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Da China Ming na Cultura Europeia: Os Pólos Português e Italiano (1499-1550)

Barreto, Luís Filipe

Abstract

O objectivo deste artigo é acompanhar a constituição do banco europeu de textos sobre a China Ming entre 1499, época das cartas de Lisboa de Girolamo Sernigi aquando do regresso da primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, e 1550, primeira edição em Veneza do Delle Navigationi et Viaggi de G. B. Ramusio. São estes os primeiros anos de uma informação europeia sobre a China Ming. Compreender as fundações que possibilitam as visões europeias da China é um exercício fascinante que coloca mil e um problemas.

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I Oobjectivo deste estudo é acompanhar a constituição do banco europeu de textos sobre a China Ming entre 1499, época das cartas de Lisboa de Girolamo Sernigi aquando do regresso da primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, e 1550, primeira edição em Veneza do Delle Navigationi et Viaggi de G. B. Ramusio (1485-1557). São estes os primeiros anos de uma informação europeia sobre a China Ming. Informação dispersa, pontual, mesmo fragmentária que marca os horizontes do conhecimento alcançado pelos europeus. Inícios de um saber europeu da China Ming desde as primeiras informações de chineses e da China marítima e mercantil até aos primeiros enunciados, nos finais dos anos de 1540, de elogio ao valor da Cultura e da Civilização Chinesas. Compreender as fundações que possibilitam as visões europeias da China éum exercício fascinante que coloca mil e um problemas. Fascinante antes de mais porque até meados do século XVI vemos surgir de uma forma implíANAIS DE HISTÓRIA DE ALÉM-MAR, Vol. III, 2002, pp. 409-446 DA CHINA MING NA CULTURA EUROPEIA: OS PÓLOS PORTUGUÊS E ITALIANO (1499-1550) por LUÍS FILIPE BARRETO * ——————————— * Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. 1Henri CORDIER na Biblioteca Sinica: Dictionaire Bibliographique des ouvrages relatifs a l’empire chinois,Paris, 1904-1924, 5 vols., na pág. 2062 do vol. III começa com Galeote PEREIRA asecção de «Voyageurs dans les temps modernes»: E. J. SPENCE,The Chan’s Great Continent: China in Western Minds,Londres, Penguin Press, 1999, passa de Marco Polo a Galeote Pereira/ /«The Catholic Century», pp. 18/19. Também a mesma constante surge, embora atenuada, em obras como R. DAWSON,The Chinese Chameleon: An Analysis of European Conceptions of Chinese Civilization,Londres, Oxford U. Press, 1967, e Donald F. LACH,Asia in the Making of Europe, Chicago U. Press, 1965, vol. Ieisto só para citar alguns dos mais relevantes estudos sobre a matéria. Por sua vez, N. CAMERON,Barbarians and Mandarins: Thirteen Centuries of Western Travellers in China (1970), Hong Kong, Oxford University Press, 1993, passa directamente de Tomé Pires a M. Ricci. cita e ainda larvar múltiplos dados, ideias e mecanismos que vão ser constantes a partir dos finais do século XVI eao longo do século XVII. Os anos de 1499 a 1550 desenham pois fios de condução para paisagens que apenas na centúria e meia seguintes vão ser patentes. Regra geral a historiografia tem votado pouca atenção a estes anos de informação europeia mais escondida e menos desenvolvida sobre a China Ming. Tudo se passa como se o conhecimento europeu moderno da China começasse nos anos de 1555-1556 com Galeote Pereira. Múltiplas razões explicam esta penumbra na investigação historiográfica de referência. O nosso objectivo é contribuir para que os primeiros anos de quinhentos ganhem o lugar e função próprios na história do olhar europeu da China. Vamos, antes de mais, reconhecer os textos fundamentais na sua ordem individual e rede de emergência e em seguida, procurar as constantes deste primeiro meio século de conhecimento europeu da China 2. II Em Lisboa, a 10 de Julho e a 28 de Agosto de 1499 o mercador florentino Girolamo di Cipriano Sernigi (1453-depois de 1515) escreve para Florença cartas com as novidades orientais trazidas no regresso da primeira viagem de Vasco da Gama à Índia. Cartas que vão ser impressas em Vicenza, em 1507, por Francazano de Montalboldo nos Paesi Novamente Retrovati et novo Mondo da Alberico Vesputio Florentino Intitulato.Os Paesi vão ter ao longo da primeira metade de quinhentos várias reedições italianas (Milão, 1508, 1512 e 1519 e Veneza, 1517 e 1522) 3bem como, em tradução latina em Milão, 1508, Itinerariu Portugallésiu,reeditada no Novus Orbis,Basileia, 1532, e em Paris no mesmo ano com duas tiragens, bem como, de novo em Basileia, 1537 4.Em Nuremberga em 1508 surgem duas traduções alemãs e nova edição alemã em Estrasburgo, em 1534, a partir da tradução latina. bem como sete edições francesas em Paris, a partir dos anos de 1516 ou 1517. Ambas as cartas LUÍS FILIPE BARRETO 410 ——————————— 2Tanto mais que nos últimos anos em línguas italiana e portuguesa surgiram estudos que começam a pesar os anos até 1550 como é o caso de G. BERTOLUCCIOLI e F. MASINI,Italia e Cina, Bari, Laterza, 1996, e Rui Manuel LOUREIRO,Fidalgos, Missionários e Mandarins – Portugal e a China no século XVI,Lisboa, F. Oriente, 2000, obra de 1994 que apresenta um sistemático inventário da massa documental portuguesa de quinhentos sobre a China. 3Sobre este êxito editorial veja-se Francisco Leite de FARIA,Estudos bibliográficos sobre Damião de Góis e a sua época,Lisboa, Secretaria de Estado da Cultura, 1977, pp. 266 e segs., e G. ATKINSON,La littérature géographique Française de la Renaissance. Repertoire bibliographique, Paris, Picard, 1927, pp. 24-27 e 32-34. 4Veja-se Itinerarium Portugallensium,Ed. Luis de MATOS,Lisboa, F. C. Gulbenkian, 1992. são também reeditadas em italiano no volume primeiro de G. B. Ramusio, Veneza, 1550. Na carta de 10 de Julho de 1499 surgem as primeiras informações europeias sobre as expedições oficiais da China Ming comandadas por Cheng-Ho nos anos de 1405 a 1433. São informações genéricas e confusas sem identificação da China e dos Chineses e que se referem a dados recolhidos em Calecute, que foi um dos portos do Índico visitados pelas armadas chinesas na primeira expedição de 1405-1407 bem como na terceira, de 1409-1411. Girolamo Sernigi informa que: «… e giá girca a 80 anni che nella detta cittá di Chalicut Vennono certi navili di cristiani brianchi co’capelli lunghi similli allí allamani, sanza barba, salvo intorno alla bocca come portano in chostantinopoli e cavalieri e cortigiani; e smontonno in terra armati di corazza e capazetti e bavieri e con certe arme in aste. E detti navili portavano bombarde piu’corte, che quelle que si costumano; e dipoi ogni 2 onni una volta vi tornano com XX eXXV navili, e non sanno e detti che gente essi sieno né che mercantia portimo alla dita cittá,salvante panni lini molto fini e ottono lavoratti; e caricano di spezieri e vannoasene. Le quali navi portano 4 alberi cosi come queste di Spagna. Si fussino allamani mi pare ni aremmo qualche notizia puo esser che sieno rossi de Rossia, se gl’hanno porto di mare…» 5 Sem identificação da China e sem qualquer precisão a Europa conhece aexistência de homens brancos semelhantes que em expedições marítimas oficiais trocam manufacturas por especiarias no Índico Ocidental. No mesmo quadro de informação oral e geral encontra-se a entrevista dada em Roma pelo presbítero Nestoriano José Indiano, natural de Cranganor, inserta também nos Paesi Novamente Retrovati, Vicenza, 1507, e que se refere à «gente do cataio» 6. No quadro das informações orais recolhidas em Calecute entre os finais de Maio e de Agosto de 1498 e chegadas a Lisboa entre Julho e Agosto de 1499, bem como dos indianos trazidos para Lisboa, encontram-se também as bases das cartas do rei D. Manuel. Acarta de el-rei D. Manuel ao cardeal D. Jorge da Costa, de 25 de Agosto de 1499, segue de Lisboa para Roma dando notícia diplomática do êxito da expedição de Vasco da Gama e referindo a existência de informação esmiuçada sobre também «… da Índia pera o sartãã e Tartaria, atee o Mar Mayor…» 7. ——————————— 5Carmen M. RADULET,Vasco da Gama: La prima Circumnavigazzione del’Africa 1497-1499, Reggio Emilia, Diabassis, 1994, p. 174. 6Tradução portuguesa in Notícias de Missionação e martírio na Índia e Insuíndia,Ed. J. M. Santos ALVES,Lisboa, Alfa, 1989, pp. 61-74. 7Carta de El Rey D. Manuel ao cardeal D. Jorge da Costa, de 25 de Agosto de 1499, de Lisboa para Roma, in Documentação para a História das Missões do Padroado português do Oriente, Ed. A. Silva REGO,Lisboa, Agência Geral das Colónias, 1947, vol. 1, p. 8. DA CHINA MING NA CULTURA EUROPEIA: OS PÓLOS PORTUGUÊS E ITALIANO (1499-1550) 411 Um pouco menos imprecisa embora ainda muito genérica é a informação sobre a «grande China»/Malchina 8na carta de D. Manuel para os Reis Católicos de Lisboa, 28 de Agosto de 1501, dando conta da viagem de Pedro Álvares Cabral: «… chama-se a terra Malchina, de onde vêm as porcelanas e almíscar e âmbar e lenho alois, que trazem do rio ganges que é aquém deles; e das porcelanas há vasos tam finos que um só vale lá cem cruzados…» 9. Uma versão desta carta, juntamente com outros elementos, que faz uma espécie de balanço das informações e resultados mercantis-geográficos alcançados pela coroa portuguesa entre 1501 e 1505 vai ser impressa em Roma e Milão em 1505 com o título Copia de una littera del Re de Portugallo mandata al Re de Castella del viaggio e sucesso de India 10. Aconcorrência entre as rotas do Levante e Atlântica, bem como a necessidade diplomática de engrandecer a Rota do Cabo são as responsáveis por estas primeiras informações da Europa sobre a China Ming. Informações manuscritas e impressas que circulam nos centros políticos ecomerciais de Lisboa, Roma e Florença. Informações imprecisas sobre uma China marítima e mercantil e grande potência manufactureira que a impressão e a tradução em lugares como Vicenza, Nuremberga, Basileia, Paris vai começando a divulgar. Neste primeiro andamento informativo europeu sobre a China Ming cumpre ainda destacar dois textos de 1508 e de 1510. Textos de natureza bem diversa que se traduz também na sua condição de manuscrito/impresso. Oprimeiro é o manuscrito regimento do rei D. Manuel para Diogo Lopes de Sequeira, capitão-mor da armada, para Malaca, passado em Almeirim, a 13 de Fevereiro de 1508. Trata-se de um documento interno à orgânica do estado marítimomercantil em que a coroa de Lisboa ordena a recolha sistemática de informação sobre a China a partir de Malaca: «… pregumtarees pellos chys e de que partes veem, e de cam lomge, e de quamto em quamto vem a mallaca, ou aos lugares em que trautam, e as mercadarias que trazem, e quamtas naos delles vem cada anno…» 11 LUÍS FILIPE BARRETO 412 ——————————— 8Maha em sânscrito significa Grande, daí o termo Malchina/Grande China; veja-se H. YULE eA. C. BURNELL,Hobson-Jobson: A Glossary of Colloquial…(1903), N. Deli, Munshiran, 1994, p. 197. 9Carta que el-rei nosso senhor escreveu a el-rei e à rainha de Castela seus padres da nova da Índia in História da Colonização Portuguesa do Brasil, ed. C. Malheiro DIAS,E. VASCONCELLOS eR. GAMEIRO,Porto, litografia Nacional, 1923, vol. II,p. 167. 10 Ed. moderna por Carlos SANZ,Bibliotheca America Vetustissima – ultimas adiciones, Madrid, L. G. Victoriano Suarez, 1960, 2 vols., no volume I,pp. 385-400 (Roma), e pp. 403-418 (Milão). Tradução portuguesa com o título «Relação Italiana sobre os Descobrimentos Portugueses», 1505, in Documentos sobre os Portugueses em Moçambique e na África Central 1497- -1840,Lisboa, C.E.H.U., 1962, vol. I(1497-1506), pp. 40 a 74. 11 Cartas de Afonso de Albuquerque seguidas de Documentos que as elucidam,Ed. A. Bulhão PATO,Lisboa, Academia Real das Sciências, 1898, Tomo II, p. 416. Depois do momento de arranque em que a recolha de informação sobre aChina e a Ásia Oriental se fez em Calecute e no Índico Ocidental, a Europa sabe, por intermédio da Coroa de Lisboa, que Malaca e o Sueste Asiático permitem uma nova idade informativa sobre a China marítima-mercantil. As informações recolhidas em Calecute, Cochim, Cananor, Coulão, permitem o desejo de encontrar e concentrar em e a partir de Malaca um largo banco de dados. Permitem, ao mesmo tempo, elaborar um questionário, saber as perguntas a fazer em torno do universo marítimo-mercantil da China bem como sobre a sua condição social e política: «… se teem mais de hum rey antre elles, e se vivem antre elles mouros ou outra alguma gente que nam vyva na sua lley ou crença, e se nam saam christãaos, em que creem, ou a que adoram…» 12 Em Roma, em 1510, é publicado o Itinerario de Ludovico de Varthema Bolignese nello Egypto, nella Surria, nella Arabia deserta et felice, nella Persia, nella India et nella Ethiopia,que fecha esta primeira década com a informação menos imprecisa sobre a China Ming enquanto mundo marítimo- -mercantil. Ludovico de Varthema (c.1470-c.1517) partiu de Veneza para Alexandria nos anos de 1500 a 1502 e navegou no Índico recolhendo informação até às zonas de Malaca e Java, tanto nos circuitos asiáticos como portugueses regressando a Veneza em 1508 por via da Rota do Cabo 13. OItinerário,de Ludovico de Varthema, teve na primeira metade do século XVI 12 edições italianas (em Veneza 7, em Milão 3 e em Roma 2). Atradução espanhola é de Sevilha, 1520, e aí volta a ser reeditado em 1523. Aprimeira edição alemã data de Augsburgo, 1515, com novas edições em Estrasburgo em 1516, Frankfurt em 1517, 1548, 1549, e de novo em Augsburgo em 1518 e 1549. A primeira edição flamenga é de Antuérpia, 1549. Estas vinte e duas edições e traduções até 1550 e os centros editoriais em jogo que passam por Veneza, Sevilha, Frankfurt e Antuérpia revelam que estamos frente a um dos maiores êxitos editoriais da época. Sucesso editorial que envolve círculos de leitura políticos, mercantis e eruditos. Aobra apresenta uma abundante informação sobre as redes marítimomercantis chinesas e alguns dados sobre as relações tributárias do Sueste Asiático com o rei da China (Cini) sendo no entanto mais frequente o uso do termo equivalente «Gran Cane Cathai». É a propósito de Ayuthia, Pedir e Malaca que surgem as melhores informações sobre o comércio chinês de sedas e de especiarias: ——————————— 12 Cit., p. 416. 13 Vejam-se os estudos de P. GUIDICI,Introduzione a Itinerario di Ludovico de Varthema, Milão, Alpes, 1929, e de Pietro BAROZZI,«Ludovico de Varthema e il suo Itinerario», Roma, Memorie della societá geografica italiana, 1996. DA CHINA MING NA CULTURA EUROPEIA: OS PÓLOS PORTUGUÊS E ITALIANO (1499-1550) 413 «… Malaca…a dita cidade fica em terra firme e é tributária do rei da China, que fez edificar esta terra há oitenta anos, por ter um bom porto, o principal do Mar Oceano…» 14 III Os anos que vão de 1511 a 1520 marcam, com a conquista portuguesa de Malaca em 1511 e o comércio regular dos portugueses entre Malaca e Cantão a partir de 1513, condições para uma nova idade informativa europeia sobre a China marítima e mercantil bem como sobre alguns elementos da organização política da China Ming. Omercador florentino Giovanni da Empoli (1483-1517), ao serviço da companhia dos Gualterotti-Frescobaldi e nos circuitos asiáticos a partir da rota do Cabo dos portugueses nos anos de 1503-1504, 1510-1514 e 1515- -1517, é o primeiro informador destas novas condições. Informações dadas através da carta de 12 de Julho de 1514 de Lisboa para o seu pai, Lionardo de Empoli, e da carta de Cochim para Lourenço de Medici, Florença, de 15 de Novembro de 1515, que será impressa em Florença, 1516 15. Na carta de 1514, G. de Empoli fornece várias informações sobre ocomércio chinês em Malaca e na Ásia do Sueste apontando as redes e produtos como o ruibarbo, almíscar, aljôfar e sedas. As informações finais da carta concentram-se no mundo marítimo-mercantil da Ásia Oriental com as ligações de «… Cini, Lechi e Chori…» 16. Nesta carta surge a identificação explícita entre o Cataio e a China: «… il re de Cini, che si chiama il gran chane di Chattaio…» 17 Aquilo que em L. de Varthema e em Tomé Pires é equivalência genérica de espaços entre a China Yuan e a China Ming torna-se nesta carta manuscrita de Giovanni da Empoli identificação. As familiaridades entre o Cataio e a China, detectadas por estes autores, exprimem o peso e a circulação de manuscritos e impressos da obra de Marco Polo na Europa dos inícios de quinhentos desde a primeira edição em Nuremberga, 1477, até à edição de Santaella, Sevilha, 1503, passando pela versão latina de Pipino em Antuérpia, 1485, e pela edição portuguesa de Valentim Fernandes, Lisboa, 1502 18. LUÍS FILIPE BARRETO 414 ——————————— 14 Ludovico de VARTHEMA,Itinerario,ed. Vicenzo Spinelli, Lisboa, I. A. Cultura, 1949, p. 189. 15 Carta de Giovanni da Empoli a Lionardo da Empoli, Lisboa, 12 de Julho de 1514, in M. SPALLANZANI,Giovanni da Empoli, mercante navegatore florentino,Florença, Scelte, 1984, p. 184. 16 Sobre a vida e obra deste mercador veja-se: Marco SPALLANZANI,Giovanni da Empoli, mercante navegatore fiorentino,Florença, Scelte, 1984; Laurence A. NOONAN,John of Empoli and his relations with Afonso de Albuquerque,Lisboa, I.I.C.T., 1989, e G. BERTUCCIOLI eF. MASINI, Italia e Cina,Bari, Laterza, 1996, pp. 84 e segs. bem como a bibliografia aí indicada. 17 Cit., p. 181. 18 Veja-se Juan GIL,El Libro de Marco Polo anotado por Cristoból Coloniel Libro de Marco Polo versión de Rodrigo de Santaella, Madrid, Alianza, 1987. Na carta de 1515 de Cochim para Florença, e que é bom não esquecer aí foi impressa em 1516, G. Empoli amplia a informação sobre o mundo marítimo-mercantil chinês ao mesmo tempo que comunica à Europa a chegada dos portugueses ao litoral da província de Guangdong: «… anchori hanno discoperto la cina, ove é suto homini nostri che qui stanno… la quale vie la magior richetie et cose del mondo…» 19 Um outro mercador florentino, Andrea Corsali (1487-depois de 1524), que embarcou de Lisboa para a Índia em 1515, escreve de Cochim, onde reside, nos anos de 1516 e 1517, duas cartas para Florença com também novidades sobre a China marítimo-mercantil e as actividades dos portugueses nos mares da China 20. Esta constante atenção informativa e editorial italiana, que veremos em seguida ainda mais reforçada através de traduções e edições de autores portugueses sobre a Ásia, está directamente ligada à concorrência entre as rotas do Levante e do Cabo, aos jogos diplomáticos de Lisboa, Roma, Veneza e à participação comercial e financeira italiana (bem como aos circuitos da prata alemã) na expansão portuguesa na Ásia. São estes vínculos económicos epolíticos feitos de concorrência e de parceria entre diversos interesses e poderes europeus, que possibilitam a aceleração e a divulgação do novo emelhor conhecimento europeu das sociedades e economias asiáticas e neste caso específico da China marítima e mercantil. Ageografia europeia da concorrência e da parceria em torno do comércio euroasiático apresenta uma larga sintonia com a geografia editorial europeia de produções culturais e informativas sobre a Ásia. Aprimeira carta de A. Corsali, de Cochim, em Janeiro de 1516, para Guiliano de Medici (1479-1516), será impressa em Dezembro do mesmo ano em Florença, Lettera di A.C. allo illustrissimo signore duca Iuliano de Medici. Asegunda, de Cochim, completada em Janeiro de 1518 e enviada a Lorenzo de Medici (1492-1519), apenas será impressa em Veneza, 1550, por G. B. RAMUSIO (1485-1557), no primeiro volume do Delle Navigationi et Viaggi, a obra monumental da informação europeia sobre a Ásia 21. As cartas de A. Corsali transmitem mais alguns dados sobre aspectos da vida chinesa bem como a novidade da chegada dos portugueses ao comércio de Cantão: «… Sono molto industriosi e di nostra qualitá, ma di piú brutto viso, con gli occhi piccoli. Vestono a costume nostro e calzano con scarpe e calzamenti come noi… quest’anno passato navigarano alla cina nostri Portog- ——————————— 19 Cit., pp. 202-203. 20 Veja-se Marco SPALLANZANI,Mercanti fiorentini nell’Asia portoghese (1500-1525), Florença, Spes, 1997, pp. 81 a 96. 21 As duas cartas publicadas por Ramusio encontram-se nas páginas 176-188 do primeiro volume da edição de 1563. Giovanni Battista RAMUSIO,Navigationi et Viaggi-Venice 1563-1606, Ed. A. SKELTON eG. B. PARKS,Amesterdão, Theatrum Orbis Terrarum, 1967-1970, 3 vols. DA CHINA MING NA CULTURA EUROPEIA: OS PÓLOS PORTUGUÊS E ITALIANO (1499-1550) 415 hesi, quai non forno lasciati scentere in terra… forestieri non emtrimo nelle loro abitazioni…» 22 Informações pontuais sobre a China, impressas em língua italiana, «… popoli cini che son bianchi come noi…» (A. Zorzi), surgem também nos círculos humanistas, como vemos no caso da informação de Alessandro Zorzi, de Veneza, 1517 23.Alessandro Zorzi é um humanista e cartógrafo veneziano que, pelo menos até 1538, elabora cinco códices de recolha sistemática de informação geográfica sobre a expansão marítima de portugueses ede espanhóis. Em Lisboa, Florença e Veneza a partir de Cochim e de Malaca concentra-se e organiza-se toda uma nova informação europeia asiática que contempla cada vez mais dados sobre a dimensão marítima e mercantil da China Ming no Nanyang. O que vai chegando aos centros e aos círculos dos poderes político, económico e cultural da Europa é no entanto apenas uma parte da informação recolhida e organizada nos centros asiáticos do poder mercantil einformativo português como Cochim, Cananor e Malaca. Énesses centros, e muito em especial nos círculos dos burocratas letrados do estado mercantil português, que a informação geográfica e antropológica sobre a China atinge níveis superiores de quantidade e de qualidade. Pela primeira vez passamos de informações europeias isoladas sobre este ou aquele aspecto da aparência física de chineses ou das suas actividades mercantis e manufactureira para uma primeira formulação desenvolvida sobre a China Ming / O Grande Reino da China. AChina como entidade própria, como realidade individual e única no recorte global da Ásia, começa a emergir lentamente no saber dos europeus com as obras de Duarte Barbosa e Tomé Pires 24. OLivro das Coisas da Índia,do escrivão da feitoria de Cananor, Duarte Barbosa, e a Suma Oriental,do vedor da fazenda de Malaca, Tomé Pires, escritos respectivamente entre os anos de 1511-1516 e 1512-1515, são as primeiras geografias europeias sistemáticas e globais da Ásia. Uma Ásia essencialmente marítima, litoral e mercantil, como é natural nos horizontes de informação e de interesse de funcionários da coroa ligados àlógica do «Estado da Índia». Mas uma Ásia também já com uma informação política e cultural por vezes relevante. LUÍS FILIPE BARRETO 416 ——————————— 22 G. B. RAMUSIO,Navigazioni et Viaggi,ed. M. Milanesi, Turim, Einaudi, 1979, vol. II,p. 35. 23 Informatione havuto do Alexandre da Portogalese, 1517 In Venecia, ed. Francisco LEITE e Teixeira da MOTA,Novidades Nauticas e Ultramarinas numa informação dada em Veneza, 1517, Lisboa, J.I.C.U., 1977, pp. 16-23. 24 Sobre a vida e a obra destes autores, veja-se Luís Filipe BARRETO, Descobrimentos eRenascimento, Lisboa, I. Nacional, 1982, pp. 143-168, e Duarte Barbosa e Tomé Pires: «Os autores das primeiras Geografias Globais do Oriente», in Entre dos Mundos: Fronteras Culturales yAgentes Mediadores,Coord. B. QUEIJA eSerge GRUZINSKI,Sevilha, CSIC, 1997, pp. 177-191, bem como a bibliografia aí indicada. Obras, uma vez mais, manuscritas em português com uma circulação restrita de poucas cópias na corte de Lisboa e nos centros da Ásia (Cochim, Goa, Cananor, Malaca). Cópias manuscritas, que em especial no caso de Duarte Barbosa, circulam também por centros como Sevilha, Florença e Veneza. Obras que vão ter, ao longo da segunda metade de Quinhentos, uma larga difusão europeia, graças à edição italiana que de Tomé Pires é tão-só parcial ficando manuscritos os dados mais relevantes sobre a China, no primeiro volume de G. B. RAMUSIO,Delle Navigationi et Viaggi,Veneza, 1550 25. Ofacto de estas obras globais da Ásia e do Índico litoral e mercantil terem sido criadas em tão poucos anos significa que existe já em Cochim, Cananor e Malaca um vasto conjunto de cartas-relatório, notas e apontamentos de viagem, materiais asiáticos de informação acumulados e organizados de forma satisfatória. Por outro lado, o ritmo rápido na elaboração e a segurança na informação destas sínteses portuguesas significa que as parcerias culturais com os saberes asiáticos começam a ser uma realidade produtiva. Ao longo da segunda metade de Quinhentos, as obras de Duarte Barbosa ede Tomé Pires vão ter impacte em vários círculos de conhecimento europeu sobre a Ásia. São, antes de mais, altos instrumentos de informação para os centros de decisão e de risco político, comercial e financeiro. São, no entanto, também enciclopédias para os humanistas e os quadros eruditos que produzem geografia e história. Ofacto de este nosso capítulo terminar em 1550 e de as obras de Duarte Barbosa e de Tomé Pires terem tido o grande impacto exactamente na segunda metade de quinhentos parece, à primeira vista, desaconselhar o tratamento das mesmas. Contudo, a escolha do ano de 1550 para fechar um primeiro andamento no conhecimento europeu sobre a China passa também edecisivamente pelo facto de as obras de Duarte Barbosa e de Tomé Pires atingirem então a impressão. Passa também pelo facto de ser nas edições de G. B. Ramusio que se vai começar a constituir um conhecimento europeu impresso e alargado sobre as viagens europeias medievais à China Yuan com a importante edição de Marco Polo na edição de 1559 e a primeira impressão da Historia Mongolarum, de Giovanni di Pian Carpino (1182-1252), na segunda edição do volume segundo do Delle Navigazioni et Viaggi,Veneza, 1574. Para além desta difusão de uma China medieval na Europa da segunda metade de Quinhentos, acompanhando as informações sobre a China Ming, opost-1550 vê surgir os primeiros impressos europeus exclusivamente sobre a China Ming. Em Coimbra, 1555 aparece a «Informação Anónima», eemVeneza, 1561, o Tratado de Galeote Pereira,escrito em Malaca por volta de 1555. ——————————— 25 Aobra de Duarte Barbosa com o título «Libro Diodoardo Barbosa Portoghese» ocupa as páginas 349v-364r e a impressão, muito parcial e anónima de T. Pires, surge nas páginas 364v-371v, com o título «Sommario di Tutti il Regni, Citta, e Popoli Orientali». DA CHINA MING NA CULTURA EUROPEIA: OS PÓLOS PORTUGUÊS E ITALIANO (1499-1550) 417 Na Suma Oriental de Tomé Pires encontramos a melhor informação europeia sobre a China alcançada nos anos de 1512 a 1515 na Ásia do Sueste enos mares e litorais de Cantão. OLivro das Coisas da Índia eaSuma Oriental fundam uma primeira imagem europeia da China Ming. A China como entidade própria, como realidade individual e única. Ambas as obras organizam e potenciam também os diferentes dados à mão existentes nos circuitos mercantis respectivamente do Índico Ocidental e do eixo Malaca-Cantão. Estes anos de construção, no banco de dados europeu, de uma primeira individualidade da China, no plano da geografia descritiva e antropológica, são também, no plano da cartografia e da roteiristica, anos do nascimento de um saber individualizado e especializado sobre a China. Não temos como objectivo neste momento o estudo da cartografia europeia dos litorais da China, que é uma cartografia náutica em estreita implicação com a roteirística 49.Não podemos contudo deixar de assinalar que em Malaca, cerca de 1512, o navegador e geógrafo Francisco Rodrigues compõe um, Livro de Geografia Oriental,onde se encontram as primeiras cartas europeias particulares do litoral da China, com destaque para Cantão/«cidade Chyna». Francisco Rodrigues é também o primeiro europeu a escrever um roteiro sobre a navegação nos mares da China, de Malaca a Cantão, intitulado Camynho da Chyna. Francisco Rodrigues recolheu estas informações na Índia, em Banda eMalaca. São dados concretos e precisos, fruto do contacto com pilotos e cartógrafos. Em especial, chineses e javaneses. As suas cartas são junções da cartografia chinesa com as cartas rumadas e o seu roteiro é uma tradução eversão portuguesa da roteirística asiática. Com Francisco Rodrigues, Tomé Pires e Duarte Barbosa a China Ming ganha um corpo e lugar específicos no universo do saber europeu sobre aÁsia. Ganha cada vez mais uma individualidade própria, especializada e aprofundada enquanto China litoral, marítima e mercantil. Os anos de 1518 a 1530 não trazem qualquer desenvolvimento significativo no conhecimento europeu da China e dos chineses enquanto geografia descritiva e antropológica 50. As dificuldades no relacionamento político luso-chinês, o édito imperial de 1522 de expulsão dos «Fo Lang Chi», ou seja, dos violentos bárbaros portuguesas na terminologia oficial chinesa e o recuo do comércio marítimo LUÍS FILIPE BARRETO 424 ——————————— 49 Sobre a cartografia náutica portuguesa dos mares e litorais da China, veja-se Albert KAMMERER,La Découverte de la Chine par les Portugais au XVI siècle et la Cartographie des Portulans,Leida, E. J. Brill, 1944, e Luís Filipe BARRETO,Macau: Cartografia do Encontro Ocidente- -Oriente,Macau, CTCDP, 1995, e Cartografia de Macau – Séculos XVI e XVII,Lisboa, Missão de Macau, 1997. 50 São no entanto anos de desenvolvimento na cartografia europeia manuscrita da China, em especial em Sevilha com os Planisférios de 1525, 1527 e 1529, do cartógrafo português Diogo Ribeiro. entre portugueses e chineses para níveis muito baixos, anos de 1522 a 1528, eacima de tudo para redes asiatizadas e informais constituem as razões fundamentais para este quase grau zero de escrita. Existe na ordem dos acontecimentos marítimos e mercantis uma situação que inviabiliza, em larga medida, a regularidade e a frequência de contactos e que afecta as parcerias euroasiáticas que constituem os canais de abastecimento da informação europeia. Por outro lado, os mercadores letrados e acima de tudo os burocratas letrados do aparelho de estado mercantil português tinham chegado, no terreno, a um ponto máximo de exploração da informação asiática e portuguesa disponível sobre a China. Fruto deste quadro de bloqueio voltamos a encontrar, ao longo desta década, um regresso da informação fragmentária sobre os chineses e a China. Dados ligeiros em cartas como a de Martim Afonso de Melo para o rei D. Manuel de Cochim, a 14 de Novembro de 1521 51.Informação ligeira também obtida a partir da rede marítimo-mercantil islâmica do Sueste Asiático como vemos, em Francisco António Pigafeta (1491-1534). Pigafeta, natural de Vicenza, acompanha a expedição de circum-navegação do português Fernão de Magalhães ao serviço de Castela. As notas tomadas na viagem de 1519 a 1522 são desenvolvidas na relação impressa em 1522 em latim em Roma e Colónia em 1523, também com edição parcial francesa, «Le Voyage de Navigation aux Ilés Molúque», Paris, 1522, e edição italiana em Veneza, 1536 com o título «Il Viaggio fate dali spagnoli atorno al mundo». Nas cartas de Martim Afonso de Melo para o rei, de 1521 e 1523, como em outras cartas para o mesmo destinatário como a de Diogo Calvo de 1527 todas escritas depois de viagens aos litorais da China não encontramos qualquer progressão, quantitativa ou qualitativa, na informação europeia sobre aChina 52.No entanto, estes pedaços de informação habitual e residual repetida sob forma manuscrita ou impressa vão estabelecendo, cada vez mais, em Lisboa, Paris, Veneza, Sevilha o tópico da grandeza e riqueza da China: «… a grande China cujo rei é o mais poderoso príncipe da terra…» (F. Pigafeta), e «… debaixo do sol tão riqa terra não há como a China…» (Diogo Calvo). ——————————— 51 Informação marítimo-mercantil ligeira e pensada em termos estratégicos para a Coroa de Lisboa: «… eu trabalhey quamto pude por saber asy de symao d andrade como dos que verão em sua companhia por alguas cousas da Chyna de que compria avisar vosa alteza», in Carta de Martin Afonso de Melo para o Rei de Cochim a 14 de Novembro de 1521 editada por Ralph Bishop SMITH,Martim Afonso de Melo captain major of the portuguese fleet which sailed in China in 1522,Bethesda, Maryland, Decatur Press, 1972, p. 6. 52 Sobre as informações destes anos, veja-se J. Paulo Oliveira e COSTA,«Do Sonho Manuelino ao Realismo Joanino», Stvdia,Lisboa, n.º 50, 1991, pp. 121-156. DA CHINA MING NA CULTURA EUROPEIA: OS PÓLOS PORTUGUÊS E ITALIANO (1499-1550) 425 IV De 1531 a 1540 mantém-se o predomínio da informação pontual, fragmentária e repetida em torno da grandeza marítima e mercantil da China Ming. Mas nos anos 1534 e 1536 temos dois relatórios enviados de Cantão para certamente Malaca, Cochim e Lisboa que são as primeiras obras escritas por europeus na China Ming. As cartas de Cantão de Cristóvão Vieira em 1534 e de Vasco Calvo em 1536 ficaram manuscritas na época 53.Tiveram uma muito restrita circulação e um quase nulo impacte no banco de dados europeus 54. Tirando a informação usada por João de Barros estas cartas pouco ou nenhum impacte informativo tiveram embora sejam os primeiros textos europeus escritos da China Ming que chegaram à Europa. As razões para esta muito baixa difusão, manuscrita e impressa, prendem-se com a natureza dos próprios textos e a condição dos próprios autores. As cartas são relatórios clandestinos de prisioneiros. Relatórios confidenciais-secretos do Estado marítimo-mercantil português. Relatórios em torno dos obstáculos no comércio português com o litoral da China e nas soluções para a abertura desse mesmo comércio marítimo. Os autores são funcionários ou membros do Estado da Índia aprisionados em Cantão pelas autoridades chinesas. Cristóvão Vieira desembarcou na província de Cantão em 1517 na embaixada de Tomé Pires e está prisioneiro na China desde 1521. Vasco Calvo é um nobre mercador aprisionado em Cantão também em 1521 e junto aos prisioneiros da embaixada de Tomé Pires. Estas cartas relatórios não são inquérito geográfico-antropológico sobre aChina e os chineses nem recolha de novidades sobre o tecido marítimomercantil. Possuem também esta informação mas são, sobretudo, relatórios LUÍS FILIPE BARRETO 426 ——————————— 53 Onúmero de cópias manuscritas deve ter sido bastante reduzido pois apenas conhecemos hoje a da B. N. Paris. Em Lisboa, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Fragmentos, maço 24) existe um importante fragmento da carta original de C. Vieira, escrita em Cantão, em papel chinês e a tinta da China, publicado por E. A. VORETZSCH,«Documento acerca da Primeira Embaixada Portuguesa à China», in «Relações entre Portugueses e Japoneses», Boletim da Sociedade Luso-Japonesa,Tóquio, 1929, n.º1, pp. 50 a 69. O facto de ser apenas J. Barros e não qualquer outro a referir-se às Cartas indicia a sua não circulação fora do restrito círculo do poder central da Coroa/Lisboa. É bom não esquecer que o humanista e historiador João de Barros foi, entre 1533 e 1567, feitor da Casa da Índia. 54 Na época apenas são genericamente conhecidas por via indirecta pois a elas se refere João de Barros na Década III da Ásia,Lisboa, 1563. Referência impressa genérica, em 1563, e nada mais pois por via directa de cópias manuscritas, totais ou parciais, que tivessem ultrapassado o muito restrito círculo oficial da Corte, nada se conhece. Na época apenas são genericamente conhecidas por via indirecta pois a elas se refere João de Barros na Década III da Ásia, Lisboa, 1563, e nada mais pois por via directa de cópias manuscritas, totais ou parciais, que tivessem ultrapassado o muito restrito círculo oficial da Corte nada se conhece. político-militares sobre um estratégia de avanço dos canhões e das velas portuguesas nos mares da China. Acarta de Cristóvão Vieira, dos finais de 1534, é antes de mais um relatório informativo para a Coroa sobre os incidentes da embaixada de Tomé Pires à China, a primeira embaixada europeia à China. Um relatório que informa sobre razões político-diplomáticas do falhanço da embaixada a partir de argumentos e perspectivas oficiais chinesas: «… dizião as sentenças; ladrões piquenos do mar enviados pollo ladrão grande falsamente vem espiar nossa terra mourão em troncos por ladrões…» 55. Os portugueses como Wako, o estatuto tributário de Malaca, os problemas dos intérpretes e do protocolo na embaixada de Tomé Pires bem como o édito imperial de expulsão dos Folangji desfilam na carta de Cristóvão Vieira: «… O rei da China manda carta aos grandes de Cantão que não recebão a nenhum embaixador de Portugal, a carta del rei de Portugal he queimada, oembaixador e sua companhia já foi preguntado de como se tomou Malaca; não o deixam hir… entreguem Malaca ao dito rei de Malaca, como o rei de Malaca for entregue Malaca e gente assi como lha tomarão ao rei de Malaca ecomo o rei de Malaca for entregue della deixarão hir ao embaixador e se não entregar Malaca ao dito rei averse ha outro conselho. Esta carta veio do rei da China ao Tutão…» 56. As passagens citadas da carta são suficientes para se entender o destino manuscrito e quase silencioso da escrita de Cristóvão Vieira. Trata-se de uma carta relatório da Coroa com dados sobre a perspectiva chinesa que são muito críticos para o quadro e os objectivos das relações internacionais do Estado Português na Ásia: «… teem os chis os portugueses em pouco por dizer que não sabem pelejar em terra que são como pexes que como os tirão d’água ou do mar logo morrem…» 57 asua não circulação, mesmo no plano manuscrito, é um objectivo estratégico na política da Ásia Portuguesa. ——————————— 55 «Trelado de hua carta que da China veo a qual carta escreveo Cristovão Vieira», in Enformação das cousas da China – Textos do século XVI,ed. Raffaella d’INTINO,Lisboa, I. Nacional, 1989, p. 15. 56 «Trelado de hua carta que da China veo a qual carta escreveo Cristovão Vieira…», cit., p. 17. 57 «Trelado de hua carta que da China veo a qual carta escreveo Cristovão Vieira…», cit., p. 19. DA CHINA MING NA CULTURA EUROPEIA: OS PÓLOS PORTUGUÊS E ITALIANO (1499-1550) 427 Fruto dos dezassete anos de estadia e de recolha informativa na China a carta de Cristóvão Vieira contém abundante informação, em português, da perspectiva e do mundo chineses no relacionamento dos portugueses com a China Ming: «… chamo a todo estrangeiro salvaje, a sua terra chamão o reino de Dó…» (Cristóvão Vieira.) Dados relevantes porque informam do outro lado da fronteira cultural. Por exemplo, a introdução e a produção de armas de fogo do tipo português na China como a espingarda e o canhão bem como a construção naval ao molde português são noticiadas por Cristóvão Vieira: «… hum chim… que sabia fazer pólvora bombardas e galees… começou em Cantão a fazer duas galles, fez duas acabadas de todo… acharão que algüa cousa sabia de polvora de bombardas mandaram no ao rei…» 58 Um dos presentes da embaixada de Tomé Pires em 1517 às autoridades de Guangdong foi uma espingarda, mas só no post-1522 é que houve interesse das autoridades chinesas pela tecnologia naval e militar portuguesa. Cristóvão Vieira informa sobre um chinês que conhece a tecnologia militar portuguesa de Cochim e de Malaca referindo-se a Yang San ou Dai Ming que, segundo as fontes chinesas, tinham vivido muitos anos com os portugueses esabiam fazer navios e armas 59. Para além de relatório político e diplomático a carta de Cristóvão Vieira contém abundante informação sobre a geografia da China Ming, em especial sobre os litorais da província de Guangdong. Os dados sobre a vida marítima e mercantil da zona de Cantão, sobre a estrutura social e a organização do estado chinês estão organizados a partir de uma perspectiva de conquista militar portuguesa: «… quequer que vier ora seja capitão com frota de dez ate quinze vellas, primeira cousa he desbaratar armada. se a tiveré, a que eu cuido que não tee, seja por fogo, sangue, medo cruel por este dia se dar vida a nenhua pessoa, todo iunco queimado e não se tome ningué por se não gastare os matimentos, que em todo tempo se acharão cem chis pera hu português… eisto feito despejarse ha nato e logo terão fortaleza e mantimentos se quisere porque logo he na mão e dar co toda armada e ainacha que esta a barra de tacoam de bo porto aqui se acorarao aos naos… queimarlhe o lugar por fazer medo aos chis…» 60. LUÍS FILIPE BARRETO 428 ——————————— 58 «Trelado de hua carta que da China veo a qual carta escreveo Cristovão Vieira…», cit., p. 19. 59 Veja-se MAChujian, The Introduction of Western Artillery by the Jesuit Missionaries and the Consequent changes in the wars between the Ming and the Qing In Martino Martini: AHumanist and Scientist in Seventeenth Century China, ed. F. DEMARCHI eR. SCARTEZZINI, Trento, Universita degli Studi, 1996, p. 313. 60 «Trelado de hua carta que da China veo a qual carta escreveo Cristovão Vieira…», cit., pp. 36 e 37. Atotalidade da informação geográfica da carta de Cristovão Vieira está regulada pelo objectivo de saber para invadir e conquistar. Os dados escolhidos, as áreas de acentuação e de aprofundamento temático estão ao serviço dos canhões e das velas, ao serviço de um projecto de conquista da feitoria-fortaleza em Cantão e de uma armada de costa nos litorais sul do mar da China. Uma vez mais compreendemos o valor e a utilidade estratégicas desta carta para o centro político-militar da Coroa portuguesa e ao mesmo tempo aextrema necessidade de controlo da informação da carta num muito restrito círculo do aparelho de estado. Aideia de Cristóvão Vieira é a da conquista de Cantão com o domínio das redes marítimo-mercantis da província. O domínio também das rendas e manufacturas e o aproveitamento da mão de obra cantonense em todas as feitorias-fortaleza do Índico: «… deixar nella fortaleza e lugares que convem deixar gete portuguesa e malavares e tornesse co toda sua armada carregada de chis carpinteiros pedreiros ferreiros telheiros serradores e de todo outro officiio co suas molheres pera deixar por esas fortalezas…» 61. Acarta de 1536 de Vasco Calvo tem a mesma natureza de informação geográfica regulada pelo e para o objectivo da conquista militar dos litorais emares do sul da China. Existe alguma informação objectiva sobre a China Ming, «… o geito da terra he chamare ao seu rei filho de Deus e a terra chamão terra de Deus e toda outra gente de fora a da terra chamão salvages que não conhecem Deos nem terra e que todo o embaixador que vem a sua terra que vem obedecer ao filho de Deus…» 62 Contudo estes dados sobre as ideias de «Tianchia» e «Shangdi» bem como outros informes geográficos, são elementos menores e não aprofundados. O essencial é a informação dos locais a atacar e a conquistar, dos pontos estratégicos para a navegação e a artilharia: «… irão pollo rio acima como levare soma de artelharia, irão queimando quátos paraos e juncos e cousas se achar de villas e lugares fazendose grandes estroições sem ficar cousa nenhua…» 63 Acarta de Vasco Calvo é um complemento e prolongamento da de Cristóvão Vieira em especial na ideia de conquista militar. Uma precisão nos dados e nas informações estratégicas para a conquista de feitorias-fortaleza e o estabelecimento de uma armada de costa nos mares da China. ——————————— 61 «Trelado de hua carta que da China veo a qual carta escreveo Cristovão Vieira…», cit., p. 36. 62 «Trelado de outra carta…», cit., p. 53. 63 «Trelado de outra carta…», cit., p. 43. DA CHINA MING NA CULTURA EUROPEIA: OS PÓLOS PORTUGUÊS E ITALIANO (1499-1550) 429 Complemento e prolongamento que acaba por explicitar e precisar o programa de conquista. Agora, são propostas as províncias de Guangdong edo Fujian, «… governação deste Cantão e de Foquem…» (Vasco Calvo) como áreas estratégicas de uma rede marítimo-mercantil hegemonizada por armadas portuguesas numa trama de feitorias-fortaleza nos litorais destas províncias. Aideia mais forte da carta de Vasco Calvo é a de que as províncias litorais do sul da China são uma nova e melhor Índia. Devem ser o centro de sustentação e de viabilidade do próprio Estado da Índia e da Rota do Cabo. Ocomércio marítimo, as rendas, os metais preciosos, as manufacturas e aabundante e especializada mão-de-obra de Guangdong e do Fujian são a solução para o poder português na Ásia e na relação Europa-Ásia: «… se nesta terra se gastar hum ceitill del Rei nosso señor, senão levarão pera a Índia se fazerem os gastos e cargos de naos para Portugal… outra casa da Índia não trazendo de Portugal salvante daqui levarem nao carregada de prata e ouro pera na Índia fazerem cargo das naos pera Portugal ese fazer o gasto na Índia…» 64 V Os anos de 1541 a 1550 vão marcar uma nova idade qualitativa no conhecimento europeu da China. Um conjunto múltiplo de factores, alguns vindos da década de 1530, vão gerar novas condições de possibilidade informativa. Nos anos de 1530 a 1540 surgem em Portugal os primeiros jardins botânicos de plantas exóticas asiáticas, as primeiras colecções sistemáticas de farmacopeia asiática e as colecções de livros impressos asiáticos. Novidades da Índia, do Sueste Asiático e da Ásia Oriental alimentam o coleccionismo de membros da casa real, como o Infante D. Luis, membros da alta nobreza como Brás de Albuquerque e D. João de Castro, médicos judaicos como Amato Lusitano. Esta acumulação na Europa de matéria asiática mais erudita só é possível porque a partir da década de 30 se assiste a uma melhoria qualitativa nos quadros portugueses na Ásia. Nobres letrados como Diogo de Sá, 1527, Lopo de Sousa Coutinho, 1533, e D. João de Castro, 1538, universitários como Garcia de Orta, 1534, ou soldados e funcionários letrados como Diogo de Sá, 1527, Fernão Mendes Pinto, 1537, Jorge Álvares ou o regressado Simão Álvares em 1533 são apenas a parte mais visível deste salto qualitativo. Arecolha no terreno por humanistas, nobres eruditos e funcionários letrados de toda uma informação cultural sobre a novidade asiática permite LUÍS FILIPE BARRETO 430 ——————————— 64 «Trelado de outra carta…», cit., pp. 44 e 51. aacumulação e a organização da informação na Europa em colecções, bibliotecas e jardins botânicos. Éesta crescente circulação e recolha de informação na Ásia e em Lisboa que permite ao navegador e geógrafo português João Afonso, ao serviço da coroa francesa, num manuscrito de cerca de 1542, opor a tranquilidade e a sabedoria chinesas à guerra e instabilidade dos europeus 65. Um sinal bem manifesto desta nova idade qualitativa no conhecimento europeu da China é dado pelas anotações e complementos a propósito da China numa das cópias manuscritas no Livro das Coisas da Índia de Duarte Barbosa. Oanónimo autor desta actualização da informação sobre a China no Livro de Duarte Barbosa esteve na Índia e na Ásia do Sueste entre os anos de 1535 e 1543, vivendo em Malaca e Banda pelo menos nos anos de 1540. Provavelmente cerca de 1544-1545 66,na ou entre a viagem de regresso eachegada a Portugal realiza esta cópia actualizada do Livro de Duarte Barbosa apartir de uma modernidade informativa: «… Bem parece que o autor fez esta memoria em tempo que a India não era muito trilhada de portugueses, e será mesmo que a fez por ouvidas que de vista…» 67 Éesta nova idade informativa que surge de novo proclamada a propósito da própria China: «… despois que o autor isto escreveo foram muitos portugueses a esta China eteem muito dela por a costa descoberta, a qual é muito grande terra…» 68 Passados cerca de trinta anos o horizonte informativo do Livro de Duarte Barbosa pode ser melhorado e ampliado, como o fez o nosso anónimo autor ——————————— 65 La Cosmographie avec l’esphere et le régime du soleil et du nord par Jean Fonteneu dit Alfonse Saintonge…, ed. G. Musset, Paris, 1904. Sobre este tópico, veja-se G. CHINARD, L’Exotisme Américan dans la Littérature Française du XVI Siècle, Paris, 1911, p. 47, e Sergio ZOLI,Lá Cina e la Cultura Italiana dal 500 al 700, Bolonha, Patron, 1973, p. 17. Sobre a vida e aobra de João Afonso, consulte-se Luís de MATOS,Les Portugais en France au XVI Siècle, Coimbra, I. Universidade, 1952. 66 Oautor desta cópia anotada e actualizada do Livro de Duarte Barbosa esteve na Índia e na Ásia entre cerca de 1535 e 1543. É provavelmente o conhecido cartógrafo Gaspar Viegas que na Ásia tem os irmãos Gaspar Viegas, João Viegas e Galvão Viegas. As anotações são escritas nos anos de 1540-1542 e concluídas cerca de 1544-1545 como se pode concluir do episódio de Hairun reconduzido no trono por D. João de Castro, em 1547: «… assi que quando parti da India, ano de 1543, ainda ficavam todos em Goa, com lhe dezer cada monção que pera o outro o levariam…», in Livro de Duarte Barbosa,ed. M. A. Veiga e SOUSA,Lisboa, I.I.C.T., 2000, vol. II,p. 468. Esta passagem foi escrita depois de 1543 e antes de 1547-1548. 67 Livro de Duarte Barbosa,ed. M. A. Veiga e SOUSA,Lisboa, I.I.C.T., 2000, vol. II,p. 452. 68 Livro de Duarte Barbosa, cit., p. 469. DA CHINA MING NA CULTURA EUROPEIA: OS PÓLOS PORTUGUÊS E ITALIANO (1499-1550) 431 irmão de João Viegas, Galaz Viegas e Gaspar Viegas, sendo João Viegas, em 1512, o autor da primeira proposta de viagem mercantil portuguesa à China. Ofacto deste novo horizonte informativo desaguar também sob a forma de actualização e melhoria na obra de Duarte Barbosa significa que o Livro das Coisas da Índia funciona nos anos 40, nos sectores portugueses da Ásia e em Portugal, como manual básico de informação das coisas asiáticas, como enciclopédia actualizada do saber europeu do Oriente. Ao longo destes trinta anos, o Livro das Coisas da Índia foi sob a forma manuscrita sobrevivendo, crescendo e actualizando-se, criando o caminho das cópias e das anotações manuscritas que possibilita a sua edição italiana em Veneza, 1550. Omais importante nesta anotação e actualização da China no Livro de Duarte Barbosa éainformação mercantil sobre os litorais da província de Cantão: «… um rio, que se chama cantam, o qual é um dos grandes que em todas aquelas terras há…» 69 Os dados recolhidos nos inícios dos anos 40 atestam um intenso comércio, também de portugueses, nos mares e nos litorais da província de Cantão: «… e 50 ou 60 legoas ao mar da boca deste rio há i uas certas ilhas adonde vão sorgir todas as naos estrangeiras que vão tratar áquele reino. Vão ali ter porque, se veem à costa sem o rei saber, perdem as naos e mercadorias e eles mortos ou cativos…» 70 Anovidade tão só mercantil da China reside nas condições do trato nas ilhas de Cantão «… se vendem ali muitas mercadorias que são muito falsificadas…» 71 enos pormenores concretos que atestam a intensidade do comércio português informal na província de Cantão. Nos inícios da década de 40 do século XVI aChina cultural começa a ecoar nas elites culturais europeias. Ao longo da década esta dimensão da China como grande civilização não pára de crescer tanto nas elites culturais europeias laicas como clericais. Em Malaca, em 1547, surge a anónima Emformação da Chyna, mandada per huu homem a mestre Framçysquo.Informação manuscrita que resulta de uma parceria mercadores-jesuítas e que circula também nos corredores do poder oficial do Estado da Índia (Malaca e Goa). Trata-se de um ponto de situação do conhecimento existente organizado apartir de um ponto de vista mais erudito e cultural. A Emformação é a escrita de recolhas orais e de vivências pessoais feita a partir de uma grelha equestionário propostos pelo jesuíta Francisco Xavier (1506-1552). LUÍS FILIPE BARRETO 432 ——————————— 69 Livro de Duarte Barbosa, cit., p. 469. 70 Livro de Duarte Barbosa, cit., p. 469. 71 Livro de Duarte Barbosa, cit., p. 469. De certa forma a autoria do texto e dos inquéritos que o sustentam resulta de uma encomenda de Francisco Xavier, em Malaca 1545, aos mercadores portugueses nos mares e litorais da China: «… de Malaca van todos los años muchos navios de portugueses a los puertos de la China. Yo tengo encomendado a muchos para que sepan desta gente, avisándoles que se informen mucho de las cerimonias y costumbres que entre ellos se guardan.» 72 Omais tardar nos meses de Setembro a Dezembro de 1545, por orientação dos jesuítas, o mundo à mão dos mercadores portugueses na China começa a orientar-se e a estruturar-se para também questões chinesas de natureza mais erudita e cultural. AEmformação da Chyna foi provavelmente recebida por Francisco Xavier nos seis meses que passou em Malaca entre Julho e Dezembro de 1547 altura do encontro do jesuíta com o mercador Fernão Mendes Pinto 73. Entre os possíveis autores portugueses, mercadores escritores, da Emformação surgem os nomes de Afonso Gentil e de João Rodrigues de Carvalho 74. Ahipótese de a autoria da Emformação ser de Fernão Mendes Pinto não deve no entanto ser posta de lado. O mercador-escritor deste texto é alguém que está envolvido nas redes mercantis do Sião ao Japão, «… serão de costa, se não mentem as cartas que os japões mostrão, quinhentas legoas ou mais…» 75.Alguém que já esteve em Cantão uma vez e que está no circuito de cruzamento dos mercadores e jesuítas em Malaca em 1547. Estes elementos apontam para Fernão Mendes Pinto com alta probabilidade. A dúvida nasce da data da estadia em Cantão, que no texto surge 1533 quando Fernão Mendes Pinto aí esteve em 1543, mas e se for erro do copista? De certa forma a Emformação étambém um texto de autoria colectiva que assenta na recolha de testemunhos orais de chineses por um mercador português que junta a sua vivência pessoal e passa à escrita segundo um questionário de escolhas relevantes encomendado pelos missionários jesuítas. AEmformação da Chyna está organizada em sete temas fundamentais que correspondem às perguntas maiores desejadas por Francisco Xavier, «… ao que vosa merce manda saber da Chyna…» ——————————— 72 Carta de Francisco Xavier de Amboíno a 10 de Maio de 1546 para os Jesuítas na Europa, in Epistolae S. Francisci Xaverii,Ed. G. SCHURHAMMER e I. WICKI,Roma, M.H.S.J., 1996, vol. I,p. 335. 73 Veja-se G. SCHURHAMMER,Francisco Xavier su vida y su tempo, Pamplona, Gobierno de Navara, 1992, 4 vols., em especial o final do vol. II eos vols. III eIV. 74 Sobre a possível autoria destes dois portugueses, veja-se Rui Manuel LOUREIRO,Fidalgos, Missionários e Mandarins – Portugal e a China no S. XVI,Lisboa, F. Oriente, 2000, p. 170. 75 Emformação da Chyna, mandada per hu homem a mestre Francysquo in Livro que trata das Cousas da Índia e do Japão, ed. A. Almeida CALADO,Coimbra, I. Universidade, 1957, p. 114. DA CHINA MING NA CULTURA EUROPEIA: OS PÓLOS PORTUGUÊS E ITALIANO (1499-1550) 433 de elite da coroa portuguesa cultivando em especial, a relação com o rei D. João III e o irmão do mesmo, o infante D. Luis. Ora, ao longo da década de 40 e até 1555 o escrivão da puridade do Infante D. Luis é o humanista D. Jerónimo Osório. Jerónimo Osório obteve certamente muitas das suas informações sobre a China, impressas em latim em Coimbra, 1549, junto de João de Barros, dos seus livros chineses, do parceiro intelectual chinês do historiador humanista, ou seja, do círculo intelectual do Infante D. Luis que entre outros articula os humanistas João de Barros e Jerónimo Osório. AChina cultural e política do De Gloria éda autoria de um humanista mas também secretário da Corte. Parte da informação de um outro humanista que é também feitor da Casa da Índia. ODe Gloria exprime a visão de um círculo do poder real e de altos funcionários humanistas da Corte/Coroa. Estas ideias e ideais europeus sobre aChina que ao longo da segunda metade de Quinhentos vão correr impressas pelos circuitos latinos da Europa, a partir de Coimbra e Florença, resultam da mecânica Humanistas-Coroa. VI Avisita individual a textos europeus dos anos de 1499 a 1550, sobre a China Ming, permite agora traçar algumas paisagens e andamentos. Antes de mais, temos um primeiro andamento informativo sobre a China Ming entre 1499 e 1510. Surgem então informações breves e sem precisão sobre a China e as actividades marítimo-mercantis chinesas, oficiais e particulares. Dados breves e dispersos na acumulação europeia de conhecimento sobre aos litorais asiáticos. Conhecimento impreciso, fruto de recolha de dados no Índico e essencialmente no Índico Ocidental, que circula pela rota do Cabo, no caso de Ludovico de Varthema também pela rota do Levante, mas que assenta em informações de indianos ou de gente da Ásia do Sueste sobre a China e os chineses, em especial, os círculos islâmicos do comércio de longa distância. Em nenhum dos textos a matéria chinesa é tema único ou central e nem mesmo surge individualizada. A Europa sabe coisas, soltas e breves, sobre a China Ming a partir de fragmentos de genérica informação asiática. Neste primeiro andamento da informação europeia os autores são, por ordem cronológica, um mercador florentino, um presbítero indiano, a Corte/ /Rei de Portugal e um soldado escritor bolonhês também provavelmente mercenário-mercador. Dos sete textos que compõem a paisagem, três são da autoria da Coroa portuguesa e outros três de autores italianos, o que corresponde a cerca de 44% para cada um destes blocos. Mas a natureza da informação é bem diversa porque dois dos textos da Coroa portuguesa são cartas do rei D. Manuel para Roma e Castela num quadro de propaganda diplomática e LUÍS FILIPE BARRETO 440 política. Apenas um, o regimento de 1508, é um texto de saber e em relação àChina de ordem oficial de recolha sistemática de informação por parte das estruturas estatais. Os três textos de autoria italiana visam um saber actualizado sobre o mundo marítimo-mercantil asiático e muito em especial sobre os resultados alcançados pelos recém-chegados ao Índico pelo Atlântico. O que está em jogo neste equilíbrio de informação diversificada é a concorrência entre as rotas do Levante e do Cabo pelo predomínio no comércio euro-asiático. Em termos de circulação informativa e de impacte cultural temos um claro domínio do pólo italiano. São impressos cinco textos, ou seja, cerca de 76%, todos em italiano e em Itália (Roma e Milão/1505, Vicenza/1507, Roma/1510). É impressa a totalidade dos textos de autoria italiana bem como ainformação oral recolhida em Roma do Nestoriano indiano José de Cranganor. Apenas é impressa uma parte da carta de D. Manuel para Castela. Os 24% de manuscritos ficam em língua portuguesa nos círculos da Coroa e do poder central português com uma muito reduzida e controlada circulação informativa. Dos cinco textos impressos com dados sobre a China Ming quatro, ou seja, 80%, resultam de informação recolhida e enviada de Lisboa para Florença e Roma ou Roma e Milão por via de Castela. Em Lisboa estão a desaguar novidades informativas colhidas em Calecute e no Índico Ocidental que o pólo italiano quer e pode acompanhar funcionando, através da tradução e edição, como porta-voz cultural europeu da expansão portuguesa. Neste primeiro andamento a maioria dos textos em causa é impressa, embora tão-só, a partir da segunda metade da década. Mas não devemos deixar-nos enganar pelos números. Os textos são impressos ou ficam manuscritos não pela matéria chinesa mas sim pela novidade e actualidade de um quadro geral das coisas asiáticas em conexão com a via atlântica e a concorrência à Rota do Levante. Neste primeiro andamento de aproximação ao conhecimento da China Ming as figuras centrais da tela informativa são o estado, o mercador, o soldado letrado aventureiro e o eclesiástico. Por e entre eles se recolhe, organiza e circula a informação. Apartir dos anos de 1511/1512 e até 1517 vivemos um segundo andamento na informação europeia sobre a China Ming. Trata-se, como já vimos, de um ciclo revolucionário que produz uma nova idade no banco de dados europeu sobre a China marítima, mercantil e política. AChina e os chineses ganham individualidade, tratamento específico no saber dos europeus. Os dados são cada vez menos imprecisos e cada vez mais abundantes. A recolha da informação multiplica-se em centros asiáticos como Cochim, Malaca e Cantão, mas também Cananor e Calecute a organizarem dados para Lisboa. Pela primeira vez a informação europeia sobre a China Ming assenta também em dados chineses e em notícias alcançadas nos litorais de Guangdong por portugueses em parceria com gentes do Nanyang e comunidades chinesas ultramarinas instaladas na Ásia do Sueste. DA CHINA MING NA CULTURA EUROPEIA: OS PÓLOS PORTUGUÊS E ITALIANO (1499-1550) 441 Ao longo deste andamento temos oito textos em que a matéria chinesa surge pela primeira vez individualizada e alcança mesmo, por vezes, lugar central na economia do discurso. Neste segundo andamento os autores são, por ordem cronológica, um piloto-cartógrafo português, dois mercadores florentinos, dois burocratas geógrafos portugueses e um humanista veneziano dedicado à geografia. Os autores dos originais portugueses são a 100% homens da Coroa na Ásia, oEstado da Índia Português e 75% dos autores italianos são mercadores italianos na Ásia em parceria com esse mesmo Estado da Índia. Dos oito textos que compõem a paisagem três, ou seja, 37,5% são em português e da autoria de três quadros portugueses do aparelho de Estado marítimo-mercantil. Os restantes cinco textos, 62,5%, são em italiano e da autoria de três italianos sendo dois mercadores florentinos e responsáveis por 80% da informação italiana da altura. Uma vez mais é necessário combinar as análises quantitativa e qualitativa. Os cinco textos da informação italiana são breves, 80% são cartas e os restantes 20% não alteram a natureza sintética da informação sobre a China. Pelo contrário, nestes três textos portugueses encontramos, pela primeira vez, um tratamento individualizado e por vezes privilegiado da informação sobre a China Ming. Os cinco textos italianos visam um saber actualizado sobre o mundo marítimo-mercantil dos mares da China, mas acima de tudo estão atentos à novidade da entrada dos portugueses no circuito Malaca-Cantão. Os três textos portugueses procuram o máximo de informação sobre as redes marítimo-mercantis que ligam a província de Guangdong ao sistema do Índico. Procuram também alcançar o maior e melhor número de dados sobre as realidades política e social dos litorais da China Ming. Um sinal da nova idade revolucionária da informação encontra-se no facto de estes textos serem maioritariamente produzidos na Ásia. A informação é agora tratada e organizada nos próprios pólos asiáticos de recolha desaguando em Lisboa, Florença e Veneza pela via da Rota do Cabo. Frente ànova quantidade e qualidade da matéria informativa chinesa a Rota de Levante, que em 1510 ainda trazia informação actualizada sobre a China àEuropa, esbate-se de forma nítida. Em termos de circulação informativa e de impacte cultural continuamos aver um claro domínio do pólo italiano. São impressos seis dos oito textos, ou seja, 75%, todos em italiano e em Itália. Em Florença/1516 surgem dois textos e em Veneza surge um em 1517 e três em 1550 na edição de G. B. Ramusio – Delle Navigationi et Viaggi. Uma vez mais tomamos consciência da importância editorial da obra de G. B. Ramusio. Ele imprime em 1550 metade da produção que nos anos de 1515 a 1517 revoluciona o saber europeu sobre a China Ming. Os 75% de impressos deste andamento devem pois ser considerados em duas fases. Nos anos próximos à produção destes oito textos apenas três, 37,5%, são impressos, sendo dois em Florença e um em Veneza. Mas o inteLUÍS FILIPE BARRETO 442 resse pelas novidades asiáticas cresce ao longo de toda a primeira metade de Quinhentos e a prova disso mesmo é a edição em Veneza, 1550, dos restantes 37,5% do material que faz a primeira revolução informativa europeia sobre aChina Ming. Éevidente, como já anteriormente o dissemos, que a edição apenas em 1550 implica considerar o impacte alargado dos textos em questão tão-só na segunda metade da centúria. Oque interessa notar é que os textos impressos deste andamento que apresentam um tratamento mais abundante e actualizado da China Ming apenas foram impressos em Veneza, 1550. Os textos que no longo prazo ficaram manuscritos, são os dois mais antigos deste andamento datando, respectivamente, de cerca de 1512 e 1514. Neste segundo andamento a geografia dos centros de impressão italiana sofre alguns deslocamentos. De Roma, Milão e Vicenza passamos para Florença e Veneza, sendo a primeira claramente hegemónica nos anos de 1516-1517 e Veneza absoluta nos meados do século. Aedição em italiano e em Itália imprime 80% da produção italiana, sendo 60% logo impressa nos anos próximos. Em Veneza, 1550, são impressos em italiano dois dos três textos escritos originalmente em português ou seja, perto de 67%. Os anos que vão de 1518 a 1528, de um modo genérico a década de 20 do século XVI,são um bloqueamento no conhecimento europeu da China Ming. Pelas razões já anteriormente expostas não encontramos senão dados ligeiros e dispersos sobre a China marítima e mercantil. Pequenas informações maioritariamente manuscritas ou episodicamente num impresso como o de Pigafeta, impresso pela primeira vez, parcialmente em língua francesa, em Paris, 1522. Adécada de 30 do século XVI,no plano do impresso, não altera este bloqueamento, mas no quadro do manuscrito policiado e por isso com impacte quase nulo em termos de círculos de informação o panorama é outro. Como vimos, nos anos de 1534 e 1536 dois portugueses escrevem de Cantão para Lisboa enviando actualizada e pormenorizada informação sobre os litorais das províncias de Guangdong e do Fujian nos aspectos marítimo. mercantil, político e militar. São os primeiros textos europeus exclusivamente sobre a China Ming, sobretudo em torno da província de Guangdong, e ao mesmo tempo os primeiros textos escritos por europeus que residem nessa mesma China Ming. Os autores são, uma vez mais, gente ligada ao aparelho do Estado português na Ásia e ao comércio. Também as fragmentárias informações manuscritas da década anterior tinham o mesmo tipo de produtor. Obloqueamento na informação europeia sobre a China em meados dos anos 30 do século XVI esconde um pólo silencioso que continua a recolher e aampliar o banco de dados. Em Lisboa a Coroa portuguesa possui actualizada e pormenorizada informação sobre os litorais da província de Guangdong e o comércio marítimo da Ásia do Sueste para os mares da China. DA CHINA MING NA CULTURA EUROPEIA: OS PÓLOS PORTUGUÊS E ITALIANO (1499-1550) 443 Toda esta informação melhorada sobre a China Ming nos planos marítimo, mercantil, político e militar mal circula nas esferas oficiais da Coroa. Apenas, a partir da segunda metade de Quinhentos, em obras como as Décadas da Ásia de João de Barros, impressas em Lisboa, 1552, 1553 e 1563, teremos uma parcial abertura desta informação policiada pelo Estado marítimo-mercantil. Este bloqueamento na informação europeia sobre a China Ming, mesmo bloqueamento na circulação europeia desses mesmos dados visível até à segunda metade da década de 40 do século XVI,testemunha também a recessão da Rota do Levante frente à Rota do Cabo ao longo da primeira metade de Quinhentos. Aedição de G.B. Ramusio em Veneza, 1550, é um sinal da recuperação que, nos anos de 1560-1570, implica o relativo equilíbrio entre as Rotas do Cabo e do Levante. Arecolha, a organização, a cópia manuscrita, a tradução e a impressão da informação europeia sobre a China Ming são, ao longo da primeira metade do século XVI, uma resultante cultural da concorrência entre portugueses e italianos pelo domínio do comércio euro-asiático. Apartir dos anos 1547-1550 surge um novo andamento na tela do saber europeu sobre a China Ming. Um mercador, um missionário jesuíta e um humanista secretário de Corte são os autores. Informações fruto de contactos e de vivências nos litorais da China que circulam pelos mares da China e são organizadas em Malaca e Goa. Dados que desaguam em Lisboa e que seguem os caminhos da edição em Coimbra, 1549, Veneza, 1550, e Florença, 1552. Este andamento é uma nova revolução informativa que está a nascer no banco de dados europeu sobre a China Ming. Revolução tão importante quanto a dos anos de 1512-1517 mas que revela agora não aspectos da China Mercantil mas da China Cultural. Os anos de 1545 a 1550 revelam sinais de uma transformação decisiva. Os mercadores e os borucratas do Estado estão presentes mas as regras do jogo estão a mudar. Os mercadores surgem numa parceria de conhecimento com os missionários jesuítas que são uma elite internacional universitária na Ásia. Os corredores da mercadoria vão agora alimentar o saber e o poder da Roma papal eda Lisboa real. Mais do que isso, em Coimbra é editado em latim um quadro da Civilização Chinesa logo reeditado em Florença. O latim significa que a maioria chinesa entrou na tela do saber erudito europeu e que as perguntas e as respostas sobre a China Ming transportam cada vez mais uma carga erudita. Omanuscrito português de 1547 e o impresso latino de 1549 assinalam ainda uma outra característica que vai ter largo futuro. A representação europeia da Civilização Chinesa é em certa medida também reprodução da auto-imagem das elites políticas e culturais chinesas. A revolução informativa dos anos de 1545 a 1550 marca o nascimento da Civilização Chinesa no LUÍS FILIPE BARRETO 444 quadro do saber europeu e ao mesmo tempo o nascimento da auto-imagem da China com(o) presença forte no olhar europeu do Sung Kuo. Tomando de novo como um todo esta paisagem dos textos europeus que entre 1499 e 1550 informa sobre a China temos um total de 13 textos impressos e seis manuscritos, ou seja, cerca de 76% de impressos para 24% de manuscritos. Uma vez mais os números podem enganar. Ficam manuscritos todos os textos que exclusivamente tratam aspectos da China e a matéria chinesa impressa é apenas parte do Oriente apreendido pelos europeus. Oaparecimento de textos europeus, única e exclusivamente sobre a China, dá-se nos anos de 1534-1536 a 1547. Os primeiros, da década de 30, sobre a China marítima e mercantil em especial, a província de Cantão e o segundo sobre a China cultural. Até 1550 a Europa não imprime sobre a China como entidade própria mas, tão-só, sobre a matéria chinesa no quadro do conhecimento europeu da Ásia. Omanuscrito é pois o lugar único da informação mais abundante e especializada, da organização e racionalização mais profundas no conhecimento europeu da China até meados de Quinhentos. No quadro global de autores temos 8 portugueses, 6 italianos e um indiano. Dos 8 portugueses surgem quatro textos impressos, sendo três em língua italiana em Roma, Milão e Veneza e um em latim em Coimbra (logo reeditado em Florença). Dos seis autores italianos são impressos oito textos em que surge matéria chinesa. As línguas da primeira edição destes textos são o italiano em sete casos e o francês em um. As cidades de impressão são: Florença, Veneza e Vicenza, cada uma com dois textos, bem como Roma e Paris com um cada. Veneza, que na época, juntamente com Lyon e Basileia, é um dos centros internacionais de liderança da edição e do comércio livreiro na Europa 100. Oautor indiano é impresso em italiano, em Vicenza, e como já vimos o caso dos portugueses pode-se afirmar que a informação europeia sobre a China até 1550 circula impressa em língua italiana e manuscrita em língua portuguesa. No seu todo, a rede das cidades europeias de impressão dos textos sobre aChina Ming apresenta os seguintes resultados: Veneza (4), Florença (2), Vicenza (2), Roma (2), Milão (1), Coimbra (1), Paris (1). Ou seja, nas cidades italianas concentra-se 85% desta rede informativa europeia. Arede dos pólos manuscritos, como vimos, concentra-se em Lisboa a partir de Cochim, Malaca, Cantão, Goa. E é assim em Lisboa mas também em Cochim que se dão os cruzamentos maiores de ambas as redes que culminam em impressos em Veneza, Florença, Vicenza e Coimbra. ——————————— 100 Veja-se Rudolf HIRSCH,Printing, Selling, and Reading 1450-1550, Wiesbaden, 1967; EISENSTEIN,The Printing Press as an Agent of Change: Communications and Cultural Transformations in Early Modern Europe,Cambridge, Cambridge University Press, 1979. DA CHINA MING NA CULTURA EUROPEIA: OS PÓLOS PORTUGUÊS E ITALIANO (1499-1550) 445 Uma palavra final para a tipologia dos autores. Dominam os mercadores (4) que são responsáveis por sete textos, seis cartas e uma informação sobre acultura chinesa. A produção dos mercadores, três florentinos e um português, é impressa em 70%. Nas cercanias deste círculo mercantil surgem os nobres mercadores (2 portugueses) e o aventureiro-soldado italiano L. Varthema que produzem três textos, sendo impresso tão-só o do bolonhês. Ainda em conexão directa com este círculo mercantil temos os geógrafos enavegadores funcionários de Coroa (três portugueses e um italiano ao serviço de Castela). O impresso volta a atingir os 75%. Mais distantes das linhas de informação do comércio surgem os humanistas funcionários de Corte (2 casos) responsáveis por impressos em italiano e latim que organizam e eruditizam os dados recebidos dos círculos e circuitos mercantis. LUÍS FILIPE BARRETO 446