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Dr. en Ed. Alfredo Barrera Baca Rector M. en E. U. y R. Marco Antonio Luna Pichardo Secretario de Docencia Dr. en C. I. Amb. Carlos Eduardo Barrera Díaz Secretario de Investigación y Estudios Avanzados M. en C. Jannet S. Valero Vilchis Secretaria de Rectoría Dr. en A. José Edgar Miranda Ortiz Secretario de Difusión Cultural Dra. en Ed. Sandra Chávez Marín Secretaria de Extensión y Vinculación M. en E. Javier González Martínez Secretario de Finanzas M. en Dis. Juan Miguel Reyes Viurquez Secretario de Administración Dr. en C. C. José Raymundo Marcial Romero Secretario de Planeación y Desarrollo Institucional M. en L. A. María del Pilar Ampudia García Secretaria de Cooperación Internacional Dra. en Dis. Monica Marina Mondragón Ixtlahuac Secretaria de Cultura Física y Deporte Dr. en C. S. Luis Raúl Ortiz Ramírez Abogado General M. en R. I. Jorge Bernaldez García Secretario Técnico de la Rectoría M. en P. y D. C. Gastón Pedraza Muñoz Director General de Comunicación Universitaria M. en A. P. Guadalupe Ofelia Santamaría González Directora General de Centros Universitarios y Unidades Académicas Profesionales M. en D. F. Jorge Rogelio Zenteno Domínguez Encargado del Despacho de la Contraloría Universitaria
Desafíos de la ordenación territorial, planeación integral y gobernanza en Iberoamérica en el siglo XXI
Dirección de Publicaciones Universitarias Editorial de la Universidad Autónoma del Estado de México Dr. en Ed. Alfredo Barrera Baca Rector Dr. en A. José Edgar Miranda Ortiz Secretario de Difusión Cultural Dr. en A. Jorge E. Robles Alvarez Director de Publicaciones Universitarias Facultad de Geografía Dr. en Geog. Rodrigo Huitrón Rodríguez Director Mtro. en Geog. Juan Carlos Garatachía Ramírez Subdirector Académico Lic. Alfredo Ochoa Mora Subdirector Administrativo Facultad de Planeación Urbana y Regional L. en Pl. T. Benigno González García Encargado del Despacho de la Dirección Mtro. en E. U. y R. Isidro Rogel Fajardo Subdirector Académico Mtro. en D. M. Sergio Rivera Morales Subdirector Administrativo
“2020, Año del 25 Aniversario de los Estudios de Doctorado en la uaem” DESAFÍOS DE LA ORDENACIÓN TERRITORIAL, PLANEACIÓN INTEGRAL Y GOBERNANZA EN IBEROAMÉRICA EN EL SIGLO XXI Marcela Virginia Santana Juárez Francisco Zepeda Mondragón Rosa María Sánchez Nájera Juan Roberto Calderón Maya Coordinadores
Este libro fue positivamente dictaminado con el aval de dos revisores externos, conforme al Reglamento de la Función Editorial de la uaem. Primera edición, junio 2020 Desafíos de la ordenación territorial, planeación integral y gobernanza en Iberoamérica en el siglo XXI Marcela Virginia Santana Juárez Francisco Zepeda Mondragón Rosa María Sánchez Nájera Juan Roberto Calderón Maya Coordinadores Universidad Autónoma del Estado de México Av. Instituto Literario 100 Ote. Toluca, Estado de México C.P. 50000 Tel: (52) 722 277 38 35 y 36 http://www.uaemex.mx Esta obra está sujeta a una licencia Creative Commons Atribución-No Comercial-Sin Derivadas 4.0 Internacional. Los usuarios pueden descargar esta publicación y compartirla con otros, pero no están autorizados a modificar su contenido de ninguna manera ni a utilizarlo para fines comerciales. Disponible para su descarga en acceso abierto en: http://ri.uaemex.mx isbn: en trámite Hecho en México Editor responsable: Jorge E. Robles Alvarez
135 Desafíos de la ordenación territorial, planeación integral y gobernanza en Iberoamérica en el siglo XXI Planear e ordenar o território com perspetiva de género: uma oportunidade para consagrar espaço à sombra? Margarida Queirós [email protected] Universidade de Lisboa INTRODUÇÃO Em 1992, Sandercock e Forsyth afirmavam que as mulheres enfrentam problemas tão importantes nas cidades e na sociedade que as relações de género não podem continuar a ser ignoradas na teoria e prática do planeamento. Afirmam as autoras que o estatuto económico das mulheres, a sua mobilidade e acessibilidade no ambiente construído, as relações entre a produção capitalista e as relações patriarcais e entre a vida pública e doméstica, como apreendem o mundo e onde se sentem mais confortáveis ou vulneráveis, são assuntos que a teoria e a prática do planeamento não discutiu suficientemente. É a partir desta visão crítica que esta reflexão procura demonstrar como o planeamento urbano e o ordenamento do território são atividades profundamente marcadas pela presença e pensamento masculino, revelando como as mulheres têm sido silenciadas e ignoradas nestes domínios, e que aspetos da teoria feminista acrescentam conhecimento-ação no planeamento. A perspetiva com que abordo o tema é, portanto, feminista. Partilho das ideias de Domosh (1991) e Rose (1995) sobre o facto de ser inegável o processo que sistematicamente oblitera a presença das mulheres na geografia, no urbanismo e na arquitetura, implicando a desconstrução da história do planeamento e a sua aparente neutralidade e universalidade. A tarefa não é fácil, decerto pela invisibilidade com que a história escrita e inscrita na paisagem, tratou as mulheres segundo valores e conceitos que as excluíram. Trata-se aqui de uma crítica ao planeamento urbano e ao ordenamento do território que tem veiculado a “neutralidade dos indivíduos”, negligenciando as distinções que derivam do facto, por exemplo, de se ser (ou parecer) homem ou mulher. Assumo, pois, que as mulheres são produtoras da cidade e do território (Baylina et al, 2019), mas não em igualdade de condições. Este não é um assunto novo,
136 Desafíos de la ordenación territorial, planeación integral y gobernanza en Iberoamérica en el siglo XXI já que na Grécia antiga, Aristóteles, definia as ‘virtudes’ de acordo com conceitos que pertenciam exclusivamente ao mundo masculino, colocando as mulheres em posição de inferioridade (Muxí Martínez, 2018). Presume-se, desde então, uma ordem intelectual masculina no que se considerou ser a natureza caótica feminina (Buckingham-Hatfield, 2000). Foram, portanto, os valores e as experiências dos homens, através do sistema patriarcal, que estabeleceram o que é bom, racional e notável. Metade da humanidade ficou excluída da possibilidade de demonstrar outros valores, experiências e saberes. E esta exclusão contempla ainda todas as pessoas não brancas, pobres e sem poder. Parece assim pertinente refletir sobre a necessidade de construir um novo discurso, inclusivo e diverso, onde outras visões, valores e conceitos tenham lugar na história do planeamento, que não os exclusivamente resultantes do sistema patriarcal. Trata-se de questionar o que foi tido como irrefutável e de lhe acrescentar o que sempre lá esteve, mas não se viu ou se ignorou, ou seja, as outras experiências e linhas de pensamento –juntar à “luz as sombras”. É que, como afirmou o botânico e poeta, Adelbert von Chamisso, “a sombra não ocupa espaço” e esse foi o destino das mulheres, o de não ocupar espaço, nem no que se tem escrito sobre o planeamento e os seus rostos mais relevantes, nem na sua expressão prática, isto é, na cidade e no território. Importa, pois, preservar a presença das mulheres na produção do espaço, mesmo desligada dos corpos que o projetaram. Nesta perspetiva, e explorando a interrogação de Rivera Garreta (2003), que parte do pensamento e da ação na construção espacial, cabe às mulheres, ou mais propriamente ao feminino, isto é, aos papéis que lhes são atribuídos de acordo com o contexto dominante patriarcal e hierarquizado? Será possível pensar fora deste sistema e dar lugar a tanto que ficou fora das representações do espaço? Quer isto dizer, na ótica de Lefebvre (1991), que o espaço concebido (aquele que se refere às representações do espaço, abstrato e codificado), como o espaço público, as cidades, se edificou sob o domínio do género masculino, controlado pelos planeadores? Com efeito, os principais instrumentos do planeamento, os planos, surgem historicamente associados ao nome de homens. Por exemplo, o Plano da
137 Desafíos de la ordenación territorial, planeación integral y gobernanza en Iberoamérica en el siglo XXI Grande Londres (a primeira megacidade na Europa), publicado há mais de 70 anos, continha a maioria dos principais desenvolvimentos físicos da capital. Novas cidades, os aeroportos e o cinturão verde da zona rural protegida que circunda a cidade, foram estabelecidos por Patrick Abercrombie. Outros nomes conhecidos atestam esta constatação: Georges-Eugène Haussmann demoliu as habitações decadentes medievais superpovoadas de Paris e substituiu-as por amplas avenidas largas. Daniel Burnham imaginou Chicago através de um transporte de massa em grande escala, incluindo um sistema de rodovias e melhorias no sistema ferroviário, um anel externo de parques, um padrão sistémico de ruas e um centro cívico de instituições governamentais e culturais. Frank Loyd Wright, Ludwig Van der Rohe, Oscar Niemeyer, Antoni Gaudí, e assim por diante (exceções como Zaha Hadid são poucas). Nos manuais de urbanismo, planeamento e ordenamento do território (onde abundam os autores masculinos e seus contributos) são escassas as vezes em que se assinala o papel das mulheres na produção do espaço e no desenvolvimento da sociedade. Como pergunta tão assertivamente Muxí Martinez (2018:25), porque custa tanto encontrar uma rua ou uma praça comemorativa atribuída a uma mulher, que não tenha sido rainha ou santa? Portanto as respostas às questões acima colocadas são afirmativas e, como tal, é indispensável assumir que os papéis e as relações de género são uma construção social e cultural do mundo ocidental que atribui características específicas, define espaços e prioriza os sexos de forma distinta. Por conseguinte, de modo a que os conceitos aqui usados fiquem claros, o ‘sexo biológico’ resulta da classificação das pessoas como homem, mulher – ou intersexual –, com base na genitália enquanto os ‘papéis de género’ decorrem de condutas ou comportamentos atribuídos aos géneros masculino e feminino, isto é, como a sociedade espera que os homens e mulheres se comportem, nas esferas pública e privada. No mundo ocidental, proveniente da construção dos papéis de género, o espaço privado, interior, quotidiano, tem historicamente sido secundarizado e planeado em relação ao espaço público, exterior, primordial e absoluto. O primeiro é por excelência uma atribuição (por ‘essência’) da mulher, e por isso se associa a
144 Desafíos de la ordenación territorial, planeación integral y gobernanza en Iberoamérica en el siglo XXI transporte coletivo é a forma mais comum de transporte para mulheres em grande parte do mundo. As mulheres tendem a usar os transportes públicos e fazem viagens mais curtas, com múltiplas paragens e variados propósitos e tempos (Queirós e Marques da Costa, 2012; Queirós et al., 2016; Queirós et al., 2019a). E em alguns países, devido a tradições culturais ou religiosas, as mulheres são impedidas de usar o transporte público ou bicicletas, restringindo a sua mobilidade. Os equipamentos para o cuidado com as crianças raramente se encontram nas proximidades dos centros de emprego. Quando aqueles estão indisponíveis, as mulheres são severamente limitadas pela difícil decisão entre adiar (ou não) ter filhos e pagar por creches, com salários ou tempos perdidos. Igualmente, o transporte publico está programado para trajetos racionais casatrabalho, em vez de se estruturar com base nos percursos (aparentemente) erráticos das mulheres, responsáveis pelas tarefas domésticas e pelo trabalho remunerado (Sandercock e Forsyth, 1992). Estas reflexões colocadas pela teoria feminista mostram o impacto destas disfuncionalidades na sociedade, contudo as teorias económicas as ignoraram apesar do seu impacto na vida das cidades (Markusen, 1980). O desenvolvimento urbano e territorial envolve a criação de lugares e espaços para oportunidades de emprego. Planear o território, a cidade, não significa apenas regular os usos do solo, mas também criar condições para o desenvolvimento territorial, procurando integrar o emprego com os transportes, o lazer e a habitação. O estatuto no emprego de homens e mulheres varia muito, sendo que as mulheres são ganham menos do que os homens para fazer o mesmo tipo de trabalho e ainda são menos propensas a ter uma renda regular ou uma posição assalariada fixa. As mulheres estão sub-representadas em áreas como a governança do setor público e as profissões afins do ambiente construído, como o planeamento urbano e o ordenamento do território. Em geral, as mulheres são menos ativas economicamente no emprego formal do que os homens. Nos países desenvolvidos, cerca de 60% das mulheres combinam o emprego com as responsabilidades familiares. Mas em países em
145 Desafíos de la ordenación territorial, planeación integral y gobernanza en Iberoamérica en el siglo XXI desenvolvimento, as razões para as mulheres ficarem fora do mercado de trabalho estão relacionadas com valores socioculturais, baixa escolaridade, ou a necessidade de desempenhar papéis de cuidado dentro do lar. No mercado de trabalho, registam-se desigualdades de género em relação às condições salariais e de trabalho, e isso tem implicações para a capacidade de acesso das mulheres à habitação, transporte e lazer e recreação. Se os custos em deslocações casa-trabalho se situam acima de 20% do rendimento familiar, são as mulheres que ficam mais restringidas na sua mobilidade, tendo menos oportunidade em se manter no mercado de trabalho, como é o caso da Cidade do México, onde as famílias gastam 25% dos rendimentos diários em transportes (UN-Habitat, 2012). Diversas análises dos dados globais do emprego mostram sistematicamente que as mulheres têm mais probabilidade do que os homens de encontrar emprego no sector informal estando, portanto, em situações de emprego vulneráveis (UNHabitat, 2012). As mulheres no setor informal são, com frequência, trabalhadoras domiciliares autónomas, comerciantes ambulantes, catadoras de resíduos recicláveis, etc. O emprego informal representa um grande número de riscos para mulheres e crianças nos países em desenvolvimento. Nos países do Caribe e na Índia, mulheres vendedoras de rua são regularmente assediadas pela polícia que questionam seu estatuto legal. Diferenças de género também ocorrem nas esferas no trabalho remunerado e não remunerado – as mulheres são mais propensas do que os homens a atuar como as principais cuidadoras de crianças e idosos, doentes ou membros deficientes da família, bem como assumir a maioria das obrigações domésticas (Queirós et al., 2019a). Em 1980, Dolores Hayden perguntava What Would a Nonsexist City Be Like? e produziu das visões mais amplas sobre a prática feminista no planeamento. Hayden, ao refletir sobre a entrada maciça das mulheres no mercado de trabalho, critica o dogma do urbanismo nos EUA que atribui a casa ao “lugar da mulher”. Desaprova ainda a distinção entre cidade e subúrbios e o sistema de crédito para habitação que privilegia os homens (brancos) em detrimento de mulheres e minorias. Questiona ainda como uma casa convencional pode servir
146 Desafíos de la ordenación territorial, planeación integral y gobernanza en Iberoamérica en el siglo XXI os interesses e aspirações das mulheres empregadas e as suas famílias, com o seu habitual conjunto de espaços privados que solicitam que alguém cozinhe, lave a roupa, limpe, tome conta das crianças, etc. Critica também as políticas de habitação americanas, entre outras, no que respeita às práticas de zonamento das áreas residenciais que não têm em conta que muitas mulheres não possuem carro, nem estão apetrechadas de serviços que as apoiem, mostrando que as mulheres não poderão melhorar o seu estatuto em casa por causa da sua posição económica frágil e não podem melhorar o seu estatuto no trabalho pago, se as suas práticas domésticas não forem alteradas. Em alguns países observam-se iniciativas para abordar estas questões, como é o caso de Cuba, cujo Código da Família, de 1974, exige que os homens participem nos cuidados das crianças e domésticos. O princípio é bom, os resultados desconhecem-se, não retirando o peso da domesticidade sobre as mulheres, apenas sugere a negociação entre os membros da família na sua aplicação. Uma das experiências que Hayden (1980) relata, é a das “casas de serviço” ou “casas coletivas” que apoiam as mulheres trabalhadoras e as suas famílias, sugerindo a necessidade de repensar o desenho das áreas habitacionais, todavia as soluções encontradas não desafiam os homens a trabalhar na esfera doméstica. Outros projetos louváveis existiram, muitos deles da iniciativa de feministas, mas falharam em reconhecer que o problema que procuravam resolver colocava maior peso sobre outras mulheres com menos poder económico. Assim, no entender da referida autora, o que as mulheres devem reivindicar são serviços comunitários/de proximidade para apoio à vida familiar e o reforço da sua independência económica para maximizar as suas escolhas pessoais e familiares. Do que se trata é da luta conta os estereótipos de género e discriminação salarial. Estas questões relacionadas com a conciliação têm uma dimensão espacial e, enquanto tal, devem ser consideradas na localização das infraestruturas, na prestação de serviços, nas ofertas de emprego e de residência, e o desenho das cidades deve articular-se com os contextos de vida local. Como as mulheres se encontram pouco representadas nas profissões relacionadas, e como ainda têm menos oportunidades em participar na construção das cidades e territórios, estes
147 Desafíos de la ordenación territorial, planeación integral y gobernanza en Iberoamérica en el siglo XXI assuntos são menorizados. Não esquecendo que o universo das mulheres é em si muito diverso: mães solteiras, esposas agredidas, trabalhadoras migrantes, mulheres brancas ricas, mulheres negras pobres, mulheres idosas, mulheres ciganas, entre tantas outras. Apesar destas diferenças, transversal a todas, é o facto de serem mulheres, e de continuarem a ser as maiores responsáveis pelo trabalho de cuidado (não pago). O desenvolvimento territorial não pode ignorar estas dimensões da diversidade e a multiplicidade de experiências que encerram. Visões que são amplas no escopo e integram diferentes atividades e escalas de planeamento, equacionando desde os locais de residência aos transportes, e locais de trabalho e ambiente urbano, mostram a necessidade de um conhecimento integrado para uma ação adequada à conciliação casa-trabalho. Porém, quase 40 anos depois, as teorias e práticas do planeamento ainda não foram capazes de articular seriamente os setores económicos e sociais no território e incorporar a perspetiva de género. Chegamos ao século XXI e continuamos a exigir um novo modelo de planeamento que incorpore a dimensão de género nas teorias e práticas, que elimine a discriminação de género, assegure o pleno “direito à cidade”, crie ambientes e espaços inclusivos que reflitam e respondam à diversidade social (Ortiz Escalante e Gutierrez Valdivia, 2015). Apesar dos alertas sobre a invisibilidade das mulheres na teoria e prática do planeamento, e da falta de articulações para dar respostas aos desafios do desenvolvimento territorial inclusivo, o pensamento dominante continua habitado por figuras masculinas, talvez pela influência da modernidade. O homem como principal escala, medida, forma, proporções e fonte de beleza de todas as coisas. Basta refletir sobre o Modulador de Le Corbusier, um sistema de proporções que devolve a harmonia ao espaço em relação ao corpo humano (masculino), ou o sistema normalizador de Ernst Neufert que combina os fundamentos, normas e prescrições sobre relações espaciais, dimensões de edifícios recintos, instalações e utensílios, tomando o ser humano (homem) como medida e objetivo para projetar o espaço. Esta visão dominante na modernidade entende que as ações do homem no espaço condicionam a modulação física e a
148 Desafíos de la ordenación territorial, planeación integral y gobernanza en Iberoamérica en el siglo XXI experiência do mesmo e, como tal, o homem é a medida universal para a ordenação espacial (Sousa, 2013). “O espaço configura-se a partir dos papéis e estes, por sua vez, são conformados pelo espaço” (Muxí Martinez, 2018: 31). As artes, a comunicação, e as áreas científicas ligadas ao planeamento territorial trataram de reforçar esta ordem, expondo a ligação entre os papéis de género e o espaço: as mulheres na esfera doméstica e os homens na pública e o espaço monofuncional, estanque, estruturado a partir de estruturas rígidas e hierárquicas. Uma das melhores ilustrações desta dicotomia, apontada por Bondi (1998), reside no ideal, representações e juízos de valor, com efeitos poderosos, acerca da cidade e subúrbios, mundos separados do trabalho e da residência, o centro urbano masculino, associado ao poder financeiro, político e económico e, portanto, muito valorizado, e o subúrbio, periférico, associado à dependência, domesticidade e feminilidade, votado à família nuclear patriarcal. E mesmo o reconhecimento do trabalho profissional das mulheres nestes domínios é limitado evidenciando, seja através da atribuição de prémios, possibilidade de assinatura de estudos e projetos ou da presença em cargos de decisão política, a hipervalorização da obra masculina na produção do espaço. Apesar das inúmeras denúncias de geógrafas e arquitetas feministas sobre este modelo de dominação, em pleno século XXI é indispensável continuar a desafiar o “homem modulador”, neutro, universal, racional e normalizador que dominou o discurso, o conhecimento e a experiência espacial nos últimos 200 anos, e demonstrar que esta é uma verdade parcial e enviesada, que exclui uma multitude de outros conhecimentos e experiências. Hoje a vida das pessoas nos centros e periferias conecta-se de formas muito diferenciadas, de acordo com o género, mas também do estatuto social, etnia, sexualidade, idade, e assim por diante, contradizendo as representações binárias.
149 Desafíos de la ordenación territorial, planeación integral y gobernanza en Iberoamérica en el siglo XXI PLANEAR E ORDENAR COM PERSPETIVA DE GÉNERO As instituições da pós-modernidade são substancialmente diferentes, não procuram a normalização, mas a celebração da diferença. A era da globalização, dos new media, da liberdade individual e diversidade cultural que vivemos, revela padrões e estilos de vida diversos, complexos, fluidos e dinâmicos. Este é o contexto da celebração da diferença e, assim, da reivindicação da igualdade. Diante destas mudanças substanciais, a alternativa aos saberes racionais e universais, proclamada pelas mulheres e grupos minoritários, prioriza o conhecimento e a experiência individual e a igualdade de oportunidades. Neste contexto emergem propostas alternativas para pensar o território, derivadas dos seus saberes e experiências, todavia pouco conhecidas e difundidas, como o conjunto habitacional do início dos anos 1990, em Viena, conhecido por FrauenWerk-Stadt, cujo plano diretor foi desenhado por Franziska Ullmann. Ullmann aborda a arquitetura e a cidade a partir da sua experiência pessoal introduzindo questões de género, família e novas formas de viver e de trabalhar (Ullmann, 2013). Reconhecendo que a casa é mais do que um espaço para o “empacotamento” de pessoas e um abrigo físico, e que a abordagem monofuncional é contraprodutiva, o projeto jogou com a combinação de três ideias-chave: primeiro, o conceito de espaço, desde uma hierarquia de pontos, extensão e “empilhamento” de pessoas nas suas casas; segundo, o privado e o público conectam-se e a casa dialoga com o bairro e a cidade; terceiro, a “coreografia urbana” que, para os homens, com elevada mobilidade, se traduz em deslocações rápidas e unidirecionais e, como tal, as áreas residenciais servem uma única funcionalidade, enquanto as mulheres e outras pessoas que desempenham tarefas de cuidado, menos móveis, esperam que as suas áreas residenciais e vizinhanças preencham uma série de funções adaptadas ao seu quotidiano. O resultado é um projeto residencial, que nasce da visão de uma arquiteta, cujo desenho corresponde às necessidades e experiências do quotidiano das mulheres (Ullmann, 2013). Para Ullmann, a crítica ao planeamento da modernidade é obvia neste projeto: o espaço do quotidiano deve conter qualidades soft, isto é, que facilitam a identificação e integração num
150 Desafíos de la ordenación territorial, planeación integral y gobernanza en Iberoamérica en el siglo XXI contexto amigável, e não apenas qualidades hard que resultam da mera aplicação de prescrições, medidas e normas. Trata-se, portanto, de abordar a produção do espaço a partir de diferentes realidades e perspetivas – e não de discutir se as formas são mais retilíneas ou curvas –, de fazer a leitura do espaço de forma distinta da regra estabelecida, da suposta universalidade da experiência masculina. Importa também resgatar nomes, projetos e iniciativas que ficaram nas sombras. A perspetiva de género no planeamento implica colocar em igualdade de circunstâncias as exigências derivadas do trabalho produtivo e do trabalho reprodutivo. Inclui ainda pensar o espaço multifuncional, a mistura e a proximidade, desde a experiência pessoal. Para tal, é relevante que o planeamento territorial não aborde os fenómenos no espaço apenas a partir dos dados estatísticos, na maioria das vezes, incompletos e desfasados das mudanças rápidas que caracterizam os nossos tempos e das necessidades de homens e mulheres. As atuações no território – concebidas e desenhadas a partir dos gabinetes de planeamento – com relevância económica, social e cultural têm impacto de género. Ignorar as relações entre as escalas de trabalho, quer estejamos a planear ao nível da rua e do bairro, ou da cidade e região, gera falta de coerência em muitos territórios, por se ignorem as redes de proximidade e como estas afetam e são afetadas nos territórios mais amplos ou próximos. A relação entre os espaços públicos, os equipamentos, a mobilidade e a habitação são os principais temas que definem as variáveis sobre as quais se desenvolve a vida quotidiana (Muxí Martinez et al., 2011). Retomando Lefebvre, o espaço vivido (o das vivências quotidianas), muito complexo e contingente, é um produto da sociedade civil, onde se inclui e assinala o género feminino. As experiências das mulheres não têm sido razoavelmente consideradas como conhecimento relevante para os programas e projetos de desenvolvimento territorial. Sair da esfera dos peritos de planeamento e procurar a participação cidadã, e muito em particular, das mulheres, comporta aprendizagem e sensibilização mútua e a tomada de consciência crítica para questionar o modelo dominante. Neste contexto, temas como a segurança, e a participação, são
151 Desafíos de la ordenación territorial, planeación integral y gobernanza en Iberoamérica en el siglo XXI relevantes para a definição de implantação de equipamentos e serviços, pelo que é imperativa a abordagem da transversalidade (e complementaridade) das questões físicas e sociais. Ambicionamos que o destino das mulheres seja ocupar o espaço que lhes é devido. Sair da própria sombra implica incidência de luz, pois luz e sombra são os elementos básicos da tridimensionalidade. Está na hora de produzir o efeito de volume ao que se escreve sobre o planeamento e os seus rostos femininos mais relevantes, incluindo a perspetiva de género na teoria e na sua expressão prática, que é no território.
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