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Do rio ao jardim. O exemplo do Turia - Valência.

Afonso Duarte da Costa Azevedo

Abstract

Intitulada: Do Rio ao Jardim , o exemplo do Turia - Valência, esta dissertação pretende ser o reflexo da experiência de ERASMUS, realizada no ultimo ano lectivo na cidade de Valência. O tema surge através da curiosidade em entender a dualidade de sentimentos que os valencianos nutrem pelo "seu" antigo rio. No fundo, tenta procurar respostas do passado no presente, para projectar o futuro do Turia. Assim, o presente trabalho tem como principal objectivo conhecer e compreender o resultado final a nível da cidade de Valência provocado pelas transformações e implicações em torno do rio Turia. Na realidade, no momento em que traçamos o ponto de situação no trabalho, foi perceptível que as alterações, opiniões, ideias, avanços e recuos foram bastantes. Para melhor perceber e ir mais fundo no trabalho, traçamos um percurso evolutivo que abrange o "nascimento" da cidade de Valência até aos dias de hoje, contudo há naturalmente, um período em que nos focamos mais. Começou-se por traçar uma panorâmica dos finais do século XVIII, caracterizado pelo crescimento económico. Rapidamente entramos no século XIX, era da industrialização, onde é fundamental destacar o nascimento dos caminhos de ferro a nível mundial. É no final deste século e inicio do século XX que surgem as propostas de ordenação gerais da cidade de Valência e se inicia uma delas, o Plano Sul, apesar da situação politica em Espanha. O Plano Sul incide na transformação do leito do rio num enorme parque ajardinado, na realidade, Valência quis dar uma nova funcionalidade ao seu rio, convertendo- -o na coluna vertebral da cidade. Quando se fala actualmente do Turia é inevitável falar dos arquitectos Ricardo Boffil e Santiago Calatrava, embora por motivos diferentes. É esta vontade de criar algo novo, que nos levou a estudar este exemplo que aqui apresentamos. Mas os objectivos desta dissertação vão para além disso, propomos também um novo desenho para um sector do Jardim do Turia - em frente às Torres de Serrano. A introdução do elemento água e a retirada pontual dos parapeitos, são os dois pontos fundamentais da proposta, sendo nosso objectivo o de proporcionar à população um espaço onde se possa conviver com todo o antigo caudal do rio.

Full text

UNIVERSIDADE DO PORTO DO RIO AO JARDIM O EXEMPLO DO TURIA VALÊNCIA AFONSO DUARTE DA COSTA AZEVEDO 2.º CICLO FAUP 2013 ! DO RIO AO JARDIM O EXEMPLO DO TURIA - VALÊNCIA AFONSO DUARTE DA COSTA AZEVEDO DISSERTAÇÃO DE MESTRADO APRESENTADA À FACULDADE DE ARQUITETURA DA UNIVERSIDADE DO PORTO EM ARQUITECTURA M 2013 ! Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitectura realizada por Afonso Duarte da Costa Azevedo com orientação do Arquitecto Daniel José Rodrigues de Oliveira e Co-orientação do Professor Arquitecto Luis Perdigón Fernández . Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. Porto, Setembro de 2013 Todas as citações presentes no corpo de texto foram escritas em português, com tradução do autor. No final do trabalho encontram-se as citações transcritas na língua original. AgrAdecimentos Gostaria de agradecer a disponibilidade para orientação e partilha de conhecimentos do meu orientador, o Arquitecto Daniel Oliveira. De igual forma, agradeço o incentivo e a sabedoria do meu co-orientador, o Professor Arquitecto Luis Perdigón, que durante a minha estadia em Valência me permitiu mais esclarecimentos sobre o “Jardim do Turia”. Foram estes meus dois orientadores, que permitiram desfrutar pelos seus conhecimentos académicos, saber profundo, profissionalismo e amizade. A eles cabe a responsabilidade das virtudes encontradas na dissertação. Ao Arquitecto Amando Llopis Alonso do atelier Vetges Tu i Mediterránia SL, pela disponibilidade de me receber pela partilha de conhecimentos para o desenvolvimento da dissertação. A todos os meus amigos, em especial à Raquel M., Marta, Raquel B., Liliana, Rute, Sara, Carolina, Marta Rito, Andreia, Sofia, Bruce, Zé Guilherme, Pedro, Rogério e Cabreira, que ao longo deste percurso participaram na minha formação académica e pessoal. À Teresa, pela presença fundamental ao longo deste percurso, pela constante motivação, compreensão, paciência e pela força que me conseguiu transmitir. E, finalmente, aos meus Pais e família em especial à “gémea” Joana, por todo o apoio neste curso exigente. Obrigado por simplificarem e ajudarem a ultrapassar as dificuldades. A todos, quero prestar o meu sincero agradecimento. CONSIDERAÇÕES PRÉVIAS Introdução Nesta última etapa do curso de Mestrado Integrado em Arquitectura, somos desafiados a escolher um tema para desenvolver na conclusão do plano de estudos. Desta forma, torna-se importante que o tema, apesar de teórico, possa compreender uma “ligeira” componente prática. O tema, porventura, poderá enriquecer e colocar questões importantes à prática de arquitectura. Deve exigir uma reflexão, neste que é um momento importante entre o terminar o culminar de um ciclo académico e a experiência profissional que se avizinha. Uma vez que tudo se foca na importância do jardim para a cidade do Valência, dentro do desenho do Parque Urbano, surgiu a oportunidade de desenvolver uma proposta direccionada para a ordenação exclusivamente ajardinada, “sendo exigível um projecto global e unitário, a solução alcançada está suportada por um desenho forte, linearmente rigoroso, capaz de moldar o espaço através de volumes geométricos e unidade nas plantações. O verde como programa fundamental e a água como ideia permanente do antigo rio são os protagonistas do desenho, mais do que qualquer outro elemento auxiliar” 1 É notório que cada vez mais as cidades destacam e publicitam as suas zonas verdes. Globalmente, esta pretende ser uma solução “justa” de aproveitamento de recursos dentro do núcleo urbano. Nesse sentido, caberá ao arquitecto e à sua equipa, intervir num processo de responsabilidade, considerando que constitui um privilégio desenvolver um projecto com estas virtudes. 1 LLOPIS ALONSO, Amando, 1987 La Valencia de los noventa. Una ciudad con futuro in Valencia, 1957-2007. De la riada a la Copa del América,, Universidad de Valencia, Valencia, p.76 15 16 O objectivo que se propõe abordar nesta dissertação, prende-se com as soluções apresentadas para a problemática de desvio do rio Turia e o seu valor patrimonial, que ao longo do tempo teve vários momentos, inclusive o estado de abandono mas que presentemente é um espaço aproveitado pela cidade. O actual estado do antigo leito do rio Turia que hoje conhecemos, apesar de se ter transformado num espaço verde ajardinado mantém a sua ligação à cidade como nas suas origens. O assentamento da cidade de Valência naquele local especifico, deve-se sobretudo ao rio Turia ou Guadalaviar. Dai o facto de a cidade de Valência ser considerada como fluvial e não marítima. Por outro lado, o rio acarreta consigo toda a carga histórica que lhe está associado, tornando-se numa presença marcante no território. Devido à sua presença marcante e importância, este se torna um caso de estudo onde o objectivo é aproveitar o espaço livre para dar algo à cidade e população. Todavia é necessário reconhecer a importância do valor simbólico que o rio representa, havendo contudo lugar a uma relação amor/ódio. Devido ao carácter plano da cidade e ausência de lugares de abrigo, o rio provocava periodicamente inundações na cidade e portanto erupções fortes e assoreamento na foz. Numa fase inicial é também importante conhecer as questões técnicas, urbanísticas, históricas e sociais da cidade. Interessa pois, transpor para o presente, os acontecimentos e decisões do passado para privilegiar a continuidade do Turia no futuro. Será oportuno pensar, que a ruptura não é a decisão acertada para a ordenação do território. De igual modo, será importante investigar de que forma se desenvolvem os planos para ocupar os terrenos deixados “livres” pelo desvio do rio Turia para sul da cidade, convém dar a conhecer, os planos, as ideias e as propostas que foram apresentados para esses terrenos. Vários foram os autores, que apresentação possibilidades para o espaço vazio da cidade, de acordo com os seus interesses O que se pretende destacar, neste trabalho, através do exemplo do “Jardim do Turia” é mostrar que por vezes um rio pode funcionar como um elemento de união e não de fragmentação da cidade. 17 Para a realização desta dissertação e tendo o objectivo bem definido foi importante adoptar uma metodologia. Esta estruturou-se a partir de importantes visitas à área de estudo – Jardim do Turia - onde se fez um levantamento fotográfico e escrito do local e reflexão de um conjunto de referências bibliográficas e material gráfico, com o objectivo de cobrir todos os aspectos necessários. Estas visitas pedonais incluíram o Palácio da Musica e os edifícios das Artes e das Ciências onde foi feito um levantamento fotográfico ao actual estado do Jardim do Turia e permitiu ainda ter uma opinião formada sobre o local de estudo. De igual importância, foram as conversas que levaram ao enriquecimento pessoal do trabalho. Neste ponto contei com a ajuda do arquitecto asturiano Luís Perdigón, que actualmente vive e lecciona em Valência, e o arquitecto valenciano Amando Llopis Alonso, também conhecido e como Tito Llopis. Ao longo do trabalho são referidas opiniões e frases destes dois arquitectos que pela qualidade e clareza das conversas permitiram compreender a qualidade do tema. Relativamente à recolha de informação esta desenvolveu-se na biblioteca do CIA (Centro de Informação Arquitectónica) e na biblioteca Central da Universidade Politécnica de Valência, com o objectivo de compreender a história da cidade e do rio. Mais tarde, a recolha centrou-se no Arquivo de Arquitectura e Urbanismo da Escola de Arquitectura da Universidade Politécnica de Valência, onde através da recolha de informação gráfica foi possível, identificar um conjunto de planos que ajudaram na selecção do caso de estudo desenvolvido ao longo deste trabalho. Por toda a informação que se recolheu é pertinente levantar a questão: Quais os motivos que terão levado a ajardinar uma área tão grande em pleno centro da cidade. A dissertação encontra-se estruturada em três momentos distintos, embora complementares, e que correspondem a um enquadramento e aproximação ao caso de estudo. No primeiro capitulo, abordam-se as questões relacionadas com o contexto histórico da cidade de Valência 2, com o intuito de compreender as origens e as principais alterações que a cidade sofreu a nível urbano. Ainda neste Capítulo é realizada uma análise ao contexto político espanhol. Para a transição no tempo, surge a cronologia, que faz a ponte entre o primeiro e o segundo capítulo. 2 No contexto histórico as referências principais são retiradas do livro “Valencia”, do “Atlas Histórico de Ciudades Europeas”. Península Ibérica, Eds Centre de Cultura Contemporània de BarcelonaSalvat Edotores; Barcelona 18 [_01] O segundo Capítulo, o mais alargado de todos foca-se no tema central do trabalho. O local onde se insere o objecto de estudo, permite compreender os motivos que levaram à apresentação de propostas e ideias. Tal como foi mencionado anteriormente, o rio provocava periodicamente algumas vitimas mortais e quando tal acontecia, surgiam novas propostas para desviar o rio. Este capitulo pretende fazer a descrição das soluções e ideias apresentadas pelos vários autores para então desviar o rio. Segue-se uma descrição da proposta do - Plano Sul - que acabaria por ser executado para desvio do leito do rio. O capitulo dois tenta dar a resposta a esta questão fazendo uma descrição das propostas, que nos permitirá compreender o importante valor simbólico, histórico e social que o Turia ainda acarreta. Posteriormente, através do novo projecto para os terrenos do antigo leito, o trabalho seguiu um novo caminho de análise, direccionando-se para as questões de intervenção na cidade e respeito do plano apresentado e aprovado pelo Ayuntamiento de Valência, da autoria do arquitecto catalão Ricardo Bofill. Como tal, será feito uma descrição entre o plano aprovado e os planos que foram verdadeiramente construídos. Pretende-se esmiuçar os vários sectores em que o Jardim do Turia está dividido, contextualizando os edifícios num panorama global da cidade a que o Jardim do Turia não é alheio. Neste sentido, o trabalho ganha uma nova dimensão, relacionada com a inevitável construção da Cidade das Artes e das Ciências do arquitecto valenciano Santiago Calatrava. Na conclusão está inserido uma proposta de um novo desenho em frente às Torres de Serrano. Esta surge através de um desafio e pretende dar uma solução para um espaço “central” e mediático do Jardim do Turia. Como deverá a cidade de Valência encarar a memória (boa ou má) que o rio deixou? No entanto a cidade deparava-se com um problema, o que fazer aos terrenos do antigo leito do rio? Quais as potencialidades do presente e do futuro para o Jardim do Turia? 19 28 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia [I.09] “Acequias” da cidade, 1915 [I.10] A “acequia” de Mislata. [I.11] Vista nascente da cidade, 1855. [I.12] Caudal do rio Turia na páscoa de 1846 [I.09] [I.11] [I.10] [I.12] 29 Capítulo I - Valência; Enquadramento históricoCapítulo I - Valência; Enquadramento histórico 1.2. O Turia: importância e problemas 1.2.1 - As “riadas” 2 É algumas vezes repetido que o antigo Egipto era um presente do rio Nilo, como tal poderá afirmar-se de igual forma que Valência é um presente do Turia. Desde as suas origens que cidade de Valência está intimamente ligada ao rio Turia. Para além de ser um dos ex-líbris, está ligado à história, às formas, às características e ao crescimento da cidade. A identidade comum representa a intimidade que havia e há entre o rio e a cidade. A consolidação de Valência como cidade deve-se em parte à presença do rio sendo este um elemento importante e ao desenvolvimento da agricultura baseada na melhoria de um sistema de regadio eficiente, chamado “acéquias”3 (fig. [I.09], [I.10],). Este sistema de “valas” permitia controlar o curso da água, especialmente nos meses secos. O Turia era um rio domesticado e metade do seu caudal não era constante (fig. [I.11]). A população nos meses de Primavera e Verão, aproveitava o caudal “seco” do rio para realizar festas, celebrações, feiras, mercados (fig. [I.12]) e outros usos quotidianos e de lazer. Temos que reconhecer que o rio Turia proporcionou à cidade fundamentais e continuados benefícios, contudo há que reconhecer que em algumas ocasiões causou estragos e danos à população. As inundações produzidas pelas fortes chuvas nos meses de Outono, tinham como consequência natural o aumento do caudal levando-o a transbordar. Os primeiros relatos são registados, no século XI, através de versos do sábio Al-Uacaxi : “ E tu nobre Guadalaviar, com a água te servias saíste do teu leito e vais para onde não devias.” 2 Inundações 3 Valas que conduzem àgua para regadio 29 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia [I.13] Ponte del Mar nas cheias de 1897 [I.14] Ponte de Aragão nas cheias de 1957. [I.15] Registo da população que “ocupa” do leito do rio, 1942. [I.16] Habitantes das “chozas” [I.13] [I.15] [I.14] [I.16] 30 Capítulo I - Valência; Enquadramento históricoCapítulo I - Valência; Enquadramento histórico Durante o período de domínio árabe, o rio foi temporariamente, rebaptizado com o nome rio Guadalaviar, que em árabe significa “rio de poços”. Uma das mais trágicas inundações ocorreu nos dias 18 e 29 de Setembro de 1870 quando houve um forte temporal que fez transbordar o rio causando vitimas, fez também danos na agricultura, destrui e danificou pontes. A situação foi agravada com o aparecimento da febre amarela que causou mais baixas na população. Segundo refere, Tito Llopis no livro “Historia de la ciudad; V Tradición y Progreso”, periodicamente entre 1321 e 1957 registam-se vinte e dois transbordos e onze enchentes do rio na cidade (fig. [I.13]) . Segundo a tabela de registos de inundações4 podemos ter uma ideia mais “real” das cheias mais importantes que afectaram a cidade. “A gota de água que fez transbordar o copo”, foi o dia 14 de Outubro de 1957, em que o rio Turia pela última vez, transbordou e inundou a cidade ([I.14]), levando consigo sessenta e nove vidas e um incalculável prejuízo económico à cidade. Na publicação de Outubro de 1957, o jornal valenciano “Las Províncias” dá o máximo destaque às inundações com a manchete : ”Catástrofe sobre Valência” relatando os acontecimentos :” Na capital valenciana um curto, mas violento ciclone derrubou muitas árvores em diversas ruas e jardins. No dia 14 de Outubro de madrugada e depois ao meio dia produziram-se históricos e catastróficos transbordos do Turia. A partir desse momento e durante várias semanas, não houve em Valência outra actualidade se não essas tremendas inundações com gravíssimas consequências”. A maior parte das vitimas eram os trabalhadores desfavorecidos e respectivas famílias, que a partir da década de 1940 começaram a chegar à cidade, oriundas de vários pontos de Espanha. Estes populares, tinham dificuldade em estabelecer-se devido à carência de habitação e como consequência, ocuparam o interior do caudal em “chozas” 5 (fig. [I.15]). Acerca desta população “imigrante” (fig.[I.16]), Germán Valentín-Gamazo no dia 14 de Março de 1946 no Instituto de Estudos de Administração local afirma com alguma ironia: 4 Ver anexo A 5 Cabanas - Casas construídas, feitas em pedra e madeira. Os habitantes não eram ilegais, estão registados no Departamento de Sanidade Municipal em 1942- “Chozas levantadas en la ciudad”. Ver ANEXO B 31 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia “Afortunadamente, Valência é uma cidade que não tem subúrbios, porque o valor agrícola dos terrenos é tal, que não se permite ocupar um metro quadrado de terreno que não seja para explorá-lo, e assim se dá o fenómeno de que o valor do terreno urbano é muito mais elevado em comparação com outras cidades espanholas. O preço inicial que se parte para avaliar os solos é o preço agrícola, que por si só é elevadíssimo. O único subúrbio que se pode considerar em Valência são as cabanas que se foram construindo no caudal do rio Turia, seco a maior parte do ano”6 . As cheias eram um problema já assinalado. A primeira intervenção para evitar as “riadas” datam do ano de 1589 que consistia no reforço das margens para controlar a água do rio entre parapeitos. A intervenção definitiva, e mais importante é realizada após a última inundação - de 1957 - e altera profundamente o leito do rio. A solução é radical e prende-se com a construção do Plano Sul (1964-1974) que consiste na construção de um novo caudal para o rio Turia a sul da cidade, retirando assim a água do centro. Assim sendo, coloca-se um “ponto final” nos problemas das inundações que tanto afectaram cidade na época da “gota fria”7 . Esta solução permitiu, libertar para a cidade, novos e grandes espaços livres, cujo destino foi dos temas mais discutidos e debatidos durante a segunda metade do século XX. A oportunidade que se criou com o “vazio” e seco leito do rio era única. Abriram-se novas “pontes” para intervir num novo e enorme espaço público no interior da cidade. Estas soluções, que analisaremos mais tarde não passaram, felizmente, de projecto e provocaram a mobilização popular em defesa do espaço público, contra os planos do governo. A alternativa popular defendia, a transformação do antigo caudal do rio num grande jardim. Os movimentos populares tinham o slogan : “O caudal do Turia é nosso e queremo-lo verde” 8 . Este momento, foi decisivo para transformar o caudal do rio Turia no parque público que hoje conhecemos. 6 LLOPIS ALONSO, A. “El jardín del Turia: otrod tiempos, otros pryectos, otras imágenes” in “Historia de la ciudad VI. Proyectos y complejidad”; eds Colegio Territorial de Arquitectos de Valencia - Ayuntamiento de Valencia - Universitat de València, Valência, 2010 p.274. 7 Nome dado popularmente pelos valencianos á época das chuvas nos meses de Outubro e Novembro 8 Na língua original valenciana: “El llit del Túria és nostre i el volem verd” 32 Capítulo I - Valência; Enquadramento históricoCapítulo I - Valência; Enquadramento histórico 1.2.2. Século XIX – propostas para o desvio do rio Turia, o projecto de Andrés Soriano e Joaquin Llorens Valência, após derrubar as muralhas medievais crescia de maneira ordenada, sobretudo na margem sul do rio. O Turia era entendido como uma barreira natural que impedia o crescimento para os terrenos a norte. A ideia de desviar o curso do rio Turia, começa a ganhar mais força, sobretudo a partir do momento em que o rio inundava a cidade – e como vimos anteriormente, acontece bastantes vezes. No seguimento de cada inundação aparecem pessoas capazes de incentivar e apresentar projectos inovadores pelo que surgem de novo propostas e movimentos com o objectivo de desviar o rio Turia, para evitar as catástrofes. No final do século XIX surge a proposta intitulada : “Desvio do rio Turia e dessecação da Albufeira” (fig.[I.17]) da autoria do politico e militar valenciano Joaquin LLorens Fernández de Córdova9 e do engenheiro Andrés Soriano Ibarra10. Este projecto, “(...) converteu-se em 1985,(...) num lúdico e ambicioso projecto de futuro para Valência. Um futuro sem cheias, com um porto marítimo com as boas condições técnicas e comerciais, com espaços residenciais e agrícolas. Com a Albufeira sem água e com milhares de hectares de solo cultivável”11 . O plano abrangia a cidade à escala global. Como tal previu-se, uma futura doca comercial situada na costa marítima da cidade com uma enorme potencial de crescimento para albergar armazéns ligados ao porto. Os autores entendiam este projecto, como sinónimo de progresso para a cidade de Valência. O projecto foi desenhado entre 1881 e 1890 e estabelecia um prazo total de execução de dezasseis anos. Joaquín Llorens em 1881, tinha oferecido à “Diputácion Provincial” as primeiras ideias deste projecto, assinado com o nome de “Um valenciano amante da sua pátria”. Para o arquitecto Tito Llopis, “as razões para esta iniciativa representa com 9 Joaquin Llorens nasceu em Valência em 1854, seguiu carreira militar e chegou a general de artilharia e foi distinguido com a cruz laureada de San Fernando. Após vários anos de exílio, voltou a Valência e evidenciou-se em áreas como a pintura, matemática e obras civis. Faleceu a 1931 em Orihuela, Valencia 10 Andrés Soriano nasceu a 1845 em Tarazona de la Mancha. A sua formação realizada em Madrid de engenharia de caminhos de ferros e pontes foi concluída em 1867. Como vice-chefe de obras públicas de Valência e também em colaboração com Joaquim Llorens dirigiu um grande número de obras públicas na região. Em 1890 assume a posição de chefia nas obras públicas de Cuenca, em 1901 voltou a Valência para se juntar à Confederação hidrográfica de Júcar. Faleceu a 1902 em Madrid. 11 LLOPIS ALONSO, Amando; “Historia de la ciudad VI. Proyectos y complejidad”, p.275/6. 33 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia [I.17] [I.18] [I.17] Pormenor de Desvio do Turia e dessecação da albufeira [I.18] Alçados de possiveis edificios dentro do caudal do rio Turia 34 Capítulo I - Valência; Enquadramento históricoCapítulo I - Valência; Enquadramento histórico absoluta lucidez, os pilares sobre o qual deve estar suportada Valência para progredir de maneira adequada. As razões apresentadas, neste projecto foram as seguintes: “1.Valencia necessitava de um bom porto marítimo, “ onde se poderiam encontrar seguros um grande número de navios que fazem o transporte de variadas e ricas produções de vários países”. Para isso era necessário, entre outras coisas, que as terras arrastadas pelas águas do Turia não bloqueassem a entrada da barra do rio. 2. Valência queria estender o território residêncial em todas as direcções, e o caudal do rio era um entrave para esse alargamento. 3. A activação da via comercial associada ao porto marítimo reclamava a expansão da zona portuária “del Grao”, para facilitar a comercialização de mercadorias. 4. As águas da lagoa da Albufeira convertiam-se num foco permanente de febre da malária. A drenagem da água, eliminaria esse perigo e forneceria milhares de metros de terras cultiváveis.”12 Este projecto tem como base a organização e desenvolvimento urbano de Valência e foi considerado pelo Ministro do desenvolvimento espanhol, Santos Isasa, como “ um dos mais importantes e transcendentes que se tentou em Espanha”13 . Em 1891 este projecto obteve a autorização para a execução por parte da rainha regente do reinado, Maria Cristina14 . Como refere Tito Llopis, no livro “Historia de la ciudad; V. Tradición y Progreso”, a proposta consistia “num ambicioso projecto de saneamento básico, melhoria e modernização da cidade, baseado fundamentalmente no desvio do rio Turia.” Após desviar o Turia, existirá uma área “livre bastante grande e atractiva para a construção de estradas, habitações e zona com árvores. Mas qual será a melhor solução? Haverá “só” uma solução ideal? 12 LLOPIS ALONSO, Amando; “Desviar el Turia como símbolo de progreso en Valência: El Proyecto de Joaquin Llorens y Andrés Soriano de 1885” in “Historia de la ciudad: V. Tradición y Progreso” . Eds. Colegio Territorial de Arquitectos de València. Valência, 2008. p.302 13 LLOPIS ALONSO, Amando; “Historia de la ciudad; V.Tradición y Progreso” p.301 14 Real Decreto: “Em conformidade com a proposta do Ministério do Desenvolvimento e de acordo com o relatório do Conselho Consultivo de Estradas, Canais e Portos, em nome do meu filho Rei DE. Alfonso XIII, e como regente do Reino, Venho a decretar o seguinte: “Autorizo a D. Joaquín Llorens e Fernández de Córdova a executar as obras de desvio do rio Turia e desaguar na Albufeira de Valência, sem qualquer subvenção do estado, salvo o direito de propriedade, sem danos a terceiros e sujeito às especificações em anexo.” in Historia de la ciudad; V.Tradición y Progreso. p.311 35 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia [I.19] [I.20] [I.19] Valencia,1885, Guesdon [I.20] Linha do comboio na Estação do Norte 36 No projecto de Joaquin Llorens e Andrés Soriano, há a preocupação em ordenar e desenhar a “nova cidade”. Prevê-se que após desviar o rio Turia, os terrenos “livres” seriam ocupados por zonas residenciais e as zonas verdes apareceriam somente como apoio ou para a exploração agrícola. O projecto é de tal forma completo, que existem desenhos detalhados apresentados no dossier. A figura [I. 18] é um exemplo das várias soluções que a proposta apresenta, que consiste numa secção transversal do caudal do Turia com os “novos edifícios” propostos para o local.. A água não seria totalmente eliminada do leito do rio. O projecto mantinha a solução de controlo da água, porque pretendia manter o curso num canal central e submeter os terrenos a inundações artificias para obter uma irrigação regular e possibilitar a exploração de terrenos agrícolas. Nos anos seguintes, dificuldades financeiras e questões politicas determinaram a caducidade do projecto e posterior não realização. Este plano fica marcado como sendo o primeiro a ser aprovado e concessionado pelas entidades superiores do país. Contudo em 1892, Joaquín Llorens não “baixou os braços” e insiste na viabilidade do projecto. Com a ajuda do engenheiro Eusébio Jimenez utilizou alguns meios de comunicação social como o jornal valenciano “Las Províncias” para publicar uma série de artigos que defendiam a realização da sua proposta. Em Madrid no ano 1902, é desenvolvido um estudo económico da autoria do engenheiro Eduardo Soriano Picazo - filho de Andrés Soriano - que refere: “(...) o projecto de desvio de rio Turia e a retirada da água da Albufeira de Valência constitui um dos negócios mais seguros e lucrativos que podem desenvolver numa capital importante, oferecendo imensas vantagens quando comparados com a construção de caminhos de ferro, obras de irrigação ou a criação de novas industrias.” 15 Este projecto, foi marcante e decisivo para os que lhe seguiram, porque tocava em pontos chave e polémicos, como por exemplo a construção de edifícios no caudal do rio, ou a retirada da água da albufeira. Curiosamente a proposta, Desvio do rio Turia y dessecação da Albufeira e o Plano Sul estão separadas por mais de 70 anos. 15 LLOPIS ALONSO, Amando; “Historia de la ciudad; V.Tradición y Progreso” p.301 43 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia Nesta imagem o caudal é representado com água mas consideravelmente mais estreito como se o rio percorresse o seu leito sem nunca transbordar, dando-nos a sensação de controlo do homem perante a natureza. Não será demasiado considerar o desenho como uma representação idílica. Neste mesmo desenho estão caracterizadas as margens, uma à cota inferior junto ao rio, onde surgem árvores, e percursos pedonais e a uma cota superior que funciona como uma segunda margem para circulação automóvel, e (pontualmente) os acessos de escadas com pontos de miradouro, sobre o rio. Os edifícios ficam na transição entre estes dois patamares, como se fizessem a ligação. Em 1966, há uma estratégia para preencher os terrenos livres do Turia. O Ministério das Obras Publicas redige, a Rede Arterial de Valência que consistia numa global e completa construção de estradas e auto-estradas (fig.[I.27]). De forma surpreendente e sem precedentes, o general Franco “cede” à vontade popular e anula por completo a ideia de construir auto estrada e proíbe qualquer circulação automóvel no antigo leito do rio Turia, abrindo espaço para o uso como zona exclusivamente ajardinada. Propõe-se o lançamento de concurso de ideias para o antigo leito do rio. Entretanto, em 1975 com a morte de Franco a ditadura termina e a democracia volta ao pais, são convocadas eleições. Todavia, os planos de Franco foram “respeitados” e avançou- -se para o concurso de ideias para o novo Jardim. 1.5. CRONOLOGIA 138 aC - Fundação romana de Valência, numa ilha do rio Turia Séc. XI – registos de uma das primeiras inundações sobre a cidade de Valência 1328 – Registo de uma nova inundação 1589 – Novo transbordo do rio Turia. 1ª intervenção para defender-se das inundações. Construção de parapeitos. 1592 – Reconstrução da Ponte del Mar. 1591 / 1789 - Construção de diques de contenção da margem do rio. 1881 – 1890 – Primeira proposta conhecida para desviar o rio Turia a sul. Projecto de desvio e retirada da água da Albufeira da autoria de Joaquín Llorens e Andrés Soriano. 1957, 14 de Outubro – Ocorre a última enchente (riada) do Turia sobre Valência - a anterior foi em 1949 - com um caudal de 3.100 m3/seg., que com o transbordar do Barranco de Carrraixet, inundou três quartos 44 Capítulo I - Valência; Enquadramento históricoCapítulo I - Valência; Enquadramento histórico da cidade, em especial as zonas mais baixas e delas Malvarrosa e o Cabañal, ponto de confluência das avenidas de ambos os canais. 1958, 22 de Julho - O Governo, propõem uma Comissão Técnica Especial e aprova a Solução Sul de desvio do rio Turia pelo centro da cidade, com um novo caudal de 12,6 km de longitude e 200 m de largura desde Quart de Poblet a Pinedo, com capacidade para 5.000m3/seg. de água 1961, 23 de Dezembro – As Cortes aprovam uma lei - Ley de Recursos relativos a la Solución Sur de Valência - para um períodos de 10 anos com um orçamento de 4.300 milhões de pesetas para o projecto. 1969 Dezembro – Realização das obras do novo caudal, que se inaugura sem se ter terminado os colectores. . 1966. 30 de Junho - Aprovado o Plan General de Valência, adaptada a Solução Sul. A antiga estrutura do Turia destina-se à construção de uma autoestrada que ligaria Oeste-Este, desde a chamada Autopista de Levante (direcção a Madrid) até ao do Mediterrâneo (TarragonaAlicante), cujo traçado passava pelas praias de Malvarrosa e de Cabañal e pelo interior do Porto até a Albufeira. 1966 – O Ministério das Obras Públicas, através da direcção geral de estradas, elabora uma Rede Arterial de Valência, um dos estudos previstos no plano nacional de estradas para os principais núcleos urbanos do pais, que deveriam desenvolver-se com o Plano de desenvolvimento de 1968-71. . 1966/72 – Primeiras movimentos de petição para o que o caudal seja zona verde 1973, Janeiro – é tornado público o anteprojecto de auto - estrada de circulação a Valência, Puzol – Sollana pelo Oeste, conhecida por “by Pass”, elaborado pelo Ministério das Obras Públicas (MOP) e o de Sollana. 1973, 27 de Junho – De visita a Valência para inaugurar a barragem Sul do porto, (e a pedido dos informadores) o ministro das Obras públicas, Férnandez de la Mora, declara que “ se os Valencianos desejam que seja zona verde, será zona verde o caudal do rio Turia”. 1973, 13 de Dezembro – Numa nova visita a Valência o ministro Fernandéz de da Mora, volta a afirmar que “deixa nas mãos dos Valencianos o futuro do Turia”. 1973, Dezembro – Os reitores do Colegio dos Arquitectos, dos Engenheiros, dos Notários, o Secretario do Colegio dos Médicos e da Cmara Jovem, defendem publicamente o caudal como zona verde. Inicia-se uma série de declarações oficiais de entidades a que se 45 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia soma a reivindicação popular, reproduzida pela impresnsa local. 1975, 6 de Junho – O Ayuntamiento inicia um acordo para classificar o caudal como “zona verde, possivelmente complementada com alguns serviços”, através de uma alteração ao Plano Geral, a solicitar ao MOP que termine qualquer obra que esteja a avançar prevista no plano vigente. 1974 / 75 / 76 – Vários autores refletem sobre o estado do rio Turia. 1975, 20 Novembro – Morre o general Francisco Franco 1976, 9 de Janeiro – O Ayuntamiento acorda modificar o Plano Geral, classificando o caudal como zona verde, desde o desvio do rio até á sua foz. A modificação do Plano Sul e a confirmação pela parte do Estado da propriedade do caudal para o Ayuntamiento. 1976, Outubro – Constituição de Comissão PróCaudal de entidades e particulares, com o tema : “El llit del Turia es nostre i es volem verd”. 1976 - A 26 de Novembro o Conselho de Ministros acorda ceder gratuitamente ao Ayuntamiento a propriedade do caudal ao longo de Valência, com uma área de 119, 32 Has, “com destino à rede viária urbana e parques públicos”. Restam 17, 0 Has. junto ao porto e à parte de caudal de Quart e Mislata. Este acordo foi assinado pelo Rei de Espanha, Juan Carlos, a 1 de dezembro em Valencia. O Ayuntamiento aceita a atribuição a 14 de Dezembro. A 9 de Janeiro compromete-se a que “as vias urbanas devem ser exclusivamente para o acesso ao parque”. 1977, 21 de Março – Como tomada de posse simbólica, são plantados 1000 eucaliptos no caudal do rio. 1977, 17 de Abril - Entrega do estudo integral de transportes. O antigo caudal do rio Turia, é contemplado com as alternativas A e B. Na proposta B, projecta-se uma rede viária de alcance total, e na proposta A essa rede viária só com acesso ao Parque. 1977, 6 de Maio – o Ayuntamiento aprova inicialmente a modificação do Plano geral de Valência, classificando o caudal como Zona Verde num total de 167,48 hectares – a totalidade do mesmo. 1977, 15 de Junho – Primeiras eleições gerais, constituindo-se o 1º governo. 1977, Dezembro - Informação pública do ante projecto do Metro, redigido pela direcção geral de Transportes. Uma das linhas passa longitudinalmente pelo caudal. 1978, 7 de Dezembro - O Ayuntamiento lança um concurso de ideias de carácter nacional para a realização de um plano especial do parque urbano do rio Turia. 46 Capítulo I - Valência; Enquadramento históricoCapítulo I - Valência; Enquadramento histórico 1979, 3 de Abril – Eleições locais, constituindo-se o primeiro Governo constitucional através da coligação PSOE-PCE em 21 de Abril. 1979, 6 de Dezembro - Inauguração da exposição dos trabalhos presentes no concurso de ideias para o antigo caudal do Turia. Anteriormente a 15 de Novembro, anuncia-se a não atribuição do 1º lugar(!). 1980, 31 de Julho – O Ayuntamiento apresenta o Programa de Actuação Municipal entre os 1979/81, em que se prevê a realização do Plano Especial de Reforma Interior do rio Turia. 1981, 6 de Abril - A comissão de Urbanismo Municipal aprova a elaboração de um “programa público de intervenção no caudal e não somente um documento de planeamento convencional”. Uma vez o programa aprovado, com a intervenção das delegações municipais e consulta das entidades cidadãs, esta será a directriz para os editores do Plano Especial. 1981, 7 de Setembro – A comissão de Urbanismo municipal aprova a contratação do Arquitecto catalão Ricardo Bofill, para desenvolver o avanço do Plano Especial de Reforma Interior do rio Turia. 1981, 18 de Dezembro - A comissão de Urbanismo aprova o programa de participação cidadã do Plano Especial. 1982, 15 de Abril – A Permanente Municipal aprova o programa detalhado de participação pública com a encomenda de uma maqueta e monta uma exposição na La Longa. 1982, 11 de Junho – O Atelier de Ricardo Bofill entrega ao Ayuntamiento o Avanço do Plano pelo que foi contratado. 1982, 14 de Junho - Inauguração da exposição sobre a proposta para o Turia, nos salões de La Lonja que permanece aberta até 30 de Julho.* 1984 - Aprovado o Plano Especial de Ricardo Bofill. 1985 - Começa a construção do parque urbano, conhecido como Jardim do Turia. 1987 - Inauguração do Palácio da Musica, a Ponte 9 de Outubro e do parque de diversões “Gulliver”. 1991 - Concluídos os tramos III, IV e V entre o Ponte Campanar e San José. 1998 – É inaugurado o primeiro edificio da Cidade das Artes e das Ciências: Hemisferic, seguido do Oceanário e o Palacio das Artes. Também nesse ano foi inaugurada a Ponte de las Artes. 2000 - Inaugurado o Museu das Ciências Príncipe Felipe. 2002 – É inaugurado o Parque da Cabecera. * Cronologia com base em PEÑIN, Alberto, CIMAL 15, Cadernos de cultura artística, Colégio Oficial de Arquitectos de Valencia, Valencia, 1982, p. 27 á 30 49 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia 2.1. Os planos de Ordenação de Valência - a importância do rio “Valência era uma cidade que tinha transferido usos e funções para uma caótica periferia, cujo lento crescimento se tinha levado a cabo, num território condicionado por uma anárquica rede de estradas e vias ferroviárias. As reformas urbanas planeadas inicialmente com o âmbito de conseguir uma grande e coerente cidade não tinha sido capaz de articular um planeamento global, capaz de dar alternativa ao modelo da cidade burguesa, baseado exclusivamente na ideia de ampliar para reformar o existente, tinha sido projectado (...) temporariamente e desenvolvido durante a segunda metade do seculo XIX.” 1 Valência começa a conhecer na segunda metade do século XIX uma nova realidade no panorama urbano. A cidade cresce e estende-se para fora do recinto amuralhado e portanto, a relação com o “novos” terrenos circundantes suscita interesses renovados. Segundo António Garcia Heredia, no contexto urbano do caso valenciano, nos finais do século XIX e principio do século XX, as propostas de expansão e a abertura de eixos/avenidas para saneamento e para avenidas ajardinadas não passavam de meras ideias isoladas, sem qualquer previsão de conjunto para a cidade e a sua periferia. Para Luis Perdigón o crescimento da cidade, previsto nos novos planos de 1858 - Projecto Geral de expansão da cidade de Valência da autoria de Monteón, Sancho e Calvo (fig.[II.01]) - e 1907 - Projecto de Expansão de Valência e Ampliação do Existente da autoria de F.Mora (fig.[II.02]) - são convertidos numa geometria aplicada com mais precisão. Os desenhos de expansão da cidade eram, ao mesmo tempo melhorias e reformas do antigo, projectadas após a demolição da muralha medieval, requerendo planos exactos, onde são traçados os novos alinhamentos da cidade. A expansão e reforma de Valência é aprovada após a demolição das muralhas medievais segundo o Plano Geral de Valência e o Projecto de Expansão. O plano de ordenação da cidade que irá ser aprovado e construído data de 1884 (fig.[II.03]) da autoria de Ferreres, Arnau e Calvo. Curiosamente, a outra margem continua a ser “ignorada” no aspecto urbano, pois não se prevê qualquer expansão da cidade. Esta cresce para sul, encarando o rio como uma barreira natural. Os Planos mais tarde apresentados, tentam responder assim à necessidade de alargamento do território. 1 LLOPIS ALONSO, Amando; PERDIGÓN FÉRNANDEZ. Luis; “Cartografia Histórica de la ciudad de Valencia (1608-1944)”, Ed. Univ. Politècnica de València, 3ª edición. Valência, 2012. 50 Capítulo II - Projectos de transformação do espaço público do TuriaCapítulo II - Projectos de transformação do espaço público do Turia [II.01] [II.02] [II.03] [II.01] Projecto Geral de expansão da cidade de Valência, Monteón, Sancho e Calvo, 1858 [II.02] Projecto de Expansão de Valência e Ampliação do Existente, F.Mora, 1907 [II.03] Plano Geral de Valência, Ferreres, Arnau e Calvo 1884 51 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia [II.04] [II.05] [II.07] [II.06] [II.04] Plano Geral de Valência, Anónimo, 1925 [II.05] Vista aérea da cidade de Valência, 1932 [II.06] Plano de Cerdá para Barcelona 52 Capítulo II - Projectos de transformação do espaço público do TuriaCapítulo II - Projectos de transformação do espaço público do Turia Valência foi buscar nos finais do século XIX, timidamente referências da “cidade linear de Madrid” do arquitecto Arturo Soria2. Como refere, António Garcia Heredia o desenho do Passeio de Valencia ao Mar, “fornece-nos uma pálida imagem desses novos conceitos urbanísticos”3 . Este é um exemplo que não deixa de ser uma excepções para tentar resolver problemas pontuais. Nos finais da década de 1920, a cidade é classificada por Luis Perdigón como, uma “cidade dispersa e inacabada”4 , como é testemunho o Plano Geral de Valência (fig.[II.04]) e as fotografia aéreas dos anos 30 (fig.[II.05]). As primeiras décadas do século XX, coincidem com uma grande reforma que se desenvolve um pouco por todo o pais. Nesta época é aprovado o plano de “Cérda” (fig.[II.06]) em Barcelona. O Plano de Barcelona consiste basicamente numa grelha de quadrados, postos repetidamente, de forma a criar uma malha. Os vértices dos quadrados eram biselados a 45º (fig.[II.07]) para facilitar a circulação do automóvel, com prédios dispostos no seu perímetro. Cada quadrado, “funcionaria” de forma independente e teria no seu interior árvores e equipamentos comuns, fornecendo iluminação e ventilação aos edifícios além de criar pátios semi-públicos. Previa-se o “rompimento” controlado desta malha urbana regular, através de grandes diagonais que cruzariam a cidade, fazendo a ligação entre os núcleos novos e o centro antigo. Em 1933, a nível europeu, o urbanismo tinha iniciado um novo método e paradigmas a partir da “Carta de Atenas” pelas mãos de Le Corbusier e pelo grupo do CIAM . O foco do “funcionalismo racionalista”, em Espanha teve como pioneira a cidade de Barcelona, já anteriormente referida. O Ministério do Interior espanhol, em 1944 propõe a criação da Comissão Superior de gestão territorial da província de Valência, para desenvolver “um plano capaz de ordenar e dirigir as actividades construtivas, e industriais que põem em grande perigo o desenvolvimento futuro de uma região com tanta riqueza agrícola”5 . Pensando inicialmente como um plano à escala provincial, cingiu-se somente à região de Valên2 Em Espanha, Arturio Sorio e Mata [1844-1920] projecta a Cidade Linear (1882) situada a sete quilómetros do centro de Madrid, uma estrutura urbana extremamente relacionada com um sistema de transportes rápidos, que articula o caminho-de-ferro com o desenvolvimento urbano. 3 GARCÍA HEREDIA, Antonio, “Principio y fin del área metropolitana de Valencia. De la autarquía a la democracia” in “Historia de la ciudad: V. Tradición y Progreso” . Eds. Colegio Territorial de Arquitectos de València. Valência, 2008. p.259 4 LLOPIS ALONSO, Amando; PERDIGÓN FÉRNANDEZ. Luis; “Cartografia Histórica de la ciudad de Valencia (16081944)” 5 LLOPIS ALONSO, A. , “Historia de la ciudad VI. Proyectos y complejidad;” p.276 59 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia [II.11] [II.11] A evolução das principais vias da cidade. 60 Capítulo II - Projectos de transformação do espaço público do TuriaCapítulo II - Projectos de transformação do espaço público do Turia ção de usos industriais a Sudoeste e Noroeste vinculados a cidades “satélites”, onde os trabalhadores tenham mais facilidade em conservar a sua vinculação à terra. Propõem-se a construção de três zonas comerciais com o objectivo de descongestionar o centro histórico. Estes estariam localizados junto à estação do Norte, acesso de Ademuz junto à ponte Fernando el Católico na proximidades da nova estação. Todos são convertidos em centros de comércio e negócios. - O caudal urbano do rio Turia preconiza-se como a coluna vertebral da nova cidade ao quebrar a tradicional barreira e deslocar para norte o núcleo urbano. Fica assim com uma vasta zona habitada na margem esquerda do caudal. As funções deste eixo são as circulações extra urbanas, funcionando como uma ligação para centros importantes da futura cidade. Pode ainda aproveitar-se para fins lucrativos: comerciais, residenciais seccionadas. É uma magnifica oportunidade para dotar a cidade com espaços verdes.” 12 Um dos desafios do projecto do plano, passa por descobrir uma solução hidráulica eficiente. Construção de colectores para os esgotos, bem como a construção de pontes e estradas (fig.[II.11]) que sejam necessárias para uso viário e ferroviário. Contudo, este plano não ignora a importância do mar na cidade, contemplando também uma solução marítima. Uma das intenções na Solução Sul era a criação de uma “barreira” para travar o crescimento urbano desenfreado para sul. O plano compromete-se a conservar as acéquia que suportam a prática agrícola e se necessário modificá-las com o intuito de as melhorar. No panorama geral, o documento contém soluções de ligação ferroviárias, acessos de estradas, linhas de metro subterrâneo - que agora poderia cruzar o rio, sem condicionantes – e a expansão do porto. Englobado no plano, estava inserida a solução desenhada para o antigo caudal do rio, da autoria da Comissão Técnica Especial que consistia na construção de novas pontes, estradas para o tráfego de alta velocidade – carros e comboios - e metropolitano. As ideias são claras e pretendia-se que no caudal se pudesse desenvolver num eixo de circulação rápida e na cota superior outras vias mais lentas de ligação às estruturas da “nova cidade”. 12 GARCÍA HEREDIA, Antonio, “Historia de la ciudad: V. Tradición y Progreso” p.263 61 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia [II.12] [II.13] [II.14] [II.12] Fotografias da maqueta, de uma solução para o antigo leito [II.13] Obras de construção do novo leito, 1967 [II.14] O novo leito do rio Turia, 2013 62 Capítulo II - Projectos de transformação do espaço público do TuriaCapítulo II - Projectos de transformação do espaço público do Turia Como se previa, a execução do projecto teria custos elevados pelo que apresentou-se a possibilidade de vender lotes de terreno no interior do antigo rio de maneira a financiar a obra. Todavia esses terrenos deixados livres, teriam um preço elevado e seriam divididos por sectores onde se poderiam erguer edifícios comerciais, residenciais e núcleos industriais e nos terrenos finais - junto ao mar mediterrâneo - surgiriam os espaços verdes sempre necessários na cidade. O projecto foi tornado publico através de uma maqueta (fig.[II.12]) onde mostra a ordenação prevista para o caudal e para as margens, projectada pela Solução. Contudo, a Solução Sul superava as propostas anteriormente apresentadas devido às claras intenções, desenho e documentos apresentados. Nos finais da década de 50 o plano teve uma notoriedade por toda a Espanha, segundo Tito Llopis “são testemunho os vários artigos publicados na imprensa diária e revistas especializadas”13. 2.3. O Plano Sul - execução, financiamento e curiosidades Tal como referido anteriormente e segundo Luís Perdigón, a pretexto das trágicas inundações de 1957 avança-se com a execução do Plano Sul de desvio do Rio Turia. Em 1958, baseado na Solução Sul, aprova-se um “novo” Rio Turia que iria percorrer o sul da cidade de Valência e iria manter as “acéquias”. Pretendia-se que o caudal tivesse 12,6 quilómetros de comprimento, 200 metros de largura e uma capacidade de escoamento de 5000 m3/segundo. Teria o inicio em Quart de Poblet e conclusão em Pinedo. Finalmente, nos finais da década de 60 são executadas as obras do “Plano Sul” (fig.[II.13] e fig.[II.14]). Começa a ganhar forma um novo caudal do Turia. A curiosidade e a singularidade do projecto leva os valencianos a visitarem as obras. Estas visitas começam a ser frequentes e em Janeiro de 1968 começa a funcionar aos Domingos e feriados um serviço especial de autocarros. Um dos pontos da cidade onde saíam estas excursões era a Estação do Norte, onde colocavam anúncios para incentivar os cidadãos e turistas a fazer a visita. Tudo isto eram formas que o regime Franquista utilizava para se auto promover perante a população mostrando a sua grandiosidade, reflectida na mega-obra do “Plano Sul”. Curiosamente no ano de 1963 é aplicação de uma sobretaxa em cartas e telegramas para financiar a obra. 13 Conversa do autor com o arquitecto Tito Llopis 63 [II.15] [II.15] Selos dos correios, que ajudaram a financiar o Plano Sul 64 ”A 15 de Janeiro de 1963, começam a cobrar uma sobretaxa para a correspondência(25 centimos) e telegramas (50 centimos – Moeda: peseta), movimentados desde Valência, que o governo tinha autorizado para contribuir para as obras do Plano Sul. A primeira emissão de selos especiais tinha como desenho o escudo do rei Jaime I nos correios e o escudo da cidade nos telégrafos.” 14 (fig.[II.15]). A construção do nova caudal levava a que o antigo começasse a ficar cada vez com menos água, mas (ainda) não estava totalmente imune às inundações. É no período das obras que se “ocupa” o antigo leito do rio com campos desportivos15 e começam a ser construídas ou remodeladas pontes especialmente nos primeiros sectores – oeste - para facilitar o trânsito. Mesmo com a conclusão do desvio do leito do rio, surgem vozes críticas sobre o modo como a obra foi executada porque ainda circulava água (suja) no velho caudal. É publicada uma critica à obra segundo noticía o jornal “Las Províncias” de Dezembro de 1969: “(...) no dia 22, o Ministro das Obras Públicas, Federico Silva Muñoz, inaugura o novo caudal do Turia com todas as suas pontes e infra-estruturas, obra já terminada. Embora ainda não se possa dizer que no antigo caudal não circule água, até que se modifiquem as redes saneamento e de esgotos da cidade.” O caudal está livre, o que constitui uma magnifica oportunidade para construir um programa “especial”, capaz de ser benéfico para a cidade e para os cidadão. 2.4. Ideias e Projectos: 2.4.1. Debate sobre o vazio A decisão de desviar o rio Turia, permitiu que outras acções, anteriormente desenhadas tivessem sido analisadas. Contudo, nem todas essas eram favoráveis porque tinham a particularidade de terem uma problemática diferente. Por exemplo, os planos anteriormente referidos de Joaquin Llorens e Fernandéz de Córdoba em 1882 tinham como objectivo o aproveitamento agrícola, e a proposta de Berriochoa (1945) que ti14 LLOPIS ALONSO, A. , “Historia de la ciudad VI. Proyectos y complejidad;” p.280 15 Autorizou-se a construir no interior do velho caudal em 1968, um campo de rugby e em 70 inaugura-se seis campos de futebol 65 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia [II.16] [II.17] [II.16] Rede Arterial de Valência, 1966 [II.17] Pormenor da Rede Arterial de Valência, em frente às Torres de Serrano, 1966 66 Capítulo II - Projectos de transformação do espaço público do TuriaCapítulo II - Projectos de transformação do espaço público do Turia nha como objectivo a resolução da rede ferroviária. A única semelhança em todas as propostas era de facto o desvio do rio Turia sempre sob o pretexto de desenvolvimento e expansão da cidade. Valência tem agora uma oportunidade de resolver alguns problemas latentes. Em 1966 foi aprovada a Rede Arterial de Valência (fig.[II.16]), estudada de acordo com a Solução Sul. Aproveitando o facto de estarem a ser executadas as obras e deixados “livres” os terrenos do antigo rio, existe um plano que se fosse construído, seria um duro golpe para o velho caudal. Este projecto é surpreendente! Mostra um caudal totalmente preenchido por auto-estradas com quatro faixa de rodagem principais e um grande numero de nós e ligações que conectam com as estradas já existentes. Esta obsessão levava à perda de identidade de alguns “ícones” da cidade, como é o caso da desfiguração da Porta de Serranos (fig.[II.17]). A dita “coluna vertebral” tinha, pura e simplesmente desaparecido, e com ela a moderna frente urbana. As pontes existentes, iriam ser substituídas por outras dedicadas também ao tráfego de alta velocidade. Este é o limite de uma situação agressiva para a cidade. Quando esta possível solução foi tornada pública as reacções foram quase instantâneas contra a execução do projecto. A situação levou a que a população, não aceitasse este provável desfecho para o “seu rio”. Não será demasiado dizer que afinal, pretendia-se substituir a água pelo alcatrão! 2.4.2. A proposta do grupo Vetges i Tu Parece-nos positivo destacar a proposta de 1974 que segundo Amando Tito Llopis “é a primeira proposta desenhada e conhecida para que o Turia se convertesse, na totalidade, num parque urbano verde”16. A ideia partiu de um grupo de estudantes de arquitectura do qual ele fazia parte, que se deram a conhecer com o nome de “Vetges Tu” que curiosamente mais tarde abrem o seu próprio atelier com o nome de Vetges Tu i Mediterránia SL, onde intervém nos sectores I e II do ajardinamento do Turia. Estes jovens souberam “ouvir” a vontade popular, e sem qualquer tipo de interesse “político e económico” dão à cidade uma coluna vertebral totalmente verde. A proposta gráfica desenha por este grupo de arquitectos17, é publicada em forma de cartaz e incluído como anexo no livro-informativo “Ni desarrollo regional, ni ordenación del território: el caso valenciano” (fig.[II.18]). Este projecto surge como uma contra planificação das ideias anteriormente pro16 Conversa do autor com o arquitecto Tito Llopis 17 Equipa constituida por: Miguel Arriaz, Per Joan Devese, Rafael Ferrando, Gonzalo Garcia, Amando Llopis, Juanmaria Moreno e Pedro Soler 67 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia [II.18] [II.18] Proposta de ajardinamento, Vetges i Tu, 1974 68 Capítulo II - Projectos de transformação do espaço público do TuriaCapítulo II - Projectos de transformação do espaço público do Turia postas. Esta é uma opção muito utilizada , durante estes anos, em países da Europa central com o objectivo de ajudar à realização de planos urbanísticos, pondo ao alcance dos movimentos sociais, opções alternativas elaboradas com objectivos diferentes dos utilizados até então. Segundo os autores, a finalidade da proposta consistia em “ mostrar as possibilidades de utilização do velho caudal para que sirva como ponto de referência e base de confrontação com outras soluções, agilizando com ele o processo de crítica que sem sombra de dúvidas, descobrirá novas variáveis na hora de realizar o projecto definitivo.” 18 O novo espaço público desenha-se sobre um eixo principal exclusivamente convertido num parque urbano linear de acesso livre e com água, protegido do tráfego automóvel. Os automóveis só circularão nas pontes e estradas paralelas ao parque numa cota superior. O desenho da proposta mostra bem a intenção do novo parque urbano comunicar pontualmente com alguns jardins históricos próximos, como é o caso do Jardim Botânico e o Jardim del Real. A planta, mostra um parque exclusivamente “verde” percorrido em muitas direcções por calçada e caminhos de terra, para que os peões e bicicletas possam percorrê-lo sem obstáculos, alterando pontualmente a densidade das árvores junto ao curso de água, criando nalguns pontos uma espécie de bosque tal é a densidade arborizada. Contudo, este novo eixo de parque urbano, albergava também construções destinadas à prática desportiva de lazer, respeitando assim os campos de futebol e rugby - construídos instintivamente pela população quando o caudal estava seco. Estes recintos são projectados a uma cota mais baixa do nível do parque, para que não interfiram com as pessoas que passeiam no parque. Segundo Tito Llopis, que faz parte da equipa Vetges i Tu, uma das intenções do projecto era relacionar o parque urbano com toda a cidade através da “revalorização da imagem da cidade antiga, através da melhoria dos parapeitos do antigo rio algumas frentes urbanas, e a integração das pontes históricas nas novas linhas de água.” 19 Este novo espaço proposto por esta equipa apresentava um tranquilo e protegido parque verde, que iria ao encontro da vontade popular, e segundo os autores era um projecto “alcançável num futuro não muito distante”. De todas as propostas, esta é a que mais se próxima do que hoje conhecemos do Jardim do Turia. 18 LLOPIS ALONSO, A. , “Historia de la ciudad VI. Proyectos y complejidad;” p.283 19 idem.ibidem, p.284 75 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia [II.26] [II.25] [II.27] [II.25] Plano Especial, atlier do arquitecto Ricardo Bofill, 1982 [II.26] e [II.27] Sectores do Plano Especial, 1982 76 Capítulo II - Projectos de transformação do espaço público do TuriaCapítulo II - Projectos de transformação do espaço público do Turia tação e manutenção(...) (...)Clássico num sentido abstracto de uso de ideal cultural nascidos da herança romana e mediterrânica, no sentido de uso de linguagem vegetal e mineral apropriado ao lugar(...) (...) árvores e espécies de vegetação nativas, como o Pinheiro, Cipreste, Laranjeira, Palmeira, Oliveira farão parte do projecto(...) (...) a composição do projecto desenvolve-se a partir da geometria... define a trajectória do olhar e a direcção do espaço, converte o caos e a obscuridade em ordem e claridade(...) (...) um eixo principal hierarquiza a composição em toda a sua longitude. (...) o projecto(...) é um imenso pinhal (...) e formará recintos diferenciados como um lugar desenhado em si mesmo: (...) grandes espaços públicos com laranjeiras, jardins botânicos, parques desportivo-culturais(...) (...) No seu extremo Oeste os jardins não se prolongarão até à foz do velho caudal, porém afasta-se dele, buscando uma ligação com o Porto. Um espaço articulará o ultimo troço dos jardins com a doca inferior, oferecendo à cidade uma saída ao mar (...).” 31 Na globalidade, existe uma profunda intenção de considerar todo o caudal do rio como uma unidade estruturadora do conjunto urbano e deste modo existe a necessidade de um projecto uniforme que ligue a cidade. Genericamente o projecto baseia-se no ajardinamento, desenvolvido num traçado geométrico, assente no eixo longitudinal que define as zonas verdes, ciclovia e passeio. No entanto realizam-se, unicamente, os sectores X e XI do projecto original de Ricardo Bofill, que foi mesmo assim um pouco controverso. Na realidade dava unidade e coerência ao conjunto ajardinado. O Plano Especial (fig.[II.25]), [II.26] e [II.27]) após aprovado, começa a ser construído em 1981, mas a ideia de o construir na totalidade não passou do papel, porque o leito do Turia foi seccionado e cada sector teve um autor diferente, contratado pelo Ayuntamiento. A proposta de Ricardo Bofill estava dividida por catorze sectores. Actualmente, o parque é constituído por dezoito sectores, sendo que os últimos dois não estão concluídos. Ao longo dos anos percebeu-se a necessidade de aproveitar os terrenos junto ao sector inicial do Jardim do Turia, a solução encontrada foi a construção do Parque de Cabecera. 31 MÓSTOLES, Vicente, “La renovación del urbanismo en los años ochenta” in” Território, sociedad y património: una visión arquitectónica de la historia de la ciudad de Valencia” Volume 2; Colegio Oficial de Arquitectos de la Comunidad Valenciana, Valencia, 2002, p.295 77 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia [II.28] [II.29] [II.31] [II.32] [II.30] [II.28] Maqueta do Plano Especial [II.29] Exposição em La Lonja, 1982. [II.30] Cartaz da Exposição, Artur Heras, 1982. [II.31] Populares no antigo caudal do Turia na Páscoa de 1977. [II.32] Desenho do sector IX. 78 Capítulo II - Projectos de transformação do espaço público do TuriaCapítulo II - Projectos de transformação do espaço público do Turia Em 1982, no edificio La Lonja é apresentado o Plano Especial à população na exposição (fig.[II.28] e fig.[II.29]) intitulada“Una Valencia nova: El jardín del Turia”. Inserida na apresentação, o artista Artur Heras apresenta um cartaz (fig.[II.30]) onde é apresentado um lugar moderno, tratado, colorido, harmonioso e cheio de tranquilidade. A população estava convencida que, as ideias, finalmente, sairiam do papel. Vários autores, tiveram de se adaptar ao Plano Especial, porque haviam regras que teriam de ser obedecidas. O próprio Tito Llopis indica que uma das regras seria a obrigatoriedade de plantar pinheiros nos sectores dai que, tal como ele diz no sector II “nem se consegue ver para o outro lado”. A construção do Jardim do Turia sobre o Plano Especial, gerou uma enorme satisfação e união na população valenciana, o Jardim do Turia passava a ser uma realidade pelo que lutaram nos últimos anos. Contudo o arquitecto Tito Llopis compara o inicio da construão do jardim do Turia a “um peixe de rabo na boca” onde fica a sensação de que nada se passou nestes últimos 70 anos. Fotografias de Hausermenet e Penalba (fig.[II.31]) da década de 80 mostram “os valencianos fazem praticamente o mesmo: divertem-se na Páscoa, bailam, lançam os “papagaios” e saltam à corda. No entanto muita coisa se passou. Faltava a imagem final que resumia todas as ilusões depositadas na ideia de recuperar um aspecto chave na identidade do povo valenciano: o uso popular e festivo do velho caudal do Turia, um desejo muitas vezes traído.” 32 Actualmente o Jardim do Turia é lido como um todo, porque o carácter “verde” dá essa união ao conjunto. Após trinta anos passados, parece-nos coerente perguntar ao arquitecto “Tito” Amando Llopis a opinião sobre o actual estado do Jardim do Turia. Para Tito Llopis : “Perdeu-se a oportunidade de criar uma obra de união com um jardim no centro da cidade. Se hoje em dia houvesse a contratação de um arquitecto, para desenhar o Plano Especial essa escolha recairia muito provavelmente sobre um arquitecto valenciano, porque à trinta anos atrás a experiencia de desenho de parque urbanos era quase nula. Actualmente a situação é diferente.” 33 Mas olhando para o prestigio internacional do arquitecto valenciano Santiago Calatrava, seria esta a opção? Tito Llopis responde que, “não crê que fosse Calatrava porque é um arquitecto que do ponto de vista urbano o seu desenho é muito mau!” 32 LLOPIS ALONSO, A. , “Historia de la ciudad VI. Proyectos y complejidad;” p.283 33 Conversa do autor com o arquitecto “Tito” Amando Llopis 79 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia [II.33] Desenho sector 8, em direcção à nascente. [II.34] Vista para o Jardim, da Ponte de Fuste, 2013. [II.35] Entrada de ambulância pelo sector 3, margem Norte. [II.36] Os 18 sectores do Jardim do Turia [II.37] Parque de Cabecera. 25 m 50 m 150 m [II.33] [II.34] [II.35][II.36] [II.37] 80 Capítulo II - Projectos de transformação do espaço público do TuriaCapítulo II - Projectos de transformação do espaço público do Turia 2.6. Jardim do Turia - Nos dias de hoje34 Descrição dos sectores e autores “Junta-se à vontade de construir vinte e três anos e assiste-se à injusta manipulação de alguns dos sectores (TII) do Turia originando um jardim anacrónico, mas enormemente popular e com alguns exemplos de bom desenho paisagístico” “Tito” Amando Llopis, VTiM in “El jardin del Turia recuerdos desepasionados” 1985-2008 O antigo leito do rio Turia é actualmente um imenso parque público com uma área aproximada de 12 km de comprimento e 150 metros de largura, e com um desnível vertical, que ronda aproximadamente os 5 metros nos primeiros sectores. O Jardim do Turia, está dividido por dezoito sectores e constitui a coluna vertebral da cidade de Valência. O Parque do Turia constitui actualmente um ex-líbris importantíssimo da cidade. Os dezoito sectores estão divididos espacialmente, pelas pontes, que fazem a ligação entre ambas as margens e que sempre estiveram presentes na paisagem urbana da cidade. Este capitulo planeia fazer uma descrição e identificar os vários autores, sobre o percurso entre o Parque de Cabecera e o extremos mais ocidental onde o Parque irá encontrar Mar Mediterrâneo. O Parque de Cabecera (fig.[II.37]) está neste momento referenciado como o ponto zero do Jardim do Turia. Não foi planeado no Plano Especial de Ricardo Bofill, mas a vontade de recuperar um espaço histórico do rio fez com que o Parque de Cabecera fosse construído. O Parque é constituído por quatro grande áreas: Colina Mirador, Bosque de Ribera, BioParc35 e Parque de Atracções, este último actualmente em projecto. Os autores do Parque de Cabecera são a arquitecta paisagista Arancha Muñoz Criado, arquitectos Eduardo de Miguel Arbonés e Vicente Corell Farinós e o engenheiro técnico agrícola Manuel Colominas Golobardes. O Bioparc e o Parque da atracções são da autoria da arquitecta Luís Maria Ortiz Valero 34 Ver anexo D 35 Jardim Zoológico de Valência 81 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia [II.38] [II.38] Sector I, II e III 25 m 50 m 150 m 82 Capítulo II - Projectos de transformação do espaço público do TuriaCapítulo II - Projectos de transformação do espaço público do Turia Jardim do Turia: Sector I: O sector I, está limitado entre a ponte Nou d´Outubre e a Casa da Água. No projecto original, foi desenhado com um espelho de água, mas com a construção do Parque de Cabecera, essa ideia foi abandonada. O espaço foi ajardinado, com uma área de parques infantis, doze aparelhos para manutenção física, seis mesas de xadrez, quatro mesas de ping-pong, pista de patinagem e circuito de skate. Mais recentemente fez-se a ligação com os tramos adjacentes, dando continuidade à ciclovia e aos trilhos do Parque da Cabecera. O acesso a este sector é feito através de escadas ou rampas. A intervenção inicial é do atelier Vetges i Tu e do arquitecto Ángel Zurilla Juan e a intervenção mais recente é da autoria do arquitecto Camilo Grau Carretero. Sector II: “O tramo II do atelier Vetges Tu i Mediterránia SL com J. J. Hernández e Juan Maria Arraiz, desenvolve-se entre o Azud de Rovella e a ponte de Campanar. Desenhou-se como uma representação ordenada da natureza contra a ordem que caracterizou esta zona da cidade. Uma particular e sugestiva leitura do antigo caudal, entendido como uma linha com aberturas, que deu lugar a um projecto que se percebe hoje como uma sucessão de episódios e também como um espaço arrebatado, de onde a água, na sua variadas formas é a anfitriã.”36 A disposição as árvores reforça a composição geométrica com uma vasta plantação de várias espécies onde se destaca o pinheiro. Neste sector a presença da Casa da água sobre o antigo Azud de Rovella, funciona como porta de entrada no Jardim do Turia. No que diz respeito a equipamentos o sector está equipado com um campo futebol, dois pistas polideportivas, um circuito para manutenção física - Parque Geriátrico. O acesso a este sector é feito através de escadas ou rampas. Sector III: O sector III, de traçado geométrico, guia-nos levemente para uma área mais isolada com uma fonte central. Tal como o anterior, estas secções dão destaque à água e ás árvores. O sector finaliza com um espelho de água debaixo da “Puente de las glorias Valencianas” O elemento que mais se destaca é sem dúvida o “Estádio de Turia” com pista de atletismo, onde se realizam eventos desportivos. Segundo Tito Llopis as cons36 Tito Llopis, VTiM in “El jardin del Turia recuerdos desepasionados” 1985-2008 83 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia 25 m 50 m 150 m [II.39] [II.39] Sector IV, V e VI 84 Capítulo II - Projectos de transformação do espaço público do TuriaCapítulo II - Projectos de transformação do espaço público do Turia truções posteriores levam à perda de identidade original e afirma: “A introdução do estádio de atletismo com instalações complementarias no tramo TIII, entre as pontes de Campanar e Ademuz, alterou a simetria central original, embora as árvores seguiram ordenadas os percursos principais.” 37 O estádio tem duas grande bancadas, o terreno de jogo e a pista da atletismo aparecem a uma cota inferior em relação aos caminhos e ciclovias do Jardim. Além deste equipamento conta também com um campo de futebol, um espaço com aparelhos para ginástica. O acesso a este sector é feito através de escadas ou rampas. Uma das rampas é de acesso limitado de veículos, está pensado, caso seja necessário para aceder uma ambulância (fig.[II.35]). Pontualmente, existem este tipo de rampas ao longo do Jardim do Turia. Otegui, Noguera y Gisbert Arquitectos e arquitecto Cármen Gisbert Blanquer são os autores do projecto. Sector IV e V: Os sectores IV e V têm uma linguagem diferente dos anteriores. Impõem um desenho de bosque urbano como alternativa às premissas geométricas iniciais. O traçado remete-nos para o jardim paisagista “aleatório” com uma composição surpreendente, através de um jogos de trilhos sinuosos, altos e baixos e pisos irregulares. Em relação aos equipamentos, existem três pistas de Petanca38 , um mini golfe, um campo de rugby, parque infantil, parque geriátrico, campo de basebol sintético. Um café com esplanada completam o espaço. Existe a particularidade da ciclovia parecer estar coberta pela linha de árvores. Os autores destes dois sectores são o engenheiro agrónomo Rafael Ruano Martinez, e pelo biólogo e director da fundação municipal de escola de jardinagem Agustín Moreno Navarro. Área desportiva da autoria do arquitecto Ángel Zurilla Juan. Sector VI: O sector VI é o resultado do ajardinamento realizado pelas diferentes campanhas de arborização levadas a cabo no Dia da Árvore. As árvores são plantadas de forma aleatória, em redor de um passeio rectilíneo central e dos caminhos laterais. O sector é vocacionado para a prática desportiva colectiva, contando com três campos de futebol de 11 com balneários, um campo basebol, um pista de street skateboarding e barras de ginástica. Os recintos desportivos estão encerrados com rede e não são de prática livre, havendo uma taxa a pagar. Na envolvente localizam-se relevantes monumentos importantes da cidade como o caso das Torres de Serrano. 37 Tito Llopis, VTiM in “El jardin del Turia recuerdos desepasionados” 1985-2008 38 campo de areia, jogado com bolas, semelhante ao boccia (http://www.fppetanca.com/) 91 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia [II.43] Sector XVII e XVIII 25 m 50 m 150 m [II.43] 92 Capítulo II - Projectos de transformação do espaço público do TuriaCapítulo II - Projectos de transformação do espaço público do Turia Actualmente o Jardim do turia, termina no sector XVI. No final podemos observar, a continuidade do rio em direcção ao mar. Mesmo no jardim, são deixados elementos que faziam parte do rio, como é o caso da Caseta d´Aigues de Azud l`Oro41 . Os autores destes quatro sectores foram o arquitecto Jacobo Rios Capapé Carpe, o engenheiro técnico agrícola Ángel Palomar Villanueva. As esculturas que estão no sector XII, no lago, são da autoria de Lucas Karrvaz e António Marí. Apesar da cidade das Artes e Ciências não estar construída no antigo leito do rio, não será demais afirmar que de certo modo, faz parte do conjunto. O Hemisféric, Palácio da Opera, Museu príncipe Felipe, Jardim de Umbrácle, e os lagos em todo o complexo cultural são da autoria do arquitecto Santiago Calatrava. O Oceanário pelo arquitecto Félix Candela e jardim do oceanário da autoria do engenheiro técnico Agrícola Rafael Narbona Calvo. Sectores XVII e XVIII Os sectores XVII e XVIII, ainda não estão construídos, mas existe um projecto para que venham a ser realidade. Estão inseridos, no plano de sector do Grao que define, que o Jardim do Turia “encontre” o mar Mediterrâneo. O plano está desenhado à semelhança dos sectores anteriores, com espaços verdes, atravessado por vários canais de água. Contudo existe uma novidade, para rentabilizar os terrenos, surgirão novos edifícios junto ás zonas urbanas consolidadas, sempre anexados a espaços verdes. Os espaços residenciais estarão “fragmentados” no terreno para evitar um aglomerado de construções na primeira linha da fachada marítima. Nas proximidades do porto, prevê-se construir edifícios singulares, para deixar espaços livres junto dos mesmos, tal como os da Cidade das Artes e das Ciências. A intervenção nesta zona da cidade contribuirá para definir uma nova fachada marítima da cidade, nos primeiros anos do século XXI. 41 Esta casa localiza-se sobre o antigo leito do rio Turia, no limite do actual Jardim do Turia. Fazia parte da represa/barragem de l`Oro. Tinha como função o controlo da água do rio Turia e alimentava a acéquia de l`Oro. Trata-se de uma construção de alvenaria de pedra e argamassa. O telhado é de duas águas e as telhas são de estilo árabe. Actualmente o seu estado de conservação preocupante, uma vez que está ao abandono e o processo de degradação é gradual, devido aos trabalhos na zona. 93 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia [II.44] [II.44] Desenho do autor da Cidade das Artes e das Ciências 94 Capítulo II - Projectos de transformação do espaço público do TuriaCapítulo II - Projectos de transformação do espaço público do Turia 2.7. O caso especifico do “sector” do Arquitecto Santiago Calatrava, junto ao antigo leito do Turia 2.7.1 Sobre Calatrava Recurso a figuras e “estrelas” mediáticas da arquitectura “A cidade constitui um espaço artificial histórico, no qual toda a sociedade - uma vez alcançado um suficiente grau de diferenciação respeita a configuração social precedente – tenta em cada época, mediante a sua representação em monumentos arquitectónicos, um objectivo impossível: “marcar” esse tempo determinado, mas além das necessidades e motivos contingentes, devido ao processo de construção dos seus edifícios.” (Carlo Aymonino: El significado de las ciudades) Depois da análise de todos os sectores do Jardim do Turia, é pertinente questionar se o ajardinamento do Turia influenciou o desenho urbano da cidade ou vice-versa. Esta dicotomia, é bem visível no sector onde surge anexada o complexo da Cidade das Artes e das Ciências (fig.[II.44]). A primeira proposta apresentada - que não foi construida - intitulava-se “Cidade de las Moreras”(fig.[II.45]) e devido à proximidade está inevitavelmente vinculada ao rio Turia, que propicia a criação de uma avenida ou alameda como elemento urbano ordenador do conjunto, dispondo o museu segundo um eixo paralelo a esta futura avenida. Plataformas com diferentes níveis farão a transição e ligação entre o Turia e o complexo. À margem da museu, projecta-se uma zona cultural. O elemento central deste projecto que não foi executado é sem dúvida a Torre de Comunicações. Sem perder a noção de que o jardim do Turia é uma coisa e a Cidade das Artes e das Ciências é outra, analisemos um pouco estes edificios de uma “arquitectura espectacular”(?). O plano de Ricardo Bofill não tinha programado a construção da Cidade das Artes e das Ciências, porque estes mega edifícios também não estão no antigo leito do Turia. Parece-nos importante referir isto, porque actualmente quem percorre o sector junto a estes edifícios tem tendência a ler tudo como um só. 95 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia [II.45] Cidade de las Morenas [II.46] Vista aérea do Parque Expo [II.47] Vela, Embarcação Alinghi na American´s Cup, Valência [II.48] Automobilismo, Fórmula 1, Valência [II.45] [II.47] [II.48] [II.46] 96 Capítulo II - Projectos de transformação do espaço público do TuriaCapítulo II - Projectos de transformação do espaço público do Turia “Dentro de uma acção politica do Ayuntmamiento de Valência e da Generalitat Valenciana, e como um dos pilares fundamentais encontra-se a promoção da cultura, elemento essencial para o processo colectivo. Com este principal propósito, a Comunidade Valenciana, consciente da sua importância, tradição e localização geográfica, está obrigada a servir de referência cultural permanente um do “arco mediterrâneo”. Comprometida com as actividades relacionadas com a ciência, tecnologia e a cultura, foi criada a Cidade das Artes e das Ciências. Uma aposta de vanguarda, de enorme atractivo, e que supõem a criação de uma “cidade viva”, cientifico-ludico-cultural, dentro de outra cidade como é Valência.” 42 Escolher Calatrava para construir este sector da cidade, foi uma opção meramente politica, englobada no ambicioso projecto de criar uma nova centralidade na cidade de Valência. Requalificou-se uma zona da cidade, onde antes se erguia uma zona industrial degradada, ligada ao porto marítimo e de “costas voltadas” para cidade, num espaço renovado com edifícios ícones para “vender” a imagem de uma Valência “futurista”. Esta mesma estratégia foi adoptada em Portugal. Em Lisboa, junto ao rio Tejo, converteu- -se uma zona residual industrial num local publico onde se realizou a Expo`98 e onde actualmente se encontra o Parque das Nações (fig.[II.46]). Valência, é colocada na rota da arquitectura internacional, com a intenção de cativar cada vez mais turistas. Após, ter sido confirmada a construção do complexo, as consequências foram instantâneas, a procura imobiliária aumentou e logo o preço dos terrenos subiu. Edifícios luxuosos, hotéis e grandes empresas queriam estar agora junto do novo ícone da cidade. Aproveitando, a “onda” positiva, Valência candidata-se – tal como Lisboa - e é a cidade escolhida para organizar a maior competição de vela do mundo - American´s Cup (fig.[II.47]) - e seguiram-se outros eventos como a famosa e prestigiosa Fórmula 1 (fig.[II.48]), torneios de ténis (ATP), etc., No inicio do milénio, Valência era uma das cidades que estava na “moda”. 42 DOMÍNGUEZ, Miguel, “Los últimos proyectos urbanísticos y arquitectónicos de Valencia. Cuál es el futuro de la ciudad?” in” Território, sociedad y património: una visión arquitectónica de la historia de la ciudad de Valencia” Vol.2; Colegio Oficial de Arquitectos de la Comunudad Valenciana, Valencia, 2002, p.308 97 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia [II.49] Palácio das Artes rainha Sofia [II.50] Ópera de Sydeny. [II.51] Museu Guggenheim, Bilbao [II.49] [II.50] [II.51] 98 Capítulo II - Projectos de transformação do espaço público do TuriaCapítulo II - Projectos de transformação do espaço público do Turia Não menos importante, para o poder politico é tentar criar uma imagem de marca da cidade de Valência, virada para o futuro. Será este um exemplo de como a arquitectura vende uma cidade? Afinal que imagem ficamos quando visitamos da cidade de Valência? A resposta poderá ser encontrada através de outros exemplos. Sydney é conhecida pela Opera (fig.[II.50]), Bilbao passou a constar na rota da arquitectura internacional pelo Museu Guggenheim (fig.[II.51]) da autoria do arquitecto Frank Gehry, a capital da Malásia, Kuala Lumpur tem como icone as Petronas Twin Towers. Contudo, estes são exemplos mundiais de sucesso, será Valência o mesmo caso? Para Miguel Dominguez “na verdade, o atractivo deste complexo de lazer, aliado ao impulso do turismo de negocios, motivado pelo bom funcionamento do Palacio de Congressos, fez com que disparasse a procura de hoteis na nossa cidade, até ao ponto de Valência se ter situado na frente das cidades espanholas, com o crescimento de noites que no ano de 2001 aumentou 9,6%. O número de visitantes superou os 900.000 viajantes o que supõe um crescimento de 8,3% face ao ano 2000.”43 O objectivo, de trazer mais visitantes à cidade foi em certo ponto conseguido, mas do ponto de vista urbano, desvirtua por completo. Tito Llopis é crítico em relação à Cidade das Artes e das Ciências e classifica como, “estranhos artefactos que assediam desde a margem direita alguns dos tramos finais do jardim do Turia em direcção ao mar e que maltratam o velho caudal”. Mas em relação ao edifícios e ao programa, o arquitecto Luís Perdigón diz em tom de brincadeira, que Calatrava só depois de concluir o Museu das Ciências, interrogou-se que programa iria colocar lá dentro. Tito afirma que o “arquitecto Calatrava é um mau consultor, não se compara com outros arquitectos de referência, pois ele tem a responsabilidade das suas obras e as derrapagens financeiras são absurdas, acabando sempre por culpar “alguém”. O problemas nas suas obras – tal como a Cidade das Artes e das Ciências – é o preço elevado da execução e das politicas de manutenção o que é de estranhar porque esteve bastante tempo na Suíça.” 44. 43 DOMÍNGUEZ, Miguel, “Los últimos proyectos urbanísticos y arquitectónicos de Valencia. Cuál es el futuro de la ciudad?” in” Território, sociedad y património: una visión arquitectónica de la historia de la ciudad de Valencia” Vol.2; Colegio Oficial de Arquitectos de la Comunudad Valenciana, Valencia, 2002, p.308 44 Conversa do autor com o arquitecto Tito Llopis 99 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia [II.52] [II.53] [II.52] Estação do metro da Alameda, arquitecto Santiago Calatrava. [II.53] Trencadís, pormenor da Estação da Alameda 100 Capítulo II - Projectos de transformação do espaço público do TuriaCapítulo II - Projectos de transformação do espaço público do Turia Numa conferência realizada em Bilbao sobre construção polémica de uma ponte na cidade, também da autoria de Calatrava, surge uma pergunta de um jornalista a um professor de urbanismo querendo saber a opinião dele acerca da ponte, ao qual ele responde que “está bem feita, apesar dos custos. A ponte não é para cruzar o rio nem para as pessoas é para através da arquitectura criar uma imagem da cidade.” Mas, talvez existam mais vozes críticas em relação às obras de Calatrava. Num debate realizado no MUVIM45 são convidados dois conferencistas, Perez Casado, alcaide responsável pela decisão de ajardinamento do Turia, e o arquitecto Ricardo Bofill, responsável pelo Plano Especial de ajardinamento do Turia. Casado e Bofill, falam em momentos distintos, do ajardinamento do Turia. Bofill recusa-se a falar da Cidade das Artes e Ciências, pois acha que Calatrava, modificou o que a cidade e os valencianos aprovaram no plano de ajardinamento. A Cidade das Artes e das Ciências, organiza-se em torno de um eixo, conferindo uma entidade própria onde se distribuem o Hemesfèric, o Palácio das Artes e o Museu Príncipe Filipe projectados pelo arquitecto valenciano Santiago Calatrava. O conjunto não fica completo sem o Oceanário, cuja autoria é do arquitecto Félix Candela. Este conjunto de edifícios destaca-se claramente como elemento principal de uma variada sucessão de elementos que acontece ao longo dos vários tramos do Jardim do Turia que se inicia no Parque da Cabecera. Actualmente, a Cidade das Artes e das Ciências assenta na cota mais baixa em relação ao antigo leito do Turia. Rodeado por lagos artificias e espelhos de água, em oposição à ideia, os edifícios descontrolam-se na sua escala e são os principais protagonistas na tomado do espaço, aqui nota-se a clara desunião do conjunto da Cidade das Artes e Ciências e do Plano Especial, projectado por Ricardo Bofill. Nos vários edifícios, o material utilizado é o betão branco e o trencadís46 (fig. [II.53]) azuis e/ou brancos utilizados como revestimento do espaço público, conferindo unidade ao conjunto. Santiago Calatrava utiliza trencadís, também na estação de metro da Alameda (fig.[II.52]), situada entre os tramos XVIII e XIV e dá um significado mais forte a este elemento tradicional da arquitectura valenciana. Este material é utilizado em edifícios emblemáticos da cidade como no Mercado de Colón e Estacão del Nort. 45 Museu Valenciano de Ilustração Moderna 46 Palavra catalã, que significa ‘roto’. É uma espécie de mosaico, produzido com fragmentos de cerâmica unidos com argamassa, utilizado na arquitectura catalã e valenciana 107 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia [III.01] Desenho no Jardim do Turia, para as Torres de Serrano [III.02] Estudos rápidos para a proposta de trabalho [III.02] [III.01] 108 Capítulo III - Proposta de intervenção no sector em frente às Torres de SerranoCapítulo III - Proposta de intervenção no sector em frente às Torres de Serrano - Proposta de intervenção Actualmente, não será demasiado afirmar que o antigo caudal do rio Turia é um “rio verde”. A copa das árvores emergem e assinalam a sua presença que modifica a imagem da fachada de ambas as margens. Lugar de encontro, lugar de passeio, lugar de desportistas, etc., um lugar sereno emerge actualmente no centro da cidade. O segredo para o êxito deste grande jardim foi transformar em algo positivo o lugar que outrora fora trágico para os valencianos. A decisão de ajardinar o Turia levou a que se desenvolvesse um plano conjunto. Contudo o Plano Especial, nunca foi na verdade, totalmente seguido. Com o passar dos anos, a unidade de conjunto do Turia foi-se perdendo. Fazendo uma leitura mais “fria” reparamos que o jardim do Turia vive alheio à envolvente, e a sucessão de sectores, com o passar dos anos foi desconectando uns os outros. Cada sector foi moldado à vontade dos seus interesses, perdendo a identidade de conjunto inicialmente previsto. Poderemos questionar e reflectir sobre a maneira de melhorar este grande espaço urbano, como relacioná-lo com a envolvente, como recuperar a presença da água e assim devolver a essência de um elemento crucial para a identidade da cidade de Valência. Para António Estevan, consultor ambiental e membro da Fundação Nova Cultura da Agua, foi um erro retirar o curso da água. porque este funcionava como uma peça chave na ordenação do caudal, que resgatava o valor ambiental e sociocultural. Para o arquitecto Rafael Rivera, autor do parque “Gulliver”, “os jardins do Turia sempre serão o reflexo do compromisso de uma cidadania que reivindicou com êxito algo que agora parece óbvio, um espaço verde e público ao serviço da comunidade. Junto ao Parque Natural da Devesa, o vellho caudal é um símbolo como as coisas podem ser conduzidas desde a rua. Durante todos estes anos este espaço singular consolidou-se, com luzes e sombras, como uma peça central na imagem da cidade e um espaço chave a ser utilizado por parte dos cidadãos. Talvez a ausência da água no desenho global fez perder identidade a este espaço em relação às suas origens. Mas, depois de tudo ele agora pede-nos atenção. 109 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia Espaço encerrado Espaço aberto [III.03], [III.04], [III.05] e [III.06], Estudos. [III.07] Estudo para introdução de água no Jardim do Turia, fotomontagem [III.03] [III.05] [III.07] [III.06] [III.04] 110 Capítulo III - Proposta de intervenção no sector em frente às Torres de SerranoCapítulo III - Proposta de intervenção no sector em frente às Torres de Serrano (...) Já passou algum tempo e agora creio ser o momento de uma segunda visão deste Jardim. Desde esta consolidação evidente e irreversível do seu carácter verde e público deve-se repensar a cidade englobando parques e jardins, e o velho caudal seja novo e se converta na realidade no eixo vertebral de um modelo de progresso. Até mesmo o novo caudal deverá converter-se numa área de oportunidade. É a ocasião dos diferentes espaços públicos da cidade existente, estarem dispersos no tecido urbano, permanecendo ligados uns com os outros em redor dos jardins do Turia, com circuitos pedonais e cicláveis, passeios, pequenos espaços arborizados, permitindo a mobilidade e acessibilidade, recuperando assim uma continuidade fácil e evidente própria da cidade do cidadão a mesma que lhe deu origem e que nunca se deveria ter perdido. Talvez assim, os jogos de crianças se espalhem pelas ruas e praças, chegando a todos os cantos e nos despertem do sono.”1 A estratégia de intervenção, nesta área do jardim do Turia, pretende ser clara. As árvores devem continuar a ser o elemento predominante do jardim e contribuir para gerar espaços com carácter “desordenado”. O desenho está assente sobre um eixo central, onde a água e os caminhos o percorrem. A reintrodução da água, será como devolver à cidade de Valência “o sangue que lhe corria nas veias” e manter presente a memória da passagem do rio naquele local. Outro ponto, que poderá ser positivo, para o actual Jardim do Turia é a diluição dos parapeitos para realizar uma ligação mais directa entre a cota mais alta da cidade e a cota mais baixa do antigo leito. Pretende-se com estes dois pontos conseguir aproximar e relacionar o Jardim do Turia com a cidade e com os cidadãos. Deve existir um olhar correcto, atento e criativo que permita encontrar as soluções ajustadas para responder às dinâmicas existentes num qualquer território. 1 Revista Paisea & Cauces; O jardim do Turia, 2009, p.76 111 Do Rio ao Jardim_o exemplo do TuriaDo Rio ao Jardim_o exemplo do Turia [III.08] e [III.10] Planta da proposta de ideia. [III.09] Cortes para o projecto de ideia. [III.08] [III.09] 112 Capítulo III - Proposta de intervenção no sector em frente às Torres de SerranoCapítulo III - Proposta de intervenção no sector em frente às Torres de Serrano [III.10] 116 Entrando na recta final deste trabalho percebemos que todas as condicionantes que envolvem um projecto que modifique uma cidade tem variáveis complexas que devem ser tratadas. O que vamos apresentar neste capítulo é o fruto de um estudo incidido em várias vertentes, e reflexão sobres este estudo/projecto. A primeira sensação que nos fica é que o tempo foi pouco para fazer tudo o que desejávamos: mais entrevistas a arquitectos envolvidos no projecto, mais desenhos, mais recolha de informação, etc.. Conclusões A cidade como local de vivência de uma série de pessoas com interesses, vontades e conhecimentos diferentes deve ter uma arquitectura cuidada em que são revelados e elevados os interesses dos seus habitantes. Devemos estudar o todo de forma unificada não limitando a partes e identificar problemas equacionando as respostas. Fazer uma análise do Turia obriga, por ordem da sua obra, a ver partes e de que forma estas se encaixam. Foram várias as ideias, propostas e decisões para o Jardim do Turia o que leva a que se diga compreensível os anos de demora. Ao longo do trabalho foram visíveis as linhas guia pelas quais se projecta este Jardim do Turia. Se por um lado vimos vontade de construir estradas e edifícios ou linhas de comboio, por outro vimos a população indignar-se e lutar contra aquilo a que chama de atentado. As linhas propostas, ao fim de inúmeros concursos e indecisões, por Ricardo Boffil de certa forma não foram seguidas. Ao longo do jardim observamos elementos 123 Página 64, “El 15 de enero de 1963 se puso en marcha la sobretasa para la correspondencia (25 céntimos) y telegramas (50 céntimos) cursados desde Valencia, que el Gobierno había autorizado para contribuir a la realización de las obras del Plan Sur. La primera emisión de sellos especiales llevó el escudo del rey Jaime I en los de Correos y el escudo de la ciudad en los de Telégrafos.” Página 64, “El 15 de enero de 1963 se puso en marcha la sobretasa para la correspondencia (25 céntimos) y telegramas (50 céntimos) cursados desde Valencia, que el Gobierno había autorizado para contribuir a la realización de las obras del Plan Sur. La primera emisión de sellos especiales llevó el escudo del rey Jaime I en los de Correos y el escudo de la ciudad en los de Telégrafos.” Página 68, “Una ambiciosa propuesta global muy bien documentada y argumentada, que utiliza técnicas mediáticas y gráficas esquemáticas pero muy directas, como son el cómic y el fotomontaje.” Página 69, “No debe iniciarse ninguna inversión ni proyectarse nada que no responda a un plan general preestablecido, bien fijados los objetivos. Otra cosa sería como esparcir el dinero desordenadamente”. Página 70, «mostrar unas posibilidades de utilización del viejo cauce para que sirvan como punto de referencia y base de confrontación con otras soluciones, agilizando con ello el proceso de crítica que, sin lugar a dudas, descubrirá nuevas variables a la hora de realizar el proyecto definitivo». Página 72, “revalorización de la imagen de la ciudad antigua, se propone la potenciación visual de los pretiles y de algunos frentes urbanos, y la integración de los puentes históricos en los nuevos recorridos del agua.” Página 76, (...) La ordenación de un espacio verde en el antigio lecho del Rio en el mismo centro de la Ciudad creará un nuevo paisaje que se incorporá al nuevo paisaje urbano exis- 124 tente(...) (...) la sencillez es una característica fundamental en el diseño, la implantación y el mantenimiento(...) (...) Clásico en el sentido abstracto de uso de óptimos culturales nacidos de la herencia grecorromana y mediterráneo en el sentido del uso del lenguaje vegetal y mineral apropiado el lugar (...) (...) árboles y espécies de vegetación autóctona, como el Pino, Ciprés, Naranjo, Palmera, Encina, Olivo(...) (...) la composición del proyecto se desarrolla a partir de la geometría... define la trayectoria del ojo y la dirección del espacio, convierte caos y oscuridad en orden y claridad(...) (...) un eje principal jerarquiza la composición en toda su longitud. (...) el proyecto (...) es un inmemso pinar (Pinus pinea) (...) formará recintos diferenciados como habitaciones diseñadas en si mismas (...) grandes espacios públicos, naranjales, jardín botânico, jardín de frutales, parque deportivo-culturales(...) (...) en su extremos Oeste los jardines no se prolongarán hasta la desembocadura del viejo cause, sino que, desviándose de él, buscarán una conexión cone l Puerto. Un espacio rótula articulará el tramos final de los jardines con los meulles de la dársena interior, ofereciendo a la ciudad una salida al mar(...) Página 78, (...) bailando en corro, remontando la milotxa o saltando a la comba. Pero lo cierto es que han ocurrido muchas cosas. Faltaba la imagen final que resumiera todas las ilusiones depositadas en la idea de recuperar un aspecto clave de la identidad del pueblo valenciano: el uso popular y festivo del viejo cauce del Turia, un deseo tantas veces traicionado (…)” . Página 80, “Pese a este largísimo empuje constructivo, veintitrés años después el Jardín del Turia, tras asistir a la injusta manipulación de alguno de los tramos anteriormente ejecutados (TII), se ha consolidado como un jardín anacrónico, pero enormemente popular y con algunos ejemplos de buen diseño paisajístico.” Página 82, “El T2 (1985, Vetges Tu i Mediterrània SL con J. J. Hernández y J. Mª Arraiz; Premio Fundación Antonio Camuñas, Madrid 1990) se desarrolla entre el Azud de Rovella y el puente de Campanar. Basado en el esquema director y pensado como complemento del T1 (1989, Vetges Tu i Mediterránea SL, el lago nunca construido) el tramo se dis- 125 eñó como representación ordenada de la naturaleza frente al desorden que caracterizaba entonces esta zona de la ciudad. Una particular y sugerente lectura del antiguo cauce, entendido a la vez como línea y como grieta, dio lugar a un proyecto que se percibe hoy como una sucesión de episodios y también como un espacio ensimismado, donde el agua, en sus variadas formas, ejerce de anfitrión.” Página 84, “El T3, introdujo, entre los puentes de Campanar y Ademuz, un estadio de atletismo con instalaciones complementarias que alteraron la simetría central original, aunque el arbolado siguió ordenando los recorridos principales.” Página 88, “El T10-11 (TA. Ricardo Bofill) (...) ejecuta fielmente la temática clasicista del Avance (criticada entonces por la nula conexión con la historia del lugar) con un eje de simetría central que alinea el arbolado y todos los elementos arquitectónicos, incluido el gran estanque que acentúa la presencia del Palau de la Música.” Página 90, “(...) fue primero proyectado como una densa arboleda que concluía en un estanque laminar (1992, Vetges Tu i Mediterrània SL), y más tarde sustituido por un anacrónico “parque natural” construido por fases (1997-2002; Jacobo Ríos-Capapé, Rafael Narbona y Ángel Palomar).” Página 94, “La ciudad constituye un espacio artificial, histórico, en el cual toda sociedad - una vez alcanzado un suficiente grado de diferenciación respecto a la configuración social precedente - intenta en cada época mediante su representación en monumentos arquitactónicos, un objetivo imposible: “marcar” ese tiempo determinado, mas allá de las necesidades y motivos contingentes a que obedeció el proceso de construcción de sus edifícios.” Página 96, “Dentro de la acción politica del Ayuntamiento de Valencia y de la Generalitat Valenciana, y como uno de sus pilares fundamentales, se encuentra la promoción de la cultura, elemento esencial para el progreso colectivo. Con este principal propósito, la Comunidad Valenciana, consciente de su importância, de su tradición y de su ubicación geográfica, está obligada a servir de referente cultural permanente dentro del Arco Mediterrâneo. Continuando, por tanto, con esta labor propulsora de todas las 126 actividades relacionadas con la ciência, la tecnología u la cultura, se ideó la creación de la Ciudad de las Artes y las Ciências, una apueste de vanguardia, de enorme atractivo, y que supone la creación de una “ciudad viva”, científico-lúdico-cultural, dentro de otra ciudad como es Valencia.” Página 98, “De hecho, el atractivo de este complejo de ócio, unido al impulso de turismo de negócios motivado por el buen funcionamiento del Palácio de Congresos, ha hacho que se dispare la demanda de plazas hoteleras en nuestra ciudad, hasta el punto de que Valencia se ha situado a la cabeza de las ciudades españolas en cuanto el incremento de pernoctaciones, que en el año 2001 aumentaron en un 9,6%. La cifra de visitantes supero los 900.000 viajeros – lo que supone un incremento del 8,3% respecto al año 2000.” Página 98, “ los jardines del Turia siempre serán el reflejo del compromisso de una ciudadanía que reivindico hasta el êxito algo que ahora parece obvio, un espacio verde y público al servicio de la colectividad. Junto al Parc Natural de la Devesa, el viejo Cauce es el símbolo de que las cosas pueden ser de otra manera impulsadas desde la calle. Durante todos estos años este espacio singular se ha consolidade, con luces y sombras, como una pieza central en la imagen de la ciudad y un espacio clave para la utilización de los ciudadanos y ciudadana. Talvez la ausência del agua en el diseño global haya hecho perder identidad a este espacio en relación con su origen. Pero, después de todo, él nos mira y quiere que le prestemos atención. (...) Ha pasado el tiempo, y ahora creo que es el momento de una segunda visión de estos jardines. Desde esa consolidación evidente e irreversible de su carácter verde e público, debe repensarse la ciudad en clave de red de parques y jardines, en la que el viejo cauce sea nuevo y se convierta de verdade n la referencia, el eje vertebrador de un modelo de progreso. Incluso el llamado cauce nuevo debe aprender de él y convertirse en un área de oportunidad. Es la ocasión de que los diferentes espacios públicos de la ciudad, que existen pero están dispersos en el tejido urbano, queden enlazados unos con otros, alredor de los jardines del Turia, con circuitos, itinerários peatonales, paseos, pequeños espacios arbolados, enclaves, permitiendo la movilidad, la accesibilidad, el intercambio, y recuperando así una continuidad, fácil y evidente, la misma que lo dio origem y que nunca debió perder. Talvez así, los juegos de los niños se escurran por las calles y playas, lleguen hasta todos los rincones, y nos despierten del letargo.” 127 BiBliogrAfiA __________ ALMEDA, F.; Las riadas del Turia. Ayuntamiento de Valencia, Valencia, 1957. Aymonino, Carlos, El significado de las ciudades, Ed. H. Blume Edificiones, Madrid 1981 BOIRA, Josep Vicent, Valencia la ciudad, Tirant lo blanch, Valencia 2011 BOFILL, Ricardo, Taller de arquitectura edificios y proyectos 1960-1985, Gustavo Gili, Barcelona, 1988 CALATRAVA, Santiago, Catálogo de Exposición antológica en la Lonja de Valencia del 31 de Maio al 30 de Junio de 1993, El Croquis, Madrid 1993 GUARNER, Manuel Sanchis, La ciudad de Valencia, Sintesis de Historia y de Geografia urbana, IRTA, 2007 GUÀRDIA, Manuel [et al.], “Valencia”, in Atlas Histórico de Ciudades Europeas, Eds Centre de Cultura Contemporània de BarcelonaSalvat Editores; Barcelona, 1996. 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Desenho do autor, Fevereiro de 2013 Capítulo I - Valência; Enquadramento histórico [I_01]_GUÀRDIA, Manuel [et al.], “Valencia”, in Atlas Histórico de Ciudades Europeas, p.156 [I_02]_PERDIGÓN Luis; LLOPIS, Tito, Cartografia Histórica de la ciudad de Valencia (1608-1944), p.70 [I_03]_http://www.aenergiacura.com.sapo.pt/mapa-antigo-porto.jpg, consultado a 4 de Julho de 2013 [I_04], [I_05] e [I_06]_GUÀRDIA, Manuel [et al.], “Valencia”, in Atlas Histórico de Ciudades Europeas, p.159 [I_07]_Arquivo de Urbanismo da Universidade Politécnica de Valência [I_08]_LLOPIS, Tito, Cartografia Histórica de la ciudad de Valencia (1608-1944), p.104 [I_09]_http://www.tribunaldelasaguas.com/fotos/53.jpg, consultado a 30 de Julho de 2013 [I_10]_http://www.levante-emv.com/valencia/2010/09/26/acequias-barracas-alquerias-molinos-amplian-lista-patrimonio-protegido/742238.html, consultado a 30 de Julho de 2013 [I_11]_Arquivo de Urbanismo da Universidade Politécnica de Valência [I_12]_LLOPIS ALONSO, A. “El jardín del Turia: otrod tiempos, otros pryectos, otras imágenes” in “Historia de la ciudad VI. Proyectos y complejidad”, 2010 p.274 [I_13]_SORRIBES, Josep, Valencia, 1957 - 2007, De la riada a la Copa del América, 2010, p.63 [I_14]_Arquivo Gráfico José Huguet [I_15]_Arquivo de Urbanismo da Universidade Politécnica de Valência [I_16]_València en blanco y negro, p.22 [I_17]_SORRIBES, Josep, Valencia, 1957 - 2007, De la riada a la Copa del América, 2010, p.63 [I_18]_LLOPIS ALONSO, A. “Historia de la ciudad VI. Proyectos y complejidad”, 2010 p.276 131 [I_19]_Arquivo de Urbanismo da Universidade Politécnica de Valência [I_20]_http://www.adif.es/es_ES/ocio_y_cultura/doc/folleto_Valencia.pdf, consultado a 28 de Maio de 2013 [I_21]_http://www.adif.es/es_ES/ocio_y_cultura/doc/folleto_Valencia.pdf, consultado a 28 de Maio de 2013 [I_22]_http://www.adif.es/es_ES/ocio_y_cultura/doc/folleto_Valencia.pdf, consultado a 28 de Maio de 2013 [I_23]_LLOPIS ALONSO, A. “Historia de la ciudad VI. Proyectos y complejidad”, 2010 p.278 [I_24]_http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Bombardeo_sobre_la_estación_del_Norte_en_Valencia.jpg, consultado a 7 de Junho de 2013 [I_25]_Arquivo de Urbanismo da Universidade Politécnica de Valência [I_26]_LLOPIS ALONSO, A. “Historia de la ciudad VI. Proyectos y complejidad”, 2010 p.277 [I_27]_Arquivo de Urbanismo da Universidade Politécnica de Valência Capítulo II - Projectos de transformação do espaço público do Turia [II_01]__PERDIGÓN Luis; LLOPIS, Tito, Cartografia Histórica de la ciudad de Valencia (1608-1944), p.82 [II_02]__PERDIGÓN Luis; LLOPIS, Tito, Cartografia Histórica de la ciudad de Valencia (1608-1944), p.102 [II_03]__PERDIGÓN Luis; LLOPIS, Tito, Cartografia Histórica de la ciudad de Valencia (1608-1944), p.87 [II_04]__PERDIGÓN Luis; LLOPIS, Tito, Cartografia Histórica de la ciudad de Valencia (1608-1944), p.104 [II_05]_Arquivo de Urbanismo da Universidade Politécnica de Valência [II_06]_http://divulgamat2.ehu.es/divulgamat15/images/stories/cultura/arte/lasciudadesgeometricas13.jpg, consultado a 28 de Maio de 2013 [II_07]_Desenho do autor [II_08]_GUÀRDIA, Manuel [et al.], “Valencia”, in Atlas Histórico de Ciudades Europeas, p.176 [II_09]_GUÀRDIA, Manuel [et al.], “Valencia”, in Atlas Histórico de Ciudades Europeas, p.177 [II_10]_Arquivo de Urbanismo da Universidade Politécnica de Valência [II_11]_GUÀRDIA, Manuel [et al.], “Valencia”, in Atlas Histórico de Ciudades Europeas, p.177 [II_12]_LLOPIS ALONSO, A. “Historia de la ciudad VI. Proyectos y complejidad”, 2010 p.281 [II_13]_Arquivo de Urbanismo da Universidade Politécnica de Valência [II_14]_Fotografia do autor, tirada em abril de 2013 [II_15]_http://www.temaeuropa.es/images/fotos/totes/303.jpg, consultado a 3 Setembro de 2013 132 [II_16]_GUÀRDIA, Manuel [et al.], “Valencia”, in Atlas Histórico de Ciudades Europeas, p.176 [II_17]_Arquivo de Urbanismo da Universidade Politécnica de Valência [II_18]_Arquivo de Urbanismo da Universidade Politécnica de Valência [II_19]_LLOPIS ALONSO, A. “Historia de la ciudad VI. Proyectos y complejidad”, 2010 p.284 [II_20]_LLOPIS ALONSO, A. “Historia de la ciudad VI. Proyectos y complejidad”, 2010 p.284 [II_21]_http://home.wangjianshuo.com/archives/2003/08/09/shanghai-maglev.tower-horizontal.jpg, consultado a 3 Setembro de 2013 [II_22]_http://1.bp.blogspot.com/_GPvNiTV6SWg/SxJAnlMy2bI/AAAAAAAADYU/1xc0ZKHmN0k/ s400/090423-JLGago-RetroUtopiaLPA-TrenVertebrado-1973-s.jpg, consultado a 28 de Maio de 2013 [II_23]_LLOPIS ALONSO, A. “Historia de la ciudad VI. Proyectos y complejidad”, 2010 p.286 [II_24]_Arquivo de Urbanismo da Universidade Politécnica de Valência [II_25]_Arquivo de Urbanismo da Universidade Politécnica de Valência [II_26]_Arquivo de Urbanismo da Universidade Politécnica de Valência [II_27]_Arquivo de Urbanismo da Universidade Politécnica de Valência [II_28]_Arquivo de Urbanismo da Universidade Politécnica de Valência [II_29]_Arquivo de Urbanismo da Universidade Politécnica de Valência [II_30]_LLOPIS ALONSO, A. “Historia de la ciudad VI. Proyectos y complejidad”, 2010 p.288 [II_31]_LLOPIS ALONSO, A. “Historia de la ciudad VI. Proyectos y complejidad”, 2010 p.288 [II_32]_Jardim do Turia, sector IX, Desenho do autor, Abril 2013 [II_33]_Jardim do Turia, sector VIII, Desenho do autor, Abril 2013 [II_34]_Fotografia do autor, tirada em abril de 2013 [II_35]_Fotografia do autor, tirada em abril de 2013 [II_36]_Parque metropolitano do Jardim do Turia, Ayuntamiento de Valencia, alterado pelo autor. [II_37]_Parque metropolitano do Jardim do Turia, Ayuntamiento de Valencia, alterado pelo autor. [II_38]_Parque metropolitano do Jardim do Turia, Ayuntamiento de Valencia, alterado pelo autor. [II_39]_Parque metropolitano do Jardim do Turia, Ayuntamiento de Valencia, alterado pelo autor. [II_40]_Parque metropolitano do Jardim do Turia, Ayuntamiento de Valencia, alterado pelo autor. [II_41]_Parque metropolitano do Jardim do Turia, Ayuntamiento de Valencia, alterado pelo autor. II ANEXO B Registo1 dos habitantes das Chozas 1 LLOPIS ALONSO, A., [et al.], 1957 La riuà que canvià València , Valencia, 2007, p.118, 119; 122, 123 III IV V VI ANEXO C Boletim informativo sobre o concurso de ideias, para ajardinamento do antigo caudal do Turia. VII VIII IX X XI