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Cirurgia de obesidade: qualidade de vida e variáveis psicológicas antes e depois do tratamento cirúrgico

T. Gaspar,José Luís Pais Ribeiro,H. Cardoso

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Psicologia: Teoria e Prática – 2009, 11(2):196-210 Cirurgia de obesidade: qualidade de vida e variáveis psicológicas antes e depois do tratamento cirúrgico Isabel Silva Universidade Fernando Pessoa – Portugal José Pais-Ribeiro Helena Cardoso Universidade do Porto – Portugal Resumo: Urge perceber se a cirurgia de obesidade (gastrobandoplastia e o bypass gástrico) tem repercussões ao nível psicológico, no comportamento alimentar e na qualidade de vida dos doentes com obesidade grave ou mórbida que a ela são submetidos. Nosso objectivo foi comparar a qualidade de vida, ansiedade, depressão, apoio social, tipos de motivação e percepção de competência quanto ao tratamento para emagrecer, percepção do clima dos cuidados de saúde e comportamento alimentar em indivíduos antes e depois de terem sido submetidos a tratamento cirúrgico para a obesidade (nomeadamente a gastrobandoplastia ou bypass gástrico). A amostra de conveniência constituída por 24 mulheres foi avaliada, através de uma bateria de questionários, em dois momentos distintos: antes da cirurgia e após o tratamento cirúrgico. As participantes foram avaliadas no contexto de uma entrevista pessoal quando se dirigiam ao hospital para consultas, após o seu consentimento informado. De acordo com os resultados, após a cirurgia, verificam-se uma melhoria de qualidade de vida das doentes e uma diminuição da ansiedade e da depressão. As doentes apresentam ao longo do tratamento (antes e depois da cirurgia) uma boa percepção do apoio social, sentem-se motivadas intrinsecamente e razoavelmente competentes para implementar o tratamento, sentem que o clima dos cuidados de saúde é de apoio e não apresentam comportamentos alimentares não normativos, não havendo diferenças significativas ao nível destas variáveis psicológicas entre os dois momentos de avaliação. A cirurgia de obesidade tem importantes repercussões ao nível da qualidade de vida (geral e específica) e a nível psicológico, nomeadamente no que diz respeito à ansiedade e depressão, sendo importante aprofundar a análise das restantes variáveis psicológicas com um estudo de uma amostra mais ampla. Palavras-chave: obesidade; qualidade de vida; ansiedade; depressão; tratamento cirúrgico. OBESITY SURGERY: QUALITY OF LIFE AND PSYCHOLOGICAL VARIABLES BEFORE AND AFTER SURGICAL TREATMENT Abstract: It is urgent to understand if obesity surgery (gastrobandoplasty and gastric bypass) has repercussion in psychological domain, eating behaviour and quality of life of patients submitted to it. The objective answered to compare quality of life, anxiety and depression, social support, type of motivation and perceived competence to engage in weight loss programs, relationship with the health care team and eating behaviour before and after obesity surgery (gastrobandoplasty or gastric bypass). A convenience group of 24 women answered to a set of psychological instruments before being submitted to obesity surgery and after the surgery (gastrobandoplasty or gastric bypass). Participants answered to the questionnaires, after their informed consent, in the context of a personal interview, when they went to the hospital for consultations. Results revealed that after obesity surgery occurs an improvement on quality of life, anxiety and depression. Through out treatment process (before and after the surgery), patients revealed to have a good perception of social support, to present intrinsic motivation to enrol in weight loss treatment, to perceived themselves as competent to do the treatment, to feel the health care as supportive and they did not reported non-normative eating patterns. Data analysis reveals that there are no significant differences between the two assessment moments concerning social support, motivation and perceived competence for weight loss treatment, relationship with the health care team and concerning eating behaviour. Obesity surgery (gastrobandoplasty and gastric bypass) have important repercussion in quality of life (generic and specific) and in psychological domain, namely in what concerns to anxiety and depression symptoms. It will be important to explore more deeply the other psychological variables targeted by the present research, studying a larger group of participants. Keywords: obesity; quality of life; anxiety; depression; surgical treatment. Cirurgia de obesidade: qualidade de vida e variáveis psicológicas antes e depois do tratamento cirúrgico 197 Psicologia: Teoria e Prática – 2009, 11(2):196-210 CIRUGIA DE OBESIDAD: CALIDAD DE VIDA Y VARIABLES PSICOLÓGICAS ANTES Y DESPUÉS DEL TRATAMIENTO QUIRÚRGICO Resumen: Es urgente comprender si la cirugía de obesidad (gastrobandoplastia y bypass gástrico) repercute a nivel psicológico en el comportamiento alimentar y en la calidad de vida de los pacientes con obesidad grave o mórbida que son sometidos a ella. El objetivo fue comparar la calidad de vida, ansiedad, depresión, apoyo social, tipos de motivación y percepción de competencia relativamente al tratamiento para adelgazar, percepción del clima de los cuidados de salud y comportamiento alimentar en individuos antes y después de haber sido sometidos a tratamiento quirúrgico para la obesidad (gastrobandoplastia ou bypass gástrico). Muestra de conveniencia constituida por 24 mujeres, evaluada a partir de una batería de cuestionarios, en dos momentos distintos: antes da cirugía y después del tratamiento quirúrgico. Las participantes fueron evaluadas en el contexto de una entrevista personal cuando se dirigían al hospital para realizar una consulta, después de obtener su consentimiento informado. Los resultados muestran una mejoría de la calidad de vida después de la cirugía de las pacientes, así como una disminución de la ansiedad y de la depresión. A lo largo del tratamiento (antes y después de la cirugía) las pacientes presentan una buena percepción de apoyo social, se sienten motivadas intrínsecamente y razonablemente competentes para implementar el tratamiento, sienten que un clima de los cuidados de salud de apoyo y no presentan comportamientos alimentares no normativos, no habiendo diferencias significativas en estas variables psicológicas entre los dos momentos de evaluación. La cirugía de obesidad tiene importantes repercusiones en la calidad de vida (general y específica) y a nivel psicológico, más concretamente en lo que se refiere a la ansiedad y depresión, siendo importante analizar más profundamente las restantes variables psicológicas con un estudio utilizando una muestra más amplia. Palabras clave: obesidad; calidad de vida; ansiedad; depresión; tratamiento quirúrgico. Introdução A prevalência da obesidade está a aumentar em todo o mundo, e Portugal não constitui um país de excepção relativamente a este problema de saúde pública (CARMO et al., 2007). As pessoas com obesidade não só apresentam um risco aumentado de desenvolver consequências médicas, psicológicas, sociais, económicas, para além de apresentarem um maior risco de morte prematura (FINKELSTEIN; RUHM; ROSA, 2005; KEISH, 2005), como esta tem, sem dúvida, um forte impacto adverso em importantes dimensões da sua qualidade de vida, constituindo uma condição médica que tem um amplo impacto no bemestar físico, social, emocional avaliado subjectivamente pela pessoa (FONTAINE; BARTLETT; BAROFSKY, 2000), bem como ao nível do auto-conceito (SIMÕES; MENESES, 2007) e da sua vivência corporal (ALMEIDA; LOUREIRO; SANTOS, 2002). Os tratamentos não cirúrgicos da obesidade têm revelado resultados muito modestos, enquanto os tratamentos cirúrgicos (nomeadamente cirurgias de bypass e cirurgias restritivas) têm revelado contribuir não só para uma perda de peso significativa, mas também para uma maior manutenção desses resultados ao longo do tempo, pelo que têm sido cada vez mais valorizados pelos doentes e pelos profissionais de saúde (VALLIS; ROSS, 1993). No presente estudo, iremos debruçar-nos sobre a banda gástrica e o bypass gástrico em Y de Roux. De acordo com a Sociedade Portuguesa de Cirurgia de Obesidade (2009), a gastrobandoplastia é uma cirurgia restritiva que tem como objectivo limitar a ingestão alimentar, consistindo em colocar um anel à volta do estômago na sua parte alta, perto da extremidade proximal gástrica, logo abaixo da junção esogástrica. As bandas insufláveis têm 198 Isabel Silva, José Pais-Ribeiro, Helena Cardoso Psicologia: Teoria e Prática – 2009, 11(2):196-210 acopladas um balão que se encontra ligado a um pequeno reservatório, colocado por baixo da pele, quer torácica quer abdominal, através do qual o balão pode ser insuflado, reduzindo o tamanho do estoma, ou desinsuflado, aumentando o tamanho deste estoma, sempre que necessário. Esta cirurgia permite manter o estômago inviolável, assim como variar o calibre do estoma, ajustando-o às necessidades do paciente. Segundo Martins (2005), o bypass gástrico é um tipo de cirurgia que se caracteriza pela criação de uma pequena bolsa gástrica proximal na pequena curvatura, com a reconstrução do trânsito gastro-intestinal fazendo-se através de uma alça jejunal em Y de Roux. Assim, a maior parte do estômago, o duodeno e o jejuno proximal são eliminados do trânsito alimentar. São três os principais motivos pelos quais este tipo de cirurgia resulta na perda de peso: (1) o efeito restritivo de uma pequena bolsa gástrica, que gera sensação de saciedade precocemente; (2) má absorção de nutrientes provocada pela exclusão de parte do tubo digestivo do trânsito alimentar; e (3) o trânsito rápido do alimento até às porções mais distais do intestino delgado. O tratamento cirúrgico da obesidade mórbida tem revelado contribuir para uma melhoria da qualidade de vida e do funcionamento psicológico dos indivíduos a ele submetidos – constatação essa que não é recente, pois já no início dos anos 1990 Vallis e Ross (1993) procederam a uma revisão de vários estudos científicos desenvolvidos neste domínio, que permitiu concluir que os diferentes tratamentos cirúrgicos da obesidade realizados estão associados a maior perda do excesso de peso, a menor distress, melhor auto-estima, maior assertividade, menor passividade e diagnósticos psiquiátricos menos frequentes do que antes da realização da cirurgia. Também Guedea et al. (2004) constataram que a cirurgia de obesidade (derivação biliopancreática) é eficaz para uma perda de peso a longo prazo (5 anos), para a melhoria das comorbilidades e da qualidade de vida das pessoas com obesidade mórbida. No mesmo sentido, vão as conclusões de Sears et al. (no prelo) que mostram que o bypass gástrico está associado a uma redução do peso, do índice de massa corporal (IMC), da tensão arterial, do colesterol e do uso de medicação para doenças associadas à obesidade, e a uma melhoria significativa da qualidade de vida um ano após a realização da cirurgia. Schaeffer, Rusnak e Amson (2008) também indicam uma eficaz perda de peso e redução das comorbilidades associadas em doentes submetidos a bypass gástrico. Tolonen, Victorzon e Mäkelä (2004) observaram que indivíduos com obesidade mórbida, 12 meses após a realização de gastrobandoplastia, apresentavam uma melhor qualidade de vida específica para a obesidade e, 28 meses depois, mantinham uma qualidade de vida específica para a doença melhor do que anteriormente à cirurgia. Relativamente à qualidade de vida genérica, esta melhorou nos primeiros 12 meses, mas os autores levantam a hipótese de diminuir após esse período. Também estudos longitudinais realizados em Portugal demonstram que a gastrobandoplastia realizada por via laparoscópica contribui para uma melhoria da qualidade de vida dos doentes obesos (BERENGUER et al., 2007). Os resultados da cirurgia de obesidade (restritiva, mal-absortiva ou restritiva e mal-absortiva) têm sido avaliados maioritariamente em termos de peso perdido, excesso de peso perdido, percentagem de índice de massa corporal (IMC) perdido e qualidade de vi da (ge- Cirurgia de obesidade: qualidade de vida e variáveis psicológicas antes e depois do tratamento cirúrgico 199 Psicologia: Teoria e Prática – 2009, 11(2):196-210 nérica ou específica para a obesidade), mas pouco se sabe sobre os resultados em termos dos aspectos psicológicos que poderão ser relevantes para a adesão aos cuidados após a cirurgia e para a satisfação e o ajustamento das pessoas submetidas a tratamento cirúrgico. Assim, o presente estudo tem como objectivo comparar a qualidade de vida, sintomas de ansiedade e de depressão; satisfação com o apoio social; tipos de motivação/auto-regulação quanto ao tratamento para perder peso (globalmente considerado e especificamente quanto à prática de exercício físico); percepção de competência do próprio indivíduo (quanto à manutenção de uma dieta saudável e de um regime de exercício físico regular); e percepção do clima dos cuidados de saúde (relativos aos cuidados alimentares e exercício físico) em indivíduos antes e depois de terem sido submetidos a cirurgia de obesidade. O presente estudo teve, ainda, como objectivo analisar se existem diferenças significativas entre dois momentos distintos – antes e depois da cirurgia – quanto ao comportamento alimentar (perturbação de ingestão compulsiva, compulsão por gordura, compulsão por doces, petisco contínuo, síndrome de ingestão nocturna, comer rapidamente, percepção de falta de controlo sobre o que se come, comer até se sentir indisposto, percepção de que come em excesso, comer sem se sentir com fome, sentir-se perturbado por comer uma quantidade excessiva de alimentos). Método Participantes Foi estudada uma amostra de conveniência constituída por 24 mulheres que se encontravam em acompanhamento na consulta do Serviço de Endocrinologia do Hospital Geral de Santo António por obesidade e a quem foi proposto tratamento cirúrgico para esta doença. Nesta consulta, para serem propostos para cirurgia de obesidade, independentemente do tipo desta, os doentes têm de apresentar, no momento da inscrição em lista de espera para a operação, um IMC superior a 40 ou um IMC igual ou superior a 35 com patologias associadas dependentes da sua obesidade (como diabetes tipo 2, apneia do sono, problemas osteoarticulares, hipertensão arterial, dislipidemias, síndrome de ovário poliquístico, entre outras). Entre as participantes do presente estudo, 83,33% foram submetidas a gastrobandoplastia, e 16,67%, a bypass gástrico. Material Foram utilizados os seguintes instrumentos para recolha de dados: entrevista clínica, SF-36, Impact of Weight on Quality of Life – Lite Questionnaire; Hospital Anxiety and Depression Scale, Escala de Satisfação com o Suporte Social, e questionários de motivação e auto-regulação. • Entrevista clínica: foi construída uma entrevista semi-estruturada para o presente estudo que pretendia avaliar os seguintes domínios: (1) variáveis sócio-demográficas (sexo, idade, nível de escolaridade, estado civil, situação laboral) e (2) características do comportamento alimentar (perturbação de ingestão compulsiva, compulsão por alimentos ricos em gordura, compulsão por doces, petisco contínuo, síndrome de in- 200 Isabel Silva, José Pais-Ribeiro, Helena Cardoso Psicologia: Teoria e Prática – 2009, 11(2):196-210 gestão nocturna, comer rapidamente, percepção de falta de controlo sobre o que se come, comer até se sentir indisposto, percepção de que come em excesso, comer sem sentir fome, sentir-se perturbado por comer uma quantidade excessiva de alimentos). • SF-36: questionário de avaliação da percepção de saúde constituído por 36 itens, que avaliam 8 subescalas – funcionamento físico, desempenho físico, dor corporal, saúde geral, vitalidade, funcionamento social, desempenho emocional e saúde mental – que são organizadas em dois domínios – mental e físico. O instrumento contém, ainda, um item que avalia a transição de saúde. Cada subescala é cotada de 0 a 100, sendo que quanto mais elevado é o valor obtido, maior é a qualidade de vida revelada pelo respondente. A versão do SF-36 validada para Portugal revela apresentar boas qualidades psicométricas (RIBEIRO, 2005). • Impact of Weight on Quality of Life – Lite Questionnaire (IWQOL-Lite): o IWQOL-Lite é um questionário específico de avaliação da qualidade de vida para indivíduos com diagnóstico de obesidade. Trata-se de um instrumento de auto-resposta constituído por 31 itens. Este instrumento solicita aos respondentes que descrevam os efeitos que o seu peso tem em 5 áreas de funcionamento, incluindo: (1) funcionamento físico, (2) autoestima, (3) vida sexual, (4) distress público e (5) trabalho. Quanto maior o valor obtido neste instrumento, pior revela ser a qualidade de vida do respondente. A versão adaptada para Portugal deste instrumento, desenvolvida por Engel et al. (2005), à semelhança da versão original, revelou apresentar excelentes qualidades psicométricas. • Hospital Anxiety and Depression Scale (HADS): questionário constituído por duas subescalas, uma que avalia ansiedade (constituída por 7 itens) e outra que avalia depressão (constituída por 7 itens), avaliadas separadamente. Cada item é respondido numa escala com 4 opções de resposta (0-3), sendo que os valores obtidos podem variar entre 0 e 21 para cada uma das subescalas. É um instrumento de rápida resposta (demora 2 a 5 minutos a ser respondida) e cuja versão desenvolvida para Portugal revela boas qualidades psicométricas (PAIS-RIBEIRO et al., 2007). • Escala de Satisfação com o Suporte Social (ESSS): esta escala foi desenvolvida e validada por Ribeiro (1999), especificamente para a população portuguesa, e constitui um instrumento de auto-preenchimento composto por 15 frases em relação às quais o respondente deve assinalar o seu grau de concordância com cada uma delas (se a frase se aplica ou não à sua situação individual), de acordo com uma escala de tipo Likert com 5 opções de resposta, que vão de “concordo totalmente” a “discordo totalmente”. A ESSS permite extrair quatro factores: satisfação com amigos/amizades (5 itens), intimidade (4 itens), satisfação com a família (3 itens) e satisfação com actividades sociais (3 itens). Quanto mais elevado for o valor obtido, maior revela ser a satisfação com o suporte social. O valor mais elevado que é possível atingir é 75 e o menor é 15. Esta escala revelou apresentar boas qualidades psicométricas quando utilizada com populações com diferentes doenças. • Questionários de motivação e auto-regulação: este conjunto de instrumentos pretende avaliar diferenças individuais relativamente aos tipos de motivação ou regulação quanto ao tratamento para perder peso globalmente considerado e especificamente Cirurgia de obesidade: qualidade de vida e variáveis psicológicas antes e depois do tratamento cirúrgico 201 Psicologia: Teoria e Prática – 2009, 11(2):196-210 quanto à prática de exercício físico, bem como a percepção de competência do próprio indivíduo quanto à manutenção de uma dieta saudável e de um regime de exercício físico regular, e o clima dos cuidados de saúde relativos a estes dois componentes do tratamento para o excesso de peso (cuidados alimentares e exercício físico) (DECI, 2008; WILLIAMS et al. 1996). a) Treatment Self-Regulation Questionnaire (TSRQ): a versão portuguesa deste questionário geral pretende avaliar as razões pelas quais as pessoas se envolvem em tratamentos para perder peso. O TSRQ pretende avaliar se o grau de motivação para esse comportamento de saúde é relativamente autónomo (WILLIAMS et al., 1996). Este instrumento é constituído por 18 itens, organizados em 2 subescalas – regulação autónoma (constituída por 5 itens) e regulação controlada (constituída por 12 itens). O valor de cada subescala foi calculado através da média do somatório dos scores obtidos e varia entre 1 (motivação menor) e 7 (motivação maior). b) Exercise Self-Regulation Questionnaire (SRQ-E): a versão portuguesa deste instrumento pergunta ao respondente quais as razões pelas quais começará ou continuará a praticar exercício físico de forma regular e oferece-lhe um conjunto de várias razões possíveis que foram pré-seleccionadas para representar diferentes estilos de auto-regulação ou motivação. É constituído por 15 itens, organizados em 3 subescalas – motivação autónoma (6 itens), motivação controlada (6 itens) e amotivação (3 itens). O valor de cada subescala foi calculado através da média do somatório dos scores obtidos e varia entre 1 (menor motivação) e 7 (maior motivação). c) The Perceived Competence Scale (PCS) (DECI, 2008): • Questionário constituído por 4 itens que avaliam o grau com que cada respondente se sente confiante para iniciar ou manter os cuidados com a alimentação. O valor obtido é calculado através da média do somatório dos scores obtidos e varia entre 1 (menor percepção de competência) e 7 (maior percepção de competência). • Questionário constituído por 4 itens que avaliam o grau com que cada respondente se sente confiante para iniciar ou manter os cuidados com o exercício físico. O valor obtido é calculado através da média do somatório dos scores obtidos e varia entre 1 (menor percepção de competência) e 7 (maior percepção de competência). d) Health Care Climate Questionnaire (HCCQ) (DECI, 2008; WILLIAMS et al., 1996): • Instrumento constituído por 6 itens que pretendem avaliar a percepção que o indivíduo tem do grau com que os profissionais de saúde apoiam a sua autonomia relativamente aos cuidados alimentares. O valor obtido é calculado através da média do somatório dos scores obtidos e varia entre 1 (menor percepção de autonomia/maior percepção de ser controlado) e 7 (maior percepção de autonomia/menor percepção de ser controlado). • Instrumento constituído por 6 itens que pretendem avaliar a percepção que o indivíduo tem do grau com que os profissionais de saúde apoiam a sua autonomia relativamente ao exercício físico. O valor obtido é calculado através da média do somatório 202 Isabel Silva, José Pais-Ribeiro, Helena Cardoso Psicologia: Teoria e Prática – 2009, 11(2):196-210 dos scores obtidos e varia entre 1 (menor percepção de autonomia/maior percepção de ser controlado) e 7 (maior percepção de autonomia/menor percepção de ser controlado). Procedimento A Comissão de Ética da instituição onde foram recolhidos os dados aprovou todos os procedimentos utilizados no presente estudo. Os participantes responderam aos questionários no contexto de uma entrevista pessoal, e os dados médicos foram consultados no seu processo clínico, depois do seu consentimento informado. Cada participante respondeu aos mesmos instrumentos de avaliação em dois momentos distintos do tempo: antes e depois da cirurgia de obesidade. Cada uma das entrevistas teve uma duração aproximada de uma hora. Os instrumentos foram bem aceites pelos participantes. Por razões de ordem administrativa (disponibilidade das instalações), não foi possível a todas as participantes completar a totalidade dos questionários propostos no presente estudo, uma vez que se assegurou que todas as entrevistas de administração dos instrumentos eram realizadas em condições de absoluta privacidade. Nenhuma das participantes recusou participar nos dois momentos de avaliação, assim como nenhuma pediu para abandonar o estudo quando as entrevistas já se encontravam em curso. As participantes mostraram-se motivadas e interessadas em responder a todas as questões. Para proceder à análise estatística dos dados recolhidos, optou-se por utilizar o teste de Wilcoxon para comparar o valor de variáveis de intervalo em duas condições (antes e depois da realização da cirurgia de obesidade) e o teste McNemar para comparar os valores de variáveis dicotómicas nessas mesmas duas condições. Resultados No momento da primeira avaliação, as participantes encontravam-se em acompanhamento na consulta interdisciplinar de obesidade entre 27 e 88 meses (M = 60,17; DP = 22,83); tinham uma idade que variava entre 27 e 57 anos (M = 41,63; DP = 8,83); um nível de escolaridade entre 4 e 17 anos (M = 6,83; DP = 3,53); 58,3% encontravam-se empregadas, 12,5% desempregadas, 12,5% reformadas e 16,7% eram domésticas; 79,2% casadas ou em união de facto, 16,7% solteiras e 4,2% viúvas; e o IMC variava entre 38,34 e 57,67 (M = 48,52; DP = 5,10). No momento da segunda avaliação, as participantes haviam sido submetidas a tratamento cirúrgico com uma evolução entre 4 e 36 meses (M = 14,11; DP = 11,54) e apresentavam um IMC que variava entre 24,83 e 48,86 (M = 35,66; DP = 10,17). Qualidade de vida Os resultados revelam a existência de diferenças estatisticamente significativas entre os dois momentos de avaliação, antes e depois da cirurgia de obesidade, em todas as subescalas avaliadas pelo SF-36, com excepção do funcionamento social (z = -0,095; p > 0,05) e do desempenho emocional (z = -1,79; p > 0,05), isto é, existem diferenças estatisticamen- Cirurgia de obesidade: qualidade de vida e variáveis psicológicas antes e depois do tratamento cirúrgico 203 Psicologia: Teoria e Prática – 2009, 11(2):196-210 te significativas no que respeita a funcionamento físico (z = -3,73; p < 0,0001), desempenho físico (z = -2,92; p < 0,01), dor corporal (z = -3,09; p < 0,01), saúde geral (z = -2,55; p < 0,05), vitalidade (z = -3,38; p < 0,01) e saúde mental (z = -3,42; p < 0,01), bem como nos domínios físico (z = -2,31; p < 0,05) e mental (z = -2,58; p < 0,05). Nos domínios em que se verificaram diferenças significativas, estas foram num sentido que mostra uma melhoria da qualidade de vida após o tratamento cirúrgico, como poderá ser confirmado na Tabela 1. Tabela 1. Valores médios e de desvio-padrão obtidos no SF-36 antes e depois da realização de cirurgia de obesidade (N = 24) Antes da cirurgia de obesidade Após cirurgia de obesidade MDPMDP Funcionamento físico 45,87 25,88 75,48 22,74 Desempenho físico 42,05 36,50 81,25 32,32 Dor corporal 36,57 26,84 65,26 34,58 Saúde geral 39,30 22,32 56,09 22,45 Vitalidade 36,36 20,77 57,27 18,17 Funcionamento social 67,61 29,29 66,85 29,82 Desempenho emocional 50,72 43,66 80,95 37,37 Saúde mental 40,00 18,72 57,14 19,56 Domínio físico 41,09 21,48 69,39 22,94 Domínio mental 47,98 20,51 65,89 21,79 Relativamente à qualidade de vida relacionada com a obesidade, verificou-se a existência de diferenças estatisticamente significativas nos domínios funcionamento físico (z = -2,31; p < 0,05), auto-estima (z = -1,99; p < 0,05) e trabalho (z = -2,02; p < 0,05), ocorrendo uma melhoria da qualidade de vida após a cirurgia (Tabela 2). Porém, nos domínios vida sexual (z = -0,95; p > 0,05) e distress público (z = -1,49; p > 0,05), não se verificaram diferenças estatisticamente significativas. Tabela 2. Médias e desvios-padrão obtidos no IWQOL-Lite nos dois momentos de avaliação (N=10) Antes da cirurgia de obesidade Após cirurgia de obesidade MDP M DP Funcionamento Físico 65,81 15,66 43,72 18,39 Auto-estima 61,71 21,09 44,29 27,88 Trabalho 35,63 15,45 30,95 21,01 Vida sexual 62,78 29,17 44,09 30,34 Distress público 63,20 18,84 42,36 27,54 204 Isabel Silva, José Pais-Ribeiro, Helena Cardoso Psicologia: Teoria e Prática – 2009, 11(2):196-210 Ansiedade e depressão Os dados revelam que os doentes apresentam uma melhoria significativa dos sintomas de ansiedade (z = -3,50; p < 0,0001) e de depressão (z = -2,44; p < 0,04) após serem submetidos a tratamento cirúrgico da obesidade, como pode ser confirmado na Tabela 3. Tabela 3. Valores das médias e desvios-padrão obtidos na HADS nos dois momentos de avaliação (N = 22) Antes da cirurgia de obesidade Após cirurgia de obesidade MDPMDP Ansiedade 11,36 4,19 11,08 11,82 Depressão 7,79 4,10 6,54 13,10 Satisfação com o apoio social Constatou-se que, relativamente à satisfação com os amigos (z =-0,79; p > 0,05), com a intimidade (z = -1,13; p > 0,05), com a família (z = -1,71; p > 0,05) e com as actividades sociais (z = -0,23; p > 0,05), não há diferenças estatisticamente significativas entre os dois momentos de avaliação. Os valores das médias e desvios-padrão obtidos em cada subescala nos dois momentos podem ser consultados na Tabela 4. Tabela 4. Médias e desvios-padrão obtidos na ESSS nos dois momentos de avaliação (N = 22) Antes da cirurgia de obesidade Após cirurgia de obesidade MDPMDP Satisfação com os amigos 18,48 6,42 19,61 5,15 Satisfação com a intimidade 13,14 4,36 14,78 4,69 Satisfação com a família 11,81 3,43 13,17 1,72 Satisfação com as actividades sociais 7,86 3,14 7,96 4,36 Como pode ser observado, há uma razoável percepção de apoio social já antes da realização da cirurgia de obesidade. Auto-regulação A análise dos dados indica não haver diferenças estatisticamente significativas entre os dois momentos de avaliação quanto aos tipos de motivação/regulação, quanto ao tratamento para perder peso globalmente considerado – motivação autónoma (z = -0,18; p > 0,05) e motivação controlada (z = -0,52; p > 0,05) – e especificamente quanto aos tipos de motivação para a prática de exercício físico – motivação autónoma (z = 0,0001; p > 0,05),