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Philosophica, 46, Lisboa, 2015, pp. 39-52. A , - F D Francisco Felizol Marques1 (Investigador do Centro de Filosofi a da Universidade de Lisboa) A Filosofi a do Dinheiro não visa o dinheiro; visa, como já a sua divisão formal nos avisa, desvelar algo no dinheiro, na parte analítica, que o habilita como meio, caminho, método para, na parte sintética, avançar à compreensão do todo, para Simmel, o objecto da fi losofi a2. E esse algo no dinheiro já vai implícito na proposta epistemológica que abre a obra. Assentando em fundamento, em fi xo postulado por provar3, a ciência é alvo do cepticismo. Para deste se escudar, Simmel propõe que a ciência, assumindo a contínua incompletude e inexactidão dos seus conteúdos, se constitua como um todo circunstancial e circular de conhecimentos inter- -ligados incessantemente mutáveis e corrigíveis4, onde cada um é ponto a suportar-se, a valer relativamente a todos os outros5. Neste relativismo epistemológico, todo o fenómeno, com o conhecimento a ele correspondente, todo o ponto, independentemente da disciplina onde foi rotulado, está ligado a todos os outros fenómenos. Na fl uida reciprocidade de todos os conhecimentos em incessante progressão, pode a ciência deixar de se (a) 1 ff [email protected] 2 Georg Simmel, Philosophie des Geldes, Gesamtausgabe, Band 6, Frankfurt am Main: Suhrkamp Taschenbuch Wissenschaft, 1989, p. 11. 3 Georg Simmel, Philosophie des Geldes, pp. 98-99. 4 Ibid., p. 116. 5 Ibid., p. 115.
40 Francisco Felizol Marques fundar em petrifi cações dogmáticas enquanto se livra do corroer céptico6. A primeira parte da Filosofi a do Dinheiro desvela o dinheiro como modelo deste relativismo epistemológico que a inaugura. Na sua fl uidez, no seu ligar tudo a tudo, o dinheiro é, entre sujeitos e objectos, o que o relativismo epistemológico se propõe ser entre os conhecimentos. A história do dinheiro é a do desenvolvimento destes seus atributos. No princípio, a separação. O sujeito, ao distinguir um objecto ali entre outros, refl ecte, toma consciência de si. Mas tal é também um distinguir distância, distância desejo, de si ao objecto7 só superada a esforço e renúncia8. O valor resulta desta tensão entre renúncia e desejo, jamais é qualidade do objecto. E este valor, assim relativo, já traz uma troca em cada decisão do sujeito que, para algo obter ou fazer em determinado momento, renuncia a todo o resto, todo o conjunto de suas possibilidades de acção. Tal tensão exteriorizada, envolvendo outros sujeitos e objectos, mais se cava e objectifi ca um fosso entre sujeitos e objectos. Em troca directa, já o valor está objectivado9: pelo menos dois sujeitos e dois objectos, e cada qual a valer relativamente a outros objectos. Até vir o dinheiro intensifi car a separação e a objectivação. Instituído como terceiro elemento entre e acima de sujeitos e objectos, o dinheiro regulariza e objectiva essa troca directa que já objectivava o valor. O dinheiro é super-objectivação do valor; o valor em preço de determinado objecto é o valor em preço objectivo da renúncia a todos os outros objectos10. O dinheiro não se impõe sem crédito, sem o crer duma comunidade no seu valor iludidamente substancializado na útil porque inoxidável permanência metálico-preciosa11. Mas venha a vulgarização e expansão a tempo e espaço das trocas em dinheiro pedir maior capacidade de divisão e velocidade, mais objectivação, separação que logo o suporte metálico se divide, ou seja, se multiplica em moedas cada vez mais pequenas12. A carapaça material é cada vez mais peso, rigidez, estorvo ao fl uir do dinheiro13 que, na sua aceleração, mutabilidade e atomização gradualmente dela se 6 Ibid., pp. 106, 117. 7 Ibid., pp. 38-40. 8 Ibid., pp. 69, 72. 9 Ibid., pp. 35-38, 53. 10 Ibid., p. 123. 11 Ibid., pp. 227-229, 234. 12 Ibid., p. 708. 13 Ibid., p. 158.
41 A Tragédia da Liberdade, Ante-Tragédia da Cultura liberta até, em forma escritural, ou depois electrónica, se espiritualizar. A representar as relações entre sujeitos, entre objectos, entre sujeitos e objectos, o dinheiro é omnipresente liquidez omnimórfi ca com atributos divinos de tomar qualquer forma, tão extensível como concentrável a espaço e tempo. Entre e acima de sujeitos e objectos, a ligá-los, o dinheiro, mais que símbolo, materializa quantitativamente a fl uidez de relações que constituem a vida humana. É ver as semelhanças com o relativismo epistemológico. Já livre de assentar em subjectividade ou materialidade, o dinheiro é uma imensa nuvem de interacções em constante mutação cuja instável reciprocidade compensando carências com excessos ajuda a dar regularidade, calculabilidade, previsibilidade, efi ciência ao quotidiano14. Dinheiro é uma irrequieta supra-estância ligadora que dá a constância, a estância que anteriores metafísicas e epistemologias da substância pretendiam garantir com fi xado fundamento. Dinheiro é progressiva distanciação de sujeitos e objectos, é gradual objectivação e divisão, tomização, até ao puro fl uxo, pura matéria, não forma livre de tomar instantaneamente qualquer forma. Mas começa-se a delinear a tragédia quando o caminho do dinheiro à total atomização e fl uidez é também o de sujeitos e objectos. Uma grande objectivação, tão causa como efeito do dinheiro, mas que tem no dinheiro a face mais visível, contamina-se a toda a realidade. Para se compreender o signifi cado e consequências da grande objectivação, apresente-se sucintamente a visão simmeliana do homem que, só depois formalizada, já segue na Filosofi a do Dinheiro. O homem nem é indivíduo, ilhota isolada em sua subjectividade, nem é continente objectivo onde jaz igualizado a todos os outros. Nem ínsula a solo, nem contido em continente, mais que ser, o homem vai, vai ínsula e continente, vai península, vai individualidade, essa ponte em Ponte e Porta (1907) 15, ou pescoço em O Signifi cado Estético do Rosto (1901)16. A tónica no não enquistamento substancial revela solidariedades relativistas: a nossa marginalidade constitutiva vive na margem entre dois pólos sem poder mergulhar num, nem abdicar dos dois: é entre-ser, peninsularidade tão mutilável se apartada do continente objectivo, do outro, como se arrancada da sua ilha de intimidade. Perceber que a história do dinheiro, o seu separar e tomizar, se escreve a par com a separação e tomização do sujeito já deixa antever problemas para esta relacional marginalidade do homem. 14 Ibid., pp. 387, 392, 686, 687. 15 Georg Simmel, “Brücke und Tür“, in Aufsätze und Abhandlungen 1909-1918; Gesamtausgabe, Band 12, 2001, pp. 55-61. 16 Georg Simmel, “Die ästhetische Bedeutung des Gesichts“, in Aufsätze und Abhandlungen 1901-1908, Gesamtausgabe, Band 7, 1995, pp. 36-48.
42 Francisco Felizol Marques No princípio era o clã (Gens), coesão indivídua sem em si admitir diferença, privação, privacidade, liberdade. Isto até o comerciante estrangeiro17, e com ele o dinheiro, começarem a ligar clãs antes isolados. Agora, ligado ao exterior, o clã cresce e já Simmel aplica uma lei só depois formulada na sua Sociologia18: cresce o pequeno grupo, tem este de permitir mais liberdade e diferenciação a seus elementos para sobreviver19. O clã abre-se; a fi gura do indivíduo translada-se para o sujeito. Mas também este, com e como o dinheiro, sofrerá pressões divisoras, fl exibilizadoras, libertadoras. Com a divisão do trabalho, o sujeito vê-se desgarrado do produto do seu trabalho afunilado a função e fi m mais e mais objectivados e alheios a si, impessoalizados20. É agora o sujeito também divíduo mutilado, igualizável a outros divíduos à mesma função num produtivo dividir objectivante, com parte de si separada, objectivada, domesticada, nivelada21. Feito funcionário uniforme de atributos funcionais para actividade parcelar, está o sujeito mais e menos livre. Mais livre do grupo, do outro pessoalizado, mais livre do seu produto; mais dependente do todo, de remotas condições económicas, e mais substituível na sua função igualizada. Em todo este processo, a fórmula evolutiva do dinheiro, dividir para fl exibilizar num libertar que tudo liga e aplaina na igualdade da quantia. É de tudo efectivamente desligar, é por aplainar, descartar as qualidades de objectos e sujeitos, que o dinheiro a todos liga na previsibilidade e calculabilidade da monodimensão quantitativa. Com seus atritos qualitativos em quantia aplainados, igualizados, podem sujeitos e objectos, ligar-se e desligar-se, fl uir e escorrer. Não tem este desqualifi car domesticador da realidade de ser trágico; toda a civilização por ele sobrevive e progride. Nele assentam o pensar racional22, as regras morais abstractas23, a representação, a personalidade 17 Georg Simmel, Philosophie des Geldes, pp. 286, 470. 18 Georg Simmel, Soziologie. Untersuchungen über die Formen der Vergesellschaftung; Gesamtausgabe, Band 11, 1992. Leia-se no 2º capítulo sobre «A determinação quantitativa do grupo» («Die quantitative Bestimmtheit der Gruppe»). 19 Georg Simmel, Philosophie des Geldes, p. 469. 20 Ibid., pp. 393 630. 21 Ibid., pp. 393, 394. 22 Ibid., pp. 595, 602. 23 Ibid., p. 650.
43 A Tragédia da Liberdade, Ante-Tragédia da Cultura legal jurídica24, a ciência, a base comum necessária à paz25. Mas o avanço da grande abstracção tem preço difícil de quantifi car, logo no empobrecimento redutor e uniformizador em quantia manipulável de toda a complexidade e diferença da vida. A actual proliferação de rankings (dos melhores escritores, pintores, livros, lugares, restaurantes, ao PIB per capita da felicidade e oráculos decimais das agências de rating) exemplifi ca-o. E num mundo em quantia igualizada, despertam também novas diferenças na imensidão de objectos, com sujeitos incluídos, comparáveis em número. Mais, ainda: o dividir do sujeito não se fi ca pelo trabalho, progride até à sua intimidade. O uniformizador aplainar da realidade, a libertar os sujeitos de anteriores freios, atritos e atributos também os liberta de ver diferenças, de ver o outro fora deste quadro. Mais e mais os sujeitos objectivamente se diferenciam pelo cálculo, pelo interesse em quantia, o diferenciar mais embrutecido, cego e perigoso. Mais e mais, tende também a reduzir nas suas relações o porquê, o como, o quem e o para quê, ao quanto é em dano e proveito. O dinheiro que liga e desliga na sua neutralidade objectiva, impessoaliza toda a relação. A subjectiva dádiva pede contra-dádiva, implica uma cadeia pessoal cortada no pagar em dinheiro. Aquele favor ou prenda que prende (daí se preferir dizer “presente”) objectiva-se, precisa-se num preço X, alívio de contas saldadas buscado no nosso insistir em pagar um quanto a quem nos diz “não é nada”26. O dinheiro liberta, permite ao sujeito empurrar para a área impessoal suas obrigações e subordinações, limitando abusos pessoalizados27. Permite-lhe, mais solto, desligado, mais divíduo descaracterizado, fl uir pelo grande grupo descaracterizado, recombinar-se num ligar e desligar que se contamina às relações mais íntimas28. Neste terraplenar de atritos subjectivos, também elas ganham a não forma do dinheiro, numa progressiva funcionalidade, uniformidade, diluente de irregularidades emocionais. Vão mais instáveis, voláteis e efémeras, mais leves de se constituírem e desmancharem ao sabor da vertigem de contextos e expectativas, mais líquidas, mais apontadas a fi ns objectivos, quantitativos, quando não mesmo 24 Ibid., pp. 416, 450. 25 Ibid., pp. 596, 694. 26 Já o contrário, oferecer dinheiro a namorado(a) ou mesmo amigo(a), deixa sempre atrás um inconveniente travo impessoal. Daí que entre namorados e mesmo amigos se prefi ra trocar presentes a oferecer dinheiro. 27 Georg Simmel, Philosophie des Geldes, pp. 453-456. A subordinação do funcionário ao seu superior limitada à esfera profi ssional está longe da subordinação pessoal do aprendiz ao mestre, que tanto pode implicar atenções como tabefes e atenções a tabefe. 28 Ibid., pp. 357, 594.
44 Francisco Felizol Marques dinheiro. Tal dinheiro pulula então o divíduo divisível e desprendido, falho de atributos ou carácter, vazio, numa hidrodinâmica de fl uir conforme a novidade, a mudança, a moda. Tal já constitui uma mutilação dessa individualidade que também necessita constância em si e no outro. Novamente por aqui, essa liberdade da quantia, essa liberdade de movimentos que a grande objectivação proporciona acaba, depois de comprometer a irregular riqueza da vida, por ameaçar essa própria liberdade: o sujeito está mais livre, sim, mas por estar tão mais dependente, preso dessa igualização que lhe invade a realidade. E o nivelar, o aplainar deste processo prossegue a impor à própria vida o ritmo repetido da máquina29. Simmel detecta nesse descartar de atritos e irregularidades, nessa igualdade que se quer eternizar pelo tempo em simetria simplifi cadora o mesmo espírito de regular e igualizar dos despotismos e utopias30 de cidades em forma geométrica concêntrica. A obsessão da regularidade, da permanência, da igualdade pelo tempo é simetria centrípeta que violenta todos os particulares pontos a um único, na eternização funerária de pirâmide aprumada a vértice. Mas não se penetra nessa liberdade, tão promovida como tolhida pela grande objectivação, sem se passar pela propriedade e pelo fi m, no sentido de propósito. Tal o ser, o saber, ou o valor, a propriedade em Simmel é-o relacionalmente: implica acção que só o é experimentando reacção, resistência. Propriedade é acção sobre objecto que se lhe objecta, resiste, opõe, dando-lhe onde pôr, onde exercer positividade. Que os objectos têm atributos, propriedades que resistem ao pôr do sujeito proprietário, este nunca pode possuir totalmente um objecto, dispor dele ilimitadamente, transformá-lo no que lhe aprouver31. Só a pura liquidez informe, vazia de conteúdo e propriedades, se dá a toda a forma32. Sem resistir à acção do proprietário, imediatamente transfi gurável em qualquer forma, o dinheiro não é propriedade. Avançando meio a meio pela realidade que lhe resiste, em cadeia teleológica, o homem evolui, progride a um fi m33. O melhor para avançar nesta cadeia é, numa intermitente inversão teleológica, fazer do próximo meio fi m34. Volta-se à questão já tratada na propriedade: sem um agir com propriedade, sem um agir positivo, sem um avançar de meio a meio, não 29 Ibid., pp. 685-688. 30 Ibid., p. 682. 31 Ibid., p. 444. 32 Ibid., pp. 436, 437. 33 Ibid., pp. 257-259. 34 Ibid., p. 297.
45 A Tragédia da Liberdade, Ante-Tragédia da Cultura se tem um fi m. E novamente o dinheiro, sem opor qualquer resistência, destituído de propriedades que o façam propriedade, não pode também ser um fi m. Antes, a poder tomar qualquer forma, é o meio dos meios35, inserível em qualquer cadeia teleológica. Que, na inversão teleológica, tomamos por fi m o próximo meio, facilmente fazemos deste não fi m um fi m36. E pondo como fi m esse dinheiro vazo de resistências, propriedade e fi m, fácil ele se entroniza como fi m absoluto, extinguindo os outros fi ns. O não fi m elevado a fi m dos fi ns resulta no fi m dos fi ns, no termo de outro qualquer propósito. Se já de si a liberdade que o dinheiro confere não traz por si qualquer positividade, agrava-se o cenário quando, dela encantados, expulsamos toda a positividade. A liberdade endinheirada, pura liberdade negativa de não agir, pôr ou criar, é liberdade de movimentos; sem ver condicionalismos, passado e futuro, vive do instante, se devora no seu vazio, segue entediada à procura do que mais esvaziar. Siga-se ao bestiário de trágicas alienações libertas à negatividade do dinheiro, livres por livres de propriedade e fi m. O liberto ao dinheiro, o que por dinheiro troca todas as suas propriedades, já cheio de pura liquidez, já sem atrito, positividade e fi m, mutilando sua individualidade, já tudo pode e já. O avarento37 acumula pura potência, pura possibilidade, sem nunca se atrever a usá-la, sem nunca agir, sem propriedade e fi m. No pólo oposto, o esbanjador38, que, encandeado do prazer de adquirir objectos atrás de objectos, persegue o seu (não) fi m, um arbitrário e sempre efémero contínuo adquirir; nem propriedade, nem fi m. O blasé39 reconhece no quotidiano esse todo feito quantia, onde, tudo igualizável a dinheiro, lhe parece sem valor. Busca então, sôfrego, a diferença, a novidade, um instante condensado de prazer ou sofrimento, busca chegar onde o dinheiro ainda não chegou, vulgarizou, maculou. Com a regular irrequietude do esbanjador, saltita de excitação em excitação diferenciadora que, fruto de Tântalo, logo a seus olhos se indiferencia, vulgariza. Novamente, nem uso em propriedade, nem fi m. A fi gura do blasé é paradigmática do que Simmel, a escrever na Berlim de 1900, vê estender-se pelo quotidiano e aqui se chama modernidade blasée. Mas, para tal se perceber, tem agora de se tratar da divisão, liquefacção, libertação, afastamento dos objectos que, paralelas às do dinheiro 35 Ibid. p. 677. 36 Ibid., p. 298. 37 Ibid., pp. 308-321. 38 Ibid., pp. 321-328. 39 Ibid., pp. 334-337.
46 Francisco Felizol Marques e dos sujeitos, formou, geração após geração, uma cultura objectiva40 cuja imensidão e complexidade crescentes se fazem impenetráveis ao sujeito. Pouco, senão nada, sabe este dos objectos que lhe povoam o quotidiano. De onde veio esta cadeira, como foi feita, por que processo passou? Também os objectos se impessoalizam, mais são produto objectivado duma crescente especialização e objectivação e mais o sujeito, deles rodeado, os estranha41 num fosso que não pára de crescer. A progressão no conhecimento, também ela um separar e objectivar, tão mais disponibiliza ao sujeito mais objectos, lhe multiplica as possibilidades, como, tal a sua distância e tamanho crescentes, mais os torna inacessíveis de se poderem usar como propriedade. Mais diferenciados, autónomos, mais e mais estes objectos nos chegam e vão de moda e novidade em torrente líquida de velocidade e pulverização crescentes. Inundado de tantos, tão efémeros, distos e estranhos objectos e mais deles dependente, mais o homem se vê incapaz de os possuir como propriedade, mais por eles se deixa possuir. Há escravidão nessa liberdade de chegar a todos os objectos. Menos o sujeito consegue abarcar, mais lhe cresce um vácuo a sorver sôfrego mais superfi cialidades, instantaneidades, fragmentos, e mais a isto preso o sujeito se faz essa superfi cialidade, instantaneidade, fragmentação quotidianas de que pretende escapar. Que a angústia aperta, o homem tenta vislumbrar, na torrente, um fundamento último. Se o pensa encontrar na ciência, na auto-glorifi cação de domar a natureza42, novo deslumbrar no meio posto como fi m. Não desconfi a como esse mitifi cado “domínio” da natureza mais o domina nos moldes dessa grande objectivação que mais lhe dita o seu consumir, o seu pensar, o seu viver, mais o escraviza a suas futilidades, mais o pulveriza. Aí na fragmentação multiplicadora, na vertigem da novidade por novidade, um procurar em forçada agitação quaisquer efémeras excitações artifi - ciadas43, um uniformizador fugir da uniformização, do vazio e da indiferença, a modernidade blasée. A torrente não pode deixar de atiçar a nostalgia da permanência, mas, em aceleração blasée, num reinventar recombinatório a reciclar em série contínua estilos e gostos passados, novas e novas necessidades cada vez mais divididas, específi cas e elaboradas. Uma modernidade à moda esvazia-se de propriedade e fi m, apostada num diferenciar blasé, que, formal, mais vazo de conteúdo, se fada a reforçar a imperante igualização, na fórmula do ser diferente sem positividade ou propósito fora do ser diferente. 40 Ibid., pp. 620-626. 41 Ibid., pp. 621, 636, 637. 42 Ibid., pp. 672-674. 43 Ibid., pp. 336, 337.
47 A Tragédia da Liberdade, Ante-Tragédia da Cultura É altura de tentar perceber em que poderá consistir para Simmel a liberdade efectiva, porque positiva. Tal o conhecimento, o ser, o valor, a propriedade, a liberdade em Simmel implica relação44. Liberdade é libertar de obrigações e conteúdos para prender a outros. Liberdade implica uma sucessão de não liberdades, de resistências, de renúncias, de meios, que confi ram positividade à individualidade, permitindo-lhe pôr, criar com e para o outro em direcção a um fi m individual nunca desligável do outro. A liberdade só por não liberdades tem positividade, implica pôr com oposição, agir com propriedade a um fi m individual. Em O conceito e a tragédia da cultura (1911)45, o homem vive de criar formas, suas produções tecnológicas, políticas, religiosas sempre fi - xações, limitações. É com tais fi xações descontínuas que o homem tenta apreender a matéria viva corrente, ilimitada, contínua e informe, ligar o mundo numa unidade inteligível. Mas, tragédia da cultura: criadas, estas formas são já passadas, já se despojam dos conteúdos e do propósito por que as criámos; falta-lhes a organicidade das formas vivas que subsistem mudando em continuidade e unidade. Na deriva dos incontinentes, as nossas rígidas criações, o oposto da vida, da matéria que pretendem abarcar, só temporariamente contêm os seus conteúdos; logo se esvaziam, desvivifi cam, estranham a seus conteúdos primordiais e ao homem. Ou se dissolvem na matéria viva a correr ou enquistam numa petrifi cação dogmática feita fi m autónomo em si que, desgarrado do nosso, prende, paralisa, violenta o homem. A tragédia é este contínuo esbarrar e progredir do homem na rigidez e incontinência das suas criações. Na Filosofi a do Dinheiro, o dinheiro, a não forma de tomar toda a forma é imperfeita imitação da matéria viva, pois que tudo reduz à única dimensão quantitativa. Desde a original separação, entre sujeito e objecto, a progressiva atomização, libertação, fl uidifi cação do dinheiro foi acompanhada por objectos e sujeitos numa explosão global e em expansão: os objectos, mais e mais fraccionados, mais e mais se afastam dos sujeitos também mais fraccionados e distantes entre si. Tal tomização que atomiza, tal dividir, não multiplica as formas sem as encurtar a tempo e espaço, sem as aproximar mais e mais da não forma, da matéria. O dinheiro fragmenta e acelera de remoinho as partículas a girarem sobre si, dá-lhes sua hidrodinâmica. Sujeitos e objectos mais próximos da não forma dinheiro, aproximam-se, na maior fl uidez e liberdade de tomar várias formas, da matéria líquida e indiferenciada. É por tal que o permanente suceder das formas de 44 Ibid., p. 397. 45 Georg Simmel, “Der Begriff und die Tragödie der Kultur“ in Hauptprobleme der Philosophie, Philosophische Kultur, Gesamtausgabe, Band 14, 1996, pp. 385-416.