As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta arqueológica regional
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FACULDADE DE LETRAS UNI V E R S I DA DE D O P O R T O João Carlos Pires Caninas 2º Ciclo de Estudos Mestrado em Arqueologia As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 2012 Orientador: Profª Doutora Maria de Jesus Sanches Coorientador: - Classificação: Ciclo de estudos: Dissertação/relatório/Projeto/IPP: Versão definitiva
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 2 Índice Introdução 3 1. Objectivos e metodologia do trabalho 14 1.1. Objectivos 14 1.2. Objecto 15 1.3. Área de estudo 17 1.4. Aspectos metodológicos 20 2. A região de Castelo Branco: enquadramento geográfico 24 2.1. Introdução 24 2.2. Caracteres físicos 27 2.3. Caracteres biofísicos 35 2.4. Aspectos gerais 38 3. Abordagem histórico-geográfica do conhecimento acerca das construções funerárias na região de Castelo Branco 40 3.1. Introdução 40 3.2. Início do século XX (1º quartel) 43 3.3. Meados do século XX (3º quartel) 66 3.4. Desde o último quartel do século XX até ao presente 78 4. Abordagem arqueográfica das construções funerárias numa zona seleccionada: a área de Ródão 105 4.1. Introdução 105 4.2. Quadro físico e geográfico 107 4.3. Breve retrospectiva da investigação da Pré-História Recente 111 4.4. Caracterização das construções funerárias e do seu enquadramento arqueológico 115 Discussão Final e Conclusões 129 Agradecimentos 137 Fontes de informação 138 Anexo 1. Lista de sítios arqueológicos da região de Castelo Branco, seleccionados na base de dados Endovélico (IGESPAR I. P.) 166 Anexo 2. Quadros 174 Anexo 3. Catálogo das construções funerárias pré-históricas identificadas na área de Ródão 185 Anexo 4. Artefactos desenhados relativos a construções funerárias escavadas na área de Ródão 261
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 3 Introdução “…e os cemitérios são prova de vida, de abundância e não de vazio e aridez.” (Ivo Andritch, A Crónica de Travnik) 1 1. O título desta tese, “Construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional”, indica, de modo directo, um objecto de estudo, o seu tempo histórico e o correspondente espaço geográfico, configurando-se como ensaio de Arqueologia Regional. As razões mais imediatas para a escolha deste tema resultam das raízes familiares do autor na região mencionada e de, a partir da adolescência, ter começado a “conviver”, pela descoberta, com inúmeras antas nas terras envolventes do Alto Tejo português, percurso que foi potenciado pela descoberta, naquela região, de um importante conjunto de gravuras rupestres pré-históricas no início dos anos 70 do século passado (Henriques, 2011). Mas essas razões não seriam suficientes não fosse uma significativa ausência daquela região nas dinâmicas de investigação arqueológica, especificamente no domínio do chamado megalitismo, um isolamento que parece acompanhar esse outro isolamento, geográfico, que alguns autores (Matoso, Daveau & Belo, 2010: 365-409) atribuem à Beira Baixa – espaço geográfico que em grande parte coincide com a região de Castelo Branco - comparativamente com outras províncias do território continental. Por isso, outra razão da escolha deste tema, esta mais pertinente, é a tentativa de melhorar o conhecimento, geral, acerca de tais construções pré-históricas na região em apreço. Além disso, as estruturas funerárias, pré-históricas, são, pela sua natureza perene, os vestígios arqueológicos ainda mais abundantes, e desse modo provavelmente mais expressivos ou significantes, a uma escala regional, porque, como na citação, embora constituindo espaços de mortos são consequência directa da vida e, por isso, os indicadores possíveis (quando outros faltam) da geografia do povoamento antigo do território. Para ilustrar a referida lacuna de conhecimento, acerca das construções funerárias, megalíticas, da região de Castelo Branco, podemos tomar um olhar recente, publicado em livro, sobre Portugal Megalítico (Pereira et al, 2008). Esta obra, destinada a um público 1 De uma conversa fictícia no consulado francês na Bósnia, durante o Império Otomano, extraída da página 127 da edição de 2008 da Cavalo de Ferro.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 4 indiferenciado, evidencia, por ausência, a invisibilidade do fenómeno megalítico na região de Castelo Branco, ao não eleger nenhum monumento. Como veremos, no plano científico o tema também se encontra insuficientemente caracterizado no conjunto da região de Castelo Branco, pese embora as iniciativas de investigação lideradas pela Associação de Estudos do Alto Tejo, a partir do último quartel do séc. XX, com um primeiro ensaio de periodização (Cardoso, Caninas & Henriques, 2003) 2 , depois da acção ali desenvolvida por Francisco Tavares de Proença Júnior, no início do séc. XX, em escassos oito anos de intenso trabalho. A morte prematura deste notável investigador impediu-o de nos legar mais do que uma emblemática monografia, respeitante à escavação da anta da Urgueira (Proença Jr, 1909), embora tenha dedicado a parte mais significativa da sua investigação a este mesmo tema, numa aproximação inconclusiva, devido às circunstâncias da sua vida (Fabião, 2004; Cardoso, 2010), também condicionadas pela conjuntura política. Por outro lado, se procurarmos sinais, actuais, da divulgação deste tipo de monumentos na região, verificamos que existe um único circuito de visita, de iniciativa autárquica 3 , no concelho de Proença-a-Nova, baseado em monumentos megalíticos, a Rota das Antas. Tanto quanto sabemos, até ao momento, apenas um monumento foi reabilitado, para visitação, por iniciativa da Associação de Estudos do Alto Tejo, com o apoio da Junta de freguesia de Rosmaninhal (concelho de Idanha-a-Nova), estando integrado num percurso denominado Aula Arqueológica do Rosmaninhal (http://aulaarqueologica.blogspot.com). Trata-se da anta do Cabeço da Forca (Caninas et al, 2008), situada nos arrabaldes da antiga vila de Rosmaninhal (Idanha-a-Nova). E, em Belmonte, concelho parco em sepulturas préhistóricas, pode encontrar-se um exemplo de simulação de uma anta (com corredor voltado para poente!) no interior de uma rotunda rodoviária. Constata-se, portanto, que a situação actual do distrito de Castelo Branco, no quadro da valorização pública de monumentos funerários pré-históricas, é de significativo atraso quando comparada com outras regiões do território continental, como são os casos, do Nordeste Alentejano 4 , do Alentejo Central e Baixo Alentejo 5 , do Algarve 6 , do Ribatejo 7 , da 2 Este ensaio não deve ser extrapolado para a região de Castelo Branco uma vez que respeita a uma área arqueológica limitada a uma pequena parcela desta região. 3 Em 2004 a AEAT enviou à empresa intermunicipal de turismo Naturtejo uma proposta de acções de valorização do património arqueológico que incluía uma Rota do Megalitismo. O documento não mereceu resposta da parte da administração daquela empresa. A Naturtejo abrange os municípios de Castelo Branco, Idanha-a-Nova, Nisa, Oleiros, Proença-a-Nova e Vila Velha de Ródão. 4 O projecto Paisagens Megalíticas do Norte Alentejano, com rede de percursos, uma iniciativa da antiga Região de Turismo de São Mamede. Outro exemplo, mais localizado, é o Circuito das Antas de Elvas (Albergaria & Dias, 2000).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 5 Beira Alta e em especial a região de Viseu 8 ou até da vizinha província espanhola de Cáceres 9 . É pena, porque estas antiquíssimas construções, para além do conhecimento que nos proporcionam acerca da profundidade da humanização do território, hoje português, têm muitas outras virtualidades…, paisagísticas, simbólicas, identitárias… e são, em muitos casos, as mais antigas e expressivas arquitecturas conservadas no território português. Paulo Pereira (2011) destaca justamente o Neolítico como um dos períodos singulares da arte em Portugal 10 , tendo como cerne o megalitismo. Esta expressão material dos rituais funerários da Pré-História Recente, que assume por vezes formas monumentais, é de tal forma apelativa que terá motivado “o maior número de publicações” (Cardoso, 2002: 185) sobre a Pré-História em Portugal, integrando além disso uma das primeiras monografias temáticas a nível europeu (Costa, 1868). O tema mereceu a atenção dos letrados, e sobretudo do corpo eclesiástico, a partir do séc. XVIII, por exemplo com Martinho de Mendonça de Pina e os padres Afonso da Madre de Deus e Afonso Guerreiro (Cardoso, 2002: 185; Gonçalves, 1999: 9). No Estado Novo, o tema também foi apropriado por académicos de doutrina nacionalista para explicar a especificidade étnica do povo português, ilustrada pelo conceito de Cultura Megalítica Portuguesa, tomado de Pedro Bosch Gimpera por Mendes Corrêa, no livro Raízes de Portugal (1944: 68-75). Podemos encontrar uma réplica, ideologicamente atenuada, deste conceito na referência à Civilização Megalítica Ocidental (peninsular), em obra de referência de ilustre geógrafo (Ribeiro, 1986: 134), o qual, a propósito da arquitectura popular em granito (Ribeiro, 1992), retoma a paralelização com as construções megalíticas. Esta visibilidade é conferida pela elevada quantidades de monumentos presentes no território português, transformando-os numa realidade incontornável. Contudo, é com os investigadores alemães Georg e Vera Leisner que, a partir do séc. XX, o megalitismo ganha profundidade científica, através de um catálogo sistemático e de 5 Casos do Circuito megalítico a Oeste de Évora e do Circuito Arqueológico da Cola (Correia & Parreira, 2002). 6 Programa PROALGARVE da Comissão de Coordenação Regional do Algarve. 7 Caso do Roteiro Megalítico de Coruche (Martinho, 2009). 8 Casos dos Roteiros de Dão Lafões (Pedro, Vaz & Adolfo, 1994), Vila Nova de Paiva (Cruz, 2000) e Penedono (Gomes & Carvalho, 1999). 9 Casos dos circuitos dolménicos de Santiago de Alcântara (BUENO et al, 2006), de Valência de Alcântara (Bueno & Vázquez, 2008) e de Cedillo (Oliveira, 1994). 10 Aqui na acepção geográfica.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 6 um ensaio interpretativo dedicado em exclusivo aos monumentos funerários da Península Ibérica. O nosso contributo para uma melhor caracterização das práticas funerárias préhistóricas da região de Castelo Branco, será mais uma peça no puzzle de estudos regionais sobre o tema, estudos que se têm multiplicado a partir do último quartel do séc. XX, no âmbito de teses académicas e de projectos de investigação. Refiram-se alguns casos mais expressivos e consequentes, como sejam as dissertações de doutoramento, de Vitor Oliveira Jorge sobre o distrito do Porto, com destaque para o conjunto da serra da Aboboreira, de Domingos Cruz sobre o Alto Paiva, na região de Viseu, de João Carlos Senna-Martinez no Médio e Alto Mondego, de Jorge de Oliveira sobre a bacia hidrográfica do rio Sever, entre Portalegre e Cáceres, de Leonor Rocha sobre conjunto situado entre o Ribatejo e o Alentejo Central, de Manuel Calado sobre o megalitismo não funerário do Alentejo Central, de Victor dos Santos Gonçalves sobre o Alto Algarve Oriental e de Rui Boaventura sobre a região de Lisboa. Para além do âmbito das teses académicas, estes e outros autores, têm divulgado muitos outros estudos que completam o mosaico do mundo funerário pré-histórico do território português, em Trás-os-Montes (Maria de Jesus Sanches e A. H. Bacelar Gonçalves), no Minho (Ana Bettencourt e Eduardo Jorge Lopes da Silva), nas regiões de Aveiro e Viseu (Fernando Augusto Pereira da Silva, Eduardo Jorge Lopes da Silva, Raquel Vilaça, Pedro Sobral, Luis Filipe Gomes, estes últimos também no âmbito de teses de mestrado), no Baixo Mondego (Raquel Vilaça), no Alentejo e no Algarve (Carlos Tavares da Silva, Mário Varela Gomes, Philine Kalb, Martin Hock e Rui Parreira). 2. No universo das construções funerárias pré-históricas, que iremos tratar, destacam-se os espaços sepulcrais materializados por pedras, por vezes grandes pedras, por isso ditas megalíticas, as antas, assim nomeadas nos falares tradicionais, sobretudo do sul de Portugal, mas não apenas essas formas mais impressivas. A nossa atenção pretende abranger, de igual modo, um conjunto mais vasto de sepulturas, que poderão integrar uma longa tradição de contenção funerária em estruturas de geometria circular e de volumetria monticular (mamoas, tumuli), com quase cinco milénios de vigência, ou seja, entre o Neolítico e o final da Idade do Bronze. Admitimos que a longa pervivência 11 destas estruturas de contenção, de forma circular, represente a continuidade de um substrato cultural, ele próprio variável, talvez associado 11 Bem diferenciadas embora coetâneas de outras tradições em períodos mais recente, com recurso a fossas, a cistas sem estruturas envolventes ou a sepulturas com estruturas quadrangulares de contenção.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 7 genericamente ao simbolismo do círculo, e do seu eixo central, e a uma concepção de eternidade. Em termos de expressão territorial a colocação de pedras ao alto, de tipo menir ou estela, marca eixos verticais na paisagem. O mesmo ocorre com as mamoas; ambas as estruturas induzem o movimento circular. Aspecto a destacar é que estas são as marcas físicas mais expressivas de transformação territorial ocorrida durante a Pré-História, tanto em termos de concepção social como simbólica. Sobre tal ideia geral, materializada na estrutura de contenção funerária ou tumulus, a mudança cultural (ou dos caracteres culturais) parece verificar-se a muitos níveis, como sejam, a estruturação arquitectónica, a dimensão das estruturas 12 , o ordenamento e a hierarquização dos conjuntos funerários 13 , aspectos específicos do ritual funerário 14 e a composição do pacote artefactual depositado naqueles monumentos 15 . É deste modo que, em torno dessa de tradição, tentamos estabelecer uma linhagem para as estruturas funerárias, desde as câmaras simples do início do Neolítico, passando pelas arquitecturas colectivas, de maiores dimensões, ou megalíticas, até às necrópoles de tumuli da Idade do Bronze, e da Idade do Ferro 16 , do Norte, do Sul e do Centro do território português, estas últimas bem caracterizadas nas regiões de Viseu e Aveiro. De modo directo, Fernando Silva refere que o tumulus das sepulturas da Idade do Bronze representa uma ligação simbólica ao Neolítico e ao Calcolítico (Silva, 1997: 618). Mas, para além da representatividade destas sepulturas pré-históricas na paisagem portuguesa, devemos salientar a sua expressão transcultural, repartida por distintas e distantes partes da Terra. Na acepção megalítica, estas construções encontram-se espalhadas por grande parte da Europa Ocidental (Figura 1), da Península Ibérica à Escandinávia e às Ilhas Britânicas. Mas fora deste espaço, que tem motivado inúmeros debates em torno da sua génese e evolução, existem megálitos no Próximo e no Extremo Oriente, em África e no continente Americano. De facto, a génese deste fenómeno, universal, não é consensual e tem atravessado as várias teorias da Arqueologia (Jorge, 12 Do Neolítico para a Idade do Bronze, no ocidente peninsular, os diâmetros e alturas dos tumuli diminuem tendencialmente, com a passagem das sepulturas de colectivas a individuais. 13 Essa hierarquização parece ser mais evidente nas necrópoles em favo, tipo Atalaia, do Bronze I do Sudoeste. 14 Com a introdução da cremação, que em necrópoles da Idade do Bronze, convive com a inumação. 15 Com redução da variedade e quantidade de peças, este último caracter também será determinada pela individualização da sepultura, e a introdução de artefactos metálicos. 16 As construções funerárias de base circular, mas de configuração planar, das Idades do Bronze e do Ferro, tanto no Sul como no Centro de Portugal, podem ter sido capeadas com sobreelevações monticulares, aproximando-se, quanto à forma, dos tumuli. São os casos das necrópoles de cistas do Bronze I de Sudoeste, tipo Atalaia, no concelho de Ourique (v. por exemplo Correia & Parreira, 2002), do monumento 1 sito na portela da Fonte da Malga (Kalb & Hock, 1982), em Viseu, ou da sepultura 2 do Talho do Chaparrinho (Soares, 1994), em Serpa.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 8 1987:203-260, 2002 e 2003; Renfrew & Bahn, 1993: 448-449; Johnson, 2000: 50-32; García Sanjuán, 2005: 249-268). Voltando ao espaço europeu, e deslocando o cerne da atenção das sepulturas megalíticas para as pequenas colinas tumulares, que são a face exterior deste fenómeno, podemos reconhecer que as arquitecturas funerárias ganham uma ainda maior expressão territorial, no vasto continuum euroasiático, se colocarmos as sepulturas megalíticas ocidentais, com as suas colinas tumulares, ao lado das estruturas kurgan 17 , as sepulturas de forma igualmente monticular (Figura 2) das comunidades de pastores nómadas das estepes eurasiáticas 18 , associadas ao complexo linguístico indo-europeu. Olhando para a Figura 2 parece-nos que a forma 2 não é substancialmente diferente de alguns tumuli neolíticos do Norte Peninsular (Palomino Lázaro & Rojo Guerra, 1997; Blas Cortina, 2000; Sánchez Hidalgo, 2000), tal como as formas 5 e 6, da mesma figura, se aparentam, formalmente, com as sepulturas da Idade do Bronze e da Idade do Ferro do Centro (Kalb & Hock, 1092) e do Sul de Portugal (Correia & Parreira, 2002), embora possam faltar as colinas monticulares em todas elas. Com a Figura 1 pretende-se sugerir a complementaridade-continuidade geográfica entre aquelas duas realidades, pese embora as diferenças reconhecidas a vários níveis, nomeadamente cronológicas 19 . A B Figura 1. A. Distribuição de monumentos megalíticos na Europa (In Santos, 1994). B. Geografia da cultura dos kurgan, tumuli de comunidades de pastores nómadas das estepes eurasiáticas, segundo Marija Gimbutas (in Renfrew, 1990:40). 17 Ver por exemplo Renfrew (1990), Peto & Barczi (2011) ou Parzinger (1998). 18 A universalidade do uso de colinas tumulares, para além do velho continente, pode se evidenciada com os tumuli da América do Norte, casos das colinas artificiais das culturas Adena e Hopewell (800 AC – 500 DC) citadas por exemplo por Ceram (1976). 19 Recorde-se a proposta processualista de Colin Renfrew (1990) acerca da difusão das línguas indoeuropeias a par da generalização da economia agro-pastoril, a partir do 6º milénio AC.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 9 1 2 3 4 5 6 Figura 2. Tumuli kurgan do espaço euroasiático: 1 - Hungria (in Peto & Barczi, 2011); 2 – Roménia; 3 – Mongólia; 4 – Sibéria; 5 – Azerbeijão; 6 – Casaquistão. Os casos 3 a 6 apresentamse amputados das colinas monticulares de terra. Estas construções, dedicadas aos mortos, podem traduzir as mesmas noções de conforto e de segurança que as casas conferem aos vivos. Aliás Ian Hodder invoca essa associação, no plano do simbólico: “Hodder sostine que muchas de las tumbas de cámara de la Europa occidental remitían simbólicamente a las casas anteriores y contemporáneas de la Europa central e occidental: «las tumbas significaban casas»” (Renfrew & Bahn, 1993:
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 16 latim, são diferentes formas de designar a mesma realidade, embora com uma tendência, recente, na comunidade científica, para se aplicar esta segunda forma às pequenas mamoas, mais tardias. Existe a presunção que a maior frequência de mamoas e tumuli no Centro e Norte de Portugal, sobretudo nas terras altas, nos altiplanos, poderá resultar de uma melhor conservação face aos usos que o solo ali teve até à actualidade, com uma maior dedicação ao pastoreio e ausência de uso agrícola intensivo naquelas latitudes. Já no sul, a lavoura é considerada a actividade responsável pela degradação das mamoas expondo à vista às câmaras funerárias. Mas, outras razões haverá para justificar a perda da massa que protege e monumentaliza o contentor funerário. V. Gonçalves (1999: 11-12) refere a sua extracção, enquanto material com qualidade argilosa, para uso em construções de taipa. A mesma extracção está documentada 27 em Proença-a-Nova, para uso na construção de fornos. Se esta perda da massa tumular é um dado canónico para as estruturas megalíticas, ou pelos menos para as sepulturas neolíticas e calcolíticas, no sul de Portugal também tem sido admitida a mesma perda, embora de forma menos convincente ou documentada, nas pequenas sepulturas individuais da Idade do Bronze e da Idade do Ferro. Essa perspectiva é defendida para a sepultura do Casarão 28 (sec. VIII-VII AC), em Ourique, que hoje se apresenta aplanada mas cuja presença na paisagem poderia estar, na origem, reforçada por uma mamoa, aliás como sucede com as sepulturas kurgan referidasna Introdução. Outro caso, ilustrativo dessa perda da massa monticular, pode observar-se no acentuado desnível entre o empedrado basal e os topos dos esteios da cista megalítica do Cerro do Malhão, embora tal facto tenha sido interpretado como configurando um sarcófago desprovido de tumulus (Cardoso & Gradim, 2011:62). Na tentativa de nos aproximarmos de um conhecimento acerca da ocupação da região de Castelo Branco durante a Pré-História Recente, será legítimo questionar a razão da nossa opção pelas estruturas funerárias, tendo em conta que comportam características muito específicas, parciais, talvez muito padronizados, e, desse modo, talvez insuficientes para caracterizar a presença no território daquelas antigas comunidades. A resposta a esta objecção já foi dada anteriormente: estas estruturas, destinadas à eternidade, conservaramse durante mais tempo, proporcionando dados de maior visibilidade, mais abundantes e 27 Informação da Associação de Estudos do Alto Tejo. 28 “O que resta do monumento é o anel periférico de lajes de xisto cravadas obliquamente na rocha de base, contendo um enchimento de pedras. Estas constituíam a base do monumento que, provavelmente, teria um volume original muito maior do que aquele que hoje se conserva: outras camadas de taipa ou terra acumulada poderiam ter criado um volume hemisférico mais visível na paisagem como aconteceria com sepulturas principescas por toda a Europa de então.” (Correia & Parreira, 2002: 54-55)
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 17 melhor repartidos geograficamente, comparativamente com outros tipos de sítios, como os de habitat. No caso das estruturas monticulares, que não apresentam contentores minimamente definidos, e tendo em conta que o conhecimento que delas temos é em grande parte superficial, coloca-se uma outra questão: serão todas elas sepulturas ou estruturas relacionados com as práticas mortuárias? Não estamos certos que sejam, pelo que podemos estar a incluir no complexo funerário outras realidades. Vejam-se a semelhanças formais de montículos com restos de cabanas (Moraza Barea, Moro Deordal & Mujika Alustiza, 2003; Moraza Barea & Mujika Alustiza, 2005) ou com assentamentos medievais, como é o caso da mota de Eiró, do séc. XII, em Cabeceiras de Basto (Fontes, 1998). Na escala de abordagem deste estudo temos de aceitar incorporar esta indeterminação, que resulta de lacunas de conhecimento. Insistimos na ideia de continuidade do acto de acondicionar restos mortais humanos em montículos artificiais de geometria circular como invariância cultural num tempo longo de vários milénios. Contudo, reconhecemos que, neste tempo longo, ocorreram mudanças, de grande contraste, noutros caracteres culturais, mais plásticos, como sejam os modos de manipulação do corpo (deposição, inumação, incineração, outros), as diferentes formas e dimensões dos contentores (dólmen, cista, fossa, vazio estruturado), os espólios e a multiplicidade ou singularidade dos sepultamentos. Este defasamento é mais um exemplo de que os caracteres culturais não mudam todos ao mesmo tempo. A inércia, ou resistência, do modelo indicado, qual seja o uso de estruturas monticulares, ou a sua prevalência sobre outras modalidades estruturais, poderá talvez ser demonstrada pela reutilização das sepulturas neo-calcolíticas durante a Idade do Bronze (Kalb, 1994). No largo espectro de cronologias pelo qual se repartem estes objectos, desde o 5º ao 1º milénio AC, são muito variados os padrões de organização das necrópoles, as dimensões das estruturas, a arquitectura dos contentores e sobretudo as cerimónias que ali tiveram lugar, factores que agravam a discriminação deste palimpsesto na ausência de balizas temporais mais objectivas. 1.3. Área de estudo Em aproximação à área de incidência deste estudo, referimo-nos anteriormente à região de Castelo Branco e ao distrito de Castelo Branco (Figura 3). No tempo histórico a que reporta a nossa análise, uma unidade administrativa moderna como é o distrito não tem significado. Contudo, independentemente dos critérios que
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 18 estiveram na base daquela delimitação administrativa (fisiográficos, históricos ou outros), o distrito de Castelo Branco, em concreto, tal como antes a província da Beira Baixa, que lhe corresponde em grande parte, adaptou-se a uma área com uma especificidade geográfica. De facto, tal unidade corresponde a um compartimento, ou sector, da bacia hidrográfica do rio Tejo situada a oriente e a sul da Cordilheira Central, sendo balizado pelos rios Erges, a leste, Tejo, a sul, e Zêzere, a oeste. Figura 3. Delimitação do distrito de Castelo Branco (linha vermelha) em mapa hipsométrico (disponível em www.guiadeportugal.pt) e (mancha vermelha) em mapa administrativo do território continental. Como veremos, seguidamente, esta região, na qual se inscreve o distrito de Castelo Branco, não é homogénea, ao nível de diversos caracteres físicos e bióticos, e as suas características não terminam nos limites indicados, tanto a norte e a ocidente, no desenvolvimento do sistema montanhoso, como a sul e a leste, na ultrapassagem dos rios indicados, para o Alentejo e para a província espanhola de Cáceres.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 19 A abordagem por áreas naturais é comum em estudos de arqueologia espacial. Contudo existem objecções em relação à pertinência de uma definição apriorística dos limites dessas áreas 29 . Mas cremos que tal objecção não se colocará no nosso caso, atendendo à diversidade física e biótica e à dimensão da área de estudo que adoptámos. O enquadramento geográfico, que faremos no capítulo 2, terá como referência a região de Castelo Branco, agora genericamente introduzida, e que se apresenta como um vasto anfiteatro voltado para leste 30 e para sul. Além disso, a posição no território, face aos acidentes geográficos e às contingências políticas, confere-lhe características de zona de transição entre Norte e Sul, entre interior e litoral. No capítulo 3, que contém uma narrativa historiográfica das investigações arqueológicas na região, iremos balizar a análise no espaço distrito de Castelo Branco, adoptando desse modo, o recorte administrativo, por uma razão que se prende com a comparabilidade dos dados com o inventário arqueológico realizado no início do séc. XX por Tavares de Proença Jr, à escala do distrito. Finalmente, no capítulo 4, no qual faremos uma abordagem arqueográfica de um conjunto específico de estruturas funerárias, iremos aumentar o grau de detalhe reduzindo a dimensão da área de análise a um compartimento balizado por acidentes fisiográficos, maioritariamente fluviais, o qual corresponde em grande parte a uma unidade administrativa contemporânea (concelho). Seguindo o pressuposto da diferenciação da humanização do território com base na altitude, iremos adoptar ao longo deste texto os conceitos dicotómicos de terras altas e de terras baixas. Deste modo, vamos considerar as terras altas como sendo o sector montanhoso da região de Castelo Branco com altitudes superiores a 400 m, o qual corresponde à Cordilheira Central, seus vales interiores e encostas. Como terras baixas consideramos a parte restante da região de Castelo Branco situada a oriente e a sul da 29 “… o determinismo ecológico, que propunha a sobreposição entre os limites espaciais da análise e “áreas naturais” previamente definidas, a partir de critérios geológicos, geomorfológicos, hidrográficos, climáticos, confere ao meio um peso determinante na configuração e transformação dos sistemas, e assume que a variabilidade cultural é em grande medida uma tradução da mudança de cenário ambiental. // As características naturais dos territórios de implantação funcionam como efectivas condicionantes, mas de efeito limitado sobre os sistemas culturais. A conservação dos dados arqueológicos demonstra que estes desenvolveram múltiplas estratégias que lhes permitiram contornar e ultrapassar os condicionalismos impostos pelo meio. Por isso, a área de dispersão de um fenómeno cultural deve ser definida a posteriori da sua análise e do seu conhecimento efectivo, porque esta não tem necessariamente que coincidir com áreas naturais previamente definidas.” (Diniz, 2007: 31-32). 30 Esta abertura a leste foi aproveitada em vários momentos da história moderna e contemporânea de Portugal como uma rota seguida por diversas invasões militares, mesmo sendo considerada uma das entradas francas de prosseguimento mais difícil depois de ocupada a capital distrital (v. por exemplo, Ventura, 2006).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 20 primeira, com uma morfologia aplanada e diversas depressões correspondentes à rede hidrográfica principal que a atravessa. 1.4. Aspectos metodológicos Passamos a referir alguns aspectos e critérios metodológicos adoptados na obtenção e na selecção dos dados que serviram de base a este estudo. Uma parte muito significativa dos dados em análise foi obtida, ao longo dos últimos trinta anos, por equipas da Associação de Estudos do Alto Tejo, nas quais o signatário participou. Esse trabalho incidiu sobretudo no sul da região de Castelo Branco, onde esses dados são mais densos, e a pesquisa mais persistente, casos dos concelhos de Vila Velha de Ródão, de Proença-a-Nova e de Oleiros e dos sectores meridionais dos concelhos de Idanha-a-Nova (freguesias de Rosmaninhal, Segura, Ladoeiro e Zebreira) e de Castelo Branco (freguesias de Malpica do Tejo e de Monforte da Beira). A intenção de historiar a construção do conhecimento acerca das materialidades funerárias da Pré-História Recente da região de Castelo Branco (capítulo 3), conduziu-nos a uma acumulação diacrónica de dados, ou palimpsesto, cuja investigação actual não nos permite discriminar, minimamente, as cronologias dos sucessivos momentos da formação desses registos (construções, artefactos), por escassez de séries tipológicas fiáveis, circunstância que é agravada pela ausência de datas absolutas. Esta circunstância limita significativamente o conhecimento geral que pretendemos formar acerca daquela realidade. Acresce o facto, já notado, de podermos incorrer em erros de avaliação considerando funerárias e/ou pré-históricas estruturas que o não são, para além daqueles casos que considerámos, a priori, como de caracterização indeterminada. No que concerne às prospecções promovidas pela Associação de Estudos do Alto Tejo (anteriormente designada como Núcleo Regional de Investigação Arqueológica) a qualificação dos sítios arqueológicos baseou-se sempre em indicadores observáveis à superfície. A prioridade foi concedida à identificação de câmaras funerárias, reportáveis a tipologias conhecidas ou de facies antigo, acompanhadas por estruturas monticulares, conservadas ou vestigiais. Naqueles casos em que as câmaras funerárias estavam ausentes ou invisíveis a qualificação das ocorrências arqueológicas baseou-se na avaliação das estruturas monticulares, suas dimensões, composição e forma. Por exemplo, no sul de Idanha-a-Nova verificou-se existir uma característica invariante na construção das mamoas; a presença de quartzo leitoso. Esta circunstância facilitou o diagnóstico de situações mais complicadas, correspondentes à profunda destruição de
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 21 monumentos, nomeadamente devido à instalação de povoamentos florestais. Nestes casos, a presença de concentrações regulares de quartzo leitoso, e de dimensão compatível, a par de alguns clastos de rochas metasedimentares (correspondentes a antigos esteios ou outras sub-estruturas) foi facilmente diagnosticada como tendo correspondido a uma mamoa destruída. Avaliações deste tipo foram muitas vezes reforçadas pela presença de artefactos típicos (elementos de moagem, instrumentos de pedra polida, cerâmica e outras tipologias de artefactos). Em Castelo Branco, na região do Tejo internacional, mais precisamente no Monte de São Domingos (Malpica do Tejo) houve um caso em que qualificámos, a priori, como cistas, funerárias (Henriques, Caninas & Chambino, 1993), duas construções atípicas, cuja escavação arqueológica (Cardoso, Caninas & Henriques, 1998) revelou serem cabanas, da Idade do Bronze, tendo sido documentada uma urna cinerária no chão de uma daquelas construções. Em área de estudo com diversidade de características geográficas é expectável que o processo de humanização tenha decorrido de forma heterogénea ao longo do tempo. Os diferentes cenários criados pelo homem perderam a sua originalidade na medida em que as posteriores etapas de ocupação do território alteraram os registos de etapas anteriores, para além da incidência, directa ou indirecta, de factores estritamente naturais. E essas alterações fizeram-se também de modo não-uniforme em resultado da demografia e das diferentes estratégias de exploração de recursos naturais que lhes sucederam, com diferentes graus de intrusão no solo e no subsolo. Por último, temos de admitir um outro factor de irregularidade na avaliação da geografia destes dados, o qual resulta dos métodos adoptados na obtenção de dados arqueológicos. Dos investigadores que nos antecederam na região quase nada sabemos acerca da metodologia que adoptaram na prospecção arqueológica. Também não procurámos indagar de que modo estão a ser elaborados, na actualidade, os inventários arqueológicos em municípios do distrito de Castelo Branco que nos são menos familiares, como são os casos da Sertã, de Penamacor, da Covilhã ou do Fundão, uma vez que não pretendemos aprofundar este conhecimento nessas áreas. Cremos que no caso de Francisco Tavares de Proença Jr., o veículo seguido, tanto na identificação de sítios como na aquisição de espólio para o futuro museu, terá sido o recurso a informantes e a colectores indígenas. Em alguns dos territórios que têm sido mais persistentemente prospectados, como são os casos do concelho de Vila Velha de Ródão e da parte meridional do concelho de Idanhaa-Nova (freguesia de Rosmaninhal) e que, também por esse motivo, têm fornecido uma
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 22 maior quantidade de dados, apesar de tal persistência, não se pode afirmar que tenham sido prospectados de modo sistemático, com uma malha apertada de pesquisa. Nessas áreas, a intensidade da prospecção de acordo com N. Bicho (2006:97-98) pode qualificar-se com grau médio, tendo havido a preocupação de eliminar vazios nos territórios abrangidos por esses projectos, um procedimento que está nas antípodas dos métodos de amostragem (Bicho, 2006: 100-103). Em Idanha-a-Nova, em Vila Velha de Ródão e em Proença-a-Nova, têm sido efectuadas prospecções dirigidas ou selectivas, baseadas no seguimento de informações locais, na confirmação de registos antecedentes, ou na orientação em função de critérios fisiográficos ou em padrões antrópicos construídos empiricamente. Nestes casos praticou-se uma prospecção completa, em termos de abrangência temporal, por unidades institucionais (concelhos ou freguesias), ainda de acordo com os critérios expressos por N. Bicho (2006:91). No caso do concelho de Oleiros, onde esta prática é mais recente, datando do início deste século, no âmbito da minimização de impactes de projectos eólicos, a prospecção tem sido direccionada para cumeadas, seguindo um critério natural (Bicho, 2006:91-92). Os cenários que apresentamos no próximo capítulo estão, portanto, condicionados por estas diferentes estratégias. Os dados que serviram de base aos mapas temáticos que apresentamos no capítulo 3 foram obtidos e tratados a partir de uma listagem fornecida em 2011 pelo IGESPAR I. P., através da Divisão de Inventário, Documentação e Arquivo 31 , tendo como fonte a base de dados de sítios arqueológicos (Endovelico). Para a selecção dos dados na fonte fornecemos a lista 32 de tipos indicada no Anexo 1, com referência: (1) aos onze concelhos do distrito de Castelo Branco; (2) ao período cronológico, balizado entre o Neolítico Antigo e o Bronze Final; (3) à tipologia, considerando-se 39 diferentes tipos. No caso dos dois últimos campos considerou-se relevante consignar o conteúdo indeterminado. A partir da listagem fornecida pelo IGESPAR, com 835 registos, fez-se uma triagem para eliminar erros (casos de sítios de outras regiões erradamente imputados a esta), repetições (diferentes registos referentes ao mesmo sítio ou desdobramentos cronológicos do mesmo sítio) e dados não aplicáveis ou não fiáveis (por se basearem em fontes antigas ou por corresponderem a com qualificações duvidosas) ficando a lista reduzida a 501 31 Pronta colaboração que se agradece na pessoa da Drª Filipa Neto. 32 Os campos fornecidos foram: designação do sítio arqueológico; código nacional de sítio, abreviado como CNS; tipo; concelho; período; topónimo; coordenadas geográficas; folha da Carta Militar de Portugal, CMP.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 23 registos ou ocorrências. Para a exclusão de registos consultámos o descritivo de inúmeros sítios, principalmente daqueles que tinham características indeterminadas. Foi o caso de um elevado número de conheiras, canonicamente atribuídas à época romana, que excluímos desta abordagem, embora partilhemos (Henriques et al., 2011) a hipótese de a exploração aurífera que lhes está associada poder ter sido iniciada na Pré-história Recente (Bueno et al., 2006:95 33 ; Bueno-Ramírez; Balbín-Behrmann & Barroso-Bermejo, 2011). As ocorrências da listagem final foram distribuídas por diferentes compartimentos tipológicos, conforme patente no Anexo 1: achado isolado; habitat ou outros sítios; estruturas funerárias; menires, recintos e estelas; depósitos de peças; arte rupestre. Ao invés, a lista (Anexo 3) que serve de suporte ao capítulo 4 teve como fonte principal a Associação de Estudos do Alto Tejo, uma vez que as acções de inventário arqueológico empreendidas por esta associação nos últimos decénios, têm sido a principal origem de dados arqueológicos do inventário público, nos concelhos de Vila Velha de Ródão, de Proença-a-Nova, de Oleiros e, principalmente nas zonas meridionais dos concelhos de Idanha-a-Nova e de Castelo Branco. 33 Acerca dos construtores de sepulturas pré-históricas na zona do Tejo Internacional é referido por estes investigadores que “se trataria de grupos agrícolas y ganaderos, cuya riqueza debería proceder, al menos en parte, de la explotación de los recursos minerales y auríferos de la zona.”
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 24 2. A região de Castelo Branco: enquadramento geográfico 2.1. Introdução A região de Castelo Branco situa-se no centro-interior de Portugal sendo abrangida por sector da bacia hidrográfica do rio Tejo, a norte daquele rio. Corresponde sensivelmente à antiga província da Beira Baixa e ao distrito de Castelo Branco 34 . Figura 4. O relevo da Península Ibérica segundo a teoria da transformação progressiva da paisagem geográfica de H. Lautensach, de 1934 (Ribeiro, Lautensach & Daveau, 1987: 33). Esta zona ladeia um estrangulamento orográfico que se observa na bacia hidrográfica do rio Tejo, no bordo do Maciço Hespérico, na transição deste para a bacia sedimentar exterior do Baixo Tejo. Este estrangulamento é formado a norte pela Cordilheira Central Ibérica e a sul daquele rio pelo prolongamento ocidental da linha de relevos que entronca 34 Esta província corresponde à adição do concelho de Mação (distrito de Santarém) e do concelho de Pampilhosa da Serra (distrito de Coimbra) aos concelhos do distrito de Castelo Branco.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 25 nos Montes de Toledo (Ribeiro, Lautensach & Daveau, 1987: 12), cujo acidente mais ocidental, já em território português, é a Serra de São Mamede. O fecho do corredor confinado por estes dois sistemas montanhosos é materializado pelo desenvolvimento transversal da serra das Talhadas. Embora antiga, a cartografia do relevo da Península Ibérica, segundo a teoria da transformação progressiva da paisagem geográfica, publicada originalmente por H. Lautensach em 1934 (Figura 4), é muito expressiva deste aspecto. Figura 5. Divisões geográficas de Portugal Continental segundo O. Ribeiro (1986: 188-189). 1 – divisão entre Norte e Sul. Unidades de paisagem: 7 – Cordilheira Central; 16 – Beira Baixa.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 32 ainda maior em oito diferentes andares, embora dois extremos tenham uma representação marginal (semiárido superior e hiper-húmido inferior), variando entre seco inferior, nos vales dos rios situados na parte sudeste da região de Castelo Branco, e húmido superior, nos cimos da Cordilheira Central. Figura 11. Termotipos do Alto Tejo segundo Monteiro-Henriques (2010), in Veigas et al (2010). Esta figura abrange apenas quatro concelhos da área de estudo: Castelo Branco, Idanha-a-Nova, Proença-a-Nova e Vila Velha de Ródão. Uma outra imagem ilustrativa da grande variabilidade climática numa curta distância, só observável em Trás-os-Montes, pode se dada pelos tipos de verão (Ribeiro, Laustensach & Daveau, 1988), variando entre muito quente 39 , novamente nos vales encaixados dos rios Tejo, Ocreza, Ponsul e Erges, passando por quente 40 , na maior parte das terras baixas do 39 Temperatura máxima média do mês mais quente superior a 32º e mais de 120 dias com máxima superior a 25º. 40 Temperatura máxima média do mês mais quente entre 32º e 29º e entre 120 e 100 dias com máxima superior a 25º.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 33 planalto, e atingindo um verão moderado 41 na Cordilheira Central, a sul do Zêzere, já que o verão passa a fresco 42 entre as serras da Lousã e da Estrela. Figura 12. Ombrotipos do Alto Tejo segundo Monteiro-Henriques (2010), in Veigas et al (2010). Esta figura abrange apenas quatro concelhos da área de estudo: Castelo Branco, Idanha-a-Nova, Proença-a-Nova e Vila Velha de Ródão. Na área de estudo, a Geologia e a Litologia, que são fortemente interdependentes, exibindo por isso um idêntico recorte espacial (Figuras 13 e 14), determinam por um lado as disponibilidades de matérias-primas utilizadas nas construções pré-históricas e, a par das capacidades de retenção de água e da acção humana, a qualidade dos solos disponíveis para a subsistência alimentar. 41 Temperatura máxima média do mês mais quente entre 29º e 23º e entre 100 e 20 dias com máxima superior a 25º. 42 Temperatura máxima média do mês mais quente inferior a 23º e menos de 20 dias com máxima superior a 25º.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 34 Figura 13. Extracto da carta geológica do território continental (LNEG Laboratório de Geologia e Minas, 2010), sobre a qual se aplicou o limite da área de estudo (linha vermelha). Como realidades principais, verifica-se o domínio territorial das rochas metamórficas do chamado Grupo das Beiras, do Neoproterozóico e Paleozóico, que ocupam toda o espectro altimétrico desta região. Com forte expressão regional, ocorrem, sobretudo no centro deste território, as rochas magmáticas intrusivas (vulgo granitos) do chamado Ciclo Varisco, e diversas longas cristas de rochas muito duras de quartzitos armoricanos do Ordovícico. Identicamente importantes, pela sua expressão territorial, embora mais confinadas à parte sudeste do território, são as formações sedimentares, cenozóicas, areno-argilosasconglomeráticas, que culminam as rochas do maciço antigo.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 35 Figura 14. Extracto da carta litológica do território continental (Atlas do Ambiente, 1982, disponível em www.apambiente.pt). Formações: metamórficas (verde e branco riscado), eruptivas (azul) e sedimentares (amarelo ponteado). A linha vermelha delimita a área de estudo. 2.3. Caracteres biofísicos A tipologia dos solos (Figura 15) segue aproximadamente as características litológicas do subtrato geológico que lhe deu origem, com a contribuição de outros factores físicos (pluviosidade, erosão), bióticos (vegetação) e antropogénicos (produção agrícola), com predomínio de litossolos sobre as rochas metamórficas do Grupo das Beiras, excluindo os topos da Cordilheira Central, de influência atlântica, onde ocorrem cambissolos. Os cambissolos também aparecem associados às rochas erupticas e aos quartzitos. Finalmente as unidades sedimentares acolhem os luvissolos. Embora não estejam representados à escala utilizada deve considerar-se a presença de fluvissolos nos aluviões fluviais. O efeito de armazenamento de água, tão importante para a actividade humana, é também diferenciado ao nível destes solos e litologias subjacentes, para além da variabilidade na preciptação de água, que como vimos varia de forma muito acentuda em função do relevo. Tais reservas águas são, como se sabe, mais deficientes nos solos e litologias aqui dominantes, ou seja, nos litossolos e nas rochas metasedimentares.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 36 Figura 15. Extracto da carta dos solos do território continental (Atlas do Ambiente, 1978, disponível em www.apambiente.pt). Os litossolos estão representados a cor amarela, os luvissolos a cor roxa, e os restantes em tons castanhos são cambissolos. A linha azul delimita a área de estudo. Além das reservas de água no solo e no subsolo há a considerar as disponibilidades superficiais ao nível da rede fluvial, a qual, na área em apreço, apresenta forte dependência da morfologia (comandada pela tectónica), além naturalmente do carregamento que é feito pela precipitação na respectiva bacia. Destacam-se (Figura 8) os rios Erges, Aravil, Ponsul, Ocreza e Zêzere que drenam esta região com um andamento, paralelo, maioritariamente orientado de nordeste para sudoeste, afluindo na margem direita do rio Tejo, mantendo caudal permanente, exceptuando talvez os mais orientais, nos seus trechos superiores, durante o estio. Alguns destes rios, como o Ponsul, o Zêzere e parte do Tejo seguem em grande parte o rumo das falhas marginais da Cordilheira Central (Ribeiro, Lautensach & Daveau, 1987:194). Os factores climáticos determinam, a par dos solos, as características da vegetação e outros factores bióticos, embora também se deva considerar o efeito histórico cumulativo dos factores antropogénicos (Costa, 2011; Franco, 2000; Veigas et al., 2010). Como aproximação a esta realidade considere-se a carta ecológica representada na Figura 16 que
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 37 apresenta uma forte correlação com a morfologia. A maior representação corresponde ao nível basal (abaixo de 400 m) com zonas fitoclimáticas entre sub-mediterrânea e iberomediterrânea (20 a 22), contra as zonas atlânticas, dos andares sub-montano (400 m a 700 m) e montano (700 m a 1000 m) da Cordilheira Central. Figura 16. Extracto da carta ecológica – fito-edafo-climática – do território continental (Atlas do Ambiente, 1984, disponível em www.apambiente.pt). A zona fitoclimática submediterrânea está representada com cor laranja, a cor rosa a zona submediterrânea – ibero-mediterrânea e a cor rosa claro a zona ibero-mediterrânea. As restantes cores indicam transições para as influências atlânticas com a cor castanha escura a indicar zona subatlântica. A linha azul delimita a área de estudo. Falta, contudo, informação paleoambiental (de base polínica, antracológica e carpológica) que nos permita conhecer com maior aproximação, a vegetação e o clima contemporâneos dos processos culturais pré-históricos nesta região, exceptuando os resultados obtidos em turfeiras da Serra da Estrela. Os dados polínicos ali obtidos permitiram determinar a degradação da floresta temperada de carvalhos, entre o final do 4º e o início do 3º milénios AC, em resultado talvez da criação de pastagens para pastoreio sazonal 43 . 43 Trabalhos de W. Knapp, C. Janssen e J. van Leeuwen, citados por exemplo em Senna-Martinez et al (1999) e Cardoso & Gonzalez (2002).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 38 2.4. Aspectos gerais Para caracterizar o território onde se inscrevem as materialidades arqueológicas que são o objecto deste estudo, recorremos à cartografia relativa à distribuição de diversos componentes ambientais, físicos e biofísicos, assumidos como condicionadores ou potenciadores da actividade humana no passado, ao nível da ocupação do território, do uso de recursos minerais e da subsistência alimentar. Deste modo, e para identificar a variabilidade desses factores, considerámos preferenciais os registos relativos a componentes ambientais mais intemporais, como por exemplo a morfologia, a geologia e o clima, evitando aqueles que enfermem de maior temporalidade e do efeito de transformação ocorrida após o período histórico considerado, casos dos factores biológicos (os vários tipos de cultivos) e dos factores biofísicos, mais contingentes, como a capacidade de uso do solo. Enquanto os factores físicos nos podem aproximar mais do ambiente utilizado pelos grupos pré-históricos, os factores biológicos e biofísicos poderão ser mais úteis na compreensão da distribuição regional dos efeitos antropogénicos, modernos, de perturbação do registo arqueológico. A evolução da demografia e da mobilidade também poderiam ser úteis na compreensão dos efeitos degradativos ocorridos em períodos históricos subsequentes. As próprias contingências político-administrativas, decorrentes da formação do estado nacional, a partir da Idade Média, determinaram a especificidade (isolamento e arcaísmo) desta região interior (Mattoso, Daveau & Belo, 2010) 44 , que é caracterizada como estando isolada entre os relevos da Cordilheira Central, a ocidente, e o deserto demográfico castelhano-leonês, que se insatalou a oriente, quebrando continuidades culturais que existiram seguramente na Pré-História Recente. Como síntese de abordagem mais global deste território podemos observar o zonamento por unidades de paisagem elaborado em data recente, na óptica da arquitectura paisagística (Cancela, Correia & Oliveira, 2004). A região de Castelo Branco reparte-se basicamente por dois grupos de unidades de paisagem, separados de forma meridiana, sensivelmente a meio daquela região. Estes grupos são denominados Beira Interior (a oriente) e Pinhal do Centro (a ocidente), e correspondem, aproximadamente, à antiga partição geográfica entre Campo e Charneca. O quadro físico apresentado sugere-nos, como conclusão geral, que podemos encontrar nas terras baixas da Superfície morfológica de Castelo Branco uma área intermédia entre 44 “… a Beira Baixa é uma típica área de transição entre o Norte e o Sul do país; caracteriza-se pela sua complexidade, o seu isolamento e a sua passividade.” (Mattoso, Daveau & Belo, 2010: 366)
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 39 factores ambientais extremos, e, por isso, de maior amenidade para a subsistência humana, face ao clima (temperatura), às disponibilidades de água e à aptidão dos solos. Essa zona intermédia é ainda servida por um importante eixo de mobilidade, à escala regional, de orientação norte – sul, e que apresenta um rumo paralelo a essa outra via, também antiga, que corria a leste, a via da prata, continuada, até à actualidade, numa importante rota pecuária transumante, a canada real Vizana o de la Plata (Estepa García, 2000).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 40 3. Abordagem histórico-geográfica do conhecimento acerca das construções funerárias na região de Castelo Branco 3.1. Introdução Para nos situarmos melhor no tema vamos rever os antecedentes do processo de identificação e estudo das construções funerárias na região de Castelo Branco. Iremos constatar as assimetrias, no método, no espaço e no tempo, de um processo que, ao nível dos seus agentes, se pode caracterizar por iniciativas particulares, na ausência de um programa público, tal como ocorreu noutras regiões administrativas de Portugal. O contexto das mais antigas referências a monumentos megalíticos na região de Castelo Branco parece relacionar-se com o domínio fundiário, como é o caso da citação de uma anta velha no limite da Comenda da Ordem de Cristo, no Rosmaninhal, tal como consta num tombo de 1505, “… e dese direito a huu marco que estaa a huaa anta velha e he de huua piçarra altura de dous palmos sobre ha terra e tem duas cruzes…”(Hormigo, 1998: 13; Chambino, 2000: 111) 45 . Aliás, a apropriação de sepulturas pré-históricas, e em particular de mamoas, como marcos territoriais, era um fenómeno comum no passado 46 . É no século XIX que os monumentos megalíticos da região de Castelo Branco surgem em contexto científico (Costa, 1868; Villela, 1876). Cite-se, a propósito, a referência a três menires 47 no concelho de Vila Velha de Ródão, em Fratel, Monte Fidalgo e Ribeira do Açafal, que julgamos corresponderem a restos de antas, sendo os referidos menires interpretáveis como esteios e não como monólitos isolados ou dispostos em alinhamentos. Alguns anos mais tarde, a expedição científica realizada na Serra da Estrela, em 1881, por iniciativa da Sociedade de Geografia de Lisboa, cujo Relatório da Secção de Arqueologia ficou a cargo de Francisco Martins Sarmento (Sarmento, 1933), contém algumas referências a estruturas funerárias pré-históricas na região de Castelo Branco. Entre os fins daquela missão, os monumentos megalíticos formam um dos dois conjuntos 45 “...E depois pela lomba que vai por cima da dita fonte que no termo de segura.... e depois direito a um marco que está numa anta velha...” (Chambino, 2000: 111). Muitos monumentos megalíticos coincidem actualmente com o limite de duas ou mais propriedades. 46 Por exemplo, Mendendez de Luarca (2000: 72), citando Ferro Couselo, refere uma mamoa como limite, “per petras fixas et mamolas antiquas”, em documento de 760. 47 A obra referencial de Pereira da Costa remete, erradamente, a única referência a sepulturas megalíticas da região de Castelo Branco para a província de Trás-os-Montes (Costa, 1868: 91): “XLII Domin? Trilithes próximo a Villa Velha de Ródão, e ao nascente da Ribeira de Açafalla. O sr. Schiappa diz-nos que nesta localidade se encontram na parte superior de uma collina tres lages (menhires) das quaes uma está cravada verticalmente, outra bastante inclinada, e a terceira caída no chão.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 41 de objectivos arqueológicos, sendo o outro conjunto correspondente às estações préhistóricas, onde os investigadores incluíram, além dos locais de habitat e do património móvel, os sítios com grafismos rupestres (círculos, espirais e covinhas). A tipologia dos monumentos megalíticos desdobra-se por antas, antelas (tumuli), menires, cromeleques, penedos e lajes com gravuras e, curiosamente, sepulturas escavadas na rocha. O guia de pesquisa contempla questões muito precisas e interessantes, acerca da variabilidade arquitectónica, a sua cronologia, a sua posição topográfica (em vale, chã, outeiro, garganta e junto de caminhos), os nomes populares e as tradições associadas. Quantos aos monumentos megalíticos, os exemplares mais expressivos, visitados no decurso daquela expedição, parece situarem-se do lado do distrito da Guarda, embora seja discutido se a anta do Fundão (será que se reporta ao concelho homónimo?) teria ou não mamoa (op. cit., nota da p. 148). Curioso é o facto de o autor remeter para a tipologia de antelas a generalidade das referências correspondentes ao distrito de Castelo Branco, já longe dos cumes da Serra da Estrela, conforme a seguinte citação (op. cit., p. 150-151): “Antinhas. Com o nome de antinhas são conhecidas, desde Belmonte até Idanha-aVelha, algumas construções, que não sabemos classificar, por não podermos fazer delas uma perfeita ideia. São antas? São antelas? Forcejámos inutilmente por apurar se estas construções tinham um dos lados abertos. A resposta insistente é que são uma «espécie de poço». Sendo antas, falta-lhes em todas a mesa. Umas são redondas, outras quadrilongas. As redondas compõem-se de 7 ou 8 pedras, que têm de altura umas 3, outras 4 metros e mais. Estão descobertas; mas é para notar que outro nome, com que são designadas, é o de «madorras», que em muitas partes é sinónimo de mamoa. Algumas ocupam o cimo dos outeiros, como a do Torrão (Idanha-a-Velha), que fica no alto do «Cabeço dos Mouros», outras acham-se em planícies. Nomearam-nos, além da do Cabeço dos Mouros, uma em Belmonte, perto do Zêzere; três na ribeira da Meimoa; uma perto da Quinta do Orgal; uma no Arundinho, perto de Unhais; três na ladeira dos Vinte”, esta última localidade, ao que supomos, pelo nome, situada já no concelho da Guarda. Constata-se que a missão não teve oportunidade de observar directamente os monumentos da região de Castelo Branco, cuja descrição corresponde ao que conhecemos na zona, embora com alguns excessos (caso da altura dos monumentos), imprecisões (no
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 48 tampa monolítica, mas com “um verdadeiro madeiramento formado por pernadas d´arvores e ramos ou matto, sobre a qual assentaria depois a camada de terra e pedras, que com o apodrecimento da madeira, foi parar dentro da câmara deixando no alto da mamôa a depressão tão conhecida e que muitas vezes é attribuida talvez infundadamente a violação” (op. cit., p. VI). Esta opção que o autor lança para a discussão científica, foi por nós abordada há alguns anos quando constatámos, nos casos dos monumentos construídos com rochas metasedimentares que “entre os cerca de 300 monumentos inventariados no sul do distrito, nos concelhos de Vila Velha de Ródão, de Proença-a-Nova, de Castelo Branco e de Idanha-a-Nova, e ainda em Nisa, apenas se conhece uma sepultura com tampa (anta do Fateirão, Vila Velha de Ródão). Em diversos monumentos também se detectaram esteios com entalhes no topo superior que poderiam servir para encaixe de troncos destinados à sustentação de uma cobertura com as características atrás indicadas” (Henriques & Caninas, 2004:30). Antes de analisarmos a distribuição geográfica das três categorias de ocorrências arqueológicas que seleccionámos na obra de Proença Jr (estações neolíticas; antas e túmulos; machados de pedra), sobre carta hipsométrica simplificada da região de Castelo Branco (Figuras 19 e 22), importa alertar para um aspecto condicionante da avaliação daquela distribuição e respectivas quantidades. O autor não dispunha de equipamento para a goereferenciação rigorosa dos sítios e achados, como aqueles de que dispomos na actualidade. Além disso, não teria na sua posse ou não quis utilizar uma cartografia mais detalhada, nesta primeira contribuição. De facto além das posições das várias localidades abrangidas (cidade de Castelo Branco, vilas, aldeias e lugares) e do limite do distrito nada mais assinalou no mapa utilizado, excluindo, nomeadamente, a rede hidrográfica (da qual apenas figuram trechos terminais afluentes junto de rios nos limites do distrito), o relevo, a rede viária e até os limites dos concelhos. Deste modo os achados são referidos, em bloco, à povoação mais próxima e, embora não correspondem todos ao ponto cartografado, poderíamos eventualmente circunscrevê-los a uma mancha regular estabelecida em torno de cada localidade (quiçá adoptando, por exemplo, a rede de polígonos de Tyssen), admitindo que a associação a cada povoação terá resultado de um critério simples de distância (lugar mais próximo) e excluindo outros critérios como limites administrativos (freguesias). Ora a primeira impressão que temos, quanto à distribuição desta categoria, é que a maioria dos achados se concentra nas terras baixas do distrito (no chamado Campo albicastrense, principalmente no concelho de Castelo Branco, em parte do de Idanha e na
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 49 parte oriental do concelho de Vila Velha de Ródão), situadas a sul e a oriente do arco serrano constituído pelas serras de Alvélos, Gardunha e Malcata, fechadas a Sul e a Leste pela Serra das Talhadas e pelos os rios Tejo e Erges. No entanto, nas terras baixas correspondentes à parte ocidental de Ródão e aos concelhos de Proença-a-Nova, Sertã e Vila de Rei, aliás como na zona leste e sul do concelho de Idanha, os registos diminuem significativamente, aliás, em áreas onde se veio a comprovar mais tarde que o potencial arqueológico era elevado. São múltiplos os factores que podem explicar esta distribuição. Desde logo, a repartição original do povoamento pré-histórico, nas suas diferentes facetas, profanas e sagradas, não terá sido uniforme, sendo senso comum admitir que se terá feito preferencialmente nas topografias mais suaves, abaixo dos relevos acima mencionados e acima da rede hidrográfica, pelo menos nos sectores muito encaixados do rio Tejo e seus afluentes (Erges, Aravil, Ponsul, Ocreza, Zêzere, outros). Tal padrão terá sido condicionado pela diversidade geoambiental da região de Castelo Branco. Mas a evolução do povoamento ulterior e o continuado uso da terra, com maiores taxas de alteração ao nível do solo e das suas materialidades, terá provocado danos em sítios de habitat e em monumentos megalíticos (nomeadamente pela erosão das mamoas e pelo desmonte de câmaras funerárias) sobretudo nas zonas agrícolas, efeitos que foram potenciados pela mecanização moderna. É óbvio que a matriz de povoamento, a dimensão da propriedade e a natureza das actividades produtivas nela incidentes terão desempenhado um papel acelerador dessa destruição. A demografia (actual) poderá, por outro lado, explicar uma maior incidência e densidade de achados, e consequentemente maior número de informantes, de informações e de materiais colectados por Tavares de Proença, em especial os machados de pedra, mas também uma predisposição milenar para o povoamento. Além disso, devem ter funcionado outros factores de natureza relacional. Admitimos que Proença Jr, para além das propriedades da família, 51 terá tido acesso, certamente, a vastos domínios de outros latifundiários nas terras baixas da região, nos concelhos de Castelo Branco, de Idanha-a-Nova e na parte leste do concelho de Vila Velha de Ródão, que coincidem com a mancha de maior densidade de vestígios arqueológicos. Em contraponto, seria mais difícil o relacionamento com o pequeno proprietário, até porque estes seriam em muito maior número. Este factor poderá explicar a assimetria de dados 51 Proença Júnior era filho de um importante terratenente, chefe de uma facção política na monarquia constitucional.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 50 entre o leste e o oeste do concelho de Ródão, município que ocupa uma posição importante no ranking de achados. Figura 19a. Distribuição de estações neolíticas, antas e túmulos e machados de pedra, por localidades, segundo Proença Jr (1910), sua projecção sobre mapa hipsométrico (a) e sobre mapa de 1868 (b) com a delimitação de terras agricultadas (Silbert, 1978).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 51 Figura 19b. Distribuição de estações neolíticas, antas e túmulos e machadso de pedra, por localidades, segundo Proença Jr (1910), sua projecção sobre mapa hipsométrico 8 (a) e sobre mapa de 1868 (b) com a delimitação de terras agricultadas (Silbert, 1978).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 52 Figura 20a. Distribuição de antas e túmulos por localidades segundo Proença Jr (1910), sua projecção sobre mapa hipsométrico (a) e sobre mapa de 1868 8b) com a delimitação de terras agricultadas (Silbert, 1978).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 53 Figura 20b. Distribuição de antas e túmulos por localidades segundo Proença Jr (1910), sua projecção sobre mapa hipsométrico (a) e sobre mapa de 1868 (b) com a delimitação de terras agricultadas (Silbert, 1978). As manchas de achados que constam nas Figuras 19 e 20 parecem acompanhar o eixo viário principal que ligava Vila Velha de Ródão, Castelo Branco, Fundão e Covilhã, com uma derivação em direcção a Medelim. Tal facto poderá também indicar o factor distância e a qualidade das acessibilidades, como discriminando negativamente a zona mais ocidental do distrito, para onde seria mais moroso, e dispendioso, fazer pesquisas e onde a rede de conhecimento poderia ser menor, explicando desse modo a escassez dos dados. Finalmente, devemos ter presente o facto daquele investigador ter trabalhado sozinho, sem equipa, como as que hoje (ainda) podemos constituir, apoiado, é certo, numa boa rede de
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 54 informadores, pelo que, muito dificilmente poderia fazer, em oito anos, uma prospecção nos moldes actualmente praticados. O quadro de referência das antas e túmulos merece a nossa primeira atenção (Figura 20). Além da sua distribuição geral, já comentada, devemos atender aos quantitativos correspondentes a essas diferentes posições. A maior concentração corresponde ao concelho de Vila Velha de Ródão, seguindo-se os de Castelo Branco e Idanha-a-Nova. Contudo, o enquadramento administrativo não é relevante num estudo desta natureza, pelo que será mais significante atendermos à distribuição por localidades. Desse modo, o destaque vai para as localidades de Atalaia (Sarnadas), no concelho de Vila Velha de Ródão, e de Matta, no concelho de Castelo Branco, onde o autor circunscreveu, atendendo à densidade de monumentos, duas necrópoles megalíticas, com 14 e 12 monumentos respectivamente. Estes conjuntos situam-se em torno do território desnivelado pela falha de Ponsul. No restante território tais quantidades decrescem e dispersam-se significativamente para sete monumentos em Inguias (Belmonte) e seis tanto na Sobreira Formosa (Proença-aNova) como em Vila Velha de Ródão, sendo menores as quantidades reportadas a outras localidades. Neste conjunto, não é fácil estabelecer a quantidade exacta de intervenções arqueológicas empreendidas por Tavares de Proença em monumentos megalíticos, porque, além da única publicação que dedicou ao tema, a monografia relativa à escavação da anta da Urgueira (Proença Jr, 1909), e de referências muito equívocas na Archeologia do Districto de Castello Branco 52 , a documentação que foi possível consultar no arquivo do actual Museu de Francisco Tavares de Proença Júnior estará incompleta. Refira-se, aliás, a estranha ausência de cadernos de campo com os registos da escavação destes monumentos, que teriam de existir, quando avaliamos o rigor metodológico patente na publicação relativa à escavação da anta da Urgueira (Proença Jr, 1909). De qualquer modo, e se associarmos aos trabalhos de Proença Jr a escavação que Félix Alves Pereira empreendeu na denominada Anta Grande de Medelím, terão sido escavados entre uma e duas dezenas de sepulturas megalíticas nos primeiros anos do séc. XX 52 São os casos, da necrópole de Atalaia, “há a pequena distância d’esta localidade 14 ou talvez 16 antas quasi todas destruidas, algumas já exploradas por mim e ás quaes me referirei oportunamente com o desenvolvimento que merecem”, da necrópole do Ponsul, próximo da Matta, “nas duas margens do Ponsul entre esta localidade e C. Branco, existe uma necropole composta por 7 antas e 5 tumulos. Já quasi todos esses monumentos foram por mim explorados em 1904, 1905 e 1907”, ou de monumentos de Ródão, com referência a Alfrívida, “também a pequena distancia existem duas antas e dois túmulos quasi todos explorados por mim em 1904”, ou Locriz, “a pequena distancia d´este logar existem dois tumulos protohistoricos a que alludi ao tratar de Alfrivida. Encetei em 1904 a sua exploração que tive de interromper e brevemente será recomeçada” (Proença Jr, 1910).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 55 (Quadro 4 – Anexo 2). E, para além da meticulosa caracterização 53 e discussão dos resultados da escavação da anta da Urgueira, Proença Jr pouco mais nos legou de substantivo do ponto de vista do conhecimento científico sobre a região, além do espólio que recolheu e legou à posteridade. Tão curto legado deveu-se quase exclusivamente às circunstâncias políticas do seu tempo, com a mudança de regime constitucional e à sua saúde débil. Dizemos, quase, porque a causa restante dever-se-á atribuir, em nosso entender, à perda, de modo ainda inexplicado, dos seus cadernos de campo onde cremos que tenha registado as especificidades das escavações que empreendeu noutras antas e tumuli da região de Castelo Branco. A terminar, refira-se a ausência de referências a menires e a cromeleques nos trabalhos de Proença Jr, exceptuando o menir, reutilizado como estela, de São Martinho. A sua menor representatividade torna estatisticamente justificável aquela ausência. Muito curiosa é a nota acerca da ausência de antas na localidade de Orca, “apesar do que o nome parece indicar”, e admite que alguma pudesse ter existido no passado (Proença Jr, 1910: 11-12), tanto mais que ali se acharam oito machados de pedra polida. Os instrumentos de pedra polida, pré-históricos, que Tavares de Proença Júnior recolheu em avultada quantidade (“é notavel a quantidade de instrumentos de pedra polida que consegui reunir, uns partidos junto do cabo pelo uso e outros talvez em virtude de um rito notado por muitos auctores em diversos pontos da Europa…”, op. cit., pág. V), e que designa de modo abreviado como machados de pedra no quadro denominado Mappa Geral, constituem fonte de informação não negligenciável, atendendo à quantidade e padrão de distribuição (Figura 21), pese embora a sua descontextualização geral, como achados avulsos e recolhas indirectas. O autor dedica especial atenção à etnografia destes achados no capítulo denominado Folk-lore (op. cit., p. VI-VIII). Além dos machados no Mappa Geral devem considerar-se incluídos nesta categoria de achados outras tipologias de ferramentas de pedra polida, conforme a concepção elaborada no Quadro 2. Além destes achados avulsos, que têm grande destaque no inventário elaborado por Proença Jr, a Carta Archeologica integra em objectos de epocas diversas outros tipos, líticos (como facas de sílex) e metálicos. Dos 1136 machados de pedra mencionados por Proença Jr (Quadro 1) quase metade, 43% mais precisamente, corresponde a três localidades relativamente próximas entre si, que são Castelo Branco (186 peças), Alcains (179 peças) e Escalos de Baixo (120 peças). 53 Este rigor foi condicionado pela curta duração das escavações que não ultrapassam três dias por monumento.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 56 Estas três concentrações destacam-se dos quantitativos registados noutras localidades, que se lhes seguem em quantidade descrescente, nomeadamente, Ladoeiro (66 peças), Zebras (38 peças) e Oledo (37 peças), localidades situadas para nordeste das anteriores, e ocupando todas uma área central do distrito de Castelo Branco. As ocorrências nas restantes localidades são inferiores a 29 unidades, como são os casos de Perais, no sul do distrito, e Caféde, local próximo de Alcains. Estão registadas 24 peças, na Lousa e na Mata, localidades situadas a norte e a nordeste de Escalos de Baixo, na área de concentração referida. Figura 21a. Distribuição de machados de pedra por localidades segundo Proença Jr (1910), sua projecção sobre mapa hipsométrico (a) e sobre mapa de 1868 (b) com a delimitação de terras agricultadas (Silbert, 1978).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 57 Figura 21b. Distribuição de machados de pedra por localidades segundo Proença Jr (1910), sua projecção sobre mapa hipsométrico (a) e sobre mapa de 1868 (b) com a delimitação de terras agricultadas (Silbert, 1978). Uma situação insólita é o achado de sete machados de pedra na fenda de um rochedo, situado a curta distância de Mourelo, a sudoeste de São Vicente da Beira, no concelho de Castelo Branco, circunstância que o autor não comenta mas que Raquel Vilaça admite poder relacionar-se com “deposições rituais de culto e sacralização da terra” (Vilaça, 2008:42). Contudo, não tendo sido possível caracterizar as condições de jazida deste achado, bem como de outro que cita na Barroca do Castinçal (Fundão), parece-nos arriscado presumir tal ritualidade, que a autora estende aos achados avulsos de instrumentos do mesmo tipo, como modo de explicar a sua tão ampla ocorrência na região.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 64 quanto ao modo de fundação dos esteios, à presença de pavimento de barro amassado, integrando seixos, que o autor radica a 6 km de distância 59 , no rio Ponsul, a um provável desnivelamento do piso do espaço funerário, entre o corredor e a câmara, onde seria mais baixo, ou a circunstância de ter servido como cabana em época posterior, uso que ilustra com a presença de artefactos históricos; tal atenção é bem patente na seguinte passagem do texto citado (Pereira, 1933:54): “no decurso dos trabalhos de desentulho, pude observar que esses monólitos assentavam directamente sobre a piçarra de contextura lamelar do subsolo, tendo a sua base, principalmente da pedra H [o esteio-ombreira que ladeia a entrada da câmara no lado meridional, Figura 24], sido reforçada por calços de pedra introduzidos na rocha, e encobertos pela camada de barro que pavimentava o monumento. Esta circunstância indica segundo me parece, que para o equilíbrio de tais pedras era necessária a existência de um tumulus de terra, a que se encostassem. Mesmo dentro da cripta, o subsolo não foi escavado; o monumento não tinha em rigor alicerces.” É elogiável a atenção que o autor dispensa aos grafismos rupestres insculpidos na face superior da laje de cobertura da câmara, situação para a qual cita paralelos portugueses, espanhóis e franceses, neste caso assinalando a permanência da associação entre cruzes e círculos e, pela sua posição, discute como hipóteses igualmente válidas a intenção, original, de ocultar ou não ocultar estas gravações 60 . O espólio pré-histórico, recolhido tanto na câmara como no corredor e no tumulus envolvente, em resultado dos revolvimentos, e reutilizações, que o enchimento sofreu ao longo dos tempo, é diversificado, sendo compatível com um monumentos de dimensão superior, como este, incluindo indústria lítica, lascada, polida e afeiçoada, cerâmica, lisa, elementos de adorno e materiais osteológicos. A este conjunto, no qual realça a ausência de artefactos metálicos (cobre) no interior do monumento, que poderiam ter sido pilhados, e atendendo à cerâmica, o autor tende a atribuir uma cronologia calcolítica, “se for acertada a hipótese, não menos segura é a afirmação de que a falta de cobre em um megálito não é atestado suficiente para o classificar de neolítico”, mas em contraponto considera neolítica a indústria lítica (Pereira, 1933: 73). 59 Esta distância, a confirmar-se, é compatível com uma explicação contextualista para o uso daqueles materiais. 60 São “seis còvinhas ou escudelas maiores e nove menores e pouco perceptíveis [… e], cinco figuras ou sinais cruciformes, fazendo um dêstes parte de um grupo constituído por um meio-círculo gravado e um círculo menor ou anel, como se fosse um pequeno O incluso de um C, mas excentricamente.” (p. 55-56)
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 65 No ano da escavação da Anta Grande de Medelím, por ocasião da aquisição de espólio na região egitaniense, destinado ao então Museu Etnológico Português, refere a visita a uma anta situada nas margens do Aravil (Pereira, 1904: 39). Figura 24. Vista do lado oeste da Anta Grande de Medelím (Idanha-a-Nova). Fotografia tirada por Tavares de Proença (arquivo da Família Abrunhosa), in. Henriques & Caninas (2004). Planta da anta segundo Félix Alves Pereira (1933:52). Este autor publica mais tarde (Pereira, 1938) uma notícia sobre Idanha-a-Velha onde explica a raridade de vestígios pré-históricos naquela localidade, em resultado da forte presença histórica, mas assinala que “defronte de Idanha, na margem esquerda do Ponsul, me pareceu ver uma pequena elevação de terra já muito arrasada, onde talvez outrora
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 66 tivesse existido uma mamão” (op. cit., p. 189), que poderá ser a mamoa do Cabecinho da Forca referida por autores posteriores. Ainda no decurso do primeiro quartel do séc. XX, em 1917 e 1918, temos notícia do périplo efectuado por Leite de Vasconcelos por várias localidades da Beira Baixa, e outras regiões da Beira, com recolha de materiais para o Museu Etnológico. Desta lista, e no que nos interessa, dominam os achados de machados de pedra polida, de localização imprecisa, que, além de peças de museu, servirão para indicar a amplitude territorial da ocupação préhistórica da região. São referidas as seguintes aquisições a partir dos locais onde foram obtidos: Castelo Branco: 22 machados e fragmentos de outros de Alcains; Salgueiro ou Palvarinho: um machado; Alcains: três machados e dois instrumentos de pedra para fricção; Escalos de Cima: três machados, um em fibrolite; Escalos de Baixo: oito machados e dois machadinhos, um de fibrolite; Monsanto (Relva, Horta de São Pedro): um machado; Monsanto: dois machados em pedra e um machado de bronze; Orca: um machado em pedra: Covilhã: machadinho de fibrolite e um machado de bronze de canelura e argolas, achado com mais nove na margem esquerda da ribeira do Paúl, entre Ourondo e Paúl. Uma segunda notícia refere dois instrumentos de pedra, pré-históricos, um raspador e um machado, obtidos em Escalos de Baixo mas sem indicação de proveniência. É manifesta, mais uma vez, a produtividade da área de Castelo Branco e localidades situadas imediatamente a norte da cidade, como Alcains, Escalos de Cima e Escalos de Baixo, no fornecimento de instrumentos de pedra polida. 3.3. Meados do século XX (3º quartel) Em meados do séc. XX, no âmbito do que poderemos caracterizar como missão arqueológica alemã em Portugal, com destaque para Georg e Vera Leisner (Figura 25), foram iniciados estudos do megalitismo da região central de Portugal, que dariam origem a um inventário sistemático, publicado postumamente já no final do século, em língua alemã (Leisner & Kalb, 1998, Figura 26), na linha da série dedicada ao tema a nível peninsular. O volume em apreço, publicado pelo Instituto Arqueológico Alemão de Madrid, e organizado pela arqueóloga Philine Kalb, sistematiza a informação anterior, incorpora novas estruturas funerárias, resultantes de trabalhos de campo, mas também integra menires e topónimos indicativos de monumentos megalíticos. Na componente gráfica são publicadas plantas de diversos monumentos e os espólios a que tiveram acesso, por recolha directa ou disponíveis em museus e colecções privadas. Este acervo foi divulgado, antes da
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 67 sua publicação global, sob a forma de sínteses, em reuniões ou revistas científicas (Kalb, 1987, 1990). Figura 25. Georg Leisner (à esquerda), em Alapraia, em 1943 ou 44. Vera Leisner (à direita) em São Pedro do Estoril, em 1961 (in Carvalho, coord., 2011) Tomamos como referência um desses textos (Kalb, 1987), que traduz comunicação a um congresso científico, onde se sintetiza e antecipa o volume póstumo, dedicado às províncias das Beiras, Alta, Baixa e Litoral (distritos de Castelo Branco, Coimbra, Guarda, Viseu e Aveiro), do vasto corpus do megalitismo peninsular denominado Die Megalithgraber der Iberischen Halbinsel, iniciado por Georg e Vera Leisner. É referido (Kalb, 1987) que os trabalhos de campo relevantes, consistindo em “prospecções, levantamentos e algumas escavações”, estas últimas confinadas aos distritos de Guarda e Viseu, foram iniciados por V. Leisner a partir de 1964 (a investigadora faleceu em 1972), contudo é admitido que Georg Leisner efectuara trabalhos de campo no distrito de Castelo Branco, talvez antes de 1938, conforme a cartografia que legou. No que concerne à região de Castelo Branco, é realçado o deficit de informação acerca dos espólios e tipologias construtivas, de que se obtiveram apenas plantas de sete
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 68 monumentos e inventários mais completos de três, circunstâncias que limitam uma adequada caracterização deste fenómeno na região, conduzindo à afirmação de que “estamos muito mal informados acerca da sua cultura megalítica”. A maioria do espólio artefactual corresponde a achados isolados, com destaque para mais de um milhar de machados de pedra polida, recolhidos por Proença Jr, e atendendo a esta elevada quantidade, é referida a suspeita de Vera Leisner de que (parte desses achados) correspondem a sepulturas rasas, que exemplifica com a cultura de Trichterbecher do Norte da Europa. Figura 26. Distribuição geral dos monumentos megalíticos no Centro de Portugal (Kalb, 1987). A linha vermelha delimita a área de estudo (região de Castelo Branco).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 69 Algumas das especificidades assinaladas, que são extensivas aos outros distritos estudados, correspondem à ausência de tholoi, de hipogeus, de placas de xisto incisas e à raridade de achados metálicos. É realçado que os túmulos mencionados por Tavares de Proença podem corresponder (como efectivamente correspondem) a mamoas, estruturas comuns nos distritos situados a norte deste, e é destacada a ocorrência invulgar de quatro placas de xisto antropomorfas nos arredores de Idanha-a-Velha. Mas, além da sistematização já referida e da tentativa de obter exaustivamente dados de caracterização estrutural e artefactual, o principal contributo deste inventário para a geografia, ou mapeamento, do megalitismo regional, por comparação com a fase anterior (o legado de Proença Jr) consubstancia-se na centena de monumentos identificados no concelho de Proença-a-Nova (Figuras 26 e 27), devido aos trabalhos iniciados, talvez, antes desta fase, por Georg Leisner. É referido que nos seus “mapas relativos ao distrito de Castelo Branco, assinala mais de 200 monumentos megalíticos, dos quais cerca de metade se situa no concelho de Proença-a-Nova, cuja área é pequena relativamente a outros concelhos do distrito” (Kalb, 1987:98), onde também se destaca pela densidade o território do município de Vila Velha de Ródão. A partir da distribuição cartográfica, onde além de Proença-a-Nova e Vila Velha de Ródão acrescem os sítios do concelho de Idanha-a-Nova, a investigadora alemã conclui (Kalb, 1987:96) que os “monumentos megalíticos de Castelo Branco pertencem à zona megalítica alentejana, separados desta apenas pelo rio Tejo”, observando-se idêntica continuidade, territorial e cultural, com os conjuntos cacerenhos (Kalb, 1987:104). E enquanto se observa este adensamento na aproximação ao rio Tejo, por oposição, é valorizada a diminuição da sua quantidade para norte, “em direcção à Serra da Estrela”. Contudo permanece um enorme vazio nas zonas meridionais dos concelhos de Idanha-aNova e Castelo Branco, nos dois compartimentos confinantes com o trecho internacional do rio Tejo. A mesma autora discute a hipotética difusão (expansão e não origem) do megalitismo regional com a pesquisa de cobre e ouro (sendo a extracção de estanho uma consequência e não um objectivo primário), ideia que no que concerne à região de Castelo Branco, não pode ser validada com base no mapa de correlação geográfica que fornece (entre antas e jazidas de estanho), o que não significa que não seja validável a partir de outras evidências, e principalmente com base na distribuição das jazidas de ouro e, em particular, os depósitos aluvionares que estão bem representados nas partes sul (Henriques et al., 2011b) e leste da área de estudo.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 70 Destaca seguidamente alguns monumentos com mais informação disponível. A anta da Urgueira, a anta da Granja de São Pedro e a anta da Portela da Lameira são do tipo “corredor desviado do eixo da câmara”, enquanto a anta Grande de Medelím é um grande monumento de corredor com câmara poligonal. Refere o espólio, com a presença de materiais romanos na Anta Grande, e destaca os dois menires presentes na anta da Granja de São Pedro. De outros monumentos, conhecem-se plantas que indicam câmaras sem corredor e câmaras trapezoidais. Figura 27. Distribuição de monumentos megalíticos e topónimos indicativos de monumentos do mesmo tipo segundo Leisner & Kalb (2008) e sua projecção sobre mapa hipsométrico. Em relação à anta de Carapito 1 refere que Vera Leisner valorizou a associação à fase mais antiga (construção) deste grande dólmen de corredor, com pacote artefactual
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 71 considerado antigo, com a presença de micrólitos, de contas verdes e de machados de pedra e a ausência de cerâmica, a qual só ocorria em níveis superiores. Com base nestes dados Vera Leisner passou a considerar os monumentos grandes como os mais antigos, marcando o início do megalitismo. E cita como paralelo a anta Grande do Zambujeiro onde se verifica idêntica correlação, com o posicionamento de cerâmica, de pontas de seta e de placas de xisto nos níveis superiores. É muito curiosa a tentativa de recuperar a memória de monumentos megalíticos incógnitos, ou já destruídos, a partir de indícios toponímicos. No caso da região de Castelo Branco são destacados os seguintes casos: - Anta(s) (aliás, Quinta da Anta, em Belmonte, Antas, em Escalos de Cima, Castelo Branco, e no Fundão, Lomba das Antas, em Oleiros); Antinha(s) (aliás Antinha, no Ladoeiro, Idanha-a-Nova, e Antinhas, no Fundão); Cova da Moura (São Miguel d´Acha, Idanha-a-Nova); Lapa (aliás, Lapa, na Serra da Pedragueira, Castelo Branco, Lapa, Lapa das Bogas e Ribeira da Lapa, em Vila de Rei, Arraial da Lapa, Ribeiro da Lapa, em Idanha-a-Nova, Piçarra da Lapa, na Serra de Penha Garcia, Idanha-a-Nova, Quinta do Vale da Lapa, Lapa das Cachopas e Malhada da Lapa, na Covilhã); Madorro (no Fundão) e Madurrada (na Covilhã); Meimão e Meimoa (em Penamacor, e na forma Quinta da Meimoa, no Fundão); Orca (no Fundão); Pedras e palavras derivados ou compostas (aliás nas formas, Pedras, em Medelím, Pedras Ninhas e Pedra Abelheira, em Proença-a-Velha, no concelho de Idanha-a-Nova, Pedra Aguda, Pedra Alta e Pedralta, no Fundão, Pedrão, Pedra da Figueira, Pedras Brancas, Pedra da Mesa e Pedra da Albarda, na Covilhã, Pedragueira, na Serra da Pedragueira, em Castelo Branco). Curioso é o facto destes topónimos ocorrerem em zonas onde é menor, senão nula, a densidade de antas, o que pode simplesmente indicar que aí não foi feito trabalho de campo. A avaliar pela morfologia do terreno (relevos e cursos de água, nos casos de algumas lapas), e conhecendo as respectivas áreas, não nos parecem relevantes, como indicativos de monumentos megalíticos, os topónimo Lapa, e derivados - embora se conheça a sua associação a monumentos daquele tipo, noutras partes do território português 61 -, bem como boa parte dos topónimos associados à palavra Pedras, exceptuando talvez Pedralta e Pedra Alta. Alguns destas variantes, como Pedrão, associam-se a marcos divisórios (Menéndez de Luarca, 2000:51). Cova da Moura não tem associação exclusiva a monumentos deste tipo, não sendo improvável que indique uma 61 Caso do monumento denominado da Lapa de Meruje, no concelho de Vouzela (Girão, 1921).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 72 cavidade natural ou uma mina. Meimão e Meimoa são sugestivos como indicativos de estruturas monticulares, tal como os casos de Orca, Madurrada e Madorro, estas últimas com o significado de amontoado de pedras miúdas (Menéndez de Luarca, 2000:58). Anta e Antinha, tal como os respectivos plurais, isoladamente ou em nomes compostos, indicam maioritariamente monumentos megalíticos funerários, na região de Castelo Branco. Contudo, em Vila Velha de Ródão (fonte: AEAT) temos exemplos concretos de associação do nome Anta a afloramentos rochosos sem evidência arqueológica, aliás como foi notado por Domingos Cruz na região de Viseu, onde o nome Orca ou Orquinha é mais representativo da associação àquele tipo de monumentos (Cruz, 2001) 62 . Figura 28. Octávio da Veiga Ferreira (à esquerda) e D. Fernando de Almeida (ao centro) em sessão na associação dos Arqueólogos Portugueses, no final dos anos 60 (in Cardoso, 2008). A partir dos anos 50 do séc. XX, as campanhas de escavações arqueológicas em Idanhaa-Velha, promovidas por D. Fernando de Almeida, com o apoio do Centro de Estudos de Etnologia Peninsular, trouxeram para a região um investigador com interesses multifacetados e elemento fundamental na execução dos referidos trabalhos (Cardoso, 2008), Octávio da Veiga Ferreira (Figura 28). À margem dos trabalhos principais, na 62 «Na região o termo “anta” anda associado a particularidades do relevo, normalmente afloramentos imponentes, como acontece no sítio das “Antas”, na freguesia de Queiriga (Vila Nova de Paiva); próximo existem, de facto, duas construções megalíticas, em xisto; não estará nestas a origem daquela designação, mas nas duas cristas quartzíticas, assumindo a forma de penhasco, marcante no contexto geográfico local, e são estes acidentes que a população e a cartografia identificam como “Antas”» (Cruz, 2001:48-49)
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 73 antiga urbe, que se estenderam por um longo período 63 , foram efectuadas, decerto por iniciativa de O. da Veiga Ferreira, inúmeras pesquisas na região envolvente, com resultados de interesse no domínio da Pré-história, documentados em revistas científicas, em comunicações e numa carta arqueológica (Ferreira, 1978). No que interessa a este trabalho, importa referir a identificação e escavação de diversos monumentos megalíticos (Almeida & Ferreira, 1958, 1959 e 1971), a identificação e estudo de grafismos rupestres (Almeida & Ferreira, 1966) e de indústrias líticas em pedra lascada (Almeida & Ferreira, 1956ª, 1970) e o destaque concedido a um peculiar tipo de placas de xisto, antropomórficas, com vazamentos verticais, paralelos, simulando a separação entre corpo e braços, provenientes da anta dos Ferreirinhos (Alcafozes), que qualificam de “raras e muito curiosas” (Almeida & Ferreira, 1956b). Não é fácil estabelecer com segurança a lista dos monumentos megalíticos que foram escavados no âmbito das campanhas de Idanha-a-Velha. No Quadro 5 (Anexo 2) procurámos identificar esses monumentos, tomando a palavra exploração como sinónimo de escavação arqueológica e, no caso dos monumentos situados na área de influência da Barragem Marechal Carmona, deduzindo que foram escavados aqueles monumentos para os quais a respectiva descrição, publicada em 1959 (Almeida & Ferreira, 1959), inclui um item relativo ao espólio. Excluindo a escavação mais tardia da anta da Granja de São Pedro (Almeida & Ferreira, 1971), os relatos de escavação são exíguos do ponto de vista arqueográfico, quando comparados com o desenvolvimento analítico que nos foi transmitido por Proença Jr (1909) e por Félix Alves Pereira (1933) na escavação de monumentos do mesmo tipo, embora no caso da Anta Grande de Medelím houvesse matéria mais abundante para estudo. À parte este factor, podemos admitir que tais incursões, à margem dos trabalhos centrais no espaço urbano de Idanha-a-velha, não beneficiaram, por limitações inerentes àquela outra investigação, da dedicação e da continuidade de trabalho que o megalitismo regional merecia. São inequívocas as intervenções arqueológicas efectuadas nas antas dos Corgos, do Chão da Forca e da Granja de São Pedro. Nos restantes casos tal acção não é explícita e terá havido monumentos escavados cujos resultados não foram publicados, como será o caso de uma grande mamoa situada cerca de 4 km a nordeste de Monsanto, entre os sítios de Carro Quebrado, Lodeiro e Serralheira, que revelou uma câmara trapezoidal e que não 63 É referido que estes trabalhos se desdobraram em 20 campanhas (Salvado, 1988:9) ao longo mais de quinze anos (Cardoso, 2008:43).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 80 Figura 29. Distribuição acumulada de monumentos megalíticos (círculos azuis), grafismos rupestres (losangos brancos), sítios de habitat e outros (quadrado verde) e achados isolados (triângulos vermelhos), segundo base de dados Endovélico (Fonte: IGESPAR, Agosto de 2011) sobre mapa hipsométrico. O quadro dos grafismos rupestres, que não fora individualizado nas fases anteriores, ganha expressão no rio Tejo e seus afluentes, bem como nas zonas montanhosas da Cordilheira Central, entre Oleiros e a Serra da Estrela. Outro dado curioso, que deve resultar também de um direccionamento da investigação, e talvez de uma maior dinâmica económica, geradora de oportunidades de conhecimento, é a dispersão de vestígios relacionados com sítios de habitat e de outros tipos, que não os antes citados, ao longo do corredor natural, de orientação meridiana, ou eixo transumante, entre o Tejo e a parte norte da região de Castelo Branco, em direcção à passagem natural existente entre as serras da Estrela e da Malcata.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 81 A partir deste cenário, iremos percorrer, seguidamente, de modo diacrónico, os trilhos da investigação arqueológica daquelas diferentes materialidades, começando, um pouco antes do último quartel do séc. XX, com um acontecimento extraordinário, no panorama arqueológico europeu, a descoberta, iniciada a 31 de Outubro de 1971 71 , do que viria a ser denominado como complexo de arte rupestre do Tejo. A história é conhecida (Silva, 1996) e consiste na identificação fortuita dos primeiros grafismos rupestres pré-históricos, nas bancadas rochosas da margem do rio Tejo (Figura 30), em local subjacente à estação ferroviária de Fratel (Vila Velha de Ródão), por uma equipa de investigadores agregados no então GEPP (Grupo para o Estudo do Paleolítico Português) que tinham chegado à região para procurar vestígios de ocupações paleolíticas nos terraços do Tejo. A multiplicação, até à ordem dos milhares 72 , do número de grafismos identificados em sucessivos conjuntos, ou estações, reconhecidos a partir daquela descoberta, ao longo de ambas as margens do rio Tejo entre Vila Velha de Ródão e Nisa, conferiram a este complexo gráfico um lugar cimeiro na Arqueologia do espaço europeu, atendendo à sua expressão numérica, distribuição territorial, diversidade simbólica, organização gráfica e densidade. Esta descoberta foi secundada por uma operação de salvamento através do registo (por fotografia, moldagem e topografia), daquele vasto complexo gráfico, em face da sua iminente submersão pela futura albufeira de Fratel. Esta missão, desdobrada em várias campanhas, foi coordenada pelo arqueólogo Eduardo da Cunha Serrão, com o apoio financeiro, principal, da Fundação Calouste Gulbenkian, e motivou, desde logo, diversas notícias em reuniões e revistas científicas (Anati, 1975; Baptista et al., 1974; Querol, 1975; Serrão, 1974; Serrão et al, 1972a, 1972b, 1973; Soromenho, Serrão & Lemos, 1972) e também na imprensa regional e nacional (v. exemplo Caires, 1974). Com o fim da operação de salvamento, em 1973, condicionado pelo enchimento da albufeira de Fratel, a equipa foi desmobilizada. Contudo, dois dos seus activistas, António Martinho Baptista e Mário Varela Gomes, temporariamente acompanhados por Manuela Martins e Jorge Pinho Monteiro, respectivamente, mantiveram um relação duradoura com este património gráfico, retomando novas campanhas para aprofundamento de estudos que originaram sucessivas publicações, monografias (Baptista, 1981; Baptista, Martins & Serrão, 1978; Monteiro & Gomes, 1977; Gomes, 1989, 2000, entre outros estudos) e 71 A Associação de Estudos do Alto Tejo inseriu nos conteúdos da edição de 2011 (nº 4) da revista digital Açafa On-line um dossier evocativo da passagem de 40 anos sobre esta descoberta. http://www.altotejo.org/acafa/acafa_n4.html 72 Serão entre 10.000 e 20.000, segundo as opiniões, transmitidas verbalmente, de Mário Varela Gomes e de António Martinho Baptista, respectivamente.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 82 sínteses (Baptista, 1986; Gomes, 1980, 1987), e que culminaram, em 2010, com uma dissertação de doutoramento da autoria do segundo daqueles investigadores (MVG), defendida na Universidade Nova de Lisboa, integrando o mais extenso corpus da arte do Tejo até hoje elaborado, lamentavelmente ainda inédito. Figura 30. Distribuição de grafismos rupestres (losangos brancos), segundo base de dados Endovélico (Fonte: IGESPAR, Agosto de 2011) sobre mapa hipsométrico. Fora do cerne da arte do Tejo, que corresponde ao trecho daquele rio situado entre os concelhos de Vila Velha de Ródão e Nisa, foram identificados manifestações gráficas correlativas em diversos locais das margens do rio Ocreza 73 , a montante e a jusante da 73 E num seu afluente, a ribeira da Pracana, onde existe um interessante conjunto de covinhas insculpidas em afloramentos de fundo de vale (Monteiro & Gomes, 1977).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 83 albufeira da barragem Pracana, em especial no seu troço terminal, em rochas que têm permanecido emersas desde os anos 70 (ver figura em Gomes, 1987:26) até à actualidade. Na última década investigadores orientados por Luiz Oosterbeek, a partir do Centro Europeu de Investigação da Pré-História do Alto Ribatejo (CEIPHAR) e do Museu de Arte Pré-Histórica de Mação, integraram a arte do Tejo nos seus projectos, partindo das ocorrências gráficas do Baixo Ocreza (Oosterbeek, 2003), e decerto com forte impulso da descoberta da única figura paleolítica aí revelada (Baptista, 2001). Os resultados dessa missão foram projectados em reuniões científicas (ver Oosterbeek & Buco, 2008) e trabalhos académicos (por exemplo, Carvalho, 2008). O potencial arqueológico gráfico do curso do rio Tejo a montante de Ródão-Nisa, na fronteira entre Portugal e Espanha, também denominado Tejo Internacional, traduz-se numa incontornável lacuna de conhecimento, face à presença de mais uma albufeira, a de Cedillo, já estabelecida quando se deu a descoberta de Fratel. Contudo, ainda nos anos 70, foi possível comprovar a existência de grafismos pré-históricos na margem esquerda, cerca de Herrera de Alcântara 74 (ver figura em Gomes, 1987:26). Mais recentemente, foram documentados novas gravações pré-históricas noutro afluente do Tejo, o rio Erges, ao longo dos seus últimos 23 km de curso, a montante da afluência no Tejo (Baixo Erges), tanto na margem esquerda (Nobre, 2008), como na margem direita (Henriques et al, 2011). Os dados obtidos até ao presente (Henriques et al, 2011; Henriques et al, no prelo), que são ilustrativos da distribuição destes grafismos pré-históricos, sugerem uma elevada assimetria entre o acervo presente no curso principal, o rio Tejo, até onde foi possível documentar tais ocorrências, e o dos seus afluentes, em particular no Ocreza e no Erges, rios que configuram as balizas jusante e montante deste complexo gráfico. Refira-se que o papel que o Tejo Internacional pode ter desempenhado está por verificar devido à lacuna de conhecimento mencionada. Contudo, já foi admitido, como hipótese (Henriques et al, 2011:213), que a carga gráfica naquele sector possa estar ao nível do que foi documentado no alto Tejo português, tanto em termos de dimensão como de diversidade temática e complexidade compositiva 75 . 74 Aqui foram reconhecidas figuras circulares que se repercutem, por idêntica temática, na zona planáltica adjacente, em Arroyo de Los Canchitos, um afluente do rio Aurela, por sua vez afluente do Tejo, na zona de Santiago de Alcântara, sítio onde marcam presença, embora de modo não exclusivo, círculos e linhas (Bueno et al, 2006:49-53). 75 Referimo-nos aos painéis presentes no Tejo contendo inúmeras sobreposições evidenciando uma acumulação estruturada (Baptista, 1999).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 84 Tal assimetria, entre o rio Tejo e os dois afluentes melhor documentados (Ocreza e Erges) 76 , que se pode caracterizar a três níveis, seja na quantidade/densidade de grafismos por sítio ou estação 77 e por painel, seja na diversidade simbólica, seja na complexidade compositiva, potenciada por sobreposições, e seu desdobramento temporal, bem evidenciadas em diversas monografias 78 , induzem a noção de centralidade, atribuível ao curso de água principal. E sugerem, consequentemente, uma diferenciação geográfica de funções/significados, dentro de um mesmo sistema cultural. Contudo, um melhor conhecimento deste ordenamento terá de aguardar pela publicação da tese de Mário Varela Gomes (Gomes, 2010). Do contraponto entre a arte do Tejo e o seu contexto arqueológico já foi sugerida uma relação doméstica 79 , por proximidade geográfica, entre núcleos gráficos, como o de Fratel, o mais numeroso, e os habitats, caso da Charneca de Fratel (Caninas & Henriques, no prelo), sem prejuízo de se poder admitir um acesso livre aos santuários, a nível regional (Vilaça, 2000, 2008:25). Mas existe outra forte assimetria, ao nível da representação das categorias básicas de motivos, com 1,5 % de zoomorfos, 3 % de antropomorfos, 77 % de geométrico-simbólicos e 18,5 % de figuras indeterminadas (Henriques, Caninas & Gouveia, s/d), embora saibamos que não é legítimo atribuir significância absoluta a esta segmentação, tendo em conta que estes motivos se associam entre si. Contudo, este predomínio das figuras geométrico-simbólicas, e em particular do círculo 80 e formas derivados, pode corresponder ao apogeu deste complexo gráfico com um significado que nos escapa e ao qual arriscámos associar a exploração da riqueza aurífera do rio Tejo (Henriques & Caninas, comunicação). 76 Pode ser contrastada com a situação de referência em publicação em Henriques et al, no prelo. As prospecções efectuadas nos rios Ponsul e Aravil, dois afluentes na margem direita do Tejo, documentaram escassos grafismos no primeiro daqueles rios e ausência de manifestações gráficas no segundo. 77 Como estação considera-se um conjunto ou concentração de rochas gravadas, sendo as maiores Fratel (Vila Velha de Ródão), Cachão de São Simão (Nisa) e Cachão do Algarve (Vila Velha de Ródão). 78 Caso da rocha 155 de Fratel (Baptista, 1981). 79 Aspecto também salientado por investigadores espanhóis (Bueno et al, 2006) a propósito do estudo da ocupação pré-histórica do território de Santiago de Alcântara (antas, grafismos rupestres gravados e pintados) deduzindo que “los núcleos más abundantes en rocas grabadas habrían supuesto una mayor agregación pobalcional, mientras que los más pequeños, del estilo de los Canchitos, indicarían la presencia de conjuntos más reducidos.” (p. 53) E mais adiante manifestam a intenção de aprofundar a prospecção nos rios Tejo, Sever e Aurela “en la hipótesis de que tiene que existir algún conjunto más numeroso de rocas decoradas, a tenor de la cantidad de monumentos que se conoce en la actualidad.” (p. 53). Esta convergência, de maiores densidades de rochas gravadas e de monumentos megalíticos, é bem patente na margem esquerda do Tejo entre as Portas de Ródão e o rio Sever como salientámos anteriormente (Caninas & Henriques, 1985). 80 “… o que ressalta da arte tagana é uma grande homogeneidade temática, em que o círculo, como tipo dominante (talvez constitua mais de 50% da arte do Tejo), se tornará, a partir de certo momento, como que um conceito de absoluto, cujo desenho, simples e conclusivo, é como que um ideograma de qualquer representação ou de qualquer mito. O(s) seu(s) significado(s) pode(m) ter variado no tempo, perdendo-se para sempre com o desaparecimento do último dos gravadores” (Baptista, 1986:41).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 85 Para além do contraste quantitativo entre o acervo gráfico do rio Tejo e o dos seus afluentes, é possível constatar uma distinta repartição territorial das diferentes tipologias de motivos, com uma clara ausência de zoomorfos nos territórios marginais que correspondem aos rios afluentes. No rio Erges (Henriques et al., 2011:214) tais motivos estão ausentes, verificando-se um domínio de motivos esquemáticos (antropomorfos) e geométricos (formas circulares). No rio Ocreza (Henriques et al., no prelo) a realidade é idêntica, a montante da barragem da Pracana, ou seja nas zonas mais afastadas do rio Tejo, com ausência de registo de zoomorfos, que já aparecem no baixo Ocreza, a jusante da citada barragem, embora em quantidade diminuta, comparativamente com as formas circulares e as manchas de picotado, estas últimas figuras recorrentes neste rio. Esta ausência parece indicar uma diferenciação temática na distribuição ou expansão regional da tradição gráfica originada nas margens do rio Tejo, da qual também podemos encontrar registos, tardios, nas serras da Cordilheira Central que enquadram o território albicastrense 81 . A complexidade deste conjunto gráfico pode ser evidenciada, por outro lado, pelo desacordo existente entre os seus principais investigadores (Baptista, 1981; Gomes, 1987), no plano mais subjectivo da interpretação dos significados e da temporalidade da arte rupestre do Tejo. Tal desencontro pode radicar no modo, diferenciado, como aqueles investigadores analisam os conjuntos gráficos, com diferentes prevalências entre uma abordagem endótica e um comparativismo estilístico (Baptista, 1999) 82 , e desdobra-se na diferente enfatização do carácter mais pictográfico ou mais mitográfico desta arte, atribuindo-se desse modo diferente reconhecimento e representatividade às composições narrativas (cenas), mas também à figuração de armas (Gomes, 2011). Destas diferentes abordagens do problema resultam distintas periodizações, entre os dois teóricos mais consequentes: M. Varela Gomes, advogado de um longo ciclo crono-estilístico de cerca de 6000 anos, entre o Epipaleolítico e a Idade do Ferro, desdobrado em seis etapas sequenciais (Arcaica, Estilizada-estática, Estilizada-dinâmica, Meridional, Atlântica, Círculos e Linhas), e A. Martinho Baptista, adepto de um ciclo mais curto, de cerca de 3000 anos, balizado entre o Neolítico Antigo e o Bronze Antigo, segmentado numa fase pré-megalítica e duas fases megalíticas. 81 Aspecto abordado neste capítulo, mais adiante. 82 “… arqueologicamente, não devemos comparar motivos apenas por sugestões estilísticas e daí retirar conclusões precipitadas, antes devemos apoiar-nos num maior número de elementos, como as técnicas de gravação, as associações de motivos e a própria ordenação espacial das figuras, as sobreposições e estratigrafias figurativas e compará-las estatisticamente e, aqui sim, estilisticamente entre si.” (Baptista, 1999:214).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 86 Embora a uma distância superior do vale do Tejo devemos inscrever nesta realidade as figuras geométrico-simbólicas identificadas no sítio do Poço do Caldeirão (Baptista, 2004), no médio-alto Zêzere, na sua margem esquerda, onde dominam as formas circulares e ovaladas, picotadas, e um pouco para montante diversas rochas com covinhas, no Penedo da Costalta (Caninas, Henriques & Sabrosa, 2006). Mas fora deste complexo fluvial, formado pelo Tejo e seus afluentes, em fundo de vale, e em leitos de cheia, existem, na região de Castelo Branco, outras expressões gráficas dotadas de antiguidade e relevância para a nossa abordagem. Nas terras baixas (Figura 30), que ocupam a maior parte desta região, parece verificar-se um predomínio da representação de covinhas, um tema ubíquo e intemporal 83 , em rochas ao ar livre, de modo disperso e em conjuntos monótonos, raramente associadas a outros motivos (Henriques, Caninas & Chambino, 1995 84 ; Monteiro & Gomes, 1977 85 ; Santos, 2000; Vilaça, 2008: 32 e 98). Mas as covinhas também ocorrem em suportes megalíticos, como na tampa da Anta Grande de Medelím (Pereira, 1933) e em dois menires e um esteio da anta da Granja de São Pedro (Almeida & Ferreira, 1971; Cardoso, 2008), ou nas proximidades de monumentos deste tipo e de recintos líticos, como documentámos no Couto da Espanhola (Henriques, Caninas & Chambino, 1993). Também é admitida o seu papel de marcador territorial de espaços sagrados, estes ilustrados por outros grafismos rupestres, como no caso da arte do Tejo (Gomes, 1987:28). Mas admitamos que o tema tem longa diacronia e múltiplos contextos pelo que deverá considerar-se polissémico. A revelação de várias rochas com covinhas, em escavação efectuada no Monte do Frade (Penamacor), em contexto selado, proporcionou novas possibilidades de discussão do seu significado e cronologia (balizada entre o Neolítico e o Bronze Final), ao ponto da investigadora pôr em causa o carácter estritamente profano do sítio de habitat que ali fora reconhecido (Vilaça, 1997), o qual ocupa uma diminuta área cercada de covinhas. Mas, 83 Uma representação gráfica de expressão universal, considerada a primeira arte rupestre do mundo (Lorblanchet, 2009). A sua mais antiga referência pode corresponder à gruta de Daraki-Chattan, datada de há 200 mil anos. 84 Foi publicada outra versão deste trabalho, à revelia dos autores, no volume 1, do nº 0, da 2ª série da revista Materiais, editada pelo Museu Francisco Tavares de Proença Jr, em 1996, com as actas das I Jornadas de Arqueologia da Beira Interior, que ali tiveram ligar em 1991. 85 As rochas com covinhas da Ribeira da Pracana têm uma implantação incomum, em fundo de vale. Identificámos um conjunto similar na margem esquerda do rio Zêzere a jusante da Barroca (Fundão), no Penedo da Costalta (Caninas, Henriques & Sabrosa, 2006: ocorrência 13), um afloramento bem destacado na margem daquele rio tal como ocorre com o identificado na ribeira da Pracana. A generalidade dos casos que conhecemos na região ocorre no planalto, embora também nos leitos de cheia de pequenos cursos de água que rasgam a plataforma como acontece com o painel da Malaguarda (Henriques, Caninas & Chambino, 1995), próximo de Fratel (Vila Velha de Ródão). Para jusante, fora da área de estudo também ocorrem no baixo Zêzere (Cruz, Batista & Graça, 2011).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 87 como a autora refere, a apertada conexão espacial entre aqueles grafismos e a cabanaabrigo do final da Idade do Bronze não indica necessariamente contemporaneidade. Muito sugestiva acerca desta inserção espacial é a constatação da presença de covinhas junto a pinturas esquemáticas que delimitam o espaço de cerca de uma dezena de povoado calcolíticos na província de Cáceres (González Cordero, 2000:532): “esta relación simbiótica sirve para entender las cazoletas como una faceta más del arte esquemático, para delimitar su marco cronológico en el território estremeñon y explicar posibles funciones ceremoniales o sacralizadoras del espacio doméstico e incluso funerário.” Nas terras baixas conhece-se uma concentração de gravuras antropomórficas esquemáticas (Almeida & Ferreira, 1966) entre Monsanto e Idanha-a-Velha, associadas a pinturas (Penedo Gordo, Lapa da Moura e Vale de Figueira), que poderemos, talvez, enquadrar, por proximidade, com representações similares reconhecidas na margem direita do rio Erges (Henriques et al, 2011). Mais recentemente, as terras altas da Cordilheira Central têm vindo a revelar um universo gráfico extraordinário (Batata, 1998, 2006; Batata & Gaspar, 2000, 2009; Caninas et al, 2008a, 2008b; Jacinto, 2006; Ribeiro, 2006; Ribeiro et al, 2011; Santos & Baptista, 2011), dotado de um elevado número de sítios 86 , heterogéneo na simbologia e modalidades de expressão e, consequentemente, com características distintas das realidades que apresentámos anteriormente, mas com traços comuns com o vocabulário tagano. Como achado percursor refira-se a Pedra Letreira da Fonte Fria, em Góis (Nunes, 1959). Um dos temas mais transversal nesta região montanhosa é a representação de calçado e pés humanos, os podomorfos, tópico que está presente na arte do Tejo, por exemplo em Gardete (Gomes, 2004), embora de forma minoritária na globalidade do espaço tagano, e se estendem a suportes graníticos na região de Viseu (Gomes & Monteiro, 1977). Mas a diversidade simbólica 87 é também significativa neste espaço serrano, atendendo à representação polimórfica da figura humana, aos cruciformes, às covinhas e também à presença de símbolos geométricos baseados nas formas circulares e rectangulares. 86 Mais de 200 rochas gravadas acima de 700m de altitude, em diversos municípios, segundo N. Ribeiro (Ribeiro, 2006) e 150 só no concelho de Pampilhosa da Serra (Batata & Gaspar, 2009). 87 Podemos indicar como amostragem os seguintes dados resultantes do estudo de parques eólicos entre a Serra do Açor e a Serra da Estrela (Jacinto, 2006): no Parque Eólico da Serra da Alvoaça, num universo de 39 figuras, 21% são podomorfos, 13% cruciformes, 33% motivos indeterminados e os restantes 33% incluem formas circulares; no Parque Eólico das Pedras Lavradas, em 26 figuras constam 19% são podomorfos, 35% são motivos indeterminados e os restantes 46% incluem formas circulares e cruciformes; finalmente noutro conjunto de parques eólicos em 196 motivos, existem 17% de motivos geométricos, incluindo possíveis idoliformes, 15% de podomorfos e os restantes motivos não estão discriminados estatisticamente mas incluem antropomorfos, serpentiformes, zoomorfos, cruciformes, entre outros.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 88 Esse novo conjunto rupestre está só parcialmente representado na nossa área de estudo (Figuras 29 e 30), uma vez que a maioria dos sítios se posiciona fora desta, sobretudo na Serra do Açor, nomeadamente nos concelhos de Pampilhosa da Serra, de Arganil e de Seia. Para além da Cordilheira Central, as formas incisas apresentam uma larga representação no interior 88 do território continental, entre as Beiras e Trás-os-Montes, estando documentadas, por exemplo, em sítios clássicos como a Pedra Letreira de Ridevides, em Alfândega da Fé (Santos Jr, 1963), em Molelinhos, no concelho de Tondela (Cunha, 1991), no Vale da Casa, em Vila Nova de Foz Côa (Baptista, 1983), e em diversos sítios do planalto mirandês (Sanches, 1992). Existe uma idêntica panóplia e concentração de grafismos no norte da Província de Cáceres (Sevillano, 1991; Gonzalez Cordero, 2000), mais precisamente na Serra da Gata e em Las Hurdes, um território montanhoso também inserido na Cordilheira Central Ibérica. Esta convergência homóloga entre universo gráfico e ambiente serrano merece reflexão, e poderá estar relacionado com idênticas dinâmicas de ocupação humana do território. Ao invés do que se observa na arte do Tejo, onde a técnica de picotagem é preponderante, nas terras altas da Cordilheira Central as duas tradições de gravação, por picotagem e por incisão 89 /abrasão, encontram-se representadas de forma mais equilibrada. Não dispomos de dados estatisticamente representativos para estimar a presença daqueles modos de gravação. Contudo, podemos indicar como amostragem os seguintes dados resultantes do estudo de parques eólicos entre a Serra do Açor e a Serra da Estrela (Jacinto, 2006): no Parque Eólico da Serra da Alvoaça, num universo de 39 figuras, 72 % são picotados e as restantes gravadas por incisão/abrasão; no Parque Eólico das Pedras Lavradas, em 26 figuras apenas uma foi gravada por abrasão sendo as restantes por picotagem; finalmente noutro conjunto de parques eólicos onde se identificaram 196 motivos, a maioria foram gravados por picotagem embora seja admitido que exista um maior número de figuras incisas finas não detectadas. Nas cabeceiras dos rios Alva e Ceira, situadas na Cordilheira Central, Nuno Ribeiro sugere uma predominância das formas picotadas associadas a abrasão sobre as incisas 90 . Tal como no Tejo o nicho geológico destas gravações baseia-se predominantemente em rochas metasedimentares. 88 E sem representações no litoral (Baptista, 1986:52). 89 Este modo de gravar faz-se mediante desgaste por translação, como nas figuras lineares, e por rotação, como nas covinhas. Abdicamos de utilizar o conceito filiforme (Baptista, 1986:52) porque sugere uma finura que nem sequer corresponde à feição predominante destas gravações. 90 “The technique of stippling/hammering is present, associated with abrasion in 70% of the slabs. From a total of more than 200 slabs, only one – “Pedra Letreira” in Góis – has 90% of its area carved using the method of incision with a sharp object, predominantly filiform in style“ (Ribeiro, 2006: 46).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 89 A diversidade de temas e técnicas está bem representada em alguns dos principais sítios conhecidos a sul do Zêzere, no âmbito da nossa área de estudo, nomeadamente, na Lajeira, na Fonte das Rimas e na Fechadura (Batata, 1998, 2006; Batata & Gaspar, 2000), no concelho da Sertã, nas Sesmarias, no Alto do Pobral e em Fernão Porco (Caninas et al, 2004, 2005, 2008a, 2008b), em Oleiros, e na Pedra das Letras (Henriques & Caninas, 2009), em Proença-a-Nova. Os três primeiros sítios, relativamente próximos entre si, situam-se em trecho terminal do maciço de Alvélos e são conjuntos de iconografia heterogénea, num dos casos com sucessivas adições. Na Lajeira, a 830 m de altitude, foram picotados motivos que se filiam na arte do Tejo, com preponderância de formas circulares 91 , nomeadamente espirais e círculos concêntricos, ocorrendo também meandriformes, antropomorfos e covinhas (Batata, 1998: 20 e 21). Na Fonte das Rimas, a 930 m de altitude, é referida a presença de figuras picotadas idênticas às da Lajeira (Batata, 2006:137) 92 . De modo radicalmente diferente, na Fechadura, a 780 m de altitude, foram gravadas por incisão (Batata, 1998:18 e 19) sequências de segmentos lineares, figuras geométricas, formas vulvares, escaleriformes, pentalfas e diversas inscrições pré-latinas e latinas (Batata, 2006:57-58). O investigador mencionado (Batata, 2006:57) realça o facto dos conjuntos gráficos da Lajeira, da Fonte das Rimas, da Fechadura, e ainda da Pedra das Letras, estarem junto de nascentes, de linhas de águas e de vias (antigas). Alguns dos sítios conhecidos para noroeste, no concelho de Oleiros, situam-se em locais elevados da Serra do Cabeço Rainha ou Serra de Alvélos (Alto do Pobral e Fernão Porco), da Serra Vermelha (Sesmarias, Mosteiros) e da Serra da Gardunha (Zibreiro) e são tematicamente muito homogéneos. A sul do conjunto citado, nas terras baixas, existe outro painel gravado (Pedra das Letras) nas cabeceiras de uma impressiva linha de água, a ribeira do Mesão Frio. Exceptuando os painéis identificados nas Sesmarias e na Pedra das Letras, as restantes ocorrências contém reduzido número de grafismos. Os dois painéis documentados 93 no sítio das Sesmarias (Caninas et al., 2005, 2008a, 2008b) situam-se em local sobranceiro à vila de Oleiros, em lomba adjacente à encosta sudeste da Serra Vermelha (ou Serra da Rasa). A rocha 1 contém quase uma trintena de pés calçados (podomorfos), por vezes associados aos pares, em alguns casos com pares de 91 Informação pessoal do arqueólogo Carlos Batata. 92 Nesta mesma área, num topo da Serra do Cabeço Rainha, a 890m de altitude, em 2005 foi identificada (J. Caninas, A. Sabrosa e L. Carvalho) uma espiral isolada, no decurso de acompanhamento arqueológico da construção do parque eólico de Fundeiro. 93 A este conjunto deve associar-se um terceiro painel ainda não documentado.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 96 rectilínea, furadores, discos, bigornas, contas de colar, etc), abundância de cerâmica (taças, tigelas, esféricos, fundos planos, decorações penteadas, unguliformes, incisões, pastilhas repuxadas, etc, pesos de tear rectangulares com quatro furos) mas ausência de artefactos metálicos. Foi obtida uma data de C 14 que calibrada para 2 sigma aponta para a primeira metade do 3º milénio AC. No caso do povoamento documentado na Charneca de Fratel (Soares, 1988) a autora releva a continuidade entre o Neolítico Final e o Calcolítico, período a que corresponde muralha de embasamento de xisto com alteamento em adobe e com entrada protegida por bastião semi-circular. No Monte do Trigo, pico rochoso bem destacado na paisagem foi documentada uma presença calcolítica, de pequena dimensão, com dois momentos, um anterior e outro coevo de uma muralha, sobre a qual se instalou grupo humano no Bronze Final. O espólio cerâmico identificado, em escavação, maioritariamente liso, com afinidades culturais tanto meridionais como setentrionais, inclui prato de bordo almendrado, taça de bordo espessado, pesos de tear em crescente e paralelepipédicos. As peças decoradas (incisa, impressa e penteada) integram unguliformes, pontilhados, penteados, e temática campaniforme. A indústria lítica, em pedra lascada, mais reduzida, integra, lascas, restos de talhe, raspadeira sobre lâmina, pequena ponta de seta de base côncava. As duas datas de C 14 , correspondentes a um momento anterior e um momento coevo da muralha, calibradas para 2 sigma, oferecem elevado desvio padrão, apontando para lapso de tempo entre a segunda metade do 4º milénio e a primeira metade do 3º milénio AC. A cerâmica campaniforme circunscreve-se a escassos fragmentos com decoração de estilo marítimovariante internacional. Ao nível dos sítios de habitat abordados, com base nos conjunto cerâmicos recolhidos em escavação, a autora aponta uma aparente diferenciação regional de tipologias ao longo da Beira Interior com maior incidência de cerâmicas penteadas, incisas e impressas, a norte 98 , e recipientes de bordo espessado (taças) e bordo almendrado (pratos), a sul, vinculados ao Calcolítico do Sudoeste, mas que também ocorrem em sepulturas (anta do Farranhão e mamoa da Charneca das Canas, a par de cerâmicas penteadas, Silva, 1991). A autora sugere a existência de dois fácies calcolíticos coevos “de significado meramente arqueológico” (Vilaça, 1997a:11) e chama a atenção para a existência de apenas oito datas 98 A autora aborda uma área mais vasta que vincula ao espaço denominado Beira Interior e onde se incluem, diversos sítios do distrito da Guarda, nomeadamente Carvalheiras, Sabugal e Santa Bárbara. Sobre o tema existem trabalhos de outros autores (Perestrelo & Osório, 2005; Robalo & Osório, 2006).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 97 radiocarbónicas, algumas das quais com desvios padrão elevados, insuficientes para sustentar um faseamento cronológico entre o Neolítico final e o Calcolítico. Contudo, além da séries cerâmicas, a indústria lítica, sobretudo de pedra polida e de pedra afeiçoada, indicam uma mudança na direcção de comunidades mais sedentárias, de economia agro-pastoril, evolução também evidenciada na arte do Tejo, pela representação de bucrâneos e de figuras oculadas, e na presença de matérias-primas exógenas, significando trocas de longa distância. Mas “permanece, contudo, um profundo silêncio respeitante ao quando, de que forma e por que meios estas comunidades começaram a manipular e a produzir os primeiros artefactos metálicos”, tanto mais que nos povoados referidos estão ausentes vestígios de prática metalúrgica (moldes, cadinhos e pingos de fundição). A presença de materiais vinculados ao horizonte campaniforme ainda é episódica e dispersa por diferentes tipos de sítios (habitat, antas, achados isolados ou sem contexto conhecido/descontextualizados). Quanto às cerâmicas a presença é muito escassa, ocorrendo, no Monte do Trigo e na anta 5 do Amieiro (fragmento de cerâmica pseudoexcisa). São ainda referenciáveis dois braçais de arqueiro (anta 2 do Couto da Espanhola e Monte do Frade, em contexto de Bronze final). Os artefactos metálicos vinculáveis ao Calcolítico e eventualmente ao Bronze Antigo são mais numerosos, conforme tabela anexa (Quadro 7 – Anexo 2). No caso dos povoados do Fundão não foi determinado se as pontas de tipo Palmela correspondem a um substrato ocupacional mais antigo. Segundo a autora (Vilaça, 2008a: 63) “parece evidente que a partir da segunda metade do III milénio AC as comunidades da Beira Interior manipularam determinados bens de elevado valor sócio-simbólico supra-regional, como a cerâmica campaniforme e artefactos metálicos, que deverão expressar a existência de conexões com outras regiões, concretamente o estuário do Tejo e a Extremadura, com as quais manteriam contactos através da via natural de comunicação polarizada no Tejo.” Contrariando as expectativas sustentadas pelo senso comum foram identificados artefactos líticos pré-históricos (Cardoso & Gonzalez, 2002) a altitude elevada na parte central da serra da Estrela, junto à actual barragem de Vale de Rossim (Gouveia), a cerca de 1400 m de altitude. Os autores descrevem um machado, atribuível tipologicamente ao Neolítico Final, um fragmento de um outro machado, tipologicamente calcolítico, e um dormente de mó manual, e referem a presença no local de “possíveis sepulturas cistóides de pequenas
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 98 dimensões, postas a descoberto na época estival, quando o nível das águas na albufeira é muito baixo”, talvez no limite de uma antiga turfeira. Segundo os autores a ocupação, qualquer que seja a sua natureza (habitat temporário ou funerária) corresponderia a uma presença sazonal. Na hipótese de tais materiais indicarem actividade de subsistência, esta presença, se justificada com a criação de pastagens por corte e queimada, estaria em concordância com estudos polínicos conhecidos 99 que indicam ter ocorrido uma degradação da vegetação naquela área nessa época. O conhecimento acerca da funcionalidade desta interessantíssima ocorrência carece de aprofundamento. A assimetria na distribuição de sítios pré-históricos na região de Castelo Branco é maior no caso (Figura 32) das construções funerárias (antas, mamoas, tumuli) e de outros monumentos rituais (menires e estelas). Neste caso podemos afirmar, com conhecimento de causa, que tal assimetria é uma consequência directa de um maior investimento em prospecções, desde há mais de 30 anos (Henriques, Caninas & Cardoso, 1999), na zona meridional desta região, onde se observa a maior densidade de ocorrências, mais precisamente no concelho de Vila Velha de Ródão e no sul do concelho de Idanha-a-Nova. Esses trabalhos têm sido promovidos pela Associação de Estudos do Alto Tejo no quadro de projectos de investigação homologados pelos sucessivos instituto com tutela sobre o património arqueológico. Descobertas mais recentes, ainda não contempladas no inventário que utilizámos, em particular no concelho de Oleiros, têm resultado da minimização de impactes de projectos públicos e privados, no quadro da legislação sobre avaliação de impacte ambiental de projectos. Sobre o tema têm sido publicados trabalhos sobre monumentos específicos, como são os casos da anta da Capa Rota 100 (Leitão, 1978) e da republicação dos materiais da anta da Urgueira (Batista, 1983), ou sobre pequenos conjuntos regionais (NRIA, 1972; Sousa, 1991) 101 . Outras publicações referentes a inventários municipais, de âmbito temático mais alargado, referem antas desaparecidas ou a sua ausência (Batata & Gaspar, 2000a) 102 . 99 Trabalhos de Knapp & Van Leewen (1994) e de Van Den Brink & Janssen (1985). 100 O autor refere a uma câmara poligonal, reduzida a três esteios, de granito, contíguos, no lado Norte, com vestígios de corredor, de cerca de 4m de comprimento, e mamoa. Na câmara recolheu duas enxós em anfibolito, uma ponta de seta em sílex (secção triangular, base convexa, talhe unifacial) e dois fragmentos de placa de xisto (um com perfuração, ou outro com duas figuras triangulares preenchidas). No enquadramento refere a existência de outras três antas, no Lombardo, no Pinhal da Rebouça, frente à Pedra da Gralheira, e a Pedra da Gralheira, um afloramento com covinhas. 101 A autora descreve quatro mamoas inéditas e fornece novos dados acerca de três outras anteriormente publicadas (Almeida & Ferreira, 1958): Sapateiras (1); Matafome (2); Viveiros II (3); Viveiros I (4); Cafede I (5); Cafede III (6); Cafede II (7). Viveiros I e II é um conjunto de duas mamoas situadas em pequeno relevo inserido em peneplanície, muito destruídas por plantio de eucaliptos. Caféde I, II e III são três mamoas situadas em vasta peneplanície, com diâmetros de 10 m, 17 m, e 25 m, destruídas por plantação de eucaliptos.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 99 Figura 32. Distribuição de estruturas funerárias (antas, mamoas, tumuli) e ainda menires e estelas (bolas azuis), segundo base de dados Endovélico (Fonte: IGESPAR, Agosto de 2011) sobre mapa hipsométrico. Foi recolhido espólio diversificado em diversos momentos incluindo instrumentos de pedra polida e lâminas de sílex. Em Caféde II a autora observou 15 dos 33 instrumentos de pedra polida ali achados, com apenas uma enxó, todos apenas com polimento no gume, de secções rectangular, quadrangular e trapezoidal. O espólio referido pelos primeiros autores e pela segunda inclui diversos exemplares de mó manuais e cinco esferóides, em granito, quartzito e quartzo, hipoteticamente, dois moventes, um afiador, um percutor e um polidor. A mamoa de Matafome, destruída, forneceu cinco machados e duas enxós, de secção predominantemente sub-rectangular, quatro pontas de seta, de bases triangular e convexa, uma lâmina sílex retocada e fragmentos de duas outras e um fragmento de cerâmica de fundo aplanado. A mamoa de Sapateiras, com 16 m de diâmetro, estando intacta não forneceu espólio conhecido nem se evidencia a estrutura funerária. 102 Os autores referem que o início da exploração da riqueza aurífera desta região, evidenciada pelos amontoados de detritos grosseiros, popularmente denominados conheiras, podem ter começado no Calcolítico (p.17) e admitem (p. 13) que as antas e os povoados calcolíticos, conhecidos na envolvente exterior a este município, estarão relacionados com a exploração de recursos metálicos mais do que com a actividade agro-pecuária.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 100 A carta arqueológica da Sertã (Batata, 1998) 103 refere a ausência de vestígios das quatro antas citadas por Proença Jr (1910) no início do século XX, talvez por destruição, em consequência da construção de vivendas, no sítio denominado Abegoaria, num cabeço a 250 m de altitude. Um contributo para a carta arqueológica de Penamacor (Santos, 1982) limita-se a citar, sem documentar, as sete antas anteriormente referidas por Proença Jr (1910). Numa outra contribuição, para a carta arqueológica de Belmonte (Marques, 2000), procede-se de igual modo citando também sete antas mencionadas por Proença Jr (1910) junto à ribeira das Antras, já muito destruídas no início do séc. XX. Contudo, é identificada ums sepultura com câmara, corredor e mamoa, na Quinta da Anta. Finalmente a carta arqueológica de Idanha-a-Velha (Batista, 1998) localiza uma sepultura megalítica no Cabecinho da Forca ou Chão da Forca (Almeida & Ferreira, 1958). Noutros inventários arqueológicos, publicados nesta fase, referentes aos concelhos de Vila Velha de Ródão (Henriques & Caninas, 1980, 1986; Henriques, Caninas & Chambino, 2008), de Castelo Branco (Henriques, Caninas & Chambino, 1995) e de Idanha-a-Nova (Henriques, Caninas & Chambino, 1993), são abundantes os registos de campo referentes a sepulturas pré-históricas, com tradução muito expressiva na cartografia apresentada (Figura 32). No final dos anos 90, do séc. XX, vinte sepulturas pré-históricas situadas nos concelhos de Vila Velha de Ródão, de Castelo Branco 104 e de Idanha-a-Nova 105 foram abordadas, do ponto de vista arqueoastronómico (Hoskin & Henriques, 1998), quanto à orientação dos respectivos corredores. As orientações são muito consistentes, atendendo à dispersão territorial dos monumentos, ocorrendo apenas três excepções ao espectro de orientação dos corredores entre 88º e 114º (sunrise). Samarrudo 2, com 143º, é considerada uma excepção já que a Silveirinha, com 130º, se aproxima, a sul, do nascimento do sol em pleno inverno (midwinter sunrise). Mas neste conjunto, de algumas centenas de sepulturas, importa perceber quantas foram objecto de estudos mais detalhados e onde se situam. O Quadro 8 (Anexo 2) indica que no período em apreço foram executadas escavações arqueológicas em 17 sepulturas, repartidas pelos concelhos de Idanha-a-Nova, de Vila Velha de Ródão e de Oleiros. A 103 Coevos das arquitecturas funerárias desaparecidas o autor refere achados isolados, de um fragmento de vaso calcolítico, em Cabril, de um machado de pedra, na Portela do Outeiro da Lagoa e de uma enxó em monte sobranceiro à povoação de Pedrógão Pequeno, onde poderia ter existido uma anta. Perto de Chão de Mil, refere ter encontrado uma lâmina em sílex, cerâmica e restos de talhe também em sílex, hipoteticamente calcolíticos. 104 Santo Amaro 1 e 2, Casa da Moura, Cabeço de Anta, Vale das Cobras e Silveirinha. 105 Amieiro, 2, 3 e 8, Couto da Espanhola 2 e 6, Zambujo 1, 2 e 3, Tapada da Ordem 1 e 2, Samarrudo 1 e 2, Cubeiras 2 e Mesas.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 101 maioria dos trabalhos teve enquadramento em projectos de investigação liderados pela Associação de Estudos do Alto Tejo ou promovidos por esta (Charneca das Canas). Mas, mais recentemente, esse tipo de trabalhos resultou da minimização de impactes de projectos públicos, caso de um regadio (cairn de Eira da Vinha), e de projectos privados, caso do parque eólico do Pinhal Interior do Grupo GENERG (tumuli de Vale de Mós, Selada do Cavalo e Feiteiras). Esta amostra é reduzida para compreender o desenvolvimento do fenómeno funerário à escala regional. Contudo, dispomos de uma proposta de faseamento do megalitismo funerário, formulada a partir do estudo de dez sepulturas 106 , concentradas num sector específico da área de estudo, no sul do concelho de Idanha-a-Nova. Trata-se da área de Rosmaninhal onde foi cartografada a maior densidade de estruturas funerárias conhecidas na região (Henriques, Caninas & Chambino, 1993). Esta proposta evolutiva, balizada entre o 5º e o 3º milénios AC, baseou-se na variabilidade da combinação das arquitecturas dos monumentos e dos artefactos neles encerrados, não se dispondo, contudo, de datas absolutas. São cinco as fases propostas: “Fase 1 - câmaras simples, fechadas, proto-megalíticas, desprovidas de espólio ou com espólio arcaico, do 5º milénio AC; Fase 2 - câmara simples, com planta em ferradura, abertas mas desprovidas de corredor, com espólio dos finais do 4º ou inícios do 3º milénio AC; Fase 3 - dólmens com câmara e corredor bem diferenciados, de dimensões muito variáveis, contemporâneos dos anteriores; Fase 4 - dólmens com cobertura em falsa cúpula, de grandes dimensões, do 3º milénio AC; Fase 5 - pequenas cistas trapezoidais, da 2ª metade do 3º milénio AC. (Calcolítico campaniforme).” (Cardoso, Caninas & Henriques, 2003) Segundo os autores a fase mais antiga da arquitectura funerária desta zona, atribuível ao Neolítico Antigo, está singularmente evidenciada num primeiro momento de construção/utilização da anta do Couto da Espanhola 6, que foi reestruturada mais tarde, consistindo numa câmara simples, elipsoidal, a que estaria associado um espólio considerado arcaico, com geométricos, lâminas e lamelas não retocadas e machados, mas sem pontas de seta, placas de xisto gravadas e cerâmica. As fases seguintes, 2, 3 e 4, podem ser analisadas em conjunto, pela proximidade cronológica (final do 4º milénio e 3º milénio), e, segundo os autores, evidenciam um desenvolvimento polimórfico das construções funerárias, que abrange a maioria dos 106 Os monumentos em apreço são: Amieiro 1, 2, 3, 5, 8 e 9, Cabeço da Forca, Couto da Espanhola 2 e 6, Poço do Chibo 1.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 102 monumentos investigados, e uma maior diversidade de espólios, já com a presença de pontas de seta, de vários tipos, placas de xisto gravadas e cerâmica. A fase 5, tal como a fase 1 107 , está documentada de modo singular (Amieiro 5b) numa cista trapezoidal, com escasso espólio, considerado campaniforme, a qual foi construída sobre uma mamoa préexistente (Amieiro 5a). ´ Além do caso da cista do Amieiro 5b, a frequência posterior destas necrópoles, ou reutilização para prática funerária, parece estar documentada com a presença de ponta de Palmela na câmara da anta do Amieiro 3, e de materiais da Idade do Bronze em níveis superiores das câmaras das antas do Couto da Espanhola 2 e Amieiro 2. Futuras investigações poderão vir a documentar uma sexta fase, ainda não definida, mais tardia, associada a tumuli baixos com cistas quadrangulares no seu interior, tal como observámos nesta região do sudeste beirão. Embora em menor número são citados diversos menires na região de Castelo Branco, não atingindo a expressão que têm no Alentejo ou mesmo no Norte Alentejano (Oliveira & Oliveira, 2000). Os exemplares mais expressivos, na forma e nas dimensões, correspondem, segundo julgamos, a peças reutilizados como estelas, gravadas com simbologia atribuída ao Bronze Médio, caso do monumento de Donas (Banha, Mota Veiga & Ferro, 2009), no Fundão, e ao Bronze Final (Vilaça, Santos & Marques, 2004), no caso do Monte de São Martinho, em Castelo Branco. Em linha com estas representações, embora sendo mais antiga (Bronze Antigo), deve referir-se a descoberta em Zebros, no concelho de Idanha-a-Nova, de um raro exemplar de uma pequena estela antropomórfica, gravada com uma face humana, diademada e com colares (Cardoso, 2011a, 2011b). Outra situação, atípica, e singular, mas com analogias noutras partes do território português, é a reutilização de um grande dormente de mó manual, em Cegonhas (Cardoso et al., 1995), no concelho de Idanha-a-Nova. Mais próxima de padrões conhecidos é a presença de dois menires, gravados com covinhas, no tumulus da anta da Granja de São Pedro (Almeida & Ferreira, 1971), que fica no mesmo concelho. A articulação das necrópoles pré-históricas, com o habitat e os locais com marcas gráficas tem sido abordada em algumas áreas específicas, onde esses três segmentos mantém grande expressividade, com foi anteriormente referido, nomeadamente nas áreas de Ródão e de Nisa (Caninas & Henriques, 1985; Caninas, Henriques & Gouveia, 2004; Caninas & Henriques, no prelo). No vale do rio Ponsul, a organização na paisagem de um 107 Poderá discutir-se a representatividade destas fases.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 103 conjunto de cinco sepulturas e de uma rocha com covinhas, próximas entre si, também mereceu uma abordagem na óptica contextualista (Santos, 2000). Nesta etapa, ou seja, desde o último quartel do séc. XX até ao presente, tiveram lugar na região de Castelo Branco diversas reuniões científicas e foi editado o catálogo (Ferreira, coord., 2004) de uma exposição evocativa de Francisco Tavares de Proença Júnior, acções através das quais se tornaram públicos dados e materiais arqueológicos com relevância para o desenvolvimento do tema em apreço. A terminar, consideramos pertinente referir, embora de forma abreviada, alguns dos trabalhos de investigação em Pré-História Recente que têm vindo a ser realizados nas regiões envolventes à de Castelo Branco, que deverão merecer uma apreciação aprofundada em futura contextualização dos dados aqui obtidos. A norte, nos concelhos da Guarda e Sabugal, têm vindo a ser revelados novos sítios, aparentemente de tipo residencial, de cronologia calcolítica (ver por exemplo: Perestrelo & Osório, 2005; Robalo & Osório, 2006; Vilaça, 2008a, 2008b), com elevada frequência de cerâmicas decoradas. A noroeste da área de estudo, em plena Cordilheira Central, e em especial no concelho de Pampilhosa da Serra, merece destaque a descoberta de elevado número de tumuli, construídos quase exclusivamente em quartzo leitoso (Batata & Gaspar, 2009a), e os trabalhos efectuados em alguns destes monumentos (Batata & Gaspar, 2009b; Batata & Gaspar, 2011), que indicam cronologias entre o Calcolítico e a Idade do Bronze. A sudoeste da área de estudo, no enclave limitado entre o rio Tejo e o Baixo Zêzere, entre os actuais concelhos de Mação e Abrantes, refiram-se as várias linhas de investigação lideradas, a partir do Instituto Politécnico de Tomar, por Luiz Oosterbeek e Ana Rosa Cruz. Entre os diversos trabalhos que poderiam ser citados, e em grande parte publicados na revista Arkeos, refira-se recente número dedicado à Pré-história Recente no Vale do Baixo Zêzere (Cruz, 2011) e trabalhos antecedentes (Cruz, Batista & Graça, 2011; Batista & Gaspar, 2007). No Norte Alentejano, região que confina a sul com a área de estudo, Jorge de Oliveira tem liderado, a partir da Universidade de Évora, uma duradoura linha de investigação do megalitismo funerário e não funerário (ver por exemplo: Oliveira, 1997, 2000, 2004, 2006; Oliveira & Oliveira, 2000) e, mais recentemente, tem contribuído para alargar o conhecimento acerca da arte pintada pré-histórica na serra de São Mamede (Oliveira & Oliveira, 2008).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 104 Finalmente, a sul e a sudeste, já na província de Cáceres, e em especial em diversos municípios alcantarinos, Primitiva Bueno Ramírez, Rodrigo de Balbín Berhman, da Universidade de Alcalá de Henares, e colaboradores, têm pesquisado esta região, persistentemente e, a partir do estudo do megalitismo, têm contribuído com novas perspectivas acerca do significado das representações gráficas na organização do território pré-histórico (ver por exemplo: Bueno et al., 2006; Bueno-Ramírez; Balbín-Behrmann & Barroso-Bermejo, 2004, 2011; Bueno-Ramírez, Barroso-Bermejo & Balbín-Behrmann, 2008; Bueno, Cerrillo & Gonzalez, 2011).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 105 4. Abordagem arqueográfica das construções funerárias numa zona seleccionada: a área de Ródão 4.1. Introdução A área de Ródão, que corresponde ao concelho 108 com o mesmo nome (Figura 33), situado no sul da região de Castelo Branco, é caracterizada por um numeroso e diversificado acervo arqueológico, talvez beneficiando de uma posição geográfica de charneira entre o rio Tejo e a já mencionada rota continental de orientação meridiana, ligando a Meseta Norte-ocidental ao sul do actual território português. A densidade de humanização que este património ilustra garante-nos, a priori, massa crítica potencial para um melhor conhecimento da ocupação antiga deste território e talvez para a compreensão das práticas funerárias na área seleccionada. Figura 33. Localização da área, e concelho, de Ródão na região de Castelo Branco. 108 Tem 330 km 2 de superfície.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 112 perdido a mamoa; no caso das mamoas a subestrutura monticular encontra-se melhor conservada e a subestrutura ortostática ou não se observa ou desapareceu. A primeira a ser investigada foi a anta da Urgueira (Proença Jr, 1909; nº 46 na Figura 34 e no Anexo 3), já recorrentemente referida neste texto, uma sepultura com câmara e corredor diferenciados, muito degradada, e que conservava um espólio, talvez residual, pouco diversificado, composto por quatro recipientes cerâmicos, encontrados na câmara, e três instrumentos de pedra polida, retirados do corredor por aquele investigador. Teria uma mamoa constituída por quartzo leitoso e quartzito, muito diluída pela lavoura, à data daqueles trabalhos (ver Figura 23). Parece-nos arriscado fazer uma avaliação cronológico-cultural deste monumento com base no espólio disponível que, de modo prudente, devemos admitir estar incompleto. Contudo, é de relevar a ausência de instrumentos em pedra lascada, mas tal poderá deverse à degradação antiga do monumento, e sobretudo da sua mamoa, e à ausência de escavação arqueológica do exterior do monumento, onde talvez se pudessem ter recuperado outros artefactos, nomeadamente peças líticas de menores dimensões, como geométricos, para aí lançadas por sucessivas violações do enchimento da sepultura. Em 1983 e 1985 foram executadas sondagens no sítio do Farranhão (nº 16 na Figura 34 e no Anexo 3, onde antes existira uma anta, tendo esses trabalhos sido motivados pelo espólio ali recolhido antes e depois da destruição. Tratava-se de uma sepultura de arquitectura evoluída, com câmara equiparável ao modelo de formato poligonal de tendência trapezoidal 118 , referido pelos Leisner em Reguengos de Monsaraz (Leisner & Leisner, 1951), e corredor bem diferenciados. A mamoa estava muito diluída pela lavoura e, a avaliar pela densa mancha de quartzo leitoso que se distribuía em torno da sepultura, seria constituída por aquele material. Este monumento fora observado por J. Caninas antes da sua destruição, não tendo ficado nenhum registo fotográfico mas apenas um croquis da planta. Estes trabalhos permanecem inéditos mas permitaram reunir um espólio diversificado com lâminas e lamelas, pontas de seta, geométricos, uma alabarda, instrumentos de pedra polida, contas em matéria verde e cerâmica, incluindo prato de bordo almendrado. Modelos similares de Reguengos de Monsaraz, casos de Gorginos 1 e Monte Novo 1, também forneceram espólio diversificado, incluindo pratos, materiais que no conjunto foram tipologicamente enquadrados pelos autores (Leisner & Leisner, 1951) tanto no Neolítico como no Calcolítico. 118 Modelo ali associado a grandes antas, mas tenha em atenção que em Reguengos estes monumentos são construídos com esteios de granito.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 113 No início da década seguinte, por insistência do Núcleo Regional de Investigação Arqueológica, perante a iminência de uma destruição, foi escavada (Silva, 1991) uma mamoa situada no bordo de uma mesa detrítica da Formação de Falagueira, em Fratel, na Charneca das Canas ou Charneca do Sobreiro-da-cor-da-Terra (nº 10 na Figura 34 e no Anexo 3). Tratava-se de uma ocorrência com características distintas das anteriores tanto na arquitectura como na posição topográfica. Esta escavação revelou uma construção monticular relativamente bem conservada, com núcleo de sedimento areno-argiloso de origem local e outras subestruturas (couraça lítica superficial, contenção lítica periférica, anel lítico de envolvimento do contentor funerário). Porém, a caracterização da subestrutura ostostática central ficou indeterminada, reduzida que estava a um pequeno esteio e fragmentos de outros, de rocha metassedimentar, devido a violação e saque, na opinião do escavador e sem evidência de ter possuido corredor. Estes trabalhos permitiram recuperar um exuberante e numeroso espólio lítico, dominado por lâminas longas e pontas de seta de base côncava, e espólio cerâmico, que poderemos colocar, numa avaliação estritamente tipológica, em momento ou momentos do 3º milénio AC. Este acervo deveu-se ao facto da intervenção ter consignado decapagens extensivas da superfície da mamoa, procedimento que, tal como no caso seguinte, permitiu recolher parte significativa do espólio referido. Cerca de uma década mais tarde (Caninas, Henriques & Cardoso, 2009 e 2011) foi escavada, também de modo parcial, outra mamoa com características e posição topográfica semelhante à anteriormente referida, estando situada numa outra mesa detrítica, a norte da anterior, denominada Charneca das Vinhas ou Charneca dos Pequenos de Vilar de Boi (nº 11 na Figura 34 e no Anexo 3). Os resultados foram estruturalmente idênticos, consistindo em mamoa bem conservada, composta essencialmente por material areno-argiloso, e sem estrutura ortostática central conservada, e o pacote artefactual, tanto lítico como cerâmico, era muito semelhante ao da Charneca das Canas, igualmente numeroso, e foi também recuperado sobre a mamoa e no exterior desta. Contudo, neste caso foi possível encontrar ainda um grande esteio tombado no interior da cavidade que corresponderia ao contentor funerário e aventar a hipótese deste monumento ter tido além da câmara um acesso por corredor. Atendendo às características acima indicadas, estes dois monumentos podem indicar uma mesma fase cultural, do processo funerário pré-histórico, com uma aproximação da necrópole em direcção aos bordos das mesas habitat. Em termos de intercâmbio local é de
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 114 realçar a presença nesta segunda mamoa de uma placa gravada em xisto, que se encaixa em modelo isolado em várias sepulturas do nordeste alentejano (Caninas & Henriques, 1994). A última intervenção conhecida (Santos & Figueira, 2011), na Eira da Vinha (nº 14 na Figura 34 e no Anexo 3), beneficiou do contexto de obra que impôs a execução de uma escavação integral. Este quinto monumento é distinto dos anteriores, tanto na arquitectura, como no espólio arqueológico que continha e na posição topográfica, reforçando deste modo a diversidade das construções funerárias desta área. Trata-se de uma pequena mamoa / cairn, integralmente construída em quartzo leitoso, com contentor materializado por vazio central, de planta elíptica, onde tal como nas duas mamoas referidas anteriormente não se conservava a estrutura ortostática de contenção do espaço funerário, embora restando uma laje de xisto no seu interior. O espólio é escasso, talvez em consonância com a singularidade que se admite para o enterramento, com dois machados, uma enxó, um geométrico e fragmentos cerâmicos dispersos sobre o tumulus além de elementos de moagem. Repete-se o talvez consagrado conjunto machado + enxó, identificadador de uma deposição, tal como observado em pequenas câmaras sem corredor do Alentejo Central (Leisner, 1983: 11), e reafirmado por V. Gonçalves (1992: 98) como sendo "talvez um dos aspectos mais importantes do ritual” funerário, também observado noutro tipo de monumentos, como Poço da Gateira 1, em Reguengos de Monsaraz. Mas outro aspecto de grande relevância, que nos é transmitido por este estudo, é a situação daquela sepultura no leito de cheia de um pequeno curso de água, sob espesso aluvião, para ali carreado não apenas por processos degradativos naturais do solo, mas talvez também em consequência da ocupação romana do sobranceiro Monte da Coutada. De facto, só foi possível descobrir este monumento em consequência da escavação das fundações de uma barragem para regadio, o que nos sugere a pergunta: quantos mais monumentos existirão ocultos nos aluviões locais? Além destes trabalhos foram elaboradas sínteses pouco clarificadoras do fenómeno funerário na região (Caninas & Henriques, 1985, 1986a, 1987) mas que procuram evidenciar uma continuidade do megalitismo local com o alto-alentejano, subjacente às dinâmicas de mobilidade e troca interegional, de orientação norte-sul. Também foi publicado texto sobre dois outros monumentos encontrados em contexto aluvial (Caninas & Henriques, 1986b), no Olival dos Morouços.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 115 4.4. Caracterização das construções funerárias e do seu enquadramento arqueológico Construímos um catálogo das construções funerárias até hoje referidas na área de Ródão, suficientemente detalhado de modo a permitir a comparação e a quantificação de algumas características estruturais destas construções e da sua implantação no território considerado. Esse catálogo, que integra o Anexo 3 e se apresenta em forma de lista no Quadro 9 (Anexo 2), contém 65 registos numerados, para a maioria dos quais se obteve uma georeferenciação rigososa, ou aproximada para alguns outros. Essas ocorrências estão implantadas no mapa hipsométrico da Figura 34. Para estabelecer esta situação de referência beneficiámos sobretudo de dois inventários arqueológicos mais completos, disponíveis à escala municipal, executados nos anos 80 do século XX (Henriques & Caninas, 1980, 1986) e no séc. XXI (Henriques, Caninas & Chambino, 2008). Mas antes disso, para esse acervo contribuíram os trabalhos de Proença Jr (1910, 1906c) e, posteriormente, as informações obtidas no decurso do levantamento da arte rupestre do Tejo, captadas com vista à contextualização daquele complexo simbólico (v. por exemplo Serrão & Serrão, s/d; Baptista et al., 1974: 299-302; Monteiro & Gomes, 1978). Já a contribuição alemã (Leisner & Kalb, 1998) foi por nós desvalorizado por entendermos que não acrescenta novos dados ao legado de Proença Jr, embora introduza uma projecção cartográfica desses monumentos, no caso da maioria das antas da necrópole de Sarnadas / Atalaia e das do termo de Vila Velha de Ródão. No Quadro 9 e na respectiva cartografia (Figura 34), distinguem-se quatro situações bem diferenciadas: 1) a maioria dos registos, em número de 52, numerados de 1 a 8, de 10 a 12, de 14 a 41, de 43 a 46, 48, 49 e de 51 a 57, corresponde a localizações confirmadas por F. Henriques, J. Caninas e colaboradores, estando por isso documentados no Anexo 3; 2) consideram-se fiáveis, ou confirmadas, as cinco existências referidas por outros autores, como são os casos nº 9, 13, 42, 47 e 50, a partir da cartografia publicada ou por aproximação por nós estabelecida (13, 47 e 50); 3) consideram-se hipotéticas as outras quatro existências indicadas por informantes que nos merecem crédito quanto ao conhecimento da realidade relatada (nº 58, 59, 60 e 61) às quais juntámos duas observações por nós partilhadas mas que nos oferecem dúvidas (nº
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 116 62 e 63) 119 ; estes registos embora georeferenciados não foram utilizados na análise seguinte; 4) associámos, finalmente, dois registos toponímicos da palavra anta(s) aplicada a afloramentos naturais, o que documenta, a exemplo do observado noutras parte do território português (Cruz, 2001), a falência, pelo menos aparente, da associação sistemática deste topónimo a sepulturas pré-históricas; tal associação já se verifica no caso de nomes compostos como Cabeço d´Ante, Lomba d´Antes e Curral da Anta. Por ser inviável a sua georeferenciação, excluímos, da lista numerada e da respectiva projecção cartográfica, outras referências, mais antigas, como são os casos da maioria das antas da necrópole de Sarnadas / Atalaia, das antas também mencionadas por Proença Jr nos arredores de Vila Velha de Ródão 120 , que estariam nessa época já em adiantado estado de destruição, e outros casos, incluindo a mais antiga referência aos supostos menires de Fantel, Ribeira da Alcafalla e Monte Fidalgo. Quanto à toponímia utilizada neste território, e para além do uso do termo anta em nomes compostos, merecem destaque os nomes casa da moura e morouços de uso comum a outras regiões. Não foi possível confirmar se o topónimo mota da sora, associado a uma povoação abandonada, na área de Fratel, teria a sua génese na existência de uma mamoa ou mota nas proximidades 121 . Tendo em vista facilitar a comparabilidade das subestruturas ortostáticas a nível regional, vamos seguir aproximadamente o quadro tipológico aplicado por Jorge de Oliveira aos contentores funerários da vizinha bacia hidrográfico do rio Sever (Oliveira, 1997: 230-233, 2000: 149), na linha de Primitiva Bueno Ramírez (1988). Esta proposta consigna dois tipos principais, câmaras simples e câmaras com corredor diferenciados, e dois sub-tipos em cada caso: 1) Câmaras simples, fechadas: de configuração variável entre sub-rectangular e subcircular; 2) Câmaras simples, abertas: constituídas por câmara e corredor indiferenciados em planta e em alçado; 119 Eliminámos desta lista uma referência anterior a uma hipotética mamoa sob a ermida da Senhora da Alagada, num terraço próximo de Vila Velha de Ródão. 120 A anta do Monte do Famaco, a nº 20 da lista, pode ser uma delas. 121 Acerca do possível significado do termo moita ou mouta e da sua aproximação a mota ver Caninas et al. (2009).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 117 3) Câmaras com corredor diferenciado, curto: a câmara e o corredor estão diferenciados em planta e em alçado e considera-se curto um corredor cujo comprimento seja igual ou inferior ao diâmetro máximo da câmara (Oliveira, 1997: 233, nota 16); 4) Câmaras com corredor diferenciado, longo: idêntica diferenciação do caso anterior, considerando-se longo um corredor cujo comprimento seja superior ao diâmetro máximo da câmara. Importa esclarecer que não pretendemos fazer uma dissociação metodológica entre anta e mamoa, que concebemos como uma unidade. E se nos referimos ora a antas, ora a mamoas, tal resulta da intenção de destacar, num plano estritamente descritivo, qual das subestruturas se encontra melhor evidenciada ou conservada na actualidade. Vamos abordar o conjunto de 52 monumentos anteriormente integrados na situação 1 (estruturas confirmadas), mas apenas aqueles que têm localização confirmada e que estão descritos no Anexo 3. O primeiro parâmetro analisado, cujos resultados se apresentam na Figura 35, reporta à distribuição altimétrica dos monumentos, ordenados por valor crescente das suas altitudes absolutas. Convém salientar que no caso da necrópole de tumuli do Mulato apenas se considerou um registo, atendendo à localização daqueles numa área muito reduzida, formando o que parece ser uma necrópole. Estes monumentos integram-se na classe das terras baixas, tal como definido à escala regional. Os monumentos distribuem-se de forma muito regular, sem saltos significativos, desde um terraço sobranceiro à estação de arte rupestre de Fratel, poucos metros acima do leito do rio Tejo, a 97 m, até 401 m de altitude, na Silveirinha, já no nível (geomorfológico) da Superfície de Castelo Branco. O que apontamos como muito evidente é o salto dos 400 m para os 570 m correspondente à ausência de monumentos sobre as cristas quarzíticas 122 e seus depósitos de vertente. Esta quase ubicuidade altimétrica deste tipo de sepulturas é comum a outras zonas do território continental, com a sua distribuição desde o litoral atlântico 123 até pelo menos 1400 m de altitude nas serras do Centro e Norte de Portugal. Contudo, no caso rodanense, parece-nos significativa a sua ausência sobre os quartzitos 124 , nos respectivos depósitos de 122 Ausência já mencionada em trabalhos sobre a região (Caninas et al., 2008ª, 2008b). 123 Caso da mamoa da Eireira, em Viana do Castelo (Silva, 1987), um monumento encerrando uma câmara e corredor indiferenciados, situado a 25 m de altitude e a cerca de 400 m de distância do mar. 124 Foi aventada uma hipótese explicativa para esta ausência (Caninas et al., 2008a) relacionando-a com as condições de mobilidade naqueles relevos.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 118 vertente e até nos vales interiores (sinclinal) daquele relevo, onde ocorrem outras litologias como os xistos argilosos do Ordovícico (Carvalho et al., 2006). Figura 35. Distribuição altimétrica das construções funerárias da região de Ródão (as barras vermelhas indicam os limites altimétricos do território: 90 m, foz do rio Ocreza no Tejo; 570 m vértice geodésico Penedo Gordo, no topo da serra das Talhadas). Esta ausência sobre os quartzitos é concordante com o que se observa em regiões próximas, como são os casos da Serra de São Mamede (acima dos 800 m de altitude e até 1025 m) em relação à bacia hidrográfica do rio Sever, que abrange o Norte Alentejano e a Província de Cáceres, e na Sierra de San Pedro, em relação ao município de Santiago de Alcântara, também na Província de Cáceres. No caso da bacia hidrográfica do Sever, considerando um perfil topográfico desde o topo da Serra de São Mamede (ver figura 1 em Oliveira, 2000:150 e mapa em Oliveira, 1997:116) até às margens do rio Tejo, foram identificadas duas manchas principais, de sepulturas pré-históricas, desconexas, uma situada sobre rochas metasedimentares (c. 60 monumentos), sensivelmente entre 200 m e 300 m de altitude, mais próxima do Tejo, e outra mais interior (mais de 100 monumentos),
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 119 entre 300 m e 600 m de altitude, sobre rochas eruptivas (granitos), no sopé da serra de São Mamede. Em Santiago de Alcântara (ver mapa de distribuição com 25 monumentos em Bueno et al., 2006:96), considerando novamente um perfil topográfico entre o topo da Sierra de San Pedro e a margem esquerda do rio Tejo, a necrópole de sepulturas préhistóricas está bem balizada num andar intermédio (de 300 m a 400 m), entre a plataforma sobranceira ao rio (de 200 m a 300 m), onde ao contrário da bacia do Sever não se conhecem monumentos, e o relevo quartzítico (acima de 500 m), no qual onde ocorrem pinturas coevas em abrigos. Embora as formações quartzíticas corresponadm às morfologias culminantes das áreas mencionadas (Ródão / s. Talhadas, Sever / s. São Mamede, Santigo / s. San Pedro), a altitude não parece ser o factor limitante para a implantação das sepulturas pré-históricas, uma vez que estas estão documentadas a altitudes elevadas, acima de 800 m, em relevos igualmente culminantes, como são os casos da Serra Vermelha, em Oleiros (Caninas et al., 2008a), e da Serra da Açor, em Pampilhosa da Serra (Batata & Gaspar, 2009a). Mais expressiva poderá ser a distribuição destes monumentos por andares altimétricos (Figura 36). Para o efeito, e à falta de melhor critério, adoptámos a partição estabelecida na Figura 34 tomada a partir da obra já referida (Carvalho et al., 2006). Devemos ter em conta os efeitos resultantes da morfologia do território, o efeito exclusivo das pendentes acentuadas e as diferentes dimensões, em área, de cada um destes andares, além da assimetria resultante do factor degradativo da transformação deste território pelo Homem, que terá incidido de modo diferenciado neste território em função dos usos da terra. É patente um aumento progressivo do número de monumentos até ao 4º andar (291 m a 370 m). A maior quantidade de monumentos (17) neste andar pode dever-se a razões de conservação, sendo significativa quando comparada com os dois andares anteriores (2º e 3º), cuja quantidade (18) quase iguala, embora estes ocupem uma maior extensão no território de Ródão. Nas terras, mais baixas, do 2º andar, onde se situam os solos de maior aptidão agrícola, ou pelo menos mais agricultados, admitimos que tenha sido maior o efeito degradativo destes monumentos, ao longo de milénios e sobretudo desde a época romana, provocando uma dimininuição do efectivo de monumentos sobreviventes. Outro ensaio (Figura 37) que é comum fazer-se (Eguileta Franco, 1999: 478) consiste em relacionar o diâmetro das mamoas com as altitudes de implantação. Parece-nos ser uma tentativa inconsequente, atendendo ao reduzido número de monumentos, à dimensão do território em análise e sobretudo à fiabilidade e comparabilidade do parâmetro diâmetro. Considerando que as mamoas são volumes, esta análise enferma de uma outra deficiência
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 120 que é a ausência do parâmetro altura. De facto, o volume da mamoa pode considerar-se um dado relevante na apreciação do esforço construtivo e do efeito de marcação territorial. Distribuição das sepulturas pré-históricas por andares altimétricos na região de Ródão 0 5 10 15 20 1 2 3 4 5 6 7 Andares altimétricos Quantidades Série1 Figura 36. Distribuição das construções funerárias na área de Ródão por andares altimétricos: 1 – 50 m a 130 m; 2 – 131 m a 210 m; 3 – 211 m a 290 m; 4 – 291 m a 370 m; 5 – 371 m a 450 m; 6 – 451 m a 530 m; 7 – 531 m a 570 m. Na representação exposta na Figura 37 estão apenas considerados os 30 monumentos para os quais foi possível estimar a dimensão diâmetro máximo da mamoa. Mas, tal medida foi tomada em diferentes momentos, por diferentes investigadores, pelo que devemos admitir alguma disparidade de critérios na sua obtenção, prejudicando a comparabilidade destes. Tal distorção poderá ter sido agravada por uma diferente percepção dos estados de conservação das estruturas monticulares e sua dimensão. Nestas circunstâncias, este parâmetro deve ser encarado, de modo prudente, como indicando ordens de grandeza. Observando a Figura 37 não parece haver uma correlação directa entre os dois parâmetros, mas detecta-se uma maior dispersão de diâmetros nos andares inferiores (97 – 122 m) e superiores (302 – 364 m). A colocar-se a hipótese de tal diversidade de diâmetros, nos dois andares referidos, indicar necrópoles com monumentos polidimensionais, teríamos de analisar as relações de proximidade entre monumentos, de modo a relacioná-los numa leitura planimétrica. De qualquer modo, a reduzida fiabilidade destes dados não nos permite tirar conclusões.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 121 Correlação entre diâmetros de mamoas e sua implantação altimétrica 0 5 10 15 20 25 30 0 50 100 150 200 250 300 350 400 Altitude (m) Diâmetro da mamoa (m) Figura 37. Distribuição dos monumentos em altitude em função do diâmetro das respectivas mamoas. Um outro olhar sobre a posição deste monumentos funerários no território respeita à sua relação com a morfologia. Para o efeito, e atenta a realidade local, estabelecemos (Quadro 10 – Anexo 2) uma tipologia de posições, que reflecte, por um lado, formas específicas de relevo, e por outro, a sua maior ou menor eminência em relação à envolvente. Da leitura do Quadro 11 (Anexo 2), no qual se faz a correspondência entre as estruturas inventariadas no Anexo 3 e as formas topográficas convencionadas no Quadro 10, verificamos haver uma aparente preponderância de posições destacadas na paisagem (26 casos), com maior expressão na sua presença sobre as mesas detríticas da Formação de Falagueira, onde ocorrem sempre sobre o bordo desses pequenos planaltos. Seguidamente, em quantidade inferior (onze casos), ocorrem posições topográficas intermédias, envolvidas por cotas superiores e inferiores, como lombas, balcões e, num caso, numa portela. As posições deprimidas são as menos representadas (cinco casos) e surgem com três situações distintas, sendo as duas primeiras em leitos de cheia: 1) na ampla planície aluvial do rio Lucriz; 2) no fundo de um vale encaixado, de um afluente do rio Lucriz; 3) em terraços ligeiramente sobreelevados em relação a aluviões. A descoberta do sítio 14 (o cairn da Eira da Vinha) dá-nos uma informação muito importante: nas zonas deprimidas poderá haver um número superior de estruturas funerárias, ocultas sob o aluvião, em consequência de processos erosivos históricos.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 128 a um padrão regular de ocupação deste território. De facto, além de existirem vestígos de habitat no topo de todas as mesetas da Formação de Falagueira, que se conservam ao longo da meridiana deste compartimento, aqui também se identificou o conjunto mais denso de sepulturas pré-históricas da área de Ródão, posicionadas tanto no bordo como na envolvente daqueles pequenos planaltos. A conexão directa entre as áreas residenciais e a necrópole parece ser evidente, do ponto de vista da articulação espacial, embora não se disponha de séries suficientes de materiais arqueológicos provenientes de escavações 129 , nem de datas absolutas, para robustecer tal percepção. Contudo, os sítios mais investigados podem colocar-se num lapso de tempo entre o Neolítico Final e o Calcolítico Pleno. Outro aspecto que confere um enorme interesse ao conjunto de vestígios arqueológicos préhistóricos desta área é a presença de núcleos de grafismos rupestres (complexo de arte rupestre do Tejo) nas margens do rio Tejo, também estes em aparente polarização com os sítios de habitat (Caninas & Henriques, no prelo), sugerindo que aquelas expressões gráficas, ao aproximarem-se dos povoados, se poderiam relacionar com práticas tanto rotineiras como excepcionais, mas de carácter não funerário. Julgamos, deste modo, que é no território de Fratel que existem ainda, melhores possibilidades para compreender a ocupação humana a partir da relação triangular, e coetânea ao nível dos protagonistas, entre os assentamentos residenciais, os espaços funerários e os cenários de expressão gráfica. Estes últimos, pela complexidade, diversidade e densidade dos símbolos utilizados, não podem ser reduzidos a simples marcadores territoriais, antes traduzem o pensamento mais abstracto daqueles grupos humanos, no decurso de representações cuja dimensão social desconhecemos. 129 De duas sepulturas (Silva, 1991; Soares, 1988) e de duas áreas residenciais (Cardoso et al., 1998; Caninas, Henriques & Cardoso, 2009, 2011).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 129 Discussão Final e Conclusões A elaboração deste estudo foi orientada para o objectivo principal de proporcionar um conhecimento global acerca das construções funerárias da Pré-História Recente numa região do Centro Interior de Portugal, correspondente ao distrito de Castelo Branco, sobre a qual, aparentemente, ainda não fora realizada uma reflexão com estas características, que nos aproximasse dos avanços atingidos noutras regiões de Portugal Continental e que permitisse, desse modo, preencher uma lacuna de conhecimento no mapa do território préhistórico e uma compreensão, espacialmente mais completa, da humanização antiga no ocidente da Península Ibérica. Apesar da configuração administrativa, considerou-se que esta região era dotada de especificidade geográfica como foi detalhadamente explicado, em relação a diversos caracteres físicos e biofísicos. Atendendo ao enquadramento académico deste estudo, a abordagem de um território relativamente vasto como este, com 6 675 km 2 de superfície, induziu-nos a trabalhar num plano macroscópico através de mapas de pontos, a partir do inventário arqueológico disponível no IGESPAR I. P.. Contudo, além do subconjunto das construções funerárias, procurámos completar o quadro de referência da ocupação deste território durante a PréHistória Recente incluindo os mapas de pontos respeitantes a materialidades enquadráveis em dois outros subconjuntos, o das expressões simbólicas (rupestres) e o do habitat. Mas também objectivámos, de modo complementar ao primeiro objectivo, uma reflexão mais detalhada sobre as características das construções funerárias pré-históricas, ao nível dos factores de variabilidade topográfica (implantação), estrutural e artefactual. Desse modo, descemos o nível de análise para um território mais restrito dentro da região de Castelo Branco, escolhendo a zona de Ródão, a qual corresponde a uma unidade administrativa contemporânea, também dotada de limites fisiográficos marcantes, autorizando, por isso, o seu isolamento como área de estudo. Esta área, apesar da sua reduzida dimensão, tinha a vantagem de ter recebido aquisições significativas de dados em duas das três fases referidas no capítulo 3 e de conservar sítios arqueológicos numerosos ao nível dos três subconjuntos acima referidos. Não vamos voltar à discussão das questões metodológicas e sobretudo às limitações inerentes aos dados arqueológicos utilizados neste estudo, nomeadamente quanto à variabilidade real da sua representação territorial, mas salientaremos, apenas uma delas,
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 130 como constatação importante e como sinalização para futuros trabalhos. Referimo-nos à ausência de datas absolutas, para a construção ou utilização de qualquer uma das 225 sepulturas pré-históricas desta região (de acordo com a contabilidade expressa no inventário utlizado, Anexo 1), seja com recurso a C 14 ou a luminescência (TL ou OSL), o que representa um atraso no processo de investigação, independentemente das razões que o possam justificar. O conhecimento acerca da evolução das práticas funerárias nesta região está muito condicionado pelo facto de terem sido apenas estudadas, mediante escavação, cerca de 20% das 225 sepulturas inscritos no Anexo 1 130 , ao longo de 100 anos, por diferentes investigadores, com o facto agravante de faltarem registos de escavação da maior parte daqueles sítios (caso dos trabalhos executados por Proença Jr). E este conhecimento enferma de um outro factor de parcialidade que é o facto de estarmos a observar apenas estruturas funerárias positivas, dotadas de resistência ao tempo, conferida pelas mamoas, e, consequentemente, de maior visibilidade. Não podemos ignorar a possibilidade de existirem (ou terem existido) outras formas construtivas mais invisíveis e menos resistentes, nomeadamente estruturas negativas, que expliquem, por exemplo, a menor representatividade de práticas funerárias ao longo de toda a Idade do Bronze 131 . Os resultados obtidos no âmbito do primeiro objectivo, apresentados no capítulo 3, são, do nosso ponto de vista, significativos, induzindo, contudo, mais hipóteses do que conclusões. Foi possível seguir a construção do conhecimento acerca da existência de sepulturas pré-históricas neste território ao longo de mais de 100 anos. Neste intervalo tempo destacam-se três fases caracterizadas pela elevada adição de novos dados, em relação a momentos precedentes, que são muito ilustrativas da forma como foi sendo distorcida a geografia dos dados, em consequência, óbvia, de diferentes dinâmicas de investigação. Essas três fases são representadas pelos trabalhos de (1) Francisco Tavares de Proença Jr, no início do séc. XX, notável pioneiro da carta arqueológica regional, de (2) Georg e Vera Leisner em meados do séc. XX, através do Instituto Arqueológico Alemão, e de (3) 130 Faltam nesta quantidade os monumentos citados nas fases 1 e 2 que não foram relocalizados na fase 3, pelo que o efectivo de sepulturas, referidas ao longo de mais de 100 anos, é superior ao indicado. No concelho de Oleiros também se conhece um número superior de monumentos ainda não contemplados no inventário público. 131 Importa lembrar que esta invisibilidade foi invocada por J. de Alarcão para justificar um vazio de povoamento anterior à hipotética chegada dos povos lusitanos, balizada no final da Idade do Bronze (Alarcão, 2001). Mas este deficit ao nível do funerário vai sendo compensado com a descoberta de estelas, como são os casos de Zebros, do Bronze Antigo (Cardoso, 2011a, 2011b) e de Donas, do Bronze Médio (Banha, Mota Veiga & Ferro, 2009).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 131 Francisco Henriques e colegas da AEAT, no final do séc. XX e inícios do XXI. Na primeira fase a densificação de dados, relativos a sepulturas, ocorreu numa diagonal ligando Vila Velha de Ródão, Castelo Branco e Idanha-a-Nova. Na segunda fase essa densidade desviou-se para o concelho de Proença-a-Nova. E, na terceira fase, os novos dados incrementaram-se sobre a linha do Tejo entre Vila Velha de Ródão e Rosmaninhal (Idanha-a-Nova). A sobreposição de dados ao longo de 100 anos, mesmo considerando sítios entretanto desaparecidos (caso do conjunto de quase 100 sepulturas identificadas pelos arqueólogos alemães em Proença-a-Nova e que ainda não foram reconhecidas), permitem concluir acerca da distribuição de sepulturas pré-históricas por quase todo a região de Castelo Branco, sobre diferentes formações geológicas e morfológicas, excluindo os quartzitos, e incluindo os pontos culminantes dos relevos de metagrauvaques da Cordilheira Central. Para além da geografia dos dados relativos à distribuição de sepulturas utilizámos outros que reforçam esta representação de um povoamento territorialmente amplo, seja ao nível dos sítios de actividade doméstica (trabalho, alimentação ou descanso), seja dos grafismos rupestres. Mas, em primeiro lugar, devemos salientar a importância de um item a que Proença Jr conferiu estatuto principal na sua carta arqueológica regional e ao qual habitualmente não damos importância como indicador espacial; são os instrumentos de pedra polida (ipp), que foram em grande parte recolhidos de forma avulsa sem conhecimento do seu contexto específico. De facto, como salientámos, a tão elevada quantidade e dispersão de peças deste tipo, na região de Castelo Branco, pode dar-nos informação perdida ao nível dos sítios, por estes terem desaparecido, quer fossem sepulturas (hipótese também colocada por V. Leisner), sítios de habitat, ou ainda, como sugere R. Vilaça, depósitos rituais. E a confirmação dessa percepção é-nos dada por dois factos: (1) as áreas que forneceram as maiores quantidades de ipp, ou sejam, as terras baixas do Campo albicastrense, são aquelas onde existem menores quantidades relativas de sepulturas; (2) as localizações (aproximadas) da grande maioria destes achados coincidem com áreas de uso agrícola, pelo menos desde o séc. XVIII, de acordo com cartografia comentada por A. Silbert, em contraponto aos montados e aos baldios. Avançamos a hipótese destes achados indicarem maioritariamente sepulturas positivas (antas, mamoas) destruídas por lavoura milenar, posterior à decadência do sistema funerário pré-histórico. E se a agricultura terá sido responsável pelo desaparecimento de um número indeterminado de sepulturas, sobretudo no Campo albicastrense, a partir do séc. XX a destruição das mais antigas arquitecturas desta região expandiu-se para a Charneca, para
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 132 os montados e para os baldios com a acção voraz dos povoamentos florestais de fins industriais, desastre sem fim à vista, perante a ausência de articulação entre as políticas de Economia e de Cultura. Esta ampla dispersão de sítios é acentuada pela distribuição dos sítios de habitat e de grafismos rupestres. Os sítios de habitat concentram-se ao longo das terras envolventes do rio Tejo, em articulação espacial muito próxima com as sepulturas, sobretudo na região de Ródão. Neste sector, conservam-se exclusivamente sobre depósitos detríticos terciários e quaternários. Os grafismos têm duas áreas de densificação em pontos opostos da orografia regional, um deles nas margens do rio Tejo, a chamada arte rupestre do Tejo, o outro nas serras da Cordilheira Central. Diríamos, como simples conclusão, que a partir do Neolítico e até à Idade do Bronze, as comunidades de economia agro-pastoril e recolectora desta região teriam espalhado a sua actividade subsistencial por quase todo o território, talvez com maior frequência nas terras baixas (abaixo do 400 m de altitude). Mas estamos conscientes de que a este nível de análise lidamos com um palimpsesto, ou acumulação de sítios ao longo do tempo histórico considerado, de dois a quatro milénios, que é o oposto de uma desejável seriação cronológica, só possível, de momento, com base na tipologia 132 . As investigações mais recentes, executadas no quadro da terceira fase, e considerandose para o efeito como boa amostragem a seriação cronológica proposta para as sepulturas escavadas no território do Rosmaninhal (concelho de Idanha-a-Nova), sugerem, numa primeira aproximação, que parte significativa da construção / utilização destes monumentos poderá corresponder ao 4º e ao 3º milénios AC, embora seja defendido o início das arquitecturas funerárias monticulares no Neolítico Antigo (caso da anta 6 do Couto da Espanhola, em Idanha-a-Nova). No capítulo 4, a análise que dedicámos aos sítios arqueológicos correspondentes à Préhistória holocénica na pequena mesopotâmia de Ródão, numa escala de maior detalhe, baseou-se já não no inventário público mas na informação mais completa obtida pela AEAT, até 2006, no âmbito da revisão da carta arqueológica municipal, trabalho efectuado a convite do executivo municipal para inclusão no novo plano director municipal. A prioridade, a exemplo do que se fizera no capítulo 3, foi dirigida para a leitura do povoamento pré-histórico no território considerado, com ênfase nas sepulturas, mas enquadrando-as em dois outros segmentos do povoamento, embora não representados 132 Exceptuam-se as datas obtidas para alguns sítios de habitat, neolíticos, calcolíticos e da Idade do Bronze, no centro e norte deste território (Vilaça, 2008a).
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 133 graficamente de modo sistemático 133 , os sítios com grafismos rupestres e os locais de habitat. Este conjunto de sítios da Pré-história Recente corresponde a 29% dos registos arqueológicos inventariados até àquela data, e neste conjunto as sepulturas (antas, mamoas) representam mais de um terço (37%) das ocorrências individualizadas. Uma das virtualidades desta área, para investigação, é conservar uma grande diversidade de sítios arqueológicos numa ampla diacronia, ao longo de toda a Pré-História, Antiga e Recente, embora com densidades diferentes. No que concerne às arquitecturas funerárias a maioria dos monumentos que foi possível conhecer parece corresponder a comunidades evoluídas do Neolítico – Calcolítico, em consonância com a cronologia curta de A. Martinho Baptista para a arte do Tejo, faltando registo significativo de estruturas mais antigas (Neolítico Antigo), para além talvez do caso do cairn da Eira da Vinha, e mais recentes (Idade do Bronze), entre as quais poderemos eventualmente filiar a necrópole do Mulato. No entanto, essa continuidade parece estar assegurada noutros subconjuntos, caso dos grafismos rupestres e dos conjuntos macrolíticos, atribuíveis ao Epipaleolítico/ Mesolítico ou já ao Neolítico Antigo, ou das fases tardias da arte do Tejo, amplamente representativas da Idade do Bronze, na óptica de M. Varela Gomes. A leitura destes dados escorou-se: (1) numa lista comentada das sepulturas préhistóricas referenciadas até à actualidade, com 65 ocorrências georeferenciadas sobre mapa hipsométrico, e reforçada com um catálogo (Anexo 3) das 52 estruturas que têm localização confirmada e que foram observadas em época recente; (2) na distribuição espacial das sepulturas, georeferenciadas, e sua relação com a morfologia e o suporte geológico do território; (3) na caracterização da arquitectura das sepulturas, tanto ao nível das subestruturas ortostáticas centrais, vulgo antas, como das subestruturas monticulares envolventes das primeiras, vulgo mamoas, sendo de relevar a deficiência geral dos registos respeitantes a estas últimas; (4) na análise tipológica dos artefactos associados às construções funerárias, tendo-se apenas considerado como significantes os conjuntos correspondentes aos cinco monumentos que foram sujeitos a escavação arqueológica. A tentativa de interpretação destes dados assenta em alguns pressupostos, entre os quais cabe destacar: (a) o da continuidade do povoamento (pré-histórico holocénico) regional, como processo histórico de longa duração, na linha da arqueologia processual e estruturalista, que se configura nas distribuições espaciais ao longo do tempo; esta opção metodológica assume-se como uma primeira etapa de trabalho, pois a 133 Informação disponível nos mapas do capítulo 3.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 134 qualidade/quantidade dos dados ainda não permite abordagens na linha da arqueologia contextualista, mas necessárias na configuração de novos trabalhos de campo e de gabinete a realizar futuramente naquela região; (b) o da continuidade de utilização funerária de arquitecturas de presença expressiva na paisagem e que assumem uma geometria circular e uma forma monticular, ou em calote de esfera, independentemente da sua dimensão, a qual pode variar entre alguns metros e algumas dezenas de metros de diâmetro; assume-se essa invariância como estrutura, na linha que Lévi-Strauss (1973, 1992) aplicou às estruturas de parentesco e aos mitos, aprendidos socialmente desde a infância. Contudo, apesar de se tratar de um fenómeno transcultural, como referido na Introdução, a sua ocorrência efectiva num determinado tempo, longo, de pelo menos quatro milénios, e num lugar, a região de Castelo Branco, carece de uma explicação que compete à Arqueologia prestar. Consideramos que nesta segunda abordagem foram dados passos significativos em direcção ao objectivo indicado, embora os resultados obtidos e as conclusões que deles decorrem estejam sujeitas a demasiadas contingências, que se deseja sejam resolvidas pela investigação futura, nomeadamente em termos de uma leitura temporal mais fina destas estruturas funerárias, em articulação com outros segmentos do povoamento. Verificamos que as sepulturas na área de Ródão se distribuem, de modo regular, por um largo espectro de altitudes (entre 97 m e 364 m) e de morfologias (desde terraços fluviais e planícies aluviais até pontos culminantes de lombas e planaltos), exceptuando os relevos quartzíticos (serra das Talhadas), seus vales interiores e depósitos de vertente. Esta constatação poderá indicar uma plena exploração do território rodanense no tempo longo que vimos consignando. Essa hipótese é compatível com o constrangimento espacial, ou compartimentação, que os acidentes fluviais impõem a este território, em termos de mobilidade para a subsistência diária, conferindo-lhe a forma de uma pequena península. Mais difícil, de momento, é concluir acerca da estruturação das necrópoles e do significado da sua diversidade (volumétrica, estrutural e artefactual), indicando hierarquização social ou sequenciação temporal. No entanto, o território de Fratel, um compartimento situado na parte ocidental da região de Ródão, oferece-nos um cenário muito expressivo acerca da articulação espacial entre sepulturas, povoados e núcleos de grafismos rupestres, circunstância que confere valor estratégico a esta área para se compreender o ordenamento do território durante a Pré-História Recente e para se enquadrar, ao nível do quotidiano e das práticas funerárias, os produtores da chamada arte rupestre do Tejo. Mas, temos de aguardar a publicação da tese de doutoramento de Mário
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 135 Varela Gomes acerca daquele complexo gráfico para conhecer a leitura que aquele investigador faz acerca desse enquadramento. De facto, no território de Fratel, a combinação dos dados de distribuição espacial e os resultados de escavação de sepulturas, permitem-nos tirar algumas conclusões interessantes, que serão aprofundadas em texto que aguarda publicação (Caninas & Henriques, no prelo): (1) todas as mesas detríticas situadas ao longo da dorsal deste território conservam vestígios de habitat genericamente atribuível ao Neolítico-Calcolítico, ausente noutras morfologias; (2) as sepulturas pré-históricas distribuem-se em torno destes pequenos planaltos, desde o seu bordo, na forma de mamoas, até ao topo dos vales dos rios Tejo e Ocreza que marginam este território, e onde ocorre a grande maioria dos grafismos rupestres contemporâneos, evidenciadas na forma de estruturas ortostáticas, ou antas, quase descarnadas da mamoa; as mamoas situam-se no nível de aplanamento superior correspondente à Formação de Falagueira e as antas distribuem-se no nível de aplanamento inferior correspondente às rochas metasedimentares do Grupo das Beiras; (3) não têm sido documentadas gravuras ou pinturas pré-históricas nas estruturas ortostáticas das sepulturas, talvez por razões de conservação ou desatenção, e também não tem sido possível documentar grafismos pintados nas formações quartzíticas desta área; (4) os conjuntos artefactuais recolhidos na escavação de mamoas do nível superior, ou culminante (casos de Charneca das Canas e da Charneca das Vinhas), são diferenciados, em quantidade e diversidade, sobretudo nos tipos líticos, dos espólios que prevemos existam nas antas do nível inferior, situadas na área de Fratel, indicando claramente uma diferenciação que pode ter significado cronológico ou social; convém referir que para essa comparação nos baseamos em recolhas de superfície e na extrapolação dos espólios de outras antas escavadas em Ródão (casos de Farranhão e Urgueira); uma hipótese, na linha da diferenciação cronológica, é ter havido, entre o Neolítico Final e o Calcolítico, uma contracção da necrópole (como o conjunto das sepulturas deste território) em direcção às mesas detríticas. A densificação e eventual complexificação do povoamento em torno do 3º milénio AC, focando a atenção tanto nas estruturas funerárias, como no habitat e na arte do Tejo, poderá dever-se, considerando as propostas de Primitiva Bueno e as nossas, já referidas, ao potencial aurífero da região, quiçá como bem de prestígio e de troca antes ainda do incremento de uma metalurgia local. E, nessa linha, futuramente teremos de olhar com muita atenção para o significado da coincidência espacial entre os vestígios de habitat pré-
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 136 histórico e as múltiplas ocorrências de mineração aurífera, canonicamente atribuída à época romana, que existem na zona leste de Ródão. A percepção da continuidade e das afinidades culturais com os territórios envolventes da região de Castelo Branco, sobretudo a sul e a leste, com o Alentejo e a província de Cáceres, mas também ao longo do vale do Tejo, é um objectivo que importa atingir no desenvolvimento destes estudos. Mas devemos perspectivar, de igual modo, as possíveis afinidades, ao nível das materialidades culturais pré-históricas, entre a área montanhosa da Cordilheira Central e as regiões situadas a norte desta. A ligação a sul e a leste, sem barreiras fisiográficas significativas, pode ser mais facilmente perspectivada a partir dos resultados dos muitos estudos ali desenvolvidos por investigadores portugueses e espanhóis. As placas de xisto gravadas, presentes a norte do Tejo e aí cada vez com maior expressão a partir de novas escavações arqueológicas, consubstanciam um tipo emblemático desse tipo de afinidades, assentes em redes de intercâmbio material e social, presumivelmente no quadro de estruturas de parentesco.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 137 Agradecimentos Um trabalho desta natureza, pese embora o esforço quase solitário de quem o redige, não seria possível sem o contributo incontornável de muito pessoas e entidades, desde logo os autores, os investigadores e as instituições citadas. Mas também me é grato lembrar e agradecer: - a motivação e o apoio permanente da família, principalmente de Isabel Vasconcelos, nesta etapa de redacção da tese, e da tia Maria Pires Honrado, cujo acolhimento na sua casa de Vila Velha de Ródão tornou possível a descoberta de paisagenns e de pessoas que marcaram o meu percurso como arqueólogo; - a ajuda de colegas de ofício, em especial de Mário Monteiro e de Alexandre Lima, na produção gráfica de inúmeros mapas utlizados neste estudo; - a cedência pela Câmara Municipal de Vila Velha de Ródão, através do arq. José Manuel Pires, de mapa hipsométrico do concelho de Vila Velha de Ródão, utilizado na produção de dados no âmbito deste trabalho; - o acolhimento pela Associção de Estudos do Alto Tejo de muitos projectos e iniciativas que proporcionaram as descobertas e os dados que aqui se utilizam; - o acompanhamento e aconselhamento empenhado e muito profissional da minha orientadora, Maria de Jesus Sanches; - a leitura deste texto e as sugestões muito úteis de Francisco Henriques, amigo e companheiro de quase 40 anos de descobertas arqueológicas no Alto Tejo português, e o principal descobridor das inúmeras antas e mamoas que motivaram a elaboração deste estudo.
Dissertação de Mestrado As construções funerárias da Pré-História Recente na região de Castelo Branco no contexto da Carta Arqueológica regional 144 Impacte Ambiental das Alterações de Traçado do Lanço Castelo Branco/Gardete da Autoestrada SCUT da Beira Interior (Castelo Branco, Vila Velha de Ródão). Elaborado para Impacte Lda. Lisboa. Caninas, J. C. & Henriques, F. (2008) O Património Arqueológico e o Sector Florestal. Actas das I Jornadas do Património de Belmonte. Câmara Municipal de Belmonte. Belmonte: 285-309. Caninas, J. C. P. & Henriques, F. J. (1985) Testemunhos do Neolítico e do Calcolítico no Concelho de Nisa. Actas das 1as. Jornadas de Arqueologia do Nordeste Alentejano, Comissão Regional de Turismo e Câmara Municipal de Castelo de Vide. Castelo de Vide: 69-82. Caninas, J. C. P. & Henriques, F. J. (1987) Megalitismo de Vila Velha de Ródão e Nisa. In Arqueologia no Vale do Tejo. Instituto Português do Património Cultural: Lisboa: 24-26. Caninas, J. C. P. & Henriques, F. J. R. (1984) Relatório Técnico e Financeiro da Escavação do Monumento Megalítico do Farranhão – Vila Velha de Ródão – 1983. Núcleo Regional de Investigação Arqueológica. Inédito. Caninas, J. C.; Henriques, F. & Cardoso, J. L. (1999) Relatório da 1ª visita a monumentos megalíticos e outros sítios de interesse arqueológico do concelho de Vila Velha de Ródão. Projecto ALTEJO - Pré-História Recente na Margem Direita do Alto Tejo Português. Associação de Estudos do Alto Tejo. Vila Velha de Ródão. Caninas, J. C.; Henriques, F. & Cardoso, J. L. (2009) A mamoa da Charneca das Vinhas (Vila Velha de Ródão). Revista Portuguesa de Arqueologia, 12 (2). Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico. Lisboa: 99-138. Caninas, J. C.; Henriques, F. & Cardoso, J. L. (2011) The tumulus at Charneca das Vinhas (Vila Velha de Ródão, Portugal). In Bueno Ramírez, P., Cerillo Cuenca, E., González Cordero, A., coord., From the origins: The prehistory of the Inner Tagus Region. BAR International Series 2219. Oxford: 111-139. Caninas, J. C.; Henriques, F. & Gouveia, J. (2004) Arqueologia da Região de Fratel. Um Olhar entre a Pré-História e os Tempos Modernos. In Itinerários por Terras da Açafa. Associação de Estudos do Alto Tejo. Vila Velha de Ródão. Desdobrável. Caninas, J. C.; Henriques, F. & Sabrosa, A. (2006) Relatório sobre o Descritor Património Arqueológico, Arquitectónico e Etnológico do Estudo de Impacte Ambiental do Projecto de Alteamento do Aproveitamento Hidroeléctrico da Barroca (Fundão). Elaborado por EMERITA para PROSISTEMAS. Lisboa.
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