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Turismo em tempos de COVID-19: ensaios sobre casos na Argentina, Brasil, Moçambique e Portugal

Cássia, Rita de,Cruz, Ariza da,Larrabure, Sara,Todesco, Carolina,Rogério, Hugo,Serra, Hage,Guambe, José Júlio Júnior

Abstract

É de notoriedade global que o turismo tem sido um dos setores mais afetados pela pandemia da Covid-19. Não sem menos, os danos causados possuem nuances em todas as dimensões: econômicas, políticas, sociais e geográficas, as quais, pela força do impacto, merecem ser desveladas. Em tempos de negação à ciência e obscurantismos diversos, iluminar as distintas e contraditórias formas pelas quais a pandemia afeta o turismo no Brasil e outras partes do mundo, considerando a imbricada relação entre diferentes escalas geográficas, é certamente a mais importante contribuição que esse grupo de pesquisadores e estudantes de graduação e pós-graduação de universidades e outras instituições públicas têm a compartilhar com a sociedade em geral.

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Rita de Cássia Ariza da Cruz Simone Affonso da Silva Sara Pugliesi Larrabure Carolina Todesco Hugo Rogério Hage Serra José Júlio Júnior Guambe (Orgs.) TURISMO EM TEMPOS DE COVID-19 Ensaios sobre casos na Argentina, Brasil, Moçambique e Portugal Grupo de Pesquisa Turismo em tempos de pandemia: uma análise geográfica multi e trans-escalar. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001. Departamento de Geografia Universidade de São Paulo – USP 2021 DOI: 10.11606/9786587621456 Comissão Científica Admilson Alcantara da Silva – Universidade do Estado do Pará Carolina Todesco – Universidade Federal do Rio Grande do Norte Hugo Rogério Hage Serra – Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará José Júlio Júnior Guambe – Universidade Pedagógica de Maputo Karoline Batista Gonçalves – Universidade Federal da Grande Dourados Maria Angélica Maciel Costa – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro Milene de Cássia Santos de Castro – Universidade Federal do Pará Sandra Dalila Corbari – Universidade de São Paulo Sara Pugliesi Larrabure – Universidade de Lisboa Simone Affonso da Silva – Universidade Federal de Alagoas Comissão editorial Sonia Maria Vanzella Castelar – Universidade de São Paulo Reinaldo Pau Perez Machado – Universidade de São Paulo Rita de Cássia Ariza da Cruz – Universidade de São Paulo Wanderley Messias da Costa – Universidade de São Paulo Ângelo Serpa – Universidade Federal da Bahia Iná Elias de Castro – Universidade Federal do Rio de Janeiro Saint-Clair Cordeiro da Trindade Junior – Universidade Federal do Pará Esta obra é de acesso aberto. É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte e autoria e respeitando a Licença Creative Commons indicada. REITOR DIRETOR Vahan Agopyan Paulo Martins VICE-REITOR VICE-DIRETORA Antonio Carlos Ana Paula Torres Hernandes Megiani Diagramação e Capa Jakson Albuquerque de Oliveira Imagem da capa https://images2.alphacoders.com/247/thumbbig-247890.jpg 26/02/2021 Catalogação na Publicação (CIP) Serviço de Biblioteca e Documentação Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo Maria Imaculada da Conceição – CRB-8/6409 T938 Turismo em tempos de Covid-19 [recurso eletrônico] : ensaios sobre casos na Argentina, Brasil, Moçambique e Portugal / Organização: Rita de Cássia Ariza da Cruz... [et al.]. -- São Paulo : FFLCH/USP, 2021. 6.420 Kb ; PDF. ISBN 978-65-87621-45-6 DOI 10.11606/9786587621456 1. Turismo. 2. Geografia da saúde. 3. COVID-19. I. Cruz. Rita de Cássia Ariza da. II. Grupo de Pesquisa Turismo em tempos de pandemia. CDD 338.4791 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO...............................................................................................5 ARGENTINA Turismo y Covid-19 en Salta (Argentina): un análisis preliminar.........................7 BRASIL Turismo em tempos de pandemia e seus impactos nos municípios do Amazonas..........................................................................................................15 Breves considerações sobre os impactos da pandemia no turismo no território paraense............................................................................................................24 De uma curva ascendente de crescimento à recessão: reflexões iniciais sobre o impacto da pandemia da Covid-19 no turismo no estado do Tocantins............30 O cenário turístico maranhense em frente aos efeitos da Covid-19: um olhar sobre os municípios de São Luís, Barreirinhas e Tutóia.................................................................................................................37 Os efeitos desiguais da crise da Covid-19 no turismo do estado do Rio Grande do Norte.............................................................................................................45 Um olhar sobre o turismo em Recife, Fernando de Noronha, Ipojuca, e João Pessoa durante a pandemia..............................................................................53 Turismo sustentável – só para quem está pronto. Uma análise preliminar sobre os reflexos da pandemia de Covid-19 no turismo em Mato Grosso..................63 Turismo e a pandemia de Covid-19 no Mato Grosso do Sul.............................71 Reflexões sobre os efeitos da pandemia da Covid-19 nos destinos turísticos “categoria A”, no estado do Rio de Janeiro.......................................................79 Turismo em tempos de pandemia – os casos da cidade de São Paulo e da Baixada Santista................................................................................................87 Crise na saúde pública: efeitos da Covid-19 no setor de turismo em Curitiba (PR)....................................................................................................................94 MOÇAMBIQUE Impactos da pandemia Covid-19 no sector de transportes aéreos em Moçambique....................................................................................................100 PORTUGAL Impactos da Covid-19 no turismo em Portugal: uma avaliação rápida dos primeiros nove meses.....................................................................................108 BIOGRAFIA DOS AUTORES.........................................................................116 5 APRESENTAÇÃO TURISMO EM TEMPOS DE COVID-19 Ensaios sobre casos na Argentina, Brasil, Moçambique e Portugal. É de notoriedade global que o turismo tem sido um dos setores mais afetados pela pandemia da Covid-19. Não sem menos, os danos causados possuem nuances em todas as dimensões: econômicas, políticas, sociais e geográficas, as quais, pela força do impacto, merecem ser desveladas. É nesse contexto que foi criado, em maio de 2020, o grupo de pesquisa “Turismo em Tempos de Pandemia – uma análise geográfica multi e transescalar”, certificado no Diretório de Grupos de Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O grupo agrega pesquisadores e estudantes de todas as regiões brasileiras, bem como de Argentina, França, Moçambique e Portugal, reunidos em torno do objetivo comum de produzir uma análise crítica e fundamentada acerca dos desdobramentos da crise sanitária sobre o setor. Ao longo de 2020, as equipes de pesquisadores desses países dedicaram-se, primeiramente, a reunir dados quantitativos em fontes oficiais sobre fluxos aéreos e terrestres, arrecadação de impostos no setor de serviços, emprego e desemprego nas atividades características do turismo, dentre outros. Efetuaram extenso levantamento de medidas públicas implementadas por governos, em diferentes instâncias, cujos desdobramentos se fizeram sentir no turismo. Além disso, fizeram entrevistas com representantes de órgãos públicos, entidades representativas do trade turístico, e associações e sindicatos de trabalhadores da área do turismo. Todo o trabalho vem sendo norteado por procedimentos metodológicos em comum, de modo que os resultados alcançados possam gerar análises comparativas, tanto no que concerne aos dados quantitativos quanto aos aspectos qualitativos que estão sendo observados pelas equipes. Em dezembro de 2020, em um seminário internacional virtual, os resultados parciais da pesquisa foram compartilhados com os ouvintes e, agora, trazemos a público o primeiro livro, produto do trabalho coletivo desse Grupo, contendo quinze ensaios, doze deles sobre casos no Brasil, e outros três sobre casos na Argentina, Moçambique e Portugal. 6 Em tempos de negação à ciência e de obscurantismos diversos, iluminar as distintas e contraditórias formas pelas quais a pandemia afeta o turismo no Brasil e outras partes do mundo, considerando a imbricada relação entre diferentes escalas geográficas, é certamente a mais importante contribuição que esse grupo de pesquisadores e estudantes de graduação e pós-graduação de universidades e outras instituições públicas têm a compartilhar com a sociedade em geral. Desejamos a todos uma boa leitura e, desde já, informamos que a pesquisa avança e que novos resultados serão publicados em breve em diferentes periódicos científicos. Fevereiro de 2021 Admilson Alcântara da Silva Carolina Todesco Daniel de Renzo Barretti Hugo Rogério Hage Serra José Júlio Júnior Guambe Maria Goretti da Costa Tavares Rita de Cássia Ariza da Cruz Sara Pugliesi Larrabure Simone Affonso da Silva Membros da equipe de Procedimentos Metodológicos do grupo de pesquisa Turismo em Tempos de Pandemia 7 Turismo y Covid-19 en Salta (Argentina): un análisis preliminar Claudia Alejandra Troncoso - CONICET/UBA Este ensayo busca constituir una primera aproximación a una caracterización de la situación de la pandemia de Covid-19 en Argentina y especialmente en la ciudad de Salta atendiendo al desarrollo de las actividades turísticas. Para ello se consideran las medidas orientadas a la restricción de la circulación que se desarrollaron en el contexto nacional y local, y aquellas otras disposiciones que buscaron mitigar la situación de empresas y trabajadores del sector turismo. Estas últimas se contrastan con algunas declaraciones expresadas entre los actores de la actividad. Esta primera aproximación da cuenta de la escasa actividad que ha presentado el turismo en la ciudad de Salta y las consecuencias para empresas y trabajadores del sector en un contexto nacional con medidas de aislamiento y restricción a la circulación de personas para restringir los contagios por Covid19. El contexto de la pandemia de Covid-19 en Argentina En la Argentina el primer caso formalmente identificado como afectado por Covid-19 seregistró el 3 de marzo de 2020, unos días antes de la declaración de pandemia por la Organización Mundial de la Salud (11 de marzo). Desde ese momento la evolución de casos confirmados comienza a aumentar lentamente a partir del mes de mayo y durante la segunda mitad de 2020 se registran los números más elevados de casos diarios a nivel nacional. Al día 14 de diciembre de 2020 se confirmaron 1.503.222 casos de personas infectadas y 41.041 fallecidos en total (ARGENTINA, 2020b). Esta evolución de la presencia del virus fue acompañada de una serie de medidas sanitarias y de restricción de la circulación de personas definidas a nivel nacional. En este sentido, a partir del 12 de marzo (Decreto 260/2020) en Argentina se disponen, entre otras medidas:  La emergencia sanitaria (establecida por el plazo de un año); 8  El aislamiento obligatorio por 14 días para las personas llegadas del exterior;  La suspensión de los vuelos internacionales de pasajeros provenientes de zonas afectadas por la presencia del virus;  El cierre de lugares de acceso público y la suspensión de eventos masivos. Unos días después estas medidas son complementadas por lo que se definió (por Decreto 297/2020) como el Aislamiento Social Preventivo y Obligatorio (ASPO) que regirá a partir del día siguiente (ARGENTINA, 2020a). A través de esta disposición se establece que los habitantes del país o quienes se encuentren en él de manera temporaria deberán permanecer en sus residencias habituales, se abstendrán de concurrir a sus lugares de trabajo y no podrán circular por rutas, por vías o en el espacio público (todo esto atendiendo a ciertas excepciones establecidas). En el lapso de una semana también se sumará la prohibición del ingreso al territorio nacional de extranjeros y de argentinos que se encontraban en el exterior (Decreto 313/2020 del 27/03/2020). Estas disposiciones se mantuvieron durante varios meses y, como aconteció en muchos países, la situación afectó los desplazamientos de todo tipo incluyendo los turísticos. Sin embargo, en algunos casos, para algunas provincias argentinas (y de manera intermitente) se habilitó la circulación de personas, entre otras cosas para actividades turísticas (esto aconteció, por ejemplo, en Jujuy, Salta, Misiones, San Juan). Esta circulación era permitida solo al interior de cada provincia y conforme la variación en la cantidad de casos contagiados en cada jurisdicción. Será recién a comienzos de noviembre que en varias zonas del país se reemplaza el Aislamiento Social Preventivo y Obligatorio por el Distanciamiento Social Preventivo y Obligatorio (DISPO) (Decreto 875/2020 del 7/11/2020). Esta constituyó una medida tendiente a reactivar algunas actividades sociales y económicas que se reanudarían con los protocolos sanitarios definidos en cada provincia. En este nuevo contexto, a fines de noviembre de 2020 se dispone la habilitación del turismo a nivel nacional (y aquel proveniente de países limítrofes) a partir del mes de diciembre. Este regreso a la actividad turística 9 (cuando se da comienzo a la temporada alta estival en la Argentina) se realiza con la implementación de nuevas formas de registro de los movimientos turísticos; en efecto, este tipo de desplazamientos debe realizarse a partir de gestionar el “Certificado verano” que consiste en tramitar solicitudes para visitar destinos turísticos (que implican informar fechas de viaje y datos de reserva de servicios turísticos –traslados, hospedaje etc.). Este contexto general supuso un descenso de las actividades sociales y también de las actividades económicas durante 2020. En relación con esto, desde el gobierno nacional se implementaron medidas que apuntaron a mitigar los efectos de la pandemia y el aislamiento. Estas medidas (tomadas entre marzo y abril) estuvieron dirigidas a empresas y hogares y comprenden:  La prohibición de despidos laborales sin causa justa o por motivos de fuerza mayor;  La creación del Ingreso Familiar de Emergencia (IFE) (consistente en una suma fija para desempleados o autónomo de bajo ingreso);  La implementación del Programa de Asistencia de Emergencia al Trabajo y la Producción (ATP) (orientado al sector empresarial que incluye desgravaciones impositivas, créditos blandos y subsidios). Asimismo, en junio de 2020 se implementó también un programa específico para el sector turístico: el Programa de Auxilio para Prestadores Turísticos (APTUR). Este programa buscaba ofrecer ayuda económica a prestadores del sector y aportes para quienes bridaban servicios de guía de turismo e instructores, entre otros. De manera complementaria se crearon otras medidas parael turismo a nivel nacional que contemplaron el pago extra de motos fijos a trabajadores del sector turismo, el congelamiento de tarifas de servicios y la exención de corte de servicios (Resolución 262/2020). Asimismo, se dispusieron incentivos al consumo turístico para el año siguiente (2021) que incluían beneficios para quienes efectúan compras durante 2020 vinculadas a viajes turísticos a concretarse en 2021 (Programa Pre Viaje). Varios de estos puntos fueron reunidos en la Ley de Sostenimiento y Reactivación Productiva de la Actividad Turística Nacional (Ley 27563 del 21/09/2020). 16 Quadro 1 – Municípios selecionados para a pesquisa no estado do Amazonas – AM. Polo Regional Município/(Categoria) Órgão Oficial de Turismo Polo Alto Rio Negro Barcelos (D) Secretaria Municipal de Turismo Polo Alto Solimões Tabatinga (C) Secretaria Municipal de Cultura e Turismo Polo Amazônico Iranduba (C) Secretaria de Indústria, Comércio, Turismo e Desenvolvimento Econômico Manacapuru (C) Secretaria Municipal de Turismo e Cultura Manaus (A) Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos Novo Airão (D) Secretaria Municipal de Indústria, Comércio e Turismo Presidente Figueiredo (C) Secretaria Municipal de Turismo, Empreendedorismo e Comércio Rio Preto da Eva (C) Secretaria Municipal de Turismo, Indústria, Comércio e Empreendedorismo Polo Madeira Humaitá (D) Não existe órgão oficial de Turismo* Polo Médio Solimões Tefé (C) Secretaria Executiva de Turismo Polo Satere Parintins (C) Secretaria Municipal de Turismo Polo Uatumã Itacoatiara (C) Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Eventos Fontes: Brasil, Ministério do Turismo, Mapa do Turismo Brasileiro 2019-2021. Consulta aos sites oficiais dos municípios e contato direto com secretários de turismo. * A Secretaria Municipal de Cultura é quem responde pela pasta de Turismo. Organizado pelos autores (2020). Os procedimentos metodológicos adotados foram as pesquisas bibliográfica e documental, sendo esta última realizada para o levantamento de dados nos sites dos órgãos oficiais das prefeituras municipais e de outras instituições, com destaque para as bases de dados do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e do Cadastro Geral de Empregos e Desempregos (Caged). Para o levantamento de dados primários junto aos órgãos municipais de turismo, utilizou-se um formulário, via Google Forms, composto por seis perguntas abertas acerca das estratégias da gestão municipal para enfrentamento dos impactos da Covid-19 no turismo. Além disso, contatou-se, via telefone e e-mail, membros de associações vinculadas ao turismo, empresários do setor e representantes das prefeituras e órgãos oficiais, com o intuito de obter informações ainda não publicitadas sobre os impactos da pandemia em seus respectivos contextos. Diagnóstico geral dos impactos da pandemia no setor de turismo Neste item serão apresentados e analisados os dados coletados, comparando o primeiro semestre dos anos de 2019 e 2020 nos seguintes aspectos: finanças públicas, número de empresas turísticas do setor privado, empregos e fluxo de transporte aéreo. 17 Com relação às finanças públicas (Tabela 1), observa-se o aumento na receita geral dos municípios de Barcelos, Parintins, Rio Preto da Eva e Tefé e aumento na despesa geral em Barcelos, Humaitá, Rio Preto da Eva e Tefé. Com relação ao setor de turismo, os municípios que aumentaram a receita foram Barcelos, Iranduba e Rio Preto da Eva e apenas Barcelos apresentou maior despesa no período analisado. Não é possível mensurar o motivo do aumento ou da redução dessas despesas, devido à indisponibilidade de informações sobre a individualização dos tipos de despesas. Tabela 1 – Receita e despesa geral e especificamente no setor de turismo (em mil reais) – 1º semestre de 2019 e 2020. Município Receita geral Receita setor turismo Despesa geral Despesa setor turismo 2019 2020 2019 2020 2019 2020 2019 2020 Barcelos 27.689,74 33.833,82 249,02 285,80 18.878,02 20.272,77 96,18 1.022,90 Humaitá 61.147,82 37.151,25 - - 101.157,41 103.436,09 - - Iranduba - 23.185,49 584,01 1.127,03 66.932,65 63.741,96 484,99 334,63 Itacoatiara 63.674,83 - 4.828,15 - 51.565,86 - - - Parintins 93.396,40 113.869,99 - 2.017,52 - - 1.846,02 1.110,47 Presidente Figueiredo 80.467,82 73.112,09 - - 76.355,16 47.462,99 368,40 201,32 Rio Preto da Eva 33.528,30 41.340,11 513,13 953,71 39.376,57 47.105,51 404,73 80,04 Tabatinga 25.178,25 24.003,88 1.310,60 1.201,80 18.779,13 16.619,38 - - Tefé 78.666,40 88.866,71 - - 201.923,74 213.719,11 - - Fonte: Associação Amazonense de Municípios, Portal de Acesso à Informação e Transparência dos Municípios do Estado do Amazonas. Nota: (-) Dado não disponível. Organizado pelos autores (2020). O Gráfico 1 indica o número de empresas turísticas do setor privado para o primeiro semestre dos anos de 2019 e 2020, segundo dados da Receita Federal do Brasil (RFB) disponibilizados pelo Sebrae. Entre os municípios analisados, Manaus, Rio Preto da Eva e Novo Airão apresentaram redução no número de empresas e os demais registraram aumento, com destaque para Presidente Figueiredo, que apresentou aumento de 106 novas empresas, totalizando 393 no primeiro semestre de 2020. 18 Gráfico 1 – Número de empresas turísticas do setor privado – 1º semestre de 2019 e 2020. Fonte: Sebrae, DataSebrae, Painel de Empresas. Organizado pelos autores (2020). Ao refletir a respeito do crescimento nos números de empresas turísticas nos respectivos municípios, em plena pandemia do novo coronavírus, considera-se a probabilidade de que as empresas que operavam sem cadastro junto aos órgãos oficiais, realizaram seu registro nesse período. A compreensão da importância e dos benefícios da formalização e regularização das empresas é uma realidade para os empresários, além de poderem se habilitar ao recebimento dos benefícios propostos pelo governo federal. Diante dos impactos da pandemia no turismo, o setor de empregos, um dos mais afetados, necessita de uma atenção maior. Entre 2012 e 2018, o turismo apresentou crescimento consecutivo até 2014, motivado pela Copa do Mundo de Futebol no Brasil, sendo Manaus uma das sedes. Após 2014, houve uma queda no emprego formal do turismo, no Brasil (2015 a 2018) a redução foi de 0,7% e no Amazonas foi de 2,59%. Em 2018, o estado do Amazonas aumentou 1,58% em comparação com 2017 (AMAZONAS, 2018). No entanto, no final de 2019 e início de 2020, a pandemia atingiu o mundo e o setor de empregos ganhou uma nova feição. Na Tabela 2 são apresentados os dados sobre emprego formal nas atividades características do turismo (ACT) i dos doze municípios selecionados para o estudo, sendo relevante para este trabalho a admissão e o desligamento de profissionais no primeiro semestre de 2019 comparados ao de 2020. 84 187 181 271 221 11483 143 314 287 158 181 116 99 220 209 283 239 11253 127 351 393 126 198 190 0 2000 4000 6000 8000 10000 12000 14000 1 Semestre 2019 1 Semestre 2020 19 Tabela 2 – Total de empregos nas atividades características do turismo. Município Admissão Desligamento 1º Sem 2019 1º Sem 2020 1º Sem 2019 1º Sem 2020 Iranduba 2 9 2 16 Itacoatiara 31 16 34 24 Tabatinga 13 8 10 10 Humaitá 19 16 16 25 Tefé 5 4 6 18 Presidente Figueiredo 3 2 7 2 Barcelos 0 0 1 0 Parintins 9 2 9 8 Rio Preto da Eva 2 3 14 6 Manaus 2.628 1.938 2.661 3.442 Manacapuru 13 4 13 9 Novo Airão 12 6 9 15 Fonte: Brasil, Ministério da Economia, Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, Cadastro Geral de Empregos e Desempregos (Caged). Organizado pelos autores (2020). Considerando as admissões, Iranduba e Rio Preto da Eva admitiram mais profissionais no primeiro semestre de 2020 do que 2019. Com relação aos desligamentos ocorridos entre o primeiro semestre de 2019 e o de 2020, cinco tiveram aumento em 2020 (Iranduba, Humaitá, Tefé, Manacapuru e Novo Airão). Manaus destaca-se com 3.442 desligamentos no primeiro semestre de 2020. Esses empregos apresentam relação com diversos setores, dentre eles o transporte aéreo que, de maneira geral, foi um dos mais afetados com demissões em massa. A Tabela 3 representa o fluxo de transporte aéreo entre os municípios estudados que possuem aeroportos, sendo que apenas Manaus tem fluxo aéreo internacional. Tabela 3 – Fluxo de transporte aéreo – 1º semestre 2019 e 2020. Municípios N. de voos N. desembarques/embarques Chegadas Partidas Chegadas Partidas Desemb. Emb. Desemb. Emb. 2019 2019 2020 2020 2019 2019 2020 2020 Tabatinga 179 178 87 87 16.200 14.453 8.148 6.887 Tefé 194 192 124 123 8.012 7.409 4.915 3.783 Parintins 401 400 155 155 10.456 10.305 1.234 3.783 Manaus 6.024 6.190 3.977 4.002 659.941 671.506 383.826 386.367 Manaus (Internacionais) 626 645 429 451 31.522 31.460 14.015 12.644 Fonte: Brasil, Ministério da Infraestrutura, Secretaria Nacional de Aviação Civil, Sistema HÓRUS, Movimentação aérea. Organizado pelos autores (2020). 20 Observa-se uma queda significativa no registro de chegadas e partidas, embarques e desembarques nos aeroportos dos municípios analisados entre o primeiro semestre de 2019 e 2020, de acordo com a Tabela 3. Os municípios que sofreram maior redução de voos (chegadas e partidas) foram Parintins, com queda de mais de 60%; Tabatinga, com baixa de mais de 55%; e Tefé, que perdeu mais de 36%. Ao avaliar o número de pessoas que desembarcaram, Parintins teve queda de 88%, seguido por uma diminuição de 56% nos desembarques internacionais em Manaus, e de 50% em Tabatinga. Nos embarques, observa-se queda nos mesmos municípios, sendo 63% em Parintins, 60% em Manaus (internacional) e 52% Tabatinga. Este fenômeno está relacionado com as medidas de diminuição de voos nacionais e, em alguns casos, a suspensão dos internacionais. O esvaziamento dos aeroportos foi um dos impactos mais visíveis a partir da adoção dos protocolos de segurança orientados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), para evitar a propagação do avanço da Covid-19, além de outras políticas públicas que serão vistas a seguir. Políticas públicas: medidas sanitárias de circulação Entre os municípios estudados, Manaus, Barcelos, Tabatinga, Presidente Figueiredo, Tefé, Rio Preto da Eva e Parintins apresentaram políticas públicas sobre a Covid-19. A priori, foram consultadas as secretarias municipais dos doze municípios, entretanto, em Iranduba, Itacoatiara, Novo Airão, Humaitá e Manacapuru não foram identificadas informações sobre as políticas públicas. De forma geral, observa-se que as políticas públicas municipais buscaram a implementação de planos de enfrentamento à pandemia com ações de distanciamento social, restrição de horários para circulação dos turistas, profilaxia obrigatória (uso de máscara e álcool em gel), auxílio alimentação aos envolvidos no combate à pandemia, serviços de saneamento (limpeza dos logradouros públicos), protocolos para restabelecimento da economia local, transferência de recursos municipais para o combate à pandemia, prorrogação de prazos para pagamento de tributos municipais. No âmbito estadual se destaca o Plano Amazone-se (AMAZONASTUR, 2020), que traz no seu escopo ações voltadas para: a) promoção turística: reposicionamento do Amazonas como destino turístico e participação em 21 eventos; b) ordenamento e fiscalização: treinamento dos secretários dos municípios do Mapa do Turismo para a utilização da Plataforma de Informações Turísticas (PIT) e a adoção do protocolo sanitário, além do Plano de Desenvolvimento Territorial do Turismo no Estado do Amazonas; c) suporte ao empresariado: programa de estímulo ao acesso de créditos emergenciais e articulação com as instituições financeiras para suporte às dificuldades encontradas pelo setor; d) obras de infraestrutura turística: conclusão da segunda fase do Centro de Convenções (Manaus), museu dos Bois de Parintins, infraestrutura turística na Serra da Valéria 1 e 2 (Parintins), infraestrutura turística em comunidades indígenas (zona rural de Manaus), reforma e ampliação do terminal de passageiros do aeroporto de Barcelos, reforma dos Centros de Atendimento ao Turista (CAT) de Manaus. Além dessas medidas, acrescentam-se a ampliação de prazos para pagamento de ICMS, protocolo para visitação às Unidades de Conservação do Mosaico do Baixo Rio Negro e suspensão de licitações. As políticas públicas federais foram concentradas na criação de linhas de financiamento com R$ 51 bilhões destinados a atender as empresas de diferentes portes e setores da economia, incluindo o turismo, com a prorrogação de prazos para pagamento de tributos federais e orientações para operadores para a retomada das atividades turísticas. Conclusão Entre os doze municípios estudados (Barcelos, Humaitá, Iranduba, Itacoatiara, Manacapuru, Manaus, Novo Airão, Parintins, Presidente Figueiredo, Rio Preto da Eva, Tabatinga e Tefé), a análise dos dados de finanças públicas específicas ao setor turístico apresentou lacunas devido à inacessibilidade aos dados. Comparando as despesas no setor turístico entre o primeiro semestre de 2019 e 2020, houve redução em Barcelos, Iranduba, Parintins, Presidente Figueiredo e Rio Preto da Eva, este último com redução superior a 80% de suas despesas no setor. O único aumento de despesas no setor de turismo foi registrado em Barcelos, que indicou um orçamento nove vezes maior no primeiro semestre de 2020. Os demais municípios não apresentaram dados. 22 Os dados sobre emprego formal nas ACT indicam que Iranduba e Rio Preto da Eva tiveram número maior de admissões no primeiro semestre de 2020. Já com relação às demissões, cinco municípios apresentaram números superiores no primeiro semestre de 2020: Iranduba, Humaitá, Tefé, Manaus e Novo Airão. De acordo com o DataSebrae, o número de empresas turísticas do setor privado apresentou queda, entre o primeiro semestre de 2019 e 2020, em apenas três municípios: Manaus, Rio Preto da Eva e Novo Airão. Nos demais municípios analisados houve aumento, destacando-se Presidente Figueiredo, com registro de 106 novas empresas no primeiro semestre de 2020. Com relação ao fluxo aéreo, as maiores reduções no número de voos (chegadas e partidas) ocorreram em Parintins, Tabatinga e Tefé, respectivamente; e as maiores reduções de embarques e desembarques ocorreram em Parintins, Manaus (relativo a voos internacionais) e Tabatinga, respectivamente. Considerando que os municípios analisados apresentam estruturas sanitárias insuficientes para identificação de casos de forma rápida, para o controle e tratamento de Covid-19, os protocolos de biossegurança com medidas para a retomada da atividade turística apresentam-se comprometidos, uma vez que Manaus possui toda a rede de Unidades de Terapia Intensiva (UTI) no estado do Amazonas. Referências AMAZONAS. Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação. Perfil do emprego formal no setor do turismo no Amazonas. 2018. Disponível em: http://www.sedecti.am.gov.br/indicadores-mapa/. Acesso em: 02 dez. 2020. AMAZONASTUR. Amazone-se: plano de retomada da atividade turística no Amazonas. Manaus: Imprensa Oficial do Amazonas, 2020. ASSOCIAÇÃO AMAZONENSE DE MUNICÍPIOS. Portal de acesso à informação e transparência dos municípios do Estado do Amazonas. Disponível em: https://transparenciamunicipalaam.org.br/. Acesso em: 12 jan. 2021. BRASIL. Ministério da Economia. Cadastro Geral de Empregados e Desempregados – Caged. Disponível em: https://bi.mte.gov.br/bgcaged. Acesso em: 02 dez. 2020. 23 BRASIL. Ministério da Infraestrutura. Secretaria Nacional de Aviação Civil. Sistema HÓRUS Módulo de Informações gerenciais. Movimentação aérea. Disponível em: https://horus.labtrans.ufsc.br/gerencial/#Movimentacao/Desempenho. Acesso em: 02 dez. 2020. BRASIL. Ministério do Turismo. Mapa do turismo brasileiro 2019-2021. Disponível em: http://www.mapa.turismo.gov.br/mapa/init.html. Acesso em: 12 jan. 2021. SEBRAE. Onde estão as empresas de turismo no Brasil? DataSebrae, mar. 2019. Disponível em: https://datasebrae.com.br/mapa-empresas-turismo/. Acesso em: 02 dez. 2020. SEBRAE. Painel das empresas. DataSebrae, mar. 2020. Disponível em: https://datasebrae.com.br/total-de-empresas-brasileiras-11-03-2020. Acesso em: 02 dez. 2020. i As ACT utilizadas no presente estudo foram agrupadas por principais Categorias/Subclasse de acordo com a seleção realizada pelo MTur, em articulação com IBGE e Ipea, com base nos padrões recomendados pela OMT, na publicação “Recomendações Internacionais de Estatísticas de Turismo – RIET 2008”. 24 Breves considerações sobre os impactos da pandemia no turismo no território paraense Admilson Alcantara da Silva – UEPA/SETUR-PA Ágila Flaviana Alves Chaves – UFPA Cleber Gomes da Silva – SETUR-PA Elcivânia de Oliveira Barreto – UFPA Hugo Rogério Hage Serra – UNIFESSPA Izabela Rodrigues Paz – UNIFESSPA Kassia Suelen da Silva Farias – UFPA Laryssa Luana Ferreira dos Santos – IFPA Maria Goretti da Costa Tavares – UFPA Milene de Cássia Santos de Castro – UFPA Natascha Penna dos Santos – UFPA/SETUR-PA Pablo Vitor Viana Pereira – UFPA Sandra Maria Sousa da Silva – UFOPA Os efeitos da pandemia da Sars-CoV-2, ou popularmente conhecida como a pandemia do novo coronavírus é, de longe, o principal acontecimento do século XXI até o momento. Com ele, a exposição dos problemas humanos é dada pela força com que o vírus atinge o mundo, influenciando diretamente a vida das pessoas e das organizações em todas as dimensões. Ainda que a gênese da pandemia tenha sido na zona urbana de Wuhan, na China, tal contingenciamento não faz mais sentido devido ao seu caráter generalizado. Com a difusão da doença, as distintas escalas são afetadas, evidenciando-se diferenças econômicas entre os lugares, entre as regiões; tal como dizem Sposito e Guimarães (2020), é possível “saltar escalas” nesta pandemia. O turismo foi uma das primeiras atividades econômicas globais afetadas pela pandemia, devido à necessidade de mobilidade das pessoas entre os espaços emissores e os espaços receptores do turismo, algo que, de prontidão, teve que ser freado com força a fim de minimizar o contato entre residentes e turistas. No Brasil, não sem menos, as regiões brasileiras refletem de forma diferente e desigual os impactos que a Covid-19 tem deixado no turismo. No caso do Pará, ainda que ele não seja um dos principais estados mobilizados pela dinâmica daquela atividade, os efeitos negativos foram sentidos em suas sub-regiões conforme suas características específicas. Neste breve relato, são 25 cinco as sub-regiões consideradas: Belém, Marajó, Tapajós, AraguaiaTocantins e Amazônia-Atlântica. Neste sentido, este trabalho versa sobre os impactos da Covid-19 na atividade turística das cinco sub-regiões citadas, de acordo com o Boletim Fapespa de Turismo do Estado do Pará (FAPESPA, 2017), representativas deste recorte espacial. Considera-se o uso de dados informativos levantados no bojo da pesquisa “Turismo em tempos de pandemia: uma abordagem geográfica multi e trans-escalar”. Para tanto, comparam-se os dados de 2019 – período antes da pandemia – com os de 2020 – durante a pandemia – buscados em órgãos oficiais de pesquisa, bem como de estado. Os impactos da Covid-19 no Pará: dados comparados por regiões A primeira região de destaque nestas breves considerações é justamente aquela em que o fluxo econômico do turismo é mais intenso. A região Belém foi a que mais sofreu com a pandemia se considerarmos a totalidade dos dados. Ao se considerar o emprego, por exemplo, conforme os dados obtidos pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério da Economia (BRASIL, 2020), observou-se um acentuado impacto social e, consequentemente, econômico nas atividades da Classificação Nacional das Atividades Econômicas (CNAE) no município de Belém, no qual o saldo de movimentação na classe de hotéis e similares reduziu de forma drástica no primeiro semestre de 2020, se comparado ao mesmo período de 2019. No primeiro semestre de 2020, sobretudo no mês de março, considerado o mês de pico da pandemia no Brasil, houve catorze desligamentos no setor de hospedagem. Em relação à classe de restaurantes e outros estabelecimentos de serviços de alimentação, observou-se um impacto ainda mais acentuado com o número de desligamentos no primeiro semestre de 2020. A maior incidência ocorreu entre os meses de março e abril, com 693 e 565 desligamentos, respectivamente. No que se refere à região Marajó, analisaram-se as informações obtidas pelo Caged, entre o primeiro semestre de 2019 e primeiro semestre de 2020. Observaram-se, no entanto, as limitações de informações disponíveis no sistema, constando somente aquelas referentes ao primeiro semestre de 2020, 32 A cidade de Palmas, capital do estado do Tocantins, conta com cerca de 300 mil habitantes (IBGE, 2019a), é a mais nova cidade brasileira planejada, localizada em meio ao Cerrado, entre a Serra de Lajeado e o lago de 630 km², formado pela construção da Usina Hidrelétrica Luís Eduardo Magalhães. O maior aeroporto do estado fica em Palmas, que recebe visitantes durante o ano inteiro, principalmente a negócios. A cidade de Mateiros (Encantos do Jalapão, possui 2.600 habitantes (IBGE, 2019a), e fica localizada na região leste do estado, a 310 km da capital. Ela compõe o conjunto de cidades do Parque Estadual do Jalapão. Rio da Conceição (Serras Gerais), com 2.130 habitantes (IBGE, 2019a) e a 250 km da capital, foi escolhida para aplicação da pesquisa por demonstrar maior organização e disponibilidade de acesso aos dados públicos necessários na primeira fase da pesquisa. Finalmente, Araguaína (Vale dos Grandes Rios), única cidade escolhida no norte do Tocantins, a 380 km da capital, é a segunda cidade mais populosa do estado, com 180 mil habitantes (IBGE, 2019a). Araguaína localiza-se estrategicamente na Rodovia Belém-Brasília (BR-153) e tem a pecuária como principal setor econômico. Conhecida como capital econômica do Tocantins, concentra em seu núcleo urbano serviços de comércio que atendem uma estimativa de 1,7 milhão de pessoas do entorno próximo, inclusive moradores do sudeste do Pará e do sudoeste do Maranhão. Análises e discussões preliminares: impactos da Covid-19 no Tocantins Segundo dados do Observatório de Turismo do estado do Tocantins (2020), houve em 2020 um significativo aumento de empresas e profissionais na área cadastradas no registro obrigatório do Cadastur ii . Enquanto no segundo trimestre de 2019 havia 541 empresas cadastradas, no mesmo período de 2020, esse número aumentou para 733 – aumento que pode ser explicado a partir da mobilização do estado e das prefeituras para a formalização dessas empresas. Quanto ao faturamento mensal da indústria do turismo, houve uma redução significativa a partir de março de 2020, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio. Passou de R$ 34.294.806,00 (março/2019) para R$ 24.272.471,00 (março/2020). 33 Palmas Considerando as situações de deslocamento aéreo de passageiros apresentadas pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC, 2020), no primeiro semestre de 2019 foram 2.939 voos nacionais que transportaram 275.566 passageiros. Para o mesmo período de 2020 ocorreram 1.216 voos nacionais, reduzindo para 121.693 o número de passageiros. Portanto, a variação de voos de 2019 para 2020 foi de –59% e, consequentemente, a de passageiros transportados foi de –56%. No que se refere à empregabilidade do setor turístico em Palmas, os impactos da pandemia foram sentidos com uma variação em torno de –28,2% na comparação do anuênio 2019-2020. As admissões ocorridas em 2019 contabilizaram um total de 893, em contrapartida das 863 demissões do período, representando um saldo positivo de 30 contratações. Contudo, em 2020, as 641 admissões são suplantadas por 902 demissões, originando, portanto, um saldo de –261 empregos cuja variação relativa entre 2019 e 2020 chega a –870% (BRASIL, 2020). Os restaurantes e outros estabelecimentos de alimentação, até o momento, apresentaram um dos impactos mais significativos da pesquisa. Considerando que, no primeiro semestre de 2019, as admissões somaram 654 contratados, e em 2020 reduziram para 442 contratações, representando, assim, uma queda perceptível na empregabilidade do setor. Nesse contexto, também é válido ressaltar a portaria n° 28, de 27 de março de 2020 publicada no Diário Oficial do Município de Palmas, instituindo o Plano de Ação Emergencial da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (SEDES). Araguaína Em relação ao fluxo de voos no aeroporto de Araguaína, que atende majoritariamente uma demanda regional, de acordo com dados da ANAC (2020), enquanto no primeiro semestre de 2019 houve 355 voos, transportando 13.951 passageiros, no mesmo período em 2020 o número de voos caiu para 164, e o de passageiros para 8.867. A variação no número de voos foi de – 54%, e de passageiros transportados –36%, reflexo do fechamento total do aeroporto nos meses de abril, maio e junho. 34 Segundo dados do Caged (BRASIL, 2020), o setor da hotelaria e similares apresentou um decréscimo de 20% nas contratações na comparação dos primeiros semestres de 2019 e 2020. Já o setor de agências de viagens e turismo teve uma redução ainda mais drástica, totalizando –50% em cargos e contratações no período pesquisado – setor que mais relatou declínio nas vendas em comparação ao anuênio 2019-2020. No setor de alimentos e bebidas, os impactos também foram sentidos. As contratações do primeiro semestre de 2020 totalizaram 102, em contrapartida ocorreram 194 demissões no mesmo período, compreendendo, com isso, um saldo negativo de –92 postos de trabalho. No tocante às políticas públicas e decretos instituídos para o enfrentamento da pandemia, o Decreto nº 203, de 16 de março de 2020, adere às recomendações e políticas públicas estaduais e federais, e impõe medidas restritivas. Rio da Conceição No caso de Rio da Conceição, segundo os dados levantados em entrevistas iii com empreendedores locais e a instância regional de turismo (ASSEGTUR), a pandemia estacionou a crescente do turismo no município, visto que os hotéis apresentaram taxa de ocupação de 80% e 90% nos dois primeiros meses de 2020 e zero no restante do primeiro semestre. As agências de viagens foram de 1.020 vouchers emitidos para visitação a atrativos locais e roteiros diversos, considerando o primeiro semestre de 2019, para 389 vouchers no mesmo período em 2020. Os bares e restaurantes apresentaram uma redução de 90%, já que foram fechados para atendimento ao público. Quanto à atuação das instituições públicas, não houve relatos de ações de ajuda, pesquisa ou assessoria voltada à recuperação do setor, bem como da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (Abih), Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav) e Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). Os entrevistados citaram apenas a parceria com a Universidade Federal do Tocantins no desenvolvimento de ações de reforço da gestão integrada da região e formações do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) voltadas para a comercialização e marketing digital. 35 Mateiros Em Mateiros, município da região turística Encantos do Jalapão, principal destino turístico do estado do Tocantins, o fluxo turístico teve uma queda considerável, levando em conta o Decreto nº 6.067 do governo do estado do Tocantins, de 17 de março de 2020, que suspendeu as visitações turísticas nos parques estaduais. Entre estes, podemos citar a Cachoeira da Velha/Prainha do rio Novo e Dunas. Com isso, a queda de visitações no primeiro semestre de 2020 foi de 50% quando comparado com o mesmo período de 2019. Em 2020 houve 8.595 turistas visitando as dunas, enquanto no ano anterior a quantidade de turistas foi de 17.347. Já a Cachoeira da Velha contou com 2.699 turistas no primeiro semestre de 2020, enquanto no primeiro semestre de 2019 foram 11.145. Considerações finais Conclui-se, com esse estudo preliminar, que os impactos causados pela pandemia da Covid-19 estão afetando consideravelmente a atividade turística no estado do Tocantins. Empresários e consumidores relataram a sensação de insegurança por falta de medidas mais efetivas ao enfrentamento da pandemia, bem como a dificuldade no acesso de informações e orientações a partir dos órgãos públicos locais, estaduais e federais. Ainda que fosse possível observar, ao analisar os dados dos anos anteriores à pandemia, uma curva ascendente de crescimento da atividade turística no estado, a crise sanitária atual acarreta índices que apontam inquietantes cenários de recessão e desemprego no setor. Referências AGÊNCIA NACIONAL DE AVIAÇÃO CIVIL. Voos e operações aéreas – dados estatísticos do transporte aéreo. ANAC, 2020. Disponível em: https://www.anac.gov.br/acesso-a-informacao/dados-abertos/areas-de-atuacao/voose-operacoes-aereas/dados-estatisticos-do-transporte-aereo. Acesso em: 28 nov. 2020. AJARA, C. de; FIGUEIREDO, A.H; BEZERRA, V. M. d – . C.; BARBOSA, J. G. O estado do Tocantins: reinterpretação de um espaço de fronteira. Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, v. 53, n.4, p. 1-166, out./dez. 1991. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/115/rbg_1991_v53_n4.pdf. Acesso em: 22 dez. 2020. 36 BRASIL. Ministério da Economia. Secretaria Especial de Previdência e Trabalho. Cadastro Geral de Empregados e Desempregados – Caged. Base de dados online. 2020. Disponível em: http://bi.mte.gov.br/bgcaged/caged.php. Acesso em: 10 jan. 2021. BRASIL. Ministério do Turismo. Mapa do Turismo 2019-2021. Brasília-DF: MTur, 2019. Disponível em: http://www.mapa.turismo.gov.br/mapa/init.html#/home. Acesso: 30 nov. 2020. FLICK, U. Introdução à pesquisa qualitativa-3. Porto Alegre: Artmed editora, 2009. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Estimativas da população residente no Brasil e unidades da federação com data de referência em 1º de julho de 2019. IBGE, 2019a. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao.html. Acesso em: 01 jun. 2020. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Malhas digitais 2019. IBGE, 2019b. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/geociencias/organizacao-doterritorio/malhas-territoriais.html. Acesso em: 27 nov. 2020. JOHNS HOPKINS UNIVERSITY & MEDICINE. 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Acesso em: 07 dez. 2020. i A criação do estado do Tocantins ocorreu a partir do artigo 13 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição, em 5 de outubro de 1988. ii Sistema de cadastro de pessoas físicas e jurídicas que atuam na cadeia produtiva do turismo. iii Foram entrevistados Fernanda Castro, presidente da Associação de Desenvolvimento do Turismo Sustentável e Produção Associada de Serras Gerais do Tocantins (ASSEGTUR) e Ester Carvalho (Secretária Municipal de Turismo e Cultura) na data de 21 de dezembro de 2020 por videoconferência. 37 O cenário turístico maranhense em frente aos efeitos da Covid19: um olhar sobre os municípios de São Luís, Barreirinhas e Tutóia Linda Maria Rodrigues – UFMA Thays Regina Rodrigues Pinho – UFMA David Leonardo Bouças da Silva – UFMA Terezinha de Jesus Campos de Lima – IFMA Débora Rodrigues de Oliveira Serra – IFMA Monique de Oliveira Serra – IFMA As privações de mobilidade impostas globalmente para evitar a disseminação do coronavírus levaram ao fechamento de fronteiras entre países e entre regiões dentro de um mesmo país, afetando sobremaneira o turismo global e local (FGV, 2020; UNWTO, 2020). Os impactos observados vão desde perdas econômicas consideráveis às empresas até o encerramento de suas operações (BARTIK et al., 2020). No estado do Maranhão, o retorno gradual das atividades econômicas, amparadas por protocolos sanitários adotados por governos locais, tem sido acompanhado de alguns esforços em prol do desenvolvimento de pesquisas, em diversos segmentos, inclusive no turístico, com intuito de mensurar efeitos associados à pandemia. Sob essa ótica, o presente ensaio vai ao encontro de tal contexto, objetivando identificar e analisar os impactos da pandemia a partir de estudos preliminares realizados nos municípios maranhenses de São Luís, Barreirinhas e Tutóia, contemplando o setor hoteleiro, de alimentação, os transportes e os fluxos como categorias de referência. No Maranhão, a política de desenvolvimento turístico vem sendo direcionada, desde os anos 2000, pelo Plano Maior – o Plano Estratégico do Estado do Maranhão – documento que orientou a estruturação dos dez polos turísticos do território maranhense, também reconhecidos pelo Programa de Regionalização do Turismo do Ministério do Turismo (MTur). São Luís, capital maranhense e principal destino do estado, concentra seu apelo turístico nas tradições culturais e no Centro Histórico – reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como Patrimônio Cultural Mundial no ano de 1997 – portanto, considerada como o portão de entrada de turistas. Este polo é classificado 38 como indutor, pela sua capacidade de induzir o desenvolvimento turístico no estado, catalisando o desenvolvimento dos demais polos maranhenses (MARANHÃO, 2011). Ademais, tem-se Barreirinhas considerada a principal cidade de acesso ao Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses (PNLM) e portão de entrada do polo Lençóis Maranhenses (MARANHÃO, 2011), classificado também como polo indutor, e Tutóia – Polo Delta das Américas (MARANHÃO, 2011) – que vem alcançando destaque após melhorias promovidas na infraestrutura de acesso e na estruturação da governança local dos municípios adjacentes (SILVA et al., 2020), apesar de estar classificado como polo estratégico, nível abaixo do indutor, mas importante para a diversificação da oferta em médio prazo (MARANHÃO, 2011). Os números referentes aos impactos da Covid-19 no cenário turístico maranhense são apresentados nas figuras 1 e 2 a seguir e discutidos ao longo do texto. Figura 1. Impactos da Covid-19 no turismo de São Luís: comparativo 2019 e 2020. Fontes: Brasil, Ministério da Economia, Secretaria do Tesouro Nacional. Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária. Observatório do Turismo do Maranhão. Secretaria Municipal da Fazenda de São Luís. Organizado pelos autores (2020). 39 Figura 2. Impactos da Covid-19 no turismo de Barreirinhas e Tutóia: comparativo 2019 e 2020. Fontes: Observatório do Turismo do Maranhão e Secretaria Municipal da Fazenda de São Luís. Organizado pelos autores (2020). Impactos no setor da hospedagem e alimentação O setor hoteleiro, especialmente em São Luís, sofreu uma retração significativa. Segundo dados do Observatório do Turismo do Maranhão (2020), a taxa de ocupação hoteleira (TOH), principal indicador de desempenho do setor, despencou a partir de março de 2020. As empresas hoteleiras ludovicenses já vinham enfrentando uma forte retração, em decorrência da crise econômica brasileira dos últimos anos (SILVA et. al., 2018), com leve recuperação no ano de 2019. Com a chegada da Covid-19, os desafios impostos aos negócios se mostram ainda mais desafiadores. A Figura 1 traça um comparativo entre os primeiros semestres de 2019 e 2020 quanto à TOH em São Luís. Houve um decréscimo de 33% em 2020, com o mês de maio atingindo o pior resultado (15%), possivelmente por ser reconhecido como o período de ápice da pandemia no Brasil, com adoção de mais medidas limitativas de mobilidade, impedindo o deslocamento de turistas. Em Barreirinhas, a redução dos fluxos turísticos (Figura 2) trouxe consequências negativas para a cadeia produtiva do turismo local. No início de março, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) interrompeu a visitação pública ao PNLM, principal produto turístico do estado, 40 como medida preventiva para minimizar a disseminação do vírus (BRASIL, 2020a). Entre as empresas mais afetadas, destacam-se as agências de receptivo e os meios de hospedagem que tiveram que arcar com prejuízos de cancelamentos, remarcações e reembolsos (SEBRAE, 2020). Na pesquisa de Bouças da Silva, Miranda e Hoffmann (2021), verificou-se que alguns gestores ludovicenses lançaram mão da Medida Provisória nº 948/2020, que trata do cancelamento de serviços, de reservas e de eventos dos setores de turismo e cultura em razão do estado de calamidade pública, com o intuito de reduzir a pressão sobre seus negócios, uma vez que esta medida desobrigava empresas turísticas a reembolsarem os consumidores no cenário da pandemia. No entanto, não se sabe se os empreendimentos barreirinhenses buscaram adotar esta mesma estratégia, uma vez que os dados existentes sobre a TOH neste município não estão estruturados de maneira a permitir uma análise coerente. Em Tutóia, a situação é agravada pela inexistência de dados sobre esse indicador, aspecto que dificulta esta avaliação, muito embora se saiba que a situação decorrente da suspensão do funcionamento de pousadas, hotéis e similares estabelecidos por instrumentos normativos no município, impactou o setor negativamente. Observa-se que algumas empresas do setor de alimentos e bebidas (A&B) apresentaram ganhos de competitividade, por ampliarem seus canais de distribuição/vendas, como delivery e desenvolvimento dos seus próprios aplicativos. Dessa forma, segundo dados divulgados pelo Sebrae (2020), 92% das empresas tiveram queda no faturamento e apenas 4,5% dos donos de bares e restaurantes entrevistados afirmaram ter tido crescimento no faturamento durante esse período, pois adaptaram seus negócios ao serviço de entrega. Impactos nos transportes e nos fluxos Especificamente no tocante aos transportes turísticos, os principais modais (ferroviário, aéreo, aquaviário e rodoviário) apresentaram perdas. Contudo, o modal aéreo sofreu impactos mais significativos, com prejuízos previstos na ordem de US$ 84 bilhões, em termos globais (IATA, 2020). Os dados apontaram uma diminuição drástica no número de usuários nos primeiros meses da pandemia, com uma recuperação lenta e oscilações da 41 demanda por viagens aéreas a partir do mês de junho. Uma investigação da Associação Brasileira de Agências de Viagens Corporativas (ABRACORP, 2020) comprovou que no turismo corporativo brasileiro, houve uma queda de aproximadamente 90%, ao considerar atividades como transporte, hospedagem e seguro. Com vistas à retomada das viagens, esforços vêm sendo feitos no sentido de atrair passageiros, como a adoção de medidas sanitárias e de segurança, além do uso de tecnologias que corroborem a sua proteção. As perspectivas para o setor aéreo não são promissoras para o próximo ano, segundo a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA, 2020), o setor deve operar com uma demanda reduzida e 25% abaixo dos números de 2019. A demanda por viagens aéreas no Brasil começou a diminuir em abril de 2020. No mesmo período, houve drástica redução da malha que atende São Luís. Os dados da Figura 1 destacam uma redução de 48% no número de voos na capital maranhense (INFRAERO, 2020), situação acompanhada pela redução do fluxo de passageiros pelo modal aéreo, que apresentou decréscimo de 47%, segundo a mesma fonte consultada. Cabe ressaltar que parte expressiva dos visitantes do Maranhão, que chega por via aérea, tem como objetivo o turismo de negócios e/ou o ecoturismo/turismo na natureza no PNLM. Enquanto naquele segmento, as atividades foram interrompidas e houve a necessidade de adotar novas tecnologias e práticas (OECD, 2020), como o home office, neste, o fechamento da área protegida inviabilizou o deslocamento mesmo dos viajantes dispostos a se exporem aos riscos de contrair a Covid-19. A consequência imediata dessas ocorrências é a redução significativa nos fluxos turísticos. Como estratégia de recuperação do setor, o secretário estadual de Turismo do Maranhão i (2020) mencionou em entrevista que “estamos melhorando e captando mais voos e recuperando a malha área com políticas voltadas para a diminuição de alíquotas no setor”. Em Barreirinhas, nos meses de abril e maio de 2020, o fluxo de visitantes nos principais atrativos locais se mostrou praticamente inexistente, como resultante do fechamento do PNLM (BRASIL, 2020a) e das fronteiras intermunicipais no estado, conforme dados do Observatório do Turismo do Maranhão apresentados na Figura 2. 48 passeios coletivos de veículos 4x4 ou quadriciclos, bem como o ingresso de novos visitantes (Decreto Municipal nº 75/2020). Dos três, o governo do município de Natal foi o único que não emitiu decreto suspendendo as atividades de meios de hospedagem. A realidade que se impôs aos empreendimentos e trabalhadores formais e informais do turismo, no primeiro semestre de 2020, como se pode observar pela movimentação de passageiros do transporte aéreo, como pelo teor dos decretos, foi desconcertante, tendo esse cenário permanecido até meados de setembro, mês em que o turismo (regional e rodoviário) iniciou sua retomada nos três destinos. Os efeitos da crise no trabalho formal e informal do turismo A partir dos dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério da Economia, é possível verificar as atividades características do turismo que apresentaram maior perda de empregos formais, em termos absolutos e relativos (Tabela 1), durante a crise da Covid-19 no primeiro semestre de 2020. Tabela 1 – Número de empregos formais nas atividades características do turismo em Natal, Tibau do Sul e São Miguel do Gostoso em fevereiro e junho de 2020. NATAL TIBAU DO SUL SÃO MIGUEL DO GOSTOSO ACT Fev. Jun. Saldo Saldo (%) Fev. Jun. Saldo Saldo (%) Fev. Jun. Saldo Saldo (%) Hotéis e similares 4.422 3.060 –1.362 –30,8% 1.080 812 –268 –24,8% 201 156 –45 –22,4% Restaurantes e outros estabelecimentos de serviços de alimentação e bebidas 9.272 8.124 –1.148 –12,4% 791 605 –186 –23,5% 78 54 –24 –30,8% Agências de viagens 565 447 –118 –20,9% 22 23 +1 +4,5% 2 0 –2 –100% Atividades de organização de eventos, exceto culturais e esportivos 595 564 –31 –5,2% 5 4 –1 –20% 0 0 0 - Locação de automóveis sem condutor 470 439 –31 –6,6% 7 7 0 0,0% 0 0 0 - Fonte: Brasil, Ministério da Economia, Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, Rais, Caged. Organizado pelas autoras (2020). O mês de fevereiro de 2020 representa o cenário pré-pandemia, e ao compará-lo ao mês de junho de 2020, nota-se a perda significativa de empregos formais em hotéis e similares, com destaque para o município de 49 Natal, que mesmo sem ter decretado o fechamento dos meios de hospedagem, a ausência de turistas provocou uma perda de –30,8% dos postos de trabalho formais. Os hotéis e similares são os principais empregadores na área do turismo em Tibau do Sul e São Miguel do Gostoso, os quais apresentaram em junho um saldo de emprego negativo de –24,8% e –22,4%, respectivamente. Outro importante empregador na área do turismo nos três municípios em análise são os restaurantes e similares. Entretanto, em Natal a perda de empregos foi de –12,4%, uma queda menor a que ocorreu em Tibau do Sul (– 23,5%) e São Miguel do Gostoso (–30,8%). Informações obtidas em entrevistas com representantes de órgãos públicos e do trade turístico ii , realizadas em dezembro de 2020, indicam as razões para uma queda menos expressiva dos empregos no setor de alimentos e bebidas em Natal. Muitos restaurantes e similares da capital ampliaram sua atuação no ambiente digital, investiram no e-commerce, aplicativos de entrega e no público local, o que permitiu se readaptarem ao cenário de isolamento e distanciamento social. Já os restaurantes e similares do município de Tibau do Sul e de São Miguel do Gostoso, voltados especialmente para o público externo, ou seja, para os turistas, sofreram mais com a crise, tendo em vista que a população de ambos, além de ser pequena, possui baixo poder aquisitivo e, desta forma, não costumam realizar refeições em/de restaurantes. Empresas de organização de eventos, agências de viagens e locação de veículos são importantes empregadores apenas para o município do Natal. E desses, as empresas de organização de eventos foram as que apresentaram a menor perda de empregos, –5,2%, possivelmente por terem intensificado o uso de novas tecnologias de videoconferência e plataformas de transmissão ao vivo, permitindo a realização de eventos virtuais. Em Natal, as agências de viagens tiveram um saldo de empregos negativo de –20,9%, mesmo tendo sido utilizada a remarcação das viagens como estratégia para ultrapassar o período mais intenso da crise no primeiro semestre de 2020. O setor de turismo também é conhecido pela sua capacidade de gerar trabalho informal e precário, e em momentos de crise esses trabalhadores desprovidos de direitos trabalhistas são os que ficam em situação de maior vulnerabilidade. Nos destinos em estudo, o trabalho informal corresponde 50 especialmente aos vendedores ambulantes nas praias, garçons e cozinheiros de quiosques, que ficaram sem poder trabalhar de abril a agosto de 2020, devido às medidas restritivas de uso da praia e de funcionamento dos estabelecimentos comerciais da orla. Além dos trabalhadores informais, também ficaram em situação difícil os autônomos que dependem do fluxo turístico, tais como guias de turismo e bugueiros. De acordo com o Sindicato dos Bugueiros do Rio Grande do Norte (2020) iii , são cerca de 728 bugueiros que atuam no litoral do estado, sendo a maioria informal sem cadastro de microempreendedor individual (MEI), o que impossibilitou capitanearem recursos destinados ao socorro desse tipo de empresa. E, segundo o Sindicato de Guias de Turismo do Rio Grande do Norte (2020) iv , existem cerca de 600 guias de turismo no estado, que ficaram sem trabalho por cinco meses seguidos. Enquanto os trabalhadores formais, ao perderem seus empregos durante a crise, recorreram ao seguro-desemprego, os trabalhadores informais recorreram ao auxílio emergencial do governo federal. E para além das políticas de seguridade social, pôde-se verificar pelas entrevistas realizadas, que redes de solidariedade se formaram, envolvendo sindicatos, associações, órgãos públicos e a sociedade civil, para a arrecadação de cestas básicas e remédios em atendimento especialmente aos trabalhadores informais, que vivem e trabalham em condições precárias e cotidianamente enfrentam dificuldades de subsistência, mesmo em períodos sem crise. Considerações finais Das atividades características do turismo, nos municípios de Natal, Tibau do Sul e São Miguel do Gostoso, os meios de hospedagem foram os que apresentaram uma das maiores taxas de desemprego no decorrer dos primeiros quatro meses da crise (março a junho de 2020), visto que possuem pouca margem de manobra diante da ausência de turistas. É um serviço que requer em sua essência o deslocamento de pessoas pelo espaço e a permanência temporária nos destinos, o que foi colocado em xeque pela pandemia. Além dos meios de hospedagem, as atividades dependentes do fluxo turístico como as desenvolvidas pelos guias de turismo e pelos bugueiros, por exemplo, ficaram completamente inviabilizadas. Por outro lado, vimos as 51 alternativas criadas pelos empreendimentos nas áreas de alimentos e bebidas e organização de eventos, que ampliaram sua atuação no ambiente digital/virtual, permitindo se readaptarem ao cenário de isolamento e distanciamento social. Além do desemprego gerado sobretudo nas atividades mais dependentes do fluxo turístico, a crise da Covid-19 expôs os trabalhadores informais e autônomos do turismo a uma situação de maior vulnerabilidade, e evidenciou a importância das políticas de seguridade social e das redes de solidariedade. Referências AGÊNCIA NACIONAL DE AVIAÇÃO CIVIL. Base de dados estatísticos do transporte aéreo. ANAC, 2020. Disponível em: https://www.anac.gov.br/assuntos/setor-regulado/empresas/envio-deinformacoes/microdados. Acesso em: 3 set. 2020. BRASIL. Ministério da Economia. Secretaria Especial de Previdência e Trabalho. Relação Anual de Informações Sociais – RAIS. Base de dados online. 2020a. Disponível em: http://bi.mte.gov.br/bgcaged/rais.php. Acesso em: 3 set. 2020. BRASIL. Ministério da Economia. Secretaria Especial de Previdência e Trabalho. Cadastro Geral de Empregados e Desempregados – Caged. Base de dados online. 2020b. Disponível em: http://bi.mte.gov.br/bgcaged/caged.php. Acesso em: 3 set. 2020. BRASIL. Ministério do Turismo. Pesquisa de Sondagem Empresarial – 2019: empresários do setor de agências e organização de viagens no Brasil 2º semestre de 2019. MTur, 2019. Disponível em: http://dadosefatos.turismo.gov.br/component/k2/itemlist/category/17.html. Acesso em: 5 out. 2020. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Cidades: população estimada 2020. IBGE, 2020. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/. Acesso em: 1 out. 2020. RIO GRANDE DO NORTE. Decreto n. 28.934, de 18 de junho de 2019. Dispõe sobre a concessão de regime especial de tributação às empresas de transporte aéreo. Diário Oficial do Estado do Rio Grande do Norte. Disponível em: http://webdisk.diariooficial.rn.gov.br/Jornal/12019-06-19.pdf. Acesso em: 10 ago. 2020 RIO GRANDE DO NORTE. Decreto n. 29.512, de 13 de março de 2020. Dispõe sobre medidas temporárias de prevenção ao contágio pelo novo coronavírus (Covid19) no âmbito do Poder Executivo Estadual. Diário Oficial do Estado do Rio Grande do Norte. Disponível em: http://diariooficial.rn.gov.br/dei/dorn3/docview.aspx?id_jor=00000001&data=20200314 &id_doc=677161. Acesso em: 10 ago. 2020. 52 RIO GRANDE DO NORTE. Decreto n. 29.524, de 17 de março de 2020. Dispõe sobre medidas temporárias para o enfrentamento da Situação de Emergência em Saúde Pública provocada pelo novo Coronavírus (Covid-19). Diário Oficial do Estado do Rio Grande do Norte. Disponível em: http://diariooficial.rn.gov.br/dei/dorn3/docview.aspx?id_jor=00000001&data=20200318 &id_doc=677489. Acesso em: 10 ago. 2020. RIO GRANDE DO NORTE. Decreto n. 29.541, de 20 de março de 2020. Define medidas restritivas temporárias adicionais para o enfrentamento da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional decorrente do novo coronavírus (Covid19). Diário Oficial do Estado do Rio Grande do Norte. Disponível em: http://diariooficial.rn.gov.br/dei/dorn3/docview.aspx?id_jor=00000001&data=20200321 &id_doc=678003. Acesso em: 10 ago. 2020. SÃO MIGUEL DO GOSTOSO. Decreto n. 75, de 24 de março de 2020. Dispõe sobre medidas temporárias e excepcionais para o enfrentamento da pandemia ocasionada pelo novo coronavírus (Covid-19). Diário Oficial dos Municípios do Estado do Rio Grande do Norte. Disponível em: https://site.saomigueldogostoso.rn.gov.br/decreto/decreto-n-75-2020. Acesso em: 11 ago. 2020 TIBAU DO SUL. Decreto n. 15, de 23 de março de 2020. Dispõe sobre as medidas para enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do novo coronavírus (Covid-19 / SARS-CoV-2). Diário Oficial dos Municípios do Estado do Rio Grande do Norte. Disponível em: http://www.diariomunicipal.com.br/femurn/legislacao. Acesso em: 11 ago. 2020. i Conforme dados de vínculo empregatício do mês de dezembro de 2019 da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério da Economia. Nesse levantamento consideramos atividades características do turismo (ACT) as seguintes classes da CNAE: 55.10-8 Hotéis e similares; 55.90-6 Outros tipos de alojamento não especificados anteriormente; 56.11-2 Restaurantes e outros estabelecimentos de serviços de alimentação e bebidas; 77.11-0 Locação de automóveis sem condutor; 79.11-2 Agências de viagens; 79.12-1 Operadores Turísticos; 79.90-2 Serviços de reserva e outros serviços de turismo não especificados anteriormente; 8230-0 Atividades de organização de eventos, exceto culturais e esportivos. ii Foram realizadas entrevistas semiestruturadas por videoconferência (plataforma Google Meet) com representantes dos seguintes órgãos e entidades: Secretaria de Turismo do Município de São Miguel do Gostoso (15/12/2020); Secretaria de Turismo do Município de Tibau do Sul (17/12/2020); Secretaria de Turismo do Município do Natal (18/12/2020); Sindicato dos Guias de Turismo do Rio Grande do Norte (07/12/2020); Sindicato dos Bugueiros do Rio Grande do Norte (08/12/2020); Associação dos Quiosques de Ponta Negra (08/12/2020); Cooperativa de Jipeiros 4x4 (15/12/2020); Associação dos Ambulantes de Ponta Negra (16/12/2020). iii Informações obtidas em entrevista realizada com o representante do Sindicato dos Bugueiros do Rio Grande do Norte, no dia 8 de dezembro de 2020, por videoconferência (plataforma Google Meet). iv Informações obtidas em entrevista realizada com o representante do Sindicato dos Guias de Turismo do Rio Grande do Norte, no dia 7 de dezembro de 2020, por videoconferência (plataforma Google Meet). 53 Um olhar sobre o turismo em Recife, Fernando de Noronha, Ipojuca, e João Pessoa durante a pandemia Cristina Pereira de Araujo – UFPE Ilana Barreto Kiyotani – UFPB Denise Betânia Marques dos Santos – UFPE Adauto Gomes Barbosa – IFPE Otávio Augusto Alves dos Santos – UFRPE Camilla Andrade Lins – UFPE Este texto é resultante do esforço científico realizado pelo grupo Turismo em Tempos de Pandemia no contexto da pesquisa “Turismo em tempos de pandemia: uma análise multi e trans-escalar”, cujo objetivo é produzir uma análise dos impactos da pandemia da Covid-19 sobre o setor turístico, a partir de estudos de caso focados em algumas nações, regiões e localidades em diferentes condições de desenvolvimento econômico e com distintos graus de dependência da atividade turística. Analisamos aqui de forma sucinta como tal pandemia, e a crise sanitária dela decorrente, impactou o setor turístico de quatro importantes centros atrativos do Nordeste brasileiro, quais sejam: Recife, Fernando de Noronha, Ipojuca (PE) e João Pessoa (PB) (Mapa 1). Mapa 1 – Localização dos estados de Pernambuco e Paraíba com ênfase às localidades estudadas. Fonte: IBGE, 2019. 54 Os estados de Pernambuco e da Paraíba integram o Nordeste do Brasil, região cujo turismo constitui uma das mais importantes atividades econômicas. Paraíba é situada ao norte de Pernambuco e tem no município de João Pessoa, a sua capital. Já Pernambuco tem Recife como capital, a Ilha de Fernando de Noronha como distrito estadual e Ipojuca, ao sul do Recife, como um importante centro receptivo turístico do estado, graças à sua conhecida praia de Porto de Galinhas, de notoriedade internacional. Segundo a categorização dos municípios pelo Ministério do Turismo i , os três municípios pertencem à categoria A, e o distrito de Fernando de Noronha à B. Os dados e análises a seguir foram realizados entre os meses de setembro e dezembro de 2020. Durante este período realizamos levantamentos de informações sobre finanças e políticas públicas, atividades características do turismo (ACT), empregos e fluxos. Dada a atualidade da situação, que ainda se desenrola e que pode adquirir novos contornos, nossa análise é breve e preliminar. Contudo já tem nos permitido elaborar a hipótese segundo a qual as localidades de menor diversidade econômica e alta dependência dos serviços turísticos estão sentindo as consequências da pandemia de forma mais evidente. Mediante novos acontecimentos, mormente aqueles relacionados à segunda onda pandêmica e ao início do processo de vacinação, os dados coletados serão revistos e atualizados, permitindo-nos uma análise ulterior mais profunda. Análise comparativa antes e depois da pandemia A seguir apresentamos alguns dos dados com os quais podemos dimensionar os impactos ocasionados pela pandemia não apenas no setor turístico, mas também em muitas outras cadeias econômicas. Enfatizamos as informações sobre arrecadação pública, o trade turístico, emprego e fluxos (especialmente aeroportuário). Finanças públicas Os dados comparativos ii entre os primeiros semestres de 2019 e 2020 revelam que a arrecadação do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços), cuja competência é estadual, caiu para 55 todas as localidades estudadas (Gráfico 1). João Pessoa foi a que menos sentiu o influxo da arrecadação, na ordem de 4%. Na outra ponta, Ipojuca perdeu cerca de 50% na arrecadação, seguida da ilha de Fernando de Noronha, na ordem de 40%, e Recife, com 15%. Para o ISS (Imposto sobre Serviços), cuja arrecadação é municipal, observa-se que as perdas foram menores, variando em torno de 10% para todos os municípios (Gráfico 2). Num comparativo entre receitas e despesas gerais, percebe-se um discreto aumento na geração de receitas gerais em Ipojuca (10%) e Recife (12%), mas que praticamente equivale ao aumento de despesas verificado para ambos. Gráfico 1 – Variação (em %) da arrecadação do ICMS em 2019 e 2020, primeiro semestre. Fontes: Paraíba, Controladoria Geral do Estado, Portal da Transparência. Pernambuco, Secretaria da Controladoria Geral do Estado, Portal da Transparência. Organizado pelos autores (2020). Gráfico 2 – Variação (em %) da arrecadação do ISS em 2019 e 2020, primeiro semestre. Fontes: Paraíba, Controladoria Geral do Estado, Portal da Transparência. Pernambuco, Secretaria da Controladoria Geral do Estado, Portal da Transparência. Organizado pelos autores (2020). -39,88 -14,97 -49,19 -4,31 -60,00 -50,00 -40,00 -30,00 -20,00 -10,00 0,00 Fernando de Noronha/PE Recife/PE Ipojuca/PE João Pessoa/PB -11,51 -8,64 -9,41 -14,00 -12,00 -10,00 -8,00 -6,00 -4,00 -2,00 0,00 Recife/PE Ipojuca/PE João Pessoa/PB 56 Trade turístico A Tabela 1 apresenta os dados disponibilizados pelo Cadastro de Prestadores de Serviços Turísticos (BRASIL, 2020b) referentes ao número total de agências de viagem, meios de hospedagem, restaurantes, bares e similares, locadoras de veículos e empresas de eventos devidamente cadastrados junto ao Ministério do Turismo. De março a setembro de 2020, a atividade hoteleira de Fernando Noronha suspendeu suas atividades por 165 dias, Ipojuca por 96 dias e Recife iii não suspendeu as atividades, ao passo que a capital da Paraíba, João Pessoa, suspendeu por 150 dias (JOÃO PESSOA, 2020; PERNAMBUCO, 2020). Tabela 1 – Prestadores de serviços turísticos cadastrados no Cadastur. Município Agências de viagem Meios de hospedagem Restaurantes, bares e simil. Locadoras de veículos Empresa de eventos Recife 473 60 14 13 81 F. Noronha 13 106 7 4 0 Ipojuca 85 164 12 1 4 João Pessoa 235 98 84 17 30 Fonte: Brasil, Ministério do Turismo, Cadastur. Organizado pelos autores (2020). Mesmo não tendo suspendido suas atividades, a taxa de ocupação dos meios de hospedagem em Recife iv caiu de 65%, no primeiro semestre de 2019, para 34%, no primeiro semestre de 2020, levando a uma variação negativa importante de quase 50% da taxa de ocupação para o período. Em contrapartida, João Pessoa aumentou sua taxa de ocupação v em cerca de 11%, variando de 61% de ocupação em 2019, para 67,5% em 2020, para o mesmo período estudado. Ressalte-se que em razão de se referirem ao total semestral, esses dados ainda não traduzem o impacto sofrido nos meses de abril a junho, quando os períodos de isolamento social foram estabelecidos no país. Verificando mensalmente a taxa de ocupação hoteleira no Recife, por exemplo, observouse alta variância negativa nos meses de março (–38%), abril (–7%), maio (–- 8%) e junho (–14%). 57 Emprego No tocante ao desempenho do trabalho no setor, foram analisados os dados e informações disponibilizadas pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) (BRASIL, 2020a) referente às ACT que englobam as oito atividades relacionadas ao turismo de acordo com a descrição Cadastro Nacional de Atividades de Emprego (CNAE), quais sejam: hotéis e similares; outros tipos de alojamento; restaurantes e afins; locação de automóveis; agência de viagens; operadores turísticos; serviços de reserva; e atividades de organização de eventos. Em Recife, a movimentação foi negativa para todas essas atividades, gerando mais demissões do que admissões no período comparado. O setor mais afetado, em números absolutos, foi o de restaurantes, que registrou um saldo negativo (balanço entre admissões e demissões no período) de 3.260 entre janeiro e junho de 2020, contra um saldo negativo de 407 postos de trabalho para o mesmo período em 2019, assim, uma variação negativa de 800%. O segundo setor mais afetado foi a hotelaria, registrando um saldo negativo de 972 perdas, ante um saldo positivo de 5 novos postos de trabalho gerados em 2019, levando a uma variação negativa de 19.440%. O distrito de Fernando de Noronha apresentou comportamento similar, registrando um saldo negativo de 69 postos de trabalho no setor de restaurantes em 2020, ante um saldo negativo de 17 postos em 2019, portanto uma variação de 406%. O setor de hospedagem apresentou um saldo de demissões de 130 postos para o primeiro semestre de 2020, ante um saldo positivo de geração de 3 novos postos em 2019. O setor de hospedagem foi o que mais sofreu em Ipojuca. Um saldo de 2.393 demissões no primeiro semestre de 2020 comparados à geração de 10 novos postos de trabalho em 2019, atingindo uma variação negativa na ordem de 24 mil%. O setor de restaurantes registrou saldo negativo de 1 demissão para 2019 ante 247 demissões para 2020, sempre considerando o primeiro semestre de ambos os anos. Em João Pessoa observou-se o mesmo comportamento do Recife, onde em números absolutos registraram-se perdas de 1.148 postos de trabalho no setor de restaurantes em 2020 ante 71 perdas em 2019. Para o setor de 64 mantém viva a cultura e costumes locais, e favorece a distribuição dos benefícios entre os diversos pequenos empreendimentos de capital local. Panorama geral Não há dúvida que o transporte aéreo, os meios de hospedagem e as agências e operadoras de turismo de imediato foram os maiores impactados pela pandemia de Covid-19. Mas, ao considerar a nível local, configura-se um quadro com consequências que atingiram também o comércio em geral, o setor de alimentação, o hoteleiro e de lazer e principalmente os trabalhadores desse meio. Esse quadro repercute em muitas atividades nos locais com maior dependência do turismo, a exemplo dos comércios e trabalhadores formais e informais que dependiam do funcionamento das pousadas e hotéis ativos no Pantanal ou do parque da Chapada dos Guimarães para receberem turistas e desempenharem os seus papéis normalmente, garantindo, dessa forma, o seu sustento. Os reflexos puderam ser sentidos, assim como em outros locais do Brasil e do mundo, a partir da emissão de decretos e orientativos, relacionados às medidas de prevenção necessárias para evitar a expansão do vírus: com a exigência da paralização das atividades econômicas, das atividades que originassem a aglomeração de pessoas, e com a proibição da entrada de turistas nos municípios. No estado de Mato Grosso esses efeitos foram sentidos principalmente nos meses de março, abril e maio de 2020, quando ocorreram as maiores restrições. Houve grande impacto no fluxo de turistas, o que pode ser sentido ao se comparar o número de passageiros no aeroporto de Várzea Grande-MT do mês de abril de 2019 (116.881 passageiros) com abril de 2020 (5.741 passageiros) (BRASIL, 2020). As paralizações temporárias de empresas (entre os meses de abril e setembro de 2020) e o fechamento de outras, o crescimento do desemprego, as interferências na arrecadação e nas despesas com o turismo nesses municípios são outras das consequências da epidemia de Covid-19 (JUCEMAT, 2020; MATO GROSSO, 2020; TCE, 2020). Foram necessárias mobilizações por parte do governo e até de iniciativas privadas e filantrópicas para amparar pessoas físicas e jurídicas durante esse período, 65 com a expansão do programa de auxílio do governo até dezembro de 2020, na tentativa de amenizar a situação de impacto socioeconômico. Além de todas as consequências oriundas da crise da pandemia de Covid-19, podemos acrescentar que os quatro municípios pertencentes ao recorte estudado, tiveram suas economias e atividades socioeconômicas e ambientais seriamente atingidas com a seca e as queimadas. Houve recorde no histórico de focos de queimadas no bioma Pantanal nos meses de agosto e setembro, chegando a 8.106 focos no último mês e um dos níveis mais baixos do rio Paraguai registrado em Cáceres-MT nos meses de setembro e outubro (INPE, 2020). Esses impactos coincidem com uma parte do período de ocorrência e consequências da crise da Covid-19, o que tornou ainda mais complicada a situação nesses municípios. É notável que o período de isolamento social, a possibilidade de outras ondas de contágio, mais empresas entrando em falência, o aumento do desemprego, a necessidade de continuidade das medidas de precaução contra a proliferação do vírus mesmo com a aplicação da vacina, são fatores que ainda acompanharão as atividades no setor de turismo. Em decorrência do ano atípico que foi 2020, com as ações impostas pela pandemia proveniente da necessidade de isolamento social e medidas de contenção ao contágio da Covid-19, fortaleceu-se o perfil de consumo de produtos turísticos, com a busca de destinos mais locais ou regionais, com preferência por viagens mais próximas de seus domicílios, com inovações no setor e readaptação à nova realidade. Com o fortalecimento do turismo local e regional, o tema do “turismo sustentável” entra em voga, cogitado como uma alternativa para uma ressignificação do setor, com base na possibilidade de beneficiamento da comunidade local, com modalidades de desenvolvimento turístico que permitam preservar os recursos naturais e com a perspectiva de um crescimento econômico constante e sustentável. Diagnóstico A pandemia de Covid-19 está fornecendo a oportunidade de as pessoas ficarem mais tempo isoladas, trabalhando em seus lares, com menor 66 necessidade de deslocamentos e, em consequência, mais tempo para refletir e investir em pensamentos relevantes. A partir dessa consequência positiva da pandemia, o aumento do tempo para se refletir sobre a vida e as mudanças necessárias nos diferentes setores da sociedade também repercutiram no turismo, fato observado em grande número de publicações que fazem referência ou abordam plenamente a possibilidade de focar as novas diretrizes do turismo, os novos caminhos a serem percorridos para a via do turismo sustentável. Uma opção inegavelmente interessante, dado os inúmeros benefícios que pode gerar ao planeta e à humanidade no que se refere a qualidade de vida. O turismo sustentável é uma opção altamente viável, contudo é sempre importante informar-se, para não desejar utopias e ter consciência dos obstáculos a serem superados para atingir esse estágio de desenvolvimento da atividade turística. Deste ponto em diante, esta análise terá centrado o seu conteúdo no estado de Mato Grosso, e mais especificamente nos quatro municípios, objeto de estudo deste grupo de pesquisa: Cáceres, Chapada dos Guimarães, Barão de Melgaço e Poconé. Iniciando com algumas indagações pertinentes, que poderiam delinear sobre possíveis cenários futuros, no que tange a vontade dos atores políticos, do trade turístico e dos munícipes desses locais. Como estes municípios podem fortalecer o turismo de um jeito que priorize a sustentabilidade? É certo que o ávido leitor é capaz de imaginar inúmeras propostas neste sentido, mas como poderiam, esses quatro municípios, fornecerem alternativas sustentáveis quando seu modelo socioeconômico dista muito dos parâmetros da sustentabilidade? Eles ainda se caracterizam:  pela falta de tratamento de águas residuais e esgoto sanitário, depositando-o diretamente no subsolo (através das fossas sépticas), contaminando, assim, o lençol freático;  pela existência de grandes lixões ativos e pela deficiente gestão dos resíduos sólidos urbanos;  pela escassez de água potável, com constantes interrupções no fornecimento na rede de abastecimento e furando poços cada vez mais fundos; 67  pela ausência de programas de recuperação de nascentes, da mata ciliar que protege os cursos d’água, dessecando as frágeis zonas úmidas e/ou modificando suas caraterísticas para atividades em crescimento como a piscicultura;  pela falta de medidas de proteção e escassa manutenção das infraestruturas, favorecendo a erosão, transporte dos sedimentos e deposição no Pantanal com o seu consequente assoreamento;  pelos núcleos urbanos sem rede de captação de águas pluviais, permitindo que elas alastrem os contaminantes do meio urbano até os cursos d’água;  pela carência de políticas de planejamento urbano que favoreçam a construção sustentável, permitindo a impermeabilização do solo com amplas áreas concretadas nos quintais das residências e consequente aumento das águas pluviais que invadem livremente as vias urbanas, além da diminuição das áreas verdes. Sustentabilidade não é fazer as coisas como sempre foram feitas, como no passado. O mundo muda dia a dia e as condutas devem ser adaptadas às mudanças de um jeito lógico, visualizando as consequências que podem trazer essas decisões, a médio e longo prazo. A atividade agropecuária vem sendo desenvolvida na região do Pantanal a mais de trezentos anos e, com isso, muitos podem pensar que é uma atividade sustentável, respeitosa ao meio ambiente e que visa a conservação da biodiversidade do bioma. Mas, não podem passar despercebidos alguns fatos, como o grande crescimento do rebanho bovino, a necessidade de uso de insumos agrícolas e preparação do solo para a inserção e manutenção das pastagens. Assim, inquirimos sobre a capacidade de suporte do Pantanal com milhares de animais domésticos no seu interior, e as consequências derivadas disso. A compactação do solo causada pelos grandes herbívoros e pelo tráfego de tratores na preparação das lavouras e formação das áreas de pastagem são somente alguns dos fatores que limitam a permeabilidade dos solos, diminuindo sua capacidade de infiltração e retenção da água, aumentando a erosão laminar e resultando em toneladas de terra que terminam assoreando o Pantanal. 68 É preciso pensar de que forma poderia se conciliar o uso da terra, não só no interior da planície pantaneira, como nos planaltos adjacentes, que com o desenvolvimento de monoculturas e atividades mineradoras, são grandes fornecedoras de solo e de cargas de agroquímicos, com contaminação do solo, da água e de animais. Não podemos ignorar os projetos de recuperação que vêm sendo realizados por organizações de relativa importância nas cabeceiras dos rios que alimentam o Pantanal. Projetos de recuperação ambiental que não incluem medidas eficientes de controle de erosão, melhoria das condições do solo ou barreiras para impedir a incorporação de agroquímicos aos cursos d’água. Caraterísticas estas que compartilham com os projetos das grandes companhias (como as dedicadas a execução de obras de grandes infraestruturas de geração de energia). Como desenvolver um turismo nesses municípios que, como proposto no viés da sustentabilidade, gere benefícios que sejam também compartilhados de forma mais adequada e justa com a comunidade local? Em muitos casos, essas comunidades apenas veem os visitantes passarem pela porta de suas casas em direção ao Pantanal e ao Parque da Chapada dos Guimarães e desconhecem quaisquer benefícios de ter no território de seus municípios a entrada de tantas pessoas. Neste momento, acrescenta-se o fato de tais visitantes serem possíveis transportadores e transmissores do novo coronavírus. Considerações finais O retorno das atividades turísticas está ocorrendo de forma gradual e não poderia ser diferente, devido ainda ao vigor das medidas de contenção da Covid-19, à necessidade do isolamento social e à adoção das medidas sanitárias. Esse setor da economia segue notadamente com tímida recuperação, principalmente por se tratar de um serviço de consumo não essencial. Contudo a maioria dos estabelecimentos voltaram a operar, seguindo as orientações de medidas protetivas ao consumidor. A retomada plena das atividades turísticas encontra-se também condicionada a fatores externos ao que pode ser feito pelos estabelecimentos para atrair os turistas, como a erradicação da doença Covid-19 com a 69 administração da vacina, conforme as orientações da Organização Mundial da Saúde e a retomada da malha aérea oferecida antes e que foi reduzida drasticamente. Outras ações ainda poderão acontecer a longo prazo, como o surgimento de novos empreendimentos no lugar dos que se fecharam, gerando empregos e renda. Houve forçosamente a mudança de hábitos, devido ao receio que as pessoas têm, com a pandemia, de percorrer longas distâncias e de se aglomerar, preferindo viagens curtas, via rodovias, alavancando o turismo local e/ou regional nesse primeiro momento. O turismo de base local ou regional fortalecido proporcionou maior atenção à possibilidade do desenvolvimento de mudanças voltadas ao turismo sustentável, que para ocorrer precisa do apoio das instituições públicas que têm a capacidade legal de tomar decisões, legislar e fazer cumprir a lei. Porém, elas não devem ser os únicos responsáveis pelas ações, pois sempre será mais fácil fazer as coisas do jeito que sempre foram feitas, e, para que ocorram as mudanças, será preciso sair da zona de conforto. Para que se desenvolva um turismo sustentável de fato, deve-se partir da necessidade de mudança em toda a organização da sociedade, composta por pessoas que precisam ter sua base de ensino modificada. Mudanças no sistema educativo são prementes, pois em muitas ocasiões é possível verificar que não se educa, mas se doutrina as novas gerações para (desmotivados a pensar, analisar, duvidar, pesquisar e descobrir) continuar sendo mais uma peça na engrenagem de uma vida rápida, sendo consumidores e não cidadãos, com valores éticos e morais bem longe do caminho da sustentabilidade, com expectativa de visitar países do outro lado do planeta, enquanto não conhecem nem mesmo a verdadeira realidade do lugar onde vivem. Aproveitando-se a premência de repensar os valores e a importância da vida e a forma de organização da sociedade proporcionadas com a incidência da pandemia da Covid-19 nos anos de 2020 e 2021, instiga-se a esperança de que, após algumas décadas, possa ocorrer uma mudança radical na educação, com o surgimento de uma sociedade capacitada para desenvolver modelos de sustentabilidade (incluindo no turismo) e para eleger representantes que, através das instituições públicas, defendam, apoiem e fortaleçam esses modelos de sustentabilidade. 70 Uma sociedade que sinta orgulho de ter dentre seus membros algum prêmio Nobel e não se conforme somente com Copas do Mundo, na qual se tenham mais livros e menos armas, e que os livros sejam respeitados e temidos, tanto quanto são agora as armas. Referências BRASIL. MINISTÉRIO DA INFRAESTRUTURA, Secretaria da Aviação Civil (SAC), 2020. Disponível: https://www.gov.br/infraestrutura/pt-br. Acesso em: 23 nov. 2020. INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS. Portal do Monitoramento de Queimadas e Incêndios. INPE, 2020. Disponível em: http://www.inpe.br/queimadas. Acesso em: 12 nov. 2020. JUNTA COMERCIAL DO ESTADO DE MATO GROSSO. Número de empresas turísticas que encerraram atividades em 2019/2020. Cuiabá: JUCEMAT, 2020. Informações repassadas e solicitadas da Jucemat via e-mail, em agosto de 2020. MATO GROSO. Secretaria de Estado de Fazenda. Fundo de participação dos municípios. Disponível em: http://www5.sefaz.mt.gov.br/fundo-de-participacao-dosmunicipios. Acesso em: 20 ago. 2020. TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO DE MATO GROSSO. Receita. TCE, 2020. Disponível em: https://cidadao.tce.mt.gov.br/home/controleSocialReceita#. Acesso em: 18 set. 2020. 71 Turismo e a pandemia de Covid-19 no Mato Grosso do Sul Amilton Luiz Novaes – UFGD Edvaldo Cesar Moretti – UFGD Joyce Avila de Oliveira – IFMS Karoline Batista Gonçalves – UFGD Mara Aline Ribeiro – UFMS O estado de Mato Grosso do Sul (MS), localizado na região Centro-Oeste do Brasil, na fronteira com a Bolívia e o Paraguai, possui aproximadamente 2.809.394 habitantes (IBGE, 2020), distribuídos em 79 municípios. Apesar da divisão do estado em nove regiões turísticas, o MS possui dois polos turísticos principais: o Pantanal (destaque para os municípios de Corumbá, Aquidauana e Miranda) e Bonito/Serra da Bodoquena (destaque para os municípios de Bonito, Jardim e Bodoquena, que abarcam o Parque Nacional da Serra da Bodoquena). Para o desenvolvimento e análise da temática proposta, definimos o recorte espacial Serra da Bodoquena e Pantanal por serem lugares receptores de turistas nacionais e internacionais, além de apresentarem as maiores taxas de dependência do turismo baseada em número de estabelecimentos, número de empregos e massa salarial. Esse ensaio crítico tem como objetivo compartilhar uma primeira caracterização da situação da pandemia de Covid19 nos municípios definidos para o estudo no MS, apresentando os dados da primeira fase da pesquisa “Turismo em tempos de pandemia: uma análise multi e trans-escalar”. A análise estará voltada para os seguintes eixos: evolução do vírus no MS, finanças dos municípios, atividades turísticas e o setor privado, empregos e benefícios ligados ao setor turístico, e fluxo de turistas. Apesar do primeiro registro de caso de Covid-19 no Brasil ter ocorrido em fevereiro de 2020, especialistas acreditam que antes desta data o vírus já circulava no país. Note-se que somente no dia 12 de março ocorreu o primeiro óbito confirmado, um dia após a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretar pandemia pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2). No prazo de uma semana as primeiras medidas relacionadas ao setor turístico foram tomadas. Os dois primeiros casos de Covid-19 no estado do Mato Grosso do Sul foram confirmados pela Secretaria Estadual de Saúde (SES) no dia 14 de março de 2020, ambos na capital Campo Grande. Na segunda quinzena do 72 mesmo mês a Assembleia Legislativa decretou estado de calamidade com efeitos até 31 de dezembro de 2020. Como medida sanitária na capital foi instalado um controle sanitário no Aeroporto Internacional de Campo Grande. Apesar da suspensão das aulas nas escolas ocorrer nos dias 18 e 25 de março, as medidas sanitárias para evitar a expansão do vírus foram aceleradas apenas após a ocorrência do primeiro óbito registrado na cidade de Dourados, no interior do estado. Neste período a instabilidade das informações não permitia o entendimento da real situação da pandemia. Somente na metade do mês de abril começaram os agendamentos para exames de Covid-19 por meio do sistema “Drive-Thru Coronavírus”, inicialmente na capital e posteriormente expandido para os municípios do interior. Especificamente para os municípios definidos para este ensaio, os primeiros casos de Covid-19 em Corumbá e Miranda foram confirmados no mês de abril, enquanto nos municípios de Bonito, Jardim e Bodoquena somente no mês de maio, mesmo período em que iniciaram as atividades do Drive-Thru em Corumbá, localizado no Pantanal sul-mato-grossense. Neste período a Secretaria de Estado de Saúde do MS alertou para interiorização dos casos de coronavírus, próximo ao Parque Nacional da Serra da Bodoquena, onde houve o crescimento exponencial na incidência de casos. Nas vizinhanças de Jardim e Bonito houve um verdadeiro surto epidêmico localizado no município de Guia Lopes da Laguna, onde foram contabilizados 990 casos por 100 mil habitantes, sendo que este município tem uma população estimada de 9.824 pessoas (IBGE, 2020). Também foi confirmado o aumento de casos em Bonito, 63 casos por 100 mil habitantes, e Jardim, com 76 casos por 100 mil habitantes. Até o final de julho, o número de óbitos em Mato Grosso do Sul era considerado baixo, sendo o estado com o menor número de casos confirmados do novo coronavírus, e com o registro de somente duas mortes por Covid-19 nos municípios correspondentes ao recorte deste estudo, os dois em Corumbá. A suspensão das atividades do trade turístico ocorreu em Bonito no dia 17 de março com o Decreto Municipal nº 091/2020, o qual interrompeu temporariamente as atividades com potencial de aglomeração de pessoas. Por meio deste decreto, além das atividades ligadas à educação e desporto, foram suspensos: boates, danceterias e salões de festas; casas de festas e eventos; 73 atrativos turísticos públicos e privados; meios de hospedagens, incluindo os cadastrados no Airbnb e outras plataformas digitais; clubes de serviço e de lazer; feiras, exposições, congressos e seminários; parques de diversão e parques temáticos; pubs, tabacarias e congêneres. Essa paralisação das atividades ligadas ao turismo vai se estender por aproximadamente noventa dias, sendo que no mês de junho o retorno das atividades ocorreu de forma facultativa, mas muitos optaram em reabrir somente no dia 1º de julho. Em relação às finanças dos municípios do MS contemplados neste estudo, há importantes alterações comparando o primeiro semestre de 2019 ao primeiro semestre de 2020. A arrecadação do Imposto sobre Serviço de Qualquer Natureza (ISSQN) referente ao total das atividades sofreu alterações significativas no município de Miranda (–63,27%) (MIRANDA, 2020), sendo que nos outros municípios o aumento ou diminuição do valor arrecadado no primeiro semestre não chegou a 10% (AQUIDAUANA, 2020; BODOQUENA, 2020; BONITO, 2020; CORUMBÁ, 2020; JARDIM, 2020). Em relação às despesas com a atividade turística, para a maioria dos municípios estes dados não estavam disponíveis nos portais da transparência. Os municípios de Aquidauana (39,3%) e Corumbá (8,19%) tiveram aumento nas despesas com o turismo, sendo que em Corumbá estas despesas são executadas por meio do Fundação de Turismo do Pantanal, enquanto nos demais a execução é feita pelo Fundo Municipal de Turismo (AQUIDAUANA, 2020; CORUMBÁ, 2020). No município de Bonito, houve uma redução de 53,02% nas despesas com este setor (BONITO, 2020). Para os demais municípios as informações não foram encontradas até o início do mês de outubro de 2020. Na atividade turística no MS a pandemia da Covid-19 promoveu uma forte retração, com fortes impactos no setor privado do turismo, o qual apresentou redução em todas as frentes. Note-se que 289 empresas características do turismo encerraram as atividades entre janeiro e setembro de 2020 (OBSERVATÓRIO DO TURISMO DE MS, 2020), sendo a de alimentação e alojamento as mais prejudicadas, com variação em relação a 2019 de –52,1%. É importante considerar que o estado não possui rede hoteleira e de alimentação internacionais de grande porte na área delimitada, já que os municípios são pequenos, com até 100 mil habitantes, e o fluxo de turistas não 80 causador da Covid-19). As ações emergenciais impuseram restrições severas à mobilidade das pessoas: houve controle ou mesmo proibição de acesso aos municípios estudados (pelos vários modais de transportes turísticos e não turísticos), fechamento de seus atrativos, serviços e equipamentos turísticos e cancelamento dos eventos – ações que incidiram sobre os fluxos turísticos. Nos principais aeroportos da capital, o Internacional Antônio Carlos Jobim e o Santos Dumont, considerados os portões de entrada de turistas, apesar de não terem suas atividades suspensas com a pandemia, foi possível constatar o movimento reduzido devido à ausência de passageiros. Ao comparar o movimento do primeiro semestre de 2019 (1.123.284 passageiros desembarcados) com o mesmo período de 2020 (534.709 passageiros desembarcados), o saldo do turismo internacional foi 50% menor entre turistas brasileiros e estrangeiros. Quanto ao turismo doméstico, a redução foi similar para o mesmo período: 4.335.406 de passageiros desembarcados em 2019 e 2.345.263 de passageiros desembarcados em 2020 (INFRAERO, 2020). Já em Armação dos Búzios e Paraty, os aeroportos deixaram de operar em abril, retornando somente em agosto. Em dezembro, como estratégia para a retomada do setor, houve o início de operação de novos voos executivos nestes aeroportos (ARMAÇÃO DOS BÚZIOS, 2020a). No que se refere ao fluxo de cruzeiros, os municípios do Rio de Janeiro e de Armação dos Búzios receberam fluxos regulares durante os meses de novembro de 2019 a março de 2020. Quando a pandemia foi decretada, faltava pouco mais de um mês para que esta temporada fosse finalizada; assim, o impacto no período não ocorreu. Mesmo com o número menor de passageiros embarcados e desembarcados na temporada 2019-2020 na capital (304 mil passageiros) em relação a temporada 2018-2019 (380 mil passageiros), o impacto da temporada 2019-2020 foi maior em 7,6% que a anterior, o que leva a entender que houve tempo para a conclusão da temporada com resultados positivos (PIER MAUÁ, 2020). Contudo, a temporada de cruzeiros marítimos 2020-2021 foi cancelada pelas maiores empresas do setor (MSC Cruzeiros 1 e Costa Azul) em razão da pandemia em curso e, segundo o Píer Mauá (2020), a 1 A MSC Cruzeiros anunciou esta decisão no final do ano de 2020 motivada pela demora em conseguir, junto às autoridades sanitárias e portuárias brasileiras, permissão para a retomada dos cruzeiros marítimos no país, conforme informações publicadas no site da empresa. Disponível em: https://www.msccruzeiros.com.br/noticias/msc-cruzeiros-temporada-2020-2021. Acesso em: 7 abr. 2021. 81 temporada que se iniciaria em outubro de 2020 prevista até março de 2021 não ocorreu. O transporte marítimo comercial privado em Armação dos Búzios teve circulação proibida de março a maio de 2020 (ARMAÇÃO DOS BÚZIOS, 2020b), e de março a início de agosto em Paraty (PARATY, 2020a). O transporte rodoviário também foi afetado a partir de março de 2020, tanto pelo fechamento de terminais quanto pela suspensão de algumas linhas de ônibus interestaduais e internas ao estado nos quatro municípios em análise. Em dezembro de 2020, ainda permaneciam com restrições o acesso de transportes coletivos em Paraty e Armação dos Búzios, sendo liberados desde julho em Petrópolis e no Rio de Janeiro. Assim como ocorreu nos aeroportos, o movimento no principal terminal rodoviário do estado, a rodoviária do Rio de Janeiro também sofreu uma redução brusca ao compararmos os dados referentes ao primeiro semestre de 2020 com o mesmo período em 2019 (em 2019, 2.873.151 passageiros embarcaram na capital e, em 2020, foram 1.417.771), segundo informações da Rodoviária do Rio de Janeiro 2 . As barreiras sanitárias de acesso aos municípios turísticos de Búzios, Petrópolis e Paraty foram iniciadas a partir do final do mês de março, embora não tenham provocado bloqueios totais. Petrópolis flexibilizou a entrada de carros, vans e ônibus cujos passageiros tivessem como destino as lojas do polo de moda ou hotéis e pousadas, a partir de 9 de julho de 2020 (exigindo a apresentação de vouchers emitidos pelos empreendimentos). Armação dos Búzios e Paraty somente permitiram a entrada de turistas a partir de agosto, também com a apresentação de documentos de reserva (vouchers ou QR Code) na rede de hospedagem. Deve-se destacar que no estado do Rio de Janeiro estabeleceu-se o Pacto Estadual Social pela Saúde e Economia, um sistema de bandeiras coloridas (vermelha, amarela e verde) que considera dois critérios para aumentar ou flexibilizar restrições: taxa de ocupação de leitos de Unidades de Tratamento Intensivo (UTI) e taxa de crescimento de novos casos da Covid-19, o que foi seguido por alguns de seus municípios, como é o caso de Paraty que, no entanto, implementou modificações no plano original, atendendo às especificidades do município. 2 Informações obtidas junto à rodoviária do Rio de Janeiro, via e-mail, em agosto de 2020. 82 Portanto, ao analisar os efeitos dos dias de fechamento de acesso aos quatro municípios em estudo e o impacto nos negócios turísticos, pode-se constatar que o setor de eventos foi o mais impactado. Desde o início da pandemia, verifica-se um retorno lento e gradual dos eventos, mas com a imposição de muitas restrições. No município do Rio de Janeiro, isso passa a acontecer a partir de junho e em Petrópolis, apenas em agosto. Nos municípios de Armação dos Búzios e Paraty, até o mês de dezembro de 2020, os eventos ainda não haviam sido retomados. Por outro lado, locadoras de veículos, bares, restaurantes e hotelaria, de modo geral, puderam reiniciar suas atividades a partir de junho. Exceções se deram no município de Paraty, que somente permitiu que agências de viagens retomassem seus serviços ao público, de forma presencial, em setembro, e o setor de hotelaria, em julho. O município do Rio de Janeiro não fechou seus hotéis; bares e restaurantes retomaram as atividades em julho, mesmo que com restrições sanitárias. Com o prolongamento da pandemia para o quarto trimestre do ano de 2020, observou-se que os decretos municipais mantiveram certa flexibilização em relação ao acesso às praias, parques e aos municípios de maneira geral. Iniciou-se a abertura associada à aplicação de protocolos sanitários, atendendo à limitação de ocupação e atendimento nos estabelecimentos turísticos. No início de dezembro de 2020, os municípios, embora com diferentes estágios de disseminação da doença, flexibilizaram suas suspensões e proibições; no entanto, reforçavam a necessidade de manutenção do distanciamento social seletivo e orientavam, por meio de seus decretos e protocolos, para cada setor evitar as aglomerações em estabelecimentos de alimentação, hospedagem e recreação, especialmente pela iminência de uma segunda “onda” da doença e dos efeitos das aglomerações comuns de ocorrerem nas festas de final de ano no Brasil. Questões socioeconômicas relativas ao turismo no contexto da pandemia da Covid-19 Em maio de 2020, existia um total de 94.030 empresas nos setores de agências de viagens, bares, restaurantes e similares, transportes, meios de hospedagem e eventos nos quatro municípios em estudo registrados na Receita Federal (DATASEBRAE, 2020). O maior número de empresas 83 correspondia ao setor de bares, restaurantes e similares (47.943), e de eventos (17.268). Os meios de hospedagem eram as empresas mais expressivas em todos os destinos, sendo 2.592 no Rio de Janeiro, 610 em Armação dos Búzios, 538 em Paraty e 197 em Petrópolis. Ainda com base nos dados do DataSebrae (2020), o município do Rio de Janeiro contava com o maior número de empresas tanto do setor de alimentos e bebidas (43.931 empresas), quanto de eventos (16.639 empresas). Em dezembro de 2020 não havia, ainda, dados seguros disponíveis que permitissem traçar um panorama a respeito dos impactos verificados junto às empresas do setor no estado, havia somente pesquisas realizadas por associações e sindicatos com seus associados e sindicalizados que demostravam impacto significativo nos setores relativos ao turismo, como, por exemplo, o fechamento definitivo de 30% dos bares e restaurantes da capital fluminense (BOUÇAS, 2020). Mas é importante destacar que essa cifra representa somente parcela do setor, não sua totalidade. Os empregos no setor, ao comparar dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) dos primeiros semestres de 2019 e 2020, retrataram uma maior quantidade de demissões que admissões (Tabela 1) em todas as oito atividades características do turismo (ACT) nos municípios estudados. O impacto maior aconteceu a partir do mês de março de 2020, com números absolutos atípicos se comparados ao mesmo período do ano anterior. Neste caso, é possível pressupor que as demissões tiveram relação direta com as restrições decorrentes da pandemia da Covid-19. Tabela 1 – Atividades características do turismo 2019/2020 nos destinos em estudo Destino Arm. dos Búzios Paraty Petrópolis Rio de Janeiro Ano 2019 2020 2019 2020 2019 2020 2019 2020 Saldo de emprego –312 –1.306 –85 – 439 –20 –1024 1.217 –25.939 Fonte: Brasil, Ministério da Economia, Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, Caged. Organizado pelos autores (2020). Quanto às finanças públicas dos municípios no período estudado, houve variação positiva em suas receitas gerais, com exceção de Armação dos Búzios, que sofreu ligeira redução. O aumento da arrecadação, por outro lado, veio acompanhado de incremento das despesas gerais, menos para o 84 município do Rio de Janeiro, onde tais despesas tiveram diminuição. No geral, o saldo, em termos percentuais, foi negativo para todos os municípios do recorte, exceção à Petrópolis (Tabela 2). Tabela 2 – Variação em % de receitas e despesas gerais entre os primeiros semestres de 2019 e 2020. Destino Arm. dos Búzios Paraty Petrópolis Rio de Janeiro Receita Despesa Receita Despesa Receita Despesa Receita Despesa Variação % entre 1º semestres de 2019 e 2020 –2,8 5,3 6,82 7,1 11,2 2,4 4,57 –5,4 Fonte: Portal Transparência Prefeituras Municipais de Armação dos Búzios, Paraty, Petrópolis e Rio de Janeiro. Organizado pelos autores (2020). Quanto às medidas econômico-financeiras de apoio às empresas e trabalhadores do setor, no geral, as ações foram bastante embrionárias. Em Armação dos Búzios, houve suspensão das cobranças do Imposto Predial Territorial e Urbano (IPTU), taxas (como a de publicidade) e multas durante o período de emergência. No município do Rio de Janeiro, foi realizado o procedimento de credenciamento de estabelecimentos hoteleiros para a hospedagem de idosos assintomáticos moradores de comunidades carentes, além de uma ajuda social prévia ao setor hoteleiro. A exceção se deu em Paraty, onde se criou o projeto “Recomeçar”, com liberação de crédito emergencial para microempreendedores e microempresas, viabilizado pelo Fundo Emergencial criado pela prefeitura, com valor total de R$ 10,2 milhões, disponibilizados em linhas de crédito divididas em duas faixas (até R$ 4 mil e até R$ 20 mil). Dezembro foi marcado, nos quatro municípios, pela Lei Aldir Blanc, advinda do governo federal, que gerou impacto positivo no setor de cultura e tende, consequentemente, a se refletir no turismo. Reflexões iniciais sobre o cenário fluminense A pandemia da Covid-19 ocasiona uma crise no setor de turismo incomensurável, abrangendo dimensões diversas. Ainda não é possível assimilar a real dimensão deste impacto, pois a pandemia continua em curso e há dificuldades na geração e disponibilização de dados por partes das instituições públicas e privadas, o que torna o levantamento qualificado de informações para compor a pesquisa um grande desafio. Como exemplo desta 85 dificuldade, podemos citar a ausência de informações seguras sobre fluxos de visitantes nos municípios estudados (dados relativos à demanda turística) e as informações sobre os trabalhadores informais do setor de turismo. Considera-se, ainda, que parte dos efeitos da pandemia serão mais fortemente sentidos e, portanto, mensurados, no início de 2021. Isto porque eventos importantes foram cancelados, como o Réveillon e o carnaval da cidade do Rio de Janeiro, levando à suspensão de viagens de longa distância, nacionais e internacionais, que influenciarão decisivamente nos fluxos turísticos ao estado. Acredita-se que o turismo regional seja a estratégia que pode, em tese, ser o gatilho para a recuperação gradual do setor, ampliando a presença do turista fluminense e de estados vizinhos. Porém, será fundamental uma estratégia coesa, democrática e capaz de atender a diferentes necessidades e demandas de produtores e consumidores do turismo, do “pequeno” ao “grande” empreendedor, e isso parece ser um enorme desafio diante de uma grave crise econômica, política, sanitária e social que ainda se desenrola no país de maneira geral. Referências ARMAÇÃO DOS BÚZIOS. Protocolos para Retomada de Atividades. 2020a. Disponível em: https://buzios.aexecutivo.com.br/publicacoes.php?pagina=1. Acesso em: 20 nov. 2020 ARMAÇÃO DOS BÚZIOS. Decretos municipais. 2020b. Disponíveis em: https://buzios.aexecutivo.com.br/decretos.php?id=794. Acesso em: 9 out. 2020. BOUÇAS, C. Vendas em restaurantes estão 40% abaixo do nível de 2019, aponta Abrasel. Valor Investe, 17 out. 2020. Disponível em: https://valorinveste.globo.com/mercados/brasil-e-politica/noticia/2020/10/07/vendasem-restaurantes-esto-40-pontos-percentuais-abaixo-do-nvel-de-2019-apontaabrasel.ghtml. Acesso em: 2 jan. 2021. BRASIL. Ministério da Economia. Secretaria Especial de Previdência e Trabalho. Cadastro Geral de Empregados e Desempregados – Caged. Base de dados online. 2020a. Disponível em: http://pdet.mte.gov.br/acesso-online-as-bases-de-dados. Acesso em: 26 ago. 2020. BRASIL. Ministério da Economia. Secretaria Especial de Previdência e Trabalho. Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados – Novo Caged. Base de 86 dados online 2020b. Disponível em: http://pdet.mte.gov.br/novo-caged?view=default. Acesso em: 27 ago. 2020. BRASIL. Ministério do Turismo. Mapa do Turismo Brasileiro. MTur, 2019. Disponível em: http://www.mapa.turismo.gov.br/mapa/init.html#/home. Acesso em: 1 ago. 2020. DATABASE SEBRAE. Onde estão as empresas ligadas ao turismo no Brasil. Disponível em: https://datasebrae.com.br/mapa-empresas-turismo/. Acesso em: 20 nov. 2020. HALL, M.; SCOTT, D.; GÖSSLING, S. Pandemics, transformations and tourism be careful what you wish for, Tourism Geographies, v. 22, n. 3, p. 577-598, 2020. DOI: 10.1080/14616688.2020.1759131 INFRAERO. Estatísticas. 2020. Disponível em: https://transparencia.infraero.gov.br/estatisticas/ Acesso em: 10 ago. 2020. PARATY. Paraty espera por você. Protocolos Sanitários. 2020a. Disponível em: https://www.paraty.rj.gov.br/paraty-espera-por-voce. Acesso em: 10 out. 2020. PARATY. Portal da Transparência da Prefeitura Municipal de Paraty. 2020b. Disponível em https://egov.betha.com.br/transparencia/01037055/con_comparativoreceita.faces?mun=GVg1 NRiM4xU=. Acesso em: 17 ago. 2020. PETRÓPOLIS. Portal da Transparência da Prefeitura Municipal de Petrópolis. Disponível em http://www.petropolis.rj.gov.br/transparencia/adm_direta/consultas/receitas/. Acesso em: 20 ago. 2020. PIER MAUÁ. Programação de navios – temporada 2019-2020. Disponível em: https://www.piermaua.rio/wpcontent/uploads/2020/03/Programac%CC%A7a%CC%83o-Dia%CC%81ria-de-NaviosTemporada-2019-2020-v09.pdf. Acesso em: 2 jan. 2021. RIO DE JANEIRO. Portal da Transparência da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro. 2020. Disponível em: http://www.rio.rj.gov.br/web/contasrio/receita-porfonte#titulo. Acesso em: 25 ago. 2020. 87 Turismo em tempos de pandemia – os casos da cidade de São Paulo e da Baixada Santista Rita de Cássia Ariza da Cruz – USP Thiago Allis – USP Daniel de Renzo Barretti – USP Tem se tornado lugar comum dizer que o turismo foi um dos setores mais atingidos pelos efeitos da pandemia da Covid-19, anunciada em março de 2020. De fato, sendo uma atividade que se define pela mobilidade de pessoas em volumes e escalas variadas, é óbvio que o mundo das viagens – e do turismo em específico – tenha se retraído de maneira intensa. Isso porque, na ausência de tratamentos e vacinas adequados e diante de pouco conhecimento sobre a natureza da infecção, as medidas que têm sido adotadas para conter a dispersão da doença são aquelas de natureza não-farmacológica. Na prática, isolamento social e limites a circulação de pessoas levando, consequentemente, a uma redução drástica nas atividades turísticas. Por outro lado, lugares conhecidos por serem turísticos, ou seja, por receberem fluxos mais ou menos expressivos de turistas ao longo dos últimos anos, dadas suas características históricas, sociais, econômicas e conjunturais estão vivenciando de formas distintas os impactos da pandemia. E o que se passa quando, diante da pandemia da Covid-19 boa parte do mundo entra em quarentena, interrompendo rotas de transporte e fechando fronteiras nacionais e intranacionais (entre estados e províncias)? De um modo geral, não é fácil isolar dados e informações específicas sobre o turismo e em São Paulo não é diferente. Daí, portanto, o primeiro desafio de se entender os impactos da pandemia para o turismo. Em todo caso, por ora, alguns dados gerais de alguns setores, apontam para o tamanho da retração do turismo, conforme segue: a) O número de voos internacionais despencou quase 50%, passando de cerca de 38 mil no primeiro semestre de 2019, para pouco mais de 19 mil no mesmo período de 2020 (GRU AIRPORT, 2020). Este é um resultado esperado não porque o Brasil fechou suas fronteiras (como fizeram Austrália, Argentina e vários países europeus), mas porque as próprias companhias reduziram drasticamente a oferta de assentos, diante 88 da queda brusca de demandas entre São Paulo e as dezenas de destinos internacionais nas Américas, na Europa, na África e no Oriente Médio, regiões para as quais há ligações diretas a partir do Aeroporto Internacional de São Paulo-Guarulhos. b) Ainda que seja difícil quantificar a participação exata do turismo, vale ressaltar que os números de desembarques de passageiros nos terminais rodoviários de São Paulo (Tietê, Barra Funda e Jabaquara) também experimentaram fortes baixas i . De acordo com dados da Socicam, administradora desses terminais, o acumulado até outubro de 2019 foi de 12.973.170 passageiros desembarcados, enquanto em 2020, considerando o mesmo período de dez meses, o acumulado é de 6.132.379, menos da metade (47%) do total do ano anterior. Se compararmos apenas o primeiro semestre dos anos de 2019 (7.842.131 desembarques) e 2020 (4.177.915), temos acumulado até junho deste ano cerca de 53% do volume de desembarques do mesmo período do ano anterior. c) Como um efeito direto, a taxa de ocupação hoteleira na cidade caiu de 67% em média, no primeiro semestre de 2019, para pouco mais de 31% no mesmo período de 2020, reflexo da interrupção de fluxos para a cidade, em quaisquer setores – dos quais, poderíamos destacar o turismo de negócios e de eventos (SÃO PAULO, 2020b). d) No que tange ao trabalho no setor, dados extraídos do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do governo federal (BRASIL, 2020b), apontam para o aprofundamento de uma precarização, que piora diante da crise sanitária, econômica e social trazida pela pandemia. Considerando-se admissões e demissões nas atividades características do turismo (ACT) selecionadas para análise ii , o desempenho no primeiro semestre de 2019 já havia sido pífio, com um saldo positivo de apenas 1.356 empregos (63.127 admissões frente a 61.771 demissões), o que corrobora algo bastante conhecido pelos estudiosos do turismo, que é a sazonalidade do trabalho no setor. No primeiro semestre de 2020, enquanto 33.226 trabalhadores formais foram admitidos para as ACT listadas na cidade de São Paulo, 74.027 foram desligados, deixando um saldo negativo de 40.801 empregos perdidos. 89 Tratando do futuro do turismo na cidade (e no mundo como um todo), quaisquer previsões estarão repletas de imprecisões, porque se desconhece o curso que a pandemia assumirá – sendo temerário, portanto, assumir com muita certeza cenários “pós-pandemia”. Não obstante, algumas hipóteses podem ser levantadas, a título de exercício analítico. Uma delas é a de que dada a centralidade econômica de São Paulo em relação ao país – a cidade responde, sozinha, por cerca de 11% do PIB nacional (IBGE, 2018) –, a recuperação do setor de serviços e do comércio em geral – e do turismo especificamente – poderá se dar mais rapidamente que em outras localidades, como nos municípios litorâneos da Baixada Santista. Sem possibilidade de apontar para resultados futuros neste momento considerando a multi e trans-escalaridade do turismo, levantamos algumas outras reflexões, para efeito de acompanhamento de pesquisas mais abrangentes no futuro próximo, tais como: i. O home-office, que já vinha sendo testado há anos, agora vem sendo aplicado a milhares de trabalhadores em todo o mundo e poderá consolidarse como uma tendência. Resta saber o quanto ele impactará as viagens corporativas e, consequentemente, o turismo de negócios em localidades como São Paulo e Santos, por exemplo. Ainda assim, setores associados (como alimentação fora de casa) poderão se acomodar, buscando atender necessidades e desejos de trabalhadores em atuação remota, mas que continuem demandando certos serviços. ii. Os grandes eventos culturais e esportivos, uma marca registrada da maior cidade do país, dificilmente voltarão a apresentar, no curto prazo (1 a 2 anos), o mesmo desempenho de antes da pandemia, impactando toda a cadeia de serviços beneficiados com a realização desses eventos, a qual poderá ressentir-se por vários anos ainda, até que a imunização segura e completa no Brasil possa ser alcançada. iii. Por outro lado, a perda de poder aquisitivo das classes médias somada à desvalorização do real e a eventuais novos fechamentos de fronteiras por parte de diferentes países poderão ser um estímulo para que brasileiros residentes no Brasil escolham São Paulo como destino. Em outro nível de reflexão, podemos supor que lazeres urbanos poderão ganhar maior relevância, como forma de dar vazão aos interesses e demandas de parcela 96 Gráfico 1 – Receita do setor de serviços no município de Curitiba, no primeiro semestre de 2019 e 2020. Fonte: Curitiba, Contas Públicas. Organizado pelos autores (2020). Com a pandemia, o município de Curitiba contabilizou a diminuição de 50,1% de voos nacionais e 35,6% de voos internacionais, representando impactos negativos na chegada de passageiros, –54,4% de passageiros nacionais e –60,5% de passageiros internacionais. Em relação ao fluxo rodoviário, observou-se uma diminuição de 45,6% de chegadas de passageiros nacionais e 45,2% de internacionais na rodoviária da capital (INFRAERO, 2020; URBANIZAÇÃO DE CURITIBA, 2020). Dados do fluxo de visitantes coletados pelo Instituto Municipal de Turismo (CURITIBA, 2020b), em dois pontos turísticos (embarque da Linha Turismo e visita à Torre Panorâmica), demonstram que apesar do aumento do número de visitantes nos meses de janeiro e fevereiro de 2019, as visitações nesses atrativos, entre os meses de março a outubro de 2020 tiveram uma queda de 66,6% e 69,2%, respectivamente, em comparação ao mesmo período de 2019. Ressalva-se que, nesse período, os referidos atrativos permaneciam fechados. Atualmente, encontra-se em funcionamento a Linha Turismo. Em relação ao número de postos de trabalho afetados pela pandemia, o setor acumula um saldo negativo 0 1000000 2000000 3000000 4000000 5000000 6000000 7000000 Janeiro Fevereiro Março Abril Maio Junho 2019 2020 97 de 7.079 postos de trabalho perdidos no período de janeiro a junho de 2020, uma variação de –814,6% em relação a 2019. Sobre os locais de visitação turística, alguns espaços reabriram para uso público no segundo semestre, outros permanecem fechados por se constituírem ambientes fechados propícios à propagação do vírus. Em pesquisa realizada pelo Observatório de Turismo do Paraná (Obstur) (2020) com empresas de turismo do município, observa-se que 41% dos empreendimentos pesquisados demitiram funcionários. Após o mês de março, mais de 50% dos empreendimentos turísticos passaram a sentir mais fortemente os efeitos econômicos negativos. Em relação ao capital de giro, 66% das empresas afirmam possuir condições de manutenção somente por seis meses. Para minimizar a situação, algumas ações foram realizadas por esse empresariado para minimizar os efeitos da pandemia em seus negócios. Sinalizam-se algumas estratégias, como parcerias, tele-entrega, serviços online, financiamento e empréstimos, descontos e promoções, uso de vouchers, redução ou isenção de multas, medidas com o quadro de funcionários, remarcação ou adiamento de serviços, adiamento de investimentos e projetos (OBSTUR, 2020). Cabe destacar que o cenário do turismo no estado do Paraná, com reflexos no município de Curitiba, registrou avanços em 2019, ano de muitos rankings e pontuações altíssimas para o Paraná, que ficou como segundo maior estado com crescimento turístico no mês de outubro, recebendo mais de 2 milhões de visitantes no Parque Nacional do Iguaçu e mais de 20 mil visitantes em uma semana no passeio de trem entre os municípios de Curitiba e Morretes, no litoral do Paraná. Entre os meses de janeiro e fevereiro de 2020, houve um aumento do fluxo de visitantes em Curitiba, demonstrando uma tendência de crescimento em comparação a 2019. Contudo, a pandemia mudou drasticamente o cenário. No mês de março ocorreu uma redução significativa no número de visitantes. Entre os meses de maio a junho houve paralisação nas atividades e na oferta turística, a redução, assim, abalou o setor. Em julho e agosto, observa-se a retomada das atividades com aumento de 28% no fluxo de visitantes. Em março, 38% dos meios de hospedagem estavam em operação e em junho esse número subiu para 60%. Todavia, vale destacar que todos os empreendimentos que permaneceram abertos adotaram 98 diversas medidas preventivas para garantir a saúde e o bem-estar dos hóspedes e de seus funcionários (CURITIBA, 2020b). Em relação à retomada do turismo no Paraná, isto ocorre preferencialmente em áreas naturais, sendo o turismo de aventura, o ecoturismo e o turismo rural as modalidades que se encontram em alta no estado. A pandemia da Covid-19 alterou a forma como o turismo se desenvolve e este não será mais o mesmo em vários sentidos. Considerando que ainda vivenciamos a pandemia, elaborar cenários e fazer projeções pode ser ainda cedo, mas é importante que se desenvolvam pesquisas desde uma perspectiva sistêmica e interdisciplinar, com foco também no comportamento dos consumidores. Vivenciado um momento de incertezas, o que parece ser assertivo é que as viagens serão para destinos mais próximos, em carros particulares, para localidades vizinhas onde o viajante se sinta mais seguro e confortável. Consumidores que não tiverem a sua renda comprometida poderão fomentar os negócios turísticos. De toda forma, é preciso que o setor de turismo tome medidas para adaptar-se às instáveis condições que assolam o mundo, adotando ações preventivas para enfrentar o atual e possíveis futuros efeitos de eventos extremos, sejam naturais ou antrópicos. Referências CURITIBA. Contas públicas. 2020a Disponível em: https://www.transparencia.curitiba.pr.gov.br/sgp/despesasorcamentarias.aspx. Acesso em: 23 nov. 2020. CURITIBA. Instituto Municipal de Turismo. Tabela de acompanhamento mensal de indicadores 2020. Curitiba, 2020b. Disponível em: https://midturismo.curitiba.pr.gov.br/2020/11/pdf/00009984.pdf. Acesso em: 23 out. 2020. CURITIBA. Plano Municipal de Turismo de Curitiba 2015 – 2017. 2015. Disponível em: https://mid-turismo.curitiba.pr.gov.br/2015/11/pdf/00000817.pdf. Acesso em: 23 nov. 2020. EMPRESA BRASILEIRA DE INFRAESTRUTURA AEROPORTUÁRIA. Estatística. Infraero, 2020. Disponível em: https://transparencia.infraero.gov.br/estatisticas/. Acesso em: 13 nov. 2020. INSTITUTO PARANAENSE DE PESQUISAS ECONÔMICAS. Caderno estatístico – município de Curitiba. Curitiba: Ipardes, 2020. Disponível em: http://www.ipardes.gov.br/cadernos/MontaCadPdf1.php?Municipio=80000&btOk=ok. Acesso em: 20 out. 2020. 99 OBSERVATÓRIO DE TURISMO. Sondagem empresarial impactos do COVID-19 no turismo brasileiro e paranaense. Curitiba: Obstur, 2020. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO TURISMO. International tourism plunges 70% as travel restrictions impact all regions. OMT, 2020. Disponível em: https://www.unwto.org/news/international-tourism-down-70-as-travel-restrictionsimpact-all-regions. Acesso em: 27 out. 2020. URBANIZAÇÃO DE CURITIBA S. A. Estatística fluxo rodoviário 2019-2020. Curitiba (PR): URBS, 2020. 100 Impactos da pandemia Covid-19 no sector de transportes aéreos em Moçambique José Júlio Júnior Guambe – UP José Julião da Silva – UP Ringo Benjamim Victor – UniPúnguè Hélsio Amiro Motany de Albuquerque Azevedo – UEM Bianca Jaime Gerente – UCM Dário Manuel Isidoro Chundo – UP Victoriana Augusta Mahache – UEM Francisco Romão Banze – UEM Hermínio Pedro Mapanga – UEM Tal como parece ter acontecido em outras partes do planeta, em Moçambique, o ano 2020 iniciou com a notícia do aparecimento de um vírus. Trata-se do novo coronavírus, causador da doença Covid-19, que foi detetado em Wuhan, na China, em finais de dezembro de 2019. Depois do primeiro caso na China, outros países começaram a registar casos de Covid-19, primeiro na Ásia, depois na Austrália, Europa, América e na África, revelando o grande poder de transmissão do vírus, o que reforça as evidências de um dos efeitos da globalização. Dada a velocidade de propagação, em princípios de janeiro de 2020, a Organização Mundial da Saúde confirmou a circulação do vírus tendo, em finais do mesmo mês, declarado o surto emergência de saúde pública de importância internacional. Em Moçambique, segundo o Ministério da Saúde (MISAU) (MOÇAMBIQUE, 2020), no seu Boletim Diário de Covid-19, o primeiro caso confirmado registou-se a 22 de março, ou seja, quase três meses depois de se ter registado o primeiro caso na China. Nesse dia, a nível mundial o total de casos diagnosticados rondava os 190.000, o que perfaz, desde o primeiro caso, uma média diária de 2.112 infetados. Ora, esses dados revelam a grande transmissibilidade do vírus, o que constitui, sem qualquer dúvida, motivo de grande preocupação, principalmente pelo número de mortes diárias. A actividade turística, pela sua natureza, foi uma das mais afectadas pela pandemia, pois ela envolve mobilidade. Aliás, convém referir que o primeiro caso em Moçambique foi importado. cc 101 Uma das formas dos turistas se moverem é a partir do modal aéreo, um dos principais meios de transporte usado nas viagens internacionais pela capacidade de reduzir o tempo em trânsito, maximizar o período de férias. Neste ensaio pretende-se abrir uma reflexão sobre o impacto da pandemia no turismo, enfocando o factor mobilidade, privilegiando o transporte aéreo como objecto de estudo. Considerando que o transporte aéreo desempenha um papel significativo no desenvolvimento do turismo em Moçambique, no presente ensaio procurouse analisar o impacto da pandemia sobre o sector do turismo, a partir dos transportes aéreos, em quatro municípios, nomeadamente: Maputo, Inhambane, Vilanculos e Pemba (vide Mapa 1), considerando a grande importância desse recorte espacial no panorama turístico do país, conforme os dados do Instituto Nacional de Estatísticas (INE). Mapa 1 – Recorte espacial da área de estudo. Cerca de 35% do parque hoteleiro localiza-se na cidade de Maputo, capital do país, onde se desenvolve basicamente o turismo urbano voltado para negócios e conferências, seguida pela província de Inhambane com 11%, que concentra a prática do turismo de lazer (sol e praia) nos municípios de 102 Inhambane e Vilanculos, e pela província de Cabo Delgado, onde se localiza o município de Pemba, que participa com 5,4%. Esses foram os locais em que o sector turístico foi mais atingido com o surgimento da Covid-19 em Moçambique. Algumas das primeiras medidas tomadas pela quase totalidade dos países para controlar a propagação do vírus pela mobilidade humana e, por conseguinte, prevenirem-se da Covid-19 foram o fechamento das fronteiras e a restrição de circulação interna e externa, incluindo nos transportes aéreos. Para o desenvolvimento desta reflexão sobre o transporte aéreo no contexto da pandemia em Moçambique, recorreu-se aos dados disponibilizados pela Empresa de Aeroportos de Moçambique (ADM) e pelo Boletim Diário do MISAU. Recorreu-se, igualmente, aos comunicados de imprensa do MISAU que desde a eclosão da pandemia tem acontecido com regularidade. Importa referir que, não obstante ter-se conseguido os dados que permitiram a realização deste ensaio, persistem muitas limitações para a obtenção de informação oficial nos vários domínios para o desenvolvimento da pesquisa sobre os impactos da pandemia no turismo em Moçambique. A reflexão foi desenvolvida tendo como referência o primeiro semestre de 2019 para, a partir de registos oficiais de voos e passageiros e outros documentos relacionados, analisar comparativamente a situação do primeiro semestre de 2020, diante das restrições impostas pela Covid-19 nos recortes espaciais em estudo. Impactos da pandemia Covid-19 no sector de transportes aéreos em Moçambique De acordo com os dados dos ADM, ao comparar o primeiro semestre de 2020 com o primeiro semestre de 2019, constata-se que houve uma redução significativa tanto no número de voos como de passageiros no país, quer nacionais como internacionais, conforme ilustram os gráficos 1, 2, 3 e 4. Como consequência da pandemia, foram tomadas algumas medidas com vista a limitar a mobilidade interna e a partir das fronteiras nacionais, designadamente foi restringida a circulação de pessoas em qualquer parte do território nacional e limitada a entrada de pessoas nas fronteiras terrestres, aeroportos e portos. Por razões de interesse do Estado, houve excepção para 103 o transporte de bens e mercadorias por operadores devidamente credenciados e em situações relacionadas à saúde. Assim, os voos internacionais só ocorriam para questões essenciais, como por exemplo, a recepção de material para uso no âmbito da prevenção da Covid-19 e chegada de equipes de médicos para reforçar a capacidade do sistema nacional de saúde. Voos para fins comerciais, que geralmente são usados por turistas, deixaram de ser permitidos no primeiro semestre de 2020. Os dados mostram que, no primeiro semestre de 2019, o município de Maputo teve 5.952 voos contra 3.287 voos, no mesmo período em 2020. Essa diferença representa 44,77% de redução de voos durante o período da Covid19. Por sua vez, o município de Vilanculos teve a maior redução de voos, correspondente a –57,24%, de 1.852 voos no primeiro semestre de 2019 caiu para 792 voos no primeiro semestre de 2020, conforme ilustra o Gráfico 1. Gráfico 1 – Comparação do número de voos nacionais no primeiro semestre de 2019 e 2020. Fonte: Aeroportos de Moçambique, 2020. Ao comparar os quatro municípios, constata-se que Vilanculos e Inhambane foram os mais afectados, enquanto Pemba manteve mais ou menos o mesmo número de voos. Relativamente a Vilanculos e Inhambane, a redução pode ser explicada pelo facto de se tratar de aeródromos cuja função principal é a turística (com foco no turismo internacional). O município de Pemba, diferentemente dos outros municípios, praticamente não sofreu redução no número de voos nacionais (menos de 1%) durante o primeiro semestre de 2020, apesar das medidas restritivas de 5952 481 1852 2563 3287 264 792 2542 44,77% 45,11% 57,24% 0,82% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 7000 Maputo Inhambane Vilanculos Pemba % REDUÇÃO N° DE VOOS VOOS NACIONAIS 104 mobilidade. Esta situação particular pode estar relacionada com a grande movimentação registada nos últimos dois anos para a província de Cabo Delgado, motivada pelos projetos bilionários de exploração do gás e prospecção de petróleo, e pela situação militar relacionada ao ataques terroristas e a consequente situação humanitária, que por sua vez propicia um grande movimento de apoio para aquela província, cuja principal porta de entrada do modal aéreo é o município de Pemba. Outra razão, não menos importante, foram as movimentações do sector da saúde motivadas pelo facto de o acampamento da petrolífera francesa Total, localizado em Afungi, no norte da província de Cabo Delgado, ter se tornado, no mês de abril, o epicentro da pandemia em Moçambique, constituindo deste modo o cluster de Afungi, que registou o seu primeiro caso no dia 8 de abril e fechou o mês com 82,3% do total dos casos do mês, e 73,7% do total dos casos que existiam em Moçambique até então, tornando-se deste modo, o principal foco de disseminação (GUAMBE, 2019). Gráfico 2 – Comparação do número de passageiros em voos nacionais no primeiro semestre de 2019 e 2020. Fonte: Aeroportos de Moçambique, 2020. O Gráfico 2 mostra o número de total de passageiros que viajaram durante o primeiro semestre de 2019 e 2020, respectivamente. Observa-se que no município de Maputo, em 2019, o número de passageiros que viajou correspondeu a 253.582 contra 153.039 no mesmo período em 2020, perfazendo uma diferença de 100.543 passageiros, uma redução equivalente a 39,6%. 253582 8034 11319 45169 153039 4785 7391 44516 39,65% 40,44% 34,70% 1,45% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 0 50000 100000 150000 200000 250000 300000 Maputo Inhambane Vilanculos Pemba % REDUÇÃO N° DE PASSAGEIROS PASSAGEIROS NACIONAIS TOTAL 1º SEMESTRE 2019 TOTAL 1º SEMESTRE 2020 Redução 105 Gráfico 3 – Comparação do número total de voos internacionais no primeiro semestre de 2019 e 2020. Fonte: Aeroportos de Moçambique, 2020. Os dados do Gráfico 3 mostram que o município de Inhambane e de Vilanculos foram os que tiveram maior redução de voos internacionais. Durante o primeiro semestre de 2019, para o município de Inhambane registaram-se 150 voos contra 37, em igual período em 2020, tendo uma redução na ordem de 75,5%, e o município de Vilanculos no mesmo período teve 999 voos internacionais, em 2019, face a 375 voos, em 2020, apresentando uma redução na ordem de 62,4%. Gráfico 4 – Comparação do número total de passageiros em voos internacionais no primeiro semestre de 2019 e 2020. Fonte: Aeroportos de Moçambique, 2020. 4790 150 999 1737 2838 37 375 1272 40,75% 75,33% 62,46% 26,77% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 Maputo Inhambane Vilanculos Pemba % REDUÇÃO N° DE VOOS VOOS INTERNACIONAIS TOTAL 1º SEMESTRE 2019 TOTAL 1º SEMESTRE 2020 Redução 260576 384 16077 18119 116196 155 7728 13230 55,41% 59,64% 51,93% 26,98% 0% 20% 40% 60% 80% 0 50000 100000 150000 200000 250000 300000 Maputo Inhambane Vilanculos Pemba % REDUÇÃO N° DE PASSAGEIROS PASSAGEIROS INTERNACIONAIS TOTAL 1º SEMESTRE 2019 TOTAL 1º SEMESTRE 2020 Redução 112 Gráfico 1 – N.º de passageiros desembarcados nos aeroportos de Portugal, 2019 e 2020. Fonte: Instituto Nacional de Estatística (Portugal), Inquérito aos Aeroportos e Aeródromos. Organizado pelos autores (2020). Para responder a este “choque de procura”, 80% dos estabelecimentos de alojamento turístico em todo o país acabariam por decidir, por moto próprio, fechar portas no “Grande Confinamento”, e assim evitarem custos de operação (INE, 2020c). No que tange aos proventos oriundos dos estabelecimentos de alojamento turístico, o acumulado até setembro de 2020 foi de 1,2 milhão de euros contra 3,5 milhões no mesmo período de 2019, representando uma redução de 64,5% (INE, 2020a). A tímida retoma de verão A circulação entre estados-membros da UE começou a restabelecer-se lentamente em junho. Para viajantes provenientes de países externos à UE, em julho. Contudo, a reabertura das fronteiras foi lenta e atribulada. Vários estados-membros continuaram a impor quarentenas e/ou obrigar à realização de testes. Os estados seguiram critérios diferentes na definição de quais eram os países seguros para viajar. Portugal ficou fora dessa lista em alguns dos seus mais importantes mercados, como o britânico. Por isso, a retoma do turismo recetor em Portugal foi muito ténue no verão europeu. Em contrapartida, a procura interna acabou por responder positivamente, acabando por se registar no mês de agosto uma redução de apenas 1,55% das dormidas dos residentes face ao mesmo mês de 2019, também porque muitas viagens internacionais terão sido substituídas por turismo doméstico. -100% -80% -60% -40% -20% 0% 20% 0 500 1.000 1.500 2.000 2.500 3.000 3.500 Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Variação homóloga Milhares Passageiros Passageiros desembarcados (N.º) nos aeroportos de Portugal Passageiros 2019 Passageiros 2020 Variação 113 Nota-se que no conjunto dos primeiros nove meses do ano, as regiões que apresentaram menores diminuições do número de dormidas nos estabelecimentos turísticos (Gráfico 2) foram o Alentejo (–36,1%), o Centro (– 50,6%) e o Norte (–56,5%), contra recuperações muito menores nas principais regiões turísticas – a área metropolitana de Lisboa (–69,1%) e o Algarve (– 60,8%). Isto explica-se, primeiro, porque Lisboa e o Algarve têm maior dependência de turistas provenientes do estrangeiro (77,5% das dormidas em 2019 foram feitas por não residentes), mas também porque os turistas terão preferido viajar para áreas rurais e territórios de baixa densidade, onde percebiam que podia haver maior segurança sanitária e distanciamento físico, como, aliás, estudos já tinham sugerido que iria suceder (BRITO-HENRIQUES; BOAVIDA-PORTUGAL; ARROBAS, 2020). Gráfico 2 – Dormidas nos estabelecimentos turístico por região – variação homóloga 2019 e 2020. Fonte: Instituto Nacional de Estatística (Portugal), Estatísticas do Turismo, 2020a. Organizado pelos autores (2020). Questões em aberto Apesar da tímida recuperação verificada nos meses de julho e de agosto, em setembro registou-se nova inversão da tendência, com variações homólogas negativas das dormidas nos estabelecimentos de alojamento turístico, conforme pode ser visualizado no Gráfico 2, o que demonstra que a pandemia continua a afetar a mobilidade. Ainda que seja difícil qualificar neste momento os impactos a prazo da pandemia da Covid-19, com base nas -100% -80% -60% -40% -20% 0% 20% 40% Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Dormidas nos estabelecimentos turístico por região – Variação homóloga 2019 e 2020 Norte Centro AM Lisboa Alentejo Algarve Açores Madeira 114 informações levantadas e analisadas até este momento, fica evidente que a crise no setor turístico terá repercussões económicas severas em Portugal. Diferentes consequências se desdobrarão no território nacional, que só poderão ser apreendidas no futuro. Algumas mudanças surpreendentes começam a ser discutidas e ensaiadas, como o esforço dos hotéis em se adaptarem ao momento, transformando quartos em espaços de escritórios e de coworking, o uso extraordinário de autocarros de turismo no reforço do transporte público para permitir diminuir a lotação e garantir maior distanciamento físico ou as medidas no sentido de converter “alojamentos locais” em residências universitárias e casas para residentes, na tentativa de diminuir o deficit habitacional. Porém, muitas incertezas permanecem: voltará o turismo a ter em Portugal a expressão que tinha no passado? Tendências recentes, surgidas com a pandemia, como a valorização do turismo doméstico e a procura de áreas rurais e territórios de baixa densidade serão de curta duração ou vão manter-se? Ficará o turismo no futuro menos dependente do transporte aéreo, ou assistiremos ao regresso em breve das formas do passado? Referências BRITO-HENRIQUES, E.; BOAVIDA-PORTUGA, I.; ARROBAS, F. COVID-19 e turismo: danos reputacionais e efeitos da pandemia nos planos de férias e viagens (policy brief). Lisboa: Centro de Estudos Geográficos, 2020. DOI: 10.33787/CEG20200001 INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA (Portugal). Estatísticas do turismo. Portal do INE, 2020a. Disponível em: https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpgid=ine_tema&xpid=INE&tema_cod=1713. Acesso em: 25 set. 2020. INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA (Portugal). Sistema de contas integradas das empresas. Portal do INE, 2020b. Disponível em: https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpgid=ine_tema&xpid=INE&tema_cod=1313. Acesso em: 30 nov. 2020. INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA (Portugal). Interrupção quase total da atividade turística em abril de 2020. Destaque: informação à comunicação social. Portal do INE, 2020c. Disponível em https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_ boui=435435918&DESTAQUEStema=55581&DESTAQUESmodo=2. Acesso em: 29 mai. 2020. 115 INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA (Portugal). Inquérito aos aeroportos e aeródromos. Portal INE, 2020d. Disponível em: https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpgid=ine_tema&xpid=INE&tema_cod=1712. Acesso em: 30 nov. 2020. HIRSCH, C. Europe’s coronavirus lockdown measures compared: ways of enforcing social distancing differ from country to country. Politico, 2020. Disponível em: https://www.politico.eu/article/europes-coronavirus-lockdown-measures-compared/. Acesso em: 23 nov. 2020. MARTINS, C. Covid-19. No primeiro mês de reabertura, museus tiveram menos de 10% das visitas de há um ano. Expresso, 2020. Disponível em: https://expresso.pt/coronavirus/2020-07-03-Covid-19.-No-primeiro-mes-de-reaberturamuseus-tiveram-menos-de-10-das-visitas-de-ha-umano?utm_content=Dia%20de%20frenesi%20noticioso:%20Orçamento,%2 0o%20próximo%20ano%20letivo,%20turistas%20britânicos. %20E%20o%20que%20diz%20a%20ministra%20da%20Presidência%20s obre%20o%20ódio%20nas%20redes&utm_medium=newsletter&utm_ca mpaign=441f14c3f3&utm_source=expresso-edd. Acesso em: 03 jul. 2020. UNWTO. International tourism highlights, 2019 Edition. World Tourism Organization, 2019. Disponível em: https://www.unwto.org/publication/internationaltourism-highlights-2019-edition. Acesso em: 02 nov. 2020. WTTC. Economic impact reports – Portugal. World Travel & Tourism Council, 2020. Disponível em: https://wttc.org/Research/Economic-Impact. Acesso em: 02 nov. 2020. i Na realidade, os números serão ainda mais altos pois as estatísticas não registram as unidades ditas de “alojamento local” com capacidade inferior a 10 camas, categoria que basicamente corresponde às habitações usadas comercialmente para hospedagem turística e arrendadas por curta duração através de plataformas eletrónicas. 116 BIOGRAFIA DOS AUTORES E ORGANIZADORES Adauto Gomes Barbosa - Doutor em Geografia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Mestre em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Bacharel em Geografia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco (IFPE), campus Recife. Membro do grupo de pesquisa Cidades Litorâneas e Turismo (CILITUR/UFPE). Admilson Alcantara da Silva - Doutor em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Mestre em Matemática e Estatística pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Bacharel em Estatística pela UFPA. Professor da Universidade do Estado do Pará (UEPA) e Coordenador de Estudos, Pesquisas, Estatísticas e Informação da Secretaria de Estado do Turismo do Pará (SETUR/PA). Ágila Flaviana Alves Chaves - Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará (NAEA/UFPA). Mestra em Planejamento do Desenvolvimento pelo NAEA/UFPA. Bacharela em Turismo pela UFPA. Amilton Luiz Novaes - Doutor em Geografia pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Mestre em Agronegócios pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Bacharel em Administração pela UFMS. Professor da Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Economia da Universidade Federal da Grande Dourados (FACE-UFGD). Ana Claudia Macedo Sampaio - Doutora em Geografia e Mestra em Turismo pela Universidade de Brasília (UnB). Graduada em Gestão Turística pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás (IFG). Professora do Curso de Turismo Patrimonial e Socioambiental da Universidade Federal do Tocantins (UFT). Andressa Ferreira Ramalho Leite - Doutoranda do Programa de PósGraduação em Turismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Mestra e bacharela em Turismo pela UFRN. Professora do curso de tecnologia em Gestão de Turismo da Universidade Federal do Tocantins (UFT), campus Araguaína. Angela Teberga de Paula - Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Turismo e Hospitalidade pela Universidade de Caxias do Sul (UCS). Mestra em Turismo pela Universidade de Brasília (UnB). Bacharela em Turismo pela Universidade de São Carlos (UFSCar). Professora do curso de Turismo Patrimonial e Socioambiental da Universidade Federal do Tocantins (UFT). Arístocles Rannyeri Nascimento de Lima - Bacharel em Ciência da Computação pelo Centro Universitário do Norte (Uninorte). Graduando em Turismo pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA). 117 Bianca Jaime Gerente - Doutora em Ciências de Educação pela Universidade Católica do Porto. Mestra em Gestão e Administração Educacional e graduada em Direito pela Universidade Católica de Moçambique (UCM). Professora e pesquisadora investigadora da Faculdade de Gestão de Turismo e Informática da Universidade Católica de Moçambique. Camilla Andrade Lins - Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Bacharela em Arquitetura e Urbanismo pela UFPE. Membro do Laboratório de Estudos sobre Espaço e Política, no grupo de pesquisa Cidades Litorâneas e Turismo (CILITUR/UFPE). Carlos Alberto Lidizia Soares - Doutor e mestre em Engenharia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Bacharel em Administração de Empresa pela Associação de Ensino Universitário (Uniabeu). Professor da Faculdade de Turismo e Hotelaria da UFF. Membro da Unidade de Pesquisa em Governança, Competitividade e Políticas Públicas (GOVCOPP) da Universidade de Aveiro. Líder do grupo de pesquisa Turismo Militar e vice-líder do grupo de pesquisa Hospitalidade e Inclusão. Carolina Todesco - Doutora e mestra em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP). Bacharela em Turismo pela Universidade de Sorocaba (UNISO). Professora do curso de Turismo da Faculdade de Engenharia, Letras e Ciências Sociais do Seridó da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (FELCS/UFRN). Claudia Alejandra Troncoso - Doutora e licenciada em Geografia pela Universidade de Buenos Aires. Pesquisadora adjunta do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet). Professora adjunta de Geografia Social do Departamento de Geografia da Universidade de Buenos Aires (Argentina). Claudia Corrêa de Almeida Moraes - Doutora em Geografia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Mestra em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Licenciada em História pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Bacharela em Turismo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). Professora da Faculdade de Turismo e Hotelaria da Universidade Federal Fluminense (UFF). Coordenadora do MBA em Gestão de Serviços da UFF. Vice-líder do grupo de pesquisa Turismo, Gestão e Território. Cleber Gomes da Silva - Doutor em Geografia pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Mestre em Gestão de Recursos Naturais e Desenvolvimento Local na Amazônia pela UFPA. Bacharel em Turismo pela UFPA. Cristiane Barroncas Maciel Costa Novo - Doutora em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestra em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP). Bacharela em Turismo pelo Centro Integrado de Ensino Superior do Amazonas (Ciesa). Professora da Escola Superior de Artes e Turismo da Universidade do Estado do Amazonas (ESAT/UEA). 118 Cristina Pereira de Araujo - Doutora e mestra em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP). Bacharela em Arquiteta e Urbanismo pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Professora do curso de Arquitetura e Urbanismo e do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Membro do Laboratório de Estudos sobre Espaço e Política e Coordenadora do grupo de pesquisa Cidades Litorâneas e Turismo (CILITUR/UFPE). Daniel de Renzo Barretti - Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da Universidade de São Paulo (USP). Bacharel em Turismo pelo Centro Universitário Senac e bacharel em Geografia pela Universidade Pontifícia Católica de São Paulo (PUC-SP). Consultor em projetos socioambientais e relacionados ao turismo. Dário Manuel Isidoro Chundo - Doutorando em Geografia, mestre em Educação/Ensino de Geografia e graduado em Ensino de História e Geografia pela Universidade Pedagógica de Maputo (UP). Docente e pesquisador da Faculdade de Ciências da Terra e Ambiente da U. David Leonardo Bouças da Silva - Doutor em Administração pela Universidade de Brasília (UnB). Doutorado sanduíche na Universitat Jaume I (Espanha). Mestre em Desenvolvimento Sustentável pela UnB. Especialização em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Bacharel em Turismo pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Professor do Departamento de Turismo e Hotelaria da UFMA. Débora Rodrigues de Oliveira Serra - Doutoranda do Programa de PósGraduação em Geografia da Universidade Federal do Pará (UFPA). Mestra em Geografia pela UFPA. Bacharela em Turismo pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IFMA), campus Barreirinhas. Deborah Rayanne Cabral Nogueira - Mestranda do Programa de PósGraduação em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Bacharela em Turismo pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Denise Betânia Marques dos Santos - Doutoranda do Programa de PósGraduação em Desenvolvimento Urbano da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Mestra em Hotelaria e Turismo pela UFPE. Bacharela em Turismo pela Faculdade de Comunicação e Turismo de Olinda (Facotur). Membro do Laboratório de Estudos sobre Espaço e Política, no grupo de pesquisa Cidades Litorâneas e Turismo (CILITUR/UFPE). Dianine Censon – Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mestra em Sociologia e bacharela em Turismo pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Professora do curso de tecnologia em Gestão de Turismo da Universidade Federal do Tocantins (UFT), campus Araguaína. 119 Eduarda Kratczuk Dobkowski - Graduanda em Turismo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Pesquisadora da iniciação científica vinculada ao projeto “Turismo em Tempos de Pandemia: uma abordagem geográfica pluri e trans-escalar para a cidade de Curitiba (PR)”. Eduardo Brito-Henriques - Doutor em Geografia Humana e mestre em Geografia Humana e Planeamento Regional e Local pela Universidade de Lisboa (ULisboa). Licenciado em Geografia e Planeamento Regional pela Universidade Nova de Lisboa. Professor do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT) da Universidade de Lisboa, onde é investigador integrado do Centro de Estudos Geográficos, e coordenador do mestrado do Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana: Globalização, Sociedade e Território e do Programa de Pós-Graduação em Turismo e Comunicação da ULisboa. Edvaldo Cesar Moretti - Doutor, mestre e bacharel em Geografia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Professor titular da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), nos cursos de graduação e pósgraduação em Geografia. Professor colaborador no Programa de PósGraduação em Geografia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Elcivânia de Oliveira Barreto - Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Pará (UFPA). Mestra, bacharela e licenciada em Geografia pela UFPA. Bacharela em Turismo pelo Instituto Esperança de Ensino Superior (Iespes). Eloise Silveira Botelho - Doutora em Gestão de Iniciativas Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestra em Psicossociologia de Comunidade e Ecologia Social pela UFRJ. Bacharela em Turismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Professora do Departamento de Turismo e Patrimônio e do Programa de Pós Graduação em Ecoturismo e Conservação da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Vice-líder do grupo de pesquisa Observatório de Parcerias em Áreas Protegidas e membro do Grupo de Pesquisas Interdisciplinares em Turismo e Cidades (INTERTUR). Fábia Trentin - Doutora em Turismo, Lazer e Cultura pela Universidade de Coimbra (Portugal). Mestra em Hospitalidade pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Bacharela em Agronomia pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Professora adjunta do Departamento de Turismo da Universidade Federal Fluminense (UFF). Coordenadora do Laboratório de Políticas, Governança e Turismo (LabGTur). Fernanda Raphaela Alves Dantas - Mestra e bacharela em Turismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Francisco Romão Banze - Graduando em Informação Turística na Escola Superior de Hotelaria e Turismo de Inhambane da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) (Moçambique). 120 Gizelle Prado da Silva Fonseca - Doutora em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP). Mestra, bacharela e licenciada em Geografia pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Professora efetiva da Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (SEDUC-MT). Glaubécia Teixeira da Silva - Doutora e mestra em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Bacharela em Turismo pelo Centro Integrado de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). Professora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Hélsio Amiro Motany de Albuquerque Azevedo - Doutor em Geografia pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Mestre em Planeamento e Gestão Ambiental pela Universidade Católica de Brasília (UCB). Bacharel em Turismo pela Universidade Eduardo Mondlane (UEM). Professor e pesquisador da Escola Superior de Hotelaria e Turismo de Inhambane da Universidade Eduardo Mondlane (Moçambique). Hermínio Pedro Mapanga - Graduando em Informação Turística na Escola Superior de Hotelaria e Turismo de Inhambane da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) (Moçambique). Hugo Rogério Hage Serra - Doutor em Geografia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Mestre, bacharel e licenciado em Geografia pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Professor de Geografia Regional da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA). Membro do Laboratório de Estudos Regionais do Sul e Sudeste do Pará (LERASSP). Ilana Barreto Kiyotani - Doutora em Turismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Mestra em Geografia e bacharela em Turismo pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Professora do Departamento de Turismo e Hotelaria da UFPB. Membro do grupo de pesquisa Cidades Litorâneas e Turismo (CILITUR/UFPE). Isabel Jurema Grimm - Doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Mestra em Desenvolvimento Regional pela Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB). Bacharela em Turismo pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste-PR). Coordenadora do mestrado profissional em Governança e Sustentabilidade do Instituto Superior de Administração e Economia do Mercosul (ISAE). Isabela de Fátima Fogaça - Doutora em Geografia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Mestra em Turismo e Hotelaria pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali). Bacharela em Turismo pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e licenciada em Geografia pela Universidade de Brasília (UnB). Professora e vice-coordenadora do curso de Turismo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Coordenadora do Observatório de Turismo e Lazer da Baixada Verde. 121 Itamara Lúcia da Fonseca - Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Turismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Mestra e bacharela em Turismo pela UFRN. Izabela Rodrigues Paz - Graduanda em Geografia pela Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA). Bolsista de iniciação científica. Jonas Machado de Queirós - Especialista em Gestão de Serviços com ênfase em Turismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Bacharel em Turismo pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Técnico em Hospedagem pelo Colégio Técnico da UFRRJ. José Julião da Silva - Doutor em Geografia pela Universidade de Poitiers (França). Diploma de Estudos Aprofundados em Migrações, Espaços e Sociedade pela Universidade de Poitiers. Professor e pesquisador da Faculdade de Ciências da Terra e Ambiente da Universidade Pedagógica de Maputo (Moçambique). José Júlio Júnior Guambe - Doutor em Geografia pela Universidade Pedagógica de Maputo (UP). Mestre em População e Desenvolvimento pela Universidade Eduardo Mondlane (UEM). Graduado em Ensino de História e Geografia pela UP. Professor e pesquisador da Faculdade de Ciências da Terra e Ambiente da UP (Moçambique). José Manuel Cañizal Salceda - Técnico especialista em Eletrônica Industrial e em Sistema de Energias Renováveis. Pesquisador independente na área de pesquisas relacionadas à análise geográfica da difusão espacial dos óbitos e casos de Covid-19 no estado de Mato Grosso e o turismo e a pandemia. Josiani Nascimento da Silva - Doutoranda do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestra em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Bacharela em Turismo pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Joyce Avila de Oliveira - Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Mestra, bacharela e licenciada em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul (IFMS). Karoline Batista Gonçalves - Doutora e mestra em Geografia pela Universidade da Grande Dourados (UFGD). Bacharela em Relações Internacionais pela Faculdade Anhanguera de Dourados-MS. Membro do grupo de pesquisa Território e Ambiente da UFGD. Kassia Suelen da Silva Farias - Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará (NAEA/UFPA). Mestra em Planejamento do Desenvolvimento pela UFPA. Bacharela em Turismo pela UFPA.