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A Instalação no Espaço Público como um Meio para a Consciencialização sobre Problemáticas Ambientais

Artur Jorge de Matos Fontinha

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UNIVERSIDADE DO PORTO FACULDADE DE BELAS ARTES A Instalação no Espaço Público como um Meio para a Consciencialização sobre Problemáticas Ambientais Projeto Cascata de Coalescência Dissertação para a obtenção do grau de Mestre em Arte e Design para o Espaço Público Modalidade de Trabalho de Projeto Orientador: Professor Doutor José Pedro Sousa Mestrando: Artur Fontinha Porto, 2014 I Profundamente grato: Ao Professor Doutor José Pedro Sousa, pela orientação, por toda a sua disponibilidade, apoio e incentivo. A todo o elenco docente envolvido no percurso do mestrado, por todo o conhecimento partilhado e estimulação de pensamento analítico e crítico; A todos os profissionais das Instituições, Organizações, Fundações, Projetos e Município que colaboraram nesta investigação, acrescentando desta forma dados que serviram de base para o Projeto, nomeadamente: Eng. Sérgio Fortuna da Administração da Região Hidrográfica do Norte (ARH Norte); Eng.ª Inês Alves da Águas do Porto; Primeiro-Tenente Paulo Marques do Instituto Hidrográfico da Marinha Portuguesa; Prof.ª Dra. Paula Sobral do Projeto MARLISCO; Eng.ª Isabel Nogueira do Gabinete de Auditoria, Sustentabilidade e Qualidade Total da LIPOR; Dr. Filipe Pinto e Dra. Joana Castro da Academia UBUNTU; Dra. Liliana Coutinho (Arte), Dra. Elisabete Alves (Ambiente) da Coordenação do Serviço Educativo do Museu de Serralves e Dr. João Almeida da Direção do Parque de Serralves; Dr. Guilherme Blanc, Adjunto do Pelouro da Cultura, Eng.ª Cristina Azurara e Eng.ª Teresa Serrano do Pelouro da Inovação e Ambiente da Câmara Municipal do Porto. Aos Professores, que durante o meu percurso académico me incentivaram e instigaram ao prosseguimento de estudos e à investigação em Arte e Design. Ao Atelier Claudio Bellini Design + Design e a todos os seus colaboradores por todo o profissionalismo e pelas grandes lições de Design, as quais tanto me influenciam. À Câmara Municipal de Paredes pela possibilidade de participação no Circuito de Arte Pública de Paredes e pelo apoio na execução e implementação do Vaso. À Sociedade para o Design Gráfico Experiencial (SEGD), pelo gratificante reconhecimento do Vaso, através do SEGD Global Design Awards 2014, na categoria de Instalação Pública, desenvolvida no âmbito do Mestrado em Arte e Design para o Espaço Público. À Aurora do Lima, Diário de Notícias, Público, Fundação LusoAmericana, Porto Canal, PPorto e Time Out, entre outros por divulgarem a obra. Aos amigos e familiares por sempre me apoiarem e encorajarem. II “Ao longo da história o homem teve de lutar contra a natureza para sobreviver, neste século, ele está a começar a perceber que, para sobreviver, ele deve protegê-la1.” Jacques-Yves Cousteau (Viders, 1995: 1) 1 Tradução do corpo de texto original: “For most of history, man has had to fight nature to survive; in this century he is beginning to realise that, in order to survive, he must protect it.” (Viders, 1995: 1) III Resumo Na actualidade a poluição dos oceanos através de detritos plásticos constitui uma preocupação à escala mundial. Portugal, pela sua história e pela sua condição geográfica não pode permanecer indiferente a esta situação, que clama a tomada de medidas urgentes para a sua resolução. Desenvolvida no âmbito do Mestrado em Arte e Design para o Espaço Público da FBAUP, a presente dissertação investiga o modo como a prática artística pode reflectir uma preocupação de carácter ambiental e contribuir para informar, alertar e, porque não, promover a mudança de comportamentos. Esta motivação conduz à proposta de um projecto de instalação para o espaço público denominada “Cascata de Coalescência”. Composta por uma sequência de 3 instalações – descarte, arrasto e deriva – este projecto procura consciencializar o público para a problemática da poluição dos oceanos através, não só, da manifestação da obra site-specific, mas, também, a montante, envolvendo a sua participação na própria produção da obra artística. A presente dissertação apresenta e analisa estes assuntos, descrevendo o contexto teórico subjacente à problemática ambiental e ao enquadramento artístico referindo alguns trabalhos precedentes e, por fim, descrevendo e ilustrando o projecto prático “Cascata de Coalescência”. Palavras-Chave Instalação no Espaço Público, Arte e Participação, Eco-Arte, Poluição dos Oceanos, Plásticos IV Abstract Today, the pollution of the oceans through plastic debris is a major concern at the global scale. Due to its history and geographic condition, Portugal can not remain indifferent to this situation, which claims to adopt urgent measures for its resolution. Developed in the scope of the Master in Art and Design for the Public Space at FBAUP, the present thesis investigates how the artistic practice can reflect an environmental concern and contribute to inform, warn and, why not, promote the positive change of behaviors. This motivation leads to propose an installation project for the public space named “Coalescence Cascade”. Composed by 3 installations – disposal, dragging and drifting – this project aims to help raising the public awareness about the problematic of the ocean pollution through two ways: the manifestation of the work of art by itself, and the involvement of the public participation in its production. The current thesus presents and analises these subjects by describing the theoretical framework regarding the environmental problem and the artistic background, mentioning some personal previous works and, finally by describing and illustrating the project “Coalescence Cascade”. Keywords Installation in the Public Space, Art and Participation, Eco-Art, Ocean Pollution, Plastics V Lista de Figuras e Tabelas Fig. 1 - Desenho de formações dendríticas (esquerda); Estudo de instalação de areia (direita)...........................................4 Fig. 2 - Mapa do areal da Praia Internacional do Porto e Praia de Matosinhos .....................................................................5 Fig. 3 - Projeto Vaso inserido no CAAP ...................................................................................................................................7 Fig. 4 - Sala de aula de MADEP................................................................................................................................................8 Fig. 5 - Modelo Metodológico.................................................................................................................................................9 Fig. 6 - Diagrama Metodológico o qual expõem a composição desta dissertação ..............................................................11 Fig. 7 - Rotas dos Descobrimentos Portugueses...................................................................................................................13 Fig. 8 - ZEE e Proposta de Alargamento de Limites da Plataforma Continental Portuguesa ...............................................14 Fig. 9 - Pesquina na Internet da palavra mar e poluição ......................................................................................................16 Fig. 10 - Throwaway Living, 1955..........................................................................................................................................18 Fig. 11 - Midway: Message from the Gyre, 2009 ..................................................................................................................23 Fig. 12 - Giros Oceânicos no Mundo .....................................................................................................................................24 Fig. 13 - Pato de Plástico que dá à costa...............................................................................................................................25 Fig. 14 - Pastilhas de Plástico ................................................................................................................................................26 Fig. 15 - Lixo Plástico - Número por Metro Quadrado..........................................................................................................28 Fig. 16 - Lixo Plástico - Dimensões ........................................................................................................................................28 Fig. 17 - Degradação Fotoquímica do Plástico ......................................................................................................................29 Fig. 18 - Peixe com ingestão de plástico (à direita); Tartaruga aprisionada (à esquerda) ...................................................29 Fig. 19 - Amostra de Microplástico .......................................................................................................................................30 Fig. 20 - The Lagoon Clycle, 1971-1985.................................................................................................................................32 Fig. 21 - Broadway: 1000 Steps, 2013 ...................................................................................................................................34 Fig. 22 - HighWaterLine, 2007...............................................................................................................................................35 Fig. 23 - Wheatfield, 1982 (à direita); Veden Taika, 2007-2010 (à esquerda)......................................................................36 Fig. 24 - Aurora (Urso Polar), Protesto/Performance da Greenpeace em Londres, 2013 ....................................................37 Fig. 25 - Artista Nancy Nawwi (em vermelho), do GhostNet, 2014......................................................................................40 Fig. 26 - FLOOD, 1992-1995 ..................................................................................................................................................42 Fig. 27 - 1º Encontro de Formadores da 3ª Edição da Academia UBUNTU..........................................................................43 Fig. 28 - Vaso .........................................................................................................................................................................45 Fig. 29 - Área de Intervenção do CAPP .................................................................................................................................46 Fig. 30 - Interior do Vaso (à esquerda); Diâmetro do tronco (à direita)...............................................................................47 Fig. 31 - Caverna de Pech Merle, França...............................................................................................................................48 Fig. 32 - Um evento da cascata de coalescência...................................................................................................................49 Fig. 33 - Localização das Instalações do Projeto Cascata de Coalescência...........................................................................51 Fig. 34 - Experimentação do molde de embalagem, com cimento branco e pigmento amarelo ........................................53 Fig. 35 - Simulação de grupo de objetos...............................................................................................................................53 Fig. 36 – Uniforme das Personagens e Carrinho de Compras ..............................................................................................54 Fig. 37 - Estudos de Água sobre Obstáculos, 1508 ...............................................................................................................56 Fig. 38 – Objetos de sacos plásticos......................................................................................................................................56 Fig. 39 - Apropriação da Escultura Ardina.............................................................................................................................57 Fig. 40 - Mural, 2011 .............................................................................................................................................................59 Fig. 41 - Surrounded Islands, 1980-1983 ..............................................................................................................................60 Fig. 42 - Processo para preparação de módulos...................................................................................................................61 Fig. 43 - Experimentação de garrafas na grelha modelo ......................................................................................................62 Fig. 44 - Estrutura para ação participativa ............................................................................................................................63 Fig. 45 – Vista do Cais da Ribeira (foto-montagem) .............................................................................................................64 Fig. 46 - Vista do tabuleiro inferior da Ponte D. Luís I (foto-montagem) .............................................................................65 Fig. 47 - Vista do tabuleiro superior da Ponte D. Luís I (foto-montagem)............................................................................65 VI Abreviaturas, Siglas e Sinais a.C. - Antes de Cristo CAPP - Circuito de Arte Pública de Paredes CITAR - Centro de Investigação e Tecnologias das Artes CM Paredes - Câmara Municipal de Paredes CM Porto - Câmara Municipal do Porto Dra. - Doutora EUA - Estados Unidos da América FCTUNL - Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa FBAUP - Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto IPAV - Instituto Padre António Vieira MADEP - Mestrado em Arte e Design para o Espaço Público MARLISCO - Lixo Marinho Marinho nos Mares Europeus: a Consciência Social e a CoResponsabilidade, tradução do nome original: Marine Litter in European Seas: Social Awareness and Co-Responsability ONU - Organização das Nações Unidas PET - Politereftalato de Etileno PIP - Política Integrada do Produto, tradução do termo original: Integrated Product Policy POP - Poluentes Orgânicos Persistentes Prof.ª - Professora PSP - Polícia de Segurança Pública SEGD - Sociedade para Design Gráfico Experiencial, tradução do nome original: Society for Experiential Graphic Design EU - União Europeia UC - Unidade Curricular VIH - Vírus da Imunodeficiência Humana ZEE - Zona Económica Exclusiva m2 – Metro Quadrado km2 – Quilómetros Quadrados VII Sumário I Agradecimentos II Nota Prévia III Resumo IV Abstract V Lista de Figuras e Tabelas VI Abreviaturas, Siglas e Sinais 01 1. Introdução 01 1.1 Tema e Objetivos 02 1.2 Motivação 09 1.3 Metodologia 10 1.4 Estrutura 12 2. Problemática 12 2.1 O Mar e Portugal 16 2.2 Os Plásticos 23 2.3 A Poluição dos Oceanos através de Detritos Plásticos 31 3. Enquadramento Artístico 31 3.1 Arte e Consciencialização Ambiental 39 3.2 Arte e Participação 44 3.3 Arte e Instalação Site-Specific 49 4. Projeto 49 4.1 Conceito - Cascata de Coalescência 51 4.2 Descrição das Instalações 51 4.2.1 Descarte 55 4.2.2 Arrasto 58 4.2.3 Deriva 66 5. Conclusão 69 Referências Bibliográficas 7 Este projeto foi galardoado pela SEGD8, com o SEGD Global Design Award 20149, na categoria de Instalação Pública, nos Estados Unidos da América. Fig. 3 - Projeto Vaso inserido no CAAP Em Portugal a obra foi bastante divulgada, sendo notícia em vários jornais locais e nacionais, bem como em plataformas digitais, pelo que faço a seguinte citação do Jornal Aurora do Lima: “A SEGD qualificou o projeto como aquele que “representa o melhor do melhor em desenho gráfico ambiental no mundo inteiro.” (Lima, 2014: 3) Tratando-se de um projecto concluído e testado, as preocupações subjacentes ao Vaso reforçam as premissas que descrevi inicialmente e que definem a motivação para o trabalho apresentado nesta dissertação: a instalação no espaço público como um meio para a consciencialização sobre problemáticas ambientais. 8 Cf. SEGD online, em https://segd.org/, consultado em Novembro de 2014 9 Cf. SEGD online, em https://segd.org/awards, consultado em Novembro de 2014 8 A dissertação que se apresenta, estrutura-se num conjunto de inquietações suscitadas na procura de resposta à pergunta de investigação e que levam a delineação de uma metodologia que procura analisar, discutir, refletir e explorar de que forma a instalação artística, poderá ser um meio difusor de uma mensagem consciencializadora sobre problemáticas ambientais. Fig. 4 - Sala de aula de MADEP Para além das motivações pessoais acima descritas, segue a ordem de razões que contribuíram para que a problemática ambiental abordada fosse a poluição dos oceanos através de plásticos:  Ambientais, tratando de um problema alarmante da atualidade e à escala global.  Sociais, consciencializando sobre a problemática e inspirando mudanças de comportamento.  Geográficas, já que Portugal é a 11ª maior área mundial de águas jurisdicionais.  Culturais, fazendo referência a Portugal e ao mar, dois termos indissociáveis da identidade portuguesa.  Históricas, valorizando feitos históricos que tornam o oceano numa plataforma para a comunicação com outras nações.  Políticas, apresentando o mar como um vetor estratégico para o desenvolvimento nacional.  Económicas, demonstrando o valor do mar para a economia do país.  Comunitárias, pois o combate ao Lixo Marinho, está contemplado nos Objetivos Europeus para 2020. 9 1.3| Metodologia A metodologia seguida nesta dissertação, incide sobre a investigação teórica, apresentando-se resultados práticos, que permitem a organização de conceitos do Trabalho de Projeto. Estabelece-se uma relação colaborativa, com entidades locais e nacionais, que exercem atividade direta ou indireta no âmbito desta investigação. Procurando a aquisição de dados científicos atualizados nos quais a investigação se pudesse fundamentar, o debate sobre o Trabalho de Projeto, a sua validação e possibilidade de apoio para a realização. Este processo torna-se imprescindível ao Projeto, pois é através desta colaboração e trabalho interdisciplinar, que surge a reestruturação de conceitos inicialmente criados, que ao se adaptarem e ao contemplarem objetivos comuns, expandem a abrangência do Projeto, enriquecendo-o. A seguinte imagem sintetiza a organização de um conjunto de tarefas que sustentam o desenvolvimento e evolução deste trabalho. Fig. 5 - Modelo Metodológico 10 1.4 Estrutura Esta dissertação é composta por 5 capítulos. O primeiro capítulo, é uma componente introdutória ao tema e objetivos, apresenta as principais motivações, expõem a metodologia posta em prática na investigação e apresenta a estrutura desta dissertação. O segundo capítulo dedica-se à contextualização dos temas e da problemática abordada. Destacase a responsabilidade de Portugal, para questões relacionadas com o passado, a atualidade e o futuro do mar. É feita uma introdução à evolução dos plásticos, as suas principais aplicações e observa-se o seu futuro como resíduo. Por fim, explica-se o que é o lixo marinho, apontam-se as suas principais origens e consequências. Desde uma óptica científica apresenta-se o fenómeno poluente, a metodologia utilizada para quantificação da sua escala, assim como dados científicos actualizados. O terceiro capítulo estabelece o enquadramento artístico, identificado o que se tem vindo a fazer no campo das Artes Plásticas no que diz respeito à proteção e consciencialização ambiental, assim como também se aborda a colaboração interdisciplinar. Demonstra-se qual a relação entre a obra de arte e o público através da participação. Explicitam-se conceitos da relação entre a obra de arte e o seu lugar de implementação. São apresentadas obras artísticas ou literárias, que acompanham e fundamentam o desenvolvimento criativo do Trabalho de Projeto, como também é feita alusão a projetos desenvolvidos no âmbito de MADEP. O quarto capítulo, apresenta o Trabalho de Projeto que aborda a prática artística. Conceitos criados através da fusão entre a investigação teórica e colaboração com entidades competentes, materializam-se em instalações artísticas, as quais são aqui desmembradas, demonstrando narrativas que retratam a poluição dos oceanos. Apresentam-se tecnologias criativas e de baixo custo para a produção artística. Evidencia-se a importância da envolvência com a comunidade. Apresentam-se estratégias de implementação, de registo documental e testes realizados. Por último, o quinto capítulo, fruto de um processo de reflexão que observa toda a investigação, surge a conclusão a qual sumariza os seus resultados obtidos. 11 Fig. 6 - Diagrama Metodológico o qual expõem a composição desta dissertação 12 2. Problemática 2.1 O Mar e Portugal Quando falamos de mar, torna-se indispensável falarmos de Portugal e vice-versa, e quando falamos de ambos torna-se incontornável falarmos de História. A relação de Portugal com o mar surge, muito antes de se ter fundado como um país. Foi por via marítima que chegam os fenícios, romanos, árabes e berberes (Cunha, 2011). Portugal expandese, desenha novas fronteiras e solidifica o seu território como hoje o conhecemos. Podemos observar durante a primeira dinastia, a forma como que o seu posicionamento geográfico traça estratégias que ao mar dizem respeito. Um excelente exemplo é o caso do rei D. Dinis, um visionário para assuntos do mar (Cunha, 2011), que tendo em vista o crescimento da indústria da construção naval e pescas, ordena plantar o Pinhal de Leiria para uso da sua madeira. Através dos Descobrimentos, Portugal abre-se para o mundo, ademais, tal feito torna-o num dos grandes e primeiros impulsionadores de um fenómeno que na atualidade definimos como Globalização10. Os Descobrimentos foram de tal forma marcantes na história do mundo, dada a sua relevância no desenvolvimento, que só conseguem se equiparados aos mais recentes avanços tecnológicos nos transportes, mas principalmente informação e comunicação, como satélite e internet (Albrow, et al., 1990). 10 Globalização - 2. Fenómeno ou processo mundial de integração ou partilha de informações, de culturas e de mercados. Cf. Dicionário Priberam online, em http://www.priberam.pt/dlpo/globaliza%C3%A7%C3%A3o, consultado em Novembro de 2014 13 Fig. 7 - Rotas dos Descobrimentos Portugueses11 Um dos legados, de um grandioso passado histórico, é fato de na atualidade Portugal possuir a 11ª maior área mundial de águas jurisdicionais incluindo o mar territorial e Zona Económica Exclusiva (ZEE) (Ribeiro, et al., 2010). No contexto da União Europeia (UE), o país detém a maior extensão de águas jurisdicionais, se não compreendermos os territórios marítimos ultramarinos do Reino Unido e França (Ribeiro, et al., 2010). Em 2009, Portugal submeteu a proposta de alargamento de limites da plataforma continental portuguesa à Divisão para os Assuntos do Oceano e da Lei do Mar12, pertencente à Organização das Nações Unidas (ONU). Isto posto, prevê-se que quando esta proposta seja aprovada, “a totalidade da área de solo sob soberania portuguesa ultrapassará os 3 milhões e meio de km2” (Ribeiro, Silva, Palma, & Monteiro, 2010: 53), uma área que pode ser comparada ao território terreste da India13. 11 Cf. Fundação Portuguesa das Comunicações online, em https://www.flickr.com/photos/fpccdi/sets/72157615069171314, consultado em Novembro de 2014 12 Tradução do nome original: “Division for Ocean Affairs and the Law of the Sea”. Cf. Divisão para os Assuntos do Oceano e da Lei do Mar online, em http://www.un.org/Depts/los/clcs_new/commission_submissions.htm, consultado em Novembro de 2014 13 Cf. World Bank online, em http://data.worldbank.org/indicator/AG.LND.TOTL.K2, consultado em Novembro de 2014 14 Fig. 8 - ZEE e Proposta de Alargamento de Limites da Plataforma Continental Portuguesa14 Considerando estes fatos, podemos concluir que o território terrestre de Portugal15, se reduz a 1/38 de todo o seu território, sendo as restantes 37 partes, território marítimo. Tal extensão de território, torna Portugal num excelente embaixador para assuntos do mar junto da Europa. Contudo, o passado de Portugal e da sua relação com o mar desenvolve-se, apenas em determinados períodos. De fato, a monarquia termina “com o reinado de um oceanógrafo, D. Carlos” (Cunha, 2011: 16), a Primeira República dado o seu envolvimento com a Primeira Guerra Mundial, vira-se para a Europa afastando-se do mar (Cunha, 2011), contrariamente, o Estado Novo, direcciona-se para os grandes feitos da história marítima da nação, como uma forma de propaganda (Cunha, 2011). Mais tarde, a adesão de Portugal à UE, em 1986, como esclarece Cunha (2011), leva a que Portugal se esqueça, mais uma vez, daquilo que foi, desde sempre, uma 14 Cf. Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental online, em http://www.emepc.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=578&Itemid=285, consultado em Novembro de 2014 15 Cf. World Bank online, em http://data.worldbank.org/indicator/AG.LND.TOTL.K2, consultado em Novembro de 2014 15 das grandes vantagens do país, o mar. Isto porque, como já tinha acontecido no passado, ainda que por outras razões, o país centra a sua atenção na minimização das diferenças perante outros Estados-Membros, focando-se em modernizações tecnológicas, melhoria de infra-estruturas, adaptação a políticas comunitárias, entre mais (Cunha, 2011). No entanto, na última década, Portugal volta-se de novo para o mar, investindo nele como um vetor (Portugal, 2013) para o desenvolvimento e um valor para o futuro. Para além do turismo, transporte marítimo, indústria naval ou náutica e atividades tradicionais, como dá evidência Cunha (2011), existe um amplo potencial para a exploração de recursos naturais, como a energia (das ondas, parques eólicos offshore), matérias-primas (minerais, metais e inertes), aquacultura de peixe e algas (biocombustíveis, biomassa e papel), prospeção dos fundos marinhos (busca de novos recursos naturais) e biotecnologia (para aplicação farmacêutica). Alguns dos assuntos aqui mencionados, sublinham o valor e importância do mar para a economia e desenvolvimento estratégico de Portugal (Portugal, 2013), fazendo com que o país, assuma um papel de responsabilidade nesta área securitária, nacional e internacionalmente. No contexto ambiental desta dissertação, destaca-se a poluição do mar (Ribeiro, et al., 2010), a qual envolve “uma atitude proactiva de presença, de dissuasão, de vigilância, de fiscalização e de combate…” (Ribeiro, et al., 2010: 53). Como reflecte Cunha (2011), o senso comum é de que o mar é um recurso indestrutível para onde podemos lançar todos os nossos detritos, pois a poluição terrestre é visível e a do oceano não. Seguindo ainda Tiago Pitta e Cunha, o autor refere, que um dos dois maiores problemas do mar é a poluição, pelo que 80% é de origem telúrica16 (Cunha, 2011). Desta forma, os diversos conteúdos aqui apresentados tentam demonstrar a relevância do mar para Portugal em várias frentes, históricas, geográficas, políticas e económicas. Unindo-se naquilo que é aqui objeto de estudo, a poluição do mar. Dá-se início a uma pesquisa objectiva sobre este tema, a qual teve início através do mais acessível recurso, a internet, através de palavras-chave como mar e poluição. 16 Telúrica, relativo à Terra. Cf. Dicionário Priberam online, em http://www.priberam.pt/dlpo/tel%C3%BArica, consultado em Novembro de 2014 16 Fig. 9 - Pesquina na Internet da pa lavra mar e poluição17 Através das imagens resultantes da pesquisa, observa-se logo no início da lista, uma variedade de fotografias onde objetos de plástico flutuam no mar, ou se encontram dispostos na costa. Esta constatação, em conjunto com as motivações apresentadas no primeiro capítulo, nomeadamente a minha preocupação e interesse no eco-design, acompanhado de curiosidade, fazem com que, pesquise a razão destas imagens visitando as várias hiperligações disponíveis. É desta forma, que descubro este “fenómeno” poluente, que estabelece uma nova fase do processo de investigação, a qual o procurou examinar. 2.2 Plásticos A pré-história é classificada por períodos cronológicos, cuja denominação surge graças à descoberta de novos materiais, tecnologias de produção e à sua aplicação a artefactos. São 17 Cf. Google Imagens online, em https://www.google.pt/search?q=mar+%2B+polui%C3%A7%C3%A3o&espv=2&biw=1279&bih=794&source=lnms&tbm =isch&sa=X&ei=QrJwVKTkB87APKLUgNgH&ved=0CAYQ_AUoAQ, consultado em Novembro de 2014 23 2.3 A Poluição dos Oceanos através de Detritos Plásticos No início de uma pesquisa aprofundada sobre a poluição dos oceanos através de detritos plásticos, o livro Plastics in the North Atlantic (1987), do autor R. Jude Wibler acompanha esta investigação auxiliando a compreensão da problemática. Nesta publicação que data da segunda metade da década de oitenta, o autor já alarmava para este fenómeno poluente, apresentando-o como motivo de crescente preocupação entre o público em geral, pois desde os anos sessenta que o Norte Atlântico, assim como outros oceanos tinham vindo a ser poluídos com lixo plástico quer por manuseio descuidado, perda acidental ou despejo indiferente (Wibler, 1987). O autor R. Jude Wibler, refere também o impacto destes detritos de plástico sobre os ecossistemas marinhos, mencionando as suas principais consequências biológicas, como é o caso do estrangulamento ou ingestão de detritos plásticos por parte de determinadas comunidades marinhas (Wibler, 1987). Na atualidade, são fotografias como as do projeto Midway: Message from the Gyre, do artista norte-americano Chris Jordan28, que melhor demonstram a afetação da poluição dos oceanos através de plásticos boiantes na biodiversidade marinha. Fig. 11 - Midway: Message from the Gyre29, 2009 Em Setembro de 2009, Chris Jordan desloca-se à ilha de Midway, localizada no centro do oceano pacífico, onde regista fotograficamente e sem qualquer manipulação, corpos de crias de albatroz 28 Cf. Chris Jordan online, em http://www.chrisjordan.com/about/resume.php, consultado em Novembro de 2014 29 Cf. Chris Jordan online, em http://www.chrisjordan.com/gallery/midway/#CF000534%2011x15, consultado em Novembro de 2014 24 em decomposição cujos estômagos se encontravam cheios de detritos de plástico. A causa da morte destas crias foi a ingestão de plásticos boiantes oriundos do oceano, tendo-lhes estes sido regurgitados como alimento em quantidades letais pelos seus progenitores ao confundirem tais detritos por alimento. Devemos estar cientes, que a ilha de Midway se encontra na mesma localização do centro do giro oceânico30 do pacífico norte. Fig. 12 - Giros Oceânicos no Mundo31 Com o passar dos anos os detritos plásticos são arrastados pelas correntes e acumulam-se no centro dos giros oceânicos, no caso do giro do pacífico norte, a concentração de plásticos flutuantes cria o que foi chamado de Grande Depósito de Lixo do Pacífico32 (Dautel, 2009). No decorrer desta investigação, encontro um curioso livro da autoria de Donovan Hohn, com o título: Moby-Pato: A Verdadeira História de 28.800 Brinquedos de Banho de Plástico Perdidos no Mar e de Banhistas, Oceanógrafos, Ambientalistas, e Loucos, Incluindo o Autor, Que foi em Procura Deles33. Pelo que este livro se torna numa excelente referência para uma melhor 30 Em todos os oceanos, existem giros oceânicos, um grande sistema de correntes marinhas rotativas, funcionando num vórtice criado pelo vento e fortes sistemas de alta pressão (Heinemann, 1998). 31 Cf. Hurrican Science online, em http://www.hurricanescience.org/science/basic/oceancirulation/, consultado em Novembro de 2014 32 Tradução do nome original: “Great Pacific Garbage Patch” 33 Tradução do título original: “Moby-Duck: The True Story of 28,800 Bath Toys Lost at Sea and of the Beachcombers, Oceanographers, Environmentalists, and Fools, Including the Author, Who Went in Search of Them” 25 compreensão do sistema de dispersão de objetos no oceano. Desta forma, faço a uma sucinta descrição desta história. O autor Hohn (2011), conta uma história que tem início durante uma tempestade em 1992, onde três contentores de um navio de carga, com 28.80 brinquedos flutuantes de banho de plástico proveniente de uma fábrica chinesa caíram ao mar. Dois terços dos patos de plástico, flutuaram para sul e três meses depois foram encontrados na costa da Indonésia, Austrália e América do Sul. O restante terço dos brinquedos, dirigiu-se para norte, o Alasca, e completou um círculo ao regressar ao Japão, graças à corrente do giro do pacífico norte. Muitos desses brinquedos entraram no estreito de Bering, entre o Alasca e a Rússia. Mesmo presos no gelo do Ártico, moveram-se a uma média de 1.5 quilómetros por dia e no ano de 2000, foram avistados no norte atlântico. O movimento destes brinquedos foi monitorado pelo oceanógrafo Curtis Ebbesmeyer. Esbranquiçados pelo sol e água do mar, muitos dos patos e castores ficaram brancos enquanto as tartarugas, as rãs, mantiveram as suas cores originais. Entre Julho e Dezembro de 2003 a The First Years Inc., ofereceu uma recompensa de 100 dólares americanos a quem recuperasse um destes brinquedos flutuantes na Nova Inglaterra, Canadá ou Islândia. A maior parte dos brinquedos foi recuperada em 2004, do que em outro ano dos três precedentes. Contudo, foi previsto que estes brinquedos se tenham dirigido para leste, passando pela Groenlândia dando à costa no sudoeste do Reino Unido em 2007. Fig. 13 - Pato de Plástico que dá à costa 34 34 Cf. CBS News online, em http://www.cbsnews.com/news/rubber-duckies-map-the-world/, consultado em Novembro de 2014 26 Voltando ao Grande Depósito de Lixo do Pacífico, deve-se apontar que esta massa de detritos de plástico tem vindo a crescer desde 1950. A sua escala é desconhecida, pois os detritos plásticos são normalmente pequenos objetos ou partículas flutuantes, desta forma sendo impossível quantificar a sua dimensão através de avião ou satélite. Assim o seu tamanho é determinado por amostragem. No entanto, estima-se que tenha uma área de 700 mil km2 a 15 milhões de km2 (Marks, 2010), quase três vezes mais do que a área da Península Ibérica e consiste em objetos de plástico, plástico desintegrado e partículas. Como mencionado, o processo de quantificação é o de amostragem, e a sua metodologia seguida desde os anos 80 pode ser encontrada no livro Plastics in the North Atlantic. Assim, nesta recolha de dados, Jude Wibler, descreve que ao percorrer 35 mil milhas náuticas, foram realizados mais de 420 arrastos, sendo a área de amostragem padrão por comprimento de uma milha náutica de aproximadamente de 1850 metros quadrados, usando uma rede de Neuston35 de um metro por meio metro e com 333 ou 500 mícron de abertura de malha (Wibler, 1987). Torna-se indispensável nesta etapa clarificar o significado da palavra em inglês pellets (Wibler, 1987), doravante pastilhas de plástico, são a matéria-prima através da qual objetos de plástico são produzidos. (Wibler, 1987). Estes objetos, também resultantes dos arrastos para amostragem, foram quantificados através da sua contagem individual, dada a sua aparente utilidade como marcadores, sendo contados como subconjunto do total dos arrastos (Wibler, 1987). Fig. 14 - Pastilhas de Plástico36 35 “Neuston refere-se tanto à camada de superfície superior de um corpo de água, bem como o grupo de organismos que ocupam este ambiente. As redes de Neuston são projetadas para amostragem da interface ar/água e até 25 centímetros abaixo dele.” (Wibler, 1987: 62) 36 Cf. Composition Materials online, em http://compomat.com/deflashing-media/, consultado em Novembro de 2014 27 Refletindo sobre esta problemática através da literatura acima apresentada, logo irrompem novas questões. Qual a dimensão deste fenómeno poluente na atualidade, quais as suas principais causas e consequências e quais as medidas que estão a ser tomadas em Portugal e em outros EstadosMembros no sentido de precaver esta forma de poluição. Procurando responder a estas questões, entro em contato com diversas entidades que se dedicam à problemática, tendo como objetivo a aquisição de documentação ou registos científicos para consulta. Destaca-se a Administração da Região Hidrográfica do Norte, Águas do Porto, CIIMAR, Instituto Hidrográfico da Marinha Portuguesa, Projeto MARLISCO e LIPOR. Tomo inicialmente conhecimento do MARLISCO37 através do Instituto Hidrográfico da Marinha Portuguesa, o qual realça o projeto por atuar diretamente na poluição dos oceanos através do plástico. Entro em contato com o MARLISCO, e mais tarde com o Projeto Poizon38, pelo que são cedidos artigos científicos publicados, os quais são desenvolvidos nos seguintes parágrafos. Toda esta documentação atualizada, permite-me aprofundar o conhecimento nesta problemática e fundamentar conceitos essenciais para o Trabalho de Projeto. Os seguintes gráficos indicam quais os objetos de plástico mais frequentes, a sua contagem e dimensão, numa amostragem de 1m2 quadrado nas diversas expedições da Campanha de Primavera de 2012, em 11 praias de norte a sul da costa Portuguesa. Entre plástico, metal, madeira processada, borracha, papel, vidro, têxteis e outros materiais que compõem o lixo marinho, 98% era plástico39. 37 MARLISCO - Projeto que pretende sensibilizar para os impactes do lixo marinh o. Cf. MARLISCO online, em http://www.marliscoportugal.org/, consultado em Novembro de 2014 38 Poizon – Projeto que se foca na investigação s obre microplásticos nos oceanos. Cf. Poizon online, em http://www.poizonproject.org/, consultado em Novembro de 2014 39 Cf. Poizon online, em http://www.poizonproject.org/, consultado em Novembro de 2014 28 Fig. 15 - Lixo Plástico - Número por Metro Quadrado40 Fig. 16 - Lixo Plástico - Dimensões41 Segundo (Sobral, et al., 2011), o plástico nunca se biodegrada, contudo no mar, acaba por sofrer degradação fotoquímica e abrasão. Assim, devido à elevada persistência do plástico, uma garrafa de água demora cerca de 450 anos para se degradar. Este tempo é totalmente desproporcional face ao seu tempo vida útil. Para um produto que está disponível no mercado por um período máximo de dois anos, a sua degradação no mar é de cerca de 450 anos. 40 Cf. Agência Portuguesa do Ambiente online, em http://www.apambiente.pt/_zdata/destaques/2012/projetosustain/apresentacoes/marlisco_paulasobral.pdf, consultado em Novembro de 2014 41 Cf. Agência Portuguesa do Ambiente online, em http://www.apambiente.pt/_zdata/destaques/2012/projetosustain/apresentacoes/marlisco_paulasobral.pdf, consultado em Novembro de 2014 29 Fig. 17 - Degradação Fotoquímica do Plástico42 Quanto às principais consequências dos detritos de plástico nos oceanos, salientam-se os efeitos estéticos, ambientais, de saúde e económicos43. No que diz respeito ao impacto económico, são gastos cerca de 26 milhões de euros por ano em Portugal, 12 milhões de euros em reparações de danos em navios e 14 milhões de euros em limpezas de praia. Por um outro lado, apresentam-se problemas para a biodiversidade marinha como foi registrado casos de ingestão ou aprisionamento em 260 espécies de animais marinhos em todo o mundo44. Fig. 18 - Peixe com ingestão de plástico45 (à direita); Tartaruga aprisionada46 (à esquerda) Como foi mencionado em cima, a fragmentação dos plásticos no mar por degradação geram o 42 Cf. Portal do Ambiente da Comissão Europeia online, em http://ec.europa.eu/environment/marine/goodenvironmental-status/descriptor-10/index_en.htm, consultado em Novembro de 2014 43 Cf. MARLISCO online, em http://www.marliscoportugal.org/, consultado em Novembro de 2014 44 Cf. MARLISCO online, em http://www.marliscoportugal.org/, consultado em Novembro de 2014 45 Cf. Ecology online, em http://www.ecology.com/2012/04/04/seas-garbage/, consultado em Novembro de 2014 46 Cf. Foundation for Infortmation and Research on Marine Mammals online, http://www.firmm.org/en/news/article/items/plastik-abfall-im-ozean-kopie, consultado em Novembro de 2014 30 que a comunidade científica denomina por microplásticos. Estes plásticos menores que cinco milímetros, podem tanto ser encontrado no mar como nas praias (Sobral, et al., 2011). À medida que o plástico vai envelhecendo no mar, aumenta a sua capacidade de absorver poluentes hidrofóbicos, como poluentes orgânicos persistentes (POP) (Sobral, et al., 2011). Os microplásticos, são facilmente confundidos como alimento, pelo que a sua ingestão constitui uma ameaça, não só pela obstrução do aparelho digestivo mas também pelos efeitos tóxicos dos POP (Sobral, et al., 2011). Fig. 19 - Amostra de Microplástico47 Os POP, incluem químicos como: Aldrina (inseticida), Clordano (pesticida), Dieldrina (inseticida), DDT (pesticida), Dioxina (produto químico tóxico que é produto de resíduos industriais de ações como a fundição de metais e branqueamento de papel), Endrina (inseticida), Furano (químico tóxico usado como solvente), Heptacloro (insticida), Hexaclorobenzeno (fungicida), Mirex (inseticida), Bifenilpoliclorato (ou PCBs, refrigerante ou lubrificante), e Toxafeno (inseticida).30 Deste modo, o problema da poluição dos oceanos através de detritos plásticos é um tema sério e preocupante, cuja solução depende da consciencialização e mudança de comportamentos por parte do ser humano. 47 Cf. National Center for Ecological Analysis and Synthesis online, em https://www.nceas.ucsb.edu/news/scientistssay-microplastics-are-macro-problem, consultado em Novembro de 2014 31 3. Enquadramento Artístico 3.1 Arte e Consciencialização Ambiental Dentre toda a matéria adquirida no percurso desta investigação, a opinião que se segue, de Tiago Pitta e Cunha, talvez seja uma das maiores responsáveis para que esta investigação se tenha direcionado para o título deste sub-capítulo. “Há ainda outro factor que concorre para atribuir maior importância aos oceanos. Efectivamente, eles também ficam mais valiosos à medida que se vai generalizando na opinião pública a consciência ambiental da preservação do mar.” (Cunha, 2011: 48) Assim, sendo esta uma base de interesse actual, importa investigar qual a relação e o papel que a Arte pode desempenhar na consciencialização para problemáticas ambientais. A ecologia emerge como uma questão pública em 1965 e 1972 (Celant, 1969), espelhando o amplo interesse sobre a protecção do ambiente natural. Este período, coincide com a Terceira Revolução Tecnológica, comumente conhecida como Revolução Digital, onde surgem tecnologias inovadoras e novos materiais como os plásticos (Boetter, 2002). Logo irrompe uma perceção sobre a vulnerabilidade da terra sobre os efeitos poluentes da industrialização, sendo um bom marco a década de “1950 com a preocupação pública sobre partículas radioactivas de testes nucleares na atmosfera.48” (Boetter, 2002: 39). Sendo contemporâneos de artistas como Robert Smithson (Felshin, 1994), um dos primeiros defensores de recuperação de áreas degradadas através da arte, os Harrinson foram um dos 48 Tradução do corpo de texto original: “…1950s with public concern over radioactive fallout from nuclear testing in the atmosphere.” 32 grandes visionários da Eco Arte, começando a explorar a possibilidade de uma relação entre arte e ecologia. Pelo que ao abordar este tema, torna-se importante abordar o seu trabalho. Ao contrário de muitos artistas, os Harrinson, envolvem-se na busca de soluções ecológicas para sistemas da natureza a problemas de maior complexidade implicando política (Harrinson, et al., 2012) Consequentemente das estratégias e abordagens ecológicas (Felshin, 1994), seguidas nos seus trabalhos foram adotadas por entidades governamentais (Harrinson, et al., 2012). Sendo ambos professores na Universidade da Califórnia em San Diego (EUA), este casal e equipa, inicia a sua atividade sobre problemáticas ecológicas em 1970. Neste período, o paralelismo entre arte e ambiente era dominado pela Land Art. O modo de atuação dos Harrinson, inicia aquando confrontados com uma anomalia no ambiente. Entendem que as questões que abordam são muito vastas e discutidas mundialmente, pelo que cada um dos seus trabalhos procura uma maior abrangência e compreensão do modo como os artistas as podem expressar (Malloy, 2003). Fig. 20 - The Lagoon Clycle49, 1971-1985 49 Cf. (Malloy, 2003: 163) 39 3.2 Arte e Participação Neste subcapítulo expande-se o meio de consciencialização para a poluição dos oceanos através de plásticos, para além da mensagem subliminar presente nos conceitos plásticos gerados no Trabalho de Projeto. Assim surge uma nova vertente, a participação, como novo meio, que ao intersetar o público e a produção artística, atinge resultados para a compreensão da causa poluente. Assim, faço a seguinte citação do autor Arjen Wals, a qual acompanha este desenvolvimento: “A aprendizagem social é um processo de reflexão interactiva que ocorre quando partilhamos as nossas experiências, ideias e ambientes com outros.66” (Wals, 2007: 183) A arte evoca um espaço onde se lançam temas para a discussão, mas também de transformação, exprimindo um avanço no modelo de pensamento, mas será apenas a obra o único difusor de uma mensagem de um conceito? Será que através da arte existem outros meios de comunicação ou de expressão? A envolvência social na arte através da participação, permite o contato com a produção artística e a familiarização com o processo criativo ou com o método que normalmente se cinge aos ateliês de arte. O Trabalho de Projeto que nesta dissertação se apresenta contempla ações participativas. Pretende-se criar um novo meio de consciencialização para problemáticas ambientais, categorizando-se este processo em três fazes de aprendizagem. A primeira fase surge através da contextualização em duas frentes do conhecimento, uma no campo da arte e a outra no campo da ciência, enriquecendo o conhecimento na área abordada e familiarizando com as metodologias científicas de cada uma. O segundo, o questionamento, onde através do contato com o método criativo, se estimula a crítica pessoal através do contato com outras formas de pensamento que não a habitual, formulando questões, as quais se procuram 66 Tradução do corpo de texto original: “Social learning is a process of iterative reflection that occurs when we share our experiences, ideas and environments with others” 40 responder e por sua vez geram um processo de reflexão ambiental. A terceira, a aprendizagem, fruto da fase anterior, já por si uma fase autónoma que consiste na produção de uma identidade gerada através da experiência, contribuindo para a mudança de comportamentos de rotina ou automáticos para a pós-consciência (Heimlich, et al., 2008), o pensar antes de agir. São exemplos a cidadania ativa, posturas pró-ambientais ou mesmo impulso para novas soluções perante a problemática. Desta forma, o envolvimento da comunidade em atividades participativas, abordando questões desde a ótica da arte, fomenta a consciência reflexiva da interligação entre nós e o nosso ambiente, o que cria um contexto fértil para o comportamento pró-ambiental. Sustentando esta linha de pensamento Donadelli refere que: “… a arte aparece como um meio urbano de reflexão e assimilação de novos valores, num processo de conscientização e cidadania.” (Donadelli, et al., 1998: 273) Neste âmbito refere-se um projeto vindo do outro extremo do mundo, da Austrália e o qual se foca numa zona específica da problemática ambiental aqui abordada. Fig. 25 - Artista Nancy Nawwi (em vermelho), do GhostNet67, 2014 67 Cf. GhostNets Australia online, em http://www.ghostnets.com.au/ghostnet-art/public-events/ciaf-2014/, consultado em Novembro de 2014 41 GhostNets é um exemplo de um projeto participativo que promove ações dinâmicas, o diálogo reflexivo e a aprendizagem social (Gablik, 1991). Surge como resposta a um problema ambiental, que são as redes de pesca descartadas no mar e que são levadas pelas correntes aprisionando a vida marinha ou dando à costa. O GhostNets Australia, envolve a comunidade indígena local em workshops de arte, que resultam na transformação de redes descartadas em obras de arte. Estas esculturas têm circulado em galerias e feiras de arte por toda a Austrália e têm como finalidade sensibilizar para o lixo marinho, para a remoção das redes que dão à costa e para o salvamento das espécies presas68. No Floating Land69 2011, artistas trabalham em torno desta problemática poluente produzindo conversas com a comunidade, terminando numa exposição, workshops e instalações (Davis, 2013). Mais distante da temática da proteção ambiental, mas ainda um exemplo de envolvência em ações participativas é o projecto FLOOD da HAHA, um grupo colaborativo de arte sediado em Chicago. Este projeto usa a Hidroponia70 como um meio para produção de alimentos. A ideia surge quando Laurie Palmer, cozinhava uma sopa para um amigo com o vírus da imunodeficiência humana (VIH), pelo que a refeição foi recusada porque as cenouras não tinham sido descascadas (Jacob, et al., 1993). Uma vez que recorre a um meio estéril sob condições monitoradas a cultura hidropónica, não permite que as bactérias no solo sejam transmitidas para a planta. Desta forma torna-se numa opção para os HAHA, permitindo também a produção de alimentos durante todo o ano num sistema expansível e distribuído através de AIDShopicies71 (Jacob, et al., 1993). 68 Cf. GhostNets Australia online, em http://www.ghostnets.com.au/, consultado em Novembro de 2014 69 Evento de Eco-Arte na Austrália. Cf. Floating Land online, em http://www.floatingland.org.au/, consultado em Novembro de 2014 70 Hidroponia é um método de cultivo sem solo onde as raízes recebem uma solução nutritiva essencial para o desenvolvimento da planta. Cf. Science Direct online, em http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0301479712005506, consultado em Novembro de 2014 71 Fusão do termo AIDS (Doença grave que cessa a capacidade do corpo lutar contra outras doenças77-a), com Shop77-b (Loja), e com Hospice77-c (Lugar ou organização onde pacientes podem receber cuidados). 77-a Cf. Cambridge Dictionary online, em http://dictionary.cambridge.org/dictionary/american-english/aids, consultado em Novembro de 2014 77-b Cf. Cambridge Dictionary online, em http://dictionary.cambridge.org/dictionary/american-english/shop, consultado em Novembro de 2014 42 FLOOD permite que os participantes cultivem vegetais, e bissemanalmente torna-se num espaço de convívio onde servem refeições, realizam atividades educacionais, eventos públicos, para além de fornecerem informações sobre terapias alternativas, serviços de VIH em Chicago, nutrição e horticultura, assim como um lugar para a jardinagem72. Fig. 26 - FLOOD73, 1992-1995 No âmbito desta investigação, surge também a Academia UBUNTU74. Trata-se de um projeto que pretende estimular jovens entre os 18 e os 35 anos, com potencial de liderança e determinação em situação de exclusão social ou que sejam ativos em organizações da sociedade civil, para o desenvolvimento de projetos de empreendedorismo social ao serviço da comunidade75. 77-c Cf. Cambridge Dictionary online, em http://dictionary.cambridge.org/dictionary/american-english/hospice, consultado em Novembro de 2014 72 Cf. HAHA online, em http://www.hahahaha.org/projFlood.html, consultado em Novembro de 2014 73 Cf. HAHA online, em http://www.hahahaha.org/projFlood.html, consultado em Novembro de 2014 74 A Academia UBUNTU é uma iniciativa do Instituto Padre António Vieira (IPAV), patrocinada pela Fundação Calouste Gulbenkian, e conta com o apoio de outras entidades. “Ubuntu é um conceito africano que significa: acolhimento, respeito, entreajuda, partilha, comunidade, cuidado, confiança, generosidade.” Cf. Academia UBUNTU online, em www.academiaubuntu.org/, consultado em Novembro de 2014 75 Cf. Academia UBUNTU online, em www.academiaubuntu.org/, consultado em Novembro de 2014 43 Assim torna-se oportuno, o contato com a Academia UBUNTU, tendo em vista a apresentação do Trabalho de Projeto com o intuito de obter a opinião da Coordenação, sobre a possibilidade articulação das ações participativas que este prevê, com as atividades da Academia UBUNTU. Esta reunião teve lugar na sua sede, após a apresentação do Projeto, a Coordenação apresenta especificidades de atuação da Academia face ao âmbito do Trabalho de Projeto. De seguida foi discutida a possibilidade de colaboração com os seus participantes, pelo que a Academia UBUNTU se mostrou aberta em incluir uma proposta no seu Plano de Atividades futuro. Fig. 27 - 1º Encontro de Formadores da 3ª Edição da Academia UBUNTU76 Concluindo, a consciencialização sobre as problemáticas ambientais entre as gerações mais novas é um dos aspetos decisivos para a sua resolução, como refere Donadelli: “Fala-se muito de educação ambiental, que é uma parte importantíssima do trabalho a ser feito com as novas gerações, pois, embora os adultos até consigam entender um pouco, nossas crianças entenderão bem melhor.” (Donadelli, et al., 1998: 123) 76 Cf. Academia UBUNTU Facebook online, em www.academiaubuntu.org/, consultado em Novembro de 2014 44 3.3 Instalação Site-Specific No campo da Arte, a instalação site-specific, pressupõe uma relação entre a obra de arte e o seu lugar de implementação. Não se negligenciando ambas funcionam em harmonia. Como afirma Rosenthal “o artista vê o lugar como um cúmplice, não um inimigo da obra de arte.77” (Rosenthal, 2003: 77). Ainda segundo este autor, podemos afirmar que a adjetivação site-specific, não se restringe só à obra de arte mas também à obra de arquitetura, de arquitetura paisagista, ou de urbanismo. Podemos enfrentar esta classificação como o modo em que o lugar influência as decisões no projeto dependendo do seu objetivo funcional. Por exemplo, a condição geográfica, pode condicionar a forma do edifício fazendo-a depender de uma relação entre o seu lugar de implementação com a exposição à luz. Por um outro lado, no projeto arquitetura paisagística, o lugar pode condicionar decisões nas espécies que o projeto poderá ou não contemplar, pois certas espécies adaptam-se melhor a certas condicionantes do lugar, uma delas o clima. De um outro ponto de vista, de acordo com Suderburg (2002), a instalação site-specific envolve não só condicionantes de percepção espacial, mas também a forma de “interpretar” (Suderburg, 2000: 2) o espaço, a qual pode dotar a obra de arte através das mais variadas narrativas artísticas. Deste modo, desenvolvo este tema, expondo parte do processo metodológico posto em prática no projeto Vaso, desenvolvido no MADEP, o qual prova influência de conceitos da instalação sitespecific e os quais foram aplicados neste trabalho. 77 Tradução do corpo de texto original “… the artist sees the site as an accomplice, not an enemy of the work of art.” 45 O projeto partiu de um briefing78 que consistia na apresentação de propostas que promovessem o envolvimento com habitantes de Paredes e gerassem processos críticos de questionamento sobre a cidade, as suas origens, experiências comuns e o seu futuro. Após uma investigação sobre o Município, verificou-se que detêm uma grande concentração de indústria de mobiliário tornando-o responsável por cerca de 65% da produção nacional79, pelo que a CM Paredes se tem direccionado para o desenvolvimento deste sector. Esta informação, torna-se num importante fato a considerar e qual desperta questões de âmbito ambientais sobre o ciclo do material florestal. Deste modo, o Vaso tenta alertar sobre a desflorestação, a importância da implementação de políticas de sustentabilidade florestal e a responsabilidade sócio-ambiental que estas representam, para um futuro sustentável das nossas florestas. Fig. 28 - Vaso 78 Briefing (palavra inglesa) – 1. Reunião de informação tática antes de uma tarefa ou missão. Cf. Dicionário Priberam online, em http://www.priberam.pt/dlpo/briefing, consultado em Novembro de 2014 79 Cf. Câmara Municipal de Paredes online, em http://www.cmparedes.pt/VSD/Paredes/vPT/Publica/Org%C3%A3os+Autarquicos/CamaraMunicipal/, consultado em Novembro de 2014 46 Esta narrativa traduz-se num objeto, que é um vaso e que circunda uma árvore, projentando uma imagem sobre a preservação das árvores através de um jogo de escala. Os vasos são objetos do uso quotidiano, onde normalmente se colocam plantas e as quais normalmente têm de ser cuidadas pelos seus donos para viver. Neste sentido, o Vaso joga com proporções e através deste jogo cresce a sua narrativa. Ao se aumentar a escala, de um vaso, consegue-se estabelecer uma relação de diálogo entre a sua forma e uma árvore. Contudo, seguindo a narrativa do projeto, surge simultaneamente o jogo inverso de escala. A árvore é, também, imaginariamente reduzida à escala de uma planta, através da imagem que produz e que remete a uma planta num vaso, só que neste caso numa grande escala. Este jogo continua, ao elevar quem se relaciona com o objeto, a uma escala para além da humana, pois existe agora um símbolo, que remete a uma imagem comum ao quotidiano de todos nós. Esta imagem, ou nova dimensão que surge através da relação entre a escala humana, Vaso e a árvore, dão a quem se relaciona com ele, uma noção de controlo sobre a árvore, como se desta forma a pudessem cuidar, voltando de novo à imagem inicial. Esta mensagem subliminar expande-se, fazendo do Vaso e da sua árvore um símbolo para todas as outras, na tentativa de cumprir o seu objetivo de meio de consciencialização para a problemática florestal. Assim, existem nesta obra três componentes que a tornam uma obra site-specific e os quais se apresentam numa sucessão de magnificação de escala, o Município, o Parque e a árvore. Fig. 29 - Área de Intervenção do CAPP 47 A primeira, a idealização que roda em torno do objeto tendo como origem uma abordagem ao seu lugar de implementação. Não a um lugar físico mas sim a um sector de importância no Município tornando-o um objeto com que o Paredes se identificasse, nesta proposta através de um símbolo de sustentabilidade florestal e do material base da sua indústria principal do mobiliário. Um local de reunião, de estar, de lazer era também um dos objetivos delineados para o Vaso, desta forma a atribuição de uma função, torna-lo um banco público viria a trazer maior interactividade (Popper, 1975) entre o objeto e quem frequentasse o parque, podendo assim disfrutar do Parque. É desta forma que a obra é influenciada pela segunda componente. O lugar eleito, o Parque José Guilherme, está localizado no coração da cidade de Paredes e dentro do perímetro que foi proposto para intervenção na cidade. O Parque é fortemente movimentado, quer por circulação rodoviária em três dos seus lados que formam o seu rectângulo, quer internamente por transeuntes, para além das pessoas que usufruem do parque. Desta forma, o Vaso no seu interior, permite uma experiência de privacidade face à azáfama exterior, remetendo à paz de uma floresta, no entanto existe ainda permeabilidade para o exterior não produzindo uma sensação de enclausuramento, visual ou acústico. É desta forma que o lugar de implementação influencia a tomada de decisão de tornar a parede do Vaso não opaca, o que delineia uma estratégia no que diz respeito a esta opção versus o material a ser usado, materializando-se através de um ripado de tábuas que na sua revolução, através da sua silhueta reproduzem a forma de um vaso. A entrada para o banco do Vaso, está direccionada estrategicamente e em relação ao seu lugar de implementação, direccionada para o centro do Parque, o que permite quer um melhor enquadramento com o ordenamento do Parque, contemplou a exposição solar e também um lugar de proximidade com o passeio do parque para um melhor acesso. Fig. 30 - Interior do Vaso (à esquerda); Diâmetro do tronco (à direita) 48 A terceira componente, toma o lugar de implementação como uma condicionante para a escala do objeto, sendo esta influenciada diretamente pelo diâmetro do troco da árvore, o que faz com que a escala do objeto se torne dependente. Por exemplo, se o diâmetro do tronco fosse maior, todo o objeto aumentaria de escala, o que comprometeria a sua funcionalidade, ao nível de ergonomia, perdendo-se a medida ideal para o assento. Na atualidade existe um infindável número de instalações que vão desde objetos até paisagens que podem ser classificadas de instalações site-specific (Suderburg, 2000). Na contemporaneidade são muitos os artistas que exploram os seus conceitos e limites, no entanto se voltarmos atrás podemos observar como na pré-historia, surgem indícios nesse sentido. Em baixo podemos observar, uma imagem da caverna de Pech Merle, em França. No lado direito da imagem, podemos observar a pintura da cabeça de um cavalo. Esta pintura destaca-se, no âmbito da instalação site-specific, dada a fusão entre uma característica do espaço da caverna com o motivo da pintura, que surge através da continuidade da pintura da cabeça do cavalo com a silhueta da pedra. Fig. 31 - Caverna de Pech Merle80, França 80 Cf. Panorama del Art online, em http://www.panoramadelart.com/grotte-du-pech-merle, consultado em Novembro de 2014 55 conseguiram ser cheios até ao momento. Após esta ação participativa, os registos adquiridos irão ser publicados no site da LIPOR, assim como também irão servir como documentação para a futura exposição. Está previsto que esta instalação inaugure o Projeto Cascata de Coalescência, numa Sexta e que seja retirada na noite de Domingo. Durante a semana, proceder-se-á à enclausura dos objetos no pavimento cimentado, num lugar a acordar com a CM Porto. 4.2.2 O Arrasto A segunda instalação do Projeto retrata o momento em que os detritos de plástico são arrastados pelo vento ou pela chuva até aos rios e dos rios até ao mar. Tem como lugar de implementação a alameda do passeio oeste da Praça da Liberdade no Porto, um lugar bastante movimentado durante os dias da semana. Na direcção do passeio existe um pequeno desnível, no sentido descendente norte-sul. Sendo assim, esta instalação tenta recriar através das estruturas criadas a partir de sacos plásticos, um lugar por onde passou uma força de ação hídrica e onde os detritos arrastados ficaram detidos nos obstáculos do espaço. Em todo o seu conjunto e pela noção de movimento que proporcionam, a instalação sugere a passagem de uma corrente fluvial. Estes detritos serão sacos de plásticos usados, rasgados e colocados nos obstáculos de forma a produzir uma imagem com a noção de movimento pretendido. Estas estruturas contêm um arame no seu interior, que amarra os sacos e que ao mesmo tempo reproduz o movimento idealizado. A deformação plástica destas estruturas terá como influência os Estudos de Água sobre Obstáculos, de Leonardo da Vinci84 (Smith, 2006). 84 Tradução do corpo de texto original: “…Leonardo da Vinci, Studies of Water Passing Obstacles…” 56 Fig. 37 - Estudos de Água sobre Obstáculos 85, 1508 Os sacos de plástico serão ser presos uns aos outros, formando um volume, que por sua vez, será fixo aos obstáculos. A instalação apropria-se de árvores públicas existentes na alameda, mobiliário urbano como por exemplo caixas de correio, papeleiras, postes de iluminação e cabines telefónicas e por fim culmina na apropriação da escultura Ardina de 1992 da autoria de Manuel Ferreira Dias. Fig. 38 – Objetos de sacos plásticos 85 Cf. Lebbeus Woods online, em http://lebbeuswoods.wordpress.com/2010/12/03/da-vincis-blobs/, consultado em Novembro de 2014 57 É oportuno mencionar que a carreira, do escultor, se desenvolve em 1978, através de uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian86, que o artista aproveita para conduzir uma investigação na área dos plásticos87 no Instituto de Investigação Plasticks-Werk-Plaats88, em Delft na Holanda. A instalação termina na escultura Ardina, onde se apropria do jornal que o ardina tem na mão, reivindicando o escultórico jornal, enquanto meio de comunicação e de informação. Pelo que, neste lugar, se irá colocar uma impressão com a primeira página de um jornal fictício, protegida por um filme adesivo transparente, para que haja o mínimo de intervenção na escultura e para que esta página fique protegida da eventual ocorrência de chuva. Esta página, irá conter algumas fotografias, e num texto em português e em inglês explicar-se-á o âmbito da instalação, como será feita alusão à carreira do artista e o seu percurso como investigador em plásticos, abrindo uma janela para questionar e refletir sobre o futuro dos plásticos. Fig. 39 - Apropriação da Escultura Ardina 86 Cf. Fundação Calouste Gulbenkian online, em http://www.gulbenkian.pt/, consultado em Novembro de 2014 87 Cf. FBAUP online, em https://sigarra.up.pt/up/pt/web_base.gera_pagina?P_pagina=1004314, consultado em Novembro de 2014 88 Cf. FBAUP online, em https://sigarra.up.pt/up/pt/web_base.gera_pagina?P_pagina=1004314, consultado em Novembro de 2014 58 Pretende-se que quem passe por esta instalação se interrogue. Salienta-se o arrasto dos detritos até ao mar focando a poluição dos oceanos, a ingestão de sacos por parte de algumas espécies marinhas, como as tartarugas ao confundir os sacos por medusas. Será acentuada a despromoção do uso dos sacos plásticos, apontando-se alternativas, como os sacos de pano. Para esta instalação foi pensada uma ação participativa, não direta, mas através da internet, um dos meios preferenciais da atualidade no que a ações de consciencialização diz respeito. Assim, através da colaboração da LIPOR e em articulação com a CM Porto, será publicado um concurso para escolas para a produção de ilustrações sobre o uso excessivo de sacos plásticos e as suas consequências para o fenómeno poluente aqui abordado. Os seus vencedores poderão ver as suas ilustrações impressas em sacos de tecido. Alguns sacos serão distribuídos no lugar da instalação, e os restantes posteriormente irão ser vendidos na loja Loja do Munícipe da CM Porto, os fundos gerados reverterão para uma Instituição a eleger pela LIPOR e CM Porto. Esta instalação requer a autorização do Escultor Manuel Ferreira Dias, da autorização da CM Porto. A colaboração da CM Porto e da LIPOR, para além da colaboração da Polícia de Segurança Pública (PSP), para vigilância da instalação durante a noite. Esta instalação durará 8 dias. Será aberta na manhã de Sábado após a inauguração da primeira instalação e será retirada na noite do Domingo seguinte. 4.2.3 A Deriva Esta é a última instalação do Projeto e é dedicada aos detritos nos oceanos. Como já abordado no subcapítulo 2.3, em todos os oceanos existem giros oceânicos, sistemas de correntes rotativas em torno de um vórtice. Os detritos à deriva entram nessas correntes e na sua maioria acabam por se concentrar no centro da rotação das correntes, como é o Grande Depósito de Lixo do Pacífico89 (Dautel, 2009). A ideia de flutuação de detritos acumulados numa superfície faz surgir ideia de um tapete. Pelo que a aglutinação de vários plásticos de variadas cores e a possibilidade destes produzirem uma imagem através de pontilhismo (Lichtenstein, 2006) foi uma 89 Tradução do nome original: “Great Pacific Garbage Patch” 59 das inspirações. Por um outro lado, a descoberta da possibilidade de “produzir carpetes a partir de fibras de garrafas de plástico90” (Faustino, 2007) de PET, o material de eleição para as embalagens, suporta ainda mais a lógica da narrativa e desencadeia uma estratégia na procura de um método de construção. Um fenómeno de expressão artística pública é a colocação de garrafas em vedações para criar padrões. Esta torna-se a chave que liberta o conceito para a materialização. Fig. 40 - Mural91, 2011 Assim esta instalação, através de uma composição com garrafas de água forma um padrão de um tapete de sala de estar. Este padrão por sua vez remete a um espaço imaginário, neste caso uma sala de estar, onde os tapetes são comuns. Cria-se assim um ambiente propício ao convívio e à sociabilização onde a poluição dos oceanos através de plásticos possa ser debatida. A problemática poluente e o momento retratado nesta instalação, o conceito por detrás do tapete e o uso de garrafas de plástico como ferramenta, criam uma coesão de lógica concetual que faz com que não houvesse um lugar de melhor destino do que um objeto a flutuar no Rio Douro. Um trabalho análogo que influência e impulsiona a decisão de ir para além da tradicional tela da arte pública é a obra Surrounded Islands do artista Christo, que também explora a instalação flutuante na água. 90 Tradução do corpo original de texto: “…produce carpets from plastic bottle fibers…” 91 Cf. Kollektivemind online, em http://kollektivemind.com/project-argallios/, consultado em Novembro de 2014 60 Fig. 41 - Surrounded Islands92, 1980-1983 O lugar de implementação, é o Cais da Ribeira. As infra-estruturas que o rodeiam, nomeadamente a Ponte D. Luís I através dos seus dois tabuleiros, em conjunto com o teleférico e miradouro de Gaia, entre outros lugares, permitem vários ângulos de observação e distâncias do lugar de implementação do tapete. A escala deste objeto, não poderia deixar de ter grandes dimensões, tornando-a visível e simbólica. Também um outro fator que impulsiona a sua grande escala é a definição do seu padrão. Quanto maior o seu tamanho mais garrafas terá e, por isso a imagem terá maior resolução. O motivo selecionado, é um padrão com influência nos mais comuns tapetes, que facilmente se descobrem através de pesquisa, nos motores de busca mais famosos da internet, pelo que há uma razão por detrás da banalidade da tomada de decisão do motivo a qual se irá desenvolver. Considera-se que as cores do tapete, não deverão ultrapassar um máximo de 7 cores, de modo a garantir um contrate cromático com a água do Rio Douro na estação em que se irá implementar, o Verão. 92 Cf. Christo and Jeanne-Claude online, em http://www.christojeanneclaude.net/projects/surroundedislands#.VHkg8jGsWSo, consultado em Novembro de 2014 61 Fig. 42 - Processo para preparação de módulos 62 No que diz respeito à tomada de decisão, foi ponderada a influência de motivos da tapeçaria portuguesa, como a tapeçaria de Arraiolos. Isto porque o desenho de base do processo de construção do tapete é muito similar à estrutura que serve de base para os motivos dos tapetes de Arraiolos, o desenho através de quadrículas. No entanto e como será desenvolvido adiante, o tapete, é montado através de módulos de 1m2. Estes módulos, permitem maior facilidade na assemblagem e desassemblagem do objeto, e facilita o seu transporte para outros países onde se prevê que a obra possa ser exibida. A ideia de itinerância, toma como argumento o assunto desenvolvido no subcapítulo 2.1 que realça a importância do mar para Portugal, a Europa e o Mundo. Apoiando-se na relação história com o mar, o qual nos deixa um vasto e precioso legado que deve ser cuidado. Assim o mar é uma excelente plataforma para comunicar com outras nações, aqui através da cultura e de uma instalação para o espaço público. Voltando atrás, e por esta mesma razão, toma-se a decisão do não uso da influência dos motivos de arraiolos e sim de um motivo popular e incógnito. Isto porque, a obra ao ser exibida em outros países, não pretende a influência cultural através de um motivo de raiz de âmbito nacional. Pretende-se sim, um modelo que se alarga às outras nações de um ponto de vista abrangente e igualitário dado se tratar de um problema ambiental à escala mundial e que a todos diz respeito. Fig. 43 - Experimentação de garrafas na grelha modelo 63 As garrafas necessárias serão cedidas através do apoio da LIPOR. E serão guardadas num espaço cedido pela CM Porto. Neste espaço as garrafas serão limpas e pintadas e separadas por cor. Igualmente, será produzida uma estrutura que será utilizada para a montagem dos módulos através de ações participativas. A CM Porto distribuirá a estrutura de fácil montagem, por parques, organismos parceiros que se dedicam à preservação ambiental e até mesmo no espaço público. Para cada módulo será atribuído o correspondente conjunto de garrafas de coloridas. Esta estrutura faz-se acompanhar por um colaborador que estará encarregue, de informar as crianças, jovens e adultos para a problemática. Com o apoio de um mapa, os participantes constroem o módulo ao colocar as garrafas nas devidas quadrículas, como se trata-se de um jogo de batalha naval. Quando terminado, o módulo e a estrutura são transportados para as oficinas. Fig. 44 - Estrutura para ação participativa 64 Todos os módulos serão vistoriados, na tentativa de encontrar erros na colocação de cores na devida quadrícula. Posteriormente efetua-se uma pré-montagem de ¼ do tapete no espaço disponível das oficinas. Depois de conferir os módulos, coloca-se uma rede na face inferior de cada um, qual se prende às arestas do módulo por braçadeiras de plástico. É necessária a autorização e colaboração da Capitania do Porto do Douro, para a colocação da estrutura no rio. Na noite de implementação realiza-se o transporte do material, descarregando-o no cais da ribeira iniciando-se a sua montagem na rampa de acesso ao rio, juntando módulo a módulo com braçadeiras de plástico. Através de um barco a capitania, ajudará à colocação da obra na devia posição, a qual é fixa através de cabos e âncoras. A obra tem uma dimensão de 7m x 10m, compreendendo um total de 70 módulos. Para preencher uma área de 1m2, cada módulo necessita de 400 garrafas, configurando um total de 28000 garrafas para produzir a instalação. Tal como a instalação precedente, o Arrasto, esta instalação estará disposta por 8 dias. Fig. 45 – Vista do Cais da Ribeira (foto-montagem) 71  Manufacturers, Plastics Europe - Association of Plastic. Plastics – the Facts 2010. Association of Plastic Manufacturers, 2010  Manufacturers, Plastics Europe - Association of Plastic. Plastics – the Facts 2011. Association of Plastic Manufacturers, 2011  Manufacturers, Plastics Europe - Association of Plastic. Plastics – the Facts 2012. Association of Plastic Manufacturers, 2012  Manufacturers, Plastics Europe - Association of Plastic. Plastics – the Facts 2013. Association of Plastic Manufacturers, 2013  Mark, James E., Erman, Burak e Roland, Mike. The Science and Technology of Rubber. Academic Press. 2013  Marks, Kathy. The World's Rubbish Dump. The Independent. 2010  Nishiyama, Yoshiharu, Langan, Paul e Chanzy, Henri. Crystal Structure and HydrogenBonding System in Cellulose Iβ from Synchrotron X-ray and Neutron Fiber Diffraction. American Chemical Society. 2002  Office, Patent. Patents for inventions. Abridgments of specifications. Oxford University. 1857  Papanek, Victor. Design for the Real World. 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