Francisco José Martinez, Próspero en el Laberinto. Las dos caras del Barroco, Madrid, Editorial Dykinson, 2014, 280 pp.
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Philosophica, 45, Lisboa, 2015, pp. 139-144. Maria Filomena Molder, Diana Soeiro, Nuno Fonseca (Eds.), MORPHOLOGY. Questions on Method and Language, Lisbon Philosophical Studies – Uses of Language in Interdisciplinary Fields, Vol. 3, Ed. António Marques e Nuno Venturinha, Berna, Berlim, Bruxelas, Frankfurt a. M., New York, Oxford, Viena, 2013. 393 pp. ISBN 978-3-0343-1376-6 Bruno C. Duarte Para o leitor mais desprevenido, parece existir um desnível entre o título deste livro e o seu conteúdo. Este último é anunciado pela amplitude do sub-título – “Questions on Method and Language” – que, aposto à categoria à partida algo difusa da “Morfologia”, resulta num forte efeito quer de evocação, quer de generalização. Quando se considera no entanto não apenas a estrutura, mas o fi o condutor de todo o conjunto, verifi ca-se que se está aqui perante um aglomerado quase integralmente organizado não apenas sob o signo, mas sob a autoridade de um único autor: Goethe, à volta do qual irão gravitar, sem nunca o perderem de vista, os vários textos aqui apresentados. Isso é tornado claro desde o primeiro parágrafo da Introdução, na qual é descrito o modo de divisão e organização do volume, ao todo composto por dezoito artigos, de outros tantos autores, dos quais aproximadamente a primeira metade é dedicada a questões específi cas relacionadas com o “pensamento morfológico e poético de Goethe”, e que funciona por conseguinte como ponto de partida e núcleo do qual emanam várias “Irradiações” (assim é designada a secção que reúne os primeiros nove estudos). Por seu lado, a segunda parte do livro (“Afi nidades”) apresenta contribuições de natureza mais heterogénea, abordando temáticas e vozes distintas, mas que, dada a suposta “perspectiva morfológica” (p. 9) que as caracteriza, acabam por remeter explícita ou implicitamente para Goethe. Duas imagens distintas dispõem-se portanto a convergir: no primeiro caso, Goethe está presente de forma ostensiva, é-se introduzido na abundância e complexidade do seu mundo, e sobretudo iniciado no seu modo de ver e observar, com especial insistência na sua teoria das cores; no segundo, não está aparentemente tão presente, mas na realidade mantém-se à espreita, nas cercanias, entre as linhas, ao virar de cada página. Essa ubiquidade, clara e natural, ou forçada e inesperada, seria o fi o que reúne (ou pelo menos a mão que junta) todas as partes e todas as peças: mesmo
140 Bruno C. Duarte quando o seu nome não é mencionado, e as analogias se revelam longínquas, menos evidentes ou até improváveis,“Goethe está por perto” (p. 17). Há muita sinceridade e alguma legitimidade nesta declaração de intenções, se pensarmos na importância de Goethe, não um autor entre outros, mas um nome dito ‘incontornável’ e sentido como tal, literalmente um colosso da literatura e da cultura alemãs, e paralelamente também, entre as suas muitas facetas e ressonâncias, uma fi gura decisiva para a edifi cação do conceito de morfologia no domínio das ciências naturais, nomeadamente através das suas investigações nos campos da cromatologia, da óptica, da anatomia, da fi siologia, passando pelos seus estudos de fi sionomia, botânica, geologia, mineralogia, física, entre muitos outros. Na medida, pois, em que existe sob a égide de Goethe, este livro encontra-se justifi cado e validado pela dedicação, e mesmo, sob muitos aspectos, pela devoção de que dá mostras. Ele é endereçado e dirigido, com maior ou menor pudor, à genialidade e originalidade incomparáveis da fi gura magna que elegeu para si mesmo – uma vez que dela advém o seu impulso e a sua faculdade de eleição, defi nida desde a primeira página de todo o volume como a “inspiração morfológica” (p. 9) que o percorre e pretende atravessá-lo de lés a lés. Ora, se Goethe se revelou incansável, tenaz e intrépido na sua actividade pré-, arquiou proto-científi ca, pontuada pela sua mão de artista, e se essa actividade fi cou retida num arquivo imenso de tratados, doutrinas, intuições, frases e imagens da mais variada espécie e riqueza, é preciso referir que ela não deixou de ser registada e resgatada, isto é, organizada, classifi cada e mesmo quantifi cada até à exaustão, em particular no seu país de origem, a Alemanha, onde a bibliografi a dedicada aos Cadernos sobre a ‘morfologia’ e as ‘ciências naturais’ fl oresce sem obstáculos aparentes e se encontra em crescimento constante, como que fazendo uma vénia – mais ou menos justa, consoante o caso – a um dos princípios fulcrais da “morfologia goetheana”: o da forma como formação e metamorfose. Este livro constitui com toda a certeza um contributo importante e sério nesse sentido e para esse espaço – mas acima de tudo na medida em que entra e sai deste último, em alternância, pelo seu próprio pé. É certo que – tratando-se de questões de metodologia, e da aproximação a um domínio por defi nição imensurável, a saber: o estudo da forma e das suas transformações – alguns dos estudos aqui apresentados, não obstante todo o rigor e competência que revelam, começam e acabam em estado de cativeiro, presas do fascínio pelo fascínio que Goethe mostrou ter sentido pelos seus objectos. Ao fazê-lo, as mais das vezes à sombra da imagem do artista que se fez cientista sob a reserva de um nobilitado diletantismo, e do homem de ciência que permaneceu fi el à sua vocação ou visão poética
141 Leitura: Morphology. Questions on Method and Language da realidade, trazem em si um culto quase involuntário das capacidades infraou sobre-humanas desse homem, ou pelo menos um louvor das suas virtudes de observador das formas vivas, e, por inversão – não retórica, mas literal –, da vida das formas. Em alguns casos, isso faz com que os princípios enunciados por Goethe se limitem a ser repetidos de modo didáctico, citados em nome da sua força apodíctica, ou sublinhados à conta do seu valor (reconhecido como) prodigioso. Goethe irradia, de facto, mas cedo a irradiação incorre no perigo de se transformar em encantamento, ou acaba por perder-se na descrição de uma descrição, precisa e fundamentada, mas nem por isso menos deslumbrada com o seu objecto. Por outro lado, importa ver que faz parte do risco dessa descrição infi nita o tentar não só reconstruir mas reviver o prazer da observação e o momento da experiência inerente ao “método morfológico” (p. 19) elaborado por Goethe, insistindo na oscilação entre o científi co e poético, o analítico e o sintético, a revelação e a imaginação, a intuição e a distinção, a visão e o conceito, a imediatez e a mediação, a observação e a comparação e diferenciação dos fenómenos, das forças, dos elementos da natureza – pois tudo isso inere à difi culdade própria da contemplação da contemplação activa, e expõe-se ao limite da recapitulação, apropriação ou distorção iminentes daquilo a que ‘o próprio’ Goethe chamou o “doce” ou “delicado” empirismo, fundado numa intuição do exterior (a natureza, o ser vivo) posta em movimento pelo interior (no sentido da formação de si). Nada disso é assim inesperado, nem injustifi cado, se se tomar em conta o magnetismo irresistível do carácter e da discursividade inquietas e perscrutadoras de Goethe, que tocam de muito perto e vivamente em questões fundamentais da história das ciências, encarando-as de frente, como pela primeira vez. Da mesma maneira, sendo este volume o resultado de um projecto de investigação multidisciplinar que envolveu vários investigadores oriundos de várias áreas, não parece surpreendente que a sua disposição e a sua intensidade mostrem ser algo desiguais. Há nele e na sua “divisão” alguma dispersão, ou ainda, como é dito na primeira página, uma “desconexão natural” (p. 9) – uma lassitude, um carácter de desprendimento ou de distensão que acabará por jogar a seu favor, e que, de resto, não é de todo dissentâneo da intenção de “reciprocidade” entre os “contornos e movimentos” (p. 12) que pretende ligar os vários textos entre si, mas antes estranhamente coincidente com ela. E, de facto, essas “Afi nidades” são em grande medida – para recorrer à terminologia da teoria das cores, citada no texto de Javier Arnaldo “Before the Farbenlehre: Goethe’s First Systematic Writings on Colour” – como que “efeitos de irisação” (p. 38) da primeira parte, resultando em ensaios e aproximações de
142 enorme diversidade disciplinar, incluindo domínios como a Filosofi a, a Linguística, a Matemática, a Arquitectura ou a História da arte, ou nomes sonantes como Nietzsche, Benjamin, Wittgenstein ou Deleuze. Neste capítulo – não propriamente periférico, mas circundante ou circunvagante – podem encontrar-se ensaios notáveis, como o de Ana Agud sobre a forma e o conceito em Wilhelm von Humboldt (“Form in Humboldt”, pp. 201-219); digressões inter-dimensionais, como o texto de José Gil, que estuda o “movimento da emergência da forma” a partir da questão da linguagem e da metaforização do mundo fundada em formas e imagens do corpo, tomando como ponto de partida as teorias da morfogénese de Deleuze (“The Body and the Genesis of Forms”, pp. 183-199); análises sobre a infl uência da “visão morfológica” no domínio da “linguagem e da perspectiva históricas”, em particular da “narração historiográfi ca” (pp. 222-223), como no estudo de Maurizio Gribaudi (“Forms, Tension: History and its Deployment”, pp. 221-242); discussões sobre a mutação e dissolução de premissas morfológicas ligadas à “análise da forma” no interior da história e da teoria da arquitectura, como no contributo de Diogo Seixas Lopes (“Night and Fog: The Atmospheres of Aldo Rossi”, pp. 313-325); ou ainda incursões singulares e consistentes, como o estudo de Sílvio Varela Sousa “Fickleness of Form and Idea in Bataille’s Early Writings” (pp. 273-299). Mas há ainda um outro modo de olhar ou de entender a dinâmica (“Irradiações” e “Afi nidades”) adscrita a este livro, que, mais do que dividido, se encontra espraiado sobre si mesmo, dando a impressão de apontar para além de si. Num primeiro plano, em que prevalece o foco da sedução e do irresistível, a fi gura e a acção de Goethe como morfólogo são mais propriamente admiradas e seguidas de perto do que questionadas, o que signifi ca que o seu pensamento se vê sobretudo posicionado diante de si mesmo. Aqui, sobrevêm os seus enunciados e as questões que lhes são próprias, e tudo acaba sancionado pelo ritmo ou pelo balanço proteico da concepção original da “morfologia goetheana”. Num segundo plano, porém, vem à tona a questão de fundo que aí é colocada, quando essa construção, cuja especifi cidade e cuja vastidão são dadas em simultâneo, se vê redirigida para a raiz problemática da morfologia, entendida – ou pretendida – como ciência universal do particular, na oscilação entre o seu intuito e o seu acto. Este aspecto, que corresponde ao propósito de alcançar uma “visão mais profunda da natureza e do funcionamento da morfologia”, ou de destrinçar as fronteiras da “abordagem morfológica” – duas expressões que aparecem respectivamente nos ensaios de Hervé Le Bras, “Cellular Bruno C. Duarte
143 Automata and Artifi cial Landscapes: Three Steps in Morphology” (p. 301), e no de Maurizio Gribaudi, citado acima (p. 221 do volume) –, é afl orado em passagens esporádicas, geralmente introdutórias, mas em nada irrelevantes, de vários dos textos aqui incluídos. No mesmo sentido, como prólogo a um exercício teórico ou prático, mais ou menos demonstrativo, seria possível indicar ainda dois momentos-chave dos ensaios de Dennis Sepper, “Showing the Phenomena. The Genesis of Goethe’s Color Morphology” (pp. 60-61) e de Diana Soeiro, “Hikikomori and the Inhabited Form: Morphology and Territory” (pp. 152-154). Mas a densidade da fundamentação e da projecção da Morfologia enquanto tal só é verdadeiramente confrontada no texto de Maria Filomena Molder, “Form as Problem: Clouds and the Sacred vessel”, que retoma questões desde há muito caras à sua autora, e mesmo tornadas íntimas na sua escrita – como dá a ver a dissertação O Pensamento morfológico de Goethe (Lisboa, 1995, em especial pp. 50-52, 242-266), ou ainda o trabalho imenso de Tradução, Introdução e Anotação do estudo de Goethe A metamorfose das plantas (Lisboa, 1993), o qual constitui por si mesmo a matriz e a prova de fogo de qualquer aproximação à morfologia dita ‘moderna’. Nesse texto, “Form as Problem”, que lida com a proposição difícil da forma como limiar, ao mesmo tempo que age aqui de algum modo como a transição e a alavanca que põem em movimento o princípio de metamorfose de todo este livro, aparece citada uma palavra de Goethe na qual se diz que a natureza assenta não num “sistema”, mas na “vida e sucessão, [na] vida e transformações das formas de um centro desconhecido para uma circunferência incognoscível” (p. 173), por onde se conclui e reafi rma a convergência do sem-fundo infi nito da natureza na infi nitude da sua observação. Junta-se a esta afi rmação uma outra, citada na Introdução, na qual a morfologia é dita uma ciência cuja “grande vantagem” é a de “não estar em confl ito com nenhuma outra doutrina, de não lhe ser necessário eliminar o que quer que seja de modo a encontrar um lugar para si mesma, de os fenómenos aos quais se dedica serem altamente signifi cativos e de as operações do espírito pelos quais ela agrupa os fenómenos serem adaptadas e agradáveis à natureza humana, de tal modo que mesmo uma tentativa falhada poderia ainda ser útil e atractiva” (p. 10). Por aqui se começa a entrever a ponta solta, o nó nunca desfeito, numa palavra: o fundo ilimitado deste livro, e, assim também, o mérito da sua “distensão” ou “des-conexão”. Sempre que abandona ou parece abandonar a fi gura (a efígie) de Goethe, ele – não tão paradoxalmente como poderia parecer à primeira vista – retoma, repensa e projecta o seu gesto (o seu instinto) de morfólogo nato; e fá-lo de tal modo que a omnipresença Leitura: Morphology. Questions on Method and Language
144 Bruno C. Duarte desse gesto se transfere para a extensão de todos os espaços em que pode tocar o saber da morfologia, a ciência de todo e qualquer fenómeno, e a morfologia como saber, entenda-se, não como um dado inevitável, mas, muito precisamente, como um problema. Também a morfologia guarda em si uma promessa movediça, para aquém e para além de Goethe, e também ela se procura a si mesma num movimento sem fi m que conduz já não de um centro para uma circunferência que é impossível conhecer do princípio ao fi m, no sentido estrito, mas antes desagua numa condição da experiência cuja percepção do processo do próprio conhecimento se joga simultaneamente no plano da sua circunscrição e da sua ampliação. Pois em causa estará sempre a possibilidade da sua constituição nos termos da sua autonomia, a existência ou inexistência de uma dimensão ou de uma defi nição – causal, esquemática, comparativa, sistemática – do que é ou pode vir a ser a ciência morfo-lógica, e, com isso, do seu conceito unifi cado, mas também a carência de um equilíbrio absoluto na posição de exterioridade que torna possíveis a observação, descrição e exposição da estrutura interna de uma forma viva, de um organismo em formação. A esse oscilar entre a aspiração à redução das incontáveis manifestações da morfologia a princípios e leis indecomponíveis, a ambição da visão sinóptica que chegaria para a cingir e envolver, e a consciência de que, dada a natureza desordenada e disseminada do seu objecto e da paixão por ele, tão intangível quanto o tempo de que se dispõe para a levar a cabo, não é estranho o cerne, ou, melhor dizendo, a vivacidade desconjuntada e todavia unida a si mesma deste livro, que, sem deixar de referir a questão da morfologia como um “projecto” alinhado com a “formação de uma comunidade científi ca” (p. 13), se propõe essencialmente como tentativa e experiência. Vivendo de uma categoria e numa categoria sobre a qual poucos se aventuram a arriscar uma determinação categórica, este livro consiste numa experimentação com as várias ramifi cações e metodologias que comporta em si o signo “morfologia”, entendido como auto-signifi cação e auto-revelação das formas vivas, e no modo como esse reconhecimento se vê transposto na auto-biografi a do investigador como poeta-cientista. Exposto por dentro e por fora, na sua vulnerabilidade e na sua fi rmeza, ele presta-se a relançar o exercício da morfologia como algo que é procurado, ao invés de se encontrar estatuído à partida – e, também por esse ângulo e nessa perspectiva, não restam dúvidas que “Goethe está por perto”.
Philosophica, 45, Lisboa, 2015, pp. 145-151. Francisco José Martinez, Próspero en el Laberinto. Las dos caras del Barroco, Madrid, Editorial Dykinson, 2014, 280 pp. Maria Luísa Ribeiro Ferreira Próspero en el Laberinto. Las dos caras del Barroco é um livro estimulante, que revela um amor interessado pela arte, pela fi losofi a e pela literatura do Século de Ouro espanhol. Nele se traça um percurso que nos ajuda a compreender uma época portadora de sementes, cujo desabrochar levou a mudanças radicais. A mestiçagem cultural, é um dos temas relevantes desta obra que nos convida ao reconhecimento de um sujeito novo, susceptível de nos ajudar a vencer a crise que presentemente atravessamos. O volume reúne um conjunto de textos, escritos ao longo de vinte anos, sobre o tema do barroco. O colonialismo hispânico é a marca dominante, com um especial relevo dado ao sincretismo, à exuberância, à heterodoxia e ao cruzamento de diferentes códigos. O livro estrutura-se em quatro partes desiguais. A primeira é uma introdução ao tema genérico do barroco, constantemente retomado e aprofundado nas suas múltiplas manifestações – fi losofi a, literatura, religião, teatro, pintura, profecia, artes mágicas, astrologia. Seguem-se dois longos capítulos, respectivamente sobre a ética e a política. A terminar temos um brevíssimo “Epílogo Gnosiológico”, à maneira de Benjamin. À semelhança de uma das fi guras contempladas no volume – o fi lósofo Montaigne – F. J. Martinez elege o ensaio como modelo de escrita, partilhando com o leitor a sua visão da época barroca, nas suas complexidades e riquezas, ambiguidades e contradições. Os ensaios variam de extensão. Alguns são meros apontamentos como é o caso do texto sobre Montaigne, bem como o que analisa a peça A Tempestade, de Shakespeare. Contrastando com estes surgem desenvolvimentos longos, como os dedicados a Sóror Juana de la Cruz e ao Padre António Vieira. Fazendo jus ao título escolhido, Próspero en el Laberinto, a abordagem temática é sinuosa e caleidoscópica, mostrando-nos uma infi nidade de pontos de vista. Embora pouco referido, Leibniz é uma presença latente pois neste livro “tout se tient”, tudo tem a ver com tudo: a religião, a astrologia, a música, a teologia, a fi losofi a, a pintura, a política, interactuam e dialogam patenteando uma convivência contrastante e
146 Maria Luísa Ribeiro Ferreira problemática. Há uma permanente interpenetração do destino com a liberdade, do hermetismo com a exigência de explicações racionais, dos presságios com os conhecimentos científi cos, do espaço interior com a exterioridade, da esperança com o pessimismo, da austeridade com o luxo. Os textos desenvolvem-se numa sucessão especular pois de uma imagem, de uma ideia ou de uma tese passamos a outras, alargando-se infi nitamente os temas inicialmente defi nidos de um modo circunscrito. Como seria de esperar o ensaio inicial (“Ambigüedades barrocas”) é dedicado aos excessos e tensões do barroco. As diferentes artes acusam a marca do simulacro, do artifi cio e da sedução dos sentidos. Na pintura dominam o “trompe l’oeil”, a sobrevalorização de curvas e laçadas, o jogo de luz e de sombra, o culto da ilusão e da aparência. Na literatura, o uso e abuso das elipses, das parábolas e das hipérboles cadencia os vários discursos que, tal como nas artes plásticas, procuram convencer, impor e calar, apelando ao controlo das paixões na tentativa de as submeter aos poderes absolutos do Leviatã e da Igreja: “el trono y el altar se unen para sojuzgar cualquier hálito de libertad” (p. 19). E este ambiente de contrastes em que convivem o tenebrismo da pintura de Greco e a alegria cristalina das sonatas de Mozart, coloca-se imediatamente no começo do livro, construindo o cenário sobre o qual se desenrolam os restantes textos. Nestes, a teatralização das artes, da política e da própria vida é uma presença. Sensível às grandes controvérsias e aos contrastes do barroco, F. J. Martinez apresenta em 2.1. (“Astrología y Libre Albedrío”) o confronto entre a astrologia e o livre arbítrio, mostrando como a tradição hermética convive com o triunfo crescente do racionalismo. De igual modo fi ca patente o modo como cientistas e fi lósofos (Ficcino, Leonardo, Bruno, Paracelso) dialogam simultaneamente com a magia e com a ciência, numa tentativa de dignifi car o homem, fazendo-o senhor do seu destino, quer apaziguando as forças cósmicas por meio de rituais, quer desvendando os segredos do mundo através do conhecimento das suas leis. O tema do livre arbítrio é retomado em clave literária, a partir de Tirso de Molina (2.5 pp. 69-74), problematizando-se o modo como é tratada a controvérsia entre a liberdade e a graça. A astrologia volta a ser abordada na terceira parte, num ensaio sobre astrologia e política (3.1, pp. 137-146). Nele a astrologia é colocada ao serviço do poder, exaltando-se os governantes através de genealogias míticas que lhes atribuem um estatuto quase divino. De facto os deuses egípcios e gregos surgem como fundadores das grandes dinastias europeias e os horóscopos das mesmas, pintadas nas abóbadas de catedrais e de igrejas, assinalam a harmonia entre macro e microcosmo, numa exaltação da harmonia entre o mundo terreno e o mundo estelar. Traça-se uma fi losofi a
147 Leitura: Próspero en el Laberinto da história baseada nas conjunções entre astros e ocorrências humanas e tenta encontrar uma inteligibilidade para estas. Deste modo afastam-se o medo do desconhecido e dominam-se os acontecimentos, profeticamente anunciados pelos roteiros astrais. A magia interfere no desejo de poder e coloca-se ao serviço das cortes europeias. Astrólogos, fi lósofos, teólogos e políticos procuram ler nas estrelas o destino do homem, misturando esse desiderato com desejos de reforma. Ao debruçar-se sobre o contraste entre espaço exterior e interior, F.J. Martinez elege Montaigne como o pensador que voluntariamente se afastou do mundo, refugiando-se no espaço privado da sua biblioteca (2.2, pp. 39-46). É nesse espaço que o fi lósofo se dedica a um tipo de escrita tacteante e subjectiva (p.41), diferente do dogmatismo assertivo dos grandes fi lósofos da modernidade. Em Montaigne a ética é secundarizada em prol de uma estética vital, a verdade ganha foros de subjectividade e o desejo de relatar e de se relatar ultrapassa os intuitos pedagógicos e moralizantes. Nos ensaios deste humanista francês a utopia é banida, a trivialidade é valorada, a aparência afi rma-se como ideal sufi ciente de verdade e o elogio da domesticidade mistura-se com um humor subtil e coloquial. Percebemos ao longo deste ensaio a simpatia manifestada por F.J.M. a Montaigne, o que não o impede de lhe censurar um certo “escapismo” bem como uma ausência de compromisso face a situações de injustiça perante as quais deliberadamente não toma partido. O tema do corpo ocupa um lugar relevante na mundividência barroca e, como tal, aparece tratado neste volume, em diferentes perspectivas. O ponto de vista da medicina surge em “Melancolia y Filosofi a” (2.3, pp. 47-60). Neste ensaio expõem-se várias concepções de melancolia que vão de Heraclito ao Século de Ouro espanhol. Os médicos renascentistas assumem um particular relevo pois retomam as refl exões gregas e árabes sobre esta doença. Interessados essencialmente em combatê-la, desmitifi cam a identifi cação da mesma com a genialidade. No ensaio seguinte (2.4, pp. 61-68) o corpo humano é revisitado em termos pictóricos. E aqui verifi camos como no barroco ele tanto se apresenta torturado e sofredor como é exaltado na sua potência e glória, sobretudo nas fi guras dos anjos, de Maria e de Cristo, anunciadores de um destino luminoso e triunfante. Os pintores da Contra-Reforma católica são chamados à pedra como prova de que este movimento cultural nunca abdicou do corpo, considerando-o quer como ocasião de pecado e de sofrimento, quer enquanto transfi gurado pela graça divina (p.64). F.J.M. interessou-se pela representação das Sibilas na iconografi a barroca. Em 2.6 (“La estetización del tema de las sibilas en el barroco”, pp. 75-100) segue o percurso destas fi guras míticas que o cristianismo