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O modelo de poeta-amante no Cancioneiro Geral: a presença de Macias em debates e comparações

Morán Cabanas, Maria Isabel

Abstract

Como en el caso de Inés de Castro, con quien comparte tanto el destino trágico de su amor imposible como su origen gallego, la mitificación de Macias el Enamoado se registra por primera vez en la poesía portuguesa en el Cancioneiro Geral de García de Resende. Más tarde, seguiría siendo explorada por autores como Luís de Camões, que, en su pieza teatral Auto de Filodemo, compara las palabras sangrientas de Duriano con las de tal célebre personaje, a partir de un verso a menudo glosado en la lírica hispánica. Es evidente que la presencia del cautiverio del amor en la copilación de Garcia de Resende está estrechamente ligada a la influencia de la poesía de Castilla. En efecto, casi una décima parte de los textos allí reunidos están escritos en castellano e, independientemente de la lengua utilizada, existe un verdadero aprecio e incluso veneración por los autores del reino vecino, actitud que se hace aún más patente en la expresión de temas pasionales. En este estudio, revisamos, de forma detallada y comparativa, las alusiones a Macías (siempre referido por los portugueses como Mancias), demostrando la consolidación de su proyección como modelo referencial de individuo entregado a sus sentimientos por la senhora en toda la Península Ibérica, incluido Portugal.

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Medioevo Ispanico Collana diretta da Pilar Lorenzo Gradín 5 Volume pubblicato con il contributo del Ministerio de Economía y Competitividad spagnolo (Progetto: FFI2011-26785) I volumi pubblicati nella Collana sono sottoposti a un processo di peer review che ne attesta la validità scientifica. Mercedes Brea, Esther Corral Díaz, Miguel A. Pousada Cruz (eds.) Parodia y debate metaliterarios en la Edad Media Edizioni dell’Orso Alessandria © 2013 Copyright by Edizioni dell’Orso s.r.l. 15121 Alessandria, via Rattazzi 47 Tel. 0131.252349 – Fax 0131.257567 E-mail: [email protected] http: //www.ediorso.it Impaginazione a cura di Francesca Cattina È vietata la riproduzione, anche parziale, non autorizzata, con qualsiasi mezzo effettuata, compresa la fotocopia, anche a uso interno e didattico. L’illecito sarà penalmente perseguibile a norma dell’art. 171 della Legge n. 633 del 22.04.1941 ISBN 978-88-6274-497-3 Eu soo devo ser na fama emũaigualgloria comMancias GilMoniz Porestanoitesedias me vejo sempre penado, destasãomaisnamorado queMancias HenriquedeSaa Seguindooexemplodoutrosreinosondeoversificarcolectivoalcançavaum extraordináriosucessocomoprovaderequinteepassatempopalaciano,também emPortugalasfestasouosfamososserõescelebradosnaCorteacrescentamo seubrilhonasegundametadedoséculoXV,participandodeumavidadeluxoe grandeza:organizamsecaçadas,touros,torneiosejogosdedadosecartas;as simcomoseassisteamúsicas,danças,encenaçõeseimprovisospoéticos.1 Esque cese,nestesentido,adenúnciaquelançaraoausteroD.Duartealgumasdécadas atrás,quando,assumindoespecularmenteafunçãodeedificaçãodosseussúbdi tos,lhesatribuíaataiscelebraçõesorelaxamentoouatéentorpecimentodaau tênticafortalezaedoespíritocavaleiresconoseuLivro de ensinança de bem cavalgar toda sela. Quandoaindaoscaracteresmóveisouletrasdeformaacabavamdeserintro duzidasemPortugal,imprimiusenoanode1516oCancioneiro Geral de Gar ciadeResende,vastacompilaçãodaproduçãoversificatóriadascortesportugue sasduranteumperíodocompreendidoentreasegundametadedoséculoXVeos primeirosdezasseisanosdoseguinte,correspondentesaosreinadosdeD.Afonso V,D.JoãoIIeD.ManuelI.Acederaoimaginárioqueseencerraemtaiscoorde 1 OpresentetrabalholigaseaoprojetodeinvestigaçãocomreferênciaPGIDITINCI TE09204068PR,concedidopelaXuntadeGaliciaedirigidoporEstherCorralDíaz. O modelo de poeta-amante no CancioneiroGeral: a presença de Macias em debates e comparações MARIA ISABEL MORÁN CABANAS UniversidadedeSantiagodeCompostela MARIA ISABEL MORÁN CABANAS 470 nadasespaciaisesociaisexigeaperceçãodostextosnãoapenascomoumasérie avulsadecomposiçõesreunidasparaaspreservardausuradotempo,massobre tudocomoummeioouferramentaeficazmenteutilizávelnaempresadamagnifi caçãodopoderrealedovalornacional. Nestesentido,tantoaorganizaçãoeseleçãodomaterialpoético,comoopró logo,dedicadoao“Príncipe,NossoSenhor”(futuroreiD.JoãoIII),ecertasparti cularidadesgráficas(asimbologiaheráldicaenvolveoCancioneirodeprincípioa fim),ganhamumespecialrelevo.Aliás,GarciadeResenderecriminaaliosportu gueses,lamentandoasuafaltadeinteresseemdeixarmemóriadasgrandesnume rosasfaçanhasqueprotagonizaram,apesardeseremestassuperioresàsdospró priosgregoseromanos.Faceatalapatia,elemanifestaaintençãodedivulgarem formaimpressaalgumasamostrasdapoesiacultivadanoPortugaldaquelaaltura (coisas de folgar e gentilezas)comoumprimeiropassoquesirvaparaincentivar osautorescommaiortalentoaabordarliterariamenteoutrasquestõesdemaioral cance–querdizer,asaventurasultramarinas: E,porque,Senhor[PríncipeD.JoaoIII],asoutrascousassamemsitamgrandes queporsuagrandezaemeufracoentendernamdevodetocarnelas,nesta,queé asomenos,poremalgũapartesatisfazeraodesejoquesempretivedefazeralgũa cousaemqueVossaAltezafosseservidoetomassedesenfadamento,determinei ajuntaralgũasobrasquepudehaverd’algũspassadosepresenteseordenareste livro,namperaporelasmostrarquaesforamesam,masparaosquemaissabem s’espertaremafolgard’escreveretrazeraamemoriaosoutrosgrandesfeitos,nos quaesnamsamdinodemeteramão.2 Afirmarotalentoculturaleliteráriodopaísimplicacantarosprópriosmitosou apropriarseeexplorarospróximos,contribuindoemtodososcasosparaoforta lecimentodeprestígio.Naverdade,amaiorpartedapoesiadoCancioneiro Geralgiraaoredordedoisgrandeseixostemáticos:amoresatira,erigindosecomo umaponteentrepassado,presenteefuturonaartepoética–comefeito,aexpres sãonãodifereemgrandemedidadaquecaracterizaolirismotrovadorescodeori gemprovençal,masintroduzainfluênciadaliteraturacastelhanarecolhidanos cancioneirosdeQuatrocentosecertosmotivoserecursosnovosquesetornarão clichésnaRenascençaeemépocasposteriores.AtéseanunciaumBarrococheio 2 “Prólogo”,doCancioneiro Geral de Garcia de Resende,editadoporAidaFernan daDias,Maia,ImprensaNacionalCasadaMoeda,19901993,4vols.,eacrescentadoem 1998e2003comosvolumesV(ATemática)eVI(Dicionáriocomum,onomásticoeto ponímico),respetivamente.Ospoemasqueaolongodanossacomunicaçãoserãotranscri tosseguemtambémestaedição,comindicaçãodevolumeenúmerodecomposição. O MODELO DE POETA-AMANTE NO CANCIONEIRO GERAL 471 desubtisconceitoseartifícios,paradoxos,amostrasdeengenhosidade,deslum branteshipérboles,antítesesviolentasesignificadosintencionadamenteobscuros, apenasacessíveisparaumarestringidaelitedeentendedores.3 Ostextosrecolhidosobedecemsempreaumafunçãocomunicacionaleape lativadeterminada,enquadrandosenateatralidadecortesaapartirdoelogio,da celebração,daburla,doinsulto,dointercâmbiodeperguntaserepostas,docon selho,daencomenda,etc.E,talcomoaconteceemrelaçãoàstrovasdedicadasa InêsdeCastrodaautoriadocompilador(opolifacetadoGarciadeResende:cro nista,músico,compiladorpoeta…),asreferênciasàfiguradeMaciasoNamorado dispersaspelacolectanêaportuguesaremetemnostambémparaaconcretização domitodaforçadoamorsobrequalquerinteresseouconvençãosocial,capazde ultrapassaraprópriamorte. Desteautor,consideradodecanodostrovadoresincluídosnachamada“escola galegocastelhana”,apenasseconservamalgunspoemasque,comdiferentegrau deverosimilhança,lhesãoatribuídosnoscancioneiroscastelhanos.4Oquecele 3 Osautoresusaramatradiçãoeinovaramnacomelementosdeinventividadeecriati vidade,abrindonovaspossibilidadesestéticaseexplorandoinclusiveaexistênciamaterial dotexto(visual)atravésderecursosquechegarãoaserespecialmentepostasemdesta quenapoesiaconcretistaeexperimentalistadoséculoXX,comosublinhaGeraldoAu gustoFernandesnasuaTesedeDoutoramentosobreO amor pela forma no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende,defendidaem2011naUniversidadedeSãoPauloou,mais resumidamente,noseuartigo“NoCancioneiro GeraldeGarciadeResende,acriativida depalacianaemFernãodaSilveira”,Labirintos. RevistaElectrônicadoNúcleodeEstu dosPortugueses,3,1ºsemestrede2008(http://www.uefs.br/nep/labirintos/,talcomofoi capturadoem3deagostode2011). 4 Tantoaautoriadetextoscomoaediçãocríticadestesapresentamproblemasdedi fícilresolução.Algunsestudiososdasuaobrachegaramaconcederlhe,comargumen tosmaisoumenosplausíveis,apaternidadedevinteetrêscomposições,algumasdelas conservadasapenasemformafragmentária.Ora,tendoemcontaacasuísticadetalques tão,JuanCasasRigallclassificaospoemasdeMaciasnosseguintesgrupos:obradeMa cias;atribuiçõesprováveis;atribuiçõesduvidosas;atribuiçõesmuitoduvidosas;eatribui çõeserradas.Naprimeirasériefiguram“Cativodamiñatristura”;“Amorcruelebrioso”, “Señoraenquefiança”;“Proveidebuscarmesura”;e“Cuidadosemaginança”,todaselas detemáticaexclusivamenteamorosa.EntreosmotivosliteráriosqueMaciasmaisexplo radestacaosilênciocortês;aloucurapassional;osofrimento;apersonificaçãodocoração oudeentidadescomoaMesura,aCortesia,aCordura;asimagenstiradasdocampobéli co;etc.(“ElenigmaliteráriodeMacias”,El Extramundi y los Papeles de Iria Flavia,6, 1996,pp.1145).Paracitarapenasalgunsdosdiversostrabalhospublicadosemdatasre centessobreavidaeobradotrovador,vejaseCleoféTato,“ApuntessobreMacías”,Quaderni del Dipartimento di Lingue e Letterature straniere moderne dell’Università di Pa- MARIA ISABEL MORÁN CABANAS 472 brizouMaciascomoespelhodosapaixonadosnãofoiasuaproduçãolírica,mas certosaspetosdeumabiografialendáriacriadaàvoltadesuposiçõesacercadasua dataelugardenascimento,dosmotivosdasuamorteedecertascircunstânciasin terpretadascomoreaisapartirdeversosconsideradosdasuaautoria.Asuaaven turaequiparaseaumaguerra/batalhadeamoremqueaconquistadadamaévis tacomoumacontendamilitareoamanteficaprisioneiro–daíacélebremetáfo radocárceredeamor. Aliás,ainclusãodapersonificaçãodosestadosdeânimo,comoTristezaeCui dado,contribuemparaotomlacrimogéneodosseuspoemas–entreeles,“Cativo damiñatristura∙,quepodemosconsiderarcomootextofundacionaldomito.De poisdeumabrevealusãoqueoMarquêsdeSantilhanafezem1448aoseuenamo ramento na famosa Carta Prohemio al Condestable Don Pedro de Portugal, jáno próprioséculoXVaparecemoutrosrelatosquenosinformamsobreosofrimento deMacias.NaSátira de Felice e Infelice Vida,odestinatáriodacartamencionada (c.1450),contacomoseapaixonouporumadonzelaquetinhasalvadodemorrer afogadanumrioecomo,emboratendoelacasadocomoutrocavaleiro,continuou aamálaatéquealançadomaridociumentoacaboucomasuavida. Unsanosmaistarde,quandooprofessordegregoemSalamanca,Núñezde Toledo,comentaoLaberinto de la FortunadeJoãodeMena(1499),insistena famaquerodeiaotrovadorgalegoenasdistorçõesaqueerasubmetidaasuabio grafia,acarretandonovosdados.Posteriormente,ArgotedeMolinaincluionasua Nobleza de Andalucia,fornecendoumanovaversãodasuavidaerelacionando comoutraspersonagens.5Asinformaçõesfornecidasvariamemmaisoumenos pormenores:matouooesposodasuaamada,masonde?Numaceldadocárce re?Enquantobeijavaaspegadasdamulherqueamava?Oseumitocomovítima via,18,2001,pp.531ouManuelGaheteJurado,“EjessemánticosenlapoesíadeMacías oNamorado,untrovadorgallegoenelCancionero de Baena”,Juan Alfonso de Baena y su cancionero. Actas del I Congreso Internacional sobre el Cancionero de Baena,ed.por JesúsLuísSerranoReyesyJuanFernándezJiménez,Baena,AyuntamientodeBaenaDi putacióndeCórdoba,2001,pp.161182. 5 Entreoutrosestudosquerevisamtodooprocessodeformação,consolidaçãoeinten sificaçãodomitodeMaciasoNamorado,vejaseFranciscoSerranoPuente,“Notaspara unparalelo:RodríguezdePadrón–Macias”,Cuadernosdeinvestigaciónfilológica,12, 1975,pp.7178,eAntonioCortijoOcaña,“ElmitodeMacíasenlaliteraturaespañola. ApropósitodePorfiarhastamorirdeLopedeVega”, disponivelemhttp://www.ehuma nista.ucsb.edu/projects/Belmonte/index.shtml,talcomofoicapturadoem1dejunhode 2012.Nestesentido,tenhasetambémemcontaaobradeEnricDolziFerrer,Siervo libre de amor de Juan Rodríguez del Padrón: estudio y edición, València,Universitatde València,2004. O MODELO DE POETA-AMANTE NO CANCIONEIRO GERAL 473 dapaixãofoiseforjandoeconvertendoseemfecundafontedeinspiração–com efeito,apenasalgunsanosdepoisdasuamorte,osseuscongéneresjáveemnele ummodelodeamadorecavalheiro. AsuafiguraérecriadatantopelaficçãosentimentalnosfinaisdaIdadeMé dia–tornandoseobjetodeveneraçãoemSiervo libre de amor(c.1440),doseu conterrâneoRodríguezdelPadrón–,comonapoesiarecolhidanoscancioneiros peninsulares.DaíaspalavrasdePedroJoséPidal:“Nosepuedeformarunaverda deraideadelacelebridaddeMaciassinoconociendoloscancionerosmanuscritos yviendoelgrannúmerodecomposicionesenlasquesecelebrayensalza”6 ou as deTeófiloBragaemrelaçãoàproduçãoespecificamenteportuguesa:“Detodosos poetas(…)umdosmaisconhecidosemPortugalfoioenamoradoMancias,cujo nomesetornouproverbialetípicodetodososamantes”.7 Comefeito,Macias(grafadocomoMancias)aparecenoCancioneiro Geral emrepetidasocasiõescomoarquétipodeentregatotalàpaixão.Jánotextoem formadedebatesobrecasuísticaamorosacomqueseabreestrategicamenteaco letânearegistaseoseunomeoraemversosqueseapresentamcomoargumen tooranoutrosquepretendemsercontraargumentodaqueles.Taldebateestabele ceseemformadeprocessojudiciário,emestilodiscursivoenumalinguagemca racterizadapelagíriaepelasfórmulasforenses,estendendoseaolongodemuitas estrofes.Naverdade,constituiumacelebraçãohomenagemdomonarcaD.João II,queapareceali,vinteanosdepoisdamorte,exercendocomoRei,comoDeus ecomoJuizdeAmor. Nessafachadapoética,construídaapartirdasregrasdodireitocomocampo deumsaberperfeitamenteestruturadoecapazdeorganizarcomcoerênciaamul tiplicidadeediversidadedasintervenções,discutesesobreagravidadeesince ridadedassintomatologiasdoamante:Qualatitudesupõeverdadeiramenteum maiortormento?Éocuidar,querdizer,osofreremsilêncio(aintrospeção)?Ou éosospirar, amanifestação/revelaçãodadoratravésdossuspirosprocedentesda alma?Sucedemseospareceresdaspersonagensafavordasinceridadedeuma ououtrareação,provocandodoisjulgamentos:oprimeiropresididopelasenhora LeonordaSilva,divadaCorte;eosegundo,tomadocomodefinitivo,pelodeus Amor,soboqualaparecetransfiguradaaimagemdeD.JoãoII,ochamadoPrín cipePerfeito.8 6 ApudCarlosMartinezBarbeito,Macías el Enamorado y Juan Rodríguez del Padrón,SantiagodeCompostela,BibliófilosGallegos,1951,p.38. 7 Ibidem, p.56. 8 ÀsuamemóriaesobreasexcelênciasdamonarquiadeAviscompuseramversos DiogoBrandão(vol.II,nº333)eLuisHenriques(vol.II,nº367).Oprimeiroapresen MARIA ISABEL MORÁN CABANAS 480 Vósdizeiquesamcasado equerobemacasada, sendod’amortamforçado que nam sento por pecado elaserdemimamada. Nemmepossoconhecer senamtamsojeitodela, quecuidoquepadecer e tras padecer morrer devosoportarporela. Eopecadosegundo lhedireis:Quemeusentido nam se funda nem me fundo senam sempre neste mundo querermalaseumarido. Eamortelhedesejo maiscedoquepossaser eodemonelevejo, eheigramprazersobejo, quandoaelapossover. Oterceiroconcrusam vósdizei:Quesamtamforte amadorporcondiçam quenamsentocontriçam nemreceominhamorte. Nemd’almanamsamlembrado, nemderezamnemdefama, neméoutromeucuidado, salvantesernamorado daquestacasadadama. (vol.II,nº228) Opróprioconfessandomarcaa prioriassuascondiçõeseimpõelimitações quantoaosmodosdeexpurgarasfaltas.Elejájejuaquandonãovêasuadamae jápassaanoiteemvigíliaquandopensanela.Quantoàsorações,jápodemser vircomotaistodasasdoresetribulaçõesqueoseucoraçãopadece.E,noquediz IlhanoCancioneiro GeraldeGarciadeResende”,Agália. Revista de Ciências Sociais e Humanidades,48,inverno1996,pp.435450,estudoqueembreveserápublicadocom revisõeseacréscimos. O MODELO DE POETA-AMANTE NO CANCIONEIRO GERAL 481 respeitoàesmola,mostradispostoapagarcomquantodinheirotivereatécoma suaprópriapele(“quem’esfole”)o“serviço”dadama,comoqualoeupoético seconsola,querdizer,satisfazosdesejos.Ora,nuncaaceitaráprescindirdetalre lação:“antememandematar/poroutraqualquermaneira”. Naverdade,aumaprimeiraleituradotextocomofingimentopoéticoligadoà teatralidadecortesãsegueseoutraemquepodemosdescobrirumainvetivacon traoindivíduomencionadonoprimeiroverso.Nãoconvémesqueceraetimolo giaeformaçãodoantropónimoMourato:olexema“mour”eosufixo“ato”pare cemremeternosparaaetniadosmouros,anulandojáasinceridadedoritualcris tão.Aliás,aludeseàconfiançanaintermediaçãodetalindivíduoparaconseguir absolvição/perdãoe,simultâneaeparadoxalmente,lembraseapoucafrequência comqueesteseconfessa.Comojátemosassinaladonoutraocasião,orelatopa recedirigidoaeste,quesetornavítimadeumaduplaburla:pelaorigemmoura eporser,precisamenteele,omaridoenganado.Apropósitodotermojejuar,te nhamseemcontaasocorrênciasdoseuantónimocomercomometáforadoato sexualnatradiçãocancioneiril;e,quantoàaceçãoeróticadainsónia,pensese, porexemplo,naesparsadocastelhanoGuevaraàsuaamiga,“estandoconellaen lacama”,noCancionero GeneraldeHernandodelCastillo:“¡Quénochetanmal dormida!/Quesueñotandesvelado!/Quégestoelvuestro,deDios!/Quémalel mío,convicio!…”.18 Poroutrolado,numataquemetaliteráriodecarizreligioso,aludeseaoculto irracionalqueospoetasrendemaodeusdesignadocomoMaciasouCupido,em vezdeadorarfigurasmaisdignaspelasuafécristã,comooApóstoloSantoAn dré:D.JoãoManuelestabeleceumconfrontoentreamorsensualversus espiri tual,criticandooprimeiroelamentandoummundo ao revês. Atemáticamorale religiosadominaotexto,peloqueMaciasetodososseusseguidoresrepresentam umcontravalor,aencarnaçãodomalouogrupodo“imigo”:“Poetasoutrova dores/quedespendeisvossosdias/emdizercemmilprimores/deCopidoede Mancias,/dobemnamdizbemninguem,/omallouvaesdesigual,/soistrova doresdobem/ebendizentesdomal”(vol.I,nº138)–eisumaadoraçãoquenos trazàmemóriaorelatodeRodríguezdelPadrónnoSiervo libre de Amor, em que otúmulodeMaciasaparececomotemplodeperegrinaçãoreligiosa,ondesepro vam,àmaneiraartúrica,osverdadeirosamadores. ComoacontececomocasodeInêsdeCastro,comquecompartilhaomoti vodotrágicodestinopeloseuamorimpossívelepelasuaorigemgalega,amiti ficaçãodoNamoradoregistase,pelaprimeiraveznapoesiaportuguesa,noCan18 ApudKeithWhinnom,La poesía amatoria de la época de los Reyes Católicos,Dur ham,UniversityofDurham,1981,p.32. MARIA ISABEL MORÁN CABANAS 482 cioneiro Geral,sendoveiculadanomoldetipicamentequatrocentistadaredondi lha.Maistarde,continuaráaserexploradanoutrosmetrosegénerosporautores comoLuísdeCamões,quenapeçateatraldo Auto de Filodemocomparaaspala vrassangrentasdeDurianocomasdeMacias,apartirdeumversoamiúdeglosa donorepertóriopoéticohispânico:“eseistonãobastar,salgan las palabras mas sangrientas del corazón, entoadasdefeição,quedigamquesouumMancias,e piorainda”.19Éclaroqueapresençadonossocativodeamornaliteraturalusase encontraintimamenteligadaàinfluênciadapoesiadeCastela:quaseumadéci mapartedostextosalicompiladosestãocompostosemcastelhanoe,independen tementedalínguautilizada,sobressaineleumverdadeiroapreçoeatéveneração pelosautoresdaCortevizinhaatravésdareferência(implícitaouexplícita),daci taçãoedaglosa–sobretudoemrelaçãoàtemáticaamorosa. 19 Reproduzimoseste–nalgumaocasiãoatribuídoaGarciSánchezdeBadajoz–em itálico.Cfr.PalomaDíazMas,“Algomássobreromances(ycanciones)enensaladas”, Nueva Revista de Filologia Hispánica,41,1993,p.237,eaediçãodoCancionero de Garcí Sánchez de Badajoz,preparadaporJuliaCastillo,Madrid,EditoraNacional,1980.