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A dimensão da afetividade identitária: literatura, língua e normas ortográficas na Galiza. Uma proposta de aproximação

Torres Feijó, Elias J.

Abstract

O presente trabalho propõe tomar em consideração a componente afetiva na construção identitária individual e coletiva. São formulados os conceitos de identidade afetivizada (a assunção sentimental de elementos identitários: o elemento identitário gera afetividade) e afetividade identitária (o resultado numa identidade a partir dum elemento ou duns elementos mediadores não necessariamente vinculados de modo linear com o objeto da identificação). Aplica-se em concreto à questão ortográfica no caso galego e como essas componentes podem incidir nas elaborações afetivas das pessoas em relação à conceção da língua, à literatura e aos afetos e orientações de leitura; e como essas orientações se relacionam com o próprio conceito de nação e das suas relações externas.

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Professor Doutor da Universidade de Santiago de Compostela (USC), Santiago de Compostela, Galiza, Espanha. Diretor do Grupo Galabra - USC (de Estudos nos Sistemas Culturais Galego-Luso-Brasileiro e Africanos de Língua Portuguesa). E-mail: [email protected] Nesta direção, Mellucci (2001) aborda construtivistamente a questão da emoção e do “emotional investment” nos movimentos sociais e na ação social; um trabalho fundamental. Para uma visão geral das emoções do ponto de vista antropológico, pode ver-se David Le Breton (2004) Les Passions ordinaires. Anthropologie des émotions. Na questão nacional e as emoções, Pérez (2014) realiza uma interessante abordagem do caso argentino a partir da crise de 2001-2002. Como é sabido, Max Weber (2000) já chamara a atenção sobre o fator emocional na elaboração da nação e da identidade nacional e a sua relação com outras dimensões comunitárias e sentimentos individuais e coletivos. * 1 A dimensão da afetividade identitária: literatura, língua e normas ortográficas na Galiza. Uma proposta de aproximação Elias Jose Torres Feijó* A questão identitária e da identidade da comunidade pode ser focada de muitos pontos de vista e, consequentemente, de muitas disciplinas, mesmo com perspectivas interdisciplinares ou, até, transdisciplinares. Com efeito, ela pode ter focagens bem diversas e, no que diz respeito à comunidade, desde análises estruturalista-funcionalistas a simbólico-cognitivas, ecológicas, histórico-materialistas, construcionistas, etc., situando-se a que aqui utilizarei e segundo os antropólogos (Marinho; Azevedo; Pereiro, 2023) no âmbito simbólico-construtivista1. Quanto à construção identitária, dous conceitos podem ser úteis para entender os modos em que as pessoas e as comunidades se relacionam com os objetivos que têm a ver com essa construção identitária e as mudanças que nesse construto, plural, complexo, contraditório, podem ser operadas: “identidade sustentável” ou “sustentabilidade identitária” e “identidade afetiva” ou “afetividade identitária”, que visam a explicação de decisões e ações individuais e coletivas nesses termos identitários e dar lugar à elaboração de parâmetros e indicadores que, além da análise, permitam medir a coesão e formas de vida comunitárias e a predição de evoluções futuras e a eventual planificação de agentes. Os conceitos assinalados foram formulados (Torres Feijó, 2013, 2015, 2019), para analisar, fundamentalmente, atitudes e comunidades locais e visitantes na sua recíproca relação na esfera turística, em particular, e, mais em concreto, aplicada ao caso de Santiago de Compostela e os Caminhos de Santiago, de cuja formulação fazemos aqui uma breve síntese... São assuntos que, além de questões identitárias e com elas interrelacionadas, se prendem com a coesão social, a (auto)perceção, a autoestima, e a mesma continuidade da comunidade como tal, na afetação de hábitats, modos de vida e recursos. Por exemplo, e na interação da comunidade local com o exterior, as procuras e o comportamento, os usos e consumos de visitantes podem alterar aspetos nucleares de (setores de) uma comunidade dada e conduzir a crises de diversos tipos, social, simbólico, cultural, económico, político... Situamo-nos na consideração do repertório desses construtos no entendimento de que a cultura pode ser perspetivada como bem e/ou como ferramenta, (Lotman; Unspenskij, 1978; Even-Zohar, I D DOI: 10.24261/2183-816x0239 1999; Even-Zohar; Torres Feijó; Monegal, 2019 para uma revisão na atualidade), qualquer cousa preciosa e/ou instrumental, e que eles podem ser assumidos livremente mas que, em muitos casos, são resultado de imposições (muitas também necessárias para a vida comunitária) reveladoras do consenso social, no sentido que Gramsci (1975, p. 143-144) dá ao conceito de consenso. A conservação da sustentabilidade depende da capacidade do coletivo em questão de assumir um consenso através da sua própria soberania que garanta a sua suficiência sistémica, a possibilidade de autodefinir-se e implementar essa definição (Torres Feijó, 2000, 2019). Mas pode igualmente provir duma imposição externa ou de setores minoritários, com maior ou menor contestação no conjunto social em que intervêm. A capacidade e alcance dessa contestação, o grau e conjunto de inovações e hierarquias, entre outros fatores, condicionarão, obviamente, o decurso e a mesma existência da comunidade desde os termos de que partia. Na utilização da literatura como expressão da nação (vid. Torres Feijó, 2012a; Torres Feijó, 2012b, para casos controversos na historiografia literária portuguesa), aquela é submetida a uma seleção por parte dos grupos dominantes para articulá-la com os conceitos de nação, e de verdade, beleza e de qualidade que naquela seleção são projetados, que passam por universais quando realmente são resultados dum processo de canonização, com inclusões, hierarquias e exclusões. Nessa esfera, há textos e autorias que aparecem como modelares dalguma ideia vinculada àquelas categorias, que acabam por ser propostos e, geralmente, impostos, como bens individuais e, sobretudo, sociais, coletivos, fundamentos de coesão social, bens preciosos, afetivizáveis, e ferramentas para entender (aspetos de) a comunidade. O conjunto de elementos identitários não é naturalmente estático e a sua hierarquia, uso e evolução (incluindo a afeição ou desafeição a eles de setores sociais) depende, entre outras cousas, das dinâmicas grupais, que podem levar a alterações, substituições, acréscimos ou supressões. Se a comunidade continuar a funcionar na sua (auto-)delimitação, estaremos perante casos de sustentabilidade identitária. Alargamentos ou estreitamentos dessa comunidade, modificações de estatutos, etc., podem estar indicando problemas de sustentabilidade da comunidade primária, ainda que, em casos, essas fórmulas podem ser resultados de decisões para a continuidade de determinados núcleos ou da comunidade no seu conjunto. Outros setores, excluídos ou autoexcluídos (por esse processo ou por compartilhar um mesmo espaço geo-humano mas sem estarem vinculados a essa comunidade) tendem a manifestar comportamentos parassistémicos, agindo, no todo ou em parte, à margem do sistema comunitário dominante. Setores diversos podem sentir-se fazendo parte duma determinada comunidade ainda que tenham usos (de elementos) identitários diversos e até contraditórios com outros setores. Enfim, a comunidade pode promover ou aceitar mudanças sem fortes tensões ou, inversamente, viver essas mudanças como uma ameaça à estabilidade, levando à exclusão de alguns setores que costumavam estar integrados. Em qualquer caso, a questão do (des-)afeto e da afetividade desempenham, claro, uma papel crucial na comunidade e na identidade comunitária. Podemos considerar dous planos na geração ou na interação de identidade e afeto. Um deles pode ser a assunção sentimental de elementos identitários; por exemplo, pessoas que se identificam A dimensão da afetividade identitária: literatura, língua e normas ortográficas na Galiza. Uma proposta de aproximação Veredas: Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, n. 39, p. 14-36, jan./jun. 2023 15 sentimentalmente com uma bandeira ou com um livro ou com um rito em que está projetada parte da sua identidade (e que podem ganhar valor coletivo quando compartilhados por outros membros ou setores dessa comunidade). Podemos denominar estes fenómenos como identidade afetivizada: o elemento identirário gera afetividade, sustentando essa identificação também no afeto gerado, que representa, regra geral, um conjunto de sentimentos e bens simbolizados polo elemento em causa. Outro plano é o resultado numa identidade a partir dum elemento ou duns elementos mediadores não necessariamente vinculados de modo linear com o objeto da identificação. A afetividade torna- - se identitária, sem que a priori o vínculo entre o objeto ou o fenómeno que provoca a afetividade e a posterior elaboração identitária existissem. A afetividade identitária pode conduzir a ações ou, mesmo, identificações posteriores, que não estavam no horizonte das pessoas e que não teriam lugar sem essa afetividade. Ela é, pois, canal, para outras atividades ou afetos. As projeções sobre os objetos, determinadas por uma adesão sentimental primeira e primária ou por uma secundária, são ou simultâneas ou habitualmente posteriores, a posteriori e envolvem justificações que se compadeçam com a decisão prévia (a identificação com o objeto). Essa afetividade vinculada a identidades é, em muitos casos, o motor da ação e da atitude das pessoas ou do coletivos. E, sustida no tempo, essa afetividade gera lealdades e, até, fidelidades, difíceis de quebrar. Um caso relevante pode ser o d@s intelectuais que, pola sua exposição pública e os valores a el@s atribuídos (por exemplo a coerência e o altruísmo) tendem a tentar reificar e fixar-se nas propostas primariamente assumidas ou a formular como interesses coletivos o que são, ao menos também, interesses individuais, muitas vezes para não perder as posição e função ganhas no campo. Ganhos e perdas, segundo os casos, de posições e capitais estão em jogo; e, igualmente, devem tentar justificar e situar a esfera afetiva da identidade previamente elaborada nas novas realidades. De resto, tenhamos presente que o campo de produção ideológica apresenta como regra de jogo, entre outras, a racionalidade, quando, em muitos casos, a base de determinadas tomadas de posição é afetiva. Uma pessoa ou um coletivo pode tornar-se em ecologista e fazer disso elemento crucial da sua identidade a partir da defesa dum território rural dum membro do coletivo passível de ser expropriado para instalação duma determinada indústria. A comunidade dum lugar pode impulsar ações de índole identitária vinculadas ao cinema (festivais, espaços, etc.) e fazer disso um elemento identitário a partir duma roteirista famosa nascida nesse lugar. Não é uma razão ecologista nem cinéfila a que está na base dessas afetividades tornadas identitárias mas o vínculo com um amigo ou o orgulho (ou a oportunidade) de capitalizar a fama duma pessoa. Houve uma mediação afetiva que gerou e conduziu ao desenvolvimento dum elemento identitário. São esses vínculos afetivos os que estão na base de alguns funcionamentos identitários comunitários que não lembram/têm presente a origem delas ou os sentimentos que a eles deram lugar. Referidos à esfera sentimental, esses elementos podem enfrentar-se a outros que querem ser impostos ou a que é preciso (por qualquer razão) aderir, gerando conflitos, individuais ou coletivos; e vice-versa. Os usos linguísticos em sociedades em que funcione mais duma língua ou com diversas variedades disponíveis (acessíveis ou não) em cada circunstância, é, sabemo-lo, um caso modelar (Herrero Valeiro, 2021, p. 35-56, faz uma valiosa síntese de alguns processos). Em contextos linguísticos conflituosos, a diminuição no uso da língua da própria comunidade (em setores jovens, por Elias Jose Torres Feijó Veredas: Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, n. 39, p. 14-36, jan./jun. 2023 16 caso) ou da sua qualidade e valoração2 pode ser interpretada como um sinal de enfraquecimento do valor de identificação do item; mas isso não implica a diminuição do valor simbólico dessa língua, que mesmo poderia aumentar, tornando o apoio (não necessariamente o uso) em mecanismo decisivo para o desenvolvimento de novas políticas para manter e aumentar o uso da língua com outras perspetivas, estando cientes desse apoio simbólico (ainda que esses setores não a usassem, ao menos no princípio). Se aplicado o anteriormente referido à questão da língua e dos usos linguísticos, dos seus níveis diafásicos, diastráticos, diatópicos, e nas escolhas normativas, em segundo que quadros de situação e trajetórias das pessoas utentes, os seus efeitos para a aceitação, exclusão, preterição, minuse sobrevalorização das pessoas para segundo que grupos sociais ou comunidades são conhecidos. E nas possibilidades de acesso, mobilidade ou bem-estar que podem ou não impulsar, negar ou fornecer. Usos, escolhas, trajetórias, cuja hierarquia e compartição comunitárias também não têm que ser coincidentes nem terem iguais repercussões segundo quem as praticar ou não. De facto, a capacidade de escolha ou transgressão das diversas agentes pode ser maior ou menor segundo o estatuto e as possibilidades que a cada quem conferem os quadros relacionais e os objetivos pretendidos. No âmbito linguístico comunitário, há elementos que funcionam como regras para poder participar em aspetos da vida comunitária, seja ela qual for (e que podem funcionar para subsetores comunitários e não para outros nem para o conjunto), que podemos denominar normas sistémicas (materiais ou regras de repertório na perspetiva analítica de Even-Zohar (2000), e outras que conferem maior genuinidade aos usos, que denomino normas do repertório. A sua função é também delimitadora, resultado da imposição por meio de certos grupos como legítimos do que Pierre Bourdieu denominou princípios de visão e divisão (Bourdieu, 1994). Por exemplo, praticar usos linguísticos reconhecíveis como próprios pola comunidade onde a escala de matizes e efeitos depende das agências (entenda-se: pessoas, grupos e entidades que atuam ou a mesma capacidade de agir) interlocutoras e das trajetórias das pessoas; pense-se, por caso, na burguesia urbana ou em emigrantes com pouco domínio dos seus estándares). Essas normas e usos delimitam, diferenciam, coesam ou não os diversos coletivos a considerar, mesmo em termos de pertença ou exclusão e as posições e funções neles3. Veredas: Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, n. 39, p. 14-36, jan./jun. 2023 17 A dimensão da afetividade identitária: literatura, língua e normas ortográficas na Galiza. Uma proposta de aproximação É mui valiosa a tese de Domínguez (2000), centrada num grupo juvenil rural e a sua perceção dos seus usos linguísticos, num continuum do galego a espanhol mas que ele (auto)interpreta como galegófono. Como é conhecido, existe uma extensíssima bibliografia sobre os processos que vinculam língua e afetividade, de várias perspetivas, com especial atenção à aprendizagem de segundas línguas, mesmo em relação a variantes mais ou menos legitimadas (por exemplo, para o caso da variante andaluza do espanhol, vid. Crismán-Pérez e Núñez-Vázquez (2020) que obviamente não podemos abordar neste trabalho. Referimos apenas algumas direções que nos parecem novidosas e úteis. Como exemplo de avanços nas estratégias de aprendizagem das segundas línguas podemos citar Aronin (2012) sobre cultura material e afetividade. É particularmente relevante, para o caso de conflitos, o trabalho de Smith-Christmas (2018) sobre a função afetiva familiar na aprendizagem do gaélico escocês. Em geral, sobre as condições neurobiológicas afetivas na língua, pode ver-se o clássico Schumann (1997). Relativamente à afetividade identitária, é de interesse a perspetiva usada por Escudero e Reina (2021) na abordagem relativa à configuração dos conceitos de identidade e memória, com base em experiências onde fica patente a dimensão afetiva da identidade e o seu caráter de vínculo identitário. Tendo presente o componente afetivo na dimensão identitária coletiva no quadro dos nacionalismos no estado espanhol, pode ver-se Gil Hernández (2019). Comportamentos sociais a partir das identidades corporais e a dimensão dessa identidade em Cena (2015). 2 3 Convém explicitar que, ao lado de elementos identitários afetivizados ou convertidos em identitários através de processos afetivos, há outros de índole diversa. Por caso, aqueles que se consideram representativos ou emblemáticos da comunidade, em que o afeto pode não desempenhar papel nenhum; ou que o desempenhou mas agora não o desempenha. E tanto ad intra como ad extra da comunidade; tanto para o seu interior como para a sua imagem, projeção e/ou relacionamento externo. Se o elemento afetivo ou afetivizado se situa na sua génese e funcionamento dentro da comunidade (ainda que, depois, possa vir a jogar papéis relevantes no âmbito exterior), o emblemático atua no duplo sentido, interno e externo. É verdade que pode haver casos em que a afetividade seja provocada ou promovida por agências externas, mas é sempre o coletivo comunitário que se sente vinculado quem o eleva à categoria identitária afetiva. Não assim na vertente emblemática, que pode existir com independência dos afetos. Por exemplo, identificar externamente uma comunidade com determinados usos culturais ou económicos ou colocar determinados elementos, materiais e imateriais, como emblemáticos dela pode funcionar externamente (e internamente), com independência dos afetos e com independência do grau de generalização dessa identificação no conjunto comunitário. Ou, para falarmos de literatura, considerar Camões e/ou Os Lusíadas elemento emblemático de Portugal sem isso conduzir necessariamente a nenhuma afetivização. É oportuno indicar que, sendo de constituição (e modificação) nitidamente interna, isso não significa que ela possa ver-se afetada por motivos externos. Por exemplo, polos graus de aceitação que, como elemento identitário possa ter no exterior e os efeitos que isso possa ter na comunidade. Imaginemos um produto artesanal que é pouco ou nada procurado externamente ou um espaço público saturado polo exterior, que pode ter repercussões, positivas ou negativas, nos afetos identitários da comunidade. Normalmente, a comunidade tende a afetivizar outros elementos (como) identitários para suprir a afetação doutros, sobretudo nas funções que ocupavam aqueles. Por vezes, lentamente; outras, em paralelo ao elemento substituível; noutras, com grande rapidez; certamente, noutros casos não há substituição e manifestam-se atitudes diversas das citadas, que não são monolíticas, obviamente; tampouco, claro, no âmbito sociolinguístico. Do ponto de vista em que aqui nos situamos, são processos em que a comunidade ou coletivos dela reagem para continuar conservando hábitats, coesões, possibilidades mas que podem causar danos irreparáveis ou insubstituíveis para essa comunidade. São, também, indicadores da subsistência e modo de subsistência da comunidade e dos seus construtos. Em geral, pode pensar-se nessas afetividades como funcionando de modo positivo em relação à identidade, mostrando querência. Mas há, igualmente, modo negativo; certamente, poderá-se falar de anti-identidades afetivas e afetividades anti-identitárias, ou algo similar, quando o indivíduo ou o coletivo que for, mostra, em relação a um fenómeno, objeto, ideia, etc., uma atitude de rejeitamento sentimental estrutural (não pontual nem conjuntural) a uma eventual identificação ou ao que ela signifique. Naturalmente, podem surgir conflitos de afetividades identitárias se os elementos representarem cousas opostas para cada grupo ou setor e ter como resultado um investimento afetivo que gera problemas na direção contrária à intenção afetiva; como também equívocos nos modos do afeto ou descuramento doutros elementos, úteis por exemplo, para a coesão. Rivalidades ou rejeitamentos de identidades sociopolíticas ou culturais, por caso, são evidências daquela anti-identidade afetivizada a que me referia. Elias Jose Torres Feijó Veredas: Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, n. 39, p. 14-36, jan./jun. 2023 18 O valor afetivo e identitário da ortografia e as suas consequências na leitura/na literatura. O caso galego O valor simbólico-identitário e afetivo da ortografia e das normas ortográficas, que tem sido objeto de atenção de vários ângulos, é patente. Mário Herrero recolhe alguns dos mais significativos estudos sobre o valor simbólico da ortografia “como prática social” (ex., Winer, 1990; Schieffelin; Doucet, 1992, Brown, 1993, Jaffe, 1996, 2000; Álvarez Cáccamo; Herrero Valeiro, 1996; Sebba, 1998; Herrero Valeiro, 1998, 2000; Romaine, 2002), a que devemos acrescentar o seu incontornável trabalho para o caso galego (Herrero Valeiro, 2021) e vários dos derivados do que podemos denominar a escola corunhesa de sociolinguística, donde têm saído publicações de referência para a abordagem deste assunto (vid., só como exemplo da atividade dos anos noventa do século passado, além do referido Herrero Valeiro, os trabalhos do impulsor e coordenador dessa ‘escola’ Álvarez Cáccamo (1993, 1996a, 1996b); e Bobillo et al. (1998), Domínguez (2000) e Prego (1994)). Num quadro de situação elucidador, a poucos anos da independência dos novos estados americanos emancipados do império espanhol, encontramos já o comentário, bem conhecido, aliás, nos estudos sociolinguísticos, de Domingo Faustino Sarmiento (1886, p. 182-183), sobre a questão ortográfica: São abordados desta perspetiva 4 casos como o haitiano (Schieffelin; Doucet, 1992, p. 427), eles salientam a índole simbólica nacional/internacional das escolhas para a sua escrita, ou o galego, (Álvarez Cáccamo, 1993). Herrero Valeiro (2021, p. 59-61) apresenta páginas elucidadoras relativas aos casos de pidgin ou crioulas em relação ao caso galego e a lusofonia. O que cabe insinuar, é que as orientações normativas (unidas, claro, ao uso e seleção linguísticos feitos), incidem e nitidamente no afeto, na afetividade identitária e na identidade afetivada que um texto ou uma autoria possam representar ou provocar. Irei referir-me aqui ao caso galego, embora o luso-brasileiro seja, no âmbito do mundo de língua portuguesa, também um caso de interesse para aproximações aos afetos e às literaturas duma abordagem ortográfica. Veredas: Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, n. 39, p. 14-36, jan./jun. 2023 19 A dimensão da afetividade identitária: literatura, língua e normas ortográficas na Galiza. Uma proposta de aproximação Yo creo llegado el momento de meditar con detención lo que debemos hacer en materia tan importante, poraue se trata nada ménos que de reconocernos una nacionalidad peculiar, buena o mala, en el idioma, o declararnos vastagos corrompidos i dejenerados de mas perfecta estirpe; de plajiar a la España en sus progresos, sin conciencia i sin exámen, o de reservarnos la espontaneidad de obrar reformas según nuestra manera de ser. En una palabra, la cuestión ortográfica en cuanto a un sonido i un solo carácter de letra, nos lleva a re-conocernos a nosotros mismos o a negarnos toda existencia. Naturalmente, há muitos casos do que comentamos. No âmbito lusófono, não me parece ser discutível que na polémica sobre a implantação do Acordo Ortográfico o fator afetivo-sentimental joga um papel relevante, como é reconhecido mesmo em abordagens mais técnicas (Santos, 2010). O brasileiro é verdadeiramente significativo, também como debate e elites sobre a 4 Formularei aqui hipóteses e prolongamento das anteriores hipóteses cuja validade e certeza só um bom trabalho de campo poderá corroborar. Convém, em todo o caso, não perder de vista as consequências que, para o caso concreto da leitura literária e das identificações com literaturas e afetos, a orientação ortográfica tem. Nesta abordagem da ortografia e algumas consequências dela no caso galego, faço-o com plena consciência de que ele, ainda que com os seus matizes, não é precisamente caso isolado dum conflito linguístico em que o elemento afetivo na constituição das relações pessoais e coletivas e nos modos de olhar e intervir tem uma importância notável. Também no caso da norma, a que especificamente irei referir-me aqui, ainda que, certamente, apresenta singularidades notáveis. Enuncio algumas que me parecem fulcrais para o entendimento, deste ângulo, do processo. Em primeiro lugar, devemos tomar em consideração que durante séculos (fundamentalmente entre o XV e o XIX), a língua da Galiza (LG5), não foi, com algumas exceções, veículo de prática escrita no território galego. E que quando começam a aparecer os primeiros escritos que vão dar lugar a uma tradição de escrita, conflituosa e muitas vezes impedida o preterida (a partir de meados do século XIX, com o livro Cantares Gallegos, de Rosalia de Castro como marco fundacional, em 1863), a produção medieval era, na sua quase totalidade e valor simbólico (os cancioneiros de lírica medieval, sobretudo), desconhecidos. As únicas ortografia e língua em que as pessoas eram alfabetizadas eram as espanholas. Ainda que existem propostas de unificação diversa, incluídas reintegracionistas (entendendo por reintegracionistas aquelas que promovem a unificação com diferentes graus com as variantes da denominada internacionalmente língua portuguesa), a alfabetização e a escrita maioritárias, sobretudo em produção ensaística e literária, é feita com uma relativa variedade de formas coincidentes com o espanhol no uso da ortografía e da morfologia. Até à década de setenta do século XX não existe possibilidade de aprendizagem linguística regrada da LG nas escolas; menos ainda, usos administrativos no aparelho do estado dela. Apesar do início duma tímida reforma (Ley General de Educación, de 1970) que permitiria (não chegou a verificar-se) a introdução, experimental, das línguas do Estado espanhol que não fossem o espanhol (denominadas “nativas”) no ensino prescolar e básico, não será até 1980-1983 que se inicie essa introdução, após o desaparecimento da ditadura franquista e a configuração em comunidades autónomas do Estado espanhol. Isto vai acelerar a necessidade sentida duma norma unificada, em pouco tempo, em que o galego passa a ser, com muitos problemas certamente, também língua legítima (Domínguez, 1993), ao estar consagrada polo aparelho do estado, ainda que em situação de inferioridade jurídica e, portanto, Elias Jose Torres Feijó Veredas: Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, n. 39, p. 14-36, jan./jun. 2023 20 norma. As publicações de Bagno são bom exemplo disto. Pode ver-se Bagno (2007a, 200b); neste caso, o livro em geral e, particularmente, as páginas 131 a 138, para o caso ortográfico. O debate social continua aceso. Vid. Aldo Bizzocchi (2023), por exemplo. Neste sentido e em termos gerais, vid. Luckmann (1975). Galego, português da Galiza, galego-português... são várias as denominações que são utilizadas para referir-se à língua falada historicamente na Galiza desde a época medieval até a atualidade. Denominações que albergam, por sua vez, diferentes conceções da língua numa só expressão. Opto por utilizar Língua da Galiza para referir-me dum modo pretendidamente neutral a ela. 5 social, a respeito do espanhol6. Necessidades administrativas, económicas, educativas, culturais eram invocadas para a consecução duma norma única de uso, que se denominará, popularmente, oficial [para este processo, pode ver-se Alonso Pintos (2006) e Sánchez Vidal (2010), que abordam o período 19501980 e 1980-2000 respetivamente, e, sobretudo, Herrero7, 2021; para o processo imediato que desaguou na publicação do “Decreto 173/1982, do 17 de novembro, sobre a normativización da Lingua Galega” polo governo autónomo galego, Xunta de Galicia, no ano 1982 vid. Rodrigues (2023)]. As elaborações normativas cobram dimensão moral. Acompanhando Bourdieu [aludindo a que, na Galiza, o efeito do trabalho ideológico “dos especialistas da língua e das elites políticas”, está sendo o de (e traduz Bourdieu, 1977, p. 3) “fornecer os meios para transformar a simples competência (linguística) prática em competência simbólica, para transmudar o in-dizível em dizível, para ultrapassar as fronteiras do impensável”,] Álvarez Cáccamo (1997, p. 146), considera que “a fala ultrapassa o âmbito da utilidade privada para constituir-se em indicativo do moral”: “É apenas lógico que o galego público, assim constituído em capital simbólico, seja locus privilegiado das lutas ideológicas e objecto de construção, definição e apropriação”. Se noutros períodos do galeguismo contemporâneo, a questão da norma e da aproximação ao estándar português esteve presente (de modo maioritário, como proposta ou desejo, de modo prático com aproximações de diverso grau nunca dominantes no espaço social galego no que ao uso ortográfico se refere: o problema do uso correto e a an/alfabetização jogava um papel decisivo), desde aquela década de setenta ele emerge com maior intensidade. Aos problemas técnicos de uso, devem unir-se a pertença a um estado diferente, certo espírito de fronteira (entre visões fóbicas – Pageaux, 2004, p. 155 –, e bairrismo), próprio de comunidades contíguas geograficamente ainda que com pouco contato em geral, fora dos espaços limítrofes e com uma separação política de oito séculos, que obstaculiza ver Portugal e o mundo de língua portuguesa como referente; e, também, uma educação sentimental, afetiva, que levará ver o português como algo relativamente próximo mas diferente, compreensível mas com dificuldades para uma comunidade instalada no espanhol e no castelhanismo no seu uso da LG em todas as ordens, com exceção do âmbito fonético-fonológico nos paleofalantes. São apenas alguns fatores; mas o que interessa destacar é que quanto à identificação afetiva com a norma coincidente com o espanhol na sua ortografia e traços morfológicos (também noutas dimensões da língua, de que não está isento o reintegracionismo), as Normas Ortográficas e Morfolóxicas do Idioma Veredas: Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, n. 39, p. 14-36, jan./jun. 2023 21 A dimensão da afetividade identitária: literatura, língua e normas ortográficas na Galiza. Uma proposta de aproximação Constitución Española, “Artículo 3: 1. El castellano es la lengua española oficial del Estado. Todos los españoles tienen el deber de conocerla y el derecho a usarla. 2. Las demás lenguas españolas serán también oficiales en las respectivas Comunidades Autónomas de acuerdo con sus Estatutos. 3. La riqueza de las distintas modalidades lingüísticas de España es un patrimonio cultural que será objeto de especial respeto y protección”. (España, 1978). O livro de Mário Herrero Valeiro é fundamental para o entendimento do processo que aqui focamos; já com título elucidativo: Guerra de grafias, conflito de elites (Herrero Valeiro, 2021). Para ele remetemos mui especialmente para entender o conflito ortográfico na Galiza e, portanto, para o entendimento do pano de fundo desta aproximação. 6 7 Galego (NOMIG) 8 , é mais fácil e facilitadora, polos motivos expostos. A arbitrariedade dos signos não entra nesta equação. Mesmo o uso doutros diferentes aos derivados daquela educação sentimental podem ser perspetivados como uma transgressão, e alguma traição; e a ruptura duma lealdade antiga, genética em ocasiões. No quadro do conflito normativo, as variantes portuguesas podem até ser vistas como referentes de oposição (Herrero Valeiro, 2021, p. 65)9. Para a focagem que nos ocupa, a educação sentimental das pessoas leitoras em geral e das agências intervenientes nas propostas de codificação em particular estão alicerçadas na norma coincidente com a espanhola, também em expressões orais populares (a LG era, oralmente, esmagadoramente utilizada de modo habitual por classes populares e setores minoritários da elite cultural e política). Apenas um exemplo, simbólico: tanto na LG como no espanhol da Galiza, é frequente o uso do diminutivo -inho/a como expressão de afeto e valor identitários galegos (e valores associados ao povo e às classes populares também: ternura, carência, humildade, impotência...); polos motivos apontados, ele aparece de maneira absolutamente maioritária expresso com o ñ: -iño/a. O ñ, uma das formas para representar desde o medievo um som nasal palatal (/ɲ/) na LG (grafema simbólico do espanhol, utilizado mesmo como gráfico de marca España) porta também um valor sentimental associado ao galeguismo nessas expressões. A forma com nh é identificável com o português (quando não dá – sobretudo, dava – lugar a pronúncias à espanhola, mesmo com aspiração do h, à inglesa). Não se esqueça, já alargadamente, que, em geral, as línguas e os seus usos portam um valor simbólico relevante, que ainda aumenta em momentos ou situações de conflito; e que, para o caso que nos ocupa, o dígrafo nh não existe em espanhol e é usado nas NOMIG para representar um som nasal velar (algunha). Já Saussure (1991, p. 54-55), como recolhe Herrero Valeiro (2021, p. 36-37), sublinhara o que podemos denominar valor impressivo mais relevante da imagem gráfica do que do som nas pessoas, e, podemos também acrescentar, o seu valor afetivo projetado nessa impressão. E gera lealdades e até fidelidades, como observa Cardona, de tipo religioso ou político Cardona (1994, p. 115-116), aplicado a dous casos que Herrero Valeiro sintetiza (2021, p. 4956), ao lado do estudado por Haugen (1966) para o norueguês. Ainda que o debate sobre a orientação normativa da LG se realize em termos técnicos, de utilidade, tradição, histórico-filológicos, etc., e a sua diversa interpretação esteja no palco do debate (Herrero Valeiro, 2021, p. 23) para a procura de legitimações e deligitimações, incluindo a coordenada popularista vs. elitista, este elemento afetivo, pouco atendido, parece-nos fundamental para entender Elias Jose Torres Feijó Veredas: Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, n. 39, p. 14-36, jan./jun. 2023 22 São as normas aprovadas por decreto (“173/1982, do 17 de novembro, sobre a normativización da Lingua Galega”) polo governo autónomo galego, Xunta de Galicia, no ano 1982, que, com poucas variações, chegam até a atualidade. No ano 1983, conheceram o reforço da Lei de Normalización Lingüística aprovada polo Parlamento Galego, em que se considerava a Real Academia Galega (RAG) como autoridade no âmbito normativo. Essas Normas foram elaboradas pola RAG e o Instituto da Lingua Galega, e receberam a contestação social de entidades sociais e culturais e setores maioritários do nacionalismo de esquerdas, vinculado fundamentalmente ao Bloque Nacionalista Galego, sustentadores dos denominados mínimos reintegracionistas, e doutros âmbitos galeguistas, minoritariamente apoiantes da opção dos denominados máximos reintegracionistas, na altura reunidos em torno à Associaçom Galega da Língua, AGAL. Para uma síntese das diferenças “simbólicas” ortográficas e morfológicas entre as duas propostas, pode ver-se Herrero Valeiro (2021, p. 68). Freixeiro Mato (2000), realiza uma análise do conflito linguístico, incluindo o ortográfico. 8 9 Veredas: Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, n. 39, p. 14-36, jan./jun. 2023 29 A dimensão da afetividade identitária: literatura, língua e normas ortográficas na Galiza. Uma proposta de aproximação Doutro ponto de vista, tenha-se presente a dimensão política que a língua e as suas orientações normativas espelham ou são espelhadas (quer dizer-se: armas de arremesso para combater posições contrárias) ou podem vir a espelhar nos interesses das agências intervenientes; para algumas, reforço do integracionismo na Espanha; para outras, separatismos, mesmo em algum caso vinculáveis a eventuais desejos de aproximação em todas as ordens com Portugal. Há naturalmente, muito mais que se diga sobre isto mas apenas queremos chamar a atenção para a interpretação emblemática que pode ou mesmo tende a ser feita desde o exterior lusófono sobre a identidade (linguística e literária) galega. Uma interpretação, aliás, que conduz a determinadas práticas que, por sua vez, podem ser reforçadoras ou lesivas para as agências em conflito e que pode estar acompanhada, mais ainda precisamente em casos de conflito, por fatores afetivos; em ocasiões, sem as pessoas ou entidades desse exterior lusófono terem consciência de que estão intervindo diretamente nos campos culturais e de produção ideológica galegos e até nos do poder; noutros, sim, certamente. E isso, claro, tem também efeitos nas elaborações identitárias, nas identidades afetivizadas e na afetividade identitária. Por exemplo, no modo de perspetivas ou relacionar-se com esse mundo lusófono por parte das elites e as consequências disso; impactos que estão por estudar17. Conclusão A dimensão afetiva em termos de elaboração identitária individual e coletiva é um fator decisivo para entender processos de conflito linguístico e soluções para o conflito, em termos de estratégias e planificação. Essa dimensão estende-se, em casos como o galego, às questões de aceitação, assunção e prática das normas propostas. Em muitos casos, essa dimensão é negligenciada, reduzindo-se muitas vezes o trabalho de campo a questões de uso e competência, sem atender às lógicas construtivas das pessoas e coletivos em relação às línguas em causa e às suas normas, neste caso sobretudo no relativo à LG, cuja constituição como norma de imposição na administração, no serviço público e em muitas esferas privadas subordinadas a eles, tem apenas quarenta anos. Essas dimensões têm para a literatura e para o que ela representa, consequênias fulcrais, sobretudo em casos como este, em que a proximidade ou identificação entre a LG com a (restante?) língua portuguesa e (restante?) mundo de língua portuguesa é patente. Em termos de planificação, conhecer essas lógicas parece fundamental, também para entender as possibilidades de recusa ou adesão que as diversas fórmulas possam ter socialmente. Por exemplo, No presente trabalho tento evitar exemplos ou análises de situações concretas para evitar a distorção e o viés nesta proposta que apenas visa formular hipóteses e fornecer alguns instrumentos de explicação de realidades como a galega. Pessoas interessadas podem, por caso, ver o uso e impacto nas elites galegas da denominada Lei Paz Andrade, aprovada unanimemente polo Parlamenteo Galego, no âmbito institucional, ou do livro Assim nasceu uma língua, de Fernando Venâncio (2019) no sociocultural. Recentemente, a direção da AGAL tem impulsado uma proposta denomianda “binormativismo”, https://a.gal/ binormativismo/ : “A coexistência de duas opções gráficas na Galiza é fruto de umha realidade social complexa. A AGAL propõe dar à proposta reintegracionista estatuto legal, criando um novo consenso ao redor de dinâmicas comuns em prol da língua benéficas para a sociedade”. 17 quantas pessoas estão a favor de tomar medidas de discriminação positiva da LG com independência dos usos que elas façam dela; ou como as pessoas veem a sua eventual identificação com as diversas propostas normativas em causa; e como isso poderia ser eventualmente implementado. Trabalho de campo é preciso para verificar as hipóteses aqui colocadas e, mesmo, a eventual validade e contornos do conceito de afetividade identitária e as suas aplicações ao âmbito da cultura. Nesta direção, parece que as agências do campo de produção ideológica, do campo da cultura e do campo do poder (aqui, entre outras, com a fulcral esfera do ensino), devem ter em conta essa afetividade nas suas elaborações e ações. Em geral e socialmente, a dimensão da identidade afetivizada e a afetividade identitária pode ajudar para compreender os comportamentos humanos, mesmo os derivados de costumes, tradições, celebrações ou medos das comunidades e os recursos que são mobilizados polas pessoas ou estão disponíveis para mobilizar em função dos seus objetivos. Veredas: Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, n. 39, p. 14-36, jan./jun. 2023 30 Elias Jose Torres Feijó Referências Alonso Pintos, Serafín. O proceso de codificación do galego moderno (1950-1980). A Corunha: Fundación Pedro Barrié de la Maza, 2006. Álvarez-Cáccamo, Celso. Building alliances in political discourse: Language, institutional authority, and resistance. 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Aplica-se em concreto à questão ortográfica no caso galego e como essas componentes podem incidir nas elaborações afetivas das pessoas em relação à conceção da língua, à literatura e aos afetos e orientações de leitura; e como essas orientações se relacionam com o próprio conceito de nação e das suas relações externas. Palavras-chave: afetividade identitária, identidade afetivizada, ortografia, Galiza, literatura. Recebido em 6 de maio de 2023. Aprovado em 28 de junho de 2023. Veredas: Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, n. 39, p. 14-36, jan./jun. 2023 36 Elias Jose Torres Feijó The dimension of identity’s affectivity: literature, language, and orthographic norms in Galicia. A proposal for approximation Elias Jose Torres Feijó This paper proposes to take into account the affective component in the construction of individual and collective identity. In an instrumental way, the concepts of affective identity (the sentimental assumption of identity elements: the identity element generates affectivity) and Identity’s Affectivity (the result in an identity based on an element or mediating elements not necessarily linked in a linear way with the object of identification) are formulated. It specifically applies to the spelling issue in the Galician case and how these components can affect people’s affective elaborations in relation to the conception of the language, literature, reading habits, orientations, and how these guidelines relate to the very concept of nation and its external relations. Keywords: identity affectivity, affective identity, spelling, Galicia, literature. Dedicatória Para o Prof. Sílvio Renato Jorge