scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Quem Tramou Judith Teixeira? (Uma História com Fantasmas)

Barbosa, Sara Marina

Abstract

As circunstâncias que rodeiam o percurso literário da poetisa e novelista Judith Teixeira (1880-1959) fazem com que esta possa ser considerada um perfeito exemplo daquilo que Terry Castle apresenta como “the apparitional lesbian”. Quando publica o seu primeiro volume de poesia, Decadência (1923), vê-se envolvida num escândalo, com o seu livro apreendido e queimado, por ter escrito sobre a sensualidade do corpo feminino e aludido a relações amorosas entre mulheres. Antes que um absurdo silêncio a envolva e a afaste completamente da intensa vida social e literária que levava, publicará Castelo de Sombras. Poemas (1923), Nua. Poemas de Bizâncio (1926), a conferência De Mim. Em que se explicam as minhas razões sobre a vida, sobre a estética, sobre a moral (1926) e as novelas Satânia (1927). Só quinze anos depois da sua morte se começará a ouvir de novo, filtrada pelas sensibilidades contemporâneas, a voz modernista de Judith Teixeira.

Full text

Revista Interdisciplinar de Humanidades Quem Tramou Judith Teixeira? Barbosa, Sara Marina estrema: revista interdisciplinar de humanidades número 4, Outono de 2014 Um projecto do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa Para informação adicional http://www.estremacec.com Para citar este artigo: (Uma História com Fantasmas) humanidades 4 Revista Interdisciplinar de Humanidades Quem Tramou Judith Teixeira? (Uma História Com Fantasmas) estrema: revista interdisciplinar de humanidades , de 2014 Um projecto do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da cec.com Para citar este artigo: B ARBOSA , Sara. 2014. Quem Tramou Judith Teixeira (Uma História com Fantasmas) . estrema: revista interdisciplinar de 4 , www.estrema-cec.com. Revista Interdisciplinar de Humanidades Um projecto do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Quem Tramou Judith Teixeira estrema: revista interdisciplinar de 2 Quem Tramou Judith Teixeira? (Uma História Com Fantasmas) 1 Sara Barbosa Resumo As circunstâncias que rodeiam o percurso literário da poetisa e novelista Judith Teixeira (1880-1959) fazem com que esta possa ser considerada um perfeito exemplo daquilo que Terry Castle apresenta como “the apparitional lesbian”. Quando publica o seu primeiro volume de poesia, Decadência (1923), vê-se envolvida num escândalo, com o seu livro apreendido e queimado, por ter escrito sobre a sensualidade do corpo feminino e aludido a relações amorosas entre mulheres. Antes que um absurdo silêncio a envolva e a afaste completamente da intensa vida social e literária que levava, publicará Castelo de Sombras. Poemas (1923), Nua. Poemas de Bizâncio (1926), a conferência De Mim. Em que se explicam as minhas razões sobre a vida, sobre a estética, sobre a moral (1926) e as novelas Satânia (1927). Só quinze anos depois da sua morte se começará a ouvir de novo, filtrada pelas sensibilidades contemporâneas, a voz modernista de Judith Teixeira. Palavras-chave: Judith Teixeira, Modernismo, “lésbica-fantasma”, “poetas de Sodoma”. Abstract Portuguese writer Judith Teixeira (1880-1959) can be considered, due to the circumstances surrounding her literary career, the perfect example of what has been called by Terry Castle “the apparitional lesbian”. When she publishes her first book of poetry, Decadência (1923), she sees herself drawn into a scandal, because of the allusions to lesbian eroticism. The book was apprehended and burnt. Before disappearing from the social and artistic milieu, Teixeira published Castelo de Sombras. Poemas (1923), Nua. Poemas de Bizâncio (1926) [poetry]; De Mim. Em que se explicam as minhas razões sobre a vida, sobre a estética, sobre a moral (1926) [conference]; Satânia (1927) [novellas]. Only fifteen years after her death was the silence surrounding herself and her oeuvre broken; even then, so quietly. Key words: Judith Teixeira, Modernism, “apparitional lesbian”, “Sodom's literature”. 1 BARBOSA, Sara. 2014. Quem Tramou Judith Teixeira? (Uma História Com Fantasmas), estrema: Revista Interdisciplinar de Humanidades 4, www.estrema-cec.com. 3 Para fazer a história das mulheres é necessário saber escutar o silêncio e aprender a ver o invisível. Zília Osório de Castro (2008, 9) Que circunstâncias terão determinado o apagamento literário de Judith Teixeira, poetisa decadentista e modernista, que não se coibiu de exaltar o amor sáfico e o corpo feminino e por essa razão foi parceira de António Botto e Raul Leal no caso dos poetas de Sodoma? Depois do fogo, do esquecimento e da morte, Judith Teixeira parece ter ressurgido, qual fantasma à espreita, pronto a corporizar-se sempre que conjurado e ocupando, no século XXI, espaços a que lhe não foi possível aceder no século anterior: a ficção literária e o universo virtual da Internet. Partindo do ensaio de Terry Castle, The Apparitional Lesbian (Castle 1993) e transpondo o conceito para a literatura portuguesa, a investigadora Anna Klobucka aponta Judith Teixeira como “the exemplary apparitional lesbian figure” (Klobucka 2009b). Assim, é com base na perspectiva destas duas autoras que aqui se apresenta uma muito breve abordagem à vida e obra daquela que alguns estudiosos têm designado como “a nossa única poetisa modernista” (Viana 1977, 201), 2 “um caso de singularidade poética” (Sousa 2001, 177), “a voz sáfica do primeiro modernismo português” (Garay 2003). Construindo a persona: quem era Judith Teixeira? O que se sabe de Judith Teixeira é tão pouco que é quase forçoso preencher as lacunas com a ajuda da nossa imaginação. Se não, vejamos: nasceu em Viseu, a 25 de Janeiro de 1880, sendo baptizada a 1 de Fevereiro do mesmo ano com o nome de Judith. Filha de mãe solteira e pai incógnito, só aos 27 anos, Judith dos Reis Ramos, ainda solteira, é perfilhada judicialmente pelo pai, Francisco dos Reis Ramos, já falecido, na sequência de uma acção intentada pela própria 3 . Dos seus anos de juventude nada se sabe, a não ser, e fazendo fé nas suas palavras, que se interessava pela literatura e fazia versos já na adolescência: “ - Desde os 2 Couto Viana emprega o termo”modernista” de forma algo restrita, cingindo-se ao período contemporâneo a Orpheu, que é, habitualmente e por razões pedagógicas, referido como “o primeiro modernismo”. E, como salienta Martim Sousa (2009:46), no Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, C. Pazos- -Alonso considera que, no tocante à escrita de autoria feminina, os “três grandes vultos do modernismo português são sem sombra de dúvida Florbela Espanca, Judith Teixeira e, mais tardiamente, Irene Lisboa” (Martins, 2008:244), perspectiva que a autora deste artigo adopta sem quaisquer reservas. 3 Informação sobre estes factos, bem como transcrição dos documentos que os fundamentam, disponível em Jorge e Gaspar 1996, 227-228. 4 treze ou catorze anos. Fazia então uns versos ingénuos, que guardava…” – dirá Judith numa entrevista à Revista Portuguesa, em 1923 (apud Jorge e Gaspar 1996, 237). Desconhecemos a data do seu primeiro casamento, com o empregado comercial Jaime Levy; apenas há registo da sua dissolução, em Março de 1913, com Judith acusada de adultério e abandono do lar. Em Abril do ano seguinte, casa com Álvaro Virgílio de Franco Teixeira, advogado e industrial. Da vida privada de Judith Teixeira nada mais se saberá até à sua morte, aos 86 anos, a 17 de Maio de 1959. O assento de óbito, aparentemente registado por um vizinho, refere que “Judith morre viúva, sem deixar filhos, sem deixar bens, sem fazer testamento” (Jorge e Gaspar 1996, 252). Não há qualquer notícia da sua morte na imprensa, nem parece saber-se que fim levou o seu espólio literário que forçosamente existiria. O poeta e investigador Pedro da Silveira, numa carta de 1976 enviada a António Manuel Couto Viana, que dois anos antes se interrogara sobre as razões da ausência de Judith Teixeira em antologias, histórias da literatura e estudos sobre a sua época, afirma a esse respeito: “O seu espólio, que vi, foi vendido por um sobrinho (?), ao alfarrabista Almarjão” (Viana 2008, 130). Silveira diz ainda de Judith Teixeira, que morava numa casa próxima da sua (a mesma morada registada no assento de óbito), que “a miudagem de Campo de Ourique desfrutava-a um pouco, tanto pelos trajes ameninados que a velha usava, como porque continuava a namorar rapazinhos” (ibid.). O que haverá de verdade em tudo isto e o que terá de facto sucedido ao espólio da mais velha participante do primeiro modernismo português? Ainda se aguardam definitivas conclusões. O mesmo Pedro da Silveira avança mais pormenores, pouco simpáticos, acerca da vida privada da sua vizinha Judith Teixeira, que apelida de “velha ridícula”: “A Judith, não sei se lhe disse, teve negócio de antiguidades. Por volta de 1930, já à beira dos 60 anos, ainda andou em fartas aventuras amorosas, chegando mesmo a ter, ao mesmo tempo, dois amantes” (ibid., 131). Infelizmente, não parece haver mais ninguém que confirme (ou desminta) tais afirmações. Por pudor ou má-fé? Por algum receio da verdade…? Voltando atrás, aos anos de intensa produção literária de Judith Teixeira, qual o retrato possível da artista? O que nos é dado pelas entrevistas concedidas pela autora ao Diário de Lisboa e à Revista Portuguesa em 1923 4 e pelos ecos que nos chegam das suas atitudes e tomadas de posição, como a conferência De Mim. Em que se explicam as minhas razões sobre a vida, sobre a estética, sobre a moral, que Judith Teixeira publica 4 Diário de Lisboa, 6.3.1923 e Revista Portuguesa, 3, 24.3.1923 apud Jorge e Gaspar 1996, 236-238. 5 em 1926, como resposta ao escândalo em que se vê envolvida e do qual falaremos mais adiante. Judith Teixeira revela-se uma personagem cuidadosamente construída, dandy em versão feminina, imagem que nos é passada pelo entrevistador, José Dias Sancho, para a Revista Portuguesa que, como observa Martim Sousa, “entrevê na pose de Judith Teixeira um modo esteticista, até pela decoração física dos espaços, e no seu discurso, irónico e inesperado, uma adesão total ao novismo, não obstante a sua evidente ‘Arte exótica de decadente’, o que coincide, nessa incongruência com o ecletismo de alguma voga epocal” (Sousa 2001, 61). No nosso imaginário, Judith Teixeira não andará muito longe da figura de Mário de Sá-Carneiro (do qual é, aliás, admiradora confessa), naquilo que este tem de construção de uma imagem e do que actualmente chamaríamos uma performance do seu eu artístico. Vale a pena atentar em alguns excertos da entrevista (sublinhados nossos): Judith Teixeira tomou uma atitude um tanto literária, como convinha á [sic] situação. Afundou-se mais na poltrona de veludo verde, e começámos a falar sobre Arte. Judith Teixeira defende calorosamente toda a literatura dos Novos. Ás [sic] vezes tem uma ironia; outras vezes a sua admiração irrompe em palavras floridas, como uma oração. Nenhum ambiente melhor para falar de Arte, do que a sua sala confortável, tépida, acolchoada de tapetes e de almofadas, onde uma ou outra estatueta brilha, no encanto da sua nudez. Dentro deste scenario [sic] cuidado, meticuloso, elegante, a sua figura de loura ganha um fundo que a destaca e dá um sabôr [sic] mais real, menos sonhado, á [sic] sua Arte exótica de decadente. - Adoro Verlaine, Debussy, Ravel, Wagner, Eugenio de Castro, Bourdelle, Picasso – estou, em Arte, na vanguarda. (…) - Interessa-me muito a evolução do seu espírito de Artista… Num meio como o nosso, pequeno, mesquinho, cheio de preconceitos, não é fácil criar-se uma alma de mulher com esse espírito de liberdade e de independência que é o grande fundo dos seus versos… - Espírito, redarguiu-me Judith Teixeira, que me valeu, de resto, muito graves censuras da imprensa… (…) Lentamente a sua voz desprendeu-se. - Eduardo Viana, Candido Guerreiro, Sá-Carneiro, Carlos Porfírio, Aquilino Ribeiro, Américo Durão, toda essa magnífica plêiade de Artistas Contemporâneos cujos nomes eu queria que V. fixasse aí, no papel, se acaso o eu pronunciar os seus nomes alguma coisa destacasse de sua glória…seduzem com a sua Arte policroma, intensa, luminosa. (apud Jorge e Gaspar 1996, 236-237) 6 No Diário de Lisboa, o entrevistador escreve: “Em sua casa cujo décor, de verdadeiro requinte, daria muitos scenarios [sic] para os entroitos com que é costume abrir entrevistas – fomos encontrar a artista, a autora apreendida, muito entregue á [sic] leitura do livro Estrada de Santiago, de Aquilino Ribeiro, como se nada de extraordinário se passasse ao seu redor…” ( apud Jorge e Gaspar 1996, 235). Judith Teixeira é vista como uma mulher culta, requintada e de bom gosto. A sua pose de Artista revela um cuidado extremo com a imagem que de si mesma dá, querendo parecer superior a todas as críticas e censuras que a imprensa e a sociedade à sua volta possam tecer. Como se os versos da sua contemporânea e amiga Florbela Espanca, “Ser poeta é ser mais alto/ é ser maior do que os homens”, fossem, de certa forma, o lema de vida de Judith. O fogo ilumina, o silencio mata A vida literária de Judith Teixeira começa verdadeiramente em 1922, com a publicação dos poemas “Fim” e “O meu Chinês” na revista Contemporânea, embora a autora afirme ter-se iniciado “sob o incógnito de um pseudónimo, no Jornal da Tarde, com composições em prosa” ( apud Jorge e Gaspar 1996, 237), sem que se saiba de forma exacta quando e quais são essas composições. Judith Teixeira tem 43 anos quando, em Fevereiro de 1923, é posto à venda o seu primeiro livro de poemas, Decadência, logo referido pelo jornal Diário de Lisboa como um livro “de merecimento indiscutível, encontram-se versos de estranho e sensualíssimo perfume” ( apud Jorge e Gaspar 1996, 230). No jornal O Século escreve-se: “publicou a srª D. Judit Teixeira o seu primeiro livro de versos, que nos deixou excelente impressão, não só pela elegantíssima apresentação, como por alguns dos seus versos vibrantes de cor, trabalhados de uma maneira requintada e de uma plena liberdade de estro pouco vulgar em poetizas [sic] .” ( apud Jorge e Gaspar 1996, 230) Em face destas primeiras impressões, augurava-se um belo futuro literário à estreante Judith Teixeira. Porém, é nesta altura que aparecem os primeiros fantasmas. O poema “A Estátua”, remetendo muito claramente para o despertar do desejo homoerótico pela contemplação de um corpo “branco e esguio”, termina com os seguintes versos: Ó Vénus sensual! Pecado mortal do meu pensamento! Tens nos seios de bicos acerados, num tormento, a singular razão dos meus cuidados! (Teixeira, 1996:25) 7 Estabelece-se aqui uma nítida relação entre a sensualidade (e a sexualidade) feminina - “nos seios de bicos acerados” - e a consciência de um sujeito poético que se afirma em “pecado mortal” e em “cuidados”, ou seja, atormentado pelos seus desejos relativos a um outro corpo feminino. Outro dos poemas de Decadência intitulado “A minha amante” (Teixeira 1996, 62-63), possibilita alguma problemática na sua interpretação, por se oscilar entre a identificação dessa “amante” com a morfina, droga muito em voga nos meios intelectuais e artísticos da época, ou com uma outra mulher. No entanto, independentemente dessa questão, os versos aludem à incompreensão e à condenação destes “amores” pelos que deles falam (“ Não entendem dos meus amores contigo - / não entendem deste luar de beijos” …/ Há quem lhe chame a tara perversa”), remetendo de imediato para uma poética de transgressão, de confronto com a normatividade e da representação de um desejo lésbico, ainda que reduzido a “sonhos volumptuosos”. Ainda outro exemplo, extraído do poema “Perfis decadentes”, cujos versos apontam para a visão (real ou sonhada?) de uma relação homoerótica, descrita pelo sujeito observador: Os seus perfis esfíngicos, e cálidos, estremeceram na ânsia duma beleza pressentida, dolorosamente pálidos! Fitaram-se as bocas sensuais! Os corpos subtilizados, femininos, entre mil cintilações irreais, enlaçaram-se nos braços longos e finos! (Teixeira, 1996:38-39) Como explicita Cecília Barreira no seu livro História das Nossas Avós, em Judith Teixeira: há um arrojo no modo como deflagra o erotismo. Aposta mesmo numa homossexualidade latente ou num hermafroditismo que contraria em muito o que era usual na época (…) Desde os “perfis esfíngicos e pálidos” às “bocas sensuais”, passando pela evidência dos “corpos subtilizados, femininos”, tudo indicia o amor entre pessoas do mesmo sexo num apelo a uma androginia que surpreende em 1923. (Barreira 1994, 164) Surpreende e não passa despercebida, pois logo se ergue a moral burguesa dominante, assustada com o fantasma da homossexualidade, da perversão, enfim, de qualquer força que ouse questionar a hierarquia e o papel social de cada sexo, a ordem 8 estabelecida e os “bons costumes”. Assim, por via do lesboerotismo 5 da sua poesia, Judith Teixeira é associada ao caso da corrupção literária ou dos poetas de Sodoma, juntamente com António Botto e Raul Leal. A jornalista São José Almeida, que investigou aprofundadamente a situação das pessoas homossexuais no Estado Novo, relata: “O movimento de estudantes católicos (Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa) liderado pelo então jovem Pedro Theotonio Pereira, que será ministro e amigo pessoal do ditador António de Oliveira Salazar, consegue a proibição dos livros dos três poetas” (Almeida 2010b, 56). Os três livros reputados “imorais” (Decadência, de Judith Teixeira, Canções, de António Botto e Sodoma Divinisada, de Raul Leal) são apreendidos pela polícia a fim de serem queimados. Este episódio, ao contrário do que poderíamos pensar, não silencia a poetisa, antes a lança para a ribalta, pois vai falar-se deste escândalo ao longo de todo o ano de 1923. A autora é entrevistada no Diário de Lisboa e na Revista Portuguesa e quando, em Junho do mesmo ano, é publicado Castelo de Sombras. Poemas, o segundo livro de Judith Teixeira, este é relativamente bem recebido e considerado (talvez erradamente…) menos arrojado que o primeiro. Por outro lado, está a começar o processo de transformação de Judith Teixeira em lésbica-fantasma, aquela a que se refere Terry Castel: “Western writing over the centuries is from an angle a kind of derealization machine: insert the lesbian and watch her desapear” (Castle, 1993:6). De que forma se irá processar esse desaparecimento, essa fantasmização? Desde logo pelo silêncio sepulcral (literalmente!) em torno da segunda edição de Decadência, a única que se conservou, uma vez que da primeira não se conhecem exemplares. Judith Teixeira faz publicar uma nova edição do livro apreendido logo em Dezembro de 1923 e a mesma obra de que tanto se falara no início do ano, passa, pelo menos na aparência, absolutamente despercebida. No ano seguinte pouco se conhece da produção judithiana, apenas duas criações que hão-de integrar o terceiro conjunto de poemas a publicar. Já em 1925, ao mesmo tempo que continua a escrever poesia para nova publicação, Judith edita e dirige a revista Europa 6 , um magazine mensal de que se conhecem três números e que inclui colaboração de alguns nomes importantes das artes e da literatura do seu tempo: Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Florbela Espanca, Reinaldo Ferreira, para citar apenas alguns dos que reconhecemos com facilidade. Em 1926 é, então, publicado o 5 A palavra é aqui usada por analogia com homoerotismo (desejo erótico por iguais, referindo-se mais habitualmente ao sexo masculino), querendo assim significar o erotismo lésbico em particular. 6 A revista encontra-se na Biblioteca Nacional de Portugal sob a cota J 2708 B. 9 terceiro e último livro de poemas de Judith Teixeira - Nua. Poemas de Bizâncio. Uma crítica anónima no jornal A Capital saúda o livro, considerando a sua autora “requintada como uma esteta, exigente como uma artista”, “superior espírito de mulher” e a sua linguagem “ rica de imagens, muito variada e harmoniosa”. Salienta que “ ‘Nua’ tem tudo: espírito, carne – e sonho. É completo” (apud Jorge e Gaspar 1996, 245). Trata-se, porém, de uma excepção: a imprensa, em geral, dirige comentários insultuosos a Judith e ao seu livro. O mais completo exemplo talvez seja o texto publicado na revista Revolução Nacional, assinado com o pseudónimo Ariel, que chama à poesia de Judith “autenticas porcarias sexuais trescalando ao morno fartum de d’alcova” e acusa a autora de falta de pudor por contrariar as qualidades devidas ao seu sexo. Este texto, autêntico manifesto do machismo patriarcal, normo e heterocentrista, afirma, entre outras pérolas, que “as damas, dês [sic] que se põem a escrever, perdem o sexo para questões de crítica” (apud Jorge e Gaspar 1996, 249). Na mesma linha, o jovem Marcello Caetano, na revista Ordem Nova referirá uma “desavergonhada chamada Judit Teixeira” (apud Jorge e Gaspar 1996, 250). A autora reage, não com uma justificação, mas com uma apologia da sua própria poesia, com uma demonstração da sua cultura e erudição, um manifesto em favor da sua liberdade de ser e de escrever: é a Conferência De Mim. Em que se explicam as minhas razões sobre a vida, sobre a estética, sobre a moral, publicada em Agosto de 1926. Estranhamente, não há mais ecos de polémica, o nevoeiro parece ter rodeado Judith Teixeira, a Censura está instalada em Portugal e, quando, em 1927, o livro em prosa Satânia. Novelas acaba de se imprimir, é referido em errata que Judith não pôde fazer a revisão tipográfica por se encontrar fora do país (Jorge e Gaspar 1996, 251). Não conseguimos apurar com rigor para onde terá viajado a poetisa (Espanha?), nem a duração da sua ausência. Esgotara-se-lhe o fôlego? Teria Judith Teixeira desistido de lutar contra os fantasmas dos outros e de si mesma, apercebendo-se de que estava a ser transformada em matéria incorpórea e invisível? Não havendo uma justificação objectiva, uma razão que nos leve a perceber como é que uma mulher com uma vida cultural e literária tão intensa, com conhecimentos e relações no circuito cultural e literário da época, pura e simplesmente desaparece sem deixar quaisquer traços, todas as explicações e suposições passam a ser possíveis. Aparentemente, Judith Teixeira teve um destino 16 VIANA, António Manuel Couto. 2008. O investigador da literatura alto-minhota Pedro da Silveira na minha memória. in Cadernos Vienenses, 42, Dezembro de 2008, p. 127-146 : http://gib.cm-viana-castelo.pt/documentos/20090319142023.pdf (último acesso em 24 de Agosto de 2013). ______ 1977. Judith Teixeira in Coração Arquivista. Lisboa: Verbo, p. 198-208. WIKIPÉDIA: http://pt.wikipedia.org/wiki/Judite_Teixeira (último acesso em 17 de Agosto de 2013).