Full text
R e fl e x õ e s
s o b r e A m b i e n t e ,
T e r r i t ó r i o e S o c i e d a d e
T r ê s A n o s d o B l o g u e A T S
Ficha técnica
Título: Refl exões sobre Ambiente, Ter ritório e Sociedade: T rês Anos do Blogue AT S
Coordenação e ediçã o:
João Ferrão
Ana Delica do
Ana Horta
Carla Gomes
David Tra vassos
Jussar a Rowland
Madale na Santos
Simone Tulumel lo
Capa e conceção gráfica:
Tatia na Ferreira
Imagem de capa:
Simone Tulumell o
OBSERVA - Obse rvatório de Ambiente, Te rritório e Sociedade
Instituto de Ciências Sociais da Univers idade de Lisboa
Av. Prof. Aníbal de Bettencourt, 9
1600-189 Lis boa - Portugal
Telef. 21 780 4700
www.observa.ics.u lisboa.pt
www.ics.ulis boa.pt
Lisboa: ICS , Obse rva, 2019
ISBN 978-972-671 - 525 -2
Janeiro de 2019
O Blogue ATS é alimentado e gerido pelos membros do grupo de investiga ção
Ambiente, Terr itório e Sociedade (GIATS) do Instituto de Ciência s Sociais da
Universidade de Lisboa. O seu objetivo é du plo: proporcionar um es paço de di fusão,
debate e teste de ideias nas áreas de interesse d o grupo; e da r relevo às dimensões do
trabal ho do grupo que tenham interesse pa r a públicos não -acadé micos. Os textos
podem ser publ icados em português, inglês , espanhol ou italia no.
O GIATS tem como objetivo compreender as dinâmic a s sociais, territoriais e de
governança subjacentes aos atuais desafios s ócio -ecológicos; identificar caminhos de
transição pa ra uma sociedade mais justa e sustentável; e conectar ciência, socieda de
e políticas públicas. As suas principais áreas de investiga ção sã o: repres entações,
práticas e políticas do ambiente; sustentabil idade urbana e futuros regionais;
tecnociência, ris co e incerteza.
O OBSERVA – Observatório de Ambiente, Território e So ciedade é um observatório
do Instituto de Ciênc ia s So ciais da Universidade de Lisboa (ICS -U Lisboa) que
promove a disseminaçã o de informação sobre a compo nente social das questões
ambientais e do territór io. Analisa-se tanto os fenómenos sociais que resultam ou são
influenciados por questões ambientais e territoriais, como o modo como as próprias
condições a mbientais e ter ritoriais são modificada s por fenómenos de natureza
social.
The ATS blog is produced and managed by the members of the res earch group
Environment, Territory and Society of the Institute of So cial Sciences of the
University of L i sbon. We have two goals: creating a spa ce for outreach, debate and
test of ideas in the are as of interest for the research team; and highlight ing those
dimensions of our wo rk with a c haracte r of public interest . P ots may be written in
Portuguese, English, S panish or Ital ian.
The research group ai ms at: unde rstanding the s oci al, territorial a nd go vernance
dynamics underlying current socio-ecologica l challenges; identifying transition
pathways to a more equitable and sus tainable society; and bridgi ng science, society
and policy-making. Its main areas of i nquiry are : env ironmental repres entations,
practices and p olicies; sustainable urban and regional futures; technosci ence, risk
and uncertainty.
OBSERVA – Observatory of Environment, Territory and Society is a permanent
research program of th e Institute of Social Scie n ces of the University of Lisbon (ICS-
UL). The observatory p romotes the dissem inatio n of information on the social
component of en vironmental and te rritorial issues. U nder analysis are both the
social p henomena resulting or influen c ed by env ironmental and t erritorial i ssues,
and the way the en vironmental conditions thems elves are modi fied by social
phenomena.
Quais quer opiniões e xpres sas nos comentários e artigos publicados são pessoais e da
exclus iva responsabilidade dos seus autores, não refletindo necessariamente as
opiniões dos editores do blogue, nem do ICS-Lis boa, salvo indicação expressa em
contrário.
Este trabalho de https://ambienteterritorios ociedade-ics.org/ está licenciado com
uma Licença Creative C ommons – Atribuição- Não Comercial 4.0 I nternacional.
The vi ews an d opinions express ed through the ATS Blog belong solely to the
authors, are their own responsibility and do not n ecessarily reflect the position of
the blog e ditors, or of ICS- ULisboa, u nless otherwis e stated.
Works published at htt ps://ambienteterritorios ociedade-ics.org/ are licensed
under a Creative Commons Attribution-Non Comm ercial 4.0 International License.
Nota: No caso dos posts em português, foi dada aos autores a opção de redigirem os
seus textos de acordo com a antiga ortogra fia ou o novo Acordo Ortográfi co.
Sugestão de citação:
João Fer rão, Delicado, A., Horta , A., G omes, C., Travas sos, D., Rowland, J. ,
Santos, M., Tulumello, S. (Eds.) (2019) Reflexões sobre Ambiente, Territór io e
Sociedade: Trê s Anos do Blogue ATS. Lisboa : Observa-Instituto de Ciências
Sociais da Univers idade de Lisboa.
Suggested cita tion:
João Fer rão, Delicado, A., Horta , A., G omes, C., Travas sos, D., Rowland, J. ,
Santos, M., Tulumello, S. (Eds.) (2019) Reflexões sobre Ambiente, Território e
Sociedade: Três Anos do Blogue ATS. Lisbon: Observa-Instituto de Ciências
Sociais da Univers idade de Lisboa.
ÍNDICE
Introdução 5
Sustentabilida de 7
Alterações Climá t icas 87
Água, Floresta s e Área s Protegi das 170
Alimentação, S eg urança Alimenta r e Saú de 23 2
Energia 29 9
Cidades, Ha bitação e Planeam ent o U rbano 34 4
Territórios e De senvolvim ento 42 2
Ciências Sociai s e Interdi sciplinaridade 46 4
Métodos e P ráticas de Inv estigação 59 2
Índice de auto re s 654
5
Introdução
sta publ icação reúne os po sts editados durant e os três pr imeiros an os de
existência do blogue Ambie nte, T erritório e Sociedade, a interface par a
públicos académicos e não -académicos do Grupo de Investigação com essa
mesma designação do Instituto de Ciênc ias Sociais da Universidade de Lisboa.
No primeiro post deste blogue, intitulado “Estados -nação muralha dos: presentes
insustentáveis, futu ros indesejados” (João Ferrão, 5 de janeiro de 2016 ),
afirmava-se que e ste tema de abertura, aparentemente estranho às atividades
desenvolvidas no âmbito deste Grupo de Investigação, tinha u m objetivo
duplamente simbólico: salientar as virtualidades de leituras críticas e reflexivas
efetuadas a partir do triângulo analítico cujos vértices dão o nome ao grupo; e
aprofundar o debate sobre futu ros imagin ados, desejados e possívei s, bem como
sobre as trajetórias de mudança e as estraté gias de transição para os alcançar.
Como então se salientou: “este é o contributo que queremos dar, a discussão que
pretendemos suscitar, os caminhos i nterdisciplinares que g ostaríamos de ajudar
a desbravar e a percorr er em diálogo com a sociedade”.
Olhando retrospetivamente, é possível afir mar que foi isso que t entámos fazer,
apresenta ndo i deias, tendências e factos, sa lientando tensõ es e contradições,
justificando pos ições, defendendo opções, apontando caminhos. Fizemo-lo de
forma aberta e convicta, sem dogmatismos mas tendo como referência os grandes
debates teóricos, t emáticos e políticos que marca ram intensamen te estes três
últimos anos. Fizemo -lo guiados pela curiosidade científica pessoal, pelos
interesses dos membros do Grupo de Investigação, pelo gosto de partilhar as
nossas ref lexões e de divulgar os resultados das nossas investigações, mas
também para tentar dar respostas à s necessidades e perplexidades das sociedades
contemporâneas. E f izemo-lo, f inalmente, cientes das condições em que
desenvolvemos o nosso trabalho, desde a influ ência de pod erosas agendas
E
BL OG UE ATS
GRUP O D E IN VES TIGA ÇÃ O AMBIEN TE , T ER RITÓRI O E S OCIED A D E D O ICS - U L IS BOA
BLOGUE ATS
GRUPO D E INVESTIGAÇÃ O AMBIENTE, TER RITÓRIO E SOCIE DADE DO ICS-ULISB OA
6
científicas internacionais às situações de prec ariedade persistente de mu itos dos
autores dos posts .
Esta é uma publ icaç ão de uma equipa onde todos contam e participam, dos
investigadores de carreira aos bolseiros do mais diverso tipo, colaboradores de
projetos de investigação e doutorandos cuj os supervisores s ão membros do
Grupo de Investigação. Graças a esta equip a, e ainda a alguns aut ores convidados
de grande prestígio académico e público, f oram selecionados 123 posts do blogue,
agregados, por uma questão de coerência e de facilidade de leitura, em nove
capítulos t emáticos: S ustentabilidade ; Alterações climáticas ; Água, florestas e
áreas protegidas ; Alimentação, s egurança ali mentar e saúde ; Energia ; Cidades,
habitação e planeamento urbano ; Territórios e desenvolvimento ; Ciências sociais
e interdisciplinaridade ; Métodos e pr áticas de investigação . Cada Capítul o ini cia-
se com uma breve In trodução, de um dos investigadores que p ertenceu ao
conselho e ditorial do b logu e ao longo deste período, que enquadra os textos qu e
se seguem.
Nos seus primeiros tr ês anos de existência o bl ogue Ambiente, Território e
Sociedade mobilizou 72 autores, editou 143 posts, t eve 17.266 visitantes e
suscitou 35.975 visualizações. Este livro organiza de forma mais inteligível os
vários contributos publicad os. Mas, sobretu do, cria, no seu conjunto, um novo
patamar a p artir do qu al é agora possí vel ver mais l onge, compreender de f orma
mais profunda, sugerir de modo mais adequado, divulgar conhecimento
científico de manei ra mais clara. É esse o nosso objetivo.
Equipa Editorial
SUSTENTABILIDADE
BLOGUE ATS
GRUPO D E INVESTIGAÇÃ O AMBIENTE, TER RITÓRIO E SOCIE DADE DO ICS-ULISB OA
© A na H o r ta
© " AC2 - G l oba l W a rm i n g " , K h u r osh vili I ly a .
© Nuno Alve s
8
Introdução
m pouco mais de de zena e meia de posts do blogue ATS abordam o t ema
da su stentabilidade. Conceito a mplamente usado m as de definiçã o
disputada , a sustentabilidade dá conta do eq uilíbrio difícil (se não impossível)
entre prosperidade económica, proteção a mbi e ntal e justiça social.
Alguns destes posts fazem u so de conceitos paralelos, como a economia circular
(Carolina Souza, mar ço de 2016 ) ou o crescimento verd e ( António Sobrinho,
março de 2 016 ), para dar conta dos esforços políticos para promover esta
compatibilização de diferentes interesses. Mas out ros posts , bem menos
otimistas, abordam propostas mais exigentes c omo o princípio da suficiência, que
propõe uma di srupção do modelo de produção e consumo contínuos ( Susana
Fonseca, abril de 2016 ), ou o controlo do crescimento demográfico ( Luís Balula,
maio de 2016 ). Alguns tex tos alertam p ara um a crise ambiental d e magnitude tal
que ameaça a sobreviv ência da espécie huma na, sustent ando -se em noç ões c omo
a era do Antropoceno (João Mourato, março de 2016 ; A ndré Silvei ra, setembro
de 2016 ) ou a teoria de Gaia ( Tim O’Riordan, setembro de 2018 ).
Um conjunto de texto s dá destaque ao papel das organizações internacionais,
como a ONU, O CDE ou EU, no estab elecime nto de metas e na formul ação d e
políticas para as atingir . São disso exemplo os tão propalados Objetivos do
Desenvolvimento Sustentável ( Luísa Schmid t , janeiro de 2016 ; Tainan Messina,
maio de 2 018 ) , os seus antecessores Objetivos do Desenvolvimento do Milénio,
os Princípi os da Carta da Terra (Fronika d e Wit, março de 2018 ) o u a Convenção
de Aarhus ( João G uerra, setembro de 2016 ) . Mas nem sempre os acordos
internaci onais vão no sentido da promoção d a sustent abilida de, com o se vê pelo
ativismo anti-TTIP (P arceria Transatlântica para o Comércio e I nvestimento)
( Ana Patríci a Rodrigues, abril de 2016 ).
U
BLOG UE ATS
G RUPO DE INV ES TIG AÇÃ O AMB IE NT E, T E RR ITÓ RIO E SO CI ED ADE DO IC S - U L ISB O A
BLOGUE ATS
GRUPO D E INVESTIGAÇÃ O AMBIENTE, TER RITÓRIO E SOCIE DADE DO ICS-ULISB OA
15
Objetivos de Dese nvolvimento Sust entáve l (20 16-2030)
17 Objetivos, 169 metas
Fonte: Elabo rado pelo auto ra
Ambos passam também por restaurar a “saúde” do sistem a econó mico, criando
empregos, empresas e combatendo simul tanea mente a s crises da crise: as
16
alterações climáticas, a dependência dos co mbustíveis f ósseis , a devastação dos
recursos finitos, a catástrofe alimentar e a pobreza tenaz.
Não será nunca com meras medidas financeiras ou operações de tesouraria e a
regar com subsí dios perversos e a tividades se m f utu ro que se re solverá a crise, a s
crises. O qu e se pretende justamente evita r é que os atu ais estímulo s para
restaurar a economia não incorram nos mesmos erros que nos levaram às c rises.
Dispomos hoje efet ivamente de recursos de c onhecimento e d e soluções
tecnológicas que permitem já configurar um s istema económico bem diferente –
ambiental e socialmente sustent ável e também economicamente viável. Resta
agora ativar os mais d ifíceis fatores de todos : a consciência pú blica e a vontade
política, o que não é tarefa f ácil quando as me smas forças que produziram a c rise
controlam largos sectores do espectro comun icacional. Contudo, os dois acordos
mundiais de final do ano passado e a vitali dade da esperança que anima as
sociedades até n as condições mais difíceis, aju darão a en contrar caminhos para
o futuro que se precisa.
Luísa Schmi dt é investigadora pr incipal d o Instituto de Ciência s Sociais da
Universidade de Lisboa ( ICS-ULisboa ) e c oordenadora do Ob serva.
17
Green growth knowledge platform.
O que é, para que serve?
António Sobrinho 2 de março de 2016
om o propósito de divul gar e contribuir para a transição ru mo a uma
economia verde (equit ativa, de baixo carbono, eficiente em re cursos e
socialmente inclusiva), quatro organismos – o Global Green Growth Institute
( GGGI ), a Organização para a Coop eração e Desenvolvimento Económico
( OCDE ), o Programa das Na ções Unidas para o Ambiente ( UNEP ) e o Banco
Mundial – decidiram criar em janeiro de 2012 a G reen Growth Knowledge
Platform ( GGKP ).
Das quatro organizações internacionais at rás referi das, a ma is recente e,
eventualmente, a men os conhecida – GGGI – foi fu ndada em 2012 durante a
Conferência das Nações U nidas sobre Desenvol vimento Sustentável Rio+20.
Tem como missão apoiar e pro mover o crescimento económ ico robusto ,
sustentável sob o ponto de vista ambiental e socialmente inclusivo nos países em
desenvolvimento e nas economias emergentes. Está sedeada em Seou l, na Core ia
do Sul.
A GGKP é uma re de global de organ izações e especialistas internaciona is que
identifica e aborda as principais lacunas de conhecimento no âmbito do
crescimento verde , nas su as vertentes tanto te órica como prática. Ta l plataforma
incentiva ainda a colaboração e a investigação generalizadas, à escala mundial, e
disponibiliza ao s profissionais e decisores políticos um conjunto de orientações
políticas, boas práticas, ferramentas e dados necessários p ara a poiar a t ransição
para uma economia verde.
A GGKP foi fu ndada com ba se no entendimento c omum de que a eficácia e o
impacto d e seus parc eiros saem reforçado s através da colaboração par a o
desenvolvimento, gest ão e divulgação dos tr abalhos de p esquisa n o contexto do
crescimento verde , assi m como de outros produt os do conhecimento.
C
18
Nesta pl ataforma sã o apresentadas e dis cutidas questões de actualidade.
Exemplo disso é o relatório da “Terceira Conferência Anual da GG KP ”,
subordinada ao tema Fi scal policies and the green economy transition:
generating knowledge – creating impact . As conclusões das r euniões do s
trabalhos realizados em 18 sessões paralelas e 3 sessões plenárias de alto nível
são, desse modo, di vul gadas pela GGKP à comunidade em ge ral.
No essencial, vis a-se a mu dança d e m entalidades, a aceitação dos princípios d a
economia verd e, assim como a adopção e implem entação das necessárias
medidas l egislativas capazes de contribuir para a adaptação e mitigação das
alterações climáticas em dif erentes contextos nacionais.
A plataforma disponibiliza uma interessante aplicação sobre cr escimento verde ,
em que é possível ace der a informa ções esp ecíficas por país no q ue respeita a
dados, recursos, políticas e projectos.
Ao seleccionar-se u m determinado país, tem-s e de imediato acesso a u m conjunto
de indicadores socioec onómicos, bases de dados de activos ambientais, valores
de emissões de carbono, qualidade do ambiente, políticas e oportunidades
económicas e evolução no se ctor da saúde.
Esta funcionalidade permite ainda obter uma visão rápida das medida s mais
significa tivas na área das políticas destinad as a promover o cr escimento verde,
entre outras, e permi te estabelecer comparações entre países à escala mundial.
O diálogo entre pares é encorajado no blog da plataforma e ainda através de
outros meios como o twitt er , o linkedin , o y outube e o flickr , qu e estimulam o
desenvolvimento do intercâmbio em rede. É c omum assistir-se à rea cção em red e
19
a trabalhos recentes, como sucede com o estudo M easuring inclusive green
growth at the country level , através de opin iões veiculadas por terceiros sob a
rúbrica insights .
A G GKP assinala aind a as iniciativas e os progressos reali zados no âmbito de
diversos programas de investigação, e m grande parte result antes do esforço
desenvolvido por uma parceria do conhecimento que integra um conjunto de
actores de elevada repu tação a nível internacional. A assegurar o fi nanciamento
estratégico das acç õ es promovidas p ela plataforma contam -se mi nistérios ou
agências de países co mo a Noruega, a Su íça, a Alemanha e a Holanda. O
documento qu e conté m o “ Pl ano estratégico e o programa de trabalho para o
período 2016-2018 ” está acessível na plataforma.
Uma visão se ctorial das intervenções da economia verde é facultada ao l eitor para
áreas tão diversas como: agricultura, biodiversid ade, edifícios, energia, florestas,
pescas, resíduos, recursos hídricos e transportes, entre outras (13 áreas de
intervenção). Do mes mo modo, u ma aborda gem temática também está a cessível
ao leitor através de 16 temas pré -definidos.
O nível d e excelência que nos é transm itido pela plataforma perm ite ao leitor
estar a par das ú ltimas notícias na área da e conomia verde e, simultaneamente,
de nov as publicações e da realização de congressos e de acções de formação. O
separador referente à aprendizagem dirige o internauta para várias ofertas de
formação, estando a s elecção facilitada por uma série d e filtros que permitem
apurar a pesquisa.
Os que desejam manter-se alerta em relação ao que se passa na plataforma
poderão subscrever a newsletter da GGKP.
(O autor utiliza a grafia pré- acordo ortográfico).
António Sobrin ho é aluno de do utorament o do Programa Doutoral em Alteraçõ es
Climáticas e Políticas de Desenvolviment o Susten tável no Instituto de Ciências So ciais
da Universidade de Lisboa ( ICS-ULisb oa ).
20
Antropoceno:
o derradeiro axioma escatológ ico?
João Morais Mourato 16 de março de 2016
o século I A.D., num lugar remoto que recentemente visi tei, um meu
homónimo relatou detalhad amente a visão prof ética e apocalíptica sobre
o fim de t udo que o filho do seu Deus lhe tinha t ransmitido. O resu ltado é o que
conhecemos hoje co mo o Livro da Reve lação do Novo Testamento, pilar
incontornável da escatologia cristã. A escatologia cons iste na l inha de
pensamento filosófico / teológico que aborda os últimos eventos da história do
mundo e o destino fina l da humanid ade. Sublinhe-se, porém, que existe também
um campo de reflexão escatológica de natureza secular . Em comum, ambas
exploram a discussão do fim das er as, do tempo e da vida tal como os
concebemos, e dos pro cessos que os sucedem, se de facto este s e xistirem. Daqui
emerge u m prof ícuo universo filosófico, literário e cin ematográfico que plasma
um binómi o narra tivo entre retratos utópicos e di stópicos do fim do
mundo , perfeito enquadrame nto para o conceito qu e aqui iremos explorar.
Fonte: ‘Habi tus’ de Rob yn Woo lston
N
21
Antropoceno
Em 2002, Paul Crutzen, prémio Nobel da química (1995) , desencadeou com uma
página ap enas publica da na revista Natu re a entrada do Antro poceno no debate
científico. Como Crutz en e xplica em detalhe , a genealogia do conceito é bem ma is
complexa . De r aízes t ão distantes quanto o t rabalho do geólogo italiano Antó nio
Stoppani (1873), é a partir da década de 7 0 do século XX que se consolidam e
intensificam referências, nome adamente a acompanhar a emblemática Earthrise
da NASA e no agora livro seminal, financiando pela fu ndaçã o V olkswagen sob a
direção do Clube de Roma (1972), Limits to Growth .
Por sua vez, Eug ene St oermer inicia, nos anos 80, u ma utiliza ção mais
sistemática do termo mas sem o f ormal izar e Andrew Revkin no se u livro Global
Warming (1992) denomina a entrada numa era pós-Haloceno como a era do
Antroceno. É só mai s tarde, já no a no 2000, qu e nu ma ne wsletter do
International Geosphere-Biosphere Program me Crutzen e Stoermer cunham de
forma mais asserti va o concei to de Antro poceno. Desde então,
independentemente d a controvérsia ci entífica que o acompanha, tem existido
uma crescente sistem atização da sua def inição (por ex. Steffen, Crutzen e
McNeill, 2007 ) e uma articulação enquanto agenda de investigaçã o
transdisciplina r (por exemplo, Bennett et al. , 2015 e Biermann et al. , 2015 ).
Mas afinal de que falamos? De acordo com C rut zen, e d e forma mui to sucinta, o
argumento subjacente ao Antropoceno é que a espécie humana, atra vés da su a
expansão e atividad es, rivaliza atualmente c om algumas das gran des forças d a
natureza ao ní vel do impacto no funcionamento do ecossistema Terra. A questão
fundamental das alterações climáticas é so mente a ponta do iceberg. A aç ão
humana, ampliada pe la emergência da Tec nosfera , alt erou su bstanc ialmente
outros cic los biogeoquímicos fu ndamentais d a vida no nosso planeta,
condicionou de form a irreversível a sua permeabilidade e sus t entabilidade
hídrica, e tc. Subj acente ao debate sobre a reversibilidade destas a lte rações está a
sua consequência última, que é a probabilidad e de, numa
dinâmica Ant ropocénica , a e spécie humana estar a potenciar um evento
de extinção em massa .
22
Extinção
Numa análise retrosp ectiva, evolu ção e extinçã o são fenómenos l argamente
indissociáveis na vida d o planeta Terra. Estima -se que 99% das espécies que
habitaram a Terra e m determinado mom ento estão extintas. O qu e a qui pretendo
sublinhar é a natureza di stinta dos processos de extinção, nomeadamente no que
diz respeito à escala em que acontecem. Extinções isoladas s ão comuns.
Relembremos um ex emplo icástico: o Dodó. Este pássaro, cujo nome se tornou
sinónimo do fenómeno da extinção, habitou e evolu iu, por largos séculos e sem
predadores n aturais, nas ilhas M aurícias. Contu do, com a chegada da era dos
descobrimentos , no final do século XVI, aportaram a estas ilh as marinheiros
holandeses, e provav elmente portu gueses qu ase noventa anos antes, que
conjuntamente com todos os animais do mésticos que com eles vieram,
dizimara m em tempo record, um “pombo do tamanho de um perú”, presa fácil
pois não voava, e que não conseguiu adaptar -se as alterações estruturais, e
repentinas, no seu habitat. O s eu nicho ec ológico desapareceu, e com ele o Dodo.
Casos de extinções isol adas, como o a cima referido, são relativam ente comuns. O
que mais preocupa atualmente os ci entistas é o ritmo a que estas extinçõ es estão
a acontecer , partindo do princípio de que nem sequer é possível determinar o
número total das mes mas. Estima-s e que até metade das espécies hoje em dia
existentes no planeta esteja extinta em 2100 . E é neste contexto qu e temos que
equaciona r o potencial processo da extinção da espécie human a e at é qu e pont o
é o Antropoceno a consagração d e u m proc esso evolu tivo que a e la conduzirá.
Numa leitura imediat a, há pelo menos um fa tor do processo d e extinção da
espécie humana que é estrutu ralmente diferenciador do das restantes espécies
que connosco coabitam no pl aneta: o pot encia l controlo qu e poderíamos ter sobre
a evolução do noss o “nicho ecológico”, cuja degradação provocámos.
Consciencialização
A questão fu ndamental é então: de que depende esse controlo? Lester
Brown identifica- o de f orma incisiva: “u nless civilization changes its ways, its end
is tru ly near… we’re in a ra ce b etween natural t ipping points and polit ical tipping
points, – ‘what we need most of all is for t he market to tell the environmental
truth.’ E detalha como na sua visão se p oderia destronar a m eta -narrativa
23
capitalista que, de forma aparentemente irr edutível, constringe a emancipação
ambiental da humanidade .
Fonte: “Wha t if its all a HOAX and we create a bette r world fo r nothing ” ,
cartoon de Joel Pett, no â mbito da co nferência Pla net Under Pr essure
De facto, como argumenta, “historically, it is rare for so many emerging threats
to have a common solution.” O obstáculo acrescido da era do Antro poceno, mais
do tecnológico, é fundamentalmente político e societal. Urge questionar como se
cria o que Durkheim d esignou por consciência coletiva, ou Marx por consciência
social, que nos permita evitar a longo prazo a nossa extinção. À escala global, o
que testemunhamos a ssemelha-se porventu ra a uma esp écie de anosognosia
social heterogénea . Ou seja, um desequilíbrio de aut oconhecimento, em que
todos sof remos de uma condição debilita nte, mas uns mais d o que outros,
parecendo alheios à existência da mes ma. Promover a consciencialização
ambiental global é f undamental se queremos contrariar a dimensão escatológica
da era do Antropoceno. Fim
João Mourato é investi gador de pós-doutorame nto no Instituto de Ciência s Sociais da
Universidade de Lisboa ( ICS-ULisboa ) .
24
Economia circular em destaque: apoio da
União Europeia e foco n o consumo
Carolina Souza 30 de m arço de 2016
insustentabilidade do modelo econômico lin ear ( aqui incluídos produção
e consumo) é um t ópico debatido h á certo tempo t ant o no ambiente
acadêmico qu anto no mercado, entretanto ainda não se chegou a um consenso
sobre saídas e mudanças viáveis p ara suplantar a tríade pegar - usar- descartar,
base do atual modelo econômico.
O modelo linear de pende de grandes quantidades de energi a e de matérias-
primas baratas e de fácil ac esso. O uso desenfreado d essas f ontes naturais e
finitas, combinado com uma cultu ra de descarte de uma população que cresce
exponencialmente, esgotou as capacidades do planeta de se autogerir , tamanho o
poder da ação do homem sobre ele.
Uma das solu ções debatida s para acabar com o contínuo uso e despe rdício dos
recursos naturais seria a economia circular. Nesse sistema as matérias -primas,
produtos e recursos mantêm-se em u so o máximo de tempo, não havendo
produção de re síduos já que os componentes são u tilizados em diversas etapas de
diferentes cadeias produtivas, buscand o evit ar o descarte absoluto.
Este pen samento circular acompanha todo o sistema de produção, moldando as
escolhas de design e matéria prima, até f ormas de funcionamento, prevendo a
utilização dos recursos e produção de resíduos durante toda a vida út il do
produto. Após seu uso, seus materiais vão fa zer constituir outro produto, similar
ou não, sendo seu reparo também estimulad o .
Buscand o o acelerame nto desta discussão, a União Europeia assinou em
dezembro de 20 15 o Pa cote de Economia Cir cular , projeto em que irá atuar como
fomentadora e auxiliadora p ara que empresas e con sumidores aja m de maneira
mais sustentável.
A
31
TTIP – Do silêncio do s deu ses à não-opinião
dos servos
Ana Patrícia R o drigues 20 de abril de 2016
comunicação social em Port ugal, mas també m por toda a parte, tem vindo
a sofrer fortemente uma crise de índo le informativa. Se a respon sabilidade
final d os órgãos de co municação é a de d estacar e expor os a ssuntos que estão na
ordem do dia de forma l ógica e racional, o que pode remos con cluir da sua atitu de
quando pensamos no TTIP ( Trade and Investment Partnership )?
O TTIP, ou PTCI ( Parceria
Transatlântica para o
Comércio e Investimento )
em português, é u m acordo
entre os Estados U nidos e a
União Europeia cuja
preparação está a ser
marcada por u ma grande
falta de transparên cia e de
secretism o, que violam
quaisquer pressupostos democ ráticos pelos q uais os países europeu s se regem.
As conversações sobre em que moldes o acor do será estabelecido t eve início em
2013, envolvendo a Comissão Europeia e o g overno dos E.U.A. No contexto d a
crise financeira de 200 8, com a estagnação e conómica e o desemprego a ganhar
cada vez mais força, o TTIP tem como objetivo final garantir o li vre comércio
através da eliminação de todas as b arreiras l egai s, como normas de segurança
alimentar e saúde públ ica, direitos laborais, direitos dos consumidores, etc.
O TTIP apresenta várias ameaças r elacionadas com a proteç ão ambiental, saúde
pública e emprego. Organizações como a Quercus e a Oikos entendem que t al
tratado apresenta riscos qu e reduzirão “ subst ancialme nte os padrões europeus
de defesa do con sumidor, de defesa do ambiente e da n atureza, d a segurança e
A
Fonte: Carto onmovement
32
soberania alimentares, dos direitos laborais e sindicais, dos direitos à privacidade
e liberdade de utilização da internet, e ntre ou tros ” ( Jornal Público, 2014 ).
O website “ STOP-TTIP ” descreve todos os impactos associados: redução dos
padrões d e proteção ambiental, fracking , venda de produtos com químicos n ão
testados, aumento do desemprego, perda d e soberania nacional, etc . (ver Tabela
1).
Tabela 1 – Impactos do TT IP
Proteção Ambienta l
• Redução d os padrões de proteção a mbiental;
• Autorização da e xploração de gás de xisto ( frackin g );
• Venda de produtos com químicos não testado s;
• Desregulação dos níveis de emissões no setor de
aviação.
Saúde Públ ica/
Segurança Alimentar
• Aumento da duraçã o de patentes dos medicamentos ;
• Forte c oncorrência das e mpresas agroindus triais dos
EUA;
• Venda de produtos com químicos não testado s;
• Autorização dos Organismo s Ge neticame nte
Modificad os (OGM);
• Utilização de h ormonas de crescime nto na carne;
• Desinfeção da ca rne com cloro.
Emprego
• Aumento do desemprego ;
• Diminuição de di reitos laborais e sal ariais;
• Aumento da precariedad e.
Democrac ia
• Perda de sob erania por sobreposição às Constituiç ões
dos estados;
• Existência de uma instância jurídica (ISDS ) superior
aos tribuna is nacionais e europeus.
Serviço Público
• Abertura de todos os seto res p úblicos – água,
energia, saúde, ed ucação e trans porte – a emp resas
multinaci onais, sem possibilidade de r enacional ização.
Serviços F inancei ros
• Liberalização e desreg ulamentação dos servi ços
financeiros;
• Maior participaçã o do setor financeir o no proce sso
legislativo;
• Maior liberdade na criação de novos p rodutos
financeiros;
• Maior facilidade de deslocação dos bancos para
países com im postos mai s baixos.
Fonte: STOP -TTIP
33
No entanto, uma pesq uisa ráp ida no Google com palavras - chave como “ sobre o
ttip ” permite-nos concluir rapidamente que a informação t ardou a chegar ao
público, se é que nalguns casos chegou efetivamente.
Se, por um lado, as neg ociações se iniciaram e m 2013, por ou tro, os jornais online
como Públ ico e Observador apresentaram – sucintamente – os acordos a penas
em 2014 e 2015. E se n o meio virtual a informação escasseia, já nos três principais
canais da TV portugu esa (RTP, SIC e TVI) e jornais impressos não deram sequer
relevância a este assunto.
Vários aut ores ( Habermas, 198 9 ; Lippma nn, 19 22 ) aborda ram o papel qu e
os media têm vindo a assumir desde o novo paradigma comercial, ou seja, os
meios de comuni cação passaram a t er como obje tivo final, apenas o lucro. As
consequências subj acentes a este paradigma t êm-se agravado com o avançar dos
anos, desde a publ icidade à mudança de critér ios
1
de seleção de uma notícia ou à
influência c rescente e xercida por fortes grupos ec onómicos que acab am por
controlar o conteúdo informativo. A acrescenta r, há ai nda a forma c omo a s
notícias, em especial as associadas às questõ es climáticas, são dadas a conhecer.
Se Antilla ( 2005 ) denota nos media ceticismo e controvérsia no desenvo lvimento
de notícias dedicadas às alterações climáti cas, ou tros aut ores, como James
Painter ( 2013 ), chama a atenção para as re presentações sociais criadas pelos
próprios meios d e comunicação. Se países como a China e a Índia são,
tendencialmente, apre sentados como países bastante polu idores produzindo
elevadas emissões d e CO2, às quais as sociam muitas d as vezes estas
características a even tos extremos que por lá ocorram; em comparação, os
Estados Unidos e países europeu s são apresent ados como países pró -ambiente e
consequentemente menos pol uidores. No entanto, dados do Wo rldbank relativos
à emissão d e CO2 por tonelada per capita permitem, desde logo, desc onstru ir
este ester eótipo: India (1.7), China (6 .7), Alemanha (8.9 ), Reino Unido (7.1),
Grécia (7.6) e Estad os Unidos (17.0).
Vivemos atualmente nu m contexto d emocrático, no qual é permitido à cla sse
política dirigente ne gociar num tom sec retista se m que os mei os de comunicação
1
Para De wey (1927) , a indú stria d os media passou a de stac ar o lazer e o consu mis mo afastand o
os indivíduos de qu estões p úblicas conside radas impor tantes.
34
façam o p apel qu e lhe s compete. Esta influência e manipulação da opi nião pública
acaba por desenvolver uma sociedade acrítica, incapaz de participar em decisões
importantes que condicionam o nos so f utu ro. O fim das negociações está previsto
para o presente ano civil. Veremos se a té lá os órgãos de c omunicação
portugueses tencionam considerar o TTIP um assunto de elevada relevância ou
se manterã o a atitude que têm tido até agora.
Ana Patrícia Rodrig ues é bolseira de invest igação do Observa – Observat ório de
Ambiente, Territ ório e Sociedade do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de
Lisboa ( ICS- ULisboa ).
35
Sustentabilidade demográfica: u m tabu
cultural?
Luís Balula 10 de maio de 20 16
ntre 1346 e 1 353, a P este Negra dizimou c erca de metade da população da
Europa. Desde aí, e apesar das diversas gue rras, epidemias e fomes que
ocorreram ao longo dos seis séculos seguintes, a popu lação humana continuou
sempre a crescer. Durante as três últimas gera ções, no entanto, esse crescimento
tornou-se exponencia l. Sobretudo devido aos avanços da medicina e ao aumento
da produt ividade agrí cola, entre out ros f actores, a partir de 19 50 verificou -se uma
aceleraçã o ma ssiva do cresci me nto populacional. Cerca d e metade de todas a s
nações do mundo qu adruplicaram a sua pop ulação desde 1950. E este enorme
ritmo de crescimento traduziu -se também, in evitavelmente, numa aceleração d a
actividade humana e na transformaçã o, em la rga escala, do sistema Terra.
Recentemente, o Programa Intern acional Biosfera-Geosfera calculou como est a
“Grande Aceleração” se refl ectiu em 24 tendência s globai s de cr escimento, entre
1750 e 2 000. Como se pode ver nos vários gráficos que exprimem essas
tendências, 19 50 m arca o início do crescimento exponencial de variá veis tão
diversas como o número de aut omóveis, o número de McDonalds, o núm ero de
barragens hidroelétricas, o t urismo internacional, o consumo de água, de
fertilizantes e de papel, entre outras. Subjac ente a todas estas acelerações
exponenciais, o cresci mento populaciona l surge como a óbv ia — e a única —
variável independente.
So mos hoje cerca d e 7,5 mil milhões, e segun do as úl timas projecções das Nações
Unidas , admit indo um a taxa de fertilidade m édia, a população mundial chegará
aos 10 mil milhões em 2056, seis anos m ais cedo do qu e o anteriormente
projectado n as estimativas de 2013. E mantendo- se o a ctual ritmo de crescimento
populacional , em 2100 seremos 16 mil m ilhões — valor que as estimativas
científicas mais generosas indicam s er o li mite máximo antes de esgotarmos
E
36
a capacidade de carga do planeta (as estimativas menos generosas indicam 4 mil
mi lhões).
O estranho f enóm eno do crescimento expone ncial
Fonte: Inte rnationa l Geosphere- Biosphere P rogram (2017) , citad o por Al an Atk isson
O debate sobre o crescimento — populaci onal, e conómico e do consumo de
recursos — iniciado n o final do sé culo dezoito por Thomas Malt hus e re aberto
com uma nova urgência em 19 72 após a p ublicação do livro “ Os L imites do
Crescimento ” , tem sido altamente pol arizado e controverso. Os argumentos para
a continuação do ‘ crescimento -como- de - c ostu me’ são de vár ia or dem. Por um
lado, de um ponto d e v ista estritamente economicista, o bom fu ncionamento do
regime capitalista gl obal, hoje dominante, r equer idealmente u m crescime nto
anual de 2 a 3 por ce n to do PIB — e uma redução das t axas d e natalidade, para
além de não gara ntir e ste ritmo de crescimento, compromete a continuidade d os
sistemas de segurança social, p elo menos nos moldes actuais destes s istemas. Por
outro lado, numa perspectiva social/humanista, um número cada vez maior de
pessoas significa um mundo cada vez melhor, e m que mais ca pital humano
oferece potencialmente mais hipóteses de encontrar soluções par a os problemas.
37
Se, por um l ado, a ideia de controlo da natalidade é vista c omo u ma ameaça aos
direitos humanos e à liberdade de r eprodução, por outro há uma persistente
convicção de que, mais t arde ou mai s cedo, a ciência e a tec nologia f ornecerão os
meios pa ra resolver os problemas gerados pelo excesso popu lacional. Stephen
Hawking , para referir um exemplo extremo desta convicção, considera que a
colonização de outros planetas é uma f orma viável, no médio prazo (dentro de
100 ano s), para enfrentar a ameaça do esgotamento dos recursos da Terra e assim
evitar a e xtinção da espéci e humana. F inalmente, há ainda quem conside re que a
relação entre o crescimento da população humana e a c apacidade de carga do
planeta admite cre scimentos exponenciais, porque será seguida de um período
de abrandamento qua ndo globalmente s e atingir um determinado patamar d e
riqueza. O r acional é q ue o aumento da rique za nos países em desenvolvimento
(e actualmente com os maiores índices de natalidade) irá con tribuir para
desacelera r o rit mo do cresc imento populacional, e assim atingir um dia, no
futuro, um possível estad o de ‘equilíbrio’ demográfico.
A capacidade d a Terra para su stentar uma população sempre em crescimento ,
mesmo que não exponencial, é determinada t anto por c ondicionalismos na turais
como por escolhas h umanas. Os comportamentos individuais de consumo,
consequentemente, im portam e continuarão a importar. No entanto, os ganhos
de potenciais r eduções do consumo individual devidos a alt erações
comportamentais t endem a ser anulados por novos acrésci mos populacionais.
Desejar menos — como de fendido aqui , nu m po st anterior n este blog — é
certamente u m desafio que é necessário abraçar. Mas talvez seja igualmente
importante começar também a pensar em sermos menos. Em t ermos de
sustentabilidade, os benefícios d e e stabilizar e reduzir o número de seres
humanos no pl aneta são demasiado importa ntes para serem ignorados. Porque
todo o ser humano consome e disp õe de vários recursos naturais ao longo da sua
vida, todo o nascimento que não ocorre contribui para reduzir os impactos do
consumo nos recursos finitos da Te rra.
O tema do control o do crescimento demográfico é sempre muito pol émico e t ende
a su scitar reacções marcadas pela influ ência profunda dos paradigmas cultu rais,
económic o s e r eligiosos dominantes. No entanto, uma humanidade no l imiar
do antropoceno tem a responsabilidade de se questionar e por todos os meios
38
tentar reduzir o impa cto da espécie human a nos sistemas da b iosfera e na
possibilidade de sobr evivência das outras es pécies. Al ternativas mais radicais —
como a proposta pelo movimento para a extinção volunt ária da espécie humana
( VHEMT ), q ue apela a qu e deixemos de procriar para gradualmente nos
extinguirmos — ou as acções no terreno de organizações como a Popu lation
Action International ( PAI ), que promo ve os direi tos das mulheres ao controlo da
reprodução por forma a reduzir a natalidade a nível global — são im portantes de
trazer para o debate, pois confrontam -nos com uma necessidade urgente: a de
reavaliar a perspectiva antropoc êntrica e repensar com alguma humilda de a
nossa posição enquanto espécie entre esp écies, para tentar romper e fectivamente
com a lógica do crescimento contínuo.
Talvez a filosofia mais a dequada a este e xercício se ja a da Ecologia Prof unda , que
nos convida a pe nsar segundo uma nova ética. Contrariamente ao pensame nto
convencional, consagrado por d isciplinas como a economia ambiental, os
defensores desta corrente de pe nsamento não enc aram o mundo como u m
somatório de recursos à disposição dos seres humanos. Partindo de uma visão
holística do mundo, a ética da ecologia profunda de fende que a riqueza e a
diversidade da vida hu mana e n ão -humana n a Terra têm u m valo r intrínseco. E
o valor da vida não-hu mana é independente da sua u tilidade para fins humanos.
No entanto, o flores cimento da vida nã o- humana, a pre servação da sua riqueza e
diversidade, exigem uma diminuição substa ncial da população humana — pois a
interferência da nossa espécie no mundo não -humano é excessiva, d estrutiva do
mundo natu ral, e tem vindo a agravar -se d e forma acelerada nas últimas seis
décadas.
O controlo do crescimento popul aciona l é u m tema controverso, mas cada vez
mais necessário de trazer para o debate da sustent abilidade, que geralmente
tende a ignorá-lo. A e stabilização ou m esmo a diminuição popul acional não são
uma panaceia para os problemas do mundo, mas tornariam imensamente mais
fácil lidar c om os grandes desafios que hoje enfrentamos. Alterações climáticas e
degradação ambiental, pobreza e subdesenvol vimento, abusos de direitos
humanos e esc assez de água, alimentação e recursos naturais — são problemas
que exigem solu ções ur gentes e duradouras no fu turo. No entanto, a estabilização
e gradual redução do s nú meros populacionais, a pesar de ser u ma política
39
aparentemente ma is viável e oportu na que, por exemplo, a colonização planetária
sugerida por Hawking, t em menos aceitação que esta outra ‘altern ativa’, pois
contraria front almente qu ase t odos os pr essupostos cu lt urais, económicos e
tecnológicos vigentes — os quais, na verdade, deram origem a todos aqueles
problemas. Convém, port anto, recordar, mais uma vez, a conhecida c itação/avis o
de Kenneth Boulding, um reputado economist a: “Num mundo finito , alguém qu e
acredite qu e o crescimento exponencia l pode continuar indefinidamente ou é
louco ou é economista”.
1
Luís Balula é arquitecto -urbani st a, investigador no G.I. Ambiente Território e
Sociedade no In stituto de Ciê ncias Sociais da Universida de de Lisb oa ( ICS-ULisboa ) .
1
Atribuído a Boulding em : U nited States. Congress . H ouse (197 3) Energy reorga nization act of
1973: Hearings , Ninety -thir d Congress, f irst sessio n, on H.R. 1151 0. p. 248.
40
Convenção de Aarhus - informação,
participação e justiça para a mudança
João Guerra 15 de setembro de 2016
Convenção de Aarh us – Convenção sobre o Acesso à Informação,
Participaçã o do Públic o no Processo de Tomada de Decisão e Acesso à
Justiça em Matéria de Ambiente – faz parte d o ajuste institucional d e capacitação
dos cidadãos que, apesar da ausência de mec anismos de execução p recisos, veio
a ser a provada e ratific ada por quase meia c ent ena de países (em ge ral europeus)
e pela própria Uniã o E uropeia (assinada em 1998, ratificada e m 2005) .
Países me mbros da Convenção de Aarhus (1998), s egundo a data de ratifi cação
Fonte: Elabo rado pelo auto r a parti r de UNECE
Sob a égide da Comissão Económica das Nações Uni das par a a Europa, a
convençã o constituiu -se como um padrão d e referência para as novas pol íticas de
governança ambiental e o seu reconhecido valor – pelas instâncias d e governança
global (ONU) e regiona l (UE) – terá vind o a fomentar algum compromisso
político e, por vezes, legal de envolvimento público efetivo e gen uíno com os
problemas a mbientais. Compromisso que pode servir de alavanca à
implementação de um desenvolvimento não limitado ao business as u sual .
Não ser á despropositado alarg ar este compromisso de partilha do poder decisório
em matéria ambiental às questões mais abrangen tes da su stentabilidade e dos
problemas sociais, como se de duas faces de uma mesma moeda se tr atasse . De
A
47
de decisões empresariais de rotina qu e são de enorme importânci a para uma
sustentabilidade justa, incluindo a criação de standards e ecolabels .
Assentes nos princípios éticos da igualdade n o que respeita a dir eitos políticos e
da equidade (mais d o que utilidade) na d istribuição de custos e benefícios
económic o s, um va sto conjunto de aut ores vem reflectindo sobre as diversas
dimens õ es da noção j ustiça, que aqui se considera simultaneamente social e
ambiental.
A dimensão distribut iva da justiça, primeiro explorada por John Rawls no seu
livro A Theory of Justice , de 1971, é a mais intuitiva e c onhecida. Re f ere-se, antes
de mais, à equi dade n a distribuição de custos e benefíci os económicos segundo
as n ecessidades de cada u m. Aliada à dimensão d istributiva, encont ra -se muitas
vezes a dimensão processual , que t em enfoque no igual acesso à i nformação, a
uma participação efectiva em processos de decisão e, em última análise, ao
sistema judicial.
Em complementaridade com estas facetas mais conhecidas, a dimensão do
reconhecimento de ident idades individuais ou de gru po é, s egundo Nancy Fraser ,
fundamental. A falta d e reconhecimento constitu i u ma das principais fontes de
injustiça distributiva. Trata-se de um problema mais prof undo, que pode incluir
instâncias de dominação cultural; comportamentos de não-r econhecimento com
vista a retirar visibilid ade à identidade e necessidades de c ertos indivíduos ou
grupo de indivíduos; ou ai nda o desrespeito ativo, denegrindo a imagem d e
outros com representações públicas estere oti padas.
Reconhecendo a impor tância das anter iores d imensões, Amartya Se n, na obra A
Ideia de Justiça , de 2009, propõe u ma visão de justiça fundamentada em
liberdade e na noç ão de capacidades . Estas existem quan do um indíviduo t em a
oportunidade d e fazer e ser aquilo que é da sua escolha, conseguindo exe rcer,
segundo a sua vontade, f unções plenas na sociedade em que se in sere. A obtenção
de c apacidades e o exercício de funções presumem a existência do
reconhecimento de i dentidades, de uma participação efectiva e de uma
distribuiçã o justa. Por ém, estas c apaci dades constituem uma condição sine qu a
non para f ormas de d esenvolvimento sustentável. Não ba sta, pois, dar o p eixe, é
também fundamental dar a cana de pesca, e nsinar a pescar e conservar a saúde
dos ecossistemas ripários.
48
Estas quatro dimensões da ju st iça assumem especial significado prático quando
se tem em conta o t empo e o espaç o como dimensões transversais. Os desafios
ligados à justiça clim ática demonstram bem a import ância destas duas dimensões
adicionais. A geração presente tem um dever moral para com as ger ações futu ras
quando se trata do co mbate e adaptação às a lterações climáticas. Por outro lado,
é necessário apoiar esforços de adapt ação segundo as di ferenças de
responsabilidade histórica e de vulnerabilidade qu e existem, no tempo presente,
en tre países desenvolvidos e em desenvolvimento, bem como entre áreas urbanas
e rurais.
Estas d iversas dimensões da justiça interagem e po dem f ormar um quadro
analítico út il na avaliação de políti cas e prog ramas de ação públicos e privados
quanto aos seus contributos no campo da justiça.
Figura 2 - As múltiplas dimensõ es da justiça
Fonte: Ela borado pelo auto r a pa rtir de Silveira, A. (2016)
1
A extensão dos probl emas da su stentabilidade n a actu alidade parece e xigir
também novos entendimentos sobre o elo entre direitos e deveres.
Autores como Onora O´Neill su blinham que o propós ito da justiça não pode ser
bem-sucedido apenas com o reconhecimento de direitos; este t erá de ser
acompanhad o por um reconheci mento de deveres i gualmente explícito. Pa recem
1
‘ The multi ple mean ings of justice in the c ontext of the transition to a low carbon economy ‘,
University of Ca mbridge I nst itute for Sust ainability Lead ership (CISL), Wor king P aper 02/2016
49
existir cada vez maiores exigências para aqueles que u sufruem de maior poder no
sistema económico global.
Não se vislu mbra, poré m, a possib ilidade de r econhecimento l egal d os deveres de
multinacionais na pro moção de uma sustentabilidade expli citament e justa. Resta
a possibilidade que, por via do empoderamento de consumidores e da sociedade
civil, se “normalize” u ma ética que possa faz er emergir novas no ções de dever e,
em últ ima análise, maior justiça na contestada era do Antropoceno. Uma resposta
ao repto lançado pelo Ministro do Ambiente, no sentido de gar antir o acess o a
informação sobre a pegada ambiental e social dos produt os que chegam às
cadeias de distribuição, constituiria um pass o crucial nesse sentido.
André Silvei ra é investigador de pós -doutora mento no Instituto de Ciência s Sociais
da Universidade de Lisboa ( ICS-ULisb oa ).
50
Coração, cabeça e estômago
Luísa Schmid t 12 de ou tubro de 2016
título de célebre roma nce de Camilo Ca stelo Branco – ‘Coração, C abeça e
Estômago’ – serve bem de mote para o Barómetro da
Sustentabilidade
1
cujos resultados foram apr esentados no passado mês d e
Setembro.
Em termos muito sintéticos, destacam- se algumas dimensões presentes n a
sociedade portugu esa marcada na actualidade pela ressaca d e u ma crise ainda
não resolvida e por fort es clivagens sociais, g eográficas, c ult urais, geracionais…
A parábola cami liana refracta -se e diverge mas não é contraditada.
O inquérito que enqua dra o B arómetro arranca com um conjunto de questões
gerais, pelas quais pr ocuramos saber em q ue sectores económicos acham os
portugueses que o país deveria investir no fu turo próximo. É acima de tudo na
‘educação/formaçã o’ e l ogo a seguir no ‘ turismo’. A ‘educaç ão/formação’ tornou -
se entre nós um pas saporte d e esperança, não só como capacitação para o
emprego e a dignificação social numa sociedade que ainda recorda a humilhação
do analfabetismo, mas também como necessidade de decifrar uma realidade cada
vez mais complexa, para a interpretação d a qual as pessoas sente m faltar -lhes
ferramentas. O ‘tu rismo’, que tem comuni cado bem o seu suc esso, tornou -se
importante para a auto -estima do pa ís no s eu conjunto, além de ter assumido um
papel de ‘bóia de salvação’ da crise, mostrando capacidade de estender raízes
profundas na sociedade c ivil e na sua diversidade (gráfico 1).
1
O Barómetro da S ustentabilidade tem c omo ob jectivo c ontribu ir para a sust entabilidade so cial,
económica e a mbiental do país. A sua operacio nalizaçã o consiste num inquérito por questionário
aplicado direta e pessoal mente a uma amostra representativa da população portuguesa – I
Grande Inquérito so bre Sust entabilidad e em Portugal – que se rá poste riormente replicado c om
abordagens semestra is ou anu ais mais focadas. T rata -se de u m inquérito pioneiro que ex plora a
sensibilidade, os valores, o conheci mento e as represent ações socia is dos port ugueses sobre
Sustentabilidade .
O
51
Gráfico - 1 Sectores em que o país d eve inv estir
Fonte: Barómet ro da S ustentabi lidade
Mas os resultados também apontam para a existência de duas visões geracionais
distintas, que se polar izam neste e noutros pontos do inquéri to: p ara os m ais
velhos ( e menos instru ídos) continuam a ser importantes os sectores da
‘agricultura/pecuária’ e do ‘comércio’. Já a geração mais nova e mais escolarizada
é explícita na valorização das ‘ energias renováveis’, d as ‘novas
tecnologias/investigação’ e do ‘ambiente’. Est a é, afinal, também a geração m ais
marcada pela adesão aos valores ecológicos, que mais ou viu falar na p alavra
sustentabilidade e que apresenta ní ve is de preocupação mais eleva dos com o
problema das alteraç ões climáticas.
Como apontamento, i mporta ainda chamar a atenção p ara os sect ores ‘Mar’ e
‘Florestas’: apesar de cruciais nu m país m ais marinho do que terrestre e mais
florestal do que agrícola, foram pouco referidos, o qu e indica even tual falha na
eficácia da comunicação. E isto é surpreendente. Uma vez que a poluição do m ar
e acima de tudo os incêndios f lorestais (o i nquérito foi aplicado ainda antes d este
verão!) foram os problema s ambi entais mai s ref eridos e a requerer medidas
eficazes (Gráfico2).
52
Gráfico - 2 P reocupaçõ es amb ientais p rioritá rias
Fonte: Barómet ro da S ustentabi lidade
No qu e concerne ao t ema das Políticas Públicas, n ão d eixa sombra de dúvida a
prioridade que toda a população portuguesa atribu i às áreas sociais,
nomeadamente a apo sta na boa prestação de servi ços ( educação, saúde) e
também na s egurança pú blica ( sobretudo mul heres, idosos e suburbanos).
Podemos afirmar que o Estado social, qu e chegou t arde ao p aís, tornou -se e
mantém-se um valor muito prezad o . Este su blinhado é, aliás, f ortemente
consistente com o s entido do colectivo que os port ugueses mos traram noutras
áreas e que passam p or valo res como a solidariedade e a preocupação com as
desigualdades sociai s e territoriais ou com os salários j ustos (G ráfico 3).
Gráfico 3 - Prioridades nas po líticas públ icas
Fonte: Barómet ro da S ustentabi lidade
53
Passando ao t ema da Sustentabilidade, a maior parte dos portugueses já ouviu
falar sobre ela, sobretudo através dos media. Mas muit o mais nas suas dimensões
económica (su stentabilidade das conta s!) e ambiental (sustenta bilidade do
planeta!), registando-se menor articul ação à dimensão social (desigualdades,
coesão) e sobretudo à dimensão de governan ça – que remete para a participação
cívica ( Gráfico 4). E, de facto, o associativismo e sobretudo o vol untariad o
continuam a ser pouco significa tivos entre nós e, existindo, concentram-se
sobretudo nas áreas tra dicionais do assistencialismo – ‘saúde e assist ência social’
(Gráfico 5).
Gráfico 4 - Já ouviu fa lar do t ermo s ustentab ilidade?
Fonte: Barómet ro da S ustentabi lidade
Gráfico 5 - Participaçã o em o rgan izações não lucrativas
Fonte: Barómet ro da S ustentabi lidade
54
Dir- se -ia qu e a participação cívica em Portu gal está sobretudo organizada pelas
práticas de dádiva e de partilha – o ‘bom coração’ -, e nas relações directas i nter-
pessoais, de proximid ade, ligadas à fam ília e à vizinhança, e qu e se ve jam a
produzir efeitos. Trata -se de u ma atitude de generosidade mu ito importante em
termos de coesão soc ial, mas que d e certo modo f echa os hor izontes cívicos num
campo limita do, desmobilizando u m associativismo de obj eti vos ma is exigentes
de es cala na cional ou global e u m sentido do colectivo mais amplo. Esse s
limitados hor izontes c ívicos do sentido da participação são consistentes com o
historicamente frágil registo da sociedade civil em Portugal.
Nas ações a f avor do ambiente, os port ugueses também fa zem mais ações
individ uais e de â mbito doméstico ou caseiro (e.g. reciclagem, poupança de
eletricidade ), do que participam em ações coletivas a favor do ambie nte (e.g.
limpeza de florestas e áreas afetadas pelo lixo ou plant ação de árvores) ( Gráfico
6). Contu do, o marcador geracional mais u ma vez conta: pessoas com mais
escolaridade e es calões etários mais baixos parecem potenciar a participação,
sobretudo em acções coletivas viradas para o bem comum.
Gráfico 6 - Frequê ncia de açõ es a favo r do a m biente
Fonte: Barómet ro da S ustentabi lidade
Quanto à questão do consumismo, depois dos anos eufóricos de promoçã o e
adesão à sociedade de consumo em Portugal, as pessoas foram obrigada s a
inverter esse sentid o.
55
Vimos na dinâmica part icipativa que os portu gueses são mobilizados pelo ‘ bom
coraçã o’. Ora na qu estão do consumo são muito movidos pelo bo m senso – a
‘cabeça – r egistando-se actualmente uma sensibilidade e uma atenção grand e às
questões de consu mo. Identificámos u ma rel ação s em ântica import ante entre a
palavra ‘ sustentabilidade’ e ‘consumo responsável’ ( Gráfico 7). De resto, os
portugueses acreditam que, para aumentar o consumo resp onsáv el, é preciso
promover a produção e o comércio de proximidade e apost ar em mais
informação, tanto através da rotu lagem dos produtos como através de
campanhas para ajudar à mudança dos padr ões de consumo. Esta aposta maior
na produç ão e no co mércio de proximidad e é reafirmada pela te ndência clara
para valo rizar ma is a produção nacional e local. E é consistente com a valorização
das re lações interpessoais directas de proximidade e com os re sp ectivos vínculos
de confiança e reciprocid ade.
Gráfico 7 - Dimensõ es c ognitivas da suste ntabilidade
Fonte: Barómet ro da S ustentabi lidade
E com que perfis de consumo mais se i dentificam os port ugueses? Destacaram -
se os perfis de ‘con sumidor - constrangido’ (dão importância à gestão de
poupanças) e o de ‘ consumidor l ivre - escolha’ ( desejam ter ao seu dispor u m l eque
variado de produtos para optar) – o qu e tem a ver com a autonomia da escolha e
a importância de n ão se sentir exc luído dos lugares e ocasiões de consumo, o qu e
está ligado à auto-esti ma e autonomia p essoal. Por ou tro lado, há novos padrões
emergentes nos perfis de consumidor - ‘ consumidor ético’, ‘ consum idor
56
identitário’ e ‘produtor - consumidor’ - muito mais sensíveis aos processos de
produção (Gráfico 8).
Gráfico 8 - Pe rfil do consum idor port uguês
Fonte: Barómet ro da S ustentabi lidade
Como resultado, verificámos que, com a crise e as restrições ao consum o, alguns
grupos sociais mais escolarizados, num acto de bom senso, fizeram da
necessidade virtude e passaram a consumir com mais c ritérios e qualidade.
Contudo, para outros grupos sociais mais c arenciados a crise produzi u o célebre
“efeito de t únel” – em que a f alta de di nheiro destroçou t odos os critérios de
consumo – qualidade, rot ulagem, etc. Como esse processo foi acompanhado pela
fragilização do Estado social que a crise envolveu , retirou -se o patamar de sol idez
– de chão social – a estes grupos desfavorecidos e vitimad os.
E o que mudou efectivamente com a crise? A es magadora maioria dos
portugueses alteraram as suas pr áticas de con sumo e la zer, arrepiando c aminho
depois de anos de instigação ao con sumo (só 30% declararam nã o o ter feito)
(Gráfico 9). Primeiro de tudo, passaram a g astar menos dinheiro e a comprar
mais barato. Mas a crise levou também um segmento de consumidores mais
atentos a procurar ma is informação e a preparar soluções de consumo final ma is
racionais (levar ma rmi ta para o emprego, prát icas de autoprodução e de troca).
63
An ethical framework for th e su stainable
development goals: ruu d lubbers and the
earth charter initiative
Fronika de Wit 7 de m arço de 2018
n February 14, 2018, Dutch former Prime Minister Ru ud Lubbers passed
away at t he a ge of 78. Lubbers was the Netherlands youngest an d longest -
serving Prime Ministe r, governing the cou ntry between 1982 and 1 99 4. W hen I
received the news, I immediately remembered the time I had the ch ance to meet
Mr. Lubbers in person. About 12 years ago, on January 28 2006, I wa s invited to
a meeting of the ne wly established Earth Chart er Youth Network .
Earth Charte r A mbassado r Ruud Lubbers in 2016
Source: “ Ruud Lubbers 201 6 ” by Sebastiaa n ter Burg
is licensed und er CC BY - SA via Wiki pedia
O
64
Ruud Lubbers w as there t o promot e the Earth Charter : A declaration of
fundamental principles for building a just, sustainable, and peaceful global
society for the 21st cent ury. When reading this definition nowa days, it is easy to
draw a link with the United Nations Sustainable Development Goals ( SDG s ) ,
adopted in 2 015 as p art of the 2030 Ag enda for Sustainable Develo pment . As a
tribute to Ruud Lubbers, this post compares the Earth Charter Principles with
the SDGs, shows how t hey are complementary frameworks, and emphasize s how
the SDGs could use Ruud´s Earth Charter a s ethical inspiration.
The idea for the Earth Cha rter w as born in 199 2 at the Rio de J aneiro E arth
Summit , the United Nations Conference on Environment and Development, and
a draft version w as then developed. Howe ver, the time was not right and
achieving consensus amo ng Heads of State was difficult . In 1994, Chairman of
the Earth Summit M aurice Strong and Mik hail Gorbachev started the Earth
Charter drafting process as a civil society init iative. After a highly i nclusive and
participatory process, they w ere able to re ach global consensus on t he meaning
of sustainability and t he challenge of sustainable development. The Eart h Charter
was presented in March 2000, at the UNESCO headquarters in Paris. Bringing
together the visions of people and organizations f rom all over the world, the Earth
Charter is a strong example of bot to m-up development and represents the
world´s common goals and shared values.
The Charter is divided into 4 sections: I. Respect and Care for the Community of
Life; II. Ecological Inte grity; III. Social and Economic Ju stice; and IV Democracy,
Nonviolence and Peace. Ea ch section contains 4 principles, with a total of 16
principles. W hen comparing the 16 Earth C harter -Principles (ECPs) with the 17
Sustainable Developm ent Goals (SDG s), we can s ee a lot of overlap: ECP 9 and
SDG 1 both talk about eradicating poverty; ECPs 3 and 16 and SDG 16 about peac e
and justic e; ECPs 2 a nd 7 a nd SDGs 11 and 12 about sustainable lifestyles.
However, there is a big difference in w ording: where SDG 11 talks
about “Sustainable C ities a nd Communitie s”, ECP 2 refers to “Care for t h e
community of l ife with understanding, com passion, and love”. Also, the Earth
Charter holds a more holistic view of t he w orl d: where the SDGs l ook at Climate
( SDG13 ), Life below Water ( SDG 14 ) and Life on Land ( SDG 15 ) sep arately, t he
ECPs refer t o the integrity of Earth´s ecological systems and re cognize the
65
interdependence of ecological protection, equitable economic development an d
social justice .
The Earth Charter is more focussed on the ethica l and s piritual d imension of
sustainable d evelopment. Ruu d Lubbers, w ho was a very active Earth Charter
Embassador, called this the fourt h ´P´ : People, Planet, Profit and Pneuma .
Pneuma comes from the ancient Greek wo rd for “breath” and in a religious
context for “spirit” or “sou l”. Lubbers was e xpressing t he nee d t o include
spirituality in what we are doing and t he way we address challenges. This i s where
the Earth Charter brings an added valu e t o the SDG s: it provides an ethical
framework for putting t he SDGs into practice. Now the question rise s: why were
the SDGs accepted by the UN General Assembly and the Earth Charter not?
Although the Charter was meant to be adopted in 1995 (and then postponed to
2000), u ntil today it has not bee n adopted as an official UN document. It is
actually an example of one of the most vigorously contested conflicts between
bottom-up and top-do wn environmental governance. The language used in the
Charter does not com ply with what a U N document shoul d look like and, eve n
more important, there is a fundamental incompatibility of i deologies . The SDG s
emphasize economic d evelopment, environmental management to serve human
need and top-down environmental g overnance. The Ch arter on t he other hand,
is ambivalent about fu rther economic grow th and its support ers attribute
intrinsic value to non-human entities.
The 17 UN -Sustai nable Develop ment Goa ls we re laun ched in 2015
Source: “ Uni ted Nati ons Sustai nable
Development Logo” by United
Natio ns via Wikipedi a
66
In my opinion, the SDGs have a rather Eurocentric perspective of “Sustainable
Development” and do not incorporate different w orldviews of the Global South .
The Colombian-American anthropologist Arturo Escobar summariz es thes e
worldviews from the South as a search for post-development instead of the
Western post-modernity . An example of a wor ldview from t he Gl obal South is t he
concept of Sumak Kawsay , the Quechua word for ´G ood Living´. Based o n
indigenous ontol ogies, it stands for a a harmonious coll ective development t hat
concei ve s of the individual w ithin the context of t he social and cultural
communities and his or her natural environment. Anot her perspective coming
from the Global South and strongly linked to the Earth Charter is t he Rights of
Nature Movement. Rights of Nature is t he recognition and honoring that Nature
has rights.
Although it was the intention of t he Earth Charter to bring something new and
inspiring, something o ut - of -the-box, t he UN prefers to stay inside its Western
worldview-box. With t he mobile app Maptin g , developed in Costa Rica in 2016,
you ca n discover more connections between the Earth Charter and the SDGs.
Mapting, a contraction of “Mapping” and “Acting”, is a platform where you can
share and browse pos itive actions. Unfortunately, the Earth Charter will not make
it further than an online platf orm, simply because it does not f it the UN -mold.
Nevertheless, Ruud Lubbers´ “People’s Earth Declaration” is a n example of a
more bottom-up, inclusive approach to Sustainable De velopment and connects
the targets ( SDGs) with t he fundamental shared values that we need to get there.
Fronika d e Wit is a P hD student at t he Institute of Soc ial Sciences o f the Univer sity of
Lisbon ( ICS-ULisboa ) , i n th e Doctoral Progra mme in Climate Ch ange and Sustainable
Development P olicies .
67
Urban food gardens a nd the sust ainable
development goals: blooming opportunities
for local governan ce?
Tainan Messina 30 de m aio de 2018
ne of t he first things that called my att ention i n Lisbon, when I first a rrived
from Brazil, w as the amount of u sed and u nused green areas ava ilable
within ci ty limits. As I disembarked straight from Rio de Janeiro, a city that
struggles with land scarcity, real estate development and gentrification, Lisbon’s
land avai lability confused and amused me at the same time. On my everyday
commute, I wo uld think a bout all the poss ibilities these areas had to offer to local
communities` improvement, for food productio n enhancement and for t he
overall promot ion of the United Nat ions Sustainable Development G oals ( SDGs ) .
Worldwide, cities have the challenging task of how to pursue multiple SDGs, and
Urban Food Gardens (UFGs) may present an interesting wind ow of opportunity,
with numerous option s. These gardens, w here ‘open spaces ar e managed and
operated by members of the local community in which food or flowers are
cultivated’ within u rban or peri -urban limits, have t he potential t o address bot h
municipal specific issu es or w ider regional goals if properly integra ted in
local/regional po l icy fr ameworks, boosting Lisbon’s food security, f ood systems’
design and ove r all social well -being.
When we look at urban planning strat egies and policies, f ood syst ems are less
visible and se em to be less of a priority than ot her systems, like housing,
transportation and employment generation, and Lisbon is, in t his sense, no
different. However, a s urban populations grow and climate change impacts
become more frequent, f ood system s ne ed to be l ooked at more comprehensively,
and different institutional ar rangements mu st be considered in order to t ackle
key food security and urban challenges.
Even though UFG s are not a new element within wid er urban stru cture s, they are
beginning to play a novel role. It is now ac knowledged that they can play an
O
68
important rol e in reducing urban food chains’ emissions, while encouraging l ocal
and organic urban agri culture. While I believe U FGs touch most of t he mul tiple
SDGs ( directly or indirectly), four of them in particular allow for a mo re thorough
discussion: 2 (Zero Hunger), 11 ( Sustaina ble cities and communities), 12
(Responsible consumption and production) and 13 (Climate Action); These, if
understood f rom an hol istic in tegrated way, help us identify the f ull potential of
UFGs.
Soil improv ement a nd plant ing a ctivities
Source: Circul ar Sch ools Project
To illustrate my point, I will break down a f undame ntal issu e such as famine. Can
you ima gine a world where no one goes to bed with an e mpty stomach (Objective
2)? I can’t. But w hile I romanticize abou t it, I also beli eve t hat moving
towards urban su bsistence may create alternatives f or vulnerable people and
openings for obt aining cheaper high -quality food. By developing op tions WITH
people and not only FOR people (e.g. public so up kitche ns, f ood stamps, e tc.), we
empower communities regardless of t he so cial, economic an d pol itical ind ividual
status. In that context, UFGs are well known f or connec ting multicultural groups,
promoting social inter action and inc lusion, while empowerin g loc al residents.
Additiona lly, UFG s provide local c apacity building opportu nities, that could b e
69
channeled by local agencies to promote u rban agricult ure activities, as well as
encourage su stainable practices in urban metabolisms, such a s food composting ,
water saving, soil protection, and so f orth.
A shift to sustainable cities and communities ( Objective 11) is ever more u rgent
as over 54% of the worl d’s population already resides in urban areas ( 2014), and
by 2050, this f igure may r each 66% . Therefore, solu tions t o promot e more
resilient n eighborhoods must be e xperimented and incentivized b y local
authorities; Concurrently, urban agenda’ s targets are grow ingly focusing in
nature based-solutions, in the greening of citi es, in vegetation regeneration and
in t he promot ion of UFG s. Without plants the re is no life, hence, b y supporting
UFGs not onl y plant biomass increases withi n u rban limits, but it also enables
more absorption surf aces , attracts biodiversity ( e.g. pollinators), as well as
it attenuates heat island effects . This is particularly significant a s the global
Climate is changing a nd its impacts are mo re severe in inadequately designed
urban areas, worseni ng climate change risks such as f looding, sea l evel rise and
droughts. This inevitably compromises Ea rth’ s capacity to keep its equilibrium.
Climate action ( Objective 13), through l ocal adaptation an d mitigation ef forts is
thus fundamental. However, w e must mak e sure that t he “sol utions” don’t
become themselves part o f the problem. This is particularly import ant as local
actions can displ ace iss ues to other sectors or into t he future . So, we have to first
connect the dots. By d ots I mean peo ple, by p eopl e I me an n eighborhoods and by
neighborhoods I mean cities, and b y cities I mean countries. For every action
there will be a severe rea ction and we have no more time to pretend we a re alone
in this plane t and that one’s action won’t harm the wh ole system.
A good w ay to s tart is to focus o n responsible con sumption an d
production (Objective 12), aim ing to reduce ecological foot prints (from
individ ual to country’s level), by improving t he way we manuf acture and consume
goods and exploit natural resources. In t hat matt er, proper implementation and
policy making f or UFGs locally, could strat egic ally all ow these areas to become
important parts of the city’s food system; to promote awareness for sustainable
development and lifes tyles; and could also integrate circular economy agendas
(e.g. by support ing composting practices, wa ste upcycling, etc.). Th e pro motion
of composting in UFGs might decrease the amount of solid waste directed to
70
landfills or treatment f acilities, closing loops and re -nourishing t he soil. It could
also get people to consider thei r own waste pr oduction.
Preparing t he com post er
Source: Circul ar Sch ools Project
Thus, wit h so much land stil l available, Lisb on coul d take a big step further to
pursue SDGs, by promot ing and u p scaling f ood gar dening activities aro und the
city, throu ghout less bu reaucratic ways than those in place . Fo r that, local
stakeholders, su ch as city and borou gh-level aut horities need to foster ne w ways
of thinking, planning a nd implementing local sustainability policies. To do so, we
should listen to what people have t o say, involving reside nts in transformation
processes and decision -making; also by l etting them aw are o f individual
consequences of disconnecting the dots. It might take l onger, but it might bring
more f ruitful outcome s, such as more participative an d l ess administrative
approaches in policies in the long run.
All in all, current food policies f ail to addr ess the problematic nature o f food
systems, since they give citizens no sense of th e many relations that exist between
the parts and among food and other systems. Above all, they fail to ou tline t he
food system as an important urban system that city planners and policies should
consider transversa lly . In this respect, UFGs may work as laboratories for
71
multidisciplina ry studies and pol icy experimentation, allow ing more holistic
methodologies to be t ested, bridging different public sectors an d enabling a more
systemic look into city’s f ood systems and how their parts interconnect.
Tainan Mess ina is a PhD student at th e Institute o f S ocial Sciences of the University
of Lisbon ( ICS-ULisboa ) in the Doctoral Programme in Climate Chan ge and Sustainable
Development P olicies .
72
Combate ao plástico nos oceanos: est ará
Portugal a preparar a s suas tropas?
Sónia Cardoso 20 de junho de 2018
lhe à sua vo lta e conte o número de objec tos feitos i nteira ou parcialmente
em plástico. Para facilitar a tarefa, peço qu e o faça apenas no perímetro de
1 metro. Surpreendido?
A presença omnipresente do plástico no nosso dia -a-dia faz com que passe
despercebido muito f acilmente, contudo, um olhar m ais at ento torna - o
impossível de s e camuf lar: está nos nossos computadores, tel emóveis, em
recipientes, brinquedos, carros e até cosm éticos. O plástico f oi conce bido para ser
durável e resistente. Estas características, aliadas à su a fácil utilização e b aixo
preço, democratizaram u ma produção com crescimento exponencial (sobretu do
desde a Segunda Gu erra Mundial). De acordo com Ge yer e colegas ( 2017 ), os
mesmos motivos que levaram à “libertinagem” da u tilização deste material,
nomeadamente a su a r esistência e durabilidade, dificultam a sua assimilação na
natureza no seu fim de vida ú til. Os mesmos autores alertam: “without a well -
designed and tailor -made m anagement strategy for end- of -life plastics, humans
are conducting a singu lar uncontrolled experiment on a gl obal s cale, in which
billions of metric tons of material w ill ac cumu late across all major t errestrial a nd
aquatic ec osystems on t he planet” (p .3). De facto, dados das Nações
Unidas relevam que todos os anos treze mi lhões de to neladas de plástico vão
parar a o s oceanos.
Um dos grandes pri meiros sinais de alert a foi dado em 19 97, aquando da
descoberta acidental da mancha de li xo do Pacífico pelo capitão Charles Moore.
No Verão de 2017, resultou da Conferência dos Oceanos u m documento
elaborado por 193 Estados-membros das Naç ões Unidas no qual estes reiteraram
o compromisso de implementar estratégias robu stas e de l ongo prazo para
reduzir o u so de plásticos e microplásticos, em prol da diminuição da polui ção
marinha . Uns meses mais tarde, a série documental Blue Planet II ( BBC,
O
79
substitutes. He blames climate sc ientists for “ult imately choosing to censor their
own research”. He foresees a tu rgid future for the high emitting consumers,
facing increasingly strident demands for ever higher levels of mitigation, at f aster
time sca les, than any might personally or pol itically be w illing to tolerate. By
remaining silent, he notes, “…we do s ociety a grave disservice — the
repercussi on s of which will be irreversible”. Anderson appears to be laying a
challenge to the clima te science community to take a responsible and credible
lead.
Demonstratio n in Bon n, Germany , at t he begi nning of the U nited Na t ions
Conference on Climate Chan ge (COP 23)
Source: “ Demo i n Bonn a t th e beginning o f COP 23 ” by Spielvo gel is l icensed und er
CC BY- SA , via Wikimedi a Commons
We are now confront ing the unavoidable. Within a measurable period of time the
planet could become uninhabitable through oppressive humid h eat, u nremitting
drought, prolonged flooding across wide areas so med ium term community sc ale
adaptation be comes almost impossible, and sea shores w hich ar e menacing in
tide and storm and salty drinking water. Fleeing such endangered z one s where
over 500 million live in dense cities and fishing f arming com munities is
decreasi ngly possible. The sheer scale of these disruptions, already apparent in
the news bulletins of this torrid su mmer, will test our humanitaria n morals
beyond thei r cultu ral capabilities.
80
Disheartenment, dissonance, neutralization and anaesthetism are powerful
contributors to mainta ining the gap betw een preferred and d esired action and
uncomfortable knowledge. Dissonance enables the uncomfortable transgression
of k nown norms and morals for other valu es. It is just possible throu gh
dissonance reduction to acquire moral frameworks for consistent sustainable
action. Neutralization i s the suppression of d issonant feelings through
comforting alternative bu t clashing behaviors. T he key here is t o centre moral
norms in such a way t hat inconsistencies b e come so apparent that they can no
longer be neutralized. Anaesthetism is the blanking out of any sense of unease
and guilt. Only w hen these attribut es are calmed, can anaesthetism be made
redundant. Removing ambiguity an d i gnorance, displacing u nwanted
inconsistencies, buttressing social virtue and identity, and reinforcing consistent
social norms become t he central tenets of t he interface betw een morality, science,
personal ethics, and community behavior. Link t he personal journey t o the
emergence of community empathy and support ed action an d t here is a glimmer
of hope that the gap can be closed.
One poss ible way forward is t o price fossil (not biological) greenhouse gases at
the point of exploration and production. Thi s w ould neither be a ta x nor a levy,
as such words are toxic to those who will have to pay. This will only b e possible if
the dark forces are confronted by moral empathy for the future of humanness
which is so tragically being lost. Hence the need f or a more neutral phrase for
such levies, such a s a carbon contribution from the present for the future. This
would create vast funds for enabling the low carbon transition and associated low
carbon consumption to take place al l over the world. It could be based on the
principles of the UK Big Lottery Fund. Resources of investment, people and
training could be made available f or a series of community supported and charity
backed schemes to help the poor be better off in a low c arbon economy and
society, to offset the costs of a daptation and f oresight preparedness for t he global
vulnerable, and to foster for all manne r of low c arbon lifestyles and technologies.
In the course of time such contributions would have to be matched b y additional
contributions from greenhouse gas emitt ing consuming behaviour. This wou ld be
necessary to get rou nd the “rebou nd” effect . This is the kick -back when
consumers feel they are able to use an efficient appliance more. Such a very
81
controversial move would have to await t he success of t he initial p hase of the
carbon contribution journey.
Sadly the practicalities of any gl obal scale carbon contribution funding source
would be almost impossi ble to mana ge on the l arge scale. Then scope for
corruption, syphoning off and embezzlement w ould be just too t empting. Yet, if
these fu nds could be channeled into community sca le sc hem es a nd subject to
scrutiny and t o account ability of delivery, there might be a gl immer of hope. But
for this to be achieved, t here would have to be compassionate humanness and
decency of treatment on a universal scale.
Some hope. Gai a 3 l ooms. W e have at m ost a decade to get these su ggestions u p
and running, or w e w ill succumb to the an esthetics of moral abnegation. The
reality of the changing climate and the litany of suffering already in place suggest
that at the very least we should carefully examine car bon contributions for t he
sake of safeguardi ng bot h humanness and humanity.
Tim O’Riordan is Emeritus Professor of Enviro nmental Sciences at the University of
East Anglia (UEA) in Norwich UK. He is invol ved in many local and international
projects and networks, including Future Earth. He has taught an d supervised in the
Institute o f Social Sci ences o f the University of Li sbon ( ICS-ULisboa ) PhD Pro gramme
on Climate Cha nge and P o licies for S ustainable Development for over a de cade.
82
Invisibilidade e n egatividade: o discurso
mediático sobre ambiente em Po rtugal
João Carlos Sousa 21 de novembro de 2018
a sua obr a seminal a D emocracia n a Améric a , Alexis Tocqueville chama
atenção para a central idade dos media na f ormação da opinião pú blica.
Deste ponto de vista, aos med ia ca be tornar visíveis os temas
considerad o s de interesse pú blico, desde a escala loc al/regional à gl obal. A
opinião pública surg e, desta forma, na área d e sobreposição do s meios d e
comunicação e d a polít ica, contribuindo para o processo informati vo que está
subjacente à ação polít ica, à participação e m obilização cívica, e à fo rmulação de
processos delibe r ativos no seio da esfera pública.
Tradicionalmente, c abe à imprensa escrita, à rádio e à televisão o papel d e
mediaçã o, que recorr endo à publicidade, dão visibilidade às questões de interesse
público. Nas ú ltimas décadas tem -se assistido à intensificação e pr oliferação de
canais digitais que permitem a comunicação, interação e, sobretu do, difusão de
informação à escala pl anetária, numa aparente t endênc ia de secundarização do
papel do jornalismo e, em particular, dos jornalistas. Um pouco por toda a
Europa, os sectores de media t radicionais , mais propriamente a rádio e a
televisão, superam a internet (cf. Figura 1) no qu e diz respeito à confiança
depositada pelos cidadãos quand o acedem a conteúdos informativos.
Figura 1 - Sector de media qu e inspira mais confiança na Eu ropa
Fonte: Net T rust Index 20 17
N
83
O panor ama europeu é relativamente hom ogéneo quanto à desconfiança em
relação aos diferentes sectores, incluindo os media sociais. A área dos Balcãs é
aquela onde a desconfiança relativamente à imprensa escrita e à televisão é
maior. No entanto, fal amos em consumo de conteúdos informativos e noti ciosos
nas pl ataformas digitais em Port ugal, devemos ter em linha de conta o domínio
do Facebook enquan to meio privilegi ado de os portugueses acederem e
partilharem informaçã o, como é re ferido no e studo Práticas e Cons umos Dig itais
Noticiosos dos Portu gueses em 2016 . O interesse e e nfoque dos meios de
comunicação sempre f oram determinantes p ara a publ icidade e vis ibilidade do s
problemas que afetam as sociedades. No cont exto atual, os media tradicionais
confrontam-se com a concorrência d os media sociais digitais.
Figura 2 - Sector de media qu e inspira menos confian ça na E uropa
Fonte: Net T rust Index 201 7
Deste modo, a opinião pú blica e o que dela emana é muito condicionado pelas
representações que os media fazem sobre os mais diversos assuntos agendados.
Numa sociedade como a portugu esa, em que os media em geral e a t elevisão em
particular são os principais ag entes de socializa ção pol ítica e de con tacto com o
mundo de acordo co m o relatório Reut ers Digital News Report 2016 , as
representações mediáticas feit as pelos d iferentes órgãos de comunicação social
dos diferentes sectores detêm um poder de difusão incomparável. Contribuem,
por isso, de forma decisiva pa ra o debate público.
Tomemos como referência a cob ertura feita pelos med ia portugueses ao longo do
ano de 2016. No âmb ito mais vasto d e apoio às atividades letivas e científicas
desenvolvidas no Laboratório de Ciências da Comunicação do ISCTE-IUL ,
o Barómetro de Notícias cons iste na recolha e análise dos pr incipais destaques
84
noticiosos. Semana lm ente é construída uma amostra de 413 peças publicadas
com destaque nos diversos noticiários dos diferent es sectores do s meios de
comunicação portugueses. Com base na an álise de conteúdo ao l ead das pe ças,
procede-se à definição dos t emas sobre os quais elas versam, poden do ser m ais
ou menos duradouros e, desta forma, pautar o cic lo informativo semanal.
Socorrendo-nos desta base de dados, calculámos a quantidade de trabalhos
jornalísticos relacionadas com questões com ummente associadas à temática do
ambiente no a no de 2016. Assim, de um total de 20405 trabalhos recolhidos, 118
versam sobre categorias t emáticas que são at ribuídas ao domínio ambiental (cf.
Tabela 1) , represe ntando um valor bastante diminuto (<0,01%). As temáticas
foram selecionadas a p artir do Sustentabilidade – Prim eiro G rande Inqu érito , no
âmbito do qual se questionou os portugu eses sobre os principais problemas
ambientais na atualidade. Uma nota de natureza metodológica e con ceptual pa ra
sublinhar o facto desta categorização, não ser da responsabilidade e da nossa
autoria. Ela é feita a montante no proc esso de construção do Barómetro. A
constituição de u ma amostra implicará sempre uma a nálise à semâ ntica lide das
notícias, p ara d esta forma garantir melhor e mais rigor n a construção
do corpus de análise.
Tabela 1 - Te mas a mbie ntais nos media portug ueses em 2016
Acessibilidade
3
2,5%
Património am b iental / natural
3
2,5%
Saneame nto básico
3
2,5%
Organização d o territór io
15
12,7%
Alterações climá ticas
16
13,6%
Centrais nucle ares
16
13,6%
Requalificação u rbana
20
16,9%
Proteção d o ambiente e p oluição
42
35,6%
Total
118
100,0%
Fonte: Barómet ro de No tícias LCC ISCTE-I nstitu to Uni versitário de Lisboa
85
No plano qualita tivo observa-se u m agenda mento diverso e he ter ogéneo feito
pelos media portugueses, refletindo as diferentes vertentes e a complexidade do
fenómeno amb iental na contemporaneidade. Assim, é visível n a Tabela 1 a
heterogeneidade d as questões que incluem, desde como “acessibilidades” ou
“requalificação u rbana”, passand o p ela “proteção do ambiente e pol uiçã o” ou pelo
“património amb iental/natural” até às “alterações climáticas”. Por o utro lado, a
distribuiçã o sectorial d as peças faz-se de forma assimétrica. Entre a rádio e a W eb
contam-se mais de 2/ 3 do tot al (72,8% ). Por oposição a s notíc ias oriundas da
televisão cifram-se em apenas 3,4%. Estes trabalhos apr esentam algu ma
concentração, particularmente entre as rádi os noticiosas como a Renascença
(12,7%) e a TSF (17,8%). As restantes distribuem-se entre os diversos meios de
comunicação de forma relativamente homogénea.
As questões de âmbi t o ambiental não parecem, c om efeito, d eter um poder
corrosivo no agendamento e intens idade dos ciclos semanais i nformativos.
Apenas 33,9% destas peças tiveram direito a estatuto de manchete. Por seu lado,
estes dados i ndi ciam a invisibilidade do a mbi ente e das questões a ele a ssociadas
na agenda mediática d os meios de comuni cação tradicionais. Se dur ante o ano d e
2016 f oram id entificados 118 trabalhos j ornalísticos no s d iversos sectores
de media , em 2017 foram identificadas 4 37 peças sobre “fogos florestais” no
período de 16 a 30 jun ho ( período subsequen te à tragédia de P edrogão Grande ),
o que não deixa de ser u m aparente contra dição. Com efeito, existem indícios de
que a c onstru ção not iciosa sobre questões am bientais segue uma rot ina na qual é
dada atenção a questões pontuais que são “inc apazes” de romper com a rotina do
agendamento. Contudo, existem episódios, com forte caráter humano e com forte
pendor dramático, co mo as duas vagas de in cêndios florestais de ju nho e outu b ro
de 2017, que têm o pod er de romper com esse agendamento. Nesse caso, assiste -
se à disseminação das notícias por sectores, incluindo os novos m edia digitais,
mas t ambém a u ma maior visib ilidade na ab ertura de noticiários e m anchetes nos
sectores m ais tradici onais. Estas ten dências indicam qu e o t ratamento
jornalístico das questões ambientais seguem um padrão relativamente próximo
ao padrão mais g eral do jornalismo, no qual o disc urso objetivo e racional dá lugar
à emoção e coloca a ênfase no lado humano e do seu sofrimento – personalização.
86
Uma tentativa de res posta, ainda que parcial, a o facto de Portugal ser, no contexto
europeu, um dos paíse s que apresenta valore s mais elevados no qu e concerne à
visão das alterações climáticas como cons equência de fator es human os, de a cordo
com o ESS8 , consiste em perspetivar a menor confiança dos portugueses
relativamente à informação proveniente e q ue circula nas redes sociais digitais
como o Facebook e/ou Twitter, onde, aliás, o impacto d as chamadas Fake News e
a contrai nformação int ensifica-se pela própria naturez a da arquite tura destas
plataformas online . Desta f orma, assumimos que a excessiva exposição a
informação é , a determ inada altura, o terreno fértil para a d esinformação.
Destas considerações resulta uma potencial agenda de investigaç ão que e stá
longe de se constitu ir e ainda m ais distante d e se conc retizar, para desse mo do se
compreender melhor o s fenómenos amb ientais e o modo como são construídas
as represent ações medi áticas sobre os mesmos e, desta forma, disponi bilizar mais
e melhor conhecimento à comunidade e a qu em infl uenciar política s públ icas de
prevenção, adaptação e/ou mitigação à s alterações climáticas e aos riscos a elas
associados.
João Carlos Sousa é licenciado em S ociologia ( 2009) e Mestre em Sociologia:
exclusões e políticas so ciais (2013) pela Universidade da Beira Interior. Desde junho
2016 que é investigador do OberCom . Em 2016 -20 17 foi bolseiro de Gestão Ciência e
Tecnologia no Obe rCom – Pal ácio Foz. Nesse mesmo ano (n ovembro) ingressou n o
projeto Medida Ligar - Eficiência Energéti ca para todos (ADENE ) , des envolvido no
Instituto de Ciência s Sociais da U niversidade de Lisboa ( ICS-ULis boa ). Atualmente
frequen ta o Programa de Doutoramento em Ciências da Comunicaç ão do ISCTE-
Instituto Universitári o de Lisboa, a p artir de 1 j aneiro 2019 com Bolsa Individual de
Doutorame nto.
ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS
BLOGUE ATS
GRUPO D E INVESTIGAÇÃ O AMBIENTE, TER RITÓRIO E SOCIE DADE DO ICS-ULISB OA
© A na H o r ta
© “ Global Warm in g", K huroshvili I lya
88
Introdução
s alterações climáticas são hoje consideradas o maior d esafio com qu e a
Humanidade algu ma vez se defrontou , uma verdadeira ameaça à
sobrevivência da e spécie humana . Os úl timos três anos foram sem dúvida
decisivos e revela dores da encruzilhada em que, no dealbar de 2019, a
Humanidade se en contra. Se, por u m l ado, se multiplicam as provas de que só um
enorme esforço de d escarbonização global poderá mitigar as consequ ências mais
catastróficas, por ou tro a s negociações globais sobre o clima veem-se dificultada s
pela em ergência de u m discurso polít ico p opulista. Este t em como grandes
bandeiras a oposi ção à agenda ‘globalista’ das negoc iações sobre o clima e o
regresso a um forte investimento nos combust íveis fósseis, em prol do
crescimento, a todo o custo, das economias nacionais.
O Blogue ATS na sceu, há três anos, no rescaldo do Acordo de Paris – que
inaugurava “uma nova arquitetura de gov ernança amb iental global” (João
Guerra, janeiro de 2 016 ). Foram três anos que assistiram a uma convergência sem
precedentes na agenda gl obal do desenvolvimento, com a integr ação dos países
em desenvolvimento nos esforços de redução d e emissões ao abrigo d o Acordo de
Paris ( entrou em vigor em 2016 e estava, em dezembro de 2018, ra tificado por
184 pa íses) e a adoção a nível global dos Objetivos do Desenvolvimento
Sustentável , sucessores dos Objetivos do Milénio (2000).
No entanto, desde 201 5 hou ve também sinais contrários que obscureceram a s
expectativas criada s por Paris e pela nov a ‘Agenda 2 030’ . Na sequência da eleição
de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos, estes anunciaram a sua
retirada do Acordo de Pa ris. O Brasil – berço da emblemática Cimeira do Rio
(1992), em que nas ceu a Conven ção da Nações Unidas sobre a s Alterações
Climáticas – anunciou, nas vésp eras da Conf erência das P artes sob re o Clima -
COP 24 , que retirava o convite para receber a COP25 (a realizar no fi nal de 2019).
A
BLOG UE ATS
G RUPO DE INV ES TIG AÇÃ O AMB IE NT E, T E RR ITÓ RIO E SO CI ED ADE DO IC S - U L ISB O A
BLOGUE ATS
GRUPO D E INVESTIGAÇÃ O AMBIENTE, TER RITÓRIO E SOCIE DADE DO ICS-ULISB OA
95
cerca de c em mil mil hões de dólares previst os para ajudar os países e m
desenvolvimento ne sta empreitada contra as AC. Todavia, rapidame nte
chamaram a atenção para o facto d e o acordo não especificar como e quem deve
pagar e qu em tem responsabi lidades específicas. Veremos se os próximos anos
(em que se espera qu e o acordo venha a s er ratificado pelos d iversos países e
organizações internacionais que o assinaram) não nos reservam surpresas
desagradá v eis e transf ormam u ma vit ória declarada num saco de promessas
vazias e inconse quente s.
João Guerra é investigador de pós -doutora mento no Instituto de Ciênci as Sociais da
Universidade de Lisboa ( ICS-ULisboa ) .
96
As alterações climáticas e o ordenamento do
território: ameaça e oportunidad e
Alfredo Leal Franco 20 de junho de 2016
s alt erações climáticas aparece m geralmente como o ambiente em risco e
uma ameaça p ara a humanidade, mas também podem ser vistas como u ma
oportunidade para esti mular uma mudança estru tural que f avoreça a resolução
de outros problemas. Analisaremos esta quest ão na per spetiva da int ervenção do
ordenamento do território nos proc essos de adaptação às alterações climáticas.
Fonte: Carto on de John Dit chbu rn via Inkcinct
Em qu alquer sociedade existe u m model o de desenvolviment o com um
paradigma subjacente que f unciona como matriz e referência p rincipal das
dinâmicas socioeconómica de um país, a ssim como da orgân ica da sua
A
97
governação. O paradigma de d esenvolvimento comum a todos os p aíses tem sido
o capitalism o e, nesse âmbito, confrontam-se hoje em dia os modelos de
crescimento económic o sem limites e o de dese nvolvimento su stentável, sendo
que o primeiro dá a p rimazia à economia, secundarizando os aspe tos sociais e
ambientais, e o se gundo salienta a re lação virtuosa que deve existir entre essas as
componentes económica, social e ambiental nu ma ótica de longo pr azo. As vi sões
de ord enamento do território são condicionadas p elos modelos de
desenvolvimento dom inantes e, e nquanto política pública, pelo papel que o
Estado elege na s ua relação com a sociedade.
O ordenamento do território tem dois momentos f ace às alterações climáticas de
origem antropogénica, o antes e o após. No antes de elas evidenciarem a sua
existência assim como os seus f ortes i m pactos, já s e confrontava c om grandes
desafios devido às mudança s aceleradas d e diversa índole ocorridas a n ível
mundial: globalizaçã o, mudanças demográficas, tendências de urbanização, com
a criação de gran des c idades, e de litoralização, na maior parte das vezes com a
ocupação de zonas de risco, aumento do con sumo de solo com a expansão das
zonas urbanas, consumo excessivo de recurs os natu rais finitos para além da su a
capacidade de regeneração e produção de uma carga cada vez mais insustentável
de resíduos. To das estas alterações ac on selham a reconfiguração das vi sões e
práticas de ordenamento do território.
No após, a emergência cr escente d as alterações climáticas complexifica mu ito
mais os anteriores desafios. Existe hoje u ma crise generalizada do cresc imento
económic o s em limite s, agravada pelos impactos das alterações climáticas que
continuarão no futuro, com uma intensidade, frequência e duraç ão cada vez
maiores. As alt erações climáticas pod em me smo ser vistas como a expressão
duma doença ma is pr ofund a na soc iedade moderna, em que os processos e
valores dominantes da economia política concentram crescentemen te a riqueza
numa minoria , tomando como a ceitáveis a i njustiça social e as externalidades
ambientais negativas.
Como resposta às alterações climáticas, as e stratégias de adaptação entram nesta
equação a montante e a jusante. A montante, apresentam u m modelo de
intervenção que va i inf luenciar o ordenamento do território, de mod o a que este
incorpore e dê resposta a essa nova realidade. Mas para além da adaptação, o
98
ordenamento d o território lida com u m c onju nto de ou tras questões e intere sses,
que podem ser conflitu osos ou mesmo cont raditórios com as necessidades da
adaptação às alterações climáticas. As sim, a ju sante as soluções de o rdenamento
do território decidirão pela opção que estiver mais e m conformidade com o
modelo de desenvolvimento existente, in do determina r o tipo d e adaptação que
irá ser implementado. O ordenamento do territ ório (OT) deverá então encontrar
soluções que poss am ref orçar sinergias entre os diversos interesses em presença,
limitando os confl itos, nomeadamente a tensão entre o modelo de adaptação à s
alterações climáticas qu e em princípio seria o mais indicado e o que terá de s er
adotado face a os mode los dominantes de desenvolvimento e de O T existentes.
Fonte: Carto on de John Dit chbu rn via Inkcin ct
Na perspe tiva de funcionamento top -down atualmente vigente a nível
generalizado, o modelo de desenvolvimento em vigor (entre outros possíveis) vai
determina r o modelo de ordenamento do t erritório ( entre outros possíveis), que
por sua vez vai determinar que modelo de adaptação às alterações climáticas
(entre out ros possíveis) poderá ser posto e m prática. Nesta pers petiva, pode
constatar-se que as assimetrias d o poder determinam p ara quem, onde e quando
os impactos das alterações climáticas são sentidos e o leque de r ecursos para a
recuperação das situações deles resultantes. Mas numa perspetiva alternativa
de bottom- up é possível percorrer o percurso inverso de relações de infl uência,
podendo haver até u ma ut ilizaç ão simultânea destas d ua s perspetivas numa
procura das soluções mais ade qua das.
99
As alterações climáticas, com os seus impactos, contribuem p ara aumentar a crise
global existente, de modo qu e a sua superação e consequente mudança de modelo
também deverão ocorrer a nível global. Assim, reforça -se a ne cessidade de alterar
a visão vigente de or denamento do território, mesmo ao nível do quadro do
modelo de desenvolvimento existente, o que não invalida que se coloqu e
seriamente a h ipótese de mudança do próprio modelo de desenvolvimento. E
qual será esse novo modelo de ordenamento do território?
Criand o u ma r esposta a esta qu estão, João Ferrão refer e qu e existe um “amplo
consenso quanto à necessidade de [adotar] novos valor es em relaçã o ao território
e às pr áticas de ordenamento do território” ( Ferrão, 2011 , pg. 124) e que o que
está em jogo é uma nova cultura, uma “c u ltura de território, uma cultura de
ordenamento de território, u ma cultura da aprendizagem, (…) uma cul tura de
mudança e de inovação social” ( idem , pg. 124). Assim, quanto à visão de
ordenamento, propõe a “adopção de con cepções neomod ernas” e de u ma “polít ica
de ord enamento mais eficiente e resilient e, mas t ambém mais justa e
democrática” ( ibidem , pg. 133).
Será que as novas vis ões de ordenamento do território e d e des envolvimento
propostas face às alterações climáticas vão também poder dar resposta a ou tro s
problemas existentes nas sociedades atu ais? Será qu e irão implicar o repe nsar d o
modelo gl obal da sociedade e produzir prop ostas para uma mudança mais ou
menos profunda do seu para digma e dos seus modelos a n ível generalizado?
Nesta pe rspetiva, a forte am eaça que as alterações c limáticas representam pa ra a
sociedade pod erá conter em s i o germe d as condições para a proveitar esta grande
oportunidade para a resolução dos se us principais problemas.
Alfredo Leal Franco é aluno de doutoramento n o Programa Doutora l em Alteraçõe s
Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Susten tável no Instituto de Ciências Sociais
da Universidade de Lis boa ( ICS-ULisb oa ).
100
COP-22: o fim das ilusões e a aliança
‘oleogarca’ EUA -Rússia
João Camargo 8 de fevereiro de 2017
om o fim da 22ª Conferência das Partes — COP 22 da Convenção-Quadro
das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, que decorr eu em
Marraquexe, terminaram também muitas d as suas il usões. Não t endo sido o
colapso negocial da COP 15 de 2009 , em Copenhaga, aqui colapsou
a esperança de se atingir o Acordo global preconizado na COP 21 em Paris.
Ilustração da alian ça e ntre T rump e Put in
Fonte: Joã o Camargo
A mudança d e preside nte nos Estados Unidos foi devastadora p ara as Nações
Unidas e para um caminho ne gocial rumo a um futuro c limático se gu ro. Se havia
algum conforto na ideia de qu e o s líderes mundiais tomariam a decisão correta
C
101
para evitar o caos climá tico que significa atingir e ul trapassar os 1,5ºC de aumento
da temperatu ra média até 2100, apesar de decorridos 22 anos de negociações a
meio-gás, tal conforto acabou em Ma rraquex e.
O resultado de 15 dias de negoc iação foi muito magro e sem avanç os em assun tos-
chave, como seja o ap oio financ eiro a políti cas d e adaptaçã o nos países mais
ameaçad o s; a adoção d e uma metodologia co mum para a medição das em issões
de g ases com efeito de estufa; ou uma maior ambição par a as propostas de c ada
país, cuja soma perfaz u m aumento de temperatura média acima dos 2ºC.
A eleição de Donald Trump para a pres idência dos Estados Unidos, u m candi dato
que sempre r ejeitou a existência d as alterações climáticas e prometeu rasgar o
‘Acordo de Pari s’, dom inou a cimeira desde qu ase o in ício. T al foi so lo fértil para
a inércia de uma COP que se a nunciava de ação. A hesitação das últimas C OP em
avança r p ara um acordo climático s eguro, principalmente por parte dos países
mais ricos e poluidores, aqueles que teoricamente menos sofrerão com o s efeitos
das alterações climáticas, continuou.
O f uturo dos Estados Unidos em relação às negociações intern acionais sobre as
alterações climáticas é incerto e pode pa ssar pelo abandono da Convenção -
Quadro das Nações Unidas para as Alt erações Climáticas — to rnando-se o ú nico
país não - subscritor, ou seja, um autêntico ‘Estado - Pária’, bem como pela
renúncia do Acordo de Paris, ou, simplesmente, pelo uso do pretexto do seu
carácter não-vinc ulativo para ace ler ar a prod u ção e o consumo de gás, petróleo e
carvão. Hoje, depois de olharmos para o programa energético de Donald
Trump no site da Casa Branca, sabemos que é isso que fará .
Em relação a Port ugal, o primeiro -ministro anunciou em Marraquexe que o país
será “carbono - neutro” e m 2050. Levada a sério, esta d ecisão enterr aria a questão
da exploração de gás e petróleo. Mas confiar em anúncios feitos em encontros
internaci onais não chega, pelo que é importante continuar a tornar t otalmente
clara a necessi dade de cancelar todas as 15 concessões atribuídas para a
prospeção e exploração de combustíveis fósseis tanto em mar c omo em terra.
A este r espeito, o go verno de António Costa deu uma no crav o e ou tra na
ferradura. Ao mesmo tempo que cancela os co ntratos da Portfuel de Sousa Cintra
para avançar com fu ros em terra no Algarve e qu estiona um dos quat ro contratos
102
para exploração no m ar, autoriza a ENI e a GALP a começarem a furar no mar
ultra-profundo ao largo de Aljezur.
Sessão de coletivos internacionais na COP 22 s obre a luta popu lar
contra os combust íveis f ósseis
Fonte: Foto grafia de João Camargo
A convocatória pol iticamente mais clara que saiu de Marraquexe foi a posição ,
assumida por mais de 400 organizações de todo o mundo, incluindo portuguesas,
de rejeição de novos projetos de exploração de combustíveis fósseis em qualquer
lugar do mu ndo. Es ta é vista como a única possibilidade para manter a su bida d e
temperatura média aba ixo dos 2ºC. Ou seja, nenhum novo projeto de fósse is deve
avança r.
De regre sso a casa, m il hares de participantes e ativistas s abem qu e a inda e stá
muito por decidir em relação ao futu ro climático e à viab ilidade do Acordo de
Paris. Talvez o fu turo resida em acordos mul tilaterais mais f ortes. Ou t alvez a
precipitaçã o de eventos climáticos extremos fo rce a mão mesmo dos mais
empedernid o s defensores dos fósseis. Até lá, cada projeto para pr oduzir mais
gases com efe ito de estu fa, como sejam projetos de exploração d e petról eo, gás e
carvão, ou novos oleodutos, gasodutos, portos de Gás Natu ral Liquefeito, entre
outros, serão os novos campos de b atalha em que popu lações e ativi stas l utarão
por um futuro climaticamente justo e se guro.
103
Em Portu gal, a muito breve prazo, estes campos de batalha estarão em tod a a
costa. A aliança Pu tin -Trump para rel ançar a indústria petrol ífera com a
perfuração do Ártic o, o acelerar da revolução do fracking , assim c o mo o retomar
da construção de gigantescos oleodutos — o KeyStone XL e o Dakot a Access
Pipeline — que tinham sido suspensos por Obama, garantem -nos que esta luta
contra os fósseis será central nos próxi mos an os.
João Camargo é aluno de do utoramen to n o Programa D outoral em Alterações
Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Susten tável no Instituto de Ci ências Sociais
da Universidade de Lisboa ( ICS-ULisb oa ).
104
Relações en tre alterações climáticas e
segurança
Renate Kottel Bo eno 31 de maio de 2017
debate académico — uma das forças mot rizes dos estudos s obre
segurança — tem salient ado a relevância crescente da interrelação entre
alterações climáticas e segurança. Nesse sentido, os rela tórios
do Intergovernmental Panel on Climate C hange ( IPCC ) e do Unit ed Nat ions
Office for Disasters Ri sk Reduction ( UNISD R ), os discursos securit izadores e as
pesquisas científ icas têm apresentado um de nominador comum: o alerta de que
as alterações climáticas, os desastres decorrentes de eventos climáticos extremos,
a urbanização desordenada e a escassez de recursos naturais p otenciam e
agravam os problemas sociais e económic os, destacadamente no s paíse s em
desenvolvimento. Esses obstáculos f ragilizam a segurança do Estado e da
população, ameaçando o be m-e star in dividual, coletivo e estatal, bem c omo o
ambiente e demais sist emas, in dicando -os c omo ameaça à paz e exacerbando
vulnerabilidades e tensões e xistentes — f avorecendo a ocorrência de conflit os.
Atuação de militares em ação conjunta para socor ro a
desastre nat ural nos Est ados Unidos da Am éri ca
Fonte: “ Sa ndbags for colorado flood ” de Nicole Manzana res, CCO , via
Wikimedia commo ns
O
111
Securitização das alterações climáticas: um
debate político com implicações para as força s
armadas
Raul Boeno 28 de junho de 2017
nquanto o debate académico se tem ocupado em discut ir conceitos
paralelos, complementares e adjacentes ao de segurança, o debate p olítico
tem-se dividido entre securitizar e dessecuritizar o tema alterações climáticas.
Na Europa, a NATO (Organização do Trata do do Atlântico No rte), o ma ior bl oco
armado do planeta, se manas antes da realiza ção da COP 21 (Paris/ 2015) emitiu
a Resolution 427 on Cl imate Ch ange and Int ernational Securit y , demonstrando
uma nítida postura securitizadora s obre o te ma.
Esta resolução orientou os seus membros para aumentar a frequência e a
participaçã o de consultas militares, no seio da NATO, em assuntos ligad os às
alterações climáticas. Reforçou, também, a importância do assunto a ser tratado
em Paris, devido aos f utu ros reflexos nos interesses d a ali ança na Europa e no
mundo. Sobre a NATO, cabe lembrar dois pontos: o bl oco incluiu as alterações
climáticas como uma ameaça na sua atu al estratégia de segurança e não é
composto apenas por países europeus, como é o caso do Canadá e dos Estados
Unidos da América (E UA).
Naquele mesmo ano, o s EUA adotaram a sua National Security Strategy of United
States of America ( NSSUSA ), inserindo as alterações climáticas ao mesmo nível
de ameaça que os a taques terroristas e a prolifera ção d as armas de destruição em
massa. Como os meios militares são pr eparados a partir dos documentos de
defesa e das ameaças neles elencadas, o setor militar dos EUA tem investido
enormes somas de valo res em pesquisa, f ormação de recursos humanos e
aquisição de equipamentos para m anter o seu poder bélico no patamar de
hegemonia, focando-se principalmente e m novas fontes de energia e
E
112
equipamentos sof isticados que permitam projetar as sua s tropas em qualquer
parte do globo onde existam intere sses estad unidenses.
Estação m ilitar de conversão energética , ene rgia sola r e eó lica
Fonte: Na vy Live
Em 2016, o Cons elho da Uni ão Europeia emitiu a Counc il conclu sions on
European climate diplomacy after COP21 , ar gumentando que a U nião Europeia
espera que o Con selho de Segurança da ONU (CS ONU) continue a trabalhar
sobre o tema alt erações climáticas, devi do às suas implicações na segurança
internaci onal e nos interesses europeus. Ocorre que, ao levar o tema para o CS
ONU, o tema passa a ser securitizado. Além disso, o Cons elho de Segurança da
ONU já se reuniu (2007, 2011 e 2013) para tratar das alterações climáticas e
segurança internacional, e três dos cin co m embros permanentes do conselho
fazem parte do problema – gru po dos maiores emissores de Gases de Efeito de
Estufa (GEEs) do planeta (EUA, China , Rússi a).
Ainda em 2016, a Declaração de Porto de Espanha indicou qu e o setor militar do
continente americano também está atento ao debate, reconhecendo que as
alterações climáticas v ão impactar as ativid ades da s forças armada s. Segundo os
Ministros de Defesa dos países d a América, e xiste consenso d e que as alt erações
climáticas devem s er e ntendidas pelos políticos, a tores responsáveis pela tomad a
de decisões políticas e líderes m ilitares com o ameaças potenciais que podem
desafiar a prontidão militar.
113
Desastres como o fu racão M atthew ( Jamaica, Cuba, Repúbl ica Dominicana,
Baha mas e, espe cialmente, o Haiti/2016) most ram que muitos dos desafios que
o mundo enfrenta, como as alterações cli máticas, não respeitam fronteiras
nacionais ou regionais. Os impactos d as alterações climáticas, que au mentam a
frequência, escala e complexidade de fu turas missões das forças armadas,
incluindo o apoio da defesa às autoridades civis, pod em, ao me smo tempo, minar
a sustentabilidade de inf raestruturas críticas, instalações e bens ess enciais qu e
sustentam as atividades das forças armadas. Nesse sentido, existe a necessidade
de aumentar a capacidade do setor d e defesa e segurança para mitig ação
ou adaptação aos efeitos d as alterações clim áticas n as oper ações e institu ições de
defesa.
Em 2017, o Ministéri o da Defesa d o Brasil lançou o inédito Livro Verde de
Defesa com o título “Defesa e Meio Ambiente – Preparo com Sustentabilidade”.
Esse livro tem o objetivo de divul gar as boas práticas de g estã o ambiental
executadas pelo Ministério d a Defesa e pelas Forças Armadas do Brasil.
Além disso, o livro também apresenta informações sobre as medidas de proteção,
preservação, sustent abilidade e recuper ação; e sobre as operações em apoio aos
ecossistemas por meio das qu ais as Forças Armadas participam do esforço global
em prol do ambiente.
Exército bras ileiro em ações s ubsid iárias
Fonte: No tícia s do Dia
Recentemente, o Presidente Donald Trum p anunciou a retirada dos EUA
do Acordo de Paris , alegand o incompatibilidades com os interesses económicos
114
estadunidenses. Ocorre que os investimentos no setor militar já estão em
andamento e dificilmente serão inte rrompidos antes da adoção d e uma nova
National Security Strategy of United States of America (NSSUSA). Sobre isso,
cabe pontu ar que justamente o setor mili tar poderá ser, pelo menos por
enquanto, o defensor da manutenção da p articipação dos EUA no Acordo de
Paris . Pois uma interru pção no s processos em anda men to significaria, em última
análise , uma fragilidade dos seus projetos estratégicos que poder ia comprometer
as suas forças armadas.
A postu ra oposta e desafiadora adotada pela China de se manter n o Acordo de
Paris d eu um impulso no sentido de sustentar o Acordo e incentiva r os demais
países a cumprirem aquilo com qu e s e comprometeram p erante a comunidade
internaci onal. Ironicamente, sobre isso cabe l embrar qu e Matthew G lass, na su a
obra de ficção intitulada Ul timatum ( 2009 ), previu qu e a situ ação ser ia a inversa:
no f uturo, os EUA enfrentariam a China por causa da sua recusa de reduzir as
suas emissões de Gases de efeito de estufa.
Como contraponto d a securitização, a dessecuritização do tem a alterações
climáticas se apresenta como alternativa para aumentar o nível d e confia nça
entre os povos, sendo obt ida por interm édio da ajuda mútu a e pelo reforço aos
mecanismos de resol ução de conflitos, impedindo o a vanço do tema para a
agenda de segurança internac ional.
Assim, como reflexão deste breve contributo fica a perceção de que, in dependente
do tema ser securitizado ou dessecuritizado, o s etor militar tem permanecido
atento ao debate político sobre as alterações climáticas porque elas têm exercido
influência nas atividades desenvolvidas pelas forças armadas, bem como na
infraestrutura de defesa dos paí ses.
Ra ul Bo e no é aluno de doutorame nto n o Programa Douto ral em Altera ções Climáticas
e Políticas de Desenv olvimento Sustentável no Instituto de Ciências Sociais da
Universidade de Lisboa ( ICS-ULisboa ) .
115
Alterações climáticas: um contramovimento
global em ação
Luiz Carlos de Brito Lou renço 20 de setembro de 2017
ara enfrentar os negacionistas das alterações climáticas, m ais d o que
resistir com interven ções práti cas, é n ecessário um contramovimento de
confronto com robu stos argumentos científicos. Em úl tima análise, foi o que
sugeriu o apelo do Prê mio Nobel da P az d e 2 007, Rajendra Pa chauri. Ao encerrar
uma breve palestra no Instituto de Ciências Sociais ( ICS) da Universidade de
Lisboa, em 30 d e m aio de 2017, na qualidade de ex -presidente do IPCC,
conclamou a audiência à contínua d ivulgação d os riscos da s alt erações climá ticas
em vista dos desvios na Casa Branca.
O presidente dos EUA, Donald Tru mp, começou no plano interno a cumprir
sua promessa eleitoral de d eixar o Acordo d e Paris . Em 28 de Março de 2017,
revogou decisõe s de Obama que amparava m a mitigação dos impactos das
alterações climáticas, segu rança naci onal e energia limpa.
No plano externo, a ansiada renúncia aos compromissos dos EUA veio às
vésperas da Cimeira d e Taormina do G -7, da qual ecoou o brado de seis out ros
países pela pronta implementaçã o da declaração d e Ise-Shima . Na Filadélfia, em
junho passado, Trump justificou o recuo em dec orrência das “me didas
financei ras e económicas draconianas impo stas aos EUA”, po is o Aco r do caus aria
a per da de 2,7 milhões d e empregos (cálculo da NERA, a consult adoria das
mineradoras). Confiant e, disse-se livre do Green Climate Fund (“um nome
giro!”, zombou) e das obrigações de se a tingir os USD 450 mil milhões a partir de
2020 para r eduzir emissões d e gases com efeito de estu fa (G EE) e adaptações a
desastres naturais. Ac usou o favorecimento da China , que “aumentará suas
emissões de f orma escalonada por 13 a nos, com centenas d e novas centrais
eléctricas alimentadas a carvão”. Segu ndo o Greenpeace , até então, uma média
de 4 usinas por semana eram autorizadas na China.
P
116
O pronunciamento foi saudado como “ a r estauração h istórica d a ind ependência
económica nort e- americana”. Trump valeu -se da realidade interna de que a crise
de confiança nas alt erações climáticas associa -se à evolução do mercado d e
trabalho d esde 20 08. De f orma i dêntica, e m 2010 , os investigadores do National
Bureau of Economic Research (NBER) realizaram um i nquérito no país que
apurou a noção de qu e mais desemprego implica u ma menor prob abilidade de
crença nas alteraç ões cl imáticas ( NBER, 2010 ).
Exploração de carvão em Gillette, no est ado do Wyoming , EUA, 2 013
Fonte: “ Surface coal mine detail , Gillette, W yoming ” by Greg Go ebel is li censed
under CCBY- SA , via Wiki media Commo ns
Tradição de resistência
O espírito pioneiro e pr ogressista californiano animou um contramovimento. Em
seu quarto mandato, o governador Jerry Brown , ao reconhecer os fatos como um
“desafio à ciência”, afirmou: “A Califórnia resistirá ao curso insano e equivocado
dessa ação”. Afinal, naqu ele estado su rgiu a p rimeira legislação do planeta sobre
qualidade do ar ( Air Sani tation), depois que Los Angeles c onheceu
o smog (smoke + fog) em 19 43. Foi o CalTech que confirmou a t oxicidade do
ozónio, fonte primária d o odor e do nevoei ro que provocavam irr itações à visão e
problemas respiratórios.
Em 1967, o então governador Ronald Reagan constituiu a California Air
Resources Board , u m colegiado para controlar a poluição dos veícu los, qu e mais
117
tarde inspirou a adoção do Clean Air Act , de 1970, executado pela EPA.
Washington f ez uma concessão especi al à Califórnia para estabelecer seus
próprios níveis de seg urança e exigir d as indústrias veículos mais eficientes no
uso de hidrocarbonetos e na emissão de mon óxido de carbono ( ver vídeo ).
O mercado atendeu à riqu eza concentrada naquele estado, que se equivale à
França (14,1% do PI B norte-americano; USD 18.456 mil milhões em 2016), com
crescente aumento da população (hoje, 39,3 milhões d e pessoas, das qu ais 2 6,4
milhões t êm c arta de c ondução). Ali se deu u m crescimento urbano planeado com
largas vias de acesso incentivando a cult ura do aut omóvel para reunir a maior
frota do país, com 35,3 milhões de veícul os (BEA/USDC, 2016) (California
DMV, 2017) . Registe-se que, em 199 8, qu ando Bush não ratifico u o Protocolo de
Kyoto, a Califórnia compensou o planeta em 2002 com uma l ei de redução do s
GEE, estabelecendo certificações e programa s de incentivos específicos.
Tal autonomia levou Brown, em
06/06/2017, durante v isita ao pre sidente
da Chi na, Xi Jiping, a fechar u m acordo de
cooperação na i mplementação do Acordo
de Paris. O contramovimento avança com
mais nove outros governadores, desde a
Nova Inglaterra at é o Havaí. O
grupo Climate Mayors reúne capitais e
megacidades, incluindo Pittsburgh (na
Pensilvânia do carvão e aço). Ao
todo, 1.200 personalidades afirmam We
are still in contra o negaci onismo.
Migrações para o Noroeste
Em seu favor, a revista Science , de 30 de ju nho d e 2017, revelou os danos
potenciais p ara os EU A causados pelas alterações climáticas em diversas
situações, s egundo o C limate Impact Lab , projeto de investigação da E scola de
Políticas Públicas da Universidade da Ca lifór nia- Berkeley e das universi dades de
Fonte: “ Don't Frack CA” Broo ke Anderson is licensed
under CC BY , via Flic kr Cr eative Commons
118
Chicago e Rutgers (New Jersey, EUA). Considerando que as alterações c limáticas
aumentam a imprevisibilidade e a desigualdade do fu turo económico, o artigo
adotou um a complexa metodologia que criou uma “ função dano ”, qu al seja, a
relação dos imp actos da “temperatura da superf ície média global” e os “custos do
mercado e do não - mercado” nos EUA. Cont u do, este estudo não se l imita aos
EUA.
O The New York Times , de 22 de junho de 2 017 , retratou os efeitos da eleva ção
da temp eratura: e xcesso de di as extremamente quentes (média d e 35˚ C). A
capital Washington pode chegar a ter em u m ano nessas con dições o mínimo de
14 dias e o máximo de 29 dias. Tal fenómeno afetaria todo o planeta: em latitudes
semelhantes, Ma drid t eria 8 a 43 e Pequim 9 a 35; a menor latitude f aria Nova
Deli ter entre 137 e 200 dias.
As médias consideradas como “p rováveis” têm aqui 2/3 de chances de
confirmaçã o. Porém, o pior cená rio é improv ável, na medida em que se espera
substituir o carvão por fontes de energia limpa. Todavia, com temperatu ras altas
evidenciam-se mudanças a m aior na d emanda por eletricidade par a o
condicionamento do ar. Há estimativas de au mento de 3,2% da m ortalidade na
Índia p ara c ada grau Celsius acima de 2 0˚. O planeamento urbano vai requerer
sustentabilidade, expandindo as áreas verdes, incluindo os t elhados dos e difícios.
Ao analisar e xclusivamente o território dos EUA, o Financial Ti mes , de 30 de
Junho de 2017 , destacou uma ad vertência aos municípios mais pobres c om
temperaturas relativamente superior es, localizados costa a costa, na meta de sul
do país,. Enquanto o segmento de “1 0% dos m unicípios ma is pobres” terá per das
de renda entre 8 ,5% e 2 0,3%, estima - se qu e o g rupo de “10% dos municípios mais
abastados” ou terão ga nhos ( ou “perdas negativas” de m enos 0, 4%), ou perdas
efetivas d e até 3% no máx imo. Ass im, a continuidade de emissões exacerbará a
desigualdade entre as regiões, com refl exos no desemprego e efeitos n a
mortalidade , criminalidade e demanda energética. O terço mais po bre dos
municípios norte-america nos pode perder até 20% de sua renda.
Portanto, deslocam-se para norte as con dições ideais para fut uras safras
agrícolas, r egiões mais ainda f avorecidas com uma simultânea redução n as
despesas médicas e no custo energético. No ritmo atu al, ter - se -á a maior
transferência de renda dos pobres para os ri cos na história do país. S obretudo, é
119
esperada uma aguda inflexão na curva do índice de preços agrícolas.
Naturalmente, a s tempe raturas ma is altas trarão uma queda no rendimento
agrícola no l este dos EUA, afetando o Gr ain Belt , res ponsável pela maior
produção mundial d e cereais e oleaginosas, beneficiando e retomando no final do
século o quadrante noroeste dos EUA, vastamente irrigado e hoj e resiliente ao
calor.
Figure 1 - P rojecte d Ch ange in Nationa l Crop Price Index Du e to
Global GHG M itigat ion
Fonte: CIRA Re port “ Clima te Change in the US: Bene fits of Global A ction”,
Environment Protecti on Ag ency (2017)
Futuro otimista?
Como suporte à assinatura do Acordo de Paris, a EPA divul gou o
relatório Climate Change Impact and Risk A nalysis ( CIRA ) , em junho de 2015,
que e videnciava benefícios com os compromissos no IPCC. No ano 2050, a
mitigaçã o global dos GEE por uma melhor qualidade do ar evitará a morte
prematura anual de 1 3.000 indivíduos nos EUA (avaliadas em USD 16 0 mil
milhões), e menos 57.000 mortes de pe ssoas até 2100 (USD 930 mil milhões).
Tal monetização decorre de decisão da Câmara Consultiva Ci entífic a da EPA, par a
fins de análises custo /benefício de riscos a mbientais à vida humana, estabelecer
o cálculo do “ valor de uma vida estatística ” estimada em USD 9 ,45 milhões, base
120
2010, aos quais se somam o cr escimento estimado do PI. Dessa maneira,
poderiam ser aportados milhares de milhõ es de dólares por diversas regiõe s na
forma de infraestru turas para recursos hídr icos, por exemplo, ent re outros
benefícios.
Sendo a “qualidade da água” sensível às preci pitações, aplicou -se u m modelo com
um cenário mais húmido (IGSM -CAM, MIT) e um c enário ma is seco ( MIROC,
Universidade de Tóquio). As estima tivas da EPA aqui foram cons truídas por
especialistas do MIT e do Departamento de Energia dos EUA (DOE), com
resultados para 2050 e 2100 sob aumentos de mais de 2˚ C além da mé dia
histórica. Dentre os pr incipais benefícios, os agricultores pou pariam U SD 11 mil
milhões por ano em c ol heitas ora perdidas motivadas por secas, enche ntes e
desastres semelhantes, preservando á reas de 4.500 km2 em florestas.
Não se conhece o andamento do CIRA , cuja página na internet est á suspensa
“ para se refletir sobre as prioridades d a EPA sob a liderança do Presidente
Trump e do Administr ador Pruitt ”, procurador do Oklahoma, estado produtor
de gás natu ral, cuja capital Tulsa ostenta com Housto n a marca de “ oil capital of
the World ”. A associaçã o entre a indústria dos combustíveis fósseis e grupos
políticos conservadores formariam um “ eixo ideológico do mal climático ”,
segundo o economista Paul Krugman .
“The Gold en Drille r – W elcome to Tulsa …”
Fonte: “´ The Golden Drille r´" - Welcome to Tulsa .. ” by Tom Ha rt is
licensed under CC BY , via Flickr Creative Com mons
Enfim, fecham-se as cortinas do protagonismo da governança global alcançado
por Obama, mérito r econhecido em Before the fl ood ( 2016 ), f ilme t ambém
exibido pelo ICS duran te a Clima E xpo 360˚ realiz ada no MUHNAC . Sob Trump,
os EUA criaram um isolacionismo inédito, qu e com eça na fronteira com o
avançado Canadá de J ustin Trudeau. Oportunamente, Emmanuel M acron, novo
127
Sustentável e para ev itar qu e as alterações climáticas gerem r etrocessos de
desenvolvimento e graves problema s de justi ça social.
Carla Gomes é alun a de doutorament o n o Pro grama Doutoral em Alteraçõe s
Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável no Instituto de Ciências Sociai s
da U niversidade de Lisboa ( ICS-ULisboa ) e da S chool of Internation al Development da
Universidade de East An glia (DEV-UEA). Página Ac ademia .
128
Agricultural risks, climate change and
planning
António Sobrinho 20 de dezembro de 2017
“ Farmers must live with agric ult ural risks. Among them, meteorological risks
may affect agricultural ac tivity and farmers` revenues. There are several ways to
meet agric ult ural risks and insurance is one of them. By insuring their crops,
farmers transfer risk to a thi rd p arty, limiting their losses. However, uncertainty
is an important factor to be taken into account, as there is more and more
evidence of clima te change affecting standard weather patterns. In that sense,
insurance can pl ay an important role in influencing land use planning, as well as
setting guidelines for an efficie nt use of natural resources. ”
griculture is a risky enterprise. It depends on numerous factors, some of
them beyond human control. Nevertheless, one can con sider three main
ways to deal with agricultural risks, such as avoidance, pre vention and
assumption:
– risk avoidance seems to have a limited application as farm ers can not elude
the uncertainties of weather (meteorological risks). It seems clear t hat
avoidance is not the best way of meeting agricultural risks;
– risk pre vention means the reduction of unce rtainties through “improved
facilities and techniques as well as or ganization”, as stated by P. K. Ray in his
book “Agricultural Insurance (1981)”;
– risk assumption is a w ay to meet u navoidable risks t hrough self -insuranc e or
by transferring risks to a t hird party throu gh insurance or speculation. While
insurance off ers protection in case of physical loss, speculation is basically a
cover against probable loss of value.
Among agricultural risks, meteorological risks (e.g. excessive rai n, hail, frost,
strong w inds, flooding, droughts, etc.) are under close surveill ance, as extreme
events are becoming more frequent and s evere due to climate change evidence.
A
129
In Port ugal, for instance, access to w ater is becoming a problem as hydric reserves
have reached a critical point due to a severe drought and huge water dema nds as
a result of the wild f ire s that have affected the country during summer 2017. This
means that farmers and society as a whole r equ ire human intervention in order
to cope with such demands and guarantee mu ltiple usage of water through a
judicious management.
Since a crop insurance system has bee n set up in t he country on the 21 st of
September of 1979, farmers could insure their crops against several
meteorological risks.
Risks covered by the crop insurance system at t he time of its creat ion were as
follows:
– extreme precipitation (above 10 mm i n 10´ );
– hail (solid preci pitati on as a spheroid);
– frost (ice deposits as a result of atmospheric water vapour sublimation, for
several reference dates acc ording to regional climatic cha racteristics of the
country);
– strong winds (instant wind speed of above 80 km/h).
Along almost four dec ades, the Port uguese crop insurance system has been the
object of several changes concerning risk co verage (e.g. more plants and risks)
and some t echnicalities related to the produc tion m ode and claims, for instance.
More information a bout crop insurance in Port ugal can be found at
the IFAP (Instituto de Financiamento da Agr icultu ra e Pescas) w ebsite. Also at
the website of ASF (Autoridade de Su pervisão de Seguros e Fundos d e Pensões),
one can find informa ti on on legislation concerning crop insurance.
Nowadays me teorologi cal risks apply to almost all cu ltures, although for some o f
them there are several constraints foreseen in the legislation. The Port uguese
crop in surance system is highly subsidized t hrou gh EU funds. Even so, most of
the farmers consider it expensive and t hey do n ot transfer t heir risks t o a third
party.
Actually there are a f ew reasons that make insurance expensive: t hey con cern
claims assessment and administrative costs , f or instanc e. When a risk occ urs,
130
physical damage evaluation should be performed by agronomis ts as a rule. This
procedure is time c ons uming and represents a significant amount of money, and
premiums become more expensive f or the insured. Crop insurance does not
attract as many farmers in Port ugal as it should, basica lly due to t he cost of
insurance premiums.
Another way of risk transfer concerns spe culation. Speculators “t ake upon
themselves the chance of gain or l oss throu gh fluctuations in t he value of certain
commodities in the hands of producers, de alers or manufacturers”, as stated by
P. K. Ray. Thi s is much more a derivate product rather than an insura nce product.
Speculation, as described, is inexistent i n Port ugal.
Alqueva dam under constru ction
Undertakings like the Alqueva dam required more than half a century to become reality.
Alqueva is viewed as a strategic water reserve for multiple purposes
Fonte: Foto grafia de Antóni o Sobrinh o
The disruption of natu ral systems may cause serious prejudice to their
sustainability. An example of that is the wat er diversion from the Douro water
basin t o the Spanish Levante, through the Tajo/Segura ri vers, in or der to irri gate
orchards/gardens/golf courses in a semi-arid Mediterranean sub-region.
Such diversions aff ect the natu ral river fl ows and its b iodiversity. P ortugal, as a
downstream country, su ffers from the negative impacts of climate change as far
as it concerns the water flows f rom its main international rivers (Minho, Dou ro,
131
Tejo and Gu adiana). Experts and politicia ns, both Port uguese and Spanish,
should discuss t he current situation in order to make decisions on an equit able
basis, regarding quantity and quality of water flow s on a da ily scale.
Fundamental decisions have to be made in order t o assess the li mits of our
natural systems. This means that fu ndamental choices have to be made i n order
to set up priorities for w ater resources management, including solut ions that may
require social c onsensus. For instance, the de cision to build or not to bu ild a dam
as water storage will be of fundamental importance to the irregularit y of rivers’
regimes due to climate change .
Insurance can play an important role influencing land u se planning as well a s
setting guidelines for an efficient u se of natural resources. This means that there
should be inc entives f or farmers w ho decide to grow the most ad equate species
in less risk-prone areas, better adapted to topography, soil an d water availability.
On the other hand, an eff ort sho uld be made in order to minimize the negative
impacts on very small farms, on the use of poor farming practices, and on the
access to subsidies and markets, for instanc e.
Besides t he modalities above mentioned concerning risk assumption, a relatively
new instrument known as weather index insurance (WII) is gaining grou nd,
mainly in cou ntries where w eather networks are limited. The index shoul d satisfy
several properties (e.g. observable and easily measured, objective, t ransparent,
independently verifiabl e, reported in a timely manner, consistent over t ime and
experienced over a wide area).
As defined by the World Bank , the WII “is a si mplified form of insurance in w hich
indemnity payments are based on values obtained from an index t hat serves as a
proxy for losses rather than upon the assessed losses of ea ch individual policy
holder”. This index has t o be based upon an obj ective measure (e.g. rai nfall excess
or deficit), having a strai ght correlation with the crop yield.
An example of a pay -ou t structure f or a hypothetical r ainfall contract is shown on
figure 2. There will be i ndemnity payment if rai nfall is below 100 mm. M aximum
indemnity (50,000 €) i s payed to farmers when rainfall is be low 50 mm.
132
Figure 2 - Payout struc ture for a hypotheti cal rainfa ll contract
Source : Skees ( 2003 )
WII is cheaper than t raditional insurance du e to its charac t eristics. This means
that having done a pre vious study of the meteorological risks in order to define,
for example, the risk prof ile, then it is possibl e to establish the layering of deficit
rainfall risk by rainfall l evels by risk retention, market insur ance and market
failure. Diff erent parties could share the risk at micro, meso and m acro levels and
a pay-out stru cture for a hypothetical rainfall contract can be define d. There are
no clai ms assessment and administrative c osts are l ower when compa red to
traditional insuran ce schemes. WII can be a useful instrument if well designed
and managed.
In short, insurance could influence farmers` decisions regarding t heir options
instead of running after any kind of subsidies aiming at the promotion of certain
species. A well -managed crop insurance syst em, when compulsory f or a large
majority of the farmers , could reduce costs and become a valuable instru ment for
rural planning.
António Sobrinho is a PhD student at the Institute o f Social Sciences of the University
of Lisbon ( ICS-U Lisboa ), in the Doctoral Programme in Climate Change and Sustainable
Development P olicies .
133
Clima e secas em Cabo Verde
Luzia Oliveira 3 de janeiro de 2 018
foi particularmente q uente em várias partes do globo e, por
conseguinte, um ano em que as emi ssões d e CO 2 na atmosfera
atingiram um novo record , tendo atingido no mês de maio 410 partes por milhão
( noaa.gov ).
Para além das alt as t emperaturas, ainda se registaram em muitos países out ros
fenómenos extremos como as se cas, incluindo Port ugal e Cabo Verde, fazendo
com que os decisores políticos tenham adotado medidas específicas pa r a
enfrentar o per íodo crít ico qu e atravessam. Esta situ ação chama -nos a atenção,
mais uma vez, para o f acto de as alterações climáticas serem um pro blema sério
e que exi ge de ca da um de nós, a d iferentes ní veis e escalas, sermos pró -ativos no
seu combate.
Figura 1 - Cenár io desolador dos campos agr ícolas
(Órgãos, ilha de Santiago, 13 de dezembro de 2017)
Fonte: Foto grafia de Luzia O liveira
2017
134
Portanto, no arquipélago de Cabo Verde registou -se mais um ano de seca severa,
depois de a população t er recebido a informação de que 2017 seria um ano
confortável em termos de chuva ( rt c.cv ; asemana.publ.cv ). Contudo, e
contrariame nte às pr evisões, até ao mom ento ocorreu apenas uma ú nica
precipitaçã o, que deu para f azer a sementeira e a primeira mon da, mas que foi
insuficiente para gara ntir o mínimo do ano agrícola ( figura 1), o pasto para os
animais e a á gua para alimentar os aquíferos.
Para os cabo-verdianos não se trata d e um a no invulgar, já que têm vivido
frequentemente episódios de se cas, com i mpactos marcantes pri n cipalmente no
setor agropecuário. Por exemplo, em 2015 houve uma grande seca que vit imou
uma quantidade significativa de g ados (caprino e bov ino), a produção agrícola foi
praticamente nu la em todas as ilhas e a população teve problemas em t er água
disponível para as suas atividade s.
Como encarar as previsões das chuvas para Cabo Verde?
Em relação às previsõe s das chuvas par a o ar quipélago, é preciso d izer que, por
enquanto, vamos ter de continuar a contar co m esta incerteza porque:
- O sistema climático é extremamente comple xo e constitu ído por um conjunt o
de interações não lineares, limitando, deste m odo, o grau de previsibil idade do
clima, da í que apenas se consig a prever o t empo com maior confi ança p ara
períodos de 14 dias.
- As projeções que são feitas para t erritórios insulares, quando efetu adas p elos
modelos globais, caracterizam-se por uma grande incerteza devido à baixa
capacidade de resolução horizontal das grelha s fornecidas por estes modelos.
Fatores relacionados com as características locai s c omo topografia, b acias
hidrográficas, zonas costeiras e i lhas, pod em não s er suficientemente c aptadas
nas suas si mulações. Daí que, normalmente, se recorra aos modelos regionais,
cuja resolução é mai or.
- Mesmo recorrendo a modelos regionais, os cenár ios clim áticos para as ilhas
individ uais, como as d e Cabo Verde, confrontam -se com dificuldades, pois a
maioria das projeções existentes atualment e são relativas à s su perfícies
oceânicas próximas, com propriedades t ermodinâmicas muito diferentes dos
135
po ntos de terra e, por i sso, nã o levam em c onta a s influências físi cas d a
superfície da terra das ilhas.
Como compreender a variabilidade climá tica em Cabo Verde?
O clima do arquipélago é o resultado da sua localiza ção geográfica no meio do
oceano Atlântic o e nas proximidades do deserto de S ahara, na extremidade
ocidenta l da faixa do Sahel, a sul do deserto do Sahara, o que o inclui numa vasta
zona africana de clima da área Saheliana árida e semiárida (figura 2).
Figura 2 - Localização de Ca bo Verd e
Fonte: USGS EROS Center
O clima é do tipo tropical s eco, com duas estações distintas: uma curta estação
das chuvas, qu e v ai de julho a setembro, e os restantes 9 me ses, que são
dominados pela seca. As precipitações são caraterizadas essenci almente por
chuva que cai em grande parte sob a f orma de aguaceiro. Nota -se também qu e
este período de chuva está ficando cada ve z mais curto. Na verdade, nos últimos
10 anos as prim eiras chuvas t êm caído raramente no mês de julho, mas sim em
agosto, embora nesta altura muitos agricultores já tenh am t udo a postos para
iniciar o ano agrícola, f icando, portanto, de olhos sempre no céu, esp erançosos à
espera da chuva. Recor da-se que, em 2016, a s primeiras chuvas aconteceram nos
finais de agosto, mas estas f oram suficientes para gar antir um bom ano agrícola,
pastos para os animais e água para o lençol fre ático, bem como para as barragens.
Pode afirmar-se que este curto período das chuvas possui uma grande
irregularidade espácio -temporal, dado que e m zonas com condiçõe s geográficas
semelhantes é possível ocorrerem valores pluviométricos diferentes, do mesmo
modo que dentro de um determinado m ês po dem registar -se quantidades muito
136
variáveis de chuvas. Esta variabilidade t ambém se aplica aos períodos
interanuais.
O gráfico que se segue dá -nos u ma ideia de como têm sido as preci pitações nos
últimos 77 anos (19 41- 2016) numa estação met eorológica qu e, segundo o autor,
é representativa de Cabo Verde e inclui dados fiáveis.
Fonte: Gráfico elaborado p or Anto nino P ereira (agro meteorolo gista do INMG
Instituto Naci onal de Meteorologia e Geofísic a)
Observa-se então uma grande variabilidade pluviométrica interanual durante
este período, e m que, dos 77 anos, som ente 19 foram húmidos ou exc edentários,
cerca de 29 foram normais ou médios e 29 f oram secos ou deficitários.
As precipitações no pa ís podem ser explicadas essencialmente por
três fatores:
1-A deslocação da FIT (Frente Intertropical) é um dos principais fatores. É que,
com o movimento dos ventos alísios do nort e e do sul em direção ao equador,
forma-se u ma Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) , que se va i
estreitando à medida que se afasta do equador, para dar lugar a um eixo
denominado por FIT. Então, a deslocação da FIT sobre o continente africano,
mais pa ra o norte ou para o sul do Sahe l, é que de termina o início, a duração e
o regime da precipitaç ão nesta região, inclu indo t ambém para o arqu ipélago
de Cabo Verde. Quando a FIT vai mais p ara norte causa fort es chuvas na zona
do Sahel, mas quand o está mais para sul origina duras secas.
143
atmosfera em patamares compatíveis com a habitabilidade d o planeta. Essa
materialização do conceito abstrato na r ealidade do mundo vivi do s e apresenta
nos Momentos de Ponderação, qu ando a s equipas necessitam tomar decisões
coletivas sobre como manter- se Em Equil íbrio para chegarem ao Portão de Saída
da atmosfera.
Maquete -arte para cria r o tabulei ro e simula r as equipas du rante o jogo
Uma versão mercadológica do jogo Aventur a Climática© deve estar disponível
no fim de 2018 de modo que interessados possam aplicá -lo em ambientes
públicos e diversos co mo as atuais casas e bares, qu e utilizam ludologia como
atrativo para clientes, ou em ambientes de c apacitação, treinamento e
planeame nto de organ izações privadas, públicas e não -governament ais, ou em
ambientes educacionais (formal, não -formal e informal) ou até para o público em
geral interessado e m soluções individuais e coletivas para os problemas das
alterações climáticas nas cidades em que residem. As cartas de conteúdo
do Aventura Climáti ca© podem s er customizadas para refl etir a necessidade de
informação e medidas de adaptação e mitigação necessárias localmente.
O conteú do deste pos t é result ado d e inve st igaçã o que integra a dissertação
doutoral sobre o experimento Aventura Cl imática©: um jogo de estratégia para
manter o efeito de estu fa em eq uilíbrio . Relatório de Progresso sobre o
andamento da di ssertação foi publica do pelo ICS-ULisboa, em 2017, na categoria
Estudos e Relatórios ICS (ISSN 2183-6922).
Mônica P rado é aluna de doutoramento no Programa Doutoral em Alterações
Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Susten táv el no Instituto de Ciências Sociais
da Universidade de Lisboa ( ICS-ULisb oa ) .
144
Novos d ados do Eurostat sobre alterações
climáticas
Ana Rita Matias 18 de abril de 2018
m d os mai s recentes blocos de in dicadores qu e compõem o módulo “cross
cutting t opics” (temas transversais) desenvolvido pelo Eur ostat,
autoridade europeia de es tatística, diz respe ito às Alterações Clim áticas . Esta
compilação faz parte do esforço l evado a cabo pelo Eurostat de monitorizar os
progressos feitos pelos países europeus quanto aos Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável ( ODS) das Agenda 2030 das Naçõ es U nidas. O
módulo de dicado às Alterações Climáticas encontra-se subdividido e m c inco
seções temáticas, abarcando indicadores vários: 1. Emissão de gas es com ef eito
de estu fa; 2. Causas; 3. Mitigação; 4. Im pactos e adaptação e, por f i m, 5.
Inicia tivas de ação climática.
Parque eól ico offsho re na Suécia
Fonte: ” Wind turbines” by Tomasz Sienicki sob a licença CC BY , via Wikimedia
Commons
A t ítulo exemplificativo, damos conta abaixo de quatro desses indicadores, em
termos do seu comportamento quanto à ação climática .
U
145
Emissão de ga ses c om efeito de estufa (GEE): Portugal aumenta em
2015 as emissões
Na Fig. 1a é possível acompanhar a evol ução de emissão de GEE (í ndice base,
1990=100) nos países da União Europeia 28 . Existem diferenças as sinaláveis nas
tendências de emissões de GEE desde 199 0 até 2015 entre os pa íses d a EU: d esde
reduções de qu ase 60% ( caso da Lituânia e Le tónia) para aumentos de mais de
40% (caso do Chipre).
Figura 1a - Emissão de ga ses com efeito de estufa (GEE) po r compa ra ção com o
índice bas e de 1990=1 00, nos país es da União Europeia, em 2005 e 2 015
Fonte: Eurosta t (sdg _13_10); EEA
Nota: inspiração ma Figura 1 3.3 em Sustainable De velopm ent in the Europ ean Union-M onitoring report
on progress towards the SDGs in an EU context (2017).
Legenda: O indi cador mede todas a emissões antropogénicas da chamada “quota de Quioto” de gas es
com efeito de estufa. Os vári os gases são integrados num único indicador expresso em unidades CO2
equivalentes. Os dados das emissões sa õ apre sentados anu almente pelos Estados- Membr os da EU, como
parte dos relatórios ao abrigo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sob re as Alterações Climáticas
(UNFCCC) (Eurostat)
Em 2015, a maioria d os países da UE -28 d iminuíram a s suas emi ssões face ao
ano de referência – as exceções foram o C hipre, a Espanha, Portu gal, a Irlanda e
a Áustria. Desde 1990, a UE -28 re duziu as suas emissões em 22% – desde 2014,
encontra-se abaix o da meta da Europa 2020 = 80.
Outra nota positiva: nos últ imos dez anos, a tendência é a de a maioria dos
Estados-Membros diminuírem as suas emissões GEE, mesmo n os anos mais
recentes de recuperação ec onómica. Em 20 15, metade dos países já tinham
ultrapassado a meta da Europa 2020 – casos a destacar, os países b álticos:
Estónia, Letónia e Litu ânia.
146
Figura 1b - Emissão de gases com efeito de estufa (GEE) por compara ção co m o
índice bas e de 199 0=10 0, em Portugal, entre 1 991 e 2015
Fonte: Eurosta t (sdg _13_10); EEA.
Legenda: O indicador mede todas as emissões antropogénicas da chamada “quo ta de Quioto” de gases
com efeito de e stufa. Os vários gases são integrados num único expres so em unidades de CO2 equivalentes.
Os dados das emissões são a presentados anualmente p elos Estados-Membros da EU, c omo parte d os
relatórios ao ab rigo da Convenção-Quadr o das N ações U nid as sobr e as Alterações C limáticas (UNFCCC)
(Eurostat)
Portugal, após ter atingid o o pico das emissõ es em 2005 ( mais 44,9 % do que o
ano de base de 1990), entre 2006 e 2014 entrou numa fase de diminuição
constante do indicador. Em 2015, a situação inverte - se e a s emissões aumentam
em 7,7 pontos índice face a 2014. Naquele ano, o índice das emissões portugu esas
situou-se em 117,9 pontos índice.
Figura 1c - Emissão de gases com efeito de estufa (GEE), per ca pita, nos paí ses da
União Europ eia 28 em 2005 e 2015
Fonte: Eurosta t (sdg _13_10); EEA.
Nota: inspiração ma Figura 1 3.3 em Sustainable De velopm ent in the Europ ean Union-M onitoring report
on progress towards the SDGs in an EU context (2017).
Legenda: O indicador mede todas as emissões antropogénicas da chamada “quo ta de Quioto” de gases
com efeito de e stufa. Os vários gases são integrados num único expres so em unidades de CO2 equivalentes.
Os dados das emissões são a presentados anualmente p elos Estados-Membros da EU, c omo parte d os
relatórios ao ab rigo da Conve nção-Quadro das N ações U nidas sobr e as Alterações C limáticas (UNFCCC)
(Eurostat).
147
Em 2015, as emissões de GEE per capita variaram d e 5,7 t oneladas (na Croácia e
Suécia) a 20,5 t oneladas (Luxemburgo) de CO2 equivalentes ( Fig. 1b). As
emissões no Luxembu rgo, mu ito acima d os restantes países, podem s er
parcialmente atribuída à entrada e saída de passageiros e carros do país. Na
última déc ada para Portugal, as emissões dimi nuíram de 8,4 toneladas, em 2005,
para 7 toneladas de C02 equivalente, em 2015.
Peso das energias renováveis no consumo final de energia sob e em
toda a Europa
A União Europeia apresentava, em 2016, um peso de energias renováveis de 17%
(Fig. 2a) – mais 7,6 pontos percentuais (p.p.) do que há uma década.
Figura 2 - P eso da energias renováv eis no consumo final b ruto de energia (%),
nos países da União Eu ropeia 28
a)
b)
Fonte: Eurosta t (sdg _07_40)
Legenda: O indicador mede a parte do consumo de e nergia renovável no consumo brut o de energia, de
acordo com a Diretiva Energi as Renováveis. O consumo final bruto de energia é a energia utilizada pelos
consumidores f inais (consumo f inal de energia), ma is as perdas na rede e o autoconsumo das centrais
elétricas (Eurostat).
148
Todos os Estados-Me mbros, entre 2006 e 2016, registaram u ma evol ução
positiva no indicador – a Dina marca, seguida pela Su écia, f oram os Estados -
Membros onde essa evolu ção foi mais significativa, subindo 15,9 p.p . e 11,1 p.p.,
respetivamente. No e ntanto, a evolução do peso das en ergias renováveis
apresenta u ma grande variab ilidade no seio da U E: o valor mais alto de 53,8%,
na Suécia, contrasta co m o valor ma is baixo d e 6 %, em Malt a e nos Paí ses Baixos,
e de 5,4%, no Luxe mbu rgo.
Portugal, em 2016, é o sétimo país on de este i ndicador assume o valor mais alt o
(28,6%, mais 7,7 p.p. do que em 2006) . O país posicionou -se s empre muito acima
da média europeia e d os valores, por exemplo, da Alemanha, a economia mais
forte da Europa (Fig. 2b).
As perdas eco nómicas por catástrofes natura is relacionadas com o
clima estão a aumentar a cada dé cada na Europa
Entre 1980 e 2015, as catástrofes naturais cau sadas por condições m eteorológicas
extremas relacionadas com o clim a representaram cerca de 86 % das p erdas
monetárias nos Estados-Me mbros d a EU com t odas as catástrofes
naturais (consultar aqui) . Ao longo daqueles 36 anos (Quadro 1), as perdas
económicas com eventos climáticos atingiram 407 mil milhões de euros em 2015.
Quadro1 - Pe rdas económi cas ( em milhõe s de euros) rela cionadas com ev entos
climáticos (meteoro lógicos , hidro lógicos e climatológi cos), na Un ião Europeia,
por décadas e entre 2 010-2015
Fonte: Eurosta t (cli _iad_lo ss)
Nota 1: Análise própria.
Nota2: As perdas económicas refletem principalmente danos diretos monetários a cert os ativos. Perdas
de vidas humanas, património cultural ou s erviços dos ecossistemas não fazem parte dessa estimativa.
As perdas relatadas, portanto, r epresentam apenas estimativas de danos parciais.
Legenda: Evenetos met eorológicos (ex:tem pestades); event os hidrológicos ( ex:inundações); eventos
climatológicos (ex:secas, t emperatuas e xtremas…). O ind icador mede a s p erdas gl obais de desastres
relacionados com o clima. É baseado no s dad os do N AtCatSERVICE gerido pela Munic h Re insurance
Company. O NatCatServi ce é um b anco de dados sobre catástrofes naturaias a nível mundial.
149
A variação por década evidencia a tendênc ia para o crescimento das perdas
económicas – na d écada de 20 00-2009 o total de perdas económicas f oi de 134
mil milhões de euros , o valor mais alt o de s empre. Os evento s climáticos
extremos que m ais prejuízos provocara m, no período em análise, f oram as
inundações que afetaram a Europa Central em 20 02 (cerca d e 20 mil milhões), a
seca e a on da de calor de 2003 ( 15 mil milhões) e a precipitação extrema que
afetou a França e a Itália em 2000 (consult ar aqui). Embora a ú ltima década não
esteja completa, o total de perdas económicas entre 2010 e 2015 já assume um
valor superior ao registado na década de 80.
Despesas relacionadas com o clima aumentam entre 2014 e 2015
A 21ª Conferência das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas para as
Alterações Climáticas (CQNUAC), realiza da em Paris, incentivou , novamente, os
países desenvolvidos a aumentar o seu apoio financeiro à mitigação e adaptação
em países e m desenvolvimento, f ornecend o mais tecnologia e apoio à capacitação
das popul ações e coloc ando o compromisso f inanceiro desse apoio em 10 0 mil
milhões de dólares por ano até 2020.
Figura 3 - Contribu ição para o compro misso internacional de 1 00 mil milhões de
dólares em despesas re lacionadas com clima
Fonte: Eurosta t (sdg _13_50); EC servic es and EI ON ET
Nota: BEI -Banco Europeu de I nvestimento
Legenda 2: O indicador mede o montante total gasto com o orçamento an ual dos Estad os-Membros da
EU, da Comissão Europeia e do Banco Europeu de Investim ento, a fim de c ontribuir para o compromisso
internacional de 100 mi l mi lhoes de dólares de financime nto relacionados com o clima no âmbito da
Convenção das Nações Unidas pa ra as Alterações Climática s (CQNUAC).
150
A contribuição da U E para este compromisso aumentou de 11 mil milhões, e m
2014, para 13 mil mil hões euros, em 2015 ( cerca d e 18% ) (Fig. 3). Cont udo, as
contribuições dos Estados-Membros variaram significativamente: a Alemanha
contribuiu, em 2015, com 7 mi l milhões euros e a Franç a c om 2 mil mi lhões, c om
uma ligeira diminuição face a 2014.
Nota final
Esta nova compilação estatística disponibiliz ada pelo Eurostat s erá, tudo aponta
para isso, u m instru mento importante para o estu do e análise dos esforços para
combater os impac tos das alterações climáticas no c ontexto da União Euro peia.
A existência desta fer ramenta permite a co mparação, agregação e partilha de
informação sobre o modo como os impactos das alt erações climática s se
distribuem pelos t erritórios europeus, também eles com níveis de risco e
capacidades de resposta muito diferentes.
Ana Rita Matias é socióloga e aluna de doutoramento no Programa Doutoral em
Alterações Climáticas e Políticas de Desenvol vimento Susten tável no Insti tuto de
Ciências Sociais da U niversi dade de Lisboa ( ICS-ULisb oa ). Tem trabalhado sobre
questões ligada s às desigualdades socia is, condiç ões de vida e ambiente .
151
Navigating climate change communication
between advocacy and denialism
Jieling Liu 2 de maio de 2018
hen I came back f rom Asia after a 4 -month trip t o Lisbon at the
beginning of March thi s year, a frien d came t o pick me up. Driving i nto
the city, I noticed how gree n every corner had turned and the su n was gently
shining golden l ight into the car – “ How ni ce! I came b ack to the peaceful, green
and sunny Lisbon!” As I spoke out lo ud my happiness, my friend kindly informed
me th at it had been raining for three weeks in a row, and that the sun “onl y came
out to greet my retu rn”. I was surprised, as mu ch of my memories of Li sbon have
been asso ciated with sunny summer on the beach. “Y es, my mother said it was
not at all common fif ty years ago to have so much rain at this t ime of t he year,”
with a look in my eyes, my friend added: “it’s climate cha nge, yeah?”
If I was to respond ins tinctively based on my sc ientific knowledge of clima te
change, I would say: “it probably is a result of c limate c hange”, which was what I
responded. We k now that climate c hange is not merely about the excessive
amount of CO2 in t he atmosphe re resulting in warmer temperature and “the
warmest year on record…in a row”, nor just about penguins and polar bears, i t is
also about warmer oceans, more vibrant storms and more destructive wind speed
– Harvey, Irma, Patricia… record damaging storms and superstorms on earth,
sea level ri se, in creasing heatwave mortality, and a range of uncertainty related
to extreme events, c ausing grea t costs of life a nd the economy. But it was obv ious
that the word “probably” did the opposite of facilitating the c ommu nication
and c larifying the issue of climate change , on the contrary, it tu rned of f the
conversation w hich ha d an excellent context “three w eeks of unusu al rain”, in
delica te awkwardness. The next thing we knew was that the rainy season
continued for another few weeks.
W
152
This graph s hows abou t 1200 diff erent s cenari os for ho w the c limate can evolv e!
Source: Glo bal Carbon Pro ject
This type of d iscussion is typical among peopl e w ho try to communicate climate
change and i t ind ic ates three things: 1) distance (temporal, social, and
geographical) to climate change e v ents which could lead to
decreased psychological proximity , reducing interests in communicating t he
topic; 2) “probability” is a translation of perceived uncertainty ; and 3) the
subconscious p erception of climate change issue – t remendous complexity, i s
above a cognitively manageable degree f or m ost non -scientists . Co mprehending
uncertain and complex information cou ld b e di scomfort ing and thus result in
disabling conversations. However, these psychological o r cognitive
interpretations can be easi ly confronted wi th the rather d ifferent reactions in the
60s and 70s w hen we for the first time came to a collective awarene ss of the
human-induced damages to our e cological environment. Back t h en, public
debates and d emonstrations were echoed, le gislation w ork was promoted, TVs
and r adios were voi cing actively t o push governments for ac tions, a series of
environmental agenda, policy tools and institutional bodies were created.
So why ar e we now so incapable of communicating the bigge st env ironmental
crisis of our time – climate change? The fact is, in between active climate
advocates and prominent deni ers, there i s a majority of people who are
mildly sceptical , h esitate t o discuss climat e change fu ll -frontally or s imply
insensitive about the issue. The scenes of climate change problems being
255
produzir alimentos básicos, respeitando a d iversidade cultural e produtiva ”. No
fundo, trata-se de consagrar o direito de produzir a própria alimentação nos
territórios locais ond e as comunidades vivem. Assim, a sobera nia alimentar é
uma condição prévia à verdadeira segurança alimentar. O concei to engloba
quatro dimens ões: o direito à alimentação; o acesso aos recursos produtivos; a
integraçã o da produçã o agroecológica ; e o comércio de pr oximidade, bem como
o uso dos mercados locais.
Uma das e vidên cias do impacto da crise financeira e e conómica d os últimos anos
é que a insegurança alimentar — incluindo episódios de fome entre adultos e
crianças — ocorre u também — e ainda o corre — nos países mais de senvol vidos. Este
deixou de ser um problema qu e, aparentemente, só se passa lá l onge, em África,
Ásia ou na América Latina. Está bem pert o de nós. Assim, as questões da
segurança alimentar, apesar de não serem frequentemente mencionadas no s
meios de comun icação social, estão presentes nas preo cupações qu otidianas d e
muitas f amílias, tanto nos países que vivem em escassez, como nos que vivem em
abundância.
No âmbito do projeto de investigação Famil y and Food in H a rd Times , em qu e
participa o Institu to de Ci ências Sociais, no qu al está a ser desenvolvido um
estudo comparativo entre a Noruega, o R eino Unido e Port ugal, uma equipa de
cientistas sociais do G rupo de Investigação A mbiente, Território e Sociedade e stá
a rec olher dados junt o de famílias com cria nças para compreender melhor os
impactos que a crise ec onómica teve, e ainda tem, nas práticas aliment ares dessas
famílias. Embor a não haja resultados preparados para divulgação, pois o t rabalho
de campo ainda está em curso, as entrevistas realiz adas têm mostrado a quilo que
vários nut ricionistas, comentadores e autores d e e studos sobre o a umento das
desigualdades sociais no nosso país têm vindo a documentar: u m retrato
dramático das condições de vida de muitas famíli as qu e passaram, e ainda
passam, por tempos bastante difíceis. Estas condições são, em grande parte,
resultado da crise e conómica, agravada p elas medidas de contenção orçamental
que vigoraram com mais intensidade entre 2011 e 2014 .
De forma a analisar e a prof undar estas questões, uma equipa do nosso Grupo de
Investigação r ealizou, em 2014, o Estudo de caracterização da pobreza e
insegurança alimentar nas famíl ias portu guesas com crianças em idade
256
escolar , fi nanciado pelo Programa Operacional de Assistência Té cnica do Fundo
Social Europeu e pelo Estado Port uguês. Com base em metodologias
quantitativas e qualitativas procurou -se id entificar s ituações de pobreza e
insegurança alimentar das famílias portuguesas com cria nças em idade escolar,
traçando um diagnóstico destas condições e e xaminando como a alimentação das
crianças e das suas famílias foi afetada pela crise.
Os result ados, a di sponibilizar em breve no livro Alimentação em Tempos de
Crise: Consumo e Se gu rança Alimentar nas Famíl ias Portuguesas, Imprensa de
Ciências So ciais, mostram qu e a insegurança alimentar, apesar de m ais
prevalecente nos segmentos economicamente mais vulneráveis, atravessava já,
em 2014, o tecid o soci al de modo transversal.
Seguranç a al imenta r e alterações climáti cas
Fonte: ” Globa l warming af fecting g lobal agriculture and food security ” de
Asamoa h Franci s , via Wikimedia Co mmons
Nos últimos anos, o concei to de segurança alimentar tem -se reconfigu rado e
tornado mais mul tidimensional. S egundo K evin Morgan e Robert a Sonnino ,
estamos perante uma nova equaçã o alimentar caracterizada: pela volatilida d e dos
preços no mercado al imentar global; pela transição nutriciona l nos pa íses e
economias emergentes; pela segurança alimentar vista como uma questão de
soberania na cional; pelo efeito das alt erações climáticas nos sistemas
257
agroalimentares; e, por fim, por cresc entes conflitos sobre recursos naturais,
incluindo terra, á gua e florestas , entre outros.
Todas estas qu estões proporcionam novas perspetivas sobre o conceito de
(in)segurança alimentar cobrindo diversas dimensões, tais como: a nutrição, a
inclusão social e a dimi nuição das desigualda des sociais; as políticas de proteção
social e o fortalecimento do Es tado Soc ial; as política s de emigração e de inclusão
das e dos refugiados — mu itos deles d o clima; as dimensões ambientais — por
exemplo, as qu estões do desperdício alimentar, a pressão das alterações
climáticas nos recursos natu rais e no deslocamento de popul ações; e também as
dimens õ es que incluem d ireitos humanos fundamentais, tais como o direi to
humano à alimentação. Brevem ente e stará disponível mais i nformação sobre
estas matérias no livro Routl edge Handbook on Consumption .
Mónica Truning er é soc ióloga e i nvestigadora principal no Instituto de Ciências
Sociais da Universidade de Lisboa ( ICS-ULisb oa ).
258
A bactéria da descon fiança: o caso de Vila
Franca de Xira
João Guerra 12 de abril de 2 017
s acidentes industriais que ameaça m a s aúde pú blica―ligados a ativi dades
económicas qu e, por sua vez, garantem a subsistência das famílias e das
comunidades―podem revelar -se momentos de ans iedade social excecional. Esses
episódios são, g eral mente, caracterizados por controvérsias p úblicas, pela
desconfiança nos si stemas de monitorização, e por processos ju diciais morosos
que, do ponto de vista das comunidades a fetadas, n em sempre se sa ldam por
resultados positivos.
Face à su a o corrência, assiste -se, f requentemente, a encadeados complexos, o nde
os sentimentos de in certeza e perplexidade se juntam a alguma in abilidade
institucional para lid ar com problemas inesperados. Este é o caso do surt o
de legionella , ocorrido entre 12 de out ubro e 4 de Dezembro de 2014, em Vila
Franca de Xira.
Surto de l egionella em Vila Fra nca de X ira em 2014
Fonte: Sapo
O
259
De acordo com o relatório final do Gr upo de Trabalho para o Surto de Legionn ela ,
criado pelo governo de então para acompanhar o probl ema, registaram -s e 375
vítimas, das qu ais 12 mortais, maioritariamente residentes naquele município.
Em Julho de 201 6, quase dois anos depois, foram constituído s nove arguidos: a
ADP – Adubos de Port ugal, uma fábrica de fertilizantes, apo ntada pelas
autoridades como fonte do surto; a General E lectric Water, empresa responsável
pela manutenção das torres de refrigeração da unidade fabril; e sete t écnic os das
duas empresas.
Ora, para enfrentar este tipo de desafios, p róprios da ‘sociedade de r isco’ , os
métodos qu e mais ape lam à participação e a o envolvimento dos cidadãos t êm
vindo a me recer uma progressiva aceitação e institu cionaliza ção. Tal ocorre num
quadro onde, tanto os princípios d a gov ernança (a partilha do poder de decisão,
com recurso a métodos mais ou menos deliberativos), como os da
sustentabilidade (precaução e equidade i nt ra e intergeracional no uso de
recursos), têm marcado crescente presença na implementação de med idas e
políticas pú blicas. Fr equentemente, aliás, estes t êm vindo a contrariar o
desencontro entre princípios e objetivos na pr omoção da qu alidade de vida e d a
qualidade ambiental.
Voltando ao c aso de V ila Franca de Xira, uma oficina participativa l evada a efeito
na freguesia de Póv oa de Santa Iria e Forte da Casa, uma d as mais assolada s pelo
surto, procurou pôr em prática estes desígnios de envol vimento públ ico na
reflexão sobre o desenrolar do processo e, sobretudo, sobre a ação das diferentes
instituições.
Oficina partic ipativa na f reguesia de Póv oa
de Santa Iria e Forte da Casa
Fonte: Foto grafia de João Guerra
260
A oficina d ecorreu no Pavilhão Mu nicipal do Forte da Casa, a 13 de Outubro de
2016, tendo sid o realizada em colaboração com uma associação local, Os Amigos
do Forte , e contado com a participação de mais d e três dezenas de residentes das
áreas afetadas. Estes fo ram agrupados em qu atro mesas de discussão distintas de
forma a permitir a co mparação de r esu ltados entre i ) mulheres; ii ) homens; iii )
sub-50 anos; iv ) não afetados.
Após deliberação nas diversas mesas, elaborou -se o seguinte diagrama qu e
expressa o s posiciona mentos individuais sobre a ação das diversas instituiçõe s
envolvidas no desenrolar do surto e na sua resolução:
Diagrama s íntese da a valiação dos mora dores de Vila Fra nca de
Xira quanto à atuação institucio nal na gestã o do surto de Legionella
Fonte: Ofici na partici pativa de Forte da Casa
A primeira gr ande conclusão qu e daqui decorre, corrob orada, efusiv amente, nas
discussões que precederam a constru ção do di agrama, é a genérica postu ra crítica
dos participantes. Para estes, apenas os s erviços hospitalares e, talvez por arrasto,
a Direção-Geral de S aúde se destacam pela po sitiva. Do lado opos to s urge a ADP –
Adubos de Portugal, a fonte mais óbvia do problema, mas são igualmente mal
avaliados o po der pol ítico, n acional e local, e a gen eralidade d as instit uições da
administração pública que, do ponto de vi sta dos participantes, falharam na
monitorização ou, simplesmente, na defesa do bem -comum e da saú de pública.
261
Para além das grave s consequências individuais e coletivas qu e o surto
de legionella representou para a comunidade de Vila Franca de Xira, a
agudização da desconf iança institucional parece, assim, ter sido um dos
principais result ados do su rto. Fenómeno que decorrerá de u m senti mento misto
de incompreensão e de abandono. A relativam ente boa posição do Ho spital, e dos
serviços de saúde em geral, resultará, aliás, d a própr ia n atureza dos cuidados
prestados, qu e implica a proximidade física de mé dicos, enfermeiros e outros
técnicos de saúde. Condição suficiente p ara que as vítimas s e tenham sentido
efetivamente ac ompan hadas.
Quanto à origem e gestão da crise, os pa rticip antes mostraram n ão comp reender
um processo de monitorização que falhou e que, apesar disso, terá deixado as
vítimas sem uma resposta atempada e efic az. À ausência (percebida) d os poderes
públicos junta-se a t radição pouco interventiva e pouco p articipativa d a sociedade
portuguesa que, por seu t urno, se agrava com o perfil das vítimas
(maioritariamente idosos), numa interação intrincada em que t odos saem a
perder.
Afinal, independentemente do esforço efetivo e das re ais atribuições de algu mas
instituições, os cidadãos vira m- se (sentiram-se) cerceados dos s eus direitos ma is
elementares e enfrentaram com perple xidade as disfunções do sistema. Sentiram
(e sentem) que não fu ncionou um sistema legislativo e um sistema de
monitorização que de veriam ter garantido a qu alidade ambienta l e a saúde
pública. Sentiram (e sentem) que a justiça e o sistema judicial (i nvestigação
criminal, Ministério P úblico, tribunais…) não aca utelaram o direi t o à saúde e o
ressarcimento da s vítima s. Se ntiram (e sente m) que não foram cha mados a dar o
seu contributo na resolução/minoração do problema.
Poder- se -i a ter atendido melhor o interess e públ ico e os d ireitos dos cidadã os? A
posteriori a resposta parece óbvia. Para se precaver este desfecho, ter - se -ia
justificado uma cautel a particular da g eneralidade dos age ntes envolvidos,
concretamente, em re l ação à natureza do surto, tipologia d as vítimas e qualidade
da prova pericial.
Quanto à natu reza do surto , tratando-se d e um dano ambi ental que expôs ao
risco u m número indeterminado de l ocais e t ranseuntes, sem que
ne cessariamente t ivessem qualquer perceção do facto, ter - se -ia imposto,
262
antecipadamente, legisl ação mais apertada qu e impedisse tal ocorr ência. Depois
exigiria u ma presença notória, articulada e eficaz das diversas i nstituições
públicas e privadas, direta ou indiretamente implicadas, de modo a clarificar as
características do su rto e suas consequências. Ter - se -ia pot enciado, assim, o
envolvimento dos afetados e da popul ação em geral na apli cação de me didas de
minoração do risco e de reparaçã o dos seu s efeitos.
Quanto à tipologia das vítimas , uma vez que, quando infetados por legionell a , os
grupos mais vulneráveis eram pessoas com mais de 50 anos, ter - se - ia imposto
uma adequação da performance e do discur so por parte do s órgãos públicos,
particularmente do p oder autárquico dada a sua estreita ligação com as
populações e organiz ações cívicas. Refira-se, a este propósito, qu e a simples
presença d e representantes autárquicos numa das sessões participativas
realizada s no For te da Casa parece, só por si, ter apazigua do os ânimos mais
exaltados.
Por f im, quanto à qualidade d a prova pericial , se a produção d e p rova poderia
condicionar a responsabilização criminal e o re ssarcimento das vítimas, ter- se -ia
imposto u ma atuação pericial exemplar. Not e-se que a acusação do Mi nistério
Público, que só muito recentemente veio a pú blico, a 15 de março de 2017, apenas
conseguiu estabelecer o nexo de causalidade para 73 dos 375 ca sos i nfetados e 8
das 12 vítimas mort ais, não restando, por is so, de acordo com a acusação,
possibilidade de res ponsabilização penal para a esmaga dora maioria das
ocorrências.
João Guerra é invest igador de pó s-doutoramento no Institu to de Ciências
Sociais da Universidade de Lisboa ( ICS-ULisb oa ).
263
Redução do sobreconsumo de alimentos de
origem animal: um tabu persistente
Fernando Ma no 10 de maio de 2017
A “carnificação” da di eta humana
crescente voracidade d os humanos por alimentos de origem animal
(sobretudo carne , lacticínios e ovos) , converteu um punhado de espécies
com interesse pecuário, nas mai s pre ponderantes do Pl aneta. Se um
extraterrestre ch egasse hoje à Terr a, provavelmente s entir- se -ia motivado a
chamar- lhe “Planeta d as Vacas”, coisa que não seria absurd a, considerando qu e já
em 2010 a massa total de bov inos domésticos excedia 130 milhões de toneladas,
enquanto o t otal da massa de seres humanos n ão u ltrapassava à data 100 m ilhões
de toneladas .
Produção int ensiva d e frangos nos EUA
Fonte: “A c ommercial chic ken house with open si des rai sing broi ler
pullets for meat” de U.S. D epartment of Agriculture , CC O , via Wikipedia
A
264
Ou talvez o nosso imaginá rio visitante preferisse chamar-n os o “Planeta dos
Frangos”, atendend o a que a população total de f rangos é 3 vezes superior à
população total de seres humanos, cifras q ue testemunham o enorme incremento
do sector pecuário a o longo das últimas décadas.
Há um século atrás, a proteína animal representava, em alguns países, uma
considerável fatia da di eta das suas popul ações, embora distri buída muito
desigualmente p elas dif erentes classes so ciais. O Reino Unido é u m exemplo d e
grande consumo de ca rne já em fin ais do sécu lo XIX e princípios do século XX,
fenómeno que a companhou a crescente urbanização e o au mento dos
rendimentos d as famílias, e que vir ia a revelar posterior te ndê ncia par a a
estabilizaçã o. É na segunda metade do século XX que se inicia um enorme
aumento do consumo dos produtos de orig em animal, primeiro n a maioria dos
países “desenvol vidos”, mas qu e rapida mente alastrou às classes mais abastadas
dos países “e m desenvolvimento”, tendo a produçã o global de carne triplica do a o
longo das últimas quatro décadas.
O aumento do c onsum o de produtos de origem animal, e mais concretamente de
carne, deve-se hoje m uito ma is ao aumento do apetite carnívoro das classes
médias das economias “emergentes” , do que a o aumento da população global do
Planeta. O consumo gl obal per c apita de carne , que em 196 2 era 23Kg, atingi u os
46Kg em 2009 e não parou de crescer desde entã o. A desigualdade é grande entre
países. Tradicionalmente os maiores con su mos per capita pert enciam aos
Estados U nidos, à A ustrália e à No va Zelândia onde se atingem consumos
superiores a 13 0Kg/ano, ao mesmo tempo que em vários países de Á frica e do sul
da Ásia, o consumo per capita ainda não f oi além de 10Kg/ano. Os países
europeus também a presentam elevados consumos per capita , mas com
tendência para a estabilização desde a década de 90 do sécul o pass ado, e a
maioria deles – salvo raras exceções – exibe consumos aquém dos 100Kg/ano.
Nas últimas décadas do século XX, alguns países da Euro pa meridional
acordaram d e forma serôdia, m as não menos voraz, pa ra o consumo de produtos
de origem animal. Port ugal é um desses casos que em poucas décadas se tornou
um dos maiores consumidores per capita de carne do mundo, com um consumo
de 111Kg em 2 015, ou seja, bastante m ais do t riplo da quantidade r ecomendada
pelo World Canc er Research Fu nd , que e m 2011 apelou a que a ingestão de carne
271
instituições, a começar pelos governos, olhem para o sobre consumo de produtos
de origem animal com o u m t abu: a dimensão económica do seto r pecuário. Só
nos Estados Unidos, o animal agrobusiness ascende a 125 milhares de milhões
de dólares, e na Europa esse valor é ainda superior.
Há u m conjunto de gra ndes empre sas envolvidas no negócio da pecuária que são
extremamente podero sas. Vão desde f abricantes de fertilizantes químicos,
farmacêuticas, e produtoras de sementes, até f abrica ntes de rações, de tratores,
de equipamentos de r ega, cadeias de super mercados, empresas de t ransportes,
etc.. E além de todos os referidos anteriormente, temos os agricult ores (neste caso
criadores), grupo especialmente protegido nos países mais desenvolvidos. Na
União Europeia mais de 12% do ren dimento b ruto dos criadores de a nimais, são
garantidos por subsídios públicos.
O mais simples, m ais eficaz e mais efic iente instru mento para contrariar o
aquecime nto gl obal, que é a redução do sobr econsumo de alim entos de origem
animal, c ontinua assim a escapar-s e entre os nossos dedos.
Fernando Mano é aluno de do utorand o no Programa Doutoral em Alteraçõe s
Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Susten tável no Instituto de Ciênci as Sociais
da Universidade de Lis boa ( ICS-ULisboa ).
272
Navegar a te nsão entre ciência e movi mentos
sociais: notas a partir da soberania alimentar
Rita Calvário 17 de maio de 2017
cada dois anos realiza- se o Colóquio sobre Estudos Agrários Crí ticos. Este
encontro junta investigadores/as qu e trabalham, numa perspetiva crítica e
socialmente co mprometida, temas ligados à agricul tu ra, mundo rural e
alimentação com ativi stas e movimentos sociais. O objetivo é proporcionar um
espaço de de bate que promova a reflexão crí tica e a coprodução de conhecimento
e contribua para avançar as lutas por um sistema agroalimentar global mais
equitativo, democrático e ecológico. Este é t ambém um espaço onde mu itas das
tensões qu e ocorrem na rela ção entre academia e mov imentos sociais se tornam
visíveis, mesmo que nem sempre de forma expl ícita.
Este ano f oi o País Basco a acolher a organização do Co lóqu io n.º 7 ( 24 a 26 de
abril ), aproveitand o o facto de ser aqui que se vai r ealizar a VII Conferência
Internaciona l da Via Campesina, de 15 a 2 4 de Julho de 2017 .
Foto de sessão plená ria do Co lóquio
Fonte: Elika dura21
A
273
A Via Campesina é um movimento internaci onal que representa cerca de 200
milhões de camp onese/as e pequeno/as produtore/as familiares,
trabalhadore/as agrícolas, povos sem ter r a, indígenas e m igrantes. Nasci do em
1993 como resposta à vaga neoliberal que as solou o Sul global na sequência dos
programas d e ajusta mento estru tural e dos acordos de comér cio livre, este
movimento lançou, em 1996 , a ideia de soberania alimentar. Inicia lm ente
centrada no dire ito de cada país em definir o seu sistema agroalimentar, desde
2007 a soberania alimentar envolve também a lut a pela democratizaçã o,
desmercantilização, r elocalização e e cologização do sistema a groalimentar
global, numa perspetiva de igualitarismo radical . Esta ideia, ou proj eto polít ico,
inspira atualmente a a ção coletiva de dezena s d e m ilhões de pessoas em t odo o
mundo, mas não é isenta de profundos debates, por exemplo, sobre o papel do
Estado.
O Colóquio não é organizado pela Via Campesina, mas ten de a juntar
académico/as qu e si mpatizam ou militam na organização, ou simplesme nte
partilham a ideia e o projeto da soberania alimentar. Isto não implica, no entanto,
que não existam posicionamentos c ríticos.
La Via Campes ina, mo vimento int ernacio nal de campo neses e ca mponesas
Fonte: La V ia Campesina
Um momento de te nsão ocorreu na ses são d e en cerramento. Entre o/as
oradore/as convid ado/as encontrava-se Henry Bernstein, u m académico
conhecido pelas suas críticas à Vi a Campesina ( entendida como um “saco de
gatos” composto por classes com interesses contraditórios), bem como à
soberania alimentar (perguntando, por exemplo, se a agroe cologia pode
alimentar o mu ndo). Na mesma mesa enc ontrava -se também u m ativista e
membro de uma orga nização a grária d o Sul global envolvido nas lutas pe la
soberania alimentar. O interessante foi o d eba te que se seguiu.
274
O académi co val eu -se d e Lenine, Marx e outros aut ores para defender que não há
campesina to, catalogando de populismo agr ário a Via Campesina e o projeto de
soberania aliment ar. Quando confront ado com argumentos de que este é um
movimento real, que existe e é in cont ornável, que entende o ca mpesinato não
como uma classe e m si ma s como u ma reivindicação políti ca que resp onde a uma
“vontade e necessidade de unificação” da queles e daquelas q u e sof r em “a
violência da mercantilização da t erra, trabalho, re cursos genéticos e
conhecimentos”, o orador manteve a sua posição sem qualquer tentativa d e
envolvimento com essa “realidade”, terminando a sua intervenção a dizer: “sou
um intelectual”.
Este afastam ento do “ real” para estudar “de cima” os f enómenos sociais não é
incomum na academia, mesmo para quem faz ciência crítica e é comprometido
com as class es populares. Em parte, tal é frut o da própria se paração entre c iência
e política, e e ntre intel ec tuais “t radicionais” e “orgâni cos”, m as refl ete também
um posiciona mento e pistemológico, o qual resulta de , mas também produz,
abordagens teóricas de leitura do mundo. A questão não é só a falta de
reconhecimento de q ue o/as “ de b aixo” p roduzem conheciment o, mas a de
entender que é possível compreender o mundo se m aten der à prática quotidiana,
social e política “real mente” existente em c ontextos determinados. As relações
sociais não s ão algo abstrato, exigem sensibilidade ao qu otidiano e às
circunstâncias que influ encia m as resistências e estratégias ativistas.
Com isto não quero dizer que apenas a imersã o no real produz conhecimento ou
que a ab stração teóri ca distanciada da prática não é n ecessária. Antes pelo
contrário. Sem essa abst ração dificilmente se p ode ser út il a uma prática com
ambições emancipatórias. Mas sem capacidade de apre(e)nder a partir da prática
e das suas contradições , possibilidades e l imitações, dificilmente se po de produzir
um conhec imento útil. O que restaria seria enunciar “o que fazer” a partir de uma
leitura fria, distante e “intelectual”, ou então defini r a priori o que é ou n ão
político e simplesme nte catalogar o que existe n a esperança de en contrar
o político verdadeiro .
Por sua vez, o ativista manifestou desc ont entamento com uma prática de
investigação que con sidera ser muitas ve zes distante dos int eresses dos
movimentos sociais. Mencionou que são frequentemente abordados por
275
investigadore/as qu e segu em as suas agendas e pouco retor no dão aos
movimentos, especialmente porqu e os tempos de inve stigação são longos
comparados com as necessidades de re sposta imediata do ativismo. Na sua
perspetiva, a investigaçã o deveria responder mais a essas necess idades e às
agendas dos movimentos se re almente está comprometida com as lu tas
populares.
Marcha no Dia Inter nacional das Lutas Camponesas, 17 de Abr il 201 3
Fonte: Europea n Food Sovereignty Mo vement
Da plateia, um outro ativista referiu a importância de aproveitar o espaço do
colóquio para debater como pode a academia fazer avançar o mov imento pela
soberania alimentar, deixand o- se de debates abstratos, por ex emplo, sobre o que
é ou se existe o c ampesinato. Uma académica concordou, afirmando que o seu
contributo para o movimento faz-se através da afirmação da soberania alimentar
e da agroecologia d entro da s universidades. Outra investig adora realçou um
paradoxo, já que ela ti nha d eixado de s er u ma bióloga “pura” para introduzir na
sua investig ação u ma componente mais s ocial e crítica, mas o qu e o/as
agricultore/as agroecol ógico/as l he ped em é investigação apl icada em
agroecologia.
276
Estes pos icionamentos levantam questões relevantes. Por u m la do, há uma
tendência para entender a inve stigação como um braço do movimento social
dentro das universidades com o pap el de influ enciar os debates teóricos, muitos
dos quais produzem pensamento hegemónico e influenciam as políticas. É certo,
desconstruir a ciência “normal” e normalizar as alternativas, como por exemplo
a agroecologia face aos modelos domi nantes da ag ricult ura industrial-químico ou
eco-modernista, é parte de u ma lut a política e requer ac adémico/as
comprometido/as. Não há ciência neu tra nem apolítica, mas ela pode ser pós-
política . Também po r isso, questões de posicionalidade e reflexividade são
importantes.
Mas há riscos em e ntender a investigação como uma mera extensão do
movimento ou um simples reflexo dos seus deba tes e agendas internas. U m
desses ris cos é o dos movimentos abdicarem de aceder a leituras sobre o mundo
e a sua ação que os ajudem a ir além do p articularismo militante e a enquadrar a
sua ativid ade num quadro mais global, potenciand o a c apacidade de reflexão
crítica e apoiando a definição de e stratég ias. Aqui a perspetiva crítica é
necessária. Se a investigação se limita a fazer a celebração das resist ências e d as
lutas, pouco mais resta do que a a utossatisfaç ão.
Por outro lado, há muitas formas da ciência se r útil aos movimentos, por vezes de
forma inesperada. Há estu dos realizados se m qualquer ligação ao s movimentos
que a dado momento podem ser cruciais p ara avançar uma rei vindicação. Há
outros que aparentemente não trazem nada de novo aos próprios movimentos,
mas podem ajudar a v isibilizar as suas l utas, a estabelecer liga ções com outros
movimentos, etc.
A investigação e os movimentos têm os seus próprios espaços e temp os e manter
a autonomia entre a mbos é cruc ial. Nem os movimentos d evem ser meros
“objetos” de estudo de onde se extrai infor mação par a cumpri r exigências de
publicação, nem a investigação pode apenas responder às agendas, int eresses ou
anseios dos moviment os. Há muit as formas de estabelecer colaboraçõe s
produtivas e construtivas, bem como vários métodos qu e tentam descolonizar a
investigação e apostar na ação-participante o u militante , sem esquecer
os desafios pessoais e profissionais de conduzir pesquisa em tempos neoliberais.
277
As ansiedades de parte a p arte, entre a cademia e movimentos so ciais, são de certo
modo inevitáveis e não há receita para as reso lver. Estas tensões são um terreno
de perm anente navegação e negociação, bem como de problematização sobre a
utilidade da ciência .
Rita Calvário é membro da equipa Observa – Obser vatório de Ambiente, Territóri o e
Sociedade.
278
O aumento da pre scrição e do consumo de
psicofármacos em Po rtugal
Nádia Salgado Pereira 5 de julho de 2017
egundo u m relatório de 2011 da Ordem dos P sicólogos Portugu eses ( OPP ),
10 a 20% das pessoas que procuram os cuidados d e saúde primários e m
Portugal revelam qu eix as psicológicas. Dados recolhidos entre 2 008 e 2009
apontam para uma prevalência elevada de problemas psicológicos n a população
portuguesa, situada em 23% e acima da média da União Euro peia. No mesmo
sentido, de ac ordo com u m relatório da Co missão Europeia de 2 010, Portugal
está entre os países da U nião Europeia onde mais aumentou a procu ra de ajuda
psicológica entre Dezembro de 2005 e M arço de 2010. Estes dados sugerem que
os probl emas psicológicos terão crescido consideravelmente em Port ugal, em
particular ao longo d a crise económica, cr iando uma maior necessidade de
intervenção na sa úde mental.
Fatores como o d esemprego, a precariedade l aboral e os cortes de r endimentos,
potenciados pelas crises económicas, pode m conduzir a situações d e carência
económica e de pobreza .
Impacto da crise econó mica na saúde mental
Fonte: iS tock
S
279
Estas encontram-se associadas a um maior ri sco de problemas psicológicos,
nomeadamente depressões e pertu rbações da ansiedade, pod endo conduzir ao
suicídi o. De ac ordo co m os resul tados de um estudo rec ente , esta rel ação entre as
condições de privação material e o risco de suicídio f oi observ ada durante o
período de crise em Portugal.
Nos últimos anos observou-se em Portu gal um aumento da prescrição e do
consumo de psicofármacos. Segundo o Plano Nacional de S aúde 2 012 – 2016 da
Direção Geral d e Saúde ( DGS), o consumo de ansiolíticos, hipnóticos, se dativos e
antidepressivos regist ou um aumento no Servi ço Nacional de Saúde ( SNS)
superior a 40% entre 2002 e 2009.
Consumo d e antidepres sivos na Un ião Europe ia
Fonte: Speci al Eurob arom eter 345
280
No mesmo sentido, e de acordo com dados do Infarmed , entre 2000 e 2012
registou-se um aumento do consumo d e a ntidepressivos e de antipsicóticos.
Relativamente a estes dad os, Port ugal apresentou a maior taxa de c onsumo de
ansiolíticos, sedativos e hipnóticos em comp aração com países co mo a Itália, a
Dinamarca e a Norueg a. Segundo um relatório da Comissão Europeia , Portu gal
revelou a maior t axa de consumo de antid epressivos entre Dezembro de 2005 e
Janeiro de 2010, corre spondendo ao dobro da média da U nião Euro peia. Estes
dados ilustram bem o aumento su bstancial de problemas psicol ógicos na
população portuguesa.
No entanto, a capacidad e d e encaminhament o de u tentes para os se rv iços de
saúde mental no SNS parece ficar aquém das r eais necessidades, devido ao
reduzid o número de pr ofissionais atualmente existente. Segundo dec larações do
bastonário da OPP , Francisco Miranda Rodrigu es, à TSF, o SNS carece d e pelo
menos 500 psicólogos para conseguir dar res posta ao elevado nú mero de casos,
que nem sempre necessitam de tratamento psicofarmacológico ou de
internamento. A falt a de prof issionai s de saúde mental pode, assim, ajuda r a
explicar o aumento da prescrição d e psicofár macos, dada a d ificuldade por p arte
dos médicos em encaminharem u tentes para as especialidades. C onfrontados
com as dificuldades no encaminhame nt o, os médicos encontram como
alternativa a prescrição de psicofármacos. S em o ne cessário acompanhamento
psicológico, es te tipo de intervenção coloca em causa a ade qua ção da resposta do
SNS face ao agravamento dos problemas de saúde mental.
Hoje em dia é questionável a opção por tratamentos exc lusivamente
psicofarmacológicos. A curto prazo, tanto a intervenç ão psicofarmaco lógica como
a ps icológica demonstram eficácia. No entant o, os efeitos positivos das terapias
psicológicas sã o prolongados e veri fica -se um menor número d e posteriores
ocorrências. Por seu l ado, os benefí cios dos psicofármacos apenas se mantêm
enquanto continuam a ser consumidos, podendo, assim, conduzir a probl em as de
dependência crón ica. Além disso, a literatura descreve u m conjunto de efeitos
adversos a ssociados ao consumo de psicofármacos, nomea damente a tendência
para a somatização e o dese nvol vimento de traços fóbico-obsessivos.
Outro aspeto particularmente re levante diz respeito ao potencial de reintegração
socioprofissional dos t ratamentos psicológicos que têm sido associados à redução
287
Conselho Europeu de Inve stigação (FP7/2007 -2013 /ERC Grant Ag reement n.°
337977), sendo coordenado por Rebecca O’C onnell (University College London).
Em Portu gal, o projeto iniciou- se em agosto de 2016 e está a ser coordenado no
ICS-ULisboa por Mónica Truninger e Ka rin W all.
O objetivo principa l é analisar as experiências e implicações da pobreza alimentar
em agreg ados f amiliares com baixos ren dimentos. Numa primeira f ase, foram
entrevistadas 45 famílias com m enores a seu c argo (entre os 11 e 15 an os de idade)
e com algum grau de privação material, residentes na área urbana de Lisboa e
numa zona rural em Sintra. Realizámos 90 entrevistas (4 5 encarregados de
educação/pais e 45 crianç as) com uma duração até 3 horas.
Numa se gunda fase , selecionaram-se d oze famílias para serem visitadas de nov o.
Fizemos então outra entrevista com recurso a métodos visuais. Cedemos
máquinas fotográficas e propusemos às crianças que retratassem as suas
refeições (em casa e f ora desta) durante duas s emanas. P assado este período,
recolhemos as fotografias e as cri anças con versaram connosco sobre as suas
experiências durante a atividade propo sta. Foram a inda realizadas e
documentadas visitas às cozinhas d as famílias, e falámos com o s pais para saber
se existiram mudanças nas sua s vidas desde a p rimeira entrevista.
Campanha do Banco A limentar
Fonte: Foto grafia de Lu Pan
288
Tendo em conta os obj etivos do projeto, emergiram cinco gran des c ategorias de
análise: condições económicas, pobreza alimentar, recursos para fazer face à
pobreza refeições esc olares e alime ntação s au dável. De seguida, apresentamos
um sumário das princi pais questões às quais procuramos responder ao longo da
nossa investigação.
Condições Económicas
Os result ados apontam o desemprego como o principal factor explica tiv o das
atuais condições e conómicas das famílias. Em ergiram três grandes cat egorias: (1)
desemprego de longa duração em que a c rise económica iniciada em 2008/2009
surge como a causa pr incipal; ( 2) desemprego de l onga duraç ão de vido à saúde
do próprio entrevista do (psicológica ou física ) ou de out ros ( papel de cuidador);
(3) situações oc asionais de emprego precário ou mal pago aliadas a desemprego
(mesmo que oc asional ou de curt a duraçã o). Uma pergunta a fazer é saber qual o
papel das políticas sociais para a melhoria das condições económ icas das famílias.
Pobreza Alimentar
Conclui-se que, apesar de a alimentação ser uma prioridade para as famílias e os
episódios de f ome serem esporádicos nesta amostra, isso não atenuou os
constrangimentos s entidos. Face a est e quadro, interessa-nos per ceber: de qu e
forma foram afetadas a quantidade e a qu alidade dos alim entos consumidos? Os
baixos recursos económicos permitiram manter u m mínimo de participação
social ( ex. comer fora, receber ou visitar ami gos para comer em cas a)? E como
são geridas as e xperiências de pobre za e qu ais as consequências psicológicas e
emocionais associadas?
Recursos para fazer face à Pobreza Alimenta r
Os resultados mostram que as famí lias recorrem a tipos de estratégias difere ntes
para r eduzir os custo s noutras áreas do se u orçamento familiar, de forma a
preservar a sua alimentação. Para além d isso, ad otam estratégias cria tivas de
gestão da alimentação, c omo a c onfeção de pratos baratos, que façam render ( ex.
muita massa ou arroz com pouca carne) e que cheguem para mais do que uma
única refeição.
289
Mas valerá a pen a p erguntar se existirão difer enças nas estratégias a dotadas entre
as famílias a res idir em meio rural e u rbano. Por exe mplo, terão as f amílias
residentes em meio ru ral um acesso mais pr ivil egiado a alimentos f rescos (ex.
vegetais e frutas)? Ou será que as famílias e m espaço u rbano t êm mais apoios
para fazer fa ce à pobr eza alimentar? De fact o, vimos que a ajuda formal (ex.
apoios sociais, caridade) e informal ( ex. ami gos, f amiliares) mostr ou -se cruc ial
para t odas a s famílias. Mas como se caracteriza esta ajuda? E qu e fatores facilitam
ou condici on am o acesso aos diferentes tipos de a juda?
Refeições Escolares
Em relação às r efeições escolares observou -s e que estas são muito importantes
para as crianças de f amílias caren ciadas. Mas será que as crianças e os jovens
gostam destas refeições? Por que será que o peixe não é tão apreciado?
Refeição escolar nu ma escola po rtuguesa
Fonte: Foto grafia da au toria de uma das criança s que parti ciparam no proj eto
Alimentação Saudável
Relativamente às noçõ es de alimentação saud ável observámos que praticamente
nenhuma família tinha dúvidas sobre o seu significado. Para além disso,
reconhecem a import ância de manter uma boa alimentação. Contudo, será que
290
conseguem aceder ao s ingredientes necessários para fazer e manter u ma
alimentação saudável? Será a sopa um prato habitual, simbolizando u m prox y
possível à a limentaç ão saudável?
No Colóqu io “Famílias e Alimentação em Tempos Difíceis” procu rarem os dar
resposta a estas quest ões com bas e no s d ados recolhidos ao longo dos últimos
dois anos. A arti culação entre os dad os recolhidos a partir das entrevistas com os
métodos visuais mostr ou ser crucial para u ma visão ma is alargada sobre esta
temática. P ara além disso, considerar a p erspetiva das cr ianças e dar-lhes um
papel de destaque neste projeto permitiu expor arestas qu e não h aviam sido
consideradas anter iormente e que enriqueceram a nossa compreensão sobre os
desafios da alimentação nas f amílias com baixos r endimentos. Os d ados obtidos
confirmaram algu ns resultados sistematizados em pesquisas anterio res, porém,
também ajudaram a desmistificar ideias e estereótipos veiculados na opinião
pública sobre a alime nt ação das famí lias de b aixos rendimentos.
Se quiser sab er m ais, convidamo-lo a participar no Colóquio, cujo programa s e
encontra aqui . Poderá insc rever -se gratuitamente aqui.
Monica Truninger é Investigadora Auxiliar no Instituto de Ciências Soc iais da
Universidade de Lisboa ( ICS-ULisboa ).
Sónia Cardoso é bolseira de pós -dout oramento no p rojeto “Familie s and Food in Hard
Times”, no Instituto de C iências Sociais da Universidade de Li sboa ( ICS- ULisboa ).
291
Segurança alimentar e políticas públicas
sobre alimentação
Virgínia Henri ques Cal ado 11 de julho de 2018
criação de conselhos municipais de alimentação em Portugal é uma
proposta em torno da qu al se têm vin do a mobilizar diversas enti dades,
designadamente, a FA O-Portugal , a Rede Rural Nacional , a Rede Port uguesa pela
Soberania e Segurança Alim entar e Nut ricional ( ReAlimentar ) — rede da
sociedade civil que «t em por objetivo princi pal influ enciar os p rocessos de
formulação e tomad a de decisão sobre políticas públicas, nacionais e
internaci onais, que d igam respeito à Soberania e Segurança Alimentar» — e
universidades port uguesas, como a Universidade Aberta e a Universidade de
Lisboa, esta ú ltima através do Colégio Food, Farming a nd Forestry
(F3). Seminários org anizados, como aquele em que se discutiu o Direito humano
a uma alimentação adequada através d e compras públicas e c adeias curtas
agroalimentares (Universidade de Lisboa, 7 de fevereiro de 2018) ou a
oficina Direito hu mano à alimentação adeq uada e polí ticas públicas ao nível
local (FAO – Port ugal, Lisboa, 19 de junho d e 2018), permitiram dar conta do
desejo de implementação de pol íticas pú blicas nacionais e mu nicipais que
possam contribuir para u ma realização progr essiv a do d ireito a uma alimentação
adequada.
Cartaz de d ivulgação d e oficina , 2018
Fonte: FAO -Po rtugal
A
292
A discussão empreendida tem salientado, entre outros aspetos: a importância da
agricultura f amiliar; a procura de modos de produção, distribuição e consumo
sustentáveis; a valo rização das r edes locais de produção e consumo; a
importância da partici pação da sociedade civil e a necessidade d e f amiliarização
com conceitos como os de alimentação adequ ada e de se gurança alimentar e
nutricional – conceitos estab elecidos pela FAO. É justamente sobre os conceitos
de (in)seguran ça alimentar, no sentido que l hes é atribuído pela FAO que m e
debruçarei, sinalizando alguns eixos que me parecem relevantes no
aprofundamento da di scussão.
Segurança alimentar : «situação em que todas as pessoa s, em qualquer
momento, t êm a cesso f ísico, social e económico a alimentos suf icientes,
seguros e nutritivos, que permit am satisfazer as suas necessidades nutricionais
e as preferências alimentares pa ra uma vida at iva e sa udável.»
Insegurança alimentar : «situação em que as pessoas não têm acess o, de
forma segura, a aliment os sãos, nutritivos e em quantidade suficiente para
garantir o s eu normal cre scimento e desenvolvimento bem como uma vida
ativa e sa udável»
FAO, IFAD, UNICEF, WFP and WHO . Th e state of f ood security and nutrition
in the world 2017 :107 .
Uma primei r a consideração, a propósito da s egurança a limentar , tem a ver com
semântica e correspon dentes implicações ideol ógicas agregadas a es ta noção. As
palavras raras vezes são fruto de acaso e muito me nos o são quand o a partir delas
se procuram d efinir políticas pública s. O conceito de segurança
alimentar constitui uma d as expressões que reportam a uma conceção especí fi ca
de governo das sociedades. Trata -se de u ma conceção em qu e a prot eção,
harmonização, regulação e control o são promovidos através d e polític as asse ntes
nas noções de risco e segurança. A persp etiva de regulação social, que se revela
através da segurança q ue se pro cura proporci onar aos cidadãos, não assenta tanto
num discurso com pendor claramente sancionador, d isciplinador e moralista,
antes salientando o discurso securitário, protetor e preventi vo , através do qual
estados de exceção e medidas espec íficas, como as relativas à produção,
distribuiçã o e consumo de alimentos, pode m s er implementados e legit imados. A
esta visão, que se vem tornand o hegemónica, importa contrapor u m olhar crítico:
pugnar pela segurança alimentar, e por um a alimentação adequada, pode não
293
significa r apenas u ma forma de zelar p elo bem comum, remetendo, t ambém, para
uma limitação de escol has individuais e uma restrição de direitos f un damentais,
como o di reito ao livre desenvolvimento da persona lidade, direito para o qual
a Constituição da República Portuguesa remete ( artº 26 ) e qu e Luísa Net o ( 2009 )
discute ao analisar a nu trição como política públ ica.
Uma segunda consideração prende -se com a dimensão tecnocrática qu e envolve
o conceito de segurança alimentar . Surgido, afinado e estabelecido no qu adro da
FAO, este conceito foi obje to d e u m parti cular investimento a partir da década de
1970, altura em que a identificação d e uma crise alimentar global conduziu a uma
intensificaçã o do debate internacional sobr e a disponi bilidade de alimentos
básicos, como os cereais, e a su a estabilidade em t ermos de preços. A
transformação do conceito de segurança alimentar num conceito operacional , a
partir do qu al se pude sse me dir e apresentar de forma obj etiva a insegurança
alimentar, constitu iu u m procedimento in dispensável para procurar regular a
produção e distribui ção de alimentos e também p ara definir formas de
intervenção, medidas e programas de ajuda alimentar. Uma das m etodologias
adotadas pela FAO par a avaliar a insegurança alimentar baseou-se na quantidade
de calorias ingerid as per capita (discutível enquanto modo de medição), mas
outros meios, mais sofisticados, f oram su rgindo também, nomeadamente com a
complexificação de fórmu las de c álculo que confluíram para u m fechamento de
campo e o afastamento de não e specialistas. A existência, na dependê ncia da
FAO, de um organismo como o Comité para a Segurança Alimentar Mundial
( CFS ) e os inúmero s relatórios e demais do cumentos inces santemente
produzidos por esta agência, tr aduzem bem u ma intensa atividade tecnocrática
em torno desta questão. No seio da FAO, estudos de caráter mais qu alitativo não
abundam, e dimensões d a alimentação relacionadas com a cult ura,
convivialidade , reciproc idade e hospitalidade são frequentemente ignoradas.
Uma terceira e última consideração prende -se com a necessidade de
monitorização dos usos dos conceitos de (in)segurança alimentar. Apresentados
como resultado de cálcu los objetivos, f requenteme nte provind os de especialistas
que é suposto garantir em rigor, t endem a ser apresentados como elementos
neutros, que servem de justif icaç ão a políticas públicas e formas de atuação por
parte do sec tor agroalimentar. Convém sublinha r que a noção de segurança
294
alimentar pode f acilmente ser ca pturada por este se ctor, qu e tanto evoca a f alta
de alimentos para procurar apoio para uma l ógica mais pro dutivista, como evoca
questões de segurança para justificar formas de alimentação afirmadas como
mais sustentáveis, como é o c aso da agricultu ra biológica. Também os est a dos
podem afirmar a insegu rança alimentar qu e os afeta, para, através da ajuda
externa, procurarem d iminuir os seus problemas orçamentais, como é o caso de
diversos estados a fricanos. Por fim, há também a referir que o aumento da
segurança alimentar, c om maior produção e disponibilização de alim entos, é feita
por veze s à custa da perda de soberania ali mentar, tal como a Via C ampesina ,
movimento que coor dena o rganizações ca mponesas de p equenos e médio s
agricultores e trabalhadores agrícolas de t odo o mundo, t em procurado
denunciar, destacando que a g arantia da segurança alimentar pode colocar
algumas sociedades na dependência de grandes empresas tecnológicas e
agroalimentares. Pelos mot ivos expostos, é, pois, c onveniente manter a noção de
segurança alimenta r sob atenta vigilância.
Virgínia Henriqu es Calado c o nduz no Instituto de Ciências S ociais da Universidad e
de L isboa ( ICS- UL isboa ) o projeto “Políticas que Amassam o Pão: Cidadania e
Orientações Alime ntares no Âmbito das Nações U nidas”, projeto financi ado pela FCT
através da bolsa de investigação SFRH/BP D/97532/2013. Integ r a o grupo de
investigação Identidades , Culturas, Vuln erabilidades e o Colégio Food , Farming an d
Forestry (F3) .
295
Comer o mu ndo . Desafios de sustentabilidade
na nossa alimentação
João Graça 31 de outubro de 2018
uitos alertas e discussõ es sobre a (i n)sustentabilidade dos atuais p adrões
de pro dução e consumo humano centram -se em t emas como os
transportes, a dependê ncia energética d e recursos fósseis, e a se paração e gestão
de resíduos. No entant o, a nossa alimentação, e a produç ão e o consumo de
ali me ntos de orige m animal em particular, têm si do associados a problemas
ambientais muito significativos em todas as escalas, qu e in cluem a degradação de
terrenos ar áveis, alteraç ões climáticas, poluição atmosférica , polu ição e
destruição de recursos hídricos, e perda de biodiversidade.
De f acto, o século passado assistiu a um au mento massivo e sem pr ecedentes da
frequência e quantidade do consumo de alimentos de orige m animal,
materializand o uma ap roximação global aos p adrões e estilos de vid a dos países
ocidentais industrializ ados. Uma das principais mar cas d esta mudança em l ar ga
escala caracteriza-se pelo aumento e xponencial do c onsumo de carne e p ela
redução progressiva d o consumo de cereais integrais, leguminosas e vegetais, à
medida que as sociedades s e t ornaram m ais abastadas. A t ítulo ilustrativo, em
Portugal os indicadores de consumo de carne apontam p ara um aum ento de ma is
de 40 0% entre 1961 (cerca d e 23kg anuais per capita) e 2 017 (ce rca de 114kg
anuais per capita), considerando estatísti cas relevantes disponíveis a partir de
várias fo ntes (FAO-United Nations; Institut o Naci onal de Estatística) .
Ao nível global , os níveis de produção de carne quadruplicaram nos últimos 50
anos, passando de cerca de 70 milhões d e t oneladas para mais d e 300 mi lhões d e
toneladas por ano. As estimativas preveem que este número continue a au mentar
ex ponencialmente nas próximas décadas, devido ao aumento da popu lação
mundial e a mudanças socioeconómicas com refl exo na procura e na oferta de
alimentos de or igem animal.
M
296
Produção de carne ao nível globa l (mi lhões de toneladas/ano )
Fonte: FAO
As consequências ambientais destas mudanças, à e scala gl obal, s ão alarma ntes,
especialmente numa altu ra em que a sustentabilidade dos sistemas a limentares é
apontada como um dos principais desafios para o desenvolvimento
humano . Vários estudos e meta-análises re centes, que examinaram milhares de
unidades de pro dução em vários pontos do mundo, centenas de s istemas
agrícolas e dezenas de produtos alimentares, têm reforçado que os a limentos de
origem vegetal apresentam consistenteme nte maior eficiência n a produção
e menores impactos ambientais comparando com alimentos de origem animal.
Estes estudos concluem ainda que a sustentabilidade dos si stemas alimentares
implica mudanças p rofu ndas nos pa drões d e consumo, materializadas
numa transição para di etas de maior b ase vegetal , para obter benefícios
ambientais necessários a u ma escala e al cance não atingíveis apenas por
melhorias baseadas na produ çã o.
Apesar da força desta s conc lusões, admite- se qu e poderá ser necessária uma
profunda mudanç a social para atingir progr essos sign ificativos na redução do
consumo de carne e nu ma alimentaç ão de maior base vegetal. Sendo um tema
recente, as evidências acerca do s processos psicossociais que afetam esta
transiçã o p ermanecem relativamente escassa s. Alguns estu dos apontam, ainda
assim, para várias con clusões qu e pod em a judar a compreender em que medida
estamos realmente dispostos a alterar os nossos hábi tos.
303
Mudanças nas prátic as do s consumidores:
como as baterias dos telemóveis podem
contribuir para a eficiência energética
Ana Horta 17 de fevereiro d e 2016
e tem um sm artphone já deve t er reparado na rapidez com que o pequeno
aparelho fi ca sem bateria. Por isso há qu em a nde s empre com o c arregador
ou tenha comprado u ma bateria de reserva ou power bank . Ma s também há
quem esteja a desenvol ver uma nova pr ática: gerir o telemóvel de modo a evitar
gastar energia desnecessari amente e assim prol ongar a duração da bateria.
Uma investigação realizada recentemente mostra que gerir a energia do
telemóvel é uma nova prática de muitos adolescentes. Sendo o gru po etário qu e
mais utiliza o t elemóvel e tendo geralmente grande facilidade em ut ilizar
tecnologias eletrónic as, parte dos adolescent es está a adquirir um hábito que
consiste em usar energia com mais efi ciência. Este know -how poderá ser aplicado
noutros domínios da sua vida quotidiana, co m benefícios t anto a nível económico
como ambienta l. Da da a necessidad e urgente de t ornar sustentáveis as
sociedades contemporâneas, o desenvolvimento desta prátic a é mu ito
interessa nte do pont o de vista d a mudança de comportamentos no se ntido de um
consumo de energia mais su stentável. Es ta investigaçã o mostra o processo de
adoção desta prática, contribuindo para compreender como s e processam
algumas mudanças nos comportamentos r elacionados com o con sumo de
energia.
A questão de como promov er a mudança de comportamentos no sentid o da
adoção de práticas quotidianas mais sustentáveis tem s ido amplamente debatida.
Apesar de todas as campanhas de sensibilização realizadas, a concretização
destas mudanças t em-se revelado muito di fícil, em parte porque as nossas
atitudes, valores e informação nem sempre se t raduzem naquilo que fazemos na
prática. E assim dificilmente mudamos mu itos dos nossos hábitos, mesmo
sabend o que são pouc o recomendáveis do p onto de vis ta ambiental, económico
S
304
ou da nossa própria saúde. Mais investi gação sobre como s urgem e se
transformam os nossos hábitos é , por isso, fundamental.
O artigo agora publ icado sobre o modo como os a dolescentes portugu eses
utilizam o telemóvel e as suas implicações e m t ermos de consumo de energia
ajuda a compreend er qu e fatores estão envol vidos na f ormação de hábitos de
utilização de energia c om mais eficiência.
Com base num inquérito e em
entrevistas realizadas a adolescentes em
Lisboa, a equipa obser vou três fases na
formação das práticas de gestão da
energia do t elemóvel. Nu ma primeira
fase, em que os u tilizadores começaram
a usar telemóvel, as s uas competências
relativas ao uso deste ap arelho (bem
como ao s eu consumo energético) er am
ainda ele mentares: lim itavam-se a ligar
o telemóvel ao carregador quando a
bateria acabava. Uma segunda fase
inicia-se q uando trocam o t elemóvel anterior por um smartphone e aceleram o
seu rit mo de ut ilizaç ão do telemóvel. Nessa altura a necessidade de orquestrar a
bateria disponível rel ativamente às diversa s circunstâncias de u tilização do
telemóvel (como o facto de estarem fora d e casa s em o carregador ou terem usado
as redes so ciais ao longo do dia através do W i -Fi da escola) faz emergir práticas
de gestão do aparelho que permitam prolong ar a energia disponível na bateria.
Na terceira fas e estas práticas t ornam-se nor mais, passando a fazer parte das suas
rotinas diárias e permitindo integrar com sucesso o t elemóvel nas diversas
atividades da vida quot idiana . Evitam assim situações de ru tura, como ficar sem
bateria qu ando prec isam de avisar os pais para ir buscá -los ou quando querem
manter-se ativos nas redes sociais.
Estas práticas de gestão do telemóvel incluem ações como desligar o acesso a
redes (W i-Fi, Bluetoot h) e determinadas funções quan do não são necessárias,
reduzir o brilho do e crã, fechar as aplicações depois de usá -las, desinstalar
aplicações que não sã o u sadas e ativar o m o do de poupança de energia.
Fonte: “ Charging mo bile p hone o n wooden
table ” by Ruslan Na ssyrov , via 123RF S tock
Photo
305
Para que estas práticas sejam adotadas e reproduzidas é fu ndamental a
articulação de diversos elementos. O artigo mostra como se estabelecem e são
cruciais as interligações entre infraestrut uras (como a e xpansão da rede de
internet wireless nas escolas, t ransportes públicos e em casa dos adolescentes),
objetos (as características do própr io t elemóvel e suas aplicações, qu e o t ornam
tão apelativo mas, simult aneame nte, grande consumidor de bateria), contexto
sociocultural ( em que se inclui a pressão social no sentid o d e se ser popular,
participar ativamente nas redes sociais ou ter um telemóvel topo de gama e m vez
de um “tijolo”, por exe mplo) e disposições incorporadas (como a ne cessidade que
sentem de ter sempre o telemóvel consigo ou o hábito de peg ar n o aparelho e
verificar se há nov as mensagens, me smo não ten do r ecebido qualquer
notificaçã o).
Embora ne m todas as práticas de gestão do telemóvel adotadas pelos
adolescentes para que não fiquem sem bateria sejam f ormas de eficiência
energética, uma vez que não evitam consumos energéticos desnecessários (como
quando usam um outro equipamento para ou vir música ou aproveitam estar a
carrega r a bateria para f azer coisas que sabem que consomem bast ante en ergia,
como ver vídeos, por exemplo), importa salient ar o potencial do desenvolvimento
destas competências do pont o de vista d a adoção de comportamentos mais
sustentáveis. De fact o, o kno w-how e os hábitos assim adquiridos poderão
manter-se no fut uro e, inclusivamente, estender -se à utilização de ou tras
tecnologias. No entanto, a reprodução d esta prática irá sempre depender das
interligações entre os diversos elementos que lhe deram origem.
Este post é basead o no artigo “ Mobile phones,
batteries and power consumption: an an alysis of
social practices in Port ugal ” ( DOI ), publ icad o este
mês pela revista Energy Research & Social Science .
A investigaçã o foi real izada por membros do grupo
de inve stigação Ambiente, Território e Soc iedade do
Instituto de Ciê ncias Sociais, Universidade de
Lisboa, t endo sido financiada p ela Fu ndação para a
Ciência e a Tecnologia (contrato EXPL/IVC-
Fonte: Photo by A ndrey K iselev ,
via 123RF Stock Photo
306
SOC/2340/2013) entre abril de 2014 e junho de 2015 no âmbito do
projeto Electroteen .
Ana Horta é investigadora de pós -doutoramen to no Institu to de Ciências Sociais da
Universidade de Lisboa ( ICS-ULisboa )
307
Nem no meu quintal, nem no de ninguém: a
luta contra a exploração de petróleo e gás no
Algarve
Ana Delicado 24 de fevereiro d e 2016
comum afirmar-se que a participação cívica em Portugal é baixa . E, de facto,
olhando para a subida contínua da abstenção eleitoral ou para os result ados
dos inquéritos internacionais que demonstram que Portugal tem das t axas mais
baixas na Europa de p articipaçã o em ma nifestações (7%), assina tura de petições
(8%) ou contacto direto com um representante polít ico (6%) ( European Social
Survey , 2012), esta afirmaç ão parece confirmar-se.
No entanto, o que uma leitura mais a tenta da realidade demonstra é q ue, quand o
os problemas ambien tais (ou de ou tra natureza) as afetam diretamente, as
pessoas mobilizam-se, procuram i nformação e aliados, e xercem pressão para ver
os seus interesses e necessidades satisfeitos. F oi disso ex emplo o prol ongado caso
da coincineração de resíduos perigosos e, agora, a mobiliz ação contra a
exploração de petróleo e gás natural no Algarve.
Em março de 2015, perante as notícias que o governo português teria assinado
contratos de concessão da exploração de hidrocarbonetos em praticamente toda
a costa portuguesa, do Porto a Vila R eal de Santo António, e de exp l oração de gás
de xisto na região Oes te e na serra algarvia, de Alje zur a Tavira, f oi constituído
um movimento cívico com o objetivo de “a lertar a população para os r iscos
inerentes à exploração de hidrocarbonetos no Algarve, incentivar um deb ate
público sobre as consequências para a regi ão de u ma tomada de decisão desta
natureza, exigir um es tudo de impacto social, económico e ambiental, e, ainda,
pressionar o estado para publicar t oda a informação inerente à prospeção,
pesquisa, desenvolvimento e produção de p et róleo e gás natu ral em Port ugal”
( Plataforma Algarve Livre d e Petróleo ).
Este movimento reúne um conjunto alargado de diferentes agentes: organizações
não-governamentais de ambiente, moviment os de transição, autar cas, surfistas,
É
308
agricultores, reside ntes e proprietários de habitações de férias, empresários do
setor turístico.
Mapa das concessões d e explora ção de hidro carbonetos
Fonte: PAPL
Em pou co menos de um ano de existência, o movimento dinamizou várias
petições, uma das quai s reuniu o número suficiente de a ssinaturas para ser
discutida na Assembleia da República . Cri ou um we bsite onde disponibiliza a
informação sobre os contratos de exploração, tão difícil de encont rar nos
organismos oficiais. Organizou manifestações de rua e c ampanhas nas redes
sociais, com base em s elfies de apoiantes empunhando cartazes com palavras de
ordem: # AlgarveLivreDePetróleo #RasgaOContrato. Promoveu de bates públicos
em múlt iplos locais d a região e foi pres ença as sídua n as sessões de esclarecimento
309
organizadas pelos promotores da exploração de hidrocarbonetos. Angariou o
apoio público de artistas , cientistas e até de partidos políticos .
Recolha de as sinaturas para a p etição “ Um Alga rve livre de p esqu isa,
prospeção, e xplora ção e produção de petró leo e gás n atural”
marcha pelo clima em Tavira, 29 de novembr o de 2015
Fonte: Fo tografia d e Nuno Alv es
O que explica esta mobilização cívica t ão f orte no Algarve e qu ase ine xistente
noutras regiões igu almente em risco? Por u m lado, os potenciais impactes
ambientais da exploração de hidrocarbonetos afetarão severamente não só áreas
naturais sensíveis (a R ia Formosa, os e cossis t emas do barro cal e da serra) mas
também as atividades económicas da reg ião: t urismo, agricultura, pesca,
viveirismo e captura d e bivalv es e marisco, desportos náut icos, sem que estejam
previstas qua isquer contrapartidas para as au tarquias e a s populações locais. Por
outro lado, o capi tal social e cult ural de algu ns dos residentes, em particular de
nacionalidade estrangeira, que mostram partic ular apego ao local de adoção.
O que este caso releva também é a persistência da tradição a dministrativa
centralista, secretista e pou co democrática de l idar com o público em matéria de
risco ambiental. Os cont ratos f oram assinados em segr edo pelo governo anterior,
sem qu alquer discussão pública. Promotores e de cisores atribuem as críticas d a
população a emotividade e i gnorância e negam a e xistência do risco , apesar de
bastas evidências do co ntrário: veja-se o caso da catástrofe ec ológica no Golfo do
México em resu ltado de uma fuga numa plataforma petrolífera , da fuga de gás
metano de um poço na Califórnia ou d a contaminação ambien tal causada
310
pelo fracking nos E stados Unidos . Não f oram feitos estudos de impacto
ambiental porque a leg islação é omissa no que respeita à fase de prospeção.
Poucas semanas de poi s da COP de Paris , em que governos de todo o mundo,
incluindo o port uguês, se com prometeram com me tas a mbiciosas pa ra a reduç ão
de gases com efeito de estufa pa ra prevenir os efeitos catastróficos das a lterações
climáticas, que no f undo exigem que se mantenham no subsolo os recursos
fósseis qu e ainda estão por explorar, estas concessões estão cla ramente em
contracic lo com a política ambiental a tual. E, também, em c ontradição com
os objetivos proposto s de aumentar o peso d as energias renováveis no consumo
de energia, nu m país onde estas asseguram já boa parte das necessidades (em
2014, 27% do total de energia e 52% da eletricidade ).
É então a lut a contra a exploração de p etróleo e gás no Al garve u m caso clássico
de NIMBY (o acrónimo em inglês para “no me u quintal não”)? É bem mais do qu e
isso. É sobretu do um exemplo d e mobilização cívica local inserida em
mo vimentos globais de defesa do quintal de todos.
Ana Delicado é inves tigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de
Lisboa ( ICS- ULisboa )
311
Capitalismo puro
Ana Horta 26 de outubro de 2016
uns vinte anos f omos forçados a aderir ao capi talismo; agora
compreendemo- lo.” É assim que o investimento em ene rgias
renováveis é sentido numa p equena comunidade da antiga República
Democrática Al emã. Esta comunidade, con siderada exemplar no envol vimento
comunitário na prod ução de energia renovável, asse gurou 35% do tot al da
eletricidade consumida pela povoação em 2014 e, em 205 0, pr etende tornar -se
autossuficiente em termos de produção de eletricidade através de font es
renováveis.
A escola, o pavi lhão de sportivo e out ros edif ícios são aqu ecidos por u m
sistema co munitário q ue não emite CO2
Fonte: Foto grafia de Ana Horta
Zschadraß ( em Colditz, no estado da Saxó nia) tem sido referida como uma
comunidade modelo em que a população é coproprie tár ia dos investimentos
feitos em energias renov áveis. Através de uma fundaç ão e de u ma associação
“Há
312
formadas por habi tant es locais, a comunidade tem investido em projetos de
energia renovável que incluem aerogeradores de en ergia eólica (em qu e 20% é
propriedade da comunidade , pertencendo o restante a um inves ti dor privado
local), painéis fotov oltaicos nos edifícios públicos e um sistema de bioma ssa
instalado numa q uinta, entre outros. Com o lucro obt ido através da venda da
eletricidade à r ede são financiados programas comunitários de apoio às cr ianças
que têm proporcionado, por e xemplo, refeições escolares gratuitas p ara crianças
de famílias com b aixos rend imentos, campos de férias e serviços d e t ransporte. O
jardim infantil também é apoiado e qu ando o empréstimo bancário re alizado para
financia r os aerogeradores estiver pago pretende -se que o lucro seja usado para
permitir que o ja r dim infantil seja gratuito para to das as crianças da povoação.
O pl ano “Zschadraß s ustentável” começou no ano 20 00. P ara f azer fa ce às
dificuldades f inanceiras, o município proc urou não só reduzir as despesas
energéticas, qu e repr esentavam a su a segunda ma ior despesa, como aumentar o
rendimento mu nicipa l através da produç ão de energia renovável, rec orrendo
para isso ao sol, vent o e biomassa. Atu almente a biomassa u tilizada é proveniente
da própria zona, constituindo assim uma font e de rendimento a dicional, e na
construção desse sistema de produção de energia foram reu tilizados ma teriais de
fábricas que tinham si do desativadas com o f im da República Democrática Alemã.
Este plano municipal tornou também possí ve l a criação de a lguns empregos.
Na bibliografia sobre a aceitaçã o das energi as renov áveis su stenta-se por vezes
que nas comuni dades que são coproprietárias de parques eólicos as populações
locais são mais favoráveis a essas tecnologias do que onde os proprietários são
empresas.
1
De facto, uma investigação
2
que comparou precisame nt e as atitu des
dos habitantes de Z schadraß com uma outra localidade próxima onde t ambém
foram instalados parques eólicos, mas sem envolvimento comunitário (Nossen),
mostrou níveis de aceitação mu ito mais eleva dos e m Zschadraß. Tal como ilustra
o gráfico abaixo, est a atitu de positiva relativamente à energia eólica estende -se
1
Veja- se por exe mplo o art igo Ta rhan, M. D. (2015) “ R enewable energy c oo peratives: a r eview of
demonstrated impacts and l imitations .” Journal of Entrepreneu rial and Organizatio nal
Diversity , 4(1): 104 -120.
2
Musall, F . e Kui k, O. (2011) “ Local acceptance of rene wable energy — A cas e stu dy fr om southeast
Germany. ” Energy Policy 39.6: 32 52-3260 .
319
Bombagem d e água at rav és de painé is solares para a ag ricultu ra
Fonte: Luzia Oliveira (2011 )
O abastecimento energético com segurança e fiabilidade, assim como a garantia
de u ma taxa d e cobertu ra total a preço acessível, constitu em um grande desafio
num país quase totalmente dependente de fontes de energia primária.
A taxa de população com acesso à energia elétrica ronda atualmente os 85% . É na
restante franja, que ainda não dispõe de energia elétrica, que as energ ias
renováveis po derão ser uma alternativa para a tingir a cobertura t otal. Existe uma
política ativa nas ener gias renováveis, cuja t axa de penetração na rede elétri ca
situa-se hoj e à volt a dos 25%, mas que se perspetiva que atinja os 10 0% em 2020 .
É suposto que a concretização desta ambiciosa meta seja conseguida com um
conjunto de medidas de eficiência energética e o envolvimento da s famílias, do
sector público e das empresas.
A vulnerabilidade económica de Cabo Verde pode inviabilizar esta política de
promoção das energias renováveis. Es te é u m país que possui um a economia
frágil, em que predomina o sector t erciário, uma elevada dívida pú blica e uma
fraca capacidade de ge ração de emprego. Ten do em conta o avultado volume de
investimento inicial qu e as energias renováve is requerem, não disponível no país,
a ma ioria do ca pital t erá de vir do exterior, por via privada e/ou de p arcerias
público-privado, as principais modalidades adotadas até hoje.
320
Comunidade 10 0% re nováv el em Monte T rigo, Tarr afal
Fonte: Jornal A Semana
Outro problema é a insularidad e e a exiguidade territorial. Sendo um arquipélago
constituído por 10 peq uenas ilhas, e com uma população de cerca de meio milhão
de h abitantes, o s desaf ios com qu e uma pol ítica de investimento n as energias
renováveis s e depara são enormes. A e xiguidade territori al coloca uma questão
de es cala, im plicando qu e os investimentos terão de s er mult iplicados para as 9
ilhas habitadas. Outra dificuldade tem a ver com a integração da rede, o que,
sendo tecnicamente possível entre ilhas cuj as distâncias são reduzidas, torna -se,
no entanto, extrema mente oneroso.
Portanto, é imperativo reforçar a implementação d e políticas públ icas bas eadas
nas energias r enováveis e na eficiência energét ica para re duzir as emissões de
gases com efeito de estufa. Cabo Verde, apesar de fort es constrangimentos, deve
continuar nesta senda para se poder desenvolver sustentavelmente.
Luzia Oliveira é aluna de do utorament o do Programa Douto ral em Alterações
Climáticas e Pol íticas de Desenvolvime nto Susten tável no Instituto de Ciências S ociais
da Universidade de Lisboa ( ICS-ULisb oa ).
321
A última oportunidad e par a os
biocombustíveis no Brasil
Luiz Ca rlos Lourenço 15 de março de 2017
e acordo com Guy -Pe te rs , o caminho entre as promessas políticas e a s suas
efetivas realizações passa ne cessariamente pel a escolha e ntre dois tipos d e
agendas onde a demanda específica do interesse público será p rocessada: a
agenda sistemática, organizada, objetiva e não necessa riame nte consensuada,
com resultados semelhantes a uma bacia f luvial interc onectada; ou, a agenda
institucional, a qual destina-se a conter conflitos ou manter apoios, destinada a
acompanhar a “marcha das coisas”, com intensidade passageira, cujos pontos
críticos serão alvejados ape nas quando forem extremos.
P rimeira fábrica de etanol 2 G do Bras il
Fonte: ” Bioflex ” de Marcu sbcarmo sob a li cença CC - BY - SA , via Wikipedi a
Em estudo comparado de 2012 sobre os protagonistas mundiais de etanol,
concluí que, enquanto nos EUA havia u ma política de Estad o a t ítulo de
recuperação económica e auto -suficiência energética (com volumoso a poio à
investigação científica e tecnológica, extensiv os ao carvão e gás d e xisto), no Brasi l
esteve em curso apenas a prorrogação contínua de uma política setorial de
exportação de etanol. Percebiam-se dimens õe s di versas. No B rasil, o foco era u m
D
322
só t ipo de biocombustível; nos EUA, visava-se atender a todas as fontes de
energias renováveis.
Eis que aparece o últ imo aviso: renascem as esperanças de afirmação dos
biocombustíveis na matriz energética brasileira. Diante de mudanças estrutu rais
de 2016, o governo brasileiro anunciou em dezembro último duas ini ciativas,
quase em simul t âneo: o “ Combustível Brasil” , na expectativa da re tomada dos
negócios r elacionados ao petról eo para 2018, depauperados por escolhas
estratégicas equivocadas da Petrobras no presente sé culo (crescimento c om forte
endividame nto); e o “Renova Bio 2030” ou “Diretrizes estratégicas para
os biocombustíveis ”, aberto a consultas pú blica s c om vista a estabelecer u m novo
plano de apoio ao s etor tendo por base “a pr evisibilidade de produção,
sustentabilidade ambie ntal, económica e social, compatível com o crescimento do
mercado”. Por ora, são iniciativas sem alguma forma legal. Porém, em 1 de Març o
de 2017, já entrou em vigor a obrigatoriedade de a dição de 8 % de biodiesel ao
diesel mineral, prom etendo dar continuidade à escalada dos combustíveis
renováveis.
Segundo a UNICA , principal entidade da classe produtora de açúcar e etanol,
o governo comunicou a intenção de passar da atual produção de 27 milhões de
litros de etanol para 5 4 milhões de l itros até 2030. Não restam dúvidas qu anto à
capacitação t ecnológica dos laboratórios da Embrapa , CENBIO , CTBE , CTC ,
empresas de investigação da biotecnologia e universidades. Entreta nto, em face
do acordo da COP21, a meta para este com bustível líqu ido obrig a os atores a
combinar variáveis “produção” e “área”, cond icionados à custosa recu peraçã o d e
extensas terras degradadas pela pecuária , considerando que
o zoneamento autorizado para plantação de cana - de - aç ú car excluiu a Amazónia,
o Pantanal e outras áreas, vai prevalece r.
A compensação pode vir do milho (campanhas no verão e no inverno), pois o
Brasil é o terceiro maior produt or mundi al depois de EUA e Chin a, superando a
União Europeia. Confrontado pelos c oncorrentes brasileiros quanto a
determinadas desvantagens para produçã o de etanol a pa rtir do mi lho , no início
da disputa pela e ntrad a do produto da cana n os EUA, o cereal é hoje utili zado na
produção de etanol no país. Há, igualmente, a imensa of erta de biomassa par a a
323
2ª geração de biocombustível. Tecnologia à parte, vejamos a dinâmica
socioeconómica dessa atividade industrial até aqui.
Posto típico de combus tível no B rasil, co m forne cimento de á lcool
(marcado A) e gasolina comum ( marcada G)
Fonte: “ Po sto tí pico da Petrobras em São Paul o ” de M ariordo sob a licença CC BY ,
via Wikip edia
Condições prel iminares
Após a expansã o vertiginosa do sector agroenergético no iní cio deste século, uma
“tempestade perfeita” formou -se no horizonte dos canaviais brasileiros com a
crise f inanceira de 20 07 a 2009. Desde o início do mandato do Presidente Lul a,
em 2003, hou ve intensa mobilização d iplomática, particula rmen te ju nto ao
Presidente Bush dos EUA, para tornar o etanol uma commodity e ofere cer
cooperação tecnológica a os países emergente s tropicais.
Ao amparo da estrutura empreendedora da P etrobras, que criou em 2008 uma
subsidiá r ia e xclusiva para biodiesel, ao tempo que explorava o petról eo da
camada do pré-sal , as principais comerciali zadoras multinacionais de grãos
(ADM, Bunge, Cargill e L.Dreyfu s – igu a lmente conhecidas por “ G rupo ABCD ”)
expandiram sua atua ção no se ctor acompanhadas por grupos industriais
especializad os ( Shell , British Petroleum , Toyota ). Certamente, a mot ivação ma ior
era atender ao merc ado de consumo de etanol nos EUA. Logo, adquiriram u sinas,
associaram-se, vert ical izaram o sector da produção à distribuição. Construíram
324
plantas de etanol intei ramente novas (“greenfield” ), pois contavam, ainda, em
suprir a constante d emanda por energia elétrica no Br asil, em défice há u ma
década , e j á dependente de termoelétricas.
Desse mo do, o tradicional usineiro nacional, herdeiro da figu ra escravista do
“senhor d e engenho” ( rebatizado no governo Lula de “ herói do agronegócio ”),
transferiu, em m édia, um terço dos ativos p a ra o control e do capital estrangeiro.
As estratégicas multinacionais trouxeram escala para a mecanização e
consolidaram 40% da comercializaçã o da cana- de -açúcar.
Cana- de -a çúcar no Bra sil
Fonte: ” Plant ação de cana pronta para a colh eita, São P au lo ” de Mariordo so b a
licença CC - BY - SA , via W ikipedia
A crise fi nanceira
Beneficiado pela estabilização do real após a es peculação monetária de 2002 e
pelo crescente acesso ao consu mo por classes de ba ixa renda, o s ector
automobilístico no Brasil cresceu em m édia 15 % ao ano entre 2004 e 2007. Valeu -
se de haver introduzido em 2003 motores “ flex fuel ”, pelo qual o consumidor
pode opt ar pelo com bustível conforme a r elação preço/consumo. Em 201 0,
chegou a produzir m ais de 3,5 milhões de veículos, a maior quant idade desde
1957. Cont udo, veio a crise f inanceira, suspendeu encomendas aos f ornecedores
e ameaçou desempreg ar; t ão l ogo as vend as caíram 23,7% em 2008. O s ector de
autopeças reduziu seus investimentos e m 70% no ano seguinte.
325
De imediato, o governo reduziu impostos entr e 2011/2014 para i ncentivar a
compra d e veículos d e baixa cilindragem e ampliou o cré dito d e longo praz o para
a renovação da frot a de c arga. Afin al, em um país desprovido de infraestrutura
para mobilidade urbana, com 15 zonas metropolitanas acima d e 2 milh ões de
habitantes ( IBGE, 2016 ), a procura por motoci cletas, veícul os novos ou usados
foi generalizada .
Inflação e desemprego encerrara m, a partir de 2015, o tratamento anticíclico.
Como parte do negócio , as estiagens d e 2010, 2013 e 2014 e as geadas em 2012 e
2015 afectaram a p rodutividade canavieira. Novas espécies estão a ser
desenvolvidas para r esistir a pragas e ao défice híd rico, mas n ão poderão escapa r
de recorrentes chuvas em excesso. De outra parte, o exced ente da oferta mundial
forçou a queda dos pr eços do açúca r, o qu e comprometeu o e ndividamento das
empresas. Sob a l ógica do curto prazo caiu o valo r dos ativos das us inas com o
fechamento de 85 usinas. D esde 2008, foram registados 79 pedidos de
recuperação judicial, inclusive em nome d as recém -chegadas S hree Renuk a
(India) e Abengoa (Espanha).
Evolução da p rodu ção de cana, açúcar e etano l no Bras il entre 200 0 e 2017
Fonte: MAPA
Contexto em 2017
Os plantadores com c apacidade operacional colheram a me lhor campanha de
sempre na cana- de -açúcar. Na s afra 2016/2 017, a áre a ocupou 9,1 milhões de
hectares (equivalente ao t erritório continental português) e proporci onou 694,5
mil toneladas ( respectivamente, 5,3% e 4,4% a mais do que 2015/2016) , pois o
326
preço baixo obriga ao au mento do volume de vendas. Toda a produção brasileira
foi processada neste últ imo verão por 353 usinas (das quais 106 produzem só
etanol, 16 só açúcar, e as d emais são mistas), enquant o 25 ou tras usinas ficaram
inativas, a grande mai oria localizada no Centro -Sul, sobretudo São Paulo.
Dentre as justificativas do R enova Bio con sta o acordo do Brasil na COP 21, em
Paris, d e 2015, para red uzir emissões de GEE e m 37% até 2025, em 43 % até 203 0,
bem como restaurar 12 milhões de he ctares em fl orestas. Servirá este programa
como u m seguro, ou seja , uma forma de mitigar os eventuais riscos de um
descumprimento daqu ele compromisso, visto que persiste m focos de
incêndios em todo o território, com alternâncias do total de áre as afectadas ano a
ano: houve 188 mil eventos em 2016, i sto é, 8% acima da média.
Por parte do Estado têm sido insuficientes a prevenção, o control o e a penalizaçã o
(lentidão da j ustiça) do crime a mbiental. Estima-se em 7.989 km2 (1,5 vez a á rea
do Al garve) a superfície desmatada na chama da “ Amazônia Legal ” (5,2 milhões
km2), apenas em 2016, um aumento de 29%, embora 71% menor do que a t axa
registada em 20 04, quando começou o Pl ano de Pr evenção e Controle do
Ministério do M eio Ambiente . Isso depende de ação coordenada entre
autoridades federais e estaduais.
O mesmo risco ocorre no b ioma Cerrado, um ecossistema origi nalmente de
vegetação b aixa distri buída entre arbustos e gram ín eas, que cobre o relevo
referido pela l iteratura como “se rtão”, o imenso interior a greste. Inco rporadas ao
território naciona l des de o primeiro quartel do século XV III, essas áreas foram
ocupadas, sobretudo, desde os anos 1970 , com apoio governamental, p or
pequenos agricultores vindos do sul do país. Vizinho n a f ronteira oeste ao
Pantanal e à Amazónia, o bioma tem u ma superfície de 2,2 mi lhões km2,
abrangendo o Planalto Central, onde se situa Brasília , a ca pital federal. Não
obstante sua biodiversidade, c oncentra extensas cul turas de soja, algodão, m ilho
e cereai s vários, e, ainda, eucalipto, seringueira, ca fé, e a pecuária de corte
(zebuína, taurina e raças híbridas), além da cana - de -açúc ar.
Num bioma ou noutro, é forte a busca generalizada por novas á rea s de produção.
Na verdade, o fenômeno deriva da forte valorização das t erras para lavoura no
país, em diversas regiões produtoras, cujos preços subiram , em média, 308%
entre 2002 e 2013. Estu do da Assess oria Estr atégica do Min istério da Agricultura
327
informa que o hectare- padrão custava em média R$ 10 mil (aproximadamente €
2.940).
Áreas geog ráficas da p rodução de can a- de - a çúcar no B rasil
Fonte: ANP -Agênci a N acional do Petróleo, Gás Natural e Biocombu stíveis
Perspectivas dos atores
Para o sector importa a definição antecipada de uma meta (mandato legal),
pleito qu e remonta às diretrizes da “Environment Protection Agency Act”, de
2005 , e a le i de segurança e in dependência energ ética nos EUA . Estas
estabeleceram o consumo de 36 bilhões de galões de etanol em 2022, distribuídos
entre biocombustíveis ‘convencionais’ (milho) e os ‘avançados’, como a cana - de -
açúcar, celulósico ‘biomassa’, biodiesel e out ros. No Brasil, os produtores anseiam
por um marco institucional na forma de u m mandato do governo f ederal, pois a
raciona lida de económica exige pre visibilidade. Ao mesmo tempo cabia tentar, na
esfera das aut oridades estaduais, h armonizar na federaçã o as alíquot as do
imposto sobre vendas , a exemplo do que fez São Paulo ao baixa r de 12% paa 7%.
Mas, favorecer o consumidor conflita com a r edução de receitas, qu e não e stá na
ordem de prioridades dos a tores políticos reg ionais.
328
O mandato será útil para o Estado, pois o planeamento é considerado “uma
ferramenta de desenvolvimento económico no Brasi l”, como r efere o Banco
Mundial , escola atribu ída ao econom ista Cels o Furtado ( Plano de Metas , 1956 ),
formatado na CEPAL , onde ainda hoje constitu i área de trabalho. Na relação
automóvel-petróleo no Brasil os preços da g asol ina, gasóleo e gás veicular nunca
foram livres, mas “administrad os”, instru mento auxiliar à política monetária.
No Brasil, o Estado é indutor de suport e à agricult ura familiar e empresarial
( Proálcool , PNBio ); e, também, é r egulador e interventor por meio da Petrobras
(um quasi monopólio de capital aberto criado em 1953) e da cobrança da
“ Contribuição de Intervenção sobre o Domín io Económico ”, criada em 2002, e
que foi simplesmente anulada até abril 2015 na formação do preço da gasolina.
Que se possa confirmar a nova nomenclatura de “imposto ambiental” para este
tributo.
Está-se diante da última chance para se rever o privilégio dos fósseis. Na prá tica,
são inexistentes serviç os de transporte públ ico movido a renováveis nas cidades
brasileiras. Acha m -se autocarros na Europa, ma s não em São Paulo, centro
produtor do etanol. De facto, não se imaginam os benefícios socioeconómicos
que ações em prol de uma economia susten tável irão ger ar, sobret udo na saúde
pública. O R enova Bi o, após 40 anos, acena com um inédito “diálogo com
transparência ”, contrariando decisões top -down , e, sobretu do, com a chave d a
equidade no tratamen to dos di versos bioco mbustíveis, condições favoráve is à
inovação e o desenvolvimento científico e tecnológico, maior inclusão de
indivíd uos e instituições, no pre sente e as fut uras gerações. Que vá além da
retórica.
Luiz Carlos Lourenço é investigador na U nive rsidade de Brasília e autor co nvidad o
do Blogue AT S .
Luiz Carlos L ourenço - Este texto compõe material de investigação do autor sobre as
políticas públicas para ener gias renováveis no Brasil como parte de seu projeto de p ós-
doutoramento de comparação das a gend as da União Europeia e Brasil para a nova
economia verde.
335
É paradoxal que num p aís com clima tão am eno a popul ação seja mais vulnerável
ao frio do que nos paí ses d a Escandinávia ou noutros do nort e da Europa. No
entanto, diversos fatores contribu em para e xplicar este apare nte pa radoxo, como
a capacidade das populações para se protegerem do frio, que está fortemente
relacionada com a pobreza energética e a re duzida efi ciência térmica das
habitações, os rendime ntos das famílias, as desigualdades sociais ou o baixo nível
de despesa pública com cuidados de sa úde ( Healy, 2003 ).
A pobreza energéti ca é provavelmente o menos conhecido destes fa tores. Trata -
se de um t ermo ainda nov o em Portugal. No Reino Unido, onde primeiro começ ou
a ser investigado, foi objeto de considerável c eticismo polít ico no início dos anos
90. Designado como “fuel pov erty”, referia -se à incapacidade de uma família ter
serviços e nergéticos (aqu ecimento, água quente, i luminação, etc.) ade quados em
casa por 10% do s eu rendimento ( Boardman, 2010 ). Desde então, a constatação
da extensão e da gravidade deste problema foi l enta mas conduziu a que a noção
de pobreza en ergética ganhasse f inalmente a tenção política. At ualmente já faz
parte da agenda da União Euro peia, como mostra a sua inclusão no pacote de
medidas c om vista à transição en ergética , que obriga os estados a monitorizar a
pobreza energética, bem como a recente criação do Obs ervatório Europeu da
Pobreza En ergética . No entanto, como f icou evide nte l ogo nas primeiras reuniões
da Ação ENGAG ER sobre pobreza energética na Europa , a diversidade d e
situações nos diferentes contextos regionais, nacionais, soc ioeconómicos e
culturais é tão grande que se torna difícil encont rar definições, metodolo gias de
medida, causas e soluções c omuns.
Ao contrário do que seria de esperar, m as compreensível no contexto da crise
recente, a pobreza energética aumentou recent emente na Europa . Estima-se que
na União Europeia afete mais de 50 milhões de famílias, com graves implicações
para a sua saúd e e bem-estar e também consequências negat ivas para a
economia . O e xcesso d e mort alidade no inverno associado à reduzida eficiência
térmica dos edifícios e a baixas temperaturas em c asa é atribuível a doenças
cardiovasculares (40%) e respiratórias ( 30%), s endo que a s cr ianças qu e vivem
em casas frias têm o dobro da probabilidade de sofrer de diversos problemas
respiratórios, a saúde mental dos que vivem em pobreza energética é t ambém
diretame nte afetada, além de que probl emas de saúde menores (como
336
constipações, gripes, artrit e e reumatismo) são t ambém exacerbados pelo frio em
casa ( Marmot Review Team, 2011 ).
Portugal t em sido u m país fortemente afeta do pela pobreza energética. Tendo em
conta um dos indicadores mais usados, que diz respeito à vu lnerabilidade das
famílias ao frio em cas a, Port ugal é um dos p aíses da U nião Europe ia em que a
população mais freq uentemente diz não ser capaz de mant er a casa
adequadame nte quente (Figura 2). De acordo com os resul tados do inquérito da
União Europeia ao rendimento e condições de vida (EU-SILC) , entre 2011 e 2016
cerca d e 26% dos port ugu eses t êm dado esta resposta, enquanto a média dos 28
estados-membros t em sido c erca de 10%. Em Espanha a média t em sido cerca de
9%, bem abaix o de Por tugal, e em vários dos países mais f rios do N orte a média
tem estado abaixo dos 5%.
Figura 2 - Incapacidad e para ma nter a casa adequada ment e
quente, 2 011-2016
(percentage m da população)
Fonte: Eurosta t, Inquérito EU -SILC .
Os dados relativos a Portu gal não são de modo nenhum surpre endentes se
considerarmos a baixa qu alidad e da generalidade das habitações, o el evado pr e ço
da eletricidade e o facto de no inverno muitas famílias recorrerem a a quecedores
elétricos ( e não a sistemas de aquecimento central, como é comum no resto da
Europa). Os aquecedo res elétricos s ão baratos e práticos (porque podem ser
ligados a qu alquer t omada elétrica e são móveis), mas t êm um consumo
337
energético relativamente muito elevado. Se u m aquecedor destes est iver l igado
dez horas por dia, po de custar 120 euros por mês e só se consegue a quecer uma
divisão da casa.
Num dos países d a União Europeia em que os preços da eletricidade para o s
consumidores domésticos são dos mais elev ados, qu alquer família pensa duas
vezes antes de aque cer a casa. D e f act o, em 2016 Portugal foi o se xto país com
preços da eletricidade mais altos para as fam ílias. Aliás, os preços têm vindo a
subir desde 2008 – ao contrário do que seria de esperar devido à concorrência
entre os fornecedores de e nergia elétrica nu m mercado liberalizado.
Um outro indicador q ue faz parte das e statísticas da União Euro peia e que tem
sido dos mais usados para aferir a eficiên cia térmica dos e difícios, e a ssim
compreender a extensã o da vu lnerabilidade à pobreza energética, é a presença de
falhas nos telhados, hu midades nas paredes, nos pisos e nas fundações dos
edifícios e ainda apodrecimentos nas janelas e nos pisos.
Figura 3 - P resença de falhas nos telhados , humidad es nas pa redes,
pisos e funda ções e apo drecimento nas janelas e pisos, 2 016
(percentage m da população)
Fonte: EU En erg y Poverty Observato ry
Nota: O verde escuro representa 0 a 10% da população; cada tom mais claro
representa mais 10%; o tom amarelo representa 30 a 40% da população. Legenda
completa aqu i
338
A este resp eito Portu gal foi em 2016 o país da U nião Europei a em qu e m ais
pessoas afirmaram viver em habitações com estes problemas (Figura 3).
Outras caraterí sti cas das habitações como a falta de isolamento térmico nas
paredes, nos telhados e nos pisos e janelas pou co adequadas (sem vidros du plos,
por ex emplo) têm sido também i dentificadas entre as causas da elevada
prevalência de pobreza energética em Portugal ( Bouzarovski, 2014 ).
Apesar de a pobreza energéti ca ser associada principalmente ao f rio em casa, diz
também respeit o à incapacidade de arrefecimento da habitação qu ando o tempo
está qu ente – o que em Portugal afet a pot encialmente u m número ainda maior
de habitações do que a necessidade de aquecimento ( Simões et al. , 2016 ).
Neste cenário desolador, como se comport am os portugu eses face ao frio?
Culturalmente o frio p arece ser desvalorizado, e assim tende a ser considerad o
normal ou socialmente aceite ter algum frio em casa no inverno, embora com
consequências p ara a saúde que podem ser terríveis. Neste conte xto, torna -se
ainda mais difícil dar visibilidade e reconheci mento públ ico a u m problema que
não é fácil de resolver.
O ICS-ULisboa está atualmente a pa rt icipar num projeto coordenado
pela ADENE – Agência para a Energia sobre este problema – a Medida “LIGAR
– Eficiência Energética para Todos!”, financiada pelo PPEC 2017-2018 – e, em
breve, poderá saber-se mais sobre a pobreza energética em Portugal.
Ana Horta , investigad o ra de pós -d outorame nto no Instituto de Ciências Sociais da
Universidade de Lisboa ( ICS -U Lisboa ) e membro da Ação COS T Europea n Energ y
Poverty: A genda Co-Crea ti on and Kno wledge Inn ovation ( ENGA GER 2017- 2021 ) .
339
Energias re nováveis e qualidade da paisagem
Ana Delicado e Luís Silva 18 de julho de 2018
s energias r enováveis são u m dos itens da Estratégia Europa 2020 , t endo
sido definida uma m eta global d e 20% n o consumo de eletricidade
proveniente de fontes renováveis. Em Portugal, o objetivo sempre f oi mais
ambicioso, a saber, chegar a 2020 com 31%. Entre os 17 Objetivos do
Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas t ambém s e e ncontra u m
respetivo a energias re nováveis e acessíveis, que estabelece a meta de aumentar
substancialmente a participação de energias re nováveis na ma triz e nergética
global até 2030.
Os dados mais recente s indicam que Portugal está no bom caminho para atingir
estas metas, uma vez que, em 2016, o peso das energias renováveis no consumo
total de energia já se cifrava em 28,5% ( Eurostat ) e chegava mesmo aos 72%
quando se considera a penas o consumo d e e nergia elétrica ( INE ) . Tal deve-se,
sobretudo, à energia hídrica ( responsável por 51% da energia r enovável gerada),
seguida pela energia eól ica ( 37%) e, a uma larg a distância, pelas energ ias térmica
e geotérmica (10%) e, finalmente, pe la energia fotov oltaica (a penas 2%) .
Barragens, parques eólicos, incineradoras de biomassa (com e sem cogeração) e
centrais solares (térmicas e fot ovolt aica s) t ornaram-se elementos frequentes nas
paisa g ens rurais ( e, às vezes, não t ão rurais assim) portuguesas. Impac tos visuais,
mas também sonoros, ambientais e mesmo s ociais não têm dei xado de se fazer
sentir, suscitando, por vezes, a re sistência das popul ações l ocais e d e
ambientalistas .
A Ação COST TU 1401: Renewable Energy and L andscape Quality ( RELY ),
financiada pela Comissão Europeia, visa cr iar paisa gens de energias renováveis
sustentáveis, compreender melhor como a proteção e a gestão da paisagem na
Europa pode conciliar-se com o estab elecimento de sistemas de produção de
energias renováveis, e contribu ir para uma t ransformação so cioambiental
sustentável dos si stemas de energia, através de um intercâmbio de
A
340
conhecimentos a nível internaciona l sobr e o estudo e a avaliação de medidas
suscetíveis de mi tig ar os impactos das infraestruturas energéticas n a paisagem.
Esta re de europeia de ciência e te cnologia especializada nas energi as renováve is
foi constituída em outubro de 2014 e t erminará em outubro de 2018. Reúne,
atualmente, mais de 20 0 participantes, oriu ndos de 34 países europe us e 3 países
não europeus (Albânia, Canadá e Israel), muitos investigadores e docentes
universitários (de diversas disciplinas, como arquit etura paisagística,
engenharia, geografia, sociologia, antropologia, ciências da comunicação), mas
também representant es d e e mpresas, org anizações não-govern amentais ou
departamentos da administração central.
A rede organiza-se e m quatro gru pos de trabalho: Sistem as de produção de
energias renováveis e impactos na qualidade da p aisagem; Sen sibilidade da
paisa g em e potencialidades p ara p rodução de en ergia renová vel; Aspetos
socioculturais da sustent abilidade da produção de en ergia renovável; e S íntese
das conclusões e divulgação.
Ao longo dos últimos cinco anos, esta rede procurou combina r co nhecimento
académico com o conh ecimento prático de stakehol ders e decisores, focando-se
tanto no planea mento e na perceção d a paisagem como nas cont rovérsias de
localização e envolvimento público com as t ecnologias d e energia. Tal
materializ ou-s e em publicações conjuntas, incluindo textos c ientíficos ( como
este artigo resultante do Gru po de Trabalho 2) e pol icy papers , apresentações em
conferências, u ma exposição itinerante, u m glossário traduzido nas diversas
línguas ( 28, incluindo o Esperanto) e um arquivo fotográfico, bem como em
várias Escolas de Verão, missões científicas de curta duração e palest ras online.
A pri meira d as dua s reuniões anua is da rede teve lugar no ICS -ULisboa na
Primavera de 20 15.
Entretanto, foram produzidos alguns avanç o s no conhecimento sobre o tema em
questão, como a identificação de boas práticas o u práticas inteligentes de
casamento entre infraestrut uras energéticas e p aisagem e a criação de uma
tipologia, análises comparativas com base em informação estatística e
questionários aplicad os pelos p arceiros, a inventariação e revisã o crítica d a
341
abundante literatura da ár ea, a ssim como a recolha de ferramentas d e
participaçã o pú blica e de planeamento in ovadoras nos diferentes países.
Membros da rede COST RELY em L isboa, 2015
Fonte: COST RELY
Os conh ecimentos obtidos estão vertidos num livro, intitulado Renewable
Energy and L andscape , a publicar em Berlim pela Jovis em sete mbro de 2018
(ISBN 978-3-86859 -524- 6).
Dois dos resul tados principais da Ação foram o desenvolvimento de mapas
participativos qu e p ermitem i dentificar os melhores locais pa ra a implantação de
infraestruturas energéticas e de uma árvore para a tomada de decisõe s para
selecionar as melhores ferramentas de planeamento.
Outrossim, verificou-s e qu e, no qu e concerne à energia eólica, as preocupações
com a pa isagem são um fator importante em t odos os países eur opeus, mas as
questões socioeconómicas também são significativas, especialmente nos países
do Leste e do sul da Europa.
A partici pação nesta rede proporciona excelentes oport unida des de
aprendiza g em, de t rabalho em colaboração transdisciplinar, de estabelecimento
de contactos com colegas e instituições diversas, e de formação de consórcios para
candida turas a novos c oncursos de financiamento, algumas bem sucedidas, como
é o caso do projeto PEARLS P lanning And Eng agement Arenas F or Renewabl e
342
Energy Landscapes , financiado pelo Horizon 2020 MSCA RISE, em que o ICS -
ULisboa participa e qu e acaba de ter início. Acima de tudo, permite o acesso a
experiências e práticas de outros contextos qu e ficámos com vontade de r eplicar
em Portugal e noutros países à s escalas europeia e mundial.
Thy, Dina marca
Fonte: Foto grafia de Bela Munká ksi, banco de imagens da Ação COST RELY
A t ítulo de exemplo, referimos o trabalho do James Hut ton Institute (Aberdeen,
Reino Uni do), que desenvolveu uma tecnologia de visualização d e paisagens
futuras, o Virtual Lan dscape Theatre . At ravés de um ecrã curvo onde são
projetadas modeli zações por computador, as populações locais podem
experienciar as paisagens como são na atu alidade e como fic arão u ma vez
implantadas as infrae strut uras energéticas. Podem mover -se através desta
simulação, acrescentar ou modificar elementos (por exemplo, a dimensão, cor e
localização de turbinas eólicas), visualizar i nformação relativa a v elocidade do
vento, propriedade d as t erras, riscos de inun dação, p atrimónio cultural. Podem
ainda exprimir a su a o pinião através de u m dis positivo de vo tação eletrónico. Esta
é uma forma de promoção do envolvimento do pú blico no planeamento das
energias renováveis qu e f avorece uma t omada de decisão informada, e m linha
343
com os princípios do Conselho d a Europa relat ivamente à Convenção Europeia da
Paisagem , que o nosso país assi nou em 2 005.
Ana Delic ado é socióloga e investigadora do GI Ambiente Territó rio e Sociedade do
Instituto de Ciê ncias Sociais da Uni versidade de Lisboa ( ICS-ULisboa ) .
Luís Silva é antropól ogo e investigad o r do Cen tro em Rede de Investigação em
Antropologia in vestigado r no Centro em Rede de Investigação em Antropo logia ( CRI A)
da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa (CRIA-
NOVA FCSH ).
CIDADES, HABITAÇÃO E
PLANEAMENTO URBANO
BLOGUE ATS
GRUPO D E INVESTIGAÇÃ O AMBIENTE, TER RITÓRIO E SOCIEDADE DO IC S -ULISB OA
© " AC2 - G l oba l W a rm i n g " , K h u r osh vili I ly a .
© Simone Tul umello
351
Figura 4 - Evo lução das formas de ocupação d os aloja mentos
familiares clássicos de 1970 a 2011
Fonte: INE – Recenseame n tos Gerais da Habi tação
O peso da habi ta ção d e residên cia secundária ou de uso s azonal é cerca de três
vezes maior em Portu gal do que na Dinamarca, correspondendo, res pet ivamente,
a 23% do tot al da habitação (i.e. 1.133.300 f ogos, cf. INE 2012) , e a 8% dos
alojamentos na D inamarca (i.e . 22 0.000 em 2007).
O sector de arrend amento social ( que na Dinamarca é designado por
arrendamento sem f ins lucrativos) é substancialmente diferente e ntre os dois
países. As diferenças n ão são apenas no mo do como é designado, m as sobretudo
na sua escala ( tamanho) e no modo como é organizado, no que respeita aos
agentes que o promo vem (empresas privad as sem fins lu crativos no caso da
Dinamarca e setor público em Portugal) e os seus be neficiários.
Em Port ugal existem cerca de 120.000 alojamentos de habit ação soc ial,
representando apenas 3,3% do stock de habitação d e ocupação permanente,
sendo este um sector crescenteme nte restrito a famí lias ( co mprovadamente)
muito pobres. Os processos de venda d e fogos de habitação social aos
arrendatários (por parte dos mu nicípios e do IHRU) favoreceram a redução do
sector, que revela hoje uma composição social pouco di v ersificada e
crescentemente marcada por f racos recursos socioeconómicos.
352
Enquanto as políticas de atribuiçã o de fogos em Portugal hierarquizam as
famílias com b ase nas suas ne cessidades, o q ue implica a con centração espacial
de f amílias pobres ( reforçando tendências de segr egação socio espacial), na
Dinamarca o sector de arrendamento sem fins lucrativos (que corresponde a 21%
do total do stock de habitação) está acessível a toda a população, não se ndo
restrito a nenhum grupo social em função de classe social ou rendimentos.
Embora a h abitação, c omo se disse, se ja acessível a todos, ela é atribuída com
base no tempo em listas de espera e o estado, que providencia apoio à construção
e subsídios às f amílias necessitadas, tem o direito d e u tilizar cerca de 25% dos
alojamentos vagos no sector para fazer f ace a situações de emergência social.
No que respeita ao s ector de arrendamento privado, que t em o mesmo peso nos
dois países (e.g. 20% do total de stock de habitação), este está em Port ugal
polarizado em dois subsectores qu anto ao nível dos valores das rendas e d a
qualidade da hab itação. Por um lado, mantém -se um subsector de contratos de
arrendamento antigos e de duração ilimitada, que foi, durante décadas, afetado
pelos processos de con gelamento de r endas. A carga de r egulação imposta pelo
estado aos senhorios foi de tal forma elevada e prolongada no tempo qu e t eve
consequências nefastas na qu alidade desta habitaçã o. Os contratos de
arrendamento antigos, que representam ainda hoje 35% de todos os contratos d e
arrendamento do sect or privado em Port ugal, têm rendas mu ito reduzidas (em
2011 cerca de 15% tinham ren das igu ais ou inferior a 35 euros por mê s). Por ou tro
lado, no extremo opo sto da regulação encontra -se o subsector dos contratos
recentes em que a definição do valor das rendas e a duração dos mesm os são
deixadas a o livre arbítrio e à dinâmica da oferta e da proc ura. Em áreas de maior
procura turística (e.g. Lisboa e Porto), o resultado tem sid o um substanc ial
aumento dos preços d as rendas de h abitação, que se tem t ornado cada ve z mais
inacessível a uma população da c lasse média -baixa.
Recomendações políticas res ultantes d a investigação
O colapso d a bol ha imobiliária e fin anceira mundial demonstrou , de uma forma
dramática, os riscos qu e elevados níveis de endividamento do estado e das
famílias po dem repr esentar para a populaçã o e para um país. O aumento dos
preços da habitação e das t endências de pola rização socio espacial nas m aiores
cidades tem de monstrado a necessidade de um mercado social de habitação para
353
promover u ma maior mistura de regim es de ocupação e de valores de renda. A
regulação do estado ao nível f iscal e do licenciamento, definindo, por exemplo,
uma mai or inclusão d e fogos de baixo custo para arrendamento em áreas de
expansão ou r equalificação urbana, poderá se r u m instrumento import an te para
dinamiza r o sector de arrendamento em Portugal. Os mercados de habitação, qu e
são uma construção socia l que refl ete os valo res e a s relações de poder existentes
numa sociedade, devem ser regulados pelo estado por forma a incorporarem
preocupações com uma uma mai or ju stiça social e urbana.
Sónia Alves é investigadora de p ós-doutorame nto no Instituto de Ciências Sociais da
Universidade de Lisboa ( ICS-ULisboa ) .
354
A Habitação regressa à agenda política?
João Ferrão 17 de janeiro de 2018
onhecemos bem o poder que a s organizações i nternacionais (ONU e as sua s
várias agências, OCDE, etc.) e supranacionais (órgãos da União Europeia,
por exemplo) têm na formação de agendas políticas que rapida mente obtêm
ressonância nas agendas mediática e mesm o científica de múlt iplos pa íses. En tre
os diversos casos recentes, a s alterações climáticas, a descarb onização da
economia e o c onceito de economia circular de stacam -se pela forma rápida e
eficaz como s e afirmaram como questões pri oritária s, t emas de cont rovérsia no
espaço público e domínios de intervençã o polít ica b eneficiários de regim es
específicos e partic ular mente favoráveis de financiamento e de fiscalidade.
Ao mesmo t empo que novos conceitos, t emas e prioridades emergem ao nível
global e se e xpandem rapidamente por um número crescente de países, outros
permanecem n a penumbra deste u niverso das “ideias e políticas que viajam”, uns
porque são considerados ultrapassados, irrelevantes ou não generalizáveis,
outros porque ainda nã o alcançaram o reconhecimento suficiente para ganharem
um l ugar de notoriedade nas agendas gl obais. Ne ste contexto de formação
desigual de agendas p olíticas transnacionais, o caso da habitação ocupa uma
posição interessante.
Nos países mais desen volvidos, e sobretu do a partir da construção extensiva de
habitação social n as cidades eu ropeias mais a fetadas pelas duas gra ndes guerras
do século XX e, numa fase posterior, com a expansão do setor imobiliário e do
acesso a habitação própria alimentad os pela economia d e cr é dito no âmbito da
crescente f inanceirização da e conomia, a hab itação saiu d as agendas políticas. É
verdade que, com a queda dos r egimes comunistas nos países do l este europeu, a
questão do financiamento da reabilitação de enormes bairro s públ icos l evou a q u e
esses pa íses t entassem influ enciar a Comissão Europeia no sen tido de esta
assegurar uma comparticipação n as avultadas despesas a efetu ar nesse esforço
de regeneração urbana através da disponibilização de fu ndos. M as a h abitação,
como o ordenamento do te rritório, não é uma política comunitária, pelo que lhe
C
355
está vedada a possibilidade d e b eneficiar de apoios d iretos proveni entes da União
Europeia. No âmbi to do ci clo de programação c omunitário 20 07-2 013 foi, e ntão,
aberta a hipótes e de c omparticipar despes as com intervenções de melhoria de
eficiência energética e d e conforto térmico em edifícios de bairros soci ais,
possibilidade que se mantém no atual ciclo 20 14 -20. Mas, genericamente, a
habitação ocupou nas últimas décadas uma posição marginal no contexto da s
agendas políticas do s países mai s desenvo lvidos, incluindo os europeus.
Prevalecendo a ideia de qu e a habitação se deve reger por mecanismos de
mercado, a ação pública neste domínio t ende a restring ir -se a inte rvenções de
apoio aos segment os popul acionais m ais vulneráveis, em ger al dese nvolvidas ao
nível l ocal. A inexistência de polít icas de habitação na cionais era, afinal, um
sintoma de progresso e d esenvolvimento. Pelo contrário, a nec essidade de
políticas de habitação estaduais correspondia a u m t raço característico dos p aíses
menos desenvolvidos.
Contudo, algo parece estar a mudar nos últ imos anos. Repare -se n a cronologia
que a seguir se apresenta de forma muito sumária .
Em 25 de setembro de 2015 foi aprovada, na Cimeira das Nações U nidas sobre o
Desenvolvimento Sustentável realizada e m Nova Iorque (EUA), a agenda de
desenvolvimento sustentável pós-2015 intitulada Tr ansformar o nosso mundo: a
Agenda 2030 para o de senvolvimento sustentável .
Fonte: Asso ciação Portu guesa de Documentaçã o e Informa ção de Saúde ( APDIS )
Esta Agend a inclui 1 7 objetivos de desenvol vimento sustentável (ODS). O
primeiro pont o d o ODS 11, d esignado Cida des e Comuni dades Sustentáveis,
356
refere a questão da ha bitação. Aí se consagra o objetivo de assegurar a t odos, até
2030, o acesso a h abitação a dequada, segu ra e acessível. E st e aspeto é
particularmente relevante se l evarmos em co nsideração que a A genda 2030 se
aplica a todos os países do mundo e não ape nas, como sucedia com o d ocumento
que a precedeu, os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio 200 0 – 2015 , aos
países di tos em vias de desenvolvimento.
A 30 de ma io d e 201 6 foi acordada a Agenda U rbana para a União Euro peia ,
designada por Pacto de Amesterdão, na reunião informal dos ministros
responsáveis p elos Assuntos Urbanos r ealizada naquela cidade. Neste
documento, qu e l evou em conta textos já em
circulaçã o no âmbito da preparação da Nova
Agenda Urbana da ONU (ver parágra fo
seguinte), a habitação foi considerada um dos
dez temas prior itários indicativos tendo por
base u ma auscultação efetuada junt o d os
governos nacionais e d as autoridades reg ionais
e urbanas, e está ainda presente noutros temas,
como a inclusão de mi grantes e refugiados ou a
pobreza urbana. P ara cada um dos temas
prioritários foi definido um trabalho em
parceria que, no caso da habitação, “Visa
promover o acesso a alojamento de bo a qu alidade e a preços acessíveis. Será d ada
ênfase à habitação púb lica a preços acessíveis, à regulamentação em matéria de
auxílios estatais e à política ger al em m atéria de habitação”. A parceria para a
habitação, juntamente com out ras três parc erias, foi conside rad a prioritári a,
beneficiando, logo em 2016, de um apoio f inanceiro por parte do governo dos
Países Baixos como experiência piloto.
No dia 20 de ou tubro de 2016, as delegações dos países presentes na Terceira
Conferência d as Nações Uni das sobre Habit ação e Desenvolvimento Urbano
Sustentável (HABITAT III) , realizada em Quito (Equador), aprovaram a Nova
Agenda Urban a .
Fonte: Fórum das Cida des
357
O seu plano de implementação inclui múl tiplas
referências à habitação e às políticas de
habitação, apr esenta o direito a uma habitação
adequada como uma componente indissociável
do direito, mais ampl o, a um nível de vida
adequad o, e contém diversos pont os específicos
sobre uma habitação adequada, acessível,
segura, resiliente e sustentável para todos
assim, como sobre políticas urbanas e
integradas e instrume ntos legais e f inanceiros a
mobilizar para esse efeito. Este documento foi,
aliás, apresentado como uma extensão da
Agenda 2030 para o Desenvolvimento
Sustentável.
Em 26 de abril de 2 0 17, depois de um deb ate político e d e uma auscultação
pública de mais de u m ano, a Comi ssão Euro peia adotou a Recomendação (U E)
2017/7 61 sobre o Pilar Europeu dos Direitos Sociais, apresentado como “um
compromisso e uma re sponsabilidade partilhada e ntre a União Euro peia, os seus
Estados- Membros e os parceiros sociais”. A habitação constitui uma das 20
prioridades aí enunciadas, sendo expl icitados neste domínio t rês deveres: ( i)
garantir às pessoas ne cessitadas o acesso a ha bitação social ou a uma ajuda à
habitação de boa qu alidade; (ii) g arantir às pessoas vu lneráveis o d ireito a
assistência e a prot eção adequadas e m caso de despejo; ( iii ) garantir a
disponibilizaçã o de alojamento e serviços adequados aos sem -abrigo par a
promover a sua inclusão soci al.
Finalmente, a 15 de n ovembro de 2017 f oi aprovado o projeto de Parecer do
Comité das Regiões E uropeu Rumo a uma Agenda Europeia para a Habitação ,
onde se apela à construção de uma agend a europeia da h abitação à l uz da Ag enda
Urbana da UE (Pacto de Am esterdão) e do Pilar Europeu dos Di reitos Sociais
num texto de 39 pont os cujos subtítu los agregadores são significativos:
necessidade d e uma m elhor articulação entre as políticas da UE e a s pol íticas de
habitação dos Estados -Membros; uma nova política de coesão que t enha
Fonte: Ha bitatIII
358
plenamente em conta a questão da habitação; uma agenda europeia para a
habitação no se guim ento do Pacto de Amesterdão.
Nenhum destes documentos é legalmente vin culativo (o últ imo, aliás, não pa ssa
de u m projeto de Parecer). E todos eles foram criticados – e bem – por serem
g enéric o s, “redondos”, pouco ambici osos e de exequibilidade duvidosa. Mas a
verdade é que e les não deixam de ser interessantes na medida em que revelam, à
imagem de exercícios anteriores de agenda-sett ing ocorridos em rela ção a outros
temas, a emergência le nta mas aparentemente irreversível d e novas perspetivas
políticas e sociais sobre a habitação e as políticas de habitação.
No que diz respeito à U nião Europeia, e mesmo tendo em conta a sua significa tiva
diversidade int erna, p arecem destac ar-se 6 novas linhas orientad oras par a o
futuro próximo:
• Garantir u m maior equilíbrio e coordenação entre polít icas
macroeconómicas e políticas sociais, num contexto pós -crise em que se
reconhece que as políticas de austeridade e a centralidade redentora
atribuída à competitividade e ao e mpreendedorismo acentuaram as
desigualdades so ciais e d esvalorizaram a necessidade de promover formas
progressistas de inovação societal;
• Consagrar a habitação como um direito social europeu, isto é,
considerando-a mais como um direito do qu e como um bem / m ercadoria
(a casa) e, simultaneamente, como u m compromisso e uma
responsabilidade europeia partilhada mesmo quando estão em causa
políticas de âmbito nacional;
• Defender habitação a cessível e de qualidade para t odos e não apenas para
os grupos há muito identificados como vulneráveis, dado o modo como a
precariedade do emprego ou o envelhecimento da população criaram novas
situações de nã o -acesso a habitação adequada;
• Desenvolver u ma agenda eu ropeia para a habitaç ão como um
aprofundamento da agenda urbana da União Europeia, u ltrapassando em
definitivo o entendimento da questão d a habit ação como u m problema de
assistência social e de construção de b airros de habitação social e
englobando-a numa visão mais a mpla de b as e t erritorial (o direito à cidade,
para retomar a c onhec ida expressão de Henri Lefebvre);
359
• Integrar a h abitação na nova políti ca de coesão no pró ximo ciclo
comunitário, o que sig nifica olhar para a habitação e para as pol íticas de
habitação na inters eção das qu estões sociais , económi cas e territoriais, e
não ape nas no âmbito de uma de las, e por esta via garantir u ma maior
diversidade de apoios no período pós-2020;
• Aumentar as frentes d e articulação entre polí ticas comunitárias (efi ciência
energética, alt erações climáticas, r edução da pobre za e inclusão social,
crescimento económico inclusivo e criação de emprego, etc.) e as p olíticas
de habitação dos estados-membros.
Talvez estejamos perante in dícios frágeis, demasiado embrionários, s em a
consistência ou o apoio político suf icientes para vingar. No entanto, os vários
documentos referi dos não deixam de sin alizar que a lgo parece estar a mudar,
mesmo que apenas à superfície e a nível r etórico. Par a que a narrativa proposta
abra portas à ação, t odas as pequenas frestas deverão ser aproveitad as para trazer
de novo a habitação e as políticas de habitação para as ag endas política,
académica e me diática. O documento Para uma nov a geração de políticas de
habitação , que esteve em debate pú blico no final de 2017, constitui, justamente,
um bom pretexto para que e ssas brechas comecem a ser abertas e exploradas e m
Portugal.
João Ferrão é investigador coordenado r do Instituto de Ciência s Sociais da
Universidade de Lisboa ( ICS-ULisboa ) .
360
A recuperaç ão das “ilhas” no Porto: partir as
gavetas para rep ensar o espaço com um
Roberto Falanga e Aitor Varea Oro 31 de janeiro de 2018
uando em 1994 Isabel Guerra publico u o artigo “As pessoas não são coisas
que se ponham em gavet as” no nº 20 da revista Sociedad e e Território , o
objetivo era d espertar a atenção para as ques tões habitacionais do país à lu z do
arranque do Progr ama Especial de R ealojamento ( PER) ocorrido em 1993. A este
programa seguiram-se ou tros planos e i ntervenções pontuais ne ste domínio,
como a Lei 9 1/95 ( alterada pela Lei 70/2015) sobre as Áreas de Génese Ilegal
(AUGI) e, em 2005, a Inicia tiva Bairros Críticos ( IBC), aprovada pel a Resolução
do Conselho de Ministros n.º 143/2005. No entanto, a discussão em t orno do
desenho e das modalidades de re alojamento, e da h abitação em ger al, continuou
presente no debate público, embora de f orma tímida quando comp arada com o
que se verifica atualmente.
O debate sobr e o direito a uma habitação co ndigna voltou a marca r a agenda
política nacional, com a nova estratégia de pol íticas de habitação anu nciada pela
Secretaria de Estado da Habitação, e j á mencionada por João Ferrão
neste blogue , e a preparação de uma nova le i de bases da habitaç ão , anunciada
pela deputada do Partido Socialista Helena Roseta no s finais de 2016.
Recentemente, o Fórum da Habitação: Ausências Passadas, Pr esenças Futu ras ,
em que participaram r epresentantes pol íticos, técnicos municipais, membros da
academia e ativistas, contribuiu para salientar como as problemáticas que as
novas medidas que o Governo está prestes a adotar precisarão d e abordag ens
complexas e mul tinível perante as múltiplas carências ain da existentes no
território naciona l (ver post de Simone Tulumello neste blogu e ).
Ainda a este respeito, a Carav ana pelo Dire ito à Habitação , uma iniciativa que
desde 2017 ju nta moradores, gru pos de ativistas e a cadémicos, d esempenhou u m
papel f undamental na denúncia de carências habitacionais pelo paí s. Entre os
casos assinalados pela Caravana, as “ilhas” existentes na zon a Orient al do Porto
Q
367
especialmente em áre as urbanas, a criação de importantes mais valias para os
proprietários. Ao longo das ú l timas d écadas a p ermissividade das autorida des
locais em relação à transformação ( excessiva e arbitrária) de solo rural em solo
urbano, causou não apenas o aumento excessivo dos perímetros urbanos, com
também a destruição de diversos valores paisagísticos e arquitetónicos.
O aumento da construção de habitação não significou a resolução d os problemas
do setor, ma s antes o aumento d e custo s da administração com infraestrut uração
e construção de eq uipamentos públicos. Em algu mas áreas verificou -se
inclusivamente o aumento exagerado nos valores da habitação. Os dados do INE
(2017) confirmam a ex istência de uma bolha especulativa nos preços da habitação
nos municípios da Á rea Metropolit ana de Lisboa e do Algarve, quer no
arrendamento quer na compra da habitação p rópria, com o município de Li sboa
a registar o preço de venda médi o mais elevado, de 2 231 €/m2 (INE, 2017).
A informaçã o disponível demonstra também que:
– apesar do elevado nível de investimento no mercado imobiliário nesses
municípios, quer ao nível do número de transações de imóveis, quer de obras
concluídas e l icenciadas, mantém -se um elevado nível de en dividamento
líquido das autarquias ;
– a ma ior p arte do investimento no setor da constru ção e d a r equ alificaçã o
urbana tem sido dirigido para o setor do turismo (comércio, restauração,
alojamento temporário) e para u m segm ento d e po pul ação estrangeiro com um
elevado poder de compra, reduzindo as opções das f amílias da cla sse média -
baixa de acesso a uma casa adequada, em te rmos de espaço, como didades e
distância ao local de trabalho;
– a s pol íticas públicas em Portugal têm incent ivado o investiment o privado
estrangeiro no setor imobiliário na cional (e x. Golden Visa ), ao co ntrário do
que acontece noutros países, como a Din amarca, ond e a compr a de habitação
é proib ida a estrangeiros, a menos qu e e stes t enham vivido no país nos últimos
cinco anos e façam dessa a sua residência permanente. A habitação de uso
secundá r io ou sazonal em Portu gal representa já 23% do p arque ha bitacional
nacional, o que corresponde, em termos percentuais, a cerc a do dobro do
registado na Dinamarca;
368
– a disponibilização de recursos públicos para alavancar investimentos
privados no setor do tu rismo e da requ alificação urbana (e. g. Iniciativa
Jessica , IFRRU 2020 ), por oposição a investimentos no se tor da habitação
acessível e s em f ins lucrativos, t em t ido imp acto no aumento dos pr eços de
venda de edifícios que se destinam (crescentemente) a usos que competem
com a habitação e, em particular, com o a rren damento de longa duração.
Em Lisboa, os efeitos desta tendência têm vindo a reper cutir -se na perda da
população residente. Entre 19 81 e 2011, o mu nicípi o de Lisboa per deu
aproximadamente 250.000 residentes, o qu e equivaleu a 32,5% do total da
população. Em 2011 residiam no muni cípio de Lisboa somente 536.859
indivíd uos. A análise da duração d os contratos e valores das rendas nos pe río dos
antecedente e posterior ao Novo Regime d e Arrendamento Urbano ( NRAU)
confirma um aumento da pre carização nos contratos de arrendamento, em
termos de redução da duração média e aument o dos valores da renda ( Alves et al.
2017) .
Em Port ugal verifica-se que a propor ção da popu lação com custos em habitação
superiores a 40% do rendimento disponível é mais elevada no caso dos inquilinos
com rendas no mercado de arrendamento privado ( 35,9%). Um facto tanto mais
preocupante quando se verifica qu e é pr ecisamente neste se ctor que se registam
os maiores aumentos nos valores das r endas e ond e vive cerca de 39,3% do total
das famí lias de menores rendimentos.
Um outro dado inte ressante é que as taxas u rbanísticas cobradas p elos
municípios aos privados t êm s ido escassas para cobrir os custos da provisão de
infraestruturas ( Rebelo s/data , Condessa 20 12 ) , e que os recursos existentes ao
nível local são insuficientes para a implement ação dos objetivos considerados
estratégicos ao nível do documento naciona l de políticas de h abitação (ver Nova
Geração de Política de Habitação ).
Os estudos de Alves & Rosa ( 2017 ) demonstram que a implementação do regime
jurídico excecional da rea bilitação urbana, criado pelo gov erno e m 2004, tem
permitido a apli cação de um sistema de isen ção d e taxas u rbanísticas por parte
das autarquias que, em vez d a c aptação de recursos, t em permitido a
transferência de importantes somas de dinheiro para as empresas privadas.
Mesmo no caso de operações de renovação u rbana qu e envolveram a cri ação de
369
parcerias público priva das e a a plicação de importantes somas de dinheiro para
cobrir custos com expropriaçã o de terrenos e edifícios por ‘ut ilidade pública’,
demoliçã o ou c onstruç ão d e i nfraestru turas, as autoridades públicas não tivera m
a coragem política e técnica de exigir aos pri vados a inclusão de habitação
acessível às classes média -baixa, optando alternativamente por realojar os
inquilinos de fracos recursos económicos em ha bitação social no utras áreas.
A Operação das Card os as é um caso paradigm ático a este respeito (figura 1).
Figura 1 - A operação d as Cardosas no Porto
Fonte: Foto grafia de Sónia Al ves
2. O exemplo de Inglaterra
Em Inglaterra existe uma separação básica entre o direito de propriedade e o
direito de desenvolvimento do solo. Por exemplo, um solo classifica do como
rústico, destinado a áreas agrícolas ou flores tais, não pode ser usado para usos
residenciais a m enos q ue seja emitida u ma licença por p arte d as autoridades de
planeame nto ao nível l ocal. Na avali ação dos pedidos d e licenciamento para a
realizaçã o de obras d e construção as autoridades locais cons ideram não apenas
aspetos relacionados com a qualidade do proje to de arquitetura e de outras
especialidades, como também os c ustos diretos e indiretos associados a ess as
operações, por exemplo para a re alização, manut enção e reforço de
370
infraestruturas, equipamentos coletivos e habitação económica (para
arrendamento soci al, arrendamento privado e compra) acessível às famílias de
classe média-baixa.
O princípio de inclu sionary housing policy que em Inglaterra é i mplementado
através d a Section 106, do Town and Country P lanning A ct 1990 , e
do Community Infraestructu re Levy ( CIL), em execução desde 2010, tem
permitido contribuiçõ es financeiras e em espécie para a provisão de h abitação
económica em operações conduzidas pelo mercado.
A avaliação d a execução destes instrumentos tem demonstrad o uma grande
variabilidade de práticas ao nível local, mas também que em áreas de grande
dinâmica constru tiva (e.g. Londres e no Sul de Inglaterra ) tem permit ido a coleta
de importantes r ecurso s para a provisão de h abitação e conómica, inf raestruturas
e equipamentos públicos ( Lord et al. , 2018 ), facilitand o a mistura de regimes e
tipos de habitação.
Figura 2 - Houses u nde r constru ction on Bi rkenhead, Merseys ide, E ngland
Fonte: “ Ho uses under c ons truction on Seymour Str eet, T ranmere, Eng land ” de
Rept0n1x so b a licença CC - BY - SA , via Wikimedi a Com mons
Termino defendendo a necessidade de u m debate sobre a r elevância d a
aplicabilidade destes instrumentos ao contex to l ocal portugu ês com vista a
371
garantir uma maior redistribuição dos benefícios e custos associados ao
desenvolvimento u rbano, e como forma d e contribuir para a provisão d e
habitação ec onómic a.
Sónia Alves é atual mente Postdoct oral Fel low Marie Sklodowsk a-Curie na
Universidade de Cambridge – Cambridge Centre for Housin g and Plannin g Researc h,
Department of Land Economy. É ainda visiting researcher no Instituto de Ciências
Sociais da Universidade de Lisboa ( ICS-ULisboa ).
372
Habitação para todos?
Dulce Freire e Pedro Namorado Borges 16 de maio de 2018
os últimos meses, os problemas de acesso à habitação têm anima do os
debates no espaço público. Se na As sembleia da República o assunto tem
sido discutido, o governo apresentou de cisões que conside ra pertinentes para
aplaca r ess es proble mas. Esta s ini ciativas do Esta do enquadram-se numa
orientaçã o que remonta a abr il de 1918, qu ando foram promulgadas as medidas
que conferiram consistência à intervenção pública no âmbito da habitação.
Verifica-se qu e, passados cem anos sobre essa legislação inaugural, o assun to não
perdeu actualidade.
Invisibili dade do pro blema rural
Uma an álise histórica destas iniciativas most ra qu e o Estado privile giou o apoio
à habitação urbana, mesmo quando a população rural ainda era a l arga maioria
em Portu gal e vivia em condições d eplo ráveis. Esta foi uma das conclusões do
projecto, intitulado O problema da ha bitação rural: debates e pol ític as públicas
durante o Estado Novo (1933 -1974) , desenvolvido no ICS-ULisboa com
financiamento do Insti tuto da Habitação e da Reabilitação U rbana. Com o até à
década de 196 0 a ma ioria dos port ugueses tr abalhava na agricultura e vivia n as
áreas rurais, p arece que as políticas públ icas visaram sobr etudo u ma minoria que
residia em cidades e algumas vilas. Então, uma questão se im põe: o E stado
não viu os problemas da habi tação rural?
Esta pesquisa focada no Estado Novo, inserida no projecto mais amplo para
assinalar os cem anos de pol íticas pú blicas para a habitação em Portugal,
procurou responder a esta qu estão, orientando -se por dois ob jectivos principais.
O primeiro f oi esclarecer como é qu e o Estado entendia os problemas da
habitação rural. O se gundo centrou -se na identificação das iniciativas que
receberam apoio público e vis aram contribuir para atenuar esses problemas.
N
373
Logo em M arço de 1933, quando o Estado Novo ai nda e stava em fase de
consolidação, Oliveir a Salazar afirmou num discurso: «A intimi dade da vida
familiar reclama aconchego, pe de isolamento, numa palavra, exige a casa, a casa
independente, a casa própria, a nossa casa» (publ icado em Dis cursos , 1934, vol.
I). Apesar de estas palavras se aplicarem tanto às famílias rurais como às urbanas,
de facto, foram os probl emas destas que mereceram mais atenção política e
maiores inve stimentos financeiros do E stado. Mesmo assim, foram construídas
centenas de habitações inseridas em programas executados n as ár eas rurais. No
âmbito desta pesquisa identificaram- se c erca de 400 empreendimentos,
distribuídos pelas várias regiões do país. Todavia, na época essa s inic iativas
adquirira m u ma certa invisibilidade, que se f oi prolongando, em pa rte, devido à
falta de estudos académicos.
1918-2018: um século de habitaçã o apoiada
Nos ú ltimos dois anos, o Instituto da Habitação e da Reabilit ação U rbana, a
entidade que é a actual herdeira dos s erviços públicos especificamente
criados d esde 1918 para agir nesta área, l ançou um amplo projecto de
pesquisa que permiti u conhecer de forma sistemática os impactos das
iniciativas do Esta do. O projecto O problema da habitaçã o ru ral: debates e
políticas públicas durante o Estado N ovo (1933 -1974) decorreu no
âmbito desta pesquisa mais ampla. Uma sínt ese em 12 capítu los vai ser
publicada ainda este ano no livro H abitação: cem anos de polí ticas públicas
em Po rtugal, 1918-2018 (Imprensa Nac ional – Casa da Moe da), com
coordenação de Ri cardo Agarez. O t rabalho, realizado por 23 autores com
diferentes f ormações (arquitectos, historiadores, sociól ogos e geógrafos) ,
permitirá compreender a concepção, os processos de decisão e os impactos
dos vários programas habitacionais apoiados pelo Estado desde 1918 . Esta
análise é essencial para perceber a g enealogia e a configuração d e p roblemas
que continuam actuais.
374
Patrim nio dos P obres, Elvas ( Julho de 2017)
Fonte: Fo tografia de Pedro Na morado Borges
Estado e socied ade civil
Identifica r am-se programas em que o Estado teve u ma intervenção directa.
Nestes, os se rviços púb licos, dependentes de u m ou vários ministério s, estiveram
envolvidos na concepção e execução dos empreendimentos. É o caso do
programa Casas para Famílias Pobres , promovido pela Direcção G eral dos
Serviços de Urbanização/Ministério das Obras Públicas a partir da década de
1940. Ainda que tenha t ido u ma abra ngência mais ampla, centen as de novas
habitações foram construídas e m loca lida des classi fi cadas c omo rurais. Já o
programa Aldeias Melhoradas , que com eçou em f inais da década de 1950, estava
vocacionado para a reconstrução de casas e a implementação de algu mas infra -
estruturas básicas apenas em aldeias. Com e sta iniciativa, promovida pela Junta
de Colonização Interna/Ministério da Economia, o Estado reconhecia as
375
carências específicas d a habitação rural e ansiava deter o êxodo rural , quando, na
verdade, este se acelerava. O progr ama foi executado em mai s de uma centena d e
aldeias, continuando a ser pra ticamente d esconhecido.
Casas para pob res , Bairro Cancela de Abreu, Amara nte (Jun ho de 2017)
Fonte: Fo tografia de Pedro Na morado Borges
Em outros casos, o Estado apoiou financeiramente ou influ enciou a concepção de
bairros e habitações, mas não esteve d irectamente envolvido na execução d as
obras. Os interlocutores do Estado f oram organizações criadas especificamente
para resolver problemas habitacionais e qu e também actuaram em áreas rurais.
Duas associações su rgiram ligadas à Igreja Ca tólica, nos anos 1950. O Patrimóni o
dos Pobres foi uma iniciativa d o Padr e Américo, que já tinh a em curso a Obra do
Gaiato. Da elite laica p artiu a iniciativa de pr omover o Mo vimento Nacional de
Auto Constru ção , ligado à União Catól ica dos Industriais e D irigentes do
Trabalho, que actuou particularmente no distrito de Coimbra. Ambas as
organizações defendiam a autoconstrução, p rocurando fornecer m ateriais com
apoio técnico e financeiro, pa ra o que recorria m ao Estado e a privados.
Em 1970, surgiu a Fun dação Salazar , incenti vada pelo Pr esidente da República,
Américo Tomás, para homenagear o d itad or Oliveira Salazar então falecido.
Apesar de t er perdido capaci dade de iniciativa depois da Revolução de Abril de
1974 ( foi extinta em 1979), em pou cos anos construiu dezenas de ba irros,
376
sobretudo em peri ferias ainda rurais de cidades que estavam em process o de
expansão.
Tendo em conta a nat ureza ditatorial do Estad o Novo, que limita e persegue,
muitas vez es violentamente, as organizações da sociedade civil, o funcionamento
destas entidades dev er - se -á entender pelas estreitas ligações qu e m antinham com
as elites do r egime. A parentemente, toda s actuaram, pelo menos no iní cio, ao
abrigo d e estatut os aprovados pela Dire cção G eral de Assistência, q ue nos anos
1950 fazia parte do Ministério do Int erior. Constituíram- se como organizações
formais sem fins lu crativos,com estatutos que lhes p ermitiam actuar no âmbito
da assistência soci al.
Aldeia M elhorada de P rados (Jun ho de 2017 )
Fonte: Fo tografia de Pedro Na morado Borges
As concepções de bairros e habitações, ainda que estas apresentassem diferentes
formas d e organização e tipologias, enquadravam-se no que se designava como a
“casa mínima” ( dois ou t rês quartos, às vezes sem casa - de -banho ou duche
interiores), unifamiliares com quintal ou em edifício s de po ucos pisos.
Subjacentes a estas definições, estavam interpretações sobre as car acterísticas e
necessidades do que era m c lassificadas co mo famílias pobres o u mi seráveis.
Quando f oram construídos, muitos destes e mpreendimentos localizavam -se na
periferia dos núcleos u rbanos, denunciando uma segregação geogr áfica e social
que, entretanto, se pode ter atenuado.
383
may som etime be the case , IPA memb ers (o r my respondents) are not simply
making an excuse to ju stify their involvement in an u nethic al end eavor. At the
same t ime, it is clear that any notion of “goo d planning” shoul d be considered
against t he social and political background in which t he planning system operate.
In Israel/Palestine , failu re in ac knowledging the intimate connection betwe en
planning and political issues invariably resul ts into a t echnocra tic approach that
accentuates the conflicts it is supposed to min imize.
Bimkom ar chitects working with P alestinian loca l commun ities in A rea C
Source: Huffingto n P ost
Is “politics” therefore hierarchically superior to “planning”? Is t he planner’s role
limited t o the professional implementation o f political directives? Paradoxically,
the case of Israel/Pale stine – where “everyth ing is politics” – seems to suggest
otherwi se. Contrary to the logic of “safe s pace” (i.e. that planners’ agenc y is
meaningful where po litical influ ences ar e limited), planning practices are
effective to t he extent t hey are embedded in t he surrounding environme nt. In
other words, planning dilemmas are not so much “compounded by the fact t hat
planners have t o oper ate within in stitut ionally constrained spaces ”, as Hague
argues; a c areful apprec iation of the social, political and institu tional context is
the onl y genuine w ay to answer to these dilemmas . I have intervi ewed s enior
professionals working in Is raeli institutions recalling e pisodes in which planning
and political con siderations went nicely together; or in whi ch t imely a ction,
384
coupled wit h a corre ct reading of the situation, allowed them to ha ve a decisive
and creative influence on important planning decisions. If planning was
powerless ag ainst politics, how could we e xplain the l arge number of human
rights NGOs ac tive on planni ng issues (such as Bimkom or the International
Peace and Cooperation Center )? Tangible resul ts of counter-planning activities
might be scarce (alt hough not insignificant), but th ey ultimately are “a f orm of
political representation that comp etes wit h ot her forms of re presentation”
( Cohen-B lankshtain et al ., 2011: 637 ), and might constitut e a “ quiet
encroachment ” challenging the planning system.
Mainstream and activist planners in Israel/Palestine wou ld by and l arge concur
on the t echnic al procedures that make u p “good planni ng”; they wou ld certainly
disagree on the subst ance of (almost) every actual planning decision. So what
does “good planning” look like? There is, of course, no straight answer to su ch
question. As politica l theorists have sh own, procedural d emocrac y is si m ply
insufficient in tackling substantive issues; planning, having abandoned a pu rely
technocratic, modernistic approach to embrace a more participatory,
communicative ethos, is now f aced by the same w icked problems of democratic
theory. Planning as a disciplin e does not have an in herent progre ssive valu e, but
we should be hopeful about the agency of the pl anning community: “good
planning” cannot solve pressing polit ical problems; good planners should
certainly try.
This post is a reduced version of a comm entary to b e published by the journal Plannin g
Theory an d Practices as a reply to Cliff Ha gue’s paper.
Marco Allegra é investigado r de pós-doutorame nto n o Instituto de Ciências Sociais da
Universidade de Lisboa ( ICS-ULisboa ) .
385
Novas agendas urbanas
João Ferrão 8 de setembro de 2016
m estudo recente estim ou que cerca d e 6 0% d a popul ação eu ropeia e 80%
dos residentes dos EU A não conseguem ver a via láctea durante a noite
devido ao brilho das l uzes das cidades. Este é ap enas um indicador de como a
crescente urbanização do planeta Terra afeta a nossa relação com a natureza. É
certo qu e esta se en carrega, por veze s, de nos re cordar que continuamos
dependentes d ela: foi o caso da erupção de 2010 d o vulcão Eyjafjallajökull,
ocorrida na Islân dia m as cujas cinzas levadas para l este pelos ventos impedi ram
o tráfego aéreo em d iversos p aíses da Europa e atingiram regiões tã o l ongínquas
como a Rússia asiática e o Próxi mo Oriente. Mas estes fenómenos, como os
tremores de terra, são pontuais e nã o raro rel ativamente previsíveis. É o homem,
e não a natureza, quem está a desequilibrar a relação entre ambos.
Área afetada pelas cinzas da erup ção de
2010 do v ulcão Eyjaf jal lajökull (Islândia )
Fonte: ” Eyja fjallajökul l volcanic ash c omposite ” de
Reisio, compo sto a partir do trabalho de Cogiati sob a
licença CC - BY - SA , via Wikimedia Commons
U
386
Os vários alertas vermelhos emitidos nos úl timos anos em Pequim p or excesso de
poluição, por vezes aco mpanhados por ordens de suspensão parcial d a circulação
automóvel e do f unciona mento de empresas e de escolas, são um exemplo desse
desequilíbri o que tem vindo a acentuar -se perigosamente.
Na verdade, as cidades constituem, ao mesmo tempo, os grandes pol os de criação
de conhecimento, inovação, emprego e riqueza e os principais f ocos de destru ição
dos s istemas biofís icos do nosso planeta. De acordo com u m documento
elaborado no âmbi to da preparação da conferênci a HA BITAT III sobre habitação
e desenvolvimento urbano sustentável, qu e se realizará em Quito no p róximo mês
de ou tubro de 2016, a população a viver atualmente em cidades o cupa 3% da
superfície terre stre, representa 54% da popu lação mundial, emite 60% do total
de gases com efeito de estu fa, consome 76% dos recursos natu rais do planeta e é
responsável por 80% da riqueza global. Esses valo res tend erão inevitavelmente a
aumentar, se levarmos em conta que o serviço de Popul ação do DESA/Nações
Unidas estima que em 2050 o peso relativo dos h abitantes da Terra a viver em
aglomerações urbanas será de 66%.
Fonte: “ Fog ov er Hong Ko ng ” de Andi Andreas , via G etty Images
As cidades – ou , de forma mais correta, o capitalismo urbano -industrial – são o
berço geográfico da Grande Aceleração que justificou a situação que alguns
designam por Antropoceno : uma nova era g eol ógica em que os seres humanos,
de forma direta e indireta, se transformaram num poderoso f ator condicionante
da evol ução dos sistemas biofísicos terrestres, com destaque para domínios como
387
as alterações climáticas, as mudanças de uso do solo ou a extinção de espécies
naturais. A destruição de recursos naturais finitos e a raiz antropogénica de
muitos fenóme nos ditos ´naturais`, como i nundações, ondas d e calor,
desassoreamento das praias ou erosão costeira, são indissociáveis d os processos
de urbanização e estes, por sua vez, são o reflexo de um modelo econó mico e social
centrado na ideia de crescimento ilimitado e na crença d e que a ciência e a
tecnologia conseguirão superar os diversos pr oblemas que esse cr escimento vai
suscitando.
A gravidade da s ituação reúne atualmente um consenso mu ito alargado, mesmo
a nível político-institucional. Se consultarmos a agenda de desenvolvimento
sustentável pós-2015 das Nações Uni das Transformar o nosso mu ndo: a Agenda
2030 para o desenvolvimento sustentável ( 2015 ), o documento prepa ratório
da Nova Agenda Urb ana que será votado na Conferê ncia HAB ITAT III sob a
designação Declaração de Quito – Cidades para Todos , também das Nações
Unidas ( 2016 ) , a Age nda Urbana para a União Europeia (UE) / Pacto de
Amesterdão , aprovada no Conselho Informal de Ministros dos As suntos Urbanos
durante a presidência holandesa da UE ( 2016 ), ou a Estratégia Cidades
Sustentáveis 2020 , adotada pelo governo po r tuguês ( 2015 ), podemos confirmar
a existência d e uma preocupação rec orrent e com o desenvolvimento urban o
sustentável. A Nova Agenda Urbana a ser aprov ada na Conferência HABITAT III
defende , mesmo, a nec essidade de u ma mudança paradigmática na f orma como
planeamos, desenvolvemos e geri mo s as cidades.
Sucede qu e, num cont exto de urbanização pl anetária , isto é, de processos com
incidência e influência que ultrapassam em muito os espaç os geográficos
fisicamente ocupados pelo que designamos por cidades, debater futuros
sustentáveis para a s aglomerações urbanas é debater os modelos
socioeconómicos e geo políticos hoje prevalec entes. E, paradoxalment e, quanto
mais ambiciosas forem as nova s agendas u rbanas m ais evidente se torna e ssa
inevitável imbricação.
A questão essencial deste novo ciclo de ag endas urbanas ambic i osas não é,
portanto, a ausência, em cada cidade, de c ondições pol íticas, institu cionais,
culturais e t écnic as necessárias para concreti zar sol uções complexas e exigentes
em termos de liderança e de coordenação de ações desenvolvidas por atores com
388
visões, responsabilidades, priori dades e capacidades muito diversas.
Naturalmente qu e a existência d essas con dições é crucia l. M as di scutir novas
agendas urbanas ambiciosas como se elas fossem aut onomizáveis de um debate
mais amplo sobre a sociedade e a economia que queremos é um a ilusão qu e
apenas tem senti do pa ra quem possui uma visão pós -política do mu ndo em que
vivemos, isto é, par a quem defende que a mudança se baseia em soluções técnicas
ditas inteligentes, formas de gestão eficientes, sucessivos acor dos e conse nsos
internaci onais e crescente alinhamento das p olíticas n acionais com orientações
globais.
Preso por ter cão, preso por não ter? Na r ealidade, as pol íticas urbanas têm sido
alvo de críticas pelo facto de não serem suficientemente ambiciosas e integr adas,
surgindo demasiado associadas qu er a polít icas s etoriais quer a temas da mod a
ou prementes, como a competitividade das cidades, as alterações climáticas, as
questões d e se gurança, a inclusão de gru pos v ulneráveis ou as recentes ´ soluções
baseadas na natureza `. Mas, como vimos, a adoção d e ag endas qu e exigem um
novo para digma de desenvolvimento urbano sustentável implic a,
inevitavelmente, qu e a s cidades sejam pen sadas a longo prazo, não sobretudo a
partir d e s i – ou se ja, das suas carac ter ísticas, condições e ativos – mas de
cenários de fu turo consi derados desejá veis e exequívei s para as sociedades e as
economias, recorrendo a metodologias de backcasting . É verdade que as cidades,
pela centralidade qu e ganharam h istoricamente, são ao mesmo tempo um
produto e uma condição dos modelos de cr escimento e desenvolvimento. Mas em
períodos de ch arneira como o que vivem os hoje, com as cr ises ecológica,
económica e socia l a ss ociadas à falência da conceção moderna de progresso e aos
efeitos predadores do capitalismo urbano -financeiro, as cidades têm de s er
sobretudo encarada s c omo focos de mudança transformadora e não como palcos
privilegiad o s de reprodução de tendências globais.
Neste contexto, os estudos sobre futuros u rba nos, ou sobre o modo como essas
realidades complexas que designamos por cidades – construídas
quotidianame nte por cidadãos, institu ições, decisores – nos podem conduzir às
sociedades e e conomias que desejamos, susc itam um debate p ara o q ual o gru po
de investigação ´Amb iente, Território e Sociedade`, na sua diversidade de
interesses e perspetivas, não deixará de contribuir. A reflexividade crítica é, na
389
verdade, a ú nica forma de evitarmos o indes ejável efeito de tenaz exercido pela
pressão simultânea da crença na inevitabilidade da realida de present e, por um
lado, e do temor da natureza a pocalíptica do fu turo que dela decorre, por outro.
João Ferrão é investigador coordenado r do Instituto de Ciências Sociais da
Universidade de Lisboa ( ICS-ULisboa ).
390
Segurança urbana, poder local e
(des)centralização entre Lisboa e Memphis
Simone Tulumello 26 de abril de 2016
ncontro-me, graças a u ma bolsa da comissão Fulbright EUA -Itália,
no departamento de Planeamento Urbano e Regional d a U niversidade d e
Memphis ( Tennessee), no período entre ja neiro e julho de 2016. O objetivo desta
estada em Memphis é produzir u m estudo de caso par a comparação com a Ár ea
Metropolitana de Lisboa no meu proj eto de pós-do c Which “se cure citi es”? A
critical approach to sec u rity and feelings of fea r in urban planning in Southern
Europe (FCT SFRH/BPD/86394/2012).
O projeto de investigaç ão, iniciado em j aneiro de 2013, é uma exploração crítica
do papel das políticas locais u rbanas, e das políticas de planeame nto u rbano e
ordenamento do t erritório, na segurança u rbana e pr evenção da criminalidad e.
Os objetivos são: i) entender m elhor as r elações entre esp aço, políticas e
perceções de seguranç a e de crime no espaço urbano; e ii) contr ibuir para a
produção colabor ativa de pol íticas d e seguran ça nu ma ót ica de ju stiça espacial e
de governança urbana democrática. Na primeira p arte do projeto ana lisei as
políticas de segurança e o papel das políticas urbanas para a segurança nas
cidades de Lisboa, Cascais e Barreiro ( os resultados principais encontram -se
neste relatório ).
O trabalho d e campo em Memphis permite -me comparar d ois contextos
radicalmente diferentes e com plementares. E m Lisbo a, uma das m etrópoles mais
seguras do mu ndo, as políticas de segurança são u ma mistura d e po liciamento e
de i ntervenção social e as autarquias têm experime ntado u ma s érie de políticas
variadas ( como o pol iciamento comunitário na Al ta de Lisboa ou o Pl ano
Estratégico para a Segurança d e C ascais ) . E m Memphis, qu e sofre de taxas de
crime violento particularmente altas (os homicídios são entre 10 e 2 0 vezes ma is
frequentes que em Lisboa) e de significativas relações e ntre pobreza, exclusão
E
391
social e viol ência, a conceção da segurança centra -se totalmente na aplicação da
lei, na repressão e, portanto, no papel do departamento munici pal d a polícia.
Homicídios po r 100.0 00 hab itantes em Po rtug al, L isboa, EUA e Me mphis
Fonte: UNO DC (P T, Lisboa, EUA ), FB I e US Census Bu reau (Me mphis)
Há muitas razões que justificam a existência de diferentes políticas de segurança
entre uma metrópole como Lisboa e ou tra como M emphis. Por exemplo, é
importante sublinhar as diferentes con ceções das origens do crime: e nquanto nos
EUA este é qu ase exclusivamente considerado como u ma responsabil idade
individ ual, na Europa é enquadrado em dinâmicas sociais e económicas mais
amplas. Além disso, há nos EUA uma i deia opost a à Europea acerca do papel do
Estado, com uma dominância dos valores individuais e económicos sobre os
valores colet ivos e soc iais. Em consequência, podemos perceber como nos EUA
se u tilizam políticas que visam prevenir diretamente as a ções criminais e
dissuadir os “ criminosos”, incrementando n el es a per ceção do risco de cometer
uma ação criminal, enqu anto em contextos c omo Lisboa ( e na Europa, em ger al)
se privilegiam políticas que procuram enfrent ar razões estruturais do crime,
como pobreza, exclusão ou mal-estar.
392
Neste contributo quero enfatiz ar uma dimensão específica, a da organi zação
institucional dos dois Estados, porque esta perspe tiva permite reconsiderar de
um ponto de vista b astante incomum, pelo menos n a Europa, o t ema da
centralizaçã o e d escentralização d o poder púb lico.
Portugal é um país extremamente centralizado: por exemplo, a d espesa local é
apenas pouco mais de 10% da d espesa pública . E o deba te sobre a necessidade de
descentraliza r o poder público, em nom e da proximidade, da prestação de contas
e da subsidiariedade, é muito vivo. No dom ínio da s egurança , a centralização é
particularmente evidente: segundo a Lei de Segurança Interna (53/2008), o
Estado e o Governo s ão os atores r esponsáveis pela s egurança p ública – e, de
facto, as polícias criminais (PSP e G NR) são órgãos estatais. Esta centralização
ajuda a explicar por q ue razão as aut arquias, que são os r ecetores diretos das
preocupações dos cidadãos com o cr ime e a v iolência, têm investido em pol íticas
sociais e em práticas i novadoras – mas tamb ém em pol íticas discut íveis, como a
vídeo-vigilância em ár eas com pou co crime, como o Bairro Alto em Lisboa – na
procura de alguma ca pacidade de intervenção nesse domínio.
Ao contrário, os EUA são um país federal, com qu atro níveis de poder público
(cidades, con dados, estados, federaçã o) e fortemente descentraliz ado, onde se
confere um amplo pod er à escala municipal. A segurança é uma responsabilidade
principalmente municipal. Em Memphis, o departamento da polícia absorve
quase 40% dos recursos económicos municipais, enquanto menos de 20% é
destinado a políticas s ociais e u rbanas (servi ços e espaços públicos, urbanismo e
habitação, cultura e lazer) – contra qu ase 30% em Lisboa. A ssim, embora a
conceção política de segu rança esteja centrada no papel d a polícia , seria de
qualquer forma muito difíc il, ou quase impossí vel, empenhar-se em pol íticas com
o objetivo de atacar o s probl emas estrut urais da c idade; e o s istema cr iminal -
judiciário torna-se o principal ator em áreas como a dependência de drogas e a
doença psiquiátrica. Além diss o, sendo os departamentos de políci a
extremamente poderosos do ponto de vista político (pela sua dimensão em
termos operacionais e pela quantidade de recursos financeiros qu e gerem e
distribuem), é qu ase impossível qu estionar pu blicamente a estru tura de
prioridades em relação às políticas de segurança – sob risco d e se tornar objeto
de acusações de ser anti -cop , inimigo da polícia .
399
“With mini EV you ar e only ha lf a hu man bei ng but y ou pay t he same
parking f ee (2 yuan)”. Liaochen g, proví ncia de Shandong
Fonte: Foto grafia de Dennis Zuey
Cidades do futuro
O novo pla no de urbanização c hinês pre vê a migração de 10 0 milhões d e pessoas
para cidades d e t erceiro e quarto níveis do sistema urbano nacional até
2020, pelo que o transporte a preços a cessíveis se torna uma prioridade. Ao
assumir a su pervisão do crescimento e d esenvolvimento dos LSEV, o governo
chinês está agora na posse de u ma nova ferramenta para reformul ar o ambiente
urbano.
De facto, a China tem u ma reputação d e cidades baseadas no uso intensivo de
automóveis ( car-centred cities ), que sof rem de tráfego intenso e de poluição
elevada. Embora a m elhor opção seja estimul ar a u tilizaçã o de transportes
públicos, os LSEV podem vir a desempenhar um papel importante na qualidade
do ar das cidades c hine sas, oferecendo uma alt ernativa mais compacta e de baixa
emissão a todos os que aspiram vir a ser proprietários de um automóvel.
Mas o LSE V não é a ú nica opção de trans port e low-tech na China urbana. Há
também c erca d e 300 milhões de motorizadas elétricas de diferentes tipos e
marcas. D e f acto, motorizadas e bicicletas elét ricas t êm sido, até agora, os
[Document text truncated for crawler view.]