Arcanos performáticos. Ressignificações fotográficas do Tarot de Marselha
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ARCANOS PERFORMÁTICOS Ressignificações fotográficas do Tarot de Marselha Fernanda Figueiredo Figueiredo De Melo Viana Orientadora Prof ᵃ Drᵃ Rita Castro Neves 08 Fall
Julho - 2016 Porto - Portugal
ARCANOS PERFORMÁTICOS Ressignificações fotográficas do Tarot de Marselha Tese de mestrado apresentada ao Curso de Mestrado De Práticas Artísticas Contemporâneas, da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.
AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramento a Deus, a toda divindade e vida cósmica que me dá sempre o suporte para seguir minha missão planetária. Aos meus pais por sempre me darem liberdade e apoio emocional em minhas escolhas. Ao meu companheiro Pedro por sempre haver amor e elogios. À Joana Duarte que fotografou. Grata por crer no meu trabalho e por toda ajuda. À Helena Mancelos por sempre estar disponível para ajudar e por toda gentileza. À Lígia Soares por todo suporte e carinho aqui na cidade do Porto. À grande amiga de anos Vanessa Maciel por rever meu trabalho com tamanha dedicação. A minha orientadora Rita Castro Neves pela sensibilidade ao compreender o tema que deveria seguir. À Lola, da escola de Teatro do Bolhão, por toda atenção e cuidado para com as minhas necessidades. À Fernanda Carlos Borges por nossas conversas sobre peformatividade, performance, corpo e pose. À Erica Burini por todo apoio na reta final desesperadora. A todos da familia, amigos espalhados por toda parte, por sempre recordarem da dedicação que tenho com meus sonhos. Vocês são fundamentais. Obrigada a todos os envolvidos direta e indiretamente nessa parte da minha história. Sigo sonhando!
A viagem através das cartas do Tarot é basicamente uma viagem à nossa própria profundidade. Qualquer coisa que encontremos nessa viagem é, no fundo, um aspecto de nosso mais profundo eu. Dado que a origem dessas cartas data um tempo em que o misterioso e o irracional eram mais reais que hoje e nos servirão de ponte para nos levarem em busca da sabedoria ancestral. (Sallie Nichols)
RESUMO Esta pesquisa trata da migração dos símbolos do Tarot de Marselha para fotografias, intituladas foto performance, tendo como base criativa a ressignificação dos arcanos, ao criar uma nova simbologia e estética a partir dos pares escolhidos para um dialógo semiótico. O objetivo foi tratar da arte da foto performance e da performatividade no manuseio dos símbolos do Tarot. A realização das imagens, tanto das cartas quanto das fotos, foi influenciada pela arte Kitsch, tal como foi descrita por Umberto Eco em “Apocalípticos e Integrados” (2004). A ressignificação das cartas por meio do desenho, foi influenciada teoricamente pelo Tarólogo e artista Alejandro Jodorowsky, assim como pelo psicanalista Carl Gustav Jung. O propósito foi inserir a simbologia das cartas na linguagem de foto performances, nas quais a artista inseriu o seu corpo enquanto pose. Para isso foi necessário tratar dos conceitos de foto performance e performatividade e pose. Palavras-chave: Tarot de Marselha, arcanos, foto-performance, kitsch, resignificação. RESUMEN La presente investigación se refiere a la migración de los símbolos del Tarot de Marsella para fotografías, foto funcionamiento titulado, que sirvan como base creativa de un nuevo marco de arcanos, para crear un nuevo simbolismo y la estética de los pares elegidos por los diálogos semióticos. El objetivo era tratar foto performance y performatividad en el manejo de los símbolos del Tarot. La realización de imágenes, tanto de las letras como las fotos, fue influenciado por kistch arte, tal como se describe por Umberto Eco en "Apocalípticos e Integrados" (2004). La reinterpretación de las tarjetas a través del diseño fue influenciado por la teoría, tarotista y artista Alejandro Jodorowsky, y el psicoanalista Carl Gustav Jung. El propósito era insertar el simbolismo de las cartas en las actuaciones lenguaje de imágenes, en el que el artista entró en su cuerpo, mientras que pose. Para ello era necesario tratar con conceptos de rendimiento y la performatividad y la foto de pose. Palabras clave: Tarot de Marsella, arcanos, foto funcionamento, kitsch, replanteo.
SUMÁRIO Introdução 9 Apresentação dos Arcanos e seus simbolismos: a jornada arquetípica do Tarot 9 Uma breve história do Tarot de Marselha ........................................................................................ 9 Os 22 Arcanos .................................................................................................................................. 12 O Louco 12 O Mago 13 A Papisa 14 A Imperatriz 16 O Imperador 17 O Papa 18 O Enamorado 19 O Carro 21 A Justiça 22 O Eremita 23 Roda da Fortuna 24 A Força 25 O Enforcado 26 A Morte 27 A Temperança 29 O Diabo 30 A Torre 31 A Estrela 32 A Lua 33 O Sol 34 O Julgamento 35 O Mundo 36 A primeira ação performativa: a performatividade e a manipulação simbólica 39 Os pares ............................................................................................................................................ 42 O Louco e A Morte 42 O Mago e O Diabo 43 O Sol e A Lua 45 A Imperatriz e O Imperador 47 O Papisa e A Papa 48 A Estrela e A Temperança 49 A Justiça e O Julgamento 51
O Carro e A Roda da Fortuna 52 A Torre e O Enforcado 53 A Força e o Enamorado 54 O Eremita e O Mundo 55 A pose, a imagética e as novas cartas .............................................................................................. 57 A poética Kistch na direção de arte e os artistas ............................................................................. 62 ANEXO ............................................................................................................................................. 66 O processo criativo .......................................................................................................................... 66 Obra. A Ideia Corporificada ............................................................................................................ 72 Conclusão 76 Referências 79
Introdução Esta pesquisa tratou da migração dos símbolos do Tarot para as fotografias performáticas, tendo como base criativa a ressignificação dos arcanos do Tarot de Marselha ao criar uma nova simbologia a partir dos pares das cartas escolhidas. Tendo em vista que há diversos Tarôs no mundo representados por seus arcanos com seus intrínsecos simbolismos, cores, histórias, origens e interpretações. O objetivo foi tratar da arte da foto performance e da performatividade no manuseio dos símbolos do Tarot. A realização das imagens, tanto das cartas quanto das fotos, foi influenciada pela arte Kitsch, tal como foi descrita por Umberto Eco em “Apocalípticos e Integrados” (2004). A ressignificação das cartas por meio do desenho, foi influenciada teoricamente pelo Tarólogo e artista Alejandro Jodorowsky, assim como pelo psicanalista Carl Gustav Jung. O propósito foi inserir a simbologia das cartas na linguagem de foto performance, nas quais a artista inseriu o seu corpo enquanto pose. Para isso foi necessário tratar dos conceitos de foto performance, performatividade e pose. O uso do Tarot de Marselha como base para o estudo artístico e teórico do trabalho aqui apresentado, a manipulação dos símbolos e o encontro dos pares do Tarot é considerado nesta pesquisa como ação performativa. Na foto performance existe o corpo da artista enquanto pose, o que remete o trabalho à arte da performance. Tal trabalho expande na atualidade entre os artistas do corpo e da imagem, e possibilita o resgate do saber artístico dos que se iniciaram nessa prática, já há algum tempo. No primeiro capítulo cito uma breve história do Tarot de Marselha com a apresentação dos arcanos para a fundamental compreensão de suas representatividades arquetípicas. No segundo capítulo trato do tema performatividade por meio da união dos pares que propus e os artistas que são influências tanto na performance quanto na performatividade, como Bea Nettles e Alice Smeets. No terceiro capítulo apresento as novas cartas como ação artística, o resultado do encontro das cartas em pares, a definição de foto performance, pose, a poética da direção de arte e o encontro com o trabalho de Cindy Sherman, que também usa das mesmas ferramentas para obter o ambiente performático e fotográfico. Como a maquiagem, o figurino e as poses corporais. As obras finais são as ideias corporificadas sob a influência Kistch e dos artistas que perpetuam essa linguagem, como Pierre et Gilles e David LaChapelle. Apresentação dos Arcanos e seus simbolismos: a jornada arquetípica do Tarot O primeiro capítulo desta pesquisa trata do universo mítico e arquetípico do Tarot de Marselha, identificando os 22 arcanos afim de favorecer a compreensão da realização do trabalho artístico proposto nesta investigação. A apresentação de cada arcano é de fundamental importância, pois foi através da investigação intelectual das cartas e dos autores que refletiram sobre o Tarot, que se fez possível o resultado conceitual e estético. No estudo sobre as cartas precisei definir alguns pontos importantes das conceituações do Tarot, para que as palavras sempre usadas ao longo da tese fossem reconhecidadas em sentido correto. Arcano vem da origem latina – arcanus, que significa mistério, oculto e oráculo. Os arcanos maiores representam as figuras arquetípicas, modelos universais, como O Papa, O Diabo, A Imperatriz e alguns arquétipos celestes como O Sol e A Lua. Os arcanos menores não utilizarei nesta atual pesquisa, pois resultaria em uma complexidade desnecessária ao objetivo final desta pesquisa. Os significados dos arcanos menores se dividem nos naipes de Copas associados ao elemento fogo, que fala sobre sabedoria, espírito de viver, saúde e trabalho. Ao naipe de Ouros que está associado ao elemento terra, e fala sobre a vida material, ganhos físicos e escolhas, ao naipe de Paus que está associado ao elemento água e vem falar sobre os sentimentos, sensibilidade, intuição e sonhos e ao naipe de Espadas, associado ao elemento ar que vem falar das batalhas psicológicas e emocionais. Exemplos das cartas dos arcanos maiores e menores:
13 O Louco corporifica o arquétipo do viajante, e o que perturba a ordem estabelecida na sociedade. No Tarot aparece com um cachorro que está mordendo suas calças com o intuito de alertá-lo sobre algo, já que O Louco é a personificação do nosso lado instintivo e não teme por onde anda. Usa a sabedoria instintiva no lugar da lógica niilista. Sua essência é paradoxa já que caminha galopante para a frente, mas continua olhando para trás. Uma conexão da sabedoria sobre o futuro, com a inocência de uma criança. Sua vestimenta é cheia de cores e nos remete ao arco-íris com pedaços da eternidade; como formas de um caleidoscópio que surge e desaparece por toda a jornada. As cores psicodélicas da década de 70 anunciam o despertar para uma nova consciência. O Louco está em movimento e suas cores são essenciais para que possamos compreender sua missão. O traje do Louco é vermelho e verde: leva essencialmente em si a vida animal e vegetal. Mas suas mangas azúis céu indicam que sua ação, simbolizada pelos braços, é espiritualizada, e seu gorro amarelo leva a luz da inteligência. Neste gorro se observa a presença de duas luas médias. Uma delas de cor amarela claro colocada em um círculo laranja, e está em volta do céu. A outra situada na bola vermelha que arremata a ponta traseira do gorro, está em volta até embaixo. A lua vermelha representa o dom total da ação, e a lua amarela, a recepção total da consciência. (JODOROWSKY; COSTA 2011, p.149, tradução nossa) O Louco leva debaixo do braço esquerdo um violino, ajudando a manter com a música, a harmonia em seu caminho solitário. A palavra “Louco” (fool) precede do latim follis, que quer dizer “Fuelle, globo, saco de ar”. De acordo com Nichols (1988), “os foles proporcionam oxigênio necessário para a combustão, da mesma maneira que O Louco proporciona ao espírito o ímpeto da ação”. (NICHOLS, 1988, p. 55, tradução nossa). O nome francês do Louco, Le Fou, que se remete a palavra Fogo (Le Feu) faz uma conexão com a luz e a energia, o que cria e também destrói. O Louco é a referência direta com os Bufões, palhaços e os bobos da corte. Palavras chave: liberdade, energia, viagem, busca, origem, essência, força de liberação, irracional, caos e loucura. Agora vamos reconhecer O Mago, a carta número um do Tarot. O Mago A partir de outras coisas nunca extrairás a unidade, ao menos que tenha alcançado a unidade em ti mesmo. Dorn (NICHOLS, 1988, p. 75, tradução nossa)
14 O Mago se difere do Louco, por ter seu lugar fixo, estabilidade na vida. O Louco é um nômade e O Mago se estrutura em um lugar para poder estudar suas alquimias, ajudando assim a humanizar e acalmar o impulso começado pelo arcano anterior. Sua vareta mágica o conecta com Hermes, o grande Deus das revelações. O Mago é um sério profissional e ao contrário do Louco que só quer desfrutar da natureza, manipula a natureza afim de dominar suas energias. Em uma mão carrega a vareta, na outra uma moeda de ouro. A mão é o símbolo do poder do ser humano para medir e transformar as matérias primas da natureza. Segundo Nichols, “fazendo desaparecer os objetos de sua mesa, pode fazernos crer a simples verdade que todas as coisas, todos objetos, não são mais que uma experiência da realidade. Somos nós que criamos o mundo que aparenta existir” (NICHOLS, 1988, p. 77, tradução nossa). A vestimenta que leva é vibrante em cores, e em cada parte como nas pernas, braços, ombros, cadeiras e peito leva uma cor diferente, fazendo do Mago uma grande emissão de energia. Seu chapéu carrega a forma do oito deitado, o infinito, ou lemniscata, e nos recorda o constante balanço dos opostos assim como o símbolo chinês Tai-Chi o qual simboliza a interação Yin e Yang, as forças positivas e negativas existentes na natureza. Seu número um, é um número de poder masculino, Yang, é luz, movimento, poder, e está associado ao céu e com o espírito, mas não deixa, portanto, de carregar ambiguidades. Segundo Nichols (1988), “o número um representa a consciência humana, pois, como o homem, está ereto e és um traço que une o céu e a terra de pé. A consciência implica também uma dualidade: o observador e o observado” (NICHOLS, 1988, p. 87, tradução nossa). O Mago como sugere seu arquétipo, é aquele que trabalha com as causas invisíveis e também visíveis como o sonho. Ele nos ajuda a conectar com o mundo dos sonhos, e nos conduz à realização, já que seu poder é alquímico. O Mago cria e recria possibilidades sobre a realidade e dispõe de várias ferramentas: “Estou no presente. Qualquer que seja a ação que desejo compreender, há chegado a hora de iniciá-la. Todo meu futuro está brotando nas decisões que tomo neste instante” (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p.156). Palavra Chave: começo, inovação, talentos múltiplos, necessidade de ajuda, guia, astúcia, julgador e arte de convencer. Partimos agora para o arcano número dois, A Papisa. A Papisa O mundo vai mudar menos pelas decisões do homem que pelas adivinhações da mulher. Claude Bregadon (NICHOLS, 1988, p. 109, tradução nossa)
15 O arcano número dois do Tarot nos mostra a figura de uma mulher no reinado do Papa, A Papisa, uma senhora de origem antiga e misteriosa. Nunca ouvimos falar em uma Papisa, apenas no Papa, mas de fato parece que ela existiu com todo seu conhecimento profundo e misterioso. A Papisa é a guardiã do espírito: Historicamente não houve nunca um papa feminino, mas durante alguns séculos uma mulher chamada Papa Juan desfrutou de vida na imaginação do público. Disfarçada como um sacerdote, este personagem legendário foi ascendendo os diferentes graus das ordens sagradas até se converter em papa. Ninguém suspeitava por então que o Papa Juan era uma mulher, até que um dia esse feito se revelou de uma maneira muito embaraçosa. No meio da procissão solene, Papa Juan, deu à luz a uma criatura. (NICHOLS,1988, p. 109, tradução nossa) Como sabemos, todos os mitos encobrem uma verdade que não pode ser ignorada por completo. A mensagem forte desse arcano é que o homem pode propagar e celebrar o espírito divino, mas só por meio da mulher, da energia feminina se encarna o espírito. Anteriormente vimos a carta do Mago como princípio masculino Yang, agora vemos a Papisa com o princípio Yin, o aspecto feminino. A sacerdotisa. Seu número dois corresponde ao número sagrado para as divindades femininas. Em suas mãos leva um livro sagrado. Podemos observar que em uma das aparições a Virgem Maria está pintada com uma postura parecida e com um livro aberto. O livro dos profetas, o qual está escrito seu destino como portadora do menino Jesus. A cabeça da Papisa está coberta por uma tiara e um pano. Sua tiara tripla faz alusão ao seu poder que se manifesta nos três mundos: Céu, Terra e debaixo D’Água. A Papisa se encontra enraizada e imóvel. Sua magia é oculta até para ela mesma. A Papisa tem vários sentimentos ocultos e se sente plenamente conectada com o mundo celestial. Segundo Nichols, “Dado que o papel do homem no processo de criação não se compreendia, toda mulher que sabia estar grávida se sentia misteriosa e inexplicavelmente escolhida pelos deuses” (NICHOLS, 1988, p.113, tradução nossa). A associação com a Virgem Maria se procede em diversos aspectos, como a idealização da imagem que nos é apresentada, carente de corpo e quase etérica. O sentido da palavra virgem por muito tempo foi direcionado às mulheres que eram puras sexualmente, mas o real sentido etmológico designa-se a uma mulher sem casar, solteira. A Papisa representa a força feminina em um lugar masculino, socialmente dizendo. Ela é a transgressão, a mulher que rompe padrões. A papisa se refere frequentemente a um personagem feminino, a mãe, a avó, que transmitiu um ideal de pureza e uma frieza normativa. Geralmente incorporam a mãe fria, a mulher sem sexualidade que encontra sua justificação em uma moral ou ideal religioso, que não sabe ser terna. Mas sua exigência de pureza também nos pode indicar uma mulher de elevada estatura espiritual, uma sacerdotisa, uma terapeuta, uma guia, seja qual seja sua idade. No amor a papisa está disposta a formar um par baseado na união de almas. (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p. 161, tradução nossa) Palavras chave: acumulação, preparação, estudo, virgindade, espera, escrita de um livro, solidão, ideal de pureza, meditação, gestação, educação estrita e perdão. Da Papisa agora caminhamos para outro arcano feminino: A Imperatriz.
16 A Imperatriz A geração é o mistério pelo qual o espírito se une à matéria, pelo qual o divino se converte em humano. Papus (NICHOLS, 1988, p. 109, tradução nossa) Na carta anterior vemos uma atmosfera enraizada com foco na proteção e compreensão. Nesta carta agora observamos uma águia que sugestiona movimento, liberação e transformação. Enquanto a Papisa vem mostrar o espírito dentro do ventre, A Imperatriz manifesta o espírito que renasce novamente na carne. O espírito em movimento. A Imperatriz tem uma natureza mais extrovertida, acredita no poder do amor, seus cabelos não estão escondidos e leva uma coroa que é símbolo de conexão com o divino. Enquanto A Papisa leva o livro em suas mãos, A Imperatriz coloca em prática tais profecias. O número três que indica em sua carta reflete toda classe de trindades: Pai, Filho e Espírito Santo, passado, presente, futuro, pai, mãe e filho. Houveram muitos matemáticos e sábios que estudaram os números e suas interpretações. Um estudioso bem relevante na história é Pitágoras: Pitágoras considerava o três como o primeiro número real. Dizia que os dois primeiros números eram somente essências, já que não correspondiam a nenhuma figura geométrica e portanto, não tinham realidade física. O três cria o triângulo, uma superfície plana com um princípio, uma metade e um fim. Uma realidade tangível que corresponde à experiência humana. (NICHOLS, 1988, p.133, tradução nossa) A Imperatriz pode atuar em diversos aspectos femininos, como uma lutadora ativa ou a doce mãe que nos encanta, e também a mãe terrível que aparece nos contos de fadas onde atua como a rainha malvada ou a madrasta. Também a conhecemos como a mãe natureza que possui toda a vida e a civilização. A natureza da Imperatriz reflete a manifestação multifacetada da mulher no mundo: “Em sua busca por sua própria essência, a mulher vai nos presentear disfarçada de muitas maneiras distintas” (NICHOLS, 1988, p.143, tradução nossa). Quem então seria A Imperatriz? Seria todas essas facetas, deusa, bruxa, mãe devoradora, madonna, mulher fatal e musa inspiradora. A imagem da Imperatriz é cheia de simbologias fortes e relacionadas com a geração e criação: “Em seu peito brilha uma pirâmide de cor amarela como uma espécie de porta. Nos oferece uma entrada: se penetramos na luz da inteligência do coração da Imperatriz, podemos exercer nosso poder criador”. (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p. 166, tradução nossa) Palavras chave: fertilidade, mulher bela, artista, abundância, creatividade, encanto e ebulição. Depois da Imperatriz, chega O Imperador.
17 O Imperador O um se converte em dois, e o dois se converte em três e do três surge o um, como quatro. Marí ala Profetisa (NICHOLS,1988, p. 149, tradução nossa) O arcano número quatro pode ser considerado como o princípio ativo masculino, a ordem, a razão, o racional que coloca ordem nos feitos da Imperatriz. É o ser que inspira, cria e defende a civilização, este arcano também representa o mundo civilizado do homem consciente. Assim como A Imperatriz apresenta um poder arquetípico, porém de forma mais humana e acessível à consciência. O Imperador não tem nada que temer já que leva um emblema que simboliza sua conexão com os poderes celestiais. A transição do modelo matriarcal para o modelo patriarcal é sempre marcada pelo rompimento de padrões comportamentais. Enquanto a mãe age com as emoções e o instinto, o pai está conectado com a manutenção, a ordem e o raciocínio lógico. O casal real Imperador e Imperatriz estão conectados pelas duas águias que levam em seus escudos onde simboliza ambos os espíritos conectados: Enquanto a águia da Imperatriz com suas asas estendidas está a ponto de empreender vôo até o céu, coisa que simboliza o espírito masculino do seu esposo, a ave do Imperador está colocada de forma que suas asas repetem a configuração das aparentes asas de anjos que formam o desenho do trono da Imperatriz. (NICHOLS, 1988, p. 151, tradução nossa) O número quatro que o identifica como arquétipo da razão e poder simboliza a plenitude. Equivale na geometria ao retângulo e representa a lei e a ordem sob a caótica mãe natureza. Existem diversos quatros que ordenam nossa construção cultural: As quatro fases da lua. As quatro estações. As quatro direções da terra. Os quatro profetas (Isaías, Jeremias, Ezequiel e Oseas). As quatro regras aritméticas (soma, subtração, multiplicação e divisão). Assim como outras representações. O Imperador com seu número quatro vem anunciar um novo princípio, proporcionando permanência, estabilidade e perspectiva. Seu traje diz muito de si e de tudo que carrega:
18 Seus pés calçados de vermelho recordam O Louco. Agora estão em repouso, mas também andariam a sós por um caminho espiritual (o chão azul céu). Seu trono muito forjado, indica o refinamento de sua mente. Nele se reconhece, em cima do ombro esquerdo, o símbolo do ouro, do conhecimento. Sua cabeça está coroada de inteligência (o amarelo do seu casco, o qual se discerne uma bussóla laranja) e irradia como o sol suas pontas vermelhas. Sua barba e cabelo azul céu manifestam sua experiência espiritual: o poder que exerce não é só material; de fato, se destinguem em seu braço e no casco uma figura triangular, símbolo do espírito, por cima do quadrado material que desenham suas pernas. (NICHOLS,1 988, p.172, tradução nossa) Palavras Chave: dinheiro, autoridade, segurança, casa, patriarcado, capacidade de pacificar, administração e êxito. Do Imperador nos dirigimos para a carta: O Papa. O Papa A alma do homem é religiosa por natureza. Orígenes (NICHOLS, 1988, p. 171, tradução nossa) Até agora todas as cartas apresentadas tinham apenas uma persona central, com seus poderes e tamanhos gigantes. A carta número cinco vem nos trazer algo novo, dois homens ajoelhados diante do Papa. O número cinco representa a quintaessência, o mundo anímico. Podemos perceber O Papa como o homem que busca uma conexão superior, o encontro do sentido da vida. Carl Gustav Jung define a relação do Papa como arquétipo da alma: Enquanto Freud viu essa tendência religiosa como uma mera sublimação da libido sexual, Jung viu a necessidade do homem de um significado transcendente, como um instinto sui generis da psiquê humana omo predisposição inata da humanidade. Uma força criativa mais urgente inclusive que a necessidade de procriação. (NICHOLS, 1988, p. 171, tradução nossa). O Papa é um representante de Deus na terra. A palavra Papa está relacionada com a palavra latina pater e a atual pai. Assim como o Imperador era um pai soberano, sendo o representante supremo da igreja, já que governa seus filhos na comunidade religiosa. Outro nome relacionado com o Papa é Pontífice que procede do latim ponti-fex que significa: aquele que faz a ponte. O elo entre o homem e Deus.
19 E como portador desse sacro ofício é o árbitro das questões morais e quem também determina a autoridade das experiências místicas. O sinal que apresenta em sua mão simboliza um emblema de seu cargo indicando um poder supremo. Em suas luvas tem marcado a cruz chamada pateé, uma antiga forma de cruz que nos indica a antiguidade da igreja. Sobre a cabeça leva uma tiara tripla assim como a Papisa. Ao levar o bastão na mão esquerda, pois o lado esquerdo do corpo é o lado das emoções, nos mostra que governa com o coração mais do que com a força da vontade. O número que carrega, cinco, diz muito sobre suas feituras na vida: O cinco é também o número da humanidade, pois o homem tem cinco sentidos e cinco dedos tanto nas mãos como nos pés. Esse número cinco faz ponte entre o ser puramente fisíco do homem e o mistério arquetípico dos números. Em muitas sociedades primitivas só sabem contar até o cinco; em outras culturas entre as quais se conta a nossa, cinco, é um módulo que se utiliza muito para contar. Este número tem uma qualidade mágica: quanto tiramos seu quadrado, volta sempre sobre si mesmo. Por essa razão os antigos o chamaram de número esférico e pensaram que estava conectado com o infinito. (NICHOLS, 1988, p. 181, tradução nossa) O Papa assim como todos arcanos tem seus aspectos negativos como um guru ávido por riquezas, como o pai abusivo, o maestro injusto e o perverso. Seu cabelo branco está impregnado de pureza, mas as duas cintas vermelhas nos indicam que se trata de uma pureza ativa. Uma parte da barba também é branca, mas ao redor da boca adquire uma cor azul céu, como indicando que a palavra do Papa é recebida. Poderia se ver também a marca de um sigilo inexorável: mestre ou professor, sacerdote ou profeta. O Papa não pode transmitir tudo, conserva uma parte em segredo, algo indizível, como o ensinaram. (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p. 178, tradução nossa) Palavras chave: sacerdote, guru, sincero e falso, dogma, o pai frente a seus filhos, benção, mostrar a via e união. Do Papa avançamos para uma carta bem intrigante que é O Enamorado. O Enamorado O lunático, o enamorado e o poeta são da imaginação. Shakespeare (NICHOLS, 1988, p.185, tradução nossa) O Enamorado marca a carta número seis e apresenta um problema bem humano: um homem complicado entre duas mulheres.
20 Pela primeira vez a imagem da carta não apresenta uma imagem gigantesca e apresenta um ser humano normal que enfrenta o mundo e seus cíclicos dilemas. Fica evidente que o jovem está comprometido com as duas mulheres. Uma delas desperta sua paixão sexual, enquanto a outra o inspira sentimentos secretos. De qualquer modo as duas exercem atração no jovem “enamorado”. A simbologia das duas mulheres vai para além das primeiras impressões mundanas e é metafórica no ponto de vista das escolhas e caminhos a se seguir: “Pois a mais respeitável das duas, a que leva a cabeça coberta, a nossa esquerda, pousa sua mão de maneira possessiva sobre o ombro, enquanto a ruiva de nossa direita parece apontar com a mão, perto de seu coração” (NICHOLS, 1988, p. 186, tradução nossa). Por cima dos três há um personagem importantíssimo dessa trama: um arqueiro com asas que aponta sua flecha para o coração do rapaz. Os três não percebem a presença do ser alado. O jovem está muito envolvido em seus impulsos e conflitos interiores e exteriores. A carta se presta a várias interpretações como a eleição, a escolha de vida que é simbolizada pelas duas mulheres. Cada uma com seus aspectos culturais arraigados. Outra óptica, é o caminho para a individuação termo usado por Jung para caracterizar o encontro do ser em sua forma mais legítima, sua identidade. A compreensão da totalidade preservando a individualidade. O Imperador depois da missão do Papa tem uma tarefa mais difícil, a de harmonizar a vida emocional com a espiritual, pois seu grande poder é a razão: Poderia dizer que o Papa do Tarot oferece inicação para a vida do espírito. Nesta carta o desafio é de conectar esta vida espiritual com a vida emocional e através do compromisso apaixonado com toda a vida, conseguir uma nova relação com os demais e uma nova harmonia consigo mesmo. (NICHOLS, 1988, p. 192, tradução nossa) E o cupido, o que manifesta seu simbolismo nesta carta? Esse ser angelical nos é uma imagem muito comum: O Eros alado que vemos nessa carta é uma poderosa figura pré-olímpica e tem pouco a ver com o anjinho cheio de laços que nos mostram no dia de São Valentim, dia dos namorados. Eros era um personagem mais ambivalente, semelhante ao destino, símbolo de poder de atração fatal que une os opostos. Segundo Hesíodo: ele atraiu entre si as forças primárias que criaram o universo, trazendo harmonia ao caos, fazendo possível toda vida. Ele é o espírito, a encarnação do impulso vital. (NICHOLS, 1988, p. 193, tradução nossa) Se conta na mitologia grega que Eros é o deus do amor, mas como potência sexual, o deus Eros pode trazer guerra, transtornos aos modelos de lei e ordem e tudo isso para abrir portais para uma nova vida. O ponto significativo é que essa carta denota a função da escolha em meio muitas interpéries. Seja o que seja o que O Enamorado escolha deve levar consigo a consciência de quem é para não se perder entre tentações e motivações externas. O momento dessa carta traduz um tempo de esperanças, porém fatal. O número seis é dito por Pitágoras como o primeiro número perfeito. Segundo Nichols, “Pitágoras o chamou “primeiro número perfeito”, posto que suas partes alíquotas (um, dois e três) se somando dão como resultado ele mesmo” (NICHOLS, 1988, p. 196, tradução nossa). O número seis é também um número de consumação, está ligado à estrela de 6 pontas onde se entrelaçam entre o macro e microcosmos, os elementos e o feminino e masculino. Na carta se apresenta o nome “AMOVREVX”.
21 A ortografia de “AMOVREVX” com o V no lugar do U cria um vínculo visual e sonoro com a palavra “Deus” no arcano XVI A Torre (LA MAISON DIEV). Poderia dizer que o sol, que derrama seus raios sobre a cena, representa o grande “enamorado “cósmico, a divindade como fonte do amor universal que nos conduz ao amor consciente e incondicional. O pequeno Eros lhe serve de mensageiro e nos sugere, ao estar representado com características de criança, que esse amor se renove constantemente”. (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p. 186, tradução nossa) Palavras chave: vida social, alegria, triângulo amoroso, escolha que deve fazer, disputa, terreno, nova união, amor consciente. Depois dessa trama chegamos no O Carro. O Carro O Self usa da psiquê individual como meio de transporte. O homem é conduzido, por assim dizer, através do caminho da individuação. Jung (NICHOLS, 1988, p. 199, tradução nossa) O que seria Self? Nosso verdadeiro eu em comunhão com a unidade: Self representa o objetivo do homem inteiro, a saber a realização da sua totalidade e de sua individualidade, com ou contra sua vontade. A dinâmica desse processo, é o instinto, que vigia para que tudo que pertence a uma vida individual figure ali, exatamente, com ou sem a concordância do sujeito, quer tenha consciência do que acontece, ou não. (JUNG, 1916, p. 219, apud HUMBERT, 1985, p.116) O veículo que se apresenta na carta está levando seu personagem rumo à individuação que é o alcance da consciência sobre o coletivo, preservando a individualidade. Tornar-se único, consciente do seu papel na sociedade e do seu caminho particular. A viagem indicada pelo Carro e tudo que denota movimento, expressa uma viagem exterior, mas que o destino é a auto - descoberta. Cada viagem nos enche de descobertas, experiências e renovações nas perspectivas de vida. O jovem tem uma coroa dourada que denota que o personagem é de origem real por nascimento. É puxado por dois cavalos, cada um uma expressão facial e os movimentos para um sentido. De acordo com Nichols, “estes cavalos podem simbolizar os pólos positivo e negativo da energia animal tal e como existem em toda natureza.” (NICHOLS, 1988, p. 201, tradução nossa).
22 Portanto todos juntos avançam, mas as dificuldades sempre aparecem. É preciso saber conduzir e se guiar pois o jovem está dirigindo um veículo inseguro cujo os cavalos se destinam para lados diferentes. É como quando estamos confusos entre o caminho do ego, da identificação exterior e o caminho da consciência o que nos faz legitimar e perceber nossa autenticidade. Em qualquer caso é uma carta que avança para o êxito. Seus únicos perigos são a imprudência e a inflexibilidade do conquistador que não duvida da legalidade de sua conquista... O carro incita também a se perguntar sobre os meios de ação que se utiliza sobre o mundo e o modo como dirige sua vida. (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p. 191, tradução nossa) O Carro em síntese é o início da caminhada para o auto-conhecimento. Palavras chave: dinamismo, conquistador, vitória, mensageiro, guerreiro, viagem, ação sobre o mundo. Agora vamos visitar a carta, A Justiça, que se situa no início do reino do equilíbrio. A Justiça O equilíbrio é a base da grande obra Máxima alquímica (NICHOLS, 1988, p. 217, tradução nossa) A primeira fileira do Tarot como dito antes é a representação do reino dos deuses que termina no arcano do Carro, agora se inicia a fila do reino do equilíbrio que começa com o arcano feminino da Justiça. Este arquétipo da justiça alude a união harmoniosa entre as forças opostas, e sentada sobre um trono essa figura representa o sobre-humano poder feminino. Sustenta uma espada e leva um casco de guerreiro para indicar que o discernimento masculino e a coragem também estão presentes em sua missão. O simbolismo da espada de ouro erguida pela justiça é o sacrifício, também o sacrifício de ilusões e pretensões. É o poder do discernimento. Algumas vezes leva os olhos vendados para que sua imparcialidade não seja comprometida por considerações pessoais. A balança é de suma importância para compreendermos a união das polaridades. O trânsito dos opostos e dos pólos: “O modo como os dois pires se opõem entre si ilustra o sentido original da palavra ‘oposto’, o qual se refere unicamente a colocação do espaço. Em sua origem, essa palavra não tinha implicações de hostilidade nem de conflito; supunha relação” (NICHOLS, 1988, p. 222, tradução nossa). Os opostos podem atuar juntos de maneira criativa, e a balança mesmo mantendo os pires separados se encontram-se unidos pela barra de ferro, que como uma dança vão se equilibrando em um movimento contínuo formando o movimento do infinito. A Justiça nos olha de frente, pois a justiça empregada será nascida de seu mundo interior.
29 Palavras chave: revolução, fim de uma ilusão, purificação radical, transmutação, movimento essencial, limpeza e violência. O arcano quatorze é A Temperança. A Temperança Cada fibra de erva tem seu anjo que se inclina sobre ela e sussurra: cresce, cresce. Talmud (NICHOLS, 1988, p. 345, tradução nossa) Essa carta representa uma anja mulher, que com suas vasilhas uma vermelha e a outra azul tenta restabelecer o equilíbrio entre as partes da vida. Como a carne e o espírito, o feminino e o masculino, yin, yang, consciente e inconsciente, ela é a mestra, a juíza dos mundos: “Como qualquer situação conflituosa, um primeiro passo criativo para a resolução é encontrar um árbitro, alguém cuja sabedoria e compreensão possa abarcar ambos aspectos. A alada temperança, que sustenta com igual interesse o vermelho e o azul, são esta figura” (NICHOLS, 1988, p. 346, tradução nossa). Suas asas bem grandes e sua estrela central na testa que representa sua terceira visão, a visão espiritual, já mostram que esse ser está além das condições mortais. Nas histórias bíblicas os anjos aparecem como anunciantes de revelações transcendentais. O anjo da temperança aparece anunciando a necessidade do equilíbrio, mas se apresenta de pé, firme sem nenhuma dramatização. O equilíbrio é representado pelos líquidos que estão nas vasilhas. Mundos que se entrelaçam formando um infinito. Sinal que o trabalho da harmonização é eterno. A Temperança é alada, mulher com asas: “O anjo que realiza essa alquimia se chama com razão Temperança.Templar significa: Conduzir a um estado desejado por adição ou fusão.” (NICHOLS, 1988, p. 354, tradução nossa). Muito significativamente, ATemperança é o único ser alado que desce a terra para enfrentar os seres humanos, á que o ser alado da carta do Enamorado permanece no céu. A Temperança é a mensagem do elo entre o terrenal e o divino, a terra e o céu. O movimento dos líquidos das vasilhas que leva nas mãos representa esse ciclo alquímico e não findo. A alquimia existe na transição das realidades que se fundem e nunca terminam: “Temperança indica o restabelecimento da saúde, o equilíbrio mental e emocional, o controle das paixões não por repreensão, mas pela sublimação.” (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p. 234, tradução nossa) Palavras chave: saúde, equilíbrio dinâmico, viagens, reconciliação, comunicação consigo mesmo, cura espiritual, mudanças, fluxo de energias. Do doce e sutil arcana, partimos para o temido arcano, O Diabo.
30 O Diabo Você tem desprezado e não se pode esquecer que um sujeito tão odiado deve ser algo. Goethe (NICHOLS, 1988, p. 361, tradução nossa) Chegou o momento de enfrentar o Diabo. A maioria dos relatos sobre Satã, é que o mesmo foi despedido do céu. Seu pecado como contam, era o orgulho e a arrogância devido a sua natureza despótica, extremamente ambiciosa. Organizara inclusive a rebelião dos anjos nas costas do chefe. Se sentia muito especial e tinha muitos ciúmes da humanidade, gostava de pensar que era o filho predileto de Deus. A tentação é, e segue sendo sua especialidade: Se apresenta a si mesmo como um absurdo conglomerado de partes. Leva chifres de cervo enquanto tem os pés de ave depredadora e asas de morcego. Se refere a si mesmo como um homem, mas tem peito de mulher ou quizá, melhor dito, o leva, pois tem o aspecto de algo pregado ou pintando nele. (NICHOLS, 1988, p.362, tradução nossa). Essa armadura que leva com traços femininos, pode lhe servir pouco, mas simbolicamente nos faz refletir que O Diabo pode usar de formas femininas para penetrar em nossos jardins, como na história de Adão e Eva que a tentação é destinada a presença do Diabo na história. A imagem do Diabo foi se humanizando ao longo dos tempos, e isso simbolicamente significa que a humanidade está mais preparada para ver os aspectos sombrios que cada um leva: “Esse estranha besta que levamos dentro e que projetamos no Diabo é, depois de tudo, Lucifer, o portador da luz. Ele é o anjo, ainda caído, e tem a mensagem de Deus. Compete a nós ter contacto com ele. “ (NICHOLS, 1988, p. 366, tradução nossa). Os dois personagens que estão por debaixo do Diabo, conectados por uma corda são os escravos remanescentes dos ajudantes do mago que colaboram com ele, intactos e sorrindo. Não se movem e estão inconscientes do papel do Diabo: <<O mal é algo que fazemos para devolver>>. Passará algum tempo antes que os escravos da carta do Tarot assumam a responsabilidade dos atos que cometem. Tem que ocorrer um verdadeiro cataclismo, como o da carta que veremos na continuidade, antes que um raio de luz lhes permita ver seus largos rabos, interrompendo desse modo sua autocomplacência. (NICHOLS, 1988, p. 368, tradução nossa). O Diabo, portanto, se apresenta de muitas formas, é também sinal de oportunidade e criatividade. Leva a luz em sua tocha, mesmo que segure a espada de forma sem consciência, abusando do poder. O Diabo é divino e está presente em todas as esferas, é o equilíbrio das forças:
31 Todas a religiões orientais consideram o aspecto demoníaco como parte da divindade. Na iconografia Hindu Budista, inclusive as figuras mais malévolas se representam com uma mão levantada que parece dizer: ‘Não temas’, de maneira que a ideia de aparição seja outra forma de Maya, uma das mil caras de Deus. (NICHOLS, 1988, p. 371, tradução nossa). Na carta estão presentes três personagens e todos com chifres: Os Três personagens levam chifres, que indicam esse arcano antes de tudo como o da paixão: paixão amorosa, paixão criadora. Esta carta contêm todas as potências ocultas do inconsciente humano, tanto as negativas como as positivas. Também é a carta da tentação: uma chamada a busca do tesouro oculto, da imortalidade e da energia potente que encerra o psiquismo, necessária para qualquer obra humana. (NICHOLS,1988, p. 240, tradução nossa). O Diabo se não alimentado, no sentido criativo, nos aborda pelas costas nos fazendo uma desagradável surpresa. Ele é um portador de Deus, espelho de nossas atitudes, potência criativa. Palavras chave: dependência, carácter, possessivo, adoração, tentação, potencialidades ocultas, crueldade, grande criatividade e paixão. Do temido Diabo, passamos à narrativa simbólica para a carta: A Torre. A Torre Eu sou o senhor e não há outro. Eu formo a luz e crio a escuridão. Eu faço a paz e crio o mal. Eu, o senhor, faço todas as coisas. Isaías (NICHOLS, 1988, p. 391, tradução nossa) A carta dezesseis representa dois personagens humanos caindo de uma torre. Parecem muito assustados, mas não se machucaram. A torre não foi demolida, foi uma chama de fogo, uma luz extremamente forte que se chocou com a coroa que servia de telhado e lançou os moradores para fora. Essa torre pode ser comparada a famosa Torre de Babel, um edifício construído na Mesopotâmia que tinha como projeto chegar aos céus. Mas esse ato produziu a ira de Deus e o resultado disso foi a confusão de línguas na terra. A conexão é possível no ponto de vista que esses dois personagens presentes na carta, também instigaram a ira do céu e por isso foram lançadas ao chão. Essas duas pessoas foram libertadas de um encarceramento e certamente o efeito desse raio que abatera o telhado da torre, é mágico:
32 “Os poderes mágicos deste raio nos é revelado pela chuva de bolas multicores que se desprende e que nos lembra as que usam os magos e malabaristas. Indicam que passe o que passe, é um feito milagroso e organizado por um grande mago” (NICHOLS, 1988, p. 392, tradução nossa). Os envolvidos nessa situação só conseguem perceber a desestrutura, mas com o tempo perceberão o início de uma nova vida marcados por essa queda. A Torre, portanto, significa nossas prisões mentais, padrões comportamentais, convicções, certezas, construções sobre o mundo, que em um determinado tempo desmembram pela necessidade de serem rompidas, quebradas, mexidas para que haja novas percepções e perspectivas sobre a vida. De início ficamos receosos, chateados, deprimidos com a brutal mudança, mas depois percebemos a bênção da luz que abatera sobre nós: “A entidade fulgurante que surge da torre ou penetra nela, chamada pássaro de fogo ou relâmpago, está unida a coroa almenada: não há destruição, sim transformação do poder material em fulguração espiritual” (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p. 248, tradução nossa). Palavras chave: liberação, despertar, ruptura, mudança, prosperidade, dança, secreto revelado, abertura, revelação. O caminho da iluminação se abre para a intervenção do arcano: A Estrela A Estrela Céu em cima Céu embaixo Estrelas em cima Estrelas embaixo Todo o que está em cima Também está embaixo Pegue E alegre-se! Texto alquímico (NICHOLS, 1988, p. 407, tradução nossa) A carta da estrela é a primeira a apresentar seu arcano nu. A simbologia evocada é a libertação dos padrões sociais, a conexão Com os elementos da natureza e a revelação de sua natureza original. A mulher que encena na carta, está de joelhos ao lado de um rio com duas vasilhas vermelhas, uma em cada mão. De um lado a água escorre para o rio, de outro e absorvida pela terra. Suas jarras recordam as jarras da Temperança, conectando-as nos poderes arquetípicos. De facto, é uma personagem bem humana, diferente da Temperança que leva asas. Sua postura é de humildade, introspecção, mas tem a leveza de uma criança ao sentar e observar as águas do riacho. Sua postura e gesto sugerem humildade, um modo de ser muito distinto das pessoas que se sentem humilhadas pela queda que provocou o choque do
33 raio contra a torre: aquela humilhação que experimentamos todos quando uma imagem própria e querida cai do pedestal. Como todos sabemos a transformação trabalhosa que produz essa dolorosa humilhação conduz a uma humilde aceitação de si mesmo, é um trabalho duro que as vezes requer ajuda sobrenatural. (NICHOLS, 1988, p. 408, tradução nossa). A Estrela é uma grande visão de plenitude que surge do mais íntimo e profundo de cada ser. A luz da estrela não cega nem destrói o ser humano. As estrelas estão relacionadas com a imortalidade, como em algumas lendas que nos contam que quando alguém morre, se torna uma estrela no céu. A serenidade da Estrela nos invoca a refletir sobre o silêncio, as dores, a gratidão e o crescimento interior, assim também como a simplicidade e a autenticidade de se enfrentar e se movimentar pela vida. A mudança depois do sofrimento nos é apresentada. As facetas da vida se regeneram e os olhares e posturas sociais e psíquicas passam por um processo misterioso, talvez algo como mágica. É o fortalecimento das crenças mais legítimas, o eco da chamada interior: À medida que cresce a importância do mundo interior, decresce o valor dos significados dos mistérios públicos da antiguidade. Possuir um mistério de estatura, fornece identidade e assegura que não se verá submerso na massa… O mistério é algo essencial para a experiência de cada um como personalidade única, distinta de outras, e para o crescimento através dos conflitos repetido. (NICHOLS, 1988, p.426, tradução nossa) Tudo se torna claro e exposto, humilde e verdadeiro: Estou no mundo, sou do mundo, atuo no mundo. Estou em mim, sou minha, atuo em mim. Separada e unida ao mesmo tempo, ínfama engrenagem de uma máquina cósmica, colaboro, recebo me doo, absorvo e compartilho. Minha nudez é completa, nenhum princípio me guia, não mais que a lei natural. (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p. 256, tradução nossa) Palavras chave: sorte, verdade, mulher fecunda, êxito, nostalgia, ação altruísta, fonte, ferida no joelho, amante ideal e generosidade. Da Estrela e toda sua doçura e estado de generosidade, partimos para a enigmática arcana celeste: A Lua. A Lua Um lugar selvagem, tão sagrado e encantado como nunca antes sob a lua minguante, visitará uma mulher se lamentando por seu demoníaco amante. Coleridge (NICHOLS, 1988, p.433, tradução nossa)
34 A carta dezoito é representada com uma atmosfera noturna, cheia de mistérios. Uma paisagem desolada, iluminada pela escura luz da lua. Por debaixo d’água vemos um caranguejo que parece nos ameaçar e na terra dois cachorros a ladrar furiosos. A lua é uma deusa bruxa oculta no azul céu, do despedir do dia: É a escuridão da lua. Tempo de mistério, maravilha e terror. É a hora assombrada em a que Hécate assusta os caminhantes e seus cachorros vigilam uivando. Não se vê nenhum deus, nenhum ser humano. Estamos perdidos, inclusive, a gente mesmo. No fundo da água espreita o caranguejo com suas garras abertas. Nos atrevemos a cruzar ou esta criatura monstruosa nos alcançará e nos puxará por trás? A lua nos olhos desce, silenciosa. Que feição leva? Quem sabe a do Louco, pois leva um colar de cores do arco íris igual ao do nosso bufão, nos recordando com ele que a Lua tem uma relação com o bem-estar do homem. (NICHOLS, 1988, p. 443 tradução nossa). A Lua representa também a mente, as emoções, as profundezas da psique e se revela a curiosidade intelectual do ser humano. Sua essência é a reflexão que vem com a noite. Teme que o homem envenene sua natureza, como fez sempre com a mãe terra, explorando e maltratando. A lua parece nos perguntar, nos questionar sobre nossa própria existência e o existir do mundo. Questiona porque se atreve o homem a desvendar os mistérios do céu, quando, todavia, ainda não desvendou seu habitat interior. A Lua é nosso inconsciente, mente, sente, reflete. Essa carta vem nos indagar mais do que nos dar respostas. A Lua é um arquétipo celeste feminino e suas várias facetas: “Esta carta remete em geral ao mundo de mãe. A todos os aspectos do inconsciente, a intuição, do mistério íntimo do ser” (JODOROWSKY; COSTA,2011, p. 262, tradução nossa) Palavras chave: intuição, noite, sonho, superstição, poesia, adivinhação, loucura, solidão, segredo, depressão, oceano, receptividade, verdade oculta, gestação, arquétipo maternal cósmico. Da noite escura do brilho da Lua, chegamos no refulgente brilho do arcano do O Sol. O Sol Nem confuso nem vermelho, como a própria cabeça de Deus, se elevou o glorioso sol... Coleridge (NICHOLS, 1988, p. 451, tradução nossa) A carta do Sol nos apresenta uma cara humana benevolente, similar as apresentadas nos manuscritos alquímicos, onde o sol personificava a compreensão dourada: “O sol do Tarot possui características humanas, com as quais o homem pode estabelecer uma relação consciente. O motivo dessa relação humana está destacado pelos dois meninos que jogam juntos amigavelmente” (NICHOLS, 1988, p. 451, tradução nossa). Essa carta é um convite ao entendimento da infância solar, onde a vida não se apresenta como um desafio, mas como uma experiência a se gozar. Um lugar de se retomar a espontaneidade perdida para que possamos descobrir de novo a harmonia interior que está dentro de nós, não necessitamos buscar tão longe como pensamos: “Não é um país distante
35 que encontremos nos céus, mas simplesmente uma nova maneira de experimentar o mundo conhecido.” (NICHOLS, 1988, p. 452, tradução nossa). O Sol representa a reconexão do ser consigo mesmo, encontrada principalmente na primeira infância. Fase de pura manifestação sincera do ser. Muitos povos adoram o Sol, como os egípcios, astecas, incas e hindus. Nas culturas matriarcais o sol é visto como feminino, e nas patriarcais dão-lhe atributos marculinos, o pai. Mas em todas as culturas o sol é visto como o portador do valor interior do ser. Quem nos identifica a responsabilidade divina. Os índios adoram todos os elementais e os seres, e para eles o sol é o grande pai fecundador da vida. Nichols dá como exemplo o que escutou de Jung sobre a cultura oral e conhecimento dos povos indígenas: Aquele que vai por aí (lhe explicaram indicando o sol) é nosso pai. Temos que ajudar cada dia a que se levante sobre o horizonte para caminhar pelo céu. Não fazemos isso pela gente somente, o fazemos pela América, também por todo o mundo. E se esses americanos interferem como nossa religião, com seus missionários, verão o que passa. Em dez anos o pai Sol já não se levantará, posto que não poderemos ajudar-lhe a fazer-lo. (NICHOLS, 1988, p. 460, tradução nossa). Esse trecho explicita muito bem como o homem ocidental cortou seus laços com a natureza e o deterioramento surgiu para ambos: humanidade e natureza. Segundo a autora “todos os seres nasceram iluminados, iluminados, mas necessita uma vida inteira para descobrir Buda, o iluminado”. (NICHOLS, 1988, p. 461, tradução nossa). No ponto de vista de Jodorowsky: Neste arcano, três cores se repetem no céu, sobre a terra e nos humanos. O amarelo central do sol e dos raios retorcidos se reflete nos ladrilhos do muro e no cabelo dos protagonistas, como indicando que a mente se une a luz. O vermelho dos raios retos se corresponde com as fileiras superior e inferior dos ladrilhos e com o colar dos protagonistas. Os olhos do astro são brancos com pupilas negras, como os dois personagens que domina e como a terra purificada da direita. (JODOROWSKY; COSTA,2011, p.266, tradução nossa) O Sol nos olha de frente, é a obtenção de um êxito, elitização de muitos âmbitos da vida, deixando para trás o passado. Entretanto é válido recordar que o excesso de sol torna as paisagens áridas. Palavras chave: amor recíproco, fraternidade, ajuda mútua, união feliz, nova vida, associação, riqueza, pai ausente, rivalidade, arquétipo paterno cósmico, solidariedade, irradiação, pai ideal, construção. Após a presença do Sol e suas várias formas expressivas de se manifestar, nos deparamos com O Julgamento. O Julgamento Vou a revelar-los um mistério: Não todos dormiremos, mas todos seremos transformados em um instante, em um abrir e fechar de olhos, ao último toque da trombeta. A trombeta soará e os mortos ressuscitarão incorruptos e seremos transformados. Pois é necessário que essa natureza parecedera, se vista de incorrupção e esta natureza mortal se vista de imortalidade. I Corintios 15,51
36 (NICHOLS, 1988, p.465, tradução nossa) Neste arcano vinte, O Julgamento, vemos um grande anjo com uma trombeta carregando uma bandeira com uma cruz de ouro. Debaixo do anjo, três seres humanos nus, dos quais um deles, ao centro, surge de uma tumba. Essa carta faz uma alusão ao “Juízo final”, narração bíblica, que diz que ao som da trombeta de Miguel, os justos serão chamados para a vida celestial, enquanto os condenados serão enviados ao inferno. Os justos, no caso da iconografia dessa carta não se relata, não se explicita que irão para uma vida imortal nos céus, mas se destinam para a renovação de suas vidas em plano terreno. Uma nova dimensão do conhecimento. O som da trombeta é o despertador dos homens, a iluminação em chamado sonoro: Erguidos aos lados da tumba aberta, um homem e uma mulher recebem ao recém aparecido, em uma atitude de oração de ação de graças. Dão as boas vindas aquele que estava morto (enterrado no inconsciente) de regresso a uma nova vida. Não se percebe do que se trata de um parente próximo dos dois. Agora a trindade terrestre está unida outra vez. A figura angelical completa o quarteto unindo o céu e a terra para formar uma nova realidade. (NICHOLS, 1988, p. 467, tradução nossa). O Julgamento anuncia o começo de uma nova ordem, o renascimento de uma nova interação entre o consciente e o inconsciente: “Quando alguém renasce, todos os que rodeiam despertam a uma nova vida.” (NICHOLS, 1988, p. 468, tradução nossa). O tema da carta passa pela morte e o renascimento; A morte do velho ego e sua ressurreição para uma nova forma. As simbologias presentes na carta são peculiares e precisam ser lidas com atenção: A bandeira que mostra o anjo apresenta uma cruz de cor carne, sobre o fundo laranja dividido em quatro quadrados, os quatro elementos da natureza ou as quatro energias simbolizadas depois pelos quatro animais do O mundo (XXI). Se pode pensar que a cruz de cor carne indica a vocação do ser humano de conviver horizontalmente no mundocom a união do andrógino essencial entre a esquerda e a direitae verticalmente da terra ao céu. (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p. 272, tradução nossa) Todas as energias do Tarot se concentram nesta carta, pois é marcada pelo nascimento marcado por um princípio feminino à esquerda e um princípio masculino à direita. A unidade, a chamada da consciência suprema representada pelo anjo e seu chamado. Palavras chave: vocação, chamada, nascimento, renascimento, consciência, obra, união, família, transcendência, música, emergir, suscitar. Enfim, agora se apresenta o último arcano maior, a carta vinte e um do Tarot de Marselha: O Mundo. O Mundo No quinto ponto do mundo que gira. Não era carne nem estava sem ela; Nem vinha nem ia ate ... ao quinto ponto do mundo, ali estava a dança Mas nem presa nem em movimento.
37 T.S Elliot (NICHOLS, 1988, p. 481, tradução nossa) Chegamos ao ápice da larga viagem dos arcanos maiores. Neste arcano podemos observar um bailarino envolto em uma coroa de ramas vivas e cruzadas. Ao redor, nas esquinas da carta podemos observar um leão, um boi, uma águia, e uma figura angelical com sua aura. O dançarino parece ser uma mulher por apresentar peitos, mas ao analisar suas pernas robustas, vemos que é um ser andrógino indicando a integração do masculino e do feminino. Sustenta duas varas, uma em cada mão indicando os pólos de energia positiva e negativa que harmoniza e contrabalanceia. Segundo Nichols: A guirlanda não é a serpente que morde o rabo, o uróboros do caos primário. Sua forma é elíptica. Um círculo fechado sugere o ventre dentro do qual está contido o feto entre o líquido aminiótico. Uma elipse recorda a vulva ou os lábios da vagina, entre os quais, com o nascimento de um novo ser, agora completo, emerge um mundo novo de luz e ar. (NICHOLS, 1988, p. 483, tradução nossa). Nos faz lembrar também uma semente, um ovo e os movimentos dos planetas e tudo aquilo que gira infinitamente gerando vida. O mundo, a alma do mundo, os quatro elementos, em corpo se sabendo espírito: “Um espírito novo entra em contato com a figura e esta dança enquanto o espírito se move. A figura fica contida dentro do espaço sagrado, onde a realidade se põe em contato com a eternidade. “ (NICHOLS, 1988, p. 484, tradução nossa). A dança representa o ato de criação. Em muitas culturas a dança e a beleza são formas de contemplar a vida e todo seu movimento cósmico, molecular; as partículas que se encontram e geram o movimento infinito da existência. O bailarino da carta não está preso nem no passado nem no futuro, está no infinito agora, mutável e dinâmico fazendo sua dança em honra ao mundo. Não está preso a nenhum limite. Na carta estão representados a totalidade da criação. A terra, as plantas, os animais, as aves, o ser humano e o anjo. O mundo celestial. O personagem que se encontra ao centro dessa forma circular, é um ser que representa toda humanidade: “A figura do centro não é nenhuma de todas estas, já que, sendo andrógino, abarca mais que isto e transcende a vulgar humanidade”. (NICHOLS, 1988, p. 487, tradução nossa). Os quatro elementos laterais mais o ser ao centro se tornam cinco. A quintaessencia, um estado do ser além das quatro dimensões da realidade. É o contato e a representação do mundo espiritual, o éter, quinto elemento. Reconhecer a totalidade é a missão do mundo: Só há um milagre nesse mundo, e este é o renascer da parte até a totalidade. A individuação significa estar totalmente revelado como pessoa total, não perfeita, mas sim completa. Como ser sem idade definida, este bailarino existiu antes que o fizera homem, representando a essência deste, não uma meta que nos faz sinais de fora, mas sim como uma emanação que desprega de dentro. Nele, o espírito está encarnado em carne espiritualizada, de maneira que os dois possam atuar a unissonância como um só. (NICHOLS, 1988, p. 490, tradução nossa).
38 Os alquimistas frequentemente representavam uma persona feminina dentro de uma mandorla e deram o nome de “anima mundi”, a alma do mundo. A concebiam como uma força oculta e motriz que animava todos os corpos; estrelas, animais, plantas e os elementos da terra. Era tarefa dos alquímicos liberar “anima mundi” de seu encarcelamento na primitiva natureza inconsciente. De acordo com Nichols, “a ideia do ‘anima mundi’ coincide com o inconsciente coletivo, cujo centro é o self. É a guia da humanidade, que a sua vez, é guiada por Deus”. (NICHOLS, p.492, 1988, tradução nossa). Significado das figuras laterais da carta: O Touro representa a terra, taurus, a estabilidade, paciência, perseverança e substância pura. Está relacionado com o evangelho de São Lucas, já que está marcado o trabalho de Cristo feito na terra. O Leão representa o fogo, Leo, a criação, o espírito encarnado e a ressurreição. Se relaciona com São Marcos. O Anjo representa o ar, aquário, a relação ideal, a busca da verdade, a fraternidade universal e a relação do conhecimento perfeito e forma perfeita. Se relaciona com São Matheus, e aparece em forma humana, pois São Matheus é quem oferece a geneologia de Cristo. A Águia representa a água e escorpião, (é o escorpião ressuscitado). Representa o poder emocional, a morte a a regeneração; e se relaciona com São João. Sua preocupação principal foi a inspiração e a natureza divina de Cristo. Estas figuras ajudam a representar simbolicamente o todo, que também somos nós, os co-criadores do universo. O Mundo parece ser o fim da Jornada, mas na verdade representa o ápice da conquista da jornada arquetípica, a unidade; a conquista de todas as batalhas internas e externas que ao passar do tempo e de toda reflexão acerca da existência, começamos a perceber a viagem para dentro de nós mesmos como o trajeto real para o alcance do prazer legítimo, e a compreensão sobre a vida para além da carne. O mundo vem nos comunicar: “Aqui estou, perante vocês, ao redor de vocês e em vocês, com imenso prazer. Sou um ser completo. Não há em mim nada que resista. Tudo é unidade. “ (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p.280, tradução nossa). Eternamente ensaiando para estarmos prontos, e prontos estamos em muitos ápices da vida. Seguimos o não findo caminho. Palavras chave: realização dos potenciais, reunião, final feliz, sexo feminino, expansão máxima, parto, nascimento, êxito, plenitude, orgasmo, sentimento de fracasso, ovo cósmico, egocentrismo, perfeito acordo.
45 pelo contrário, a inutilidade das suas obras. A afirmação da personalidade desenvolve, assim simultaneamente aspectos positivos no capítulo da realização e aspectos negativos no âmbito da moral… (FOSTER, 2014, p. 114) Dessa forma O Mago e o Diabo com seus poderes de criação e criatividade, se unem com suas possibilidades. O Sol e A Lua “A Lua ” e “O Sol” Fonte: Tarot de Marselha O Sol vem nos comunicar: “Me renovo sem parar. Enquanto me consumo, vou dando calor a cada pedacinho de erva, a cada animal, a cada ser vivo sem excessão. Aceito que a isso se chame amor. Desapareço e volto cíclicamente. “ (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p. 268, tradução nossa) A Lua vem nos comunicar: Me pedes que me explique, mas estou muito longe das palavras, da lógica, do pensamento discursivo, do intelecto ... me encontro em um estado secreto e invisível, sou o mistério de onde acontece todo conhecimento profundo, quando mergulhares em minhas águas silenciosas sem pedir nada, sem tratar de definir nada, fora de toda luz. Quando mais entrares em mim, mais os atrairá. Não há nada claro em mim. Não tenho fundo, sou todos os matizes, me estendo no reino da sombra. (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p. 262, tradução nossa) O Sol e a Lua nos dão a vida, os ciclos o tempo. Podem ser conhecidos em muitas culturas como Sol, Deus Pai, e Lua, Nossa Mãe. O sol tem um carácter luminoso, o de levar luz em todos os lugares. Afago, despertar de consciência, calor, nutrição, auto-conhecimento. O Sol é um arquétipo celeste, nos trazendo a simbologia da realização interior; O nosso sol central que nutre todos os tipos de vida, sendo nosso guia e mestre. A Lua está totalmente ligada a estrutura feminina, ao emocional, às águas turbulentas da mente, ao conhecimento profundo, à proteção, ao silêncio e à introspecção.
46 Vive na noite e emana luz de acordo com o ritmo do universo. Cuida das lavouras há séculos e é também uma forma de se conhecer outros arquétipos, como lua nova, lua cheia, lua minguante, lua crescente que orientam os seres, as raízes, modifica energias e também influencia diretamente nas mulheres e todos seus ciclos menstruais e humor. A união do Sol e da Lua é um casamento com várias trocas de polaridades. A Lua é nosso caminho interno de isolamento e silencia, onde há luz é vista com penumbras e sombras. Já o Sol vem alimentar a esperança e nos fazer conectar com nossas facetas, trazendo assim a harmonização. O Sol é a consciência que ilumina o inconsciente, Lua. A escolha estética que encontrei para corporificar essa carta em um ensaio fotográfico tem haver com essas funções: Eu, o corpo da performance levo um Sol nas mãos refletido em um lago, como alusão direta à carta, onde há um caranguejo debaixo das águas noturnas. O nosso inconsciente. Uso um vestido azul marinho, que remete a austeridade da Mãe Lua e à proteção que ela manifesta. Na maquiagem levo o dourado do sol nos olhos, simbolizando a luz do Sol refletida na Lua. Na pós-produção usei efeitos de sobreposição em edição, com os raios coloridos da lua que estão no Tarot de Marselha. O nome dessa carta é “Geradores celestes”, já que são relacionados com a paternidade e a maternidade celestes, além de serem os gestores dos nossos dias. Seu número será o sete. O número setenário é um número muito conhecido pelos místicos e é um número bíblico onde explicita a criação de Moisés e de todas religiões que dai derivam. Há várias formas de compreende-lo, como no plano físico, astral e psíquico. Psíquico, resulta de 4+3. Implica o triunfo do espírito sobre a matéria, chave de grandes realizações e dos projetos conseguidos. É o triângulo sentado sobre um quadrado de pirâmides que manifesta a resistência de uma parte apenas das construções humanas. (FOSTER, 2014, p. 119) Nessa mescla de símbolos e fusão das manifestações arquetípicas, surge uma nova carta, um novo personagem que é Sol e Lua ao mesmo tempo, consciente e inconsciente, masculino e feminino. As fotos são de carácter poético e metalinguístico, já que os elementos e a reflexão da reprodução da imagem são gerados a partir dos elementos das próprias cartas.
47 A Imperatriz e O Imperador “A Imperatriz” e “O Imperador” Fonte: Tarot de Marselha A Imperatriz vem nos comunicar: Sou a criatividade sem finalidade precisa. Estalo em infinidade de formas. ou eu depois do inverno, quem tinge de verde toda a terra. Sou eu quem enche o ciclo de pássaros, os oceanos de peixes. Quando digo criar, falo de transformar: sou eu quem faz que se abra a semente e brote o gérmen. Se começo a fertilizar crianças, posso dar à luz a humanidade inteira. (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p. 168, tradução nossa) Enquanto O Imperador vem nos comunicar: “Sou um chefe, ordeno tudo envolta às minhas leis. Faço reinar a ordem de todas as maneiras, desde a mais suave até a mais feroz.” (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p. 174, tradução nossa). A união da Imperatriz com o Imperador é uma união de opostos complementares. Ou seja, enquanto a Imperatriz vem devastar tudo com sua força emocional e criadora o Imperador chega para colocar ordem no caos. O figurino que vesti, é feminino, representando as facetas da feminilidade, de toda mulher, e sobretudo da mãe geradora, a natureza elegante. Minha posição corporal é igual a do Imperador, para indicar que houve uma manifestação da razão, da lógica e da harmonização dos acontecimentos. Uso um colar amarelo para representar o ouro, a riqueza, e levo nas mãos uma águia, que simboliza a conexão e comunicação entre os dois arcanos. O nome da carta será: “Polaridades”. Seu número será dois: de acordo com Foster, “no campo da psicologia, o dois opõe a inteligência do amor ao amor da inteligência. É por isso que apanha, paradoxalmente, a unidade em qualquer processo de criação.” (FOSTER, 2014, p. 113). Essa fusão é o balanço dos pólos e a reflexão sobre a necessidade do equilíbrio.
48 O Papisa e A Papa “O Papa” e “A Papisa” Fonte: Tarot de Marselha A Papisa nos comunica: “nada pode me desviar do que quero. Eu mesma não quero nada. Obedeço a vontade divina. Não sou indulgente, sou inflexível. Não possuo nenhum segredo, pois estou vazia. Me doou a Deus, que é o único segredo. “ (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p. 163, tradução nossa). Enquanto o Papa nos comunica: “Rejeito toda maldição. Abençôo o que escuto, o que vejo, o que sinto. Chamo o amor, como uma ave de dimensões desmesuradas, para que pouse na pequenez de um coração. “ (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p. 180, tradução nossa). A união da Papisa com o Papa, é análoga. Eles têm uma mesma função em corpos diferentes, um feminino e o outro masculino. Para representar esse elo, usei um pano dourado sobre a cabeça, simbolizando a figura de virgem da Papisa. Em uma mão carrego o livro que leva A Papisa, contento vários segredos universais. Na outra mão, o gesto de bênçãos que O Papa faz. No corpo um vestido branco de noiva para simbolizar o casamento com Deus. No cenário há uma cadeira, que está ainda presente na fotografia, para representar diretamente a carta e seu simbolismo equivalente ao poder. Seu nome será “Shakti Yang”. Shakti em sânscrito significa energia, poder feminino transcendente, feminino sagrado e essencial. É representada por uma Devi, uma Deusa. Yang na cultura, chinesa representa o masculino, sendo o princípio ativo, diurno, luminoso e quente. Seu número será cinco: Foster afirma que “o quinário significa a animação da matéria pela vida. Governa não apenas o conhecimento científico, mas também o místico. É ao mesmo tempo a justiça e o rigor.” (FOSTER, 2014, p. 117). O diálogo entre O Papa e A Papisa é inevitável, tanto plasticamente como filosoficamente. Se complementam, sendo representantes da mesma causa. O encontro do terrenal com o divinal.
49 A Estrela e A Temperança “A Estrela” e “A Temperança” Fonte: Tarot de Marselha A Estrela vem comunicar: “Se digo “Sou” é porque a infinita multiplicidade dos seres e as coisas, encontrei meu lugar no mundo e em mim mesma. É o mesmo. Já não necessito buscar, nem tenho imagem alguma de mim mesma, estou no meu lugar. Aqui e em todas as partes voluntariamente atada”. (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p. 256, tradução nossa). A Temperança vem comunicar: “Me comunico com a natureza e todas as entidades que governam o mundo para que os sejam favoráveis intercedendo os perigos, guiando os intercâmbios. Estou presente no Norte, no Sul no Leste e no Oeste, nos quatro pólos do mundo, para que vivas em total confiança”. (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p. 236, tradução nossa). O encontro da Estrela com a Temperança se dá inicialmente pelo uso dos mesmos elementos nas mãos, jarras que derramam líquidos em formatos harmoniosos, circular e infinito. No caso da Estrela, sua jarra com o líquido está sendo despejado no rio. A Estrela, devolve o que é da natureza para a natureza, fazendo com que a harmonia flua. Sua pose de joelhos na terra à beira do riacho, simboliza sua gratidão em seu aspecto mais íntimo, puro e humilde. É um momento de profunda reflexão. A Temperança faz um jogo rítmico, das fusões das polaridades ao jogar os líquidos de uma jarra para outra. Seu intento é que as energias opostas, os pólos femininos e masculinos e todos outros existentes nos macrocosmos se conectem, gerando a real harmonia dos complementares. Para representar esses dois seres em um só personagem, criei relações primárias com a presença dos líquidos e as jarras. Uso um regador cheio de fios de linha de lã, para representar diretamento os desenhos da carta da Estrela. Nas costas carrego as asas como sinal da magia, da relação angelical de qualquer ser que tem como dom harmonizar, assim como A Temperança. Ao fundo, um horizonte laranja, bem energético tal como a cor induz. No corpo um maiô colorido, como o arco – íris, denotando cada vez mais essa opulência plástica kitsch. A ideia do exagero, é referente a arte Kitsch, que sustenta a maioria das minhas escolhas. Como exemplo dessa estética e pensamento artístico, apresento um Still do filme “Eu matei minha mãe”, que vem me influenciado em minhas criações.
50 Figura 9 - Still do filme: “Eu matei minha mãe” (2009) - Xavier Dolan Fonte: “Eu matei minha mãe” O termo Kitsch é um substantivo com origem no alemão que descreve uma coisa com mau gosto, e alimenta o mundo popular. São vistas como coisas de pouca qualidade e muitas vezes são sentimentalistas ou sensacionalistas. ( https://www.significadosbr.com.br/kitsch: Acessado em 28/07/2016) A concretização dessa linguagem na construção dos personagens, assim como dos outros, se realiza em vários âmbitos da produção. O Nome da carta é “Balanço Estelar” referente ao balanço das águas e a harmonização que conecta os arcanos. O número é quatro: segundo Foster, “O dever comanda a expansão como o gozo da liberdade, ao passo que o direito mantém a servidão. O dever conduz à dedicação, o direto ao egoísmo. O dever é amor e sacrifício, o direito é ódio e abuso. “ (FOSTER, 2014, p. 116)
51 A Justiça e O Julgamento “A Justiça” e “O Julgamento” Fonte: Tarot de Marselha A Justiça vem nos comunicar que “cada instante é justo, perfeito. Da ação elimino, toda intenção subjetiva. Permito que as coisas sejam exclusivamente o que são. ‘’ (COSTA; JODOROWSKY, 2011, p. 198, tradução nossa) E O Julgamento vem nos comunicar que contribui “ (...) com a luz de todos os universos. Minha potência exige que tenhas feito as pazes consigo mesmo, que desde o mais profundo do teu inconsciente tenha começado a crescer uma árvore nova.” (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p. 274, tradução nossa) O Julgamento e A Justiça se encontram juntos para esse novo jogo de mesclas de características, reflexões e simbologias que se encontram primeiramente pelos seus títulos. O Julgamento mora na Justiça, e na Justiça mora o Julgamento. Os dois estão relacionados com a Justiça que se inicia em nosso interior. O nosso reencontro com nossas verdades. A Justiça vem trazer também equilíbrio, como A Temperança. A Balança que leva é ferramenta para suas ações no mundo, que nos faz de uma forma ou de outra encontrar o eixo da constância. Quando encontramos essa Justiça conosco mesmo, renascemos. E o Julgamento é isso: o renascimento de um ser que escuta o som de um representante angelical e sai do seu túmulo, sua caverna regida pela vida antiga em rumo ao despertar para outra vida. A forma que encontrei de representar essa fusão foi colocar meu corpo em uma atitude que remetesse A Justiça e ao chamado da carta do Julgamento. No corpo uso um vestido vermelho para representar a relação direta com A Justiça e o poder do vermelho, e sobre a cabeça, a coroa da Justiça. Na pós-produção foi usada uma imagem retangular da cova da carta do Julgamento, e a trombeta do anjo que anuncia o renascimento, que no caso foi uma mulher e luzes saindo de seus olhos para enfatizar o chamado proposto na carta do Julgamento. O Julgamento e a Justiça co-existem e habitam arquétipos diferentes, mas com uma intenção que os faz conectos: a verdade consigo mesmo, a paz gerada pelo reconhecimento de quem és. Surgiu um personagem construído pelas ideias mais introspectivas e a estética que se encontra com os sentidos de ambos os títulos. O nome será “Tratado sonoro” e seu númeo: oito. Segundo Foster “O octenário é o número da reação e da justiça equilibradora. Simboliza a ressurreição e a harmonia, mas assenta sobre uma dupla revolução. “ (FOSTER, 2014, p. 119)
52 O Carro e A Roda da Fortuna “O Carro” e “A Roda da Fortuna” Fonte: Tarot de Marselha O Carro vem nos comunicar que: “centro de uma espera crescente, invado a dimensão em que o pensamento não se manifesta, todavia, onde na escuridão se gesta a ação pura.” (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p. 192, tradução nossa). A Roda da Fortuna vem nos comunicar: “Cheguei ao limite extremo de mim mesma, plena, mas impedida, em espera de que o capricho divino, a energia universal, o vento misterioso que sopra desde o inconcebível, me faça girar e que em meu centro ecloda o primeiro impulso de um novo ciclo”. (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p. 211, tradução nossa). O diálogo entre o Carro e a Roda da Fortuna é feito primeiramente por mim, pela presença metonímica da roda em ambas cartas. A roda do carro. A Roda da Fortuna. No carro há roda e a roda nos remete ao movimento circular do ciclo da Roda da Fortuna. Na viagem do Carro o caminho é feito pelo guia, um ser de família real sobre uma carruagem com dois cavalos. Cada cavalo se direciona para um lado. Um cavalo representa o ego, a relação com o mundo externo, o outro a alma, a identificação com nossa realidade anímica. O centro da Roda da Fortuna representa o mundo do introspectivo, o mundo mais legítimo e pessoal. A beira da Roda, representa o caminho da projeção no mundo. O que vem de fora, nasce fora e nos confunde dentro. A união dessas associações filosóficas, fez nascer um personagem em posição fetal, fazendo alusão direta à roda, às mandalas, ao movimento, e ao nascimento de uma nova postura. As escolhas que surgem e fazem nossa trajetória ser como são. No figurino usei uma roupa que faz referência ao ser real da carta do Carro, e a esfinge que também usa uma coroa e fica girando na Roda da Fortuna. A posição fetal ganha força na pós-produção, com a sobreposição de uma roda por baixo do corpo, indicando o movimento. A união desses arcanos é de relação simbólica, e plástica. Seu nome será “O kaos circular”.
53 Caos com k, para fazer referência ao termo grego que designa a era primordial da criação do universo. Kaos é o mais velho dos deuses gregos, o gerador de tudo. O seu número será dez. De acordo com Foster “Jamais algo está definitivamente adquirido neste mundo, tudo se transforma, evolui, resolve por ciclos. A estrada gira e o decenário representam a sua perpétua mudança. “ (FOSTER, 2014, p. 120) A Torre e O Enforcado “A Torre” e “O Enforcado” Fonte: Tarot de Marselha A Torre vem nos comunicar: “Se queres entrar em mim, terás que se alegrar, jogar fogo nos caprichos infantis da tristeza e do medo, e se perguntar a cada despertar: ‘Qué fiesta es?’. Sou a alegria cataclísmica do vivo, o permanente imprevisto, a maravilhosa catástrofe”. (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p. 250, tradução nossa). O Enforcado vem nos comunicar: “Sou um coração que late, que impulsiona a beleza para os confins da criação. Me converto em doçura suave em qualquer dor, na incessante gratidão na porta que conduz as vítimas ao êxtase”. (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p. 223, tradução nossa). O par formado pela A Torre e pelo O Eforcado, se realiza inicialmente com as sensações apresentadas em suas simbologias. A queda. Essa imagem incomoda, seres caindo, um ser pendurado. Todos eles gerando agonia do observador que como todos nós nunca queremos cair. O desejo é de sempre se permanecer ileso aos fenômenos, sempre erguido, em pé, sobre as duas pernas, jamais pendurado ou atirado ao chão. Ambas as cartas nos trazem a reflexão sobre estar em outro estado, permitir-se a reflexão, projetarmos então com esse vulcão novos conhecimentos sobre si, e a vida que escolhemos. A forma que elegi para corporificar esse encontro, foi com o uso da trucagem; me estabelecendo como O Enforcado, de pernas para cima e com cordas nos pés. O figurino é referente a junção das duas cartas: calça colorida e casaco masculino. Na pós-produção digital aparece a referência sutil da carta da Torre, que são as bolas coloridas que descem juntos com os personagens da carta. Essas bolas representam a iluminação, novo início e as bênçãos
54 O nome será: “Ilusão dos Sentidos”. Seu número será nove. Foster pontua que “O nonário é o segredo da geração, do mistério e da iniciação. A iniciação não é com efeito, apenas uma geração espiritual, mas literalmente uma regeneração. A inevitável tendencia é que, tal como a geração material, só se realiza bem no espírito. “ (FOSTER, 2014, p. 120) A Força e o Enamorado “A Força” e “O Enamorado” Fonte: Tarot de Marselha A Força vem nos comunicar: “É um caos imensurável que toma forma em meu interior. Em meu ventre se unem um diabo e um anjo, formando um redemoinho de vento. “ (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p. 217, tradução nossa). O Enamorado vem nos comunicar: “Sou um arqueiro recém-nascido que lança suas flechas para tudo o que seus sentidos possam captar. “ (JODOROWSKY; COSTA, 2011, p. 187, tradução nossa). A Força e O Enamorado se encontram juntos, pois encontrei na meta arquetípica dos dois algos em comum. A Força usa da sutileza para amansar o animal feroz que vive dentro de nós. Não usa da força literalmente física, mas da força psicológica e espiritual. A partir do momento em que conseguirmos doutrinar a fera, que está dentro de nós nos deixando inconscientes do nosso auto-controle, podemos nos dizer livres de tais amarras e quase prontos para seguir o caminho da individuação, que é feito em todos os casos pela escolha consciente, e que move a ação. O Enamorado simboliza o início desse processo das escolhas. Do domínio próprio já que pelas costas está sendo atingido pelo ser angelical e nem isso vê. Ao seu lado, duas donzelas tentando o persuadir, para que siga seu caminho com cada uma delas. A partir do momento em que esse jovem decidir se encorajar para o caminho do rompimento de seus próprios padrões e seguir seu caminho, triunfará nele o amor ao mundo e obviamente o auto amor. Assim como A Força, necessita se conter para que alcance mais um passo da jornada do encontro consigo mesmo. O alvo é interno, a flecha nessa análise que faço é o encontro interno, não a paixão avassaladora. Para o nascimento de um novo personagem usando as simbologias dessas duas cartas, permaneci com a persona feminina da força, seu longo vestido, seu rosto leve e tranquilo e nas mãos um arco e flecha do anjo da carta do Enamorado.
61 Figura 13 - Hanna Wilke, 1974, SOS Starification Figura - 14 Hanna Wilke, 1974, Starification Object Series, Self-portrait with Les Wollan. Object. Series. Outro grande exemplo de Photoperformer é a famosa e conceituada, Cindy Sherman. Cindy Sherman é uma fotógrafa norte americana muito famosa por fazer auto-retratos que carregam temáticas importantes e desafiadoras sobre o devir mulher e a representação das mulheres na sociedade, assim como leva para a própria obra questões sobre produção e concepções artísticas, com humor e profundidade. Sherman utiliza da maquiagem, figurino e toda caracterização cenográfica para criar seus ambientes performativos e fotográficos, assim como faço. Trabalha, entretanto, com a espontaneidade da criação, e as possibilidades que a fotografia tem de tornar a ideia em ação facilmente. Cindy Sherman elabora suas fotos com elementos pop/populares e no no meu caso, articulo representações arquetípicas que se baseiam no Tarot de Marselha, que para além de ser um oráculo ocidental popular, representa os arquétipos do inconsciente coletivo segundo o psicanalista analítico Carl Gustav Jung, (1988).
62 Figura 15 – Cindy Sherman, 1989, Figura 15 – Cindy Sherman, 1989, History series History series Fonte: (http://www.arthistoryarchive.com/arthistory/photography/Cindy-Shermans-Photography.htmlAcessado em 28/07/2016) Sherman usa da pose para fazer o elo entre a simbologia/tema e o mundo fotográfico; além de usar a pose em seu intento questionador e realizador de mundo, que trata em cada foto. A pose manifesta o jeito, a forma, as regularizações corporais e também a liberdade, liberdade essa, que rege seu trabalho denunciativo, fugurativo, humorístico e muito profundo. A poética Kistch na direção de arte e os artistas Na recolha de referências, assim como no processo da minha própria compreensão estética sobre este trabalho, onde usei o imaterial, o exagero, as cores, o lúdico, os modelos arquetípicos e a foto performance como linguagem; encontrei na arte Kitsch elementos teóricos e estéticos como guias imagéticos e ideológicos para as fotos finais. Umberto Eco, em seu livro “Apocalípticos e Integrados”, descorre sobre o que é o Kitsch de maneira ampla e crítica. Segundo o autor, A estimulação do efeito torna-se Kitsch num contexto cultural em que a arte seja vista, pelo contrário, não como tecnicidade inerente a uma série de operações diversas (e é a noção grega e medieval) mas como forma de conhecimento realizada mediante uma formatividade com fim em si mesma, que permita uma contemplação desinteressada. Nesse caso, então, tôda operação que tenda, com meios artísticos, a fins heterônimos, cai debaixo da rúbrica mais genérica de uma artisticidade que se realiza de várias formas, mas não se confunde com a arte. Poderá estar empapada de habilidade artística a maneira pela qual torno apetecível uma iguaria, mas a iguaria, efeito de artisticidade, não será arte. No sentido mais nobre do termo, enquanto gozável pelo puro gosto no formar que nela se manifesta, mas sim desejável pela sua comestibilidade.” (ECO, 2004, p. 65)
63 No ponto em que se designa ao gozo e a comestibilidade é que se encontra as potencialidades das escolhas que fiz. Isso significa que escolhi pela forma, pela exuberância, pelas cores atrativas, por aquilo que salta nos olhos. Forma, presença e também estranheza. O mundo aqui reesiginificado, em formas, símbolos e cores, projetado sobre um corpo no suporte fotográfico, tem como intuito o despertar dos sentidos, e a tentativa de eliminar as dicotomias entre belo e feio, técnico e amador. A intenção é o deleite dos olhos e também um possível incômodo diante às imagens, que podem ser vistas muito mais como uma brincadeira, do que uma concretização acadêmica de linguagens e conceitos formatados e limitantes. O kitsch, no entanto, entra em meu trabalho acentuando a ideia do que é o popular, da disponibilidade interpretativa para todos e das intenções reativas sobre a obra, manifestas na própria obra. É a realização do desejo em imagens, que comunicam sua própria construção plástica. Segundo Eco: Com uma fórmula feliz, Clement Greenberg afirmou que, enquanto a vanguarda (entendida, no geral, como a arte na sua função de descoberta e invenção) imita o ato do imitar, o Kitsch (entendido como cultura de massa) imita o efeito da imitação ; Picasso pinta a causa de um efeito possível, um pintor oleográfico como Repin (amado pela cultura oficial soviética do período stalinista) pinta o efeito de uma causa possível; a vanguarda, ao fazer parte, põe em evidência os processos que levam à obra, e os elege para objeto do próprio discurso, o Kitsch põe em evidência as reações que a obra deve provocar, e elege para finalidade da própria operação a reação emotiva do fruidor. (ECO, 2004, p. 68) Dessa relação com as reações e provocações ao leitor, é que surge a elaboração das fotos através da maquiagem, dos objetos, do figurino, mas de forma pontual, para causar a sensação de deslocamento, e de mundo paralelo, imateral e ao mesmo tempo tão próximo do imaginário comum, represetando por vezes na nossa sociedade do espetáculo. Tema que me remete diretamente ao Livro de Guy Debord: “Sociedade do Espetáculo”, não lido para este trabalho, mas recordado como influência já intríseca sob meu ponto de vista sobre o mundo. O kitsch se revelou nessa produção, como solução criativa ao pouco orçamento e à grande possibilidade de se fazer viva mais uma vez, uma vertente tão pouco utilizada como linguagem nas artes. O processo criativo vem sendo iniciado desde o mês de dezembro, quando comecei a estudar mais afundo os livros “Jung e o Tarot” e “La Vía del Tarot”. Nos livros, a cada leitura ia pontuando os aspectos mais fortes sob meu ponto de vista sobre os arcanos; suas simbologias, as palavras chaves que fazem acessar o mundo imagético e missionário dos personagens e as relações que percebia que estabeleciam entre si. Mesmo porque a jornada do Tarot é cíclica, uma carta está ligada a outra em ordem evolucionista, porém algumas estabelecem uma conexão maior tanto filosófica quanto estética entre si. Depois de um mês de leitura, estabeleci quais pares iria formar e como seria sua narrativa plástica e simbólica. Fiz anotações sobre como seria cada figurino e o que iria migrar das cartas para as fotos, como signos e objetos. Procurei então a Academia do espetáculo, (ACE), aqui do Porto. Escrevi para a figurinista Loula Sousa, e comecei a separar alguns objetos e figurinos que necessitava. Para diminuir o orçamento, usei mais figurinos de acervo pessoal, e com isso estabeleci uma linguagem própria, crescente e harmonioza com a concepção de cada perosnagem. Optei por mesclar e recriar uma linguagem que já venho utilizando. Linguagem que é muito próxima dos filmes espanhóis que abusam de cores como nos filmes do Almodóvar, e se apropriam de muitos elementos como é o caso da arte Kitsch. Um exemplo de artistas Kitsch é Pierre e Gilles, um casal francês que mostra como o universo da fotografia pode ser muito mais amplo do que apenas o registro.
64 O casal mescla fotografia e pintura, extrapolando assim os limites do suporte fotográfico usuais. A dupla pensa na produção fotográfica muito além da captação. Pierre Et Gilles são um dos principais nomes da arte Européia e tem por característica de linguagem, a mistura de elementos da cultura pop com ícones religiosos, mitológicos, o mundo da publicidade e da cultura gay, construídos em uma estética Kitsch carregada de simbolismos sociais e reflexões. Pierre e Gilles são referências diretas para a construção estética/lúdica das fotografías apresentadas nesse projeto, assim como David LaChapelle e seu legado. A dupla constrói seus próprios cenários e vestuários à mão e retocam suas fotografias com pintura. Têm uma fascinante construção e elaboração de figurinos, cenários e objetos, onde manifestam uma linguagem original e pontuam suas linguagens. Trabalham com a fusão étnica e cultural, trazendo para seus temas semideuses, travestis, bonecas e homossexuais. Dessa riqueza elaborativa, capturo minhas influências para formação dos personagens/arcanos e a produção de cada persona performática para cada foto performance, com atenção na criação minuciosa dos figurinos, maquiagens, e toda contextualização plástica e também a pós-produção digital e manual. http://theculturetrip.com/europe/france/articles/pierre-et-gilles-pop-portraiture-with-a-french-touch -Acessado em 28/07/2016. A dupla trabalha, assim como LaChapelle trabalha com temas muito atuais deste século e fazem de sua estética glamourosa e atraente o linear entre a denúncia e a beleza, o popular e o erudito. Figura 17 - Pierre et Gilles, 2015, Prince du Ganges Figura 18 - Pierre et Gilles, 2014 O Rei Salomão e a Rainha de Sabath Fontes - (https://www.facebook.com/PierreetGillesPageOfficielle Acessado em 28/07/2016) David Lachapelle é um fotógrafo estadosunidense conhecido por suas fotos inusitadas e inrreverentes. Trabalhou ao final da década de 90 com Andy Warhol em sua revista Interview Magazine fazendo fotos das celebridades. Esse reconhecimento deve-se à inusualidade das imagens que elabora, testemunhando um mundo surreal por meio de fotos muito saturadas que misturam o glamour, a fantasia cósmica e a bizarrisse. Lachapelle cria a fantasia em duplo sentido; tanto na criação dos personagens quanto na concepção das narrativas. Seu trabalho é o encontro do popular com o erudito, da denúncia da realidade e da criação de microcosmos absurdos. O seu trabalho fotográfico já foi capa de todas as principais publicações de moda, como na revista Italiana Vogue, Vanity Fair, Rolling Stones, The Face entre muitas outras. Dentro da publicidade o currículo de LaChapelle estende-se a marcas
65 como a L’Oreal, Iceberg, MTV, Ecko, Diesel Jeans, Sirius, Ford, Sky, Vodka e outras. Além dos habituais retratos que faz dos mais importantes artistas contemporâneos, LaChapelle concebeu capas para os álbuns de músicos como Macy Gray, Moby, No Doubt, Whitney Houston, Madonna e outros. O trabalho do artista é expresso em uma ritualística pop e em uma estética fantástica. O que é muito próximo do que concebo, e no que se diz, Kitsch. (http://davidlachapelle.com/about/- Acessado em 28/07/2016.) Em uma exposição que fui de LaChapelle em Roma (2015), se apresentava um vídeo sobre seus processos de trabalho, deixando claro que David Lachapelle trabalha com uma grande equipe em prol da realização de seu surpreendente imaginário, que fala muito sobre o mundo atual, suas guerras e fetiches, assim como a questão dos gêneros que é muito atual e importante nos últimos tempos. Figura 18 - David LaChapelle, 2009, Birth of Venus Figura 19 - David LaChapelle, 2006, Heaven to Hell Fonte: (Google imagens acessado - 28/07/2016)
66 ANEXO: O processo creativo Na cena fotográfica contei com objetos e figurinos que podiam compor os ambientes arquetípicos descritos. Na pósprodução uso elementos que são gerados com colagens digitais, provocando assim o aspecto imaterial da obra e acentuando o teor lúdico da imagen. Para a realização fotográfica, tive a parceria da fotógrafa e desing Joana Duarte que reside na cidade de Cascais, Lisboa. Fizemos quatro sessões em dois finais de semana. No primeiro final de semana fotografamos oito pares, e no seguinte mais três. A realização da pós-produção também foi com sua ajuda, já que além de fotógrafa é formada em design gráfico. O trabalho em conjunto se resume nessa logística: Fiz a concepção, argumento, figurino, produção de arte, cabelo, maquiagem e locação. Esse trabalho de conceituação e pré-produção se estende ao papel do fotógrafo, que junto a mim constroí a cena no ato da fotografia. A construção momentânea colaborativa acontece nessa hora. O processo de captação e pós-produção foi facilitado, pois organizei os figurinos e objetos de cada par, e também toda descrição estética e narrativa para o trabalho de edição. No trabalho de direção de arte que já executo há um tempo, tenho como trabalho técnico a descrição dos objetos, figurinos e maquiagens que uso. Porém para este trabalho apresentado o roteiro técnico e os personagens nascem juntos. Unindo assim as ideias as suas resoluções práticas. De maneira simplista, estabeleci das relações simbólicas e estéticas. O Louco e a Morte: Figurino preto. Saia de cetim preta alta, top preto, capa alugada do teatro. Bastão do Louco para dar a sensação de movimento que ambas as cartas têm. Maquiagem colorida para remeter ao figurino do Louco. Pós-produção: Caveiras com flores para fazer alusão ao “Día de los muertos” no México, onde a morte é celebrada com muitas cores e vibrações. Cachorro (pós-produção) puxando a capa preta, fazendo relação direta com a carta do Louco que tem um cachorro que morde suas calças para alertá-lo dos caminhos e abismos. O Mago e o Diabo: Nas mãos o símbolo do infinito em pós-produção caso não ache um objeto que possa cumprir o papel na captação direta. (O infinito é o símbolo do chapéu do Mago, que caracterizao como o alquimista eterno, sempre mesclando as matérias da natureza). Na face uma maquiagem negra, para salientar a presença do Diabo com o olhar. Roupa colorida para fazer relação direta com o traje que o Mago leva na carta. Mesa com frasquinhos alquímicos. Idéia de criação, potência, criatividade. Chifre do Diabo em pós-produção para representar a tentação Poeiras cósmicas em pós-produção para fazer também relação com a magia. O Sol e A Lua: Figurino azul marinho para recordar o azul da noite, as profundezas da Lua. Maquiagem dourada com prata para remeter ao brilho do sol e da lua.
67 A lua (no caso eu a interpretando) segurando o Sol em suas mãos, para fazer a brincadeira metalinguística entre cartas; a luz do Sol ilumina as águas do emocional da Lua e ilumina a lagosta, que é seu inconsciente em interpretação Tarológica. Todos esses elementos feitos em trabalho de pós-produção. Colagem do sol entre as mãos, uma lagosta no fundo d’água, cores caindo do céu para simbolizar a energia da Lua, como em sua carta. O Imperador e a Imperatriz: Uma cadeira, para remeter ao poder simbolizado em ambas as cartas. Coroa feminina (Imperatriz), para contribuir com a reesiginificação sobre o que é ser feminino, ser mulher na contemporaneidade – Recordando a humanidade sobre a potência do poder criativo que é conectado diretamente a energia feminina e energia sexual geradora. Cabelo solto. Meias cor azul e sapato vermelho para fazer ligação com O Imperador. Representa a racionalização das ações da Imperatriz, que continuará devastadora, mas fora colocada um pouco no mundo da lógica e da razão que se conectam com os atributos masculinos da vida. Adornos amarelos, para representar a abundância, fortuna, sorte. O Papa e A Papisa: Pano dourado sobre a cabeça para representar o recato e introspecção da Papisa. Vestido de casamento para simbolizar o casamento do Papa e da Papisa com a divindade. Gesto de benção do Papa junto com o desenho da cruz da igreja. Livro da Papisa que representa o conhecimento e mistério. Pós-produção: usar as imagens dos discípulos do Papa para colar bem abaixo da imagem fotográfica. Fundo com luzes e cosmos, para simbolizar a conexão divina. Ainda em pós-produção manual, a coroa do Papa e da Papisa para fazer ainda mais a relação com o lugar que eles ocupam. A Estrela e Temperança: Nas mãos um Jarro de regar flores com linhas coloridas saindo para fazer uma paródia das cartas que levas jarras em ambas as fotos. Enquanto a Temperança jorra os líquidos de um pote a outro, a Estrela devolve para a água o que é da sua natureza. A fluição. Maiô coloridos, para criar um ar bem Kitsh. Asas grandes para se fazer relação direta com A Temperança. Cabelo solto como A Estrela. Enfeite de pedras no centro da testa para representar a flor que leva a Temperança sobre os cabelos na parte da frente, que pela simbologia estudada representa a terceira visão, a visão cósmica. Pós-produção com muita colagem de flores e estrelas, para sintonizar com a estética da abundância. A Justiça e julgamento: Vestido vermelho, lenço vermelho, adorno na cabeça que se relacione diretamente com a figura da Justiça. Vermelho foi escolhido por estar muito presente na carta da Justiça e na cultura brasileira ligada a representação de um orixá feminino chamado Yansã que tem como habilidade fazer justiça, assim como seu pai Xangô. Uma espada nas mãos, para continuar a relação direta com as simbologias da Justiça. Em posição sentada, olhando para os céus, escutando a trombeta dos anjos.
68 Em-pós produção os raios do ser angelical da carta do Julgamento, o desenho do buraco que o personagem da carta renasce e um fundo com traços do universo bem escuro, para seguir a linha estética e simbolizar o caminho que sempre é duvidoso. O Carro e A Roda da Fortuna: Posição fetal para remeter ao movimento das rodas que existem nas cartas. Tanto a Roda da Fortuna em si como as rodas que também sustenta, o carro puxado por dois cavalos. Coroa do rei condutor do Carro. Legging feminina estampada Uma corda em cada mão para representar as direções que cada cavalo segue. Em pós-produção a Roda da Fortuna colada sobre meu corpo e os cavalos um em cada lado. A Torre e O Enforcado: Corda em um dos pés como O Enforcado. Roupa colorida que remeta ao Enforcado e os que estão em queda na carta da Torre. Em pós-produção a Torre ao fundo do meu corpo pendurado sobre as bolas coloridas da esperança, que são lançados pós o raio abater a Torre. A Força e O Enamorado: Uma Flecha nas mãos simbolizando o ser angelical que lança suas flechas da paixão. Porém agora a trajetória da flecha será reesignificada; apontando, portanto, o autoconhecimento, o encontro consigo mesmo. Roupa feminina como a da Força. Pós-produção com os raios angelicais, um alvo no peito explicitando o destino da flecha. Também estará presente um Leão ao lado da Dama, para ser forte a relação com a carta. O Eremita e O Mundo: Sari para fazer alusão ao pano do personagem da carta do Mundo. Flores na cabeça para simbolizar a liberdade relacionada a seres como fadas, hippies, místicos. Lamparina em uma mão, com olhar de busca para ela com o intuito de atingir o significado mais expresso na carta do Eremita. A busca de si. Na pós-produção, o arco que está em volta ao arcano do Mundo, simbolizando o giro eterno, o movimento contínuo. Ainda em pós-produção os elementos da carta do Mundo. Os planetas em substituição, dos elemetos para dar uma idéia de expansão cósmica. A cor do chão é a mesma da carta do Eremita, amarela. Caminho abundante. As fotografías aconteceram em primeira parte no final de semana dos dias 16 e 17 de abril. Os personagens retratados foram: O Louco e A Morte, O Mago e O Diabo, O Sol e A Lua, A Papisa e O Papa, A Justiça e O Julgamento, O Carro e A Roda da Fortuna, A Torre e O Enforcado, A Força e O Enamorado. As fotos foram feitas em Alfena, localização onde habito. Fiz um esquema com a fotógrafa em que estabeleci fazer primeiro as fotos com os personagens que não usam tanta maquiagem. Para que assim o trabalho pudesse progredir até os que tem maquiagem mais carregada. A cada maquiagem e figurino colocados, nos dirigíamos a um local que tivesse relvas, árvores, água, e todos elementos estes presentes nas cartas do Tarot. O local de base para produção foi m minha própria casa, onde já tinha os figurinos, maquiagens e acessórios separados. Eu e a fotógrafa Joana Duarte fizemos de forma mais prática possível, pois a pré-produção já estava pré visualizada. No final de semana dos dias 7 e 8 de maio, fui até Lisboa, Cascais, para finalizar as fotos que faltavam, agora à beira da Praia com outra imagem geográfica.
69 Joana Duarte, 25 anos, trabalha e reside em Cascais, seu trabalho principal é a fotografia de arquitetura. É formada em Design Gráfico, tendo assim domínio das práticas de pós-produção. Juntas fizemos o processo de captação e edição. Dessa vez concluímos as fotos que faltavam. Fizemos O Eremita e O Mundo, A Estrela e A Temperança, O Imperador e A Imperatriz. As produções também seguiram a lógica da primeira vez: figurinos separados, na ordem do uso da maquiagem mais clara para escura, fotos executadas em espaço aberto, mas agora com outros cenários. Cenários marítimos e parques. Fizemos as três fotos em dois dias e logo depois partimos para a pós-produção. Na pós-produção, também havia criado as cartas e os personagem com a pré-visualização do que seria necessário tanto no processo como na finalização. Tínhamos já a lista das melhores fotos de cada carta, que é por onde começamos a escolher cada imagem, primeiro trabalhando a saturação, uniformizando um tom para todas as cartas, estabelecendo harmonias e começando a fazer a colagem no photoshop com as imagens já descritas em pré-produção. No decorrer da criação, muito do que tinha sido criado anteriormente foi se modificando de acordo com a necessidade de significação e narrativa proposta em cada simbologia. A criação se tornou um ato de conexão de símbolos e interação com o tema/ foco de cada fusão. Segue abaixo algunas fotografías do processo criativo, a partir dos pares de arcanos: - Fotografia do Processo: O Louco e a Morte (Transmutação do corpo cósmico) O Mago e o Diabo (Samsara Alquímico)
70 O Sol e a Lua (Geradores Celestes) O Imperador e a Imperatriz (Polaridades) O Papa e a Papisa (Shakti Yang) A Estrela e a Temperança (Balance) A Justiça e o Julgamento (Tratado sonoro) A Torre e o Enforcado (Ilusão dos sentidos)
77 sistema patriarcal obsoleto que coloca e colocou a história sob responsabilidade dos homens, enquanto são as mulheres que mantiveram nossa sociedade em termos de geração, manutenção e educação. O feminino, assim como representa a arcana A Imperatriz, nos convida a uma reflexão sobre as milhares de facetas Yin, da anima, da natureza celeste e da natureza material. Todos esses fragmentos ligados à energia do feminino que sempre fora deixada de lado pela normatização do cristianismo sobre a cultura. Ficamos entre a virgem imaculada e a prostituta, sempre em oração ou guerra contra um Deus pai, que adoecera toda uma sociedade que nasceu e se solidificou nesses termos; marginalizando a mulher no papel de mãe imaculada ou sempre à sombra do homem e mesmo assim sendo objeto de desejo. Assumo que não foi algo extremamente premeditado, mas como já mencionado, a arte emerge das necessidades urgentes, do inconsciente coletivo e da urgência pessoal de projetar no mundo um pensamento próprio sobre ele. Não excluo a potência do masculino, pois em tudo há várias facetas assim como o Tarot sabiamente nos ensina. Somos resultado das polaridades que equilibram as ações e fortificam a consciência. Há o sagrado masculino e feminino, pois sem a sacralização das duas energias ficamos escravos da guerra dos géneros. O que não é de fato muito construtivo em termos do todo, do universo e da sociedade em evolução. O que tive como consciência a todo momento foi o fato de não querer modificar a natureza do meu género, nem fotografar homens. Nesta escolha atua uma linguagem pessoal que foi nascendo em prol da denúncia sutil pelo desejo de emponderamento feminino. Observa-se no mundo atual uma intensa reestruturação do olhar sobre a mulher e suas diversas funções. Uma luta pela igualdade acompanhada do resgate das figuras mitólogicas femininas, para o reestabelecimento de novos e velhos modelos arquetípicos. Influenciando assim na renovação de posturas e hábitos. Ocasionando também uma organização política coligada à força das mulheres e a união de seus objetivos em comum. Pela obra artística podemos manifestar nossa consciência e nosso inconsciente, nossos delírios, nosso senso de realidade e nossa razão abstrata, assim como infinitas partes que nos pertencem e se comunicam de forma fluidas ou frictivas com o mundo. Como diz o grande poeta português Fernando Pessoa: “A arte é a auto-expressão lutando para ser absoluta” (PESSOA, 1986, p. 82). As corporificações dos temas, podem ser refeitas e envolvidas em novas estéticas, pois o mundo das significações vive em conexões não findas de interpretação. O projeto me modificou enquanto artista e me induziu a curiosidade pela arte Kitsch, que tanto havia sendo anunciada em minhas feituras e imaginário, mas não antes observada como um movimento artístico e social. Agora encarando-a como narrativa observo o que diz Umberto Eco em seu livro “Apocalípticos e integrados” (1991), no capítulo destinado ao kitsch. Segundo Eco, evidenciada a definição do Kitsch como comunicação que tende à provocação do efeito compreende-se então com que espontaneidade se identificou o Kitsch com a cultura de massa: encarando-se a relação entre cultura "superior" e cultura de massa como uma dialética entre a vanguarda e o Kitsch. (ECO, 1991, p. 67) O kitsch e sua existência para além da estética me surpreendeu e embasou minhas escolhas. A meu ver sempre estive em desequilíbrio com as necessidades acadêmicas, me encontrando bastante experimental, barroca e com um certo mal gosto para tal âmbito intelectual, mas o Kitsch como guia teórico fortaleceu minha condução filosófica e plástica. Da jornada do Tarot de Marselha e suas formas clássicas, elaboradas entre 1.000 e 1.500 anos atrás, até à conquista de uma linguagem Kitsch, passei por uma auto-reflexão sobre a condução dessa paráfrase, desse trabalho de ressignificação.
78 Coloquei em cada carta meu universo particular e meu intento de não ser clean. A busca pelo incômodo, pelo amadorismo, pela feitura emocional e o sentimentalismo me destinaram ao resultado final. Como uma brincadeira de montagem e uma realização extremamente caseira, fiz do estudo suporte para o pensamento envolvido no projeto, pois a concretização imagética se dá pela espontâneidade imaginativa, muito próxima do deguste popular e da compreensão da massa. De certa forma tornei o ocultismo presente nas cartas em imagens muito cartunescas, teatrais e cheias de adornos. As alegorias fotográficas usam de paletas de cor sem descriminação e filtro. O que importa e sempre foi importante nessa construção foi o abuso, e o desejo de se corporificar a imaginação. E por esse desejo foi construido os microcosmos sobre a união dos arcanos, sintomatizando e equalizando a vontade de se expressar os mundos subconscientes e imersos na vida ordinária e suas relações simbólicas. O sonho é e sempre será importante para a abertura de posibilidades tanto artísticas em termos de obra e artista, quando de sociedade e o ser civil. Esse trabalho é fruto da minha paixão pelo Tarot, e minha grande afinidade com as construções espontâneas, onde meu impulso primal não seja interrompido pelos códigos externos da civilização. Para futuros trabalhos desejo estudar o artista como sendo a própria obra, seus tabus, sonhos, desejos e a relação entre o mito e a sociedade, em uma relação direta com a psicanálise e a arte como terapia afetiva, efetiva e objeto de autocura. Fico também com o aprendizado sobre as facetas da performatividade, suas potências enquanto palavra e ato, ação e movimento. A foto performance como ato contemporâneo, suporte narrativo potente, atual, sem fronteiras e aberto para novos vocábulos. A direção de arte como minha real profissão, e a concepção de mundos como meu verdadeiro intento enquanto artista, ou mesmo experimentadora de linguagens não normatizadas. Fica aqui meu legado de liberdade.
79 Referências Bibliográficas ADAMI, F. A hibridação entre performance e fotografia: um estudo sobre a performance, a fotografia e o artista Luiz Rettamozzo. In: Fórum de Pesquisa Científica em Arte, 7, 2011, Curitiba. Anais eletrônicos do Fórum de Pesquisa Científica em Arte. Curitiba: Embap, p. 76-85, 2011. Disponível em: <http://www.embap.pr.gov.br/arquivos/File/Forum/anaisvii/076.pdf > Acesso em: 21/06/2016 ALMEIDA, M.; MONTEIRO, T.; GONÇALVES, O. O kitsch e a cultura de massa. In: Congresso de Ciências da Comunicação do Nordeste, 15, Mossoró. Anais eletrônicos do Congresso de Ciências da Comunicação do Nordeste. Fortaleza: Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, 2013. Disponível em: <http://portalintercom.org.br/anais/nordeste2013/resumos/R37-1157-1.pdf> Acesso em: 21/06/2016 AQUINO, K. As ruas como escola: a fotografia de Alice Smeets. Lomography, 2015. Disponível em: <https://www.lomography.com/magazine/314271-as-ruas-como-escola-a-fotografia-de-alice-smeets> Acessado em: 28/07/2016 BROUDE, N.; GARRARD, M. The Power of Feminist Art. New York, NY: Harry N. Abrams, Inc., 1994. BOCAYUVA, I. A atualidade dos mitos presentes na obra de Platão. Revista Archai, Brasília, n. 13, p.115-120, jul-dez, 2014. Disponível em: < http://periodicos.unb.br/index.php/archai/article/view/10702/8005 > Acesso em: 24/07/2016 BORGES, F. C. “Da performatividade do corpo à arte da performance” Pesquisa de pós-doutoramento no Instituto de Artes da UNICAMP, Campinas Brasil, 2010. ECO, H. Apocalípticos e Integrados. Tradução: Pérola de Carvalho. 6ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2004. (Coleção Debates). Disponível em: <https://cesarmangolin.files.wordpress.com/2010/02/umberto-eco-apocalpticos-eintegrados1.pdf> Acesso em: 20/05/2016 ESQUIVEL, T. G. R. A importância do mito no valor da arte. Especulo, Revista de estudios literarios, Madrid, ano XIII, n. 39, jul-out, 2008. Disponível em: <http://www.ucm.es/info/especulo/numero39/mitoarte.html > Acesso em: 18/05/2016 FOSTER, M. Os Números. Portugal: Publicações Europa-América, 2014. (Coleção Artes Divinatórias). GONÇALVES, T. F. C. Elementos iconográficos do “Louco” nas cartas de Tarô: de Gringonneur ao Tarô de Marselha. In: Encontro de História da Arte, 3, 2007, Campinas. Ata do Encontro de História da Arte, Campinas: IFCH, UNICAMP, 2007. p. 275-289. Disponível em: < http://www.unicamp.br/chaa/eha/atas/2007/GONCALVES,%20Tatiana%20Fecchio%20da%20Cunha.pdf > Acesso em: 22/06/2016 HUMBERT, E. G. Jung. 2ª ed. São Paulo: Grupo Editorial Summus, 1985. JODOROWSKY, A; COSTA, M. La via del Tarot. 4ª ed. Barcelona: Ediciones Siruelas, 2011. JUNG, G. C. Os Arquétipos e o Inconsciente coletivo. Tradução: Maria Luiza Appy; Dora Mariana R. Ferreira da Silva. Petrópolis, Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2002. JUNG, G. C. Tipos psicológicos. 11º edição. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1985. (Coleção Piragua). LECLÉZIO, M. Pierre et Gilles: Pop Portraiture with a French Touch. The Culture Trip. Disponível em: <http://theculturetrip.com/europe/france/articles/pierre-et-gilles-pop-portraiture-with-a-french-touch/> Acesso em: 28/07/2016 NICHOLS, S. Jung y el Tarot: un viaje arquetípico. Barcelona: Editora Kairós, 1988. PESSOA, F. O pensamento vivo de Fernando Pessoa. São Paulo: Martin Claret, 1986. (Coleção O pensamento vivo) PETRONILIO, P. O signo como performance e performatividade da linguagem. Artefactum, Revista de estudos em linguagem e tecnología, Brasília, ano VII, n º 2, 2015. ROSE, B. Vaginal Iconology. New York Magazine, Nova Iorque, vol. 7, n. 6, p. 59, fev. 1974.
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