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Ir para fora cá dentro: a experiência do uso de substâncias psicadélicas

Joana Maria Nogueira Pereira

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Universidade do Porto Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação IR PARA FORA CÁ DENTRO A EXPERIÊNCIA DO USO DE SUBSTÂNCIAS PSICADÉLICAS Joana Maria Nogueira Pereira Outubro de 2014 Dissertação apresentada no Mestrado Integrado em Psicologia do Comportamento Desviante e da Justiça, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, orientada pelo Professor Doutor José Luís Fernandes (FPCEUP). ii AVISOS LEGAIS O conteúdo desta dissertação reflete as perspetivas, o trabalho e as interpretações da autora no momento da sua entrega. Esta dissertação pode conter incorreções, tanto conceptuais como metodológicas, que podem ter sido identificadas em momento posterior ao da sua entrega. Por conseguinte, qualquer utilização dos seus conteúdos deve ser exercida com cautela. Ao entregar esta dissertação, a autora declara que a mesma é resultante do seu próprio trabalho, contém contributos originais e são reconhecidas todas as fontes utilizadas, encontrando-se tais fontes devidamente citadas no corpo do texto e identificadas na secção de referências. A autora declara, ainda, que não divulga na presente dissertação quaisquer conteúdos cuja reprodução esteja vedada por direitos de autor ou de propriedade industrial. iii Agradecimentos Ao professor Luís Fernandes, pela audácia de embarcar comigo nesta trip. Gratidão pela qualidade do acompanhamento, a constante disponibilidade e o apoio estimulante. Aos exploradores da psique que amavelmente me emprestaram a sua voz para a construção deste retrato. Aos Amigos, que foram compreendendo as ausências e se foram fazendo presentes. Aos que tantas vezes me perguntaram pelo estado da coisa, pelo interesse e motivação resultante. À Amélia, companheira de jornada e de inquietações. Ao Hugo, pela ajuda na turbulência da fase final entre dilúvios e formatações. Por último, base de tudo, à Ângela e ao Albino. Mãe e Pai, porto seguro e rampa de lançamento nestes meus voos. iv Resumo As substâncias psicadélicas são utilizadas há milhares de anos um pouco por todo o mundo. Nesta dissertação propomo-nos um exercício de aproximação, numa ótica fenomenológica, à experiência do seu uso. Fazemos um apontamento da sua história e relação com a ciência e os dispositivos de controlo social. A partir de entrevistas em profundidade a pessoas utilizadoras de psicadélicos extraímos elementos sobre as suas experiências, usos e representações, trançando assim um retrato da experiência e dos atores. São referidas experiências singulares das quais extraímos pontos em comum. Atribuem-se à experiência psicadélica características transformadoras da pessoa e das suas visões do mundo e dos outros, essencialmente com conotação positiva, mas são também referidos episódios negativos e estratégias de prevenção e minimização/gestão na sua ocorrência. Palavras-chave: Fenomenologia, Experiência, Experiência psicadélica, Psicadélicos, Alucinogénios v Abstract Psychedelics have been used for thousands of years all over the world. In the present dissertation we propose ourselves an exercise of approach, from a phenomenological stand, to the experience of its use. We refer to its history and its connections with science and social control mechanisms. Taking detailed interviews to people who use psychedelics we have extracted elements on their experiences, uses and representations, tracing a portrait of the experience and the actors. We extracted common points from singular experiences reported. Psychedelic experiences are said to be transformative both of the person and their visions of the others and the world, essentially with positive connotation, but negative episodes are also referred, as well as prevention and minimization/management strategies if they occur. Key words: Phenomenology, Experience, Psychedelic Experience, Psychedelics, Hallucinogens. vi Résumé Les substances psychédéliques sont utilisées depuis des millénaires partout dans le monde. Dans cet article, nous proposons un exercice de rapprochement à l'expérience de son utilisation, du point de vue phénoménologique. Nous prenons note de son histoire et de sa relation avec la science, ainsi que des dispositifs de contrôle social. À partir d’entretiens approfondis à des utilisateurs de psychédéliques, nous avons obtenu des informations sur leurs expériences, consommations et représentations, faisant ainsi un portrait de l'expérience et des acteurs. Des expériences uniques sont mentionnées, desquelles nous avons extrait des points en commun. Il y a des gens qui attribuent à l'expérience psychédélique des caractéristiques, généralement de connotation positive, de transformation de la personne et de ses visions du monde et des autres. Mais, il y en a d’autres qui se réfèrent à des épisodes négatifs et à des stratégies de prévention et minimisation/gestion pendant l’ occurrence. Mots-clés: Phénoménologie, Expérience, Expérience psychédélique, Psychédéliques, Hallucinogènes vii Índice Introdução………………………………………………………………………………….1 CAPÍTULO I: OS CONCEITOS CENTRAIS 1.1 Construção do objeto de estudo e opções terminológicas…………...3 1.2 A experiência………………………………………………………………4 CAPÍTULO II: APONTAMENTO HISTÓRICO 2.1 A descoberta……………………………………………………………….7 2.2 O apogeu, alarme social e proibição……………………………………8 2.3 O renascimento…………………………………………………………..11 2.4 As substâncias psicadélicas em Portugal……………………………..14 CAPÍTULO III: METODOLOGIA 3.1 Os métodos qualitativos em Psicologia – A Fenomenologia………..20 3.2 Guião da entrevista e excertos semiprojetivos……………………….21 3.3 Participantes e entrevistas……………………………………………...22 3.4 Tratamento e análise do material empírico…………………………...24 CAPÍTULO IV: IR PARA FORA CÁ DENTRO – A EXPERIÊNCIA DO USO DE SUBSTÂNCIAS PSICADÉLICAS 4.1 LSD………………………………………………………………………..25 4.1.1 Consumos………………………………………………………25 4.1.2 Experiência……………………………………………………..25 4.2 Cogumelos……………………………………………………………….30 4.2.1 Consumos………………………………………………………30 viii 4.2.2 Experiência……………………………………………………..30 4.3 DMT……………………………………………………………………….31 4.3.1 Consumos……………………………………………………....31 4.3.2 Experiência……………………………………………………..32 4.4 Ayahuasca………………………………………………………………..34 4.4.1 Consumos………………………………………………………34 4.4.2 Experiência……………………………………………………..34 4.5 Mescalina…………………………………………………………………36 4.5.1 Consumos………………………………………………………36 4.5.2 Experiência……………………………………………………..36 4.6 Salvia Divinorum…………………………………………………………37 4.6.1 Consumos………………………………………………………37 4.6.2 Experiência……………………………………………………..38 4.7 Reportório psicoativo…………………………………………………….38 4.7.1 Consumos………………………………………………………38 4.7.2 Experiências……………………………………………………39 4.8 A Experiência Psicadélica………………………………………………41 4.9 Experiência Ideal…………………………………………………………45 4.10 Perceção do risco………………………………………………………46 4.11 Estratégias espontâneas de redução de riscos……………………..47 Nota final………………………………………………………………………………..50 Referências bibliográficas…………………………………………………………….55 Anexos 7 CAPÍTULO II: APONTAMENTO HISTÓRICO 2.1 A descoberta A primeira pesquisa científica com substâncias psicadélicas foi isolar o principal alcaloide psicoativo encontrado no cato Peyote por Heffter em 1896, a que chamou mescal (Stevens 1987). Houve outros estudos de pequena escala feitos com mescalina e outras plantas psicoativas, mas o interesse científico só despertou verdadeiramente após o virar do século com a descoberta do primeiro psicadélico sintético - a Dietelamida do Ácido Lisérgico ou LSD. Em 16 de novembro de 1938 o químico suíço Albert Hofmann encontrava-se a trabalhar nos laboratórios Sandoz quando descobriu, por serendipidade, o LSD. A substância ficaria esquecida até 1943 quando, inintencionalmente, absorveu parte da substância através da pele. A sua viagem de bicicleta no caminho de casa, quando tinha percebido que era melhor interromper o trabalho nesse dia devido à sua condição, ficou na história como um dos símbolos do LSD. Após produzir relatórios sobre a experiência a nova substância foi testada por outros investigadores na Sandoz, e após a confirmação dos seus efeitos, a toxicidade do LSD foi testada em animais e o laboratório decidiu continuar a investigação com o intuito de produzir um produto que pudesse ser lançado no mercado. Werner Stoll (cujo pai era o responsável pela investigação na Sandoz) foi a primeira pessoa a usar LSD num contexto terapêutico, onde descobriu que doses baixas permitiam que material reprimido viesse à superfície de forma mais fácil, apelidando a substância de “phantasticum‖. Depois da publicação deste estudo, o laboratório lançou o produto no mercado com o nome comercial “Delysid”, como uma ferramenta auxiliar na libertação de material reprimido e como um método de permitir aos psiquiatras a experiência do mundo de pacientes psicóticos (Hofmann, 1980). Também o Serviço de Inteligência dos Estados Unidos da América (CIA) mostrou interesse no LSD, envolvido num dos seus projetos mais polémicos conhecido como MK-Ultra. Hoje sabe-se que na altura da Guerra Fria, mais 8 precisamente entre 1953 e 1964, o nome de código MK-Ultra era um “guardachuva” para um conjunto de 149 projetos de controlo comportamental que visavam identificar e desenvolver drogas e procedimentos a ser usados em interrogatórios e tortura. Técnicas como privação sensorial, administração de drogas, hipnose, isolamento e várias formas de tortura tinham como objetivo alterar as funções cerebrais e controlar o comportamento. O LSD foi também testado como um possível soro da verdade, muitas vezes sem o conhecimento dos sujeitos e com designs metodológicos questionáveis. A extensão do projeto não é conhecida na totalidade uma vez que a maioria dos documentos foi destruída, mas os relatórios posteriores apresentados ao Congresso dos Estados Unidos apontam para 80 instituições envolvidas, entre universidades, laboratórios, hospitais e cadeias (Anónimo, 1977). Há ainda dados que apontam para estudos da utilização de LSD pela Grã-Bretanha como arma não letal a ser usada no campo de batalha (Dando & Furmanski 2006,cit in Rózsa 2009). O ano de 1953 marca a aproximação da cultura ocidental aos psicadélicos: Aldous Huxley teve o seu primeiro contacto com Mescalina através de Humprhy Osmond (da correspondência posterior entre eles nasceu o termo “psicadélico”), o etnomicólogo Robert G. Wasson preparava a sua primeira expedição ao México na trilha dos cogumelos sagrados, o escritor e pintor William Borroughs procurava Ayahuasca na selva amazónica e o Delysid saía para o mercado médico (Huxley, Wasson & Graves, 2003 p 12-15). 2.2 O apogeu, alarme social e proibição A substância chamou a atenção da comunidade científica: entre 1950 e meados de 1960 produziram-se mais de mil ensaios clínicos (com 40, 000 sujeitos), várias dúzias de livros e seis conferências internacionais que versavam a terapia psicadélica (Grinspoon & Bakalar 1981). Corria pelo meio, então, um manual do uso terapêutico de LSD, com procedimentos individuais e grupais (Blewett & Chwelos 1959). 9 Os psicadélicos, na cultura ocidental associados no séc. XX à geração beat dos anos 40/50, à contracultura hippie dos anos 60 e, mais recentemente, à cena rave, foram em tempos uma promessa para o tratamento de várias condições médicas, bem como provedores de acesso a intensas experiências espirituais e místicas. Muitos cientistas e académicos pioneiros dedicaram as suas carreiras a este campo, na esperança de que as substâncias psicadélicas pudessem ser para a psiquiatria o que o microscópio é para a biologia ou o telescópio para a astronomia: uma ferramenta essencial para a exploração de partes do mundo interno que estão normalmente inacessíveis, um catalisador ou amplificador dos processos mentais (Grof, 2001). Foram conduzidos estudos com LSD como coadjuvante no processo terapêutico, mas também com alcoólicos e dependentes de substâncias várias, doentes terminais e até com crianças – a substância parecia promissora numa diversidade de aplicações, quase como se de uma panaceia se tratasse. Em 1960 na Universidade de Harvard os professores e investigadores em Psicologia Richard Alpert e Timothy Leary começavam a levar a cabo experiências com substâncias psicadélicas (psilocibina e LSD). Criava-se o que ficou conhecido como o “Clube Psicadélico de Harvard” e participaram nas investigações estudantes da Universidade, pessoas com dependências de substâncias e até personalidades como Aldous Huxley, Allen Ginsberg e William Burroughs, incluídos num grupo de mentes criativas. Os investigadores também tomavam as substâncias com os sujeitos, e após os primeiros resultados previam o uso da psilocibina na psicoterapia (“psicanálise instantânea”), consideraram-na uma ajuda para o desenvolvimento criativo e previam até o seu uso regular como ferramenta num seminário de pós-graduação de Harvard (Weil, 1963). Foram igualmente desenvolvidos estudos sobre o uso destas substâncias com criminosos condenados. A experiência da Prisão de Concord surgiu de uma pesquisa preliminar sobre os efeitos subjetivos da psilocibina (Leary, Litwin & Metzner, 1963). Leary e os seus colaboradores descobriram que grande parte (88%) dos sujeitos do estudo preliminar relataram ter aprendido algo de valor acerca si e do mundo, enquanto mais de metade (62%) afirmaram que após a 10 experiência com psilocibina as suas vidas mudaram para melhor. Em alguns casos, a administração de psilocibina produziu uma experiência mística ou transcendente semelhante à experiência de conversão religiosa. Com base na evidência preliminar os investigadores especularam que a substância poderia ser um poderoso catalisador de mudança de comportamento em indivíduos com antecedentes criminais (Doblin 1991). Investigações similares decorriam na Califórnia com autores de crimes sexuais e na Holanda com criminosos crónicos (Tenenbaum 1961 e Hein 1963, cit in Doblin 1991). A dimensão do fenómeno do Clube Psicadélico de Harvard juntamente com o incumprimento dos protocolos estabelecidos com a Universidade foram geradores de alarme social, e as posições controversas assumidas por Leary, que se transformou de um respeitável professor de Harvard para um ícone da contracultura, contracultura essa que promovia o uso de LSD, acabaram por ser centrais na mudança do interesse científico e da opinião pública acerca deste tipo de substâncias. Wark & Galliher (2010) referem o papel central destes investigadores na proibição dos psicadélicos nos Estados Unidos da América, e referem ainda o interesse teórico do fenómeno uma vez que, ao contrário da maioria das drogas hoje ilegais, a psilocibina e o LSD nunca estiveram ligados a um grupo minoritário ameaçador, mas a um dos grupos de jovens mais privilegiados do país. O interesse mediático à volta da associação dos psicadélicos com desobediência social e atitudes antiautoritarismo erodiram o apoio pelo seu uso clínico (Dyck 2006) numa altura em que se faziam ouvir as vozes da contracultura hippie contra a Guerra do Vietname, facto que poderá ser útil à leitura da proibição das substâncias psicadélicas. Um dos destaques nas vozes do movimento pacifista foi a música de Jonh Lennon e Yoko Ono “Give Peace a Chance”, no ano de 1969, e em cuja gravação se ouvem as vozes de Timothy Leary e Allen Ginsberg, entre outros. Apesar do elevado volume de publicações neste período, as suas conclusões carecem de valor aos olhos da ciência contemporânea devido à não inclusão de grupos de controlo, follow up insuficiente ou inexistente e carência de medidas objetivas (Grob 1994, Grinspoon & Bakalar 1981). O LSD e outras substâncias semelhantes passaram definitivamente do uso exclusivo na comunidade científica 11 para uma utilização à margem da lei, por um público mais amplo e em condições muito menos controladas quando, a 21 de Fevereiro de 1971, a Convenção das Nações Unidas em Substâncias Psicotrópicas torna o LSD ilegal nas suas 183 nações signatárias. 2.3 O renascimento Apesar da investigação com psicadélicos não ter sido completamente banida, era impossível aos investigadores obterem permissão para investigações com humanos e o financiamento a este tipo de trabalho cessou. O clima político e académico implicava que prosseguir com pesquisa no campo dos psicadélicos fosse capaz de desacreditar uma carreira, e poucos investigadores estavam dispostos a ter os seus departamentos envolvidos numa área tão controversa da ciência (Kurtzweil 1995). No entanto, desde o fim dos anos 1980, organizações como a Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies (MAPS), a Beckley Foundation, o The Heffter Research Institute (HRI) e, mais recentemente, o International Center for Ethnobotanical Education Research & Service (ICEERS) e a OPEN Foundation têm vindo a desenvolver trabalhos em duas áreas complementares em torno das substâncias psicadélicas: ciência e política. Devido aos seus esforços, cerca de 40 anos volvidos sobre a proibição o interesse da comunidade científica volta a focar-se nas potencialidades e riscos do uso deste tipo de substâncias sobre o qual ainda há tanto que não sabemos. A acompanhar o retorno da produção científica há conferências na especialidade: o Horizons, fórum anual decorrente em Nova Iorque que versa o papel dos psicadélicos na medicina, cultura, história, espiritualidade e criatividade, e em 2014 vai na oitava edição; a Breaking Convention, conferência sobre consciência e psicadélicos, organizada por uma associação com o mesmo nome na GrãBertanha; a Psychedelic Science, conferência com participantes de todo o mundo organizada pela MAPS que teve duas edições (2012 e 2013) e que foca nas potencialidades e riscos do uso de várias substâncias psicadélicas em contexto 12 médico e não médico; a Psychedemia, conferência realizada na Universidade de Pennsylvania que procura trazer os psicadélicos de volta à academia, e a World Ayahuasca Conference organizada pelo ICEERS que decorre em Setembro de 2014 e intende juntar investigadores de várias áreas disciplinares em torno da Ayahuasca. A juntar a isto, o Journal of Psychoactive Drugs dedicou a primeira edição de 2014 aos psicadélicos, com o título: Psychedelic Resurgence—Research and Therapeutic Uses, Past and Present. Refere o editor na nota introdutória que tal edição é indicadora da pesquisa séria e interessante que se tem vindo a desenvolver sobre as propriedades e usos das drogas psicadélicas (Journal of Psychoactive Drugs 2014). Há, de facto, um conjunto de fatores que indicam que poderemos estar a iniciar uma abordagem mais séria, numa fase mais matura, que permita um conhecimento sustido pelo racional científico e menos influenciado por pressões socais e/ou políticas. Num trabalho publicado em 2006, investigadores da Johns Hopkins University School of Medicine avaliaram os efeitos de uma dose alta de psilocibina em comparação com um composto semelhante, em condições experimentais controladas e administradas num ambiente confortável e apoiante. Descobriram que a psilocibina produziu uma série de alterações da perceção, experiências subjetivas e humores instáveis incluindo ansiedade. A psilocibina também elevou medidas de experiência mística, e dois meses depois os participantes classificaram a experiencia como tendo significados pessoal e espiritual substanciais e atribuíram-lhe mudanças positivas em atitudes e comportamento consistentes com relatos de observadores externos. Concluíram que, quando administrada em condições apoiantes e seguras, a psilocibina pode ocasionar experiencias místicas similares às ocorridas espontaneamente, e ressalvaram a necessidade de mais estudos no domínio (Griffiths, Richards, McCann & Jesse 2006). Num follow-up de 14 meses, a maioria dos participantes avaliou a experiência como estando entre as cinco mais significativas e entre as cinco espirituais mais importantes das suas vidas, mais de metade indicou que a experiencia aumentou o seu bem-estar e satisfação com a vida e a maioria dos 13 participantes revelou critérios que indicavam uma experiência mística “completa” (Griffiths, Johnson, Richards, McCann & Richards 2008). Mais recentemente, nos EUA, um estudo piloto de psicoterapia assistida com psilocibina com pacientes de cancro em estado avançado obteve resultados promissores, concluindo a viabilidade e segurança da administração de doses moderadas da substância acompanhadas de uma melhoria do humor e redução da ansiedade (Grob et al, 2011). Um ano depois, no Reino Unido, era publicado um estudo que testava a hipótese de que a psilocibina facilitaria o acesso a memórias pessoais e emoções, ao comparar respostas subjetivas e neutras a memórias autobiográficas positivas sob o efeito da substância e de um placebo. A hipótese foi confirmada, e concluíram que tal implicava que pudesse ser útil em psicoterapia, quer como uma ferramenta para facilitar a recordação de memórias salientes, quer para reverter vieses cognitivos negativos (Carhart-Harris, Leech, Williams, Erritzoe, Abbasi, Bargiotas et al 2012). O primeiro estudo a envolver administração de LSD a ser aprovado pelas entidades reguladoras americanas em 40 anos foi publicado em março de 2014 no Journal of Nervous and Mental Disease. Este estudo piloto foi conduzido para determinar a segurança e eficácia de 22 sessões de psicoterapia assistida com LSD em pacientes com ansiedade associada a estados terminais. Concluiu que tal procedimento é seguro, não havendo efeitos adversos a registar, e com a comparação entre grupos a apoiar a eficácia na redução da ansiedade ao fim de duas sessões, resultados promissores que, uma vez mais, apontam a necessidade de mais investigação (Gasser et al 2014). Num estudo publicado recentemente, investigadores da Johns Hopkins reportaram que um pequeno número de fumadores de longa data que falharam várias tentativas de cessação tabágica conseguiram-na com a utilização de psilocibina associada a um programa de terapia cognitiva-comportamental. Após seis meses a taxa de abstinência era de 80%, substancialmente mais elevada do que a taxa de sucesso das abordagens convencionais (Johnson, Garcia-Romeu, Cosimano & Griffiths 2014). Os investigadores, que fazem parte de uma equipa que tem vindo a ter financiamento para estudar os efeitos psicoativos das 14 substâncias psicadélicas, sugerem que a psilocibina pode ajudar a quebrar os padrões aditivos de pensamentos e comportamentos que se entranharam após as pessoas passarem anos como fumadoras, e que esses efeitos parecem durar mesmo após a substância já não estar presente no organismo. Existem evidências crescentes de substanciais efeitos da ibogaína – o princípio ativo da planta africana Tabernanthe Iboga – no alívio da sintomatologia da abstinência da heroína, cocaína e opiáceos (Lotsof, 1996; Nouhou et al., 2000; Alper & Lotsof, 2007; Alper et al., 2008). O consumo ritual do peiote na Igreja Nativa Americana, assim como da ayahuasca na Igreja do Santo Daime e em contextos neoxamânicos têm chamado a atenção dos especialistas como potenciais ferramentas no tratamento de alcoolismo e problemas decorrentes do abuso de substâncias diversas (Albaugh & Anderson, 1974; Dobkin de Rios et al., 2002). 2.4 As substâncias psicadélicas em Portugal Uma lacuna na documentação do percurso histórico nacional prende-se com as drogas: não dispomos, até ao momento, de nenhum registo agregador da história da psicoatividade portuguesa (Monteiro, 2013). A produção científica nacional no campo das substâncias psicoativas está muito relacionada com aquelas que, pelo seu potencial aditivo e destruidor, se tornaram problemáticas sociais mais visíveis - a heroína e a cocaína. No que diz respeito às substâncias psicadélicas a produção é escassa, e da sua história apenas nos foi possível recortar alguns momentos, inseridos em trabalhos sobre outros objetos. Neste ponto, considero pertinente a citação do seguinte excerto da obra Os pós-modernos ou a cidade, o sector juvenil e as drogas (Fernandes 1990): Antes do 25 de Abril de 1974 Os ―históricos‖ começam os seus primeiros contactos com drogas ilegais no final dos anos 60, quando tinham entre 15 e 20 anos, numa altura em que a droga ainda não constitui uma referência colectiva nem um 15 ―problema social‖. Estes contactos efectuam-se em ambientes restritos (casas de amigos, festas particulares…); os participantes destas reuniões apresentam em comum referências culturais da estética pop então florescente nos países desenvolvidos do Ocidente (…) a preocupação de estar a par dos ambientes ―in‖ do estrangeiro era notória: os indivíduos destes círculos restritos que iam a Londres visitavam os clubes musicais da capital, os que iam a Amsterdão participavam dentro do possível na ambiência ―hippie‖ da Praça Dam, meca europeia da subcultura mais marcante dos ―sixties‖. No regresso, traziam as noticias, as aventuras, as sugestões e às vezes o ensaio e a exibição de um novo visual (…) e, não raro, algumas drogas. Começam assim ―desbundas particulares‖ em festas de acesso restrito, mas onde uma solidariedade juvenil em torno de um estilo de vida diferente começa a formar-se. As drogas começam a circular como o elemento mais expressivo da diferença desses encontros, sobretudo as substâncias alucinogénias e a cannabis. Ao inicio são recebidas com surpresa pelos participantes, muitas vezes com expectativas fantasiadas relativamente às consequências da ingestão – as drogas eram um potencial virgem, fonte de descobertas, possibilidades de transgressão, veiculo para o assumir duma posição juvenil que se autopercepcionava como diferente. O LSD era a novidade que chegava ―lá de fora‖ normalmente por mão de algum dos ―amigos do grupo‖ – amigos que nem sempre se conheciam muito bem: nas ―desbundas‖ as pessoas iam aparecendo sem importar muito donde vinham. Era necessário, apenas, sintonizar o ambiente, participar dum estilo.‖ Era um ambiente de experimentação e de descoberta, essencialmente em círculos restritos, em que havia pouca informação sobre as sustâncias e alguma desinformação e mitos sobre os seus potenciais efeitos. De ressalvar que, neste ponto, a droga não era problematizada socialmente, não constituía ainda “a ameaça que infiltra a sociedade e destrói os jovens” (Fernandes, 1990). Portugal vivia ainda sob o regime fascista quando, em 1971, aconteceu no norte do país aquele que viria a ser conhecido como o “Woodsctock português” – a primeira 16 edição do Festival de Vilar de Mouros. A revista Sábado, em agosto de 2010, publicou o relatório integral feito pela PIDE/DGS sobre o festival. Podemos ler: ―Na noite de 7 estavam muitos milhares de pessoas e muita gente dormiu ali mesmo, embrulhada em cobertores e na maior promiscuidade.(…) A população da aldeia, e de toda a região, até Viana do Castelo, a uns 30 km de distância, estava revoltada contra os ―cabeludos‖ e alguns até gritavam de longe ao passar ―vai trabalhar‖ (…) Viam-se cenas indecentes na via pública, atrás dos arbustos e à beira da estrada. Em Viana do Castelo dizia-se que os ―hippies‖ tinham comprado agulhas e seringas nas farmácias da cidade. Toda aquela multidão de famintos, sem recursos para adquirir géneros alimentícios indispensáveis, como se de uma praga de gafanhotos se tratasse, se lançou sobre as hortas próximas colhendo batatas e outros produtos hortícolas, causando assim, grandes contrariedades aos seus proprietários, muitos deles de débeis recursos económicos‖ Apesar de não fazer referência ao consumo de drogas, são notórios os elementos caracterizadores de um estilo desafiador das normas sociais e culturais vigentes, ao qual estas substâncias não são estranhas. Podemos encontrar referência a este momento histórico no trabalho de mestrado de Monteiro (2013), que escreve: “Em 1971, surge uma primeira demonstração coletiva do consumo de canabinóides e, menos extensivamente, de LSD, aquando da primeira edição do festival de Vilar de Mouros – em jeito de versão lusa do Woodstock” (Poiares, 1995; Ribeiro, 1999; Marques, 2008 cit int Monteiro, 2013). No pós-25 de abril a liamba, os speeds e os medicamentos eram as substâncias de eleição, até que nos anos 80 os junkies tomaram conta do panorama nacional da psicoatividade. Consultando os relatórios do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (EMCDDA) é possível aceder a dados sobre a prevalência do uso de algumas substâncias psicadélicas desde o ano 2001, que se sintetizam abaixo: 23 prevalência do traço do que pela ocultação do mesmo, habitualmente da iniciativa dos próprios sujeitos, atendendo ao estigma associado. Caracterizam-se, ainda, pela ausência dos sistemas formais de serviços e controle social (Pearsons, 1992) ou dos contextos clínicos e institucionais (Walters e Biernacki, 1989); e exibem alguma correspondência, na opinião de P. Adler (1990), com as populações desviantes de forma geral.» (Fernandes e Carvalho, 2003). Utilizamos a bola de neve ou snowball como método de amostragem: a indivíduos previamente localizados através das redes de contactos pessoais da investigadora era solicitado que facilitassem o contacto com pessoas que utilizam substâncias psicadélicas e que estivessem, à partida, disponíveis para participar na investigação. Devido ao número reduzido da amostra, por limitações temporais, as cadeias de referência não foram além do segundo nível. Para este trabalho foram realizadas dez entrevistas, sendo uma descartada por não cumprir os critérios de inclusão na amostra (o entrevistado referiu experiências com substâncias psicadélicas ocorridas há 30 anos, e falou delas com distanciamento vivencial, retratando-as como um período de experimentação com uma variedade de substâncias). As entrevistas decorreram em ambientes variados (casa dos entrevistados, estúdios de trabalho, praças e esplanadas sossegadas da cidade do Porto) e com uma atitude informal. Tiveram uma duração variável entre os 45 e os 73 minutos e como modo de registo recorremos à gravação áudio. A maioria dos entrevistados situa-se entre os 30 e os 39 anos, havendo um com 40 anos e três no intervalo entre os 20 e os 29. A amostra é composta por 7 elementos do género masculino e 2 do género feminino. São indivíduos que, na maioria, completaram o 12º ano em cursos técnico-profissionais e que completaram ou frequentaram o ensino superior. Há um individuo que tem o 9º ano. Encontramos pessoas com ocupações ligadas ao design, à produção e ao ensino de música, ao artesanato e ao mercado financeiro. Um dos indivíduos encontrava-se desempregado e outro era operário de maquinaria. As entrevistas foram realizadas na zona do Porto. Encontramos, assim, pessoas com residência no Porto ou Grande Porto. Todavia, apesar da residência atual, há 24 indivíduos naturais de cidades mais a norte de Portugal e um natural do Brasil. A escolaridade e profissões da família de origem permitem-nos classificar a amostra num estrato social médio/médio-alto. À exceção de um caso em que os pais tinham o antigo 4º ano e ocupações ligadas à indústria, a maioria tinha o antigo 12º ano e, em mais de metade dos casos, pelo menos um dos progenitores tinha o ensino superior, tendo concluído pós graduações, mestrados e doutoramentos. As ocupações são diversas – música, justiça, arquitetura, engenharia, design, marketing, artesanato, geriatria… - em comum têm o facto de requererem algum tipo de formação especializada. 3.4 Tratamento e análise do material empírico A gravação e a posterior transcrição na íntegra da entrevista têm como objetivo fundamental a leitura dos relatos no momento da análise, permitindo ao investigador, num primeiro momento, a leitura atenta sobre o conteúdo e, posteriormente, já durante a análise, tentar apreender e descrever como se manifesta o objeto investigado. A codificação do material reunido foi orientada por uma grelha de Análise de Conteúdo (Bardin 1977) adaptada a partir de uma grelha construída por Fernandes & Carvalho (2003) e disponibilizada no anexo 3. Recortamos o objeto em torno dos temas abordados, respeitando os critérios de exaustividade e exclusividade na análise. Fizemos uma análise descritiva em que procuramos extrair elementos sobre três grandes dimensões: os dados demográficos do sujeito, os consumos (dimensão objetiva) e as experiências (dimensão subjetiva). A descrição pormenorizada das categorias, subcategorias e indicadores encontrase em anexo. 25 CAPÍTULO IV: IR PARA FORA CÁ DENTRO – A EXPERIÊNCIA DO USO DE SUBSTÂNCIAS PSICADÉLICAS Até este ponto fizemos um breve apontamento da história das drogas psicadélicas e abordamos conceitos teóricos e metodológicos que rodeiam a questão central deste trabalho: a experiência do uso deste tipo de substâncias. Nesta secção passamos a apresentar os resultados da investigação empírica. 4.1 LSD 4.1.1 Consumos Esta substância é utilizada pela totalidade dos entrevistados, com diferentes idades de início. Há pessoas que situam a experimentação por volta dos 18 anos, uma que se estreou no uso aos 15 anos e três que só experimentaram mais tardiamente, à volta dos 30 anos. Apesar de todos serem frequentadores mais ou menos assíduos de festas de trance podemos dividir em dois os contextos preferenciais de utilização: os que o gostam de fazer nesse contexto de festa e os associam, e os que preferem tripar em ambientes mais restritos, reunidos de amigos de confiança e, muitas vezes, em contacto com a natureza. A frequência de uso é variável de sujeito para sujeito e com a altura do ano, sendo que no verão há um incremento na frequência de uso. Encontramos sujeitos que usam LSD numa base mensal, outros que o fazem duas ou três vezes por ano, e um que utiliza LSD de dois em dois anos. A grande maioria relata uso de LSD em duas formas: ácidos e gotas, sendo os primeiros mais fáceis de arranjar e, consequentemente, os mais utilizados. 4.1.2 Experiência: Quando aprofundamos as experiências do uso aparecem inevitavelmente dois polos: as experiências negativas (nem sempre totalmente más, veremos) e as positivas. 26 A experimentação está, normalmente, associada a relatos de pessoas próximas que suscitam curiosidade. “Afinal isto tem alguma coisa que se lhe diga, quero experimentar isto pelo menos uma vez antes de morrer, se não vou morrer uma pessoa burra!‖ (N.). Exceto num caso, todas as pessoas já tinham informações (de pessoas chegadas, de pesquisas na internet) aquando do primeiro uso. A experiência, no entanto, não é comparável a qualquer descrição ―Por mais que te contem, por mais que imagines, nada é comparável a estares naquela situação!‖ (M.). No polo positivo, a experiência é caracterizada uma nova maneira de ver o mundo. Potenciadora de maior atenção aos pormenores, sentimento de conexão e harmonia, acompanhada de um aumento na sensibilidade ao ambiente e às pessoas. ―Só me lembro de dizer ―so beautiful!‖ [quando senti os efeitos pela primeira vez] (…) Engraçado que ainda hoje associo esse momento, quando o ácido bate, que é quando começa a ficar tudo muito lindo, muito harmonioso…‖(A.). ―Quem me dera que isto não acabe, isto é a coisa mais linda que me aconteceu - estou sempre a repetir este género de coisas, é tudo tão lindo!‖ (R.). A experiência do uso de LSD é, para alguns dos entrevistados, uma ferramenta para o acesso a dimensões espirituais e para o incremento da fluidez e da velocidade do pensamento: “De certa maneira pensar as coisas de uma maneira diferente, de uma maneira que, sei lá, antes não me ocorria – uma nova maneira! E aí é que me apercebi da ferramenta que isto pode ser, acima de tudo! (…) Não é que eu tivesse uma visão simplista das coisas, já tinha os meus conceitos e as minhas ideias, mas mudou tudo! Muito mais complexo, muito mais abrangente, muito muito mais!‖ (N.). É comum a referência da transformação pessoal em termos de espiritualidade e maior tolerância e compreensão com os outros e com as situações. “Houve outra vez que tive uma vivência do género do filme Avatar, e estava tudo conectado, não havia diferenças… e quando não há diferença e são todos por um não há disputas… Porque o nosso problema aqui na Terra é esse, um quer ter, o outro quer ter mais, quer comprar mais... E nesse mundo não, era como se fosse o Avatar… E tive, mais uma vez, uma perceção de uma realidade paralela que queria que fosse real.― (J.). 27 Também comum é a referência das experiências do uso de LSD como tendo funções de quebra de monotonia mental e de escape à organização social: «Isto é um escape para a prisão que é esta programação da sociedade! (Um escape?) Sim, um escape de 12 horas à normalidade, à rotina! São umas férias, um ―vá para fora cá dentro‖!» (B.). ―Devido à minha segurança comigo nesses estados, dá-me gozo, usufruo mesmo da experiência, saio um bocado da monotonia mental! Acho que me faz bem!‖ (C.). Esta mudança na velocidade e estrutura do pensamento é assim descrita por A.: ―O LSD (…) guarda as coisas nas gavetas! Tipo, estás um bocado confusa e ajuda-te a ver as coisas com mais clareza, a encaixar tudo e já não te preocupas mais com o assunto, está arrumado! E quem eu sou hoje, completamente, tem a ver com as experiências e as mocas que tive… É encaixar peças, e auto descoberta, acima de tudo uma auto descoberta, porque paramos tão poucas vezes para pensar em coisas tão importantes dentro de nós que… Tantas peças que temos soltas que não se encaixam, e às vezes essa clareza e esse bemestar, porque parte muito daí, o sentimento de clareza do LSD tem a ver com esse bem-estar, o tu estares a valorizar as coisas à tua volta que têm verdadeiramente interesse!”. Para terminar as descrições com conotações positivas da experiência do LSD, quando pedimos a R. que nos descreva a experiência em termos gerais, ele diznos: ―Olha, quando eras criança, no Natal, tinhas a árvore cheia de presentes e tinhas que esperar pela hora de os ir abrir. Finalmente deixavam-te lá ir e tu tinhas mesmo aquilo que querias – a sensação desse momento tem-la durante oito horas!‖. Em relação a más experiências, são descritas pelos entrevistados como um tipo possível, ainda que pouco frequente e normalmente associadas a pouca experiência, doses fortes ou fatores do contexto onde decorria a experiência (acontecimentos externos imprevistos/perturbadores). São descritas quase como que em traços opostos das experiências positivas: perda de conexão com “a realidade” (os outros e os espaços), perceção de todos os estímulos como ameaçadores, sensação de estranheza e desconforto, perda de noção temporal. 28 ―Naquele momento eu pensei que poderia não voltar mais à realidade, ao normal. E aquele momento não foi só um momento, foi uma vida pra mim!‖ (J.). O uso de uma dose mais forte do que o habitual para a pessoa é descrito com frequência como sendo o causador da má experiência. Estar com pessoas de confiança que percebam e apoiem a que está a ter uma má experiência também parece ser um fator importante que ajuda a ultrapassar a situação. “Fui a uma festa no Hard Club e pensei que ia ter a mesma experiência, que ia sair do corpo outra vez… Armei-me me Jim Morrison, mandei seis pastilhas e colei dois ácidos e meio, ainda por cima dos Freddy Cats, daqueles potentes… Começou a dar-me ataques epiléticos e convulsões, fui posto cá fora, ambulância, levei choques no peito... Os meus amigos a chorar à porta ―morreu, morreu‖… e pronto, ligaram para a minha mãe, disseram-lhe para ela se reunir de amigos e que não sabiam o que me fazer para me safar. Estive 17h em coma, acordei no hospital, recuperei… (Lembras-te disso?) Não, lembro-me do que me contaram depois… A única coisa que me lembro foi de um amigo meu me ter dado uma cabeleira cor-de-rosa, toda psicadélica e florescente... Lembro-me de cair ao chão e de ver o pessoal a saltar à minha volta, comecei a entrar em pânico porque via toda a gente a dançar à minha volta e eu não ouvia som nenhum… Parece que alguém tinha desligado o volume! Levantaram-me e não me lembro de mais nada… Dizem que estava com os olhos abertos mas eu não me lembro de nada!‖ (B.) “Foi numa festa em Fafe, na altura andavam aí um Hoffmans muito potentes, dupla face. E eu com a adrenalina toda que estava cheguei lá e tomei logo um inteiro. A moca foi tão grande, tão grande, que eu não tinha capacidade para acompanhar. Tive que sair do dancefloor, estava tudo a meter-me confusão, era tudo: o som, as pessoas… Afastei-me e sentei-me e caí para o lado! Não consegui reagir aquela moca tão grande! Nisto aparecem dois amigos que me reconhecem e vêm ter comigo e socorreram-me, entre aspas: falaram comigo, fomos beber água, andar um bocado, e desliguei-me um bocado do meu filme, isto é, dei mais atenção a eles e foi passando até eu ficar fixe… Mas tive ali uma hora complicada! Com a ajuda dos amigos lá se resolveu, mas daí a importância do controlo!‖ (C.). 29 “Tive uma má trip na Alemanha, mas foi excesso de LSD, e eu tive consciência disso, mas pouca... Pensava que a pista era toda um gang e o DJ era o líder, pensei - estás na terra dos nazis e eles não gostam de estrangeiros, vão-te matar! Sentia-me sozinho, que os holandeses com quem estava não estavam em lado nenhum, e depois vi as fotos e eles estavam mesmo ao meu lado! O filme que eu fiz… Vivi aquele momento noutra frequência, até que alguém vem ter comigo, e eu perguntei-lhe se ele me queria matar, ele falou comigo em inglês e disse que não, que não me queria matar, para eu fechar os olhos, respirar fundo e perceber que não se passava nada! E eu assim fiz, fechei os olhos e abri e vi que realmente estava toda a gente a rir-se… Eu sabia que o que estava a sentir era da trip, mas às vezes um gajo não se lembra!‖ (B.) Estas experiências negativas não parecem demover as pessoas que entrevistamos da utilização de LSD. São vistas como consequências de um mau uso (pela quantidade, pelo contexto pessoal/ambiental) e como potenciadoras de crescimento e desenvolvimento individual: ―És confrontado com o máximo da experiência! E esse máximo da experiência pode ser provocar-te algo, que pode variar perante a pessoa, que vai provocar depois um crescendo na tua consciência, na maneira como vês as coisas, e nem sempre isso acontece de forma suave, às vezes o sistema de que estamos a falar cria uma situação em que a pessoa que está sob o efeito, mediante o seu nível ou tipo de personalidade, pode conseguir ou não evoluir…‖ (M.). As descrições que reunimos na nossa amostra parecem ir de encontro ao que escreve Antonio Escohotado (1992) no início do capítulo “En busca de excursión psíquica”: ―El caso se parece al de Aladino y su lámpara, que bastaba frotar para hacer presente un genio todopoderoso. Ese djinn podía conceder deseos, remediar carencias y defender de enemigos; pero no toleraba ser invocado vanamente, por móviles emparentados con el aburrimiento, la hipocresía o la trivilialidad. En sus formas vegetales, los fármacos visionarios más activos han sido venerados como canales de comunicación como lo eterno y sacro por aquellos pueblos que los emplearon o emplean, evitando así que móviles banales e irreflexivos produjeran la ira del djinn y el consiguiente horror de Aladino.‖ 30 4. 2 Cogumelos 4.2.1 Consumos Os cogumelos são referidos pela totalidade dos entrevistados, porém com características diferentes do LSD. Parecem estar menos disponíveis no mercado e não serem tão procurados pelos entrevistados, que caracterizam o seu uso como menos frequente do que o LSD e circunstancial (“quando aparecem”), em ocasiões celebratórias novamente com características mais públicas (festas) ou privadas (reuniões de amigos). As idades de início raramente são referidas mas podemos dizer que, com exceção de uma pessoa, a totalidade experimentou cogumelos depois de já ter tido experiências com LSD Não são feitas distinções de espécies, apesar de terem características que podem potenciar efeitos diferentes. 4.2.2 Experiência As descrições das experiências com cogumelos foram ou inexistentes (a pessoa referia já ter usado mas depois não lhe dava relevância na descrição da experiência) ou, quando referidas, pouco aprofundadas. Como referido, nesta amostra não encontramos uso frequente deste tipo de substâncias. São destacados os aspetos visuais da experiência e maior interação com o ambiente em detrimento de uma maior introspeção característica das experiências com LSD: ―Mas foi muito mais visual e muito menos introspeção, muito mais de passar um bom bocado e ríres-te de tudo e de nada! Estava no meio do público e não sentia aquela coisa do ácido de te sentires meio perdido, nada disso… Estava tudo bem!‖ (G.) 31 4.3 DMT 4.3.1 Consumos Dos entrevistados apenas um não referiu consumos de DMT e outro referiu ainda não ter experimentado mas ter em casa ―à espera do momento ideal‖ (A.). Relatam-se duas formas: DMT em cristal, sintético, e changa, uma mistura de plantas que contém DMT e outras que têm substâncias que inibem a ação da enzima MAO, responsável pela limpeza do pico de DMT no espaço sináptico (há vários tipos de plantas com estas características que se podem usar). Esta é uma substância recente no uso pelas pessoas que formam a nossa amostra, que situam o seu início há menos de 3 anos, mesmo os que têm um longo historial de psicoatividade. ―(Ou seja, achas importante ou, de certo modo, aconselhável que a pessoa já tenha tido alguma experiência com outras substâncias antes de experimentar DMT?) Sim, acho que sim! De forma a ser mais suave para ti… Acho que o DMT é das últimas substâncias que deves experimentar… a formação, a preparação, passa um bocado pela experiência e é isso que tem de haver: essa passagem, essa formação pessoal em que decides se estás ou não preparado para qualquer coisa!‖ (M.). Há quem relate apenas uma utilização, a média situa-se nas cinco, com uma pessoa a relatar mais de dez. Não definem uma frequência de uso: ―Não há frequência, quando falo do DMT digo que é espiritual, tem que ter um motivo‖ (N.). Há no DMT outra característica distintiva das substâncias até então referidas: todos os entrevistados concordam que não é para ser usado em contexto recreativo ou em festas, remetendo o seu uso para a autoexploração em contextos tranquilos e recatados, debaixo de teto ou em contacto com a natureza. A duração do efeito é também menos longa do que nas outras substâncias psicadélicas – relatam-nos uma média de 10 minutos – porém a perda de noção temporal é uma característica do uso de DMT, com os sujeitos a relatarem que não sabiam dizer, no fim da experiência, se tinha durado minutos ou horas. 32 4.3.2 Experiência A experiência do uso de DMT é descrita como sendo muito intensa, frequentemente com experiências de sair do corpo, acompanhada de fortes alucinações visuais com padrões geométricos. Também são frequentes os relatos de perda de referências espaciais e temporais. Quanto às alucinações visuais, diz-nos J.: ―Você vê coisas sim, mas não é… não é alucinogénio, você só vê coisas que já estão ali só que você não percebe com a sua limitação sensorial normal!‖. A maioria relata-nos que estas experiências são, embora com um substrato comum, todas diferentes: “Isso do experimentar com o DMT é um bocado relativo, porque parece que cada vez é um experimentar!‖ (N.). Parece haver uma distinção do DMT, como que colocado numa categoria à parte das outras substâncias: “É mais pura do que as outras, nas outras sente-se sempre uma coisa assim… a mais! No DMT não se sente nada a mais (…)‖ (G.). “Eu não considero o DMT uma droga, porque não é uma coisa que te apeteça consumir.” (B.). “O DMT, para mim, é ―a‖ substância!” (M.). Não são referidas experiências negativas, mas parece de concordância geral que são requeridos certos cuidados no contexto de uso, como um ambiente sossegado e sem interrupções, bem como algum tipo de preparação pessoal para a experiência. Todos com quem falamos concordam que não é uma substância para ser usada em festas, pela intensidade dos seus efeitos e pela “fragilidade em que coloca o corpo” (G.). A experiência parece ser uma fonte de conhecimento e transmissora de ensinamentos. A sensação do “regresso” é-nos descrita como harmoniosa e tranquila, com sentimentos de paz: «[O voltar] foi brutal… Senti-me leve, senti-me muito calmo, extremamente calmo, calmo como raramente estive na vida… Estava tudo em paz cá dentro, o coração batia bem, estava tudo a funcionar bem... Parece que me puseram óleo nas dobradiças!» (B.). «Voltar é… voltar é… Olha, voltar é bom! Voltar é altamente… Não dá para comparar com nada… Quase todos os outros voltares têm a sua parte negativa, 39 A totalidade da amostra refere uso de MDMA, em contextos celebratórios e sem frequência definida. Um dos entrevistados relatou uma fase problemática na adolescência que resultou do uso continuado desta substância, superada com acompanhamento e medicação psiquiátrica. Desde aí, diz usar com muito pouca frequência e com alguns cuidados (doses baixas, espaçamento temporal…). Três dos entrevistados relataram uso de heroína, num caso uso de uma única vez e nos outros dois uso que teve uma fase problemática. Num dos casos o regime atual é de longa abstinência total do uso e no outro há uso cerca de uma vez por ano, numa altura específica. Em todos os casos o uso era por via inalada. Seis sujeitos referem o uso de cocaína inalada por via nasal, com regimes de frequência variáveis entre todos os fins de semana e ocasionalmente. Desses, um relatou uma fase problemática com base de cocaína fumada associada à fase problemática da heroína e ultrapassada na mesma altura. Hoje refere uso por via nasal cerca de duas vezes por mês. Os contextos de uso são muito variados e as finalidades também. Cinco dos entrevistados referem uso de anfetaminas (speed) inaladas por via nasal. Dois retratam o uso como experimental e dizem não apreciar os efeitos e, por isso, não usam. Os restantes usam com frequências variadas, de esporadicamente a todos os fins de semana, e em contextos e com finalidades também variados. Um dos entrevistados refere uso ocasional de ketamina. 4.7.2 Experiências Tal como referido anteriormente, os consumos de outras substâncias ditas nãopsicadélicas iam surgindo no enquadramento da pessoa e das suas experiências. Apesar de não ter sido um aspeto aprofundado na entrevista, e não termos aqui pretensões de formar tipologias ou outro tipo de análise comparativa, seguem-se alguns excertos da dimensão experiencial do uso de outras substâncias. Do álcool, mais do que um entrevistado referiu que não era uma substância que se misturasse bem com drogas psicadélicas. A. refere-se ao assunto nestes 40 termos: ―É do que gosto menos, para mim é das drogas mais enganadoras, no sentido de desbloquear em ti certos preconceitos que tens, ou medos, ou… E fica tudo muito sociável e fica tudo muito… Enquanto eu acho que na experiência psicadélica a pessoa revela em si certas coisas com potencial que já lá estavam, o álcool transfere muitas vezes para uma energia que não é a que a pessoa sustenta todos os dias…‖ B. fala da fase do seu envolvimento com a heroína: «Vomitei, senti-me enjoado, senti um mau estar e um bem-estar… Depois começamos a combinar uma vez por mês, ou uma vez de dois em dois meses… Tínhamos um código que era o concerto do Paco Bandeira! (O concerto do Paco Bandeira?) Sim, por causa do pacote, era o Paco! E tínhamos uma música código, que era ―Ó Elvas ó Elvas, Badajoz à vista‖!» e remata: «Bem, a nível das drogas todas, talvez a que eu aconselho as pessoas a não experimentar é mesmo a heroína, porque é uma droga que te controla física e psicologicamente… Há muita gente que só pela dor física perde toda a coragem e acha que não consegue sair dali... Eu por sorte consegui sair e não tenho medo de sofrer, mas há situações bastante complicadas… Talvez por não terem os apoios que eu tive, não terem tido uma mãe galinha como eu… » R. conta os contornos da sua experiência com ecstasy, que terminou com procura de ajuda profissional: «Eu andava em Vila Real na Escola Profissional e morava lá sozinho. E mandava na discoteca e assim. Um dia um amigo meu que tinha um irmão que era dealer, a mãe apanhou-lhe duzentas pastilhas e em vez de mandar aquilo pela sanita atirou para o lixo. O irmão mais novo era meu amigo, apanhouas e trouxe-mas, ofereceu-mas. Então durante duzentos e tal dias foi sempre a manda-las!». Ilustrando o caráter subjetivo da experiência psicotrópica, no caso do MDMA que optamos por não incluir na categoria psicadélico por a maioria da nossa amostra não se referir à substância nesses termos, não a incluindo nos seus relatos de experiências de tipo psicadélico, transcrevemos o relato de J.: «O MD, que as pessoas usam pra ir numa festa ou isso, minha filha mesmo usava em casa ou isso, e a primeira vez eu já tive uma experiência fora do comum, fora do normal… Não era só aquela alegria e aquele amor que eles estavam sentindo, não, foi 41 outra situação! Eu fui teletransportada ou sei lá o que foi, para um mundo paralelo, sabe, você vê outro mundo, você vê outras… outras de você mesmo! (…) Chegava a juntar um grupo de amigos e usar, porque eu queria que eles soubessem, sabe, queria que eles tivessem a mesma experiência que eu… Mas isso nunca aconteceu com ninguém, nem aquela experiência se repetiu para mim! Mas eu falava ―Vamos fazer a terapia das drogas‖, mais ou menos todos os 15 dias eu descia pra Lisboa, ia ter com uns amigos e tomávamos MD. Cada um tinha a sua vivência, a sua experiência…» 4.8 A Experiência Psicadélica Um substrato comum nas referências à experiência psicadélica é que ela é transformadora, embora essa transformação adquira diferentes contornos em cada caso, reforçando uma vez mais a subjetividade e a complexidade da relação que cada um constrói com as substâncias que escolhe usar. Aqui, as descrições da experiência psicadélica referem-se sempre à induzida pela toma de substâncias, reforçando que há outros tipos de experiências psicadélicas induzidas por outras atividades. A experiência psicadélica é referida como uma facilitadora de espiritualidade, útil na capacidade de perspetivar uma questão de novas formas, estabelecer novas ligações entre conceitos ou ideias. Tem assim impacto na criatividade, mas também nas relações consigo próprio e com os outros, sendo frequentes as atribuições à experiência psicadélica de características mais positivas na pessoa. A maioria dos entrevistados referiu não ser a mesma pessoa depois de uma experiência psicadélica – falam de aprendizagem, exploração da consciência, evolução, novas perspetivas e dissolução do ego. Quando questionamos que características atribuem ao ego que querem dissolver falam-nos em comparação com os outros, necessidade de ser superior, elevada exigência consigo e com os outros. É comum ainda a referência a experiências de tipo místico. 42 «[Procuro] mas não é aquele deus que está lá em cima, sabe? É aquele deus que está aqui, é o auto conhecimento, que de certa maneira desperta quando tomo alguma substância psicodélica, aí desperta esse deus e eu fico plena. Ao mesmo tempo, quando o efeito passa aí sim, eu penso que não quero estar só aqui, eu quero estar o tempo todo naquela vibração, sentir aquilo… Eu sei que é possível sem mesmo ter usado, sabe? (…) A minha filha, passados uns dois meses, me disse ―Mãe, você parece outra pessoa!‖ e eu falei ―Com certeza sou outra pessoa!‖. Agradeço às drogas psicodélicas porque foram elas que o fizeram, certo que com ajuda, que é preciso já ter uma certa predisposição…» (J.) «É uma coisa que aprendes com os psicadélicos, que deus não é um velhinho de barbas brancas que está em cima da nuvem a julgar as pessoas. Deus somos nós, quem nos perdoa a nós somos nós próprios nas nossas conversas connosco e por isso nós somos deus. (Consideras que têm impacto no teu dia a dia estas experiências?) Sim, sem dúvida… Como te disse foram uma muleta para a espiritualidade, para a mudança, só assim cheguei lá, se não acho que ainda andava a ver novelas e a Casa dos Segredos e a ser da claque do F.C.P., esse tipo de coisas…» (B.) «E acho que os psicadélicos têm uma grande importância nisto tudo… Principalmente com uma educação religiosa como eu tive, quando tive oportunidade de experimentar psicadélicos eles abriram-me uma porta para conseguir explorar condignamente e respeitar coisas que não respeitava até à altura… Acho que conseguiram fazer uma versão melhor de mim! (…) O estado em que tu ficas é o estado em que eu gostava de viver no meu dia-a-dia… Ficas… Quando estás nesse estado estás num dos teus expoentes como ser humano, abriste o teu terceiro olho, passas a ter uma perceção diferente das coisas à tua volta! Apos analisar a minha experiência depois destes anos todos acho que foi o que aconteceu! É difícil permanecer nesse estado, o estado de felicidade completa, o estado de conexão total e sem cortes com deus, a sensação de conforto… Esse estado – sei que há maiores do que esses – mas esse para mim é o estado que ambiciono enquanto ser humano! E sim, os psicadélicos deram muita ajuda nisso, sim, fizeram de mim uma pessoa diferente!» (M.) 43 «Acho que estas experiências são fundamentais na pessoa que eu sou, não posso falar pelos outros, mas eu não sou a mesma pessoa depois de cada experiência que tenho! Posso contar pelos dedos as vezes que não foi nada de interessante, de todas as outras vezes houve evolução, houve abertura, houve expansão… Clarificação de quem sou, do que quero… Lá está, é expansivo, ou melhor, mais do que tudo, é clareza! Não te vai criar situações que não estejam lá dentro para serem descobertas e desenvolvidas, por isso é que acho que abre portas, estás constantemente a abrir portas!» (A.) «A experiência psicadélica faz-te ver as coisas de outra maneira. Começas a ver a vida de outra forma, começas a pensar coisas que nunca pensaste antes, começas a ter mais consciência de ti…. Há gente que não, mas a maior parte das pessoas tem isso. (Contigo foi assim?) Sim, a seguir ao primeiro ácido, no dia seguinte já não era o mesmo, e tenho essa noção. (O que achas que mudou em ti?) A nível de consciência foi brutal. A nível da espiritualidade foi uma muleta para iniciar o contacto com a espiritualidade. Foi a minha religião, praticamente! (risos) Hum, sei lá, mudou muita coisa!» (B.) São também referidos aspetos menos positivos da experiência psicadélica. É-nos dito que tem dois polos, o muito positivo e o muito intenso, gerador de ansiedade e medos. No entanto, é atribuído um potencial positivo e de crescimento pessoal à resolução bem-sucedida de experiências difíceis: ―O caos tem uma parte boa: aprendes a organizar-te!‖ (B.). Quando abordamos a questão da experiência ser recomendável a toda a gente ou não, os comentários que obtivemos foram de dois tipos: os que diziam que, exceto para as pessoas com certos tipos de patologias (esquizofrenias, psicoses, etc.), a experiência encerrava um potencial de crescimento pessoal e coletivo e, por isso, toda a gente beneficiaria com a experiência do uso de psicadélicos; e as que nos diziam que havia pessoas às quais não recomendariam a experiência, por terem determinadas características de personalidade (que nem sempre souberam precisar, mas que variavam de a pessoa estar aberta à experiência a traços ditos mais obsessivos de personalidade). Num ponto houve concordância: para uma experiência psicadélica bem-sucedida é fundamental que a pessoa procure a experiência voluntariamente, demonstre abertura à experiência e não é aconselhável que tenha uma atitude de medo ou desconforto. 44 «(O que dirias a alguém que estivesse a pensar experimentar este tipo de substâncias?) Tudo depende desse alguém… Tudo depende da pessoa, porque eu acho que há pessoas que não têm personalidade para isso... Agora dentro do campo das pessoas que eu acho que podem experimentar, o que é que eu diria? Diverte-te! (…) Acho que é mesmo para isso, para te divertires! Porque tu, se caçares a experiência mesmo, é… Imagina tu agarrares agora num balãozinho e começares a subir. Não sintas o medo ―Ei, que alto‖, se não, não vais sentir a experiência do subir! Estás a ver, a moca é igual! Se vais experienciar a moca e ao mesmo tempo ―Ei, agora estou assim, agora estou assado, e está tudo a olhar para mim e não sei o quê‖, torna-se chato e só queres é que a moca passe! Mas se tu abraçares a experiência e souberes estar nela, ó pá, divertes-te mesmo! E era isso que eu diria: diverte-te!» (C.) «Acho que é uma experiência muito importante e realmente ninguém deveria… não por um sentido de obrigação, não é a pessoa terá de ser obrigada a usar antes de ir para a cova, não, mas sem dúvida se não o fizer estará a perder uma experiência importante, uma porta para crescer!» (G.) «Em relação à experiência psicadélica, não acho que todos a tenham de ter! Acho que cada um deve escolher o seu percurso e que há gente que não tem… Não tem… Que não faz parte do caminho de toda a gente! Abre demasiadas portas que, se a pessoa não estiver com essa perceção, se calhar não interessa…» (A.) «… Acabam por ser duas experiências que… Se não usufruíres delas são situações que até acabam por te fazer alguma falta ao teu desenvolvimento enquanto ser humano! (Achas que a experiência psicadélica faz falta ao teu desenvolvimento enquanto ser humano?) Sim. (Em que sentidos?) Desenvolvimento pessoal, relações e interações interpessoais – como é que te conectas com as outras pessoas, como é que elas se vêm a elas próprias, como tu te vês a ti…»(K.) «(Achas que seria para toda a gente?) Já vi em outras pessoas e os efeitos não são iguais – nós também não somos todos iguais. A nível de consciência as pessoas não são todas iguais… Nem toda a gente está aberta, tem essa abertura!» (B.) 45 No que concerne à característica alucinogénia deste tipo de substâncias, é referida nos relatos, no entanto não encerra a totalidade da experiência psicadélica: «Há muitas pessoas que quando tomam alguma substância psicadélica pensam que tudo o que estão a sentir é somente uma alucinação (…) e depois quando acaba as pessoas dizem que aquilo é uma alucinação ―Ah, que alucinei, que estava vendo tal coisa‖ e eu não acredito que seja só uma alucinação… Claro que tem coisas que são, eu já alucinei sim, mas já começo a discernir ―ah, estou a alucinar‖, depois eu olho e não tem mais… Então existe sim a parte alucinógena, só que não é só!» (J.) 4.9 Experiência ideal Quando pedíamos às pessoas que entrevistamos que projetassem a sua experiencia ideal o substrato comum nas respostas remete-nos para um ambiente seguro e confortável, com amigos ou pessoas de confiança e sem compromissos importantes no próximo dia. A partir daí, temos dois tipos de respostas, que podem estar relacionadas com aquilo que a pessoa perceciona como sendo conforto e segurança: a experiência ideal como sendo em casa ou na natureza, mas sem contacto ou interrupções de terceiros; ou a experiência ideal como sendo num festival de música eletrónica de vários dias, no verão, em que há contacto com a natureza, musica e sensação de liberdade. É referido o contacto com a natureza como amplificador da experiência mas, em alguns casos, a pessoa prescinde do contacto com a natureza em detrimento de um ambiente mais caseiro se este não puder ser feito em condições de alguma privacidade e/ou não for percecionado pela pessoa como um ambiente seguro. «Ou seja, num contexto ideal seria um festival, em que são vários dias e em que ando à vontade: deito-me quando me apetece, ando descalça, acima de tudo estou no meio da natureza e eu sempre associei a experiência psicadélica à natureza, não que não o faça noutros contextos, já o fiz, mas natureza é o macro a todos os níveis, os olhos, a pele, todos os sentidos ficam extremamente 46 apurados, e se estás na natureza tens uma parafernália de sensações e de emoções que podes tirar partido, que num sítio fechado são mais limitadas… Por isso, porque sabes que não tens de levar com frequências que não te interessam, não tens de vir para a rua a seguir, não tens um teto… Se estás no meio da natureza está tudo bem e não tens que ir para lado nenhum a seguir!» (A.) De referir que, exceto num caso, quando questionados sobre a experiência ideal, os sujeitos remetiam a resposta para fatores contextuais e não referiam a substância que elegeriam. A importância é priorizada para o local e a companhia, a substância usada parece secundária face a estes fatores na definição da experiência. 4.10 Perceção do risco Na entrevista procuramos perceber se haveria algum risco percecionado como sendo inerente ao uso de substâncias psicadélicas. Das respostas obtidas entendemos que o risco percecionado tem a ver com associações a questões de dosagem, pureza das substâncias e contexto de uso. Controladas estas questões, para a maioria dos sujeitos com quem falamos, o risco é quase inexistente. É referida também a questão da preparação da pessoa para este tipo de experiências (a pessoa ver/sentir coisas para as quais não está preparada). Uma pessoa referiu o risco acrescido em pessoas com patologias mentais como psicoses. É comum a referência à falta de informação séria e pragmática que permita experiências informadas de prazeres e riscos. Todos reconhecem algum tipo de risco inerente à experiência, mas consideram que a experiência vale o risco, e que este é passível de ser reduzido controlados alguns fatores. «(Achas que há algum risco?)Sim, claro que há risco. Eu posso ter tido muita sorte ou se calhar vai ser assim sempre, têm-me corrido bem as experiências, mas acho que o cérebro é uma coisa complexa para se garantir sempre que é 47 uma boa ideia ou uma má ideia. Pode sempre acontecer os chamados sustos… Mas assim riscos, acho que tal como um gajo decide fumar tabaco ou andar de carro, tudo tem riscos. Antes de fazer tens que os medir e decidir se estás disposto a tomar esse risco ou não. Se calhar as pessoas olham para um carro e é uma coisa mais banal, do dia-a-dia, não levam tão a sério… Acho que tem a ver com o estigma cultural também, não há educação credível!» (G.) «(Achas que há algum risco na experiencia que deva ser considerado antes de o fazer?) Acho que há o risco da dose… Se for em excesso pode ter consequências... Se tomar demasiado álcool também posso vomitar e fica resolvido, como posso andar à pancada, como posso pegar no carro e fazer a maior porcaria da minha vida… não é? Agora é diferente porque não é uma coisa tão debatida nem tão explicada – já sabes que se beberes demais ficas bêbado e o que pode acontecer, há uma consciência de consumo! A ignorância pode ser perigosa!» (A.) «(Tu sabes que pode ser perigoso, e já tiveste más experiencias, e continuas a usar este tipo de substâncias. Como lidas com isso?) Com moderação, muita moderação… Antes era à Jim Morrison e hoje é devagarinho! Lidar com o perigo também é uma coisa que pertence à evolução, tu perderes os teus medos… O perigo gera medo, e é uma forma de perderes os teus medos, para obteres uma coisa, um conhecimento, que vais gostar!» (B.) 4.11 Estratégias espontâneas de redução de riscos Chamamos estratégias espontâneas de redução de riscos às ações que as pessoas utilizadoras desenvolvem, por iniciativa própria, para diminuir a probabilidade de ocorrência de consequências negativas associadas ao uso de substâncias psicadélicas. Parece haver concordância na maioria dos aspetos, nomeadamente a importância de assegurar, dentro do possível, a qualidade do produto (comprar a uma pessoa 48 de confiança), utilizar a substância num ambiente que a pessoa percecione como seguro e confortável e com amigos ou pessoas de confiança. Foi também referido várias vezes o cuidado necessário na mistura com bebidas alcoólicas, bem como o respeito pelas doses (começar com uma dose pequena e ir regulando a partir daí) e o respeito pelo corpo e pelos seus tempos de descanso (não ter compromissos importantes no dia ou nos dois dias a seguir). «A maior parte das pessoas às vezes não tem uma boa experiência mais derivado a não ser a substância certa, na dose certa, com as pessoas certas, no momento certo. Podes estar com pessoas que não têm conhecimentos da substancia e não te saibam ajudar a passar aquele momento, podes não estar a fazer a dosagem certa por desconhecimento, podes não encontrar substâncias com o nível de pureza necessário para o que queres ter como experiência e que te pode proporcionar malefícios para ti e para o teu corpo e a tua mente… E isso acaba por determinar mais às vezes as pessoas ganharem medo ou terem uma má perceção da experiência…» (K.) Na eventualidade de uma má experiência ou de sentimentos desagradáveis, ressalvam a importância de falar com amigos e lembrar-se que ingeriu uma substância e que está a ter uma experiência psicadélica: «Há uma coisa, Joana, que eu aprendi com essas minhas experiências… Há um pensamento que eu nunca esqueço, que é ―Eu estou numa moca‖. Nunca esqueço isso… Quando me sinto confuso o que faço é abstrair-me um bocado e penso isso e fico outra vez fixe. Porque estou consciente, não deixo de estar consciente… (…) Mas lá está, daquilo que já experienciei, e já tive maus resultados numa fase inicial, devido ao desconhecimento de saber lidar com a experiência e de saber lidar comigo próprio. Acho que é fundamental a própria pessoa saber lidar com ela e o que lhe está a acontecer. Isso tudo em sincronia acho que saem boas experiências…» (C.) «Se você estiver passando por qualquer situação, ou que você tenha qualquer medo… Se isso mexer muito consigo que você possa desabafar e essa pessoa consiga tirar você dessa viagem, amparar de algum modo, dizer ―pensa noutra coisa‖, porque há medos que é só tipo oferecer uma maçã, fazer qualquer coisa que mude o foco da atenção, porque se você estiver fixada tipo ―eu não estou 55 Bibliografia Albaugh, B.J. & Anderson, P.O. (1974). Peyote in the treatment of alcoholism among American Indians. American Journal of Psychiatry, 131: 1247-1250. Alper, J.R. & Lotsof, H.S. (2007). The use of ibogaine in the treatment of addictions. In: Winkelman, M.J. & Roberts, T.B. (orgs.). Psychedelic Medicine: new evidence for hallucinogenic substances as treatments, vol 2. Westport: Praeger,. pp. 43-66. Alper, J.R.; Lotsof, H.S. & Kaplan, C.D. (2008). The ibogaine Medical Subculture. Journal of Ethnopharmacology, 115 (1): 9-24. AMATUZZI, M. M. 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Idade/ Género/ Ocupação/ Escolaridade /Família de origem: escolaridade e ocupação/ Distribuição geográfica. Excertos semiprojetivos: positivo, negativo e ambíguo. Reportório Psicoativo. Substâncias Psicadélicas (quais, primeiras experiências, número aproximado de experiências, contextos, rituais, expetativas, gestão). Experiência de cada substância referida. Experiência Psicadélica. Impacto no quotidiano e impacto na pessoa. Perceção do risco/Estratégias espontâneas de redução de riscos. Conselhos aos iniciantes. Experiência ideal. Terminar com: “O que gostavas de dizer que eu não tivesse perguntado ou que não tenhamos falado?” 61 Anexo 2: Excertos Semiprojetivos 1. “Acho que ir para a cova sem nunca ter tido uma experiência psicadélica é como ir para a cova sem nunca ter tido sexo.” – Terence McKenna [excerto semiprojetivo positivo] 2. “Comecei a ficar assustado, será que vou ficar sempre assim? Será que não volto a mim tal como me conheço? Estava tão terrificado que me deitei à espera que passasse – piorou. Lembrei-me que não estava a respirar; como é que me posso esquecer de respirar?! Sentei-me, e de repente toda a gente ali presente parecia estar a reparar em mim.” Maria Pomar [excerto semiprojetivo negativo] 3. "Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o autêntico perigo, quero a liberdade, quero a bondade, quero o pecado." - Aldous Huxley [excerto semiprojetivo ambíguo] 62 Anexo 3: Grelha de Análise de Conteúdo Categorias Subcategorias Ficha do ator Consumos LSD Cogumelos DMT Ayahuasca Mescalina Salvia Não psicadélicas Experiência LSD Cogumelos DMT Ayahuasca Mescalina Salvia Não psicadélicas Genérica Experiência ideal Estratégias espontâneas de redução de riscos Perceção do risco 63 Descrição das categorias e indicadores Ficha do ator: Nesta categoria reúnem-se todos os elementos que permitam construir um retrato da pessoa entrevistada. Os dados sociodemográficos constituem os elementos principais da caracterização do ator. Consumos: Nesta categoria reúne-se a informação relativa ao modo de utilização das drogas: que drogas se consomem ou consumiram, com que frequência, em que contextos, com que modos de ingestão, com que tipos de consumo. Reúnem-se ainda elementos que se relacionam com problemas de qualquer ordem associados ao consumo ou à substância e estratégias de gestão implementadas. Aqui incluem-se tantas subcategorias quanto as drogas referidas. Experiência: Nesta categoria incluem-se todos os elementos que remetem para a subjetivação do consumo: o modo como este origina a construção de um estar na droga, dum modo de relação pessoal com ela. Incluem-se as dimensões cognitiva e afetiva/vivencial. Para além das experiências com diferentes substâncias, que formam as várias subcategorias, há a inclusão da subcategoria “Genérica” para a qual se remetem as afirmações relativas à experiência psicadélica no abstrato, sem especificação de substância. Na subcategoria “Experiência ideal” incluem-se as afirmações que dizem respeito à projeção do ideal de experiência para os entrevistados. A subcategoria “Perceção do risco” engloba afirmações relativas à conceção e ao entendimento dos riscos associados ao uso deste tipo de substâncias. A subcategoria “Estratégias espontâneas de redução de riscos” engloba afirmações referentes a estratégias emergentes de redução de riscos e minimização de danos levadas a cabo pelos utilizadores nas suas práticas de uso.