Almost not: Prints and other things - folha de sala
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DENTRO DA GRAVURA GRACIELA MACHADO No contexto de uma prática docente, o significado de uma palavra pode apresentar-se de novo a reclamar a atenção. Para responder, existem os resultados, tanto mais pertinentes quanto o facto de tais de representações afirmem uma identidade questionadora. Parece-nos ser esse o caso. Os trabalhos reunidos nesta mostra são em si mesmos o sinal clarividente dos efeitos secundários de uma insistência pela ação numa palavra que nem chega a ser mencionada nos programas. Estes trabalhos e autoras acabam a afirmar uma disciplina que continua a fazer sentido numa prática artística: a gravura. Como é que os estudantes a interpretam, como a designam, como a definem, ou chegam mesmo a mencionar? Sim, porque se as palavras ocupam o espaço que reclamam, e refletem o significado e a valorização que damos aquilo que fazemos, temos uma palavra ausente. A história recente colocou com agilidade termos como tecnologia, técnica, e impressão nos programas das unidades curriculares disponibilizadas em contexto académico. Aliás, foi a designação fácil e sedutora, técnicas de impressão, que se impôs. Talvez porque não coloca os problemas de interpretação que o termo histórico possui, ou porque faz aquilo que para alguns pode passar despercebido: coloca num segundo plano a definição de um território de atuação histórico e minimiza a sua abrangência concetual. Sabemos bem como tais designações delapidaram a fecundidade do termo que esta exposição afinal procura repor, ao contrário, pela exposição de um entendimento refletido na originalidade da produção gráfica de Alexandra Rafael e Ana Torrie. Como? Neste caso, tanto temos a gravura no seu carácter mais reconhecível, a prova que projeta o que e gravado no papel e para ele desloca em extensão réplicas de desenhos, como a matriz desenhada, ou até mesmo o objeto que origina esse ensaio. O pedaço de madeira cortado de Alexandra Rafael ou linóleo do chão de Ana Torrie, são ambos materiais gravados, ainda que o primeiro aparentemente bruto, e o segundo já a propor outro cenário, o da interpretação. Ora é precisamente nesta ambivalência ou estrito classicismo que a gravura se reposiciona. Assim, em ambos os casos, e o processo de produção com base numa leitura da sua projeção matricial, moldar, seja vertendo ou escavando, a expor de que modo as autoras encontraram uma realidade que lhes permite descobrir algo para lá de um revestimento de linóleo encontrado no lixo ou uma superfície texturada de madeira cortada. O argumento para a montagem desta exposição situa-se aqui. Àquela visão da gravura e seus suportes clássicos acrescentam-se pois os elementos de toda a cadeia processual: o objeto fotografado, o decalque, o molde em gesso, a transferência sobre papel, a chapa gravada, a prova sobre papel. Os que se identificam como gravuras, os que podem não ser reconhecidos como pertencentes a este extenso caudal, mas que neste contexto são rapidamente absorvidos porque constituintes essenciais na práxis destas duas gravadoras. Por isso, para lá duma opacidade das condições de reprodução que nos leva a duvidar do que se trata, ou questionar como são feitos, sucede o reconhecimento de que a trama desta teia e o múltiplo. Também se define o papel exato dado a reprodução: ela não é tanto transcrição, literalidade ou repetição sem interferência mas sim inscrição que se constrói, dissipa, e redefine em função de um discurso poroso e disponível para integrar outras práticas, fotografia, desenho, pintura, ou escultura. O desejo de repetição e replicação encontra-se pois indelevelmente marcado pelo interesse por todas as práticas de produção gráfica que possibilitem a construção de uma mutação e a vivência de um momento experimental cujas consequências se avaliam a fazer. Nesta seleção, a opção metodológica legitima-se nas similitudes superficiais causadas pelo método idêntico de recolha, de cariz indicial a par da opção de transcrição criativa e interveniente numa imagem preexistente, pensada primeiro com apoio do desenho, mas logo em função dos estratos tecnológicos da gravura. Estes, sistemáticos, recorrentes, introduzem as longas etapas de intermediação a partir das quais se desmonta e procura conhecer quais os limites para a invenção. O exercício pode até recorrer a uma abordagem nostálgica e evidenciar o gozo em elencar as suas virtuosas potencialidades de formalização – água-tinta, água-forte, maneira negra, verniz mole, linogravura, aguadas de ácido – chegando ao ponto de catalogar ações e hipóteses tecnológicas sobre o mesmo objeto. Também não é por acaso que se revela com humor os marcos de uma biografia em que se misturam mestres e filiações corretas com outros ficcionais, como é o caso de Ana Torrie. Conclui-se, aqui a tradição não é impedimento para reinventar suportes e gerar regras que se atendem na especificidade do que se aprende como sendo a gravura e que se compreende como propulsor na definição do projeto. Num mundo dominado pelas imagens, a determinado ponto, ambas as autoras despertaram para a hipótese deste filtro a partir do qual se dá conta de histórias, convertendo-as numa construção simbólica onde se reproduz, sim, mas um a um nível em que os pressupostos tecnológicos da gravura são acolhidos com o encantamento e encadeamento próprio de quem julga oportunos os seus mecanismos de funcionamento. Reiteramos, afinal, a construção e a montagem destas interlocuções criativas, faz-se em função de um querer fazer-se gravura. A moda antiga, como se fazia nas Belas Artes, como se faz por esta Europa fora ainda, por gravadores. Ora o sentido que aqui reconhecemos quer no trabalho de Ana Torrie, quer no de Alexandra Rafael, não é o mais habitual no contexto da prática artística atual e num modo em crescendo como aqui se verifica. A gravura não se esconde: exibe-se. É a presença da matriz que determina a proliferação contida nas provas, nos estados, nas sequências narrativas ou até mesmo no corpo dado a essa matriz tornada objeto sem prova. É a força matricial que se antecipa e pressiona os projetos no seu desenvolvimento. Estamos pois perante uma experimentação que se insinua a todo o momento com os atritos de quem se projeta sobre as matérias e nelas verifica o que o binómio tradição e tradução pela gravura implicam. Nas escolhas de papel, nos métodos de tintagem, na revisão das matérias de impressão, na atenção a hipersensibilidade dos substratos de inscrição do desenho, na diferenciação dos instrumentos de desenho que escavam, ferem,
ou arranham uma superfície. Isto é, por um lado a apetência em deixarem-se seduzir pela riqueza matérica da gravura, por outro o modo como todas as fases do ato de reprodução permanecem ativos e podem servir a densidade enunciadora da reprodutibilidade gráfica, devedora de um passado rico e fundamental para a projeção futura. Por isso os procedimentos acumulam-se e, porque não, colecionam-se, para ajudar inclusive a decidir como fazer uma determinada montagem. Sob esta mira obrigatoriamente atenta e desperta para uma experiência oficinal que se define como recursiva, arqueológica e eternamente insatisfeita, a gravura acaba a suportar outras ideias: o chine-collé pode-se fazer sobre a parede pois os saberes sobre a montagem de papéis acompanham com facilidade tal desejo. O conhecimento dos materiais e dos processos ajudam ao desenvolvimento estético de um ato de reproduzir insistente, persistente, sofisticado, que se encontra tendencialmente mais próximo da lógica experimental e criativa da gravura clássica. As metodologias divagatórias alimentam-se das extensas oportunidades tecnológicas e suportam os ritmos individuais que permitem ao autor descobrir e reinventar o que significa tal media, sempre a partir dos seus princípios essenciais. A explicitação na sua aprendizagem surge aqui exposta na produção de uma panóplia de provas, de estado, de contato, a efetivarem as hipóteses, as quais se usam e das quais se abusam numa aprendizagem tecnológica e num afastamento tácito da finalidade. Pode ser sob a capa de uma aparente neutralidade, quando de modo literal se retira apenas uma textura ou já interpelando essa matérias para atacar, marcar e a justar uma narrativa, pode ser pela adoção de um procedimento fotomecânico, aquele que no essencial parece não adulterar nada, ainda que justaponha uma trama, e implique a anulação das tonalidades intermedias. Em ambos os casos, a procura de novas potencialidades pelo recurso a uma intermediação impõe-se, e ai, em jogo e conjugação, entre a matéria e a prova, se compreende o que implica estar a atuar sob o domínio da gravura.
Este trabalho surge deumatentativa derecriar marcas provenientes dosefeitos dedegradação dasimagens edosobjetos. Umestudo elaborado emtorno deum espaço antigo, abandonado econsequentemente corrompido pelos vestígios deixados pela passagem dotempo. Umespaço quedá origem aumaprocura obsessiva depormenores, principalmente detexturas eformas orgânicas, quedepois sãoalteradas erecriadas através daGravura. Todo oprocesso detrabalho édesenvolvido sobre ocarácter experimental, onde sãoexploradas ascapacidades epotencialidades dagravura, através deprocessos detransferência, aplicada adiferentes tipos depapéis. Ostrabalhos produzidos vãosendo catalogados formando umarquivo deimagens processuais quedepois sãoexpostos como umatlas, para quetodos osprocessos, testes eexperiências, ganhem credibilidade esustentabilidade crítica, através dasuaexposição econfronto direto. Existe uminteresse predominante emtorno daárvore eassuas secções, tendo sido aproveitados troncos partidos, oupreviamente cortados, como elemento deestudo. Foielaborada toda umarecolha dedetalhes dacomposição devariadas árvores, deforma aobter umcatálogo defragmentos etexturas metamórficas. Da mesma forma, agravura surge como método quefacilita aabordagem dapassagem dotempo, sendo umaárea quepermite queo seupróprio processo tome algum controle ealteração dasimagens, proporcionando infinitas possibilidades demanipulação. Assuas técnicas situam -se entre ocontrolado eo acaso, permitindo queo trabalho váao encontro doequilíbrio entre aconstrução ea desconstrução, ocaos eo cosmo. ALEXANDRA RAFAEL FALSAS RELÍQUIAS 2013/2014 Nasceu emCoimbra em1990. Licenciou ‑se em2012 emArtes Plásticas – Multimédia, naFaculdade deBelas Artes daUniversidade doPorto. Durante alicenciatura, frequentou Erasmus naAccademia diBelle Arti deBrera, Milano noprimeiro seme‑ stre doanoletivo de2010/2011. Neste momento encontra ‑se afrequentar oúltimo anode Mestrado emDesenho eTécnicas deImpressão daFaculdade deBelas Artes daUniversidade doPorto, iniciado em2012. Email: [email protected] Portfólio Online: http://cargocollective.com/alexandrafael/ Participações emexposições colectivas: Projecto 1: Interecycling – Museu doCaramulo, 2012 – umevento organizado pela FBAUP emparceria como Museu doCaramulo ea empresa Interecycling comuso obrigatório demateriais fornecidos pela Intereclycing. PS 22 A– Auditório Municipal deVila doConde, 2012 – exposição deturma 4º anode multimédia. Sete eMeio – Museu daFBAUP, 2012 – exposição colectiva entre alguns alunos do4ºano doramo deArtes dePlásticas, ramo Multimédia. Projecções 2012 – Lugar doDesenho – iniciativa con‑ junta daSubunidade Orgânica de Desenho daFBAUP como Lugar doDesenho – Fundação Júlio Resende. Seleção dealguns trabalhos dealunos dadisciplina Práticas doDesenho noano2011/2012. Convergent Boundaries – Umamostra P411 // 41º 08’ 44.49’’ N// 8º 36’ 02.78’’ W// – Laboratório dasAr‑ tes (largo doToural), Guimarães, 2012 – umaseleção deprojetos como representantes doqueé produzido emcontexto académico artístico porestudantes deArtes Plásticas, ramo Multimédia. Futuro NãoFuturo – Palacete Pinto Leite, Porto 2012 – exposição definalistas daslicenciaturas daFBAUP. 17º Bienal deCerveira – Museu daBienal deCervei‑ ra, 2012. Frente eVerso – Casa Museu Abel Salazar, 2013 – exposição definal doprimeiro anode Mestrado deDesenho eTécnicas deImpressão.
Edgar éum personagem imaginário queassume claramente a liderança nomeutrabalho gráfico equeficciona odesenrolar de umahistória àvolta daeducação exemplar deumacriança. A exemplar educação deEdgar surge nagravura epara agravura numa sugestão denarrativas imprevisiveis quecircunscrevem um universo suspenso notempo. Sem guião prévio cada imagem vaisurgindo individualmente na tentativa decriar umahistória ainda semfim. ANA TORRIE “Julgo tervisto também o vulto deum rapaz que meolhou atentamente sem saber queme via. Vários dias serepetiu acena e sempre damesma maneira à mesma longura.” Nuno Sousa Ana Torrie, nasceu em1982. Iniciou osseus estudos naEscola Primária doMonte daMina edescobre mui‑ to cedo asuapaixão pela literatura macabra, tendo desenhado, ainda com11 anos deidade, oseuprimeiro livro ilustrado: “A maldição doMonte daMina”. Na década de90 radica ‑se noPorto, seguindo para a Escola Artística Soares dosReis onde ospro‑ fessores cedo lhereconheceram otalento para amatemática. Em 2007, finaliza aLicenciatura emEscultura naFaculdade deBelas Artes daUniversidade doPorto. Incentivada pelo paia prosseguir oseude‑ senvolvimento artístico fora doPortugal parte para aPolónia eé quando temo seuprimeiro contacto coma gravura naAkademia Sztuk Pieknych Im. Jana Matejiki.2008, ainda naPolónia, marca oinício deum novo ciclo nasuaobra comEdgar, personagem inspirado naobra literária deEdgar Allan Poe. De volta aPortugal quase quese torna Mestre grava‑ dora noMestrado deTécnicas deImpressão dasBelas Artes doPorto, oqual interrompe para seestabelecer noBrasil depois deconhecer etrabalhar como Mes‑ tre litógrafo Kazuo Iha. Nos seus últimos anos, constrangida porgrandes dificuldades financeiras, dedicou ‑se aorestauro de fotografias antigas defamílias aristocratas do Porto edo Brasil. [A biografia apresentada éficcionada, qualquer semelhança coma realidade émera coincidência] Obras apresentados emdiversas exposições (desde 2006 atéao presente), individuais: Verde Rubro Associação Cultural eArtística; Extéril; Galeria Ó; Plumba – noPorto; Prego – emVila Velha, noBrasil; Estúdio UM– emGuimarães; Gesto Cooperativa Cultural – noPorto como colectivas: Silo Cultural – Matosinhos; Global Print 2013 – Museu doDouro; Quinzena deGravura UFRJ – NoRiode Janeiro; RV– emSalvador daBahia; Troca ‑se PorArte; Artes emPartes, Plumba, Maus hábitos, Dama Aflita – noPorto, Aragón 232 – emBarcelona; Museu Nacion‑ al daImprensa, Museu daPresidência daRepública; Círculo daArtes Plásticas deCoimbra, Centro Cul‑ tural deVila dasAves, Azores Combo – nosAçores, entre outros.
1 Ana Torrie Memórias Póstumas Linóleo elinogravuras 2 Ana Torrie A Exemplar educação de Edgar I Livro de gravura, encadernação japonesa com impressão no tecido de encadernador em linogravura 3 Ana Torrie A Exemplar educação de Edgar I 17 gravuras calcográficas: água-tinta, água-forte, ponta seca, mezzotinta 4 Ana Torrie Edgar Molduras e calcografias: água-forte, água- -tinta e ponta-seca 5 Ana Torrie Matilha Calcografia: impressão de duas matrizes diferentes, repetindo uma delas várias vezes e com diferentes cores – água-forte e água-tinta 6 Alexandra Rafael Falsas Relíquias Decalques de secções de árvores feitos sobre papel de transporte com lápis litográfico, transferidos para chapa de alumínio, levada a água-forte, impressa sobre vários tipos de papéis translúcidos 7 Alexandra Rafael Falsas Relíquias Água-forte, água-tinta, verniz-mole, chine-colé, monotipia, cryon-lift, monoimpressão, frottage com lápis litográfico, transferes de toner, ampliação fotográfica analógica, slides, negativos, chapas de zinco, alumínio e cobre, madeira, gesso 1 1 7 6 3 3 4 2 5
FICHA TÉCNICA ORGANIZAÇÃO Faculdade deBelas Artes daUniversidade doPorto COORDENAÇÃO Graciela Machado CURADORIA Graciela Machado MONTAGEM Ana Torrie Alexandra Rafael TEXTOS Ana Torrie Alexandra Rafael DESIGN DECOMUNICAÇÃO Gabinete deComunicação daFBAUP