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CAUN 25, 2017 57 Cuadernos de Arqueología DOI: 10.15581/012.25.006 Universidad de Navarra 25, 2017 O CONTRIBUTO DOS TRABALHOS DE ABEL VIANA E ANTÓNIO DIAS DE DEUS PARA O CONHECIMENTO DO MUNDO FUNERÁRIO ROMANO NO TERMO SUL DO ALTO ALENTEJO (PORTUGAL) E O ARQUEOSSÍTIO DA CHAMINÉ COMO CASO DE ESTUDO THE CONTRIBUTION OF ABEL VIANA AND ANTÓNIO DIAS DE DEUS’ WORKS TO A BETTER KNOWLEDGE OF THE ROMAN FUNERARY WORLD AT THE SOUTH OF ALTO ALENTEJO (PORTUGAL) AND THE ARCHEOLOGICAL SITE OF CHAMINÉ AS A CASE OF STUDY In memoriam Jeannette U. Smit Nolen (1931-2016) Mónica DA SILVA ROLO 1 RESUMEN: No presente trabalho pretende-se apresentar uma visão genérica da importância das pesquisas arqueológicas levadas a cabo por um conjunto de funcionários da antiga Colónia Correccional de Vila Fernando (Elvas, Portugal) e o arqueólogo Abel Viana (1896-1964) para o conhecimento da realidade arqueológica funerária de época romana no actual território alto alentejano. Entre meados das décadas de 30 e 50 do século XX, procedeu-se à identificação e exploração de mais de uma centena de arqueossítios, entre os quais se contabilizam, em função dos dados conhecidos, 22 espaços funerários de cronologia romana e/ou tardo-romana, correspondentes a um total de mais de 500 enterramentos. Apresenta-se o arqueossítio da Chaminé (Vila Fernando, Elvas) como exemplo paradigmático do conjunto de necrópoles exploradas, quer pelos diferentes momentos de utilização do espaço funerário, quer pela provável relação com a villa do Carrão (Vila Fernando, Elvas, Portugal). PALABRAS CLAVE: Época romana, arqueologia funerária, Alentejo (Portugal), Colónia Correcional de Vila Fernando, Abel Viana, necrópoles. 1 UNIARQ (Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa. Faculdade de Letras de Lisboa. Universidade de Lisboa. Alameda da Universidade, 1600-214 Lisboa, Portugal). Dirección electrónica: monicasrol[email protected]m
MÓNICA DA SILVA ROLO CAUN 25, 2017 58 ABSTRACT: The present work intends to illustrate the importance of the archaeological works carried out by employees of the Penal Colony of Vila Fernando (Elvas) and the portuguese archaeologist Abel Viana (1896-1964) for the knowldege of roman funerary reality in Alto Alentejo (Portugal). Between the 1930s and 1950s were identified/ explored more than one hundred sites, incluinding 23 necropolis dated from roman period and/or Late Antiquity. The necropolis of Chaminé (Vila Fernando, Elvas) is presented as an example of the roman funerary reality documented in that geographic área. KEYWORDS: Romans, funerary archaeology, Alentejo (Portugal), Penal Colony of Vila Fernando, Abel Viana, necropolis. 1. ÂMBITO GEOGRÁFICO E INTERVENIENTES 1 Quando falamos em «Alto Alentejo» reportamo-nos a uma área geográfica constituída “pelo distrito de Portalegre e norte de Évora” (Ribeiro, 1929: 6). Apesar de não ser consensual esta inclusão da parte setentrional do território do actual distrito de Évora no Alto Alentejo (de acordo com alguns autores, o distrito de Évora deve ser enquadrado, na íntegra, no designado «Alentejo Central»), assumimos que o limite sul desta se possa estender até à Serra de Ossa, abarcando assim parte dos actuais concelhos de Borba, Vila Viçosa e Alandroal (Évora). Em termos gerais, os restantes limites geográficos da região alto alentejana correspondem, a norte, ao rio Tejo; a leste, à Serra de São Mamede e rio Xévora; e, a oeste, ao vale do rio Sor (Frade e Caetano, 1993: 847). O âmbito geográfico do presente trabalho circunscreve-se ao termo sul desta vasta área, correspondendo em particular à área do actual concelho de Elvas e território dos concelhos limítrofes. [Figura 1] Trata-se, pois, de uma área geográfica que, em época romana, integraria a provincia romana da Lusitania, e em relação a parte da qual (pelo menos no que se refere ao termo de Elvas) se afigura verosímil conceber que integrasse o ager da capital da província, Augusta Emerita, não obstante as incertezas com ainda nos debatemos quanto aos limites das circunscrições administrativas provinciais nesta região (Alarcão, 1988a: 48-49; Álvarez Martínez, apud Sánchez Barrero, 2000: 206; Carneiro, 2014, I: 37-41). A paisagem de relevo suave e o clima ameno, aliados à abundância de recursos hídricos e à viabilidade da exploração de minérios e dos mármores do anticlinal de Estremoz, configuraram um contexto atractivo para a fixação de populações e contribuíram para que, em época romana, esta região estivesse longe de ser um território “isolado na periferia do mundo antigo” (Picão, 1903: 239).
O CONTRIBUTO DOS TRABALHOS DE ABEL VIANA E ANTÓNIO DIAS DE DEUS CAUN 25, 2017 59 2 Este âmbito geográfico foi definido com base na distribuição espacial de um conjunto de espaços funerários, de cronologia romana e/ou tardo-romana, escavados (ou meramente identificados e referenciados), durante as décadas de 40 e 50 do séc. XX, por funcionários da antiga Colónia Correcional de Vila Fernando (centro correcional para jovens delinquentes que funcionou, entre 1895 e 2007, na freguesia de Vila Fernando, concelho de Elvas, Portugal). Dois funcionários da referida instituição –António Dias de Deus e António Luís Agostinho (contando com a colaboração ocasional do pároco local, Henrique da Silva Louro), curiosos pela Arqueologia, iniciaram as suas ‘pesquisas arqueológicas’ em 1934, ocupando nelas o seu tempo livre e compondo assim uma “valiosa colecção” de artefactos (Deus, s.d.: 1). Numa primeira fase dedicaram-se à exploração de monumentos dolménicos, com numerosas evidências conhecidas na região e exploradas, pelo menos, desde meados do séc. XIX. A partir de 1940 passaram a centrar as suas ´pesquisas´ na exploração de arqueossítios romanos e tardo-antigos –“No ano de 1934, começou António Luís Agostinho, ajudante de ecónomo no mesmo instituto oficial (Colónia Correccional de Vila Fernando) a explorar os dólmens da região, associando-se-lhe desde logo António Dias de Deus. (...)/ Em 1940, passaram a interessar-se, também, pelos vestígios das épocas romana e visigótica, igualmente abundantes na zona elvense.“ (Viana, 1955a: 1). Apesar da discutível motivação que terá estado na origem das explorações e recolhas levadas a cabo pelos funcionários da Colónia Correcional e pelo pároco de Vila Fernando, é certo que estas decorreram num contexto de mecanização dos trabalhos agrícolas e de aceleramento do processo de antropização da paisagem rural da região alto alentejana. O fenómeno de “tractorização da agricultura” (Carneiro, 2014, II: 174), aliado a um plano de criação e melhoramento de infraestruturas, implementado, a nível regional, em meados da década de 30 do século passado, explicam a vulgarização de notícias de achados arqueológicos, aos quais os ‘pesquisadores’ tentavam acudir, num esforço precursor daquilo que hoje se apelidaria de «arqueologia de salvamento ou de emergência» (Carneiro, 2014, I: 60-61) –“Dias de Deus não procura escavar aqui e além, onde quer que suponha haver, ou tenha certeza de existirem antiguidades arqueológicas. Está atento às informações que recebe sobre o que o curso das lavouras vai descobrindo e ameaça destruir, assim como acode ao que saiba estar em maior risco de breve desaparecimento./ E não é só a lavra para as sementeiras o motivo destas intervenções, mas também o arranque de arvoredo, as surribas, a abertura de caboucos, o rasgo de caminhos novos ou o alargamento dos antigos (Viana, 1955b: 7). A partir de 1949, e tendo já falecido A. Luís Agostinho em 1944, o arqueólogo Abel Viana iniciou a sua colaboração com A. Dias de Deus, procurando, por um lado, imprimir uma orientação científica aos trabalhos de campo, e, por outro, gerir o estudo do espólio recolhido e a divulgação dos resultados. Posteriormente ao falecimento de A. Dias de Deus, em Abril de 1955, Abel Viana não viria a dar continuidade à realização de intervenções arqueológicas na região alto alentejana, mas haveria de prosseguir com a inventariação do espólio e a publicação dos dados. Da curta, porém profícua, colaboração entre o funcionário da Colónia Correcional e o arqueólogo resultou a publicação de mais de uma dezena de tí-
MÓNICA DA SILVA ROLO CAUN 25, 2017 60 tulos em publicações portuguesas e espanholas (Deus, Louro & Viana, 1955; Deus & Viana, 1953; Viana, 1950; Viana, 1955a; Viana, 1955b; Viana, 1955c; Viana, 1956; Viana, 1960-1961; Viana & Deus, 1950a; Viana & Deus, 1950b; Viana & Deus, 1951; Viana & Deus, 1952; Viana & Deus, 1955a; Viana & Deus, 1955b; Viana & Deus, 1955c; Viana & Deus, 1957; Viana & Deus, 1958) 2 . 2. OS DADOS CONHECIDOS E O CONTRIBUTO 3 A actividade exploratória dos funcionários da Colónia Correcional de Vila Fernando e Abel Viana saldou-se na identificação (e, na maioria dos casos, efectiva escavação) de mais de uma centena de arqueossítios, localizados no território dos distritos de Portalegre (sobretudo na área do concelho de Elvas) e Évora, assim como na recolha de um vasto conjunto de espólio. Em 1956, Abel Viana contabilizou um total aproximado de 1570 peças resultantes de todas as intervenções arqueológicas realizadas na região alto alentejana, sendo que do valor contabilizado cerca de 936 correspondiam a espólio proveniente das estações romanas e romanovisigóticas. Actualmente, e de acordo com dados que nos foi possível apurar até à data, o total de espólio datável de época romana e/ou tardo-romana recolhido durante cerca de vinte anos de explorações no actual território alto alentejano ascenderá aos dois milhares de peças (aproximadamente 2643 itens contabilizados), entre as quais uma significativa percentagem corresponde a espólio não localizado (ou sem proveniência atribuída) nas actuais instituições museológicas de depósito. A este respeito note-se que a quase totalidade do espólio resultante das ‘pesquisas’ iniciadas por A. Dias de Deus e A. Luís Agostinho integra actualmente o acervo do Museu de Arqueologia da Fundação da Casa de Bragança (Vila Viçosa), encontrando-se o restante material disperso pelos acervos do antigo Museu Municipal de Elvas António Thomaz Pires (Câmara Municipal de Elvas – Reservas de Arqueologia), Museu Nacional de Arqueologia, e Museu Geológico (LNEG/LGM) 3 . 4 Do conjunto de arqueossítios de cronologia romana e/ou tardo-antiga explorados apurou-se, com base nos dados publicados e nas fontes documentais consul2 A elaboração do presente artigo enquadra-se no âmbito do projecto de investigação para doutoramento intitulado O mundo funerário romano no Nordeste Alentejano. Tem por objetivo central reunir toda a informação disponível (estudos publicados, fontes documentais, espólio) sobre as necrópoles romanas identificadas e exploradas, entre os anos 40 e 50 do século passado, pelos funcionários da Colónia de Vila Fernando e Abel Viana, com vista a apresentar uma visão de conjunto, e tão completa quanto possível, destes espaços funerários. Até à data estão identificadas e contabilizadas cerca de 1040 peças atribuídas às referidas necrópoles, encontrando-se em curso o respectivo estudo. 3 Laboratório Nacional de Energia e Geologia/ Laboratório de Geologia e Minas.
O CONTRIBUTO DOS TRABALHOS DE ABEL VIANA E ANTÓNIO DIAS DE DEUS CAUN 25, 2017 61 tadas, um total de 22 espaços funerários, correspondentes a aproximadamente 524 sepulturas, e que se distribuem, de norte para sul, pelo território dos actuais concelhos de Arronches, Monforte, e Elvas, na área do distrito de Portalegre; e de Vila Viçosa e Alandroal, na área do distrito de Évora. É, porém, no área do actual distrito de Portalegre que se concentra a maioria (17) destes espaços funerários: Herdade das Carninhas (Assunção, Arronches), Nossa Senhora do Carmo (Assunção, Arronches), A-do-Rico (Assunção, Arronches), Eira do Peral (Santo Aleixo, Monforte), Herdade de Fontalva (Santa Eulália, Elvas), Chaminé (Barbacena e Vila Fernando, Elvas), Serrones (Barbacena e Vila Fernando, Elvas), Alcarapinha (Barbacena e Vila Fernando, Elvas), Horta da Serra (São Brás e São Lourenço, Elvas), Torre das Arcas (São Brás e São Lourenço, Elvas), Horta das Pinas (São Vicente e Ventosa, Elvas), Terrugem (Terrugem e Vila Boim, Elvas), Herdade da Camugem (Terrugem e Vila Boim, Elvas), Olival da Silveirinha (Terrugem e Vila Boim, Elvas), Herdade do Padrão (Assunção, Ajuda, Salvador e Santo Ildefonso, Elvas), Monte da Ovelheira (Assunção, Ajuda, Salvador e Santo Ildefonso, Elvas), e São Rafael (Assunção, Ajuda, Salvador e Santo Ildefonso, Elvas). No território do actual distrito de Évora, contamos com os arqueossítios da Herdade de Padrãozinho (Ciladas, Vila Viçosa), anta do Carvão (Ciladas, Vila Viçosa), Herdade dos Queimados (Ciladas, Vila Viçosa), Cardeira (União das freguesias de Alandroal, São Brás dos Matos e Juromenha, Alandroal), e Juromenha (União das freguesias de Alandroal, São Brás dos Matos e Juromenha, Alandroal). Naturalmente que o facto destas ‘pesquisas’ se terem concentrado, com especial incidência, no actual território elvense contribuiu para que o número de arqueossítios identificados na área daquele concelho fosse bastante mais elevado comparativamente ao número de sítios identificados no território dos restantes concelhos abrangidos pela actividade exploratória dos funcionários de Vila Fernando e Abel Viana. Igualmente sintomático desta situação é o facto de parte dos arqueossítios acima listados terem ficado conhecidos como «necrópoles céltico-romanas elvenses», segundo a denominação vulgarizada nos trabalhos publicados pelos ‘pesquisadores’ (Viana e Deus, 1950a). Relativamente aos arqueossítios de Fontalva (Santa Eulália, Elvas) e Olival da Silveirinha (Terrugem e Vila Boim, Elvas) importa esclarecer que correspondem a locais onde se identificaram, pelo menos, uma sepultura de cronologia romana, e em cuja exploração esteve directamente implicado Abel Viana, mas não A. Dias de Deus. No primeiro caso, a identificação do sítio romano de Fontalva e a recolha de espólio terá assumido contornos distintos das restantes necrópoles alto alentejanas em análise, uma vez que terá ficado a dever-se fundamentalmente (se não mesmo exclusivamente) a recolhas levadas a cabo pelo então proprietário da referida Herdade – Ruy d’Andrade, e não a explorações arqueológicas levadas a cabo pela dupla Abel Viana e A. Dias de Deus (Sepúlveda e Carvalho, 1998: 245). No segundo caso, a identificação de uma sepultura romana no sítio de Olival da Silveirinha parece ter correspondido a uma descoberta fortuita ocorrida em 1961, tendo a respectiva exploração ficado somente a cargo de Abel Viana, sem contar com os companheiros de Vila Fernando. [Figura 2]
MÓNICA DA SILVA ROLO CAUN 25, 2017 62 5 Trata-se de um conjunto de espaços funerários em meio rural, associados a villae ou a pontos de povoamento secundários (Caetano, 2002: 319), com características e cronologias diversas, que vão desde a Idade do Ferro (séc.s V-IV a.C.), como os exemplos dos campos de urnas da Chaminé, Cardeira ou Padrãozinho 2, até aos séculos III-IV d.C. e/ou Antiguidade Tardia, conforme se documenta em Padrãozinho 1 e Padrãozinho 4, Camugem, Torre das Arcas, Serrones e Chaminé. A maioria dos enterramentos é datável de época imperial (séc.s I-III d.C.), e a cremação (primária ou secundária) tende a ser o rito funerário predominante, ainda que, nalguns casos, como em Nossa Senhora do Carmo ou Monte da Ovelheira, não disponhamos de dados sobre o rito praticado. A percentagem de enterramentos em urna perfaz aproximadamente 10 a 15% da globalidade da amostra (Caetano, 2002: 329). Na maioria das situações em que se documenta a prática dos dois ritos –incineração e inumação– as limitações dos dados disponíveis e as dificuldades na identificação do contexto de sepultura do espólio disponível não nos permitem inferir sobre uma eventual diferenciação cronológica, espacial e/ou social entre enterramentos associados a diferentes ritos. No caso particular da necrópole de Torre das Arcas, genericamente enquadrável numa cronologia dos séc.s II-III d.C., parece ser possível atestar a coexistência da prática da incineração e inumação no mesmo espaço funerário, ao longo da respectiva diacronia de utilização (Caetano, 2002: 331; Viana e Deus, 1955b). De acordo com a informação publicada pelos ‘escavadores’, terão sido localizadas várias áreas identificadas como prováveis ustrina, designadamente no espaço funerário da Chaminé e Horta das Pinas (Viana, 1955: 10; Viana e Deus, 1951: 91). Neste último caso, os autores referem-se igualmente a evidências de incinerações in busta (Viana e Deus, 1951: 98). Não parecem ter sido identificadas sepulturas monumentais ou mausoléus, o que poderá explicar-se, pelo menos em parte (e tendo em conta o espólio disponível), pela verosimilhança de estarmos perante espaços funerários ao serviço de uma população local de modestos recursos, que trabalharia nas villae ou que se dedicaria à actividade agro-pecuária, habitando nos pequenos aglomerados populacionais e casais agrícolas que comporiam o quadro de povoamento à época romana na área geográfica em questão. Ainda assim, refira-se a existência de um sarcófago de mármore, encontrado na Eira do Peral e actualmente em depósito nas Reservas da Câmara Muncicipal de Elvas, elemento que, apesar das suas características (peça lisa, sem qualquer decoração, tendo como único elemento distintivo a tampa de perfil prismático) nos remete para um maior ‘investimento’ por parte do seu encomendante. Encontra paralelos noutros sarcófagos tipologicamente semelhantes identificados na região elvense, como por exemplo, o sarcófago encontrado na Herdade do Botafogo, e igualmente constante do acervo do antigo Museu Municipal de Elvas (Carneiro, 2014, II: 201; Pires, 1901: 6). Para além disso, colocase a hipótese da existência de um eventual enterramento de características monumentais no arqueossítio da Camugem (Caetano, 2002: 319), o único local do conjunto das 22 necrópoles identificadas onde se terão recolhido placas funerárias,
O CONTRIBUTO DOS TRABALHOS DE ABEL VIANA E ANTÓNIO DIAS DE DEUS CAUN 25, 2017 63 ainda que em contexto de reutilização (Encarnação, 1984: 652, 662, n.ºs 585, 597; Viana, 1950: 313-315). 6 No que respeita à orientação e organização espacial destas necrópoles, não se regista uma homogeneidade. De um modo geral, quer a orientação E-W (por exemplo, em Serrones, Torre das Arcas e Padrãozinho 1), quer a orientação N-S (por exemplo, na Chaminé e em Padrãozinho 4), se encontram documentadas, verificando-se ainda variações, incluindo na orientação das sepulturas no seio do mesmo espaço funerário (conforme se verifica, por exemplo, em Serrones). De igual modo, regista-se a existência de espaços funerários com uma distribuição dos enterramentos aparentemente desorganizada (vejam-se os casos de Horta da Serra ou Torre das Arcas –Viana e Deus, 1955c: 22, figura 13), enquanto noutros se distingue uma regularidade na orientação e alinhamento destes como ocorre, por exemplo, em Padrãozinho 1 –Viana e Deus, 1955c: 1, figura 1). No que se refere à arquitectura tumular, o conjunto de necrópoles em análise sobressai pela variedade formal das sepulturas identificadas. Relativamente aos enterramentos em urna (associados a enterramentos in busta ou a deposições secundárias), predomina a tipologia de covacho simples aberto no subsolo com uma cobertura de pequenas pedras soltas ou tégulas (tipo de enterramento documentado, por exemplo, na Chaminé, Horta das Pinas e Padrãozinho 2) (Viana e Deus, 1950b; Viana e Deus, 1955c: 2). Nas variantes mais elaboradas deste tipo de enterramentos, temos covachos de planta rectangular com estruturas em caixa, formadas por lajes, tijolos ou tégulas, e com coberturas de lajes, tégulas ou pedras (variantes representadas nas necrópoles de Padrão, Padrãozinho 4 e Serrones) (Frade e Caetano, 1993: 850851; Viana e Deus, 1950b: 236-244; Viana e Deus, 1955c). As sepulturas de inumação, apesar de numericamente inferiores às de incineração, parecem igualmente distinguir-se pela diversidade tipológica documentada. De um modo geral, a solução adoptada corresponde ao típico enterramento de planta rectangular ou trapezoidal, com ou sem revestimento. As tumulações em caixa (documentadas nas necrópoles de Padrãozinho 1 e Torre das Arcas) tendem a apresentar uma estrutura construída em lajes, tijolos e tégulas, com cobertura nos mesmos materiais. A propósito desta heterogeneidade da arquitectura tumular, assinale-se a variedade de soluções construtivas representada na necrópole de Torre das Arcas, onde foram identificados, entre os 79 enterramentos explorados, 16 tipologias construtivas distintas –desde covachos simples com cobertura de pedras, a sepulturas em caixa com estrutura e cobertura de lajes, sepulturas integralmente construídas com tégulas ou tijolos (com ou sem argamassa), sepulturas com paredes laterais de lajes e topos em tijolo, ou sepulturas com estrutura em tijolos e cobertura de lajes (Deus, Louro e Viana, 1955: 575). [Figura 3] 7 Sem colocar em causa o inegável mérito reconhecido às intervenções de A. Dias de Deus e Abel Viana, há que esclarecer que a intenção de explorar todo o potencial informativo das designadas «necrópoles céltico-romanas» alto alentejanas, designadamente no que diz respeito à análise multidimensional do registo
MÓNICA DA SILVA ROLO CAUN 25, 2017 64 funerário, se revela uma tarefa muito condicionada. Os condicionalismos decorrem, por um lado, das limitações inerentes às vicissitudes dos trabalhos de escavação, registo, e posterior tratamento e acondicionamento dos materiais; e, por outro, das lacunas de informação registadas ao nível da descrição e inventário das peças, e dos lapsos nas ilustrações e legendas dos textos publicados à época, que se traduzem em dificuldades acrescidas na tentativa de reconstituição dos conjuntos funerários. O interesse fundamental dos ‘pesquisadores’ parece ter recaído sobre a morfologia das sepulturas, conforme evidenciam os trabalhos publicados, e, apesar de parecer haver a noção da importância dos conjuntos funerários, as descrições do espólio tendem a ser bastante concisas e superficiais (Alarcão e Alarcão, 1967: 1; Sepúlveda e Carvalho, 1998: 241). De um modo geral, as publicações que resultaram das intervenções em análise caracterizam-se pela escassez de descrições dos materiais exumados e pelas lacunas ao nível da respectiva associação ao contexto de achado, bem como por uma apresentação gráfica nem sempre favorável à identificação das peças. Consequentemente, e apesar de se ter procedido à escavação de cerca de 512 do total de 524 sepulturas identificadas (ou seja, aproximadamente 97% da totalidade dos enterramentos identificados, excluindo-se desta percentagem aqueles que já se encontravam vandalizados ou destruídos à data da intervenção dos ‘pesquisadores’), somente para uma parte minoritária destas sepulturas é possível identificar o espólio associado e proceder à reconstituição dos respectivos conjuntos funerários. Acresce a estas limitações o facto de nenhuma das necrópoles ter sido escavada na sua totalidade, encontrando-se algumas delas (como por exemplo, Horta das Pinas ou Padrãozinho) já parcialmente destruídas quando A. Dias de Deus e os seus colaboradores tomaram conhecimento da sua existência (Viana, 1955: 24). Por este motivo, presume-se que o número de enterramentos documentado fique bastante aquém do número real de enterramentos por necrópole e que, consequentemente, não possa considerar-se representativo da verdadeira dimensão dos espaços funerários identificados. De igual modo, a não recolha do material osteológico identificado nos arqueossítios intervencionados ditou, à partida, a inviabilidade de qualquer abordagem bioantropológica e o estudo da população que aí se terá feito sepultar. 8 Outro dos condicionalismos que pesa sobre a ‘herança’ destas ‘pesquisas’ arqueológicas prende-se com o tratamento dado ao vasto espólio recolhido. Não nos parece que a gestão de tão significativa quantidade de materiais, de diversas categorias e com distintas proveniências, aliada a um registo de campo deficiente, tenha sido tarefa fácil para Abel Viana e A. Dias de Deus– “(…) limitações diversas, entre as quais sobressaíam a falta de condições materiais e apoio académico, conduziram a alguma dispersão do espólio das necrópoles que Abel Viana e António D. de Deus escavaram nas décadas de 40 e 50, na região de Elvas. As mesmas razões explicam que o tratamento dado aos objectos (incluindo a publicação) não tenha sido tão cuidado como o trabalho de escavação” (Alarcão, A., 1988: 203). À distribuição pouco criteriosa do espólio por diferentes instituições museológicas, isto é, motivada acima de tudo pela
O CONTRIBUTO DOS TRABALHOS DE ABEL VIANA E ANTÓNIO DIAS DE DEUS CAUN 25, 2017 65 premência em encontrar um local de depósito, oficial e definitivo (que não as instalações da Colónia Correcional de Vila Fernando), para os materiais, e aparentemente sem ter em linha de conta outro critério que não a distribuição equitativa de peças de ‘relevância’ idêntica, deve também acrescentar-se alguma negligência verificada na organização, tratamento e acondicionamento do espólio (peças danificadas, peças com intervenções de restauro comprometedoras, peças que se perderam ou actualmente não localizáveis, peças sem informação de proveniência), e incontornáveis lacunas de informação registadas ao nível da inventariação dos materiais. Ainda assim, e apesar destes condicionalismos, a representatividade unmérica e qualitativa do conjunto de espólio atribuído a estas necrópoles suscitou, sobretudo ao longo da segunda metade do séc. XX, o interesse de vários investigadores, conforme atestam os estudos publicados sobre a terra sigillata (Alarcão, 1960-1961), as lucernas (Alarcão e Ponte, 1976), os vidros (Alarcão, 1967; 1975; 1978; Alarcão e Alarcão, 1967), a cerâmica de paredes finas (Mayet, 1975; Sepúlveda e Carvalho, 1998), a cerâmica comum (Nolen, 1985; 1995-1997), os metais (Ponte, 1986; Arezes, 2010; 2014), e a epigrafia funerária (Encarnação, 1984). Do total de 850 peças publicadas, conhece-se a necrópole de origem de aproximadamente 568, enquanto o restante material permanece como espólio sem proveniência conhecida, sendo genericamente atribuível às ‘necrópoles alto alentejanas’ ou às recolhas dos funcionários da Colónia de Vila Fernando e Abel Viana em arqueossítios de cronologia romana/ tardo-romana 4 . 3. UM EXEMPLO PARADIGMÁTICO: A NECRÓPOLE DA HERDADE DA CHAMINÉ (VILA FERNANDO, ELVAS, PORTALEGRE) 9 De entre os 22 espaços funerários explorados pelos funcionários da Colónia Correcional de Vila Fernando, contando com a colaboração de Abel Viana, a necrópole da Chaminé (CNS 1472 5 ; N 38° 54.793’ W 007° 16.623’) afigura-se-nos como um caso paradigmático, razão pela qual lhe dedicamos a nossa atenção particular no presente trabalho. O arqueossítio da Chaminé é, em nosso entender, um testemunho expressivo, não só da realidade arqueológica funerária documentada na região alto alentejana, mas também da polémica que envolveu as ‘pesquisas’ levadas a cabo por A. Dias de Deus e Abel Viana, e que viria a marcar um período particular da Arqueologia portuguesa. No que concerne ao primeiro aspecto, a 4 Da amostra de 1040 peças contabilizada no âmbito do projecto de investigação em curso, apenas se encontra apurado, até à data, o contexto de sepultura de cerca de 22% dos itens, evidenciando-se assim o desequilíbrio entre a quantidade de espólio recolhido nestas intervenções e o volume de informação conhecido sobre os arqueossítios intervencionados. 5 Código Nacional de Sítio, de acordo com o Sistema de Informação e Gestão Arqueológica da Direcção Geral do Património Cultural.
MÓNICA DA SILVA ROLO CAUN 25, 2017 72 16 Contrariando a escassez de espólio associada a este núcleo de enterramentos, distinguiram-se duas sepulturas. A primeira, de planta rectangular e aparentemente associada ao rito de incineração (conforme indiciam a presença de cinzas e carvões), apresentaria um expressivo conjunto de 14 peças, das quais apenas se terão recolhido intactas cinco (Deus, s.d., 11; Viana, 1950: 308). A segunda, construída com tégulas, terá fornecido fragmentos de espólio cerâmico e vítreo (idem). As informações conhecidas não são esclarecedoras quanto a estes enterramentos e ao espólio que lhes estaria associado. Coloca-se a hipótese da primeira destas duas sepulturas poder corresponder ao enterramento assim descrito por Abel Viana: “Em uma das extremidades deste cemitério, havia uma camada de terra negra, cinzas e ossos, tudo coberto por uma camada de pedras postas indistintamente. Por baixo destas pedras foram achadas cinco tigelinhas, duas candeias, três vasilhas de forma semelhante à dos actuais «barris» alentejanos, e dois pequenos boiões (supomos tratar-se de uma alusão a cerâmica de paredes finas), um de superfície encrespada, à maneira de carapinha, e outro com ornato de arquinhos sobrepostos e imbricados, e ainda um pequenino vaso de barro escuro, com a superfície pontilhada por meio de pequeninas incisões (...). Da mesma camada de terra negra procede um pequeno vaso de barro negro, com duas asas” (Viana, 1950: 311). Porém, se a referência ao achado de um conjunto de 14 peças nos leva a considerar a viabilidade da hipótese apresentada, as informações disponíveis relativas à estrutura (em caixa, ou formada por pedras dispostas de forma aleatória) e implantação da sepultura (entre o núcleo de sepulturas de inumação, ou associada a uma possível área de ustrinum na área do campo de urnas) levam-nos a abordá-la com as devidas reservas. Não obstante as limitações com que nos debatemos no que respeita à informação disponível e, decorrentemente, à impossibilidade de identificação dos materiais que comporiam os conjuntos funerários das duas sepulturas em questão, parece-nos evidente estarmos perante um momento cronologicamente distinto do restante núcleo de enterramentos, provavelmente mais próximo do enterramento alto imperial anteriormente referido. A propósito, registe-se que as duas únicas lucernas identificadas como sendo provenientes da necrópole da Chaminé correspondem a formas Drag. 17 ou 19 e Drag. 27, genericamente atribuíveis ao séc. II d.C. (Celis Betriu, 2005: 443), sendo a última referida como a lucerna “del túmulo más reciente del campo de urnas de Chaminé” (Viana e Deus, 1951: lâmina XI, figura 16). Assim sendo, parece-nos viável assumir a existência de outros enterramentos de cronologia romana, e designadamente do Alto Império, no espaço funerário da Chaminé. A concentração de sepulturas de cronologias diversas numa mesma área, e as difíceis condições de escavação impostas pela natureza do solo, poderão explicar as dificuldades de interpretação das evidências arqueológicas por parte dos ‘pesquisadores’ e o facto de apenas se ter reconhecido um enterramento como alto imperial. 17 No arqueossítio da Chaminé foi ainda identificado um outro núcleo de sepulturas de inumação (entre 25 a 30), correspondente aos primeiros enterramentos descobertos e escavados por A. Dias de Deus naquele local, em Outubro de 1948
O CONTRIBUTO DOS TRABALHOS DE ABEL VIANA E ANTÓNIO DIAS DE DEUS CAUN 25, 2017 73 (Deus, s.d.: 8-9; Viana, 1950: 306). Este conjunto de sepulturas situar-se-ia a aproximadamente 50 metros da área escavada do campo de urnas, próximo de um poço e de outros vestígios de construções de época romana (Deus, s.d.: 9; Heleno, 1951: 93-94; Deus, Louro e Viana, 1955: 569). Os enterramentos apresentavam uma orientação norte-sul, planta rectangular ou trapezoidal, e uma construção, mais ou menos elaborada, com estrutura e cobertura de lajes, de granito ou xisto (Viana, 1950: 306). Neste núcleo verificaram-se duas sobreposições de enterramentos, sendo que as sepulturas do estrato inferior se caracterizavam por apresentar planta rectangular (e não trapezoidal como aquelas que se lhes sobrepunham), uma construção mais cuidada e maiores dimensões (Deus, Louro e Viana, 1955: 569; Viana, 1950: 306). A generalidade dos enterramentos do nível superior continha um ou mais esqueletos e escasso espólio –material cerâmico (somente em três sepulturas), numismas (identificados em duas sepulturas e atribuíveis ao Baixo Império), fragmentos de alfinetes de osso, e (aparentemente) contas de colar (âmbar) (Deus, s.d.: 9; Heleno, 1951: 93-94; Viana, 1950: 307). Mais uma vez os dados disponíveis não possibilitam a identificação do espólio associado a este conjunto de inumações e, por conseguinte, o apuramento da cronologia dos enterramentos. Coloca-se a hipótese de a totalidade das sepulturas de inumação escavadas no sítio da Chaminé documentarem diferentes fases de uso daquele espaço funerário. Neste sentido propõe-se que o conjunto destas 25/30 tumulações esteja associado a um momento mais antigo, enquadrável entre os séc.s III e IV d.C.; enquanto o núcleo das 50 sepulturas orientadas este-oeste nos parece remeter para uma cronologia mais tardia, compreendida entre os séc.s V-VI d.C. (Carneiro, 2015: 130), eventualmente extensível até ao séc. VII d.C. (Caetano, 2002: 331). Em função do acima exposto, fica evidente a complexidade estratigráfica do sítio, onde se distinguem “pelo menos, quatro grandes fases de tumulações, desde os finais da Idade do Ferro até momentos visigóticos” (Carneiro, 2011, I: 175). O arqueossítio da Chaminé mantém uma unidade enquanto espaço funerário reiteradamente utilizado ao longo de diferentes épocas, por diferentes comunidades. Todavia, e conforme parecem atestar as diversas fases de enterramentos documentadas, mais do que uma utilização contínua do mesmo espaço, parece ter-se verificado um conjunto de ‘re-ocupações’ (Fabião, 1998, I: 384). 18 Pelo menos em parte desta larga diacronia de utilização do espaço funerário da Chaminé, considera-se verosímil que este possa ter estado associado ao espaço habitacional, de cronologia romana, do Carrão (Vila Fernando, Elvas). Identificado em 1942 (Viana, 1950: 295-296), o sítio terá sido escavado por A. Dias de Deus entre Janeiro de 1948 e Outubro de 1949 (Deus, s.d.: 7). Os dois arqueossítios situam-se a curta distância, separados por uma pequena linha de água e pelo caminho de acesso aos actuais edifícios da Herdade da Chaminé. Os dados conhecidos sobre a designada villa do Carrão são muito escassos, uma vez que o sítio foi escavado durante um breve período de tempo e de forma não contínua ou sistemática. As primeiras sondagens no local terão sido realizadas em 1942 pelo Padre
MÓNICA DA SILVA ROLO CAUN 25, 2017 74 Henrique da Silva Louro (Viana, 1950: 295-296), e a estas seguiram-se outras em 1946, já da iniciativa de A. Dias de Deus (Viana, 1950: 304). Em Janeiro de 1948, o funcionário da Colónia Correcional de Vila Fernando deu início às escavações no local (Deus, s.d.: 7), contando com a colaboração de Abel Viana (a partir de Julho de 1949). Estes trabalhos prolongaram-se, de forma descontínua, até Outubro de 1949, altura em que, conforme já mencionámos, A. Dias de Deus e Abel Viana se viram obrigados a cessar os trabalhos arqueológicos levados a cabo nas estações do Carrão, Chaminé e Terrugem (Viana e Deus, 1950b: 236; Viana e Deus, 1951: 91; Cardoso, 1999:153). 19 De assinalar que, na década de 40 do século passado, os ‘pesquisadores’ identificaram na Herdade do Carrão diversos vestígios de construções de época romana, designadamente silhares de granito, três represas (uma das quais amortizada), e um conjunto de aedificia. Entre estes incluia-se uma possível estrutura termal e uma provável habitação, com vários compartimentos rectangulares (um deles rematando em estrutura absidada) e pavimentos (seis, no total) em opus tesselatum (Deus, Louro e Viana, 1955: 568; Viana, 1950: 304-305). Também terão sido identificados outros três pavimentos em mosaico junto à área funerária escavada, a cerca de 40-50 metros de distância do campo de urnas e próximo de um poço (Deus, Louro e Viana, 1955: 569). Das ‘pesquisas’ realizadas terá resultado igualmente o achado de terra sigillata, fragmentos de ânforas, abundante cerâmica de construção, alfinetes de osso (acus crinalis), espólio metálico e moedas (na sua maioria do Baixo império) (Deus, s.d. 8; Deus, Louro e Viana, 1955: 568; Viana, 1950: 306). Há também notícias do achado, por parte de trabalhadores rurais (em data anterior às intervenções de A. Dias de Deus), de uma cabeça de estátua e de capitéis, os quais lamentavelmente nunca chegaram a ser recuperados (Viana, 1950: 296). Actualmente só nos foi possível reconhecer no terreno parte de uma estrutura de condução de água (represa) (Quintela et al., 1986: 70), parte de uma estrutura absidada de funcionalidade desconhecida, silhares de construção, e uma extensa mancha de material cerâmico disperso (cerâmica de construção e cerâmica utilitária). [Figura 10] Entre o escasso espólio disponível atribuído ao Carrão, contam-se dois exemplares de terra sigillata clara C e D, das formas Hayes 50 e 61B, respectivamente, remetendo-nos para um horizonte cronológico dos séc.s IV-V d.C. (Serrano Ramos, 2005: 239, 247). A iconografia conhecida dos pavimentos musivos identificados e o presumível achado de moedas datáveis do imperialato de Constantino (Heleno, 1951: 94) parecem igualmente reforçar uma cronologia do séc. IV d.C.. O único elemento dissonante parece corresponder a uma fivela, com paralelos em Conímbriga (Arezes, 2014, II: 35, estampa XIII, figuras 65-66), enquadrável no nível III definido por Ripoll López (1998: 50-51, figura 2), e datável do séc. VI d.C.. Sem informações de natureza estratigráfica ou relativas ao contexto de achado das peças, parece-nos viável propor que a última etapa da possível villa possa datar efectivamente do séc. IV d.C. (ainda que o t.p.q. da construção desta possa ser bastante anterior) e que, no decurso do séc. VI d.C.,
O CONTRIBUTO DOS TRABALHOS DE ABEL VIANA E ANTÓNIO DIAS DE DEUS CAUN 25, 2017 75 possa ter havido uma reocupação do espaço residencial, à semelhança do que se verificou para o espaço funerário. De qualquer modo, deverá assumir-se que a utilização do espaço funerário da Chaminé ultrapassa em larga medida a diacronia de utilização da área residencial do Carrão (Carneiro, 2015: 130). Pela significativa extensão da necrópole (apenas parcialmente conhecida) e pela ampla diacronia de utilização, coloca-se a hipótese do espaço da Chaminé ter servido como necrópole não apenas aos residentes da presumível villa do Carrão, mas também à população de outros estabelecimentos rurais, de maiores ou menores dimensões, localizados no território envolvente. Neste sentido, “es lógico pensar que todo asentamiento genera un «habitat funerario», pero también puede darse el caso de que un antiguo cementerio pueda ser el generador de un hábitat” (Ripoll López, 1989: 390). Os dados disponíveis, pela sua escassez, não permitem comprovar esta hipótese, porém, em nosso entender, parecem sugerir uma estabilidade do espaço funerário e o papel polarizador da Chaminé como necrópole e, nessa condição, como locus religiosus (Vaquerizo Gil, 2011: 95) para diferentes comunidades que, em diferentes momentos (desde, pelo menos, a II Idade do Ferro até à Antiguidade Tardia), habitaram aquele território. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS 20 Não obstante a contestável motivação e metodologia que, conforme vimos anteriormente, terão marcado os trabalhos de prospecção e recolhas levados a cabo pelos funcionários da Colónia Correcional de Vila Fernando, a posterior colaboração de Abel Viana, e em particular o empenho por este colocado na publicação e divulgação dos resultados destas intervenções, acabou por determinar que esta ‘actividade exploratória’ se tenha saldado, acima de tudo, num inestimável contributo para o conhecimento da realidade arqueológica do actual território alto alentejano, e em particular da região elvense (Carneiro, 2011, II: 131). Contudo, reconhecer este inestimável legado passa também por admitir as incontornáveis limitações e condicionalismos que fazem parte da ‘herança’ destas ‘pesquisas’ e que se prendem, fundamentalmente, com as vicissitudes dos trabalhos de escavação e recolhas, sem carácter sistemático e fundamentalmente centrados na ideia do artefacto como memorabilia arqueológica, e com um registo amplamente deficitário (senão mesmo ausente, em boa parte dos casos). Desta forma, e no que se refere às «necrópoles céltico-romanas» e tardo-romanas exploradas, eventuais inferências sobre as práticas e ritos associados a cada enterramento, a concepção e organização dos espaços funerários (incluindo as respectivas dinâmicas de utilização, reutilização e abandono), a reconstituição dos conjuntos funerários e o apuramento das cronologias dos diversos enterramentos, encontram-se comprometidas, e a possibilidade de se recriar a intencionalidade que presidiu ao gesto funerário irre-
MÓNICA DA SILVA ROLO CAUN 25, 2017 76 mediavelmente perdida (Alarcão, A., 1988: 207; Duday, 1997: 92). Há que salientar que, independentemente destas limitações e lacunas, a actividade destes ‘pesquisadores’ ‘salvou’ a existência de algumas destas necrópoles (a maioria) e demais estações identificadas/ intervencionadas pelos autores, do desconhecimento total, tornando-se possível, por um lado, a “constituição de um corpus de materiais arqueológicos” (Almeida, 2000: 26) e de arqueossítios, fundamental para o conhecimento da época romana (e não só) no actual Alto Alentejo; e, por outro lado, o esboço de um retrato (ainda que parcelar) das práticas funerárias (ritos, tipo de tumulações e espólio) comuns na área geográfica em questão em época romana e tardo-romana (Frade e Caetano, 1993). Assim, à luz dos dados conhecidos, sobressai a noção de que à familiaridade geográfica entre os espaços funerários explorados se apõe uma familiaridade cultural, extensiva a outras necrópoles da área geográfica em análise, como por exemplo, Rouca (Alandroal, Évora), Silveirona (Estremoz, Évora), Lage do Ouro (Crato, Portalegre), Pombais (Marvão, Portalegre), ou Santo André (Ponte de Sor, Portalegre). O espaço funerário da Chaminé assume-se como testemunho, não só da importância do contributo das ‘pesquisas’ dos funcionários da Colónia Correcional de Vila Fernando e Abel Viana, às quais se deve o conhecimento que hoje dispomos sobre o arqueossítio, mas também de uma longa diacronia de utilização do mesmo espaço, por comunidades distintas mas perfeitamente conhecedoras do ‘seu’ tempo, conforme atesta a diversidade da cultura material e das soluções de ocupação/ utilização do espaço documentadas. 5. BIBLIOGRAFIA ALARCÃO, A. (1960-1961), “Algumas peças de terra sigillata na secção arqueológica do Paço Ducal de Vila Viçosa”, Conímbriga, vol.s II-III, 181-201, Coimbra. — (1988), “Recensões Bibliográficas”, Conímbriga, vol. XXVII, 205-207, Coimbra. ALARCÃO, A.; PONTE, S. (1976), “As lucernas romanas do Paço Ducal de Vila Viçosa”, Conímbriga, vol. XV, 73-90, Coimbra. ALARCÃO, J. (1968), “Vidros romanos de museus do Alentejo e Algarve”, Conímbriga, vol. VII, 7-39, Coimbra. — (1975), “Bouteilles carrées au fond décoré du Portugal romain”, Journal of Glass Studies, n.º XVII, 47-53, New York. — (1978), “Vidros romanos do Alentejo no Museu Nacional de Arqueologia (Lisboa)”, Conímbriga, vol. XVII, 101-112, Coimbra. — (1988a), O Domínio Romano em Portugal, Mem Martins. ALARCÃO, J. (1988b), Roman Portugal, II: Gazetter, fasc. 3: Évora – Faro – Lagos, Warminster.
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MÓNICA DA SILVA ROLO CAUN 25, 2017 88 Fig. 7 Espólio cerâmico atribuído ao campo de urnas da Chaminé (Colecções de Arqueologia do Museu Nacional de Arqueologia, Museu-Biblioteca da Casa de Bragança, e antigo Museu Municipal de Elvas) Fig. 8 Espólio atribuído aos enterramentos de cronologia alto-imperial identificados na necrópole da Chaminé (Colecção 0393 do Museu Nacional de Arqueologia) Fig. 9 Espólio atribuído às sepulturas de inumação tardoantigas identificadas na necrópole da Chaminé (Colecção de Arqueologia do antigo Museu Municipal de Elvas)
O CONTRIBUTO DOS TRABALHOS DE ABEL VIANA E ANTÓNIO DIAS DE DEUS CAUN 25, 2017 89 Fig. 10 Vista parcial de estrutura absidada identificada na Herdade do Carrão (Vila Fernando, Elvas)