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A poiesis da natureza no Romantismo alemán

Nanes, Rafael de Freitas

Abstract

O primeiro romantismo alemão vem a produzir uma concepção de poesia não-mimética, em que o artista não mais imita a natureza, mas produz e é produzido por ela. Este trabalho busca compreender as origens dessa concepção de poesia na transformação do conceito de natureza operado pelas filosofias idealistas de Kant e Fichte. Esses filósofos viriam a entender a natureza não como um produto dado, mas através de um processo sintético de constituição. Buscamos, então, compreender como os românticos herdam e radicalizam essa ideia, vindo a entender a natureza como um processo poético, e a poesia enquanto um processo natural. Ao empreender este projeto, os românticos não só queriam aproximar a filosofia da poesia, mas o próprio pensamento da vida.

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1 MÁSTER EN FILOSOFÍA. COÑECEMENTO E CIDADANÍA TRABALLO DE FIN DE MÁSTER CURSO 2023/2024 A poiesis da natureza no Romantismo alemão Autor/a: Rafael de Freitas Nanes Titor/a: Dolors Perarnau Vidal 2 MÁSTER EN FILOSOFÍA. COÑECEMENTO E CIDADANÍA Traballo de fin de Máster A poiesis da natureza no Romantismo alemán La poiesis de la naturaleza en el Romanticismo alemán The Poiesis of Nature in German Romanticism Eu, Rafael de Freitas Nanes, declaro que este Traballo de Fin de Máster cumpre coa normativa de propiedade intelectual e de protección de datos vixente. Santiago de Compostela, 26/07/2024 3 Resumo O primeiro romantismo alemão vem a produzir uma concepção de poesia não-mimética, em que o artista não mais imita a natureza, mas produz e é produzido por ela. Este trabalho busca compreender as origens dessa concepção de poesia na transformação do conceito de natureza operado pelas filosofias idealistas de Kant e Fichte. Esses filósofos viriam a entender a natureza não como um produto dado, mas através de um processo sintético de constituição. Buscamos, então, compreender como os românticos herdam e radicalizam essa ideia, vindo a entender a natureza como um processo poético, e a poesia enquanto um processo natural. Ao empreender este projeto, os românticos não só queriam aproximar a filosofia da poesia, mas o próprio pensamento da vida. Palavras Chaves: Romantismo; Natureza; Poesia; Idealismo; Gênio. Resumen El primer romanticismo alemán produjo una concepción de la poesía no mimética, en la que el artista ya no imita la naturaleza, sino que produce y es producido por ella. Este trabajo busca comprender los orígenes de esta concepción de la poesía en la transformación del concepto de naturaleza operada por las filosofías idealistas de Kant y Fichte. Estos filósofos llegarían a entender la naturaleza no como un producto dado, sino a través de un proceso sintético de constitución. Buscamos, entonces, comprender cómo los románticos heredan y radicalizan esta idea, llegando a entender la naturaleza como un proceso poético y la poesía como un proceso natural. Al emprender este proyecto, los románticos no sólo quisieron acercar la filosofía a la poesía, sino el pensamiento mismo a la vida. Palabras clave: Romanticismo; Naturaleza; Poesía; Idealismo; Genio. Abstract The first German romanticism came to produce a conception of non-mimetic poetry, in which the artist no longer imitates nature, but produces and is produced by it. This work seeks to understand the origins of this conception of poetry in the transformation of the concept of nature operated by the idealist philosophies of Kant and Fichte. These philosophers would come to understand nature not as a given product, but through a synthetic process of constitution. We seek, then, to understand how the romantics inherit and radicalize this idea, coming to understand nature as a poetic process, and poetry as a natural process. When 4 undertaking this project, the Romantics not only wanted to bring philosophy closer to poetry, but thought itself to life. Keywords: Romanticism; Nature; Poetry; Idealism; Genius. Índice Introdução..................................................................................................................................5 1.A emergência de uma natureza sintética.............................................................................8 2.A leitura romântica de Fichte...............................................................................................15 3. Poesia e Natureza..................................................................................................................21 Conclusão ..................................................................................................................................27 Bibliografia................................................................................................................................29 5 Introdução O movimento romântico é popularmente conhecido por sua idealização da natureza, por sua aversão a regras, por sua poesia individualista e sentimental. Ele marcou em grande parte a história da literatura no século XIX e suas marcas na história do pensamento são claramente visíveis até hoje. O termo “romântico” caiu no gosto popular, e é ainda utilizado com um sentido parecido em relação às características que marcaram o movimento. O que não é muito conhecido é que o romantismo não nasce apenas como um movimento literário, mas suas raízes podem ser traçadas na própria história da filosofia ocidental. O romantismo não foi um movimento que surgiu apenas da interioridade do poeta, ou de uma necessidade de romper com um cânone literário ou com a tradição. Ele também foi um movimento filosófico que procurou pensar a relação do homem com o mundo natural, reflexionou sobre o que é o próprio ato poético, o que é a filosofia e a relação entre os dois. Os românticos procuraram pensar sobre como poderia ser a vida vivida de uma maneira poética. Assim, podemos ver que as características popularmente atribuídas a literatura romântica também foram frutos de uma elocubração conceitual e filosófica complexa. Este trabalho, então, procura traçar as raízes filosóficas desse movimento. Gostaríamos de demonstrar aqui que um dos impulsos principais do processo de constituição do romantismo foi a transformação conceitual da ideia de natureza ocorrida na filosofia alemã em fins do século XVIII. Essa transformação foi operada pelos famosos filósofos idealistas Immanuel Kant e Gottlieb Fichte. A natureza não mais seria vista como um todo dado, mas a partir de um processo sintético de constituição. Os filósofos românticos radicalizaram essa ideia, vindo a conceber a própria natureza como um processo de poiesis. A natureza será uma criação e recriação eterna, sempre sinteticamente se reconstituindo. O próprio poeta, um ser finito, também passará por uma criação e recriação infinitas. A radicalidade desde pensamento parece afastar os românticos das preocupações epistemológicas e morais de Kant e Fichte. Mas os próprios românticos não vão vir a considerar a sua filosofia como um rompimento, mas como uma continuidade em relação ao pensamento dos filósofos. O romantismo não deixará de ser uma filosofia idealista. E assim acreditamos ser o melhor jeito de traçar as origens desse movimento e sua relação com a natureza. Vejamos, então, como esse trabalho se justifica filosoficamente e como vem a se estruturar: 6 1.Metodologia e justificativa Como podemos fazer um trabalho filosófico sobre um movimento que, para muitos, é visto como literatura? Não pretendemos aqui tratar a literatura como um tipo de discurso que deva ser desprezado pela filosofia, sendo vista como sentimental ou irracional. Nem como um discurso que deva ser subordinado à filosofia, que deveria mostrar a verdade por detrás do discurso poético, fazer uma teoria da poesia. Para o romantismo, tanto a poesia quanto a filosofia são ações práticas. A metafísica romântica não é um empreendimento teorético para compreender a realidade, o ser. Ela é um empreendimento prático, criativo. Partindo de Fichte, então, os românticos vão considerar que o próprio ser é poiesis. Ele é criação, ação. Assim, não há como fazer uma ciência teorética da poesia fora da poesia. A única ciência da poesia possível se dá no ato de fazer a poesia. A ciência só se dá na ação. Assim, a única forma de falar de poesia já é estar inserida nela. A fronteira entre poesia e filosofia fica agora borrada. Apenas ao fazer poesia, que pode a filosofia fazer a crítica da poesia. A metafísica então não é mais externa à poesia, ela é interna a ela. O ato metafísico se torna um ato poético. A filosofia não mais deve ditar como a poesia deve ser portar, mas se deixar constituir pelo ato poético. É pelo ato poético, criador, que a filosofia vai realizar sua vocação. Este trabalho, então, se situa no movimento romântico de ruptura da barreira heurística entre filosofia e literatura. A poesia romântica se põe como filosófica e a filosofia romântica se põe como poética. Este trabalho trata de filosofia e poesia, então, pois para o romantismo não há como separar os dois. 2.Estrutura Na primeira seção, “A emergência de uma natureza sintética”, procuramos entender como as filosofia.de Kant e Fichte pensam o mundo, a natureza, desde um processo sintético. Consideramos que a emergência dessa forma de pensar foi muito importante para os românticos desenvolverem as suas próprias concepções de natureza e poesia. A segunda seção, “A leitura romântica de Fichte”, trata exatamente dessas transformações que os românticos realizaram no aparato conceitual da filosofia de Fichte e de como essas transformações os levam a desenvolver um pensamento próprio. Já na terceira seção, inseridos na forma de pensar dos românticos, vamos desenvolver mais a relação entre natureza e poesia e de como os românticos viam a vida. 7 Na conclusão, procuramos entender as consequências do movimento e da poesia romântica, e nos indagamos sobre o que, é, de fato, ser um romântico. 8 A emergência de uma natureza sintética Antes da revolução copernicana protagonizada por Kant, o mundo empírico, a natureza, era vista a partir de um processo de contiguidade temporal. A natureza era composta de uma parte sensível, que estava submetida as leis do tempo, e, consequentemente, era corruptível. E de uma outra parte, esta que dava forma ao mundo e as coisas, fora do tempo. O mundo seria composto de uma parte material, corruptível e incognoscível, e uma parte formal, conceitual, cognoscível. Da ideia platônica à forma aristotélica, este tipo de visão penetrou na história da filosofia ocidental. (VETÖ 1998:25-27) Essa visão da natureza, então, parte de uma visão contínua do tempo, que termina por ser vista desde um ponto de vista negativo. Uma das grandes novidades que trará a revolução copernicana é que o tempo não mais será visto enquanto um processo contínuo, mas sim enquanto uma síntese. Serão as sínteses temporais que constituirão o mundo, de forma imanente à própria natureza. A ordem e o mundo nascerão conjuntamente. A ordem conceitual não vem de fora, mas se torna a condição de possibilidade transcendental ao próprio mundo. O tempo agora será constitutivo e positivo. Vejamos como isso se dá na filosofia kantiana. É na estética transcendental da crítica da razão pura que Kant começa a desenvolver a sua teoria do tempo. Nesta seção, Kant analisa a sensibilidade humana desde as suas condições de possibilidade, ou seja, quais seriam as condições necessárias para que possamos sentir o mundo empírico tal qual ele aparece. Uma análise que também deve ser pura, não envolvendo outras faculdades, mas apenas a forma da intuição sensível. Vejamos como Kant explícita este projeto: “Na estética transcendental, por conseguinte, isolaremos primeiramente a sensibilidade, abstraindo de tudo o que o entendimento pensa com os seus conceitos, para que apenas reste a intuição empírica. Em segundo lugar, apartaremos ainda desta intuição tudo o que pertence à sensação para restar somente a intuição pura e simples, forma dos fenômenos, que é a única que a sensibilidade a priori pode fornecer.” (KANT 2001:89) Kant concluirá, então, que uma das formas puras da sensibilidade é o tempo. Tudo que intuímos no mundo se dá temporalmente: “O tempo é uma representação necessária que constitui o fundamento de todas as intuições. Não se pode suprimir o próprio tempo em relação aos fenômenos em geral, embora se possam perfeitamente abstrair os fenômenos do tempo. O tempo é, pois, dado a priori.” (KANT 2001:96) 9 Kant, pois, aprendeu com Hume que o conceito de causa não está inserido no tempo. Não existe nenhuma ligação pré-determinada de um momento temporal ao outro. Entretanto, nós experimentamos a realidade enquanto um fluxo temporal. Kant, então, vê que o tempo é uma forma pela qual experimentamos os dados sensíveis do mundo. É, ao experimentar o mundo, que os dados sensíveis tomam uma forma temporal. O tempo e a realidade se formam conjuntamente. O tecido do real é sinteticamente ligado pelo tempo. Por isso as coisas podem ter diferenças características e predicados. Não porque há uma substância ou ideia suprassensível fora do tempo, mas porque é o próprio tempo que sinteticamente une os predicados. O tempo unifica o múltiplo da experiência: “Aqui acrescento apenas que o conceito de mudança e com ele o conceito de movimento (como mudança de lugar) só é possível na representação do tempo e mediante esta; se esta representação não fosse intuição (interna) a priori, nenhum conceito, fosse ele qual fosse, permitiria tornar inteligível a possibilidade de uma mudança, isto é, a possibilidade de uma ligação de predicados contraditoriamente opostos num só e mesmo objeto (por exemplo, a existência de uma coisa num lugar e a não existência dessa mesma coisa no mesmo lugar). Só no tempo, ou seja, sucessivamente, é que ambas as determinações, contraditoriamente opostas, se podem encontrar numa coisa. Eis porque o nosso conceito do tempo explica a possibilidade de tantos conhecimentos sintéticos a priori.” (KANT 2001: 98) A doutrina kantiana do tempo chega a sua culminação no esquematismo transcendental. Essa doutrina visa explicar como as sínteses temporais dão inteligibilidade à existência e organizam o múltiplo empírico. Os esquemas são exatamente as diferentes formas como a faculdade da imaginação determina a priori a existência através do tempo segundo as suas regras. O esquema transcendental é aquele que é condição de possibilidade de tudo o que o ser humano poderia imaginar existir. Os esquemas dão a realidade as diferentes maneiras de estar em relação ao tempo, seja por número, causa, possibilidade, etc... (VETÖ 1998: 34-36) Eis, então, a consequência principal que os românticos e Fichte tomarão da teoria kantiana do tempo: A imaginação produz o real, o mundo é imaginado. A realidade é experimentada desde esquemas transcendentais da imaginação. Os esquema da imaginação moldam o tempo e dão regularidade a existência, como diz Fichte: “A regularidade procede somente do ser humano; ela o cerca e se estende até o limite de sua observação. À medida que ele expande esse limite, a ordem e a harmonia também são expandidas. Sua observação atribui a cada uma das coisas infinitamente diferentes seu devido 16 Estava ali em potência. Para os românticos também esse retorno da filosofia à vida é a consequência natural da filosofia transcendental, Fichte admitindo ou não. A doutrina da ciência só é estéril porque ainda não está realizando a que veio. Para deixar de ser estéril ela deve deixar de falar uma linguagem filosófica e falar a linguagem da natureza. Ironicamente, o romantismo leva o idealismo ao seu paradoxo: Ao tentar tanto criar uma instância transcendental separada do real, é que o idealismo mais vai mergulhar no real. É ao tentar mais sair da natureza, que ele se transformará em filosofia da natureza, como nos diz Suzuki: “O idealismo, levado por sua própria constituição interna a sair de si, acaba por se reencontrar com o dogmatismo-misticismo, de quem parecia ter se despedido para sempre. Ora, esse reencontro, longe de ser fortuito ou fruto de uma construção filosófica artificial, é antes o sinal de uma afinidade ou espírito complementar, verdadeira simetria entre Espinosa e Fichte e, aliás, uma "simetria do gênio, que realça tanto mais o talento individual de cada um deles” (SUZUKI 1998: 135) Assim, os românticos operam a mais absurda das aproximações. A aproximação da filosofia spinozista, dotada do monismo absoluto da natureza, com a filosofia fichteana, dotada do eu absoluto.O romantismo quer unir a doutrina da consciência à natureza real: “Toda filosofia da filosofia segundo a qual Espinosa não é filósofo tem de parecer suspeita.” (SCHLEGEL 1997: 96) A filosofia deve trazer o ideal até a realidade, deve trazer a consciência que tudo cria ao mundo dos homens: “Espírito é filosofia-de-natureza.” (SCHLEGEL, 1997, P. 33) E nele, deve idealizar esse mundo. Levá-lo a se transformar: “A física nada mais é do que a teoria da imaginação.” (NOVALIS 1997: 153) 13 A filosofia romântica, então, vai operar no meio entre a natureza e a consciência, entre sujeito e objeto, entre espírito e matéria, entre filosofia e vida. O romantismo quer filosofar desde um ponto de indiferença, quer falar da subjetividade do objeto, da objetividade do sujeito. Como diz Novalis. “Deveríamos simplesmente nos familiarizar com a matéria do espírito e com o espírito da matéria.”(NOVALIS 2003: 155) 14 Dessa forma, o romantismo vai navegar entre uma filosofia da vida e a doutrina da ciência. As duas, pois, precisam de uma ação. As duas são filosofias práticas, que devem ser unidas desde um ponto de vista neutro, como coloca Suzuki: “A filosofia da vida está em total acordo com a doutrinada-ciência na idéia de que o primeiro princípio exprime uma ação mas insiste neste ponto de maneira 13 Tradução nossa 14 Tradução nossa 17 mais incisiva que a própria doutrina-da-ciência, afirmando que essa ação é ao mesmo tempo um factum real, não só ‘produzido artificialmente por espontaneidade do filósofo.’” (SUZUKI 1998: 129) Ao tentar levar a doutrina da ciência a vida, o romantismo começa a operar uma transformação estrutural da filosofia transcendental. A filosofia não deve mais tratar do eu em geral, mas do eu específico, individual, pessoal, que tem uma vida e está no mundo. Deve tratar eu corpóreo, real: “COSMOLOGIA. Corpos naturalmente organizados – com o espírito a ser organizado artificialmente – Espírito naturalmente organizado e o corpo a ser organizado artificialmente. O corpo é o reino interior no mundo inverso, e o espírito é o exterior – o sólido – etc. Corpo flutuante – espírito flutuante. Todas as operações corporais são um pensamento inverso. O que está pensando, sentindo etc. aqui – está queimando, fermentando, empurrando etc.” (NOVALIS 2007: 24) 15 A filosofia já não deve ser a reflexão pensada de uma consciência universal. Ela deve ser individual. Deve refletir o filósofo que a constrói: “As expressões sua filosofia, minha filosofia, sempre fazem lembrar as palavras do Natã: ‘A quem pertence Deus? Que Deus é este, que pertence a um homem?’” (SCHLEGEL 1997: 61) A filosofia não é uma única doutrina da ciência. Ela se transforma sempre com a vida. “Podese somente vir a ser, não ser filósofo. Tão logo se acredita sê-lo, se deixa de o vir a ser.” (SCHLEGEL 1997: 55) Devemos ir além de Fichte. Fazer do idealismo uma verdadeira obra de arte real.: “Pessoas existem e vão existir — que são bem melhores para fichteanizar do que o próprio Fichte. Maravilhosas obras de arte poderiam vir a existir dessa maneira-assim que nós aprendermos a fichteanizar artísticamente.” (NOVALIS 1997: 49) 16 Toda filosofia, então, é mesclada. Não pode existir uma filosofia pura. Em nome dos princípios da filosofia transcendental, esta deve vir a vida real. A filosofia deve ser reinventada a cada vez. Deve atuar entre o real e o ideal, sempre em movimento cíclico, nunca em linha reta: “A filosofia ainda caminha demasiadamente em linha reta, e ainda não é suficientemente cíclica.” (SCHLEGEL 1997: 53) 15 Tradução nossa 16 Tradução nossa 18 Novalis brinca com essa relação da filosofia em geral e da filosofia particular de cada um. Diz ele: “A ciência / ideia do todo ou de um todo. / Diferença entre “A” e “um” // e uma ciência. /O Eu – Um Eu. (NOVALIS 2003: 157) 17 O filósofo já não deve mais ser um sábio apartado dos homens e da natureza. O gênio do filósofo estará em criar uma vida nova em meio aos homens. O gênio do filósofo deverá modificar não só a si, mas a vida comum. A doutrina da ciência, vindo agora de “um” eu, tem de ser transformada por dentro. Por mais que continue idealista e os românticos continuem a tarefa de expor a filosofia transcendental, essa exposição tem de ser agora individual. Deve falar nela a individualidade de cada um. Ela não pode ser copiada. Ela deve ser exposta em seu processo de criação, na própria poesia. Diz Novalis: “Eu livre e necessário – Não há sofrimento algum no eu. O eu é ação e produto ao mesmo tempo. Querer e representar são determinações recíprocas – o eu nada mais é do que querer e representar. O que se distingue do mundo exterior é o eu prático. Somente o eu prático pode ser percebido – porque este é também o verdadeiro eu fundamental. O eu na verdade não tem faculdades – só existe enquanto se põe e só se põe enquanto existe – /Ser um eu completo é uma arte – O Eu pode fazer e ser o que quiser. O Eu é mais ou menos de acordo com o que o Eu quer.” (NOVALIS 2003: P.192) 18 A filosofia romântica, então, vive nessa tensão entre o mundo e o eu. Para realizar a filosofia, o filósofo deve transformar o mundo de acordo com a sua consciência individual. Fazer filosofia deve ser transformar o mundo. Uma filosofia romântica, então, tem como fim a própria romantização do mundo. Mas, como coloca Beiser, isso sempre será um ideal regulatório e a exposição nunca será completa. O romantismo não deixa de ser uma urge eterna, um processo infinito, para nunca pararmos de atuar e ver beleza no mundo: “Em ambos os casos, o poder da vontade deve ser estendido ainda mais sobre a nossa natureza - ‘tudo o que é involuntário é transformado em algo voluntário’ (nº 273; II, 589) - para que o mundo que percebemos seja feito para se aproximar do mundo em que queremos viver. Novalis às vezes levava seu pensamento utópico ao extremo, postulando o ideal de um controle completo sobre a natureza, para que nós, seres humanos, finalmente atingíssemos o status de Deus (nos. 78, 320; III, 253, 297). Embora isto pareça fantástico e até perverso, é importante sublinhar 17 Nossa Tradução 18 Tradução nossa 19 que Novalis, tal como Fichte, via-o apenas como um ideal regulador que poderíamos aproximar, mas nunca alcançar.” (BEISER 2002: 423) 19 Para os românticos, não só a doutrina da ciência separada do mundo é estéril. O mundo sem a filosofia transcendental também o é. Os dois acabam desprovidos de beleza, de poesia, de criação. O próprio da natureza é sempre se transformar, sempre criar o novo. O próprio do espírito também. Mas a forma sempre precisa da matéria. A natureza e o espírito separados são vazios. Essa é a base do idealismo romântico. O espírito na natureza deve resultar em poesia. O romantismo é a vontade feita estética, como explica Beiser: “Ele então levou esse elemento voluntarista do pensamento de Fichte à sua conclusão final quando escreveu que a vontade é nada menos que ‘a base de toda a criação’ (nº 512; II, 354). Agora, se somarmos o princípio de Kant de que conhecer é fazer com a doutrina de Fichte de que fazer depende do querer, chegaremos à visão de que o mundo que conhecemos e no qual vivemos depende da própria vontade. O que Novalis acrescenta a estes elementos kantianos e fichteanos é uma dimensão estética: que a vontade deve criar o mundo de acordo com os padrões de beleza, para que este se torne uma obra de arte. Segundo a própria definição de Novalis, o idealismo mágico é a doutrina romântica porque o romantismo está transformando o mundo em uma obra de arte, para que ele recupere sua magia, mistério e beleza.” (BEISER 2002: 424-425) 20 É com a natureza se espitualizando, com o espírito se naturalizando, que o romantismo se torna possível. A filosofia deve cair a realidade, a vida deve subir a idealidade:“O mago é um poeta.” (NOVALIS 1997: 79) 21 A poesia cria um novo real, tranforma o mundo. O espírito deve se harmonizar com a natureza, não lutar com ela. O processo de criação deve ser conjunto. “O que é a natureza? Um índice ou plano sistemático enciclopédico do nosso espírito. Por que deveríamos nos contentar com o mero catálogo de nossos tesouros — vamos examiná-los por nós mesmos — e trabalhar com eles e usá-los de diversas maneiras.” (NOVALIS 1997:76) 22 Como nos diz Novalis, o próprio entendimento deve virar fantástico, e a fantasia deve se transformar em racional. O mundo é uma ficção, um poema, que sempre toma uma nova forma: “Fantasia, compreensão, memória, etc. são formas de agir que podem ser modificadas das mais diversas formas. Por exemplo, existe uma compreensão fantástica – uma fantasia compreensiva – em suma, são os acidentes necessários de um ser racional – que só se tornam algo 19 Tradução nossa 20 Tradução nossa 21 Tradução nossa 22 Tradução nossa 20 em combinação – porém, onde ora predomina um, ora outro – são as formas de expressão do eu. atuando em determinadas esferas intercambiáveis.” (NOVALIS 2003: 194) 23 A vida, então, se manifesta exatamente neste encontro de idealidade e realidade: “Razão e individualidade em atividade harmônica - é força vital. Teoria da força vital.” (NOVALIS 2003: 157) 24 Assim como sujeito e objeto se interpenetram no romantismo, homem e mundo também. “FILOSOFIA. Produto da harmonia entre sujeito e objeto – sua mistura química, seu contato mecânico” (NOVALIS 2007: 42) 25 Dentro do homem, pode caber todas as potencialidades criativas do universo. E dentro do universo, toda a personalidade de um ser humano. Tudo é uma obra de arte. Nos explica Suzuki: “O mundo é um indivíduo potencializado, assim como o indivíduo não passa de um universo condensado. Por isso não se trata absolutamente de dissolver a filosofia individual na filosofia do universo, ou vice-versa. Ao invés de escolher um dos focos da elipse, é preciso, ao contrário, procurar o ponto de indiferença entre eles, entre filosofia e poesia, lógica e crítica, ideal e real,unidade e universalidade é preciso encontrar o ponto absoluto onde ‘razão e desrazão [Uvernunfi] se saturam e interpenetram" e onde tocamos os deuses.’. (SUZUKI 1998:133) A filosofia, agora transformada em produto artístico, não tem como não se aproximar das outras artes tradicionais. O gênio do filósofo não pode mais ser, como em Fichte, a capacidade de ir além do pensamento comum. Ele deve se equiparar ao gênio do artista. 23 Tradução nossa 24 Nossa Tradução 25 Nossa Tradução 21 Poesia e Natureza Em Kant, vemos que o gênio era aquele que criava uma regra nova para a arte, e não aplicava o que já estava dado: “O gênio é um talento para produzir aquilo para o qual não se pode fornecer nenhuma regra determinada, e não uma disposição de habilidade para o que possa ser aprendido segundo qualquer regra; consequentemente, originalidade tem de ser sua primeira propriedade.”(KANT 1995: 153) Entretanto, a genialidade é uma habilidade doada pela natureza ao indivíduo, que não pode passar essa habilidade para outros, apenas podendo ser imitado. Apenas alguns poucos podem ser geniais. (KANT 1995: 153-155) Como vimos, para os românticos o universo em si é poesia. É criação. Dessa forma, a genialidade não pode ser uma dádiva de poucos. Ela deve ser o elemento pelo qual a própria natureza dá a si mesmo uma nova regra. Se a natureza é uma criação infinita, ela só pode ser genial, dando saltos por cima de si mesma: 22 “TEORIA DA NATUREZA. A natureza se altera por saltos. / Consequências disso. As operações sintéticas são saltos – (intuições – resoluções). Regularidade do gênio – do saltador por excelência.”(NOVALIS 2007: 28) 26 O Gênio, então, não é uma exceção como em Kant. Ele é regular. Toda a natureza está repleta de gênios. Mas devemos ir ainda mais além. Para Schlegel, devemos caminhar rumo ao gênio do gênio: “Quem procura, duvidará. O gênio porém diz tão atrevida e seguramente o que vê passarse dentro de si porque não está embaraçado em sua exposição e, portanto, tampouco a exposição embaraçada nele. mas sua consideração e o considerado parecem consoar livremente, unificar-se livremente numa obra única. Quando falamos do mundo exterior, quando descrevem os objetos efetivos, então procedemos como o gênio. Sem genialidade todos nós simplesmente não existiríamos. Gênio é necessário para tudo. Aquilo, porém, que de costume se denomina gênio, é gênio do gênio.” (SCHLEGEL 1997: 97-98) A verdadeira criação sempre é múltipla. O gênio do gênio é uma multiplicação da criação infinita da natureza. É o esforço infinito de nos criarmos enquanto gênios. Mas a genialidade é apenas individual. Por vir da natureza ela é sempre atravessada. Não há nenhum gênio isolado, toda criação deve ser dar conjuntamente. A pessoa é sintética, como indica Novalis: “TEORIA DA PESSOA. Uma pessoa verdadeiramente sintética é aquela que é muitas pessoas simultaneamente – um gênio. Cada pessoa é a semente de um gênio infinito. Eles podem estar divididos em numerosas pessoas e ainda assim ser um só. A verdadeira análise da pessoa como tal produz pessoas – a pessoa só pode ser isolada, separada e dividida em pessoas. Uma pessoa é uma harmonia – não uma mistura, não um movimento – não uma substância, como a “alma”. Espírito e pessoa são um. (A força é a causa.) Cada expressão pessoal pertence a uma pessoa específica. Todas as expressões da pessoa pertencem ao mesmo tempo à personalidade inespecífica (universal) e a uma ou várias personalidades específicas. Por exemplo, uma expressão, como ser humano, cidadão, pai de família e escritor, tudo ao mesmo tempo.” (NOVALIS 2007: 10) 27 O mundo é sintético. Nada é uma individualidade dada. Todo pensamento nasce do múltiplo do infinito. Toda poesia deve ser sinpoesia. Toda filosofia que se pretenda genial, deve ser capaz de ser criada e recriada por muitos. Deve ser atravessada pela natureza, pelas artes. Deve ser sinfilosofia. 26 Tradução nossa 27 Tradução nossa 23 Para os românticos, sinfilosofia e sinpoesia são conceitos criados para expressar como se dava a criação conjunta. A filosofia nasce da troca de ideias com outras pessoas, com a tradição, com o mundo. A poesia idem. Toda subjetividade está em processo de constituição, assim como a natureza. Não há genialidade solitária. Tudo se interpenetra no universo. Como coloca Novalis, o cosmos é heterogêneo, sempre misturado, atravessado: “COSMOLOGIA. Deve haver ciências infinitas, seres humanos infinitos, moralistas infinitos, divindades infinitas, assim como existem quantidades infinitas. Coisas heterogêneas só podem se aproximar.”(NOVALIS 2007: 10) 28 A sinfilosofia e a sinpoesia não são apenas conexões com o exterior. A nossa subjetividade interior também não é una. Ela também tem a sua heterogeinidade: “Se na comunicação de pensamentos se alterna entre entendimento e não-entendimento absolutos, isso já pode ser chamado de uma amizade filosófica. Mas com nós mesmos não nos damos melhor. E a vida de um homem que pensa é outra coisa que uma constante sinfilosofia interior?” (SCHLEGEL 1997: 45) Assim como o sujeito é heterogêneo, o objeto também. A linguagem também. Nada se completa totalmente. Tudo é pedaço. É fragmento. Os românticos, então, criam uma revista chamada Athenaeum para publicar seus trabalhos filosóficos e literários. O curioso é que muitos dos escritos dos românticos foram publicados na forma de fragmento, sem autoria: “Sin objetivo y sin autor, los Fragmentos de Athenaeum aspiran a plantearse, en alguna medida, por sí mismos, absolutamente.” (NANCY; LACOUE-LABARTHE 2012: 82) A poesia, pois, não tem um objetivo a cumprir. Sua única tarefa é si mesma. Produzir, poetizar, criar. Mas criar uma obra acabada, perfeita? Não, o processo de criação é infinito, é o próprio processo de criação da natureza. Há de criar o novo, o que não está aí. O próprio artista vai sendo criado pela natureza a cada momento em seu processo de criação. O fragmento é a expressão desse inacabamento que sempre vai gerando algo novo. O fragmento nunca é definitivo, mas ele é em si testemunha desse processo que vai se renovando: “En este sentido, todo fragmento es proyecto: el fragmento-proyecto no funciona como programa o prospectiva, sino como proyección inmediata de lo que, sin embargo, no acaba.”(NANCY; LACOUE-LABARTHE 2012: 87) 28 Tradução nossa 24 “TEORIA DO PRAZER DA VIDA. Quanto mais uma pessoa cultiva artisticamente o seu sentido de vida, mais a desarmonia também lhe interessa – por causa da dissolução.Harmonia simples – (melodia) – harmonia complexa e múltipla. (harmonia analítica-sintética).” (NOVALIS 2007: 33) 29 Não só sujeito criativo, o filósofo agora também é objeto de criação da natureza. A natureza também cria e se transforma através do filósofo. Eles se atravessam mutuamente. E assim, o filósofo deve aprender a conviver com a natureza, a ver os seus sinais: “Muitos daqueles a quem se chama de artistas são propriamente obras de arte da natureza.” (SCHLEGEL 1997: 21) Como descreve Beiser, o propósito do idealismo romântico é uma harmonia criativa com a natureza: “O propósito do idealismo mágico é dar-nos poder sobre nós mesmos e sobre a natureza, com certeza, mas esse poder não consiste simplesmente em ser ativo, em criar a natureza e fazêla conformar-se à nossa vontade. Pelo contrário, consiste também em ser passivos, em aprender a integrar-nos com a natureza e a receber os seus estímulos. Ao contrário de Fichte e mais como Schiller, o objetivo de Novalis não é a aniquilação do reino da sensibilidade, mas a unidade dos nossos poderes, um todo estético onde a atividade e a sensibilidade, o sentido interior e exterior, estão harmonizados um com o outro. (BEISER 2002: 424) 30 A filosofia, então, deve se harmonizar com o universo. A consciência e a natureza criam e se atravessam mutuamente. O universo é sempre criado e recriado. Ele é o resultado constante e dinâmico da vontade dos seres que nele habitam. O finito constitui o infinito e é sempre atravessado por ele. Assim, o romantismo é a luta para que o universo seja romantizado, tornado mais belo, mais nobre. E que nos tornamos mais belos e nobres com ele: “TEORIA DO HOMEM. O homem pode assim enobrecer tudo (torná-lo digno de si mesmo), se assim o desejar.”(NOVALIS 2007:27) 31 O romantismo quer romantizar o mundo. Unir cada vez mais o subjetivo e o objetivo. O universal e o particular: “ROMANTISMO. Absolutização — universalização — classificação do momento individual, da situação individual, etc. é a verdadeira essência da romantização.”(NOVALIS 2007: 14) 32 O nosso sonho subjetivo deve ser buscado infinitamente até 29 Tradução nossa 30 Tradução nossa 31 Tradução nossa 32 Tradução nossa 25 a realidade: “Estamos próximos do despertar, quando sonhamos que sonhamos.” (SCHLEGEL 1997: 98) Romantizar é se inspirar cada vez mais, estar cada vez mais sujeito à força do incondicionado para criar ainda mais: “Há escritores que bebem o incondicionado como água; e livros em que até os cães se referem ao infinito.” (SCHLEGEL 1997: 29) Romantizar também é criar o público para que as suas ideias possam chegar. É entrar em sinpoesia com o leitor por vir: “O escritor analítico observa o leitor tal como é; de acordo com isso, faz seus cálculos e aciona suas máquinas para nele produzir o efeito adequado. O escritor sintético constrói e cria para si um leitor tal como deve ser; não o concebe parado e morto, mas vivo e reagindo. Faz com que lhe surja, passo a passo, diante dos olhos aquilo que inventou, ou o induz a que o invente por si mesmo. Não quer produzir nenhum efeito determinado sobre ele, mas com ele entra na sagrada relação da mais íntima sinfilosofia ou simpoesia.” (SCHLEGEL 1997: 38) É possível ver claramente na arte este jogo romântico de interpenetração do finito com o infinito: “Só pode ser um artista aquele que tem uma religião própria, uma visão original do infinito.” (SCHLEGEL 1997: 146) Ele é o veículo por excelência pelo qual o cosmos transforma a si mesmo. A poesia, enfim, é a constituição final do romantismo. É o pensamento feito criação. O impulso que transforma o mundo e a natureza. Podemos, então, realmente ver na poesia romântica o esforço infinito do romantismo de poetizar o mundo? A atuação do gênio poético que saltará sobre a natureza constituída e a reconfigurará? Seria proveitoso ver um exemplo do romantismo histórico, para compreendermos melhor como os românticos encaravam a sua arte. Samuel Taylor Coleridge foi um poeta romântico inglês cuja obra encarna bem a visão de mundo dos românticos. Em sua poesia, podemos ver que o que interessa a ele não é fazer um retrato da natureza ou dos sentimentos humanos, mas poetizar a vida e dar sentido a ela. Vejamos como isso ocorre em seu poema, “Work without hope”: “Work without hope All Nature seems at work. Slugs leave their lair— The bees are stirring—birds are on the wing— And Winter slumbering in the open air, Wears on his smiling face a dream of Spring! And I the while, the sole unbusy thing, Nor honey make, nor pair, nor build, nor sing.