O Trágico na Filosofia do Amor de Georg Simmel
Abstract
No presente artigo apresentaremos sucintamente em que consiste aquilo a que chamamos a fi losofi a do amor de Simmel, a partir de três textos: Fragmento sobre o Amor, Nota sobre o Eros platónico e o Eros moderno e Fragmentos e Aforismos, textos publicados entre 1921 e 1922. Na parte fi nal do artigo exploraremos a ideia do trágico na fi losofi a do amor. No amor, tal como nos outros movimentos do espírito, há uma tendência para anular a individualidade mas ele surge apenas quando infl amado por esta individualidade. O amor (moderno) é fundamentalmente individual e simultaneamente não pode aceitar o carácter insuperável dessa mesma individualidade.
Full text
Philosophica, 46, Lisboa, 2015, pp. 53-65. O T F A G S Vera Serra Lopes1 (Mestranda em Filosofi a, Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa) 1. Considerações iniciais No presente trabalho apresentaremos sucintamente a fi losofi a do amor de Simmel, a partir de três textos: Fragmento sobre o Amor, Nota sobre o Eros platónico e o Eros moderno e Fragmentos e Aforismos, escritos na fase madura do pensamento de Simmel, a Lebensphilosophie, e publicados postumamente entre 1921 e 1922. Na parte fi nal exploraremos a ideia do trágico na fi losofi a do amor. O leque de temas abordados pela fi losofi a de Simmel é realmente muito vasto, de tal modo que arriscamos dizer que qualquer pessoa encontrará pelo menos um tema de interesse abordado pela fi losofi a do autor alemão. Num mundo como o nosso actual (trágico) em que a interdisciplinaridade se faz cada vez mais presente, mais fundamental e simultaneamente mais perigosa, Simmel é um pensador extremamente importante. Simmel é um fi lósofo a título pleno, embora não incorra na pretensão megalómana de reduzir tudo a um princípio primeiro único, atitude esta que o fi lósofo diagnostica como sendo a tendência da fi losofi a, derivada daquela mais nobre exigência de unidade que o fi lósofo sente. Simmel tem uma só questão fundamental ao longo de toda a sua obra: a vida e as suas formas. A sua fi losofi a é uma fi losofi a da vida e, como tal, pretende pensar as mais variadas expressões e dimensões dessa vida. Exactamente por ser 1 [email protected]
54 Vera Serra Lopes uma fi losofi a da vida, esta aborda tudo aquilo que dela provém, incluindo a própria morte. O carácter orgânico da sua fi losofi a faz com que ao tratarmos do amor ou de qualquer outro tema estejamos, de certa forma, a tratar o todo da sua fi losofi a ou, pelo menos, o seu núcleo fundamental. Encontramos em cada pequena parte o todo e no todo, todas as partes únicas, indivisíveis e insuperáveis. 2. O amor em Simmel O amor raramente foi considerado um tema da fi losofi a: não era próprio de um fi lósofo pensar no amor. O amor era, como nos diz Schopenhauer na sua Metafísica do Amor, um assunto para poetas: Em vez de causar admiração que um fi lósofo procure também ocupar-se deste tema, alvo eterno de todos os poetas, deve antes ser motivo de admiração que um problema que na vida humana seja tão importante, não tenha sido, até agora, tido em consideração pelos fi lósofos, e nos apresente como matéria que ninguém tenha ainda tratado.2 À parte Platão, poucos fi lósofos reconheceram ao amor a dignidade e a importância que Simmel lhe reconheceu, nem lhe dedicaram as páginas que até Simmel nos faltavam. O amor e os sentimentos em geral foram negligenciados pelos fi lósofos, senão mesmo intencionalmente afastados da fi losofi a. Muito sucintamente, e segundo a perspectiva simmeliana, o amor em Platão era um meio para atingir a ideia de beleza e a imortalidade, e em Schopenhauer este tinha todas as suas raízes no instinto sexual; era, nas palavras do próprio, “vontade da espécie”. Contudo, Simmel herdou de Platão a tarefa de desvendar o mistério do amor, para lá da realidade imediatamente dada, do acidental, para além do desejo sensual, para além da mera relação afectiva. O amor passa a estar ao abrigo da metafísica e com ele a individualidade. O amor moderno também encontrou no amor algo de atemporal, mas o que ele não pode fazer é localizá-lo para além do vivido imediato. A frase com que Simmel abre o seu Fragmento sobre o Amor, diz-nos o seguinte: “É entre o Eu e o Tu que, aos olhos da consciência humana, se produz o primeiro dos seus confl itos e a primeira das suas unifi cações.”3 2 Schopenhauer, Metafísica do Amor, Lisboa, Guimarães, 2002, pp. 11-12. 3 G. Simmel, Fragmento sobre o Amor e Outros Textos, trad. Maria João Costa Pereira, Lisboa, Relógio d’Água, 2004, p. 69. Nesta tradução o termo que aparece para “Konfl ikt” é “dissensão”, mas preferimos a tradução literal, sendo que o confl ito é um conceito fundamental da fi losofi a sociológica de Simmel.
55 O Trágico na Filosofi a do Amor de Georg Simmel Esta citação põe-nos já a caminho de perceber um dos aspectos trágicos do amor. Por agora, fi quemos apenas com a ideia de que o Eu e o Tu são, sob a perspectiva da consciência humana, o lugar (não mensurável) da primeira cisão, do confl ito e também da sua unifi cação. Segundo este modo de pensar o nosso comportamento estaria perante uma alternativa: poderia apenas ser egoísta ou altruísta. A totalidade das acções humanas esgotar-se-ia nesta dicotomia em que ou o Eu visa o próprio Eu ou o Eu visa o Tu. A polarização da realidade nestas duas atitudes opostas é falaciosa e insufi ciente, se queremos englobar todas as relações possíveis. Há várias situações em que não são considerados, exclusivamente, nem o Eu nem o Tu. Existe algo mais para além destas duas realidades opostas. O egoísmo, tal como o altruísmo, implica sempre uma orientação teleológica (um objectivo, um fi m) que não existe, por exemplo, na esfera do instinto; este pode dirigir-se para o Eu, para um Tu ou mesmo ir contra o Eu. A esfera do comportamento instintivo encontra-se aquém deste dualismo e também não pode ser encaixada nas categorias do egoísmo e altruísmo. O agir “por amor”4 pertence a uma outra esfera que se encontra para além da referida alternativa. O amor é um movimento do espírito, da vida, que está para além de um privilégio do Eu ou do Tu. Neste agir por amor estão envolvidas pulsão e satisfação próprias; o seu fi m não é apenas o Tu, mas não é mero egoísmo, pois é acompanhado de uma certa “abnegação de si”, ainda que não haja dissolução do indivíduo, como há, eventualmente, na comunhão mística. Simmel, e o seu pensamento orgânico, opõe-se entusiasticamente a todo o tipo de concepções mecanicistas. O amor tem, em geral, uma natureza tal que não se deixa decompor nestes termos, “esse agir, na sua origem mais profunda, é demasiado uno e inteiro para aparecer como uma espécie de mistura mecânica dos dois tipos de motivações.”5 É também neste sentido que Simmel se opõe à “psicologia racionalista”, segundo a qual ou o amor deriva do máximo altruísmo ou este é fundamentalmente egoísta. No pensamento de Simmel encontramos uma tentativa de superar os dualismos rígidos, polares. Há sem dúvida uma busca de unidade, porventura despedaçada na época moderna, é evidente a tentativa de encontrar uma outra esfera, um terceiro elemento. O amor enquadra-se nesta outra esfera, numa esfera ideal, aparece como um terceiro que está para lá destes 4 “Se, por intermédio desses casos simples, compreendermos correctamente que o nosso agir pode ser independente em relação à alternativa acima referida, chegaremos também a projectar-nos nessa relação mais complexa, e, no entanto, capaz de reduzir a sua acuidade, em que se move o agir «por amor» (Handeln «aus Liebe»).” Ibid., p. 71. 5 Ibid., p. 71.
56 dualismos. Há contudo, como referimos, a recusa de uma solução de tipo mecanicista, artifi cial, típico da bricolage fi losófi ca que supõe reconciliar os opostos através da técnica do corte e costura. O amor é um sentimento sui generis onde, numa determinada acção, o impulso se confunde com o objectivo, a motivação com o conteúdo. E isto muito mais no amor do que em qualquer outra actividade do espírito. [...] o amor por um ser humano, enquanto motivação por assim dizer geral de uma determinada acção, solidariza-se com o seu conteúdo, irriga-o com o seu sangue muito mais directamente do que em qualquer outra motivação (com excepção, talvez, do ódio). [...] Aqui o carácter da acção benéfi ca, essa tensão entre o Eu e o Tu, e o seu próprio querer-viver fl ui, para lá desse hiato, rumo ao outro, abolida toda a distância, sem precisar de um ponto que separe ao mesmo tempo que una.6 A espontaneidade é característica do amor, que é directo, não-teórico, imediato. O amor não precisa deste ponto que separa ao mesmo tempo que une, pois ele próprio é esse ponto, esse dar-se imediato e recíproco. O milagre do amor é justamente não abolir o ser-para-si nem do Eu nem do Tu, fazer dele inclusive a condição que permite essa supressão (Aufhebung) da distância, esse egoísta fechar-se em si mesmo do querer-viver. O que é algo totalmente irracional, que se subtrai à lógica das categorias habitualmente válidas.7 O amor é uma categoria8. Não é ingénuo que Simmel o trate assim; para um kantiano usar o termo “categoria” para classifi car o amor, tem de querer dizer qualquer coisa e pode querer dizer, antes de Heidegger, que o entendimento não tem primazia sobre as outras “faculdades” da alma, ao utilizar o termo faculdade estamos já a cair no reino da teoria e o amor consiste em algo totalmente irracional sob ponto de vista das categorias com que normalmente pensamos. Schopenhauer, por exemplo, pretende explicar esta supressão (neste caso é mesmo uma supressão que temos e não uma superação) através da unidade transcendental do ser. É uma solução de tipo racionalista que é fruto da sua incompreensão do amor, da essência do amor. Para Schopenhauer o amor era a procriação, manifestação da vontade, continuar da espécie, tal como se vê na sua Metafísica do Amor, mas o amor é exactamente liberta6 Ibid., p. 72. 7 Ibid., p. 72. 8 “O amor é uma categoria primordial, não tendo qualquer outro fundamento além de si próprio”, Ibid., p. 80. Vera Serra Lopes
57 ção dessa esfera biológica, de onde aliás deriva, em parte, a sua dimensão trágica e tanto mais quanto mais moderno for. A abordagem do amor, tal como é efectuada por Georg Simmel, signifi ca a oposição a todo o intelectualismo9. O abandono do primado da teoria sobre a praxis, muito característico da fi losofi a do século XX ou de uma determinada contra-corrente do século XX, inspirada pela fi losofi a do século XIX de Schopenhauer e Nietzsche. Estas são fi losofi as que se debruçam sobre a vida, sobre a existência, em que se fala de algo que nos diz directamente respeito, que experienciamos e vivemos efectivamente. Simmel pretende refutar a possibilidade de “compor” o amor a partir de uma multiplicidade de factores, nenhum dos quais justamente é amor.10 A diversidade de manifestações que apelidamos de amor (como o amor pela paisagem, por Deus, por uma Obra de Arte, etc.) não contraria a sua unidade essencial, de que Simmel nos quer falar, mas pelo contrário prova-a. Tem de haver um núcleo imutável que dê origem a esta profusão infi nita de acontecimentos, uma certa Esfera Ideal em que se encontra o amor. Referimos o amor pela Paisagem. Simmel dá-nos o exemplo do amor pela paisagem de Florença e diz-nos que este é independente do facto de gostarmos de lá viver (do “desfrute subjectivo”-prático) bem como da contemplação estética (“juízo de valor objectivo”) que esta nos proporciona. O mesmo se passa, por exemplo, no erotismo sexual; este consiste em “amarmos também o corpo do outro, nesse sentido de não nos contentarmos com “desejá-lo” e contemplá-lo de um ponto de vista estético”11. O que Simmel nos quer mostrar é que o amor está desvinculado da prático, da teoria e de toda a valoração, e surpreendentemente esta possibilidade acentua-se na época moderna, tal como nos diz nos seus Fragmentos e Aforismos. “Vemos esse amor emergir de profundezas totalmente irracionais da vida, sem que vise necessariamente qualquer melhoria ou deterioração dessa vida”12, e sem isto signifi car que o amor está abaixo de outras actividades do espírito. 9 “Assim como inúmeras vezes o nosso intelecto não consegue penetrar uma unidade pela compreensão, e tem portanto de fragmentá-la em vários elementos a partir de um pressentimento, de uma exigência ou de uma intuição, para reconquistá-la em seguida a título de «unidade sintética» pela reunião desses elementos, assim também a nossa realidade afectiva surge frequentemente como algo uno e inteiro em si, mas que, mal chega à superfície da nossa vida prática (em todos os sentidos do termo) e estando diversamente desenvolvido, se divide numa multiplicidade de sentimentos particulares. No entanto, se nos ativermos à sua unidade, percebê-lo-emos como uma cooperação, uma complementaridade, uma imbricação desses elementos diferenciados. Não se trata de análise intelectual (se bem que possa também sê-lo), mas de evolução afectiva vivida.” Ibid., p. 74. 10 Ibid., p. 75. 11 Ibid., p. 76. 12 Ibid., p. 76. O Trágico na Filosofi a do Amor de Georg Simmel
58 O amor é um puro estado/movimento do sujeito no qual está presente também o teor factual do objecto e com isto, embora o amor seja uma actividade criadora do sujeito que cria, por assim dizer, o seu amor, Simmel quer salvaguardar uma certa dimensão sensível do amor, e sobretudo uma integridade do objecto, do Tu (como tinha feito, de forma diferente Feuerbach). Este é um ponto em que, segundo Simmel, o eros platónico e o amor moderno divergem. Os gregos não tinham ainda, como os modernos, consciência de uma subjectividade criadora. A relação (sendo que o termo relação como nos diz o fi lósofo indica já um dualismo e uma relação exterior a ambos os pontos do binómio13) dá-se entre a alma e o mundo, imanência e transcendência, sujeito e objecto. Não há em Simmel qualquer idealismo solipsista. Amando o objecto na sua “incomparabilidade transcendental”: damos uma forma acabada à relação fundamental entre a alma e o mundo: a alma permanece decerto fi xada ao seu centro – [...] mas essa imanência é a forma em que ela se torna transcendente, capaz de apreender os conteúdos do mundo e integrá-los em si. Se ela não fosse, primeiramente, em si, não poderia sair de si mesma; mas essa formulação, inevitavelmente cronológica, não designa uma sucessão que separa, mas sim a determinação da vida, fundamentalmente unitária.14 A alma, sujeito ou amante tem um centro próprio, é imanente, mas em virtude desta imanência ela torna-se transcendência, movimento do interior para o exterior, em que apreende os conteúdos do mundo e os integra na sua esfera própria. Este movimento não é um movimento cronológico, mas o movimento da Vida, processo unitário. “Primeiramente” não indica um momento temporal, em que a alma seria primeiro imanente e depois transcendente; quando dizemos que primeiramente a alma é una, que é uma unidade em-si, está desde logo implícito o movimento uno e simultâneo, da própria vida, para fora de si. O Amor é, neste sentido, uma actividade formativa que “dá forma ao existente”; joga-se tudo neste jogo entre 13 “Noto, sob a sua superfície, os indícios de uma relação das almas - «relação» é já uma expressão dualista e falsifi cadora -, uma unidade dual, um absoluto de estar juntos, de evoluir juntos, que não é amor. Este é já distanciamento, confronto, suposição do ser- -para-si – e, simultaneamente, a tentativa de superá-lo. Essa tentativa está votada ao fracasso: uma vez tendo tomado posse dessa «relação», a consciência faz dela realmente uma relação, leva-a à sua forma antitética própria. Se esses esforços fossem bem-sucedidos, o amor deixaria justamente de existir e em vez dele existiria essa outra coisa; [...] Colocando o amor diante de si – tornando-se assim amor empírico – , surge a sua problemática e a sua contradição. Há algo no seu fundamento a partir do qual se desenvolve a dualidade.” Ibid.., p. 141. 14 Ibid., p. 77. Vera Serra Lopes
59 a “valência” em si de sujeito e objecto e, por outro lado, numa actividade criadora do sujeito que em cada caso dá forma ao objecto. Simmel afi rma: “O ser humano que eu contemplo e conheço, que temo ou venero, aquele que a obra de arte modelou, é de cada vez um produto particular”15. E prossegue dizendo que se o consideramos em tudo igual, isso deve-se a uma atitude intelectual, pois não há um objecto (sujeito) à partida e depois múltiplas situações em que ele se encontra. O amor “cria o seu objecto como produto totalmente original.”16 É certo que o Tu existe e é conhecido antes de ser amado, mas o amado não é já esse Tu, pré-existente, ele é algo de novo17,: [...] Parece-me da maior importância reconhecer o amor, como uma função imanente, diria eu formativa da vida psíquica, activando-se também seguramente a partir de uma incitação do mundo, mas nada determinando quanto aos portadores dessa incitação. Este sentimento está mais completamente ligado à unidade que engloba a vida do que muitos, talvez a maioria dos outros.18 Amante e Amado, Eu e Tu, Sujeito e Objecto, a quo e ad quem, o amor dá-se imediatamente na relação (simultânea) destes opostos; todos se integram num só processo, unitário19. Simmel diz-nos, no seu Nota sobre o Eros platónico e o Eros moderno, que para o amor que afasta a individualidade (o platónico), a reciprocidade é um elemento secundário, meramente acessório. Enquanto para o amor moderno a “reciprocidade” é essencial. O Eros grego era fundamentalmente desejo, um querer ter. O amor aparecia 15 Ibid., p. 78. 16 Ibid., p. 78. 17 “é preciso, por certo, antes do mais, que o ser humano exista e seja conhecido, antes de ser amado. Mas então esse algo que acontece não tem lugar com esse ser existente que permaneceria não modifi cado; pelo contrário, foi no sujeito que uma nova categoria fundamental se tornou criadora. O outro é ‘o meu amor’, com tanta mais razão quanto é ‘a minha representação’; não é um elemento invariável que entraria em todas as confi gurações possíveis e, portanto, na situação de ser amado, ou ao qual viria a acrescentar-se de certa forma o amor, mas um produto original e unitário que antes não existia.” Ibid., p. 79. 18 Ibid., p. 81. 19 “Por mais longe que olhemos, não há nenhum outro sentimento com o qual a absoluta interioridade do sujeito faça tender de maneira tão integral a sua vida para o absoluto do seu objecto, integrando-se o terminus a quo e o terminus ad quem, apesar da sua oposição insuperável, incondicionalmente a uma só corrente, que nenhuma instância intermediária vem em parte alguma ampliar, embora de início uma instância desse género tenha guiado um pouco a corrente e ainda mantenha de modo algo acidental um canal lateral de ligação.” Ibid., p. 85. O Trágico na Filosofi a do Amor de Georg Simmel
60 então como um estado intermédio entre o ter e o não-ter e extinguir-se-ia com o ter. O amor não é posse, nem mesmo aspiração a possuir; ele “deseja” a correspondência, “deseja” sentir-se amado mas não pretende possuir e apoderar-se do objecto amado. Para o amor moderno o objectivo verdadeiro é o amor correspondido, sendo tudo o que se lhe segue secundário e acidental, ele compreendeu – ou seja, é a consequência desse conhecimento – que há no outro algo impossível de conquistar, que o absoluto do eu individual ergue uma muralha entre os seres humanos, muralha essa que mesmo a mais apaixonada vontade de ambos não seria capaz de demolir, e que faz de o “ter” real, que queira ser mais do que a realidade e a consciência de ser amado, uma ilusão.20 O Amor Moderno é a consequência do reconhecimento de que o outro é uma individualidade imperscrutável, indomável. É neste sentido que o amor não deixa de parte a ideia da reciprocidade, mas antes a advoga. Em Platão o amor como desejo de imortalidade demonstra a indiferença entre eu e tu que a sua teoria supunha. Não há cisão, não há indivíduo, não há nem Eu nem Tu; em Platão, há uma total “indiferença”. A individualidade é, por um lado uma unidade indecomponível, dedutível, subsumível e, por outro, quando introduzida num mundo, ela é desmontável, fragmentada, calculável, obedecendo a leis gerais. Para o pensamento racional, a individualidade é assustadora, com a sua insubmissão, as suas leis próprias, o seu certo grau de arbitrariedade, contudo Platão, que pretendia evitar a volatilização do amor, ao pôr de parte a individualidade, acabou por volatilizá-lo no universal. A individualidade é, segundo Simmel, o foco do amor, o “conceito moderno de amor” está “arraigado na individualidade concreta.”. O mistério é a relação desta individualidade com o mundo e no amor entre dois é o embate de duas individualidades. Tal como na ética simmeliana encontramos a “lei individual” que se contrapõe ao imperativo geral e abstracto de Kant, devemos encontrar no amor uma lei individual do erotismo: na relação incomparável entre indivíduos não comparáveis reside um signifi cado inteiramente limitado a essa relação, mas que supera a sua fenomenalidade superfi cial – que não é dominada ou justifi cada por uma ideia geral da beleza, do valor, do que é digno de amor, mas justamente pela simples ideia dessas existências individuais e da sua consumação.21 20 Ibid., p. 110. 21 Ibid., p. 113. Vera Serra Lopes
61 3. O trágico na Filosofi a do Amor Tendo compreendido isto, passemos à análise propriamente dita daquilo em que consiste o trágico para Simmel e de que forma é que o encontramos no amor. Em O Conceito e a Tragédia da Cultura de 1919, o fi lósofo diz-nos: [...] destino trágico – ao contrário de um destino triste ou destruidor vindo de fora – nós denominamos o seguinte: que as forças de destruição dirigidas contra um ser tenham origem nas camadas profundas desse mesmo ser; que com a sua destruição um destino que provém dele mesmo se realize e seja, por assim dizer, o desenvolvimento lógico da estrutura com a qual o ser construiu a sua positividade.22 O trágico é então algo que necessária e invariavelmente provém do processo da vida, uma negação da vida que provém dela. O trágico deriva fundamentalmente do embate com a individualidade e de uma individualidade que pode contrariar a corrente vital de onde provém. No amor isso torna-se claro, como veremos. A vida produz formas, fá-lo contínua e incessantemente, como diz Simmel em O Confl ito da Cultura Moderna: a sua imagem exterior não pode ser senão formas, portanto, ela produz necessariamente (sublinhamos a ideia de necessidade, fundamental para que se compreenda o trágico) formas, pontos fechados, unos, indivisíveis. Inicialmente estes espelham-na, dão-lhe forma, mas, com o decorrer do processo vital, tendem a autonomizar-se, a cortar o fi o que as mantinha ligadas à vida de onde provêm. Vejamos então como se passam as coisas no amor e como está muito próximo da ideia da tragédia da cultura. Aqui [...] reside o fenómeno trágico fundamental: o de que a vida cria uma forma indispensável para si, que lhe é de resto insuportável, mas que, pelo simples facto de ser forma, é hostil tanto em relação à mobilidade como à individualidade da vida.23 Há dois aspectos trágicos no amor: por um lado, tal como nos outros movimentos do espírito, há uma tendência para anular a individualidade, mas ele surge apenas quando infl amado por esta individualidade; por outro lado, o amor volta-se contra a vida a partir da qual se originou. 22 G. Simmel, La Tragédie de la culture, Rivages, 1988, p. 211. 23 G. Simmel, Fragmento sobre o Amor e Outros Textos, p. 143. O Trágico na Filosofi a do Amor de Georg Simmel