Narrativas Tatuadas. A narrativa como convergência entre a ilustração e tatuagem
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faculdade de belas-artes da universidade do porto fbaup Narrativas Tatuadas - a narrativa como convergência entre ilustração e tatuagem David Penela Orientador: Prof. Júlio Dolbeth Relatório do Projeto final Mestrado de Desenho e Técnicas de Impressão mdti 2013
Declaro que este trabalho não se baseou em nenhuma forma de plágio / fraude, e não contribuirá de forma alguma para o plágio /fraude de outro
Agradecimentos Ao Professor Júlio Dolbeth por toda a paciência e acompanhamento ao longo do projeto. Aos meus pais por me apoiarem sempre e me deixarem fazer as minhas escolhas sem colocar barreiras À minha irmã por fazer o papel de irmã mais velha e me apoiar. À Tina por me apoiar, encorajar, sorrir para mim quando mais precisei e por todo o amor fornecido. À Ema pela amizade, carinho, apoio e lugar para trabalhar. À Inês Oliveira por fazer sentido do caos. À Ariana pela amizade e pelas correções. Ao Professor Mário Bismarck por me proporcionar mais tempo para entregar. Aos meus amigos pela ajuda e apoio de todas as maneiras.
i Resumo Este relatório do projeto tem como objetivo relacionar o campo da narrativa, ilustração e da tatuagem. O trabalho consiste num ensaio visual dividido em três partes. Começamos por definir o conceito de narrativa e o seu modo de operar para depois nos concentrar-mos, especificando, esta abordagem no campo da imagem e da narrativa pessoal de um indivíduo. Prosseguimos com a clarificação da definição de ilustração e respetivos objetivos, seguido de uma transposição para o campo da tatuagem onde exploramos a sua função enquanto ilustração e simbolo de uma narrativa de um indivíduo. O relatório prossegue com a investigação visual na area da ilustração e tatuagem, com o objetivo de encontrar artistas e tipologias representativas da narrativa, tal como a definimos anteriormente. A partir desta investigação e dos resultados obtidos, iniciamos a terceira e última parte do projeto. Começamos pela conceção de seis personagens tatuadas, cada uma com a sua própria narrativa e concluímos com a respectiva produção e ilustração destas personagens como formalização do projeto. Palavras-chave narrativa, ilustração, tatuagem
Abstract This project report aims to clarify the fields of narrative, illustration and tattoo. The present work is a visual essay divided in three parts. We began by addressing the concept of narrative and its mode of operation and then we focus in to the field of image and the personal narrative of an individual. We continue, then, by clarifying the definition of illustration and respective goals, followed by a transition to the field of tattooing where we explore this concept as an illustration and symbol of the personal narrative of an individual. The report continues with a visual research in the field of illustration and tattoo, with the goal of finding artists and typologies representative of narrative, as we have defined it previously. From this research and the results obtained, we began the third and final part of the project. We start by designing six tattooed characters, each one with their own story and narrative and we conclude it with the illustration of these characters, respectively, as the final product of the project.
iii 1. Índice 1. Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .1 1.1. Objetivos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .3 1.2. Metodologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .3 1.3. Estrutura do relatório . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4 2. Narrativa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .7 3. Ilustração e Tatuagem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 3.1. Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 3.2. Ilustração . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 3.3. Tatuagem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16 3.4. Investigação Visual . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21 3.5. Resultados da investigação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25 4. Conceção, Produção e Execução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63 4.1. Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63 4.2. Conceptualização e Criação das Personagens . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 64 4.3. Produção e Execução: metodologias, materiais e ilustração . . . . . . . . . . . . . . . 72 5. Reflexões finais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83 6. Lista de Ilustrações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85 7. Referências Bibliográficas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87 8. Bibliografia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89 9. Apêndices . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 91 10. Ilustrações finais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 92
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7 2. Narrativa A definição de narrativa, segundo o dicionário on-line Oxford1, apresenta-se como “a prática ou arte de contar histórias”, ou a “representação de uma determinada situação ou processo, de tal forma a refletir em conformidade com um conjunto abrangente de objetivos ou valores”. Sempre foi do interesse do ser humano, e faz parte da sua natureza, contar histórias e, acima de tudo, fazer o seu registo para que gerações futuras tenham acesso às mesmas. Sempre explorando novas maneiras de expressar tais e múltiplas histórias e de as narrar, o ser humano desenvolveu com esse intuito vários recursos e linguagens. “... a narrativa está presente em todos os tempos, em todos os lugares, em todas as sociedades; a narrativa começa com a própria história da humanidade; não há em parte alguma povo algum sem narrativa; todas as classes, todos os grupos humanos têm suas narrativas... internacional, transhistórica, transcultural, a narrativa está aí, como a vida.” (Barthes, 1971:19,20) Desta maneira, segundo Barthes, toda e qualquer cultura, sociedade e pessoa possui em si uma ou mais narrativas que representam a sua história, presentes em todos os aspetos da humanidade desde mitologias até à banda desenhada, passando, por exemplo, pela pintura, 1 http://oxforddictionaries.com/definition/narrative?q=narrative[13defevereirode20013]
8 comédia, cinema e, mais importante, no contexto deste trabalho, a ilustração. Ao longo da sua existência, a história da arte sempre se fez acompanhar pela narrativa. Desde as primeiras pinturas realizadas pelos antepassados do ser humano nas paredes de cavernas, a todo o mundo virtual da internet, muitas são as formas possíveis de narrar acontecimentos. Hoje temos acesso a vários exemplos destas narrativas construídas, criadas e pensadas pelo ser humano: começando pela pintura rupestre nas paredes de cavernas retratando cenas de caça, até aos relevos, pinturas e hieróglifos egípcios com cenas mitológicas e simbólicas; dos motivos pintados em ânforas e vasos gregos até à escultura ou iluminuras medievais usadas para ensinar o povo pouco instruído a vida de Jesus e dos santos; do renascimento e da Escola de Atenas de Rafael, passando pelo romantismo e a A Balsa da Medusa de Géricault até ao impressionismo e o O baile no moulin de la galette de Renoir; da obra de Utagawa Hiroshige, passando pelo expressionismo, com a A tentação de St. António de Ernst, até à obra de Keith Haring, as ilustrações de Tom Gauld ou a banda desenhada de Chris Ware. Segundo Gérad Genette, narrativa define-se como “a representação de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos, reais ou fictícios, por meio da linguagem” (Genette, 1971:255). Já Michelle Alcina refere que a narrativa é a via pela qual o ser humano faz sentido do
9 mundo já que “by invoking the narrative individuals are able to grasp past events and past behaviors and incorporate these memories into the thinking, feeling, and acting” (Alcina, 2009:32). A narrativa pode estar presente, existir e operar em vários níveis, formatos, géneros e composições, conforme o autor que as cria, sendo que para tal utiliza várias linguagens. Estas linguagens – oral, escrita, pictórica – que suportam a narrativa são usadas como forma de exprimir, representar um ou vários acontecimentos. Esta construção formal contribui para a criação de sequências quer ficcionais ou não ficcionais de acontecimentos, uma série organizada de acontecimentos unidos de maneira lógica de modo a narrar algo ou alguma coisa. “... existem sem dúvida muitos tipos de funções, pois há muitos tipos de correlações. Disto resulta que a narrativa só se compõe de funções: tudo, em graus diversos, significa aí... é uma questão de estrutura: na ordem do discurso, o que se nota é, por definição, notável: mesmo quando um detalhe parece irredutivelmente insignificante.” (Barthes, 1971:28). As narrativas mais pequenas dentro da narrativa geral, que classificamos de micronarrativas, presentes, por exemplo, na ilustração, possibilitam uma leitura a vários níveis, onde cada pormenor, cada referência e cada pequena história representada contribui para a narrativa geral. Maria Nikolajeva e Carole Scott referem na publicação Livro Ilustrado: Palavras e Imagens que “as imagens têm possibilidades ilimitadas de transmitir de modo “omnipresente”,
10 dando uma visão panorâmica do cenário, e também de retratar vários eventos paralelos ou muitos personagens em diferentes locais (…)”. (Nikolajeva, Scott, 2011:157). No contexto deste projeto, e de todos os campos onde a narrativa opera, especificamos um: a imagem . Pode uma imagem conter em si uma narrativa? Pode a imagem demostrar uma ou várias narrativas? Numa primeira observação do espetador, todas as imagens, apenas mostram os elementos mais básicos da sua composição. Só instantes depois, após a primeira obervação, se estabelece uma compreensão a partir da relação entre imagem e o observador, levando-o a fazer sentido da imagem e sobretudo do seu significado e qual a mensagem ou a narrativa que pretende demonstrar. Segundo William Brown, é da natureza humana procurar e exigir narrativas de uma imagem (Brown, 2011:50. “Images alone do not necessarily make sense, but when combined with other images or when considered over time, images begin to have narrative qualities – both in terms of stories that are told and in terms of the implicit ideological messages that may have been coded into the images” (William Brown, 2011:53) Assim entende-se que dentro de uma narrativa ou ilustração, diferentes elementos possam conduzir a vários significados e interpretações, dependendo da intenção do autor e da relação desses elementos sobre o olhar do observador.
11 O principal objetivo deste projeto explora a narrativa em dois campos distintos, ilustração e tatuagem, com a finalidade de produzir um conjunto de ilustrações que contemplem personagens tatuadas. Em cada ilustração a tatuagem é aplicada sobre a pele de cada personagem como uma ou várias narrativas, refletindo a identidade e historial de cada uma das personagens. Segundo Michelle Alcina (2009), parafraseando Anne M. Velliquette (2005), utilizamos a tatuagem como símbolo para definir a narrativa individual de cada personagem. Desta maneira percecionamos a narrativa como veículo para a representação de, no contexto deste projeto, ações, histórias, momentos, ilustrações e por fim, indivíduos. Nos capítulos seguintes será abordada a narrativa no campo da ilustração e da tatuagem enquanto construtora e veículo demonstrativo de narrativas e de cada uma respetivamente. .
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13 3. Ilustração e Tatuagem 3.1. introdução Começamos este capítulo por fazer um enquadramento ao tema que será abordado na presente investigação. Como já referido anteriormente na introdução, os campos abordados neste projeto são a ilustração, a tatuagem e as relações narrativas e figurativas entre e presentes entre ambos. No entanto, e no contexto deste projeto, o que nos interessa é encontrar respostas para estas questões: o que é a ilustração e como funciona? Existe uma relação específica entre ilustração e tatuagem? É possível a tatuagem, tal como a ilustração, criar e transmitir narrativas sobre a forma imagens? No contexto deste projeto revela-se importante definir o campo da ilustração e o modo como opera não somente ao nível prático mas também ao nível teórico. De igual modo, é importante mostrar e explicar de que maneira a tatuagem carrega em si narrativas, e como opera enquanto meio possível de registo de memórias. Nas páginas seguintes encontraremos respostas a estas perguntas e, sobretudo, as nossas conclusões. Serão também demonstradas definições que alguns autores possuem de ambos os assuntos.
14 3.2. ilustração O que é a ilustração? A primeira resposta apresentada é que se trata, seguindo o contexto deste projeto, de uma representação visual ou complementar a uma narrativa. Recorrendo ao dicionário da Porto Editora2 , ilustração é referida e definida como: “1.imagem (desenho, gravura, fotografia, esquema, etc.) que complementa texto; 2.arte ou técnica de criação e/ou seleção de imagens para complemento de texto; 3. breve narrativa ou exemplo que ajuda a compreender ou a esclarecer algo; 4. soma de conhecimentos; instrução; sabedoria; 5. pessoa célebre ou ilustre; 6. renome; celebridade.” Perry Nodelman define ilustração de maneira sucinta: “visual matter used to clarify or to decorate a text” (Nodelman, 1990:3). Estas são geralmente as definições mais basicas apresentadas, no entanto, outros autores exploram mais a fundo a definição deste conceito. Pedro Moura, argumenta num artigo intitulado “O que é uma ilustração”3, que a resposta é complexa, mas define ilustração como “um modo de tradução, de transposição, de re-logicização” para uma outra linguagem, neste caso visual. 2 http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa/ilustra%C3%A7%C3%A3o.Acedidoa3deSetembrode2013 3 http://lerbd.blogspot.pt/2010/04/re-o-que-e-uma-ilustracao.html.Acedidoa6deSetembrode2013
15 Já Silvia Blezza Picherie escreve sobre a função e importância do ilustrador4 para com o objeto de trabalho: “By playing with lines and colours, the artist reveals hidden actions and realities, while at the same time communicating the sensations, emotions, feelings and thoughts of the characters which are only mentioned or implied in the text. Thus the illustrator becomes co-author of the story, as the pictures use different ways to complete, supplement or extend the verbal narration.” (Picherie, 2009:3) Marta Borges (2012), partindo da definição dado pela publicação Dicionário do Livro – Da escrita ao livro eletrónico (Maria Isabel Faria, Maria Graça Pericão, 2008), refere ilustração como uma interpretação de um texto ao invés de uma mera transcrição. Conclui, de seguida, afirmando “illustration as all visual representations of texts that can or can’t go beyond the exact reproduction provided that they evidenciate and/or increase it’s meaning” (Borges, 2012:148). Também Mário Moura (2010) propõe a sua definição e conceito de ilustração afirmando que “uma imagem começa a ser uma ilustração quando de algum modo foi feita para representar visualmente um texto”5. O autor prossegue, referindo que “uma ilustração é uma imagem que não foi produzida para funcionar por si mesma, mas para estar de algum modo, 4 estafunçãorefere-sealivrosilustrados,masenquadra-senoâmbitodesteprojeto 5 http://ressabiator.wordpress.com/2010/03/23/o-que-e-uma-ilustracao/.Acedidoa9deSetembrode2013.
22 ritmo, fluidez e construção formal; - estilo e características próprias do traço utilizado pelo autor. As diretrizes acimas mencionadas obedecem essencialmente a três aspetos principais: formal, pictórico e preferência pessoal. Todos os exemplos escolhidos com base nos critérios desta investigação deram azo à criação de uma espécie de banco de imagens para a produção das personagens e das ilustrações. Este banco de imagens e de artistas influenciou diretamente o trabalho produzido nas seguintes fases do projeto: criação, conceção e ilustração das personagens. De seguida serão dissecados os frutos desta investigação e o modo como estes se refletem no trabalho teórico da conceção das personagens e no trabalho prático, ou seja, na materialização das mesmas.
23 3.5. Resultados da investigação EEste subcapítulo apresenta os resultados da investigação realizada tendo por base as diretrizes apresentadas no subcapítulo anterior. Os exemplos escolhidos, além de obedecerem às regras anteriormente estipuladas, possuem também uma relação direta com as personagens criadas na medida em que influenciaram diretamente a sua conceção e produção. Lembramos, no entanto, que isso não se aplica a todas as personagem produzidas nem a todos os exemplos de artistas que de seguida iremos referir. “While overall qualities such as style convey much about mood and atmosphere, most of the narrative information that pictures provide comes from the specific objects depicted – not just what they are but also how they relate to each other. The objects themselfes become meaningful through the contexs they evoke, which relate them to our general knowledge and experience of life, of literature, and of visual art.” (Nodelman, 1990:101) Todos estes exemplos possuem vários elementos, quer visuais, formais, narrativos ou técnicos que, juntamente com cada uma das histórias criadas para cada personagem, influenciaram a produção e cada uma das narrativas, assim como cada uma das narrativas construídas. Cada um representa de diferentes maneiras o uso da narrativa enquanto construção de uma história e o relacionamento entre elementos e o seu significado, quer no campo da ilustração quer no da tatuagem.
24 3.5.1. ilustração Utagawa Hiroshige A obra de Utagawa Hiroshige (1797-1858), um Mestre Japonês na arte ukiyo-e do século IXX, apresenta repetidamente paisagens recorrentes do mesmo tema pelo qual este artista se destacou e se tornou reconhecido, gravuras e estampas de paisagens retratando a vida em Edo (Tóquio). De toda a obra deste artista, escolhemos duas imagens (páginas seguintes) que no nosso entender representam não só o trabalho do artista, mas também o conceito de narrativa dentro de uma narrativa (referenciado nos capítulos anteriores) e a razão da nossa escolha deste enquanto exemplo. Logo à partida este artista encaixa-se num dos parâmetros da nossa investigação já que, tal como se pode verificar nas imagens escolhidas, produziu obras repletas de vários elementos quer na paisagem, quer dentro ou sobre esta. Dentro de cada obra é apresentada uma narrativa principal, quer seja uma cena de paisagem ou um passeio ao longo do rio, e dentro desta apresentam-se vários elementos diferentes que nos surgem como micronarrativas. Desde crianças a andar com os pais, duas mulheres conversar, dois homens a andar, até uma pessoa a comer, um cão a ladrar a outra, um homem a puxar uma carroça ou uma casal a num simples passeio, todos estes elementos
25 fig.1; fig.2 HIROSHIGE, Utagawa (1840s) Taira no Kiyomori kaii o miru zue [fotografia] http://toshidama.wordpress. com/2012/12/22/japanesesnow-myths/ [15 de agosto de 2013]
26 fig.3; fig.4 HIROSHIGE, Utagawa (1840s) sem título [fotografia] http://commons. wikimedia.org/wiki/ Category:Hiroshige_Utagawa [15 de agosto de 2013]
27 complementam e acentuam a narrativa principal, a representação paisagística da vida em Edo e todos os sentimentos e humores presentes na altura. O tratamento que este artista aplicou às suas paisagens de fundo também se revelou umas das razões pela qual escolhemos Hiroshige como exemplo. Nas duas imagens escolhidas existe uma construção de paisagens, umas mais complexas que outras, especialmente na primeira imagem (fig. 1 e 2), em que vários elementos da natureza, como árvores e ramos, criam, através da ligação entre estes, várias caveiras. A última razão pela qual escolhemos este artista assentou na nossa vontade em criar uma personagem inspirada na cultura de tatuagem japonesa conhecida como irezumi. Como tal a escolha de um artista japonês que realizou várias obras repletas de narrativas revelou-se importante como influência no projeto.
28 Mcbess (Matthieu Bessudo) Mcbess (1984) é um ilustrador francês, residente em Londres, cujo trabalho e estética são fortemente influenciados pelos desenhos animados dos anos 30/40 do século XX criados pelos Fleischer Studios, tais como Betty Boob e Popeye the Saylor. O seu estilo, embora baseado nestes desenhos animados, trata-se de uma atualização dos mesmos que recorre a elementos contemporâneos da cultura popular, mantendo a mesma estética, mas criando mundos surrealistas habitado por guitarras e referencias ligadas à música e à gastronomia. Este autor insere-se na maior parte dos parâmetros definidos para esta investigação, como será explicado mais a fundo, de seguida. As grandes composições que este autor cria são outra das razões pela qual o escolhemos. Como podemos observar nas imagens da página seguinte, este autor, ao criar cada composição subordinada a um tema e narrativa específica, enche cada imagem com inúmeros elementos, mini cenários, micronarrativas e inúmeras ações protagonizadas por personagens, tatuadas ou não, sobre o mesmo tema. Nas imagens 5 e 6, por exemplo, Mcbess inseriu vários elementos e referências a South Park, uma série por si também ilustrada. O uso de personagens tatuadas com elementos relativos às narrativas principais exploradas em cada ilustração por McBess remete imediatamente para o trabalho produzido
29 fig.5; fig.6 McBess (2013) Le South Park [ilustração] http://mcbess. com [17 de agosto de 2013]
30 fig.7 McBess (2013) Creamed [ilustração] http://mcbess.com [17 de agosto de 2013]
31 neste projeto de mestrado, tal como pode ser verificado na página anterior (fig.7). Por último, a razão pela qual escolhemos este artista assenta na nossa preferência, já anterior a esta investigação, pela estética e impacto visual de toda a sua obra habitada por desenhos de linha numa espécie de alto contraste preenchida e interligada por degradês, como podemos observar novamente na página anterior (fig7). Referimos por último que o tipo de estética e linguagem que Mcbess apresenta em toda a sua obra apresenta grandes semelhanças com o trabalho produzido por alguns tatuadores. Semelhança que iremos mostrar, de seguida, num exemplo na seção de tatuagens.
38 fig.14; fig.15 LIDBERG, Micah (2012) Rise and Fall [livro] http://www.nobrow.net [19 de agosto de 2013]
39 chegada à meta final. O segundo ilustra a corrida espacial entra a antiga USSR e os E.U.A., com cada lado do livro a representar um país. Um lado do livro retrata os primeiros triunfos russos na exploração espacial, desde a cadela Laica até à primeira estação espacial; já o outro ilustra a chegada dos norte-americanos à lua. O terceiro e último livro ilustra a extinção dos dinossauros e o repovoamento do planeta Terra por novas espécies de criaturas e animais. A escolha destes três livros está relacionada com o modo como a narrativa é construída e opera de forma contínua ao longo de cada (fig. 10, 12, 14). Esta forma de construção contínua de uma narrativa de forma cronológica revelou-se importante na conceção e criação de narrativas sobre as personagens. Tal como as narrativas destes livros começam numa ponta e acabam na outra, também foi o nosso objetivo explorar este modo de operar aplicado à tatuagem sobre um corpo, mais especificamente nos braços e tronco. Além da forma como a narrativa opera nestes três livros, também o tipo de registo visual característico e os temas explorados por cada ilustrador em cada livro contribuíram para a sua escolha como exemplo para este projeto. Os livros Space Race e Rise and Fall de Tom Clohosy Cole e Micah Lidberg, respetivamente serviram de inspiração direta para duas personagens, quer pelo seu conteúdo quer pelo registo visual.
40 3.5.2. Tatuagem Dr. Lakra O primeiro exemplo desta segunda parte da investigação apresenta-se como um híbrido entre ilustração e tatuagem, tornando-se assim uma ponte entre estes dois campos, dentro deste projeto. Dr. Lakra (Jeronimo Lopez Ramirez) nascido em 1972 e a residir em Oaxaca (México) é um tatuador e artista cuja obra caracteriza-se por imagens macabras baseadas no folclore mexicano e desenhos ao estilo de tatuagem sobre objetos e imagens, tais como, bonecas e fotografias de revistas mexicanas dos anos cinquenta (fig. 16, 17), respetivamente. A descoberta deste artista revelou-se determinante para a parte prática e visual do projeto. A partir do trabalho deste artista surgiu a resolução e a solução para um conflito prévio à produção das ilustrações finais deste projeto – utilizar cor ou produzir ilustrações monocromáticas (fig.16). A principal razão para a escolha deste artista, como já foi referido, trata-se do tipo de registo utilizado pelo mesmo. No entanto, também a metodologia de trabalho do artista pendeu na decisão. Como é possível observar nas imagens da página seguinte, Dr. Lakra
41 fig.16 Dr. Lakra (2006) Untitled [escultura] http://www.wurzeltod.ch [6 de agosto de 2013]
42 fig.17 Dr. Lakra Untitled [fotografia/ilustração] http://www.grambarcelona.com [6 de agosto de 2013]
43 utiliza imagens e objetos de indivíduos, geralmente do sexo feminino, sobre os quais desenha, cobrindo integralmente o corpo de cada com tatuagens (fig. 16, 17) . Esta abordagem revela semelhanças com a metodologia utilizada neste projeto, recorrendo à tatuagem como expressão do desenho. Em ambos os momentos o resultado final são personagens cobertas de tatuagens, embora no caso do Dr. Lakra estas tenham unicamente um caráter decorativo, ao invés do caráter narrativo que este projeto pretende.
44 Pen & Ink Tal como o exemplo anterior estabelece uma ponte entre ilustração e tatuagem importante para este projeto, também este estabelece essa mesma ligação entre os dois campos de estudo. Pen & Ink é um projeto em forma de blog criado por Wendy MacNauhton e Isaac Fitzgerald que se dedica a ilustrar as histórias e contextos por trás de tatuagens submetidas por leitores identificados e anónimos. Cada indivíduo é incubido de enviar uma fotografia de uma ou mais tatuagens juntamente com a história e significado que este lhe atribui. Estes dois elementos são depois (re)interpretados, ilustrados e por fim publicados no blog sob a forma de um post contendo a ilustração e a respetiva história. O resultado é uma análise profunda à ligação entre tatuagem a sua estética e o seu significado, estabelecendo narrativas entre si e permitindo observar uma possivél interpretação, por parte destes artistas, a uma história e a uma tatuagem num contexto mais pessoal (fig. 18, 19). Este exemplo revelou-se importante para o projeto porque não só permitiu estudar as relações entre tatuagens, significados e contextos, como se revelou fonte de ideias para a conceção e produção das personagens. Permitiu também um olhar para uma possível solução visual das respetivas tatuagens apresentadas.
45 fig.18 Pen & Ink Dmitry Samarov, Painter, Writer, Former Cabdriver [ilustração] http:// penandink.tumblr.com/ [6 de agosto de 2013]
46 fig.19 Pen & Ink Sarah NicolePrickett, Writer [ilustração] http://penandk.tumblr.com/ [6 de agosto de 2013]
47 Aqui residem as razões pelas quais optamos por escolher este projeto como exemplo e ponte de ligação entre o campo da ilustração e o campo da tatuagem.
54 fig.24 Saylor Jerry untitled [tatuagem] http://www.imperialtattoos.com [23 de agosto de 2013]
55 cada tatuagem realizada por Saylor Jerry influenciou não somente o tipo de desenho e registo utilizado na ilustração das personagens mas também a construção de cada elemento e de cada tatuagem portadora do seu próprio significado. A primeira personagem que concebemos, um homem do mar, bebe diretamente da influência da temática usada por este autor.
56 Tatuagem Criminal Russa A tatuagem criminal russa, habitada por uma cultura bastante particular, caracterizase pelo código simbólico que cada tatuagem representa dentro do mundo criminal russo. Esta cultura criminal russa usa a tatuagem como uma forma de narrativa através da qual criminosos e prisioneiros narram e identificam histórias de vida, transgressões, crimes e penas, assim como convicções de teor político ou religioso. Este complexo sistema de tatuagens como símbolos oferece também informações sobre a afiliação criminosa e o estatuto dentro do mundo criminal, permitindo que um vulgar ladrão ou um Vor (indivíduo no topo da hierarquia) sejam facilmente distinguidos. Embora fora desta sociedade de criminosos as tatuagens pareçam somente um amontoado de motivos, dentro desta, cada individuo aprende, traduz e “fala” este tipo de linguagem aplicado sobre a sua própria pele. Intimamente ligado ao significado de cada tatuagem está o local do corpo onde esta é realizada, já que, à priori, cada região deste se encontra carregada de significado por si só. O mesmo motivo tatuado (como por exemplo duas estrelas de 8 pontas) adquire significados diferentes ora se colocado sobre os ombros ora se sobre os joelhos (fig. 26). Quando tatuadas nos ombros, as estrelas significam que o individuo pertence à Vor v zakone (Máfia Russa), enquanto que sobre os joelhos representa que não se ajoelha perante as autoridades. Desta maneira, o corpo humano transforma-se num anúncio dirigido aos restantes criminosos.
57 fig.25 BalDaev, Danzig Untitled [fotografia/tatuagem] http://zero6artedesordem.blogspot.pt [23 de agosto de 2013]
58 fig.26 BalDaev, Danzig (1991) Untitled [fotografia/tatuagem] http://fuel-design.com [23 de agosto de 2013]
59 O autor, tatuador e intérprete deste tipo de linguagem apelida-se de kol’shchiki (furadores), o que lhe concede um estatuto especial dentro do seu mundo. Os motivos pertencentes a esta cultura de tatuagem são tão variados quanto o seu próprio significado. No entanto, existem vários motivos que operam como um alfabeto para a criação de mais motivos e significados. Cada tatuagem pode incorporar em si vários motivos desde representacionais a simbólicos. De entre os mais reconhecidos temos: arame farpado, pontos, punhal, aranhas, estrelas, crânios, esqueletos, rosas, igrejas, mosquitas e fortalezas. Na página seguinte é possível observar alguns destes exemplos, assim como o traço característico deste tipo de tatuagem (fig. 26). Esta dinâmica entre tatuagem, significado e região do corpo cria constantes narrativas onde cada uma está intimamente ligada a uma ação, a um acontecimento, a um sentimento ou a uma ideologia. O resultado é o corpo como um mapa histórico e narrativo sobre determinado individuo. O modo de operar, descrito em cima, juntamente com o traço próprio deste tipo de tatuagem aliada ao seu carácter narrativo fazem parte do conjunto de razões pelas quais esta cultura de tatuagem está presente como exemplo neste projeto. A outra razão assenta num dos objetivos deste projeto, que é conceber um criminoso russo.
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61 4. Conceção, Produção e Execução 4.1. introdução Este capítulo é dedicado à parte prática do projeto. É descrita a produção, desde os primeiros esboços até às ilustrações finais, passando pela criação de cada personagem, assim como todos os recuos e avanços na realização do projeto. A parte prática do projeto começou por uma análise das ilustrações realizadas no primeiro ano de mestrado e que serviram como testes para a realização destas sete novas personagens. Não só serviram como testes como foram reaproveitadas algumas das poses dessas primeiras ilustrações para as novas personagens. Desta análise também retiramos as primeiras ideias para a conceção de cada personagem que, como já foi dito anteriormente, foram desenvolvidas e realizadas em simultâneo com a ilustração das mesmas. Cada um das etapas influenciou a outra simultaneamente. O primeiro assunto a ser abordado neste capítulo é construção da história para cada uma das personagens assim como todas as narrativas correspondestes. É explicado o tema principal de cada personagem assim como os diferentes contextos presentes ao longo do corpo e o modo como estes se relacionam. De seguida parte-se para a mais prática descrevendo a seleção do formato utilizado assim como os matérias e metodologia empregues. Por último
62 será feita uma descrição da produção, bem como uma enunciação de todas as decisões correspondentes à execução das seis ilustrações finais. 4.2. Conceptualização e Criação das Personagens Como referido anteriormente, o propósito final deste projeto resultou na criação de um conjunto de personagens e ilustrações correspondentes. Tanto as personagens como as narrativas inerentes a cada a uma delas são passíveis de serem caracterizadas de várias maneiras, dependendo das vontades e das escolhas do autor/narrador (Nikolajeva, Scott: 2011). Neste caso específico essa construção foi orientada através da inclusão de tatuagens, que refletem e revelam aspetos, histórias e acontecimentos de vida. “As imagens possibilitam uma diversidade de caracterizações externas… embora algumas qualidades humanas perenes (como ser bravo, inteligente, inocente) sejam difíceis de comunicar visualmente, as poses, gestos e as expressões faciais dos personagens podem revelar emoções e atitudes…” (Nikolajeva, Scott, 2011:113) No entanto, o que é pretendido no contexto deste projeto não é elaborar a caracterização psicológica de cada personagem, nem demonstrar os respetivos estados de espírito, mas sim narrar, através do recurso a tatuagens, cenários e episódios específicos que comportem a história da personagem – que ilustrem situações fundamentais na sua construção identitária.
63 Por sua vez, estes cenários criados sobre o corpo das personagens podem remeter, naturalmente, para outro tipo de caracterizações, quer psicológicas, quer pessoais, de acordo com a interpretação de cada observador. Por sua vez, estes cenários criados sobre o corpo das personagens podem remeter, naturalmente, para outro tipo de caracterizações, quer psicológicas, quer pessoais, de acordo com a interpretação de cada observador. Como surgiram estas personagens? Qual o “tema” e história de cada ilustração? Cada personagem parte de uma ideia base, ideia esta que surgiu espontaneamente, foi desenvolvida ou repescada do trabalho de atelier elaborado no decorrer do primeiro ano de mestrado. A origem de algumas destas ideias é variada, podendo as mesmas derivar de conceitos, palavras, frases, imagens, filmes, países ou mesmo toda uma cultura. No entanto, a razão de todas estas associações e consequentes escolhas advém essencialmente de uma motivação pessoal que tem em conta a minha formação pessoal e artistíca. Todas as histórias/temáticas criadas para cada personagem não possuem uma ligação entre si, mas, no entanto, tem um objetivo comum: narrar cada personagem através de elementos visuais colocados sobre o próprio corpo.
70 exploração espacial e, como tal, decidimos incluir vários elementos alusivos a este tema como parte da narrativa, tais como: o “space shuttle” e outros tipos de veículos usados para alcançar o espaço, quer enquadrados numa imagética futurista, quer pertencentes ao passado da navegação espacial; uma estação especial; meteoritos e cometas; uma capsula espacial que permite o regresso ao planeta terra; uma representação da terra e do sistema solar entre outros. Deste modo, é-nos possível criar uma narrativa contínua, representativa da exploração espacial, evocando para tal os procedimentos que ocorrem desde a descolagem até à aterragem de uma aeronave espacial.
71 4.3. Produção e Execução: metodologias, materiais e ilustração Uma decisão já tomada no final do primeiro ano de mestrado corresponde à escala a usar nas ilustrações das personagens. Esta decisão foi fortemente influenciada pela Professora Graciela Machado e pelo Professor Paulo Almeida, que o sugeriram para as novas ilustrações e que acabámos por seguir. Enquanto os primeiros testes tinham as medidas 38x58 cm (fig. 27, 28, 29, 30), decidimos aumentar a escala para 65x100 cm (fig. 31, 32). Este aumento da escala permitiu, além de um maior impacto das ilustrações, a possibilidade de introduzir maior detalhe na ilustração e em cada personagem. A partir daqui começamos com os primeiros esboços. Outra decisão que tomamos imediatamente foi realizar os esboços já no formato final, ou seja, 65x100 cm em papel fabriano (fig. 31, 32). Esta escolha foi feita já a pensar nas ilustrações finais. A nossa intenção era construir e esboçar as narrativas sobre cada uma das personagens já no formato final de modo a criar imediatamente uma relação entre todas as narrativas. Em termos práticos, tratase de uma opção que facilita a passagem a limpo da ilustração. Após esboçarmos duas personagens, o “Homem do Mar” e o “VOR”, transferimos ambas para folhas de papel canson edition. Tal como nos primeiros testes, e novamente nos primeiros esboços, os contornos das personagens foram realizados a tinta-da-china e as tatuagens sobre estas a lápis de grafite. Antes de transferirmos as duas primeiras personagens
72 já esboçadas para o papel final decidimos experimentar uma ideia. A nossa vontade era de alguma forma fazer sobressair da folha cada uma das personagens e para esta ideia, a nossa solução foi passar tinta-da-china extremamente diluída, de modo a obter um cinzento claro por todo o corpo de cada personagem. O emprego desta ideia acabou por não resultar, já que a gramagem do papel, apesar de se encontrar entre os 200 e 300 gm2, revelou-se insuficiente para suportar a tinta e acabou por ondular o papel. Este incidente, aliado ao grande formato do papel onde estávamos a esboçar as personagens, que não permitia grande mobilidade de trabalho característico de um esboço, levou a um abandono deste tipo de papel, formato e técnica utilizada. O passo seguinte foi encontrar um novo tipo de papel e um novo formato. Esta escolha recaiu sobre folhas da marca Arches de 300 gm2, e um novo formato, 56x76cm. As razões para esta escolha deveram-se não só à gramagem do novo papel, mas também ao novo formato e à superfície mais propícia a líquidos e grafite. Também decidimos modificar o modo de construção e esboço das narrativas e das personagens. Ao invés de continuar com os esboços à escala final, decidimos adotar como instrumento de registo um caderno moleskine de tamanho a5 para apontar todas as ideias (fig. 33, 34, 35, 36). Esta escolha recaiu pelo seu caráter mais íntimo, mais transportável. Outro fator foi a sua natureza mais prática, por permitir mais facilmente esboços rápidos,
73 fig.27,28,29,30 PeNela, David (2012) grafite e tinta da china sobre papel, 38x58 cm
74 fig.31,32 PeNela, David (2012) grafite sobre papel, 65x100 cm
75 que acumulados com outros esboços já existentes criam interações e narrativas entre si e que levam a novas ideias e a novas relações entre histórias. Outro motivo foi a óbvia facilidade de transporte que um caderno proporciona. A partir daqui não existiu mais nenhum percalço de maior. Começamos por esboçar vários desenhos e lentamente construir cada personagem explorando várias possibilidades em paralelo com a nossa investigação pictórica. Esta investigação levou ao aparecimento de novas ideias que juntamente com os esboços foram lentamente criando e definindo as narrativas finais sobre cada uma das personagens. A escolha de um caderno pequeno também permitiu trabalhar de fora para dentro, isto é, criar e esboçar as narrativas principais para depois, na passagem para o formato maior, permitir o aparecimento de espaço onde inserir mais pormenor, ou seja, micronarrativas. Permitiu também criar pequenos mapas de construção sobre as várias narrativas de cada personagem. Salientar que os esboços realizados antes não se perderam, já que tratamos de os passar para o caderno de modo a continuar com a construção das personagens e das ilustrações. Após esboçarmos, no caderno, a maior parte das poses das personagens e vários elementos das narrativas de algumas personagens, decidimos começar a trabalhar nas ilustrações finais. As primeiras ilustrações finais que decidimos passar para o formato final foram o “Homem do Mar” e o “O Mafioso” (fig. 37, 38). Contrariamente aos primeiros esboços, ainda no formato
76 antigo, em que realizamos os contornos das personagens a tinta-da-china e as tatuagens a lápis de grafite, desta vez optamos por abandonar o primeiro material e adotar o segundo para toda as ilustrações. Desta forma decidimos realizar as ilustrações somente a várias durezas de lápis de grafite. Com esta escolha quisemos acabar com a fronteira mais acentuada que a tinta-dachina provoca entre fundo e personagem. Com a grafite tivemos a possibilidade de dar alguma volumetria e tridimensionalidade às formas e corpo de cada uma da personagem. O passo seguinte foi a transferência das restantes personagens para as folhas finais. A partir deste momento adotou-se uma metodologia de trabalho e de criação de cada personagem: esboçar no caderno as narrativas principais e os vários elementos respetivos até se chegar a uma ideia final; transferir estes esboços e ideias para as folhas finais; esboçar diretamente sobre cada personagem mais narrativas e micronarrativas, ou mesmo modificar as anteriormente criadas; e, por último, transformar cada personagem e os esboços sobre cada uma destas em cada uma das ilustrações finais. Com a nossa metodologia de trabalho já definida e a maior parte das ilustrações já lançadas sobre as respetivas folhas, restou-nos somente a conclusão das mesmas. Quando entramos na fase final na realização das ilustrações tomamos uma decisão relativa ao traço que a grafite proporciona e deixa sobre a folha. Apercebemo-nos que o nosso traço a grafite, mais especificamente o das tatuagens, se revelou muito escuro e desta maneira tornava
77 fig.33, 34, 35, 36 PeNela, David (2013) grafite sobre papel páginas de moleskine
78 fig.37, 38 PeNela, David (2013) grafite sobre papel, 56x76 cm
79 cada personagem demasiado plana sobre a folha, por ter o mesmo tom que o contorno de cada personagem. Esta constatação levou à necessidade de encontrar uma solução para este problema num material de desenho: a borracha de carvão. Através desta retiramos, em vários pontos e elementos de cada ilustração, algum do excesso de grafite de modo a: 1. tornar as tatuagens mais realistas, retirando alguma da grafite em excesso (não apagar, mas clarear algumas partes), como se as tatuagens já tivessem sido realizadas há algum tempo; 2. atribuir alguma volumetria às personagens e ao seu próprio corpo; 3. produzir manchas em algumas partes, necessárias para alguns elementos das tatuagens. Após esta última decisão, restou-nos apenas finalizar alguns pormenores como retocar linhas e apagar sujidade antes de executarmos o passo final: aplicação de fixador para proteger a grafite e as ilustrações de modo a evitar sujidades e borrões. Desta maneira concluímos as seis ilustrações propostas no início deste relatório e que podem ser consultadas num apêndice no final do mesmo.
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90 10. Ilustrações finais
91 David Penela (2013), Homem do Mar, grafite sobre papel arches 300 gm2, 56x76 cm
92 David Penela (2013), VOR, grafite sobre papel arches 300 gm2, 56x76 cm
93 David Penela (2013), Samurai, grafite sobre papel arches 300 gm2, 56x76 cm
94 David Penela (2013), Aventureiro, grafite sobre papel arches 300 gm2, 56x76 cm
95 David Penela (2013), Salvadora, grafite sobre papel arches 300 gm2, 56x76 cm