Vol. 5 Nº2 págs. 209-223. 2007 www.pasosonline.org © PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural. ISSN 1695-7121 Dos ecos do turismo aos ecos da paisagem: análises das tendências do ecoturismo e a percepção de suas paisagens Fernanda Beraldo Maciel Leme Sandro Campos Neves † Universidade Estadual de Santa Cruz (Brasil) Resumo: O presente artigo propõe a revisão das tendências para a prática do ecoturismo na bibliografia especializada. Através também da pesquisa em sites de hotéis e operadoras da área buscou-se complementar e verificar na prática a concretização dessas tendências. Procurou-se através da pesquisa de campo definir se o ecoturismo poderia ser encarado em si mesmo como uma tendência ou se seria possível defini-lo como uma tendência que possibilita o atendimento de algumas necessidades básicas do ser humano, como contato com a natureza, sua contemplação e a necessidade do lúdico através da idéia de aventura. Assim, analisou-se a percepção do público jovem (maior consumidor de ecoturismo) a respeito das paisagens e as relações dessas percepções com os temas: ecoturismo, contemplação, lazer e aventura. Palavras chave: Naturaza; Lazer; Contemplação; Ecoturismo; Percepção. Abstract: The present article considers the revision of the trends for the practical one of the ecoturismo in the specialized bibliography. Through also the research in sites of hotels and operators of the area one searched to complement and to verify in the practical a concretion of these trends. It was looked through the field research to define if the ecoturismo could exactly be faced in itself as a trend or if it would be possible define it as a trend that makes possible the attendance of some basic necessities of the human being, as contact with the nature, its contemplation and the necessity of the playful one through the adventure idea. Thus, it was analyzed perception of the young public (bigger consumer of ecoturismo) regarding the landscapes and the relations of these perceptions with the subjects: ecoturismo, contemplation, leisure and adventure. Keywords: Nature; Leisure; Contemplation; Ecoturismo; Perception. † • Fernanda Beraldo Maciel Leme y Sandro Campos Neves. Mestrandos em Cultura e Turismo pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC)-Ilhéus-BA. Bolsistas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia . Email: fermaci[email protected] -- E-mail:
[email protected] https://doi.org/10.25145/j.pasos.2007.05.016
210 Dos ecos do turismo aos ecos da paisagem ... PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, 5(2). 2007 ISSN 1695-7121 Introdução Esse artigo tem como objetivo analisar as tendências referentes a relações estabelecidas entre lazer, contemplação e aventura no turismo de natureza. Definir tendências, como defendido por Leony (2002: 122), “é uma atitude perigosa e corajosa ao mesmo tempo, mas é fundamental para basear novos estudos, e elaborar os projetos de planejamentos, ordenamentos e gestões. Percebe-las e defini-las é compor um imenso quebracabeça de peças espalhadas por todos os espaços e em todos tempos”. Sendo assim, reunir e analisar tendências apontadas por diversos autores como Ruchmann (2002) em relação ao ecoturismo e suas implicações parece ser importante para se possa avançar na teoria e na prática desse segmento. Além da revisão bibliográfica a respeito de tendências, serão levantados dados primários da preferência atual dos jovens por paisagens propícias ao ecoturismo e os sentimentos, expectativas e lembranças, ou seja, a percepção que essas paisagens provocam e acabam por estimular o ecoturismo. Foram entrevistados 100 jovens (entre 18 e 25 anos) da Universidade Estadual de Santa Cruz (Ilhéus – BA). A amostragem foi definida por exaustão, sendo que inicialmente seriam entrevistados 60 jovens (1% do universo), mas, devido à disponibilidade, pode-se chegar ao número de 100 entrevistados. A escolha por jovens universitários se deveu ao fato de ser um público propenso à viagens de ecoturismo (incluindo nelas a prática de esportes radicais e contemplação da natureza) como constatado por Ruchmann (2003). Posteriormente será discutido se esta preferência segue uma tendência iniciada e imposta pelo mercado ou se trata de uma tendência natural do ser humano a preferir paisagens com elementos como água, montanhas, vegetação fasta e que aumenta conforme esse tipo de paisagem não faz parte de seu cotidiano. Por fim, levanta-se o questionamento a respeito de como essa tendência que será confirmada ou não pela pesquisa de campo preliminar e que tem suas raízes em duas vertentes acima mencionadas, pode ou não contribuir para a sensibilização dos turistas em relação à preservação dos espaços naturais. Esse questionamento parece fundamental já que apesar de ter em sua definição propostas preservacionistas, o ecoturismo se apresenta como uma prática de “venda” do meio para consumidores que não se contentam em contemplar o meio, querendo sim, mais horas de lazer e aventura. Tendências do turismo na pósmodernidade: os paradoxos. Como mencionado por Morin e Prigogine (1996), a pós-modernidade se caracteriza pelo imediatismo das ações acorridas devido à lógica dominante da rentabilidade a curto prazo, fruto das técnicas financeiras do mercado. Priorizando essas exigências imediatistas do mercado, os cidadãos não conseguem visualizar em que prazo suas necessidades serão atendidas. Muitas vezes prioriza-se o mercado, pois os investimentos em seus setores tem retorno a curto prazo, já investimentos sociais como na educação, são sentidos à longo prazo, exigindo muitas vezes manutenção constante. Com as medidas tomadas visando o imediato, o mercado se beneficia gerando crescimento da economia, no entanto, cidadãos são excluídos devido a fatores como a falta de emprego. O que ocorre, é que os benefícios da chamada pós-modernidade não vieram para todos e sim, apenas para os que dominam os mercados ou que deles podem participar. Se questões sociais, como emprego, são colocadas em segundo plano como citado por Morin e Prigogine (Op. Cit.) para os que são excluídos dos benefícios da pós-modernidade, como seria possível pensar em lazer como um fenômeno globalizado? No entanto, para autores como Peter Drucker e Domenico de Masi ( apud Dias, 2005), a sociedade do século XXI seria a sociedade do conhecimento e se caracterizaria por amplo acesso à informação e maior tempo livre disponível. Mais uma vez cabe questionar: até mesmo quem está inserido na sociedade da informação e tecnologia, acaba por possuir mais tem-
Fernanda Heraldo y Sandro Campos 211 PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, 5(2). 2007 ISSN 1695-7121 po livre para seu lazer? São inquestionáveis as facilidades que se encontra nos avanços da pósmodernidade, como internet, meios de transportes mais rápidos, aparelhos domésticos que poupam tempo. Mas, segundo Naisbitt (1999), aquilo que promete poupar o tempo das pessoas, acaba sempre por roubar mais tempo. Apesar das facilidades geradas pela tecnologia do consumidor, o uso do tempo não foi o beneficiário. As pessoas acabam, segundo o autor, por não perceber ao certo as escolhas que fazem, tendo a sensação que a vida é acionada pela tecnologia; e que talvez por isso cada vez mais almejam, como um sonho, a tranqüilidade obtida talvez em uma viagem. E há outro impasse: nas sociedades em que o tempo livre já é maio que o tempo de trabalho, as pessoas exercem atividades que efetivamente lhes divirtam e contribuam com seu desenvolvimento pessoal, como questionado por Camargo (1998)? O autor define as sociedades “escravas” da tecnologia como “Zonas Tecnologicamente Intoxicadas” e discute o que nelas é trabalho e o que virou lazer. Atualmente, nessas zonas, realizar tarefas simples como cozinhar, costurar, cultivar, tudo por si próprio, virou uma grande fonte de lazer para as pessoas saturadas pelas facilidades da alta tecnologia. As tecnologias, se por um lado, tiram o trabalho, também estão roubando o sentimento de satisfação das pessoas, que se entusiasmam quando podem fazer ou criar algo. Em ambos os casos, ou seja, para as sociedades que estão excluídas dos benefícios da pósmodernidade e, para aquelas que possuem (até em excesso) as facilidades advindas desse novo cenário, o lazer continua sendo um privilégio almejado. O lazer atualmente não é mais concebido como algo pecaminoso, nem o ócio como sinônimo de vadiagem ou descompromisso com a sociedade e consigo próprio. A própria palavra lazer em latim licere significa “ser permitido”. Atualmente a civilização inventou, como citado por Camargo ( Op. Cit.) , a cultura do lazer, mas não soube e não quis democratiza-la. As pessoas são incentivadas a toda hora a “se permitir”, pela mídia e outros meios, a ter mais horas de lazer, e isso nem sempre é possível ou é realizado seguindo essa moda sem grandes realizações pessoais. Às vezes viajar, se trata apenas de “carimbar o passaporte”, de puro exibicionismo, fazendo desaparecer o lúdico numa divisão entre o “eu-que-realiza” e o “euque-observa”. E, quase sempre, como descrito por Camargo (Id.) , o prazer do “euque-realiza” é sacrificado em favor do prazer futuro do “eu-que-observa”, que vai apenas relatar a façanha. Assim, o foco, às vezes se torna o status, o relato para o outro de se ter condições de poder ter estado e poder ter pagado estar em locais raros e caros. Atualmente se percebe que o lazer é uma necessidade para o ser humano, pois este é um animal complexo, que não se contenta apenas com o atendimento de necessidades como segurança, alimentação e moradia. Com o discurso da pósmodernidade que chamou a atenção para essa necessidade e também a reforçou e, devido à tendência da busca pelo status, tem-se o aumento das viagens como uma das formas de lazer mais praticadas atualmente. Segundo Ruschmann (2003), “a Organização Mundial do Turismo (OMT), estimava que o turismo, até o início do século XXI, teria um crescimento entre 4% e 5% ao ano, quantificando as chegadas internacionais no ano de 2000 entre 592 e 690 milhões de pessoas (OMT, 1990)”. Dentro desse cenário de crescimento das viagens, percebe-se também a tendência de crescimento de uma modalidade específica: a do ecoturismo. Ruschmann ( Op. Cit: 161. ), menciona que: “Com relação ao turismo mundial, observa-se hoje um aumento acentuado da procura por viagens que proporcionem contato com a natureza, tendência que vem ocorrendo a cerca de duas décadas[...]”. Já para Cruz (2003: 17), “Foi, fundamentalmente, na década de 1990 que modalidades de turismo relacionadas a espaços naturais cresceram em importância no conjunto dos segmentos das viagens turísticas”. Independente da discordância que se pode encontrar entre autores sobre quando efetivamente o ecoturismo se torna uma tendência, a sua perspectiva de crescimento é um consenso entre os autores e
212 Dos ecos do turismo aos ecos da paisagem ... PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, 5(2). 2007 ISSN 1695-7121 que por isso, merece discussão interdisciplinar e aprofundada a respeito das reais motivações, impactos e benefícios dessa modalidade de turismo. Ecoturismo: a moda que gera ou captura uma tendência? Depois da massificação de alguns destinos e “pacotes” de viagem, viabilizada a partir de fins do século passado pelo aprimoramento dos meios de transportes e pela conquista da disponibilidade de tempo e dinheiro pelos trabalhadores com as férias pagas, hoje, o turismo de massa, segundo Serrano e Brunhs (2000), passa por uma retração. Isso também foi preconizado por Cruz (2003: 17): “[...] o crescimento galopante das práticas de ecoturismo tem a ver com o fato de este ser um produto novo no mercado do turismo, se comparado com o “produto” turismo de massa”. Essa tendência vem se refletindo, ao menos na Europa e nos Estados Unidos, num recuo da demanda por pacotes prontos de um lado, e da procura cada vez maior por roteiros personalizados, de outro. Segundo Leony (2002: 121): “[...] o panorama das tendências faz com que suponhamos ser o ecoturismo ser o estilo de turismo do futuro, que sem dúvida tem crescido muito ultimamente, sendo temas de reuniões em várias regiões turísticas”. Dentro desse novo desejo, os destinos turísticos considerados “exóticos” e dirigidos a ambientes de grande valor paisagístico e ecológico ganham destaque. Atualmente, os principais destinos de ecoturismo no Brasil são: Brotas (SP), Fernando de Noronha (PE), Itacaré (BA), Lençóis Maranhenses (MA), Pantanal (MT), Chapada Diamantina (BA) e Chapada dos Veadeiros (GO) e Amazônia. Na Região Norte, pode-se vivenciar os fascínios da Floresta Amazônica, sendo a maior reserva biológica do mundo. Seus rios também conduzem a passeios ao interior da selva, onde hotéis proporcionam comodidade e segurança para o descobrimento a apreciação da fauna e flora da região. Na Região Nordeste, encontram-se belas praias mar de águas quentes e sol o ano inteiro. Algumas das praias mais requisitadas são as de Canoa Quebrada (Ceará), Genipabu com suas dunas (Rio Grande do Norte), Ponta do Seixas e Cabo Branco ( Paraíba), Porto de Galinhas e arquipélago de Fernando de Noronha ( Pernambuco), de Pratagy (Alagoas), Atalaia Velha (Sergipe), Porto Seguro (Bahia), entre muitas outras. A Região Centro-Oeste possui uma extensa diversidade, beleza e boa infraestrutura, desde o Pantanal matogrossense, até os parques da Chapada dos Guimarães e dos Veadeiros. No Pantanal, encontra-se um verdadeiro santuário ecológico, onde vivem diversas espécies de capivaras, serpentes, jacarés e aves. No rio Araguaia pode-se praticar a pesca encontrando uma rica variedade de peixes. A Região Sudeste possui na região de São Paulo, principalmente em seu litoral norte, belas praias. Nas cidades também podemos encontrar atrações ecológicas como o Jardim Botânico e a Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. No espírito Santo encontra-se praias de areias monazíticas de Guarapari. Na Região Sul, predomina o clima subtropical e a vegetação acompanha essa variação, fazendo com que as paisagens sejam diferentes com a do restante do país. Na linha do ecoturismo, Santa Catarina está entre os recantos mais explorados. As Cataratas do Iguaçu, também são um importante patrimônio da região, contanto com vasta rede de hospedagem. O ecoturismo também é praticado nos Parques Nacionais, que são uma das categorias de unidades de conservação existentes no Brasil. Assim, o segmento identificado genericamente como ecoturismo é o que apresenta maior índice de crescimento atualmente. Segundo Rocha (2002), “estimativas oficiais chamam atenção para o fato de atualmente 10% dos viajantes serem ecoturistas” (p. 162). O termo ecoturismo ainda não está definido por completo, sendo variada a aplicação desse termo dentro do universo turístico. Algumas definições encontradas: Segundo a Embratur: “[...] é um segmento da atividade turística que utiliza de forma sustentável o patrimônio natural e cultural, incentiva sua conservação e
Fernanda Heraldo y Sandro Campos 213 PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, 5(2). 2007 ISSN 1695-7121 busca a formatação de uma consciência ambientalista pela interpretação do ambiente, promovendo o bem – estar das populações”. Para os formadores do trade, segundo Serrano e Brunhs (2000): [...] é toda atividade turística realizada em área natural com o objetivo de observação e conhecimento da flora, fauna e dos aspectos cênicos, com ou sem sentido de aventura; prática de esportes e realização de pesquisas cientificas. Alguns autores mencionam que, além do ecoturismo ter surgido como uma alternativa ao turismo de massa, esse tipo de turismo tem início com os chamados visitantes alternativos, os primeiros a chegar nos locais denominados como “paradisíacos” e que, posteriormente, se tornam locais de ecoturismo. “[...] surgiram os hippies cuja filosofia de vida estava na contramão do processo desenvolvimentista e possuíam postura preservacionista; buscando sempre morar em lugares belos e primitivos, onde o sistema capitalista e sua burocracia ainda eram insipientes; essas pessoas foram muitas vezes pioneiros em ocupar locais verdadeiramente paradisíacos que, depois de descobertos pela sociedade consumista, perderam muitos dos seus encantos (LEONY, 2002: 119). Após essa descoberta pelos viajantes pioneiros, a mídia exerce a divulgação para o restante da sociedade, como observado por Leony ( Op. Cit : 120): “Aos poucos a sociedade tradicional percebendo o movimento delas passam a freqüentar o local, que depois é descoberto pela mídia atraindo um fluxo incontrolável de turistas. Os que lá chegaram primeiro retiram-se em busca de novas e remotas periferias, num processo contínuo de produção e reprodução do espaço, ficando o local mais vulnerável devido à chegada de visitantes ávidos em adquirir o status da viagem mais do que o próprio desfrute, alterando e destruindo sua originalidade”. Devido à condição que obteve como o “turismo da moda” pelo mercado turístico e pela mídia, o ecoturismo tem como muitos de seus praticantes, pessoas que buscam na verdade status por ter condições e tempo de visitar locais raros, tendência já mencionada anteriormente. Os empresários também perceberam a vantagem de utilizar o chamado “marketing verde” como forma de participar do segmento ecoturismo, veiculando uma imagem progressista e consciente do empresário perante seus clientes através de medidas ambientalmente saudáveis, como definido por Ruschmann (2003). Segundo Cruz, (2003) essa “moda” em torno dos ambientes naturais e do resgate da natureza, foi impulsionada também a partir de iniciativas públicas e privadas de proteção dos ecossistemas. Assim, mesmo não sendo considerado um turismo de massa , o ecoturismo está se tornando um turismo fruto da cultura de massa , pois é essa que escolhe as paisagens consideradas mais atrativas pelo turismo na atualidade. É a mídia, mais uma vez exercendo o papel na homogeneização de gostos e na disseminação de padrões de consumo homogeneizados. Dentro da moda do ecoturismo, podese definir tendências na sua prática e na oferta de seus produtos no mercado. Segundo a pesquisa em sites de operadoras de ecoturismo e da bibliografia da área pode-se enumerá-las em: 1-) Tendência de se ter uma arquitetura harmônica com o meio ambiente local: segundo Leony (2002), “observa-se a valorização crescente por destinos mais primitivos, com infra-estrutura mais rústica, original e integrada ao ambiente, aproveitando-se os materiais e as técnicas construtivas locais” (p.120). Segundo a autora, esse tipo de arquitetura, gera uma sensação agradável de primitivismo e de harmonia aos praticantes do ecoturismo, pois este traduz essa intervenção humana como mais avançadas pelo respeito à natureza. A pesquisa nos sites comprova essa tendência, pois os hotéis que levam no nome o prefixo “eco”, utilizaram em sua arquitetura materiais que não destoam da paisagem como madeira e cipós, e seus apartamentos são denominados “ eco-lodges ”. 2-) Tendência de proporcionar aos ecoturistas contemplação da natureza: já são numeroso os hotéis que possuem torres de observação do meio natural, onde é possível contemplar, aves, mamíferos e outras espécies. Esses hotéis, no Brasil, são encontrados principalmente na
214 Dos ecos do turismo aos ecos da paisagem ... PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, 5(2). 2007 ISSN 1695-7121 Amazônia e Pantanal. São dados aos hóspedes em alguns deles, um guia com as espécies que podem ser observadas no entorno do hotel, na torre de observação, ou nos passeios realizados. Também é indicado nesse guia o grau de freqüência com que essas espécies podem ser observadas. Para Serrano e Brunhs (2000), para que contato com a natureza seja verdadeiramente desprendida de qualquer interesse, o homem deverá, nessas viagens, contemplar a natureza com um olhar tranqüilo de quem não tem nada a lhe impor, assim, se sentirá unido a toda natureza e não possuirá a separação agressiva ou a solidão impassível que nasce de pesquisar homens e objetos com vontade de explorá-los e controlá-los. 3-) Tendência de proporcionar aos ecoturistas a interpretação do meio ambiente: a ferramenta IA (interpretação ambiental) utilizada em programas de educação ambiental, já faz parte do roteiro de atividades de hotéis de ecoturismo. Alguns deles exibem no próprio hotel vídeos sobre a fauna e flora na qual os turistas entrarão em contato. Esse tipo de interpretação é descrito por Delgrado (2000: 160), em artigo contido no livro “A educação pelas pedras”, como: “um meio de comunicação que utiliza todos os sentidos sensoriais do ser humano para facilitar o entendimento das relações homem-meio ambiente, procurando uma mudança de atitude em favor daquilo que é necessário preservar ou conservar para elevar a qualidade de vida da sociedade”. 4-) Tendência de roteiros ecoturísticos com atrativos não só naturais mas também culturais: são os chamados roteiros ecoculturais (definição dada por Pellegrini, 1993). Foi identificado na pesquisa dos sites de ecoturismo apresentações culturais dentro dos eco-hotéis, passeios que incluem visita à cachoeiras, matas e mas também à aldeias e comunidades. Isso se deve também à tendência atual de se valorizar a cultura local. 5-) Tendência de geração de benefícios sociais com o ecoturismo: segundo Barros (2000), o ecoturismo deve ser entendido como uma atividade que tem a obrigação de gerar benefícios para a comunidade local. O autor menciona que em alguns casos, a chegada de um cruzeiro é uma oportunidade para que a população local receba alimentos, roupas e outras coisas, as quais tem dificuldade de acesso. 6-) Tendência de se ter contato com a natureza, mas com o conforto da cidade: Alguns autores confirmam essa tendência: “[...] boa parte das pessoas que praticam o chamado turismo de natureza não está disposta a dormir em barracas ou alojamentos precários, o que significa que infra-estruturas de hospedagem também são requeridas por praticantes das chamadas modalidades alternativas de turismo” (Cruz, 2003: 18). “[...] A idéia de “volta” à natureza, de considerar o campo (ou a praia) bom em relação a cidade é destruída com a idéia do progresso, de que se querer a mesma vida da cidade no campo ou na praia. Se querer a mesma infraestrutura quando se busca o contato com o chão, com o sol, ou com a neve (Rodrigues, 2002: 62) 7-) Tendência em se praticar esportes de aventura em viagens de ecoturismo: como definido por Cruz (2003: 17), as atividades de ecoturismo atualmente “ [...] abarcam as mais diversas atividades como práticas de esportes de natureza, como rafting (escalada de picos, montanhas ou outros acidentes geográficos com equipamentos especiais), o tracking (caminhadas por trilhas em áreas de natureza selvagem) safáris fotográficos, entre outras atividades”. Esses esportes, segundo Serrano e Bruhns (2000: 44): “[...] através da experiência sensível por eles provocada, demonstram um modo de conhecimento relacionado a determinadas emoções, fundidas com os sentidos corporais, no contato com a natureza. Uma experiência de contemplação, filtrada por valores e concepções de vida pode emergir, bem como um sentimento de união pelo pertencimento a um cosmo comum e uma fusão, através das “relações de composição” já comentadas, fundamentadas numa ética do respeito e da não-dominação. Este aprendizado da experimentação, em que está presente certa sensibilização, revela um modo de conhecer especial, ou seja, o conhecimento do ambiente decodificado via informações do corpo. Daí a
Fernanda Heraldo y Sandro Campos 215 PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, 5(2). 2007 ISSN 1695-7121 oportunidade para uma educação ambiental traçar propostas a partir dos sentidos e sentimentos provocados por essas práticas e do que as mesmas acarretam” 8-) Tendência a busca por paisagens naturais aliada com a busca espiritual: a natureza e a própria “fuga” do cotidiano de uma viagem de ecoturismo, faz com que o segmento de mercado que busca reflexões e meditação seja atendido também. Segundo a pesquisa de sites , já são numerosos eco-hotéis místicos e espirituais, principalmente com filosofia oriental. Propoem trilhas como: “O Caminho Místico é uma trilha única no Brasil e sob a correta orientação dos guias do Canto da Floresta é possível experimentar momentos de grande paz e harmonia em grupo ou individualmente. Os 7 totens com cristais incrustados completam a trilha reenergizando você por inteiro” (site do hotel Canto da Floresta). Nesse artigo foram denominadas como tendências os enumerados acima pois, alguns deles, somente muito recentemente foram introduzidos dentro da prática do ecoturismo. Como citado anteriormente, essa modalidade de turismo foi formatada pelo mercado turístico aproveitando a onda de preocupações com o meio ambiente, também como alternativa para o turismo de massa e, seguindo a filosofia de resgate do contato com a natureza, iniciada pelo movimento hippie . Na sua prática, no entanto, o ecoturismo muitas vezes não se diferencia dos impactos do turismo de massa, não gera o contato e a contemplação da natureza e o discurso “verde” não passa de marketing. As tendências do ecoturismo se apresentam em grande parte como o amadurecimento dessa prática, o que se pode notar principalmente nas tendências 2, 3 e 5. Conforme Bould-Bovy ( apud. Cruz, 2003), o turismo exerce, freqüentemente, tanto influência benéficas quanto maléficas sobre os ambientes, afetando os recursos de formas contraditórias: por um lado ele degrada irreversivelmente as maiores atrações que o justificam e o atraíram, mas por outro ele protege o meio uma vez que estimula o interesse da população e autoridades locais para a apreciação do valor do ambiente, como defendido pelo autor. Com essas novas tendências de amadurecimento, o ecoturismo poderia ser essa segunda face do turismo, gerando: “[...] novas formas de enxergar a vida, [...] novos estilos de turismo, mais personalizados e diferenciados, onde a questão da conservação ambiental passa a ser imprescindível, para a própria sustentação da atividade” (Leony, 2002: 120). Essas reflexões perecem ser fundamentais, pois o ecoturismo mesmo sendo uma moda atual, na verdade soube capturar a vertente que indica tendências naturais do ser humano referentes à sua necessidade por certas paisagens, como defendido por autores como Tuan (1980), e que por isso tende a continuar crescendo como indicam as previsões de alguns autores acima citados. Essa é uma vertente que também explicaria o início e a continuidade desse tipo de turismo em meios naturais. Assim, para se entender a fundo o que está por trás das atitudes dos seguidores dessa tendência, e porque cada vez mais essa tem adeptos, deve-se estudar a percepção que se tem do maior atrativo desse turismo: a paisagem. As dimensões da paisagem: da percepção à motivação. “O imaginário é uma idéia que oscila nas fronteiras do devaneio, transitando entre a realidade e a fantasia. [...] O conteúdo simbólico das paisagens é utilizado para a produção de mitos a serem vendidos” (Conti). A história do turismo no mundo mostra que montanhas e praias, campos e áreas densamente povoadas, entre outros, têm se alterado como preferência nos fluxos turísticos dominantes. Roger Bastide ( apud Conti, 2002: 25) defende “desde a década de 40 que no plano sociológico, os limites entre o que é chamado de realidade e o imaginário, definindo este como “zona intermediária entre o consciente e o inconsciente”. Segundo Conti (Op. Cit.) , o meio natural não inclui somente o clima, o relevo, as atividades econômicas ou o fato urbano, mas também os sentimentos. A percepção e os sentimentos vinculados à paisagens na qual o ecoturismo é praticado passariam por essa zona intermediária pois, a percepção segundo Santos (1997) é sempre um processo seletivo
216 Dos ecos do turismo aos ecos da paisagem ... PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, 5(2). 2007 ISSN 1695-7121 de apreensão. Para o autor, “Se a realidade é apenas uma, cada pessoa a vê de forma diferenciada; dessa forma, a visão pelo homem das coisas materiais é sempre deformada”. O diálogo entre corpo e natureza é muito importante, pois a experiência corporal é a mais direta e imediata e, por ser o corpo, o primeiro referencial do homem no mundo. No entanto, esse diálogo e a percepção das pessoas pode ser influenciado pela cultura em que o indivíduo vive que encontra no corpo o receptáculo de suas informações, criando novos sons, novos cheiros, novas visões e principalmente novos universos e sentimentos. Assim, a percepção do visitante que entra em contato com a natureza varia conforme a sua cultura. Para muitos um campo aberto sem fronteiras pode ser percebido com o significado de liberdade e oportunidade, e para outros, um espaço de insegurança e desespero. O mesmo acontece com uma floresta que pode ser interpretada como um ambiente aberto e ligado ao resto do mundo ou ser percebida como um lugar fechado e perigoso. Tuan (1980: 107), define topofilia como “um neologismo, útil quando pode ser definida em sentido amplo, incluindo todos os laços afetivos dos seres humanos com o meio ambiente material” Ou seja, são os sentimentos que se vinculam às paisagens pelas pessoas. No que se refere à paisagem de montanhas, por exemplo, Tuan ( Op. Cit. ), afirma que por ser uma aspecto da natureza que desafia o controle humano, a tendência do homem tem sido de responder emocionalmente à ela tratando em uma época como sublime e em outras como feio e desagradável. Assim, o fato de que o modo como a natureza é vista variar conforme a cultura do indivíduo, fez com que através dos tempos essa visão variasse conforme as atividades do homem da época, da sua religião, de seu conhecimento cientifico da natureza. Segundo Arbex (1996), vive-se atualmente em uma época em que foram significativamente alterados, todos os limites entre natureza e cultura. As pessoas já se acostumaram a acreditar que a ciência pode tudo. A cultura invadiu a natureza, capturou-a e a transforma permanentemente. Uma das conseqüências mais graves disso é o desencanto em face à natureza. Ao se entrar em contato com uma paisagem natural atualmente, não se tem mais a sensação de mistério. Outro autor que reflete sobre a pós-modernidade, Frederic Jameson (1996: 13), e as implicações de como esse contexto influencia na percepção que se tem do mundo, também observa que: “O pós-modernismo é o que se tem quando o processo de modernização está completo e a natureza se foi para sempre. É um mundo mais completamente humano do que o anterior, mas é um mundo no qual a “cultura” se tornou uma verdadeira “segunda natureza”. Tuan (1980), apesar de afirmar que a percepção das pessoas frente ao meio ambiente muda conforme a cultura da época (como ocorreu na pós-modernidade), arrisca afirmar certos sentimento vinculados a certas paisagens e que pouco são influenciados pelo contexto cultural. Em relação à paisagem de praia, Tuan (Op.Cit.) afirma que é um meio ambiente de atração permanente para o homem. Essa atratividade explica-se entre outras coisas por sua forma que teria uma dupla atração: por um lado, as reentrâncias da praia sugeririam segurança e por outro, o horizonte aberto para o mar, aventura. A paisagem de beira rio é, segundo Tuan (Id.) , adorada por algumas culturas por estas dependerem da água para o plantio e uso doméstico e que, por isso, também a relacionam com o sagrado. A paisagem de vale, para o autor atrai os seres humanos por razões ligadas à sobrevivência, pois promete uma subsistência fácil por ser um nicho ecológico altamente diversificado. Já a paisagem de uma ilha, mesmo não tendo essa diversidade, nem tendo grande significação na evolução humana, atrai o homem pela imaginação que provoca. A paisagem de campo, segundo Tuan (Id.) , teria um sentido romântico, pois nada tem a ver com qualquer compreensão real da natureza. Essa paisagem também está envolta em melancolia, pois é associada com a idéia de uma indolência tranqüila. Esse sentimento começou quando foram construídas as grandes cidades e a pressão da vida urbana tornou atrativa a paz rural. Ainda segundo Tuan (1983) o prazer
Fernanda Heraldo y Sandro Campos 217 PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, 5(2). 2007 ISSN 1695-7121 visual da natureza variaria em tipo e intensidade, o autor associa a prática do turismo com uma efemeridade da contemplação ao dizer que alguns dos atuais circuitos turísticos parecem estar motivados pelo desejo de colecionar etiquetas e fotografias. Segundo o autor o turismo a despeito de sua importância social e econômica não seria a ferramenta ideal para unir o homem à natureza pela fugacidade da fruição da paisagem. Tuan ( Op.Cit ) afirma também que o contato propiciado pelo turismo entre homem e natureza é problemático no que diz respeito à construção de uma ligação forte entre os dois. Para o autor a prática de certos esportes na natureza, como o alpinismo, através do turismo, ocasionam um contato violento entre homem e natureza, quando o adequado seria um envolvimento suave e inconsciente. A despeito de todas essa afirmações do autor a respeito do turismo, pode-se sugerir que a busca do ser humano por paisagens naturais e, especificamente por certo tipos de paisagem como rios, montanhas, praias e ilhas, através do turismo ou não, pode ser explicada pela necessidade intrínseca de uma maior ligação com a natureza. A respeito da questão da prática de esportes na natureza e o tipo de contato que ela proporciona mencionado por Tuan ( Id ) pode-se utilizar uma proposição levantada por Camargo (1998) para afirmar a necessidade real do homem pela aventura como também motivadora do ecoturismo e da pratica de esportes na natureza. Segundo Camargo ( Op.Cit. ) a aventura é uma categoria ou impulsão primária do lúdico. Essa categoria é igual à descoberta, a revelação de um mistério. Por exemplo, nada recompensa mais o viajante do que o belo cenário que repentinamente se lhe descortina. A própria viagem é a síntese dessa busca de aventura: um novo lugar para se conhecer, novos costumes, novas formas de se alimentar, de circular nas cidades, novos tipo de pessoas, novas maneiras de administrar o cotidiano. Dentro dos chamados esportes de aventura praticados no ecoturismo, pode-se descobrir outras categorias ou impulsões primárias do lúdico humano como a competição. A competição não significa necessariamente disputa com o outro. Como citado por Camargo (Id.) pode ser uma disputa consigo mesmo: conseguir ser melhor do que a última vez. A vertigem também é outra categoria presente. Ao contrário da competição, que exige controle e disciplina, na vertigem se exercita a capacidade de se deixar levar, de perder o controle e correr riscos em segurança. A última categoria presente nos esportes de aventura pode-se dizer que é a fantasia. Ela está presente na expectativa da viagem onde a pessoa devaneia sobre o que irá encontrar. O ecólogo americano Edward O. Wilson (1993) propôs também a sua “hipótese da biofilia”. “Biofilia” do grego bios , vida e philia , amor, afeição – significa literalmente “amor pela vida”. Edward Wilson acredita que os seres humanos têm uma ligação emocional inata com outros organismos vivos e com a natureza. Algo semelhante à topofilia , mas no sentido biológico e não geográfico. A hipótese levantada no termo sugere que essa ligação emocional tornou-se hereditária, pois 99% da história da humanidade não se desenvolveu nas cidades, mas em convivência íntima com a natureza. Como todo comportamento humano hereditário, isso não significa que a influência de outros seres humanos e da própria educação não possam modificar essa “biofilia”. No entanto, justamente por ser hereditária, “a biofilia” seria mantida e transmitida de geração para geração. Evidências disso são as pessoas ricas que constroem em volta de suas casas jardins babilônicos, os condomínios que fazem propaganda mostrando seus prédios situados dentro de recintos semelhantes a grandes parques, o grande número de crianças e adultos que visitam jardins zoológicos e jardins botânicos. Essas três vertentes, topofilia, categorias do lúdico e biofilia , poderiam explicar, em parte, a preferências das pessoas por certos destinos; em contrapartida à explicação de baseada no modismo do ecoturismo motivado pela mídia e pelo mercado. Paisagens: o porque das escolhas. “Somente os homens que crêem apaixonadamente nos valores e põem em