A importância de um instrumento local no combate às ilhas de calor: diretrizes para reorientar o uso do solo
Abstract
Este artigo discute o uso de imagens térmicas e mapas de uso do solo para combater ilhas de calor e promover um ambiente urbano sustentável em cidades pequenas, usando São Francisco do Sul, Brasil, como estudo de caso. Os resultados mostram diferenças de aquecimento em diferentes partes da cidade, sublinhando a necessidade de considerar o clima no planejamento urbano para promover a sustentabilidade e minimizar o desconforto térmico. O estudo sugere que estes princípios podem guiar o licenciamento ambiental para reduzir áreas impermeabilizadas e evitar o surgimento de ilhas de calor.
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CIUDADES, 27 (2024): pp. 247-267 ISSN-E: 2445-3943 A importância de um instrumento local no combate às ilhas de calor: diretrizes para reorientar o uso do solo * La importancia de un instrumento local en la lucha contra las islas de calor: directrices para redirigir el uso del suelo The importance of a local instrument in combating heat islands: guidelines for redirecting land use HELENA PUERES ROLDÃO Engenheira Ambiental, Mestra em Ciências Ambientais Servidora Pública Municipal Prefeitura Municipal de São Francisco do Sul (São Francisco do Sul, Brasil) [email protected] ORCID: 0000-0003-2151-840X EDUARDO AUGUSTO WERNECK RIBEIRO Geógrafo, Doutor em Geografía Docente Instituto Federal Catarinense (São Francisco do Sul, Brasil) [email protected] ORCID: 0000-0003-3313-6783 MARIO FRANCISCO LEAL DE QUADRO Meteorologista, Doutor em Meteorologia Docente Instituto Federal de Santa Catarina (Florianópolis, Brasil) [email protected] ORCID: 0000-0002-5904-5890 Recibido/Received: 15-09-2023; Aceptado/Accepted: 13-03-2024 Cómo citar/How to cite: Roldão, Helena Pueres; Werneck Ribeiro, Eduardo Augusto & Leal de Quadro, Mario Francisco (2024): “A importância de um instrumento local no combate às ilhas de calor: diretrizes para reorientar o uso do solo”, Ciudades, 27, pp. 247-267. DOI: https://doi.org/10.24197/ciudades.27.2024.247-267 Artículo de acceso abierto distribuido bajo una Licencia Creative Commons Atribución 4.0 Internacional (CC-BY 4.0). / Open access article under a Creative Commons Attribution 4.0 International License (CCBY 4.0). Resumo: Este artigo discute o uso de imagens térmicas e mapas de uso do solo para combater ilhas de calor e promover um ambiente urbano sustentável em cidades pequenas, usando São Francisco do Sul, * Este artigo é resultado da investigação realizada no curso de Pós-Graduação Mestrado em Tecnologia e Ambiente do Instituto Federal Catarinense (IFC).
248 Helena P. Roldão, Eduardo A. Werneck Ribeiro & Mario Francisco L. de Quadro CIUDADES, 27 (2024): pp. 247-267 ISSN-E: 2445-3943 Brasil, como estudo de caso. Os resultados mostram diferenças de aquecimento em diferentes partes da cidade, sublinhando a necessidade de considerar o clima no planejamento urbano para promover a sustentabilidade e minimizar o desconforto térmico. O estudo sugere que estes princípios podem guiar o licenciamento ambiental para reduzir áreas impermeabilizadas e evitar o surgimento de ilhas de calor. Palavras chave: planejamento urbano, ilhas de calor, uso do solo, sustentabilidade ambiental. Resumen: Este artículo discute el uso de imágenes térmicas y mapas de uso del suelo para combatir las islas de calor y promover un ambiente urbano sostenible en ciudades pequeñas, utilizando São Francisco do Sul, Brasil, como caso de estudio. Los resultados muestran diferencias de calentamiento en diferentes partes de la ciudad, subrayando la necesidad de considerar el clima en la planificación urbana para promover la sostenibilidad y minimizar la incomodidad térmica. El estudio sugiere que estos principios pueden guiar la licencia ambiental para reducir las áreas impermeabilizadas y evitar la aparición de islas de calor. Palabras clave: planificación urbana, islas de calor, uso del suelo, sostenibilidad ambiental. Abstract: This article discusses the use of thermal imaging and land use maps to combat heat islands and promote a sustainable urban environment in small cities, using São Francisco do Sul, Brazil, as a case study. The results show heating differences in different parts of the city, underlining the need to consider climate in urban planning to promote sustainability and minimize thermal discomfort. The study suggests that these principles can guide environmental licensing to reduce impermeable areas and prevent the emergence of heat islands. Keywords: urban planning, heat islands, land use, environmental sustainability. 1. INTRODUÇÃO O planejamento urbano é uma ferramenta essencial para a promoção de cidades saudáveis, resilientes e sustentáveis (Orsi, 2023). Esta necessidade é relevante tanto para áreas metropolitanas quanto para áreas rurais dentro dos municípios. Incorporar princípios climáticos no planejamento, incluindo a gestão do uso do solo e a implementação de medidas de mitigação para minimizar o impacto das ilhas de calor, é um desafio emergente no planejamento municipal. A ilha de calor é um fenômeno que se refere a áreas urbanas que apresentam temperaturas mais elevadas que as áreas rurais circundantes (Oke, 2002). O estudo das ilhas de calor é essencial para entender como as mudanças na ocupação e uso do solo, decorrentes da atividade humana, afetam a temperatura local. Este fenômeno tem implicações significativas para o conforto térmico, consumo de energia e saúde pública (Amorim, 2020; Teixeira & Amorim, 2018). Por outro lado, o licenciamento ambiental é um instrumento de controle prévio ao início de atividades que possam causar algum impacto ambiental. Este processo inclui a análise das possíveis consequências ambientais de um projeto e a definição de medidas para prevenir ou minimizar esses impactos. O estudo das ilhas de calor e o licenciamento ambiental estão conectados, pois é necessário considerar os impactos térmicos de um projeto. Isso implica
A importância de um instrumento local no combate às ilhas de calor... 249 CIUDADES, 27 (2024): pp. 247-267 ISSN-E: 2445-3943 avaliar como os desenvolvimentos urbanos podem contribuir para as ilhas de calor e encontrar formas de mitigar esses impactos (Wang, 2022). Fenômenos como urbanização desordenada e crescimento populacional levam a mudanças climáticas e desequilíbrios globais (Makumbura, Samarasinghe & Rathnayake, 2022; Gotardo et al., 2019). O uso de imagens térmicas e mapas de uso do solo no planejamento municipal é importante, já que as ilhas de calor podem ocorrer em áreas urbanas e rurais (Ferreira, Pereira & Labaki, 2020). Teixeira & Pessoa (2021) destacam a necessidade de adaptação climática no planejamento das cidades brasileiras. Degirmenci et al. (2021) apontam estratégias globais contra ilhas de calor urbano e a importância de incorporá-las no planejamento municipal. As soluções, alinhadas com a urgência do problema, podem envolver tecnologias de sensoriamento remoto e técnicas computacionais para analisar os fatores que influenciam o fenômeno, como sugerido por Liu, Huang & Yang (2021). A abordagem das ilhas de calor requer estudos de cidades pequenas e médias em planejamento e clima urbano. Sua relevância se aplica ao licenciamento ambiental, responsabilidade municipal no Brasil, conforme leis federais e a resolução Conselho Estadual de Meio Ambiente de Santa Catarina (Consema) nº 99/2017. A gestão deve se adaptar ao tamanho do município, incorporando tecnologias e metodologias, enfatizando a importância das leis de uso do solo e seu impacto ambiental, aproximando a sociedade do debate sobre mudanças climáticas. Di Vita (2020) enfatiza a relevância das cidades médias na Europa, complementando metrópoles e áreas rurais. O zoneamento evita conflitos de uso do solo, promovendo segurança e sustentabilidade. Políticas orientam o desenvolvimento urbano, com zoneamento e planos diretores regulando o uso do solo. Llop et al. (2019), por sua vez, apontam a importância das cidades pequenas, com sua escala humana e governança local, na implementação da Agenda 2030. Estes autores, enfatizam a necessidade de gestão urbana participativa para enfrentar complexos desafios urbanos, como no caso as ilhas de calor, presentes tanto em cidades pequenas e médias quanto em grandes. A gestão local pode amenizar ilhas de calor com construções ecológicas, mais vegetação e menos superfícies impermeáveis. A eficácia precisa de governos, empresas, comunidades e instituições de pesquisa, adaptando-se às necessidades locais. O licenciamento ambiental controla impactos nocivos e governos locais podem emitir decretos para alterações no uso do solo. A ação local é crucial para políticas climáticas, pois o uso do solo envolve várias jurisdições. Os municípios desempenham um papel crucial na experimentação urbana e na promoção de práticas sustentáveis no planejamento urbano (MukhtarLandgren et al., 2019). Estudos de Zhou et al. (2014) e Chen et al. (2006) destacam a relação entre as mudanças no uso da terra e as ilhas de calor urbanas,
250 Helena P. Roldão, Eduardo A. Werneck Ribeiro & Mario Francisco L. de Quadro CIUDADES, 27 (2024): pp. 247-267 ISSN-E: 2445-3943 ressaltando a necessidade de considerar o planejamento do uso da terra na mitigação das mudanças climáticas. Bulkeley & Broto (2012) e Eneqvist & Karvonen (2021) reforçam o papel essencial dos governos municipais em experimentar novas abordagens para ação climática e no fomento ao desenvolvimento urbano sustentável. As estruturas municipais afetam a capacidade de iniciativas climáticas. Criar regulamentos para mudanças no uso do solo pode controlar impactos climáticos. A pesquisa de Ryan (2015) ressalta a vulnerabilidade das cidades às mudanças climáticas e a importância do papel municipal. Associar mudanças ao aumento de calor pode mitigar impactos, evidenciando a relevância do planejamento urbano sustentável. Motivados pela omissão de pequenos municípios em pesquisas, analisamos a adaptação de políticas de mitigação da mudança climática usando geoprocessamento. No Brasil, onde 72 % da população vive em cidades de até 50 mil habitantes, tecnologia auxilia no planejamento. Este artigo traz uma metodologia que identifica ilhas de calor com imagens térmicas e mapas de uso do solo. Estudamos as causas dessas ilhas em São Francisco do Sul (Brasil), onde a urbanização elevou a temperatura. Propomos medidas para reduzir a temperatura e melhorar a vida urbana, apoiando a sustentabilidade ambiental. 2. MATERIAL E MÉTODOS Nesta seção, descreveremos os materiais e métodos utilizados em nosso estudo, começando por uma caracterização detalhada da área de estudo, a cidade de São Francisco do Sul. Em seguida, explicaremos como utilizamos imagens térmicas do Landsat e dados da plataforma Mapbiomas para analisar o uso e a ocupação do solo. Finalmente, discutiremos como elaboramos um documento de orientação para o licenciamento ambiental para o município de São Francisco do Sul, com base na legislação local e federal. 2.1. Caracterização da área A área de estudo (Figura 1) refere-se à cidade de São Francisco do Sul, no estado de Santa Catarina, que possui uma área de aproximadamente 493,266 km² e uma população de 52.721 habitantes. A cidade é uma área de atividade portuária e turística que possui um clima subtropical com verões chuvosos e invernos secos e úmidos, com temperatura média anual variando entre 16 e 20 C e precipitação anual variando entre 1000 e 1500 mm. A cidade é uma cidades das mais antigas do Brasil, a ocupação incial foi espanhola e datada em 1558 (Ibge, 2023). Suas praias e seus centro histórico exercem um grande atrativo turistico. A cidade também conta com un dos portos mais importantes do Brasil, o porto de São Francisco do Sul. O municipio tem um perfil diverificado, pois segundo o Ibge (2023), encontram-se atividades
A importância de um instrumento local no combate às ilhas de calor... 251 CIUDADES, 27 (2024): pp. 247-267 ISSN-E: 2445-3943 econômicas vinculdas as pastagens, terras agrícolas, além das áreas de silvicultura, com registros para atividades industrias e comercio e serviços. Figura 1: Localização da área de estudo. Fonte: Ibge (2023). Para identificação das ilhas de calor no município de São Francisco do Sul, foram utilizadas quatro imagens termais Landsat no formato raster do tipo .geotiff nas datas de 9/7/1985, 6/3/1986, 15/1/2020 e 28/7/2021, conforme trabalho de Fialho (2012). As imagens Landsat estão disponibilizadas no site da United States Geological Survey (USGS, 2023). Para a geração dos mapas de temperatura da superfície, foram utilizadas as bandas 10 do Landsat-8 e a banda 6 do Landsat-5, ambas as bandas do canal espectral infravermelho termal, com uma resolução espacial de 100 metros e 120 metros, respectivamente. O tratamento da imagem termal foi realizado com o software QGIS (versão 3.22.5.) e o semi-automatic classification plugin (Congedo 2021). A plataforma Mapbiomas (Souza et al., 2020) foi utilizada para as imagens de uso e ocupação do solo. Essa plataforma oferece um acervo de imagens raster geotiff, organizadas em mapas anuais de cobertura e uso da terra no Brasil desde 1985. Desenvolvida por uma rede colaborativa, utiliza processamento em nuvem e classificadores automatizados operados pelo Google Earth Engine. As imagens têm resolução espacial de 30 metros e generalização espacial que exclui áreas
252 Helena P. Roldão, Eduardo A. Werneck Ribeiro & Mario Francisco L. de Quadro CIUDADES, 27 (2024): pp. 247-267 ISSN-E: 2445-3943 menores que 0,5 hectares. A plataforma também fornece informações sobre validação e nomenclatura para classificação das imagens (Souza et al., 2020). Por fim, elaborou-se um documento de orientação para o licenciamento ambiental para o município de São Francisco do Sul a partir da revisão bibliográfica, dos critérios e orientações da Resolução do Conselho Estadual de Meio Ambiente do Estado de Santa Catarina (Consema) nº 99/2017 (Santa Catarina, 2017) e das leis federais nº 6.766/1979 e 12.187/2009. O documento considerou os seguintes critérios: cobertura vegetal na área do empreendimento, grau de interferência na paisagem natural, geração de poluentes atmosféricos e impactos no uso do solo. 2.2. Imagens Landsat Usamos quatro imagens termais do Landsat do site da USGS (2023) para identificar ilhas de calor em São Francisco do Sul através de mapas de temperatura da superfície. As bandas 10 do Landsat-8 e 6 do Landsat-5 foram usadas, com resoluções de 100 metros e 120 metros, respectivamente. As datas foram: 6/3/1986, 15/1/2020, 9/7/1985 e 28/7/2021. A escolha das datas foi baseada em trabalhos anteriores (Bassani et al. 2022; Ferreira, Pereira & Labaki, 2020; Teixeira & Amorim, 2018). As imagens foram tratadas com QGIS e o semi-automatic classification plugin. As datas foram escolhidas para representar duas estações no Hemisfério Sul ao longo de mais de 30 anos. Após a identificação termal, analisamos as mudanças do uso e ocupação do solo. Essas mudanças afetam a erosão, a ciclagem da água, a ciclagem do carbono e a biodiversidade. Além disso, foram associadas às variações térmicas nas áreas urbanas, que podem chegar a mais de 16° C na mesma estação. 2.3. Imagens Plataforma MapBiomas A plataforma MapBiomas (https://brasil.mapbiomas.org/) disponibiliza um acervo temporal de imagens raster geotiff já organizadas a partir de uma tipologia de mapas anuais de cobertura e uso da terra do Brasil (Souza et al., 2020). Para transformar o formato raster em vetor, as tipologias foram agrupadas a partir dos códigos originais associados às classes usadas pelo MapBiomas. As macroclasses foram Florestal, Não Florestal, Silvicultura, Agropecuária, Área não vegetada, Corpo D'água e Urbano. Em seguida, uma segunda reclassificação foi realizada para verificar as mudanças de classes identificadas, criando uma tipologia da modificação do período analisado com os critérios de agrupamento aplicados. A Tabela 1 apresenta a reclassificação sugerida para as classes originais do solo e ocupação do MapBiomas.
A importância de um instrumento local no combate às ilhas de calor... 253 CIUDADES, 27 (2024): pp. 247-267 ISSN-E: 2445-3943 Classe original do solo e ocupação MapBiomas (dado original) Reclassificação sugerida (agrupamento das classes) Formação florestal, mangue, restinga arborizada Florestal Afloramento rochoso, apicum, campo alagado ou área pantanosa Não Florestal Pastagem, mosaico de agricultura e pastagem, outras áreas de lavouras temporárias Agropecuária Praia, dunas e mineração, outras áreas não vegetadas Área não vegetada Rio, lago, oceano Corpo D'água Área urbana Urbano Floresta Plantada Silvicultura Tabela 1: Reclassificação das tipologias da cobertura do solo usada no MapBiomas. Fonte: Elaborado pelos autores. A partir deste resultado, passou-se para uma segunda reclassificação. O objetivo desta etapa era verificar as mudanças de classes identificadas. A proposta desta segunda reclassificação foi criar uma tipologia da modificação do período analisado, com os critérios para o agrupamento aplicados apresentados na Tabela 2. Classe Transição identificada nos usos e ocupação Inalterado Uso mantido entre os anos de 1985 e 2020 Natural Em 1985 eram classes não florestal, passou para a classe Florestal Reflorestadas Em 1985 eram classes: urbano, não florestal, agropecuária, sem vegetação e em 2020 passaram para a classe Silvicultura Antrópico a) Em 1985 eram as classes: Florestal, não florestal, silvicultura e em 2020 passaram para a classe urbano; b) Em 1985 eram as classes: Florestal, não florestal, silvicultura e passaram para a classe agropecuária em 2020 Desmatadas Em 1985 eram as classes: Florestal, não florestal e silvicultura e em 2020 passaram para a classe sem vegetação Tabela 2: Critérios para tipologia proposta da modificação do uso e ocupação do solo 1985 -2020. Fonte: Elaborado pelos autores.
254 Helena P. Roldão, Eduardo A. Werneck Ribeiro & Mario Francisco L. de Quadro CIUDADES, 27 (2024): pp. 247-267 ISSN-E: 2445-3943 3. RESULTADOS Nesta seção, apresentamos os resultados do nosso estudo, que se concentra em dois aspectos principais. Na primeira subseção (3.1), analisamos as mudanças no uso e ocupação do solo em São Francisco do Sul e localizamos as ilhas de calor na cidade. Na segunda subseção (3.2), desenvolvemos um termo de referência climatológico municipal, baseado na revisão bibliográfica, nas normativas legais e nos resultados do nosso estudo. 3.1. Mudanças no uso e ocupação e localização das ilhas de calor O resultado da identificação das ilhas de calor nas duas estações e suas respectivas amplitudes pode ser verificado na figura 2. A amplitude registrada no periodo de 1985-2021, sendo a Figura 2a a amplitude do verão e a Figura 2b a amplitude do inverno: Figura 2 a-b: Comparativo das amplitudes entre verão e inverno. Fonte: Elaborado pelos autores. A Figura 2 mostra as ilhas de calor em São Francisco do Sul, Santa Catarina, de 1985 a 2021. No verão (Figura 2a), o centro urbano e a área industrial ao sul apresentam as maiores amplitudes de temperatura, ultrapassando 11°C, evidenciando a ilha de calor urbana. No entanto, as regiões oeste e norte, com densa cobertura vegetal, e as áreas costeiras têm menor amplitude. No inverno (Figura 2b), o padrão se mantém, com a amplitude no centro urbano um pouco menor, mas ainda acima de 7°C. As regiões com vegetação densa e áreas costeiras continuam com menor amplitude. A comparação dos dados de temperatura ao longo do tempo sugere um aumento geral da amplitude das ilhas de calor tanto no verão quanto no inverno. Essa tendência ascendente pode estar associada ao crescimento urbano e à perda de cobertura vegetal. O pode ser analisado na figura 3.
A importância de um instrumento local no combate às ilhas de calor... 255 CIUDADES, 27 (2024): pp. 247-267 ISSN-E: 2445-3943 O resultado da classificação do uso do solo, utilizando os critérios da tabela 1, podem ser identificados na figura 3. Figura 3: Evolução do uso e ocupação do solo. Fonte: Elaborado pelos autores. A Figura 3 mostra a mudança no uso do solo em São Francisco do Sul, Brasil, de 1985 a 2020. Em 1985, florestas cobriam a maior parte do oeste e norte, mas em 2020, essa cobertura diminuiu devido à expansão urbana e agropecuária. A silvicultura aumentou, assim como a categoria "Não Florestal", associada à urbanização e agricultura. As atividades agropecuárias e áreas sem vegetação expandiram, substituindo áreas florestais e “Não Florestais”. A expansão urbana ocorreu em todas as direções, afetando florestas, áreas “Não Florestais” e agrícolas. A população cresceu 85 %, de 27.000 em 1985 para 50.000 em 2020, com maior densidade de edificações. Com o resultado da Figura 3 pode-se reclassificar a imagem, a identificação das amplitudes térmicas a partir do seus limites espaciais foi sobreposta as imagens termais do Landsat. A identificação da área transformada, bem como qual classe foi modificada, permitiu também verificar qual foi a amplitude témica que acompanhou esta transformação (Figura 4).
262 Helena P. Roldão, Eduardo A. Werneck Ribeiro & Mario Francisco L. de Quadro CIUDADES, 27 (2024): pp. 247-267 ISSN-E: 2445-3943 com mudanças climáticas. Arifwidodo & Tanaka (2015) analisam o fenômeno em Bangkok, destacando o impacto das mudanças climáticas. Isso sublinha a importância de entender essas diferenças e os impactos climáticos. Cardo et al. (2014) indicam que, apesar da ilha de calor urbano não estar ligada diretamente à áreas rurais, os impactos nestas podem ser notados devido à dinâmica populacional que influencia a ecologia urbana. Esta dinâmica realça a complexidade das interações entre o ambiente construído e os padrões climáticos, tanto urbanos quanto rurais. Assim, é essencial considerar diversos fatores, como uso do solo, urbanização e características do solo ao mitigar as ilhas de calor. A pesquisa sugere que a conservação e restauração de áreas verdes podem minimizar esse efeito. Fialho (2012) e Makumbura, Samarasinghe & Rathnayake (2022) enfatizaram a relevância da combinação de imagens térmicas e mapas de uso do solo para entender a mudança climática e desenvolver medidas de mitigação. Esta metodologia indica a dinâmica de mudanças no uso do solo a nível municipal. Sua implementação proporcionará uma estratégia aplicável a qualquer município, considerando usos do solo além do humano, que influenciam ilhas de calor. O estudo sublinha a importância do uso da terra e cobertura vegetal na mitigação das ilhas de calor. A conservação e reflorestamento podem reduzir temperaturas e melhorar a vida urbana. Ryan (2015) e Liu, Huang & Yang (2021) apontam que todas as cidades são fontes de gases efeito estufa, e tecnologias de sensoriamento e computacionais podem ajudar a quantificar e analisar esses efeitos. Mesmo pequenas áreas podem formar ilhas de calor se mal gerenciadas. A presença de água e espaços abertos não impede sua formação. O município estudado se aqueceu em 36 anos, principalmente devido à redução de áreas verdes. A questão das ilhas de calor pode ser abordada com um termo de referência das autoridades públicas para atenuar impactos. Segundo autores como Amorim (2020) e Bassani et al. (2022), é crucial analisar a dinâmica do uso da terra e a morfologia urbana para entender os efeitos da mudança climática e desenvolver medidas de mitigação. Este estudo valida a eficácia de uma metodologia que une imagens térmicas e mapas do uso do solo para entender ilhas de calor, conforme afirmado por Fialho (2012) e Makumbura Samarasinghe & Rathnayake (2022). O termo de referência, aliado à tecnologia, se torna uma ferramenta útil para a gestão de ilhas de calor, especialmente em cidades pequenas como São Francisco do Sul, Brasil. No entanto, este estudo não é conclusivo e requer mais discussão. Por isso, apresentamos esta proposta às autoridades públicas do município de São Francisco do Sul. Com base na metodologia de criação do mapa e termos, solicitamos sua avaliação pelo conselho ambiental municipal. O número de protocolo para este pedido é 2022/13569SFS. Até o momento houve apenas uma reunião colegiada mas não deliberativa.
A importância de um instrumento local no combate às ilhas de calor... 263 CIUDADES, 27 (2024): pp. 247-267 ISSN-E: 2445-3943 Os estudos que se apoiam na aprovação de licenciamento ambiental para atividades potencialmente impactantes devem possibilitar a identificação e medição dos impactos que a implementação, operação e desativação desses projetos podem ter no clima. Isso é importante garantir uma análise apropriada de alternativas de tecnologia e localização que minimizem esses impactos. Esta metodologia provou ser eficaz para desenvolver um termo de referência para municípios menores, considerando os impactos das ilhas de calor e o papel dos governos municipais. Pode ser globalmente replicada devido à quantidade de municípios de tamanho similar. Poderíamos aprimorá-la com informações adicionais sobre poluentes e dados climáticos específicos. Apesar de abordar a dinâmica de uso da terra, uma discussão mais ampla sobre questões urbanas poderia enriquecer a análise. Essas variáveis poderiam expandir nossa compreensão das ilhas de calor. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho propõe uma metodologia para aprimorar a gestão pública em São Francisco do Sul, cidade portuária e turística. A cidade atualmente revisa leis de uso do solo, enquanto alterações climáticas foram observadas de 1985 a 2021. A pesquisa sugere microclimas e possíveis ilhas de calor, confirmáveis com dados meteorológicos, refletindo o impacto das mudanças no uso do solo e densidade populacional. A integração de metodologias com imagens térmicas e mapas de uso do solo contribui para a sustentabilidade ambiental e qualidade de vida urbana, permitindo medidas para minimizar efeitos das ilhas de calor e mudanças climáticas. O Termo de Referência, considerando especificidades locais, pode guiar licenciamento ambiental de atividades poluentes, sugerindo alternativas para reduzir ocupação de área impermeabilizada e desconforto térmico, mantendo condições climáticas favoráveis. BIBLIOGRAFÍA Arifwidodo, Sigit D. & Tanaka, Takahiro (2015), “The characteristics of urban heat island in Bangkok, Thailand”, Procedia - Social and Behavioral Sciences, vol. 195, pp. 423-428. DOI: https://doi.org/10.1016/j.sbspro.2015.06.484. Amorim, Margarete (2020), Ilhas de calor em cidades tropicais de médio e pequeno porte: teoria e prática, Curitiba, Editora Appris.
264 Helena P. Roldão, Eduardo A. Werneck Ribeiro & Mario Francisco L. de Quadro CIUDADES, 27 (2024): pp. 247-267 ISSN-E: 2445-3943 Bassani, Francesca; Garbero, Valeria; Poggi, Davide; Ridolfi, Luca; Hardenberg, Jost & Milelli, Massimo (2022), “An Innovative Approach to Select Urban-Rural Sites for Urban Heat Island Analysis: The Case of Turin (Italy)”, Urban Climate, vol. 42, nº 101099. DOI: https://doi.org/10.1016/j.uclim.2022.101099. Bulkeley, Harriet & Broto, Vanesa (2012), “Government by experiment? Global cities and the governing of climate change”, Transactions of the Institute of British Geographers, vol. 38, nº 3, pp. 361-375. DOI: https://doi.org/10.1111/j.1475-5661.2012.00535. Cardo, María Victoria; Vezzani, Darío; Rubio, Alejandra & Carbajo, AníbalE. (2014), “Integrating demographic and meteorological data in urban ecology: a case study of container‐breeding mosquitoes in temperate Argentina”, Area, vol. 46, nº 1, pp. 18-26. DOI: https://doi.org/10.1111/area.12071. Congedo, Luca (2021), “Semi-Automatic Classification Plugin: A Python Tool for the Download and Processing of Remote Sensing Images in QGIS”, Journal of Open Source Software, vol. 6, nº 64, pp. 3172. DOI: https://doi.org/10.21105/joss.03172. Correia Filho, Washington Luis Félix; de Barros Santiago, Dimas; de Oliveira-Júnior, José Francisco & de Silva Junior, Carlos Antonio (2019), “Impact of Urban Decadal Advance on Land Use and Land Cover and Surface Temperature in the City of Maceió, Brazil. Land Use”, Policy, vol. 87, nº 104026. DOI: https://doi.org/ 10.1016/j.landusepol.2019.104026. Chen, Xiao-Ling; Zhao, Hong-Mei; Li, Ping-Xiang & Yin, Zhi-Yong. (2006), “Remote sensing image-based analysis of the relationship between urban heat island and land use/cover changes”, Remote Sensing of Environment, vol. 104, nº 2, pp. 133-146. DOI: https://doi.org/10.1016/j.rse.2005.11.016. Di Vita, Stefano. (2020),"Medium-sized cities, intermediate scales and planning. Potential processes and missing tools in Brescia", Ciudades, vol. 23, pp. 1-22. DOI: https://doi.org/10.24197/ciudades.23.2020.01-22. Degirmenci, Kenan; de Souza, Kevin; Fieuw, Walter; Watson, Richard & Yigitcanlar, Tan (2021), “Understanding policy and technology responses in mitigating urban heat islands: A literature review and directions for future research”, Sustainable Cities and Society, vol. 70, nº 102873. DOI: https://doi.org/10.1016/j.scs.2021.102873. Eneqvist, Erica & Karvonen, Andrew (2021), “Experimental governance and urban planning futures: five strategic functions for municipalities in local innovation”, Urban Planning, vol. 6, nº 1, pp. 183-194. DOI: https://doi.org/10.17645/up.v6i1.3396. Ferreira, Fabiana; Pereira, Enio & Labaki, Lucila (2020), “Fatores associados à distribuição da temperatura das superfícies em áreas urbanas: zonas climáticas locais e características espectrais”, Ambiente Construído, vol. 21, pp. 237-262. Disponível em: https://doi.org/10.1590/s1678-86212021000100504. Acesso em: 01 mar. 2024.
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