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Análise das interações sociais entre pais e professores de alunos com multideficiência num ambiente virtual de aprendizagem

Nunes, Clarisse,Pedro, N.

Abstract

O presente estudo analisa as relações de afiliação estabelecidas entre os utilizadores de um Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) constituído por pais e professores de alunos com multideficiência. Esse ambiente virtual procurou promover a interação e a partilha de experiências no domínio da multideficiência. O principal objetivo do artigo é estudar as características e a magnitude das relações de amizade estabelecidas no interior deste ambiente virtual, recorrendo para tal a métodos de análise de redes sociais (Social Network Analysis). Os resultados apresentados decorrem da recolha de dados existentes nas páginas pessoais dos participantes no estudo. Esses dados foram investigados tendo por base uma perspetiva essencialmente sociocêntrica, o que implicou uma pesquisa estrutural do grupo que esteve em interação durante oito meses. A densidade da rede fundada, o seu nível de centralidade, o grau de inclusividade, os participantes que se evidenciaram como mais influentes e com maior prestígio na rede, bem como os subgrupos que se identificaram no seu interior constituíram os indicadores analisados. Os resultados encontrados permitem afirmar que o ambiente virtual criado se relevou favorável à criação de relações afiliativas ou pro-sociais entre os participantes, sendo que teve maior impacto junto dos professores do que dos pais. Infere-se que as relações estabelecidas entre os participantes terão efeitos favoráveis na comunicação e na partilha de informação. Ainda que a extensão das interações estabelecidas entre os participantes não tenha sido muito elevada, particularmente entre os pais, entende-se que o projeto estudado se apresenta como inovador ao colocar em relação online elementos fundamentais ao desenvolvimento de crianças e jovens com multideficiência: os seus pais e os seus professores.

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Educação,Formação&Tecnologias(dezembro,2012),5(2),25‐42 Submetido:maio2012/Aprovado:setembro,2012 RevistaEFT:http://eft.educom.pt 25 Análise das interações sociais entre pais e professores de alunos com multideficiência num ambiente virtual de aprendizagem CLARISSE NUNES Escola Superior de Educação de Lisboa do Instituto Politécnico de Lisboa [email protected] NEUZA PEDRO Instituto de Educação da Universidade de Lisboa [email protected]l.pt Resumo: O presente estudo analisa as relações de afiliação estabelecidas entre os utilizadores de um Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) constituído por pais e professores de alunos com multideficiência. Esse ambiente virtual procurou promover a interação e a partilha de experiências no domínio da multideficiência. O principal objetivo do artigo é estudar as características e a magnitude das relações de amizade estabelecidas no interior deste ambiente virtual, recorrendo para tal a métodos de análise de redes sociais (Social Network Analysis). Os resultados apresentados decorrem da recolha de dados existentes nas páginas pessoais dos participantes no estudo. Esses dados foram investigados tendo por base uma perspetiva essencialmente sociocêntrica, o que implicou uma pesquisa estrutural do grupo que esteve em interação durante oito meses. A densidade da rede fundada, o seu nível de centralidade, o grau de inclusividade, os participantes que se evidenciaram como mais influentes e com maior prestígio na rede, bem como os subgrupos que se identificaram no seu interior constituíram os indicadores analisados. Os resultados encontrados permitem afirmar que o ambiente virtual criado se relevou favorável à criação de relações afiliativas ou pro-sociais entre os participantes, sendo que teve maior impacto junto dos professores do que dos pais. Infere-se que as relações estabelecidas entre os participantes terão efeitos favoráveis na comunicação e na partilha de informação. Ainda que a extensão das interações estabelecidas entre os participantes não tenha sido muito elevada, particularmente entre os pais, entende-se que o projeto estudado se apresenta como inovador ao colocar em relação online elementos fundamentais ao desenvolvimento de crianças e jovens com multideficiência: os seus pais e os seus professores. Palavras-chave: análise de redes sociais, ambientes virtuais de aprendizagem, multideficiência, relações afiliativas, pais, professores. 1. INTRODUÇÃO Estudos realizados na área das Necessidades Educativas Especiais (NEE) conduziram à opção pela Escola Inclusiva. Em Portugal, particularmente a partir de 2008 com a publicação do Decreto-Lei n.º3 de 7/01, a possibilidade de se encaminhar alunos com NEE para instituições de ensino especial deixou de ser praticável, incluindo as crianças e os jovens com multideficiência. Esta legislação impele as escolas à organização de estruturas que respondam com qualidade às necessidades Educação,Formação&Tecnologias,5(2),dezembrode2012 ISSN1646‐933X RevistaEFT:http://eft.educom.pt 26 destes alunos, já que as múltiplas e complexas limitações que apresentam, torna-os muito dependentes de terceiros para a concretização da maioria das atividades do dia-a-dia (Hostyn & Maes, 2009). Por outro lado, a atual sociedade é sustentada, cada vez mais, por redes de comunicação, suportadas por um conjunto de ferramentas tecnológicas online, das quais se destaca as da Web 2.01. Estas ferramentas estão associadas a muitas das atividades que se desenvolvem no quotidiano, mormente situações lúdicas, de aprendizagem, de comunicação e de interação social. É neste contexto de desenvolvimento de relações sociais suportadas por ambientes digitais, que emerge o presente estudo organizado em torno das vantagens que os mesmos podem evidenciar na promoção das relações afiliativas entre professores e famílias de crianças e jovens com multideficiência. A questão central é a de saber como é que a conceção e o desenvolvimento de um AVA, suportado em ferramentas da Web 2.0, pode contribuir para diminuir o isolamento psicossocial em que, muitas vezes, esses pais e professores se encontram. Pais e professores de crianças e jovens com multideficiência: dificuldades comuns Nas últimas décadas, tem-se observado evoluções no que à educação de alunos com deficiência diz respeito, traduzindo-se em novas e mais amplas conceções sobre a deficiência que se alargam para além das alterações estruturais do indivíduo. A nomenclatura proposta pela Organização Mundial de Saúde em 2001 estuda as questões da classificação de indivíduos com algum tipo de doença ou deficiência e perspetiva essa análise em três níveis distintos: estrutura, atividade e participação. Esta proposta possibilita uma nova forma de olhar para estas 1 Termo atribuído a Tim O’Reilly em 2004. Implica o desenvolvimento de aplicativos que utilizam a rede como uma plataforma, a qual permite aos utilizadores partilharem, comunicarem, criarem, elaborarem e publicarem conteúdos online – enfim, colaborarem na Web (Coutinho, 2008; Downes, 2006). Possibilita ainda a conversação através de vários formatos (áudio, palavras, imagens, vídeo, etc.) e comporta-se como uma rede, sendo frequentemente designada como Web Social. pessoas, procurando considerá-las no seio do seu meio social e avaliar a sua capacidade de neste atuarem e de participarem ativamente. Considerando as pessoas com deficiência, as que apresentam multideficiência são caracterizadas por Vlaskamp e van der Putten (2009) como as que apresentam limitações profundas a nível intelectual, associadas a dificuldades a nível motor e sensorial. Este grupo de sujeitos constitui um grupo heterogéneo com necessidades de aprendizagem singulares, em virtude das combinações de acentuadas limitações que apresentam nos diversos domínios. Essas limitações condicionam o seu desenvolvimento e funcionamento “… levando-os a experimentar graves dificuldades no processo de aprendizagem e na participação nos diversos contextos em que estão inseridos: educativo, familiar e comunitário” (Nunes, 2008, p.9). A severidade e a extensão das limitações apresentadas levam a que sejam “um grupo muito vulnerável com uma forte ou total dependência em termos de apoio pessoal para a manutenção dos cuidados de saúde física, educação, estimulação e recreação” (Vlaskamp & van der Putten, 2009, p.874). Conquanto a educação deste grupo de alunos tenha registado nos últimos tempos alterações positivas (Amaral & Gil, 2008) continuam a ser assinaláveis os reptos que se colocam aos profissionais que com eles lidam (Amaral & Nunes, 2008; Nunes, 2001; 2008; Orelove & Sobsey, 1996), bem como às respetivas famílias. Isto é, os pais de crianças e jovens com multideficiência são também confrontados com inúmeras dificuldades, as quais criam situações de stresse, o que os leva a necessitar de procurar novos canais de informação, sendo que alguns recorrem cada vez mais à Internet (Zaidman-Zait & Jamieson, 2007). De igual modo, e olhando especificamente para os profissionais que com elas trabalham, constata-se que estes enfrentam inúmeros desafios de ordem profissional, assinalandose com frequência dificuldades de criação de redes de trabalho e sentimentos de isolamento profissional. Embora os professores habitualmente trabalhem a pares em unidades de apoio especializado à educação destes alunos, constitui um desafio relevante e uma necessidade crescente a partilha de experiências com outros profissionais. Educação,Formação&Tecnologias,5(2),dezembrode2012 ISSN1646‐933X RevistaEFT:http://eft.educom.pt 27 Este grupo de profissionais tende a assinalar igualmente falta de formação específica na área, o que pode constituir uma barreira a uma educação de qualidade. A criação de redes de apoio é uma possibilidade de operacionalizar essa troca e de permitir a acessibilidade a informação particular sobre multideficiência, podendo constituir-se como momentos de aprendizagem, nomeadamente, de cariz informal. Ambientes online e redes sociais: novos espaços de comunicação e de colaboração As Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) hoje disponíveis geram múltiplas potencialidades de utilização, criam novos cenários e impulsionam ambientes (reais ou virtuais) estimuladores de uma multiplicidade de experiências de interação social. Com a sua evolução emergiram novos meios de comunicação, de lazer e entretenimento, conduzindo a formas “proactivas de participação e de exercício da cidadania e de alargamento de relacionamentos multiculturais” (Bottentuit Júnior & Coutinho, 2007, p.273). Na verdade, Merkley, Schmidt, Dirksen e Fulher (2006) salientam que além das formas tradicionais de comunicação entre pais e professores, assentes em reuniões de pais, chamadas telefónicas, envio de boletins semanais e/ou notas individuais, encontra-se cada vez mais iniciativas escolares onde, para combater as incompatibilidade de calendário, os professores começam a comunicar com os pais através de emails, de aplicações online de comunicação, por sistemas de videoconferência: “Web-based communications have emerged as viable options to increase parent-teacher interaction and provide school–based information in a timely and consistent manner” (p.12). Torna-se, por isso, importante analisar as potencialidades destas ferramentas, concentrando-nos, especificamente, no domínio da educação de crianças e jovens com multideficiência. Olhando para as aplicações e as ferramentas existentes na Web 2.0, designadamente o Software Social, constata-se que nestas se incluem programas que permitem aceder a uma quantidade imensa de informação, produzi-la de forma colaborativa e partilhá-la, bem como relacionar-se com pessoas de localizações geográficas muito distintas. A quantidade de ferramentas do Software Social que possibilita a colaboração e a interação orienta-nos para uma nova noção de aprendizagem. O Software Social evidencia potencial para auxiliar a construção de conhecimento e o desenvolvimento de competências específicas, através quer da utilização de práticas educativas abertas e mais orientadas pelo utilizador, quer da valorização das aprendizagens informais, fortemente apoiadas pelas interações sociais. Os atuais artefactos tecnológicos permitem, portanto, criar AVA onde as interações acontecem em espaços e não em lugares, e os seus utilizadores são, para além de atores, co-construtores desse espaço virtual, sendo de extrema relevância o conjunto de atividades nas quais estes constroem e partilham objetos. Estes ambientes de aprendizagem constituem um espaço socializante e integram uma multiplicidade de ferramentas que: i) apoiam inúmeras funções: informar, comunicar, colaborar, aprender e gerir e ii) permitem múltiplas abordagens pedagógicas (Dillenbourg, 2000). Segundo Inácio (2006), um bom AVA deve disponibilizar ferramentas que possibilitem o estabelecimento de interações comunicativas síncronas e assíncronas entre os seus membros, pois “as comunidades virtuais alimentam-se do fluxo, das interacções e das relações humanas num meio on-line” (p.274). Considerando este contexto, a quantidade de informação presentemente disponível na Internet é vastíssima, porém é necessário saber escolher a que é pertinente, o que nem sempre é fácil. Centrando nas particularidades das crianças e jovens com multideficiência é importante criar e disponibilizar recursos que permitam: i) partilhar informação de qualidade com as suas famílias e com os profissionais que com elas trabalham e ii) promover situações de interação e de relacionamento entre as partes. As atuais ferramentas tecnológicas podem facilitar a interação entre pais com experiências idênticas, pelo que podem ser um recurso muito rico a nível de apoio emocional, podendo este assumir diversas formas de comunicação online. Este recurso pode contribuir assim para reduzir o sentimento de isolamento das famílias destas crianças e jovens (Zaidman-Zait & Jamieson, 2007) e dos profissionais que com elas trabalham. Educação,Formação&Tecnologias,5(2),dezembrode2012 ISSN1646‐933X RevistaEFT:http://eft.educom.pt 28 2. O PROJETO A presente política educativa no domínio da educação especial em Portugal propõe a possibilidade de os agrupamentos de escolas criarem respostas específicas para alunos com significativas limitações ao nível da atividade e participação, decorrentes de alterações funcionais e estruturais de carácter permanente, inserindo-se neste grupo os alunos com multideficiência. Atualmente existe uma rede nacional de unidades situadas em escolas ou em agrupamentos de escolas, a qual pretende concentrar recursos humanos e materiais que permitam disponibilizar uma resposta educativa de qualidade a estes alunos. No ano letivo 2010/11 existiam cerca de 300 unidades no território nacional, distribuídas pelas diversas Direções Regionais de Educação: Alentejo, Algarve, Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Norte. A maioria dos profissionais que desenvolvia a sua prática educativa nestes contextos não convivia frequentemente entre si e sentia naturais dificuldades na educação desses alunos. Neste contexto entendeu-se útil procurar compreender como é que o uso de TIC, particularmente as ferramentas de software social, poderiam auxiliar estes profissionais e os pais dos alunos com quem trabalhavam a estabelecer mais interações entre si e a partilhar mais informações, no sentido de diminuir o seu isolamento e a falta de informação especializada sobre multideficiência. Donde, no âmbito de um projeto de doutoramento, foi criado e dinamizado um Ambiente Virtual de Aprendizagem, denominado “Multideficiência: pais e docentes em rede” (http://www.multideficiencia.ning.com). A investigação centra-se, assim na criação e na dinamização da rede social2 online que funcionou durante oito meses (de novembro de 2010 a julho de 2011). Nesse período, entre outros aspetos, foi possível os pais e 2 Uma rede social é constituída por uma estrutura social que contempla vários nós, os quais normalmente representam indivíduos ou organizações que estabeleceram relações entre si, decorrente da partilha específica de um ou mais tipos de interdependência (McLoughlin & Lee, 2011). os professores estabelecerem relações de afiliação entre si. O estudo em causa focaliza-se apenas na análise desta dimensão relacional. Objetivos da investigação O objetivo deste artigo liga-se à análise da uma rede social constituída entre um grupo de pais e de professores de crianças e jovens com multideficiência, especificamente dos comportamentos afiliativos ou prosociais estabelecidos entre os mesmos (Fujisawa, Kutsukake & Hasegawa, 2008), os quais, segundo Strayer (1992) visam atrair indivíduos entre si e mantê-los ligados numa determinada unidade social de ligação. A rede social em causa será analisada com base em métodos associados à Social Network Analysis. Deseja-se conhecer como é que as relações se estabeleceram no interior da rede, recorrendo para tal a métodos de análise de redes sociais. Procura-se pois perceber qual a densidade da rede constituída, qual o seu nível de centralidade e grau de inclusividade, quais os participantes que se evidenciaram como mais influentes e com maior prestígio no AVA, bem como os subgrupos que se revelam possíveis de identificar no seu interior. Em termos globais, pretende-se compreender como é que este grupo de participantes usou o AVA para estabelecer interações e criar relações de amizade entre si, ao mesmo tempo que se pretende estudar a presença e a magnitude das relações sociais aí estabelecidas. 3. METODOLOGIA Social Network Analysis como método de recolha, organização e análise de dados Uma das ferramentas que possibilita estudar as interações existentes entre sujeitos e as interdependências verificadas nos seus comportamentos é a Social Network Analysis ou Análise de Redes Sociais (ARS). A ARS analisa principalmente as trocas relacionais existentes entre atores sociais (individuais ou coletivos), não especificamente os seus atributos Educação,Formação&Tecnologias,5(2),dezembrode2012 ISSN1646‐933X RevistaEFT:http://eft.educom.pt 29 individuais, mas sobretudo as interações que criam e sustêm as suas relações interpessoais (Garton, Haythornthwaite & Wellman, 1997). Decorrente da associação entre a Sociometria e a Teoria Matemática dos Grafos, a ARS veio estabelecer um novo paradigma de análise de dados relacionais, tanto em termos conceptuais como metodológicos, focando-se nos aspetos interacionais dos fenómenos sociais e dos padrões de comportamento (Hirschi, 2010). Mais especificamente, enfatiza as propriedades da rede, as quais são determinadas pelas conexões/relações existentes entre os indivíduos que dela fazem parte (Pedro & Matos, 2009). Wellman (2001) especifica que a ARS se centra na organização, decomposição e análise de padrões relacionais estabelecidos entre indivíduos, grupos, organizações e comunidades. Por conseguinte, os estudos realizados com base nesta metodologia dedicam-se à descrição, representação e análise de atributos que unem os elementos da rede, pretendendo entender, explicar e inferir face aos comportamentos e atitudes dos sujeitos de uma determinada rede. Sendo a unidade base de análise as relações estabelecidas entre os membros da rede, o seu estudo permite compreender os padrões de conexão existente entre esses sujeitos e, consequentemente, definir a estrutura da rede. Por exemplo, a rede pode ser altamente centralizada num sujeito único ou estar organizada em pequenos grupos (Effken & BenhamHutchins, 2011). O desenvolvimento e a utilização de técnicas sociométricas de análise de posicionamentos, conexões, papéis, influências e fluxos de partilha de informação no interior da rede são, portanto, aspetos sobre os quais esta metodologia incide (Garton, Haythornthwaite & Wellman, 1997). Assente em indicadores métricos decorrentes de algoritmos habilmente criados e interpretados de forma cuidada, a ARS facilita a identificação de informação importante para o estudo da interação e das relações estabelecidas com base em situações de comunicação presencial e em ambientes digitais de suporte a redes ou comunidades online. Neste último caso podem ser analisadas comunicações que recorram a vários tipos de recursos: texto, vídeos, áudio, imagens, etc., com vista, por exemplo, à partilha de informação, discussão de temas, disponibilização de apoio emocional e criação de relações de amizade online. Velázquez e Aguilar (2005) mencionam que esta metodologia é bastante útil na representação numérica de dados relacionais de carácter qualitativo e constitui-se como uma metodologia adequada e útil, para além de fiável, quando se deseja investigar a comunicação mediada pelas tecnologias. Facilita ainda, o estudo de como a informação flui direta e indiretamente através de redes, como os sujeitos adquirem informação e como é que as conexões e as clivagens entre estes acontecem. Ao examinar-se como é que os sujeitos na rede em análise se envolvem, fica mais fácil compreender e explicar os seus comportamentos, escolhas e atitudes (Garton, Haythornthwaite & Wellman 1997). A análise de interações sociais criadas nos AVA tem despertado a atenção de investigadores e aumentado o interesse em perceber como é que estas se relacionam com os atores de redes sociais, tendo em vista a aprendizagem (Fidalgo & Freitas; 2011; Minhoto & Meirinhos, 2011). Diante de estudos de redes sociais, incluindo as constituídas online, pode-se assumir dois tipos de abordagem: a sociocêntrica e a egocêntrica, as quais providenciam informação diversificada e complementar. A abordagem sociocêntrica foca-se na análise estrutural da comunidade social em interação e a abordagem egocêntrica (individual) centra-se na posição específica e no papel social que cada membro desempenha em função da sua posição na rede (Scott, 2000). A abordagem egocêntrica é mais comummente utilizada perante populações mais alargadas ou quando as fronteiras em dada população são difíceis de estabelecer (Garton, Haythornthwaite & Wellman, 1997). Várias técnicas e medidas descritivas para análise deste tipo de redes sociais têm sido desenvolvidas para ajudar a compreender a sua estrutura. Em termos estruturais, a rede pode ser analisada através de indicadores distintos, consoante os objetivos que se pretende alcançar. Tais indicadores podem ser usados em ambos os tipos de abordagem (sociocêntrica e egocêntrica), possibilitando perceber o grau de conetividade existente entre os membros da rede. Informações estatísticas sobre a densidade, os índices Educação,Formação&Tecnologias,5(2),dezembrode2012 ISSN1646‐933X RevistaEFT:http://eft.educom.pt 30 de centralidade e as abordagens que possibilitam a deteção de subgrupos existentes na rede são outras medidas da rede de cariz descritivo consideradas fundamentais neste tipo de análise. Estas medidas proporcionam informações relevantes relativamente à tipologia da rede social, as quais, no entender de O’Malley e Marsden (2008), possibilitam a criação de modelos. A representação das conexões estabelecidas entre os diversos membros da rede materializa-se com recurso ao uso de representações gráficas, os sociogramas, os quais permitem mais facilmente compreender essas ligações. Os sociogramas são normalmente resultantes da elaboração de uma matriz na qual se introduz previamente a informação existente sobre determinada unidade de análise. Recorrendo a tal metodologia de organização de dados, o presente estudo centra-se na análise dos laços sociais estabelecidos entre pais e docentes de crianças e jovens com multideficiência (aqui entendidos como atores da rede social), considerando uma dimensão bastante específica de análise: os laços de afiliação efetivados no interior do AVA no qual ambos os sujeitos participavam. Estes laços de afiliação eram materializados através do envio de pedidos de amizade recorrendo à ferramenta “convidar amigos”, pelo que foram aqui considerados como «relações de amizade». Participantes e procedimentos Assume-se como participantes neste estudo os 45 membros que integraram o AVA designado “Multideficiência: Pais e docentes em rede” (www.multideficiencia.ning.com). Este grupo de sujeitos era constituído por 30 docentes que desenvolviam a sua prática pedagógica junto de alunos com multideficiência que frequentavam unidades de apoio à sua educação, nos contextos regulares de ensino, sendo 25 docentes da educação especial e cinco professores do ensino regular. Dezasseis destes docentes trabalhavam em áreas consideradas rurais e 14 em áreas urbanas. Os restantes 15 participantes eram pais de alunos que frequentavam os contextos educativos anteriormente referenciados, cujas idades oscilavam entre os seis e os 18 anos. Este conjunto de participantes distribuía-se por duas áreas distintas: rural e urbana, as quais se integravam na área geográfica da responsabilidade da Direção Regional de Educação de Lisboa e Vale do Tejo (DRELTV). Dos 15 pais, sete viviam em áreas rurais e oito em áreas urbanas. O moderador do AVA não foi considerado para a análise destes dados, pelo facto de ter sido este que efetuou os convites para ingressar no Ambiente Virtual e automaticamente se instituir como amigo de todos os membros. Os 45 participantes no AVA foram informados que a sua participação neste AVA se inseria numa investigação, tendo sido facultada, pelos mesmos, autorização para que os dados contidos nesse espaço pudessem ser analisados. A informação foi recolhida durante os oito meses (correspondeu ao período de funcionamento do AVA) e incidiu sobre os comportamentos afiliativos e pro-sociais estabelecidos entre este grupo de participantes. Desde o início do funcionamento do AVA que os 45 participantes tinham à sua disposição um conjunto de ferramentas que lhes permitia estabelecer laços afiliativos entre si, explicitamente expressos através do envio de ‘Pedidos de Amizade’. Essa funcionalidade particular das redes sociais permite aos utilizadores estabelecer entre si laços de amizade (de ator para ator) sendo que para se tornarem efetivos requerem que o utilizador que o recebeu aceite que a relação se estabeleça, tornando-os amigos online. Bukowski, Pizzamiglio, Newcomb e Hoza, (1996) referemse à amizade como uma relação de vinculação específica baseada na afeição e confiança mútua que implica trocas sociais mutuamente satisfatórias, e a constituição de um terreno comum entre os indivíduos envolvidos. As características sinalizadas pelos autores aplicam-se às amizades constituídas tanto presencial como virtualmente. Foi sobre estas relações afiliativas criadas e mantidas online, enquanto dados relacionais, que o presente estudo se estruturou. Estes dados foram recolhidos ao longo do tempo de funcionamento do AVA, observando-se as páginas pessoais de cada um dos sujeitos participantes no estudo. Essa informação foi posteriormente organizada em matrizes, onde os 45 participantes foram simultaneamente dispostos em linha e em coluna. Quando existia uma relação, neste caso de amizade, o investigador escrevia «1» no espaço Educação,Formação&Tecnologias,5(2),dezembrode2012 ISSN1646‐933X RevistaEFT:http://eft.educom.pt 31 correspondente à junção verificada entre dois atores. No caso de não se registar qualquer relação entre dois atores escreveu-se «0» nesse espaço. O mesmo é dizer que se construíram matrizes simétricas com dados binários (0 ou 1), equivale a afirmar que se o ator «A1» se relacionou com «A15», «A15» também se conectou a «A1». Com o objetivo de tratar estes dados relacionais e analisar as suas características estruturais recorreu-se a métodos de análise de dados utilizados no campo da ARS, tendo sido utilizados programas específicos para representação, tratamento e análise dos dados relacionais recolhidos, especificamente, os programas UCINET3, versão 6 e o NETDRAW4, versão 2. Optou-se pela escolha destes dois programas por duas ordens de razão: i) permitem não só armazenar os dados relacionais, como também investigar as suas propriedades estruturais e ii) são considerados “um dos mais eficazes nesta matéria” (Limieux & Ouimet, 2008, p.39). Estes autores dizem ainda que em análise estrutural quando o número de atores é algo elevado, são bastante relevantes os programas de tratamento e análise de dados que se utilizam, pois estes possibilitam medir as propriedades estruturais dos grafos. 4. RESULTADOS ENCONTRADOS Nesta investigação optou-se por realizar uma análise essencialmente sociocêntrica, o que implicou uma pesquisa estrutural do grupo que esteve em interação durante os oito meses, considerando um conjunto de indicadores específicos, tais como o volume de interações estabelecidas, a densidade, a centralidade, a proximidade, a inclusividade, a intermediação, e ainda a identificação de subgrupos no interior da rede (clusters). Como forma de complementar as informações facultadas por tais indicadores, procurou-se, em algumas situações, perceber qual a posição de alguns elementos da rede social e o papel social por estes desempenhado. Estes 3 Ucinet for Windows: Software for Social Network Analysis. Harvard, MA: Analytic Technologies (Borgatti, Everett & Freeman, 2002). 4 NetDraw © 2002-2011 inventado por Steve Borgatti. Netdraw Network Visualization. Analytic Technologies: Harvard, MA, (Borgatti, 2002) dados permitiram descrever algumas propriedades da rede, que passamos a apresentar, com base nas estruturas sociométricas encontradas. Volume das interações O estudo do volume de interações estabelecidas entre os atores da rede representa uma das propriedades mais básicas a considerar na sua análise. Na rede em estudo estão representados os 45 membros, 15 pais e 30 docentes. Para uma melhor visualização do volume de interações estabelecidas a nível dos pedidos de amizade efetuados por estes membros recorreu-se à apresentação da seguinte representação gráfica em sociograma patente na Figura 1. FIGURA 1. Sociograma representativo dos pedidos de amizade efetuados na rede social Legenda: Cor: pais professores Forma: região rural região urbana Educação,Formação&Tecnologias,5(2),dezembrode2012 ISSN1646‐933X RevistaEFT:http://eft.educom.pt 32 Cada ponto do sociograma (nó) representa um membro da rede. A organização dos membros na rede é automaticamente feita com base no número de interações recebidas por cada elemento, sendo colocado mais perto do centro os atores que receberam mais pedidos de amizade. A observação do sociograma da rede social em análise indica que se está perante uma representação do tipo dendrítica, ou seja, com várias ramificações e não organizada num todo em torno de um ‘core estrutural’ central, e onde se regista um volume substancial de células na matriz sociométrica que representam a ausência de relações (sinalizadas com o algarismo 0). Esta situação está, obviamente, visível no sociograma, constatando-se ser reduzida a concentração de ligações entre estes atores/nós. Apura-se que do volume total de 990 interações possíveis (no caso de cada elemento se ligar a todos os outros elementos [n.(n-1)/2], se registaram somente 216 conexões. Se se focar a análise apenas nas conexões estabelecidas entre os membros com estatuto de docentes, verifica-se que o volume de interações se revela, em oposição, francamente mais elevado. Mais precisamente, do volume total de 435 ligações possíveis registam-se 194 conexões. Estudando antes as conexões estabelecidas unicamente entre os atores com o estatuto de pais, reconhece-se que das 105 ligações possíveis se concretizaram unicamente sete. A análise do sociograma indica ainda que estes últimos ocupam uma posição mais periférica na rede. Com vista ao aprofundamento das características da rede social estabelecida na dimensão em estudo (relações de afiliação) procedeu-se a uma análise estrutural e posicional da mesma, apreciando os seguintes indicadores: densidade, inclusividade, centralidade e partilha, por se considerar serem pertinentes para a compreensão das relações estabelecidas. Segundo vários autores (Carrington, Scott & Wasserman, 2005; Scott, 2000) estes são alguns dos indicadores mais comummente utilizados em análise de redes sociais. Densidade A densidade é considerada uma das medidas mais utilizadas na análise estrutural de uma rede social (Garton, Haythornthwaite & Wellman, 1997). Esta é determinada pelo número de ligações efetivamente constituídas na rede social e o total de ligações teoricamente possíveis (Scott, 2000). Este indicador mostra o valor em percentagem da intensidade das interações no seio da rede, revelando se existe uma alta ou baixa conetividade no seu interior (Velázquez & Aguilar, 2005). Este indicador permite ainda inferir acerca da difusão e da velocidade de disseminação da informação entre os atores da rede (Hanneman & Riddle, 2005). Considerando a análise da rede em estudo verifica-se que o índice de densidade global da rede social em estudo foi de 21,82%, o que pode ser associado a um nível limitado de conetividade (cf. Tabela I). TABELA I – Grau de densidade das interações no AVA (global, por docentes e por pais) (Average Matrix Value) Densidade Nº de Ligações Global 0.2182 216 Docentes 0.4460 194 Pais 0.0667 7 Os resultados são distintos ao se focar a análise deste indicador apenas a nível dos membros que possuem o estatuto de docentes. Neste caso o índice de densidade entre os docentes é de 44,60%, pelo que se afirma ser bastante mais acentuado o nível de conetividade existente entre estes membros. Os resultados são igualmente diferentes se se salientar a análise deste indicador ao nível dos membros com o estatuto de pais. Neste caso o índice de densidade entre os pais foi de 6,67%, pelo que se assegura ter sido muito fraco o nível de conetividade existente entre estes membros. Inclusividade O grau de inclusividade de uma rede é estabelecido pela proporção de atores que evidenciam estabelecer conexão, tendo em atenção o total de Educação,Formação&Tecnologias,5(2),dezembrode2012 ISSN1646‐933X RevistaEFT:http://eft.educom.pt 33 elementos constitutivos da rede (Scott, 2000). Este indicador surge inversamente associado ao total de membros excluídos, ou seja os que não obtiveram qualquer registo de interação (Pedro & Matos, 2009). O cálculo matemático é obtido através da seguinte fórmula: [inclusividade=N com /N], onde N= total de membros na rede e N con= total de elementos conectados. Verifica-se pois que o grau de inclusividade global da rede foi de 0.867 (87%) o que se entende ser um indicador bastante positivo. Revelase assim que dos 45 membros da rede apenas seis não estabeleceram qualquer relação de amizade online com os outros, sendo que cinco deles assumiam o papel de pais (dois de regiões urbanas e três de áreas consideradas rurais) e um deles integrava o estatuto de docentes, o qual pertencia a uma região urbana. Estes seis membros constituem-se como os nós soltos da nossa rede social, na medida em que evidencia não ter tido qualquer tipo de fluxo na dimensão em análise, indicando ausência de vínculos. Se se centrar o olhar para os dois grupos de estatutos existentes na rede social: docentes e pais, verifica-se que o grau de inclusividade dos membros com o estatuto de docentes a nível das redes de afiliação é bastante superior (0.967) ao dos pais (0.667). Entende-se que estes valores são indicativos de que o enredo de conexões constituídas na rede se revelou algo envolvente e pouco segregativa, sobretudo no caso dos membros com estatuto de professores. Clusters Os dados em análise foram igualmente considerados para identificação de possíveis subgrupos no interior da rede social quanto aos pedidos de amizade proferidos. Procedeu-se à identificação de Clusters, a qual pode ser “considerada como uma metodologia aglomerativa de análise de redes sociais” (Pedro & Matos, 2009, p.1229). Os Clusters são áreas da rede onde é possível encontrar elevada densidade nas interações, distinguindo-se os elementos pela sua contiguidade no diagrama e pela sua separação relativamente a outros clusters (Scott, 2000). Com vista à apresentação dos Clusters existentes na rede social optou-se pela reconfiguração do sociograma com base na representação do diagrama em árvore (cf. Figura 2). A análise ao mesmo permite destacar um subgrupo na rede formado pelos elementos 41, 28, 34, 23, 35, 30, 45 e 33, sendo este constituído na totalidade por professores. FIGURA 2. Diagrama dos Clusters existentes na rede social Centralidade e Centralização A análise da centralidade de uma rede social organiza-se sob uma dupla dimensão: i) a centralidade global da rededesignada de centralizaçãoque se organiza em torno do conceito de proximidade entre a totalidade dos pontos, ii) a centralidade de cada elemento da rede que surge associada à atividade relacional direta de cada ator ou nó. Educação,Formação&Tecnologias,5(2),dezembrode2012 ISSN1646‐933X RevistaEFT:http://eft.educom.pt 40 Carrington, P., Scott, J., & Wasserman, S. (2005). Models and methods in social network analysis (1st ed.). Cambridge: Cambridge University Press. Coutinho, C. P. (2008). Web 2.0: uma revisão integrativa de estudos e investigações. In A. A. Carvalho (Org.) Actas do encontro sobre Web 2.0 (pp. 72-87). Braga: CIEd Universidade do Minho. Downes, S. (2006). Learning networks and connective knowledge. 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Programa UCINET is registered to Trial User -- Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince. Educação,Formação&Tecnologias,5(2),dezembrode2012 ISSN1646‐933X RevistaEFT:http://eft.educom.pt 42 Abstract: This paper analyses the affiliations established between users of a Virtual Learning Environment (VLE) composed of parents and teachers of handicapped students. This virtual environment aimed to promote interaction and sharing of experiences related to people with multiple handicaps. The main objective of this work is to study the characteristics and breadth of the friendships established within this virtual environment using social network analysis methods. The results presented in this paper derive from data available in the personal pages of the study’s participants. These data were investigated with an essentially sociocentric perspective; this implied researching the group which interacted for eight months. The indicators analysed comprise the density of the established network, its level of concentration, the degree of inclusivity, the participants which stood out as most influential and with most prestige, as well as the subgroups that emerged within the network. The results found indicate that the virtual environment created was favourable to the establishment of affiliations or pro-social relationships between the participants, with a greater impact on the teachers than on the parents. It can be inferred that the relationships established between the participants have a favourable effect on communication and information sharing. Despite the extent of the relationships between the participants not having been particularly large, specially amidst the parents, the study is innovative as it establishes an online relationship between elements crucial to the development of children and youths with multiple handicaps: their parents and their teachers. Keywords: social network analysis, virtual learning environments, handicap, affiliations, parents, teachers. Texto: - Submetido: maio de 2012. - Aprovado: setembro de 2012. Para citar este artigo: Nunes, C. & Pedro, N. (2012). Análise das interações sociais entre pais e professores de alunos com multideficiência num ambiente virtual de aprendizagem. Educação, Formação & Tecnologias, 5 (2), 25-42 [Online], disponível a partir de http://eft.educom.pt.