Também neste contexto, e à semelhança do que se verifica em contextos anteriores, a planta circular não terá sido muito difundida na configuração geral dos Fig. 1.2.7-6 - Palácio de Diocleciano, Split, Croácia, século IV d. C. (Planta) Fig. 1.2.7-7 - Ostia. Complexo de habitação (insulae), século II d. C. (reconstrução) Fig. 1.2.7-8 - Exemplo de domus romana (Planta) Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 65 edifícios. No entanto viria, porém, a adquirir na arquitetura romana uma extrema importância, tendo sido adotada num panorama tipológico mais diversificado: anfiteatros, termas, templos ou mausoléus imperiais; ou seja, foi utilizada em edifícios que se destinariam, sobretudo, ao desempenho de uma função específica, e excecional à habitação. (Fig. 1.2.7-9, 1.2.7-10, 1.2.7-11, 1.2.7-12) Na arquitetura religiosa, a planta circular foi numa primeira fase, explorada através de um modelo muito semelhante ao tholos grego, que terá sido assimilado pela arquitetura romana sobretudo durante o período republicano, numa fase em que existiu um impacto cultural muito expressivo entre as duas culturas, e se verificaram profundas influências da arquitetura desenvolvida pelas culturas vizinhas (Sterlin, 1984). (Fig. 1.2.7-11) No entanto, Norberg-Schulz (1979) refere que, alguns dos principais historiadores do século XIX, como Winkelmann (1717-68), partilhavam inicialmente da ideia de que a arquitetura romana era sobretudo uma degeneração da arquitetura grega com a qual terá existido um contacto mais direto e prolongado. Porém, o autor partilha parcialmente desta mesma ideia, mas, considerando ao mesmo tempo, a existência de valores originais que sustentam uma notável especificidade da arquitetura romana. Fig. 1.2.7-9 - Vista geral de Roma, no século IV; no centro encontra-se o Panteão (reconstrução) Fig. 1.2.7-10 - Mausoléu Augusto - Ruína Fig. 1.2.7-11 - Templo Hércules Victor, Forum Boarium, Roma, século II a. C. 1.2.7 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Arquitetura Romana 66 Contrariamente ao mundo grego, que constava de uma multiplicidade de lugares individuais, Roma era considerada como o caput mundi (Norberg-Schulz, 1979). Na arquitetura civil, o modelo semelhante ao do teatro grego foi adotado parcialmente no anfiteatro romano. (Fig. 1.2.7-12) Foi também utilizada, numa escala menor, no desenho de vestíbulos, assim como em compartimentos mais destacados, na arquitetura termal (Krautheimer, 1993). (Fig. 1.2.7-14) Atendendo agora ao seu caráter estruturante, o espaço de planta circular trata-se geometricamente da base mais natural para o assentamento da cúpula, que viria a distinguir-se como o grande elemento representativo do axis mundi, do espaço interior romano. Com a evolução de processos técnicos e estruturais, e sobretudo com o desenvolvimento de argamassas como o opus caementicium, a cúpula passaria a ser concebida na arquitetura romana numa escala de grandiosidade nunca antes conhecida, tornando-se num elemento espacial de referência no que respeita ao simbolismo romano de caput mundi (Norberg-Schulz, 1979). Relativamente a este facto, também Benevolo, refere particularmente esta relação de direta dependência entre cúpula e planta circular, no espaço romano: Os romanos preferem utilizar todos os tipos de abóbada apoiados em envasamentos de forma correspondente, evitando intersecções recíprocas. Deste modo, as abóbadas cilíndricas (em semicírculo e de berço) são utilizadas em ambientes quadrados e rectangulares, simples ou compostos, os pavilhões poligonais sobre os polígonos correspondentes, as abóbadas esféricas sobre envasamentos circulares ou sobre polígonos com um tão grande número de lados, de forma a poderem passar para o círculo de maneira fácil e imperceptível, mediante deformações adequadas da estrutura da construção ou revestimento. Em resumo, qualquer tipo de abóbada forma, conceptualmente, um todo com o seu envasamento, e relaciona-se com as outras apenas por meio de composição planimétrica, excluíndo as transformações no Fig. 1.2.7-12 - Coliseu século I, Roma (Planta). Embora o anfiteatro romano seja em planta muito semelhante ao teatro grego , no caso do Coliseu apesar da sua semelhança, não é rigorosamente circular. Fig. 1.2.7-13 - Villa Adriana, século I, Roma (Planta) Fig. 1.2.7-14 - Termas de Caracalla, Roma, século III a. C. (em cima: alçado, no centro: planta, em baixo: corte) Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 67 alçado.25 Do ponto de vista espacial, e tendo em conta a interioridade que lhe é inerente, Norberg-Schulz (1979) refere que a nova dinâmica de axialidade vertical gerada pela cúpula conferia ao espaço interior do templo romano um novo significado, ou seja, uma nova relação cósmica, celestial. (Fig. 1.2.7-15) Em materialização deste desígnio, o Panteão surge destacado por vários autores, Norberg-Shulz (1979) ou Zevi (1996), como sendo um dos exemplos que melhor sintetizam as propriedades distintivas, e mais representativas da cultura arquitetónica romana, e uma das maiores e mais autênticas conceções espaciais da antiguidade, na qual a planta circular atua como um suporte pleno da ideia de centralidade, e na afirmação da interioridade como qualidade espacial. (Fig. 1.2.7-16) Convergindo também com esta ideia, Gideon salienta: La cúpula del Panteón de Adriano, de comienzos del siglo II, señaló la completa irrupción de la segunda concepción espacial. Desde ese momento el concepto de espacio arquitectónico fue casi indistinguible del concepto de espacio interior hueco.26 Fig. 1.2.7-15 - Domus Aurea, séc. I d. C., Roma. Tratar-se-á do protótipo experimental que antecedeu a cúpula do Panteão. Fig. 1.2.7-16 - Interior do Panteão, Roma, séc. II d. C., Roma. (gravura) 25 Benevolo, 2007: 78; 26 Gideon, 1997 : 493; 1.2.7 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Arquitetura Romana 68 Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 69 1.2.8 Arquitetura Paleocristã e Bizantina Ao longo do século IV, durante o período de governação do Imperador Constantino (306-337 d. C.) foi sendo introduzido em Roma um ambiente de maior tolerância para com o Cristianismo que acabaria por vir a ser declarado como a religião oficial do Império. No entanto, a crescente instabilidade política e social gerou uma profunda divisão territorial, e sendo na parte oriental fundada a nova capital - Constantinopla - que viria a ser edificada como a mais recente civitas dei. Iniciou-se um novo período cultural marcado pela procura de uma nova linguagem, representativa do que seriam considerados os mais puros valores do Cristianismo. Porém, algumas das propriedades distintivas da arquitetura romana, referenciadas por Norberg-Schulz (1979) como a existência de uma centralidade cósmica representativa e a valorização da interioridade espacial, foram assimiladas pela nova arquitetura cristã. No entanto, no que respeita à prática do Cristianismo o autor refere que algo de mais profundo se viria a verificar; o novo recinto cristão já não seria representado apenas com o recurso a um sítio específico como o temenos grego ou a uma ordem geral como o templum romano. Com a introdução do monasticismo ao longo do século IV, a prática cristã viria a refletir-se sobretudo como a concretização de um novo modo de vida (Norberg-Shulz, 1979). Fig. 1.2.8-1 - Abadia de Montecassino, séc. V (reconstrução). 1.2.8 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Arquitetura Paleocristã e Bizantina 70 Relativamente à constituição tipológica do mosteiro, Schoenauer (1984), refere que estava essencialmente organizado segundo uma lógica perpendicularmente axial, muito semelhante à regra ordenadora do castrum romano, estruturada segundo um cardos e um decumanos. Ao longo deste período os mosteiros apresentavamse ainda como conjuntos muito simplificados face à complexidade que viriam a adquirir vários séculos mais tarde, ao longo da Idade Média. (Fig. 1.2.8-1) Mais concretamente, na base de conceção do novo templo cristão foram adotados sobretudo dois modelos distintos consoante o contexto geográfico: o modelo centralizado, mais utilizado na arquitetura religiosa oriental preferencialmente adotado em baptistérios, e mausoléus. (Fig. 1.2.8-3, 1.2.8-4) No entanto, o modelo de igreja propriamente dita baseou-se essencialmente na basílica longitudinal (Norberg-Shulz, 1979). (Fig. 1.2.8-2) Richard Krautheimer, na sua obra Iconography on Medieval Architecture (1942), refere que o espaço centralizado foi introduzido em batistérios sobretudo a partir da segunda metade do século IV, mantendo-se, contudo, ainda pouco difundido até ao século V. Como já foi referenciado anteriormente, o espaço circular tinha sido utilizado na arquitetura termal romana em vestíbulos de villas ou palácios, chegando também a ser adotado nos chamados Nimphaeaum (Krautheimer, 1962). (Fig.1.2.8-5) No entanto, segundo o autor, embora exista a possibilidade de que, mesmo não sendo exata uma direta relação entre o significado da sua forma e a sua aplicação na arquitetura, existem ao mesmo tempo fatores de natureza simbólica que sustentam uma estreita relação entre um significado religioso da forma circular e a sua utilização na conceção de espaços de planta centralizada, ao longo do período inicial da arquitetura paleocristã e mesmo até durante a Idade Média: The circle according to St. Augustine was a symbol of virtue, an interpretation which he based Horace "Fortis et in se ipse totus teres atque rotundus." It is pre-eminent among all other Fig. 1.2.8-2Basílica de S. Giovanni in Laterano, Roma, 313-320 d. C.; é a primeira basílica paleocristã conhecida (Planta) Fig. 1.2.8-3Interior do Baptistério de S. Giovanni in Laterano, Roma, 313320 d. C.. Fig. 1.2.8-4 - Mausoléu S. Constanza, século IV, Roma (Planta) Fig. 1.2.8-5 - Ninphaeum de Minerva Médica, construído no século IV, Roma (Planta) Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 71 geometrical figures and comparable to virtue because of the conformity and concordance of its essentials, its "congruentia rationum atque ocncordia." According to Eigel the circle is a symbol of the Church, never ending and containing the sacraments; also it signifies to him the reign of eternal majesty, the hope of future life and the "praemia mansura quibus justi merito coronatur in aevum". Other interpretations of the circle continue throughout the Middle Ages down to Dante; the Divina Comedia is full of such references. Whatever the particular interpretations, however, it is unquestionably not so much the precise geometrical shape of a form as its general pattern and its implications which count in the opinion of the medieval beholder.27 Contudo, embora muitas das construções centralizadas da arquitetura paleocristã apresentassem uma configuração poligonal, geometricamente próxima do círculo, o autor refere que o seu significado convergia numa aproximação ao do que seria atribuído à forma circular, no período medieval: It could almost be said that to medieval eyes anything which had more than four sides was approximately a circle.28 O autor refere, também, a existência de uma estreita relação entre a numerologia cristã, que considera como sagrados os números três e quatro, e a sua direta influência na adaptação e organização em modelos de planta centralizada, cuja estrutura assenta em múltiplos de quatro: planta octogonal (oito), dodecagonal (12). Krautheimer (1962) refere que, estas relações têm sobretudo origem na Anastasis29 do Santo Sepulcro de Jerusalém (Fig. 1.2.8-6), cujas caraterísticas como - configuração, número de colunas e pilares existentes -, terão servido como protótipo para a conceção de muitos dos batistérios, mausoléus e até igrejas de planta centralizada, construídas ao longo da Idade Média: Fig. 1.2.8-6 - Igreja do Santo Sepulcro: corpo da Basílica e o Mausoléu de Jesus (Anastasis), Jerusalém, no século IV (Corte, e Planta) 27 Krautheimer, 1962; 9; 28 Krautheimer, 1962: 6; 29 "Charola" que alberga a cripta onde permanece o suposto túmulo de Cristo. krautheimer, 1962: 5; 1.2.9 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Arquitetura Românica 78 sido a mais utilizada. (Fig. 1.2.9.7) Todavia, ao longo da Idade Média e um pouco por toda a Europa ocidental, verifica-se a existência de algumas igrejas que se constituem como verdadeiras exceções, cujo modelo seria de planta centralizada; à semelhança do que ocorreu na arquitetura paleocristã, este fenómeno (a adoção da planta circular), refletiu-se sobretudo em igrejas cujo modelo terá sido fortemente influenciado pela Anastasis37 da Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém (Krautheimer, 1962). (Fig. 1.2.10-3) Segundo Krautheimer (1962), em alguns destes exemplos de planta centralizada, a planta circular foi adotada integralmente, assim como poderiam assumir também uma configuração poligonal, muito próxima do círculo (octógono, dodecágono), e cuja forma seria resultante da sua direta subdivisão, baseada em números múltiplos do quatro, um dos algarismos mágicos da numerologia cristã: Similarly the round or polygonal shape of a church evidently had some symbolical significance and again it did not make any great difference whether the ground plan of an edifice formed a regular circle or an octagon or a dodecagon or any related pattern.38 Embora a forma circular não apareça, de um modo geral, protagonizada no modelo das igrejas de planta centralizada românico, o seu significado simbólico constituir-se-ia como um dos valores essenciais nos processos de "cópia" entre os vários modelos de planta centralizada ao longo do período medieval (Krautheimer, 1962). Fig. 1.2.9-7 - Rotunda Lanleff, Caen, século XI (Planta) Fig. 1.2.9-8 - Baptistério da Catedral de Pisa, século XII (Planta) 37 Mausoléu de planta circular que alberga a cripta com o túmulo de Cristo. Krautheimer, 1962: 5; 38 Krautheimer, 1962: 9; Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 79 1.2.10 Arquitetura Gótica No que respeita mais particularmente ao tema principal deste trabalho, revelou-se uma tarefa quase impossível encontrar qualquer exemplo de planta circular, na forma integral das igrejas na arquitetura religiosa gótica. Segundo Kostof (1988), ou Schoenauer (1984), excetuando a arquitetura religiosa e militar, nas cidades edificadas ao longo do período gótico no contexto ocidental, não se verificava ainda a existência de edifícios cuja escala e tipologia fosse diferenciada da habitacional. As cidades eram sobretudo constituídas por habitações que poderiam ter vários pisos, construídas em pedra ou parcialmente em madeira; o piso térreo poderia ainda estar ocupado com comércio ou oficinas (Kostof, 1988). No entanto, Norberg-Schulz (1979), refere que, foram sendo introduzidos outros pressupostos de caráter funcional, conferindo à arquitetura daquele tempo novas caraterísticas urbanas. Nas áreas envolventes dos povoados já se estariam a desenvolver algumas indústrias, sobretudo ligadas aos cortumes, tecelagem e lanifícios. Só numa fase mais tardia, aproximadamente no final da Idade Média, se terá assistido à introdução de novas edificações públicas de escala diferenciadas, como hospitais e universidades (Kostof, 1988). Todavia, foram as novas catedrais que se tornaram o exFig. 1.2.10-1 - Cabeceira da Catedral de St. Denis, Paris, século XII (Planta). Fig. 1.2.10-2 - Catedral de Chartres, Paris, século XII (Planta). 1.2.10 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Arquitetura Gótica 80 libris da recém-formada cidade medieval. O modelo preferencialmente adotado na construção das novas catedrais, continuaria a ser o longitudinal (Norberg-Schulz, 1979). Benevolo (2007) refere que, na arquitetura gótica, cada vez mais se acentuava uma ausência de elementos de planta centralizada, tendência que já ocorrera ao longo do período anterior, o que terá inevitavelmente contribuído para a grande escassez de exemplos de planta circular que se verifica na arquitetura religiosa ocidental, deste período: Os edifícios de planta central são cada vez menos frequentes e os organismos mais importantes são em regra, claramente orientados numa determinada direcção.39 No entanto, à semelhança do que tinha vindo a acontecer na arquitetura religiosa durante o período Românico, apenas se verificam edificações de planta centralizada (sobretudo com configuração octogonal), em estruturas anexas ao corpo principal da igreja, como as salas de capítulo. (Fig. 1.2.10-3) Porém, num período mais tardio, que Benevolo (2007) designa como Tardogótico, as igrejas passaram a ser construídas com uma escala mais reduzida, sobretudo segundo um modelo que contemplava uma maior unidade espacial, com base numa diluição das sua simetria axial. Neste sentido, o autor defende que, o modelo da planta, foi-se mantendo sempre uma preferência pela configuração rectangular: Em especial para as igrejas, estuda-se uma grande variedade de géneros planimétricos onde se manifesta, de diversas maneiras, a supracitada tendência para a isotropia: há uma predilecção pelas plantas rectangulares em que o comprimento não seja excessivamente diferente da largura, e o género francês da igreja em cruz com deambulatório e capelas radiais sofre, muitas vezes, uma redução longitudinal, como acontece em S. Maclou de Rouen; na Alemanha difunde-se o género da Fig. 1.2.10-3 - Catedral de Salisbury, Inglaterra, século XII (Planta). Fig. 1.2.10-4 Catedral Ely, Lady Chapel, Inglaterra, século XIII (Planta). 39 Benevolo , 2007: 98; Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 81 "Hallenkirche", em que as três ou cinco naves têm a mesma altura, e por vezes aparece um tipo de igreja com duas naves, onde se gera uma significativa ambiguidade relativamente ao foco central da composição; é mais raro o regresso na Alemanha e de Espanha - aos organismos centrais, nos quais se acentua a igualdade das directrizes espaciais; manifesta-se também uma marcada preferência pela inclusão e pela adulteração de organismos já existentes, o que conduz, com frequência, também ao abandono da simetria bilateral, dando lugar - sobretudo em Inglaterra - a um género de composição aberto, narrativo, flexível a todas as exigências distributivas e, por sua vez, capaz de suportar com facilidade todo o tipo de alterações futuras.40 Relativamente à sua linguagem geométrica, sobretudo no que respeita à expressão dos seus volumes, também Le Corbusier (1887-1965) refere a escassez de elementos formais claros, na arquitetura gótica. Embora, o arquiteto pudesse estar a referir-se particularmente à linguagem dos principais edifícios religiosos, permite ao mesmo tempo reforçar que na arquitetura gótica, seria frágil a difusão e leitura das formas elementares no desenho das suas plantas, e entre as quais se destaca, o círculo: A arquitectura gótica não é, no seu fundamento, à base de esferas, cones e cilindros. Somente a nave exprime uma forma simples, porém de uma geometria complexa de segunda ordem (cruzamento de ogivas).41 Fig. 1.2.10-5 - Castelo Restormel, Inglaterra, século XII (esquerda), Castel del Monte, Itália, século XIII (centro), Castelo Ursino, Italia, século XIII (direita) (Plantas) 40 Benevolo 2007: 128; 41 Le Corbusier, 1998: p. 36; 1.2.10 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Arquitetura Gótica 82 No entanto, contrariando um pouco o que tem vindo a ser referido em relação à arquitetura religiosa, Pevsner (2009) refere ter ocorrido, na arquitetura militar, de um modo generalizado geograficamente uma regularização da configuração integral dos castelos construídos a partir deste período. Revelando já uma atenção especial pela simetria, e uma preferência pela adoção de formas poligonais mais regulares, chegaram mesmo a ser utilizada formas puras, e entre as quais também o círculo ou formas poligonais de configuração aproximada, como o octógono (Pevsner, 2009). Contudo, a forma circular vulgariza-se, sobretudo, na configuração das suas torres (Fig. 1.2.10-5). À escala urbana, embora Benevolo (2007) refira que o movimento gótico aponta para uma nova metodologia no que se refere à construção e não produz inovações de igual alcance no campo urbanístico, destaca porém, a ampliação de algumas cidades europeias como Florença, Veneza, Bruges, Colónia e Paris. Segundo o autor, foram também construídas, sobretudo a partir da segunda metade do século XIII, novas cidades, em número expressivo, geralmente fortificadas, designadas por New Towns (Benevolo, 2007). (Fig. 1.2.10-6) Nestas novas cidades importa igualmente destacar um recurso recorrente a torres circulares, adossadas às muralhas que geralmente constituíam os seus limites. Contudo, é possível constatar que este fenómeno não se teria constituído numa novidade, pois segundo Marta (1985), já na arquitetura romana algumas das torres adossadas às muralhas tinham configuração circular. Fig. 1.2.10-6 - Cidade fortificada de Carcassone, França, século XIII Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 83 1.2.11 Arquitetura Renascentista e Maneirista O período do Renascimento marca o início de uma revolução intelectual motivada por recentes descobertas, e por uma por um cultura reavivada pela abertura ao estudo de tratados e registos manuscritos de antigos pensadores. Uma nova visão matemática e antropomórfica do mundo contrasta com o misticismo que vigorara durante o período medieval. Novos homens da ciência assumem uma autonomia e uma crescente liberdade de pensamento, sustentada por revolucionárias doutrinas neoplatónicas (Tavares, 2003). No seguimento do crescente fenómeno de recuperação urbana, que já se verificava um pouco por toda a Europa Ocidental no período mais tardio da Idade Média, a arquitetura renascentista foi-se desenvolvendo sobretudo num crescente contexto de evolução e renovação urbana (Norberg-Schulz, 1979). No âmbito artístico em geral, descobertas no campo da matemática e da óptica permitiram que a "perspetiva" tivesse passado Fig. 1.2.11-1Cidade imaginária - O centro da composição é dominado por um prédio circular, como uma rotunda (autor desconhecido). 1.2.11 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Arquitetura Renascentista e Maneirista 84 a assumir um papel central: O método de projeto peculiar do Renascimento tem um nome famoso: "perspectiva". Esta palavra possui um primeiro significado restrito, designando uma operação gráfica para representar, sobre uma superfície plana, os objectos a três dimensões. É necessário reflectir sobre o mecanismo e sobre os pressupostos que tem implícitos, para que possamos apercebernos do segundo significado, mais amplo, que se aplica à arquitectura e a todas as artes visuais.42 Vários autores como Kostof (1988), ou Tavares (2003), referem que, no campo da arquitetura, durante este período, também o papel do arquiteto se viria a alterar, passando da condição anónima que vigorava ao longo do periodo medieval a um agente autónomo e dominante do projeto. O célebre Tratado de Vitrúvio (Marcos Vitrúvio Polião, século I a.C.) foi o que talvez maior influência terá tido no pensamento dos novos mestres arquitetos do Renascimento. A imagem do homem vitruviano, inserido num círculo e num quadrado, transmitia uma nova base humanista através da teorização das proporções humanas e a sua profunda relação com as medidas adotadas na construção dos templos renascentistas. Cesare di Lorenzo Cesariano (1475-1543), aluno de Donato Bramante (1444-1514), referia o processo de construção da igreja como uma tarefa do maior significado, evocando que o arquiteto, capaz de produzir esse tipo de conceção divina, deveria ser Fig. 1.2.11-2 - interpretações do Homem Vitruviano segundo: Leonardo Da Vinci (esquerda), Francesco Di Giorgio (centro), Cesar Cesariano (direita). 42 Benevolo, 2007: 145; Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 85 considerado como um semidei43 (Wittkower, 1973). Com base nesta evolução técnica e nos novos ideais humanistas, vários autores, como Norberg-Schulz (1979), ou Wittkower (1973), referem que várias das mais notáveis obras da arquitetura renascentista viriam a demonstrar uma significativa preferência pelo modelo centralizado, e em muitos casos, consequentemente, pela adoção da planta circular: El interés de los arquitectos se concentró sobre todo en el desarollo de la planta central. [...] Como resultado del nuevo enfoque "científico" del problema del espacio, se intentaran todas las combinaciones posibles de plantas circulares, poligonales, y en cruz griega con el agregado de capillas secundárias.44 Neste sentido, referindo-se particularmente à metodologia adotada por Filippo Brunelleschi (1377-1446), na conceção de S. Lorenzo ou Santo Spírito, Bruno Zevi relata: Para controlar inteiramente o espaço, para tornar unitária a conceção arquitetónica, Brunelleschi sentiu a necessidade de negar ao máximo o eixo longitudinal e de criar uma circularidade ao redor da cúpula.45 [...] É lógico que a uma conceção unitária do espaço corresponda melhor o esquema de planta central do que o longitudinal.46 Ainda relativamente à obra de Brunelleschi, e ao seu método de procura da melhor correspondência entre forma e adoção do espaço centralizado, Domingos Tavares (2003) e Wittkower (1973), reconhecem que, embora a forma circular não fosse a unicamente utilizada, era a que melhor cumpria essa função: Na opção por esquemas associados à ideia de espaço central, o círculo revela-se como a forma mais perfeita, mas outras formas vinham também sendo exploradas desde a antiguidade.47 Fig. 1.2.11-3 - Construção do quadrado e polígonos. Da edição de Bartoli de De re edificatória, 1550. Fig. 1.2.11-4 - Santa Maria del Angeli, Brunelleschi, Roma, século XIV (Desenhos de Giuliano da Sangallo) 43 Semideus. Wittkower, 1973: 14; 44 Norberg-Schulz, 1979: 119; 45 Zevi, 1977: 99; 46 Zevi, 1977: 100; 47 Tavares, 2004: 109; 1.2.11 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Arquitetura Renascentista e Maneirista 86 [...] the circle and its centre are here regarded as symbols of God; it will be shown later that is conception is rooted in neoPlatonic philosophy.48 Na sua obra Architecture of Humanism (1949), Wittkower aprofunda a análise sobre o tema da centralidade, e refere múltiplas interpretações feitas por alguns dos principais mestres do Renascimento, acerca da planta central, e da forma circular. O autor relata que, Leon Battista Alberti (1404-1472), o criador do primeiro tratado de arquitetura do Renascimento, De re edificatória (escrito aproximadamente em 1450), já num período inicial teorizava sobre o círculo considerando-a como a mais perfeita de todas as formas, e a que, naturalmente, melhor se compatibilizava com o modelo centralizado. Segundo Alberti, o círculo seria a base mais indicada para a construção de templos, no sentido em que estes se deveriam manter isolados da malha urbana, libertando todo o espaço envolvente. A forma circular permitiria reforçar o caráter excecional do edifício, expressando toda a vontade divina de Deus.49 (Wittkower, 1973). Relativamente a esta ideia defendida por Alberti, e assim como as respectivas influências, que acabaram por se repercutir na sua obra, Domingos Tavares refere: [...] a experimentação das formas centralizadas foi, por certo, uma necessidade intelectual do espírito inquieto do novel teórico face aos ensaios de Brunelleschi, ao estímulo extraído da valorização dos mausoléus tardo-romanos na linha dos grandes túmulos imperiais ou mesmo da memória intuída cidade dos mortos etrusca. E face, também, a uma prática continuada das igrejas do cristianismo ortodoxo com expressão do lado ocidental nos espaços de influência bizantina como Veneza ou Ravena e quase sempre persistente na organização dos baptistérios católicos.50 Numa abordagem mais psicológica e visual, Filarete Fig. 1.2.11-5 - S. Francesco, Rimini, (não realizado), Alberti, séc. XV (Planta) Fig. 1.2.11-6 - Cidade ideal de Sforzinda, Filarete, século XIV (Planta) 48 Wittkower, 1973: 13; 49 Alberti apud Wittkower 1973 [1949]: 7; 50 Tavares, 2004: 127; Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 87 (Antonio di Pietro Averlino, c. 1400-c. 1469), acrescentaria, no seu tratado, que a continuidade da forma circular provocava um efeito tranquilizador, pois enquanto olhamos para um círculo o olhar percorre a volta instantaneamente sem interrupção ou obstáculos.51 Segundo uma perspetiva semelhante, também Francesco Di Giorgio (1439-1501), defendia o modelo centralizado como sendo o preferencialmente adotado na construção de templos, e apontando também para uma suprema perfeição da forma circular em relação a todas as outras (Wittkower, 1973). Porém, embora se possa ter verificado entre vários dos principais arquitetos do Renascimento, uma especial valorização da forma circular como base ideal para a conceção de espaços de planta central, e não existissem dúvidas quanto à sua compatibilidade formal com as atividades litúrgicas, Wittkower (1973) refere ainda que, uma das principais problemáticas que viria a ser levantada por vários estudiosos ao longo do Renascimento estaria relacionada com a colocação do altar - se este deveria estar posicionado na zona central, ou colocado no extremo oposto à entrada. No entanto, convergindo com esta visão espacial antropocêntrica na relação do homem com o mundo, também Leonardo da Vinci (1452-1519), defendia o modelo centralizado como sendo o mais indicado para a conceção do templo, devendo este, à semelhança do que defendia Alberti, estar isolado em todos os seus lados para permitir uma clara perceção da sua forma. (Wittkower, 1973). Contudo, Tavares (2007) refere que, embora, Leonardo não tivesse desempenhado verdadeiramente o papel de arquiteto, alguns dos seus estudos relativos à análise de igrejas de planta centralizada, revelam uma base que partia das formas elementares do quadrado e do circulo, inclusive da sua fusão, como um cubo na base com uma cobertura em cúpula semiesférica. (Fig. 1.2.11-7) Mais tarde, embora, também Sebastiano Serlio (1475-1504), Fig. 1.2.11-7 - Estudos de Leonardo da Vinci para uma igreja de planta centralizada, século XVI 51 Filarete apud Wittkower, 1973: 10; 1.2.12 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Arquitetura Barroca 94 fica claro que o método arquitetónico barroco, que convergia essencialmente numa acentuada interação dos edifícios com o ambiente urbano envolvente, conduziu a uma interpenetração formal nas suas plantas. Contudo as figuras "curvas" mais difundidas na configuração geral das principais obras dos mais influentes arquitectos deste período, foram sobretudo a oval e a elípse, que conferem um efeito de continuidade semelhante ao círculo, mas ao mesmo tempo um afastamento da estaticidade gerada pelas formas elementares. Fig. 1.2.12-6 - Igreja de la Visitación, Paris 1632, F. L. Mansart. (Planta) Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 95 1.2.13 Arquitetura Neoclássica e Historicista É frequente, vários autores, como Zevi (1977), Benévolo (2007), ou Frampton (2002), referirem a arquitectura desenvolvida a partir da segunda década do século XIX, como um fenómeno marcado pela falta de inovação. Os novos edifícios resumir-se-iam a meras "caixas" revestidas por temas ornamentais historicistas que se traduziriam numa linguagem superficial marcada pelo exagero e banalização dos processos de ornamentação revivalista: Do ponto de vista dos espaços interiores, o século XIX apresenta variações de gosto, mas nunca novas concepções.60 Nada muda, assim, aparentemente, pois continuam a utilizar-se as mesmas formas, mas, na verdade verifica-se uma alteração radical, porque deixa de haver uma confiança espontânea neste repertório, sendo substituída por uma hipótese programática ou por simples convenção; do classicismo passa-se ao neoclassicismo, e o mesmo método revela-se imediatamente aplicável a outros repertórios, retirados de outros períodos do passado, dando origem aos posteriores revivals: o neogótico, o neo-românico, o neobizantino, e assim sucessivamente. Esta atitude, na sua forma geral é chamada "historicism" pelos anglosaxões, o que podemos traduzir à letra por "historicismo".61 60 Zevi, 1977: 120; 61 Benevolo, 2007: 204; 1.2.13 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Arquitetura Neoclássica e Historicista 96 No entanto, na sua obra Arquitetura de la illustraccíón (1955) na qual Emil Kaufmann desenvolve uma análise mais profunda e pormenorizada sobre a arquitetura desenvolvida ao longo deste período, o autor relata que a partir da segunda década do século XVIII, já em países como França, Inglaterra e Itália, vários arquitetos indiciavam nas suas composições arquitetónicas diferentes processos de sistematização na articulação de espaços, e que visavam uma superação de alguns dos constrangimentos inerentes ao processo de composição arquitetónica do período barroco: En la arquitetura consolidada de 1800 se comienza a presentar los materiales de um modo más racional y coherente, de una manera por completo distinta al carácter movil y orgánico que habia adoptado el Barroco. [...] De forma simultánea. a la redención de las partes respecto al todo, la materia fue redimida también de la norma barroca y hubo de sumeterse a esquemas que prometían una mayor libertad. La revolución arquitectónica que trajo consigo el racionalismo iba a desembocar en una concepcion enteramente nueva del arte. 62 No âmbito de materialização desta ideia, Kaufmann (1974) refere que os arquitetos recorreram a um método baseado essencialmente num princípio de independência dos vários elementos da composição: Surgieron nuevos esquemas, influídos por los ideales racionalistas, pero dependientes ante todo del nuevo concepto individualista de la organización. La independencia de los elementos podía espresarse, ya mediante una simple reiteración de los mismos, ya con una antítesis dramática. Al cabo de cierto tiempo, las formas dependientes del antiguo ideal de la unificación, las flexibles curvas y las limitaciones del crecimiento orgánico fueron desplazadas por formas más adecuadas al nuevo ideal configurativo. Los severos perfiles de la geometria elemental resultaron los más apropriados para satisfacer tanto el sentimiento individualista como el deseo de esquemas Fig. 1.2.13-1 - Sion House, Londres, 1760, Robert Adam (hall circular não construído) (Planta) 62 Kaufmann, 1974: 60; Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 97 modernos.63 O autor sublinha ainda que este novo método de autonomização formal, terá sido um importante passo no sentido de uma maior aproximação ao funcionalismo: El ideal del funcionalismo puro permaneció confinado al terreno de la teoría, pese a lo cual fue un influyente aliado en la lucha por el individualismo arquitectónico. Las formas geométricas y el respecto a las propriedades de los materiales prometían resultados artísticos mucho más acordes con el racionalismo subyacente a la teoría funcionalista de lo que nunca fueran las formas antropomórficas del Barroco.64 Neste sentido, também Rafael Moneo, e o historiador Hans Sedlmayr subscrevem a ideia defendida por Kaufmann, destacando também este processo de autonomia das partes em relação ao todo: Kaufmann se arriesga incluso a ofrecernos una "classificación artificial" de los principios de composición neoclássicos, tomando como punto de partida la independencia y autonomia de los elementos. [...] el arquitecto neoclássico se verá obligado a incluir repeticiones (bien sean réplicas, yustaposiciones, o alusiones) que le ayudan a componer la forma sin obligarse a la tirania del todo.65 La arquitectura muestra la tendencia a eliminar los valores plásticos, antropomórficos y pictóricos que en la época barroca se presentan íntimamente unidos. Tiende además a abolir el color, el ornamento y finalmente, también los órdenes de columnas en los que estaba basada la arquitectura desde le renacimiento en delante. Quiere convertirse en arquitectura pura y se proclama orgullosamente autónoma [...].66 Relativamente à materialização destes novos princípios, em que a "autonomia" seria o critério que passaria a vigorar no método de Fig1.2.13-2 - Chateau Mostmuzard, Dijón, 1768, Charles de Wailly (Planta) Fig. 1.2.13-3 - Panóptico, 1791, J. Bentham, (Alçado/corte parcial, e Planta) 63 Kaufmann, 1974: 174; 64 Kaufmann, 1974:215; 65 Moneo apud Kaufmann, 1955: XII; 66 Sedlmayr apud Patetta, 1984: 324; 1.2.13 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Arquitetura Neoclássica e Historicista 98 articulação dos sistemas compositivos da arquitetura neoclássica, Kaufmann (1974) sublinha que as recentes alterações que iam sendo introduzidas, baseavam-se sobretudo em esquemas que exploravam as formas elementares: La predilección por la geometria elemental es quizás el rasgo más destacado de la araquitectura de 1800. [...] No obstante, el énfasis en los sólidos elementales llegó a ser algo común a casi todas las obras.67 Neste sentido o historiador Spiro Kostof (1988) refere uma mudança de atitude no métodos de articulação dos arquitetos neoclássicos: O segundo componente da arquitetura neoclássica [...] uma linguagem de abstração que se baseia na geometria elementar [...] Em termos de massa, esta frequentemente se traduz no emprego de formas sólidas como esferas, pirâmides, cones e cilindros: em termos de distribuição das partes prevalece a justaposição sobre a fusão. Para o neoclassicista, o atrativo do Panteão está na sua esfericidade, entre a frente de um templo e um cilindro.68 Naturalmente que, os novos critérios de exploração de formas elementares, acabariam por abrir caminho para uma maior difusão da planta circular: Tanto el cilindro completo y aislado como el semicilindro embutido en el muro eran muy populares hacia 1800.69 Neste sentido, é possível verificar que ao longo deste período, a planta circular surge introduzida em vários âmbitos, inclusivamente em tipologias de uso onde não tinham sido anteriormente experimentadas, passando a ser integrada em vários dos novos edifícios públicos construídos na altura como bancos, museus, Fig. 1.2.13-4 Museu Altes, Berlim, 1830, K. F. Schinkel (Planta) Fig. 1.2.13-5 - British Museum, Londres, 1852, Reading Room construída em 1857; Robert Smirke (Planta piso térreo) 67 Kaufmann, 1974: 218; 68 Kostof 1988: 985; 69 Kaufmann, 1974:218; Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 99 universidades. (Fig. 1.2.13-4, 1.2.13-5) Contudo, à semelhança do que ocorreu em várias das principais obras maneiristas, surge quase sempre sob a forma de hall central. No entanto, a valorização da sua forma na configuração integral dos edifícios, culminaria sobretudo nos projetos utópicos dos arquitetos revolucionários franceses, relativamente à qual NorbergSchulz (1979), considera que procuravam acima de tudo um significado simbólico e não funcional para as suas formas. Neste sentido, também o historiador Max Vogt, aponta que a utilização da planta circular, culminaria sobretudo com os edifícios esféricos projetados por estes "arquitetos revolucionários". La pared, y con ella las estructuras arquitectónicas, se hacen más grandes y geométricamente puras: el cubo, el cilíndro y la semiesfera aparecen realmente y constituen el mensaje primário. La decoración clasicista pasa a ser secundária. La victoria de la geometría sobre el esquema clasicista conduce lógicamente al sólido más regular: la esfera. El cenotáfio de Boulée es de 1784.70 David Watkin (1992) chega mesmo a considerar estes arquitetos Etienne-Louis Boulée (1728-99) e Nicholas Ledoux (17361806) como os mais inspiradores e influentes dos finais do século XVIII. O autor manifesta, inclusivamente, o seu reconhecimento no que respeita à capacidade de inovação das sua obras, verificando-se um uso intensivo da planta circular em várias das suas conceções mais utópicas (Watkin, 1992). (Fig. 1.2.13-6, 1.2.13-7) À semelhança do que aconteceu durante o Renascimento, Kaufmann (1974) destaca também o uso das formas elementares na arquitetura neoclássica, reconhecendo até a existência de algum radicalismo no que respeita à sua utilização da planta circular, destacando sobretudo, o seu grau de independência na relação com o contexto envolvente: Fig. 1.2.13-6 - Cenotáfio Isaac Newton, 1784, J-E. Boulée (não construído). (Alçado e corte) 1.2.13-7 - Casa para agricultor, 1770, N. Ledoux (não construído) (Iustração) 70 Vogt apud Patetta, 1997: 333; 1.2.13 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Arquitetura Neoclássica e Historicista 100 El carácter prohibitivo de las formas elementales se ajusta muy bien a la tendencia liberadora de las partes. La máxima independencia del entorno se logra en las casas cilíndricas [...]71 Porém, embora reconhecendo as caraterísticas distintivas que a planta circular acabaria por proporcionar de um modo geral na obras dos arquitetos deste período, é possível também encontrar algumas críticas no que respeita à sua utilização. Estas declarações permitem ao mesmo tempo perceber até onde é que os arquitetos revolucionários estariam dispostos a ir, na afirmação de um caráter inovador, com a "arriscada" utilização da planta circular: Estas formas, así como la esfera - empleada únicamente por algunos extremistas franceses, apenas si resultan adecuadas para fines práticos, pero tienen una autonomía mayor que los cubos y los prismas; [...] el cilindro sólo permite aproximarse a una línea vertical; a la esfera completa, unicamente a un punto. [...] El interés sentimental por las estructuras piramidales y cilíndricas del pasado tuvo desde luego cierta influencia en la resurrección de estas formas.72 La casa Vassale, construida por Henry en la rue Pigalle (1788), era un cilindro completo cubierto pro un tejado cónico. El arquitecto no tuvo muy en cuenta las desvantajas práticas de la planta circular.73 Neste sentido, também Watkin (1992) refere que J. N. Durand (1760-1834), considerado pelo autor como sendo já um "pós"- revolucionário, e que defendia sobretudo uma lógica baseada na simetria e a regularidade, destaca a beleza da forma circular, mas no entanto, tece algumas críticas à sua utilização: El círculo y la esfera eran las figuras más bellas porque encerraban el área máxima-o volúmen en el caso de la esfera - en el mínimo de circunferência o área de superfício. Pero admitía que no resultaban práticas en el deseño de edifícios, y, por tanto, Fig. 1.2.13-8 - Estudo para edifício, J. N. Durand, século XIX (Planta) 71 Kaufmann, 1974: 133; 72 Kaufmann, 1974: 134; 73 Kaufmann, 1974: 218; Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 101 elegió como los seguientes mejores el quadrado y el cubo.74 Numa vertente mais arqueológica, é também possível verificar uma utilização integral da planta circular, em memoriais ou mausoléus. (Fig. 1.2.13-9) Neste sentido o historiador David Watkin, refere que os arquitetos neoclássicos manifestavam um especial interesse pelo crescente número de estudos arqueológicos iniciados naquela época, cujas formas dos seus modelos se baseavam sobretudo em formas dos edifícios clássicos do passado, destacando, nomeadamente, obras emblemáticas de planta circular: Para cada um dos seus projetos visionários se pode atribuir um protótipo identificável, dando provas da sua vasta erudição. Os edifícios romanos antigos são os mais óbvios - o Coliseu, o Panteão, a Piramide de Cestio, o túmulo de Cecília Metela, os mausoléus de Adriano e Augusto, e o de Halicarnasso.75 Fig. 1.2.12-9 - Templo da Grande Virtude, William Kent, 1737, Inglaterra. 74 Durand apud Watkin, 1992: 31; 75 Watkin, 1992: 182; 1.2.13 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Arquitetura Neoclássica e Historicista 102 Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 103 1.2.14 Arquitetura do Movimento Moderno Pode considerar-se frágil a difusão da planta circular entre as obras mais representativas dos principais protagonistas do Movimento Moderno, relativamente ao período compreendido entre a segunda e a quarta década do século XX. Vários autores como Zevi (1977), Norberg-Schulz (1979) ou Benevolo (2007), destacam a "planta livre" com sendo o grande fenómeno revolucionário do Movimento Moderno, colocando ao mesmo tempo duas principais correntes em evidência: As duas grandes correntes espaciais da arquitetura moderna são o funcionalismo e o movimento organico [...] Tendo em comum o tema da planta livre, essas correntes o entendem de forma diferente; apenas racionalmente a primeira, organicamente e com plena humanidade a segunda.76 Embora existam alguns exemplos que demonstram que a planta circular foi sendo considerada, e chegando até a ser utilizada, esses casos tratam-se maioritariamente de equipamentos públicos destinados a usos muito específicos, distantes do principais programas daquele período que na sua maioria giravam em torno da habitação, e que ocupam o principal legado dos principais arquitetos da corrente 76 Zevi, 1977: 124 1. 2.15 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Depois do Movimento Moderno 110 programáticas, permitindo perpetuar a sua evolução. No entanto, numa observação mais direta verifica-se uma continuidade da mesma tendência que tem vindo a ser referida ao longo da segunda metade do século XX, no sentido em que, edifícios de planta circular continuam a integrar programas funcionais completamente diversificados e até multifuncionais, continuando no entanto, à semelhança do passado, a ser utilizada na conceção de edifícios de grande envergadura destinados a um uso massificado, como estádios, pavilhões culturais e desportivos, parques de estacionamento. Muitas vezes a reciclagem dos velhos edifícios para uso completamente diferente do de origem dá lugar a espaços nos quais o processo de adaptação não só não produz uma descida do nível estético, mas também determina um aumento da capacidade. 88 Existe, porém, um outro campo que não foi ainda propositadamente abordado, e onde a planta circular tem sido cada vez mais explorada; as construções industriais que foram concebidos com base circular, e que nesses casos atendia a exigências sobretudo de caráter estritamente caráter funcional. A origem de muitas destas construções remonta aos períodos da segunda metade do século XIX, tendo proliferado sobretudo ao longo do século XX, e entre as quais se poderão constar: silos de armazenamento de cereais, água ou combustíveis, ou até as antigas roundhouses ferroviárias. Embora já sendo milenares, também poderão integrar-se neste âmbito os moinhos de vento. Inicialmente, estas construções que à data da sua construção se encontravam normalmente implantadas em zonas que correspondiam a áreas periféricas de concentrações urbanas mais densificadas, e que devido à crescente urbanização, se deparam, Fig. 1.2.15-7 - Gasómetros, Viena, Edifícios de habitação, escritórios, e zona comercial Anteriormente estavam desativados, tendo sido reconvertidos, em 2002. 88 Portoghesi; 1999: 36; Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 111 atualmente, em circunstâncias para as quais não teriam sido concebidos na sua origem, estando em muitos casos desativadas, ou até em estados avançados de deterioração. Tem-se assistido nos últimos anos a vários casos de reconversão deste tipo de construções para os mais variados usos, e entre os quais tem sido cada vez mais recorrente, a habitação. A planta circular é adquirida, particularmente, nestas circunstâncias como um elemento diferenciador, possibilitando uma organização alternativa à convencional "ortogonalidade" que carateriza a maioria dos conjuntos habitacionais. Fig. 1.2.15-8 - Gemini Residence Copenhaga, 2005, MVRDV (Planta). Edifício de habitação coletiva, concebido a partir de dois silos industriais como pré-existências e aproveitados como estrutura portante do edifício 1. 2.15 - Evolução da planta circular na arquitetura ocidental - Depois do Movimento Moderno 112 2 VARIAÇÕES TIPOLÓGICAS DA PLANTA CIRCULAR Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 115 O capítulo que se segue tem um caráter distinto do que foi sendo desenvolvido até ao momento. Foram considerados para o próximo "exercício", vários edifícios concretos, ou seja, já construídos. No entanto não foi colocado qualquer critério relativamente à sua origem, não se encontrando circunscritos a uma tipologia de uso específica, limitação ao nível da escala, ou contexto historiográfico. Cada conjunto de exemplos estará associado a um modelo, que foi determinado segundo uma abordagem mais particularizada no que respeita ao tema da planta circular e ao modo como a geometria do círculo se pode posicionar em "planta", relativamente à composição edificada. Naturalmente que, a questão da sua tipologia de uso irá exercer uma profunda influência, no entanto, existem alguns resultados que se poderão considerar inesperados. Devido a questões "logísticas", existem exemplos do conhecimento geral que não se encontram aqui mencionados neste estudo, mas que poderiam igualmente ser consideradas. Nesse sentido, podem sempre ser estabelecidas bases de semelhança face aos vários modelos aqui criados. 2 Variações tipológicas da planta circular 116 Existirão também certamente, alguns casos que não obedecem unicamente a um modelo específico, podendo porém, apresentar uma combinação de caraterísticas que o aproximam de múltiplas possibilidades. Caso se verifique, esse exemplo poderá ser integrado em mais do que um modelo ou, então, ficar associado ao que mais se aproxima da sua especificidade dominante. Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 117 2.1 Neutro Este modelo que se optou designar por Neutro, é considerado neste estudo como sendo o mais elementar. Trata-se de um espaço "único", definido apenas pela superfície que o circunscreve, e por uma total ausência de compartimentação ou qualquer elemento estrutural que condicione visual ou fisicamente o espaço, em toda a sua amplitude. Alguns dos exemplos podem apresentar variações de espessura na sua parede limite, através da existência de saliências ou reentrâncias, gerando por vezes nichos. Historicamente, este modelo corresponde ao que seria adotado pela cabana primitiva, assim como por construções de arquitetura vernacular, em materiais como pedra, adobe, ou até em gelo. Túmulo de Atreus, Micenas, séc. XII a. C. (autor desconhecido) Segundo Martin (1984) este túmulo é considerado um dos melhores exemplos na combinação de arte, técnica e proporção da cultura micénica; também designado por tholos, destinar-se-ia provavelmente ao enterramento de uma personalidade destacada de 118 uma família, ou comunidade (Martin 1974). Tratando-se de uma construção enterrada numa colina, o acesso é antecedido por um corredor a céu aberto - o dromos - escavado no terreno, e ladeado por dois muros em alvenaria cuidadosamente alinhados, perfazendo o percurso até ao interior do túmulo. A entrada, com altura superior a cinco metros, e cerca de três de largura, é coroada por uma arquitrave constituída por uma só peça, que ocupa toda a largura e profundidade da passagem (Martin, 1989). O espaço interior, de base circular, com secção em arco quebrado, desenha uma falsa cúpula totalmente construída em alvenaria, chegando a atingir 13 metros de altura, e um diâmetro interior com cerca de 15 metros (Martin, 1989). Panteão, Roma, 125 d. C. (autor desconhecido) Permanecem ainda obscuros alguns factos que clarifiquem com rigor a data da sua construção. Segundo Martin (1989), a atual configuração terá resultado de uma última reconstrução, efetuada no tempo do Imperador Adriano, no século II d. C., e cujo estado de preservação se tem mantido intacto até aos nossos tempos. Concebido como o santuário de todos os deuses, era também denominado por rotonda. Seria um evocado pelo Imperador como elemento de afirmação de um novo espírito puramente romano, estabelecendo uma demarcação num sentido diametralmente oposto aos templos clássicos de tradição helenística daquele período, através de uma lógica de antítese ao já existente Templo de Vénus em Roma (Sterlin, 1984). Em vez de um edifício destinado a ser contemplado pelo exterior e que responderia a um plano axial, funde-se num plano central, totalmente regido pelo espaço interno; ao invés de um esquema ortogonal retangular, adopta uma forma cilíndrica, e no lugar de uma cobertura prismática resultante de dois frontões triangulares, Fig. 2.1-1 - Túmulo de Atreus, Micenas, século XII a. C. (Corte e planta) Fig. 2.2-2 - Panteão, Roma, século, 125 d. C. (Planta) Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 119 adoptou uma cobertura em cúpula. Apenas o pórtico colunado do nártex de entrada traduz uma imagem tradicionalmente clássica, cuja linguagem contrasta com a rudeza da superfície do volume da rotonda, fruto da recusa de Adriano à adoção de um perímetro colunado circular, caraterístico no tholos grego (Sterlin, 1984). É no momento de transição para o espaço interior, que é atingido o efeito de total unidade e perfeição, traduzido por toda a envolvência do espaço circular e pela relação esférica na harmonização das suas proporções. Através da abertura central no topo da cúpula resulta uma luminosidade zenital, reproduzindo um efeito celestial. Igreja do Convento da Serra do Pilar, 1560, Vila Nova de Gaia (João de Ruão) Segundo Domingos Tavares (2007a), a primeira pedra terá sido lançada em 1538 pelo Bispo Baltazar Limpo, após cerca de um ano antes, Frei Brás ter anunciado a presença de Diogo de Castilho e João de Ruão, no dia de São Nicolau, para traçar o edifício e abrir os alicerces da igreja e do claustro. Relativamente à sua implantação, o volume do santuário surge destacado em toda a paisagem envolvente; mantém-se em aberto a especulação de ter existido o desejo de reproduzir o efeito paisagístico criado pela Igreja do Santo Sepulcro, no cimo do Monte (Freitas, 2007). O espaço interior é definido por um jogo alternado de cheios e vazios, gerado pela saliência das pequenas capelas envolventes, cuja disposição tem como base uma geometria octogonal. O edifício é coberto por uma cúpula, e apenas o alinhamento entre a entrada e o altar mantêm uma relação axial de maior destaque no conjunto. A luminosidade interior é efetuada a partir de aberturas dispostas de forma homogénea ao longo de toda a superfície que constitui a parede vertical do edifício, e através de um lanternim localizado no topo da Fig. 2.2-3 - Panteão, Roma, 125 d. C. (Vista interior, ilustração) Fig. 2.2-4 - Planta da igreja do Convento da Serra do Pilar, V. N. Gaia (Planta) Fig. 2-25 - Igreja do Convento da Serra do Pilar (Vista exterior) 126 partilham os mesmos princípios tipológicos e estruturais, como é o caso do Philippeion no Santuário de Olímpia. Tempietto San Pietro in Montorio, início século XVI (Donato Bramante) O que melhor carateriza esta arquitetura é o seu caráter sólido e severo, resultante do rigor e simplicidade das proporções entre as diversas componentes da obra, sem o recurso a ornamentos mas antes privilegiando a pureza dos volumes como se fosse um templo grego, onde o espaço de uso não parece merecer qualquer privilégio.93 Situado no alto do monte onde terá sido sepultado o apóstolo Pedro, fundador da Igreja católica em Roma, este pequeno templo encontra-se implantado num pátio anexo à igreja quatrocentista com o mesmo nome. Não sendo um edifício destinado a um uso semelhante a um equipamento público, foi desenhado com o pressuposto de ser um memorial de valor simbólico, sendo a forma geral da sua volumetria circular, à semelhança dos templos da Antiguidade dedicados ao Sol e a Hércules (Tavares, 2007c). Está colocado sobre um pódio equivalente a seis degraus e o perímetro do peristilo está delimitado por dezasseis colunas dóricas (o dezasseis seria o número chave preferido por Vitrúvio) (Tavares, 2007c). A colocação da entrada da cela encontra-se localizada de forma precisa no intercolúnio da colunata do peristilo, mantendo um alinhamento axial com a entrada do pátio e o altar colocado no interior. No projeto ainda é possível verificar a proposta desenhada por Bramante para a transformação do pátio de forma quadrada em forma circular, com os cantos a tomarem uma forma arredondada destinando-se a edículas e pequenas capelas, à semelhança de Santa Fig. 2.2-4 - Tempietto de San Pedro in Montório, Roma, século XVI. Fig. 2.2-5 - Tempietto de San Pedro in Montório, Roma (Planta) Fig. 2.2-6 - Pátio circular (nunca construído) para o Tempietto de San Petro in Montório, Roma (Planta) 93 Tavares, 2007c: 99 Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 127 Maria della Grazia, em Milão (Tavares, 2007c). Silo Auto, Porto, 1964 (Alberto José Pessoa, João Abel Bessa) Trata-se de um edifício implantado numa área em processo de consolidação urbana, no período em que foi concebido. Para além da escala, a sua forma circular é um dos atributos que o tornam como um dos edifícios mais iconográficos da cidade. Totalmente construído em betão, é constituído por oito pisos. Face ao local onde está implantado, encontra-se parcialmente encaixado no morro existente no lado norte, cuja cota sendo a mais elevada da envolvente apenas possibilita uma leitura parcial do volume; a partir do quadrante sul, à cota base, o edifício apresenta-se em toda a sua extensão. O momento de transição entre cotas destes dois quadrantes resulta numa experiência urbana de caráter excecional muito acentuada pela forma circular do edifício, geradora de um efeito dinâmico de aceleração espacial. No interior do volume circular central encerrado, desenvolvem-se duas rampas helicoidais sobrepostas que servem o acesso automóvel entre pisos, tendo como únicas aberturas a passagem de acesso à área de estacionamento que se desenvolve ao longo do "peristilo" exterior. O recinto de estacionamento mesmo sendo coberto, estabelece uma interação com o ambiente urbano. Posteriormente foi criada uma danceteria ocupando parcialmente o piso superior, sendo acrescentada uma fachada opaca na área correspondente ao novo espaço. A sua elevada robustez estrutural e o programa praticamente monofuncional para o qual foi concebido, organiza-se segundo uma lógica de distribuição radial dos lugares de estacionamento; a grande ausência de compartimentação, conferem ao edifício uma grande versatilidade na adaptação a outros usos. Fig. 2.2-7 - Vista norte do Silo Auto, Porto, 1964 (Planta) Fig. 2.2-8 - Silo Auto, 1964 Porto 128 Considerações Relativamente aos exemplos aqui apresentados, que remontam ao período clássico (excetuando o Templo de Vesta), não se verificam ainda teorias consolidadas que possam prestar um esclarecimento concreto dos possíveis motivos que tivessem levado à adoção da sua forma circular. Vários autores referem atribuem o seu significado a cultos pagãos, prestados a deuses cujas crenças estariam relacionadas com efeitos de cura e renovação. Embora o Silo Auto apresente um uso diametralmente oposto aos outros exemplos aqui demonstrados, sendo destinado a um funcional, e não a culto, é possível estabelecer uma direta relação entre o seu modelo e os antigos "pequenos" templos clássicos. Apesar de ser constituído por vários pisos, e possuir uma escala claramente superior, a sua composição adota os mesmos princípios espaciais e estruturais: um núcleo central encerrado por uma parede contínua que encerra o espaço e apenas aberto por pontuais aberturas, e a área de estacionamento que à semelhança do peristilo é totalmente aberta, mantendo contacto direto com o ambiente exterior (existindo apenas o elemento de betão que serve de guarda, devido à elevada altura dos pisos). De modo semelhante aos templos clássicos, o perímetro exterior do edifício é também rodeado por pilares que servem de suporte estrutural até à cobertura. Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 129 2.3 Deambulatório Neste modelo, tal como aconteceu com o anterior, a sua designação surgiu também com base no elemento tipológico que o constitui - Deambulatório. Foram considerados exemplos de planta circular que constituem um espaço encerrado, e onde se desenvolve uma área de circulação que circunscreve um núcleo central que se encontra ocupado por um túmulo ou altar; delimitação entre os dois espaços é normalmente efetuada por colunas, dispostas segundo uma lógica radial. Segundo Norberg-Schulz (1979) e Krautheimer (1962), este modelo foi muito difundido nos espaços centralizados da arquitetura tardo-romana e paleocristã. Mausoléu Augusto, Roma, século I a. C. (autor desconhecido) Com base circular em pedra e cobertura cónica em terra, esta edificação remonta às construções funerárias anteriormente concebidas nas necrópoles etruscas e helenísticas, civilizações com as quais os romanos já teriam estabelecido contacto durante os séculos anteriores à sua data (Marta, 1985). Devido às suas grandes dimensões destacar-se-ia de outros exemplos já construídos em Roma, no mesmo Fig. 2.3-1 - Mausoléu de Augusto, século I a. C. (alçado) 130 período, e que tradicionalmente partilhavam uso e estrutura semelhante; com um diâmetro base de 90 metros, e uma altura total de 45 metros, era encimado por uma estátua de grandes proporções, de Octaviano, assente num plinto circular rematado com um friso dórico, elevando a grandiosidade da composição e o estatuto de monumentum (Gros, 1996). No espaço interior, o núcleo central encontra-se ocupado pela edícula que alberga o túmulo de Augusto, e em torno da qual se desenvolvia o deambulatório. O percurso de entrada processa-se numa lógica de transição direta para o interior, dispensando o dromos (corredor de acesso) ou nártex, anulando a existência de qualquer elemento exterior que pudesse interfir com a pureza aparente do volume. Trata-se de um edifício cuja importância estética é claramente orientada para o exterior, uma caraterística adotada sobretudo em edifícios republicanos tardios, ou em túmulos da fase imperial inicial (Jones, 2000). Rotunda do Sto. Sepulcro, Jerusalém, 336 (Imperador Constantino) Localizada no lado este do conjunto, terá sido inicialmente edificada no ano de 336, durante o reinado do Imperador Constantino para albergar a edícula do que supostamente terá sido aclamado como o túmulo onde esteve sepultado o corpo de Jesus (Willis, 1849) Segundo Norberg-Schulz (1979), terá sido uma das primeiras obras a influenciar a adoção do modelo de planta centralizada na arquitetura paleocristã. A evolução de todo o conjunto é complexa, após várias intervenções vai assumindo uma configuração mais compacta ao longo do tempo; esteve sujeita a uma profunda reconstrução no período das Cruzadas (após a sua destruição pelo califado no início do século XI); entretanto a sua estrutura foi-se mantendo constante, sofrendo poucas alterações até ao grande incêndio de 1808, que obrigou a uma Fig. 2.3-2 - Mausoléu de Augusto, século I a. C. (planta) Fig. 2.3-3 - Anastasis, Santo Sepulcro na era de Constantino, no século. IV, Jerusalém (Vista geral) Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 131 reconstrução quase total da Rotunda (Willis, 1849). A atual cúpula semiesférica acaba por ser o elemento através do qual é realçada a sua presença exterior. (Fig. 2.3-3) O Santo Sepulcro permanece no meio da Rotunda que media cerca de 22 metros de diâmetro, e 20 de altura, o que deixa a entender que no momento da sua conceção existia uma intenção de que o diâmetro e a altura tivessem igual dimensão. As paredes são divididas em três níveis: o piso térreo, trifório e o clerestório (Willis, 1849) Um corredor abobadado com cerca de quatro metros de largura que circunscreve toda a antiga Rotunda, constitui o deambulatório. A cobertura era construída em madeira, (sustentada por 131 troncos de cedro, de secção quadrangular) de forma cónica truncada no topo formando a única abertura através da qual a luz penetrava no interior do espaço; o diâmetro mediria cerca de quatro metros. Esta seria a única entrada de luz que permitiria iluminar esta parte da igreja, cujo exemplo do Panteão em Roma permitiria comprovar que este modo de admissão de luz através de uma única abertura seria suficiente (1849). Mausoléu Sta. Constanza, Roma, Séc. IV (autor desconhecido) Segundo Norberg-Schulz (1979) esta construção foi edificada inicialmente como mausoléu de Constantina, filha do Imperador Constantino. Com planta circular diferencia-se dos mausoléus romanos tardios, pelo seu perfil totalmente basilical (Norberg-Schulz, 1979) Segundo o autor (1979), a revolucionária ideia de adaptar a disposição espacial da basílica num edifício centralizado confere a este edifício uma importância singular na história da arquitetura cristã. Terá sido a partir deste mausoléu, que se originou o conceito que Norberg-Schulz (1979) designa por "dupla envolvente", em que a cúpula se destaca Fig. 2.3-4 - Anastasis, Santo Sepulcro na era de Constantino, no século. IV, Jerusalém (Planta). Fig. 2.3-5 - Planta de Santa Constanza, Roma, século IV (Planta) 132 num volume cilíndrico mais elevado pousado sobre colunas. Em torno deste conjunto, desenvolve-se o deambulatório, pontuado por três absides que estabelecem uma dupla axialidade juntamente no conjunto. É notório um acentuado efeito de contraste na luminosidade do espaço interior, sendo a maior parte da luminosidade captada a partir do tambor gerando um efeito celestial no espaço central. Santo Stefano Rotondo, Roma séc. V (autor desconhecido, Bernardo Rosselino séc. XII) Para os artistas de Florença Santo Stefano apresentava-se, mesmo para além das ruínas, como um exemplo de arquitectura antiga que respondia perfeitamente ao ideal do espaço religioso centralizado onde o círculo traduz o sentido universal que coloca o homem simbolicamente no lugar geométrico da percepção do visível, entendido assim como uma síntese ou solução perfeita a perseguir94 Situada no monte Celio trata-se de uma basílica paleocristã construída no séc. V, no mesmo lugar onde teria existido um templo pagão. Sofreu várias alterações após sucessivas reconstruções provocadas pela sua destruição em guerras e pela ocupação de diferentes ordens religiosas, encontrando-se parcialmente em ruínas quando foi sujeita à intervenção de Bernardo Rosselino, no século XV, no cumprimento do programa do Papa Nicolau V (Tavares, 2007b). Através do tom avermelhado do tijolo em que foi construída, e da elevação do tambor central, a sua presença destaca-se na paisagem. Na sua conceção original era constituída por três anéis concêntricos que albergavam um espaço de culto central, um deambulatório, e quatro ábsides que formavam os braços de uma cruz grega, que alternavam radialmente com os vazios que constituíam Fig. 2.3-6 - Santa Constanza Roma, século IV (Vista interior) Fig. 2.3-7Santo Stefano Rotondo, Roma, século XII (deambulatório interior) Fig. 2.3-8Santo Stefano Rotondo, Roma, século XII (Planta e reconstrução geral) 94 Tavares, 2007b: 66; Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 133 pátios descobertos fechados pelo muro do perímetro exterior. Segundo Domingos Tavares (2007b), no século XII a igreja foi alvo de uma grande renovação tendo o templo adquirido a configuração atual; foi-lhe retirado o anel exterior ficando só uma das absides, a partir da qual mais tarde, Rosselino, construiu a que ainda permanece como a atual entrada. O deambulatório definido pela colunata jónica é marcado por dentro por uma arquitrave plana, contínua, circulando todo o perímetro do tambor que suporta, marcando a distinção entre espaço servido e o espaço servidor, sendo o sistema de iluminação natural a chave de compreensão do espaço central, despojado de qualquer decoração perturbadora da sua homogeneidade cromática (Tavares, 2007b). Charola do Convento de Cristo, Tomar, século XII (Gualdim Pais) Trata-se de um dos templos construído em rotunda, de configuração poligonal constituído por dezasseis faces, em traça românica, exteriormente apoiada por largos contrafortes, conferindo ao conjunto o aspeto de sólida fortaleza que era o primitivo oratório templário (Graça, 1991) No século XVI, durante o período em que decorreram as obras manuelinas, foi transformada em capela-mor de uma nova igreja, de nave única, cuja adaptação é atribuída a Diogo de Arruda (Graça, 1991). No interior o núcleo é ocupado por um prisma octogonal que envolve o altar, coberto por uma cúpula totalmente fechada; é definido por um conjunto de arcarias que delimitam o espaço central do deambulatório envolvente. Todo o espaço possui uma decoração exuberante, que corresponde com o orientalismo assumido pelos cavaleiros templários, de estatuária, pintura e estuques ao gosto mudéjar que remontam ao período das intervenções século XVI (Graça, 1991). Fig. 2.3-9 - Charola do Convento de Cristo, Tomar, século XII (Vista exterior) Fig. 2.3-10 - Charola do Convento de Cristo, Tomar, século XII (Planta) 134 Considerações Partindo dos exemplos apresentados neste capítulo, este modelo surge sobretudo aplicado em construções destinadas a programas de culto funerário/religioso, não se tendo verificado em outro tipo de uso. A sua estrutura interna está organizada essencialmente segundo uma geometria radial; na maioria dos casos as colunas utilizadas na delimitação do espaço central suportam um tambor, onde aberturas na sua superfície lateral permitem a captação de luz criando por vezes um efeito de dramatismo. A superfície interior da parede de fachada envolvente pode apresentar variações de espessura, a existência de nichos ou aberturas. No caso da Charola de Tomar, embora se trate de um exemplo de geometria poligonal, acaba por partilhar o mesmo efeito de continuidade na sua dinâmica de circulação, à semelhança de um edifício puramente circular. Curiosamente o número de faces que constitui o polígono da rotunda (dezasseis), é um múltiplo de quatro, o que segundo Krautheimer (1962), poderá significar uma relação simbólica com a numerologia cristã. Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 135 2.4 Arena Este modelo ao qual se resolveu designar por Arena, constitui-se pela mesma tipologia que já tinha sido explorada nos teatros gregos ou anfiteatros romanos ou em arenas. Trata-se essencialmente de um modelo determinado pela necessidade de circunscrever um espaço central onde se desenrola uma cena ou ação, e em torno do qual se procura uma distribuição equidistante do público, normalmente suportado por uma bancada. Normalmente, nestes casos procuram-se soluções que dispensem o uso de elementos estruturais ou de compartimentação, que possam gerar perturbação dos enfiamentos visuais entre os dois espaços. Palácio de Cristal, Porto, 1952 (José Carlos Loureiro) Localizado nos jardins do antigo Palácio de Cristal, foi construído para albergar as competições do Mundial de Hóquei, em Patins de 1952, no mesmo local onde estava implantado o antigo Pavilhão de Exposições. Trata-se de um edifício com uma presença demarcada no tecido edificado da cidade, não só pela escala de grande dimensão, mas também devido à forma circular, estabelecendo uma relação de neutralidade relativamente ao contexto envolvente. Com um diâmetro de base 92m, alberga no seu interior um Fig. 2.4-1 - Pavilhão dos Desportos, Porto, 1952 (Planta) 142 Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 143 2.6 Panóptico Este modelo foi utilizado sobretudo em prisões e hospitais, mas apenas alguns exemplos no mundo reproduziram de um modo mais fiel a ideia radical inicialmente concebida pelo seu criador, Jeremy Bentham (1748-1832). Como um sistema de vigilância omnipresente, a sua designação é etimologicamente resultante do termo Pan que significa "tudo", e opticon o mesmo que "visível" (Trigueiros, 2011). No núcleo está localizado um ponto de vigia - torre, possibilitando um domínio visual num alcance de 360º. A compartimentação do espaço interior está organizada segundo um esquema geometricamente radial, favorecendo o enquadramento visual dos compartimentos durante a vigilância efetuada a partir do centro. Panóptico, Londres, 1785 (Jeremy Bentham) Esse "olho que tudo observa" corresponde à inspeção: é o princípio único para estabelecer a ordem e conservá-la; mas uma vigilância que funciona com base na imaginação e coloca centenas de homens na dependência de um só, Fig.2.6-1 - Prisão panóptica, Inglaterra (Ilustração de Jeremy Bentham) 144 proporcionando a esse homem uma espécie de omnipresença no recinto do seu domínio. 95 A sua estrutura assenta essencialmente, numa composição de planta circular, e obedecia a uma regra de vigilância efetuada a partir de um ponto central, cujo alcance seria total. Toda a compartimentação do edifício é efetuada radialmente, permitindo que os enfiamentos visuais do vigilante e das galerias de inspeção penetrassem no mais ínfimo local dentro da rotunda, sem que algum canto ficasse escondido. Um princípio fundamental da ideia original consistia na camuflagem do posto central (estando revestido com algum elemento padrão, de estilo semelhante a venezianas) anulando a presença do vigilante através do efeito "orwelliano" de "vigiar sem ser visto" (Trigueiros, 2011). Considerações Segundo Trigueiros (2011), existem edifícios que embora não tivessem adotado alguns dos princípios de maior radicalismo sugeridos neste modelo, ainda se mantiveram operacionais durante o século XX. No entanto, com o avanço das inovações tecnológicas dos sistemas de segurança que surgiram principalmente no século XX, foi sendo cada vez mais afastada a necessidade de recorrer a esta tipologia arquitetónica, sobretudo após a introdução de mecanismos eletrónicos de videovigilância cada vez mais evoluídos. (Trigueiros, 2011) Um dos poucos edifício integralmente panópticos construídos no mundo terá sido o Pavilhão de Segurança do Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa. Fig.2.6-2 - Prisão panóptica, Inglaterra (Corte/alçado, planta parcial) Fig.2.6-3 - Pavilhão de segurança, Hospital Miguel Bombarda, Lisboa, 1896 José Maria Nepumoceno (183695) (Vista aérea) 95 Trigueiros; 2011: 33; Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 145 2.7 Híbrido À semelhança dos exemplos verificados anteriormente, neste modelo o qual se optou designar como Híbrido, apresentam igualmente uma configuração geral circular. No entanto, a geometria da sua compartimentação adota esquemas alternativos à regra natural de subdivisão do círculo, ou seja, não obedece a uma lógica radial, convergente num centro equidistante do seu limite exterior. Teatro Marítimo, Villa Adriana, Tivoli, 121 d. C. (Adriano) Sem uma função objetivamente determinada, trata-se de uma estrutura termal que surge implantada no núcleo do conjunto que constitui todo o complexo palaciano, atuando como charneira entre o setor residencial e o setor lúdico e cultural constituído por equipamentos (Sterlin, 1984). A construção revela uma grande complexidade geométrica; o perímetro exterior do recinto é definido por um peristilo circular, podendo-se designar mais concretamente como um "circulambulatório", cujo diâmetro é cerca de 44 metros, (curiosamente a mesma dimensão do diâmetro do Panteão) (Sterlin, 1984). Uma colunata delimita a transição entre o circuito coberto e o Fig. 2.7-1 - Planta, Theatre Maritime, Tivoli, 121 d. C. (Planta) 146 espelho de água, envolve o corpo da ilha, no centro. O acesso ao recinto é efetuado a partir de cinco entradas dispostas em múltiplas direções, que comunicam com as compartimentações dos setores adjacentes: duas a oeste, que comunicam com as Salas dos Filósofos, uma a leste que se abre sobre o pórtico, e duas a norte: uma secundária em relação com a "Biblioteca Grega", e uma principal, que se estabelece uma relação axial com a entrada do vestíbulo. A ilha localizada no centro revela uma organização geométrica de grande complexidade, cujo plano central obedece a uma dupla simetria, marcada pela relação de perpendicularidade entre um eixo principal norte/sul (mais evidenciado pela relação axial entre o vestíbulo que antecede o peristilo e a pequena ábside), e um eixo secundário este/oeste. Toda a construção terá sido concebida, segundo o desejo do Imperador Adriano; como um local de repouso e abstração, no qual vários elementos combinados de colunas e entablamentos, e a eventual existência de uma cúpula a cobrir o baldaquino central, estabelecem uma especulada significação cósmica e astrológica (Sterlin, 1984). Biblioteca da Universidade de Virginia, 1826 (Thomas Jefferson) Designado por Thomas Jefferson como um verdadeiro "templo do conhecimento", o edifício foi concebido como o principal elemento do conjunto edificado que constituía a recentemente formada Universidade da Virgínia; integrado no núcleo do conjunto, assume o estatuto de clímax de uma composição de volumes de inspiração clássica, e heterogénea (Howard, 2003). Tendo como modelo o Panteão de Roma, Jefferson, desenhou o seu edifício com a mesma configuração, mas alterando as suas proporções, passando o diâmetro a medir 23 metros, sendo Fig. 2.7-2 - Planta, Theatre Maritime, Tivoli, 121 d. C. (Vista aérea) Fig. 2.7-3 - Biblioteca da Universidade de Virgínia 1826 (Planta dos pisos inferiores) Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 147 metade do Panteão, e em consequência 1/4 da área, e 1/8 do volume".96 O interior é constituído por três pisos, partilhando o piso de entrada e da cave a mesma configuração; ambos possuem três salas de forma oval, sendo as duas de maior área separadas axialmente por um corredor, numa lógica de compartimentação não radial relativamente à forma circular do perímetro exterior. Edifício de habitação e escritórios, Lugano, 1990 (Mario Botta) Situado numa zona de recente expansão urbana, o volume carateriza-se pela sua forma cilíndrica, e cujas proporções o assemelham a uma torre. A forma circular foi um princípio de base na sua conceção, conferindo ao edifício uma imagem de exceção evitando o anonimato face ao contexto edificado envolvente. A mesma ideia foi partilhada no projeto da casa de Stabio, quando foi concebida com a ausência de uma "verdadeira" fachada, evitando qualquer possibilidade de o edificio se comprometer em qualquer frente com o habitat circundante (Pizzi, 1991). No interior, é explorada uma combinação de programas, sendo os três pisos superiores destinados a escritórios de arquitetura, e nos restantes pisos inferiores o programa de habitação. A volumetria possui vazios que permitem uma exploração de múltiplas soluções de iluminação para os espaço interiores, através de rasgos verticais e em profundidade, com diferentes dimensões, e entradas de luz zenital no último piso. Fig. 2.7-4 - Biblioteca da Universidade de Virgínia 1826 (Vista exterior) Fig. 2.7-5 -Edifício de habitação e escritórios, Lugano, 1990 (Planta piso de habitação) Fig. 2.7-6 -Edifício de habitação e escritórios, Lugano, 1990 (Vista exterior) . 96 Wilson, 2009: 32 148 Casas, Urbanização Bom Sucesso, Obidos, 2004, Contemporânea A "circunferência" será a forma mais autónoma de todas: duas circunferências postas lado a lado -- e ao contrário dos quadrados, por exemplo, que podem partilhar, solidariamente, um dos lados entre si, só poderão pôr em comum, um ponto.97 Foram concebidas como parte de um conjunto de habitações para um resort, destinadas a um uso de férias e fim de semana. Segundo Graça Dias & Vieira (2005), a forma circular permite o assentamento dos edifícios no terreno de modo a que os diversos enfiamentos visuais "escapem" por entre as casas vizinhas, libertando todo o restante do seu espaço aberto para um tratamento paisagístico autónomo (Graças Dias & Vieira, 2005). Contrariando a natural geometria de subdivisão do círculo, as soluções procuram a ortogonalidade na sua compartimentação interior, tendo sido adotada uma lógica de disposição em "L" voltado para o quadrante sul, a melhor forma de agrupar todo o programa face as áreas exigidas (205m2 e 250m2). Através dos armários e outros equipamentos de arrumo, é absorvido o impacto que a geometria circular poderia exercer com maior tensão em certas zonas do espaço interior, mais expostas ao contacto com a superfície limite do perímetro exterior (Graça Dias & Vieira, 2005). Creche para a Benetton, Treviso, 2007 (Alberto Campo Baeza) O edifício é constituído apenas por um piso térreo, e a sua compartimentação interior organiza-se com base numa grelha ortogonal quadrada formada por nove quadrados, envolvidos por um perímetro circular. Fig. 2.7-7 -Moradia (205m2), Urbanização bom Sucesso, Óbidos, 2004 (Planta) Fig. 2.7-8 -Moradia (205m2), Urbanização bom Sucesso, Óbidos, 2004 (Vista exterior) 97 Graças Dias & Vieira, 2005: 2; Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 149 O módulo situado no núcleo central do conjunto possui um pé direito mais elevado, permitindo captar luminosidade direta através de perfurações circulares, criando um efeito lúdico no interior. O perímetro é constituído por duas paredes paralelas cujo espaço interior constituí um corredor "secreto" para as crianças. O espaço gerado entre o conjunto quadrado central e o perímetro circular dá lugar a quatro pátios, nos quais a relação entre os planos retos e o plano curvo, geram experiências espaciais diferenciadas. Considerações Atendendo ao contexto em que cada um dos exemplos está inserido, independentemente de serem mais ou menos urbanizados, poder-se-á considerar que a adoção deste modelo resulta sobretudo de uma vontade de alcançar um caráter de autonomia face a um determinado contexto. Comparando com uma fachada plana, a planta circular naturalmente diminui o nível de compromisso com um enquadramento específico na relação com a paisagem envolvente. Exceptuando a Villa Adriana cujo significado seria mais simbólico/contemplativo, assim como a Biblioteca da Universidade de Virginia onde os espaços adquirem um caráter mais curvilíneo, a compartimentação do círculo a partir de geometrias rígidas e sem uma regra concêntrica, tende a provocar condicionalismos bastante evidentes. Embora o problema não se manifeste com a mesma intensidade em todos os exemplos, é notório que a adoção deste modelo poderá eventualmente conduzir a uma maior perda de espaço "útil". Fig. 2.7-9 - Planta, Creche Benetton Treviso, 2007 (Planta) 150 Variações tipológicas da planta circular na arquitetura ocidental 151 2.8 Compósito-Hall Neste modelo, que se optou designar por Compósito-Hall, o elemento circular encontra-se igualmente integrado no interior de uma composição, cuja configuração geral poderá assumir contornos diversos, alternativos ao círculo. Neste caso, o espaço circular corresponde a um espaço coberto - hall - podendo adquirir variações quanto ao seu caráter de permanência. Villa Capra ou La Rotonda, 1530, Vicenza (Andrea Palladio, Scamozzi) Localizada nos arredores próximos da cidade, não possui as verdadeiras características funcionais de uma villa agrícola. O seu proprietário pretendia dar-lhe um uso essencialmente social e pomposo nas suas festas, ao contrário da maioria das outras villas desenhadas por Palladio, fator que teve uma importância significativa na sua designação tipológica, não sendo uma villa em absoluto, mas antes um belvedere (Ackerman, 1981) Situada numa zona elevada e com um alcance de um horizonte vasto em todas as direções, Palladio, na sua conceção formal Fig. 2.8-1 - Villa Rotonda, Vicenza, 1530 (Vista aérea)