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107 ‘DIY’ na UnIversIDaDe Do Porto: InstrUmentos cIentífIcos fabrIcaDos localmente Marisa L. Monteiro, José M. Araújo e Luís M. Bernardo Resumo Em Junho de 1942, um conjunto apreciável de instrumentos científicos fabricados em oficinas portuenses foi exibido nas instalações do Laboratório de Física, enquanto decorria o 4º Congresso Luso-Espanhol para o Progresso das Ciências. O pequeno catálogo associado a esta exposição continha 206 entradas. Os instrumentos, aparelhos e utensílios de vidro aí enumerados resultavam do esforço de alguns anos, do Laboratório de Física – bem como de outras instituições congéneres – para suprir as necessidades materiais de um ensino experimental apropriado. O Museu de Ciência da Universidade do Porto, que detém o acervo do Laboratório de Física, iniciou em 2008 uma investigação – a qual ainda prossegue – no sentido de identificar e estudar a utilização de tais objectos, distribuídos pelas grandes áreas dos programas de Física da época: Metrologia, Mecânica, Acústica, Óptica, Calor e Eletricidade. Copiando na maioria dos casos os originais de conceituados fabricantes estrangeiros, acrescentando por vezes algumas inovações, os instrumentos, aparelhos e utensílios em exibição eram, ou de fabrico muito simples, ou haviam sido construídos em oficinas locais com maquinaria de precisão, sob a supervisão do diretor e de outros professores do Laboratório. Esta investigação tem demonstrado a natureza peculiar da coleção de instrumentos científicos do Museu de Ciência: a par de nela se encontrarem representados um grande número de fabricantes estrangeiros, oferece um importante testemunho do tecido artesanal/industrial portuense na primeira metade do século XX, bem como do investimento na construção de uma escola em tempos de menor abundância. Palavras-chave: exposição; instrumentos científicos; fabrico local
atas Do semInárIo InternacIonal “o fUtUro Dos mUseUs UnIversItárIos em PersPetIva” 108 Abstract In the late spring of 1942, a significant number of scientific instruments made in Porto’s workshops was exhibited in the premises of the Physics Laboratory of the Faculty of Science, while the 4º Congresso Luso-Espanhol para o Progresso das Ciências was taking place. The entries in the small catalogue associated to this event amounted to 206. The instruments, apparatus and glassware listed were the result of an effort of several years, of the Physics Laboratory, as well as of other similar institutions – to meet the needs of an appropriate experimental teaching. The Museum of Science of the University of Porto, which holds the collection of scientific instruments of the extinct Physics Laboratory, initiated a research project in 2008 – still going on – aiming at the identification and study of the functionality of these objects, falling into the major areas to be found in the Physics curricula at the time: Metrology, Mechanics, Acoustics, Optics, Heat and Electricity. Copied in most cases from originals built by renowned foreign makers, sometimes showing the addition of innovative features, the instruments, apparatus and utensils on display were, either quite unpretentious, or had been made in local workshops with precision machinery, under the supervision of the Laboratory’s Head and teaching staff. This research has so far shown the peculiar nature of the collection of scientific instruments held by the Museum of Science: while offering examples of the work of a large number of foreign manufacturers, it contributes an important testimony of the town’s traditional crafts and industrial fabric in the first half of the 20th century, as well as of the investment made in building up a school in times of hardship. Keywords: exhibition; scientific instruments; made in Porto
atas Do semInárIo InternacIonal “o fUtUro Dos mUseUs UnIversItárIos em PersPetIva” marIsa l. monteIro, José m. araúJo e lUís m. bernarDo ‘DIY’ na UnIversIDaDe Do Porto: InstrUmentos cIentífIcos fabrIcaDos localmente 109 IntroDUção No final da Primavera de 1942, teve lugar no edifício histórico da Universidade do Porto, então alojando a Faculdade de Ciências e a Reitoria, o IV Congresso LusoEspanhol para o Progresso das Ciências. Para o director interino do Laboratório de Física, Professor Álvaro Machado, pareceu, então, apropriado colocar em exposição, durante o encontro, instrumentos e aparelhos científicos que vinham a ser construídos em Portugal desde a década de vinte, para apoiar o ensino experimental de Física. A ideia não era original: na primeira edição deste congresso, realizada em 1921, também no Porto, uma área significativa do mesmo edifício acolhera uma exposição de material científico e técnico organizada pela Associação Espanhola para o Progresso das Ciências e comissariada pelo Engenheiro Leonardo Torres Quevedo, então diretor do Laboratório de Investigações Científicas de Madrid (Bernardo, 2006). O Professor Álvaro Machado integrava a Comissão Executiva do Congresso de 1921. Para contextualizar a exposição de instrumentos de fabrico nacional, urge recuar aos tempos da Academia Politécnica do Porto (1837-1911), precessora da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. No início do século XX, e na sequência de uma profunda reforma estrutural e curricular da Academia Politécnica, iniciada alguns anos antes, o edifício da Academia (o atual edifício histórico da Praça Gomes Teixeira) era completado, decorrido quase um século após a colocação da primeira pedra! O aumento das dotações orçamentais permitia, igualmente, o melhoramento dos gabinetes de ensino. Sucediam-se as aquisições metódicas de instrumentos de Física a fabricantes europeus, procedimento que não foi interrompido pela implantação da República e subsequente transformação da Academia Politécnica na Faculdade de Ciências. A I Guerra Mundial viria a suspender as importações durante algum tempo; quando foram retomadas, a moeda portuguesa estava significativamente desvalorizada. Nos anos seguintes, a profunda crise política em que o país se viu mergulhado agravou as condições sociais e económicas. Contudo, leis publicadas em 1911 e 1922 tornavam o ensino experimental obrigatório nas Universidades e liceus (Machado, 1941), levando uns e outros a socorrerem-se do fabrico local de aparelhos de Física para suprirem a insuficiência destes nos laboratórios. a exPosIção A exposição de junho de 1942 decorreu nas salas de trabalhos práticos do résdo-chão do Laboratório de Física. Não teve o impacto que o seu organizador pretendia. A análise à correspondência da época revela que existia, da sua parte, uma
atas Do semInárIo InternacIonal “o fUtUro Dos mUseUs UnIversItárIos em PersPetIva” 110 ambição de criar um ramo da indústria nacional dedicado ao fabrico de instrumentos científicos para uso nas escolas e nas três universidades do país. Uma pequena notícia na edição de 2 de julho do periódico “A Cidade”, disso dá conta ao transcrever o seguinte trecho da carta que Álvaro Machado terá dirigido ao jornal, na sequência de um editoral publicado pelo mesmo em 9 de junho, a propósito do Congresso que se avizinhava: << Para se patentear às pessoas das diferentes especialidades científicas os aparelhos já construídos em vários pontos do País, receberem os seus dirigentes e construtores as críticas competentes daqueles e, por ventura, novas ideias e incitamentos para novos empreendimentos desta ordem, lembro a conveniência de se fazer, sob os auspícios da Exma Comissão do Congresso, numa das salas da Faculdade de Ciências do Pôrto, uma exposição dos próprios aparelhos construídos, ou suas fotografias, desenhos e projectos. Para ilucidar os visitantes e mostrar a aliança que, sempre, deve existir entre a ciência pura e aplicada na industria, cujos progressos caminham a par, lembro a conveniência e a oportunidade nacional de se fazer uma pequena memória descritiva, com o título Possibilidades da industria nacional na construção de aparelhos científicos, ilustrada com fotogravuras, com legendas ou curtas descrições, apontando autores, colaboradores, artistas e inovações por cada um introduzidas. >> O seu objetivo era, pois, reunir os artifices e responsáveis de oficinas para que processos de construção e inovações ocasionais fossem divulgados. Fosse por os convites à participação se revelarem tardios, por dificuldades financeiras ou por quaisquer outras razões que ainda não apurámos, compareceram à mostra apenas os que tinham uma ligação mais próxima ao Laboratório de Física ou ao Professor Álvaro Machado, quase todos com morada no Porto.
atas Do semInárIo InternacIonal “o fUtUro Dos mUseUs UnIversItárIos em PersPetIva” marIsa l. monteIro, José m. araúJo e lUís m. bernarDo ‘DIY’ na UnIversIDaDe Do Porto: InstrUmentos cIentífIcos fabrIcaDos localmente 111 figura 1 – catálogo da exposição e distribuição dos itens por áreas disciplinares. O catálogo da exposição (Machado, 1942), reduzido no final a uma brochura não ilustrada de 36 páginas, lista 206 instrumentos ou utensílios, distribuídos por várias áreas da Física (figura 1). Mais de metade eram propriedade do Laboratório de Física. A supervisão científica e técnica da sua construção foi feita, na maioria dos casos, por professores do Laboratório. Perto de 60 oficinas ou pequenas indústrias são autoras materiais, sendo que apenas um pequeno número contribui com 10 ou mais instrumentos (figura 2).
atas Do semInárIo InternacIonal “o fUtUro Dos mUseUs UnIversItárIos em PersPetIva” 112 fig. 2 – número de entradas do catálogo por oficina. O catálogo lista os endereços de cerca de um terço destas oficinas, o que nos permitiu mapeá-los com auxílio do Google (figura 3). Torna-se evidente que há 70 anos, oficinas e pequenas indústrias de metalurgia, serralharia, carpintaria, vidraria, etc., se localizavam em pleno centro da cidade, paredes meias com residências. Seria interessante, embora não do foro deste artigo, saber quais chegaram até hoje, identificando as razões do seu sucesso ou da sua completa obliteração - refira-se o exemplo da oficina Electro-Moderna, Lda, fundada em 1921 e que está na origem da EFACEC (Guedes, 1999), ou da Fábrica Portuguesa de Balanças, com oficinas no desaparecido Largo da Cividade (ou Largo do Corpo da Guarda), no morro da Sé (página web “Porto Tripeiro”). os InstrUmentos Para este artigo foi feita uma pequeníssima seleção de instrumentos, de entre as duas centenas de entradas do catálogo, representativos de áreas disciplinares da Física contempladas no mesmo. Genericamente em bom estado, poderão não estar completos – aliás, o próprio esforço de compleição emergiu do interesse colocado neste estudo, conduzindo ao reconhecimento de peças dispersas, conservadas nas salas das reservas do Museu de Ciência (figuras 4 a 8).
atas Do semInárIo InternacIonal “o fUtUro Dos mUseUs UnIversItárIos em PersPetIva” marIsa l. monteIro, José m. araúJo e lUís m. bernarDo ‘DIY’ na UnIversIDaDe Do Porto: InstrUmentos cIentífIcos fabrIcaDos localmente 113 fig. 3 – localização de algumas oficinas (o edifício da faculdade de ciências está assinalado com um círculo). fig. 4 – a máquina de dividir retas, para gravar escalas milimétricas em instrumentos de medidas lineares. À esquerda: a máquina da prestigiada firma inglesa cambridge scientific Instrument co. ltd., em imagem de catálogo (cambridge sci. Instr. co. ltd., 1902) a quem o laboratório de física comprou o modelo de 1 metro de comprimento em 1909. À direita: a máquina de 30 cm fabricada pela fábrica Portuguesa de balanças em 1941.
atas Do semInárIo InternacIonal “o fUtUro Dos mUseUs UnIversItárIos em PersPetIva” 114 fig. 5 – aparelho de Jules lemoine (professor de física e Química no lycée louis-le-Grand e no conservatoire nationale des arts et métiers no início do séc. xx), para estudo gráfico das oscilações amortecidas de um pêndulo comum. em cima, à esquerda: imagem do aparelho em livro de texto (lemoine & vincent, 1918). em baixo e à direita: o aparelho da autoria conjunta da oficina de louzeiro de a. ferreira da costa, oficina do laboratório de física e metalínea (data desconhecida).
atas Do semInárIo InternacIonal “o fUtUro Dos mUseUs UnIversItárIos em PersPetIva” marIsa l. monteIro, José m. araúJo e lUís m. bernarDo ‘DIY’ na UnIversIDaDe Do Porto: InstrUmentos cIentífIcos fabrIcaDos localmente 115 fig. 6 – acessório do extensómetro de James a. ewing. o extensómetro fora adquirido à cambridge scientific Instrument co. ltd. em 1909, para trabalhos práticos sobre elasticidade em fenómenos de tração. este dispositivo serve para puncionar de forma bem precisa as barras em estudo. À esquerda: o dispositivo patenteado pela cambridge em 1908, numa imagem do folheto comercial n.º 75 (1911). À direita: a replicação efetuada pela fábrica Portuguesa de balanças (c. 1940).