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Medioevo Ispanico Collana diretta da Pilar Lorenzo Gradín 5
Volume pubblicato con il contributo del Ministerio de Economía y Competitividad spagnolo (Progetto: FFI2011-26785) I volumi pubblicati nella Collana sono sottoposti a un processo di peer review che ne attesta la validità scientifica.
Mercedes Brea, Esther Corral Díaz, Miguel A. Pousada Cruz (eds.) Parodia y debate metaliterarios en la Edad Media Edizioni dell’Orso Alessandria
© 2013 Copyright by Edizioni dell’Orso s.r.l. 15121 Alessandria, via Rattazzi 47 Tel. 0131.252349 – Fax 0131.257567 E-mail: [email protected] http: //www.ediorso.it Impaginazione a cura di Francesca Cattina È vietata la riproduzione, anche parziale, non autorizzata, con qualsiasi mezzo effettuata, compresa la fotocopia, anche a uso interno e didattico. L’illecito sarà penalmente perseguibile a norma dell’art. 171 della Legge n. 633 del 22.04.1941 ISBN 978-88-6274-497-3
Eu soo devo ser na fama emũaigualgloria comMancias GilMoniz Porestanoitesedias me vejo sempre penado, destasãomaisnamorado queMancias HenriquedeSaa Seguindooexemplodoutrosreinosondeoversificarcolectivoalcançavaum extraordináriosucessocomoprovaderequinteepassatempopalaciano,também emPortugalasfestasouosfamososserõescelebradosnaCorteacrescentamo seubrilhonasegundametadedoséculoXV,participandodeumavidadeluxoe grandeza:organizamsecaçadas,touros,torneiosejogosdedadosecartas;as simcomoseassisteamúsicas,danças,encenaçõeseimprovisospoéticos.1 Esque cese,nestesentido,adenúnciaquelançaraoausteroD.Duartealgumasdécadas atrás,quando,assumindoespecularmenteafunçãodeedificaçãodosseussúbdi tos,lhesatribuíaataiscelebraçõesorelaxamentoouatéentorpecimentodaau tênticafortalezaedoespíritocavaleiresconoseuLivro de ensinança de bem cavalgar toda sela. Quandoaindaoscaracteresmóveisouletrasdeformaacabavamdeserintro duzidasemPortugal,imprimiusenoanode1516oCancioneiro Geral de Gar ciadeResende,vastacompilaçãodaproduçãoversificatóriadascortesportugue sasduranteumperíodocompreendidoentreasegundametadedoséculoXVeos primeirosdezasseisanosdoseguinte,correspondentesaosreinadosdeD.Afonso V,D.JoãoIIeD.ManuelI.Acederaoimaginárioqueseencerraemtaiscoorde 1 OpresentetrabalholigaseaoprojetodeinvestigaçãocomreferênciaPGIDITINCI TE09204068PR,concedidopelaXuntadeGaliciaedirigidoporEstherCorralDíaz. O modelo de poeta-amante no CancioneiroGeral: a presença de Macias em debates e comparações MARIA ISABEL MORÁN CABANAS UniversidadedeSantiagodeCompostela
MARIA ISABEL MORÁN CABANAS 470 nadasespaciaisesociaisexigeaperceçãodostextosnãoapenascomoumasérie avulsadecomposiçõesreunidasparaaspreservardausuradotempo,massobre tudocomoummeioouferramentaeficazmenteutilizávelnaempresadamagnifi caçãodopoderrealedovalornacional. Nestesentido,tantoaorganizaçãoeseleçãodomaterialpoético,comoopró logo,dedicadoao“Príncipe,NossoSenhor”(futuroreiD.JoãoIII),ecertasparti cularidadesgráficas(asimbologiaheráldicaenvolveoCancioneirodeprincípioa fim),ganhamumespecialrelevo.Aliás,GarciadeResenderecriminaaliosportu gueses,lamentandoasuafaltadeinteresseemdeixarmemóriadasgrandesnume rosasfaçanhasqueprotagonizaram,apesardeseremestassuperioresàsdospró priosgregoseromanos.Faceatalapatia,elemanifestaaintençãodedivulgarem formaimpressaalgumasamostrasdapoesiacultivadanoPortugaldaquelaaltura (coisas de folgar e gentilezas)comoumprimeiropassoquesirvaparaincentivar osautorescommaiortalentoaabordarliterariamenteoutrasquestõesdemaioral cance–querdizer,asaventurasultramarinas: E,porque,Senhor[PríncipeD.JoaoIII],asoutrascousassamemsitamgrandes queporsuagrandezaemeufracoentendernamdevodetocarnelas,nesta,queé asomenos,poremalgũapartesatisfazeraodesejoquesempretivedefazeralgũa cousaemqueVossaAltezafosseservidoetomassedesenfadamento,determinei ajuntaralgũasobrasquepudehaverd’algũspassadosepresenteseordenareste livro,namperaporelasmostrarquaesforamesam,masparaosquemaissabem s’espertaremafolgard’escreveretrazeraamemoriaosoutrosgrandesfeitos,nos quaesnamsamdinodemeteramão.2 Afirmarotalentoculturaleliteráriodopaísimplicacantarosprópriosmitosou apropriarseeexplorarospróximos,contribuindoemtodososcasosparaoforta lecimentodeprestígio.Naverdade,amaiorpartedapoesiadoCancioneiro Geralgiraaoredordedoisgrandeseixostemáticos:amoresatira,erigindosecomo umaponteentrepassado,presenteefuturonaartepoética–comefeito,aexpres sãonãodifereemgrandemedidadaquecaracterizaolirismotrovadorescodeori gemprovençal,masintroduzainfluênciadaliteraturacastelhanarecolhidanos cancioneirosdeQuatrocentosecertosmotivoserecursosnovosquesetornarão clichésnaRenascençaeemépocasposteriores.AtéseanunciaumBarrococheio 2 “Prólogo”,doCancioneiro Geral de Garcia de Resende,editadoporAidaFernan daDias,Maia,ImprensaNacionalCasadaMoeda,19901993,4vols.,eacrescentadoem 1998e2003comosvolumesV(ATemática)eVI(Dicionáriocomum,onomásticoeto ponímico),respetivamente.Ospoemasqueaolongodanossacomunicaçãoserãotranscri tosseguemtambémestaedição,comindicaçãodevolumeenúmerodecomposição.
O MODELO DE POETA-AMANTE NO CANCIONEIRO GERAL 471 desubtisconceitoseartifícios,paradoxos,amostrasdeengenhosidade,deslum branteshipérboles,antítesesviolentasesignificadosintencionadamenteobscuros, apenasacessíveisparaumarestringidaelitedeentendedores.3 Ostextosrecolhidosobedecemsempreaumafunçãocomunicacionaleape lativadeterminada,enquadrandosenateatralidadecortesaapartirdoelogio,da celebração,daburla,doinsulto,dointercâmbiodeperguntaserepostas,docon selho,daencomenda,etc.E,talcomoaconteceemrelaçãoàstrovasdedicadasa InêsdeCastrodaautoriadocompilador(opolifacetadoGarciadeResende:cro nista,músico,compiladorpoeta…),asreferênciasàfiguradeMaciasoNamorado dispersaspelacolectanêaportuguesaremetemnostambémparaaconcretização domitodaforçadoamorsobrequalquerinteresseouconvençãosocial,capazde ultrapassaraprópriamorte. Desteautor,consideradodecanodostrovadoresincluídosnachamada“escola galegocastelhana”,apenasseconservamalgunspoemasque,comdiferentegrau deverosimilhança,lhesãoatribuídosnoscancioneiroscastelhanos.4Oquecele 3 Osautoresusaramatradiçãoeinovaramnacomelementosdeinventividadeecriati vidade,abrindonovaspossibilidadesestéticaseexplorandoinclusiveaexistênciamaterial dotexto(visual)atravésderecursosquechegarãoaserespecialmentepostasemdesta quenapoesiaconcretistaeexperimentalistadoséculoXX,comosublinhaGeraldoAu gustoFernandesnasuaTesedeDoutoramentosobreO amor pela forma no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende,defendidaem2011naUniversidadedeSãoPauloou,mais resumidamente,noseuartigo“NoCancioneiro GeraldeGarciadeResende,acriativida depalacianaemFernãodaSilveira”,Labirintos. RevistaElectrônicadoNúcleodeEstu dosPortugueses,3,1ºsemestrede2008(http://www.uefs.br/nep/labirintos/,talcomofoi capturadoem3deagostode2011). 4 Tantoaautoriadetextoscomoaediçãocríticadestesapresentamproblemasdedi fícilresolução.Algunsestudiososdasuaobrachegaramaconcederlhe,comargumen tosmaisoumenosplausíveis,apaternidadedevinteetrêscomposições,algumasdelas conservadasapenasemformafragmentária.Ora,tendoemcontaacasuísticadetalques tão,JuanCasasRigallclassificaospoemasdeMaciasnosseguintesgrupos:obradeMa cias;atribuiçõesprováveis;atribuiçõesduvidosas;atribuiçõesmuitoduvidosas;eatribui çõeserradas.Naprimeirasériefiguram“Cativodamiñatristura”;“Amorcruelebrioso”, “Señoraenquefiança”;“Proveidebuscarmesura”;e“Cuidadosemaginança”,todaselas detemáticaexclusivamenteamorosa.EntreosmotivosliteráriosqueMaciasmaisexplo radestacaosilênciocortês;aloucurapassional;osofrimento;apersonificaçãodocoração oudeentidadescomoaMesura,aCortesia,aCordura;asimagenstiradasdocampobéli co;etc.(“ElenigmaliteráriodeMacias”,El Extramundi y los Papeles de Iria Flavia,6, 1996,pp.1145).Paracitarapenasalgunsdosdiversostrabalhospublicadosemdatasre centessobreavidaeobradotrovador,vejaseCleoféTato,“ApuntessobreMacías”,Quaderni del Dipartimento di Lingue e Letterature straniere moderne dell’Università di Pa-
MARIA ISABEL MORÁN CABANAS 472 brizouMaciascomoespelhodosapaixonadosnãofoiasuaproduçãolírica,mas certosaspetosdeumabiografialendáriacriadaàvoltadesuposiçõesacercadasua dataelugardenascimento,dosmotivosdasuamorteedecertascircunstânciasin terpretadascomoreaisapartirdeversosconsideradosdasuaautoria.Asuaaven turaequiparaseaumaguerra/batalhadeamoremqueaconquistadadamaévis tacomoumacontendamilitareoamanteficaprisioneiro–daíacélebremetáfo radocárceredeamor. Aliás,ainclusãodapersonificaçãodosestadosdeânimo,comoTristezaeCui dado,contribuemparaotomlacrimogéneodosseuspoemas–entreeles,“Cativo damiñatristura∙,quepodemosconsiderarcomootextofundacionaldomito.De poisdeumabrevealusãoqueoMarquêsdeSantilhanafezem1448aoseuenamo ramento na famosa Carta Prohemio al Condestable Don Pedro de Portugal, jáno próprioséculoXVaparecemoutrosrelatosquenosinformamsobreosofrimento deMacias.NaSátira de Felice e Infelice Vida,odestinatáriodacartamencionada (c.1450),contacomoseapaixonouporumadonzelaquetinhasalvadodemorrer afogadanumrioecomo,emboratendoelacasadocomoutrocavaleiro,continuou aamálaatéquealançadomaridociumentoacaboucomasuavida. Unsanosmaistarde,quandooprofessordegregoemSalamanca,Núñezde Toledo,comentaoLaberinto de la FortunadeJoãodeMena(1499),insistena famaquerodeiaotrovadorgalegoenasdistorçõesaqueerasubmetidaasuabio grafia,acarretandonovosdados.Posteriormente,ArgotedeMolinaincluionasua Nobleza de Andalucia,fornecendoumanovaversãodasuavidaerelacionando comoutraspersonagens.5Asinformaçõesfornecidasvariamemmaisoumenos pormenores:matouooesposodasuaamada,masonde?Numaceldadocárce re?Enquantobeijavaaspegadasdamulherqueamava?Oseumitocomovítima via,18,2001,pp.531ouManuelGaheteJurado,“EjessemánticosenlapoesíadeMacías oNamorado,untrovadorgallegoenelCancionero de Baena”,Juan Alfonso de Baena y su cancionero. Actas del I Congreso Internacional sobre el Cancionero de Baena,ed.por JesúsLuísSerranoReyesyJuanFernándezJiménez,Baena,AyuntamientodeBaenaDi putacióndeCórdoba,2001,pp.161182. 5 Entreoutrosestudosquerevisamtodooprocessodeformação,consolidaçãoeinten sificaçãodomitodeMaciasoNamorado,vejaseFranciscoSerranoPuente,“Notaspara unparalelo:RodríguezdePadrón–Macias”,Cuadernosdeinvestigaciónfilológica,12, 1975,pp.7178,eAntonioCortijoOcaña,“ElmitodeMacíasenlaliteraturaespañola. ApropósitodePorfiarhastamorirdeLopedeVega”, disponivelemhttp://www.ehuma nista.ucsb.edu/projects/Belmonte/index.shtml,talcomofoicapturadoem1dejunhode 2012.Nestesentido,tenhasetambémemcontaaobradeEnricDolziFerrer,Siervo libre de amor de Juan Rodríguez del Padrón: estudio y edición, València,Universitatde València,2004.
O MODELO DE POETA-AMANTE NO CANCIONEIRO GERAL 473 dapaixãofoiseforjandoeconvertendoseemfecundafontedeinspiração–com efeito,apenasalgunsanosdepoisdasuamorte,osseuscongéneresjáveemnele ummodelodeamadorecavalheiro. AsuafiguraérecriadatantopelaficçãosentimentalnosfinaisdaIdadeMé dia–tornandoseobjetodeveneraçãoemSiervo libre de amor(c.1440),doseu conterrâneoRodríguezdelPadrón–,comonapoesiarecolhidanoscancioneiros peninsulares.DaíaspalavrasdePedroJoséPidal:“Nosepuedeformarunaverda deraideadelacelebridaddeMaciassinoconociendoloscancionerosmanuscritos yviendoelgrannúmerodecomposicionesenlasquesecelebrayensalza”6 ou as deTeófiloBragaemrelaçãoàproduçãoespecificamenteportuguesa:“Detodosos poetas(…)umdosmaisconhecidosemPortugalfoioenamoradoMancias,cujo nomesetornouproverbialetípicodetodososamantes”.7 Comefeito,Macias(grafadocomoMancias)aparecenoCancioneiro Geral emrepetidasocasiõescomoarquétipodeentregatotalàpaixão.Jánotextoem formadedebatesobrecasuísticaamorosacomqueseabreestrategicamenteaco letânearegistaseoseunomeoraemversosqueseapresentamcomoargumen tooranoutrosquepretendemsercontraargumentodaqueles.Taldebateestabele ceseemformadeprocessojudiciário,emestilodiscursivoenumalinguagemca racterizadapelagíriaepelasfórmulasforenses,estendendoseaolongodemuitas estrofes.Naverdade,constituiumacelebraçãohomenagemdomonarcaD.João II,queapareceali,vinteanosdepoisdamorte,exercendocomoRei,comoDeus ecomoJuizdeAmor. Nessafachadapoética,construídaapartirdasregrasdodireitocomocampo deumsaberperfeitamenteestruturadoecapazdeorganizarcomcoerênciaamul tiplicidadeediversidadedasintervenções,discutesesobreagravidadeesince ridadedassintomatologiasdoamante:Qualatitudesupõeverdadeiramenteum maiortormento?Éocuidar,querdizer,osofreremsilêncio(aintrospeção)?Ou éosospirar, amanifestação/revelaçãodadoratravésdossuspirosprocedentesda alma?Sucedemseospareceresdaspersonagensafavordasinceridadedeuma ououtrareação,provocandodoisjulgamentos:oprimeiropresididopelasenhora LeonordaSilva,divadaCorte;eosegundo,tomadocomodefinitivo,pelodeus Amor,soboqualaparecetransfiguradaaimagemdeD.JoãoII,ochamadoPrín cipePerfeito.8 6 ApudCarlosMartinezBarbeito,Macías el Enamorado y Juan Rodríguez del Padrón,SantiagodeCompostela,BibliófilosGallegos,1951,p.38. 7 Ibidem, p.56. 8 ÀsuamemóriaesobreasexcelênciasdamonarquiadeAviscompuseramversos DiogoBrandão(vol.II,nº333)eLuisHenriques(vol.II,nº367).Oprimeiroapresen
MARIA ISABEL MORÁN CABANAS 480 Vósdizeiquesamcasado equerobemacasada, sendod’amortamforçado que nam sento por pecado elaserdemimamada. Nemmepossoconhecer senamtamsojeitodela, quecuidoquepadecer e tras padecer morrer devosoportarporela. Eopecadosegundo lhedireis:Quemeusentido nam se funda nem me fundo senam sempre neste mundo querermalaseumarido. Eamortelhedesejo maiscedoquepossaser eodemonelevejo, eheigramprazersobejo, quandoaelapossover. Oterceiroconcrusam vósdizei:Quesamtamforte amadorporcondiçam quenamsentocontriçam nemreceominhamorte. Nemd’almanamsamlembrado, nemderezamnemdefama, neméoutromeucuidado, salvantesernamorado daquestacasadadama. (vol.II,nº228) Opróprioconfessandomarcaa prioriassuascondiçõeseimpõelimitações quantoaosmodosdeexpurgarasfaltas.Elejájejuaquandonãovêasuadamae jápassaanoiteemvigíliaquandopensanela.Quantoàsorações,jápodemser vircomotaistodasasdoresetribulaçõesqueoseucoraçãopadece.E,noquediz IlhanoCancioneiro GeraldeGarciadeResende”,Agália. Revista de Ciências Sociais e Humanidades,48,inverno1996,pp.435450,estudoqueembreveserápublicadocom revisõeseacréscimos.
O MODELO DE POETA-AMANTE NO CANCIONEIRO GERAL 481 respeitoàesmola,mostradispostoapagarcomquantodinheirotivereatécoma suaprópriapele(“quem’esfole”)o“serviço”dadama,comoqualoeupoético seconsola,querdizer,satisfazosdesejos.Ora,nuncaaceitaráprescindirdetalre lação:“antememandematar/poroutraqualquermaneira”. Naverdade,aumaprimeiraleituradotextocomofingimentopoéticoligadoà teatralidadecortesãsegueseoutraemquepodemosdescobrirumainvetivacon traoindivíduomencionadonoprimeiroverso.Nãoconvémesqueceraetimolo giaeformaçãodoantropónimoMourato:olexema“mour”eosufixo“ato”pare cemremeternosparaaetniadosmouros,anulandojáasinceridadedoritualcris tão.Aliás,aludeseàconfiançanaintermediaçãodetalindivíduoparaconseguir absolvição/perdãoe,simultâneaeparadoxalmente,lembraseapoucafrequência comqueesteseconfessa.Comojátemosassinaladonoutraocasião,orelatopa recedirigidoaeste,quesetornavítimadeumaduplaburla:pelaorigemmoura eporser,precisamenteele,omaridoenganado.Apropósitodotermojejuar,te nhamseemcontaasocorrênciasdoseuantónimocomercomometáforadoato sexualnatradiçãocancioneiril;e,quantoàaceçãoeróticadainsónia,pensese, porexemplo,naesparsadocastelhanoGuevaraàsuaamiga,“estandoconellaen lacama”,noCancionero GeneraldeHernandodelCastillo:“¡Quénochetanmal dormida!/Quesueñotandesvelado!/Quégestoelvuestro,deDios!/Quémalel mío,convicio!…”.18 Poroutrolado,numataquemetaliteráriodecarizreligioso,aludeseaoculto irracionalqueospoetasrendemaodeusdesignadocomoMaciasouCupido,em vezdeadorarfigurasmaisdignaspelasuafécristã,comooApóstoloSantoAn dré:D.JoãoManuelestabeleceumconfrontoentreamorsensualversus espiri tual,criticandooprimeiroelamentandoummundo ao revês. Atemáticamorale religiosadominaotexto,peloqueMaciasetodososseusseguidoresrepresentam umcontravalor,aencarnaçãodomalouogrupodo“imigo”:“Poetasoutrova dores/quedespendeisvossosdias/emdizercemmilprimores/deCopidoede Mancias,/dobemnamdizbemninguem,/omallouvaesdesigual,/soistrova doresdobem/ebendizentesdomal”(vol.I,nº138)–eisumaadoraçãoquenos trazàmemóriaorelatodeRodríguezdelPadrónnoSiervo libre de Amor, em que otúmulodeMaciasaparececomotemplodeperegrinaçãoreligiosa,ondesepro vam,àmaneiraartúrica,osverdadeirosamadores. ComoacontececomocasodeInêsdeCastro,comquecompartilhaomoti vodotrágicodestinopeloseuamorimpossívelepelasuaorigemgalega,amiti ficaçãodoNamoradoregistase,pelaprimeiraveznapoesiaportuguesa,noCan18 ApudKeithWhinnom,La poesía amatoria de la época de los Reyes Católicos,Dur ham,UniversityofDurham,1981,p.32.
MARIA ISABEL MORÁN CABANAS 482 cioneiro Geral,sendoveiculadanomoldetipicamentequatrocentistadaredondi lha.Maistarde,continuaráaserexploradanoutrosmetrosegénerosporautores comoLuísdeCamões,quenapeçateatraldo Auto de Filodemocomparaaspala vrassangrentasdeDurianocomasdeMacias,apartirdeumversoamiúdeglosa donorepertóriopoéticohispânico:“eseistonãobastar,salgan las palabras mas sangrientas del corazón, entoadasdefeição,quedigamquesouumMancias,e piorainda”.19Éclaroqueapresençadonossocativodeamornaliteraturalusase encontraintimamenteligadaàinfluênciadapoesiadeCastela:quaseumadéci mapartedostextosalicompiladosestãocompostosemcastelhanoe,independen tementedalínguautilizada,sobressaineleumverdadeiroapreçoeatéveneração pelosautoresdaCortevizinhaatravésdareferência(implícitaouexplícita),daci taçãoedaglosa–sobretudoemrelaçãoàtemáticaamorosa. 19 Reproduzimoseste–nalgumaocasiãoatribuídoaGarciSánchezdeBadajoz–em itálico.Cfr.PalomaDíazMas,“Algomássobreromances(ycanciones)enensaladas”, Nueva Revista de Filologia Hispánica,41,1993,p.237,eaediçãodoCancionero de Garcí Sánchez de Badajoz,preparadaporJuliaCastillo,Madrid,EditoraNacional,1980.