O paradoxo da obesidade e as suas implicações clínicas
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Artigo de Revisão Bibliográfica Mestrado Integrado em Medicina O PARADOXO DA OBESIDADE E AS SUAS IMPLICAÇÕES CLÍNICAS João Daniel Almeida Canelas Orientador Dr. Jorge Manuel Dores Porto 2015
Artigo de Revisão Bibliográfica - Mestrado Integrado em Medicina Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar Universidade do Porto - Centro Hospitalar do Porto O PARADOXO DA OBESIDADE E AS SUAS IMPLICAÇÕES CLÍNICAS Autor: João Daniel Almeida Canelas Orientador: Dr. Jorge Manuel Dores - Médico Endocrinologista, Assistente Hospitalar Graduado do Serviço de Endocrinologia, Departamento de Medicina do Hospital Santo António / Centro Hospitalar do Porto Afiliação: Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar - Universidade do Porto - Centro Hospitalar do Porto Endereço: Rua de Jorge Viterbo Ferreira, 228, 4050-313 Porto, Portugal Contacto do autor: [email protected] Ano letivo 2014/2015
i AGRADECIMENTOS Ao Dr. Jorge Manuel Dores pela partilha de conhecimento e profissionalismo, por todo o apoio e disponibilidade demonstrados e pela oportunidade que me concedeu. À Ana, à minha família e aos amigos, pela paciência, pelo incentivo e por estarem sempre presentes.
ii ABREVIATURAS AVC Acidente vascular cerebral DM Diabetes mellitus HTA Hipertensão arterial ICC Insuficiência cardíaca congestiva IL Interleucina IMC Índice de massa corporal OMS Organização Mundial de Saúde PCR Proteína C Reativa TNF Fator de Necrose Tumoral
iii RESUMO A obesidade tem atingido proporções epidémicas e está associada a um risco cardiovascular aumentado e a diversas comorbilidades. No entanto, tem-se constatado que doentes com patologias crónicas ou submetidos a intervenção cirúrgica, com excesso de peso ou obesidade, têm uma menor taxa de mortalidade e morbilidade quando comparados com doentes na mesma situação mas com índice de massa corporal normal. Este fenómeno ficou conhecido na literatura médica como o “Paradoxo da Obesidade”. É necessário procurar e abordar os vários mecanismos propostos que o explicam e que dão corpo aos resultados encontrados. Paralelamente torna-se necessário averiguar o valor prognóstico do índice de massa corporal assim como de outros métodos usados para avaliar a composição corporal e estudar a sua importância como marcadores prognósticos. O efeito da obesidade tem implicações bastante diferentes caso se trate de um indivíduo saudável ou de um indivíduo já portador de uma doença de base. É crucial para qualquer profissional de saúde entender esta distinção e as suas potenciais diferenças clínicas, nomeadamente a nível da repercussão sobre as recomendações relativas à gestão do peso nestes doentes, na atual epidemia da obesidade. Palavras-chave: paradoxo obesidade; tratamento; prognóstico; índice de massa corporal; insuficiência cardíaca; diabetes mellitus
iv ABSTRACT Obesity has reached epidemic proportions and is associated with an increased cardiovascular risk and various morbidities. However, we have seen that overweight or obese patients with chronic diseases or undergoing surgery have a lower rate of mortality and morbidity when compared to patients in the same situation but with a normal body mass index. This phenomenon is known in medical literature as the "Obesity Paradox". It is necessary to seek and address the various proposed mechanisms that explain the results found. At the same time it becomes necessary to determine the prognostic value of the body mass index and other methods used to assess body composition and study its importance as prognostic markers. The effect of obesity has very different implications in the case of a healthy individual or an individual already bearing a disease. It is crucial that any health professional understands this distinction and its potential clinical differences, particularly in terms of its impact on the recommendations for weight management in these patients, in the current obesity epidemic. Key-words: obesity paradox; treatment; prognosis; body mass index; heart failure; diabetes mellitus
v ÍNDICE GERAL 1. Introdução ................................................................................................................................... 1 2. Paradoxo da obesidade ................................................................................................................ 4 2.1 Patofisiologia da obesidade ................................................................................................... 4 2.2 Mecanismos subjacentes ao paradoxo................................................................................... 8 3. O índice de massa corporal como marcador prognóstico ......................................................... 12 3.1 Limitações da utilização do IMC e novos métodos de avaliação corporal ......................... 12 4. Implicações clínicas do paradoxo da obesidade ...................................................................... 14 5. Conclusão .................................................................................................................................. 18 6. Bibliografia ............................................................................................................................... 20
O paradoxo da obesidade e as suas implicações clínicas 1 1. INTRODUÇÃO A obesidade é considerada um dos maiores problemas de saúde pública deste século e a sua incidência tem vindo a aumentar de forma preocupante a uma escala mundial1. Esta doença crónica está associada a várias comorbilidades, como a hipertensão arterial (HTA), diabetes mellitus (DM) tipo 2, dislipidemia, doença osteo-articular, síndrome da apneia do sono e a doença cardiovascular, entre outras. Devido aos seus efeitos mal adaptativos sobre vários fatores de risco cardiovascular, assim como o seu efeito adverso na estrutura e função cardiovascular, a obesidade tem um grande impacto neste grupo de patologias, como é o caso da insuficiência cardíaca congestiva (ICC), a doença coronária, a morte súbita cardíaca e a fibrilhação auricular, estando associada a uma menor esperança de vida2-4. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), considera-se que há excesso de peso quando o índice de massa corporal (IMC) é ≥ a 25 kg/m2 e há obesidade quando o IMC é ≥ a 30 kg/m2. Quanto à gravidade da mesma, define-se obesidade grau I quando o IMC está situado entre os 30 e 34,9 kg/m2, obesidade grau II quando está entre 35 a 39,9 kg/m2 e obesidade grau III quando o IMC é ≥ a 40 kg/m2 5. O aumento alarmante da prevalência da obesidade levou a OMS a classificá-la como a “Epidemia global do século XXI"5. Em 2014, aproximadamente 1,9 mil milhões de adultos tinham excesso de peso e destes 600 milhões eram obesos1. Só em Portugal, cerca de 40% da população tem excesso de peso e mais de 14% é obesa, tendo, no conjunto, esta prevalência aumentado de 49,6% (em 1995-1998) para 53,6% (em 2003-2005)6. Apesar da associação adversa, o papel da obesidade na mortalidade de doentes com doença cardiovascular estabelecida tem-se tornado assunto de grande polémica na literatura médica, principalmente pela descrição do “paradoxo da obesidade”. Este fenómeno sugere que doentes com excesso de peso ou obesos têm um prognóstico mais favorável, mesmo tendo um risco cardiovascular maior7. A expressão "paradoxo da obesidade" foi inicialmente proposta por Gruberg em 2002, com o intuito de descrever os achados da sua investigação que concluiu que doentes com excesso de peso ou com obesidade grau I, e que tinham concomitantemente doença coronária, apresentavam uma menor mortalidade do que indivíduos com um IMC normal ou inferior ao
O paradoxo da obesidade e as suas implicações clínicas 2 normal8. Vários outros estudos que lhe seguiram relacionaram um suposto efeito protetor do excesso de peso na doença cardiovascular e obtiveram resultados semelhantes em doentes com enfarte agudo do miocárdio, submetidos a cirurgia de revascularização e numa amostra de doentes com ICC9. Na literatura médica podemos também encontrar a expressão “epidemiologia reversa” que muitas vezes é usada como sinónimo de “paradoxo da obesidade”. Esta terminologia foi inicialmente proposta em 2003 por Kamyar Kalantar-Zadeh no seu estudo sobre a influência de fatores de risco cardiovasculares em doentes a realizar hemodiálise regular. Neste estudo, Kamyar sugeriu que a obesidade, a hipercolesterolemia e a HTA podem ser fatores protetores associados a uma maior sobrevida nestes doentes10. Esta descoberta inesperada tem sido observada também em outras patologias crónicas fora da área da Cardiologia, estando também descrita na DM-2, doença renal crónica e doença pulmonar obstrutiva crónica, entre outras. O seu prognóstico favorável aplica-se não só à mortalidade cardiovascular como também à mortalidade por todas as causas. Uma metanálise publicada em 2013 por Flegal reforça esta última hipótese sobre o paradoxo da obesidade. Este autor combinou dados de 97 estudos prospetivos de diversos países que incluíram quase 3 milhões de indivíduos de uma população geral de adultos. Todos os estudos investigaram a relação entre o IMC e a mortalidade por todas as causas, tendo chegado à conclusão que indivíduos com sobrepeso ou obesidade grau I apresentam uma menor mortalidade em relação a indivíduos com IMC normal. Contudo, esta associação perdeu-se para indivíduos com obesidade grau II e grau III11. Em relação aos doentes com DM-2, foi demonstrada a ausência de diferença significativa nos outcomes cardiovasculares entre um grupo submetido a um tratamento intensivo com a prescrição de um estilo de vida que promovia a perda de peso através de restrição calórica e aumento da atividade física, quando comparado com o grupo controlo. Mesmo havendo uma clara vantagem do grupo de intervenção na redução de fatores de risco e melhoria da performance cardiovascular no primeiro ano do estudo, esta vantagem perde-se ao longo do follow-up de 9 anos, apesar da manutenção parcial da perda do peso inicial12. É agora necessário obter mais respostas e propor explicações para este fenómeno, de forma a descartar possíveis enviesamentos nos resultados obtidos devido a fatores confundidores
O paradoxo da obesidade e as suas implicações clínicas 9 média de 62 anos37. O processo de envelhecimento está associado a um declínio significativo dos gastos energéticos e da oxidação de gorduras, à perda de massa muscular esquelética e a um aumento da infiltração muscular por lípidos. A acumulação de gordura visceral na obesidade abdominal está associada a um estado geral de inflamação, a alterações dos lípidos circulantes e a um maior risco de desenvolver DM-2 e doença cardiovascular, o que está associado a uma maior mortalidade. Com isto, poderá ser evocada a hipótese que os doentes obesos com obesidade abdominal mais marcada morrem mais cedo e assim, entre os obesos com uma idade mais avançada, aqueles com uma obesidade abdominal menos pronunciada sobrevivem56. Muitos dos obesos idosos apresentam obesidade de início tardio e, devido à sua curta duração, os riscos de saúde e comorbilidades associadas à obesidade ainda não tiveram tempo para se manifestarem57,58. Foi constatado um subgrupo de obesos que não apresenta as típicas complicações metabólicas associadas a um aumento do risco de doenças cardiovasculares. Este subgrupo possui um perfil metabólico favorável, caracterizado por elevada sensibilidade à insulina e uma pressão arterial e perfil lipídico normais, além de uma menor acumulação de gordura visceral, apesar do seu excesso de peso59. Graças a um perfil “metabolicamente saudável”, estes obesos não apresentam um aumento da taxa de mortalidade por todas as causas60 ou do risco de ocorrência de enfarte agudo do miocárdio61. Este perfil foi igualmente descrito em mulheres62 e crianças63 obesas. Estas afirmações tornam-se muito pertinentes, dada a prevalência expressiva deste subgrupo na população obesa, de aproximadamente 24%, variando de acordo com o critério adotado para a definição de obesidade13,64. Foi também demonstrado através do estudo do tecido adiposo visceral por tomografia computorizada que o aumento da obesidade visceral diminui com a idade65. Esta associação entre a alteração da adiposidade e a idade não é afetada pelo sexo ou grupo étnico. Se a acumulação de tecido adiposo visceral diminui com a idade, então poderá ser a acumulação predominante de gordura periférica um dos fatores responsáveis pelo paradoxo da obesidade. Foi confirmado que a acumulação significativa de gordura subcutânea no segmento inferior do corpo em adultos está associada a uma menor probabilidade de resistência à insulina e a DM-2 e a uma menor progressão de aterosclerose carotídea do que quando o tecido adiposo tem uma distribuição predominantemente central no segmento superior66. Os depósitos de tecido adiposo acumulados no segmento inferior do corpo têm uma atividade relativamente elevada da lípase lipoproteica e
O paradoxo da obesidade e as suas implicações clínicas 10 uma taxa reduzida de lipólise basal. Desta forma, estes depósitos podem proteger o fígado e o sistema músculoesquelético da exposição a ácidos gordos livres e a subsequente infiltração dos mesmos. A presença de indivíduos com excesso de peso ou obesos e com uma boa capacidade cardiorrespiratória também ajuda na confirmação da existência do paradoxo. Nestes indivíduos, uma boa capacidade cardiorrespiratória pode ajudar a suprimir as consequências metabólicas da obesidade e do processo de envelhecimento, associando-se assim a uma maior esperança de vida. Em doentes com doença coronária suspeita ou comprovada foi demonstrado que a capacidade cardiorrespiratória modifica de forma significativa a relação entre a adiposidade e a mortalidade cardiovascular ou por todas as causas67,68. Doentes obesos, devido à sua patologia pré-existente, poderão receber um tratamento médico mais personalizado e agressivo, associado a um acompanhamento mais rigoroso, do que doentes com IMC normal69. Os doentes obesos tendem igualmente a receber tratamento farmacológico mais cardioprotetor do que outros grupos de doentes. No entanto, embora este facto possa explicar até certo ponto a menor taxa de mortalidade, nem sempre os doentes obesos polimórbidos recebem tratamento médico otimizado. Ao contrário do que se observa na população geral, é possível que nos estádios tardios da doença renal crónica a pressão arterial baixa, o IMC reduzido e a hipolipidemia indiquem a existência de um estado avançado de desnutrição-inflamação70, associado a um catabolismo proteico aumentado. Esta condição acaba por ter consequências mais sérias em doentes com IMC normal ou baixo do que em doentes com excesso de peso ou obesos, uma vez que estes últimos possuem uma maior reserva corporal de proteínas e conseguem resistir durante mais tempo a uma eventual caquexia. Tanto o deficiente aporte nutricional relacionado com a anorexia e as restrições no plano alimentar destes doentes, como o turnover proteico aumentado, favorecem o desenvolvimento de caquexia que, por sua vez, está associada a uma maior taxa de mortalidade71,72. Existem também exemplos da ocorrência do paradoxo em indivíduos com obesidade mórbida, como demonstrado por Biasucci que relatou a preservação paradoxal da função vascular73, e por autópsias que revelaram a presença de um baixo grau de aterosclerose coronária74, nestes doentes. Uma hipótese que justifica este achado poderá ser que doentes com obesidade mórbida, apesar dos maiores níveis de PCR e leptina circulantes, estarão parcialmente
O paradoxo da obesidade e as suas implicações clínicas 11 protegidos da aterosclerose através da maior mobilização de células progenitoras endoteliais. O aumento da circulação destas células derivadas da medula óssea está inclusive a ser estudado na prevenção da vasculopatia associada à DM-275. A proteção cardiovascular nestes doentes também poderá ser mediada pela produção diminuída de tromboxano. O tromboxano A2 representa um marcador de ativação plaquetária que contribui de forma significativa para um aumento da morbilidade e mortalidade cardiovascular. Graziani encontrou níveis séricos menores de tromboxano B2, um metabolito estável do tromboxano A2, em indivíduos com obesidade mórbida do que em indivíduos com IMC normal e demonstrou existir assim uma correlação negativa entre o nível de tromboxano B2 e o IMC. Foi então sugerido que a produção diminuída de tromboxano poderá dever-se à resistência da ação pro-agregante caraterística da leptina76. A grelina é uma hormona com um potencial papel significativo na sustentação do paradoxo. Trata-se de uma hormona peptídica gástrica que estimula o apetite e a libertação de hormona do crescimento, promove um balanço energético positivo e aumenta a contractilidade cardíaca77. Os seus recetores encontram-se presentes tanto no miocárdio como nos vasos sanguíneos, e a sua administração melhora a função ventricular esquerda e a capacidade de realizar exercício físico e diminui a perda de massa muscular em doentes com ICC. O nível sérico aumentado de grelina presente em doentes obesos poderá funcionar como um mecanismo compensatório para atrasar o desenvolvimento de HTA e de hipertrofia do ventrículo esquerdo e desta forma funcionar como um fator protetor contra a ICC78. Na ICC é também expectável encontrar uma grande quantidade de TNF expressa pelo miocárdio em falência, quando comparado com um indivíduo saudável. Numa coorte de doentes com ICC aqueles que eram obesos exibiram uma concentração menor de TNF, o que poderá estar associado a uma maior sobrevida. O nível reduzido de TNF encontrado em doentes obesos com ICC poderá ser explicado pela produção de recetores solúveis de TNF pelo tecido adiposo subcutâneo. Estes recetores ligam-se ao TNF-α neutralizando o seu efeito adverso sobre o miocárdio. Heymsfield demonstrou que a concentração venosa destes recetores correlacionava-se de forma positiva com o IMC e a percentagem de massa gorda19. A ICC é também caraterizada por um aumento da ativação do sistema simpático e do sistema renina-angiotensina-aldosterona. Os níveis elevados destas neurohormonas estão associados a um pior outcome em doentes com ICC e fração de ejeção reduzida. Foi demonstrado recentemente que doentes obesos com ICC
O paradoxo da obesidade e as suas implicações clínicas 12 apresentam uma ativação significativamente menor do sistema simpático, conferindo-lhes assim uma maior sobrevida, do que em doentes com IMC normal79. Para além dos mecanismos biológicos, e como já referido anteriormente, um dos principais responsáveis por este paradoxo poderá ser o uso do IMC na prática clínica para o diagnóstico de obesidade. Embora este biomarcador possa ser útil para descrever as mudanças dramáticas na prevalência da obesidade a um nível populacional, este apenas fornece uma medida imprecisa da adiposidade total. Aliás, a um nível individual, o IMC é um índice totalmente inadequado da distribuição corporal de gordura, sendo esta última um fator crucial no prognóstico de doentes com ICC80. 3. O ÍNDICE DE MASSA CORPORAL COMO MARCADOR PROGNÓSTICO 3.1 LIMITAÇÕES DA UTILIZAÇÃO DO IMC E NOVOS MÉTODOS DE AVALIAÇÃO CORPORAL O IMC, ou índice de Quetelet, é uma medida de peso relativo baseada na massa e altura de um indivíduo. Foi formulada pela primeira vez por Adolphe Quetelet em 1832, após a sua conclusão que, à exceção do crescimento após o nascimento e na puberdade, o peso aumenta segundo a altura ao quadrado81. Contudo, as evidências médicas demonstram que este biomarcador antropométrico apresenta falhas importantes e está desatualizado face aos avanços da medicina. Este não leva em consideração a idade, o sexo, a etnicidade82,83, a percentagem de massa gorda, o estado nutricional, a capacidade cardiorrespiratória, a distribuição corporal de gordura e outros fatores importantes de composição corporal que afetam de forma significativa a saúde e morbilidade dos doentes19. Atualmente, o IMC poderá estar para a antropometria o que a concentração sérica de colesterol total está para a lipidologia: um dado clínico que, se usado isoladamente, poderá levar a decisões erróneas por falhar na representação total da situação clínica específica apresentada pelo doente. A ausência de correlação entre o IMC de um indivíduo e a sua verdadeira composição corporal poderá constituir um fator significativo para a justificação do paradoxo. Oreopoulos et al mediram diretamente a composição corporal de doentes com ICC recorrendo à absorciometria
O paradoxo da obesidade e as suas implicações clínicas 13 bifotónica de raio X e demonstraram que o IMC falhava na correta classificação da composição corporal em 41% dos doentes examinados. Nas coortes de doentes com peso normal, sobrepeso ou obesidade e com uma idade média de 62-66 anos, o IMC era até um melhor indicador da percentagem de massa magra do que propriamente de adiposidade. O paradoxo da obesidade poderá então ser parcialmente explicado pela falta de poder discriminatório do IMC para diferenciar entre massa magra e massa gorda84. Coutinho et al demonstraram que outros biomarcadores antropométricos como o perímetro abdominal e o índice de cintura-anca são marcadores com um valor prognóstico muito mais fiável na doença coronária do que o IMC. Um IMC elevado pode associar-se a um menor risco de mortalidade em doentes com ICC, no entanto quando o perímetro abdominal e o índice cintura-anca são usados como índices de obesidade abdominal, valores altos destes últimos associam-se a um maior risco de mortalidade na ICC80. Estes resultados apoiam a necessidade de substituir o uso isolado do IMC como o índice antropométrico de obesidade mais usado. Embora o perímetro abdominal seja tido como o principal índice de obesidade abdominal, é importante ressalvar que este não deverá substituir o IMC como o único índice de adiposidade. A um nível populacional, existe uma correlação significativa entre o IMC e o perímetro abdominal, o que poderá levar à conclusão que o IMC e o perímetro abdominal são intercambiáveis e que não haverá necessidade de medir o perímetro abdominal após a aferição do IMC. No entanto, a um nível individual, é encontrada uma variação substancial no perímetro abdominal entre doentes com IMC semelhantes85. Desta forma, é expectável encontrar doentes com um menor perímetro abdominal mas um IMC elevado que poderão apresentar um menor risco de mortalidade. Wannamethee demonstrou que doentes idosos com ICC que possuíam um IMC elevado e uma taxa de sobrevida maior apresentavam também um melhor estado nutricional do que aqueles com menor IMC. A medição do IMC juntamente com a medição da espessura da prega do tríceps não previu de modo fiável a mortalidade, contrariamente à medição da maior área muscular localizada no segmento mediano do braço, servindo esta como fator protetor. A medição conjunta da massa muscular do segmento mediano do braço e do perímetro abdominal foi proposta como o preditor mais efetivo de mortalidade em homens idosos com ICC86. A massa muscular de um indivíduo não reflete necessariamente a sua função muscular, uma vez que esta última está dependente do tamanho, número e contractilidade das fibras
O paradoxo da obesidade e as suas implicações clínicas 14 musculares. Desta forma, um fator que poderá influenciar a taxa de mortalidade em doentes com ICC e servir de indicador de qualidade muscular poderá ser a força muscular apresentada pelos mesmos67. Para a quantificação desta última, podemos recorrer à medição da força de preensão dos doentes através da dinamometria isométrica ou da força do quadríceps através de dinamometria isocinética. No Japão, tem sido inclusive recomendada a medição da força de preensão como um preditor prognóstico em doentes com ICC. Desta forma, quanto maior for a força de preensão, refletindo um melhor estado físico e nutricional em alguns doentes obesos, melhor será a sua sobrevida87. A avaliação da desnutrição proteicocalórica deve começar no estádio 3 da doença renal crónica. Alguns indicadores facilitam essa avaliação, como a história da dieta e a avaliação global subjetiva com a medição do peso corporal sem edema. Atualmente, a absorciometria bifotónica de raio X é cada vez mais utilizada para estimar a massa corporal magra em contraposição ao IMC. Outros parâmetros úteis são os sinais clínicos, como a espessura da prega cutânea e a circunferência muscular do segmento mediano do braço70. Todos estes dados apontam para que um dos fatores que mais contribui para a existência do paradoxo, se não mesmo o mais importante, será a falta de sensibilidade do IMC na correta avaliação antropométrica dos doentes com excesso de peso ou obesos. Para além da atual descrição do paradoxo da obesidade, será talvez pertinente discutir igualmente a existência de um “paradoxo do IMC”88. 4. IMPLICAÇÕES CLÍNICAS DO PARADOXO DA OBESIDADE Perante a associação esmagadora entre a obesidade e a prevalência de estados patológicos, é realmente intrigante que após um indivíduo ter adquirido uma doença, a obesidade possa protegê-lo dos resultados adversos da mesma, conferindo-lhe uma vantagem de sobrevivência. Porém, esta vantagem aparentemente contraintuitiva associada a um estado de obesidade em nada prejudica o facto de que a obesidade é um fator de risco para o desenvolvimento de inúmeras patologias agudas e crónicas com altas taxas de mortalidade. Esta associação inversa paradoxal entre obesidade e maior sobrevida também é observada noutros fatores de risco cardiovascular em determinadas populações, como doentes com enfarte
O paradoxo da obesidade e as suas implicações clínicas 15 agudo do miocárdio89, ICC ou a realizar diálise52. Estes fatores igualmente paradoxais incluem a hipercolesterolemia e a hipertensão, ou seja, níveis mais elevados de lípidos e de pressão arterial conferem uma vantagem de sobrevida, contrastando a associação expectável entre resultados deletérios e a presença de obesidade, hipercolesterolemia e hipertensão na população em geral. Será difícil obter uma explicação mais fundamentada para este fenómeno usando outras fontes de investigação para além de dados observacionais. É altamente improvável que sejam realizados estudos clínicos randomizados controlados com doentes obesos e não obesos com doença cardiovascular submetidos ou não a tratamento dos seus fatores de risco cardiovasculares, por causa das óbvias implicações éticas de tal estudo. Como podem os mesmos fatores de risco que conduzem ao desenvolvimento de doença cardiovascular tornarem-se subitamente fatores de proteção uma vez instalada a doença? Em termos biológicos, parece haver uma discrepância temporal entre os efeitos nocivos a longo prazo e as vantagens de sobrevivência a curto prazo associadas aos fatores de risco cardiovasculares. Ao passo que podem ser necessários vários anos ou décadas de exposição a esses mesmos fatores de risco até ocorrer o desenvolvimento de doença cardiovascular, uma vez esta instalada, a obesidade pode conferir uma vantagem a curto prazo das consequências da própria patologia52. O paradoxo da obesidade tem sido descrito maioritariamente na presença do efeito protetor do estado nutricional de doentes com sobrepeso ou obesos. Outros fatores como a mais inócua obesidade do segmento inferior do corpo, uma composição corporal favorável e uma boa capacidade cardiorrespiratória são discutidos como importantes contributos para o paradoxo. Quando a capacidade cardiorrespiratória do doente é tida em conta, o risco de mortalidade não se correlaciona com a obesidade do indivíduo90. Foi até demonstrado que uma maior capacidade cardiorrespiratória atenua o impacto deste paradoxo na vantagem de sobrevivência conferida pela obesidade per se91. É preciso ter em conta que os indivíduos com excesso de peso ou obesos têm tipicamente uma menor capacidade cardiorrespiratória quando comparados com indivíduos de peso normal92. Uma condição cardiorrespiratória baixa e a própria inatividade poderão ser um perigo ainda maior que a obesidade, sugerindo que em populações específicas de doentes com excesso de peso ou obesos dever-se-á dar uma maior ênfase à prática de atividade física93 e ao desenvolvimento da capacidade cardiorrespiratória do que à perda de peso94.
O paradoxo da obesidade e as suas implicações clínicas 16 A composição corporal e a forma como os tecidos adiposos armazenam e gerem a energia em excesso proveniente da dieta de cada indivíduo tem implicações cardiometabólicas inegáveis. Os doentes com um perímetro abdominal aumentado para o seu IMC e com uma elevação concomitante dos níveis de triglicerídeos, um marcador de deposição excessiva de gordura visceral, deverão constituir um dos principais focos de tratamento agressivo dos fatores de risco cardiovasculares95. Nos obesos idosos, as recomendações de gestão de peso deverão frisar em particular os benefícios da manutenção da massa magra e da força muscular, concomitantemente com a estabilização da percentagem de massa gorda96. Um indivíduo que se apresente com um IMC entre 25 kg/m2 e 30 kg/m2 é automaticamente rotulado como tendo excesso de peso, e superior a 30 kg/m2 como sendo obeso, independentemente da contribuição da massa magra. Poderá ser precisamente a presença de indivíduos com maior massa magra, o que confere um efeito protetor na sobrevivência em doentes com patologia crónica, que confunde o verdadeiro efeito da obesidade definida apenas pelo IMC, conduzindo-nos à perceção da existência de um paradoxo da obesidade. Além disso, foi demonstrado que a vantagem de um IMC elevado desaparece após ajuste para a massa magra, o que sugere que a massa magra suporta um papel principal em conferir uma maior sobrevida97. As orientações terapêuticas atuais referentes à gestão de peso recomendam que todos os indivíduos obesos percam peso. No entanto, nem todos os obesos são afetados negativamente pela sua obesidade, assim como nem sempre o próprio processo de perda de peso está associado a um melhor prognóstico12,98,99. Sem querer trivializar os importantes riscos de saúde relacionados com a obesidade, é importante referir que existem subpopulações de indivíduos obesos que poderão até beneficiar de uma maior adiposidade100, e daí a perda de peso poderá não ser a recomendação mais apropriada. Para encontrar as subpopulações de obesos que se enquadram nesta condição, é necessário recorrer a uma anamnese detalhada e a métodos de avaliação biométrica mais diferenciados do que o IMC. As principais subpopulações de obesos que poderão não beneficiar da perda de peso incluem idosos, obesos “metabolicamente saudáveis” e obesos com uma boa capacidade cardiorrespiratória. Esta proporção significativa de indivíduos não se encontra tão sujeita aos típicos mecanismos fisiopatológicos associados à obesidade. Consequentemente, se juntarmos todos estes mecanismos, torna-se evidente que existe uma população considerável de indivíduos com patologias crónicas e excesso de peso ou obesos que não têm necessariamente um risco
O paradoxo da obesidade e as suas implicações clínicas 17 acrescido de morte prematura. Reforçando esta ideia, a perda de peso em populações obesas com doença cardiovascular ou DM-2 estabelecida poderá não estar associada a um aumento da sobrevida101. Importa também referir que dada a reduzida taxa de sucesso de obesos a realizar programas de perda de peso, é questionável se os benefícios desta perda excedem o potencial risco negativo do efeito rebound da redução de peso102. No caso da ICC, dado o estado atual de evidência, é razoável afirmar que a perda de peso não deve ser o objetivo terapêutico primário para doentes com ICC e sobrepeso ou obesidade103. Não obstante, as dietas que visam a perda leve a moderada de peso podem ser aceitáveis em doentes com obesidade mórbida com o objetivo de pelo menos estabilizar o peso, de forma a melhorar a qualidade de vida ou aliviar outras comorbilidades104. No final, há uma clara necessidade de estudos prospetivos em grande escala que avaliem a segurança e eficácia a longo prazo, assim como qualquer benefício potencial de sobrevivência, da modificação intencional de peso com dieta, exercício ou cirurgia bariátrica na população de doentes com ICC. Pode também ser levantada uma questão conceitual pertinente acerca do papel fisiopatológico do excesso de peso sobre a saúde humana. Até agora, a obesidade tem sido olhada como uma variável independente (contínua ou categórica), baseada praticamente no valor do IMC como critério isolado. Contudo, de acordo com algumas correntes, parece mais sensato estudar a obesidade inserida num contexto mais vasto, onde figurem as comorbilidades, sintomas físicos, psicológicos e limitações funcionais associadas à mesma105. Desta forma, poderiam também ser inseridas nesta avaliação, os vários comportamentos característicos de um estilo de vida associado ao excesso de peso ou obesidade, como o sedentarismo, tabagismo, ansiedade, stress e malnutrição, assim como a predisposição genética individual e a presença de obesidade visceral ou obesidade periférica. O paradoxo da obesidade não deve ser considerado como uma tentativa de minar a legitimidade da já global campanha anti-obesidade, tendo em conta o melhor interesse da saúde pública. No entanto, dada a preponderância e consistência dos dados epidemiológicos, existem dúvidas legítimas de que em certas populações, um IMC superior, que está associado a um maior risco de síndrome metabólica e resultados cardiovasculares deletérios a longo prazo, confere um aumento de sobrevida, pelo menos a curto prazo.
O paradoxo da obesidade e as suas implicações clínicas 18 5. CONCLUSÃO Considerando que o paradoxo da obesidade foi originalmente pensado para justificar os achados epidemiológicos que ocorriam apenas em condições debilitantes, como a ICC e a doença renal crónica, é agora claro que este paradoxo é um fenómeno inespecífico que se estende por várias condições díspares, para as quais a obesidade poderá ser vantajosa para a sobrevivência do indivíduo. Neste sentido, muita evidência médica tem-se acumulado ao longo da última década, apoiando a premissa de que um segmento significativo da população com sobrepeso ou obesa não tem um risco aumentado de mortalidade, desafiando o pensamento convencional sobre os perigos da obesidade. Cada vez se torna mais evidente que chegamos ao momento de discutir a adequabilidade do termo “paradoxo da obesidade” do que da sua existência propriamente dita. Uma outra expressão mais relevante que reflita o potencial efeito protetor da obesidade em cada patologia específica deve ser encontrada. É notável o número de artigos que procuram descrever os vários mecanismos fisiológicos que contribuem para o paradoxo (a presença de várias comorbilidades nos indivíduos com IMC baixo, o efeito deletério da obesidade visceral em contraposição com a obesidade periférica, a existência de obesos com boa capacidade cardiorrespiratória e com perfil metabólico saudável, entre outros já descritos anteriormente), assim como a vasta informação observacional que os sustenta. Tudo o que foi referido aponta para uma plausibilidade biológica do paradoxo, ao invés de ser apenas uma constatação estatística. Mesmo assim, é crucial entender até que ponto a falibilidade do IMC em avaliar a composição corporal influencia este paradoxo. Para além de explicar o facto de o IMC não ser um bom marcador prognóstico em doentes crónicos, este também torna plausíveis até certo ponto os resultados epidemiológicos obtidos por tantos autores diferentes no que concerne o paradoxo da obesidade. Além disso, esta discussão não pode levar a uma subestimação da obesidade como um fator de risco major para o desenvolvimento de diversas doenças agudas e crónicas assim como a sua associação a uma menor qualidade de vida. Este paradoxo, se mal explicado a clínicos e público em geral, poderá causar um efeito negativo na já alarmante epidemia da obesidade, pelo que é crucial alguma precaução na abordagem deste tema.
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