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Os jogos das crianças nos recreios das escolas do 1º ciclo do ensino básico do Norte de Portugal

Pereira, Vânia Sofía de Sousa; Rodríguez Fernández, José Eugenio; Pereira, Beatriz; Condessa, Isabel

Abstract

Este estudo teve como objetivo identificar os jogos realizados e preferidos nos recreios das escolas do 1º ciclo, fazendo a diferenciação entre género e ano de escolaridade. Foi aplicado um questionário em duas escolas do 1º ciclo do ensino básico do norte de Portugal. A amostra foi constituída por 317 alunos dos 4 anos de escolaridade, dos quais 167 são rapazes e 150 raparigas. Verificamos que os jogos de “correr” e “caçadinhas” são os que se realizam com mais frequência, mas os rapazes também gostam muito de “futebol” e as raparigas de “conversar”. O estudo confirma a pouca diversificação nos jogos realizados pelos alunos e, de acordo com os resultados, é necessário o enriquecimento das atividades lúdicas desenvolvidas pelas crianças utilizando novas intervenções lúdico-pedagógicas ou novos materiais no espaço de recreio

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ARTIGOS ORIGINAIS Movimento, Porto Alegre, v. 24, n. 3, p. 859-874, jul./set. de 2018. OS JOGOS DAS CRIANÇAS NOS RECREIOS DAS ESCOLAS DO 1º CICLO DO ENSINO BÁSICO DO NORTE DE PORTUGAL CHILDREN’S GAMES DURING SCHOOL RECESS IN THE FIRST CYCLE OF BASIC EDUCATION IN NORTHERN PORTUGAL LOS JUEGOS DE LOS NIÑOS EN LOS RECREOS DE LAS ESCUELAS DEL PRIMER CICLO DE LA ENSEÑANZA BÁSICA DEL NORTE DE PORTUGAL Vânia Sofía Pereira*, José Eugenio Rodríguez Fernández**, Beatriz Pereira*, Isabel Condessa*** Licence Creative Commom Resumo: Este estudo teve como objetivo identificar os jogos realizados e preferidos nos recreios das escolas do 1º ciclo, fazendo a diferenciação entre género e ano de escolaridade. Foi aplicado um questionário em duas escolas do 1º ciclo do ensino básico do norte de Portugal. A amostra foi constituída por 317 alunos dos 4 anos de escolaridade, dos quais 167 são rapazes e 150 raparigas. Verificamos que os jogos de “correr” e “caçadinhas” são os que se realizam com mais frequência, mas os rapazes também gostam muito de “futebol” e as raparigas de “conversar”. O estudo confirma a pouca diversificação nos jogos realizados pelos alunos e, de acordo com os resultados, é necessário o enriquecimento das atividades lúdicas desenvolvidas pelas crianças utilizando novas intervenções lúdico-pedagógicas ou novos materiais no espaço de recreio. Abstract: This study sought to identify the games played and preferred by children during school recess in the so-called first cycle, breaking that information down by gender and school year. A questionnaire was applied in two basic education schools in northern Portugal. The sample included 317 students from the four years in that stage – 167 boys and 150 girls. It found that “running” and “chasing” are the most frequent, even though boys prefer football while girls prefer talking. The study confirms low diversification in the games played by children and, according to its findings, children’s playful activities must be enriched by using new playful-pedagogic interventions or new materials during recess. Resumen: Este estudio tuvo como objetivo identificar los juegos realizados y preferidos por los niños en los recreos de las escuelas de primer ciclo, estableciendo una diferenciación entre el género y el año de escolaridad. Se aplicó un cuestionario en dos escuelas de enseñanza básica en Braga, norte de Portugal. La muestra estuvo formada por 317 alumnos de los cuatro años de escolaridad que dura la etapa, de los cuales 167 son niños y 150 son niñas. Se pudo comprobar que los juegos de “correr” y de “pillar” son los que se realizan con más frecuencia, aunque a los niños les gusta también mucho el fútbol y, a las niñas, conversar unas con otras. El estudio confirma la poca diversificación de los juegos realizados por el alumnado, haciéndose necesario un enriquecimiento de las actividades lúdicas desarrolladas por los niños, utilizando nuevas intervenciones lúdicopedagógicas o nuevos materiales para emplear en el espacio de recreo. Palavras chave: Jogos e brinquedos. Recreação. Criança. Ensino fundamental. *Universidade do Minho. Braga. Portugal. E-mail: [email protected]; [email protected] **Universidade de Santiago de Compostela. Santiago de Compostela. España. E-mail: [email protected] ***Universidade dos Açores. Açores, Portugal. E-mail: [email protected] Recebido em: 07-09-2017 Aprovado em: 02-07-2018 DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.76335 Keywords: Play and games. Recreation. Children. Education, primary. Palabras clave: Juegos y juguetes. Recreación. Niño. Educación primaria. Vânia Sofía Pereira et al. 860 Movimento, Porto Alegre, v. 24, n. 3, p. 859-874, jul./set. de 2018. 1 INTRODUÇÃO Nos recreios as crianças realizam os seus jogos de forma livre e as atividades que realizam potenciam a atividade física e a aquisição de estilos de vida saudáveis, tal como as aulas de Educação Física. Estes momentos são uma boa oportunidade de aprendizagem e desenvolvimento das habilidades motoras e outros jogos livres que providencian benefícios ao nível emocional, criativo e social. É nesse espaço, não estruturado e com pouca intervenção dos adultos, que as crianças expandem a sua criatividade, conhecem os seus limites e aprendem a resolver os seus problemas em interação com os outros e com o ambiente que as rodeia. A atividade lúdica e o jogo podem dar nesta fase um grande contributo nesse sentido (NETO, 2001). São vários os autores que defendem que os espaços adequados e bem organizados na escola podem contribuir para o pleno desenvolvimento da criança, nomeadamente ao nível do seu desenvolvimento físico-motor. Isto é, as condições do espaço físico envolvente e a forma como este está organizado podem potenciar as aprendizagens motoras da criança através dos jogos que estes espaços estimulam e permitem realizar (GALLAHUE, 2005; KRITCHEVSKY; PRESCOTT, 1977; METZLER, 2005). Os espaços de recreio devem permitir à criança o desenvolvimento adequado dos seus jogos, possibilitar-lhes uma escolha variada, devem ser convidativos à sua participação e ainda devem facilitar o seu desenvolvimento físico, social, emocional e cognitivo (WALSH, 2008; MURRAY et al., 2013). Walsh (2008) defende ainda que todos os espaços ao ar livre podem ser verdadeiros espaços de aprendizagem tão importantes como as salas de aula, principalmente quando esses espaços exteriores permitem o contacto com a natureza, que pode desempenhar um importante papel em qualquer espaço de recreio, independentemente, do seu tamanho ou configuração. Desde bem cedo, os pais e professores reforçam certos tipos de atividades lúdicas tidas como desejáveis, criando condições para que elas se reproduzam (oferta de determinados brinquedos, a forma como interagem com as crianças, etc.), e julgam outras como inusitadas, tecendo, muitas vezes, comentários desencorajadores. Assim se vão formando os designados estereótipos de papéis de género, isto é, o que raparigas e rapazes devem “fazer” (AMÂNCIO, 1994). Desta forma, as práticas sociais de raparigas e rapazes são diferentes, ou seja, cada um dos sexos tenderá a ter comportamentos e atitudes, consoante as expectativas sociais (PITCHER; SCHULTZ, 1983). As qualidades femininas e masculinas, os papéis atribuídos a cada género e os comportamentos tradicionalmente associados mais às mulheres ou aos homens são conceitos extremamente ligados às culturas e tradições de cada povo, ou seja o género é uma construção social (ROHRMANN; EMILSEN, 2015). A cultura escolar molda e reproduz valores, mesmo quando rapazes ou raparigas se mostram disponíveis para participar em jogos designados como sendo típicos do sexo oposto, são os próprios intervenientes a reproduzir os valores existentes na sociedade e na cultura em que estão inseridos. Em vez de assistirmos a uma construção de valores no recreio escolar, este tem servido para a manutenção dos estereótipos de género. Salientando que a cultura escolar favorece a separação entre géneros (MOURA et al., 2012). Movimento, Porto Alegre, v. 24, n. 3, p. 859-874, jul./set. de 2018. Os jogos das crianças nos recreios das escolas do 1º ciclo do ensino básico do norte de Portugal 861 O recreio escolar condiciona as opções das raparigas e valoriza mais as atividades preferidas pelos rapazes, sendo esta uma possível causa para uma maior prática de atividades físicas dos rapazes do que das raparigas nesse local. Os espaços de recreio estão organizados e foram pensados mais na perspetiva das atividades realizadas pelos rapazes do que nas das raparigas, condicionando a ação e as interações destas no recreio (RIDGERS et al., 2011). Pawlowski et al. (2014) defendem mesmo a criação de zonas exteriores de recreio adaptadas para rapazes e para raparigas. A influência biológica é apontada, ainda, como explicação para as diferenças entre rapazes e raparigas, ao nível das atividades realizadas. Daí os rapazes participarem mais em atividades físicas vigorosas, tendo, assim, um comportamento mais ativo que as raparigas (SUTTON-SMITH, 1981). Não podemos ignorar, contudo, que se por um lado temos a dimensão biológica, por outro lado temos as construções sociais e históricas que foram produzidas sobre as características biológicas (MOURA et al., 2012). Em relação às diferenças entre género no que se refere aos jogos praticados nos recreios, o estudo de Harten, Olds e Dollman (2008) aponta para a existência de relação entre o jogo livre, as habilidades motoras e o espaço de jogo disponível nos rapazes, sugerindo que estes são mais ativos em espaços destinados a jogos desportivos ou em espaços amplos, referindo ainda que os rapazes jogam em espaços maiores, enquanto as raparigas jogam em espaços menores. Os mesmos autores caracterizam o jogo dos rapazes como sendo mais competitivo e agressivo, e o das raparigas como mais cooperativo, e ainda assinalam que os rapazes excluem frequentemente dos seus jogos os elementos que apresentam fraco desempenho motor, enquanto as raparigas tentam atribuir papéis a todos os que querem participar nos seus jogos. É complementado por Lever (1978) que as raparigas conversam com os amigos mais frequentemente do que os rapazes e que se envolvem em jogos competitivos com pouca frequência. Os jogos dos rapazes tendem a ser mais desportivos e os das raparigas têm tendência para ser mais de lazer e mais sedentários (PFISTER, 1993). No sentido de realçar os extremos da estereotipia entre género, Pomar e Neto (2000) afirmam que os jogos desportivos coletivos, trepar árvores e polícias e ladrões são predominantemente masculinos, enquanto a macaca, o elástico, os batimentos ritmados de mãos e o saltar à corda são predominantemente femininos. Os objetivos do presente estudo são: • Identificar os jogos realizados nos recreios das escolas do 1º ciclo; • Verificar quais são os jogos preferidos pelas crianças no recreio; • Averiguar as diferenças entre género e ano de escolaridade relativamente aos jogos realizados e preferidos no recreio. 2 METODOLOGIA 2.1 Concepção Foi realizado um estudo quantitativo e descritivo-transversal (BISQUERRA, 2004; DEMO, 2005; TUCKMAN, 2012), metodologia utilizada para observar o que acontece com Vânia Sofía Pereira et al. 862 Movimento, Porto Alegre, v. 24, n. 3, p. 859-874, jul./set. de 2018. o fenómeno de estudo em condições naturais, na realidade e, no nosso caso, porque é um tipo de pesquisa que nos permite identificar o mundo das crianças relativamente ao jogo livre, atividades não dirigidas que realizam no recreio da escola. 2.2 Amostra Participaram no estudo 317 alunos do 1º ao 4º ano de escolaridade de duas escolas do 1º ciclo do ensino básico do norte de Portugal, dos quais 167 rapazes e 150 raparigas, com idades entre os 6 e os 10 anos, sendo a média de idades de 7,45±1.14. 2.3 Instrumento Foi aplicado o questionário (BAPTISTA, 2016; CEA, 2014; MAGALHÃES; HILL, 2016) como ferramenta principal para a coleta de dados, um documento que recolhe de forma organizada os indicadores das variáveis envolvidas no objetivo da pesquisa (CASAS; REPULLO; DONADO, 2003). Após a identificação de dados básicos dos participantes (idade, sexo, ano de escolaridade etc.) o questionário foi distribuído em dois grandes blocos de informação: a) Recreio Escolar. É composto por quatro questões sobre as perspectivas das crianças em relação ao recreio da escola, a sua caracterização em termos de espaços e materiais existentes e ainda o gosto pelo recreio e a duração do tempo de recreio. Este grupo de questões foi essencial para o estudo, uma vez que permitiu saber que tipo de espaços e materiais as crianças mais utilizam nos recreios, pois estes podem estar associadas ao tipo de actividades que estas realizam durante esse período de tempo. b) Práticas realizadas e preferidas. Sobre as atividades realizadas no recreio, em que são dadas várias opções. Estas atividades foram selecionadas a partir de um estudo sobre práticas preferidas e realizadas (PEREIRA; NETO, 1997) e também a partir da análise de registos diários de atividades aplicados durante uma semana a duas turmas (incluindo os quatro níveis de escolaridade do 1º ciclo) de duas escolas de ensino básico do norte de Portugal. A partir do cruzamento dos resultados obtidos com a revisão de literatura, as atividades foram sendo incluídas em categorias já existentes (PEREIRA; NETO, 1997) para posteriormente tornarem mais simples a análise dos dados que foram obtidos quando da aplicação do questionário. Ainda são feitas neste grupo duas questões sobre as atividades preferidas. 2.4 Procedimento Foi aplicado o questionário sobre práticas e interações nos recreios do 1º ciclo do ensino básico, mas antes foi solicitada autorização para a realização do estudo (Monitorização de Inquéritos em Meio Escolar); também para os diretores das escolas nas que se realizou o trabalho e para os pais dos alunos que participaram no estudo. Foram establecidos os seguintes esclarecimentos sobre a aplicação do questionário: Movimento, Porto Alegre, v. 24, n. 3, p. 859-874, jul./set. de 2018. Os jogos das crianças nos recreios das escolas do 1º ciclo do ensino básico do norte de Portugal 863 - Explicação para os alunos das finalidades da pesquisa. - Alunos de 1º e 2º anos. O questionário foi projetado e cada questão foi lida às crianças deste ano de escolaridade. Aguardou-se que todas respondessem a cada questão para passar à seguinte e, em caso de dúvida, um dos investigadores e a professora titular de turma ajudavan no que fosse necessário. O tempo de preenchimento foi de 35 a 45 minutos (1º ano) e de 30 a 40 minutos (2º ano). - Alunos de 3º e 4º anos. O questionário foi entregue a cada aluno, que o preencheu em silêncio. Quando surgia uma dúvida, a criança levantava a mão e era ajudada pela professora titular de turma ou pelo investigador deste estudo. Estes alunos preencheram os questionários rapidamente (20 a 30 minutos) e raramente surgiram dúvidas. A informação recolhida foi sujeita a tratamento e análise estatística descritiva através da frequência e da percentagem e a estatística inferencial através do teste do Qui-Quadrado para verificar a existência de diferenças estatisticamente significativas entre género e ano de escolaridade. Para este tratamento estatístico foi utilizado o software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), Windows (versão 19). Das respostas das crianças emergiram as categorias apresentadas ao longo da investigação nas correspondentes tabelas. 3 RESULTADOS 3.1 Jogos realizados e preferidos no recreio atendendo ao género Dos jogos realizados pelos alunos no recreio escolar, atendendo ao género e cujos resultados apresentamos na Tabela 1, salientamos o facto de o “pião” não poder ser utilizado pelos alunos no recreio escolar, simplesmente, por ser proibido na escola. Alguns jogos, apesar de realizados por poucos alunos, apresentam diferenças significativas (p≤0,001) quanto ao género, tal como “saltar ao elástico” que é um jogo realizado sobretudo pelas raparigas (12,0%), sendo que só um rapaz o realiza (0,6%); jogar aos “berlindes ou com caricas” é mais praticado pelos rapazes (8,4%) do que pelas raparigas (2,0%), também com diferenças significativas (p≤0,05); assim como o jogo das “damas” e os “puzzles”, que encontram mais adeptos masculinos (8,4% e 6,0%) do que femininos (2,0% e 1,3%), havendo também diferenças significativas em ambos os jogos quanto ao género (p≤0,05). Ainda em relação aos jogos apresentados no Quadro 1, salientamos aqueles que são mais realizados pelos alunos, atendendo às diferenças entre género. Assim, apresentamos inicialmente, por ordem decrescente, os seis jogos mais realizados pelas raparigas: “correr”, “conversar”, “caçadinhas”, “saltar à corda”, “escondidas” e “macaca”; quanto aos rapazes, os seis jogos mais realizados são: “correr”, “futebol”, “caçadinhas”, “escondidas”, “conversar” e “lutas”. O jogo mais realizado tanto por rapazes como por raparigas é “correr”, ainda que uma maior percentagem de rapazes (82,6%) do que de raparigas (78,7%) o realize. Vânia Sofía Pereira et al. 864 Movimento, Porto Alegre, v. 24, n. 3, p. 859-874, jul./set. de 2018. Tabela 1 - Jogos realizados no recreio: diferenças entre género Jogos Realizados Rapaz Rapariga Total (n = 317) p Não Sim Não Sim Sim Pião n 167 0 150 0 0 NS %100,0 0,0 100,0 0,0 0,0 Saltar ao elástico n 166 1 132 18 19 ***0,000 %99,4 0,6 88,0 12,0 6,0 Macaca n 137 30 82 68 98 ***0,000 %82,0 18,0 54,7 45,3 30,9 Saltar à corda n 139 28 57 93 121 ***0,000 %83,2 16,8 38,0 62,0 38,2 Correr n 29 138 32 118 256 NS %17,4 82,6 21,3 78,7 80,8 Escondidas n 60 107 66 84 191 NS %35,9 64,1 44,0 56,0 60,3 Caçadinhas n 55 112 54 96 208 NS %32,9 67,1 36,0 64,0 65,6 Futebol n 42 125 125 25 150 ***0,000 %25,1 74,9 83,3 16,7 47,3 Dança n 157 10 99 51 61 ***0,000 %94,0 6,0 66,0 34,0 19,2 Ouvir música n 151 16 118 32 48 **0,004 %90,4 9,6 78,7 21,3 15,1 Conversar n 76 91 43 107 198 **0,002 %45,5 54,5 28,7 71,3 62,5 Desenhar n 147 20 103 47 67 ***0,000 %88,0 12,0 68,7 31,3 21,1 Loto n 166 1 148 2 3 NS %99,4 0,6 98,7 1,3 0,9 Berlindes, caricas n 153 14 147 3 17 *0,012 %91,6 8,4 98,0 2,0 5,4 Lutas n 97 70 143 7 77 ***0,000 %58,1 41,9 95,3 4,7 24,3 Faz de conta n 146 21 88 62 83 ***0,000 %87,4 12,6 58,7 41,3 26,2 Damas n 153 14 147 3 17 *0,012 %91,6 8,4 98,0 2,0 5,4 Cartas n 139 28 141 9 37 **0,003 %83,2 16,8 94,0 6,0 11,7 Puzzles n 157 10 148 2 12 *0,038 %94,0 6,0 98,7 1,3 3,8 Jogos eletrónicos n 129 38 141 9 47 ***0,000 %77,2 22,8 94,0 6,0 14,8 Outros jogos n 114 53 117 33 86 ***0,001 %68,2 31,8 78,0 22,0 27,1 Legenda: ***p≤0,001; **p≤0,01; *p≤0,05; NS – não significativo Fonte: elaboração própria Movimento, Porto Alegre, v. 24, n. 3, p. 859-874, jul./set. de 2018. Os jogos das crianças nos recreios das escolas do 1º ciclo do ensino básico do norte de Portugal 865 Relativamente aos jogos que os alunos preferem realizar no recreio atendendo ao género, apresentamos os resultados na Tabela 2. Os alunos puderam selecionar dois jogos preferidos, sendo que em primeiro colocaram o que mais preferem realizar (atividade preferida 1) e de seguida o segundo jogo preferido (atividade preferida 2). Tabela 2 – Jogos preferidos: diferenças entre género Jogos Jogo preferido 1 (JP1) Jogo preferido 2 (JP2) JP1+JP2 Género Total (n = 317) pGénero Total (n = 317) p Género Total ♂ ♀ ♂ ♀ ♂ ♀ Futebol n 73 8 81 ***0,000 20 7 27 ***0,000 93 15 %43,7 5,3 25,6 12,0 4,7 8,5 55,7 10,0 Saltar à corda n 0 44 44 ***0,000 5 10 15 NS 5 54 %0,0 29,3 13,9 3,0 6,7 4,7 3,0 36,0 Caçadinhas n 17 18 34 NS 24 21 45 NS 41 39 %10,2 12,0 11,0 14,4 14,0 14,2 24,6 26,0 Correr n 16 13 29 NS 16 15 31 NS 32 28 %9,6 8,7 9,1 9,6 10,0 9,8 19,2 18,7 Dança n 0 11 11 ***0,000 0 7 7 **0,005 0 18 %0,0 7,3 3,5 0,0 4,7 2,2 0,0 12,0 Escondidas n 7 5 12 NS 24 13 37 NS 31 18 %4,2 3,3 3,8 14,4 8,7 11,7 28,6 12,0 Faz de conta n 6 6 12 NS 5 6 11 NS 11 12 %3,6 4,0 3,8 3,0 4,0 3,5 9,0 8,0 Conversar n 3 6 9 NS 1 17 18 ***0,000 4 23 %1,8 4,0 2,8 0,6 11,3 5,7 2,4 15,3 Desenhar n 0 4 4 *0,049 0 2 2 NS 0 6 %0,0 2,7 1,3 0,0 1,3 0,6 0,0 4,0 Macaca n 0 7 7 **0,005 1 6 7 NS 1 13 %0,0 4,7 2,2 0,6 4,0 2,2 0,6 8,7 Saltar ao elástico n 0 4 4 *0,049 0 1 1 NS 0 5 %0,0 2,7 1,3 0,0 0,7 0,3 0,0 3,4 Jogo de luta n 3 0 3 NS 6 0 6 *0,031 9 0 %1,8 0,0 0,9 3,6 0,0 1,9 5,4 0,0 Jogos eletrónicos n 0 0 0 NS 3 0 3 NS 3 0 %0,0 0,0 0,0 1,8 0,0 0,9 1,8 0,0 Ouvir música n 1 1 2 NS 1 1 2 NS 2 2 %0,6 0,7 0,6 0,6 0,7 0,6 1,2 1,4 Jogo com brinquedos n 7 0 7 *0,016 8 1 9 *0,039 15 1 %4,2 0,0 2,2 4,8 0,7 2,8 9,0 0,7 Jogo de cartas n 1 1 2 NS 8 1 9 *0,039 9 2 %0,6 0,7 0,6 4,8 0,7 2,8 5,4 1,4 Legenda: ♂-género masculino; ♀- género feminino; ***p≤0,001; **p≤0,01; *p≤0,05; NS – não significativo Fonte: elaboração própria Podemos então verificar que os jogos preferidos 1 pelos rapazes são: “futebol” (43,7%), “caçadinhas” (10,2%) e “correr” (9,6%) e os jogos preferidos 1 pelas raparigas são: “saltar à corda” (29,3%), “caçadinhas” (12,0%) e “correr” (8,7%). Os jogos, “caçadinhas” e “correr” Vânia Sofía Pereira et al. 866 Movimento, Porto Alegre, v. 24, n. 3, p. 859-874, jul./set. de 2018. aparecem, respetivamente, como segundo e terceiro jogos mais preferidos por ambos os sexos, não apresentando diferenças significativas quanto ao género. Enquanto o jogo “futebol” se apresenta como o preferido pelos rapazes (43,7%), e apenas é preferido por 5,3% das raparigas, com diferenças significativas quanto ao género (p≤0,001), também existem diferenças significativas (p≤0,001) quanto ao género em relação ao primeiro jogo preferido pelas raparigas “saltar à corda”, pois 29,3% das raparigas mencionam este jogo como preferido e nenhum rapaz menciona como preferido. Em relação ao jogo preferido 2, constatamos que os rapazes mencionaram “caçadinhas (14,4%) e escondidas (14,4%), “futebol” (12,0%) e “correr” (9,6%), sendo que o “futebol” apresenta diferenças significativas (p≤0,001) em relação ao género, pois a atividade preferida 2 de apenas 4,7% das raparigas. Quanto às raparigas, os jogos preferidos 2 são: “caçadinhas” (14,0%), “conversar” (11,3%) e “correr” (10,0%), sendo que “conversar” apresenta diferenças significativas (p≤0,001) quanto ao género, pois é preferido apenas por 0,6% dos rapazes. Salientamos das Tabelas 1 e 2 que, quanto ao género, são as raparigas que mais diversificam e exploram diferentes jogos no recreio escolar. Serão os rapazes mais determinados e decididos no que toca à escolha dos seus jogos, ou são as raparigas mais criativas e imaginativas na hora de brincar e jogar com os seus pares? Quanto aos jogos preferidos por rapazes e raparigas, atestamos que estes correspondem a alguns dos jogos que são mais praticados por ambos os sexos no recreio escolar. É curioso observar que as raparigas são bem mais seletivas quando se trata dos jogos preferidos do que quando se referem aos jogos realizados. “Correr” e “conversar” para ambos os sexos é o que mais fazem no recreio diariamente, no entanto, nenhum destes jogos/atividades foi referido como mais preferido por nenhum género. 3.2 Jogos realizados e preferidos no recreio atendendo ao ano de escolaridade Relativamente à Tabela 3 apresentamos, por ordem decrescente, os jogos mais realizados pelos alunos, de acordo com o ano de escolaridade. Tabela 3 – Jogos realizados no recreio: diferenças entre ano de escolaridade Jogos Realizados Ano de escolaridade Total (n = 317) p1º e 2º 3º e 4º Não Sim Não Sim Sim Pião 170 0 147 0 0 NS 100,0 0,0 100,0 0,0 0,0 Saltar ao elástico 157 13 141 6 19 NS 92,4 7,6 95,9 4,1 6,0 Macaca 103 67 116 31 98 ***0,001 60,6 39,4 78,9 21,1 30,9 Saltar à corda 104 66 92 55 121 NS 61,2 38,8 62,6 37,4 38,2 Correr 27 143 34 113 256 NS 15,9 84,1 23,1 76,9 80,8 Continua na próxima página... Movimento, Porto Alegre, v. 24, n. 3, p. 859-874, jul./set. de 2018. Os jogos das crianças nos recreios das escolas do 1º ciclo do ensino básico do norte de Portugal 867 Escondidas 78 92 48 99 191 *0,021 45,9 54,1 32,7 67,3 60,3 Caçadinhas 74 96 35 112 208 ***0,000 43,5 56,5 23,8 76,2 65,6 Futebol 94 76 73 74 150 NS 55,3 44,7 49,7 50,3 47,3 Dança 132 38 124 23 61 NS 77,6 22,4 84,4 15,6 19,2 Ouvir música 137 33 132 15 48 *0,027 80,6 19,4 89,8 10,2 15,1 Conversar 56 114 63 84 198 NS 32,9 67,1 42,9 57,1 62,5 Desenhar 117 53 133 14 67 ***0,000 68,8 31,2 90,5 9,5 21,1 Loto 167 3 147 0 3 NS 98,2 1,8 100,0 0,0 0,9 Berlindes, caricas 154 16 146 1 17 ***0,000 90,6 9,4 99,3 0,7 5,4 Lutas 118 52 122 25 77 **0,006 69,4 30,6 83,0 17,0 24,3 Faz de conta 100 70 134 13 83 ***0,000 58,8 41,2 91,2 8,8 26,2 Damas 154 16 146 1 17 ***0,000 90,6 9,4 99,3 0,7 5,4 Cartas 143 27 137 10 37 *0,014 84,1 15,9 93,2 6,8 11,7 Puzzles 159 11 146 1 12 **0,007 93,5 6,5 99,3 0,7 3,8 Jogos eletrónicos 143 27 127 20 47 NS 84,1 15,9 86,4 13,6 14,8 Outros jogos 111 59 120 27 86 ***0,000 65,3 34,7 81,6 18,4 27,1 Legenda: ***p≤0,001; **p≤0,01; *p≤0,05; NS – não significativo Fonte: elaboração própria Assim, os alunos dos 1º e 2º anos realizam mais frequentemente no recreio: “correr”, “conversar”, “caçadinhas”, “escondidas”, “futebol” e “faz de conta” e, por sua vez, os jogos mais realizados pelos alunos dos 3º e 4º anos são: “correr”, “caçadinhas”, “escondidas”, “conversar”, “futebol” e “saltar à corda”. “Correr” é sem dúvida o que todos os alunos mais fazem no recreio, ainda que a percentagem dos alunos dos 1º e 2º anos (84,1%) que a realiza seja superior à dos alunos dos 3º e 4º anos (76,9%), não existem diferenças significativas. O jogo “caçadinhas”, que aparece como o segundo jogo mais realizado pelos alunos dos 3º e 4º anos (76,2%) e o terceiro mais realizada pelos alunos dos 1º e 2º anos (56,5%), apresenta diferenças significativas quanto ao ano de escolaridade (p≤0,001). São os alunos dos 1º e 2º anos que mais referem “conversar” (67,1%), sendo este o seu segundo jogo mais ... continuação da tabela 3. Vânia Sofía Pereira et al. 874 Movimento, Porto Alegre, v. 24, n. 3, p. 859-874, jul./set. de 2018.