Turismo Genealógico: "Voltar a casa" - Turismo de Histórias e Memórias da Família
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FACULDADE DE LETRAS U N IV E R S I D A D E D O P O R T O Maria Helena Dias de Melim Preto “Voltar a casa” Orientador: Professora Doutora Maria Inês Ferreira de Amorim Brandão da Silva Classificação: Ciclo de estudos: Dissertação: 18 FACULDADE DE LETRAS Maria Helena Dias de Melim Preto 2º Ciclo de Estudos em Turismo TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 2014 Doutora Maria Inês Ferreira de Amorim Brandão da Silva Classificação: Ciclo de estudos: Dissertação: 18 Turismo de Histórias e Memórias de Família Doutora Maria Inês Ferreira de Amorim Brandão da Silva Versão definitiva
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família ii
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família iii “Por vezes viajamos para aprender mais sobre o mundo, e outras vezes simplesmente para aprender mais sobre nós mesmos.” Kyle Ellison (2012) in “Vagabond Tales: The Rewarding Adventures of Genealogy Tourism”.
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TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família v Resumo Este estudo recai sobre as viagens motivadas pela busca dos lugares de origem relacionados com a história familiar, que levam os interessados na pesquisa genealógica a uma descoberta de identidade. Na sequência de extensa espessura temporal dos movimentos migratórios que levaram à existência de “identidades desenraizadas”, de uma globalização uniformizadora, a questão identitária parece querer reforçar-se. Em simultâneo, um modo de vida crescentemente individualista, onde o conceito de família se vem alterando e onde os valores outrora passados de geração em geração parecem agora fazer parte de um passado romanceado, compõem um cenário de desestruturação social que resulta naquele que vem sendo reportado como um fenómeno turístico de busca de raízes. Esta dissertação é uma reflexão sobre as oportunidades que se abrem num mundo que se movimenta, cada vez mais, percorrendo as rotas das suas raízes. Palavras-chave: Turismo, Genealogia, História da Família
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família vi Abstract This study concerns the trips motivated by the pursuit of the places of origin related to family history, leading those interested in genealogical research in a discovery of identity. Following extensive temporal thickness of migratory movements that led to the existence of "uprooted identities" and of a homogenizing globalization, identity issue seems to reinforce itself. At the same time, an increasingly individualistic way of life, where the concept of family is changing and the values once passed from generation to generation seem to now be part of a romanticized past, make up a scenario of social disruption that results in what has been reported as tourism phenomenon of search for roots. Keywords: Tourism, Genealogy, Family History
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família vii Agradecimentos Desejo registar uma palavra de agradecimento profundo à minha orientadora, Sra. Prof. Doutora Inês Amorim, pela sua contagiante paixão pelo conhecimento. Deixo igualmente o meu apreço a todos os professores do Mestrado em Turismo pelo favor da partilha, que guardarei entre as memórias mais estimadas. A concretização deste projeto não teria sido possível sem o apoio incondicional da minha família, tolerando as ausências, as faltas de atenção e os desalentos que tantas vezes me ajudaram a contrariar. Às minhas filhas, Ana e Margarida, e ao meu marido, António, muito obrigada.
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TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família ix SUMÁRIO Resumo ..................................................................................................................... v Abstract ................................................................................................................... vi Agradecimentos...................................................................................................... vii Índice de conteúdo................................................................................................... ix Índice de figuras e tabelas ...................................................................................... xii Lista de Siglas e Abreviaturas ................................................................................xiii ÍNDICE DE CONTEÚDO CAPÍTULO I - Introdução ......................................................................................... .1 Enquadramento, Metodologia e Fontes do trabalho de investigação 1.1 Justificação do tema ............................................................................................ 3 1.1.1 Especificidade do Estudo ............................................................................ 4 1.1.2 Pertinência da Análise ................................................................................ 6 1.2 Objetivos ............................................................................................................. 7 1.3 Metodologia e Fontes .......................................................................................... 8 1.3.1 Posicionamento do investigador ............................................................... 11 1.3.2 Fontes de dados para os casos de estudo ................................................... 12 1.3.3 Estrutura do trabalho ................................................................................. 14 CAPÍTULO II - Moldura Teórica e Integração Conceptual do Estudo .............. .15 2.2. Articulando Mobilidade, Migrações, Diásporas e Transnacionalismo com Turismo .................................................................................................................. 15 2.2. Diáspora .......................................................................................................... 20 2.3 Transnacionalismo, Etnicidade e Multiplicidade de Referências Geográficas . 23 2.3.1. Práticas Transnacionais e Diáspora ......................................................... 25 2.3.2 Transnacionalismo e Turismo VFA .......................................................... 27 2.4 Identidade, Globalização e Sentido de Lar no Turismo ................................... 29 2.4.1 Perspetivando Cenários de Evolução num Contexto de Sociedade Global 30 2.4.2 Mobilidade e Desestruturação do Tempo Social ....................................... 33 2.5 Nostalgia: o "anseio pelo passado" impulsionador de viagens ......................... 36 2.6 Razões para a viagem: Autenticidade e Motivação no Turismo ....................... 39 2.7 Inscrevendo o Turismo Genealógico no âmbito do Turismo Cultural .............. 43
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 2 importante o estudo das conexões entre mobilidade e turismo. Neste seguimento, um dos aspetos que vem adquirindo maior importância para esta indústria é o do estudo das motivações dos turistas. O que os move afinal? Os motivos estão na base de partida para a compreensão das dinâmicas geográficas das populações, entre as quais estão as deslocações em turismo. Neste âmbito, as produções académicas recentes, que aos temas do turismo se referem, dão conta de um número cada vez maior de turistas com um motivo específico para as suas deslocações: a vontade de conhecer a pátria dos seus antepassados. O contexto encontra-se ligado aos fluxos de migrações que geraram, ao longo da História, grande número de comunidades que, por razões de ordem variada, se fixaram em lugares diferentes do seu local de origem, dando origem às chamadas diásporas. O fenómeno das viagens motivadas por interesses genealógicos, ligadas aos afetos evocados por uma herança ancestral e pela memória dos laços familiares, parece estar em expansão, sendo uma apetência intimamente ligada aos movimentos migratórios e de diáspora. O interesse na genealogia conduz, não raras vezes, a viagens cujo mote é a busca de raízes, das origens, fazendo surgir uma nova forma de atividade turística: a do Turismo Genealógico. Como este estudo terá oportunidade de demonstrar, trata-se de uma atividade a que é dedicada uma miríade de denominações. Este turismo é também referido como Turismo de Raízes, Turismo Ancestral, Turismo de Legado, de Património Pessoal ou ainda de Nostalgia ou de Saudade. Por esta razão, doravante, utilizaremos indiferenciadamente esta variada nomenclatura para nos referirmos à atividade da busca de conhecimento da história familiar e dos lugares de origem da família, que é materializada na realização de viagens a esses lugares. A OMT define-o: “o turismo de raízes é aquele que se baseia na visita aos lugares de procedência própria ou ancestral” (OMT, 1996:88). É este tipo de turismo que nos propomos estudar e que é tido como um subsegmento do Turismo Cultural. Os temas com eles relacionados envolvem os conceitos de passado, de memória, de identidade e têm presença obrigatória quando se trata de abordar o tema da busca de origens. Por isso, pode-se sugerir um universo de palavras-chave que corporizam uma revisão de
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 3 conceitos associados a este subsegmento do turismo cultural: Globalização, Mobilidade, Diáspora, Transnacionalismo, Emigração, Identidade, Turismo Genealógico – nostalgia – demografia – envelhecimento da população – cadeia geracional. A análise destas realidades em estudos de caso conduziram-me a colocar, como inevitável, a análise da possibilidade de existirem fluxos de turistas à procura das suas raízes, movidos pelas memórias dos mais velhos que lhes sugerem uma paisagem e vivências originais. Este estudo avança ainda para a possibilidade de gizar uma empresa que canalizasse estes fluxos geracionais, um turismo de visita às raízes, de “voltar a casa”. Estudos como os da Irlanda (The Gathering Ireland 2013) e Escócia (Homecoming 2009) apontam para a viabilidade e sustentabilidade, destas iniciativas empresariais. 1.1 Justificação do tema O turismo é uma indústria em franca expansão e a forma de utilização do tempo de lazer tem evoluído ao longo dos tempos, dando origem a uma segmentação do sector que parte das motivações dos turistas. Por outro lado, tomando a crescente intensidade de circulação de pessoas no globo, servida pelos desenvolvimentos tecnológicos de diversos sectores onde se destacam o dos transportes e comunicações, o turismo tornouse provavelmente o maior instrumento de globalização. Vivemos num mundo cada vez mais migrante, de mobilidade estonteante. Numa tal amálgama de sociedades formadas por pessoas de origens distintas, a questão identitária parece dar mostras de querer fortalecer-se. O crescimento acentuado do número de turistas que se deslocam à procura das suas raízes familiares, dando origem a mercado turístico de dimensão considerável, é merecedor de reflexão para, conhecendo as suas motivações, identificar, por exemplo, fatores de atração turística. Estes turistas procuram os lugares de origem dos seus familiares, visitando as “pátrias distantes”, pesquisando a História da família. Partem à procura de locais históricos, monumentos, documentos, edifícios, enfim, objetos evocadores de uma memória com significado pessoal, em busca da própria identidade. Vários autores apontam a escassez de estudos relacionando migrações e turismo e, por outro lado, cresce, na atualidade, o interesse pela genealogia que leva a viagens de
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 4 descoberta da história familiar. Estes turistas desejam também uma experiência de lazer. No interesse da indústria turística, há, a nosso ver, que juntar as duas componentes. 1.1.1 Especificidade do Estudo Portugal foi, e volta a ser nos nossos dias, um país de emigração. As geografias e a espessura temporal da emigração portuguesa são indicadores que levam a pressupor a existência de uma quantidade significativa de indivíduos com raízes portuguesas, dispersos por muitas partes do globo. À luz do surgimento de uma tendência turística, que nos propomos com este estudo expor e analisar, manifestada pela pesquisa da história familiar e consequente vontade de conhecimento dos lugares de origem, ambientes e paisagens de onde são provenientes os familiares das gerações que abandonaram a pátria de origem, é importante alertar para o potencial de uma demanda latente, a qual os serviços de turismo deverão compreender e aprender a servir. As dinâmicas migratórias portuguesas vêm-se sucedendo ao longo da história, tendo como destino não só o estrangeiro mas também os centros urbanos nacionais, que se tornam uma fonte de esperança de uma vida melhor para muitos originários dos meios rurais, onde a tradicional forma de vida agrícola não mais tinha capacidade de suprir as necessidades dos filhos dessas terras. É inegável o interesse e significado que as visitas, que essas populações responsáveis pelo êxodo rural de muitas regiões portuguesas e os seus descendentes farão aos seus lugares de origem, têm no âmbito turístico. A análise de variantes, nomeadamente o peso dos laços emocionais e familiares no número de visitas à terra de nascimento ou o fenómeno das segundas habitações do ponto de vista do turismo interno, leva a que nos debrucemos, neste estudo, sobre o hipotético interesse genealógico dos descendentes daqueles portugueses que outrora deixaram o país e fixaram residências no estrangeiro. É nosso propósito avaliar a existência de procura turística motivada por ligações emocionais, pelas construções mentais de apego a lugares de origem imaginados. Como mote para uma das suas conferências anuais, a ASA - Association of Social Anthropologists of the UK and Commonwealth escolheu, em 2007, o tema do Turismo de Raízes. Suportando a eleição do tema, apresentou-se a identificação, nas economias
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 5 ocidentais, de um crescente número de pessoas que empreendiam viagens na sequência das suas pesquisas de história de família, regressando ao “ponto de origem” identificável das suas famílias. As viagens de índole genealógica trazem à discussão a tradicional noção de “lar”, etnicidade e pertença, por via da construção de uma identidade própria, através das narrativas evocadoras da importância das memórias de um património familiar e de coletividade, através do tempo, que vem validar a localização do eu na história. Olhando para Portugal à luz da revelação deste tipo de interesse, e sendo o nosso um país de emigrantes, desde o século XVII (Índia) XVIII (Brasil) XIX África, Américas, XX (Europa), estes são potenciais elementos de um segmento turístico que pode revelar-se de interesse para Portugal, enquanto destino turístico, talvez até uma “jóia por descobrir”. Ao longo da História, também Portugal tem assistido à disseminação pelo mundo, por razões várias, de um número considerável dos seus cidadãos, que foram formando comunidades de dimensão expressiva nos seus países de acolhimento. A diáspora portuguesa, a quantidade de cidadãos originários de Portugal que, por diversas razões, abandonou a pátria e se fixou noutro território, tem uma dimensão significativa. Estimase que serão à volta de cinco milhões os Portugueses espalhados pelo mundo, com alguma diversidade de destinos. A expressão mais recuada da emigração portuguesa será, segundo Arroteia (2010:146), o “Eldorado” brasileiro e a distribuição geográfica da presença de portugueses que inclui os EUA, onde a proveniência mais relevante de emigrantes portugueses é dos Açores, o Canadá, mas também com algum significado e num tempo mais recuado (finais do século XIX e início do século XX) a Venezuela, a Argentina, as Antilhas Holandesas e as Bermudas. Na Europa, os países destino da maioria da emigração portuguesa são a França, a Alemanha, o Luxemburgo e a Suíça, sendo que, no continente africano, os países que acolhem comunidades portuguesas em maior número são a África do Sul, com grande representatividade de originários da Madeira, Angola e Moçambique, fruto da história portuguesa ligada à colonização (DGACCP, 1999). Na Ásia, mantém-se a presença portuguesa mais visível em Hong Kong, na índia e em
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 6 Macau na sequência da “manutenção dos laços ancestrais com os antigos territórios sob administração portuguesa” (Arroteia, 2010:146). À semelhança do que sucede no resto do globo, nas últimas décadas o turismo foi também ganhando grande expressividade na atividade económica do nosso país. Aquele que começou por ser um destino turístico relacionado com os 3 S’s (Sun, Sea and Sand), tal como a própria natureza do turista, evoluiu. O mote da indústria é agora o da diversificação e inovação quanto às atrações, aos motivos, aos interesses. Pesando estes fatores, julgamos pertinente procurar evidências, por um lado quanto à existência de interesse por parte de pessoas com ascendência portuguesas, interessados na pesquisa dessas raízes que os conduzam a Portugal, descendentes de emigrantes de outrora que se constituem potenciais turistas na pátria dos seus antepassados. Por outro lado, importanos averiguar da consciência, ou ausência dela, por parte das entidades portuguesas envolvidas no turismo quanto ao potencial deste mercado. A manutenção de uma ligação com a pátria por parte dos emigrantes portugueses é incontornável e visível nas visitas que realizam de volta a casa, sendo talvez mais evidente por altura do Verão em cada ano. Tanto assim é que, entre nós, o mês de agosto, para além de ser o tradicional mês para férias, é também sinónimo do tempo das visitas dos emigrantes. Essas são praticamente visitas tidas como certas e variados estudos vêm sendo feitos relativamente ao fenómeno, explorando nomeadamente a vertente ligada aos meios de transporte, às remessas que na economia são injetadas e aos gastos efetuados aquando da estadia em férias de volta a casa. Contudo, são ausentes análises sobre esta nova dimensão ligada à emigração, a das viagens derivadas do interesse dos descendentes dessa emigração em conhecer os locais de origem da sua história pessoal. Em Portugal não está feito esse diagnóstico e torna-se essencial avaliar em que medida este modalidade de motivação pode constituir uma oportunidade de inovação turística, de fator de desenvolvimento para o setor, no nosso país. 1.1.2 Pertinência da Análise Da literatura com que fomos contactando, este modo de atividade turística mostra-se inevitavelmente ligado às questões da memória, das memórias de família ou da busca por elas. Esta é, portanto, uma atividade que nos leva a equacionar, por um lado, o papel
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 7 do turismo na criação de lugares de memória e, por outro, na importância das memórias, como estas relacionadas com a história das famílias, para os lugares-destino de turismo. Nesta medida, a análise que de seguida se realiza pode constituir uma contribuição para a compreensão do turismo enquanto fenómeno social. O estudo pode ainda apresentar valor para agentes de viagens e operadores turísticos, na medida em que revela características do perfil dos consumidores de determinada categoria, permitindo a definição de produtos de consumo especializado, orientados para um segmento específico de consumidores. Ainda porque permite um maior entendimento das motivações turísticas, pode facultar aos destinos uma previsão baseada no comportamento do turista, que ajudará a uma melhor adequação dos destinos à procura. 1.2 Objetivos Pretendemos, com esta investigação, desenhar o esboço de um quadro teórico abrangente sobre o tema do turismo genealógico entre descendentes de emigrantes. O nosso interesse recai sobre as questões de procura de ancestrais na reconstituição de árvores genealógicas que constroem a história da família, enquanto motivo para a deslocação às terras de origem dos familiares. Assim, e em nosso entender, apenas fará sentido avaliar a busca de raízes se concretizada num turismo genealógico, que estabeleça uma ligação entre os descentes de gerações mais afastadas, cujos hiatos memoralistas exigem uma reconstrução dos percursos familiares. Baseamos a análise do crescente interesse por este tipo de turismo nos mercados ocidentais, e em concreto nos EUA, e procuraremos as razões que despoletam a viagem, baseadas na pesquisa genealógica. Tendo em conta o historial de emigração portuguesa, entre cujos destinos se encontraram, e encontram ainda, os EUA, tentaremos identificar, também, entre os luso-descentes, potenciais “turistas da diáspora portuguesa”, indícios da existência de motivações, de afetos ou lembranças de passado, construídos com memórias de Portugal capazes de levar a uma visita à pátria de origem dos seus familiares.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 8 Este estudo pretende reunir conhecimento sobre aquele que é apresentado como um segmento de mercado dentro da indústria do turismo: o turismo genealógico. Procuraremos ganhar compreensão das razões que estiveram na sua origem, o que o potenciou, que ambiente o proporcionou. Para tal, propusemo-nos a cumprir os seguintes objetivos específicos: Rever a definição de turismo de património. Explorar a expressão do turismo genealógico. Contribuir para um maior conhecimento dos interessados na busca das suas raízes enquanto turistas, diagnosticando quem é esse público e que ambiente propicia o aparecimento deste interesse. Verificar a importância que este tipo de turismo tem em determinados destinos. Identificar indícios motivacionais entre os descendentes da emigração nacional que possam traduzir-se em interesse numa viagem turística genealógica. À medida que fomos tomando consciência da escassez de estudos em torno do tema das viagens com intuitos de pesquisa familiar, tornou-se assaz motivador a procura de conhecimento sobre realidades similares, com o intuito de, singelamente, poder contribuir com uma nota de alerta para que os diversos players, a academia e a indústria turística, dediquem a este segmento um olhar empreendedor e inovador. 1.3 Metodologia e Fontes É redundante o discurso sobre a importância do papel que a internet assume em qualquer investigação. Também para a realização desta pesquisa se recorreu a esta ferramenta. O suporte metodológico consistiu na busca documental feita a artigos científicos, teses de doutoramento e dissertações, livros, utilizando o motor de busca Google que permitiu também pesquisar em artigos de jornais em linha, blogues de viajantes, emigrantes e genealogistas. A matéria para moldura teórica foi procurada em diversos artigos científicos e livros, havendo sido encontrados pelo recurso a palavras-chave diretamente relacionadas com o objeto de estudo (turismo genealógico, ancestrais, turismo de raízes, história da família). A escassez de matéria em língua portuguesa sobre o tema do turismo com ligações à genealogia conduziu-nos à pesquisa por palavras-chave na língua inglesa,
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 9 nomeadamente roots, genealogy, family history acoplados, naturalmente, ao vocábulo tourism. Esta pesquisa permitiu obter informações que ajudaram à delimitação do objeto de estudo, bem como forneceram um importante contributo para a definição dos conceitos mais relevantes. A recolha de dados relativos ao tema em análise foi tornando clara a predominância de recurso aos métodos qualitativos secundários, como sejam os registados em resultado das investigações com métodos participativos de alguns dos autores eleitos, como sejam os de Paul Basu. Sendo inseparável do tema em estudo a questão da emigração, o contributo do site do Observatório da Emigração, através da análise de conteúdo das entrevistas ali publicadas, feitas a investigadores nacionais e internacionais, sobre o tema da emigração portuguesa foi notável, constituindo fontes de dados secundários muito reveladores quanto à auscultação de um possível interesse na pesquisa das origens por entre a comunidade de descendentes da emigração portuguesa. À semelhança da forma como os curiosos da genealogia iniciam as suas pesquisas, com consultas aos membros da família mais próximos, também nós nos servimos dos conhecimentos com ligação ao turismo para uma aproximação inicial ao tema. Em se tratando de intervenientes com um posicionamento privilegiado no tema do turismo, uma primeira abordagem fez-se por via das agências de viagens. Seguindo as recomendações destes profissionais, estreitou-se o leque de agências, concluindo-se que, tendo em conta o objeto em análise, seria mais exata a consulta a agências de turismo de incoming. Foram, portanto, selecionadas, de novo com recurso à internet, algumas agências de viagens de Incoming (Anexo A), especializadas na resposta a pedidos de turismo internacional, tendo-lhes sido enviado um questionário (Anexo B) para avaliar da existência de solicitações específicas quanto a itinerários ligados a visitas de caráter genealógico. Tratou-se, é certo, de uma primeira auscultação, algo tosca, com respostas parcas, em número, mas que permitiu concluir a noção da ausência de perceção e consciência para esta questão de um turismo interessado nas suas raízes e em visitar os lugares de origem relacionados com a história da família. A recolha de dados quanto ao eventual interesse no tipo de turismo, agora em análise no mercado nacional, incluiu também a visita ao Arquivo Distrital do Porto, na Rua das Taipas, 90, onde foi realizada uma entrevista à sua Diretora, Dra. Maria João Pires de
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 10 Lima, que se transcreve no Anexo C e informação incluída nos folhetos do ADP (Anexo D). O objetivo era perceber se esta instituição, enquanto detentora de recursos que se enquadram no leque da procura do interesse genealógico, registaria visitas ou pedidos que permitissem aferir do interesse numa busca pelas raízes portuguesas e respetivos pontos de origem dessa curiosidade. À semelhança de outras entidades equivalentes em todo o mundo, ADP é uma das instituições que trabalha, a nível da disponibilização de alguns registos em linha, em conjunto com a Biblioteca da História da Família de Salt Lake City, nos EUA, a instituição com o maior conjunto de registos genealógicos do mundo e mais referenciada no universo da genealogia. É uma iniciativa da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, ligada à religião Mórmon, e disponibiliza gratuitamente através do seu site (https://familysearch.org) possibilidades de pesquisa de registos originários de todo o mundo. A recolha dos dados genealógicos é realizada através de CHF espalhados por diversos países. Em Portugal existem vários CHF distribuídos pelo território continental e também nas Regiões Autónomas dos Açores e Madeira. O contacto com o CHF do Porto revelou-se infrutífero e realizou-se, por via de mensagem eletrónica (Anexo E), um pedido de dados, quanto à origem dos antepassados mais pesquisados, diretamente a Salt Lake City. A leitura possível da informação recebida é a de que existirá um interesse considerável na pesquisa das origens por parte do público brasileiro, o que, dadas as relações históricas entre aquele país e Portugal, parece sugerir a existência de demanda para um tipo de turismo específico, como é aquele que constitui objeto deste estudo. Uma vez que, dada a ausência de dados estatísticos, desde logo se tornou claro que não é feito, em Portugal, um tipo de diagnóstico que permita exibir a existência de um público interessado em visitas de busca de raízes, o nosso método atribuiu maior dedicação à literatura, fazendo sínteses e fichas de leitura de trabalhos encontrados. Atenção particular foi sendo dada à bibliografia listada nos artigos selecionados, onde títulos e obras referenciadas conduziram, não raras vezes a outros trabalhos que viriam a revelar, por seu lado, pontos de vista variados e enriquecedores das perspetivas em análise.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 11 Estando, como viemos a verificar, esta apetência pelo turismo genealógico, ou de raízes, intimamente ligado aos movimentos migratórios e de diáspora, e por destes ressaltarem, pela sua expressão, os da diáspora escocesa e irlandesa mas também africana, a pesquisa de informação incidiu particularmente sobre os trabalhos relacionados com estes conteúdos. Um papel importante foi desempenhado pela recolha de informações secundárias, fornecidas por investigações e estudos feitos anteriormente, tanto no que diz respeito ao estudo do fenómeno no mercado americano e dos eventos turísticos com ligações genealógicas na Escócia e na Irlanda, como aos trabalhos sobre imigração portuguesa nos EUA. Os trabalhos que encontrámos em língua portuguesa, versando sobre matérias do turismo com ligações à emigração remetem-nos para perspetivas mais economicistas, como as que se relacionam com a importância das remessas de divisas na economia e para o potencial que o comércio ligado à diáspora corporiza. Deparámos igualmente com análises sociológicas do fenómeno migratório e a sua evolução histórica. Devemos, contudo, ressalvar a existência de abundantes estudos ligando a questão turística ao tema da busca de raízes na literatura brasileira. Dada a dimensão história da emigração portuguesa para o Brasil, a representatividade que a presença de portuguesas ali mantém e a incontornável importância que as ligações, longínquas e recentes, entre aquele país e Portugal representam, este seria naturalmente um mercado de estudo motivador. 1.3.1 Posicionamento do investigador A opção de conduzir a nossa investigação tendo por base o mercado americano fez-se na medida em que a literatura pesquisada foi surgindo mais abundante relativamente a este mercado. Cabem neste âmbito os trabalhos de alguns investigadores em particular, que gostaríamos de destacar pela relevância para o trabalho de investigação que aqui é apresentado, contribuindo com diferentes perspetivas e abordagens de modo a enriquecer a compreensão e o ganho de conhecimento sobre a questão do turismo de raízes. Salientam-se, assim, os estudos de Nina M. Ray e Gary McCain, ambos
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 18 Domínguez Arcos (2011:sn), nos estudos que dedicou ao crescendo de transações envolvendo remessas para o estrangeiro, a partir de Espanha, entre 2002 e 2009, em resultado do aumento da imigração que a Espanha tem verificado nos últimos anos, proveniente de países da América Latina, sustenta que os envios de remessas significam a manutenção de laços de afinidade com os familiares que permanecem no local de origem. Este turismo nostálgico não tem apenas o aspeto material das remessas de divisas. Traduz-se num considerável aumento de fluxos de mobilidade, por vezes entre lugares geográficos bem distantes entre si, uma vez que ou viaja o próprio imigrante para o seu país de origem em visita a familiares ou são estes que o visitam. Por esta razão, defende, se falará em turismo de raízes, constituindo o imigrante uma oportunidade de clientela turística. Neste sentido, assiste-se ao aparecimento de uma nova classe de viajantes, muito interessante aos olhos da indústria turística de países com considerável carga imigratória. Esta questão coloca-nos perante uma dualidade de conceitos: as viagens ao estrangeiro para visitas a familiares e amigos seriam consideradas como um motivo para fazer turismo. Contudo, quando tais viagens fossem realizadas por imigrantes, haveria relutância em considerá-las como uma modalidade turística (Ibidem). A realidade, contudo, vem comprovar serem os atuais fluxos migratórios, na perspetiva do uso que faz de produtos e serviços e até de locais que são os mesmos do turismo em geral, um segmento turístico muito apelativo para a indústria turística. Os elos entre as comunidades em diáspora e os seus países de origem mantêmse fortes desde há séculos e a tendência futura aponta para que assim permaneçam. Alguns autores (Cirino, 2008:48) identificam os traços em comum entre as manifestações de um fenómeno amplo, como é a mobilidade das populações. Neste contexto, tendo em conta a expressão significativa de movimento de pessoas que envolve, surgem, associados à mobilidade, os conceitos de migrações e turismo. Para outros (Williams e Bala, 2002 e Hall, 2005 apud Cirino, 2008:48), diferentes formas de mobilidade se distinguem, tendo em conta as motivações, mas também a duração dessas deslocações, onde estão incluídas as de mais curta duração, como o turismo. Os pontos de contacto entre turismo e migrações podem identificar-se atentando às suas definições. Ambos são, na sua essência, deslocação, movimento.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 19 A duração da deslocação é um fator comum e de preponderância nas definições de migrante e turista, como transparece da definição de migrante da OIM (2004): migrante de curta duração é a “pessoa que se desloca para um país diferente do da sua residência habitual por um período superior a três meses, mas inferior a um ano, exceto nos casos em que a deslocação para esse país tem finalidades recreativas, de férias, de visita de familiares ou amigos, de negócios ou de tratamento médico”. E também da definição de turista apresentada pela OMT: “Turista é um visitante que desloca-se voluntariamente por período de tempo igual ou superior a vinte e quatro horas para local diferente da sua residência e do seu trabalho sem, este ter por motivação, a obtenção de lucro”. Deste modo, quando se trata de caracterizar turismo e migrações, encontramos na literatura classificações que os distinguem entre deslocações temporárias e permanentes, quanto à sua dimensão temporal, e também como movimentações nacionais (internas) ou internacionais (externas), conforme é ultrapassada, ou não, uma fronteira nacional. É assim que, no turismo, se adotaram as classificações de turismo doméstico ou internacional, de turismo de inbound, para referir os movimentos turísticos de chegada a um país ou de outbound, relativamente às saídas. Outras facetas sobressaem em comum na análise das características que definem turismo e imigração. O primeiro é representado, tanto ao nível do imaginário popular como no meio científico, como estando relacionado com situações de lazer, lúdicas, prazenteiras (Barretto, 2008:2). A segunda é relacionada, no imaginário popular, com sofrimento, desenraizamento, luta, pobreza e privação. Existem, contudo, entre os dois conceitos elementos em comum. Figura 1 – Pontos de contacto entre turismo e imigração. Fonte: Elaboração própria, adaptado de Barretto, 2008 Turismo : Situações prazerosas, lúdicas, de lazer, diversão e/ou férias Imigração : Experiência de sofrimento, desenraizamento, luta, pobreza, privação • Deslocamento no espaço, • Mudança de lugar de residência; • Necessidade de evasão
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 20 É assim intrínseca, na definição de mobilidade, as dimensões espacial e temporal, que contemplam a extensão geográfica da deslocação, a sua duração, mas também os motivos que lhe estão subjacentes e são de primordial importância para a sua análise e compreensão. Nos estudos sobre migração e turismo encontram-se, por um lado, trabalhos que, analisando as interligações entre os dois fenómenos, parecem encontrar algo que os distingue: a natureza do viajante. Assim, o turista migrante (de primeira, segunda ou terceira geração) é alguém que efetua viagens de regresso à terra de origem para reunirse com familiares que lá permaneçam e é esse o seu motivo principal. Contudo, o turista deixa de ser considerado migrante quando se trata de um individuo integrado na comunidade do país de acolhimento dos seus antepassados, esses sim elementos participantes do movimento migratório. Para este tipo de turistas surgiu a designação de turismo ancestral. Nele, os turistas empreendem viagens a destinos com os quais têm ligações genealógicas “tendo como objetivo a busca de informação ou simplesmente a busca do sentimento de conexão às raízes antepassadas” (Cirino, 2008.78). 2.2 Diáspora A deslocação geográfica de pessoas remonta aos primórdios da humanidade. O motor de impulso reside no motivo. Assim, será talvez legítimo concluir que perceber os motivos é a chave para se compreender também estes movimentos. Seja a procura de meios de subsistência, a ambição de um modo de vida melhor, a fuga a um qualquer conflito bélico, a luta pela vida, por castigo ou por prazer. Se tivermos em conta a pirâmide de necessidades humanas, surge óbvia a supressão de necessidades básicas como o alimento ou a segurança. Aí residirá, portanto, a razão primeira para as deslocações de populações ao longo dos tempos, para a saída das suas terras de origem. Apesar de o conceito abranger uma variedade de significados e aplicações, a disseminação de comunidades deslocadas dos lugares de origem é referida na literatura em geral com o termo “diáspora”. O conceito designava originalmente o exílio do povo judeu, forçado a abandonar a sua terra de origem e atualmente, segundo Shuval (2000) citado por Huang, Haller e Ramshaw (2012: s.n), o termo é usado para referir deslocações de populações, como emigrantes, refugiados políticos, trabalhadores estrangeiros, comunidades ultramarinas e minorias étnicas e raciais.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 21 Segundo Basu existe um debate no discurso académico sobre o uso apropriado do termo. Alguns defendem que, no sentido de reter algum “significado discreto”, o termo deveria referir apenas a dispersão e exílio dos judeus da sua pátria histórica, sendo que noutros contextos deveria permanecer ao nível da metáfora (Basu, 2005:138), da mesmo forma que “ghetto” se utiliza para referir todos os tipos de ambientes urbanos amontoados, apertados e desprivilegiados e “holocausto” se veio a utilizar para referir todos os tipos de assassínios em massa (Safran, 1991:83 apud Basu, 2005:138). Por outro lado, outros sustentam a necessidade ir além da “tradição judaica” e voltar à origem etimológica da palavra (do grego semear sobre ou espalhar), retornando ao significado que reportava à dispersão humana, referindo-se à colonização grega da Ásia Menor e do Mediterrâneo. Alguns académicos, como Robin Cohen (1997), citado por Agunias e Newland (2012:15), identificam diferentes tipos de diáspora, de acordo com a natureza do motivo na origem da disseminação de uma população. Assim, de acordo com Cohen, diáspora pode ser tipificada como 1) vítima, quando respeitante à “dispersão de pessoas para longe de uma pátria ancestral ou estabelecida após um evento decisivo”, 2) trabalho, relacionada com “o movimento ou migração desde a pátria em busca de trabalho”, 3) imperial, tratando-se de “migração a partir de uma pátria por ambições expansionistas” e 4) comércio, caso em que se trata de “migração desde uma pátria em busca de comércio e desenvolvimento”. As duas primeiras salientam causas para a deslocação de populações (Basu, 2005: 138): 1 – Dispersão da pátria frequentemente por razões traumáticas, para uma ou duas regiões estrangeiras. 2 – A saída de uma pátria à procura de trabalho, comércio ou por ambições coloniais. Estas comunidades deslocadas apresentavam, como característica implícita, o desejo de regressar à terra de onde haviam saído, carregando assim uma nostalgia pelo lar abandonado (Agunias e Newland, 2012:15). Diáspora é, portanto, o termo utilizado para referenciar a disseminação de uma população originária de um mesmo lugar. A saída da pátria de origem pode também ter
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 22 natureza voluntária, apesar de motivadas por fatores de alguma compulsão, como os económicos, dando origem a fluxos de emigração. O vocábulo é também utilizado para referir as deslocações históricas involuntárias de pessoas desde os seus lugares de origem, como seja o tráfico Transatlântico de escravos africanos ou a expulsão dos judeus na Europa. 1 É apontada uma evolução de sentido para o termo, englobando, atualmente, o conceito também a natureza das relações sociais que essas populações, deslocadas da terra de origem, mas assimiladas nas comunidades acolhedoras, mantêm com a pátria, laços esses de natureza variada (política, comercial) que ultrapassam o mero ideal mítico do regresso a casa. É assim que, na ciência social contemporânea, a definição de diáspora se vem expandindo para incorporar no seu sentido qualquer população fora do seu lugar de origem, partilhando traços culturais, linguísticos e que mantém o afeto e ligação ao lugar de proveniência. Isto mesmo sugerem Neves e Rocha-Trindade (2008:170) quanto à expansão do conceito: “ No tempo presente, porém, a palavra diáspora tem vindo a ganhar, em termos sociológicos e também políticos, um novo significado, directamente ligado a situações de migração internacional, quando se caracterizam por um certo grau de permanência temporal; alguma diversidade de destinos; e, sobretudo, quando se verifica existir um forte sentimento de pertença das comunidades imigradas em relação ao seu país de origem e às raízes culturais ancestrais.” Neves e Rocha-Trindade (2008:170) Os laços que ligam as populações deslocadas aos seus lugares de origem, a essa “pátria abandonada”, remetem para o sentido de etnia, como na definição de Gabriel Sheffer (1986,sn) que refere que “as diásporas modernas são grupos étnicos minoritários de origem migrante e residem e agem nos países de acolhimento, mas que mantêm fortes laços sentimentais e materiais com seus países de origem – a sua terra natal”. 1 Diáspora. (2014, June 1). In Wikipedia, The Free Encyclopedia. Consultado em 01-Jun-2014. Disponível em http://en.wikipedia.org/w/index.php?title=Diaspora&oldid=611100607
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 23 Vários autores (Safran, 1991 e Brubaker, 2005) referem a aplicação do termo diáspora a grupos de populações migrantes que, a partir do estrangeiro, mantêm o envolvimento com a pátria de origem, alimentando laços emocionais e sociais com os lugares de origem. Outros académicos (Brinkerhoff, 2009 citada por Agunias e Newland, 2012:15) referem-se à diáspora como “um estado de espírito”, definindo-a como “o sentido psicológico de pertença a uma cultura coletiva, a uma terra de acolhimento ou a uma pátria”. Nesta sequência, e reportando aos fluxos de emigração nomeadamente ao longo dos dois últimos séculos, podem encontrar-se na literatura estudos sobre as diásporas irlandesa, uma das mais consideráveis pela sua dimensão, originada pela emigração da grande maioria da população deste país, causada pela “The Great Hunger”, para, entre outros, os EUA, o Canadá e Nova Zelândia. Diáspora é também o conceito utilizado em estudos sobre o histórico tráfico esclavagista que deu origem à chamada Diáspora Africana, em trabalhos que mencionam as Diásporas Europeias (escocesa, italiana, grega, portuguesa para referir as dinâmicas geográficas destas populações de saída das suas nações para o estrangeiro), a Diáspora Asiática, etc. 2.3 Transnacionalismo, Etnicidade e Multiplicidade de Referências Geográficas Como se escreveu atrás, as movimentações geográficas de pessoas ocorrem desde há muito, a diversos ritmos, e uma das faces mais nítidas da mobilidade humana serão, porventura, as emigrações. A estas associam-se, invariavelmente, as noções de nacionalismo, de (des)enraizamento populacional, de pertença a um lugar. Os variados movimentos de pessoas, subjacentes todas as motivações, deram origem àquilo que a Cirino (2008:53) chama de “um fenómeno de sociedade em que os indivíduos têm referencias geográficas múltiplas”. O conceito de transnacionalidade terá surgido no início do século XX, sendo contudo o seu reconhecimento, por sociólogos, apenas nos anos 70 (Vicente, 2004 apud Cirino, 2008:60). Traduz o estudo de conceitos ligados à família, à cidadania e Estado-nação no fenómeno das migrações, numa perspetiva do mundo globalizante. Com efeito, a ideia generalizada de “aldeia global”, resultado da proximidade de lugares e pessoas trazida pelos avanços tecnológicos em todas as áreas do saber, fez nascer uma interação intensa
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 24 entre os migrantes, permeabilizando fronteiras e temperando de internacionalidade praticamente todos os aspetos da vida social. Para Domínguez Arcos (2011, sn) o conceito de “transnacionalismo” contém referência a “vínculos múltiplos e interações que ligam as pessoas e instituições para além das fronteiras dos Estados-nação”. Segundo a OIM, levar vidas transnacionais em sítios múltiplos significa que as atividades de natureza transfronteiriça são uma realidade na vida dos migrantes. 2 Em sociedades onde o fenómeno da imigração é de expressão considerável, como EUA e o Canadá, a presença persistente da ideia do lugar de origem resulta, mesmo entre os descendentes de várias gerações seguintes, numa “identidade hifenizada” (germanocanadense, nipo-canadense, etc.) numa aparente ligação com o lugar de origem, com a cultura de origem (Basu, 2004:33) É certo que o desenvolvimento tecnológico fez aumentar o ritmo das deslocações físicas, encurtando a geografia dos lugares, mas também influenciando as emoções através da proximidade favorecida pelas comunicações, criando uma conectividade interpessoal, não só geográfica mas de afetos. As sociedades tornaram-se móveis, a sociedade contemporânea poderá, nesta perspetiva apresentar a mobilidade como a sua característica mais notória. Neste seguimento, os estudos que vinham atribuindo maior dedicação à vertente temporária das migrações tendem agora a reconhecer e direcionar esforços de compreensão para os migrantes de caráter temporário (Bell e Ward, 2000, Hall, 2005 apud Cirino, 2008:54). Esses mesmos movimentos migratórios originaram populações de etnicidades e culturas múltiplas em todo o mundo e o estudo desses movimentos torna possível a preservação de fragmentos de conhecimento sobre quem somos nós, que de outro modo se perderiam, e constituem uma forte motivação para, além da afirmação de uma nacionalidade, responder à questão “De onde viemos” (Ray e McCain, 2011:36). 2 Veja-se a este propósito a publicação da OIM “Migración Y Transnacionalismo:Oportunidades y Desafíos”. Disponível em http://www.iom.int/jahia/webdav/shared/shared/mainsite/microsites/IDM/workshops/migration_ and_transnationalism_030910/background_paper_es.pdf. Consultado em 06-01-2013.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 25 2.3.1 Práticas Transnacionais e diáspora No contexto de um mundo moderno onde as deslocações de pessoas foram facilitadas por um setor de transportes desenvolvido pela tecnologia, as visitas de emigrantes aos países de origem, e entre familiares que os visitam nos países de acolhimento, têm agora criadas as condições para ocorrerem com maior frequência. Com efeito, no passado, imigrantes eram aqueles que se “desenraizavam” da sua sociedade para se fixarem num novo país. Atualmente, os desenvolvimentos recentes em tecnologia e transportes permite que os imigrantes contemporâneos vivam em dois mundos (Huang, Haller e Ramshaw, 2011:s.n). Ao mesmo tempo que procuram integrar-se no país de acolhimento, esforçam-se por manter contacto, virtual ou físico, com os parentes na pátria. São também mais numerosas as deslocações daqueles migrantes que, tendo em determinada fase escolhido o retorno definitivo aos lugares de origem, voltam aos lugares que os acolheram durante determinado período para visitar familiares e amigos que por esses locais ficaram. Todas estas viagens engrossam os fluxos de “idas e voltas” de pessoas entre diferentes nações, fazendo transcender as noções convencionais de nacionalismo e criando lugar para o surgimento do conceito de “transnacionalismo”. Neste sentido, transnacionalismo configura o processo pelo qual os imigrantes mantêm relações sociais que ligam o seu país natal com a sociedade de acolhimento (Basch et al., 1994 citados por Huang, Haller e Ramshaw, 2011:s.n). Essas relações são importantes para perceber as suas vivências. Por outra parte, perspetivando algumas das tendências gerais no futuro das viagens, como sejam o crescimento demográfico, a globalização do comércio e o aumento da emigração mundial, um maior fluxo de pessoas em viagens internacionais com o propósito de realizarem visitas a familiares e amigos no país de origem será gerado. Outras tendências serão a internacionalização do turismo, que se estima continuará a crescer, o alargamento da classe média mundial, proveniente das economias emergentes (China, Índia, Brasil e Rússia) e o aumento da importância do papel dos transportes, com o surgimento das companhias de aviação low-cost (Domínguez Arcos, 2011:sn).
“Voltar a casa” Relacionando turismo e diásporas, Butler (2003:318) defende utilizado normalmente num contexto de referência a grupos de pessoas identificadas com a mesma origem étnica ou racial, que vivem em proximidade num país para o qual emigraram. Independentemente das razões, na base da deslocação des existe em comum entre estes indivíduos a manutenção de laços que os ligam à terra de origem, laços esses que apresentam diversas formas: - algumas intangíveis e emocionais, com ligações familiares; - algumas culturais, relacionadas com p - algumas económicas, dizendo respeito a direitos de propriedade no país de origem; - algumas políticas, ligadas à busca de mudança do estado de coisas na terra de origem. Essa natureza diversa do envolvimento dos imig transnacionais que se podem dividir em categorias pessoais ou coletivas. Figura 2 – Divisão das práticas transnacionais Fonte: Adaptado de Haller & Landolt (2005) citados por Huang, Haller e Ramshaw (2011, sn) Estas formas de ligação acabam por traduzir respetivas terras de origem. Contudo, para Huang, Haller e Ramshaw (2011:s.n) citando (Castles & Miller, 2009), existe uma diferenciação entre “transnacionalismo” e o conceit o de “diáspora”: o conceito de diáspora é mais emocional, uma vez que tradicionalmente se refere a um afastamento/abandono forçado do local de origem. Por esta razão, do ponto de vista dos membros da diáspora, o verdadeiro lar é a terra dos seus antepassad os e na literatura relativa à diáspora sobressai o desejo destas pessoas de Laços transnacionais pessoais Acções transnacionais colectivas TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família Relacionando turismo e diásporas, Butler (2003:318) defende que o termo diáspora é utilizado normalmente num contexto de referência a grupos de pessoas identificadas com a mesma origem étnica ou racial, que vivem em proximidade num país para o qual emigraram. Independentemente das razões, na base da deslocação des tas comunidades, existe em comum entre estes indivíduos a manutenção de laços que os ligam à terra de origem, laços esses que apresentam diversas formas: algumas intangíveis e emocionais, com ligações familiares; algumas culturais, relacionadas com p adrões de comportamento e religião; algumas económicas, dizendo respeito a direitos de propriedade no país de origem; algumas políticas, ligadas à busca de mudança do estado de coisas na terra de origem. Essa natureza diversa do envolvimento dos imig rantes manifesta - transnacionais que se podem dividir em categorias pessoais ou coletivas. Divisão das práticas transnacionais Fonte: Adaptado de Haller & Landolt (2005) citados por Huang, Haller e Ramshaw Estas formas de ligação acabam por traduzir - se em viagens entre as diásporas e as respetivas terras de origem. Contudo, para Huang, Haller e Ramshaw (2011:s.n) citando (Castles & Miller, 2009), existe uma diferenciação entre “transnacionalismo” e o o de “diáspora”: o conceito de diáspora é mais emocional, uma vez que tradicionalmente se refere a um afastamento/abandono forçado do local de origem. Por esta razão, do ponto de vista dos membros da diáspora, o verdadeiro lar é a terra dos os e na literatura relativa à diáspora sobressai o desejo destas pessoas de •manter o contacto com os parentes no país de origem •enviar apoio para além fronteira •viajar como turistas •enviar ou receber remessas •discutir politica da pátria •formar e modificar instituições religiosas, cívicas ou políticas •tomada de ações para discussão de questões sociais do país de acolhimento e do de origem em plataformas transnacionais Histórias e Memórias de Família 26 que o termo diáspora é utilizado normalmente num contexto de referência a grupos de pessoas identificadas com a mesma origem étnica ou racial, que vivem em proximidade num país para o qual tas comunidades, existe em comum entre estes indivíduos a manutenção de laços que os ligam à terra de adrões de comportamento e religião; algumas económicas, dizendo respeito a direitos de propriedade no país de origem; algumas políticas, ligadas à busca de mudança do estado de coisas na terra de origem. - se em práticas transnacionais que se podem dividir em categorias pessoais ou coletivas. Fonte: Adaptado de Haller & Landolt (2005) citados por Huang, Haller e Ramshaw se em viagens entre as diásporas e as respetivas terras de origem. Contudo, para Huang, Haller e Ramshaw (2011:s.n) citando (Castles & Miller, 2009), existe uma diferenciação entre “transnacionalismo” e o o de “diáspora”: o conceito de diáspora é mais emocional, uma vez que tradicionalmente se refere a um afastamento/abandono forçado do local de origem. Por esta razão, do ponto de vista dos membros da diáspora, o verdadeiro lar é a terra dos os e na literatura relativa à diáspora sobressai o desejo destas pessoas de
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 27 um dia regressarem “a casa”. Por outro lado, os migrantes voluntários instalaram-se nas sociedades de acolhimento e a manifestação dos fluxos transnacionais consiste nos movimentos de “vai-vém” à pátria de origem, não necessariamente num retorno definitivo. Assim, as práticas transnacionais ocorrem numa base regular, exigindo dos participantes um empenho e disponibilidade de tempo consideráveis (Portes, 1999). Neste seguimento, principalmente quando o regresso a casa não é uma ocasião única, os membros da comunidade/diáspora encaram-no como algo de dramático e emotivo. Como notam Huang, Haller e Ramshaw (2011:s.n) “Em suma, não é a frequência das visitas ao país de origem mas o sentido, o significado destas que é realmente importante. Assim, enquanto o transnacionalismo corresponde principalmente à manutenção de laços por parte dos emigrantes, no seu dia-a-dia, com a sua terra natal, o conceito de diáspora relaciona-se com a complexa experiência emocional de deslocação e retorno.” 2.3.2 Transnacionalismo e Turismo VFA Tanto a literatura sobre diáspora como a sobre transnacionalismo apontam uma ligação entre emigrantes e turismo de regresso a casa. Neste âmbito, o turismo de Visita a Familiares e Amigos (VFA) é um fenómeno que traduz as viagens realizadas por membros de comunidades imigrantes entre os países de acolhimento e os de origem, ou as também chamadas “viagens de regressos ao lar”. Jackson (1990), King e Gammage (1994) e Paci (1994) apud Butler (2003) referem-se ao turismo de VFA como uma forma de turismo específica, um segmento, com fortes ligações aos fluxos de migração internacional e, portanto, com populações que constituem diásporas. Esta é, consequentemente, uma forma de turismo originada pelas migrações onde a tónica está precisamente na ligação emocional que as populações deslocadas mantêm com o lugar de onde são originárias. Os turistas deste segmento turístico apresentam motivos diferentes para as suas viagens. Butler (2003: 321) afirma que se distinguem dos “turistas convencionais” 1) nas motivações, 2) nos padrões de gastos, 3) nos padrões de visita e 4) nos comportamentos sociais quando visitam os destinos. O mercado turístico denominado de VFA só muito recentemente suscitou o interesse académico e é tido como de difícil apreensão, a começar pelo facto de, do ponto de vista
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 34 Robin Cohen (2008) sugere a ideia de uma desagregação entre a noção de “terra natal” e a diáspora resultando dessa rutura, a ideia de um “lar” desejado que foi transformado num lugar simbólico, com base na reflexão de Avtar Brah (1996:192): “Onde está o lar? De um lado, "lar" é o local mítico de desejo na imaginação da diáspora. Nesse sentido, é o local do não-retorno, mesmo que seja possível visitar o território geográfico concebido como o lugar de "origem". Por outro lado, lar é também a experiência vivida de um local. Seus sons e aromas, calor e poeira, noites aprazíveis de verão, ou a excitação da primeira caída de neve, noites geladas de inverno, céus cinzentos e sombrios em pleno meio-dia... Tudo isso, mediado pelo cotidiano historicamente específico das relações sociais.” ( Avtar Brah 1996, p. 192). Basu (2001) aborda aquele a que chama de “fenómeno contemporâneo do “turismo de raízes””, as viagens, no objeto particular do estudo deste autor, de descendentes dos que partiram das Terras Altas da Escócia e se fixaram nos EUA, Canadá, Austrália, Nova Zelândia a regiões associadas aos seus antepassados na “velha pátria”. Os estudos que desenvolveu, sobre a diáspora escocesa e da Irlanda do Norte, apresentam uma compreensão do sentido de “busca de uma pátria” segundo a qual a pátria pode ser “desterritorializada”, criando assim um mito da pátria. No entanto, pátria é um lugar real, que pode ser visitado. Daqui resultam os lugares de memória, fontes de identidade. A reflexão sobre as práticas conducentes às viagens para descoberta da história familiar remetem e incitam, na opinião de Basu, ao debate sobre temas como a globalização e localização, mobilidade e identidade, transnacionalismo e multiculturalismo e à perceção de perda de continuidade com o passado. São questões provocadoras de ansiedade nos indivíduos envolvidos nestas práticas e que alegam uma “erosão dos valores tradicionais” na América e, em virtude disso, uma consequente “sensação de desorientação ou alienação” (Basu, 201:133). À luz do pensamento de Durkheim, citado por Basu (2010:145), a mobilidade que se verifica da modernidade traz consigo não só o afastamento físico do lar de origem mas também um movimento de distanciamento da coesão de um meio ou ambiente social
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 35 representado pela sociedade tradicional. A coberto da teoria da Homeless Mind de Berger et al. (1973), essa mobilidade tem repercussões ao nível da consciência que resultam num sentimento generalizado de alienação pessoal. Isto daria lugar ao que aqueles autores chamaram de “impulso desmodernizador” e traduzir-se-ia na busca do oposto das tendências modernas que deixaram o individuo alienado, lutando contra as ameaças de falta de sentido e protestando “contra o alegado individualismo excessivo da sociedade moderna” (Berger et al. apud Basu, 2005:145). Basu reconhece nestas teorias matéria que justifica práticas genealógicas e de turismo de raízes, constituindo respostas a esse impulso “desmodernizador”, no qual o individuo alienado anseia a pertencer, procura ligar-se a ele mesmo e a algo espacial, temporal e socialmente além de si, mas autenticamente de si mesmo. O desejo de localizar a história de si mesmo – do eu deslocado e a-histórico – dentro da história de um povo e do seu lugar (Basu, 2005:146). Justificando tal vontade no contexto dos descendentes da imigração escocesa para a América do Norte, estas populações experimentam um sentimento de instabilidade, a sensação de que aquela em que vivem talvez não seja o verdadeiro lar. A busca pelo lugar de origem dos seus familiares traduziria assim a procura pela segurança, o sentimento de durabilidade e continuidade que faltam a uma sociedade extremamente competitiva como a da América do Norte, onde o “sucesso é tudo”. Neste tipo de sociedade, o individuo fica desamparado, caso não seja capaz de obter o sucesso almejado. Não existe uma comunidade solidária que ofereça reconforto. “Lar” seria, portanto, definido como um local para onde voltar, quando tudo o resto está perdido (Basu, 2004: 33). “O conceito de “casa/lar” embora vagamente entendido, torna-se o destino de uma viagem física à terra de origem (pátria) e é a materialidade deste lar – a sua flagrante tangibilidade – que potencia a experiência, que a torna sem qualquer dúvida “real” e portanto essencial em termos de identidade” (Basu, 2004:40).
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 36 2.5 Nostalgia: o “anseio pelo passado” impulsionador de viagens “Podemos levar a bom termo inumeráveis lutos, evitar soçobrar na melancolia, mas não podemos escapar à nostalgia, a esse charme agridoce do passado, que é a própria armadilha do tempo”. Marc Guillaume, 2003:75 No âmbito da elaboração da sua tese de doutoramento, Rodrigues (2012) estudou as visitas do mercado norte-americano à Europa, na perspetiva dos constrangimentos para as visitas deste mercado à Europa rural e da forma como aqueles são induzidos pela nostalgia. O estudo etnográfico realizado no contexto deste trabalho demonstrou que os americanos, com origens diretas ou longínquas na Europa, mantêm a sua identidade étnica. É sugerido que entre indivíduos brancos, dos subúrbios e da classe média, completamente assimilados na comunidade, surge a vontade de desassimilar-se (reverter o processo de assimilação), com vista a recuperar uma identidade distintiva, diferente entre os seus círculos sociais (Waters, 1990 apud Rodrigues, 2012:1). Este movimento foi chamado de “new white ethnic movement” por Stein & Hill (1997) e também denominado por Gans (1994:577-578 apud Rodrigues, 2012:1) como “etnicidade simbólica” (“symbolic ethnicity”) traduzindo a “utilização e consumo de símbolos étnicos com a intenção de sentir-se ou ser identificado com determinada etnia”. Também Basu (2005:145) parece reconhecer no discurso de exilio da diáspora escocesa a existência implícita de um estatuto de minoria étnica que pode ser visto à luz do que é referido como “novo movimento étnico branco” que traduz o desejo de cidadãos integrados dos subúrbios brancos, de classe média, de se “desagregarem” da comunidade e recuperar uma identidade étnica mais distinta, particular. Viram-se, assim, para as histórias das suas famílias e escolhem com quais das etnicidades dos seus antepassados se identificar, geralmente quanto mais “étnicos” e mais perseguidos, melhor. Peter Novick (1999) chama ao fenómeno uma “cultura da vitimização”. Segundo Rodrigues (2012:2), este apego seletivo às raízes gera a vontade de viajar para contactar diretamente e vivenciar a sua própria singularidade, aquilo que distingue o individuo. Neste seguimento, os países que registaram, ou registam ainda, fluxos migratórios intensos de onde derivam comunidades diásporas significativas podem ver
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 37 nestes “migrantes nostálgicos” um segmento de mercado turístico interessante para as suas regiões. Para Ray e McCain (2012:981), é inquestionável a importância do papel que o passado representa nas motivações destes turistas em busca de identidade. Estas pessoas visitam lugares relacionados com a sua história familiar, locais significativos nas suas próprias vidas, locais que foram habitados pelos seus antecessores. Na linha das motivações que impulsionam viagem aos locais de origem dos seus antepassados, releva-se considerável o papel que o sentimentalismo e a nostalgia têm. O interesse destes turistas ultrapassa a mera visita a monumentos e lugares dos antepassados. Tem um significado pessoal. Desejam vivenciar os lugares, contactar com artefactos que representem com autenticidade histórias de pessoas do passado e do presente. Segundo Ray e McCain (2012:986), independentemente da origem étnica dos sujeitos, parece existir uma motivação de identidade pessoal que despoleta sentimentos de nostalgia para viver a experiência de uma pátria, não vista mas herdada dos seus antepassados. Rodrigues (2012) serve-se do ponto de vista de Holbrook & Schindle (1991) para definir nostalgia como “uma preferência (gosto, atitude positiva ou afeto propício relativamente a objetos, pessoas ou coisas) que eram comuns (populares, que estavam na moda ou de grande difusão) na altura em que se era mais novo (quando se era jovem, na adolescência, infância ou mesmo antes do nascimento). Muitos investigadores dedicaram já estudos à pesquisa das ligações entre nostalgia e turismo e ao impacto da nostalgia neste sector. Ray e McCain (2012:978) nomeiam Sierra e McQuitty (2007), que definem nostalgia como “um anseio pelo passado, uma predileção por bens e atividades materiais ou imateriais relacionados com o passado" (tradução nossa), alegando que “a nostalgia é utilizada para desenvolver, sustentar e recriar identidades individuais”. O turismo de legado pode vir ao encontro da satisfação deste tipo de anseio. Os turistas que se envolvem em atividades próprias deste tipo de turismo ambicionam ver os lugares autênticos que dizem respeito à sua história pessoal e conhecer a história autêntica dos seus antepassados, mas sem realmente viver nos tempos idos, mesmo que essa possibilidade lhes fosse propiciada. Nesta perspetiva, como sugerem Brown, Hirschman e Maclaren (2000:174) (apud Ray e McCain, 2012:978), estes consumidores estão, na verdade, à procura da “inautenticidade autêntica” uma vez que as suas atitudes relativamente aos “bons velhos tempos”
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 38 constituem uma “combinação de dor e prazer simultaneamente pelo passado e pelo presente”. Trazendo a nostalgia para o campo da sustentabilidade, cuja presença nos discursos turísticos contemporâneos é tão reclamada, Davies (2010:264-266 citado por Ray e McCain, 2012:978) sustenta que “o sonho da sustentabilidade …é uma nostalgia pelo futuro”, a “supressão da lacuna entre natureza e cultura” e que “o nostálgico sofre profundamente pelo desejo de uma autenticidade da origem que é, em certa medida, comum a todos nós”. No quadro da mobilidade geográfica, a nostalgia tem assegurado presença, sendo-lhe atribuída um desejo de eventual regresso a casa, ligada a cenários do passado guardados no imaginário daqueles que vivem deslocados do seu lugar de origem. Deste modo, a nostalgia é um sentimento vulgar entre os migrantes, garantindo uma qualidade protetora contra a solidão (Zhou et al, 2008 apud Rodrigues, 2012:3). Sedikes et al (2004; 2006) e Routledge et al (2008) apud Rodrigues (2012:3), salientaram as implicações positivas e de relevância pessoal da nostalgia, descobrindo que esta apresenta quatro funções psicológicas específicas: - como repositório de sentimentos positivos; - contribui para o positivismo pessoal; - fortalece as ligações sociais; - fornece perceções de sentido de vida que torna mais fácil lidar com as questões existenciais. Segundo Rodrigues (ibidem) os que defendem que atualmente a nostalgia vem conhecendo uma crescente popularidade atribuem-no ao facto de as pessoas verem neste sentimento uma forma de preservar a sua identidade. Outros, os críticos, interpretam-no como sendo uma “doença social”. Por sua vez, Prinke (2010:20) faz distinção entre os conceitos de Turismo de nostalgia, ou turismo sentimental, e de turismo genealógico. O primeiro relaciona-se com o regresso ao lugar de origem da infância dos progenitores, sobre o qual os pais falavam aos filhos. Este é um turismo de natureza emotiva. O verdadeiro turismo genealógico
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 39 diz respeito à busca das histórias dos familiares de há várias gerações sobre os quais na contemporaneidade se reúnem informações. Este é um turismo simbólico e intelectual. Para Ray e McCain (2012:997), muitos dos que se iniciam a pesquisa sobre os seus antepassados familiares, como a elaboração de uma árvore genealógica, experimentam emoções de exploração e descoberta, quase como no desempenho de um papel de detetives. O passado é um lugar fascinante, um país estrangeiro (numa alusão ao livro clássico de Lowental, The Past is a Foreign Country, 1975) do qual os antepassados partiram e ao qual os turistas do turismo de raízes, de legado, de diáspora, querem chegar, servindo-se para isso de registos históricos. Para alguns destes turistas, a viagem é um esforço necessário para a sua identidade pessoal. Para outros, o destino é o que mais contribui para a sua identidade. O sentimento de nostalgia por um passado distante configura um gosto por tudo o que diz respeito ao passado, coisas tangíveis ou intangíveis, memórias que reforçam um sentimento de identidade pessoal e a ligação com o lugar é apontado como um dos principais fatores motivacionais para o interesse nos antepassados (Ray e McCain, 2012:978). 2.6 Razões para a viagem: Autenticidade e Motivação no Turismo Desde que o turismo começou a suscitar interesse suficiente, levando a que a comunidade científica o elegesse como objeto de estudo, várias abordagens foram realizadas, nomeadamente do ponto de vista das razões e motivos subjacentes às viagens de índole turística. Alguns dos estudiosos apontam como principal motivo para as viagens uma necessidade de fuga à repetição do dia-a-dia, o desejo de experimentar algo novo, ver outros lugares e outras pessoas (Cohen, 1971), a ideia de que as férias suprem a necessidade da sociedade moderna de escapar à rotina (Rojek, 1993 e Urry, 1990). Outros (MacCannel, 1976) associam o turismo à busca do autêntico, do verdadeiro, que a sociedade moderna só encontraria em cenários diferentes daqueles em que as pessoas habitualmente vivem. A busca dos turistas pelo autêntico surge em virtude da tendência de perda de estruturas que a vida da sociedade moderna evidencia. O tipo de vida moderna é tal que vem tornando as pessoas mais isoladas, com vidas mais fragmentadas. Assim, o turista busca o outro, o autêntico, o do mundo imaginado dos tempos idos.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 40 Prinke (2010) apresenta uma interpretação para a evolução do turismo desde os tempos em que apenas as elites se podia entregar às atividades de ócio fora dos seus locais habituais de permanência. Após ter atingindo o ponto em que as massas puderam também aceder ao turismo e este se tornou um produto de consumo global e globalizante, o autor aponta o movimento hippie de anos 60 dos século passado como uma viragem, uma mudança de mentalidades que passou a atribuir maior valor às questões ambientais, a conferir importância a um sentido de unidade com a natureza, a experiências espirituais autênticas, ao sentido de comunhão com os outros e à descoberta de si mesmo. Este movimento contribuiu com uma mudança no turismo, traduzida na inserção de um significado para o turismo, ou de um turismo com significado (Prinke, 2010:16), tornando nomeadamente a seleção dos destinos uma ação mais individual e simbólica. A consciência da introdução de significado no turismo levou a diferentes tipos de turismo “individual” a que se chamou “turismo de nicho” com o intuito de uma diferenciação relativamente ao turismo de massas (Prinke, 2010:17). No que concerne às atividades que deram lugar ao surgimento do turismo genealógico, na opinião deste autor, este atribui ao turismo uma “procura de identidade própria autentica, o único que combina simultaneamente a nossa identidade e os lugares que visitamos”. McCannell (The Tourist, 1976) abordou na sua obra a questão da procura pela autenticidade como causa do fenómeno turístico, busca essa que o autor antecipava como infrutífera, mas reconhecia algum valor à atividade de procura. A visão de Urry (1990) relativamente ao “pós-turista”, o turista do mundo pós-moderno, é a de um visitante que, já não relevando o valor outrora atribuído ao autêntico, aceita os cenários pré-fabricados para a sua contemplação relativizadora, visitando atrações artificiais e aceitando a pseudo autenticidade que lhe é oferecida. Na saga dos turistas genealógicos pelas suas raízes há quem veja semelhanças com o turismo de peregrinação (Prinke, 2010:20). Em certo sentido, a experiência turística dos viajantes que procuram conhecimento sobre a sua história familiar equiparam-se às vivências dos viajantes peregrinos na medida da emoção. Neste contexto, o Turismo genealógico assume-se como um tipo de turismo que “deve ser colocado no extremo oposto do espectro do comportamento do turista” (Ibidem), já que ele confere a sensação de se impregnar da verdade sobre si mesmo ao visitar os lugares relacionados
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 41 com os antepassados. O autor vai mais longe na distinção do turismo genealógico relativamente ao modelo tradicional, referindo que este é “indubitavelmente turismo simbólico-ritual na sua forma mais pura”, uma experiência espiritual que constitui a essência do turismo genealógico quase comparável a uma peregrinação espiritual, uma experiência plena de autenticidade. Com efeito, sugere que características inerentes a este tipo de turismo, como 1) um rito simbólico de passagem, 2) a sensação de união com o próprio património étnico-cultural, 3) a autenticidade da experiência 3) a ausência de artificialidade ou encenação, mostram desacordo com os modelos turísticos representados no trabalho de outros estudiosos do turismo, nomeadamente Urry e MacCannell, quanto às questões relativas à autenticidade artificial (Prinke 2010: 20). Dentro da discussão da questão do autêntico na experiência turística, esta forma de turismo existencial intangível vem sobrepor-se uma vez que “para os turistas existenciais, o património intangível pode ser “transportado” para outros países sem perder a sua autenticidade” (Vidal González, 2007:808), permitindo que os turistas continuem a interagir com esse património mesmo à distância, atribuindo valor à experiência e não tanto ao lugar (Stamboulis & Skayannis, 2003:41 citados por Vidal González, 2007:808), ou seja, para estes turistas a autenticidade está ligada ao espírito original. Um episódio ilustrativo da forma como é percecionada a autenticidade num turista motivado para a viagens aos lugares relacionados com a história familiar constitui o comentário, registado por Basu (2004:32) no âmbito da sua investigação, de um dos participantes, canadiano com raízes escocesas, participando num “regresso a casa” (Homecoming event), organizado em 1999 à ilha de Orkney, na costa norte da Escócia. Visitando uma igreja onde perscrutavam as lápides em busca de nomes de família, o turista comentava: “Think of Disney, then think of this” (Pense-se na Disney e depois pense-se nisto – tradução nossa). Parecia referir não apenas as diferenças qualitativas de experiências turísticas mas estabelecer um paralelo entre América do Norte, como a colorida e comercializada Disneyworld e Orkney, o lugar ligado às suas raízes que visitava e que se apresentava mais “natural” ou “real”. Como um contraste entre “artifício percebido” e “autenticidade percebida” Basu (2004:32).
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 42 Relacionando turismo e diáspora, Butler (2003:319) vê nesta busca um relacionamento com as viagens de volta à pátria. Tendo em conta que na sociedade moderna vem sendo conhecida uma crise da família e dado o elevado grau de mobilidade das sociedades ocidentais, o regresso à terra natal pode configurar uma vontade de retorno à sociedade e lugar onde as pessoas têm a suas origens e com a qual mantêm afinidades, um processo agregador. Também Huang, Haller e Ramshaw (2011) fazem ver que os estudos sobre motivações de viagem e turismo de património exemplificam algumas características das viagens de diáspora de volta à pátria. De igual modo, cabem neste universo as investigações de Crompton (1979), que identificou nove motivos para viagens de lazer, sendo que entre as motivações sociopsicológicas, “a exploração e avaliação do eu” (de si mesmo) e o “desenvolvimento de relações de parentesco” se assemelham às viagens de volta a casa dos imigrantes. Poria, Reichel e Biran (2006) ao analisarem os principais motivos para a visita a lugares históricos, indicam cinco categorias, entre as quais se conta “estabelecer ligação com a minha herança/legado” e os estudos de Palmer (1999) demonstram que o turismo de património contribui para a construção e manutenção de um sentido de identidade nacional no turista. Nesta medida, para os imigrantes uma viagem de regresso à pátria ancestral pode ajudá-los a negociar entre a assimilação cultural e a manutenção da sua identidade tradicional. No caso do estudo da diáspora escocesa, Basu (2005:144) refere, baseando-se na experiência transmitida pela maioria dos informantes do seu estudo, que os motivos por detrás da busca de conhecimento sobre a terra de origem dos familiares e a sua história se caracterizam por uma sensação de descontinuidade com o passado, em especial com o passado anterior à emigração dos seus antepassados. Poucos cresceram a saber como, quando e por que razão os seus antepassados emigraram ou mesmo sabendo de que país ou países. Esta lacuna de conhecimento motiva parcialmente o seu interesse na pesquisa da família, tornando-os sensíveis a narrativas culturais que parecem explicar o seu destino.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 43 2.7 Inscrevendo o Turismo Genealógico no âmbito do Turismo Cultural Turismo Cultural e Turismo de Património: uma simbiose? Turismo Cultural é um termo coletivo para reportar aos turistas que viajam para locais fora do seu lugar de residência “motivados total ou parcialmente pelo seu interesse em locais históricos, artísticos de uma comunidade, região…” (Silberberg, 1995:361 apud Ray e McCain, 2011:36). Para Yale (1991:21 apud Ray e McCain, 2011:36) na realidade, Turismo Cultural nada mais é que o turismo centrado naquilo que herdámos, ou seja, no nosso património. Património consagra um conjunto lato, diversificado, de significados. A forma como é perspetivado tem vindo a evoluir no sentido de abarcar já não apenas os bens de um passado material, mas passando a incluir o imaterial, reconhecido pelas pessoas, como que impregnado de valor que importa evidenciar e preservar para servir de prova às gerações futuras. Também Kaminski et al. salientam que a diversidade de conceitos de património é muito vasta e tem evoluído ao longo dos tempos. Se a noção daquilo que é património começou originalmente como “obras-primas de valor artístico e históricos, é agora utilizado de forma mais abrangente e diz respeito a tudo aquilo que tem um significado particular para as pessoas”, e é agora mais amplamente definido como “algo que foi herdado do passado e que pode ser transmitido a gerações futuras” (UNESCO e IFT, 2007, unidade 1:3 apud Kaminski et al, 2013:5). Esta vertente está bem patente nas políticas de conservação e preservação de uma lista considerável de lugares que a UNESCO elegeu como lugares património da Humanidade. Serve também os propósitos de atratividade turísticas, renovando a indústria. 2.8 Crise no turismo de património? Património material e imaterial Conforme notam Ferreira, Aguiar e Pinto (2012), o património é o objeto do turismo cultural e tem duas vertentes: a material e a imaterial. Dentro da primeira cabem as obras humanas admiráveis em cidades, vilas, museus, etc. Quanto ao segundo, é composto pelas manifestações de tradições (Cluzeau, 1998 apud Ferreira, Aguiar e Pinto, 2012). Se, na verdade, como é sugerido por alguns autores (Prentice, 2001 e
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 50 registos dos seus próprios antepassados (McCain e Ray, 2003). Estes turistas “viajam por vezes com apenas informações escassas, para procurar e verificar o que sabem ou querem saber sobre o seu património” (McCain e Ray, 2009:297). Levenstein (1998, citado por McCain e Ray, 2003:714) sugere que se terá assistido à diversificação do produto turístico em favorecimento do turismo cultural / de património e expressa a importância do marketing nessa alteração da seguinte forma: “Os críticos culturais chamam “pós-modernismo” ao abandono da ideia moderna do “um estilo único serve a todos” na arte, literatura e arquitetura. Os que ganham mais dinheiro do que eles chamam-lhe segmentação de mercado”. Levenstein (1998) “American tourist in France from Jefferson to Jazz Age” 2.9.2 Nichos de mercado turísticos: necessidade de atenção O nicho turístico ligado à genealogia surge, reportando ao aparecimento de novas tendências e modificações nos padrões de consumo dos turistas, com crescente diversidade de interesses e exigências. No rescaldo do pico do turismo de massas, que caraterizou a segunda metade do século XX, a especialização da natureza do lazer parece ser o rumo tomado pela demanda. Entre os vários fatores a serem considerados numa análise, que se apresenta obrigatoriamente constante, do mercado turístico, estão as tendências. Exemplo de uma tendência de incontornável importância para a indústria turística é o envelhecimento da população. No traçar do perfil do turista este é um indicador que surge com um peso considerável na delineação dos produtos turísticos a apresentar pelos destinos. Como explicam Ferreira, Aguiar e Pinto (2012), tendo em conta a crescente especialização de interesses e exigência do turista, os destinos turísticos têm necessidade de renovar-se, valorizando o seu património, de criar novos focos de atração e interesse para, com isso, aumentarem a sua rentabilidade. A consciência do seu poder enquanto consumidores, que tem tornando os turistas mais exigentes e sofisticados, força a oferta a um grau de especialização maior. A resposta às exigências e necessidades deste mercado, mais segmentado, deu lugar ao desenvolvimento de nichos, “como forma de desenvolvimento e expressão de
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 51 identidade através de atividades especificas que se sobrepõem a outras preferências dos consumidores” (Robinson e Novelli, 2005:9). Nos negócios relativos ao turismo, a criação de um nicho turístico pode ser vista como um elemento de estratégia competitiva. Figura 4. Componentes do turismo de nicho Fonte: Mike Robinson e Marina Novelli (2005) Niche Tourism: an introduction, 59-70. Neste contexto, Agunias e Newland (2012:222) argumentam a necessidade de uma abordagem particular para o segmento do turismo genealógico por parte de governos e da indústria turística, de modo a poder servir os diferentes gostos e interesses das diferentes gerações das diásporas. Igualmente, neste seguimento, McCain e Ray (2003:714) salientam que um maior entendimento do mercado de legado resulta numa maior capacidade de orientação de esforços dos gestores de turismo para atrair os turistas, cuja motivação específica é o determinante na escolha dos destinos e atividades (McCain e Ray,2003:714).
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 52 CAPÍTULO III – Genealogia e Turismo Neste Capítulo abordaremos a genealogia enquanto ciência que interessa aos que buscam “escrever” a história da sua família e como ela tem vindo a ganhar crescente notoriedade na vida contemporânea. Não perdendo de vista o nosso tema em estudo, procuraremos verificar como as motivações para a construção de um legado de história familiar podem despoletar viagens em busca das origens. 3.1 Genealogia Em linguagem corrente, genealogia é genericamente apresentada como a atividade de pesquisar a história familiar, de traçar a história da família ou o “estudo do parentesco”. A definição de genealogia da Enciclopédia Britannica (2004) 3 é apresentada como “o estudo da origem e história da família” e a sua definição integra vocábulos com ela relacionados como estirpe, linhagem, origem, reportando à esfera dos estudos com vista a um conhecimento da filiação, das relações genéticas, estabelecidas através de gerações 4. O objetivo dos que se envolvem no estudo genealógico compreende a identificação e listagem dos seus antepassados, locais onde nasceram, viveram e seus relacionamentos intrafamiliares 5. É definida como uma “viagem de descoberta” (Taylor, 2002 apud Birtwistle, 2005:59), o processo de reunião de informação sobre acontecimentos básicos na vida de uma família, como nascimentos, casamentos, óbitos, cujas ligações são demonstradas sob a forma de uma árvore. Segundo Fowler & Fowler (1974 apud Birtwistle, 2005:60), a genealogia é “a contabilização de descendentes de antepassados 3 Genealogia. In: Encyclopaedia Britannica. Disponível http://www.britannica.com/EBchecked/topic/228297/genealogy. Acesso em 30 Abr 2014. 4 Genealogia. In: Infopédia-enciclopédia e dicionários porto Editora. Disponível em <http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa/genealogia > Acesso em 30 Abr 2014. 5 Genealogia. In: Wikipédia, a enciclopédia livre. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Genealogia. Acesso em 30 Abr 2014.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 53 através da enumeração de pessoas intermediárias; a investigação da linhagem de uma determinada pessoa ou família”(tradução nossa). A genealogia é considerada uma ciência auxiliar da História, com a qual apresenta grande afinidade. É, assim, uma ciência: “…cujo objeto não é determinado grupo de fontes (as velhas árvores genealógicas), mas o próprio homem. Não se esgota na comprovação de descendências, sendo atualmente praticada, ao mesmo tempo, como estudo de pessoas e de populações, e em certos casos até como antropologia.” Genealogia. In: o Portal da história: Ciências Auxiliares da História - o estudo da história, Manuel Amaral. Disponível em: http://www.arqnet.pt/portal/estudo/ciencaux.html Acesso em 20 Abr 2014. 3.1.1 O interesse na história da família: o que os move? A curiosidade pela história familiar não é algo recente. Com efeito, como apontam Josiam e Frazier (2008:36), encontram-se evidências da preocupação humana com o registo histórico de linhagens nas Pirâmides do Egipto Antigo e o cuidado com a manutenção do rastro dos antepassados pode também encontrar-se nos textos sagrados das principais religiões como a judaica, a hindu e também do cristianismo ou do islamismo e é uma atividade popular entre grupos étnicos, como afirmam (Kemp, 1999a; Kemp, 1999b e Wadham, 2000 citados por Josiam e Frazier, 2008:36). Para o cidadão normal não havia qualquer interesse em manter registo da história da sua família. Ao longo dos tempos o interesse pela composição e evolução da família foi tendo diversos pretextos. Prinke (2010) apresenta uma justificação para o interesse referido como sendo a de, durante séculos, esta ser vista pelas famílias aristocratas como meio para distinguir a sua identidade, como forma de dar continuidade a títulos e propriedades. Esta perspetiva terá sido alterada na década de 70 do século XX em que o interesse pela história da família começou a ser olhado como meio de definição de uma identidade própria, uma maneira de fazer distinguir a singularidade do individuo, uma “rebelião geracional” contra a cultura de massa dominante, uma “manifestação de um espírito geracional” (Prinke, 2010:18).
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 54 Apesar de historicamente se relacionar com questões de linhagem, propriedade e herança, a vertente popular do interesse genealógico liga-se com a recuperação de “histórias escondidas” (Nash, 2002). O gosto pela procura de conhecimento da história familiar é interpretado por outros como uma vontade de ligação com o passado e de conhecer as suas raízes (Fulkerson, 1995 apud Josiam e Frazier, 2008:36), de conhecer o lugar de onde vieram, de modo a saber para onde se dirigem (Basu, 2004 apud Josiam e Frazier, 2008:36). Para Nash (2002), a genealogia está fortemente conectada com “lugares de significado”, trata-se de sentidos do “eu” muito pessoais e de versões coletivas de etnicidade e nacionalidade e tem intrínsecas as noções de consanguinidade, genética e memória cultural. Noutra vertente, “as árvores genealógicas vêm-se constituindo numa nova forma de se contar a história da imigração” (Savoldi, 2008:28). As pessoas pesquisam e constroem as suas árvores genealógicas, montando a sua história familiar com base em documentos que legitimam a sua saga. Estas construções desembocam na realização de encontros de família, que se concretizam à volta de um sobrenome. É a ideia de “parentesco imaginado” que motiva as viagens para tomar parte em encontros de famílias e / ou para conhecer os países dos ancestrais dando origem, inclusivamente, a novas construções para possibilitar tais eventos. A genealogia é um passatempo que vem atualmente conhecendo grande popularidade. Na opinião de Birtwistle (2005:59), não se trata da realização de pesquisa “seca e empoeirada”, mas de uma descoberta de emoções poderosas. O interesse na pesquisa de temas relacionados com a pesquisa da história familiar leva os entusiastas da genealogia a querem saber mais para além da simples enumeração dos antepassados. Querem saber as histórias sobre os familiares de gerações anteriores, sobre onde e como viviam, o que faziam, etc. Por isso, Birtwistle (2005:60) atribui a expressão “história da família” aos pesquisadores “amadores” distinguindo-a da genealogia, sendo este o termo utilizado pelos profissionais. A questão basilar quanto a este tipo de viagens encontra-se na interrogação que se toma emprestada do psicólogo Jerome Bruner “Estas viagens são, sem dúvida, atos de significado, mas, na verdade, quais são os significados destes atos?” (Bruner, 1990 Acts of Meaning, tradução nossa). Uma possível resposta poderia ser dada pelos resultados
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 55 das investigações de Santos e Yan (2010:62). Estas sublinham a importância, para os que se envolvem em atividades de turismo genealógico, do contributo dos seus relatos para a sua própria ancestralidade, organizando essa informação para a posteridade. Isto sugere um sentimento de orgulho na realização de viagens, para satisfação da sua necessidade de autoexpressão e autoafirmação. Para estes turistas, as suas experiências genealógicas contribuem para afirmar a identidade da sua família, tornando os laços familiares mais fortes e contribuindo para deixar um legado familiar. A viagem assume assim uma dupla funcionalidade: a possibilidade de viajar em si combinada com a possibilidade de contribuir para um maior conhecimento da família, sobre a sua própria história. A experiência do turismo genealógico é vista, portanto, como mais do que um simples compilar de factos descobertos: trata-se de uma forma de enriquecer o passado para deixar às gerações futuras, a construção de um legado, a contextualização da família. Para Legrand (2007), na era do multiculturalismo, as pessoas procuram através da construção de árvores familiares genealógicas a expressão do que as une ou diferencia dos outros. Basu (2005:29) vê na genealogia contemporânea a prossecução de uma classe média com outros objetivos para além necessidade de legitimação de um status de elite. Carla Santos e Grace Yan (2010:56) abordam o turismo genealógico como o reflexo da necessidade dos turistas contemporâneos de diversificarem os seus interesses de lazer e de vivência de experiências. Nesta ótica, o turismo de genealogia é visto como possível resposta a um sentimento de perda latente na sociedade moderna, contribuindo para a recuperação de um sentimento geracional do “eu” e para uma perspetiva do mundo particular e individual. O estudo que estas investigadoras levaram a cabo em 2010 foi realizado na perspetiva dos turistas genealógicos amadores, que viajam para locais que colocam aos dispor destes viajantes recursos para uma realização de pesquisas de histórias familiares, como é o caso da Family History Library, em Salt Lake City, Utah, EUA, e tinha por objeto a exploração dos significados que os turistas genealógicos atribuem às experiências (turísticas) que vivenciam, integrando esse conhecimentos na abordagem da dinâmica humana que impulsiona o turismo contemporâneo.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 56 3.1.2 A preocupação com o legado familiar O património como vestígio do passado assume importância na história de cada um, ou de cada família, por permitir experimentar aquilo a que Fortuna (2012:28) chama de “perceção do passado como continuidade e sequência (..) na medida em que transmite a ideia de cumulatividade, que não é mais que um processo cultural no qual nos sentimos envolvidos na condição dupla de herdeiros e transmissores”. A importância dos lugares, objetos, práticas sociais que é conferida pela interpretação e atribuição de valor feita pelos turistas, que nestes procuram pistas das suas raízes, revelam-se nas emoções que experimentam quando na presença desse património. “Não são diretamente as experiencias vividas que geram a reação emocional dos sujeitos, mas antes a interpretação que estes fazem dessas circunstancias” (Fortuna, 2012:29-30), e neste sentido, as emoções traduzem um grau de sentido de pertença a uma comunidade, ligando os sujeitos a essas comunidades. No mundo contemporâneo, muitos tipos de turismo se alimentam da relação entre o passado e a memória (não será esta a essência do turismo cultural?). Com efeito, como argumenta Fortuna (2012:32), os lugares de memória constituem, para os turistas que os procuram, uma forma de compensação pela perda de identidade cultural, de nacionalidade ou sentido de coletividade. Estes lugares, portanto, “alimentam a busca de raízes identitárias” (Fortuna, 1999.23-44). São, assim, lugares que trazem ao presente um passado que coletiviza, que os faz pertencer a um agregado com sentido pessoal, um significado que esperam trazer até à contemporaneidade das suas identidades, são, enfim, para estes turistas lieux de mémoire (Nora, 1986). Na tendência, genuína ou induzida, do turismo mundial de ponderar a atividade turística com os valores da consciência ambiental no recorrente discurso sobre sustentabilidade, o turismo cultural, nas suas múltiplas vertentes, tem constituído um dos principais motores da indústria turística. Uma explicação para o sucesso do turismo cultural é “a incerteza da vida contemporânea que explica este interesse obsessivo pelo passado, entendido como sendo mais seguro e previsível” (Urry, 1990 apud Ferreira, Aguiar e Pinto, 2012).
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 57 Para os que perseguem investigações genealógicas, essas atividades são uma forma de honrar os seus antepassados, de garantir que a história familiar, de “perpetuar” a vida dos antepassados (Yakel 2004 citado por Santos e Yan, 2010:58). Estas autoras citam também Fulton (2005) para referir que estas pessoas valorizam a “continuidade” da história da sua família, fazendo passar um legado intergeracional. Este fenómeno pode ser atribuído a um alheamento, uma crise de identidade contemporânea, dando lugar à questão Quem sou eu? Este distanciamento será fruto do modus vivendi contemporâneo, onde as relações, o contacto entre as gerações mais velhas e as mais novas se foram perdendo, graças, nomeadamente, ao crescimento da população, à mobilidade, ao desenvolvimento tecnológico (Karp 1984) e à perda de consciência geracional (Huyssen 1995; Lasch 1979). É, portanto, evidente a necessidade dos descendentes valorizarem estas pesquisas. Para este tipo de turistas, a busca de factos e narrativas é feita na expectativa de adquirir a capacidade de contextualizar e personificar o passado da sua própria família, de modo a passar esse legado às gerações seguintes, reduzindo a falta de consciência geracional. As experiências vividas por este turismo são vistas como atos de autodescoberta, através da localização do “eu“ nas narrativas familiares, etnicidades e vínculos pessoais (Santos e Yan, 2010:63). 3.2 Turismo genealógico – o passado enquanto recurso turístico O turismo genealógico surge associado aos temas que vimos analisando e define-se como um segmento de mercado turístico com uma expressão mundial, com particular relevância nos países que historicamente registaram fluxos de emigração significativos, dando origem a comunidades espalhadas pelo mundo, que vivem em diáspora. É praticado por turistas que têm uma ligação ancestral com o destino que escolhem para as férias e optam por viajar para os lugares de origem dos seus antepassados, para estabelecer (ou restabelecer) uma ligação com o seu passado 6 . Nesse âmbito, tais opções turísticas vêm conhecendo alguma notoriedade entre países da Europa Central, dos quais um considerável número de pessoas foi forçado a abandonar, aquando da Segunda 6 Wikipedia “Genealogy tourism”. Wikipedia, The Free Encyclopedia. Disponível em http://en.wikipedia.org/w/index.php?title=Genealogy_tourism&oldid=533586363. Acedido em 04 Mar. 2014.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 58 Guerra Mundial. Esta forma particular de turismo tem também sido identificado como prática corrente na comunidade judaica dispersa pelo mundo. Dentro do interesse crescente da indústria turística pelo mercado do turismo de património, os autores McCain e Ray (2003) identificaram um subsegmento de turistas com uma ligação pessoal à sua ancestralidade que vai além de uma relação geral de ascendência coletiva. São aqueles que “trilham os caminhos do passado”, que “buscam um sentimento de completude” (McCain e Ray, 2003:716). A estes “turistas que empreendem viagens com o intuito de se envolverem em pesquisas genealógicas, de procurar informações ou para simplesmente se sentirem ligados aos seus antepassados ou às suas raízes ancestrais” os autores denominaram turistas de legado. Para estes turistas, um fator preponderante na sua decisão enquanto turistas é “a visita a locais que incluam parte da sua herança pessoal, quem são e de onde são originários os seus antepassados” (McCain e Ray, 2003:713). Daí a expressão usada por Legrand (2007, s.n.): turismo de raízes, como uma atividade realizada por pessoas que sentem a necessidade de visitar a sua pátria (terra de origem). Contudo, da análise dos dados etnográficos que recolheu sobre a comunidade americana de origem irlandesa, a autora defende que o valor simbólico que estas pessoas atribuem à terra de origem e aos laços familiares resultam da instrumentalização que deles fazem os grupos humanos e políticos na Irlanda, com vista à extração de dividendos económicos, uma “busca da identidade ao serviço da economia”. Terá sido este tipo de operações o responsável pelo surgimento da que é denominada indústria do “turismo de raízes” que, entretanto, ganhou popularidade nos países que registaram na sua história consideráveis fluxos de emigração, como a Alemanha, a Grécia ou a Polónia. 3.2.1 Diversidade de nomenclatura As viagens impulsionadas por motivações genealógicas, de procura de informações, registos, vestígios de memórias dos antepassados, são identificadas na literatura académica com nomenclatura variada. São viagens a destinos onde existe um elo familiar percebido, motivadas pela emoção de localizar os lugares de origem da família.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 59 Daí a definição de turismo de raízes dada pela OMT (1996:88) como sendo “o turismo que se baseia na visita aos locais de origem própria ou ancestral”. Genealogia e turismo de raízes aproximam-se. Prinke (2010:17) atribui a introdução do conceito de turismo genealógico na literatura científica a Paul Basu e Catherine Nash (2002), autores cujos trabalhos têm incidido sobre os temas do lugar, do sentimento de pertença, identidade e parentesco. A terminologia respeitante a este fenómeno não está ainda claramente estabelecida, levando muitos autores a utilizar diferentes designações para o mesmo fenómeno. Assim, na literatura, para referir o fenómeno, Basu (2004) utiliza a expressão “turismo de raízes”, fazendo um jogo com o sentido metafórico das palavras “roots” e “routes”. McCain e Ray (2003) usam os termos “turismo ancestral”, Fowler (2003) prefere “turismo de linhagem” ou ainda, e parecendo ser esta a expressão mais amplamente utilizada “turismo genealógico” (Nash, 2002; Santos e Yan, 2010). Há ainda quem, dentro da questão do turismo genealógico, faça ressaltar como importante a distinção, entre os interessados no fenómeno, entre genealogia profissional e amadora. A diferença entre estas pessoas interessadas na genealogia e os genealogistas profissionais é que os primeiros se interessam apenas por certos capítulos da sua própria história familiar. A procura genealógica começa, para alguns, com a recolha de informações sobre os seus antepassados, pedaços que lhes falam de alguma maneira, que os localizam no espaço (Santos e Yan, 2010:57). Tabela 1. Algumas definições de Turismo Genealógico: International Organization for Migration (IOM) Migration Policy institute (MPI) Forma de turismo de património que envolve as diásporas. Tipo de turismo que permite aos membros de uma diáspora a procura de informações sobre os seus familiares e antepassados nos seus países de origem (Agunias e Newland, 2012:217) (Huang, Haller e Ramshaw, 2011) Defendem a definição de McCain & Ray, 2003 de “turismo de raízes” ou “turismo de património/herança de diáspora” como sendo o fenómeno relativo a migrantes num país distinto do de origem que sentem a necessidade de viajar para a
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 66 O entendimento do fenómeno nos EUA é, assim, facilitado pela composição de origem tão diversificada da população do país, que de forma comum é referido como o ethcnic melting pot. Desde a sua independência no final do século XVIII, os EUA têm acolhido várias vagas de imigração. Inicialmente originária dos países Europeus (França, Reino Unida, Alemanha), a população imigrante nos EUA passou a incluir também indivíduos vindos dos países vizinhos (México, Cuba e Canadá) bem como de países asiáticos (India, China, Coreia, Filipinas). Para Basu, há algo na sociedade ocidental de colonos que lhes desperta a vontade de “procurar para além da amálgama racionalista e burocrática de nação e identidade” e estabelecer sentidos alternativos de pertença, construídos por motivos de sentido mais pessoal. Esse algo pode 1) estar simbolizado nas culturas do “Novo Mundo” que compreende tantas diásporas, 2) seja consequência de um consumismo desenfreado ou da desumanização dos números ou ainda 3) se relacione com as complexidades morais de se “pertencer” a um lugar sobre o qual não se tem qualquer direito de antiguidade (Basu, 2004:39). Tendo em conta que um dos significados das experiências vividas pelos turistas genealógicos pode configurar um modo de investigação sobre a identidade étnica da pessoa, o turismo nesta vertente de significado, constitui uma contribuição para o atual debate sobre cidadania multicultural na América, uma sociedade multicultural, composta principalmente por minorias étnicas e raciais. Neste sentido, o crescente interesse no turismo genealógico nos EUA pode ficar a dever-se “a motivações socioculturais no sentido de combater a hegemonia que torna todos os indivíduos em americanos indiferenciados” (Santos e Yan, 2010:64, tradução nossa). Ao promover a sua especificidade, ao distinguir-se através do recurso aos antepassados, o indivíduo deixa de ser apenas um cidadão anónimo, afirmando a sua individualidade, o seu lugar no mundo. Do ponto de vista desta abordagem, as autoras concluem que o turismo genealógico não deve ser visto como simples curiosidade pelo passado ou uma atividade turística complementar. Pode constituir-se como uma ferramenta de fortalecimento sociocultural, como poderá ser o caso das minorias étnicas e raciais americanos mencionados.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 67 3.4.2 A visita à Biblioteca: Salt Lake e Fort Wayne O desenvolvimento tecnológico torna a pesquisa em linha possível, sem sequer se ter de sair de casa, mas só até certo ponto. Por vezes, não é possível obter-se as respostas procuradas e o avanço pode significar uma viagem a bibliotecas genealógicas (Santos e Yan, 2010:58). Esta experiencia, traduzida nas visitas a bibliotecas genealógicas, serviços de registos para consulta de livros, diários, arquivos em buscas de elementos significativos da sua história familiar podem constituir um estímulo para uma deslocação às terras ancestrais. Num dos seus artigos, a revista National Geographic Traveler dá conta de um aumento de cerca de 18% desde 1995 nos gastos dos americanos em viagens de património, viagens essas que terão sido potenciadas pelo crescente acesso a registos genealógicos (Marjanaa e Quintos, 2001 citados por McCain e Ray, 2003:715). O interesse pela genealogia nos EUA cresceu com a disponibilização de registos em suporte eletrónico patrocinados pelo governo. A existência no país de grandes bibliotecas sobre história familiar, como é o caso de Salt Lake City e Fort Wayne, vem registando gradual aumento do número de visitas, o que reflete o incremento de interesse dos americanos pelo turismo de património, ou cultural, em particular do subsegmento do turismo ancestral. Com efeito, para além do recurso a páginas eletrónicas que facultam informações sobre genealogia, o que pode ser feito no conforto da própria casa, a pesquisa de documentação em bibliotecas pode constituir um estímulo para o posterior turismo aos locais dos antepassados. Neste ambiente, a pesquisa genealógica fornece uma solução para a descoberta desse sentido pessoal e o fascínio da busca vai além do mero reunir dos “despojos da história”, mas vai até à satisfação da descoberta das ligações, da continuidade para além do individual, “uma localização da história do eu dentro de narrativas mais amplas de famílias, culturas nações e diásporas; um identificar do pessoal dentro do extra pessoal. Uma questão de identidade social” (Basu, 2004.40). Na opinião de Santos e Yan (2010:60), o que procuram as pessoas com estas buscas é uma “compreensão personalizada e contextualizada de família”, isto é, na base destas pesquisas está uma motivação intrínseca que ultrapassa a mera pesquisa da verdade factual. Constitui uma interpretação pessoal da história, desenvolvendo a sua história no mundo.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 68 3.4.3 Um mercado atrativo para a Europa Sobre o potencial do turismo motivado pela pesquisa genealógica, McCain e Ray (2003:715) citam Chambers (2003:103), que indica: “Os EUA são, por exemplo, uma nação de imigrantes muitos dos quais procuram oportunidades para visitar os países de onde são originários os seus antepassados. Alguns países (destinos) que assistiram a emigração considerável durante alguns períodos da sua história, têm vindo a alicerçar grande parte do seu turismo no convite a essas pessoas para regressar às suas “raízes” étnicas. A Irlanda é disto um bom exemplo.” Chambers (2003:103) apud McCain e Ray (2003:715) Sendo o principal mercado de longo curso de origem de turistas para a Europa, entre os países europeus mais visitados por estes turistas estão o Reino Unido, a França, a Itália, a Alemanha e a Espanha, de acordo com dados do ITA (2011) citados por Rodrigues (2012:1). A atratividade da Europa para o mercado dos EUA tem relação estabelecida com o facto de, na constituição da população deste país, existir um peso significativo de imigrantes originários de países Europeus. Para Legrand (2007), que dedicou estudos à questão da etnia irlandesa na sociedade americana, a razão pela qual as pessoas de origem irlandesa, um dos maiores grupos étnicos nos EUA resultante de vagas de migração europeia, sentem necessidade de pesquisar a sua história familiar provém do facto de se sentirem populações desenraizadas. Assim, veem na pesquisa genealógica, na procura do passado representado num país estrangeiro, uma maneira de obter um sentido de quem são, de localizar a sua origem. Os turistas genealógicos americanos dedicam-se à pesquisa genealógica buscando compreensão sobre a sua origem cultural, a sua identidade étnica. Dada a natureza tão diversa da origem da população, onde se podem identificar conflitos religiosos, raciais, etc., a descoberta dessa diversidade cultural e étnica das suas origens, nos turistas que procuram informações sobre os seus antepassados, pode contribuir para um maior sentido de tolerância (Prinke, 2010: 19). A pulsão por detrás de tais buscas tem latente a
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 69 vontade de descoberta de si mesmo, de quem se é, através da pesquisa do lugar de onde vêm os seus antepassados. 3.5 A utilização da internet na pesquisa genealógica É inegável que todas as áreas do conhecimento e todas as indústrias foram revolucionadas com o surgimento do fenómeno dos três W. A World Wide Web imprimiu uma dinâmica nunca antes vista à circulação de informação e, por consequência, à disseminação do conhecimento. No âmbito do turismo é inegável a importância da utilização da internet no crescimento da indústria, nomeadamente através da promoção dos destinos por parte da oferta, mas também na organização das viagens, conferindo autonomia a turistas e viajantes. O desenvolvimento de sites de pesquisa genealógica, que disponibilizam, entre outros, o traçado de árvores genealógicas, tem promovido o estabelecimento de contactos virtuais entre familiares, procurando uma “reconstrução histórica de um passado remoto” (Savoldi, 2008:20), promovendo uma espécie de “parentesco virtual”. Estes contactos originais, muitas vezes viagens para encontros entre famílias, são, segundo Savoldi “uma nova modalidade de viagem”. Nestes encontros há uma espécie de “reconfiguração do parentesco” porque se reforçam laços ou se descobrem “novos parentes” e prestam homenagem aos antepassados. Estes encontros traduzem a preocupação dos descendentes em “revitalizar a nacionalidade”, buscar “raízes”, manter os laços com o país de origem, “resgate das suas raízes e cultura”. Os significativos avanços dos transportes e comunicação são responsáveis por estas trocas económicas e culturais (Savoldi, 2008: 21). No que concerne à pesquisa genealógica, poder-se-ia ser levado a crer que o acesso tornado mais fácil às informações pesquisadas, conduziria à dissuasão da necessidade e/ou vontade de deslocação até aos lugares onde ela estaria fisicamente disponível. Com efeito, a utilização da internet, a facilidade de acesso a documentos potenciou o interesse na pesquisa genealógica por parte de utilizadores com idade inferior a 55 anos, conforme demonstrado pelos estudos de Josiam e Frazier (2008:51). Contudo, os mesmos estudos também identificaram que as pesquisas genealógicas realizadas pela
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 70 internet foram responsáveis por um aumento das viagens relacionadas com essas buscas. É notável o número de páginas eletrónicas criadas no âmbito da investigação. Se é plausível que a disponibilização de dados pela via informática, à distância de um click num portátil pessoal e no conforto do lar, facilitou a investigação aos interessados, é curioso notar que esse acesso fácil à informação potenciou também as viagens aos locais relacionados com a pesquisa. Os resultados do estudo de Josiam e Frazier (2008) são favoráveis à indicação já proposta por investigações anteriores (Veale, 2005 apud Josiam e Frazier, 2008) de que a internet foi, com efeito, um elemento impulsionador do turismo relacionado com a genealogia. Com efeito, conforme sobressai dos resultados do estudo citado, a maioria dos inquiridos afirma que aumentaram as viagens relacionadas com a genealogia devido à internet. Curiosamente, cerca de metade também utilizava a internet para a organização dessas viagens. Esta correlação entre a utilização da internet para efeitos de pesquisa genealógica em simultâneo com o uso desta mesma ferramenta para a composição das viagens permite, desde logo, perceber a existência de um mercado fértil para operadores turísticos, companhias aéreas, agências de viagem online e constitui um potencial nicho de mercado para os próprios destinos turísticos (Josiam e Frazier (2008:46). Os interessados na investigação da história da família são intensos utilizadores da internet, pelo que será de supor que ações publicitárias e de oferta de serviços dirigidos a este segmento turístico conhecerão maior eficácia quando fazendo uso da internet (Josiam e Frazier, 2008:48) 3.5.1 Entre o virtual e o lugar real É provável que grande parte das respostas que as pessoas dedicadas à pesquisa genealógica procuram esteja disponível através da internet. No entanto, a internet não substitui a viagem (Josiam e Frazier, 2008:51). É precisamente neste ponto que o turismo encontra a sua “deixa”, ligando-se às deslocações e necessidades pessoais que este público de interesse bem específico deseja ver satisfeitas.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 71 A “experiência vivenciada” por turistas genealógicos através das viagens até às bibliotecas que é referida por Santos e Yan (2009) é distinta da tónica colocada pelo “turismo de legado” (expressão criada por Ray e McCain em 2003) que viaja efetivamente até às pátrias de origem dos seus antepassados. No entanto, segundo Santos e Yan (2009:2), tendo em conta que as visitas a bibliotecas em busca de documentação podem constituir um forte estímulo para uma posterior viagem aos lugares ancestrais, tanto uma como outra são atividades de investigação importantes para os marketeers de turismo. Conclui-se assim que, enquanto alguns turistas, antes ou durante a viagem à pátria dos seus antepassados, pretendem efetivamente pesquisar documentação (quer em linha quer em instalações físicas, como bibliotecas), outros querem simplesmente viajar para a terra pátria sem o encargo de continuar a pesquisa (Ray e McCain, 2011:38). Na opinião destes autores, recordar/refazer os caminhos das migrações de volta aos países de origem (old country) tem potencialidades para constituir-se um bom negócio, se forem definidas estratégias fundamentadas na compreensão destes turistas. 3.6 Diagnosticando o Turista Genealógico: Indicações Sobre o Perfil O impacto no turismo da pesquisa genealógica utilizando internet foi mote para o estudo de Josiam e Frazier (2008), amplamente citado, em que é examinada a natureza do interesse em genealogia, a utilização da internet no desenvolvimento desse interesse e a maneira como este se relaciona com as viagens. Quanto à metodologia, a investigação usou como instrumento de recolha de dados um inquérito disponibilizado na página de internet de uma universidade do centro-oeste dos EUA. Um link ao inquérito foi enviado por correio eletrónico a pessoas inscritas em 174 listas de correio eletrónico do Wisconsin e Minnesota, EUA, com interesse em genealogia. Os dados foram extraídos de 1.374 respostas válidas, tendo permitido verificar, quanto ao perfil do interessado em genealogia, os seguintes aspetos: - tinham formação superior, - haviam realizado uma viagem de entre 200 a 299 milhas por motivos genealógicos, - mais de 75% tinha intenção de viajar para fora do estado de carro no ano seguinte, - homens e pessoas mais idosas efetuavam gastos mais elevados em viagens,
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 72 - a maioria dos inquiridos indicava que a internet fizera aumentar as suas viagens e que a tinham utilizado na organização das suas viagens. Os autores verificaram também que a grande maioria (73%) dos que responderam ao inquérito foram mulheres e que os interessados em genealogia masculinos eram mais velhos (na faixa etária dos 50 anos) que as inquiridas. Quanto aos dados demográficos obtidos no referido estudo, os autores identificaram a tendência para a utilização similar da internet entre as idades dos 25 aos 56 anos entre a população estudada. Tais dados confirmam outros estudos, como por exemplo os de Ray e McCain (2011:43) que citam Garrod e Fyall (2000) para referir que o turismo de património está em franca expansão e que os turistas nesta área são de idade mais avançada, movidos pela nostalgia e com elevados rendimentos financeiros. Os mesmos autores, num estudo de 2011 sobre a motivação de descendentes da emigração europeia nos EUA, constatam que a análise dos dados demográficos da população estudada permite concluir que os turistas de legado são indivíduos maioritariamente pertencentes às faixas etárias dos mais velhos, que têm mais tempo livre para viagens de lazer que o turista comum. Contudo, apesar de defenderem que a tipologia do turista de diáspora corresponderá a um turista mais velho, com maior disponibilidade para viagens de lazer, registam que alguns investigadores começam a pesquisar os jovens de segunda geração que se envolvem também neste tipo de turismo, o que justifica a necessidade de futura pesquisa sobre os fatores demográficos que caracterizam o tipo de turista de diáspora. 3.6.1 Como identificar turistas de legado: Uma questão de Emoção e Significado Numa pesquisa realizada por McCain e Ray (2003:716) com o propósito de identificar os turistas a quem categorizaram como de turistas de legado (legacy tourists), a técnica utilizada pelos autores consistiu na inserção de uma pergunta sobre “visitar lugares de onde a família é originária” nos inquéritos sobre motivação para a viagem administrados. Os que respondiam “muito importante” ou “importante” eram identificados como sendo turistas de legado. Este inquérito, feito a turistas em viagem por ou imediatamente após viagens à Venezuela, Equador, Costa Rica, a região da Provença em França e ao Alaska, permitiu também identificar caraterísticas destes
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 73 turistas quanto à faixa etária (54 anos) e a predominância de género (56% eram homens) bem como o nível de rendimento e grau de escolaridade (36% com doutoramento e 26% com mestrados). Ao realizarem aquele estudo, McCain e Ray (2003:716) mencionam a expressão utilizada por Andrew Compart (1999:3) no âmbito dos esforços que desenvolvia para localizar a casa do avô num bairro de Shangai e que, na opinião destes autores, é demonstrativa do poder emotivo e do potencial empresarial que essa emoção consagra para o turismo de legado: “Ter realmente estado lá, bem, não se pode pôr um preço num momento como esse. Mas decerto se pagaria a alguém para ajudar a chegar lá” (tradução nossa). A essência do sentimento de um turista de legado é também transmitida na expressão de Brett (1993:186) quando cita Candon (2000:611), ambos citados por McCain e Ray, 2003:716 “História, verdadeiramente considerada, é um verbo e não um nome abstrato. Nós historiamos.” (tradução nossa). Neste contexto, a vertente empresarial da indústria turística está patente naquilo que os autores acrescentam: “Enquanto turistas de legado, nós certamente pagaremos a alguém para nos ajudar a historiar”. 3.6.2 Até onde estão dispostos a viajar? Que locais querem visitar? Pesquisas realizadas por inquérito a genealogistas nos EUA (Josiam e Frazier, 2008:48) permitiram verificar que grande parte dos inquiridos tinha intenção de intensificar as suas viagens por razão do seu interesse na pesquisa da história familiar, sendo essas deslocações previstas para outros estados que não os de residência mas também foi possível identificar uma predisposição para deslocações para locais geograficamente ainda mais distantes, traduzidas em viagens internacionais. Embora a informação seja pesquisável utilizando os recursos disponibilizados pelos avanços tecnológicos e até os documentos procurados possam ser encontrados e visualizados digitalmente, a pesquisa genealógica pode atingir uma etapa em que uma deslocação efetiva a um lugar com ela relacionada se torne imprescindível. Além disso, o real traduzido no exercício dos sentidos sobre as provas, isto é, a vontade de ver os
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 74 documentos originais, de sentir com o próprio tato os artefactos autênticos, ou assim percecionados, que os antecessores também tocaram, e vivenciar a envolvência dos lugares onde habitaram os familiares de gerações anteriores estão entre os principais impulsionadores de viagens de fundamento genealógico. Entre os locais eleitos pela preferência dos pesquisadores de genealogia podem encontrar-se: Tabela 2. Lista dos 10 locais mais visitados em pesquisa genealógica Cemitérios Biblioteca com secção de genealogia Biblioteca com arquivos históricos Tribunal do estado Arquivos do estado Reunião de família Igreja local Museus Lugares históricos Escritórios de jornais Biblioteca da História da Família Fonte: Josiam e Frazier (2008:47) Who am I? Where did I Come from? Where do I go to Find out? Genealogy, the Internet and Tourism. Por isso, tocar o documento torna-se uma necessidade. Legrand (2007) nota como alguns dos interessados em genealogia, que a autora entrevistou no âmbito da sua investigação sobre o turismo de raízes na Irlanda, apesar de manifestarem deslumbramento e emoção com qualquer descoberta que conseguissem realizar a partir das informações disponíveis nos meios digitais, não deixavam, contudo de exprimir algum desapontamento por não poderem tocar no documento original “que contém a informação de modo a poderem apropriar-se do seu conteúdo sensorialmente, o que constitui um importante processo da formação de identidades”.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 75 CAPÍTULO IV – As diásporas e o interesse governamental: estudo de casos As comunidades diásporas viram, por via da contribuição da tecnologia, potenciadas as ligações com a terra de origem, não só de uma perspetiva afetiva, com os familiares que ficaram, mas também dando origem a oportunidades de negócio, de trocas comerciais e partilha de experiencias e conhecimentos. Para os países de origem, para além do antigo e tradicional envio das remessas, esta intensificação de contactos, a criação de redes e associações, acarreta múltiplas vantagens. Começando pela contribuição para a manutenção dos laços culturais e passando pela geração de um fluxo turístico de visitas não negligenciável, muitas outras possibilidades de desenvolvimento se apresentam às entidades governamentais através das ligações entre as diásporas espalhadas pelo mundo. Ray e McCain (2011) defendem que a compreensão dos motivos dos turistas que buscam as suas raízes pode permitir às nações, regiões, cidades e vilas o desenvolvimento de estratégias e táticas para identificarem serviços de modo a tornarem-se atrativos para estes turistas. No entanto, muitos países não estão a tirar proveito do mercado do turismo de raízes e existe uma falta de reconhecimento destes segmentos e falta de existência de iniciativas que procurem atrair e servir estes turistas. Apesar disso, existe já a ideia de que as nações podem ter uma marca (comercial, registrada) como outro qualquer produto tem sido veiculado pelos peritos do Marketing (marketeers) e casos há que comprovam esta possibilidade, como a Austrália (Brand Australia) e a Escócia, em 1994 (Ray e McCain, 2011:36-37). O trabalho de promoção turística que países como a Escócia e a Irlanda levam a cabo para conduzir os turistas de volta às pátrias ancestrais traduz a força da expressão significativa que o turismo de legado tem nas suas economias, casos concretos que abordaremos mais à frente.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 82 4.2 “The Gathering Ireland 2013” Na Irlanda do Norte, também são utilizados slogans promocionais como “Nós podemos fazê-los viver de novo” (tradução nossa) para exprimir a disponibilidade das instituições irlandesas em apoiar os turistas de raízes na descoberta da sua pátria ancestral (Northern Ireland Reflections, 2010). Figura 6 - Logotipo do Gathering Irland 2013 Fonte: Página eletrónica da organização disponível em www.thegatheringireland.com 4.2.1 Fontes utilizadas na recolha dos dados Os dados relativos ao evento turístico de índole genealógica na Irlanda, Gathering 2013, foram obtidos com recurso principal à página oficial da organização do evento na internet, bem como através dos relatórios de análise aos resultados, encomendados pela organização, ali disponibilizados. As impressões inscritas em blogues com publicações de turistas e sociedades genealógicas sobre o tema foram também produtivas, assim como o contributo de artigos publicados em jornais online estrangeiros. A perspetiva científica sobre o acontecimento foi também procurada de modo a permitir uma visão de natureza distinta e mais abrangente, incluindo a abordagem do ponto de vista do marketing e do impacto económico, que são mais facilmente veiculadas pelos media tradicionais.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 83 4.2.2 Emigração e Genealogia na Irlanda A história da Irlanda, em termos de emigração, torna-a um dos países europeus com maior índice de disseminação da sua população. Desde meados do século XIX até aos primeiros anos do século seguinte, a Irlanda assistiu ao êxodo de milhões dos seus cidadãos (um decréscimo da população de 8.2 milhões para 4.2) e desde então várias ondas de emigração continuaram a varrer o país, fazendo engrossar o número de cidadãos irlandeses dispersos pelo mundo. O número de pessoas com raízes irlandesas, segundo o NIRSA, será atualmente de cerca de 70 milhões de pessoas, sendo que 44 milhões afirmam ser irlandesesamericanos, 6 milhões na Grã-Bretanha reclamam ascendência irlandesa, 3.8 milhões serão irlandeses-canadianos e 1.9 milhões dizem-se irlandeses-australianos. A estes somam-se 500.000 pessoas que afirmam a sua ascendência irlandesa na Argentina. Com efeito, como nota o Senador Mark Daly, do partido Fianna Fáil irlandês, na sua “Policy Proposal for the Irish Overseas and Diaspora” (2014:27) “apesar de a irlanda propriamente dita ter, de acordo com os Censos irlandeses de 2011, uma população de aproximadamente 4.58 milhões de pessoas, o que constitui apenas 1% do total da população da EU, quando se olha através das lentes da diáspora, nós somos, de facto, um país altamente globalizado com mais de 70 milhões de membros na nossa comunidade transnacional”. A genealogia é uma importante componente na indústria turística da Irlanda do Norte e quando o aparecimento de um grande número de serviços online de pesquisa genealógica fizeram perigar a contribuição económica deste tipo de turismo, os agentes turísticos empreenderam esforços no sentido de melhor compreender as motivações dos turistas que pesquisam os seus antepassados de modo a redefinir atrativos para esse turismo (Ray e McCain, 20009:2)
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 84 4.2.3 Seguindo as Boas Práticas A confirmação da existência de potencial de mercado para o turismo genealógico na Irlanda do Norte foi demonstrado num relatório de 2011, encomendado pelo Northern Ireland Tourist Boad e realizado pela Mintel Ireland &OCO Global. Foram analisadas as visitas registadas no período de 2005 a 2009, que indicaram o propósito específico de participar em atividades ligadas à genealogia. Um indicador de relevo notado pelo estudo foi o de a maioria dos visitantes terem origem no próprio mercado irlandês. Também no Reino Unido existe uma forte apetência pela genealogia enquanto passatempo, indicando as estimativas um número que rondava o 1.5 milhão em 2011. A Irlanda do Norte tem beneficiado do interesse traduzido em viagens de um pequeno nicho de mercado, mas reconhece o potencial do turismo genealógico para 1) atrair turistas daquele que chamam “grey market” (turistas com mais de 55 anos) e 2) enquanto oportunidade para diluir os efeitos da sazonalidade no turismo. Com base na constatação de um nicho de potencial turístico, a Irlanda olhou para o exemplo de países que exploravam o mercado deste tipo de turismo no sentido de analisar as boas práticas, como é o caso da Escócia, de modo a delinear um projeto turístico para atrair visitantes com origens irlandesas e interessados em visitar o país de onde os seus antepassados haviam outrora partido. Foi organizada uma promoção turística, em 2013, denominada The Gathering, a “reunião da família irlandesa”. Tratou-se da “maior iniciativa turística de sempre na Irlanda”, segundo Jim Miley, o Diretor do Projeto, envolvendo todo o país, o que fez deste um verdadeiro “Projeto do Povo”. Tratou-se assumidamente de uma estratégia para revitalizar o turismo irlandês, em declínio desde 2007, e baseou-se na realização do Homecoming 2009, na Escócia, que apelava às pessoas com ligações ancestrais a um regresso a casa, para assistir a eventos para eles especialmente delineados (Fáilte Ireland, 2013:8) O The Gathering Ireland 2013, uma iniciativa do Governo irlandês, foi operacionalizada através de duas agências governamentais de turismo, a Fáilte Ireland e a Tourism Ireland, e consistiu num conjunto de eventos (mais de 5.000), distribuídos por todo o país e ao longo de todo o ano de 2013, organizados por vários grupos, entre
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 85 os quais famílias e comunidades, destinados a celebrar a história, a cultura e a genealogia irlandesa. O apelo registado na página oficial do evento traduz bem aquele que foi o objetivo da organização: “Ireland welcomed the world in 2013. Together, we invited friends, loved ones and connections from around the world to celebrate 5,000 gatherings held in their honour. We poured our uniquely Irish pride and passion into a year of Gatherings and showed the world just what we’re made of.” “Em 2013 a Irlanda deu as boas vindas ao mundo. Juntos, convidámos amigos, entes queridos e conhecidos por todo o mundo para celebrar 5,000 encontros realizados em sua honra. Colocámos o nosso orgulho e paixão irlandeses únicos num ano de Encontros e mostrámos ao mundo exatamente aquilo de que somos feitos.” (tradução nossa). Página eletrónica oficial do Gathering Ireland 2013 em www.thegatheringireland.com 4.2.4 Revigorar o Turismo Irlandês Sendo o principal país de destino da emigração irlandesa, os EUA, onde se estima que existam cerca de 40 milhões de pessoas com ancestrais irlandeses, aquele foi o principal mercado visado por esta estratégia, que incluía também os descendentes de irlandeses dos mercados do Canadá, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia (Fáilte Ireland, 2013:8). Esta iniciativa governamental pretendia, em concreto, obter um acréscimo de 325.000 turistas estrangeiros para o país, correspondendo a uma receita estimada de 170 milhões de Euros. O mercado alvo era bem definido: o The Gathering 2013 traduziu o chamamento do país aos elementos da sua diáspora e aos que buscam as suas raízes, a sua herança irlandesa, para se juntarem na pátria. O Turismo da Irlanda apelidou, assim, o ano de 2013 como o “Ireland’s Family History Year”, o Ano da História da Família na Irlanda (Irish Genealogy News, 2014).
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 86 O grande encontro consistiu na soma de pequenos outros encontros, organizados ao nível local. Neste sentido, o envolvimento de toda a população foi grandemente incentivado, tendo sido criado um fundo (The Gathering Ireland Local Community Fund), gerido pelas comunidades das diferentes localidades, de incentivo às organizações locais, com o objetivo de elas próprias desenvolverem um conjunto de atividades e projetos que se juntassem ao eventos previstos no programa nacional do Gathering 2013, com vista à atração de turistas. Neste âmbito, a tipologia de eventos a apoiar incluía reuniões escolares, clubes desportivos acolhendo equipas estrangeiras, música, eventos culturais ou de negócios que envolvessem visitantes ultramarinos (The Gathering Ireland Local Community Fund – Guidelines for Applicants, 2012). Tratou-se, na opinião de Caroline Legrand, investigadora do Laboratoire d’Antropologie Sociale, Paris, (2007, s.n.) de uma estratégia do governo irlandês para seduzir as pessoas de ascendência irlandesa e transformá-las em turistas para a Irlanda. Desta estratégia fez parte a disponibilização de bases de dados biográficos a genealogistas para facilitar as ligações entre estes e a população irlandesa. Legrand (2007, s.n) identifica o “aproveitamento” do historial da emigração irlandesa a favor da economia do país como já tendo surgido na sequência da crise económica que a Irlanda atravessava no início dos anos oitenta do século XX. As entidades governamentais decidiram então definir atrativos turísticos capazes de mobilizar de volta a casa a descendência irlandesa espalhada pelo mundo, tendo criado nesse âmbito, em 1987, o Irish Genealogical Project (IGP). O método de abordagem às comunidades irlandesas espalhadas nos países de acolhimento da emigração irlandesa, como o Canadá, a Austrália, os EUA, a Nova Zelândia, definido pelas entidades irlandesas, consistiu na criação de organismos, como o IPG, cuja tarefa consistia em delinear estratégias de atração daquela população-alvo que, sentindo forte ligação com a Irlanda por via dos elos familiares, os fizesse desejar visitar o país. A Autoridade para o Desenvolvimento do Turismo Nacional (Fáilte Ireland) juntou-se à campanha, enviando investigadores à América do Norte, para identificarem o tipo de interesses que estes potenciais turistas teriam: que locais desejariam ver, as histórias que gostariam de ouvir, etc. Surgiram publicações apelando às pessoas com interesse em
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 87 genealogia e às próprias sociedades genealógicas. O interesse nas histórias familiares irlandesas institucionalizou-se e passou a ter um quase estatuto de bem comercializável, com selo de autenticidade das entidades governamentais. Com efeito, como afirma Legrand (2007, s.n.) “o conceito de pátria como um todo tornou-se também ele comercializável”. Os meios utilizados na promoção deste novo conceito de turismo na Irlanda consistiram não apenas nas mensagens passadas por publicações direcionadas à população-alvo de origem irlandesa mas também aos genealogistas profissionais que alimentam as pesquisas dos interessados na história familiar. De resto, as entidades irlandesas mercantilizaram a operação de forma intensa sendo possível, como relata Legrand (2007, s.n.), encontrar à venda nos postos de turismo irlandeses bocados de pedras e de terra transpondo a ideia de que os turistas de raízes poderiam levar consigo um pouco da sua terra. Livros e manuais com histórias sobre diferentes nomes de família foram disponibilizados e todo o tipo de mensagens visuais apelavam à descoberta das origens aproveitando para sugerir uma visita ao país real e a desfrutar das paisagens e da envolvência da cultura e história irlandesas. A dimensão do fenómeno do interesse genealógico na Irlanda, e do seu fomento por parte das instituições governamentais, envolveu de tal forma as estruturas do país que “a emigração passou a ser representada como uma tradição irlandesa”. A emigração tornou-se um tema que dizia respeito a todos enquanto família e comunidade e não somente uma questão individual. E, neste sentido, os próprios limites geográficos da Irlanda se extravasavam para incluir também “a diáspora irlandesa no mundo inteiro” (Legrand, 2007, s.n.). A atratividade composta na Irlanda para chamar a si os “do seu sangue” incluiu não só a apresentação de uma história, que inclui e acolhe, mas também a existência de lugares “autênticos” e população amistosa e acolhedora. A colaboração da população local foi, aliás, uma das preocupações das entidades governamentais. Como diz Legrand (2007), todos os ingredientes foram reunidos para tornar apetecível um regresso à terra dos antepassados.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 88 Entre as ações de marketing na Irlanda com vista ao apelo à visita à “terra de origem” contavam-se: - os Correios nacionais lançaram uma campanha em que pediam à população que escrevesse postais a familiares distantes, que viviam no estrangeiro (Write and Invite era o nome da campanha); - lançamento de milhares de selos representativos do tema da emigração. Segundo dados que esta autora apurou através de relatórios da Autoridade para o Desenvolvimento do Turismo Nacional (Fáilte Ireland), o número de pessoas que visitaram a Irlanda, com o propósito de seguir a sua história familiar e redefinir quem são foi progressivamente crescente, cerca de: - 39.000 em 1989 - 58.000 em 1993 - 117.000 esperados em 2000 Quanto ao perfil dos turistas genealógicos na Irlanda, identificaram-se como sendo: 57% residentes na América do Norte com 45 anos, viajam com o cônjuge, viajam durante o Verão (47%), têm gastos superiores aos outros turistas durante essa época. Legrand (2007) sustenta que as críticas na altura feitas, nomeadamente pelas sociedades de genealogia ao Irish Genealogical Project (IGP), quer quanto à falta de qualificação das pessoas que participaram na operação de digitalização dos registos genealógicos, quer quanto ao custo de acesso ao serviço, quer, ainda, quanto à promessa de pesquisa até a períodos longínquos que a ausência de censos (só realizados desde 1864) não permitia, refletia algumas tensões internas, nomeadamente a relacionada com a questão da propriedade. Muitos dos registos convertidos em informação disponibilizada informaticamente (registos de casamentos, batismo e óbitos) foram pedidos de empréstimo pelas entidades governamentais ao clero, que via nisso alguma usurpação ao seu direito de gestão e de informação às pessoas que buscavam elementos das vidas dos seus antepassados. A autora vê nestas tensões uma expressão do valor que os grupos sociais atribuem a estes registos e suportes de memória. 4.2.5 O ponto de vista dos habitantes locais
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 89 Existe ainda um ponto crítico a ter em conta no caso do fenómeno de interesse genealógico na Irlanda. Este diz respeito à forma como o fomento desta atividade por parte dos políticos irlandeses ter criado uma espécie de equivalência entre a prática genealógica e a experiencia turística, criando nos próprios irlandeses algumas reservas quanto aos turistas de raízes. Os estudos de Legrand (2007) indicam que na pesquisa da sua própria história familiar, os habitantes locais não apreciam a comparação com estrangeiros que também o fazem. Além disto, existe por arte dos locais algum receio sobre os efeitos da chegada massiva de parentes estrangeiros e das obrigações que os laços de parentesco então revelados pudessem acarretar, em termos de obrigações familiares, como a obrigatoriedade social de albergar parentes que desconheciam. Legrand (2007) sustenta assim, que esta intenção de incentivar à busca de raízes na Irlanda enfrenta alguma resistência por parte da população local, que a interpreta como um desafio à nacionalidade irlandesa. Em contraponto, Basu dá conta, nas suas investigações sobre as deslocações dos descentes escocesas de regresso à Escócia, que encontrou muitos locais que compilam histórias das suas famílias. Para o autor, as diferenças de atitude em relação à genealogia entre os locais de Orkney e os visitantes da diáspora é que localmente existe uma maior sensação de continuidade. “Os lugares ancestrais não são fetichizados da mesma maneira porque fazem parte do tecido vivo da comunidade” (Basu, 2004:35). Segundo informações disponíveis na página eletrónica do Gathering 2013 (http://www.thegatheringireland.com/Media-Room.aspx, consultado em 06-02-2014), onde se apresenta um resumo desta campanha turística no país, os resultados foram bastante satisfatórios. O incremento de visitas vindas do estrangeiro relacionadas com o evento foi entre 250.000 a 275.000, representando um crescimento de 7.3% nos dez primeiros meses de 2013 e correspondendo a uma receita de 170 milhões de Euros. Jim Miley, o Diretor do projeto refere que esta conquista foi possível cumprindo o orçamento estipulado pelo Departamento de Transportes, Turismo e Desporto de 13 milhões de Euros. Para o sucesso reclamado contribuiu de forma proeminente a eficaz campanha de relações públicas, as ações de marketing e comunicação nos media (onde se destaca a campanha denominada How Irish Are You? nos meios sociais) bem como o “convite pessoal” a cada cidadão que foi encorajado a fazer a visita de amigos, familiares e grupos de afinidade à Irlanda nesse ano (Fáilte Ireland, 2013:46).
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 90 Para além dos económicos, a organização do evento salientou os principais benefícios da realização desta iniciativa, os dividendos sociais retirados e o impacto positivo nas comunidades irlandesas, com ênfase no pronto apoio dos cidadãos e comunidades locais, em particular os do meio rural, daqui resultando um “renovado sentido de espírito de comunidade” (Fáilte Ireland, 2013:3).No rescaldo da realização do Gathering na Irlanda em 2013, a organização do evento (Turismo da Irlanda) concluiu que a acção de turismo dirigida à diáspora que busca as raízes irlandesas foi favorável ao turismo do país, sendo, por isso, um tema a desenvolver nos anos seguintes.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 91 CAPÍTULO V – Portugal: possível destino de turismo genealógico? Atentando na espessura histórica da emigração portuguesa, abordaremos nesta parte a questão da dimensão da diáspora portuguesa, sugestiva da existência de um número considerável de pessoas de origem portuguesa dispersas pelo globo e tentaremos identificar nestas indícios de uma vontade de conhecer o lugar de origem das suas raízes familiares. 5 .1 A dimensão estimada da diáspora portuguesa “A emigração é uma componente estrutural da sociedade portuguesa". A expressão é atribuída pelo Professor Jorge Arroteia 9 , conhecido estudioso da emigração portuguesa, ao Professor Joel Serrão, para referir a espessura temporal e o significado da ocorrência de fluxos migratórios de portugueses. A emigração desempenhou um papel importante na construção da sociedade e história de Portugal, assumindo distintas categorias, como as de descobridores, povoadores, colonizadores, e tendo ocorrido períodos em que era incentivada, depois, em contraste, se declarou o seu fim oficial e nos dias atuais constitui um tema de injetado de atualidade e de discussão reavivada. A emigração portuguesa ao longo dos tempos levou à fixação de comunidades radicadas em diversos países de acolhimento, originando a diáspora portuguesa. O número de portugueses disseminados pelo mundo é difícil de quantificar, por não existirem registos de mobilidade. Em estudos realizados, Neves e Rocha-Trindade (2008:186) indicavam dados das estatísticas oficiais da Direcção-Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas de 2007 que apontavam para um total de 4.968.856 de portugueses repartidos por diversos países e continentes, concentrando-se: 57% no continente Americano, 31% na Europa, 9 Integrada na entrevista A emigração evoluiu em modalidades distintas, mas no decurso da nossa história fomos tendo sempre saídas. Entrevista a Jorge Arroteia concedida em 2011 ao Observatório da Emigração, Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), CIES-IUL e DGACCP. Disponível em http://www.observatorioemigracao.pt/np4/2659.html
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 98 consequência, os portugueses constituem presentemente na sociedade americana um “grupo imigrante estabelecido”, sendo mesmo considerado “hoje em dia é “cool” ser português!”. O interesse dos descendentes de imigrantes portugueses nos EUA sobre as questões relacionadas com a sua etnia e interesse na história familiar pode encontrar-se bem patente nas impressões transmitidas por esta investigadora na entrevista concedida ao Observatório da Emigração (OEm) em 2012, da qual incluímos excerto no Anexo E por nos parecer essencial na avaliação sintomática do despertar de uma apetência por viagens à procura das raízes no público constituído pelos descendentes da emigração portuguesa nos EUA.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 99 CAPÍTULO VI – Itinerários turísticos: servir turistas de história da família Tendo em conta as informações reunidas até esta fase do estudo, procuraremos nesta parte salientar alguns dos aspetos essenciais a ponderar no esboço de um produto turístico, que deverá ser necessariamente muito específico e feito à medida, para servir a procura particular de um tipo de turistas que se desloca em busca dos lugares de proveniência familiar mas também de uma experiência turística mais completa. 6.1 O papel dos itinerários turísticos Ferreira, Aguiar e Pinto (2012) alertam para necessidade de, tendo em conta a crescente especialização de interesses e exigência do turista, os destinos turísticos terem como imperativo a necessidade de renovar-se, valorizando o seu património, de criar novos focos de atração e interesse para, com isso, aumentarem a sua rentabilidade. Inserido num contexto de grande êxito do turismo cultural nas preferências dos consumidores turistas, surge a preferência para os itinerários culturais, que segundo um estudo de Ferreira, Aguiar e Pinto (2012:117) abrange uma grande variedade de serviços, potenciando a economia das cidades, mas também fazendo chegar o turismo a lugares onde seria pouco provável o seu desenvolvimento e sustentam que, tendo em conta o incremento da procura pelo turismo cultural, este é um terreno fértil para as empresas de itinerários culturais. Com base no ponto de vista de Urry (1990) no seu livro “The Tourist Gaze”, os turistas com um interesse especializado requerem um tipo de serviço também ele especializado, prestado por uma empresa de itinerários culturais. Neste caso, o prestador deste serviço deverá ser um profissional, uma vez que uma relação próxima com o turista, altamente exigente, está implícita.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 100 Ferreira, Aguiar e Pinto (2009) defendem que “as empresas de itinerários podem contribuir largamente para o desenvolvimento do destino (…) acrescentando ainda várias motivações culturais que o turista poderá encontrar ao longo do itinerário”. No caso das pequenas localidades, uma empresa de itinerários pode inclusivamente tornarse um “elemento facilitador para a atração de turistas” pela disponibilização de algo que as torna únicas (Ferreira, Aguiar e Pinto, 2012:118). Conforme notam estes autores, a disponibilização de circuitos culturais pode materializar-se em desenvolvimento local de um lugar, pela dinâmica social, económica e cultural que acarreta: “Neste contexto, podemos afirmar que as empresas de itinerários turísticos podem contribuir largamente para a grande alteração da era, onde a sociedade de consumo toma para si o papel de induzir à produção” (Ibidem). O êxito das empresas de itinerários culturais depende, na opinião destes autores, fortemente da utilização de profissionais muito qualificados, sendo que o serviço tailormade, o serviço feito a pedido e em exclusivo para determinado cliente, tem aqui um papel primordial (Ferreira, Aguiar e Pinto, 2012: 119-124). Reportando ao caso concreto do Porto enquanto destino turístico cultural, estes autores sustentam que a dinamização dos destinos turísticos através de empresas criadoras de itinerários culturais podem constituir um valioso contributo para o aumento da atratividade turística de um destino, resultando em desenvolvimento e criação de riqueza para além de terem a capacidade de contribuir para a valorização do património material e imaterial do lugar. Aos olhos do turista, a existência destes itinerários equivale ao acrescentar de valor à sua experiencia turística, o que deixa destacado um determinado destino entre a concorrência para além de estimular a dinâmica dos negócios turísticos de uma localidade. 6.2 Aspetos a ter em conta no esboço de um percurso turístico genealógico Na ponderação de iniciativas com vista à promoção e incentivo do Turismo de Raízes que fundamentem um plano de ação capaz de atrair e apoiar os turistas na sua busca de conhecimento sobre a sua história familiar e os seus antepassados, uma das primeiras será o reconhecimento de que existem muitos descendentes de diáspora das áreas de acolhimento. Depois de identificados quem são e para onde foram, podem direcionar-se esforços e orçamentos limitados para estes mercados-alvo (Ray e McCain, 2011:46).
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 101 No delinear de um percurso turístico ligado à ancestralidade, os conhecimentos de genealogia, assim como de heráldica, revelam-se úteis para guias e outros agentes envolvidos no turismo cultural (Prinke, 2010:17). Uma provável fonte de informação relevante serão famílias e organizações de sociedades históricas que mantêm ativas as memórias culturais e artefactos relacionados com as suas pátrias ancestrais e que organizam eventos onde se reúnem outros potenciais viajantes com os mesmos interesses. A interação, e o “aliar de forças” com semelhantes organizações, pode levar a importantes ligações para o planeamento de viagens (Ray e McCain, 2011:46). Na busca pelos seus antepassados, os turistas de raízes procuram registos, como certidões de nascimento, de óbito, de casamento, etc. Um recurso de pesquisa centralizado numa área urbana pode proporcionar um grande impulso, bem como a cooperação com organizações internacionais que possam fornecer ajuda no processo (veja-se uma tendência ainda que limitada, no ADP-Anexo C). Por outro lado, poderá existir relutância por parte de detentores rurais de documentos em disponibilizá-los por meio informáticos, receando que tal impeça uma visita efetiva às suas terras. Com efeito, o conhecimento da existência de um qualquer registo relevante não disponibilizado de outra maneira, pode constituir pretexto para uma viagem, no intuito de verificar o original e procurar outros, e assim vivenciar o lugar de onde vieram os seus antepassados. Uma vez aí chegados, os turistas necessitarão de acomodações, não apenas nas zonas urbanas por onde chegaram, mas nos próprios lugares onde os seus antepassados viveram. Irão necessitar de assistência no acesso às zonas rurais, bem como do conhecimento e perícia dos serviços de guias. A pesquisa e busca de documentação implícita nos processos de investigação genealógica têm repercussões no turismo, uma vez que podem instigar o interesse das pessoas envolvidas em viagens para comprovar e/ou descobrir novas histórias, ligadas à sua história familiar. Neste sentido, a informação resultante da pesquisa genealógica pode constituir material promocional que apoie potenciais turistas na formação de imagens de destino, em última instância, determinando as escolhas de destinos de viagem (Santos e Yan, 2010:58).
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 102 Os agentes de gestão turística não terão ainda aproveitado as oportunidades que o segmento de mercado do turismo genealógico representa (Santos e Yan, 2010:65). O cruzamento de viagens e pesquisa genealógica tem sofrido e continuará a ter um grande impacto por parte dos viajantes de segunda geração e seguintes, que dispõem de motivação, tempo disponível e recursos para prosseguir a busca de informações sobre os seus antepassados. Assim, o conhecimento e compreensão das experiências vivenciadas pelos turistas genealógicos será, portanto, uma vantagem para os gestores turísticos na orientação de esforços de atração de visitantes, cujas motivações determinam a escolha dos destinos e atividades turísticas. Josiam e Frazier (2008:52) sugerem a elaboração de pacotes turísticos especializados, destinados aos interessados em genealogia onde podem ser incluídas visitas a locais relevantes, organização de seminários e de eventos sociais que permitam a interação entre pessoas com o mesmo interesse. A contratação de especialistas revela-se um imperativo. Alguns circuitos ligados a ancestralidade incluem visitas a bibliotecas (McCain e Ray,2003). No plano internacional é possível encontrar negócios que identificam o turismo genealógico como uma oportunidade e se dedicam a suprir a necessidade dos turistas, que procuram conhecer os lugares de origem associados à sua história familiar, organizando para eles serviços específicos. A Burnett Thorne Cultural Tourism, em Ontario, Canada (2010) que acredita que este segmento turístico é uma jóia à espera de ser descoberta, capaz de impor a sua marca na economia e a Irish Ancestral Holidays, que reclama fornecer uma “experiencia genealógica completa, que não se obtém de simplesmente introduzir o seu apelido num motor de busca” (Rota, 2010 apud Ray e McCain, 2011:37). Sendo um segmento com grande especificidade, a pesquisa sugere que a reunião de informação sobre as expectativas deste tipo de turista, a pesquisa que pretendem seguir, a seleção dos lugares de interesse é crucial para a definição de um pacote adequado. Exemplo do apuramento informativo que pode revestir-se da maior importância no delinear de um serviço desta natureza é a disponibilização em linha de um questionário como o da European Focus (Anexo G), no sentido de determinar o maior número de indicações relativas ao tipo de interesse do turista genealógico, de modo a permitir a definição de um serviço “privado”, o mais adaptado possível às exigências particulares do turista.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 103 A um nível local, e partindo da sugestão que a origem das populações emigrantes é, por motivos históricos ligados à procura de melhores condições de vida que esses lugares já não podiam oferecer, no meio rural, apresenta-se plausível que este tipo de turismo possa constituir à partida um instrumento dinamizador de desenvolvimento para estes lugares. Numa escala nacional, a consideração de um projeto poderia equacionar a oferta de pacotes turísticos que incluíssem voos, transportes internos, alojamentos, tours e excursões, investigações genealógicas e organização de eventos onde pudesse ocorrer a partilha de património de uma ascendência comum. O marketing de uma organização desta natureza teria naturalmente de ser direcionado para este segmento específico, e os meios a utilizar incluiriam certamente a internet, listas de discussão em linha, sítios de internet de sociedades genealógicas e das diásporas e o envolvimento de todos os meios de comunicação. Na ponderação de um negócio é imprescindível procurar formas de estabelecer ligações com os públicos-alvo, identificar os tipos ou segmentos de visitantes que se pretende atrair, para delinear programa e/ou circuitos que os sirvam. Uma oportunidade para atingir os objetivos pode constituir-se na convergência dos interesses das instituições de migrações e académicas. A nível nacional, uma nota de referência é devida à consciência das entidades regionais da Região Autónoma dos Açores da existência de mercado e oportunidade no turismo genealógico ligado à comunidade judaica. Os Açores 11 projetam a definição de um roteiro turístico para aquela comunidade, de modo a dar a conhecer as marcas da presença judaica nesta região e potenciar o turismo genealógico. Os instrumentos incluiriam a elaboração de um desdobrável para ser disponibilizado em agências de viagens, restaurantes, hotéis e espaços turísticos. A intenção é dotar os agentes turísticos de meios para a captação de um segmento de mercado que procura as suas raízes e tem apetência pela descoberta dos seus antepassados e, segundo as entidades regionais, este 11 RTP Notícias (2012), “Roteiro cultural sobre herança judaica quer potenciar turismo genealógico”. Lusa, 03 março. Disponível em http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=532416&tm=4&layout=121&visual=49 e também a notícia “Roteiro sobre herança judaica nos Açores pretende potenciar turismo genealógico”. OTA Observatório do Turismo dos Açores, 16-03-2012. Disponível em http://www.observatorioturismoacores.com/noticia.php?id=1446
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 104 é um tipo de turismo de importância crescente e os turistas deste segmento possuem "grande capacidade aquisitiva e viajam muito pelo mundo fora à procura da sua história" (Graça Castanho, diretora regional das Comunidades).
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 105 Conclusão A análise que se apresenta teve como intenção a abordagem do tema do turismo relacionado com a procura das origens familiares, sob o pretexto de uma pressentida tendência contemporânea no sentido das viagens com motivações genealógicas estarem a consubstanciar um fenómeno social moderno nas sociedades ocidentais. Em consequência de praticamente seculares movimentos migratórios, a composição das sociedades modernas evoluiu para grupos com raízes muito variadas e longínquas no tempo e no espaço, originadas pelas necessidades de deslocação de familiares de gerações anteriores. As chamadas diásporas, onde a presença omnipresente de um lar para o qual se haveria um dia de voltar, deram origem a indivíduos para quem as histórias, passadas de geração em geração, se converteram num mito ligado a esse lar tantas vezes descrito, envolto num imaginário ligado a um sentimento de autenticidade e de genuíno, que só o passado pode assegurar. Nestas sociedades, mescladas por uma multiplicidade de culturas, a globalização impingida pela velocidade estonteante dos movimentos, de pessoas, de bens, de informação, de mudança de valores, terá gerado por entre os seus elementos uma sensação de “desenraizamento”. Crê-se identificar o surgimento, nestes indivíduos, de uma vontade de “se buscarem a si mesmos”, numa tentativa de auto-identificação e auto posicionamento no mundo global, através da descoberta da história pessoal da sua família. Conforme fica demonstrado neste estudo, o refinamento dos motivos para a viagem vem originando segmentos distintos de turistas com um interesse especial, a cujas expectativas os lugares e serviços turísticos precisam dar adequada resposta através da construção de itinerários e pacotes turísticos. No início de novo século de atividade turística, que se perspetiva de renovados motivos para a viagem mas de crescente intensificação da procura, o segmento de mercado turístico representado por aqueles que buscam os lugares de origem, relacionados com a sua história familiar, constitui uma oportunidade de inovação e desenvolvimento para as regiões com um historial de emigração notável.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 106 Apercebemo-nos da literatura com que fomos contactando que este tema do turismo de raízes ou genealógico é mencionado com relação às diásporas afro-americanas (com interesse dos americanos pelas visitas aos países africanos, à Escócia e Irlanda e também ao Brasil) e igualmente à diáspora judia. Em Portugal apenas foi possível encontrar algumas referências a iniciativas do Turismo do Açores 12 e a um projeto de Turismo de Nostalgia, no Alentejo, relacionado com o desenvolvimento do turismo rural de nome Genuineland 13 , que surge ligado à pesquisa de doutoramento de Áurea Rodrigues. No domínio dos dados estatísticos, não se encontram, nomeadamente, estudos que reportem o interesse genealógico quanto ao motivo para a viagem e junto das agências de viagens, salvo o caso da Portuguese Ways (http://www.portugueseways.com/en) que possui uma proposta concreta para circuitos genealógicos, mas da qual não foi possível obter mais dados. Também não existe oferta construída no mercado nacional para este tipo de turistas. Os turistas que pesquisam as suas raízes constituem um segmento de mercado com um potencial muito interessante. Têm recursos financeiros e propensão ou disposição para viajar fora das épocas normais de férias. Estes turistas querem sobretudo vivenciar a ambiência do lugar. Estes fatores devem ser tidos em conta pelos destinos e as entidades de gestão turística devem procurar dirigir a este segmento uma estratégia específica. O turismo genealógico representa um desafio para a indústria do turismo. Configura uma contradição com o turismo tradicional por ser individualizado, disperso e autêntico (Prinke, 2010:21). Ficou claro que as reflexões desenvolvidas, os estudos de caso apresentados, as experiências já conhecidas, são sugestões que apontam para a necessidade de aprofundamento da pesquisa. 12 Veja-se a este propósito a notícia “Roteiro cultural sobre herança judaica quer potenciar turismo genealógico”. Lusa, 03 março 2012. Disponível em http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=532416&tm=4&layout=121&visual=49 Consultado em 29Fev-2014 13 Veja-se Esteves, Tiago C. (2012) “Projeto inédito que alia nostalgia e turismo avança no Alqueva”. Publituris, 05 novembro. Disponível em http://www.publituris.pt/2012/11/05/projecto-inedito-que-alianostalgia-e-turismo-avanca-no-alqueva/ e também Zacarias, M. Antónia (2012) “Alentejo quer conquistar americanos através da nostalgia”. Público, 12 novembro 2012. Disponível em http://static.publico.pt/local/noticia/alentejo-quer-conquistar-americanos-atraves-da-n . Páginas consultadas em 02-Out-2013.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 107 Assim, um dos objetos de estudo que exige maior aprofundamento pode constituir o impacto financeiro que este tipo de turismo específico tem, ou pode vir a ter, para os destinos alvo deste interesse, bem como a facilitação de maior pesquisa sobre o perfil demográfico e psicográfico dos turistas genealógicos (Josiam e Frazier, 2008:53). É necessária pesquisa mais avançada nesta área, em particular estudos empíricos que revelem dados sobre as expectativas dos turistas que utilizam o seu tempo de ócio para visitar os locais relacionados com a sua história familiar, com as suas raízes. É importante definir instrumentos que permitam identificar as características destes turistas de interesse especial e particular, de modo a fornecer informação de apoio à gestão do turismo para permitir uma adequada resposta a este segmento. Por esta razão, seria recomendável que a pesquisa em turismo se envolva na identificação dos turistas de legado através da recolha de dados empíricos sobre este segmento. Talvez que a inclusão nos inquéritos turísticos sobre motivações para a visita, que incluísse questões sobre “pesquisa sobre história da família” e “visita a lugares de onde é originária a família” possa contribuir neste sentido. A introdução de uma questão diretamente relacionada com as origens dos visitantes nos questionários para recolha de dados do turismo em Portugal poderia contribuir para a perceção da existência (ou ausência) de viagens motivadas pelo interesse genealógico no nosso país. Por outra parte, seria um acrescento de valor significativo a identificação no nosso país dos recursos genealógicos que poderiam servir os propósitos de visitantes com este tipo de interesse para a viagem, assim como a preparação de profissionais capazes de, proporcionando o apoio ao turista na identificação dos lugares, documentos, etc. que busca, pudessem compreender e integrar a vivência de ambientes distintos na experiencia mais abrangente que é, normalmente, procurada também por estes turistas. Neste contexto, a pesquisa poderia, nomeadamente, enveredar por um levantamento dos pontos geográficos com registo de maior emigração, pois serão hipoteticamente aqueles para os quais se verificará maior interesse de visita motivada pela procura de histórias familiares. Conforme notam McCain e Ray (2003:716), a dedicação ao estudo dos impactos de um segmento de legado pode constituir uma importante contribuição para a definição de estratégias de promoção da atração de turistas que buscam um significado pessoal nos
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 114 PRENTICE, R. (2011), “Experiential Cultural Tourism: Museums and the Marketing of the New Romanticism of Evoked Authenticity”. Museum Management and Curatorship, 19(1), 5-26. PRINKLE, Rafał T. (2010), “Genealogical tourism: An overlooked niche”. Tourism and Recreation Department, AWF Poznań. Acedido em 03-jan-2014, disponível em < http://www.academia.edu/1045386/Genealogical_tourism_An_overlooked_niche >. RAY, Nina M. e MCCAIN, Gary (2009), "Guiding tourists to their ancestral homes". International Journal of Culture, Tourism and Hospitality Research, Vol. 3 Iss: 4, 296 – 305. Acedido em 05-jan-2014. Disponível em: http://scholarworks.boisestate.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1004&context=marketin g_facpubs RAY, Nina & MCCAIN, Gary (2011), "An American Perspective on European Roots Tourism". AEMI Journal, 9, 36-51. Acedido em 10-fev-201, disponível em http://works.bepress.com/nina_ray/16.Consultado em 28-Out-2013 RAY, Nina M. e MCCAIN, Gary (2012) "Personal Identity and Nostalgia for the Distant Land of the Past: Legacy Tourism”. International Business & Economics Research Journal, Vol. 11 ISS:9, pp. 977-989. Disponível em: http://works.bepress.com/nina_ray/15 ROBINSON, M. & NOVELLI, M. (2005), “Niche Tourism – An Introduction”. In Marina Novelli (ed) Niche Tourism. Routledge, 2007. ISBN1136376178, 9781136376177 RODRIGUES, Áurea (2012) “Constrangimentos, nostalgia e as visitas dos Norte Americanos à Europa rural”. Tese Doutoramento em Turismo. Aveiro: Departamento de Economia, Gestão e Engenharia Industrial Universidade de Aveiro http://ria.ua.pt/bitstream/10773/8688/1/249727.pdf ROJEK C. (1993), Ways of Escape. London: Macmillan. SaeR-Sociedade de Avaliação estratégica e Risco (2005) Reinventando O Turismo Em Portugal. Estratégia De Desenvolvimento Turístico Português No 1º Quartel Do Século Xxi, Volume Iv, Visão De Conjunto E Recomendações Para A Concretização Da Estratégia
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TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 130 traçar um perfil como o genealógico. Como indica a Diretora do ADP, “o traço dos perfis dos utilizadores é artificial”, quase uma “classificação forçada” dos perfis. Neste sentido, um indicador pode constituir o número de acessos e pedido de registos paroquiais enquanto fontes genealógicas procuradas. Entre os tipos de registos mais solicitados no ADP estão os paroquiais e notariais. Os dados que nos foram facultados e se passa a referir são relativos aos acessos e pedidos de consultas e reportam ao ano de 2013, indicando-se os países com maior quota. Assim, em termos de país de origem dos acessos globais, o ADP registou em 2013: - 78,5% portugueses - 7% do Reino Unido - 6,5% do Brasil - 1,5% de França - os EUA representaram 0,55% Em pedidos de pesquisa e reprodução, o tipo de registos mais solicitados foram os paroquiais (38%) e os notariais (31%), sendo as nacionalidades requisitantes mais representativas os portugueses (90%), os brasileiros (5,5%) e os originários do Reino Unido (0,18%). O ADP recebe também a visita de pessoas que procuram a consulta presencial dos arquivos. Em 2013, os pedidos presenciais para os registos paroquiais representaram 20% dos pedidos presenciais recebidos (cerca de 1.653), sendo que destes aproximadamente 6,56% eram pedidos realizados por visitantes do Brasil. Com efeito, A Diretora do ADP refere terem notado em anos recentes uma procura acentuada por parte de cidadãos brasileiros de registos familiares de modo a, fazendo prova da ascendência, poderem obter a cidadania portuguesa. Atualmente não são tão notórios pedidos desta índole. Em termos de afluência de visitas ao ADP, é registada uma variação ao longo do ano. No entanto, é possível identificar o mês de Agosto como o mês em que o ADP recebe maior número de visitas.
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 131 Anexo D – Folhetos sobre os serviços do ADP
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TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 137 Anexo E – Mensagem eletrónica recebida do Family Search
TURISMO GENEALÓGICO: “Voltar a casa” - Turismo de Histórias e Memórias de Família 138 Anexo F – “Homecoming Scotland”: anúncios na imprensa para mercados Long Haul
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