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Animação Sociocultural de idosos: um modo de promover o envelhecimento ativo em contexto institucional

Andreia Alves Freitas da Costa

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FACUL DADE DE LET R A S U NIVE RSIDADE DO PO RTO Andreia Alves Freitas da Costa 2º Ciclo de Estudos em Sociologia Animação Sociocultural de idosos: um modo de promover o envelhecimento ativo em contexto institucional 2012 Orientador: Professora Doutora Maria Isabel Correia Dias Classificação: Ciclo de estudos: Dissertação/relatório/Projeto/IPP: Versão definitiva I A Sabedoria da Velhice Aquele que envelhece e que segue atentamente esse processo poderá observar como, apesar de as forças falharem e as potencialidades deixarem de ser as que eram, a vida pode, até bastante tarde, ano após ano e até ao fim, ainda ser capaz de aumentar e multiplicar a interminável rede das suas relações e interdependências e como, desde que a memória se mantenha desperta, nada daquilo que é transitório e já se passou se perde. Hermann Heusse (s/d) II Resumo O progressivo envelhecimento demográfico é um dos traços mais marcantes das sociedades contemporâneas. Se, por um lado, a longevidade representa um notável progresso social, por outro, constitui um desafio devido às suas implicações sociais, económicas, políticas e culturais. Assim, perante o envelhecimento da população, torna-se premente que as sociedades criem condições que permitam um envelhecimento saudável e com qualidade de vida aos idosos que, por diversos fatores, passam grande parte do dia entregues aos cuidados de uma instituição que não a sua família. Nesse sentido, no estágio desenvolvido no Centro Social de S. Félix da Marinha, dinamizámos um conjunto de atividades socioculturais que fomentaram o bem-estar físico, psicológico e social dos idosos. Pretendemos, assim, demonstrar que a animação sociocultural constitui um importante elemento na promoção de uma vida mais ativa e autónoma do idoso. Em termos metodológicos, optámos por uma metodologia qualitativa com vista a uma análise em profundidade da realidade a estudar. Para isso, as técnicas de recolha de dados utilizadas foram a análise documental, observação direta e as entrevistas semiestruturadas. Os resultados empíricos evidenciam que os problemas de saúde e de solidão constituem as principais causas da institucionalização do idoso. Por sua vez, a promoção do envelhecimento ativo em contexto institucional é condicionada pela falta de recursos financeiros da instituição. Por fim, a animação sociocultural contribui para a manutenção ou melhoria da capacidade física e mental dos idosos. Palavras-chave: Envelhecimento, Envelhecimento Ativo, Institucionalização, Animação Sociocultural. III Abstract The progressive demographic aging is one of the most important features of contemporary societies. If, on the one hand, longevity is a remarkable social progress, on the other hand, is a challenge due to its social, economic, political and cultural. Thus, to confront the aging population, it is urgent that societies create conditions for healthy aging and with quality of life for elderly people that, by several factors, the most of the day are placed in the care of an institution other than their family. Accordingly, in the developed stage in the Social Center of St. Felix da Marinha, it was done a set of socio-cultural activities that promoted the elderly physical welfare, psychological and social aspects of the elderly. It is intended to demonstrate that the social and cultural activities are an important element in promoting a more active and independent life for the elderly. In methodological terms, it was chosen a qualitative methodology with a view to an analysis in-depth of reality to be studied. For this, the data collection techniques used were the document analysis, direct observation and semi-structured interviews. The empirical results show that health problems and loneliness are the main causes of institutionalization of the elderly. In turn, the promotion of active aging in the institutional context is constrained by the missing of financial resources of the institution. Finally, the socio-cultural animation contributes to the maintenance or improvement of physical and mental capacity of the elderly. Key Words: Aging, Active Aging, Institutionalization, Socio-cultural Animation. IV Resumé Le vieillissement progressif est l'une des caractéristiques les plus frappantes des sociétés contemporaines. Si, d'une part, la longévité est un progrès remarquable sociale, d'autre part, est un défi en raison de son environnement social, économique, politique et culturel. Ainsi, étant donné le vieillissement de la population, il est urgent que les sociétés créent des conditions permettant un vieillissement en santé et la qualité de vie des personnes âgées qui, par plusieurs facteurs, passent une grande partie de la journée remis à la garde d'une institution qui n’est pas son famille. En conséquence, le stade développé dans le Centre Social de S. Felix da Marinha, nous avons créé un ensemble de activités socioculturelles qui ont favorisé le bien-être physique, psychologique et social des personnes âgées. Nous avons l'intention de démontrer que l'animation socioculturelle est un élément important dans la promotion d'une vie plus active et autonome des personnes âgées. En termes de méthodologie, nous avons choisi une méthodologie qualitative en vue d'une étude approfondie de la réalité. Pour ce faire, les techniques de collecte de données ont été utilisées pour l'analyse de documents, l'observation directe et entretiens semi-structurés. Les résultats empiriques montrent que les problèmes de santé et la solitude sont les principales causes de l'institutionnalisation des personnes âgées. À son tour, la promotion du vieillissement actif dans le contexte institutionnel est limitée par le manque de ressources financières de l'institution. Enfin, l’animation socioculturelle contribue au maintien ou à l'amélioration de la capacité physique et mentale des personnes âgées. Mots-clés: Vieillissement, Vieillissement Actif, L'Institutionnalisation, D'Animation Socioculturelle. V Agradecimentos O presente trabalho não seria possível sem o apoio e a disponibilidade de todos aqueles que, direta ou indiretamente, contribuíram para a sua realização.  Aos meus pais, por toda a dedicação, esforço e amor. Obrigado pelo apoio e confiança depositada.  Ao Centro Social de S. Félix da Marinha, por me ter acolhido, e em particular, aos idosos da valência centro de dia, pela disponibilidade e carinho sempre manifestado.  À Professora Doutora Isabel Dias, orientadora deste relatório de estágio, pelos ensinamentos que me transmitiu e pelas palavras de incentivo em momentos pontuais de menor segurança.  Ao Luís Fernandes, meu namorado, pelo seu apoio, encorajamento, compreensão, carinho e amor.  Ao João Branco, pelo interesse demonstrado por este trabalho e pelos sábios conselhos.  À Gabriela Teixeira, por todos os momentos que passamos. Agradeço a pura amizade, a partilha constante de emoções e o apoio concedido no decurso deste trabalho.  Ao Marcos Ferreira, um obrigado pelos momentos de alegria e distração.  À Rafaela Teixeira, pela sua alegria contagiante e por todos os momentos de aflição partilhados.  À Mafalda Gomes, pela amizade, compreensão e sugestões ao longo deste trabalho.  À Silvéria Miranda, por me ouvir nas fases de maior devaneio e pelos sábios conselhos em momentos de dúvida.  À Augusta Baldaia, pelo carinho, incentivo e profunda amizade.  À Sara Riboira, pela força transmitida e partilha de momentos difíceis.  À Cláudia Pinho, minha amiga e companheira de licenciatura, um obrigada pelo constante apoio e por todos os bons momentos passados.  À Joana Amorim, pelo interesse demonstrado e pelos momentos de distração.  Ao Vítor Silva e Fernando Costa, pela disponibilidade em me ajudarem com o inglês e francês. VI Índice Introdução 1 Capítulo I – O envelhecimento: algumas considerações 4 1. O fenómeno do envelhecimento demográfico 4 2. O processo de envelhecimento: mitos e estereótipos 10 3. Envelhecimento ativo: a emergência de um novo paradigma 15 Capítulo II – A animação sociocultural em contexto Institucional 20 1. Surgimento e transformação das instituições para a terceira idade 20 2. Animação sociocultural na terceira idade em Centros de Dia 28 Capítulo III – Opções teórico-metodológicas 33 1. O modelo de análise 33 2. Estratégia metodológica 39 Capítulo IV – Caracterização e contextualização do Centro Social de S. Félix da Marinha 44 1. Origem e situação atual do Centro Social S. Félix da Marinha 44 2. Os serviços prestados pela instituição à comunidade 45 3. Recursos humanos do Centro Social S. Félix da Marinha 47 Capítulo V – Apresentação e discussão dos resultados 50 1. Caracterização sociodemográfica 50 2. Retaguarda familiar do idoso institucionalizado 51 3. O processo de inserção no Centro Social de S. Félix da Marinha 55 3.1. Condições e restrições de inserção 55 3.2. Os motivos da inserção 56 3.3. Reações à inserção 57 3.4. As relações sociais do idoso na instituição 58 4. O envelhecimento ativo em contexto institucional 61 VII 4.1. A promoção do envelhecimento ativo pela instituição 62 4.2. Atividades socioculturais desenvolvidas pela instituição 66 Capítulo VI – Estágio: processo e reflexão final 75 1. Atividades desenvolvidas no estágio 75 2. Avaliação global do estágio 78 Considerações finais 80 Bibliografia 84 Sites Consultados 90 Anexos 91 Anexo 1 – Grelha de observação direta 91 Anexo 2 – Grelha de observação da situação de entrevista 93 Anexo 3 – Guião de entrevista semiestruturada para os utentes 94 Anexo 4 – Guião de entrevista semiestruturada para informantes privilegiados da instituição 96 Anexo 5 – Grelha de análise das entrevistas efetuadas à Diretora Técnica e animadora sociocultural 99 Anexo 6 – Grelha de análise das entrevistas realizadas aos utentes 101 Anexo 7 – Plano de atividades socioculturais destinado aos idosos 103 Lista de figuras Figura 1 – Estrutura etária da população na União Europeia, 1990-2060 6 Figura 2 – Pirâmide etária de Portugal, 2005-2010 7 Figura 3 – Índice de envelhecimento por sexo, em Portugal, 1940-2010 8 Figura 4 – Índice de envelhecimento por regiões (NUTS II), em Portugal, em 2010 9 Figura 5 – Distribuição espacial das respostas sociais para os idosos, por concelho, 2010 22 Figura 6 – Evolução das respostas sociais para as pessoas idosas, Portugal, 1998-2010 23 Figura 7 – Evolução da taxa de utilização das respostas sociais para Pessoas idosas, 24 Portugal, 1998-2010 VIII Lista de tabelas Tabela 1 - Dados sociodemográficos dos idosos entrevistados 47 Tabela 2 - Distribuição dos trabalhadores por habilitações literárias 48 Tabela 3 – Distribuição dos trabalhadores por categorias profissionais 49 Tabela 4 - Dados sociodemográficos dos idosos entrevistados 51 7 Figura 2 – Pirâmide etária de Portugal, 2005-2010 Fonte: INE (2012) – Estatísticas demográficas 2010, p.22 Como já foi mencionado, o fenómeno do envelhecimento demográfico está intimamente associado a três fatores: taxas de mortalidade, fecundidade/natalidade e movimentos migratórios. No que diz respeito ao primeiro indicador, podemos verificar que a taxa de mortalidade infantil tem vindo a apresentar níveis cada vez mais baixos, diminuindo de 21,8‰ em 1981 para 2,5‰ em 2010 (INE, 2012). Relativamente à taxa bruta de mortalidade, observa-se um aumento ligeiro de 9,7‰ em 1981 para 10,0‰ em 2010, que pode ser explicado pelo aumento da proporção dos idosos (65 ou mais anos de idade) ao longo das últimas décadas (INE, 2012). Neste domínio, torna-se pertinente abordar um outro indicador, a esperança média de vida à nascença. Assim, no período compreendido entre os anos de 2008-2010, a esperança média de vida à nascença era de 76,1 anos para os homens e 82,0 para as mulheres (INE, 2012). Relativamente ao índice sintético de fecundidade, constatou-se uma diminuição ao longo dos últimos anos, passando de 2,1 em 1981 para 1,37 em 2010 (INE, 2012). Neste âmbito, importa ressalvar que o valor mínimo para a população portuguesa ter capacidade de assegurar a substituição de gerações é de 2,1 filhos. No entanto, este valor já não se verifica desde os anos 1980, mais precisamente desde 1983 (Rosa et al., 2003). Por sua vez, a taxa bruta de natalidade também diminui de 15,4‰ em 1981 para 9,5‰ em 2010 (INE, 2012). No que se refere aos movimentos migratórios, observa-se que entre 2009 e 2010, a taxa de crescimento migratório baixou de 0,1% para 0,0% (INE, 2012). No entanto, importa 8 ressalvar que Portugal, nos últimos 10 anos, apresentou taxas de crescimento migratório positivas (INE, 2012). Em virtude destas alterações, segundo o INE (2012), o índice de envelhecimento4 tem vindo a aumentar nas últimas décadas. No ano de 2010, observou-se que existem 120 idosos por cada 100 jovens. Outro dado que vale a pena reter é o facto de o fenómeno do envelhecimento populacional ser mais acentuado nas mulheres, o que reflete a sua maior longevidade. Nesse sentido, enquanto se verifica a existência de 98 idosos do sexo masculino por cada 100 jovens, constata-se que há 144 idosos do sexo feminino por cada 100 jovens. Figura 3 – Índice de envelhecimento, por sexo, em Portugal, 1940-2010 Fonte: INE (2012) – Estatísticas demográficas 2010, p.22 Por outro lado, segundo o INE (2012), o índice de dependência total5, aumentou de 48,5 em 2005, para 49,9 em 2010. Este valor deriva de duas evoluções opostas no período de tempo considerado: uma diminuição, ainda que ténue, do índice de dependência de jovens (número de jovens em cada 100 indivíduos em idade ativa) de 23,1 para 22,7, acompanhado de um aumento do índice de dependência de idosos (número de idosos em cada 100 indivíduos em idade ativa) de 25,4 para 27,2. Apesar do envelhecimento demográfico ser um fenómeno de âmbito nacional, observa-se que, em 2010, existiam diferenças entre as várias regiões de Portugal. Neste 4 Número de idosos por cada 100 jovens. 5 O índice de dependência total refere-se ao número de jovens e de idosos em cada 100 indivíduos em idade ativa. 9 sentido, conforme se pode observar na figura seguinte, o interior do país é mais envelhecido do que o litoral, sendo o Alentejo a região mais envelhecida (173 idosos por cada 100 jovens), seguida do Centro (153 idosos por cada 100 jovens) e do Algarve (123 idosos por cada 100 jovens). Por sua vez, a região autónoma dos Açores é a que possuí índice de envelhecimento mais jovem (69 idosos por cada 100 jovens), seguida da região autónoma da Madeira (75 idosos por cada 100 jovens) e da região Norte (107 idosos por cada 100 jovens) do país. Figura 4 – Índice de envelhecimento por regiões (NUTS II), em Portugal, em 2010 Fonte: INE (2012) – Estatísticas demográficas 2010, p.32 O aumento da longevidade representa uma conquista das sociedades modernas, no entanto, também constitui um desafio devido às suas implicações sociais, económicas, políticas e culturais. Neste sentido, são grandes os desafios que nos são colocados com vista ao alcance de uma sociedade mais justa e que encare os idosos como indivíduos que ainda têm um papel importante a desempenhar no seio da sociedade. Assim, cabe às sociedades a promoção de um envelhecimento ativo e com qualidade de vida. 10 2. O processo de envelhecimento: mitos e estereótipos Após abordarmos o fenómeno do envelhecimento demográfico que caracteriza as sociedades contemporâneas em geral, e o nosso país em particular, torna-se pertinente abordar, neste ponto, o processo de envelhecimento individual. Segundo Schneider e Irigaray (2008), o processo de envelhecimento só pode ser compreendido a partir da relação que se estabelece entre os diferentes aspetos cronológicos, biológicos, sociais e psicológicos. Relativamente aos aspetos cronológicos, uma das primeiras questões que se coloca é se é possível definir uma idade a partir da qual a pessoa se torna idosa, dada a complexidade do processo de envelhecimento. Neste âmbito, uma das formas de se definir e conceptualizar a velhice é através da idade cronológica, critério que embora redutor é o mais usado. Assim, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Organização das Nações Unidas (ONU), os 65 anos marcam o início da velhice. Por outro lado, alguns gerontólogos, tendo apenas em consideração o fator idade, afirmam que os idosos podem ser subdivididos nas seguintes categorias cronológicas: “idosos jovens” – 65 a 74 anos; “idosos-idosos” – 75 a 84 anos e “muito idosos” – maiores de 85 anos (Imaginário, 2004). Apesar da importância da consideração da idade cronológica na definição da velhice, esta é, por si só, insuficiente para a compreensão do processo de envelhecimento. Aliás “a idade constitui apenas um marcador de passagem do tempo e, enquanto variável explicativa do processo de envelhecimento (idade cronológica) não produz, em si mudanças (…) ” (Fernandes, 2000 cit. por Moniz, 2003:49). Neste sentido, na visão de Schneider e Irigaray (2008), o processo de envelhecimento deve ser compreendido como um processo complexo e composto também pelas seguintes categorias de idade: idade biológica, social e psicológica, caracterizando-as do seguinte modo:  A idade biológica está ligada às modificações corporais e mentais que ocorrem ao longo do desenvolvimento humano, que pode ser perspetivado como um processo que se inicia antes do nascimento do indivíduo e se estende por toda a existência humana;  A idade social refere-se aos papéis sociais e hábitos que os indivíduos adotam em relação aos outros membros da sociedade, sendo fortemente influenciado pela cultura em que estes se inserem; 11  A idade psicológica diz respeito às capacidades de natureza psicológica que os indivíduos usam em relação às mudanças de ambiente, onde se incluí, a inteligência, os sentimentos, a memória e as motivações. Nesta lógica, o processo de envelhecimento não pode ser definido apenas por critérios cronológicos. É preciso ter em conta que este é um fenómeno biológico, psicológico e social que atinge o ser humano na plenitude da sua existência, altera a sua relação com o tempo, o seu relacionamento com o mundo e a sua própria história (Teixeira, 2006). O envelhecimento enquanto fenómeno biológico está relacionado com as modificações nas estruturas e funções orgânicas e mentais do corpo devido aos efeitos da idade avançada, o que faz com que todas as funções fisiológicas do indivíduo comecem a diminuir (Berger; MaillouxPoirier, 1995). Neste sentido, na perspetiva de Moody (2006), o indivíduo está mais suscetível de ter uma doença específica ou de morrer. O declínio das funções fisiológicas do organismo durante o processo de envelhecimento resulta da conjugação de fatores intrínsecos6 e extrínsecos7 ao indivíduo (Berger; MaillouxPoirier, 1995). Para além disso, a diminuição das funções fisiológicas é um processo normal e não um sinal de doença, sendo que a generalidade das pessoas idosas consideram-se saudáveis (Idem). Em termos biológicos pode-se ainda fazer uma distinção entre o envelhecimento normal (processo de senescência normal) e o processo de envelhecimento patológico (aparecimento, com a idade, de doenças, mas que se mantêm potencialmente reversíveis). Neste âmbito, o aparecimento ou não de doenças vai marcar a forma como o indivíduo envelhece. (Idem, Ibidem) Por sua vez, o envelhecimento psicológico refere-se às mudanças nos processos cognitivos e ao desenvolvimento de competências comportamentais e emocionais que permitem ao indivíduo adaptar-se ao processo de envelhecimento e senescência (Schroots; Birren, 1980, cit. por Paúl. 2005). As alterações psíquicas que ocorrem com o passar da idade podem levar a que o indivíduo tenha “dificuldade em se adaptar aos novos papéis sociais; falta de motivação e dificuldade para planejar o futuro, necessidade de trabalhar as perdas orgânicas, afetivas e sociais; dificuldades em se adaptar a mudanças rápidas; alterações psíquicas que exigem 6 De acordo com Berger e Mailloux-Poirier (1995), fatores intrínsecos referem-se às características individuais dos indivíduos, tais como, o sexo, a raça, a idade, a personalidade, entre outros. 7 Segundo Berger e Mailloux-Poirier (1995), fatores extrínsecos referem-se ao clima, medidas de higiene, educação, entre outros. 12 tratamento especializado; depressão, hipocondria, baixa autoimagem e autoestima” (Zimerman, 2000:25). Assim, torna-se importante que o idoso ultrapasse os seus limites físicos e cognitivos e desenvolva novos objetivos e metas pessoais, até porque a velhice é um ponto de viragem na existência do indivíduo, em que os mecanismos de adaptação habituais já não permitem fazer face às diversas mudanças existentes e que são muito ameaçadoras, e, sobretudo, geradoras de stress (Berger; Mailloux-poirier, 1995). Por outro lado, importa destacar que o envelhecimento psicológico, ao contrário do envelhecimento biológico, não é sinónimo apenas de declínios ou perdas, pois certas funções cognitivas (como a capacidade de aprendizagem) quando exercitadas, podem manter-se ou progredir (Pimentel, 2001). Paralelamente às mudanças físicas e psicológicas que assinalam o processo de envelhecimento, estão associadas as alterações ao nível dos papéis sociais. De facto, os processos de envelhecimento biológico, psicológico e social não ocorrem de forma independente. Neste sentido, um dos aspetos que marca o envelhecimento social é a entrada do indivíduo na reforma. Com efeito, a reforma implica a perda de papéis sociais e profissionais (Oliveira, et al., 2006), o que leva a que o indivíduo disponha de mais tempo livre, se confronte com perdas de relacionamentos sociais com colegas de trabalho, perdas financeiras e sinta dificuldades em se adaptar ao convívio mais prolongado com a família (Guimarães; Grubits, 2003). Deste modo, a reforma constitui uma etapa de transição que pode ameaçar a estabilidade emocional do indivíduo e a sua identidade como pessoa e ser social (Marchi et al., 2010). Uma das formas de minimizar os impactos da reforma na vida do indivíduo reside na promoção do envelhecimento produtivo no seio da sociedade, ou seja, promover a existência de atividades satisfatórias e significativas em que o idoso esteja envolvido de forma estruturada e continuada e que tenha impacto positivo na sua vida, sendo que neste âmbito podemos destacar o trabalho sénior (Gonçalves, et al., 2006). Por seu turno, a velhice também implica mudanças nas relações familiares e nas redes sociais, por isso, torna-se importante que o idoso mantenha relacionamentos sociais tanto com os amigos como com a família, pois são importantes para o seu bem-estar físico e mental (Marchi, et al., 2010). O processo de envelhecimento constitui, então, um fenómeno universal e inevitável que decorre desde o nascimento e ao qual se juntam, como já foi referido, alterações físicas, 13 sociais e psicológicas no indivíduo, sendo estas diferenciais, pois “de acordo com o nível em que ele se situa (biológico, sociológico e psicológico), a sua velocidade e a sua gravidade são extremamente variáveis de indivíduo para indivíduo (Fontaine, 2000:15). Neste sentido, podese afirmar que o processo de envelhecimento é diferencial, isto é, cada indivíduo envelhece de uma forma particular. No entanto, apesar de o envelhecimento ser um fenómeno universal, são poucos os conhecimentos sobre este processo, o que leva à criação de mitos e a uma visão estereotipada por parte de muitos indivíduos (Berger e Mailloux-Poirier, 1995). Nas sociedades atuais, um mito ainda muito comum é o da pessoa idosa como um sujeito assexuado, neutro e sem o direito de se expressar sexualmente (Zimerman, 2000). Este mito é sem dúvida negativo para aqueles que envelhecem e marca a forma como os idosos vivenciam a sua vida sexual. Muitas vezes, os “velhos que têm vida sexual ativa (…) envergonham-se de admiti-lo” (Idem:43), escondendo, assim, um aspeto perfeitamente natural na vida do ser humano. Contudo, importa ressalvar que este mito aos poucos tem vindo a ser desconstruído. Aliás, já existem alguns Lares que permitem que os idosos convivam no mesmo aposento. Outro mito, bem enraizado, é o que encara os idosos como um grupo homogéneo. Tal não é verdade, pois os idosos não envelhecem todos da mesma forma. Como refere Paúl (1997:21) “existem idosos e idosos e que, qualquer um deles carrega consigo um enorme peso correspondente a toda a sua história de vida, determinada quer pelo seu património genético, quer pelo seu património psico-social”. Neste sentido, devemos recusar a visão de uniformidade para os idosos, pois nem todos são dependentes, infelizes, doentes e menos produtivos que os jovens, no que se refere ao trabalho. Relativamente aos estereótipos, um estudo levado a cabo por estudantes de gerontologia da Universidade de Montréal, permitiu identificar os seguintes estereótipos mais frequentes relativamente aos idosos: os idosos divertem-se e gostam de rir; temem o futuro; gostam de jogar às cartas e outros jogos similares; gostam de conversar e de contar as suas recordações; são pessoas doentes e tomam muitos medicamentos; fazem raciocínios senis; gostam de depender dos filhos; são relativamente limpos e não se preocupam com a sua aparência; são muito religiosos e rezam muito; são muito sensíveis e inseguros; são muito frágeis para fazer exercício físico e são quase todos pobres (Champagne; Frenete, 1985 cit. por Berger; MaillouxPoirier, 1995:67-68). A presença destes mitos e de estereótipos negativos numa sociedade que deifica a juventude e a beleza, causam uma enorme perturbação nos idosos pois negam o seu processo 14 de crescimento e impedem-nos de reconhecer as suas potencialidades (Berger e MaillouxPoirier, 1995). Por sua vez, a existência de mitos e estereótipos sobre o envelhecimento potenciam o desenvolvimento de atitudes negativas face à velhice e aos idosos, com destaque para os fenómenos de gerontofobia8, idadismo9 e infantilismo10. Os idosos são bastante sensíveis e vulneráveis às atitudes e opiniões dos outros e à atenção que estes dão aos seus gestos e feitos. Mesmo que grande parte dos idosos considere a velhice tal como ela é, ou seja, uma perda de saúde e de algumas faculdades cognitivas, e que esta perceção lhes permita negar os preconceitos negativos e a imagem de indigência relacionada com o envelhecimento, muitos idosos assumem, sem se questionar, os rótulos que lhes são atribuídos: velho, vulnerável, senil, entre outros (Idem). Neste sentido, é de extrema importância existir uma mudança de mentalidades, uma mudança não só na sociedade, mas também ao nível do idoso. Apesar do conjunto de mudanças físicas, sociais e psicológicas que ocorrem ao longo do processo de envelhecimento, o idoso deve ser encarado como um ser dotado de sabedoria pois possuem anos de formação, de crescimento, de desenvolvimento e amadurecimento (Rodrigues, 2008). A velhice tem que ser perspetivada como o início de uma nova etapa da vida, que, a ser bem preparada e estimulada, pode ser promissora em termos de sonhos, realização de projetos e planos. Se deixarmos de parte os mitos e preconceitos associados ao envelhecimento e à velhice e considerarmos o potencial de sabedoria e experiência acumulada pelo idoso, isto ajudá-lo-á a ter uma imagem mais positiva de si mesmo. Neste sentido, o idoso deve ser aceite como um ser humano ativo, saudável, participativo, em suma, uma pessoa com vontade de aprender, capaz, que quer e procura a alegria, o prazer e a felicidade (Idem). 8 Gerontofobia corresponde ao medo irracional de tudo quanto se relaciona com o envelhecimento e com a velhice e manifesta-se por comportamentos desfavoráveis e negativos, pela recusa, apatia e indiferença (Berger e Mailloux-Poirrier, 1995:65). 9Idadismo reporta-se a todas as formas de descriminação com base na idade (Berger e Mailloux-Poirier, 1995:66). 10Infantilismo consiste numa atitude que se manifesta normalmente pelo tratamento por tu, pela demasiada simplificação das atividades sociais e/ou recreativas e pelas organizações de programas de atividades que não correspondem às necessidades dos indivíduos (Berger e MaillouxPoirier, 1995:66). 15 3. Envelhecimento ativo: a emergência de um novo paradigma Vimos que o progressivo envelhecimento demográfico constitui um dos traços mais marcantes das sociedades contemporâneas. Se, por um lado, a longevidade representa um notável progresso social, por outro, impõe grandes exigências económicas, sociais, políticas e culturais. Assim, perante essas exigências, em Abril de 2002, na Segunda Assembleia Geral sobre o Envelhecimento, que teve lugar em Madrid, os nossos Governos lançaram o desafio para a construção de um Plano Internacional de ação para o Envelhecimento, plano esse que se “dirigia em três direções fundamentais: as pessoas de idade e o desenvolvimento; a promoção da saúde e do bem-estar na velhice e a criação de ambientes emancipadores e propícios” (Cruz, 2008:14). Neste âmbito, convém ressalvar que esta urgência na criação de um Plano não foi novidade, já que em 1982, as Nações Unidas tinham estabelecido o Plano de Viena de ação para o envelhecimento e, posteriormente em 1991, foram estabelecidos os princípios das Nações Unidas para as pessoas idosas que se organizavam em 5 dimensões: independência, participação, cuidados, realização pessoal e dignidade (Idem). Por conseguinte, com base nas conclusões resultantes dos encontros acima referidos, a Organização Mundial da Saúde, introduziu o conceito de envelhecimento ativo, definido como o processo pelo qual se otimizam as oportunidades de bem-estar físico, social e mental ao longo da vida, com o objetivo de aumentar a esperança de uma vida saudável, a produtividade e a qualidade de vida para todos os indivíduos que estão envelhecendo, incluindo aqueles que se encontram incapacitados fisicamente e precisam de cuidados específicos (OMS, 2005). Este conceito estabelece assim um novo paradigma da velhice, em que esta deixa de ser sinónimo de exclusão social e incapacidade, passando a ser sinónimo de inclusão social e actividade. A noção de envelhecimento ativo aplica-se tanto a indivíduos como a grupos populacionais e existem várias formas de participação ativa dos idosos na sociedade. Nesse sentido, uma dessas formas refere-se ao voluntariado, área onde os seniores ocupam já uma faixa importante. Geralmente, o voluntariado exercido pelos idosos focaliza-se na cultura (como guias de museu), no ensino (Universidade Seniores e cursos livres) e na ação social/humanitária e constitui um importante elemento para a manutenção do bem-estar e da qualidade de vida na velhice (Jacob, 2008). Neste âmbito, devemos igualmente destacar o papel das Universidades Seniores, que surgem, segundo a Associação Rede de Universidades da Terceira Idade (RUTIS), com o 16 intuito de valorizar e inserir os idosos na sociedade, bem como diminuir o sedentarismo e inatividade que a reforma propicia, tornando-os mais ativos. Para além disso, as artes e as atividades espirituais constituem outros domínios, onde os idosos podem participar ativamente na sociedade (Jacob, 2008) Por outro lado, o envelhecimento ativo também constitui um instrumento de participação económica. Neste âmbito, o conceito de envelhecimento ativo foi adaptado pela Estratégia Europeia para o Emprego (EEE) e é definido como “o conjunto de orientações e ações de natureza política que visam assegurar uma maior participação dos grupos etários mais velhos ainda em idade ativa” (Pestana, 2003:7) Assim, no domínio da Estratégia Europeia para o Emprego, a promoção do envelhecimento ativo constituiu uma linha orientadora da política de emprego dos EstadosMembros, no qual foram estabelecidas duas metas a alcançar até 2010: “elevar para 50% a taxa média de emprego de homens e mulheres com 55-64 anos e aumentar gradualmente em cerca de 5 anos a idade media efetiva com a qual as pessoas deixavam de trabalhar.” (Idem:7) Estas metas tinham como finalidade a redução dos efeitos económicos e sociais das atuais tendências demográficas nos sistemas de Segurança Social e nos mercados de trabalho nacionais, principalmente no que se refere ao desequilíbrio entre ativos e inativos, devido ao envelhecimento da população ativa (Idem, Ibidem). Importa ainda salientar que, após o ano de 2010, o aumento/prolongamento da participação dos indivíduos no mercado de trabalho continua a ser um objetivo a alcançar pela Estratégia Europeia para o Emprego. A nível individual, o envelhecimento ativo pode ser definido como o conjunto de ações e atitudes que os indivíduos podem adotar de forma a prevenir ou adiar as dificuldades associadas ao processo de envelhecimento. Neste âmbito destacam-se atitudes como a adoção, ao longo da vida, de hábitos alimentares saudáveis; realização de jogos intelectualmente estimulantes (xadrez, palavras-cruzadas, etc.); prática de exercício físico regular; escrever, entre outros (Jacob, 2008). Para além disso, o envelhecimento ativo também pode ser promovido nas instituições de acolhimento de idosos. De um modo geral, este tipo de instituições são espaços tendencialmente autoritários e de pouca privacidade. Para além disso, por vezes, existem situações em que a participação do idoso na vida da instituição é quase nula dada a omnipotência da organização sobre todos os aspetos da vida comunitária (Idem). Deste modo, torna-se necessário dar voz às preferências e gostos dos idosos. Por exemplo, estes podem participar na elaboração da ementa, escolherem a hora de acordarem e de se deitarem, entre outros aspetos (Idem, Ibidem). 23 No que diz respeito à evolução das respostas sociais entre 1998 a 2010, observa-se que o serviço de apoio domiciliário é a valência que apresentou um maior e mais estável crescimento (92,9%). Por seu turno, o serviço de Residência e Lar de Idosos também conheceu um forte avanço com uma taxa de crescimento de 56,6%, assim como o serviço de Centro de Dia, com um aumento de 47,1% (Carta Social, 2010:18). A evolução positiva destas três valências resulta do forte investimento público que tem sido realizado nesta área, motivado, em parte, pelos seguintes programas:  Programa de Alargamento da Rede de Equipamentos Sociais (PARES);  Programa de Apoio ao Investimento em Equipamentos Sociais (PAIES);  Programa de Apoio ao Investimento a Respostas Integradas de Apoio Social (PAIRIAS);  Medida de Apoio à Segurança dos Equipamentos Sociais (MASES). Figura 6 – Evolução das respostas sociais para as pessoas idosas, Portugal, 1998-2010 Fonte: Ministério do Trabalho e da Segurança social (2011) – Carta Social – Rede de serviços e equipamentos 2010, p.18 No que concerne à taxa de utilização das respostas sociais para os idosos no ano de 2010, constatamos que a Residência e Lar de idosos e o Serviço de Apoio Domiciliário são as valências que evidenciam as taxas de utilização mais elevadas com 95,3% e 83,9% respetivamente (Carta Social, 2010:18). Por outro lado, torna-se pertinente referir que, ao longo dos últimos anos, a taxa de utilização dos serviços de Residência e Lar de idosos, Centro de Dia e o Apoio domiciliário tem decrescido. 24 Figura 7 – Evolução da taxa de utilização das respostas sociais para Pessoas idosas, Portugal, 1998-2010 Fonte: Ministério do Trabalho e da Segurança social (2011) – Carta Social – Rede de serviços e equipamentos 2010, p.19 Apesar do aumento e da diversidade dos serviços acima referidos, estes ainda são insuficientes para satisfazer todos os idosos que necessitam de ajuda. As listas de espera para os Lares de Idosos são extensas, e os outros serviços são, por um lado, ainda desconhecidos por grande parte dos indivíduos e, por outro, a sua eficácia depende do envolvimento de outros agentes, tais como, a família e amigos ou do grau de autonomia que o idoso tenha (Pimentel, 2001). Após uma breve abordagem sobre as diferentes formas de apoio formal de que os idosos podem usufruir, para o nosso estudo interessou-nos particularmente a realidade dos Centros de Dia. De uma forma detalhada, o Centro de Dia constitui um recurso social de utilização diurna, alternativo à institucionalização e orientado para idosos que sofram de algum grau de dependência (Cid e Dapía, 2007). Para além disso, este serviço visa apoiar as necessidades básicas e socioculturais dos idosos, promovendo a sua autonomia e a permanência no meio sociofamiliar (Benet, 2003). Segundo Quaresma (1996), os objetivos do Centro de Dia dividem-se em três eixos fundamentais:  Prestação de serviços, de modo a satisfazer as necessidades básicas dos idosos;  Prestação de apoio psicossocial, nomeadamente, ao nível da adaptação do idoso a esta nova fase da vida e na estimulação ao acesso às múltiplas formas 25 de ajuda adequadas à sua situação, que não estejam acessíveis na comunidade local e se situem no âmbito deste tipo de equipamento social;  Prevenção do isolamento, através da implementação e difusão de ações que promovam as relações interpessoais entre os idosos. Para além do que foi mencionado, consideramos que os Centros de Dia também devem promover a qualidade de vida dos idosos, sendo que a mesma, depende da relação de um conjunto complexo de fatores materiais, organizacionais e relacionais. Assim, no que concerne aos fatores materiais, os Centros de Dia devem dispor de espaços adaptados às capacidades físicas dos idosos. No entanto, este aspeto por si só é insuficiente na promoção da qualidade de vida dos idosos, se os mesmos, apresentam um “ambiente humano (…) frio e impessoal, as relações interpessoais são controladas e reduzidas ao mínimo, e as regras são de tal forma rígidas e despersonalizadas que o idoso não tem possibilidade (…) de desenvolver as suas capacidades (…) ” (Pimentel, 2001:75). Assim, torna-se fundamental que os funcionários dos Centros de Dia respeitem e promovam a dignidade de cada idoso, sendo que o mesmo, deve ser considerado na sua individualidade e como sujeito de direitos vivendo uma nova etapa de vida do seu ciclo vital. Para além disso, os Centros de Dia não devem ter uma estrutura demasiado rígida e impessoal. As razões adjacentes à inserção dos idosos no Centro de Dia, constitui, outro aspeto que consideramos pertinente abordar. Deste modo, uma das razões diz respeito aos cuidados de saúde prestados ao idoso. Neste domínio, os Centros de Dia disponibilizam acompanhamento e atenção para os idosos que evidenciem problemas de saúde, concedendo cobertura a este nível em regime diurno e a um preço mais baixo em comparação com os Lares para Idosos e o serviço de Apoio ao Domicílio (Benet, 2003). Ainda a propósito da saúde, destacamos o cuidado que existe, geralmente, nos Centros de Dia, com a alimentação e o exercício físico dos idosos. No que refere à alimentação, os Centros de Dia procuram satisfazer as necessidades diárias de alimentação, de um modo equilibrado e saudável (Idem). Por outro lado, a atividade física controlada potencia uma melhor qualidade de vida dos idosos, uma vez que contribui para a manutenção, por um maior período de tempo, da sua independência e autonomia (Teixeira, 2008). Outra razão refere-se á dificuldade dos familiares em cuidar do idoso. Não há qualquer dúvida que o apoio prestado pelos familiares é, extremamente benéfico para o idoso e muitos consideram que cuidar de um idoso é emocionalmente gratificante e uma oportunidade de enriquecimento pessoal (Sousa et al., 2004). No entanto, a sobrecarga que decorre da tarefa de 26 cuidar de um idoso pode afetar diversos aspetos da vida do cuidador. Ao nível da saúde, a prestação de cuidados durante um longo período de tempo pode ser física e psicologicamente esgotante, favorecendo o aparecimento de cansaço físico, sensação de deterioração gradual do estado de saúde, depressão e ansiedade no familiar cuidador (Sousa et al., 2004). Por outro lado, cuidar de um idoso que apresente algum grau de dependência exige muito tempo e dedicação, o que pode levar a uma diminuição do tempo de lazer do cuidador. Também é bastante frequente que o cuidador estabeleça menos relações sociais e fragilize as que já tinha (Idem). Para além disso, o cuidador pode ter dificuldade em conciliar a actividade profissional com a prestação de cuidados ao idoso (Idem, Ibidem). Por conseguinte, os familiares cuidadores tendem a procurar o Centro de Dia com o intuito de atenuar os efeitos negativos acima mencionados. Uma terceira razão refere-se aos aspetos económicos. Segundo Vaz et al. (2003), a assistência fornecida pelo Centro de Dia protege os idosos contra eventuais necessidades económicas, fazendo-os sentir mais seguros no que concerne à satisfação de algumas das suas necessidades básicas. Por último, temos as razões de ordem emocional. Neste âmbito, de acordo com um estudo efetuado por Benet (2003), os idosos que vivem sozinhos têm mais dificuldade em encontrar um sentido para esta nova etapa do seu ciclo vital, precisando de um projeto de vida motivador. Nesse sentido, a inserção num Centro de Dia, abre possibilidades para que estes encontrem um novo sentido para a vida e se sintam integrados. A entrada num Centro de Dia pode originar nos idosos reações de angústia, medo, revolta, ansiedade e insegurança. Tal se deve ao facto de, por um lado, a inserção do idoso num Centro de Dia, muitas vezes, ser interpretada (também pelos mesmos) como demonstração de desinteresse do idoso pelos seus familiares, e por outro, os idosos terem que se «familiarizar» com um conjunto de situações completamente novas, tais como, novas rotinas, novas pessoas, entre outros (Sousa et al, 2004). Perante estas possíveis consequências negativas, torna-se fulcral que os idosos se tornem, cada vez mais, atores principais no que se refere à inserção no Centro de Dia. Ainda a propósito da inserção do idoso no Centro de Dia, existem alguns valores e princípios que os indivíduos devem ter em consideração na sua prática profissional11. Nesse sentido, destacamos a dignidade pelo idoso e o cuidado com as palavras utilizadas; o respeito da individualidade do idoso, pois cada idoso possui características biológicas e experiências 11 Valores e princípios adaptados do Manual de Boas práticas, 2005 27 de vida que definem a sua identidade e a distinguem dos demais; a autonomia, sendo que a direção e os profissionais da instituição devem encorajar o idoso a ser responsável por si próprio e a executar ele mesmo todas as tarefas que deseje e que seja capaz; confidencialidade, que remete para o respeito, por parte dos profissionais, pela vida dos idosos, não revelando informações sobre o mesmo; a igualdade, sendo que os profissionais não podem privilegiar ou prejudicar nenhum utente em função da idade, sexo, religião, orientação sexual, cor da pele, opinião política, situação económica, situação social ou condição de saúde e a participação, que remete para a estimulação, por parte dos profissionais, da participação dos idosos na vida da instituição. Dessa forma, deve existir um livro de sugestões e a direção deve tomar a iniciativa de pedir opinião aos idosos sobre o funcionamento da instituição. Em suma, dada a atual situação demográfica e social de Portugal, torna-se essencial que o número de equipamentos sociais destinados aos idosos continue a aumentar, de modo a responder às necessidades de todos os idosos. Por outro lado, os mesmos devem oferecer todo um conjunto de serviços que potencie a qualidade de vida do idoso. 28 2. Animação Sociocultural na terceira idade em Centros de Dia Na década de 1960, a animação sociocultural, surgiu pela primeira vez em França devido à “crise de identidade urbana, à descida da qualidade de vida e à atonia social provocada pelo crescimento acelerado e pela concentração de grandes massas de população sem equipamentos culturais nem estruturas associativas” (Trilla, 2004:171). Nesse contexto, a animação sociocultural visava, o preenchimento do tempo livre de um modo criativo e a promoção da participação ativa e voluntária dos indivíduos na melhoria da qualidade de vida e no desenvolvimento comunitário (Idem). Expostos os motivos que justificaram a emergência da animação sociocultural, importa destacar que a mesma, como qualquer conceito inovador, surgiu no centro de uma forte conflitualidade teórica. Tal, deveu-se, por um lado, à diversidade e complexidade das atividades existentes no campo sociocultural (atividades de lazer e práticas culturais em geral, instituições socioculturais, incluindo o próprio Estado, etc.) (Lopes, 1993). E, por outro lado, ao carácter polissémico do conceito, o que motivou o aparecimento de diferentes definições sobre o mesmo. Assim, para as correntes anglo-saxónicas de raiz funcionalista, a animação sociocultural visava a regulação do sistema social, mediante a ação de mecanismos estruturais conducentes a uma «harmonia espontânea» (Idem). Por sua vez, para os marxistas, a animação sociocultural apenas tinha sentido se relacionada a uma libertação total com vista à transformação radical das estruturas económicas e políticas (Idem, Ibidem). Finalmente para os teóricos mais influenciados pela Filosofia das Luzes (seja a corrente laica com raízes no socialismo utópico e marcada pela «educação popular, seja a corrente personalista de inspiração cristã), a animação sociocultural ultrapassou as meras relações interpessoais, abarcando, igualmente, as relações coletivas (Idem, Ibidem) Mais recentemente, as diversas definições tendem a relacionar a animação sociocultural com a participação ativa dos indivíduos nas atividades culturais do meio em que vivem. Assim, Ander-Egg (2001) define a animação sociocultural como um conjunto de técnicas sociais que, baseadas na participação ativa dos indivíduos, tem por objetivo a promoção de atividades práticas e voluntárias que se desenvolvam no seio de um determinado grupo ou comunidade e manifestem os diversos âmbitos das atividades socioculturais que visam a promoção da qualidade de vida. Por sua vez, Trilla (2004:26) define a animação sociocultural como o “conjunto de ações realizadas por indivíduos, grupos ou instituições numa comunidade (ou sector da mesma) e dentro do âmbito de um território concreto, com o objetivo de promover nos seus membros uma atitude de participação ativa no processo do seu 29 próprio desenvolvimento quer social quer cultural”. Por seu lado, Besnard (1991), descreve a animação sociocultural como um conjunto de esforços que estimulam a participação ativa dos indivíduos nas atividades culturais. Não obstante o carácter polissémico deste conceito, a animação é, sem dúvida, um campo de cruzamento do social e do cultural. Não se consegue separar os dois termos, uma vez que toda a ação social é cultural e vice-versa. Aliás, a ação sociocultural é “fundamental para a compreensão da sociedade enquanto todo em permanente mutação e não como dado fixo e previamente determinado” (Lopes, 1993:80). O desenvolvimento da animação sociocultural apresenta diferentes contornos consoante o paradigma em que a mesma se insere. Nesse sentido, no âmbito do paradigma tecnológico, a animação sociocultural afigura-se como uma “tecnologia social imaterial, de planeamento, em que as diversas formas de administração e de gestão da cultura, pretendem a equiparar a uma engenharia cultural” (Trilla, 2004:57). Neste domínio, verifica-se a ausência de uma política cultural explícita, pelo que, a participação dos indivíduos, a formação de uma vontade coletiva e a constituição da democracia como participação da cultura devem redefinir-se a uma visão liberal do Estado e das instituições que o articulam. Para além disso, a pretensão de «racionalidade» na qual os animadores socioculturais se inspiram para promover a articulação entre os produtos culturais e os destinatários, impõe, por parte dos mesmos, a adoção de estratégias de oferta cultural competentes e eficientes. Por outro lado, a população constitui apenas um destinatário passivo das práticas culturais. O desenvolvimento da animação sociocultural assente nestes postulados não é muito seguido pelos diversos teóricos (idem) No seio do paradigma interpretativo, a animação sociocultural representa uma opção relevante na promoção e no desenvolvimento das interações sociais. Por conseguinte, a cultura deve ser significativa para os que a vivem e interpretam. A animação não é encarada como um meio para atingir um fim, mas um fim em si mesmo, capaz “de melhorar os significados e o alcance de qualquer cultura, incluindo a sua criação, difusão e avaliação pública” (Idem, Ibidem:59). Neste âmbito, a imagem da animação sociocultural é concebida como formação cultural e praticada como um modo de aperfeiçoamento pessoal e coletivo. Para além disso, pressupõem-se que os indivíduos participem de forma ativa nas atividades socioculturais promovidas pelas políticas locais. No domínio do paradigma dialético, a animação sociocultural constitui-se como uma prática social e política mediatizada pelas realidades socioeconómicas e históricas. A este nível, a animação cultural é perspetivada como democracia cultural, até porque o seu último 30 sentido é a democracia como “envolvimento duradouro e estável na resolução de problemas quotidianos, alargando a participação dos cidadãos a todos os espaços e tempos possíveis; empresas, escolas, povoações, zonas residenciais, centros cívicos, etc.” (Trilla, 2004:61). No que refere às modalidades de intervenção da animação sociocultural, é possível identificarmos, segundo Ventosa (2006), três principais modalidades: a cultural, social e educativa. Assim, enquanto modalidade cultural, a animação sociocultural surge como entidade criadora e gestora de um produto cultural, artístico e criativo, e tem como principais objetivos, o desenvolvimento cultural; a criação de espaços culturais; a igualdade de oportunidades em relação à cultura e o incremento da inovação cultural (Trilla, 2004:27). Na sua dimensão social, a animação sociocultural constituí um meio para superar desigualdades sociais, dar liberdade à expressão dos mais excluídos e marginalizados, estimular o desenvolvimento social e comunitário, reconstruir a consciência coletiva e melhorar a qualidade de vida dos indivíduos (Idem). Por outro lado, na sua dimensão educativa, a animação sociocultural visa motivar os indivíduos para a educação e formação inicial e ao longo da vida e fomentar o espírito crítico dos mesmos (Jacob, 2007). Neste âmbito, de acordo com Ventosa (2009), um profissional de animação deve cumprir três requisitos básicos: a intencionalidade pedagógica, no qual se parte do princípio de que o desenvolvimento e a prática de atividades socioculturais tem uma função tanto recreativa como recreadora, uma vez que possibilita a criação de condições de desenvolvimento integral do indivíduo e do grupo e potencia a participação ativa dos mesmos nos projetos socioculturais; a metodologia animadora, em que se deduz que o trabalho do animador é fundamentalmente procedimental, dado que a participação ativa dos indivíduos enquanto objetivo a cumprir é transversal a todo o seu trabalho e a suficiente qualificação, sendo que os profissionais de animação devem ter uma especial preparação teórica dada a complexidade e interdisciplinaridade das tarefas de animação. A animação sociocultural é dirigida a diferentes gerações, no entanto, para o nosso estudo interessa-nos, em particular, analisar a animação sociocultural para a terceira idade nos Centros de Dia. Segundo Jacob (2007), a animação sociocultural na terceira idade surge como resposta à diminuição ou ausência de atividades sociais e das relações sociais estabelecidas pelos idosos. Atualmente, a animação de idosos, sempre que existam recursos financeiros para tal, tem vindo a estar no centro das prioridades dos Centros de Dia. Efetivamente, animação sociocultural pode desempenhar um importante papel na qualidade de vida dos idosos que frequentam o Centro de Dia uma vez que permite ocupar os seus tempos livres, estimular as suas capacidades físicas e/ou cognitivas, fomentar os contactos sociais entre os 31 mesmos, potenciar o envelhecimento ativo e estabelecer um vínculo entre o passado, o presente e o futuro (Benet, 2002; Jacob, 2007). Dado que os idosos constituem um grupo heterogéneo, segundo Fernandes (2008:38), no processo de animação com idosos, deve-se ter em conta os seguintes aspetos:  Compreender o grau de autonomia do idoso e sempre que possível, ajudá-lo a considerar o seu estado, não como fator limitativo, mas sim como potenciador da realização de tarefas, que de outro modo não concretizaria;  Enquadrar o idoso face às suas características e face ao meio em que está inserido;  Perspetivar com o idoso os seus gostos pessoais e encontrar tarefas que potencie no idoso um processo de evolução ou manutenção das suas capacidades atuais;  Estabelecer com o idoso um calendário de execução de cada tarefa, implicando-o no processo, como importante, quer para a concretização da actividade, quer para ele próprio;  Encontrar com o idoso, alternativas para a realização de tarefas, que apesar de serem indicadas para aquele idoso, possam não surtir o efeito desejado;  Avaliar com o idoso o processo em que está envolvido. Nesse sentido, o processo de animação deve ser individual, pois cada idoso tem sempre um ritmo próprio, devendo o animador enquadrar o idoso no coletivo. Para além disso, um programa de animação de idosos deve ser criado com os idosos, fazendo-os protagonistas e levando-os à partilha das suas memórias, vivências, saberes e inquietações (Trilla, 2004). Por outro lado, o animador antes de elaborar o plano de atividades deve realizar uma avaliação física, psicológica e social de cada um dos idosos, no sentido de compreender quais as capacidades e motivações reais de cada idoso relativamente às atividades propostas (Jacob, 2007). Segundo Jacob (2007), existem várias atividades que os animadores podem desenvolver junto dos idosos, tais como:  Atividades físicas (nadar, caminhar…);  Atividades cognitivas (ler, escrever…); 32  Atividades de expressão plástica (desenho, pintura…);  Atividades de expressão e comunicação (dança, canto…);  Atividades socioculturais (visitas a museus, teatro…);  Atividades espirituais (debates, reuniões entre os idosos). Estas atividades na terceira idade são bastante importantes, pois permitem atenuar os efeitos decorrentes do processo de envelhecimento ao nível físico, psicológico e social nos idosos. Nesse sentido, torna-se fundamental que os animadores procurem inserir na rotina dos Centros de Dia a prática das mesmas. Para além disso, potenciam a inclusão social dos idosos, pois os mesmos sentir-se-ão integrados num grupo e valorizados (Benet, 2002). Para que as atividades socioculturais surtam os efeitos referidos torna-se fulcral que os idosos se sintam motivados em participar nas mesmas. Nesse âmbito, o animador sociocultural desempenha um importante papel, pois cabe ao mesmo a criação de condições que orientem a vontade de participação dos idosos nas atividades propostas; estabelecer um clima de confiança junto dos idosos; ajuda-los a vencer os seus medos e renovar a sua confiança e valorização; utilizar um vocabulário acessível e solicitar a participação dos mesmos (Jacob, 2007). Para além disso, Zimerman (2000), refere que não se deve infantilizar os idosos; não os tratar como doentes e/ou incapazes; preservar a sua independência e autonomia e trabalhar as suas perdas e vitórias. Por outro lado, após o desenvolvimento de algumas atividades socioculturais, tornase, igualmente importante, que o animador avalie a evolução de cada idoso e o próprio processo de animação, deixando, deste modo, a “avaliação de ser um «monstro» que muitas vezes os técnicos descuram desnecessariamente” (Fernandes, 2008). Por fim, segundo Benet (2002), a animação sociocultural enquanto programa de intervenção social nos Centros de Dia, tenderá a desempenhar um papel cada vez mais importante na ocupação dos tempos livres dos idosos, evitando, deste modo, situações de isolamento e depressão nos idosos. 39 2. Estratégia metodológica Qualquer trabalho de cariz científico exige uma clarificação quanto à seleção dos métodos mais adequados para abordar, de forma crítica, a realidade social. No domínio das Ciências Sociais não existe um caminho único para a investigação. Nesse sentido, o investigador tem à disposição um conjunto de orientações metodológicas pelas quais deverá optar, tendo em vista o alcance dos objetivos pretendidos. Como tal, os resultados obtidos são claramente condicionados pelo trajeto percorrido pelo investigador. O plano de investigação desenvolvido teve por base uma metodologia de pendor qualitativo. A metodologia qualitativa, sendo mais flexível que a metodologia quantitativa, permite uma pesquisa mais complexa e ampla que procura identificar as representações sociais e o perfil dos indivíduos e grupos, assim como identificar estruturas, formas, funções e conteúdos (Cervo, 2002). Além disso, os métodos qualitativos permitem apreender o significado conferido pelos atores às suas ações e possibilitam um processo dinâmico de interação entre investigador e a população estudada (Hébert et al., 1998:32). De salientar que a adoção do paradigma qualitativo teve implicações na forma como o próprio “desenho de pesquisa” foi definido. Neste domínio, importa explicitar o papel da teoria no estudo deste fenómeno. Se, para os racionalistas “à teoria é conferido o papel de comando do conjunto do trabalho científico” (Pinto Almeida, 1986 cit. por Dias, 1998), no âmbito do paradigma qualitativo, a teoria pode surgir no início ou no final da investigação, dependendo se esta se situar no contexto de prova ou no contexto de descoberta. Dessa forma, se a investigação se situar no contexto de prova, o principal objetivo é o de verificar uma determinada teoria, enquanto no contexto de descoberta, o desenvolvimento de modelos de análise ou de teorias pode ser efetuada tendo por base hipóteses construídas quer no decurso, quer no final da investigação (Hébert, et al., 1998). Neste caso, privilegiamos o contexto da descoberta. Tendo por base o que foi referido, consideramos que a análise intensiva constitui o método mais adequado à nossa investigação. Este método consiste “no exame intensivo, tanto em amplitude como em profundidade e utilizando todas as técnicas disponíveis, de uma amostra particular, selecionada de acordo com determinado objetivo (ou, no máximo, de um certo número de unidades de amostragem), de um fenómeno social, ordenando os dados resultantes por forma a preservar o carácter unitário da amostra, com a finalidade última de obter uma ampla compreensão do fenómeno na sua totalidade” (Greenwood, 1965:331). 40 Deste modo, tendo em consideração os objetivos deste trabalho, desenvolvemos uma análise intensiva sobre o envelhecimento ativo no Centro Social de S. Félix da Marinha. Este método permite a produção de conhecimento com pendor intensivo e de profundidade sobre uma determinada realidade e a identificação de eventuais obstáculos com o intuito de desenvolver um conjunto de orientações/recomendações no que respeita à promoção do envelhecimento ativo no Centro Social de S. Félix da Marinha. De ressalvar que no âmbito da análise intensiva, o objetivo de representatividade estatística é acessório e a singularidade dos casos é privilegiada. Como refere Guerra (2006), na análise intensiva a questão central que se coloca “não é a definição de uma imensidade de sujeitos estatisticamente «representativos», mas sim uma pequena dimensão de sujeitos «socialmente significativos» (…) ” (Guerra, 2006:20) A recolha, o tratamento e a análise de dados são fulcrais em qualquer trabalho desta natureza. Neste domínio, os procedimentos técnicos utilizados foram a pesquisa documental, a observação direta, a entrevista semiestruturada e a análise de conteúdo. A pesquisa documental trata-se de uma técnica de pesquisa de documentos que ainda que ainda não receberam qualquer tipo de tratamento científico, por exemplo, relatórios, cartas, entre outros (Oliveira, 2007). Nesse sentido, esta técnica é completamente distinta da pesquisa bibliográfica, que consiste num tipo de pesquisa em fontes científicas, sem recorrer diretamente aos factos da realidade empírica (Idem). Deste modo, na pesquisa documental, o “trabalho do pesquisador (a) requer uma análise mais cuidadosa, visto que os documentos não passaram antes por nenhum tratamento científico” (Idem, Ibidem:70) No âmbito do nosso estudo, a pesquisa documental serviu para recolhermos um espólio de dados acerca do Centro Social de S. Félix da Marinha. Neste domínio, a informação recolhida permitiu-nos contextualizar a criação da instituição, descrever os tipos de serviço prestados à comunidade e caracterizar os seus recursos humanos. Apesar de a observação direta poder ser realizada diariamente por qualquer agente social num dado contexto, ela consiste num procedimento científico na medida em que surge integrada num projeto de investigação científico, é sistematicamente planeada e submetida a uma verificação e controle de validade e precisão (Peretz, 2000). Esta técnica consiste em “ser testemunha dos comportamentos sociais dos indivíduos ou grupos nos próprios locais das suas atividades ou residências sem lhes alterar o seu ritmo normal” (Idem). Por outras palavras, a observação direta tem como finalidade a recolha e o registo dos comportamentos no momento em que eles se produzem sem a mediação de um documento ou testemunho. A prática da observação direta é estruturada por uma grelha de observação construída previamente e que 41 define um conjunto de categorias de comportamentos que pretendemos observar (Quivy; Campenhoudt, 2003). Importa ainda ter em conta a possível interferência que este tipo de técnica pode conferir à análise, uma vez que esta contempla a possibilidade de intervenção do investigador, o que pode colocar em causa o distanciamento do mesmo em relação ao meio (Costa, 2005). No âmbito do nosso trabalho, as situações de observação foram divididas em dois momentos específicos. Por um lado, a observação direta recaiu, essencialmente, sobre as dinâmicas quotidianas da instituição, ou seja, pretendemos observar a interação entre idosos, entre estes e os colaboradores da instituição, assim como, a participação dos idosos nas atividades socioculturais promovidas pelo Centro Social de S. Félix da Marinha e o tipo de envolvimento dos mesmos no planeamento das atividades socioculturais12. Por outro, valorizamos a observação da situação de entrevista, na medida em que consideramos também importante ter em conta a linguagem não verbal e outras dimensões simbólicas. Como refere Whyte (1984), os investigadores tendem a sobrevalorizar a linguagem verbal dos investigados em detrimento daquilo que não é verbalizado, quando na verdade, a linguagem não verbal é tão importante como a linguagem verbal13. Outra técnica por nós acionada corresponde à entrevista individual semiestruturada. Este tipo de entrevista caracteriza-se por um contato mais direto entre o investigador e os entrevistados e por uma fraca diretividade por parte do primeiro. Trata-se, de uma verdadeira interação social, durante a qual o investigador espera que as questões sejam abordadas livremente pelo entrevistado, de acordo com a interpretação que concede ao tópico ou questão lançada pelo entrevistador (Ghiglione; Matalon, 2005). Simultaneamente, o entrevistador pode orientar a entrevista em função dos seus objetivos através de um guião de entrevista com os principais temas a abordar. As entrevistas individuais semiestruturadas foram aplicadas tanto à população idosa, como à Diretora Técnica e à Animadora Sociocultural da instituição. Foram construídos dois guiões de entrevista distintos, um para os utentes14 da instituição e outro para a Diretora Técnica e Animadora Sociocultural15. Por conseguinte, foram realizadas um total de 18 entrevistas aos idosos da instituição (5 do sexo masculino e 13 do sexo feminino). A preponderância do sexo feminino deve-se ao 12 Anexo 1 da página 91 13 Anexo 2 da página 93 14 Anexo 3 da página 94 15 Anexo 4 da página 96 42 facto de o Centro de Dia ser frequentado, maioritariamente, por mulheres. Por outro lado, existiram situações de idosos que se recusaram a realizar a entrevista. Estes idosos foram selecionados a partir de uma amostra intencional, não probabilística, baseada nos seguintes critérios: sexo (feminino e masculino); utentes com idade igual ou superior a 65 anos; utentes que frequentavam, de forma regular, o Centro de Dia e não apresentavam limitações cognitivas passíveis de colocar em causa a compreensão das respostas dadas. Neste caso, a amostra constituída não pretende ser representativa da população que frequenta Centros de Dia. Procuramos, deste modo, privilegiar a singularidade dos casos. A entrevista efetuada aos idosos permitiu-nos obter informações sobre o seu contexto sociofamiliar; o seu processo de integração na instituição e as atividades desenvolvidas na mesma. Por seu turno, a entrevista realizada á diretora técnica e à animadora sociocultural possibilitou-nos dados sobre o processo de institucionalização do idoso; o conhecimento científico sobre a temática do envelhecimento ativo, por parte dos profissionais; o modo de atuação da instituição na promoção do envelhecimento ativo e a animação sociocultural na terceira idade. Outra técnica utilizada foi a análise do conteúdo, que consiste num “conjunto de técnicas de análise de comunicações, que utiliza procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens” (Bardin, 2004:33). Neste sentido, a análise do conteúdo tem uma “dimensão descritiva que visa dar conta do que nos foi narrado e uma dimensão interpretativa que decorre das interrogações do analista face a um objeto de estudo (…) ” (Guerra, 2006:62). Neste domínio, procedemos a uma análise categorial das entrevistas semiestruturadas. Este tipo de análise baseia-se na identificação de um conjunto de variáveis explicativas que influenciam um determinado fenómeno (Guerra, 2006) Tendo por base o que foi mencionado, as categorias de análise temática foram elaboradas tendo em conta os objetivos de pesquisa e o próprio objeto de estudo. Neste domínio, construímos duas grelhas de análise categorial, uma relativa aos discursos da Diretora Técnica e da Animadora Sociocultural16, outra referente aos discursos dos utentes17. As presentes grelhas de análise categorial são divididas em três colunas, onde são indicadas as categorias de análise, os excertos das entrevistas efetuadas e as respetivas sinopses. 16 Anexo 5 da página 99 17 Anexo 6 da página 101 43 Por fim, gostaríamos de salientar que as presentes técnicas foram acionadas no decorrer do estágio, mais precisamente, de Janeiro a Abril de 2012. 44 Capítulo IV – Caracterização e contextualização do Centro Social de S. Félix da Marinha Antes de procedermos à discussão e apresentação do material empírico, consideramos pertinente traçar uma breve contextualização da organização onde desenvolvemos o nosso trabalho. Por conseguinte, abordamos a origem e situação atual do Centro Social S. Félix da Marinha, os serviços prestados pela instituição à comunidade e caracterizamos os seus recursos humanos. 1. Origem e situação atual do Centro Social S. Félix da Marinha O presente relatório de estágio desenvolveu-se no Centro Social de S. Félix da Marinha, localizado no Distrito do Porto, concelho de V.N. Gaia, freguesia de S. Félix da Marinha. Fundado em 8 de Agosto de 1985, o centro social de S. Félix da Marinha é uma instituição particular de solidariedade social que procura dar resposta às necessidades dos idosos e crianças da freguesia de S. Félix da Marinha e áreas circunvizinhas. Este Centro Social surge através de um grupo de amigos da freguesia de S. Félix da Marinha que tiveram a ambição de construir um equipamento que desse apoio á Terceira Idade, Infância e Juventude da freguesia. No início algumas dificuldades se colocaram neste projeto, tais como, a procura de um terreno com viabilidade para a construção do Centro Social e com a situação geográfica ideal. No entanto, estas dificuldades acabaram por ser superadas através da doação de um terreno com aproximadamente 4000 m2 por parte de um casal da freguesia. Assim, em 8 de Agosto de 1985, o Centro Social de S. Félix da Marinha é fundado através de escritura pública, e os estatutos desta instituição foram posteriormente publicados no Diário da República. Atualmente, este Centro Social desenvolve um projeto multifacetado que visa proporcionar o melhor conforto aos seus utentes. Para tal, desenvolve um conjunto de ações com as quais pretende o alcance dos seguintes objetivos:  Apoiar os idosos e crianças nas suas necessidades e limitações;  Promover a integração e participação dos idosos na sociedade;  Proporcionar a todos os utentes um contacto com a realidade e aprendizagem de atos sociais;  Apoiar e orientar as famílias;  Desenvolver ações de âmbito sócio-recreativas e didáctico-pedagógica. 45 2. Os serviços prestados pela instituição à comunidade O centro Social de S. Félix da Marinha tem como actividade o serviço social sem alojamento. Essa actividade prestada à comunidade dispõe de três grandes valências/serviços: o Centro de Dia, o Apoio Domiciliário e o Jardim-de-Infância. A actividade do Centro de Dia funciona de Segunda a Sexta, das 8 às 18 horas, exceto feriados. Os utentes utilizam diariamente o transporte da instituição para se deslocarem de e para o Centro. São-lhes fornecidas três refeições diárias: pequeno-almoço, almoço e lanche. É-lhes ministrada a medicação prescrita, quer pelos médicos de família das Unidades de Saúde respetivas, quer pelos médicos assistentes deste Centro. Alguns utentes fazem a sua higiene nas instalações da instituição, uns por sofrerem de incapacidade física que não lhes permite autonomia a esse nível, outros por falta de condições nas suas habitações. Relativamente ao Apoio Domiciliário, este abrangia inicialmente 10 utentes, sendo no entanto apoiados, atualmente, 97 utentes. Esta valência tem o mesmo horário que o Centro de Dia e integra os seguintes serviços: higiene pessoal, alimentação, higiene habitacional e tratamento de roupas. Cada idoso usufrui da totalidade do universo destes serviços, consoante as suas necessidades. No que toca ao jardim de infância, esta valência abrange 60 crianças. Este serviço fornece transporte, refeições, aulas didáctico-pedagógicas, aulas de educação física, musical, natação e utilização do parque infantil. Também são organizados regularmente, passeios convívio, passeios de estudo e assistência a espetáculos. De modo a garantir o funcionamento das valências/serviços acima referidos, segundo o Relatório de Atividades e Contas de Gerência do Centro Social de S. Félix da Marinha (2011), a instituição dispõe dos seguintes financiamentos:  Quotização dos Associados, sendo que os sócios da instituição pagam anualmente uma quota mínima de 15 euros;  Donativos de particulares e de instituições que contribuem com alguns bens materiais e alimentícios;  Subvenções provenientes do Estado e de outros Organismos Oficiais, designadamente, do Ministério do Emprego e da Solidariedade Social, Ministério da Educação e Junta de freguesia de S. Félix da Marinha;  Comparticipação dos utentes a partir do pagamento de uma mensalidade: Utentes do Centro de Dia pagam 136,58 euros; utentes da Valência do Apoio 46 Domiciliário pagam 82,87 euros e os utentes do Jardim de Infância pagam 92,76 euros. Assim, como instituição Particular de Solidariedade Social, este Centro Social é reconhecido como entidade de utilidade pública e tem de estar preparado para responder aos desafios da prestação de serviço social, adaptando-se às exigências da sociedade que serve e que o envolve. 47 3. Recursos Humanos da instituição De modo a assegurar o bom funcionamento dos serviços acima mencionados, o Centro Social possui uma equipa de 35 funcionários. Como se pode visualizar na tabela seguinte, os funcionários do Centro Social de S. Félix da Marinha são maioritariamente do sexo feminino, pois num total de 35 funcionários, apenas quatro são do sexo masculino. Por outro, as idades dos funcionários da instituição variam entre os 18 e os 65 anos, sendo que uma parte significativa se encontra no intervalo de idades entre os 46 e 55 anos. De salientar que em 2011, segundo o Relatório de Atividades e Contas de Gerência do Centro Social de S. Félix da Marinha (2011), a média de idade dos funcionários era de 41,8 anos. Tabela 1 - Distribuição dos trabalhadores por idades e sexo Idades Sexo Masculino Sexo Feminino 18-25 - 1 26-35 1 9 36-45 2 11 46 -55 1 7 56-60 - 2 6165 - 1 Total 4 31 Fonte: Relatório de Actividades e Contas de Gerência do Centro Social de S. Félix da Marinha, 2011. Outra variável tida em consideração na caracterização dos Recursos Humanos da Instituição foi o nível de escolaridade. Neste sentido, tal como se pode constatar na tabela seguinte, os funcionários do Centro Social têm maioritariamente o 9º ano de escolaridade. Apenas um funcionário detém o 6º ano de escolaridade. 48 Tabela 2 - Distribuição dos trabalhadores por habilitações literárias Habilitações literárias Nº de trabalhadores Ensino Primário 9 Ensino Básico 19 Ensino Secundário 1 Ensino Superior 4 Total 33 Fonte: Relatório de Actividades e Contas de Gerência do Centro Social de S. Félix da Marinha, 2011. Como vimos, as habilitações literárias que os funcionários da instituição possuem não são elevadas. No entanto, é de realçar que o Centro Social de S. Félix da Marinha tem apostado na formação dos seus funcionários. A formação profissional permite que os funcionários adquiram todo um conjunto de competências e conhecimentos que os auxilie no desempenho das suas funções. Segundo, o Relatório de Atividades e Contas de Gerência do Centro Social de S. Félix da Marinha (2011), no ano de 2011, no domínio da Formação Modular Certificada, foram realizadas as seguintes formações no Centro de Formação e Ensino em Vila Nova de Gaia:  Curso de Prevenção e Primeiros Socorros – Geriatria;  Curso de Deontologia e Ética Profissional;  Curso de Qualificação Inicial Acelerada de Motoristas de Veículos Pesados e Passageiros Todas as formações realizadas são decididas pela Direção Técnica em conjunto com os funcionários, pois esta é a melhor forma que a instituição encontrou e a que melhor funciona, para que exista sucesso na escolha da formação e área a abordar. Para além disso, pode existir formações mais direcionadas para cada valência (Terceira Idade ou Infância). Por outro, importa ainda referir que, de forma detalhada, esta equipa é composta por onze Ajudantes de Ação Direta; quatro Ajudantes de Ação Educativa; uma Ajudante de Cozinha; uma Animadora Cultural; uma Assistente Social; um Chefe de Compras; duas 55 “É muito distante. O que está na Inglaterra telefona todos os domingos para saber como é que eu estou, os outros é raro. É raro me telefonar e é raro ter contacto comigo. (…) Mas eu como sou uma pessoa que convivo muito (…) encaro muito bem, embora vá um bocadinho abaixo. (…) ” (Rosalina, setenta e nove anos) 3. O processo de inserção no Centro Social de S. Félix da Marinha Neste ponto procuramos conhecer as dinâmicas subjacentes à institucionalização. Para isso, abordamos aspetos relativos às condições/restrições de inserção do idoso no Centro Social de S. Félix da Marinha, as razões ou motivações da institucionalização, o processo de integração do idoso assim como as relações sociais estabelecidas pelo mesmo. 3.1. Condições e restrições de inserção As instituições sejam públicas ou privadas com ou sem fins lucrativos impõem um conjunto de condições e restrições relativas ao processo de institucionalização do idoso. Segundo a diretora técnica da instituição, as condições de acesso ao Centro Social de S. Félix da Marinha não são muito rígidas. No entanto, os idosos para integrarem a valência de Centro de Dia devem ter alguma autonomia. Para além disso, os idosos que são sócios da instituição têm prioridade na entrada face aos demais. Por seu turno, a animadora sociocultural destaca a importância de o idoso saber conviver na sua permanência na instituição. “Nós não temos bem condições de acesso. No Centro de Dia, os utentes têm que ter alguma autonomia. Nós aceitamos utentes em cadeiras de rodas, em andarilhos, só que infelizmente, o grande problema, por vezes é a falta de transporte para estes utentes mais dependentes. Por isso, será sempre um pouco mais fácil os utentes com alguma limitação mas que tenham também alguma autonomia de terem transporte. Os nossos utentes, (…) os que são sócios têm prioridade na entrada. Ou seja, não há vaga, ficam na lista de espera mas mal surja vaga (…) nós contactamos o sócio que se encontra na lista de espera e ele tem prioridade de entrada em relação às outras inscrições que até podem ser mais antigas. (…) ” (Diretora Técnica, trinta e cinco anos) “ (…) Por norma não existem restrições. Nós tentamos manter aqui idosos que sejam capazes de conviver uns com os outros. Já tivemos aqui situações de Alzheimer, de pessoas que fugiam, que se tornavam violentas. E assim ou estão medicadas… Nós não queremos utentes a dormir mas têm que estar pacíficos para saber lidar uns com os outros ou então é impossível tê-los cá.” (Animadora Sociocultural, trinta anos) 56 Quanto ao processo e integração do idoso na instituição, a diretora técnica refere que geralmente o idoso faz uma pré-inscrição e conforme surja uma vaga é chamado. Posteriormente, tanto o idoso como o seu familiar mais próximo são sujeitos a uma pequena entrevista. “Os nossos idosos quando pensam integrar qualquer uma das nossas valências, seja ela Centro de Dia ou apoio domiciliário são sujeitos a uma pequena entrevista. O idoso e o seu familiar mais próximo, que será o familiar responsável. Nessa entrevista se tivermos vaga iremos tratar de tudo de assuntos para que esse utente entre num menor espaço de tempo possível. (…) Os idosos normalmente têm que fazer uma pré-inscrição que fica registada num livro e conforme surjam as vagas, eu vou recorrer a essas inscrições, contacto os familiares e então conversamos sobre todo o processo, quais são as características da instituição, os direitos e os deveres dos utentes, os direitos e deveres também da instituição, para ele ficar dentro do assunto.” (Diretora técnica, trinta e cinco anos) 3.2. Os motivos da inserção São de diversa ordem as razões que desencadeiam o processo de institucionalização do idoso. Como vimos, o envelhecimento biológico conduz a uma degradação das capacidades funcionais e cognitivas do indivíduo e, consequentemente pode conduzir a diferentes situações de dependência. Tal situação poderá motivar a necessidade de prestação de cuidados de longa duração. Em termos globais, segundo os nossos registos de observação, é possível afirmarmos que os idosos institucionalizados apresentam algum tipo de dependência funcional que exige cuidados médicos e de higiene mais permanentes. Neste âmbito, podemos fazer referência á questão do aumento da longevidade que pode potenciar o desenvolvimento de um envelhecimento patológico. É sabido que existe uma maior probabilidade de ocorrência de doenças crónicas conforme o avanço na idade. Apesar de atualmente a medicina permitir ao indivíduo a cura ou a sobrevivência de uma determinada doença, este pode ter que depender de terceiros, sejam agentes formais ou informais. Neste sentido, o principal motivo subjacente à institucionalização dos idosos entrevistados prende-se com questões relacionadas com o estado de saúde. A esta situação junta-se a indisponibilidade da família na prestação de cuidados ao idoso. Desse modo, a família prefere que o idoso esteja institucionalizado em vez de este estar em casa sem acompanhamento, como podemos verificar nos seguintes exemplos: 57 “Minha filha que toma conta da minha vida (…) não queria que eu estivesse sozinha em casa porque eu tenho problemas de cérebro. Eu tive um esgotamento e deu-me três avc’s levezinhos, mas deu-me. E ela depois não quer que eu esteja sozinha porque tem medo que me dê qualquer coisa.” (Celeste, setenta anos) “Porque eu tive uma trombose e eu perdi o andar, nem comia nem nada. Depois fui recuperando e depois como eu não podia bem, minha família tinha medo que eu me queimasse a cozinhar e assim e achava que era melhor para eu não estar sozinha em casa ter uma companhia. Foi por isso que eu vim. ” (Rafaela, oitenta e seis anos) “Quando eu adoeci (…) eu tive muito tempo em casa e ele [refere-se ao filho] não podia estar a perder o serviço e então meteu-me aqui para não estar sozinha.” (Isaura, oitenta e seis anos) Com o aumento da longevidade debatemo-nos com um novo problema, a solidão. Com o decair das relações familiares e interpessoais, os Centros de Dia surgem para muitos idosos, como uma solução ao isolamento. Neste sentido, apesar de as questões relacionadas com a condição de saúde ser o principal fator apontado pelos idosos na inserção da valência Centro de Dia, importa ressalvar que há casos de idosos que referem que a solidão e o isolamento foram outros fatores que contribuíram para a necessidade de os mesmos recorrerem a esta valência institucional. Tal aconteceu com Marcos, António e Natália: “Vim por estar sozinho em casa.” (Marcos, setenta e oito anos) “Para não estar só.” (António, oitenta anos) “Foi por estar sozinha. (…) ” (Natália, oitenta e quatro anos) 3.3. Reações à inserção O período de tempo em que os idosos estão inseridos na instituição é variável. Por um lado, existem casos de idosos que entraram recentemente na instituição (menos de um ano), por outro lado, observam-se situações de idosos que já se encontram na instituição há mais de três anos, como se pode verificar nos seguintes casos: “ Dois meses, fez dois meses agora.” (Gertrudes, setenta e quatro anos) “Vai fazer um ano para Março.” (António, oitenta anos) 58 “Há cinco anos.” (Rosalina, setenta e nove) Observamos que a inserção do idoso na instituição em análise é motivada por razões ligadas à saúde, solidão e isolamento sendo, por isso, expectável que a mesma contribua para uma melhoria das vertentes acima enumeradas. Neste âmbito, apuramos que globalmente os idosos referem a existência de melhorias ao nível do lazer e saúde e diminuição do sentimento de solidão. Deste modo, a institucionalização é encarada pelos idosos como uma alternativa que lhes garante alguma estabilidade pois sabem que têm apoio em qualquer circunstância, sentindo-se mais seguros e protegidos a esse nível. Os seguintes testemunhos reforçam o que foi referido: “ (…) Aqui tenho companhia. Em casa, meu filho trabalha e eu não tenho companhia nenhuma.” (Isaura, oitenta e seis anos) “É distração, não sabia jogar cartas, agora sei jogar cartas que é uma coisa que faz desenvolver a cabeça. (…) ” (Olívia, oitenta e três anos) “Melhorou sim porque eu tenho (…) apoio. Temos médico, temos enfermeiros. Se me acontecer qualquer coisa, eles têm aqui o número de telefone (…) da minha filha, da minha nora e da minha irmã. Se me acontecer qualquer coisa, eles comunicam ” (Celeste, setenta anos) “Olhe melhorou muito na saúde, no sistema nervoso pois quero fazer isto e aquilo e não tenho tempo e assim não. Olhe faço tudo calmamente. (…) ” (Leonor, setenta e dois anos) Outro aspeto que merece a nossa atenção é o facto de todos os idosos afirmarem que gostam de passar o dia na instituição, como é o caso de Cláudia e Marcos: “Gosto porque estou acompanhada.” (Cláudia, oitenta e cinco anos) “Gosto.” (Marcos, setenta e oito anos) 3.4. As relações sociais do idoso na instituição A maior ou menor facilidade de integração e aceitação da realidade institucional depende, em parte, das relações sociais que os idosos estabelecem dentro da instituição. Como tal, a convivência forçada e a partilha de um mesmo espaço que se desconhece pode refletir-se 59 de forma negativa ou positiva na adaptação do idoso a uma realidade que lhe é estranha e muitas vezes entendida como hostil. No que concerne às relações entre idosos, de acordo com os nossos registos de observação, verificamos que, de um modo geral, os utentes interagem entre si nas zonas de maior convívio da instituição (salas de estar). No entanto, são poucos os que procuram outras formas de lazer tais como jogar às cartas, damas ou dominó. No que se refere às relações sociais que estabelecem na instituição, os idosos entrevistados, afirmam que as mesmas são boas, como refere André, Gabriela e Augusta. “Eu acho que é uma relação boa.” (André, oitenta e um) “Eu acho que é boa. Ao menos eu dou-me bem com toda a gente. (…) ” (Gabriela, setenta e nove) “ (…) É boa. Pelo menos eu não tenho que dizer. Falamos uns para os outros, não tenho que dizer, pelo menos eu.” (Augusta, noventa e três) Por sua vez, a diretora técnica da instituição e animadora sociocultural referem que a relação entre idosos é genericamente boa. Para além disso, mencionam que os idosos se organizam em pequenos grupos, geralmente separados por sexo. Deste modo, os idosos tendem a relacionar-se com indivíduos que partilham os mesmos interesses, objetivos e valores. Como podemos constatar através dos seguintes exemplos: “Julgo que temos um bom ambiente e uma boa relação. Como é lógico há pequenos grupos, não é um grupo único e uniforme. Temos utentes que se relacionam melhor uns com os outros e vão criando os seus grupos de amizade, como nós na nossa sociedade vamos criando os nossos microgrupos e eles funcionam da mesma forma.” (Diretora Técnica, trinta e cinco anos) “Os idosos tais como os adolescentes fazem grupinhos. Os homens são mais difíceis de integrar junto as mulheres, são mais unidos entre eles. As mulheres dão-se todas bem mas também falam mal uma das outras, é típico. Mas de um modo geral, tratam-se com respeito e isso é fundamental na instituição” (Animadora Sociocultural, trinta anos) Por vezes, as interações entre os idosos são marcadas por pequenos conflitos. Estes são ocasionais e ocorrem geralmente por motivos insignificantes ou por ciúmes, como menciona a animadora sociocultural, diretora técnica e Rosalina: 60 “Já tem havido. (…) É assim, muitas vezes os motivos até são insignificantes. Basta um idoso ter-se sentado no lugar que pertence a outra senhora já é motivo de discussão, porque é assim eles têm um tempo tão liberto que às vezes coisas tão insignificantes que um simples lugar à hora do lanche é motivo para discutir.” (Animadora Sociocultural, trinta anos) “Sim e os conflitos, muitas vezes, são por coisas muito simples e ridículas. Às vezes discutem porque o idoso A sentou-se na cadeira que normalmente se sente o idoso B e por isso já dá motivo a discussão e ficarem amuados. Ou porque a idosa A pegou na manta do idoso B. Muitas vezes também há pequenos conflitos porque são muito ciumentos. Se alguma funcionária ou mesmo eu passar fazemos um carinho a um e não fazemos a outro, pontualmente ficam sentidos e amuam. (…) ” (Diretora Técnica, trinca e cinco anos) “Sim, sim, alguns (…). Ciúmes.” (Rosalina, setenta e nove) No entanto, importa ressalvar que a existência de pequenos conflitos não é percebida por alguns dos idosos entrevistados, como sucede com Isaura e Gertrudes: “Acho que não, damo-nos bem umas com as outras (Isaura, oitenta e seis anos) “Por acaso até agora, no tempo que eu estou aqui ainda nada disso aconteceu, pelo menos que eu visse com os meus olhos. (…) ” (Gertrudes, setenta e quatro anos) No que respeita às relações existentes entre utentes e profissionais observamos que as mesmas são geralmente boas, especialmente entre os utentes e os ajudantes de ação direta. Este tipo de relações caraterizam-se por serem informais, existindo, deste modo, uma maior proximidade entre os utentes e os profissionais. Como refere a diretora técnica e animadora: ” (…) Penso que além da relação profissional existe uma relação de amizade, de empatia e de carinho. (…) Penso que todos aqui que trabalhávamos acabamos por ser atenciosos, simpáticos, carinhosos para os nossos utentes”. (…) (Diretora Técnica, trinta e cinco anos) “Eu penso que a relação é bastante boa. (…) Eu não costumo dar o meu contacto ao idoso (…). Há funcionários que dão e depois passa-se um bocado um bocado a batata quente para as mãos dos funcionários, aquilo que muitas vezes a família deveria fazer: as pequeninas compras, buscar a mercearia… Que não é por má vontade, quando os utentes não tem retaguarda nós tamos cá para isso. Agora quando tem família e a família viver a viver com eles é muito complicado sermos nós a fazer.” (Animadora Sociocultural, trinta anos) 61 Para além disso, grande parte dos idosos asseguram que estão satisfeitos com os funcionários na medida em que estes os respeitam, executam bem o seu trabalho e são afáveis. É o caso de Natália, Celeste e André: “Estou, eu acho que elas são muito meigas para mim, são minhas amigas (…) e elas gostam de mim por isso e eu gosto muito delas. ” (Natália, oitenta e quatro anos) “Sim, estou com todos. (…) Porque são boas pessoas e somos bem tratados por eles. ” (Celeste, setenta anos) “Porque me respeitam e eu também respeito” (André, oitenta e um anos) Importa ainda ressalvar que, por vezes, existem desentendimentos pontuais entre os idosos e os funcionários. Nesse caso, tal como referem a diretora técnica e animadora, de modo a evitar o surgimento desses pequenos desentendimentos, realizam-se sessões de sensibilização, por parte da equipa de enfermagem, sobre por exemplo a tensão arterial, diabetes, importância do exercício físico e uso da medicação. Por sua vez, os funcionários procuram corrigir o idoso quando este está a fazer algo incorreto e mostrar-lhes que o trabalho que desenvolvem é importante para o seu bem-estar físico e mental. “Por vezes (…) no caso dos nossos utentes diabéticos, existem muitos conflitos, quando o enfermeiro dá ordem para eles comerem mesmo dieta e não comerem pão e não comerem doces e eles não aceitam. Depois começam a discutir e a reclamar com a funcionária que está distribuir a refeição na sala de refeições e ela diz muitas vezes que não tem culpa, que cumpre ordens e que (…) é para o bem-estar deles. (…) Olhe, por exemplo, os enfermeiros têm por hábito x em x tempo fazer sessões de sensibilização com os nossos utentes. A Andreia ainda não viu, mas fazem a nível da tensão arterial, da glicemia, de eles se movimentarem, de não estarem parados, de terem cuidado com a medicação (…) E depois também por parte de todas as funcionárias do Centro de Dia quando vemos o nosso idoso a fazer algo que achamos que não está correto tentamos corrigi-lo, sensibiliza-lo (…) (Diretora Técnica, trinta e cinco anos) “É assim, por norma não. Os últimos conflitos que me lembro aqui mais é as vezes a funcionária que vai buscar uma utente para lavar ou qualquer coisa e a utente (…) não quer. Mas assim conflitos, não. (…) Os funcionários tentam conversar com o idoso, o compreender e fazê-los entender que o que fazem é para o seu bem.” (Animadora sociocultural, trinta anos) 4. O envelhecimento ativo em contexto institucional Neste ponto pretendemos analisar a promoção do envelhecimento ativo em contexto institucional. Nesse sentido, serão focados aspetos como o conhecimento científico sobre o processo de envelhecimento ativo por parte dos profissionais da instituição; o modo como o 62 envelhecimento ativo faz parte dos objetivos da instituição e os respetivos obstáculos, bem como o tipo de atividades socioculturais destinadas aos idosos. 4.1. A promoção do envelhecimento ativo pela instituição Nas últimas décadas verificou-se o surgimento e a proliferação de um conjunto de serviços de âmbito comunitário e domiciliário que retardem ou evitem o recurso à institucionalização definitiva do idoso. Neste contexto temos como exemplo os Centros de Dia que são equipamentos sociais de utilização diurna e orientados para idosos que sofram de algum grau de dependência. Simultaneamente, este serviço visa apoiar as necessidades básicas e socioculturais dos idosos, promovendo a sua autonomia e permanência no meio sociofamiliar. Sempre que existam recursos humanos e económicos para tal, o envelhecimento ativo tem sido uma estratégia adotada por muitos Centros de Dia. No que diz respeito à instituição em estudo verificamos que a mesma possui recursos humanos capacitados para promover o envelhecimento ativo, nomeadamente a diretora técnica e a animadora sociocultural. Ambas estão familiarizadas com a temática do envelhecimento ativo, procuram atualizar os seus conhecimentos sobre o conceito e incorpora-los na prática profissional. Como evidenciam os seguintes excertos: “Envelhecimento ativo para mim é um processo que visa o aumento da qualidade de vida do idoso potenciando a sua estimulação cognitiva, física e psíquica. No fundo, penso que envelhecimento ativo será envelhecer com qualidade de vida, porque a maior parte dos nossos idosos hoje em dia (…) são velhos durante mais anos, só que infelizmente esse aumento que houve na idade não é acompanhado de um aumento da qualidade de vida e muitas vezes envelhecem sem o apoio de ninguém, sem a companhia de ninguém, muito dependentes e isolados. (…) Sim (…) Tento sempre que possível ir a vários seminários, workshops. Sempre que surja uma formação e que tenha disponibilidade gosto de participar, a vários níveis, na leitura, também. (…) Sempre que possível, sim tento introduzir esses conhecimentos no meu dia-dia profissional. (…) ” (Diretora Técnica, trinta e cinco anos) “Para mim o envelhecimento ativo é um envelhecimento saudável. É encarar a velhice de uma forma verdadeira e não pensar que se é velho que é parar no tempo. É continuar conforme as suas capacidades e as suas possibilidades. (…) Procuro constantemente atualizar-me sobre esta matéria. (…) È assim, tudo o que há de formações a nível de geriatria e gerontologia, só mesmo se eu não puder estar presente. Mesmo para a gente se atualizar e saber as novas técnicas que possam existir para o bem da instituição. (…) ” (Animadora Sociocultural, trinta anos) 63 Ainda a propósito da incorporação de novos conhecimentos na prática profissional importa ressalvar que existe uma certa resistência por parte dos idosos às novas práticas profissionais, sendo por isso necessário um reajustamento de modo a que os idosos se familiarizem com às mesmas. Tal como refere a diretora técnica e a animadora sociocultural: “ (…) Os nossos utentes, como a maior parte das pessoas, não reagem muito bem às mudanças, ou seja, há sempre uma pequena resistência. Mas depois de conversarmos, explicar-lhes e fazendo-lhes ver quais são as melhorias que irão obter com essa mudança, normalmente eles acabam por aceitar e depois até dizem: Oh realmente não era assim tão complicado!”. (Diretora Técnica, trinta e cinco anos) Tudo o que é mudar uma rotina implica às vezes um reajuste. E isso ás vezes demora algum tempo até ser implementado. Mas de um modo geral, conseguisse. Não é de um dia para a noite, mas a gente tem que fazer por isso”. (Animadora Sociocultural, trinta anos) De modo a melhorar e atualizar o tipo de serviços prestados aos idosos, a Direção da instituição proporciona todos os anos um conjunto de formações aos seus profissionais. Neste âmbito destacam-se as formações ao nível da higiene e segurança no trabalho, higiene e segurança alimentar, geriatria, gerontologia e animação na terceira idade. Como se pode observar nos seguintes exemplos: “Sempre. Nós somos obrigados por lei a proporcionar formação (…) Temos formação ao nível da geriatria e gerontologia, formação de higiene e segurança no trabalho (…) Nós temos que estar sempre atualizados e informados e nada melhor do que fazer uma reciclagem sempre que possível com formação.” (Diretora Técnica, trinta e cinco anos) “Todos os anos temos formação. (…) Temos formação desde a higiene e segurança. Também temos já, animação com idosos. Higiene alimentar também. (…) É assim, muitas vezes as formações não nos vem dar novidades. Mas nunca é demais a gente relembrar, e de cada vez que a gente está a relembrar, há sempre um ponto ou outro que um diz uma coisa outro diz outra e vamos acrescentar para puder melhorar os nossos serviços”. (Animadora Sociocultural, trinta anos) Uma estratégia de envelhecimento ativo em contexto institucional deve visar a manutenção e autonomia do idoso ao nível das atividades básicas e instrumentais da vida diária, o desenvolvimento de novos contactos sociais e o aumento da qualidade de vida e de saúde. A Direção da instituição em análise revela preocupação relativamente aos cuidados de saúde dos utentes. Neste domínio, existe na instituição uma equipa de enfermagem, 64 responsável por ministrar aos idosos a respetiva medicação. Por seu turno, os colaboradores responsáveis pela prestação direta de cuidados ao idoso, a equipa de enfermagem e a própria diretora técnica procuram estimular os idosos na realização de determinadas atividades básicas e funcionais da vida diária, de modo a garantir a preservação de uma maior independência e autonomia funcional. Por sua vez, observa-se o desenvolvimento de atividades físicas e motoras com o intuito de atenuar o grau de dependência funcional do idoso. Por fim, a Direção visa que os idosos tenham uma alimentação equilibrada. Na abordagem teórica ao conceito de envelhecimento ativo, para além da saúde, a participação social constitui um outro pilar de suporte do mesmo. Neste âmbito, conforme revelam os discursos da diretora técnica e da animadora sociocultural existe uma preocupação por parte dos profissionais de estimularem os contactos sociais entre os idosos e entre estes e os profissionais. Por seu turno o intercâmbio institucional constitui outra estratégia adotada pela instituição com o intuito de promover o desenvolvimento pessoal, social e cultural dos idosos através da partilha de conhecimentos com idosos de outras instituições. A dimensão psicológica do indivíduo, constitui outra dimensão, no qual a promoção do envelhecimento ativo pode incidir. Assim, segundo a diretora técnica, também são desenvolvidas um conjunto de atividades que visem atenuar as alterações cognitivas decorrentes do próprio processo de envelhecimento. “Tentamos sempre estimular ao máximo os nossos utentes. Posso-lhe dizer que por vezes vem alguns familiares que nos dizem: Ai, por favor, dê a comidinha a boca ao meu pai. Tanto eu como as colegas e a equipa de enfermagem fazemos sempre um estudo prévio ao nosso utentes em que vamos experimentando se ele tem capacidades, por exemplo, para se alimentar sozinho. Preferimos que se suje, que utilize uma babete (…) Procuramos que os nossos idosos tenha hábitos alimentares saudáveis e tentamos sempre que conversem, caminhem, que participem nas aulas de ginástica, que participem no intercâmbio entre as instituições. (…) A nossa animadora também tenta estimular a nível cognitivo com vários jogos, várias atividades próprias para que os idosos pensem, contem e dessa forma estimular a sua autonomia. Também temos uma equipa de enfermagem, que todos os dias dá a medicação aos nossos utentes.” (Diretora Técnica, trinta e cinco anos) “De um modo geral, já pudeste ver, todos os funcionários têm uma ligação muito forte com os idosos. Há instituições que não possibilitam porque a direção não permite, felizmente a nossa direção permite que a gente tenha este contacto. Há um certo carinho, prontos. E uma boa disposição, de um modo geral, somos todas bem dispostas brincalhonas e isso nota-se mesmo nos idosos”. (Animadora Sociocultural, trinta anos) A forma como os idosos encaram a promoção do envelhecimento ativo em contexto institucional é diversificada. Por um lado, existe um conjunto de idosos que refere que a sua 71 Para que as atividades socioculturais correspondam aos gostos dos idosos torna-se importante que os mesmos sugiram o tipo de atividades que gostavam de realizar. Neste domínio, observamos que as preferências dos idosos são heterogéneas. Assim, se alguns idosos preferem atividades de expressão plástica, nomeadamente, o desenho, outros sugerem atividades lúdicas, tais como, o bingo, dominó e cartas. Como sucede com Celeste, Cláudia e Rafaela: “ (…) O que gosto mais é de jogar bingo” (Celeste, setenta anos) “ (…) Gosto muito de jogar cartas é o que mais gosto (risos), já sabe. De resto, gosto de tudo: dominó, andar fantasiada, assim umas coisitas… Também gosto muito de cantar. (…) ” (Cláudia, oitenta e cinco anos) “ … Desenhar. (…) ” (Rafaela, oitenta e seis anos) Por outro lado, constatamos que também existem idosos que preferem atividades de expressão e comunicação, particularmente, dança e canto e atividades cognitivas, designadamente, a escrita, operações aritméticas e debates temáticos. Como se pode observar nos seguintes excertos: “… Atividades que nos dê desenvolvimento à inteligência. Por exemplo, o escrever, haver uma pessoa que soubesse ditar, nós estar a escrever para saber se ainda sabíamos as palavras; a matemática, fazermos uma conta, compreende? Dessas atividades gosto. (…) ” (Olívia, oitenta e três anos) “Praticamente são as que estão a ser dadas: dançar e cantar. (…) ” (Natália, oitenta e quatro anos) “… Fazer perguntas a uns aos outros sobre um tema que nos der.” (Leonor, setenta e dois anos) Contudo, importa ressalvar que existe um grupo de idosos que não demonstra motivação quanto à sugestão de novas atividades socioculturais, seja por motivos ligados á saúde, à sua própria idade ou por simplesmente não gostarem de atividades deste tipo. Tal sucede com André, Gertrudes e António: “Nenhumas, eu também não gosto. [E: Então não gostava de fazer algo? Por exemplo, dominó, cartas?] e: Não, não… Antigamente pelo Natal, pelo Ano Novo, quando ia lá a casa dos meus filhos jogava, agora não.” (André, oitenta e um anos) 72 “Já estou um pouco velha para fazer atividades mas gosto de ver.” (Gertrudes, setenta e quatro anos) “Nenhumas, eu não vejo. (…) ” (António, oitenta anos) Por sua vez, também observamos que existem casos de idosos que referem não saber o tipo de atividades que gostavam de realizar, como é o exemplo de Isabel e Augusta: “Não sei menina, não sei, isso não sei. Não sei dizer, coisa que eu possa fazer, eu faço.” (Isabel, oitenta e um anos) “Não sei, qualquer coisa.” (Augusta, noventa e três anos) Ainda a este propósito, interrogamos os idosos acerca da sua iniciativa quanto à sugestão de novas atividades socioculturais aos profissionais. Neste caso, verificamos que apenas dois idosos referem indicar à animadora sociocultural atividades que desejariam de desenvolver ou que no decorrer de uma actividade, deram algumas sugestões acerca da mesma. Como ilustram os seguintes exemplos: “ (…) Às vezes eu digo: Oh menina Elisabete se fizéssemos assim isto assim, assim, não seria melhor? Por vezes, ela também pede ideias.” (Leonor, setenta e dois anos) “Sim.” (Manuel, sessenta e sete) Por seu turno, tanto a diretora técnica como a animadora sociocultural mencionam que apesar de existir um conjunto de atividades que são fixas ao longo do ano, os idosos têm possibilidade de darem as suas sugestões. Tal como refere a animadora e a diretora técnica: “Quando eu faço o plano anual de atividades (…), chamo-os cá baixo, tirando aqueles dias que a gente já sabe que são comemorativos, o S. Martinho, o Natal, prontos, eu procuro ir ao encontro daquilo que eles pretendem fazer. As visitas que eles gostassem de fazer, ainda fomos a igreja de S. Francisco, foi falado por eles. (…) Há pequeninas coisas que eles vão solicitando, mas muito poucos. A maior parte das vezes eles contentam-se com a rotina”. (Animadora Sociocultural, trinta anos) “Normalmente sempre que se faz o plano de atividades, como deve compreender, há um conjunto de atividades que são fixas ao longo de todos os anos, por exemplo, o Dia da primavera, o outono, o desfile de carnaval, a nossa feira gastronómica, são atividades que já temos fixas. Mas existe um outro conjunto de atividades que é sempre projetado e pensado com a opinião dos nossos utentes. Por exemplo, pedimos a opinião 73 se eles querem ir participar numa instituição x ou se querem a instituição y, porque se calhar gostam mais da y do que da x. O professor de ginástica quando vem o tempo melhor em vez de fazer a aula dentro da sala pergunta-lhes se eles não querem fazer a aula no exterior e, por vezes, eles dizem que sim e faz-se a aula no exterior, se dizem que não, já não se faz. Posso-lhe dizer que nós tínhamos a hidroginástica uma vez por semana, na piscina de Espinho gratuita, totalmente gratuita e tivemos de cancelar porque os nossos idosos não aderiam.” (…) (Diretora Técnica, trinca e cinco anos) O capítulo que aqui se encerra teve como enfoque a análise e reflexão das informações recolhidas sobre o nosso objeto de pesquisa. Em traços gerais, tendo em consideração as hipóteses teóricas apresentadas no terceiro capítulo, concluímos que o agravamento das condições de saúde constitui a principal causa de inserção dos idosos no Centro Social S. Félix da Marinha. De facto, tal como já foi mencionado no segundo capítulo do presente trabalho, uma das razões adjacentes à inserção dos idosos na valência Centro de Dia diz respeito aos cuidados de saúde. Neste âmbito, os Centros de Dia disponibilizam um conjunto de serviços que permite o acompanhamento de idosos que apresentam problemas de saúde (Benet, 2003). Para além disso, importa salientar que a procura dos Centros de Dia pelo motivo anteriormente indicado está intimamente relacionada com a indisponibilidade da família na prestação de cuidados aos seus idosos. Entre outros fatores, a inserção da mulher no mercado de trabalho e o desempenho de uma atividade profissional a tempo inteiro dificultou a plena prestação de cuidados aos familiares idosos que apresentam problemas de saúde (Sousa et al., 2004). Não poderíamos deixar de frisar que a questão da solidão também foi apontada por alguns entrevistados aquando questionados acerca dos motivos que os levaram a recorrer a esta valência. Como refere Benet (2003), os idosos que vivem sozinhos, por viuvez, problemas de relacionamento com os familiares, entre outros, têm maior dificuldade em encontrar um sentido para esta nova etapa do seu ciclo de vida. Dessa forma, o Centro de Dia surge para estes idosos como uma alternativa à solidão e isolamento social na medida em que lhes permite encontrar um novo sentido para a vida, fomentar as suas relações sociais e proporcionar um sentimento de integração. Por sua vez, apuramos que a falta de recursos financeiros da instituição condiciona a promoção do envelhecimento ativo em contexto institucional. Como vimos, o conceito de envelhecimento ativo aplica-se tanto a indivíduos como a grupos populacionais e estabeleceu um novo paradigma na velhice, em que esta passa a ser sinónimo de inclusão social e atividade. Com base nesta nova forma de encarar a velhice, muitos Centros de Dia têm apostado na realização de um conjunto de atividades que visam manter os idosos ativos a 74 nível físico e cognitivo e favorecer as relações sociais entre os mesmos. No entanto, a quantidade e o tipo de atividades é condicionada pelos recursos financeiros da instituição. Como já foi mencionado, as instituições destinadas aos idosos utilizam os recursos económicos prioritariamente para as despesas de higiene, alimentação e saúde do idoso (Jacob, 2007). Por último, verificamos que o desenvolvimento de diferentes tipos de atividades por parte da animadora sociocultural da instituição permite atenuar as limitações físicas e cognitivas do idoso, nomeadamente ao nível da motricidade fina, volume da massa muscular e memória. Efetivamente, tal como refere Trilla (2004), a animação sociocultural pode desempenhar um importante papel na qualidade de vida dos idosos institucionalizados. Porém, é importante que o processo de animação seja individual, pois cada idoso tem o seu grau de dependência. Para além disso, torna-se importante que o animador motive os idosos a participarem nas atividades e tenha em consideração as sugestões dadas pelos mesmos. 75 Capítulo VI – Estágio: processo e reflexão final Neste capítulo referimos o conjunto de atividades desenvolvidas durante o estágio e refletimos acerca dos desafios de natureza organizacional com que nos deparamos. Simultaneamente, mencionamos as competências relacionais e operacionais que adquirimos no decorrer do estágio. Por último, apresentamos um conjunto de recomendações e propostas de intervenção futura que consideramos úteis. 1. Atividades desenvolvidas no estágio O estágio desenvolvido no Centro Social de S. Félix da Marinha teve a duração de quatro meses, compreendidos entre Janeiro e Abril. Numa primeira fase do estágio em questão, a diretora técnica esclareceu-nos quanto ao funcionamento da instituição e apresentou-nos aos restantes funcionários. Nesta fase, procuramos familiarizar-nos com as rotinas da instituição e conhecer os utentes. Tratou-se, deste modo, de uma etapa de integração, fundamental para nos adaptarmos à cultura, valores e costumes da organização. A nossa primeira atividade realizada no estágio consistiu em auxiliar a animadora no desenvolvimento de atividades socioculturais junto dos idosos. O tipo de contributo prestado foi diferente consoante os objetivos que animadora pretendia alcançar. Durante o nosso período de estágio, apenas participamos numa actividade no exterior da instituição, a saber, visita ao “Presépio do Cavalinho” em S. Paio de Oleiros. Neste domínio, tínhamos como principal tarefa a estimulação do convívio entre idosos, potenciando as relações interpessoais entre os mesmos. Nas restantes atividades desenvolvidas pela animadora (atividades lúdicas, atividades de expressão plástica, atividades de expressão e comunicação, atividades físicas ou motoras e atividades cognitivas), procuramos incentivar os idosos a participarem nas mesmas, estabelecendo um clima de confiança e ajudando-os a vencer os seus medos. Por sua vez, visamos aumentar as capacidades de interação entre os utentes. Outra atividade efetuada durante o estágio foi a elaboração de um plano de atividades socioculturais18. Na realização deste plano tivemos em consideração o conjunto de atividades que já estão, desde o início do ano, programadas pela animadora e as sugestões da diretora técnica. 18 Ver anexo 7 da página 102 76 O plano de atividades socioculturais foi preparado tendo em conta a promoção do envelhecimento ativo na instituição. Neste domínio, interrogamos os idosos em relação ao tipo de atividades que gostavam de realizar19. Procuramos, desse modo, promover uma participação ativa dos utentes, concedendo-lhes oportunidade para que eles próprios possam propor outras atividades que sejam do seu agrado. Por seu turno, selecionamos um conjunto de atividades que permitam manter ou melhorar a capacidade física e mental do idoso; promovam a valorização pessoal e social dos utentes, através do desenvolvimento das suas competências e fomentem as relações interpessoais entre os idosos. Ainda no decorrer do presente estágio, foram desenvolvidas as atividades socioculturais definidas no plano que elaboramos. A dinamização das atividades decorreu entre 21 de Março e 17 de Abril. Nesse âmbito, observamos que o grau de participação dos idosos foi idêntico em quase todas as atividades (7 a 9 idosos). Para além disso, constatamos que os idosos, na sua maioria, eram do sexo feminino. No desempenho das atividades acima mencionadas surgiu um conjunto de desafios de natureza organizacional. Nesse domínio, destacamos a escassez de recursos financeiros da instituição que condicionou a realização das atividades de animação sociocultural. Por outras palavras, tivemos que optar por atividades que não acrescentassem mais custos à instituição. Desse modo, procuramos utilizar os recursos materiais já existentes na organização. De ressalvar que também existiram alguns aspetos relacionados com os próprios idosos que dificultaram o desenvolvimento das atividades no estágio. Nesse sentido, realçamos o facto de muitos idosos institucionalizados apresentarem idades avançadas (acima dos 75 anos) e alguma limitação física ou cognitiva. Este tipo de situação pressupôs adequação da animação à condição física e mental dos utentes. Por sua vez, tivemos dificuldade pontual em motivar alguns idosos a participar nas atividades. No decorrer do estágio, observamos a existência de um grupo de idosos que participava regularmente nas atividades e outro grupo renitente na participação. Motivar os idosos que não costumavam participar nas atividades constituiu um verdadeiro desafio. Por seu turno, a importância do descanso é cada vez mais sentida pelos idosos. Neste âmbito tivemos a preocupação de propor um ritmo adaptado às suas limitações físicas e cognitivas, respeitando as suas necessidades. Outro aspeto que merece a nossa consideração é o facto de alguns idosos se mostrarem reticentes quanto à participação em atividades diferentes daquelas que estão acostumados a 19 Ver páginas 70-72 77 participar. Neste domínio procuramos incentivá-los a participar. No entanto, importa salientar a existência de casos de idosos que inicialmente ficavam a observar em que consistia a atividade, acabando por participar na mesma. Ainda a propósito das atividades desenvolvidas no estágio importa refletir acerca da relação entre os conhecimentos académicos e as competências adquiridas em contexto institucional. Neste domínio, partilhamos da perspetiva de Firmino da Costa (2004) quando refere não bastar “ter conhecimentos discursivos acerca da sociologia para ser capaz de transportar esses conhecimentos para a prática sociológica, nomeadamente para a esfera profissional” (Costa, 2004:55). A formação em sociologia dotou-nos de um conjunto de conhecimentos teóricos e metodológicos que se revelaram importantes no desenvolvimento das atividades de estágio acima referidas. No entanto, também reconhecemos que a experiência de estágio nos permitiu adquirir um conjunto de competências, nomeadamente competências relacionais e operacionais. No que se refere às competências relacionais, ganhamos capacidade para agir nas interações sociais na esfera profissional, não só de maneira corrente como qualquer indivíduo o faz, mas de forma informada por via dos conhecimentos sociológicos acumulados a esse respeito (Costa, 2004). Relativamente às competências operacionais, aprendemos a construir e acionar um conjunto de procedimentos conforme os desafios que nos surgiram no decorrer do estágio. 78 2. Avaliação global do estágio No começo do estágio debatemo-nos com algumas questões oriundas tanto dos profissionais como dos idosos: “O que é a sociologia?”, “Para que serve a sociologia?”, “O que faz um sociólogo?”. Este desconhecimento certamente não é alheio ao facto de, por um lado, a sociologia enquanto ciência ser relativamente recente, e por outro lado, a sociologia enquanto actividade profissional, ainda se debater com problemas de afirmação e implantação no mercado de trabalho (Valente, 1995). Apesar de um certo desconhecimento generalizado em relação ao papel do sociólogo, a integração na instituição foi bastante positiva. Durante o estágio tivemos oportunidade de trabalhar com profissionais de outras áreas das ciências sociais, o que se revelou bastante enriquecedor. Neste âmbito, salientamos os contributos da animadora no que se refere à promoção da animação sociocultural na terceira idade. Para além disso, o estágio permitiu-nos consolidar os conhecimentos teóricos e metodológicos alcançados no decorrer da formação em sociologia. Desse modo, no desenvolvimento das atividades anteriormente referidas, tivemos possibilidade de mobilizar um conjunto de saberes adquiridos nas disciplinas de sociologia do envelhecimento e animação cultural. De ressalvar que esses saberes nos proporcionaram uma maior sensibilidade para as questões relacionadas com o envelhecimento, processo de institucionalização do idoso e animação sociocultural na terceira idade. Por outro, também tivemos hipótese de aplicar um conjunto de técnicas de investigação, a saber, pesquisa documental, observação direta, entrevistas semiestruturadas e análise do conteúdo. Tendo por base a nossa experiência de estágio e análise dos dados recolhidos, consideramos propositado apresentar algumas recomendações e propostas de intervenção futura. Como já foi mencionado, a escassez de recursos financeiros da instituição condicionou a realização de certas atividades socioculturais. Neste domínio, consideramos que a animadora poderia desenvolver um conjunto de atividades de expressão plástica com o objetivo de vender alguns dos produtos resultantes dessas atividades na comunidade local. O dinheiro angariado deveria ser direcionado para a animação dos idosos. Por seu turno, constatamos que na instituição não existe uma avaliação das atividades socioculturais realizadas, uma vez que os dados analisados evidenciaram que a animadora apenas estabelece conversas informais com os idosos acerca das atividades socioculturais efetuadas. Dessa forma, o modo como animadora procura averiguar a satisfação dos idosos com as atividades é insuficiente e insatisfatória. Consideramos que se deveria realizar uma 79 avaliação de natureza formal, por via de um pequeno inquérito por questionário. Este tipo de avaliação permitiria que a animadora fosse tomando conhecimento dos resultados e dos efeitos das atividades e desse modo corrigir resultados negativos. Por sua vez, seria interessante a promoção de ações de sensibilização junto das famílias com o intuito de promover a qualidade de relacionamento com o idoso e desmitificar determinados mitos e estereótipos que possam existir em torno da velhice e processo de envelhecimento. Por outro, consideramos pertinente a existência de um psicólogo na instituição, uma vez por semana, dada a fragilidade psicológica em que muitos idosos se encontram. Como já foi referido, a inserção num Centro de Dia pode originar nos idosos reações de revolta, ansiedade, angústia e medo (Sousa, et al., 2004). Nesse caso, um psicólogo possui um conjunto de conhecimentos relevantes para lidar com essas situações. Para além disso, achamos importante que os profissionais incentivem os idosos a participarem em atividades exteriores à instituição, tais como, movimentos associativos, grupos recreativos, entre outros. Como já foi mencionado, a entrada na reforma implica a perda de papéis sociais e profissionais e que o indivíduo tenha mais tempo livre, o que pode ameaçar a sua estabilidade emocional (Marchi, et al., 2006). Desse modo, a participação neste tipo de atividades pelos idosos, durante o período em que não estão inseridos no Centro de Dia, constitui uma forma de os mesmos se manterem ocupados e fomentarem relações sociais. Em suma, concluímos que o sociólogo pode desempenhar um importante papel em organizações desta natureza ao nível da animação sociocultural para a terceira idade. Por outro, pensamos que articulação entre universidades e entidades profissionais constitui uma mais-valia para a integração dos alunos no mercado de trabalho. 80 Considerações finais O presente trabalho é o resultado de um longo percurso de pesquisa, análise, reflexão e construção do conhecimento sociológico, que se desenvolveu tentando dar resposta à seguinte questão de partida: “De que modo o Centro Social de S. Félix da Marinha promove o envelhecimento ativo?” Neste âmbito, importa começar por referir que o processo de envelhecimento constitui um fenómeno universal e inevitável que decorre desde o nascimento e ao qual se juntam alterações físicas, psicológicas e sociais no indivíduo. Embora seja verdade que todos os indivíduos passam por um processo de envelhecimento bio-psico-social, a sua velocidade e a sua gravidade são extremamente variáveis de indivíduo para indivíduo. Nesse sentido, os idosos constituem um grupo bastante heterogéneo, pois cada um envelhece de uma forma particular. A par do processo de envelhecimento, não poderíamos deixar de refletir sobre a questão da institucionalização. De facto, o aumento exponencial da longevidade da população permitiu que os indivíduos vivessem mais anos. No entanto, viver mais não significa, necessariamente, viver melhor. Viver mais, traduz-se também numa maior probabilidade de ocorrência de doenças crónicas, o que se denomina de envelhecimento patológico. Neste domínio, observamos que o agravamento das condições de saúde do idoso constituiu o principal motivo subjacente à sua inserção no Centro Social de S. Félix da Marinha. A essa situação juntou-se a indisponibilidade da família na prestação de cuidados ao idoso. De ressalvar que, até ao século XIX, o apoio que os idosos precisavam era garantido pela solidariedade familiar. No entanto, as alterações demográficas e as dinâmicas da industrialização e modernização levaram a importantes alterações no seio da família e no desempenho de papéis (Pimentel, 2001). Neste contexto, destacamos o facto de, por um lado, o aumento da esperança média de vida conduzir a maiores e prolongados cuidados dirigidos a esta faixa etária, o que se pode tornar extremamente penoso para a família e, por outro lado, a inserção da mulher no mercado de trabalho dificultar ou impossibilitar a prestação de cuidados adequados aos idosos. Neste sentido, muitas famílias têm optado pela transferência desta responsabilidade ou a sua partilha com as instituições públicas ou privadas de solidariedade social. Apesar do agravamento das condições de saúde ser o principal motivo de institucionalização do idoso, importa salientar que a solidão e o isolamento também 87 JAVEAU, Claude (1998) – Lições de Sociologia. Oeiras: Celta Editora. LOPES, Marcelino (2006) – Animação Sociocultural em Portugal. 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Newbury Park: Sage Publications ZIMERMAN, Guite I. (2000) – Velhice: Aspectos biopsicossociais. Porto Alegre: Artmed Editora Sites Consultados ASSOCIAÇÃO REDE DE UNIVERSIDADES DA TERCEIRA IDADE [em linha]. Consultado a 5 de Janeiro de 2012. Disponível em: http://www.rutis.org/ 91 Anexos Anexo 1 – Grelha de observação direta Categorias Dimensões Indicadores Discrição I. Coordenadas espaciais 1– Caracterização do espaço - Organização interna do espaço: adequação das instalações à capacidade funcional dos idosos; - Descrição da ambiência geral: decoração, limpeza e conforto; 2 – Segurança - Vigilância; - Infraestruturas, equipamentos, arquitetura, etc. II. Atores Sociais 3Perfiltipo - Idade; - Género; - Outras características 4Interação entre idosos - Espontaneidade; - Motivo; - Atitudes; - Comportamentos; 5Interação entre idosos e colaboradores da instituição - Espontaneidade; - Motivo; - Atitude; - Comportamentos; 6Participação ativa dos idosos nas atividades - Tipo de atividades destinadas aos idosos; - Número de participantes; - Participação espontânea na atividade; - Entusiasmo 92 demonstrado; 7Participação dos idosos no planeamento das atividades - Influência da opinião dos idosos no tipo de atividades a desenvolver; - Tipo de envolvimento. 93 Anexo 2 – Grelha de observação da situação de entrevista Entrevista nº______ CATEGORIAS NOTAS Local e hora Caracterização do espaço físico e condições do local onde decorreu a entrevista Linguagem verbal do entrevistado Linguagem não verbal do entrevistado Mímica do entrevistado Interrupções Vestuário do entrevistado Interações que ocorreram antes e depois da gravação da entrevista 94 Anexo 3 – Guião de entrevista semiestruturada para os utentes O presente guião de entrevista foi construído no âmbito de um relatório de estágio do Mestrado em Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. O nosso objetivo consiste em analisar o processo de institucionalização do idoso e compreender de que modo o Centro Social de São Félix da Marinha promove o envelhecimento ativo. 1. Caracterização sócio-demográfica 1.1. Qual a sua idade? 1.2. Qual o seu estado civil? 1.3. Qual o seu grau de escolaridade? 1.4. Que profissão exercia antes de se reformar? 1.5. Qual a sua situação perante o trabalho? 2. Retaguarda familiar do idoso 2.1.Tem filhos? São casados? 2.2.Vive sozinho ou acompanhado? 2.3.No caso de viver sozinho: 2.3.1.Estabelece contato com a sua família? 2.3.2.A sua família costuma visitá-lo/a? Se sim, com que frequência? 2.3.3.Tem algum tipo de apoio dos seus familiares? Se sim, em que domínios? 2.4.No caso de viver acompanhado: 2.4.1.Com quem vive? 2.4.2.Como é a vossa vida diária? Repartem tarefas, cuidam uns dos outros? 2.5. Como caracteriza a relação com a sua família? 3. Institucionalização 3.1. Há quanto tempo está inserido neste Centro Social? 3.2. Quais foram os motivos que o/a trouxeram para o Centro Social? 3.3. Gosta de passar o dia nesta instituição? 3.4. O que melhorou na sua vida com a vinda para o Centro Social? 3.5. Considera que a sua vida se tornou mais ativa após a sua entrada neste Centro Social? 95 4. Atividades desenvolvidas no Centro Social 4.1.Costuma participar nas atividades que são desenvolvidas no Centro Social? Porquê? 4.2.No caso de participar nas atividades 4.2.1.Em que tipo de atividades participa? 4.2.2.Está satisfeito/a com as atividades propostas? 4.3.Costuma sugerir algum tipo de atividades que gostasse de participar? 4.4.Se sim, acha que as suas sugestões são levadas em conta pelos profissionais do Centro Social? 4.5.Que atividades gostava de realizar no Centro Social? 5. As relações sociais internas 5.1.Como é que caracteriza a relação entre os idosos no Centro? 5.2.Apercebe-se se existem, por vezes, conflitos entre os idosos? 5.3.Se sim, de que tipo de conflitos se trata e por que razões é que eles ocorrem? 5.4. Está satisfeito com o tipo de relação que tem com todos os profissionais que trabalham no Centro Social? Porquê? 96 Anexo 4 – Guião de entrevista semiestruturada para informantes privilegiados da instituição A presente entrevista foi construída no âmbito de um relatório de estágio do Mestrado em Sociologia da faculdade de Letras da Universidade do Porto. O nosso objetivo consiste em analisar o processo de institucionalização do idoso e a promoção do envelhecimento ativo em contexto institucional. Agradecemos a sua colaboração e garantimos o anonimato e a confidencialidade das suas respostas. 1Perfil do entrevistado  Qual é a sua idade?  Qual é o seu estado civil?  Quais são as suas habilitações académicas?  Qual é a sua área de formação?  Há quanto tempo trabalha no Centro Social?  Que funções desempenha no Centro Social?  O que pensa do trabalho que desenvolve no Centro com os utentes? 2Processo de institucionalização dos idosos  Como se processa a entrada e integração dos idosos na instituição?  Quais são as condições de acesso ao Centro Social?  Existe algum tipo de restrições na inserção dos idosos na instituição? Se sim, quais? 3Interações entre os idosos no interior da instituição  Como é que perceciona a relação entre os idosos?  Por vezes, existem conflitos entre os idosos?  Se sim, de que tipo e quais as razões da sua existência? 103 Anexo 7 – Plano de atividades socioculturais destinado aos idosos Actividade nº1Festa da Primavera Data Descrição da actividade Objectivos Recursos Materiais 21/03/12 A festa da Primavera trata-se de uma atividade interinstitucional. Na realização desta atividade trabalharemos juntamente com a animadora e serão convidadas duas instituições: a instituição Bom Pastor e o Centro Social de Pedroso. Neste domínio, os idosos das respetivas instituições devem cantar três canções alusivas à Primavera. Estimular os idosos para a participação social e fomentar o convívio entre idosos de diferentes instituições. Folhas de papel. Actividade nº2-Passar a bola Data Descrição da actividade Objectivos Recursos Materiais 22/03/12 O animador joga a bola, diz o seu nome (ou cidade, país, etc.) e, depois, passa a bola com a mão para um utente. Assim, sucessivamente, cada utente joga a bola, diz o seu nome e passa-a. Estimular a coordenação mental e manual. Uma bola. 104 Actividade nº3 – Completar provérbios Data Descrição da actividade Objectivos Recursos Materiais 23/03/12 Em grupo, os utentes devem completar os provérbios com a palavra em falta. Desenvolver capacidades intelectuais e culturais dos utentes. Lista de provérbios. Actividade nº4 – Desenhos criativos Data Descrição da actividade Objectivos Recursos Materiais 26/03/12 Os utentes devem fazer um desenho sobre um tema á escolha. Desenvolver a criatividade. Folhas e lápis de cor ou marcadores. Actividade nº5Identificação de objetos Data Descrição da actividade Objectivos Recursos Materiais 27/03/12 Identificar através do tato, objetos usados no quotidiano. Estimular o raciocínio. Venda para olhos, Copo, botão, jornal, prato, escova, garfo, caneta, garrafa, botão. Actividade nº6 –Debate sobre temas da atualidade Data Descrição da actividade Objectivos Recursos Materiais 28/03/12 A partir da leitura do jornal, os utentes irão debater alguns temas da atualidade. Ouvir os utentes, informar e esclarecer as suas dúvidas e estimular a convivência entre os mesmos. Jornal de notícias. 105 Actividade nº7-Memorizar a roupa Data Descrição da actividade Objectivos Recursos Materiais 29/03/12 O animador coloca dois utentes frente a frente. Cada um deve observar bem o outro. De seguida, vira-os costas com costas, de modo que não possam ver-se e faz a cada um, perguntas sobre a roupa do outro (de que cor é a camisola, se tem brincos, etc.) Potenciar a memória visual. Não. Actividade nº8 - Dança Data Descrição da actividade Objectivos Recursos Materiais 30/03/12 Em pares ou grupo, os utentes devem dançar ao som de música tradicional portuguesa. Estimular a coordenação psicomotora e o convívio entre utentes. Leitor de cd e um cd de música. Actividade nº9Diferenças Data Descrição da actividade Objectivos Recursos Materiais 02/04/12 Individualmente ou em grupo, os utentes devem descobrir as diferenças entre as imagens. Desenvolver a agilidade mental e percetiva. Papel. 106 Actividade nº10-Torneio de Dominó Data Descrição da actividade Objectivos Recursos Materiais 03/04/12 O dominó pode ser jogado entre 2 a 4 utentes. As peças são baralhadas na mesa e cada utente recebe 7 peças de dominó. O utente que começa a partida é o que tem a peça 6-6. A partir daí, cada utente deve tentar encaixar a sua peça, uma por vez. Desenvolver e/ou manter a capacidade intelectual e estimular o convívio entre os utentes. Dominó. Actividade nº11Operações e problemas aritméticos rápidos Data Descrição da actividade Objectivos Recursos Materiais 04/04/12 Resolver operações e problemas aritméticos simples sem usar a máquina de calcular. Potenciar o raciocínio abstrato. Papel. Actividade nº12 – Derrubar garrafas Data Descrição da actividade Objectivos Recursos Materiais 05/04/12 Em grupo de pares, os utentes devem atirar a bola, com o intuito de derrubar o maior número possível de garrafas, que estão a uma distância de cinco metros, no chão. Estimular a concentração e a coordenação óculomanual. Garrafas vazias e bola. 107 Actividade nº13 – Labirinto Data Descrição da actividade Objectivos Recursos Materiais 09/04/12 Individualmente ou em grupo, os utentes devem descobrir o caminho para o centro do labirinto. Potenciar a perceção espacial. Papel. Actividade nº14 – Tempestade mental Data Descrição da actividade Objectivos Recursos Materiais 10/04/12 Os utentes devem resolver um conjunto de enigmas. Estimular o raciocínio. Papel. Actividade nº15-Música Data Descrição da actividade Objectivos Recursos Materiais 11/04/12 Os utentes devem escolher o instrumento que preferem tocar e de seguida, toca-lo, acompanhando um conjunto de músicas. Desenvolver a criatividade e a imaginação. Instrumentos de música e leitor de cd. Actividade nº16A riqueza de saber ouvir e partilhar Data Descrição da actividade Objectivos Recursos Materiais 12/04/12 A partir do tema “O que mudou no nosso país nos últimos 30 anos?”, os utentes devem dar a sua opinião sobre o mesmo. Estimular o convívio entre os utentes. Não. 108 Actividade nº17 – Expressão dramática Data Descrição da actividade Objectivos Recursos Materiais 13/04/12 Reprodução verbal e/ou não verbal de diferentes emoções ou situações do quotidiano, tais como, tristeza, alegria, sons de animais, etc. Potenciar a transmissão de sentimentos e emoções através da expressão corporal, facial e vocal. Não. Actividade nº18-Torneio “Sueca” Data Descrição da actividade Objectivos Recursos Materiais 16/04/12 A sueca joga-se entre quatro utentes, divididos em duplas. Um dos utentes tira a primeira ou última carta do baralho, revelando, dessa forma, o trunfo. De seguida, cada utente deverá receber 10 cartas, de modo que o barulho seja todo utilizado. A partir daí, inicia-se o jogo, no qual um dos utentes joga uma carta e os restantes devem assistir ao naipe em casa, e assim, sucessivamente. Desenvolver a capacidade intelectual e estimular o convívio entre os utentes. Baralho de Cartas. 109 Actividade nº19 – Torneio “O Bingo” Data Descrição da actividade Objectivos Recursos Materiais 17/04/12 O bingo pode ser jogado entre vários utentes. Cada um recebe um cartão com números aleatórios. De seguida, os utentes riscam no cartão, os números que vão sendo sorteados, ganhando o primeiro utente que o preencher totalmente. Desenvolver a capacidade intelectual e estimular o convívio entre os utentes. Jogo “O bingo”.