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UNIVERSID ADE DE SA NTIAGO DE COMPOSTE LA
FACULDADE D E CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃ O
Departam ento de Didáctic a e Organizaç ão Escolar
Tese de D outoramento
(IN) DISCIPL INA E CON VIVÊNCIA : UM ESTUDO EM QUATRO
ESCOL AS DE 2º E 3º CICLO DE E NSINO BÁSICO N O DISTRITO DO
PORTO
Doutoranda : A NA MARIA RO DRIG UES
Director: Prof. Dou to r QUINTÍN ÁL VAR EZ NÚÑE Z
Co - Directora: Prof. Doutora ESTEL A PIN TO RIBEIRO LAMAS
SANTIAGO D E COMP OSTE L A, 2012
UNIVERSID ADE DE SA NTIAGO DE COMPOSTE LA
FACULDADE D E CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃ O
Departam ento de Didáctic a e Organizaç ão Escolar
Tese de D outoramento
(IN) DISCIPL INA E CON VIVÊNCIA : UM ESTUDO EM QUATRO
ESCOL AS DE 2º E 3º CICLO DE E NSINO BÁSICO N O DISTRITO DO
PORTO
Doutoranda : A NA MARIA RO DRIGU ES
Director: Prof. Dou tor QUINTÍN ÁLVA RE Z NÚÑEZ
Co - Directora: Prof. Doutora ESTELA PINTO RIBEIR O LA MAS
SANTIAGO D E COMP OSTE L A, 2012
Es t a t e s e é u m a h o m e n a g e m a o P r o f e s s o r D o u t o r L u í s G u e d e s ,
i m p u l s i o n a d o r d e s t e p r o j e c t o , q u e m e d e u â n i m o n a p r e s e n ç a e m e
d e i x o u a c o r a g e m d e c o n t i n u a r n a s u a a u s ê n c i a . C e r t a m e n t e D E U S
f a r - l h e - à c h e g a r o s e n t i d o d e s t a m e n s a g e m e q u e o d e i x a r á m u i t o f e l i z .
AGRA DECIMENTOS
M u i t a s v e z e s a s p a l a v r a s n ã o c o n s e g u e m t r a n s m i t i r o q u e n o s v a i n o p e n s a m e n t o . O s c a m p o s s e m â n t i c o s
s ã o i n c a p a z e s d e c a p t a r a g r a t i d ã o q u e s e n t i m o s p o r q u e m , d i r e c t a o u i n d i r e c t a m e n t e , e s t e v e l i g a d o a e s t a
i n v e s t i g a ç ã o . C o n s e g u i r c h e g a r a o t e r m o d e u m a i n v e s t i g a ç ã o s ó é p o s s í v e l g r a ç a s a u m c o n j u n t o d e p e s s o a s
q u e s o l i d a r i a m e n t e , d e u m a m a n e i r a o u d e o u t r a , e n t r a m n o s m e a n d r o s d e s s a m e s m a i n v e s t i g a ç ã o .
O m e u p r i m e i r o a g r a d e c i m e n t o v a i p a r a o P r o f e s s o r D o u t o r Q u i n t í n A l v a r e z N u ñ e z e a P r o f e s s o r a
D o u t o r a E s t e l a P i n t o R i b e i r o L a m a s , q u e a c e i t a r a m s e r m e u s o r i e n t a d o r e s e q u e a o l o n g o d o s a n o s ,
d e m o n s t r a r a m d i s p o n i b i l i d a d e p e s s o a l e p r o f i s s i o n a l , p a r a a r e a l i z a ç ã o d e s t a t e s e . A g r a d e ç o o a p o i o , o
i n c e n t i v o , a p a r t i l h a d e s a b e r , a m o t i v a ç ã o e a c o n f i a n ç a q u e e m m i m d e p o s i t a r a m , m o s t r a n d o - m e , a s m i n h a s
f r a q u e z a s e a c i m a d e t u d o , o m o d o c o m o s u p e r á - l a s , r e s p e i t a n d o s e m p r e o m e u r i t m o d e t r a b a l h o .
G o s t a r i a d e r e f e r i r a U S C ( U n i v e r s i d a d e d e S a n t i a g o d e C o m p o s t e l a ) , a s u a d i r e c ç ã o , o s p r o f e s s o r e s e
f u n c i o n á r i o s , q u e s e m p r e f i z e r a m c o m q u e m e s e n t i s s e m a i s u m a e n t r e e l e s , n u n c a u m a e s t r a n g e i r a , s e m p r e m e
t r a t a r a m c o m a m a b i l i d a d e , s i m p a t i a e e f i c á c i a , c o n t r i b u i n d o , d e s t e m o d o , p a r a u m e n r i q u e c i m e n t o p e s s o a l e
p r o f i s s i o n a l . D a s e x p e r i ê n c i a s , d o s t r a b a l h o s , d o s e n t i d o c r í t i c o , d o q u e a p r e n d i , s u r g i r a m m u i t a s d a s e s t r a t é g i a s
q u e p r o c u r e i a p l i c a r .
A g r a d e ç o a c o l a b o r a ç ã o d o V i c e - P r e s i d e n t e d o C o n s e l h o E x e c u t i v o d a e s c o l a , D r . A d r i a n o B r i t o , q u e m e
p e r m i t i u o a c e s s o a t o d a a d o c u m e n t a ç ã o , n e c e s s á r i a e m e r e c e b e u s e m p r e c o m m u i t a s i m p a t i a e d e l i c a d e z a ,
d i s p o n i b i l i z a n d o - m e u m a b o a p a r t e d o s e u t e m p o , p a r a d a r r e s p o s t a à s m i n h a s s o l i c i t a ç õ e s , b e m c o m o a o s
d i r e c t o r e s d o s a g r u p a m e n t o s d a s e s c o l a s e m e s t u d o , D r . M a n u e l F e r r e i r a , D r . ª A n a A l z i r a P e r e i r a e à D r . ª A n a
F a r i n h a , p e l a s u a d i s p o n i b i l i d a d e e p e r m i s s ã o p a r a a a p l i c a ç ã o d o s q u e s t i o n á r i o s .
A o s a l u n o s , p r o f e s s o r e s , d i r e c t o r e s d e t u r m a , a u x i l i a r e s d e a c ç ã o e d u c a t i v a , p a i s e a g e n t e s d a P S P ,
a g r a d e ç o a p a r t i l h a d e e x p e r i ê n c i a s , s e n t i m e n t o s , i m a g e n s , h i s t ó r i a s d e v i d a , p a r a a r e a l i z a ç ã o d a s e n t r e v i s t a s ,
s e m o s q u a i s a r e a l i z a ç ã o d e s t a d i s s e r t a ç ã o , n ã o t e r i a s i d o p o s s í v e l .
À D r . ª C o n c e i ç ã o L i m a , q u e m e f a c i l i t o u o a c e s s o à e s c o l a e m e s t u d o , m o s t r a n d o - s e s e m p r e d i s p o n í v e l ,
p a r a m e f a c u l t a r o s d o c u m e n t o s n e c e s s á r i o s .
À P r o f ª D r . ª P a u l a B o r g e s p o r t o d o o a p o i o e d i s p o n i b i l i d a d e q u e m e c o n c e d e u , s e m p r e q u e s o l i c i t a d o .
À P r o f ª D r . ª M a n u e l a T e i x e i r a , q u e m e a c o m p a n h o u a o l o n g o d o m e u p e r c u r s o , s i n d i c a l , a c a d é m i c o e
p e s s o a l . Q u e f o i e s e m p r e s e r á p a r a m i m u m a r e f e r ê n c i a . , n u n c a e s q u e c e r e i a s u a g e n e r o s i d a d e , o a p o i o
p s i c o l ó g i c o , a f e c t i v o e a f o r ç a q u e s e m p r e m e t r a n s m i t i u , f a z e n d o - m e a c r e d i t a r q u e i a t e r m i n a r e s t a t e s e , a p e s a r
d o s m o m e n t o s d i f í c e i s q u e a t r a v e s s e i .
À P r o f ª D r . ª C o n c e i ç ã o A l v e s P i n t o , c o m q u e m p a r t i l h e i m u i t a s d a s m i n h a s a n g ú s t i a s , o b r i g a d a p e l o a p o i o
e p e l a f o r ç a q u e m e d e u p a r a p r o s s e g u i r a e x e c u ç ã o d a m i n h a t e s e .
A o P r o f . D r . L u í s d e M e l o , p e l a d e l i c a d e z a q u e l h e é p e c u l i a r , s e m p r e p r e o c u p a d o c o m o p r o s s e g u i m e n t o
d o m e u t r a b a l h o , t e n d o s e m p r e p a r a c o m i g o u m a p a l a v r a a m i g a d e i n c e n t i v o e e n c o r a j a m e n t o .
À P r o f . ª D r . ª L ú c i a M i r a n d a , p e l a s u a a m i z a d e e a p o i o p r e s t a d o p e l o e x e m p l o d e p e r s i s t ê n c i a ,
d e t e r m i n a ç ã o , c o r a g e m e c o m p e t ê n c i a .
A o D r . V a l t e r A l m e i d a , p e l a s r e f l e x õ e s c r i t i c a s s o b r e o o b j e c t o d e e s t u d o , q u e m u i t o m e a j u d a r a m a
c o m p r e e n d ê - l o e a r e a l i z a r u m a a n á l i s e c r í t i c a .
À m i n h a c o l e g a e a m i g a , D o u t o r a n d a F á t i m a C a r v a l h o , p e l o s e s c l a r e c i m e n t o s p r e s t a d o s , n a p a r t e
e s t a t í s t i c a e n a f o r m a t a ç ã o d a t e s e , a g r a d e ç o a c o l a b o r a ç ã o .
A t o d a s a s m i n h a s a m i g a s , p o r q u e m t e n h o g r a n d e a d m i r a ç ã o e q u e t o d a s m e d e r a m m u i t a f o r ç a p a r a
t e r m i n a r e s t e t r a b a l h o , m a s e m e s p e c i a l à D r . ª C r i s t i n a M a i a e à D r . ª E s t e l a S o u s a , p e l o a p o i o p r e s t a d o s e m p r e
q u e s o l i c i t a d o e m e s m o q u a n d o n ã o s o l i c i t a d o e p e l o s m ú l t i p l o s i n c e n t i v o s à c o n c l u s ã o d e s t a t e s e .
A o s m e u s p a i s , p e l a s ó l i d a e d u c a ç ã o e f o r m a ç ã o q u e m e d e r a m n a m i n h a j u v e n t u d e , q u e m e p r o p o r c i o n o u
a c o n t i n u i d a d e n o s e s t u d o s .
F i n a l m e n t e , a t o d a a f a m í l i a , e m p a r t i c u l a r , a o s m e u s i r m ã o s , A r m a n d o e A n i c e t o .
E u m a g r a d e c i m e n t o m u i t o e s p e c i a l , à m i n h a f i l h a M ó n i c a p e l a m i n h a a u s ê n c i a d u r a n t e e s t e s t e m p o s
c o n t u r b a d o s , m a s t a m b é m p e l a p a c i ê n c i a e d e d i c a ç ã o c o m q u e m e a p o i o u n o s m o m e n t o s m a i s d i f í c e i s .
A todos um gra nd e Bem-h aja
IN D I CE
i
ÍNDICE GERA L
AGRADECIMENT OS ................................................................................................................................ . I
ÍNDICE GERAL ................................................................................................................................ ......... I
ÍNDICE DE GRÁFICOS ............................................................................................................................. III
ÍNDICE DE FIGUR AS ............................................................................................................................... V
ÍNDICE DE TAB ELAS ............................................................................................................................. VII
INTRODUÇÃO ................................................................................................................................... I
CAPÍTULO I- A ESCOLA COM O ORGANI ZAÇÃO COM PL EXA ................................................................ ...... I
1. A OR GANIZAÇÃO ESCO LAR : FRONTEIRAS CONC EPTUAIS E CONS TITUINTES ..................................................... 1
2. A ESCOLA , UMA OR GANIZAÇÃO SI NGULAR E POUCO ES TUDADA ................................................................ 11
3. M ODELOS EXPLICA TIVOS DE ESCOLA CO MO ORGANIZAÇ ÃO ...................................................................... 16
4. A PARTICIPAÇAO SOCIAL E EDUCATIVA EM P ORTUGAL ................................................................ ............ 20
5. A NECESSIDADE D E CONHECER O ALUNO E O SEU CONT EXTO .................................................................... 31
REFLEXÃO ................................ ............................................................................................................ 33
CAPÍTULO II - D ISCIPLIN A E CONVIV ÊNCIA: AS FR ONTEIRA S CONCEPTU AIS ................................ ......... 37
1. A EXCLUSÃO SOCI AL : A ORGANIZA ÇÃO DA SOCIEDADE PARA A EXCLUS ÃO .................................................... 42
2. A VIOLÊNCIA SOCIAL E ESCOLAR ......................................................................................................... 58
3. C ONVIVÊNCIA E CON FLITO ESCOL AR ................................................................ .................................... 90
REFLEXÃO ................................ ............................................................................................................ 97
CAPÍTULO III - A CONVIVÊNC IA EM CON T EXTO EDUC ATIVO ............................................................... 101
1. A CONVIVÊNCIA E OS N ORMATIVO S LEGAIS ......................................................................................... 106
2. A POIOS NECESSÁR IOS À CONSTRUÇÃO D A CONVIVÊNCIA ....................................................................... 108
3. A CONVIVÊNCIA SOCI AL : APERFEI ÇOAR AS RELAÇÕ ES PARA A SUA CONSTRUÇÃO ......................................... 129
4. C ONVIVÊNCIA E C ONFLI TO .............................................................................................................. 136
5. A EDUCAÇÃO P ARA A CONVIVÊNC IA .................................................................................................. 148
CAPÍTULO IV - PR OFESSORE S E ALUNOS ‘VÍTIMAS ’ DA VIOL ÊNC IA ESCOLAR ...................................... 169
1. P ROFESSORES E ALUNO S ‘ VÍTIMAS ’ DA VIO LÊNCIA ES COLAR ................................................................... 171
2. A S REPRESENTAÇÕE S SOCIAIS ELAB ORADAS PELOS A CTORES SOCIAIS ........................................................ 177
3. I NTERACÇÃO E JOG OS DE PODER NA ESCOLA : AS FONTES E SÍMBO LOS DE PODER ........................................ 203
4. C ULTURAS PROFI SSIONAIS DOS PR OFESSORES : BALCAN IZADAS VS DE COLABOR AÇÃO ................................... 214
5. E SPAÇOS SO CIAIS E PRÁTICAS CUL TURAIS DOS ALUNOS ......................................................................... 216
IN D I CE
ii
6. A E SCOLA ‘ CAMPO DE B ATALHA ’: A ‘ ADAPTAÇ ÃO ’ ESTRATÉGI CA DE ALUN OS E PROFESSORES ........................ 219
REFLEXÃO ................................ .......................................................................................................... 221
CAPÍTULO V - M ETODOLOG IA ............................................................................................................ 225
1. O PROCESSO DA INVESTIG AÇÃO ....................................................................................................... 227
2. O BJECTIVOS DA IN VESTIGAÇÃO ................................................................................................ ........ 229
3. U M MOM ENTO EXPLORATÓR IO ....................................................................................................... 230
4. U M SEGUNDO M OMENTO – O ALARG AR DA EXPERIÊNC IA ...................................................................... 251
CONCLUSÃO PARCI AL ........................................................................................................................ 264
CAPÍTULO VI - AN ÁLISE DO S RESULTAD O S D A ESCOLA “A” ................................................................ 265
1. A S DIMENSÕES SIT UACIONAIS DA ESCOLA “A” .................................................................................... 268
2. A NÁLISE DAS PRÁ TICAS DE CONVIVÊNCI A ........................................................................................... 299
3. R ACIONALIDADES E PRÁTICAS DO DIRECTOR DE TURM A ......................................................................... 314
4. P ROCEDIMENTOS D E PREVENÇÃO E CORRECÇÃO U TILIZADOS PELO D.T. ................................................... 330
5. A VIOLÊNCIA VIST A DO LADO DE FO RA DA ESCOLA ................................................................................ 334
REFLEXÃO ................................ .......................................................................................................... 365
CAPÍTULO VII - ANÁLISE D E RESULTADO S SOBRE A RES PONSABI LIDADE DA (IN)DI SCIPLIN A NAS
ESCOLAS ............................................................................................................................................ 377
“B”, “C” E ”D” ................................................................................................................................ .... 377
1. C ARACTERIZAÇÃO F AMILI AR ............................................................................................................ 379
2. R EPRESENTAÇÕES DO ALUNO SOBRE O RESPEITO DOS COLEGA S DA TURM A PE LAS S UAS SUGESTOE S ............... 386
3. A INDISCIPLINA : RES PONSABILIDA DES ATRIBUÍDAS ............................................................................... 396
4. A ORGANIZ AÇÃO DA ESCOLA ........................................................................................................... 409
CONCLUSÕ ES PARCIAIS ................................ ...................................................................................... 497
CAPÍTULO VIII - FORMAS D E CONSTRUÇ ÃO DA C ONVIVÊN CIA NA COM UNIDAD E EDUCATIVA .......... 517
1. F ORMAS DE CONSTRU ÇÃO DA CO NVIVÊNCIA NA COMUNIDADE EDU CATIVA ............................................... 519
2. A REJEIÇÃO DAS ACTIVIDADES ESC OLARES ................................ .......................................................... 528
CONCLUSÕ ES PARCIAIS - F ORM AS DE CONSTRUÇ ÃO D A CON VIVÊNCIA NAS E SCOL AS E.B. 2,3 .......... 586
CONCLUSÃO G ERAL ........................................................................................................................... 597
REFERÊNCIAS BIBLIO GRÁFI CAS E DOCUM ENTA IS CONSULTAD AS ...................................................... 635
ÍNDICE DISCRIMINA DO ...................................................................................................................... 673
IN D I CE
iii
ÍNDICE D E GRÁFICOS
GRÁFICO I. ANO S DE ESCOL ARIDADE ................................................................................................ . 232
GRÁFICO II. P ESSOAL NÃO DOCENT E ................................................................................................ . 233
GRÁFICO III. APOIOS ED UCATIVOS ..................................................................................................... 234
ÍNDICE
v
ÍNDICE D E FIGURAS
FIG.1: CONCEI TO DE CONV IVÊNCIA ESCOLAR ..................................................................................... 13 0
FIG.2: ALGUNS FACTORE S INFLUENTE S NOS PROBL EMAS D E CONVIVÊNC IA ESCOLAR ....................... 134
ÍNDICE
vii
ÍNDICE D E TABELAS
TABELA Nº 1. COM PARA ÇÃO DA EVOLUÇ ÃO D A L EGISLAÇÃO SOBR E O ESTATUTO DO ALUNO DO
ENSINO NÃO S UPERIOR ..................................................................................................................... 280
TABELA Nº 2. F INALIDAD ES DAS MEDIDAS DISCIPL INAR ES NA LEGISL AÇÃO ...................................... 281
TABELA Nº 3. M EDIDAS DI SCIPLINAR ES SANCION ATÓRIA S SEGUNDO A L EGISLAÇÃ O ........................ 282
TABELA Nº 4. REGUL AM ENRO INTERN O DA E SCO LA “A ” – OPINIÃO D E PROFESS ORES, ALUNO S E
ENCARREGADO S DE EDUC AÇÃO ........................................................................................................ 288
TABELA Nº 5. O Q UE É A IN DISCIPLINA P ARA PR OFESSORE S E ALUNO S ............................................. 301
TABELA Nº 6. A INDISCIPLINA DENTRO DA SAL A DE AULA ................................................................ . 303
TABELA Nº 7. OS M AUS TRA TOS ........................................................................................................ 308
TABELA Nº 8. O DIRECTOR DE TURM A E O APO IO DA F AMÍLIA .......................................................... 325
TABELA Nº 9. A VOZ D OS DIR ECTORES DE TUR MA ............................................................................. 325
TABELA Nº 10. O D. T. COM O M EDIADOR ENTR E ALUNOS E PROFE SSORES E ENTRE A FAMÍLIA ........ 326
TABELA Nº 11. O TRABALH O BUROCRÁTICO D O DIRECTOR DE TURMA ............................................. 327
TABELA Nº 12. OS PROCE DIMENTO S DE CORREC ÇÃO AOS ALUNOS ................................................... 331
TABELA Nº 13. O RECURSO AO GABINE TE DO ALUNO ................................ ........................................ 333
TABELA Nº 14. OPINIÕES AN ALISADAS .............................................................................................. 337
TABELA Nº 15 . EPI SÓDIO S D E VIOLÊNCI A REAL IZADOS POR ALUN OS E ENCA RREGADOS DE
EDUCAÇÃO ................................ ........................................................................................................ 346
TABELA Nº 16. O PAPEL DA POLÍCI A PERANT E OS PROB LEMAS DE CONV IVÊNC IA NA ESCOLA ........... 349
TABELA N º 17 . O QUE P ENSA O PR ESIDEN T E DO SU PREMO TRIBUN AL DE JUSTIÇA SOBR E A
RESOLUÇÃO DA IND ISCI PLINA E VI OLÊNCIA NA ESCOLA ................................ ................................... 351
TABELA Nº 18 . O PINIÃO DO PROC URADOR -GERAL DA REP ÚBLICA, SOBR E O TRATAMENT O
DISCIPLINAR ....................................................................................................................................... 352
TABELA Nº 19. OPINIÕES DO S PARTI DOS POLÍ TICOS V EICULADAS P ELA COMUNIC AÇÃO S OCIAL ...... 353
TABELA Nº 20. ENUMERAÇ ÃO P ELO SECR ETÁRIO DE ESTADO DAS ME DIDAS TO MADAS PAR A
COMBATER A INDI SCIPLINA E A VIOL ÊNCIA ....................................................................................... 356
TABELA Nº 21. DISTINÇÃO EN TRE IND ISCIPLINA E VIOLÊNCI A ............................................................ 359
TABELA N º 22. O PINIÃ O DE PAIS, PROFE SSOR ES E PRESIDENT E DO OBSERVATÓRI O DE SEG URANÇ A
NAS ESCOLAS SOBRE AS REG RAS ....................................................................................................... 360
ÍNDICE
xiv
TABELA Nº 127. V ARIA ÇÃO SIGNIFICATIVA DA CONSTRUÇÃO DA CON VIV ÊNCI A ATRAVÉS D A
ATITUDE DO AL UNO FAC E AO TR ABALHO ESCO LAR, PE LO ANO DE ESCOLAR IDADE ........................... 528
TABELA Nº 128. FR EQU ÊNCIA DAS R ESPOSTAS Á REJEIÇÃO ÀS AC TIVI DADES DA E SCOLA .................. 529
TABELA Nº 129. R EJEIÇÃ O DAS ACTIVID ADES ESC OLARES – INDICADOR AGREG ADO ......................... 531
TABELA Nº 130. V ARIAÇÃ O DA REJEIÇ ÃO DAS ACTI VIDADES ESCO LARES PELO PERFIL DO S
RESPONDENT ES ................................................................................................ ................................ . 532
TABELA Nº 131. VARIA ÇÃO SIGNIFICATIVA DA REJEIÇ ÃO DAS ACTIVIDA DES ESCO LARES PELO
GÉNERO DOS AL UNOS ....................................................................................................................... 533
TABELA N º 132 . V ARIAÇ ÃO SIGNIF ICATIVA D A R EJEIÇÃO D AS ACTIVID ADES E SCOLARES P ELOS
ALUNOS/PROFE SSORES ..................................................................................................................... 534
TABELA N º 133 . VARIAÇ ÃO SIGNIFIC ATIVA D A RE JEIÇÃO DAS ACTIVID ADES ESCOL ARES PELOS ANOS
DE ESCOLARIDA DE ............................................................................................................................. 535
TABELA Nº 134. FREQUÊNCIAS DAS R ESPOSTAS SOBRE O CONTROLO DOS C OMP ORTAMENTO S
DESVIANTES ....................................................................................................................................... 537
TABELA Nº 135. CON TRO LO DOS C OMPORTAMENT OS DESVIANTE S – INDICA DOR AGREGA DO ........ 539
TABELA Nº 136 . VARI AÇÕ ES DO CONTRO LO D OS COMPORTAMENT OS DE SVI ANTES P ELAS
CARACTERÍSTIC AS DOS R ESPONDENTE S ............................................................................................ 540
TABELA N º 137. VARIAÇÕE S DO CONTROLO DOS COMPORTAM ENTOS DESVIANTES PELO GÉNER O
DOS ALUNOS ................................ ..................................................................................................... 540
TABELA N º 1 38. VARIAÇÕ ES DO CONTR OLO DOS COMP ORTAM ENTOS DESVIANTES PELO ANO D E
ESCOLARIDAD E ................................................................................................................................ .. 542
TABELA Nº 139. FRE QU ÊNCIAS DAS R ESPOS TAS SOBRE A PROMOÇ ÃO D A CONV IVÊNCI A PO R
ELEMENTOS EX TERIORES À ESCOL A ................................................................................................... 545
TABELA Nº 140. PR OMO ÇÃO DA CONVIV ÊNCIA P OR EL EMENTOS EXT ERIORES À ESCOL A - IN DICADOR
AGREGADO ........................................................................................................................................ 546
TABELA Nº 141. VARIAÇÃO DA PROMOÇÃO DA C ONV IVÊNCIA POR ELEME NTOS EXTERIORES À
ESCOLA PELAS C ARACTERÍSTI CAS D OS RESPOND ENTES ..................................................................... 547
TABELA Nº 142. VARIAÇÃO DA PROMOÇÃO DA C ONV IVÊNCIA POR ELEME NTOS EXTERIORES À
ESCOLA, SEGUN DO A OPINI ÃO DE ALUNOS E PROFESSOR ES ............................................................. 548
TABELA Nº 143. VARIAÇÃO DA PROMOÇÃO DA C ONV IVÊNCIA POR ELEME NTOS EXTERIORES À
ESCOLA, PELO S ANOS D E ESCOLARI DADE .......................................................................................... 549
ÍNDICE
xv
TABELA Nº 144. VARIAÇÃO DA PROMOÇÃO DA C ONV IVÊNCIA POR ELEME NTOS EXTERIORES À
ESCOLA, PELO NÍV EL DE IN STRUÇÃO F AMILIAR ................................................................................. 550
TABELA Nº 145. FR EQU ÊNCIAS DAS RESPO STAS DA PROM OÇÃO DA C ONVIV ÊNCIA INF ORMAL ........ 551
TABELA Nº 146. A PR OM OÇÃO DA C ONVIVÊNCI A INFORM AL – IN DICADOR AGREGADO .................. 553
TABELA Nº 147 . VARI AÇÃO DA PROM OÇÃ O DA C ONVIV ÊNCIA IN FORMAL PEL AS C ARACTERÍSTI CA S
DOS RESPOND ENTES .......................................................................................................................... 553
TABELA Nº 148. VAR IAÇ ÃO DA PROM OÇÃ O D A C O NVIVÊNCIA IN FORMAL PELA IDA DE DOS
PROFESSORES ................................ .................................................................................................... 554
TABELA Nº 149. VARIAÇ ÃO DA PROMOÇ ÃO DA CO NVIVÊNCIA INFORM AL PELA CATEGORIA
PROFISSIONAL ................................................................................................................................... 555
TABELA Nº 150. VARIAÇ ÃO DA PROMOÇÃO DA CON VIVÊN CIA INFOR M AL PEL A OPINIÃ O DE ALUN OS
E PROFESSOR ES ................................................................................................................................ . 556
TABELA Nº 151. V ARIAÇÃ O DA PROM OÇÃO DA CO NVIVÊNCIA INFORMAL PEL OS ANO S D E
ESCOLARIDAD E ................................................................................................................................ .. 557
TABELA Nº 152. FR EQU ÊNCIAS DAS RESPO STAS DA PROM OÇÃO DA C ONVIV ÊNCIA FOR MAL ........... 559
TABELA Nº 153. TAB ELA Nº 1 53 - PROM OÇÃO DA C ONVIVÊN CIA FORM AL – INDI CADOR AGREGADO 561
TABELA Nº 154. VARIAÇ ÃO SIGNIFICATIVA D A PROMO ÇÃO D A CONV IVÊNC IA F OR MAL COM O
PERFIL DOS RE SPONDEN TES .............................................................................................................. 562
TABELA Nº 155. VAR IAÇ ÃO SIGNIFIC ATIVA DA PRO MOÇÃO D A CONVIVÊN CIA FORM AL COM
ALUNOS/PROFE SSORES ..................................................................................................................... 562
TABELA Nº 156. V ARIAÇ ÃO SIGNIFICATIV A DA PROMOÇÃ O DA C ONVIV ÊNCIA FORMAL COM O ANO
DE ESCOLARIDA DE ............................................................................................................................. 563
TABELA N º 15 7. FR EQU ÊNCIA DAS RE SPOSTAS À PROMOÇÃO DA C ONVIV ÊNCI A AT RAVÉS D E UM
MELHOR CONH ECIMENTO DO ALUN O E A AD APTAÇ ÃO CURR ICULAR AO M ES MO ............................ 565
TABELA Nº 158. A PRO M OÇÃO ATRAV ÉS D E UM M ELHOR C ONHECIMEN TO DO ALUN O E A
ADAPTAÇÃO CURR ICULAR A O MESMO – INDICADOR AGREGADO ..................................................... 567
TABELA Nº 159. VARI AÇÕ ES SIGNIFICATIVAS DA PROMOÇÃO ATR AVÉS DE UM MELHOR
CONHECIMENTO DO ALUN O E A ADAPTAÇ ÃO C URR ICULAR AO M ESMO PELO PERFIL DOS
RESPONDENT ES ................................................................................................ ................................ . 568
TABELA Nº 160. VARI AÇÕ ES SIGNIFICATIVAS DA PROMOÇÃO ATR AVÉS DE UM MELHOR
CONHECIMENTO D O ALUN O E A A DAPTAÇÃO C URRICU LAR AO M ESMO, PELO G ÉN ERO. .................. 568
ÍNDICE
xvi
TABELA Nº 161. VARI AÇÕ ES SIGNIFICATIVAS DA PROMOÇÃO ATR AVÉS DE UM MELHOR
CONHECIMENTO DO ALUN O E A ADAP TAÇÃO C URR ICULAR AO M ESMO PE LA OPINIÃO DE
ALUNOS/PROFE SSORES ..................................................................................................................... 569
TABELA Nº 162. VARI AÇÕ ES SIGNIFICATIVAS DA PROMOÇÃO ATR AVÉS DE UM MELHOR
CONHECIMEN TO DO ALUNO E A ADAPTAÇÃO CURR ICULAR AO M ESMO PELO ANO DE
ESCOLARIDAD E. ................................................................................................................................ . 570
TABELA Nº 163. FR EQU ÊNCIAS DAS RESPO STAS À INTERACÇÃO COM O DIRE CTOR DE TU RMA ......... 572
TABELA Nº 164. INT ERACÇ ÃO COM O DIRECTOR DE T URMA – INDICA DOR AGR EGADO .................... 573
TABELA Nº 165. VAR IAÇ ÕES SIGNIFICATIVA S D A INTERAC ÇÃO COM O DIRECTOR DE TURM A E O SEU
INTERESSE PELO TRABALHO DOS ALUN OS COM A S CARAC TERÍSTICAS D OS RE SPOND ENTES ............. 574
TABELA Nº 166. VARIAÇ ÃO D A INTER ACÇÃO CO M O DIRECTOR DE TURM A SOBRE O INT ERESS E PEL O
TRABALHO DOS ALUNOS CO M O GÉNERO DOS AL UNOS ................................................................... 575
TABELA Nº 167. VARIAÇ ÃO D A INTER ACÇÃO CO M O DIRECTOR DE TURM A SOBRE O INT ERESSE PELO
TRABALHO DOS ALUNOS CO M A OPINI ÃO DOS A LUNO S E PROF ESSORES ......................................... 576
TABELA Nº 168. VARIAÇ ÃO D A INTER ACÇÃO CO M O DIRECTOR DE T URMA SOBRE O INT ERESS E PEL O
TRABALHO DOS ALUNOS CO M O ANO DE ESCOL ARIDAD E ................................................................ . 577
TABELA Nº 169. FREQU ÊNCIAS DAS RESPOSTA S À INT ERVENÇÃ O DO DIRECTOR D E TUR MA NA
RESOLUÇÃO DE PROBL EM AS ............................................................................................................. 578
TABELA Nº 170. INT ERVEN ÇÃO DO D IREC TOR DE TU RMA NA RE SOL UÇÃO DE PROBLEMAS –
INDICADOR AGREGADO ..................................................................................................................... 5 79
TABELA Nº 171. VARI AÇÕ ES SIGNIFICATIVAS DA IN TERVENÇÃ O DO DIRECTO R D E TURMA NA
RESOLUÇÃO DE PROBL EMA S COM AS CARACT ERÍSTIC AS DOS RESPON DENT ES ................................ . 580
TABELA Nº 172. VARIA ÇÃ O SIGNIFICA TIVA DA INT ERVENÇÃ O DO DIRECT OR DE TURM A NA
RESOLUÇÃO DE PROBL EMA S PEL O ANO DE ESCOLARI DADE ................................ .............................. 580
TABELA N º 173. FREQU ÊNCIA DA S RESPOST AS AO APOIO DADO PELO DIR ECTOR DE TURMA AOS
ALUNOS ............................................................................................................................................. 581
TABELA Nº 174. APOIO DO DIRECTOR DE T URMA AOS A LUNOS – INDICA DOR AGREG ADO ............... 583
TABELA N º 175. VA RI AÇÕ ES S IGNI FICATIVAS DO APOIO D O DIRECTOR DE T URMA AOS A L UNOS
PELAS CARACTERÍ STICAS D OS RESPOND ENTES .................................................................................. 584
TABELA Nº 176. VARI AÇÃ O DO APOIO DO DIREC T OR DE TURMA AO S AL U NOS PELOS
AL UNOS/PROF ESSOR ES ..................................................................................................................... 584
TABELA Nº 177. VARI AÇ ÃO DO APOIO COM O NÍ VEL D E INSTRUÇÃO F AMILIAR ................................ 585
ÍNDICE
INTRODUÇÃO
A presente dissertação é desenvolvida no âmbito de um doutoramento n a área
da Didáctica e Organização Escolar, na Universidade de Santiago de Compostela
(USC).
O tema escolhido para a dissertação foi a construção de um clima de
convivência, em contex to educativo, uma áre a inesgotável e que se reve st e de enorme
complexidade. Pensamos que a sua análise pode contribuir par a uma melhor
compreensão desta importante temática e du cativa.
A convivência em contex to educativo não é um conceito novo, já que tem sido
objecto de interesse científico nas últimas décadas. A questão da indisciplina, em
contexto educativo, tem sido sempre um obstáculo à construção d a convivência. Não
pretendemos d esenvolver aqui um lon go p ercurso histórico da indisciplina, tarefa a
que outras investigações se dedicaram (Foucault, 2000; Estrela, 1986, Amado, 2000),
mas apena s confirmar essa actualidade nos dias d e hoje e esboçar as princ ipais linhas
orientadora s d este estudo.
A nossa primeira preo cupação é procurar compreender a quem se atribui a
responsabilidade da indisciplina, para o qu e constr uímos alguns indicadores , centrados
no interesse ou desinte resse dos jovens, dos alunos, pela escola; na forma de
organização da escola; n as relaç õ es que se estab elecem entre os princip ais actores da
escola; nos currículos; n as relações entre a escola/família e n a violênci a transmitida
pelos mass media.
Pretendemos conhecer os a spectos positivos da convivência e compreender
como se desenvolvem as inter-relações entre os diferentes membros da comunidade
educativa, com incidência significativa n as atitudes do aluno face ao trabalho escolar,
na forma de controlo dos c omportamentos desviantes e nas formas d e p romoção d a
convivência a ní vel inte rno e ex terno da escola . Assim, em relaç ão a estes temas,
procura mos f azer o levantamento de situaçõe s existentes.
No nosso estudo , incluímos o ponto de vist a das famílias e dos profess ores ,
como protagonistas da convivência escolar, por entendermos que as relações que se
estabelecem entre os alunos e estes dois colectivos ajudam na construç ão de
determinados modelos de convivência, que se reflectem nos processos de int eracção
social que ocorrem na e scola. O professor constit ui uma figura fund amental para a
construção da convivência, quando acompanha e escuta d e um modo compreensivo o
INTRODUÇÃO
II
aluno, é receptivo e lhe permite a abertura, e este sente que o compreende, que o
respeita. Deste modo o aluno aprende a comunicar , a dialogar, a respeitar e a participar
nas prática s educativas que ocorrem na e s cola.
A família é considerada o primeiro espaço da so cialização primária do aluno,
onde se iniciam as primeiras aprendizagens e se aprendem os primeiros pa ss os para a
construção da convivência. Os modelos que se apre ndem no seio familiar são basilares
para a formação da conv ivência em contex to educac ional. As crianças ap rendem com
os membros da família com quem convivem. Neste contex to , aprendem-se os valores
primordiais, a qualidade da s relaçõe s afectivas, a comunicaç ão, a soli dariedade, o
respeito e os hábitos culturais.
A aposta na promoção d a convivência escolar é fundamental para a construção
dos paradigmas de convivência social. A convivência constrói-se individualmente em
cada elemento, para chegar posteriormente a uma singular id ade global, que é o
resultado do d esenvolvimento p ositivo ou negativo, que o corre dur ante o seu processo
de formação. Na escol a, este desenvolvimento positivo, tal como o negativo, reflecte-
se no processo ensino -aprendizagem, quando surgem dificuldades nas relaçõ es
interpessoais que se e stabelece m entre os membros da comunidade educativa,
contribuindo para os problemas de c onvivência n a escola.
Nos dias de hoje, o futuro entra cada vez mais depressa no presente sem pedir
licença. O conceito de educação complex ifica- se , falando-se assim de alargamento das
necessidades educativas para todos e ao lon go da vida . Está em causa a educação para
o desenvolvimento e para a solidariedade , a educ ação como p roblema o r ganizacional,
a educação como p robl ema psicossocial , a edu cação como prob lema económico e
político, num mundo onde se ag rava o fosso entre os países mais ricos e mais pobres.
A escola é uma or ganiz ação social complexa. A es cola actual po rtuguesa
(escola de massa s), ao ser uma escola de todos para todos, é palco de inúmeras
exigências, onde cada vez mais se discutem os comportamentos divergentes qu e
surgem como gra v es problemas na socialização escolar.
Contudo, se nos reportarmos a épocas passadas, constatamos que os jovens
eram a pontados pela geração mais idosa, pela ociosidade e a indisciplina que os
caracter izavam (M artins, 2001). No entanto, actualmente, os comportamentos de
indisciplina e violência constit uem um dos problemas que mais preocupam
professores, pais e funcionários. Embora se revele um problema se ntido por todos , não
INTRODUÇÃO
III
podemos dizer que seja um assunto com um entendimento consensual. As opiniões
divergem. Ele é abordado e interpretado de diferentes formas pelos diversos actore s.
Destaca mos dois ângulos de aná lis e: por um lado, os que tentam estabel ecer
uma relação de causa e efeito entre indisciplina e scolar e o fracasso d as democracias ;
por outro, os que se detê m sobre a crescente dificuldade dos professores, sobretudo a
dos mais jovens e inexpe rientes, em li dar com os problemas de comportam ento na sala
de aulas.
Perante um fenómeno tão complexo, diver sas investigações se têm
desenvolvido nesta á rea, apresentando-nos uma pluralidade de ab ordagens e
perspec tivas teóricas sobre a problemática da (in)disciplina. Os conceitos de
indisciplina escolar têm apresentado grande s v ariações, ao longo da vida escolar,
devido às transformações ocorridas na sociedade e que , obrigatoriamente, s e reflectem
tanto na escola como no desempenho dos seus a ctores. N a opini ão de Estrela (1996 ),
nas causas da indisciplina na escola inte ragem não só as variáveis d e orde m bio -psi co -
social relacionadas com a família, como també m outras referentes à s ociedade, ao
sistema educativo, à instit uição escolar e ao professor, interagindo umas com as outras.
De uma forma br eve, dir emos q ue somos levados a recorrer ao nosso univ erso
simbólico e a recorda r que vivemos na era da globalização ou mundializ ação
neoliberal. Nela, o pre cário, a im precisão, o incerto e o inform al inst alaram-s e
(Rodríguez Jares, 2007). Com a consolida ção do capitalismo g lobal, ac entuam -se as
formas de ex clusão soci al : 5/6 da humanidade vive na miséria; cometem -se crimes
horrendos contra a Hum anidade sem ter em conta os direitos humanos; assistimos à
impunidade da classe po lítica; ao lax ismo e à desintegração familiar; na educação, o
desinvestimento no ensino públi co e aposta n o ensino privado; acentuando-se o
predomínio dos organismos internacionais tais como o B anco Mundi al, o Fundo
Monetário Internacional e o B anco C entral E uropeu, na definição d e políticas
educativas, de linguagens, conteúdos, programas, currículo s nacionais, exames
nacionais, ra nkin gs e ges tão profissional de escolas, entre outros.
Ao ser tema de grandes deba tes, quer a nível político, quer a nível educativo,
esta problemática adquire dim ensões me diáticas, de maneira que s e tor na capa de
muitas revistas e inclusivamente notícia de abertura dos noticiários televisivos.
Professores, pais e alunos vivem, diariamente, angustiados com est a situação.
Contudo, a indisciplina não pode ser analisada como ex clusiva de uma determinada
INTRODUÇÃO
IV
classe ou de uma aula, não podendo ser resolvi da por um professor isol adamente. O
problema precisa ser analisado de forma global, porque a escola não é u ma rea lidade
isolada.
A (in)disciplina é uma problemática que se tem reflectido, através dos tempos e
do mundo. É tão antiga quanto a p rópria existência da escola. A razão pe la qual tanto
se fala neste f enómeno, no mundo da educação, deve-se ao facto de el e ter atingindo a
escola a uma escala elevada, esp alhando-se de forma cresce nte pelas mais diversas
área s popul acionais e por níveis de ensino que pareciam imunes (Estrela, 1996).
A convivência e a ( in)disciplina têm mere cido honras de vede ta na
comunicação social. As medidas administrativas e pedagógicas do Ministério da
Educação e das e scolas ; os conselhos discipl inares convocados nas escolas; o
policiamento e os protocolos celebrados entre os Mi nistérios da Educação e da
Administração Interna pa ra o pro grama Escola Se gura ; o reforço das estru turas físicas
de protecção das escolas (redes e gra des altas, p ortões de ferro, sistemas de al arme,
câmaras de vigilância, guardas-no cturnos,...); se minários, conferê n cias e debates sobre
este tema, etc. contribuem para fazer p assar a ideia da ‘ escola-prisão ’ , em qu e as
desordens emergem no espaço escolar. O discurso sobre a violência escolar sobe de
tom, ganha contornos mediáticos e é apresentado como um problema social a
necessitar d e tratamento por espec i alistas credenciados.
Sobre este assunto, Neves (2003) manifesta a sua concordância em que
encaremos esta problemática como um problema social, mas igualmente que os
especialistas, em p articular os actores e a gentes escolares, tracem estraté gias de
fomento da convivência e disciplina n a escola. Aliás, este autor recomenda mui ta
atençã o ao discurso sob re a indi sciplina e a violênc ia veiculado pelos académicos,
políticos, especialistas e meios de comunicação social, considera ndo que é mais um
discurso exportado para a escola que emergido da escola.
São muitos os professores, alunos e funcionários que actualmente sofrem com
o ambiente de indisciplina que se vive na escola e na sala de aula. I nfeliz mente, a
nossa sociedade passa por esta persistente e fort e ‘ onda de indisciplina ’ que, para o
bem-estar de todos, é preciso dia gnosticar, prevenir e , se não for e rradicada, pelo
menos minimizada. Pensamos nas deficientes condições de muitas escolas em Portugal
e no que a essas condições é ine rente:
O elevado número de alunos por turma;
INTRODUÇÃO
V
o paradigma de escola dominante : a curric ulista e mimética;
a inadequação curric ular;
a baixa qualidade dos manuais escolares;
a deterioração da ima gem social do professor, que afecta a sua auto-esti ma
e a sua credibilidade;
as más condições de trab alho e a deficiente formação inicial e contínua do s
docentes;
os processos de recrutamento dos professores; colocados mediante
concurso nacional, em vagas declaradas pela A dministração Central, em
que são dois os factores primordiais: a hab ilitação académica e a
antiguidade na profissão.
as elevadas taxas de insucesso esc olar ex istentes no nosso país;
o abandono escolar e falta de perspectivas de vida futura para os jovens.
Reconhecemos que todos estes factores contribuem para um clima escolar
propício à desmotivação e indisciplina escolar. As diversificadas estratégias de
diagnóstico e p revenção do acto indisciplinado , b em como o fomento da convivência
cívica e democrática, rel atadas pelos actor es sociais e observadas in loco , sem contudo
se constituírem como opções má gicas ou r eceitas milagrosa s, são b em o exemplo de
como cada escola é um mi crocosmo, cada sala de aula é um a realidade di stinta e cada
aluno um ser individual.
Face à complexidade do tema, face ainda ao facto de ele perpassar ao longo das
geraç õ es e dos tempos, sentimos a vontade de tentar perceber:
que ti po de relações existem entre docentes e alunos e entre os própri os
alunos e como se de s encadeiam as condutas que afec tam a convivência;
qual a génese da insatisfação de alguns docentes e alunos em relação à
indisciplina e como interpr etar as imagens que os dois grupos atribuem à
indisciplina ;
de que modo a gestão da organização da esco la influencia, ou não, a
construção d e espaços de convivência para o des envolvimento dos nossos
jovens/alunos;
qual a contribuição e a p ertinência do ór gão de gestão intermédia, na figura
do Director de Turma, para a c onst rução de um es paço de convivência.
São estas as questões que nos desafiam e que constituem de algum modo o
INTRODUÇÃO
VI
centro da investigaçã o qu e queremos realizar.
O nosso interesse e opção pelo tema da c onviv ência escolar surgiu ainda:
fruto da coerência curricular dos cursos esc olhid os na parte curricular do
doutoramento, pela curio sidade investigativa fom entada por al gumas obra s
publicadas;
pela nossa participação na equipa do Projecto Coménius , sobre convivência
escolar.
mediante o conhecimento da an gústia que se sente nas nossas escolas , por
parte dos p rofissionais da educação, pe rante o aumento dos actos de
indisciplina e violência que surgem no dia a dia neste contexto.
Por ser um tema de gran de relevância social e pedagógica, mui to actual,
que está na rua, nos mas s media, na preocupação de políticos, professores,
pais e especialistas, etc.
Porque entendemos que a nossa sociedade mudo u e que a escola há muito que
se debate com problemas; porque a autoridade dos profes sores está cada vez mais
fragilizada; porque os valores não são os mesmos d e há uns anos a esta parte;
entendemos que o grande motor deste estudo seria a convivência e os comportamentos
de indisciplina na escola, junto com as estruturas e estratég ias de interven ção.
No sentido de dar re sposta a esta nossa inquietação investigativa, delineámos
um conjunto de ob jectivos , que orientam o nosso estudo e nos guiam nas conclusões a
tirar e que , d e seguida, apresentamos:
Diag nostic ar quais são as responsabilidades atribuídas por professores e
alunos à indisciplina na escola.
Detectar estratégias de construção/desconstrução da Convivência e
disciplina, pr otagonizadas pelos vários actore s, meio envolvente , pais e
Comunidade Educativa;
Identifica r boas e más práticas de convivência em diferentes cenários
escolares;
Construir, de forma sisté mica e participada, os c aminhos de afirmação de
convivência e disciplina que melhor s e ad aptem aos percursos identitá rios
de cada esc ola;
INTRODUÇÃO
VII
Reflectir sobre o papel das famílias no proce sso de educar para a
convivência.
A c onstrução de um clima de convivência, e m contexto educativo, é uma
condição essencial p ara que o trabalho docent e se realize com qu alidade. Nesta
investigação procuramos conhecer de que modo a orga nização e gestão da e scola pode
influenciar, ou não, a convivência, a indisciplina e a violência em qu atro Escolas
Básicas dos 2º e 3º ciclos.
Tendo em a tenção a e volução das regras, que conduzem a s relaç ões entre
adultos e jovens, situação que ultrapassa os muro s da escola, m as que t êm, sobre essas
relações, o maior impacto, é frequente falar-s e nos insuportáveis níveis d e violência
escolar, de indisciplina, de problemas de condut a, e de comportamentos anti-sociais.
Estes conce itos são usualmente anunciados como comportamentos que os alunos
exibem na escola e que colidem com os objectivos fundamentais do ensino e na forma
com a escola está organizada.
Actualmente, a preo cupação no meio escolar é o clima de indi sciplina e de
violência, que r a nível m acr o de política educativa, quer a nível da investigação ,
procura m- se soluções qu e nos levam a fazer uma análise de investigaç õ es sobre esta
problemática, recorr en do por isso ao estudo de Estrela, (1986 ) consider ado como o
trabalho pioneiro n esta área, e a outros da me s ma autora em 1992, 1996 , 2000.
Utilizamos, ainda, um conjunto de estudos realizados no nosso país: Amado (2000,
2001); Amado e Fre i re ( 2002); Baginha (1997 ); Carita e Fernandes (2000) ; Espírito
Santo (1994) ; Estrela e Estrela (1994); Ferreir a et al. (2002); Magalhães (1992) ;
Santos (1999); Sil va ( 1995); e Veiga (1999) , para sab ermos o que os teóricos
portugue s es propõem nesta matéria.
Sendo nossa int enção obter a l gumas respostas pa ra os objectivos de finidos
anteriormente, optamos, numa etapa de carácter exploratório, por um estudo de caso
de uma escola E B 2,3 sit uada no distrito do Porto, no con celho d a Maia qu e
denominámos de es cola “ A ”. Se guimos, pois, metodologias qualitativas e recorremos
aos seguintes in strumentos d e recolha de dados que aplicamos na escola que
estudamos:
grupos de discussão: primeiramente trabalhámos com um grupo de
professores, oriundos de várias escolas, de diferentes perfis;
CAPI TULO I – A ESCO LA COMO ORGA NIZAÇÃO COMPL EXA
2
miméticamente, as aplicações empresariais para a organização escola. Assim, parece
necessário desenvolver um conhec imento próprio da organiz ação escolar , a pa rtir de
outros modelos de análise e de investigaç ões centradas no interior da escola, sem
perder de vista as relaç õ es com o exterior.
A escola, ao long o dos anos, é censurada por mui tas pessoas, que se sentem
com capacidade p ara a criticar, por se r uma organização de alg uma forma frequentada
por todos: a escola ond e estudou, a escola freq uentada p elos seus filho s, a escola
freque nt ada pelos netos, ou por outros fa miliares e amigos. Podemos dizer que a
escola é um tema em per manente debate, mas por outro lado também pens amos que é
uma org anização n ão suficientemente estudada no nosso país (Teix eira, 1995). A
organização escola não tem sido uma maté ria de estudo tão investigada como as
organizações empresariais. Os estudos realizado s t êm- se d ebruçado, muito mais, sobre
empresas industriais do que sobre e s colas.
Invocamos Álv arez Núñez (2007: 217-218) que ao reportar- se aos anos 70, e
em relação ao aparecimento dos modelos interpretativo-simbólicos, afirma “(…) su
aparición (…) propició una crisis en los plant eamientos de los modelos anter iores y
una reconceptualización de las dim ensiones or ganizativas fundamentales.” A ssim, os
centros educativos passam a ser vist os como organizaç ões complexas, ambíguas e
instáveis. A partir deste momento apareceram noçõe s novas e c ampos de estudo que
davam ê nfase à dimensão ‘simból ico - cultural’, que as t eorias antecedentes
desconhec i am. Os símbolos possibilitam a interpre tação e a compreensão dos papéis
que as pessoas cumprem nas organizações, onde desempenham diversas funções.
Proporcionam, deste modo, uma diversidade de informações e de temas ( status , roles,
valores, normas,...) e indica m os comportamentos a seguir.
Em Portuga l, a partir da Revolução de Abril de 1974, a organização escolar
tem sido objecto de discussão e debates permanentes, numa procura const ante das suas
funções sociais, na eleição dos modelos de organização e gestão da escola, a ssim como
na análise das razões que levam à indisciplina à violência e ao abandono escolar,
procura ndo encontrar as causas e as soluções que acabem com a tão prop alada “ crise
da esc ola” . Efectivamente, as divers as promessas de mudança que se foram
projectando no tempo tiveram o poder de chocar quase sempre com fen ómenos de
resistência, que foram aparecendo nos diferentes contextos da orga niz ação escolar .
CAPI TULO I – A ESCO LA COMO ORGA NIZAÇÃO COMPL EXA
3
Para Álvarez Núñez (2007) a dimens ão simbólica-cultura l passa a ser o centro
de interesse e os factores formais e os estruturais ficam remetidos pa ra se gundo plano.
A escola é vista atenden do à sua div ersidade cultural. Isto é, a grande p reocupação
passa por compreendê-la na óptica da cultura, sob um olhar mais sólido e complexo,
que se centra na dimensão da sua actividade diária. A escola, enqu anto organização
sociocultural, é vist a como um espaço social próprio, com características mu ito
peculiare s, uma instituição orientada por um conjunto de normas e regras, qu e
pretendem adequar e d elinear a acção dos s eus actores. É composta por um comp le x o
“tecido de r elações sociais” entre os div ersos actores envolvidos, que se manifestam
através das alianças, dos conflitos, da imposição d e n ormas e estratégias individuais ou
colectivas de transgre ss ão e de acordos.
Considerar a escola com o uma organiz ação foi, na opinião de Nóvoa (199 4),
uma das evoluçõe s mais significa tivas dos anos 80. Os enfoques sobre ela têm sido
muito diversos. Não obstante, importa tê-los em conta, considerando que contribuem
para p erspectivar a escola como um todo or gânico, par a o qu al contribuem os que nela
intervêm, nas múltiplas interacçõe s que entre eles se estabelecem.
Para al ém de tudo, no diz er de Teix eira (1995: 5), a es cola como or ganização é
“(…) uma das mais relevantes já que, de al guma maneira, irá ter influên cia so bre todas
as outras”. A escola é uma organização social “(…) cuja realidade se a ctualiza em
jogos complexos de interacção entre aqueles que sã o os seus membros” (Alves -Pinto,
1992: 41).
Na pós-modernidade, a vida social é comple xa , coloca dificuldades ao
indivíduo societário e alcança as inst ituições educativas de forma parti cular, já que
“(…) tudo o que é da vida social se projecta na es cola” (Sampaio, 1996: 133).
As organizações es colares têm sido pouco es tudadas em Portugal. Esta
ausência de atenção é fruto do centralismo e da manipulação das pol íti cas educativas
emanada s do poder c entral, das práticas diárias da escol a, da periclitante formação
contínua de prof essores, da falta de cu riosidade cient ífica, da c arência de reflexão
sistemática dos seus a ct ores e dos problemas das próprias escolas e das universidades.
A organização escola é constit uída por uma colectividade em constante
interacção, que deverá trabalhar para o mesmo fim, orientada po r di sposições e
normativos, respeitando as escalas de autori dade e de poder, assim como os sistemas
de comunicação e coordenaçã o exist entes nesta org anização.
CAPI TULO I – A ESCO LA COMO ORGA NIZAÇÃO COMPL EXA
4
Na organização escola as pessoas não agem com a utonomia, uma vez que o seu
campo de int eracção está estruturado, cada indiv íduo tem um determinado estatuto e
desempenha diferentes papéis. A escol a é uma organização com fun ções complex as e
nem sempre claras; uma realidade social aberta ao m eio. A sua acção é ajustada po r
um marco l egal e jurí dico ; os seus valores e atitudes estão condicionados pela
sociedade e influenciam as características pessoai s, sociais, culturais e económicas dos
seus membros.
No entanto, as teorias da s organizaçõe s têm ajud ado à compr eensão de c ertos
aspectos da vid a das esc olas, principalmente aquela s que se centram na autoridade, na
autonomia, na p rofissionalidade e na tomada de decisões. De realçar também a
relevância da escola no contex to social em que se in tegra e ao qual presta s erviços. Daí
que recuperemos, a prop ósito, a opinião de Ant ún ez (1994: 21) ao conceber a escola
como uma o rga nização que “(…) tiene planteados muchos objetivos por alcanzar, de
naturaleza muy varia da y, a menudo, de formulación y concreción ambíguas. ”
Já no entender de Santos Guerra (1990: 22 -23), que sublinha o que atrás
afirmamos, a escola surge como uma org anização que “(…) perviv e
independientemente del éxit o con sus usu arios (…) que acoge a sus clientes por
reclutamiento forzoso” . Enquanto, em qualquer outra organização, as pessoas se
dirigem a ela de livre vontade, impelidos pelos se u próprio int eresse ou vo ntade, nesta
organização, obse rvamos o contrário; os alunos “ (…) asisten a las escuelas obliga dos
por la ley , debido a la escolar iz ación oblig atoria y se les controla su asistencia ”
(Álvare z Núñez, 2003: 2 75).
A tendência nas sociedades industrializ adas é para aum entar o tempo de
permanência n a escola. É inquestionável que o d ireito de todos à escolarização é uma
grande conquista; contu do, não chega o acesso, também é ne cessário o sucesso, o
apoio para atender à diversidade e às diferenças que hoje exist em na escola, a par da
motivação e do interesse. Não chega os políti cos diz erem que a escolaridade vai ser
obriga tó ria até ao 12º ano se, para tal, não se alterarem as condições. Alunos obriga dos
a permanecer n a escola, alegam que a razão porque lá se mant êm é para as famílias
continuarem com o Rendimento de inserção social
1
e diariamente causam problemas a
colegas, professore s e pessoal auxiliar.
4.O Rendime nto Social de Inserção (RS I) é uma medida de proteç ão social criada pa ra apoiar as pes soas ou famílias que se encontrem em situação de g r ave car ê n cia ec onómica e
em risco de ex clusão s ocial e é constituída por: uma prestaç ão em dinh eiro para assegurar a satisf ação das suas n ece ssidades essenciais. Um programa de inserção social para
poss i bilitar a sua integração soc ial, profissio nal e co munitária. O prog rama de inserção soc ial consta de um a co r do celeb ra do en tre a Segurança So cial e o ti tular da prestação e
CAPI TULO I – A ESCO LA COMO ORGA NIZAÇÃO COMPL EXA
5
Outra consequência da u niversalização, verifica-s e ao nível das práticas. Com
toda esta diversidade d e alunos, os critérios e os tramentos são uniformes e miméticos,
utilizando tratamento igual para diferentes alun os, que estão ali obrigados, que não
querem cump rir as regras que a escola lh es impõe e qu e estão h abituados a ter um
espaço de liberdade de que não quer em prescindir. As escolas actualmente não são
locais atractivos, nem para alunos, n em para prof essores. A escola não te m re cursos
quer pessoais, quer físicos, para c olmat ar esta diversidade.
A escola tem grande difi culdades em realizar mudanças profundas ao nível da
dinâmica e da estrutura. A tendência é para mante r a rotina e cumprir as ordens
emanada s do pode r central. Por vezes, parece fazerem -se pequenas alteraç õ es
superficiais, mas não passa de uma ‘maquilhagem de cosmética’. A autonomia existe
para tomar peque nas decisões e, quando é possível tomar algumas decisões mais
arrojadas, não se tomam por receio. É fundament al ter sempre o suporte b urocrático e
legal para assegurar. As mudanças só se fazem se vierem de cima para baix o, os que
estão em baix o não são pagos para ‘ pensar ’ , só para ex ecutar. Fazem-se reformas,
exigem-se mudanças, publi cam-se decretos, mas não se mudam mentalidades, estas
não mudam por decre to, nem se concretizam sem ouvir os actores que as vão pôr em
prática.
1.1. A Organização e as su as fronteiras conceptuais
Inúmeros conceitos, pontos de vista e qu adros conceptuais foram delineados
em torno do conceito de organização. Pa ra uns, é de difícil definição porque “ (...)
tratamos de fenómenos concre tos e o mundo tem o hábito desagra d ável de não se
deixar classificar em categorias muito nítidas . ” (March & Sim on, 1979: 1); para
outros, as or ganizaçõe s “ (...) são compostas de seres humanos em estado de
interacção. ” (Marc h & S imon, 1979 : 4). Todavia, Hall (1984: 7) considera que elas
são “(…) as fontes principais da estabilidade so cietária ” e Chiavenato ( 1993: 476)
afirma que “ (...) permeiam todos os aspectos da vida moderna e envolv em atençã o ,
tempo e energia de numerosas pessoas” . Num ponto de vista poético, Rodriguez
(1992: 101) vê as organizações como “(…) la (s) metáfora(s) más vigorosa(s) y con
mayor presencia en nuestra sociedad ”. D e facto, a força da metáfora cri a a ideia de que
restantes memb r os do seu a gregado familiar o nde se define, em cada caso , um conjunto de açõe s adequadas para incentiv ar a aut onom ia das família s a travé s do trabalho e para a
sua melhor integ ra ção n a soc iedade, garantindo a frequência escolar obrigatória dos m eno r es, a ob ten ção de cuidados de saúde, melhor qualif icação pessoal e profissio na l, e
outras fo rmas de inserção social, cuj o cumprime n to é co ndi ç ão de manute n ção do apoio.
CAPI TULO I – A ESCO LA COMO ORGA NIZAÇÃO COMPL EXA
6
a estrutura, as estratégias, as funções e a res ponsabilidade das or ganizações são
imprescindíveis para a vida em sociedade.
Pensamos, seguindo as ideia s de Hall (1996: 1), que as o rganizações
constit uem o próprio tecido social e “(…) son un componente domi na nte de la
sociedad contempor ânea. Es imposible esc apar de ellas. Son tan inevitab les como la
muerte y los impue stos”. Na liter atura o rganizacional e socioló gica, o termo aparece
quase sempre acompanh ado de um epíteto ou de um qualificativo, a títul o de exemplo:
‘ social’, ‘f ormal’, ‘informal’ e ‘complexa’, etc. Todavia é possível avançar com alguns
contributos conceptuais, numa selecção discutí vel porque são inúm eros esses
contributos, que surg em em torno de colectivida des sociais e que perseguem ‘ metas
específicas’, ‘ obj ectivos’, ‘actividades’ ou ‘fins co lectivos’ , tendo presente o ambiente,
as fronteiras, os actores e o contexto social da vida da organizaç ão .
Assim, a organização é entendida como um “ (...) conjunto de pessoas que estão
combinadas em virtude de a ctividades orientadas para fins colectivos” (Russel, 1990:
105). Numa perspectiva mais analítica, Ha ll (199 6: 33) entende-a como:
“(…) una colectiv idad co n una frontera relativame nte identi ficable, un o rden normativo,
niveles de autoridad , sistemas d e comunicaciones y sis temas d e coor dinación de
membresías; esta colecti vidad existe de m anera conti nua en el am biente y se i nvolucra
en actividades que se relacionan por lo general con un conjunto de metas; las
actividades tie ne n res ultados para los miembros d e la organizac ión, la orga nización
misma y la socied ad .”
Para este autor as organizações são constituídas por comunidades, em que as
fronteiras são claramente definidas, com normas , escalas de autoridade e de valores
bem definidas e com sistemas de coorde nação que contribuam para uma construção
sólida e coesa da organização, construindo um ambiente, onde se rea lizam actividades
para atin gir as metas pre viamente estabelecidas pela organização e pelos seus
membros.
Numa posição difer ente, posiciona-se Greenfield (1973), ao a firmar qu e as
organizações não existem, sublinhando :
“ (… ) o que exi ste são as p essoas associad as que, p or u m efeito de pro cessamento de
informação e de estabelecimento de pr otocolos de comunicação, fazem da sua
interacção organizada num e sp aço e um te mpo determinad os aquilo a que se costuma
chamar organização. ” (cit. po r Sarmento, 19 94: 19)
A li ás, esta opini ão é reforçada, d e entre outros, por Canário (1995: 32) quando
afirma que “(…) as p essoas são, no int erior da organização, os principais recursos.
Não está em c ausa, apenas, o somatório das experiências e competências individuais,
CAPI TULO I – A ESCO LA COMO ORGA NIZAÇÃO COMPL EXA
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mas o modo como elas se cruzam, combinam e interagem no contexto da
organização” .
Para Terr y (1980) a or ganização é fundamentalmente entendid a como a cção,
isto é, como relação entr e as pessoas, o efeito sinérgico e a previsibilidade da acção.
Segundo Sá ez (1993: 15) , “(…) organizar es el establecimiento de relacion es efectivas
de comportamiento entre personas, de m anera que puedan trabajar juntas con eficacia
y puedan obtene r una satisfa cción pe rsonal al hacer tareas seleccionadas bajo
condiciones ambientales dadas pa ra e l propósito d e alcanzar alguna meta o objetivo.”
O estabelecimento d e boas relações de conduta entre os actores da escola, a
partilha, a coop eração a ex istência de um bom a mbiente na or ganização, são variáveis
fundamentais para a realização de um plano de acção conjunto, onde todos se revêem e
se sentem responsáveis pela sua aplicaçã o.
Assim, entendemos que a organização es colar de sempenha funções complexas
e, por vezes, pou co cla ras para os actores sociais, com objectivos, interesses e padrões
de comportamento diversificados, consoante cada realidade con creta. É um espaço e
um tempo, onde oco rrem conexões entre os vários actores da comunida de educativa ,
que desempenham difer entes estatutos e papéis, p ara atingir objectivos comuns. Entre
eles o aprender a viver juntos, aprender a viver c om os outros e procurar responder a o
enorme desafio da educação para a convivência. Na or ganização escolar ex istem uma
série de f enómenos que conse guem afectar o desenvolvimento da conv ivência e o
processo de ensino-a p rendiz age m, provocando mau estar entre alunos, professores e
famílias. Tudo ist o leva- nos a realizar uma breve reflexão sobre os constituintes de
uma organizaçã o escolar , que se pretende cada vez mais democrática, na dist ribuição
de espaç os d e participação e de poderes entre os seus actores.
1.2. A organização e os seus constituintes
Vários f actores organizacionais têm d espertado a curiosidade científica de
muitos investi gadore s; referimo-nos, nomeadamente ao estudo das fronteiras, aos
objectivos, à complexidade , à cultura, ao ambiente, à estrutura e à estraté gia, entre
outros. A estrutura organizativa , é considerada h oje uma das variáveis essenciais em
qualquer marco d e análise organizativo. Uma parte da estructura é estática, “(…) en el
sentido de que se diseña y perm anece mientas la organización así lo determina en
función de sus fines (Muni cio, 1996: 125); a outra é dinâmica “(…) y sólo puede
CAPI TULO I – A ESCO LA COMO ORGA NIZAÇÃO COMPL EXA
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diseñarse d e forma indi recta y a que d epende del ajuste de todas las variables y
relaciones que se e st ablecen entre las personas ” (Municio, 1996: 125).
Tem-se construído numerosos c ampos semânticos em torno deste conceito,
alguns susceptíveis de s uscitar alguma ambiguidade pelo uso im preciso dos termos e
dos contex tos; às vezes chamam estrutura ao organigrama, isto é, a repr esentação
gráfica e parcial, outras vezes identificam -na como a organização no s eu conjunto.
Embora, existam dois que têm sido particularmente postos em relevo, segundo Alves-
Pinto (1995: 157), como uma modalidade de acção dos actores e como instrumento
me todológico da investigação organizativa.
Qualquer organização, e a instituição escolar não é excepção, se o rienta numa
determinada direcção, segundo uma missão e uma visão, suportad a por diversas
variáveis o rganizativas: a cultur a, a estratégia, a estrutur a, as pessoas e o meio
envolvente que as rodeia. Qualquer organização escolar conta sempr e com uma
estrutura organizativa formalmente constituída, pensada para que a organização
coordene a sua actividade e desenvolva as actividades necessárias p ara atingir os
objectivos que definiu.
A estrutura organizativa é obj ecto d e estudo d e investi gadores como Hall
(1984), Mi ntzberg (1990), Perr ow (1983), entre outros. A estrutura de uma
organização pode se r d efinida como: “(…) a so ma total dos meios utiliz ados para
dividir o trabalho entre tarefas distintas e para asse gurar a coordena ção necessária
entre estas tarefas.” ( Min tzberg, 1990: 157).
A estrutura da escola representa a sua dim ensão formal sob re a qual assenta a
organização. Através da estrutura podemos conh ecer as funções, as actividades e
responsabilidades formalmente atribuidas aos seus membros e aos departamentos que
a constituem, os mecanismos formais para a tomada de decisão, a relação e a
coordenaçã o entre as pa rtes constituintes da organização e do se u contexto, assim
como a distribuição dos espaços e actividades de construção d a convivência que são
tidos em conta, para ope racionalizar pelos alunos. Habitualmente “(…) la estrutura de
los centros escolares es resultante del conjunto de normativas, regul acione s oficiales y
reglas formalmente estable cidas emana d as des de la administración educa tiva.”
(González González, 2004: 26)
CAPI TULO I – A ESCO LA COMO ORGA NIZAÇÃO COMPL EXA
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A componente estrutural das organizações escolares é fund amental, p ois
estabelece em grande medida as relaç õ es que ocorrem nas or ganizações, entre os
actores do acto educativo, assim:
“(…) una e structura esco lar particip ativa po sibilitará - al menos e n tér minos for males -
el desarr ollo de relaciones y p rocesos de toma de decisión de mocráticos y
participativos, y brindará la opo rtunid ad de que los plantea mientos y prácticas del
centro se puedan co nstruir d emocrática mente, lo cua l no sería po sible en el marco de
una es tructural formal que no esté d iseñada bajo el principio de la par ticipación; una
es tructura e n eq uipos posibili ta cierta s r elacio nes y diná micas de tr abaj o en un ce ntro,
diferentes d e las q ue potencia una estr uctura dep arta m e ntal; una estructura e n la q ue los
alumnos queden o rganizado s en grupos hetero géneos i mplica, entre otr as cosas, una s
posibilidad es de trabajo en el au la d iferente s de las que ofrece una or ganizació n de
alumnos por itinerario s, etc .” (Go nzález González, 2 004: 2 7)
Uma estrutura participativa não passa apenas por assegurar um funcioname nto
adequado dentro da orga nização escolar. Esta dimensão estrutural necessita coexistir
com outras que trab alhem em sintonia, isto é, importa qu e e x ista orienta ção,
acompanha m ento, espaços de liberdade e constru ção de convivência e educação, para
além do qu e está estipulado formalmente (directriz es e pres crições administrati vas,
funções estabelecidas, responsabilidade s mais ou menos delimitada s, regras e
procedimentos estabelecidas e, muitas vezes, i mpostas para realizar determinadas
tarefas).
As funçõe s que oficialmente constam na estrutur a formal de uma or ganizaçã o,
nem sempre reflectem o que ocorre na prática no dia a dia da escola. S ão as pessoas
que utilizam as estrutura s, quem na prática as operacionaliza, são os actores os que se
comprometem e se implicam na sua utilização a o serviço de uma boa educação, de
uma sã convivência, do desenvolvimento pessoal e profissional dos elementos que a
constituem e da esc ol a de uma maneira global.
A organizaçã o e a vida organizativa das escolas não se constr oem só
externamente, a partir de normativos e re gulamentos, mas também inte rnam ente no
trabalho diário a partir das relações que se mant êm entre os seus membros. As relações
que se estabelecem na es cola marcam a abertura e a vid a social que aí se pratica. Umas
são form ais, outras informais, al gumas ho rizontais, outras ve rticais e nun s casos
explícitas e noutros i mplícitas . E articulam-se à volt a de conteúdos diversos
relaciona dos com a prática e a dinâmica educativa que ocorre na escola.
Para Hall (1996: 93), existem duas categ orias de factore s que afectam o
desenvolvimento orga ni zacional: “ os contex tos (o tamanho da orga nização, a
CAPI TULO I – A ESCO LA COMO ORGA NIZAÇÃO COMPL EXA
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complexidade, a tecnologia, a cultur a intern a, o ambiente e factores de cultur a
nacional) e o d esenho (a estratégia e os modelos institucionais) ” .
As organizaçõe s, quanto às suas fronteiras , a presentam dif erenças ní tidas:
umas são rígidas e dema rcada s; outras, mais pe rmeáveis; e por últ imo, c om fronteiras
fluidas e de contornos pouco definidos. De forma muito breve, s eguindo Hall (1984:
23), diremos que “(...) a fronteira da o rganiz ação não é alg o co mpletamente
impermeáve l (…) Su ge re que há alg um a coisa fora da or ganização, a saber, o se u
ambiente”. Pelo facto de a organização ser um sistema aberto, ela inte rage com o
ambiente exterior, criando dentro dela “(…) estru turas sust entadoras nas fronteiras d a
organi zação.” (Katz & Kahn, 1987: 98).
Segundo estes autores, as fronteiras, tanto físicas como psicológica s, são graus
de abertura ou de control o, dentro ou fora do siste ma, que visam manter a i ntegridade,
estabelecer interacções, criar z onas de intercâmbio de energia ou de inform ação, que a
estruturam, a definham ou a fazem crescer c onstantemente. As organiz ações são
criadas para atingirem determinados fins ou objectivos, que se altera m no tempo de
vida e constituem um rumo, uma fonte de legitimaç ão e unidades de referência para o s
seus membros.
Para alguns investi gadores, P errow (1983) entre outros, os objectivos
organizacionais, servem o interesse dos seus diri gentes ou dos seus proprietários; para
Ball (1989: 35), s ervem també m os interesses dos grupos estrat égicos que
transformam as o rganizações em “(…) campos de lucha, divi didas por conflictos en
curso o potenciales entre sus miembros .”
À medida que a sociologia das organizações e a educação se debruçam sobre
contextos sit uacionais, as organizações, as interacções e as estratég i as ganham
particular im portância. Tendo em atenção este contex to, alguns a utores têm
aprese nt ado a estratégia como “ (...) a arte de preparar um plano de acção coorde nado
que se realiza elaborando um certo número de tácticas, organizando a utilização de
meios de forma a atingir objectivos definidos ” (Ballion, 1982: 67).
A estratégia, se gundo Morin (1991: 96), é a a cção e luta contra o acaso, é um
conjunto “ (...) de c enários para a acção, cen ários que poderão s er modificados segundo
as informações que vão chegar no d ecurso da acç ão e segundo os imprevistos que vã o
surgir e perturbar a acçã o . ”
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Mintzberg identifica a e stratégia com os “ (...) pl anos para o futuro e mo delos
de acção ti rados do passado ” (1990: 50) ou o conjunto “ (...) das funções e das relações
que determinam form almente as missões que cada unidade d a o rganização deve
executar, e os modos de colaboraçã o entre essas unidades ” (Strategor, 1993: 185).
Qualquer organização, como unidade so cial em interacção, persegue
objectivos, metas ou finalidades definidas pel os seus membros, que modelam a
actuação e o comport amento do a ctor que “ (...) p articipa na elaboração da s definições
de si próprio e de outrém, na invenção de condutas, atitudes, de recur sos e de
objectivos e que, embora ma rcado pelo seu passado, nunca é redutível a ele ”
(Frie db erg, 1995: 200). Segundo Bernoux ( 1995: 134), “ (...) s ão de facto actores,
relativamente li vres e autónom os, que criam um sis tema. Fazem -no funci onar através
duma rede de re l ações em que negoceiam, trocam, tomam decisões. ”
2. A escola, u ma organização sing ular e pouco estudada
Tem sido comum e habitual na literatura tradicional sobre a or ganização
escolar, apresentar as escolas como entidades não -problemáticas, ordenadas,
consensuais, com uma racionalidade alcançad a mediante a definição d e metas e a
concepção d e estruturas que estabeleçam os papé is, funções e responsabilidades dos
seus membros, onde se desenvolvem processos racionais de tomada de decisões e a
execução de planificações definida s. Todavia, parte da li teratura tem-na aprese ntado
“(…) como una o rganiz ación internamente compleja, inestable, conflictiva, com
dinâmicas de grupos de i nterés, conflictos, negociaciones” (González, 2001: 8).
As escolas não são realidade s lineares e racionais, mas comp lexas e ince rtas.
Apresentam peculiaridades sin gulares; segundo Gairín (1996: 29), essas
peculariedade s são variadas: indefiniçã o nas metas e na natureza do s objectivos,
ambiguidades nas tecnologias, falta d e preparação técnica, debilidade do sistema ,
vulnerabilidade, entr e ou tras. Uma das mais relevantes da sociedade de organizações.
(Chiavenato, 1993).
Como organizações, as escolas são uma colectividade, porque: “(…)
constituem uma territoria lidade espacial e cultural, onde se ex prime o jogo dos actores
e ducativos” (Nóvoa, 1994 : 16); assumem papéis im postos pelos objectivos
institucionais e estabelecem estratégias no seu interior , que visam a sua sobrevivência,
quer c omo sistema aberto, que são, em interacção com o meio “(…) as fronteiras d a
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interacç õ es, as actividades, os comportamentos, os valores, as actuaçõe s que, quando
partilhadas pelos grupos, supõem um acordo e originam um reconhecimento de certas
formas de comunicação ou crença s . Estas constituem informaçõe s que permitam
compreender um pouco a vida da organização.
A dim ensão relacional está estritamente relacionada com a cultura que se vai
produzindo na escola. Quando falamos d e cultura, referimo-nos a uma série de
pressupostos, crenças, valores, normas implícitas e explícitas, rotinas e formas de fazer
escola e d a sua construçã o social ao lon go do tempo. A cultura da escola c onfigura -se
progressivamente à medida que as pessoas int eragem umas com as outras, gera m e
sustentam determinados modos de entender, de interpre tar os acontecimentos
escolares, por exemplo, nos casos de indisciplina e maus tratos entre os actores da
escola e a for ma d e actuar em relação a estes acontecimentos.
O funcionamento real de cada or ganização, o modo como se interpreta,
compreende e actua nos diferentes âmbitos, não é mais do que a manifestação de
crenças, valores, pr essupostos implícitos sobre as pessoas, a educação, o modo
considerado mais adeq uado para a resolução dos conflitos, dos problema s e as
dificuldades e situações que vão surgindo dia-a-dia nas relações entre os principais
actores da esc ola (professores e alunos).
A cultura da organização necessita s er interpretada pelos a ctores so ciai s e está
sujeita a constantes re interpretações e reelaborações. Cada es cola, ainda que
formalmente e estruturalmente pareçam simil ar es a outras, configura a sua própria
cultura or ganizativa, porque não existem duas escolas i guais. Tal como afirma L ittle
(2 002: 44):
“(…) es evidente q ue la pr opia escuela influye e n la natural eza y g rado de co municación
y colab oración profesional de lo s do centes. Se ha mostrado que la s esc uelas varían e n
las c ulturas pr ofesionales qu e culti van y, po r lo tan to, en la co n figur ac ión típica d e
comunicación q ue uno encuentr a entre los pr ofesores. ”
A cultura da escola influ ência, em grande parte, a forma de comunicar entre os
diferentes actores. A escola é o que os actores, que nela trabalh am, pret endem que
seja. A organização é u m fenómeno cole ctivo, um todo . A cultura é um processo
contínuo e activo de criaç ão, recriação e estruturação, realizado pelos actore s, através
dos significados e interpretações, através das quais se estrutura a realidade
organizacional. Também adequa a p ersonalidade dos seus membros , ind icando-lhes
formas de c ompo rtamento, ditando-lhes regras e valores.
CAPI TULO I – A ESCO LA COMO ORGA NIZAÇÃO COMPL EXA
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Quando exist e uma percepçã o interna e externa da organizaçã o torna -s e mais
fácil compreender as subculturas e contraculturas exist entes, das quais resultam
factores de resistência ou de conflitualidade int erna. Na escola há múltiplas funções de
que não se fala, como, por exemplo , do objectivo do sistema educativo ser a educação.
Mas há outras como: afastar os alunos da ma rginalidade; a prevenção da ind isciplina, a
preparação pa ra a vida activa; o desenvolver do sentido crítico e de p articipação; o
promover espaços de convivência e debate, etc.
Por outro lado, situando-nos no tempo históric o, os modelos simbólicos e
políticos apresentam-se como um movimento de renovação teórica sobr e a análise das
organizações, numa ap rox imação aos sistemas humanos, sobretudo aos sistemas de
significações e d e símbolos humanos e um deslocamento dos sistemas técnicos e
racionais (Gomes, 1992) . Os actores das organizações, no diz er de Friedberg (1995),
estão sujeitos a inf luências políticas, ec onómicas, sociais e culturais .
Consequentemente, a dimensão organizacional tem estado, com eles, sujeita a
influências externas e às relações de interesse dos próprios actores.
Os modelos políticos enriqueceram a análise das organizaçõe s e “ (…)
introduziram uma série de conceitos (poder, disputa ideológica, conflitos, interesses,
controlo, regulação, etc.” Os modelos simbólicos “(…) vieram pôr a tónica no
significa do que os diversos actore s dã o aos acontecimentos e no carácter imprevisível
dos processos organizacionais mais decisivos” (Nóvoa, 1994: 37). Os dois modelos
procura m “(…) la comprensión de la m acropolítica de la vida esc olar, lo que Hoy l e
llama el (…) lado osc u ro de la vida organizat iva” (B all, 1989: 25).
É com o desenvolviment o das abord agens política s no estudo das or ganizações
que se focalizaram determinadas dimensões, como sejam a div ersidade de interesses
(Morgan, 1996: 149); o conflito (Afonso, 1994: 51) e o poder (Teix eira, 1995: 60,
Obin, 1993: 14). As dinâmicas, que se des envolvem no interior das organizações,
pressupõem a existência de interesses individuais ou grupais, dando corpo a estraté gias
adequadas à luta pela to mada de decisões, que resultam do entrosamento de interes ses
pessoais, profissionais e políticos (Falcã o, 2000: 4 4).
Mais recentemente, e ai nda no âmbito das abordage ns políticas, a perspectiva
micro política tem vindo a conquistar um espaço, cada vez mais notório, nas
investigaç õ es em torno d a escola. Enquanto os sis temas políticos se centram na análise
do relacionamento dos grupos de interesse com as autoridades políticas (Afonso, 1994:
CAPI TULO I – A ESCO LA COMO ORGA NIZAÇÃO COMPL EXA
20
51), a perspectiva micr o políti ca procura compreender as ló gicas de acção e os
processos de n egociação intra e inter grupos, n o s eio das or ganizaçõe s, ou s eja, as “(…)
dinámicas polí ticas que ocurre n dentro de las or ganizac ion es escolares y con las que,
por otra parte, todos los que trabajamos en ellas estamos más o menos familiarizados:
presiones, tensiones, posturas enfrentadas, conflictos, maniobras tra s la escena,
alianzas ” (González Gonz ález, 2001: 1).
Pensamos, que a manif estação do poder, coligações, arenas, ne gociações,
interesses, ambiguidades, etc., parece s er útil na diferenciação entre a retórica e a
realidade do dia a di a das organizações educativas e que possibilit a o “(…) despertar a
atençã o par a diferentes propostas oriundas de diferentes indivíduos e grupos, com
diversas concretizações pelo que a perspectiv a mi cropolítica é essencial para a
compreensão da a dministr ação educacional ” (Glatter, 1992: 161).
Face às li mitações dos modelos políticos na criação de ab ordagens teór icas
originais, justifica-se o recurso, i gualmente, ao q uadro conceptual propo rcionado pela
abordage m micro política, na esteira de al guns investi gadores (Afonso, 1994 , Ball,
1989, Bacharach & Mundell, 1993, Glatter, 1992 , Ho y le, 1982) , que lhe vã o
conferindo matur id ade.
A re alidade or ganizativa da es cola desp erta -nos uma progre ssiva curiosidade,
na nossa investigação que, apesar de reconhecermos a nossa incapacidade para
aprofundar uma análise mi nuciosa das abordagens políticas sobre as organizações,
preocupa mo -nos em compreender o que acontece a nível d a convivência escolar, nos
espaços da Escol a Básica do 2º e 3º ciclo e para tal, procuramos analisar os espaços de
participação dos alunos em contexto escolar.
4. A participaçao social e educativ a em Portu gal
A ‘participação’ e a ‘democracia’ nas or ganizações, não podem ser vistas como
espaços insulares ou meras transferências d e quadros teó ricos e conceptuais,
merecendo, nesta investi gação, uma indagação comprometida, embora pe riférica, por
ser um d ebate anti go e d e abundante liter atura das Ciências Políticas e das Teorias da
Democracia.
Uma Sociedade é democrática, segundo Dewey (1978: 110), “(…) e n la
medida en que facilita la participación en sus bienes de todos sus mi embros en
condiciones i guales”. P ara Arblast er (1988: 27) “(…) significa apenas que o povo tem
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a oportunidade de aceitar ou recusar as pessoas desig nadas para governá - lo” . Lima
(1992: 97) considera que o conceito da democracia pod e dar lugar à o ligarquia , à
participação passiva, à apatia e à burocratização. Não se compreende a democraci a
sem organização e daí a tendência para a oligarquia. O autor refere qu e as
organizações escolares parec em tender para “formas de d emocracia fictícias (…) e
para f o rmas de pseudo- participação ou de encenação participativa” (Lima, 199 2:104).
Segundo Fernandes Enguita (1992: 57), as democracias podem ser:
‘representativas’ , ‘parlamentares’, ‘proletárias’, ‘d e base’, ‘sociais’, ‘socialistas’ e,
finalmente, ‘orgânicas’, ‘vigiadas’ e outras. A construção da d emocracia na es cola
exige que todos seja m ou vidos.
Na nossa óptica a participação é considerada um valor central da democra cia,
que contribui para: a construção de uma esc ola criativa e d e qualidad e, envolvendo
pais e alunos; proporciona autonomia peda gógica e educativa; aumenta o g rau de
satisfaçã o e melhora o clima de relaç ões de todos o s actores do processo educa tivo;
favorece a reflexão sob re as práticas educativas e contribui p ara a informação e
actualização da s competências profissionais.
Em Portugal, a p artir de 1976, com a publicação do Decreto- Lei nº 769- A/76, a
escola conquista a gestão democrática com es truturas representativas, inicia um
período de ‘calma’; par a uns põe fim a um ‘estado caótico’ e a ‘u m dirigismo
ideológico na escola’; para outros, está a caminho de uma sociedade democrática e
socialista. A edu cação ‘ democrática’ ou a ‘democratização do ensino’ (Grácio, 1981:
668) é uma expressão usada como slogan político e/ou ideológico e como ‘ utopia ou
pregão demagógico ’. Serviu para que o sistema c apitalista acentuasse as s uas pressões
e exigências, por exemplo, o aumento da escolaridade, a sua univers alidade e a sua
obriga to riedade e a actualiz ação de programas.
Na teoria democrática pós-moderna, em ruptura com a teoria democr ática
liberal, defe nde-se a necessidade de se alargar o campo político a todos os espaç os
estruturais da interacção social, moldar formas in dividuais com formas colectivas de
cidadania. O qu e pr essupõe uma descentralização relativa do Estado: “ A nova
cidadania tanto se constitui na obrigação políti ca vertical entre os cidadãos e o
Estado, como na obrigação política horizontal entre os cidadãos” (Santos, Boaventura
1995: 239). Assisti mos, assim, à revitalizaçã o d o conceito “(…) de co munidade e,
CAPI TULO I – A ESCO LA COMO ORGA NIZAÇÃO COMPL EXA
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com ele, a ideia da igualdade a ideia de autonomia e a ideia de solidariedade” (Santos,
Boave ntu ra 1995: 239).
Na Sociedade Portugues a e na União Europeia, os cidadãos manifestam algum
desenca nto face à in competência dos poder es políticos recorrendo ao elevado
abstencionismo nas el eições, à improdutividade e à passividade na particip açao so cial,
à confrontação e à violência desumanizadora, sinais preocupantes de um a ‘sociedade
rasgada e bloqueada’ demasiado permissiva e sem valores cívicos, que parece levar a
uma ‘crise de civilização’ .
A sociedade e os homens assistem ciclicamente a movimentos históricos de
duraçã o e ritmos diferenciados, manifestam -se mentalidades ap arentemente imutávei s
nos tempos, todavia campos de relaçõe s em constante mudança; ne sta
‘neodemocrac i a’ cresce o culto da incompetência e da tecnologia, d a
desburocratização burocratizada; acentuam-se os ‘défices democráticos’ e as
desigua ld ades sociais; afa sta-se ‘ a socieda de civil’ e sobe à ce na a ‘ clientela
partidária’ , como o reafirma Delors (1996: 47):
“O s istema de representação política e o modelo de exe rcí cio de poder que a
caracteriza m entra, muitas vezes , e m crise: a di stância entr e governantes e governado s,
a excessiva emer gência nos meios de co municação soc ial de reacçõ es emociona is
efémeras e opor tunistas, a “p olítica espec táculo”, tornada possível pela mediatizaç ão
dos deb ates, até m e smo, a i magem de cor rupção d o m undo político , fazem co m que
alguns países corra m o risc o de ficar submetidos a ‘um gover no de juízes’ e que
aumente o desenca nto dos cidad ãos p ela coisa pública .”
A democracia portuguesa, em vias de progressiva institucionalização,
manifesta uma acentuada partid ocracia , “(…) u m excessivo peso dos partid os nos
processos e me canismos de pa rticipação ” (Braga da Cruz , 1995: 126), desvalorizando
outras formas de organiz ação e participação d o cidadão, usuais noutros sistemas
políticos democráticos ocidentais.
Na participação ‘ eleitoral’ , os comportamentos d os cidadãos revelam, segundo
Braga da Cruz (1995: 308), duas grand es tendênc ias: “(…) o abstencionismo
progressivo, também característico na Europa ocidental e uma acentuada volatilidade
eleitoral.” A participação instit ucional, nomea damente a filiação partidá ria, dim inui
acentuadamente, à medida que cresce a partidocra cia e a sua influência nas instituições
e a (d es)esquerdização d a sociedade portuguesa. Todavia, regist am-se out ras formas
de participação menos co nvencionais, tais como: petições, manif estações, movimentos
ecológicos e pacifistas, direitos cívicos e outros.
CAPI TULO I – A ESCO LA COMO ORGA NIZAÇÃO COMPL EXA
23
Em termos de participação social e polí tica, os portuguese s têm vivi do,
segundo S antos e Dias (1993), um duplo esforço de ressocialização devido às
transformações políticas de 1974 e à padro niz ação de comportamentos para
acompanhar os ventos que sopram em Portuga l vindos da União Europeia. A maioria
não perte nce a nenhuma orga nização voluntária e as organizações a que mais
freque nt emente aderem são as desportivas, r ecreativas e r eligiosas. O assoc iativismo e
o activismo sociais n ão estão enraizados nos h ábit os cívicos dos portu gueses. Mesmo
os novos movimentos sociais (ecológicos, pa cifistas, feministas, de defesa dos direitos
humanos,...) são ainda embrionários. Segundo estas investi ga do ras, a prop ensão para a
participação vari a, positivamente, com o rendime nto, o status e o nível de instrução.
Os padrões culturais europeus aprox imam-se ao referirem a instituição familiar como
ocupando o p rimeiro l ugar na hierarquia d e valores dos cidadãos, nu m estudo
realizado por Almeida e Guerreiro (1993: 181). A família, enquanto espaço d e
socialização, des empenha um papel si gnificativo na recomendação d e valores e
atitudes aos filhos que, de algum modo, os influência na maneira de estar e mostrar o
mundo que os rodeia.
Para Jesuíno (1993: 109) , os portuguese s têm falta de confiança nas instituiç ões
económicas (Sindicatos, Empresas e a União Europeia), embo ra revelem maior
tolerância para com as inst ituições religiosas, justificando -se, assim, na sua
perspec tiva, os baix os níveis de associativismo dos cidadãos. A democracia reforçada
não se completa e não se esgota nos partidos políticos nem na mera representação
política. Antes pressupõe a participação e a repr esentação dos cidadãos, enqua nto
eleitores individuais e actores sociais, mem bros dos vários agrupamentos e
movimentos sociais de uma sociedade pluralista, na possibil idade objectiva e
subjectiva de participar nas decisões políti cas. C omo enfatiza B ra ga da Cruz (1995:
126), “(…) o reforço da democracia passa pelo reforço da cidadania, da so ciedade civil
ou da sociedade de cidadãos, pela ampliação e aprofundamento d a participação . ” Os
grandes agentes de soci alização polí tica dos jovens em P ortuga l, se gundo estudo deste
autor, são os ami gos, os pais e os meios de comunicação. Dos professores, apenas um a
ínfima parte os refere.
Para os teóricos da democrac ia política estam os nesta modernidade perante
uma nova etapa do sis tema represe nt ativo: a ‘democracia do público ’. O poder é “um a
CAPI TULO I – A ESCO LA COMO ORGA NIZAÇÃO COMPL EXA
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técnica para combater os sucessivos desejos da opinião ” (Minc, 1995: 25), atento às
sondagens e à s consequentes análises.
O peso da demo cracia de opinião será de a cordo com este autor (1995: 10) ,
“(…) no iníc io do século XXI , o que a classe ope rária r epresentou na aurora do
vigésimo uma realidade, um mito, uma psicose. C ombatê-la é en ganar-se na guerra.
Ignorá-la é optar p ela sua face m ais inquietante. ”
4.1. A participação em contextos educativos
As escolas não são unicamente um espaço para aquisição d e conh ecimentos ,
mas também um conte x to de aprendizag em d e competências de relacionamento
interpessoal e convívio social. Neste contexto, as crianças e os jovens aprendem a
começar conversas, a int egrar-se em grupos, a reconhecer as diferenças de motivações
e comportamentos e ntr e as pessoas e a partilhar inquietações e interesses.
Os palcos da vida escolar têm sido apontados como espaços de socialização e
de lazer, pa ra jovens e adolescentes. Nesses espaços vivenciam sit uações de gestão de
afec tos, de cumplicidade s e de comunic ação entre o s seus pares. A escola da ‘ vida
juvenil’ c oexist e com a escola ‘ dos professores’ , num subtil jog o de poderes, de
dominação, de rotinas. O professor e o aluno são pessoas. Pessoas que pen sam, sentem
e agem. E, como afirm a Fernandes (2008: 11), “ As pesso as s ão como diamantes,
lapidam- se mutuamente.”
Para Palácios (1994), a participação em contex tos educativos desenvolve-se
segundo os seguintes im pulsionadores: sistemas relacionais (organização do trabalho,
avaliação do rendimento, incentivos e recomp ensas, me canismos de controlo); os
métodos interpessoais (estilos de direcção, canais de comunicação e modalidades de
resolução de conflitos e violência) e, finalmente, estratégias impulsionador as
(debates, tertúlias, ex posições de tr abalhos,...). As inter-relações entre os actores
melhoram a pa rticipação, estimulam a aceitação d e decisões e promov em a inovação e
a colaboração na multi plicidade de decisões que s e tomam em contexto escolar. Assim
aumentam a confiança organizac ional e facilitam a aceitação do outro, contribuindo
também para diminuir as zonas de indifere nça entre os actores .
Os estilos de lideranç a, a forma como se estabelece a comunicação e a
utilização dos métodos de resolução de con flitos, na organização escolar, marcam a
diferença no funcionamento d esta. Tamb ém influ enciam a forma como se motivam e
CAPI TULO I – A ESCO LA COMO ORGA NIZAÇÃO COMPL EXA
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incentivam os a ctores para a participação em debates e para a divul gação das suas
práticas.
Reconhecemos que a or ganização educativa é o espelho dos actores que a
integram, o resultado d as relações qu e est abelecem entre si, das imagens que cada um
possui, as quais originam atitudes passivas, cooperantes, p rotestantes ou participativas
(Teixeira, 1995), geradoras de consensos e conflitos, de estratégicos jogos de poder e
de satisfação de objectivos pessoais, organizacionais, profissionais e outros.
Entendemos que a organiz ação escolar é, de algum modo, o que os seus actores
querem que ela seja. O ambiente da escola é gerado pelas relações i nterpessoais,
sustentáculo para um a tarefa educativa e ficaz. As escola s espelham mui tos aspectos d a
sociedade, da comunidade e do bairro onde estão inseridas, mas também cremos que,
em muitos aspectos, a orga nização da escola e os seus profissionais podem favorecer
ou diminuir as condutas violentas. A título de exemplo, apontamos a cooperação e a
empatia, como elementos prováveis que pod em ajudar a melhor ar a integr ação soci al
de alunos com dificuldades sociais e emocionais . Estes são recursos que podem
contribuir para favorecer as relações entre os actores.
Todo actor participa nos conjuntos sociais de que faz parte, estabelece um
contrato, tácito ou formal, volunt ário ou não, c onsciente ou não, com uma dupla
dimensão: cooperação e controlo social (Bajoit, 1 988 ). Este inv estigador, apoiando-se
em Hirschman, dist ingue quatro comportamentos possíveis do professor na escola:
abandono, apatia, protesto e lealdade. (Bajoit, 1988: 326).
Tendo em aten ção est es quatro comportamentos possíveis do professor na
escol a, est amos, na opinião de Teixeira (1995: 162), per ante uma perspectiva
utilitarista da participação, em que cada ac tor segue lógicas situacionais de
custos/benefício mais favoráveis. Em cada situação procurará a atitude que se lhe
aprese nt ar como permiti ndo um saldo positivo a seu favor. Esta pe rspectiva, se gundo a
autora, parece discutível por ser muito reducionista da complexidade d as decisões
humanas nas organizações.
Alguns estudos, centrad os nas formas de estar na escola dos profess ores,
identificam difer entes c omportamentos descritos em diferentes tipolo gias. Assim,
Alv es -Pinto (1995), baseando-se em Croz ier e nas teorias da Escola d e Palo Alto ,
conclui que nas organizações não existe a ‘não participação’, o ‘não comportamento’
CAPI TULO I – A ESCO LA COMO ORGA NIZAÇÃO COMPL EXA
26
antes, a participação es tá presente em todas as formas de vida e poderá tomar
diferentes formas: converge nt e, divergente, apática e de abandono.
As diversas atitudes comportamentais não se traduzem simplesmente no
absentismo e ab andono; a insatisfação d os docentes pode desencadear uma grande
diversidade de comportamentos.
Para Bajoit (1988), o descontentamento é entendido como um estado de
insatisfação e correspond e à avaliação que o individuo faz da sua participação no seio
de um sistema de interacções. Neste c aso, u ma possível saída consiste num
comportamento de fuga , que leva ao abandono da organização e à procura de um novo
trabalho. Se o actor não encontrar, na organização, qualquer perspectiva de poder obter
vantagens, ou pelo me nos algumas d elas, poderá optar por duas estratégias a
desistência ou a fuga. Em situações extremas po de radicaliza r e forçar ao abandono.
Quando se a comoda, reag irá com ‘ apatia ’ . O ‘protesto’ a caba por ficar, mas em
conflito mais ou menos declarado, na tentativa de equilibrar a sua re l ação com os
ga nhos e as perdas. Este ocorre qu ando o actor s e sente contrariado ou def raudado nas
suas expectativas, mas perfilha dos ideais em uso na organização, das vi rtualidades
inerentes a um efectivo jogo democrático, o que lhe pode pe rmitir obter, por
convicçã o, os objectivos que s e propunh a alcançar. É assim considerada uma
participação divergente ou de oposição. A ‘lealdade’ corresponde aos comportamentos
de fidelidad e. É a forma encontrada por aqu eles cujos inte resses se revêem nas
políticas concretizadas pela escola. É pois uma ‘participação convergente’, que
corre spond e a uma form a construtiva/passiva de expressão da ins atisfação através da
espera e da confiança.
Efectivamente , se repararmos no que acontece, hoje em dia, nas escolas, a
participação e a não parti cipação são vist as como dois pólos antagónicos que podem
coexistir num contexto democrático. Ocorre at é, com alguma fre quência, que a não
participação de certos indivíduos de um grupo vai dar lu gar a um a maior participação
de outros, dentro desse grupo.
Participar ou não parti cipar dependerá, sobretudo, dos valores, atitud es,
orientaçõe s normativas e dos objectivos fo rmais das organizações. Porém , isto não
significa qu e quem não p articipa em determinado projecto, não possa participar noutro
mais de acor do com os seus valores.
CAPI TULO I – A ESCO LA COMO ORGA NIZAÇÃO COMPL EXA
27
Entendemos, ainda, qu e dentro de uma organização escolar as acções
empreendidas p elos diversos membros são expressão do poder que cada um detém
dentro da organização. Nas escolas, também os professores, perante a ‘ameaça’ da
participação dos pais, a doptam estratégias qu e põem em causa a sua autonomia
profissional, o que leva uma grande parte dos pais a tom ar atitudes de desintere sse e a
deixar de participar.
Detentores d a sua autonomia própria, os actores mantém uma correlação
estratégica, uns em relação aos outros e procura m uma cooperação na construção das
regra s de c onvivência dentro da o rganização escola, aind a que, muit as vezes , se
limite m a transcrever em o que está estabelecido nos normativos legais. A participação,
para Lima (1992a), é um valor democrático consagrado como direito a o mais alto
nível normativo. Classifica a participação praticada de acordo com quatro critérios e
vários ti pos e graus, c uja conjugação pe rmite estudar e qualificar a participação
praticada p elos actores numa organização. Assi m, ao critério de democraticidade
corre spond e a participação directa e indire cta; ao de regulamentação , a participaçã o
formal, não formal e informal ; ao de en volvimento , a participação a ctiva, reservada e
passiva; e ao critério de orientação , a participação convergente e divergente.
Alves-Pinto (1995: 166), apoiando-se em Bajoit (1988), adapta a sua tipologia
às formas de estar na escola, mencionando que, “(…) estas formas de estar n a
organização s ão expressão de comportamentos estratégicos ” . Desta forma, os
professores, alunos e func ionários, estudam as vantagens e desvantagens da
cooperaçã o na or ganizaç ão, para se situa r em numa ‘ participação c onvergente ’ ,
procura ndo respeitar as regra s desta, combinadas com as suas ambições e as sua s
aspirações, no âmbito da organização, de modo a não c riar situações c onflituosas. Não
queremos com ist o dizer que os actores adoptam uma posição de submissão . Devem
mostrar a sua discordância se assim o entenderem , mas nos órgãos próprios , para
serem resolvidos de forma directa e democrática. J á a participação divergente su rge
quando as regras de int erdepe nd ência dos seus actores são subv ertidas, ist o é, são
colocados em primeiro luga r os interesses individuais dos actores do que os da
organização (Alves-Pinto, 1995).
A participaçã o p assa pelo conhecime nto do que acontece na organização
escolar, e, qualquer que seja a for ma c omo se expressa tem um papel crucial no
contexto da vida democrática, em qualquer a grupamento de escolas. Todo s os campos
CAPI TULO I – A ESCO LA COMO ORGA NIZAÇÃO COMPL EXA
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de mudança e aos próprios desequilíbrios da sociedade envolvente; por outro lado,
considerá- l a como um e spaço or ganizativo, suportado por uma dinâmic a que lhe é
própria e intrínseca, pode rá levar a que el a então represente um espaço de tensões e de
problemas, para o qual parecem convergir fenóm enos de p erturbação, de correntes d a
própria soci edade mas, igualmente, decorrentes do próprio sistema d e ensino e da
própria vivênc i a escolar.
Daqui se pode rá inferir que os fe nómenos da vida esc olar – quer nas suas
expressões indiscipl inares ou disciplinares – re lativos aos processos r ítmicos do
trabalho, do pensamento, da interacção so cial/relacional , poderão representar por si,
fenómenos reguladore s e identificativos da própria vida escolar comunitária.
Os actores das or ga niza ções, no dizer de Friedberg (1995: 20), “ (…) estão
sujeitos a influências polí ticas, económicas, socia is e culturais e, consequ entemente, a
dimensão organizacional tem estado, com eles, sujeita a influências externas e às
relações de interesse dos próprios actores. ”
A sociedade actual é fortemente marcada pelo ind ividualismo, associado a um
desejo de independência, de libertação de r egras e normas, aceites no pass ado. P arece
existir, principalmente, da parte dos jovens, uma grande necessidade d e afirmação e
um fácil e livre acesso aos bens e pr azeres que o mundo desenv olvido pode
proporcionar (Silva, 1995).
A organizaçã o educativa é o espelho dos actores que a int e gram, o resultado
das relações que estab elecem entre si, das imagens que cada um possu i, as quais
originam atitudes passiva s, cooperantes, protestant es ou participantes (Teix eira, 1995).
A autora refere que as atit udes e formas de estar na escola não são estáveis nem fixas,
mas que os actores a doptam, alterna damente, comportamentos ou atitudes que
reconhece m m ais adequadas com cada sit uação q ue lhes sur ge e qu e estão associadas
às imagens qu e cada um possui da or ganização escolar. A opç ão pela s atitudes de
participação, por parte do s parceiros educativos, depende das imagens que têm da
escola, ou seja, um espaço aberto ou fechado, propício ou hostil à concretizaçã o dos
seus objectivos. A imagem positiva, leva al guns docentes a pr etenderem in tensamente
trabalhar na escola onde exercem funções, onde p ensam concretizar os seus objectivos,
através de um tr abalho de interacção com os outros actore s. Mas o protesto é outra
modalidade de participação divergente, enquanto o pragmatismo, apatia e abandono
revestem c omport amentos de não participação.
CAPI TULO I – A ESCO LA COMO ORGA NIZAÇÃO COMPL EXA
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Corre-se o risco de que a ge stão d as escolas, sob a dependência da
administração central e dos grupos de professores , vai aumentando a p assividade dos
outros actores educa tivos , principalmente dos alunos.
A sociedade actual en contra-se numa fase de mudanças bruscas, onde o
individualismo começ a a entrar em choque co m a alteraçã o súbi ta d as condições,
proporcionando o aumento do desemprego, da conc orrência e da competitividade,
conduzindo a uma incerteza e precarieda d e cada vez mais evidentes. Actualmente,
estamos a viver numa sociedade extremamente insensível, num clima de incerteza que
se traduz em termos socioculturais por uma ‘ crise de valore s’ .
As escolas são sistema s em constante mutaçã o e que reflectem toda s as
mudanças sociais do meio onde estão inseridas. Actualmente, sofr em de uma série de
problemas dentro dos q uais a convivência e a disciplina poderão ser c onsideradas
aquelas que assumem p roporçõe s mais duras. P or isso, “(…) es fr ecuente en los
centros educativos un a creciente crispación o riginada po r los problemas cotidianos de
convivencia qu e se generan ent re los alumnos, entre éstos y los adultos y entre el
profesorado y las familias” ( Seijo & Olmedilla, 2001: 13-14). I sto é, os problemas de
convivência pod em ser vistos como sinal de desordens existentes nas relações
afec tivas com os adultos, como um sinal de desco nexão entre os objectivos, valores e
práticas dos jovens e dos adultos . Também o estilo de autoridade dos pais influ ência
na agressividade e comportament o dos filhos, na escola e em casa, ou pela inexistência
de um padrão de comportamento de discipl ina, regras definidas e explícitas sobre
aspectos da vida familiar e es colar, qu e pr ejudicam a aprendiz agem dos alunos e
perturbam o ambiente da comunidade e du cativa.
Vimos como, pela constataç ão deste facto passou a have r uma “ (…)
preocupación, cada vez ma y or por parte de las comunidades educativas, sobre el
incremento de los conflictos de convivencia y su expresión a través de la violencia”
(Seijo & Olmedilla 2001: 13), pr eocupação essa , que leva a que “la r espuesta a los
problemas de convivencia, suele pecar de improvisación y d escoordinación, y
reducirse a la toma de m edidas reglamentarias y, por tan to, estrictam ente burocráticas”
(Seijo & Olmedilla, 200 1: 14). Mas, falar numa determinada or ganização escolar é
falar de “un microcosmos en el que se teje una r ed, visible unas veces, inv isible otras,
de relaciones interpersonales que configura el clima de l a inst itución” (Santos Guerra,
1994: 57).
CAPI TULO I – A ESCO LA COMO ORGA NIZAÇÃO COMPL EXA
36
Cada escola é única e o carácter único de c ada esc ola resulta, na opinião de
Alves-Pinto (1995), do contexto social em que cada escola está inserida, p orque o que
envolve a es cola int erfere na vida da organiz ação. A importância desta ca racterística é
fundamental p ara “(… ) comprehender cada es cuela como institución irrepetible,
dinámica, ll ena de expectativas, conflic tos y, tensiones, pero t eniendo en cue nta las
caracter ísticas genéricas de todas las escuelas como instituciones de reclutamiento
forzoso, de articulación déb il, de fines ambiguos, de intensa jer arquización” (Santos
Guerra,: 1994: 57 ).
Efectivamente esta está “(…) f ort emente m arcada p ela origem social dos
alunos” (Alves -Pinto, 1995: 54). No entanto, a pesar das suas especificidades como
organização, é possível identificar traços comu ns na problemática da convivência
(Amado & Freire , 2002: 50).
Temos pela frente o desafio de construir uma escola qu e supere atrasos e
desequilíbrios, possivelmente mais dinâmic a, por termos um modelo de escola
centralizado e uniform e. Muitos dos alunos que provêm de meios sociais
desfavorecidos, não pos suem códi gos linguísticos adequados e apresentam elevados
índices de insucesso escolar. Deste modo a L BSE
2
- Lei nº 46/86 - art 7º promove uma
escola que: atenda à rea lização indi vidual e m harmonia com os valores da
solidariedade social; desenvolva o espírito crítico, criatividade e os processos d e
integraçã o; propicie aos alunos experiências que favoreçam a maturid ades cívica e
sócio-afectiva, criando n eles atitudes e hábitos positivos de relação e cooperação, quer
no plano dos seus vínculos à família, quer no da intervenção consciente e responsável
na realidade circundante; proporcione a aquisiçã o de atitudes autónomas, visando a
formação de cidadãos civicamente responsáveis e democraticamente intervenientes na
vida comunitária; favore ça, em liberdade de consciência, a aquisição de noções de
educação c ívic a e moral; e crie condições de promoção de sucesso a todos os alunos .
2
Lei de Bases d o Sistema educ ativo
37
CAPÍTU LO II - D IS CIPLINA E CON VIVÊNCIA: AS F RONTEIRAS
CONCE PTUAIS
_________ ____________ ___________CA PITUL O I I – DI SC IPLI NA E CONVI VÊNCIA: AS FRON TEIRAS CON CEPTUAI S
39
A nossa socied ade apresenta-se cada vez mais complexa, activa e incert a. O
modo de vida nas nossas cidades vai- se modificando continuamente. O que ontem se
considerava se guro e ce rto, hoje é encarado, várias vezes , como inc erto e a mbíguo. O s
valores tradicionais sofreram uma intensa transformação. A sociedade actual não
consegue um consenso s obre as bases essenciais para um modelo de convivência que
oriente os nossos jovens.
Face à mud ança das r egras que regem as relaçõ es entre adultos e c rianças,
situação que em muito ultrapassa os limites das escolas, mas que tem s obre elas o
maior impacto, actualmente, é habitual ouvir f alar nos ‘insustentáveis’ níveis de
‘violência escolar’, de ‘indisciplina’, de ‘problemas de comportamento’. Estes
conceitos são normalmente apresentados como comportamentos que crianças e jovens
exibem nas escolas e que , por vezes, chocam com os objectivos fundamentais do
ensino. Mas a convivência, é intrínseca a todo o proce sso relacional, de int erac ç ão e de
cariz educativo; logo, não podemos afirmar que é ap enas do domínio ex clusivo do
sistema educa tivo fo rmal. Isto porque a construção da convivênc i a se realiza em
distintos contextos sociais e com objectivos estra t égicos nem sempre coincidentes.
Tradicionalmente, a família e a escola tiveram a responsabilidade quase
exclusiva das funções d e socialização e edu cação. No entanto, actualmente sabemos
que estas duas inst ituições não são as únicas a proporc ionar a construção das regr as
estabelec id as para a co nvivência. A obrigação de construir regras compete no seu
conjunto a toda a sociedade, e não se pode delegar apenas e só no sistema educativo .
Além disso, como r efere Rodríguez Jares (2007: 19) , “ (...) a educação para a
convivência e a cidadania democrát ica dev eria ser considerada um assunto de Est ado,
tal como a educaçã o em geral. ”
Estamos seguros qu e a c onvivência na a ctualidade é uma enorme p reocupação
de todos os cidadãos, não só pela divul gação que os meios de comunicação transmitem
diariamente dos acontecimentos violentos e atentatórios da convivência r espeitadora,
mas também porque se verifica uma maior quantidade de rupturas sociais, uma perda
de valor es básicos e tam bém um aumento de ocorrências de violência, na s suas mais
variadas formas e nos vários domínios das relaç ões sociais. Entendem os tal como
Rodríguez J ares (2007: 19): “(…) que o desaparecimento das formas básicas d e
educação, a indiferença nas relações sociais, a deterioração da convivência, a
_________ ____________ ___________CA PITUL O I I – DI SC IPLI NA E CONVI VÊNCIA: AS FRON TEIRAS CON CEPTUAI S
40
banalização da violência, etc., aparece como grandes preocupações sociais que
ultrapassam o âmbito meramente e du cativo. ”
No entanto, reconhecemos que com o aumento da escolaridade obri gatória até
aos 18 anos, aumentou o tempo de permanência e convivência dos alunos nos mesmos
espaços escolares e qu e, por isso mesmo, é necessário adaptar as s ituações daí
decorrentes, de modo a dar r esposta a esta mudança.
Esta conjuntura exige uma série de mudan ças importantes a nív el de
organização e ge stão das diferentes etap as. N o p eríodo da vida juvenil que estudamos
na nossa investi gação, entre os 11 e os 16 anos (2º e 3º ci clo), convivem na escola
alunos com competências e int eresses muito diferentes. Para os professores esta
conjuntura também coloca problemas novos po rque, antigamente, os professores do
ensino secundário, estav am habituados a trabalhar com os mais favorecidos, com os
mais dotados. E neste momento sentem sérias dificuldades em dar resposta à
diversidade do pe rfil socio -cultural dos alunos. E sta situação tendo-se compl exificado
com os agrupamentos de escolas, obri gando a conviver p rofessores com culturas
profissionais diversas.
A indisciplina na aula é um fenómeno comple xo e com uma causalidade
diversificada . É um problema para o qual não há respostas únicas, pois as e stratégias a
adoptar n ecessitam ser c ontextualiz adas. Mas o reconhecer a existência d esses
problemas não pode significar o cruzar dos b raços e ficar à espera para mais tard e
encontrar as solu ções. Uma chave pa ra encar ar o p roblema p arece-n os estar na
prevenção e esta pode fazer-se na sala de aula, na escola e na família.
Uma das razões que lev aram a que, na última década do século XX, v ários
autores, de diferentes p aíses (Escandinavos, Inglaterra, Austrália, Espanha, J apão,
Zimbabwe, entre outros ) se tenham interessado pelo estudo dos maus tratos nas
escolas, pod erá ter sido resultado da preocupação de se encontrarem soluções para d ar
uma resposta à manifestação de violência que p rovoca um sofrimento muitas vezes
silencioso nas vítimas e que muito contribui para a d esestabilização do clima das
escolas e, ainda, para a verif icação da existência ou não de uma corre lação entr e
maltratar os cole gas e a persistência de comportamentos agressivos na vida adulta.
Estas situações levam-nos a questionar sobre como intervir de maneira a diminuir e
controlar e ste tipo de comportamentos na escola.
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Toda a convivência assenta, de um modo ex plíc ito ou implícito, numa base
regularizadora de normas e valores, tanto no espaço mi cro -o da família- ou no espaço
meso, o do meio envolvente em que o indivíduo se insere, nos contex tos sociais em
que convive. Assim, os códigos de normas e va lores são construídos nas diferentes
instituições sociais: familiares, escolares, políticas, religiosas e de comunicação social.
Para Rodríguez J ares (2002a ) a ideia fundamental na qual assenta o conce ito dos
direitos humanos é a de dignidade, ine rente a todo o ser humano. Afirma que é a partir
da dignidade que dev emos construir a convivência em todos os campos sociais. Para
ele a dignidade enquadra três qualidades fund amentais: liberdade, justiça e plena
igualdade para todos os seres humanos. A “ Declaração ” dos dir eitos humanos
“promove um conjunto de valore s, p rincípios e normas de conviv ência que devem
config u rar essa dignidade humana, assim como a vida em sociedade, ao m esmo t empo
que afa st a aq ueles que lhe sejam contrários” (R. Jares, 2007: 32).
O autor def ende ainda q ue “(… ) a violência como ideologia, ou a violência
terrorista como estratégia de lut a social, devem t er um lugar especial no currículo das
escolas, dado que p rej udicam estes p rincípios bá sicos do direito à vida.” (Rodríguez
Jares, 2007: 39). Corroboramos esta opinião de que a violência é uma forma de
enfre nt ar os conflitos, mas nunca um modo de resolução. A violência protela o conflito
mas nunca o resolve. Se pretendemos construir a convivên cia devem os afastar a
violência como for m a de enfrentar os conflitos.
A sociedade, numa p erspectiva macro, e a escola como um microcosmos desta,
deve produz ir um sis tema cultural de valores onde não se verifique qualquer apoio o u
tolerância p ara com a viol ência. Pelo contrário, cabe -lhe partir sempr e de pressupostos
favorá v eis à construção de uma cidadania democrática, respeitadora e s olidária . N o
sentido de reforçar as no ssas propostas a favor d a construção da convivência a f avo r
de uma cultura pela paz e pela não -violência, qu e tem como princípio fundamental o
respeito pelo outro, at endendo a todas as suas dife rença s, agindo n a d efesa dos direitos
humanos e praticando estratégias de convivência na resolução dos conflitos.
A violência ideoló gica inculca nos alunos o insucesso escolar e a
impossibilidade de aprender; instala-se na esco la, através do desenvolvim ento do
currículo nacional, indiscutível, uniforme e mi mético, desencadeando-se muitas vezes,
a partir daqui, a ex clusão es colar, não atendendo às diferenças e indicando o caminho
para o a b andono escolar.
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1. A e xclusão social: a organização da soc iedade para a exclusão
A e xclusão social não é apenas uma simples falta de dinheiro, se ndo antes
‘cúmulo de de ficiências’, como sejam: incapacidade de sa tisfazer as nece ssidades
básicas, se gregação social e nece ssidad e de cuidados apropriados. E ste ‘cúmulo de
deficiênc i as’ está ligado a um ‘movimento social de rejeição’, hostilidade a que estão
sujeitos certos grupos sociais. Todas as c amadas da sociedade participam na exclusão
de certos grupos, designando-os e trat ando-os como marginais (Clavel, 2004). Assim ,
este mesmo autor coloca a hipótese de que ,
“ (...) a li nha d ivisória da exclusão se si tua a um d uplo nível: p or um lado , atr avessa o
campo d a actividade económ ica, que determina para este grupo social o se u l ugar no
seio d as relaç ões sociais de p rodução, isto é, a sua co ndição d e classe (co ndição
proletár ia); por outro lad o, atravessa o ca mpo da acti vidade si m bó lica q ue deter mina u m
jo go de posições sociais basea das no estatuto ou no pr estígio ” (Clavel, 20 04 : 46- 47) .
É na soci edade urbana o nde melhor podemos obs ervar os sinais mais visív eis de
exclusão, quer a nível do alojamento social, os bai rros inóspitos, todos semelhantes, os
bairros de lata, vulgarmente situados nos subúrb ios nas grandes cidades; quer a nível
dos transportes; da precariedade dos empregos; dos problemas de saúd e, tendo em
conta as condiçõ es de h abit abilidade, a vida que l evam; lutando com os pr oblemas da
falta de e mp rego, a solidão, a rejeição e todos os factores culturais que os limitam .
Ao lado da exclusão social habita a ex clusão escolar , onde abundam as
repetiçõe s de ano. Apresentam um difícil domínio das competências básicas, sem
qualquer orientação para um fut uro, que não sabem se ex iste; por norma, apresentam
baixo rendimento académico, já que impera a i gnorância e a ilit erac i a. M ultiplicam-se
as famílias desestruturadas, com laços familiares cada vez mais fragilizados, crianças e
jovens em risco, lares isol ados ou muitas vezes inexistentes, jovens sem futuro e com
um passado de vida sofrida, privados da relação social, isolados, e tiquetados, ‘filhos
de ninguém’ (Clavel, 2004).
A sociedade da exclusão é um mal- estar civilizacional, propiciado por “(...)
uma sociedade anómic a, depressiva, a gre ssiva e trans gre ssiva, sim ultaneamente
implosiva e ex plosiva (…) uma marca de uma civiliz ação industrial em agonia”
(Clavel, 2004: 177).
A ex clusão sur ge com o aumento das desigualdades sociais, consequência da
desarticulação entre as diferentes partes da soci edade e dos indi víduos provocando
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uma ausência de um conjunto mínimo de benefícios que tornam o cidadão um membro
de pleno dir eito da soci edade. Sociologicamente falando exist em culturas dominantes
e culturas dominadas e c om diferentes distâncias culturais face à escola. Formalmente
todos os alunos são iguais perante a esc ola, mas na realidade não são. Formalmente
todas as culturas são i gualmente dignas perante a escola, mas na prática sabemos que é
isso não acontece. Algumas escolas conhecem f ormas de não deixar entr ar as culturas
de al guns alunos. A for ma como f alam, como vestem, como s e comportam, como
convivem. No aspecto formal , nad a disto é posto em causa, tudo é di gno de r espeito,
mas as práticas são bem diferentes , “a cultura é digna mas desi gual; é equivalente mas
menosprezada; é i gual mas inferiorizada” (Silva, 2003: 358). São culturas todas iguais,
mas umas, são mais iguais que outra s.
Xiberra s (1993: 28), por sua vez, refere que as “(...) formas mais visíveis, ou
chocantes, do processo de ex clusão residem na rejeição para fora das represe ntações
normalizantes da soci edade moderna avançada .” Seg undo o autor, a grande maioria
das esferas da so ciedade moderna parecem sub metidas a estes níveis o u li mites de
normalidade que define m, como resposta, um insucesso, em relação à norma. Ora, em
nossa opinião, este insucesso em relação à normali dade parece fazer parte integ rante
dos processos d e ex clusão. A exclusão social ocasiona miséria, f alta de recursos ou, de
uma forma mais glob al, ausência de cidadania, se reflectirmos na forma de
participação plena na sociedade, aos dist intos níveis em que esta se organiza. A
exclusão social é multi dimensional. Ex prime-se a través de vários níveis, quer a nível
ambiental, cultural, económico, político e social, e quantas vezes associ ada a todos
estes níveis.
O conceito de exclusão social cada vez apresenta maior destaque na nossa
sociedade. Consideramos que a pessoa se sente socialmente incluída ou e x cluída,
decorrente de ter ou n ão condições labo rais. Os factores comuns que caracterizam
neste momento, o nosso país, são para uma grande maioria de famílias a p recariedade
de emprego, o desemprego, a instabilidade, a v ulnerabilidade, a mar ginalidade e a
exclusão social. Instalou-se a cultura dos subsí dios, já a escassear; a miséria cada vez é
maior. Atiram-se as pessoas para a m arginalidade porque se consideram
desnece ss árias, como algo que não é necessário e para cuja sit uação de instabilidade
não ex istem respostas. Em consequênc i a a resposta que encontram é a violência, o
vandalismo e o roubo. Assim:
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“(…) nos últimos a nos, o espaço social co nfigurou -se e m torno de três d inâmica s d e
acordo com a r elação co m o t rabalho, co m as vinculações que constitue m o mundo da
vida e com as si gnificações q ue o utorgam sentidos e mo tivações p ara viver. Es tes
dinamismos cristalizam na zona de co esão, na zona d a v ulnerabilidade e na zona da
exclusão que se desenvolvem como um con tinuum que vai d esde o trabalho fix o, as
vinculações está veis (…) ( zona d a coesão ) até ao dese mpreg o, a ruptura d as vinculaçõe s
e o se m-sentido das motivaçõ es (zona de exclusão) passa ndo pela zo na inter m édia da
vulnerabilidade, na q ual o trab alho, as relações sociais e as significações vitais se
realiza m de maneira p recária, in stá vel e frágil ” (García Ro ca, 19 96: 92).
Uma das particularidades que define as zonas de coesão é o usufru to de um
trabalho estável e remun erado. Só se ist o se verificar é que as pessoas pos suem algum
poder de compra e prote cção social. Se acontecer o inverso, isto é, se a pol ítica não
tiver capacidade para abranger os jovens e as famílias com pleno emprego, se não
ampliar o consumo das ca madas sociais e se não se genera lizar a protecção social , não
haverá condiçõ es para transformar a comunidade, numa sociedade co esa. Como
assinala Bauman (2000: 104), “(…) os marginais desfeiam a paisagem qu e sem eles,
seria fo rmosa: são erva d aninha, des agradável, fami nta, que não contribui nada para a
beleza harmoniosa do jardim, mas priva as plantas cultivadas do alimento que
me recem. Todos nós beneficiar í amos se desaparecessem.”
Como refere Rodrí guez Jares, parafraseand o Bauman, “ser pob re é um crime ”
(2006: 39). Segundo o autor esta sit uação ori ginou a reivindicação de um novo direito,
o direito de inserção: “A lut a contra a e x clusão convida a ex plorar um terceiro tipo de
direitos que articula m ajuda económica , participação social e implicação pessoal ”
(Rodríguez Jares, 2006: 39).
Para comb ater a pob reza, é fund amental combater os efeitos do desemprego no
que se refere à falta de re ndimentos, mas também se verifica esta situação nos que têm
emprego com baix os salários , desi gnada m ente, aquelas famílias em que os adu ltos se
encontram d esempregados e os idosos a viv erem com baix os níveis económicos e de
instrução. Entendemos, deste modo , que os con ceitos de exclusão social e cidadania
são inseparáveis, no que se refere aos direitos que as pessoas têm em participar na
sociedade e usufruir de certos bene fícios considerados essenciais.
Assim, no entender de Fernandes (1995: 17), “(…) tende a se r ex cluído todo
aquele que é rejeitado de um certo universo simbólico de repr esentações, de um
concre to mundo de trocas e transacções sociais . ” S entindo-se desintegrado
socialmente, isolado do sistema de actividade económi ca e desintegrado das r elações
familiares e hu manas.
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Como refere Barros (2010: 111) “ (…) não há sociedade sem acç ão peda gógica,
sem a acção de transmitir e incutir um determinado ideal, procurando configurar e
controlar a s formas de actuação”.
1.2. A Multiculturalidade: um desafio para a educação?
As comunidades a que perte ncemos, e seg u ndo as qua is convivemos,
constituem o âmago do nosso ‘exi stir’, ‘ser’, ‘estar’ e o modo de viven ciar e analisar o
mundo e as coisas que nos rodeiam. Fazemos par te de uma colec tividade, seja ela de
que tipo for; país, família, profissão, club, etc. Consideramos, interpretamos e
vivenciamos as situaçõe s à luz de preconceitos sociais e cultura is est abelecidos.
A globalizaç ão, os movim entos sociais e a imigração, contribu em para a
existência de uma multiplicidade de cultura s no seio da escola em P ortug al. Com a
abertura de fr onteiras e, especificamente, na Europa so cial e g lobal, o
multiculturalismo é uma herança efectiva e real. Vivemos em consequência destes
factos, numa socieda d e cada vez mais multicultural, que se encontra em permanente
transformação, ond e a educação exerce um papel determinante p ara que os cidad ãos a
possam integrar plena mente. Mui tas vezes, as oportunidades de educação estão
relacionadas com que stõ es de descriminação e exclusão social.
Para que ocorra a coexistência pacífica entr e as diversas pessoas com
diferenças culturais, sociais, étnicas ou religiosas, é necessário garantir qu e todos têm
a liberdade de prot eger, desenvolver e pa rtilhar as suas heranças culturais, desde que
respeitem e não atentem contra a liberdade e a di gnidade inerente à condição da p essoa
humana. C omo afirma P ais (2003: 1 6) “ Os alunos chegam à escola difere ntes - porque
têm origens sociais e m emórias culturais di ferentes - mas a escola pretende à força
torná-los iguais, caindo na falácia de identificar democra tização com m assificação e
homogeneização” . Em nossa opinião, todos estes factores contribuem para qu e os
alunos não encontrem, na escola que frequentam, significado, nem sentido de pertença,
nem identificação com a comunidade envolvente .
No entender de Barroso (2003: 32) “(…) os grandes problemas da escola estão
relacionados que r com a perda de sentido de pert ença dos seus membros, quer com o
não reconhecimento da existência de objectivos e interesses comuns”. Entendemos
também nós, que a falta de laços do aluno com a escola dificulta a sua adequação e a
adaptação a es ta , ampliando-se os conflitos e a i ndisciplina no contexto escolar e na
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comunidade educativa. À escola coloca- se , então, o desafio de aportar e xplicitamente
este fenómeno, pensando e fornecendo estratégias de intervenção para excluir
estereótipos, preconceitos, descriminaçã o e racismo. Willinsky (2002: 29) enfatiza esta
ideia ao afirmar:
“(…) se os defe nsores d o multiculturalis mo procura m u m a p ol ítica de reconhecimento
com base no respeito às diferenças, não estão tão distante s dos seus melhores crít icos.
Aqueles que não quere m sabe r do multiculturalismo defend em o respeito às diferenças
por meio de p reservação e protecção da div ersidad e que, segundo crêem , define a
nação .”
A escola necessita atender às difere nças, respeitar e aceitar a cultura de todos.
No entanto, o multiculturalismo repres enta um desafio para a escola e para a sociedade,
porque se abre à constr ução da nossa própria identidade , tendo em co nta também a
image m que o outro tem de nós e que nos transmite. A simples presença do outro, do
dife re nte, também quando a i gnora mos e a rejeitamos, não nos deix a indiferentes,
atinge-nos e modifica-nos sempre (Raguzo, 2005).
Na nossa óptica, e ncon trar a arga mass a cultural e cívica entre ‘nós ’ e o s
‘outros’ é o desafio d as nossas geraç ões para um futuro de paz, tolerância e
convivência mul ticultural. Apercebemo-nos que o nosso sistema educativo na esfer a
da m ulticulturalidade se apresenta fr ágil. Não po demos , então, dar-nos por satisfeitos
pelo pouco que temos concretizado. Todavia, constatamos que vários anos decorridos
sobre a recomendação nº1/2001 do CNE, “ Minorias, educação intercultural e
cidadania” (publicada no DR de 8 de M arço 2001), muito poucas altera ções têm
ocorrido na prática d as nossas escolas.
É, portanto, urgente encontrar caminhos para a “ (… ) educação para a
convivialidade e p ara a valorização das vizinhanças (…) El a é decisiva numa altura em
que os sociólogos falam da vizinhança g lobal , das culturas de distância (…) Hoje já
não há pertenças únic as, as p essoas t êm mult i-pertenças, culturais e soci ais. ”
(Carneiro, 1999: 142)
Assim, a educaçã o multicultural procura contr ibuir para a resolução das
dificuldades e dos obs táculos, levando à compreensão d a diversidade cultural,
consequênc i a dos fenómenos de imigração, mas também olha ndo com outros olhos e
assumindo outra atitude , que não a dos fatalismos permanentes e a aceitação dos
tradicionais problemas da esc ola rização das nossas minorias.
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A educação multicultural surgiu, em Portugal, nos finais dos anos 80 . A sua
gé n ese encontra-se não na sociedade civil mas t ambé m no próp rio Estado. Foi nos
primórdios da década de 90, e por iniciativa do Ministro da Educaç ão Roberto
Carneiro, que s e lançaram a nível institucional, as traves funda m entais enquadradoras:
Criou-se o Secretariad o Co ordenad or dos Pro gr amas d e Educação Multic ultural, e m
Março d e 1991 , posteriormente ‘rebap tizado’ de “ E ntre culturas ” , na dep endê ncia directa
do Ministro, com o o bjec tivo d e “coordenar, incentivar e pro m o ver, no âmbito do sistema
educativo, os pro gram a s e as acções que vise m a educação par a os valores d a convivência,
da toler ância, do d iálogo e da solidariedad e entre diferentes povos, etnias e cultura s. ”
Incentivou-se a fu ndação da Associaç ão de P rofessores p ara a Educação Intercult ural, em
Setembro de 1993.
Desencadeou-se o P roj ecto de Ed ucação Intercultural, no ano lectivo de 1 993 -94.
(Carneiro, 19 99: 60)
Em 1995, o governo do Partido Socialista, criou a figura do Alto -comissário
para a I mi gração e Minorias Étnicas, na dependê ncia da P residência do Conselho de
Ministros. Est e estende a sua acção ao campo edu cativo, para o exercício das funçõ es
de integração e prote cção d e imigrantes e minorias étnicas. T al como refere o
preâmbulo do diploma q ue define as suas competências: “No desemp enho dessa tar efa
assume relevância partic ular a educaç ão, através da acção da f amília, das escolas e das
estruturas sociais, devendo fomentar-se o resp eito mútuo e a compreensão entre
pessoas de orige ns e culturas diferentes” (Carneiro, 1999: 61).
Para S outa (1997), conti nua a ser pr eocupante a ma nutenção de certos pa drões
de desigualdade no sis tema educativo portu guês, em termos de sucesso e, ainda,
acesso, tendo por base a diversidade étnic o -cultural, como atestam os vários estudos
estatísticos da demo grafia escolar, promovidos desde 1990. Diz, a inda, este autor qu e
“ (…) ‘o aproveitamento escolar’ entre os g rupos mi noritários, no seu conjunto, tem
sido sempre infe rior ao total geral dos alunos, em todos os ciclos de escolaridade. ”
(Souta, 1997: 73)
A tax a mais elevada d e insucesso escolar contínu a a re gistar-se num a das mais
antiga s minorias exist entes no nosso País a comunidade cigana, apesar de nela se ter
vindo a registar uma adesão progressiva à escola.
A verificar pelo número de desistências e abandono escolar precoces, antes de
terminar a escol aridade obriga tó ria, não nos parec e que sej a a comprovar esta nossa
assumpção. V eja-se que a taxa de desistência e d e insucesso têm sido ma is elevada s
nas minorias. Efectivamente, as políticas de combate ao ab andono escolar não estão a
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funcionar e, s eg undo dados do Eurostat, compilados pelo Observatório de Emprego ,
e m 2006, P ortugal não só não conseguiu reduzir a ‘estatística neg ra’ do sistema de
ensino, como assistiu mesmo ao seu agrava mento.
As percentagens de jovens que saíram precocemente da escola e cujo nível de
estudos não ultrapassam o 9º ano de escolaridade subiu de 38,6%, em 2005, para
39,2%, Por outro lado, aspectos estruturais do m erca do d e emprego revelam ainda
outra realidade des encorajadora, pois que, apesar de ter havido uma contenção de três
pontos no abandono escolar, ao longo dos últimos seis anos, “ (…) a taxa portuguesa
continua a ser mais do d obro da verificada p ara a média da União Europeia” (Diário de
noticias, 05/09/2007). E ist o verifica-se nas sucessivas con figurações que têm
aco ntecido na Europa comunitária: a 15 estados, 25 ou 27. Perante este cenário, d e
novo nos questionamos: qual deve ser o lugar da esc ola numa estrutura social que
desenvolve proce ssos d e exclusão?
Segundo Dubet (2003: 30 -31), somos confrontados com duas retó ricas
ideológicas que pontuam o debate sobre a escola e a exclusão:
“Para uns, o d esemprego e a p r ecariedad e dos j ovens ad vêm da falta de adeq uação entre
formação e e m prego. A esco la produziria uma for mação não ad aptada às necessidades
da econo mia, produzi ria muitos d iplo mas de ensi no geral e também dip lomas
responsáveis po r introduzir uma rigidez nociva ao acesso do s jovens ao e mprego.
Para o utros, o s ‘defensores’ d a escola, o sistema educacio nal é total mente ‘inocente’ em
face da exclusão. Não so mente o desemprego d os j ovens é independente do sistema de
formação, mas todas a s d ific uldades d a e scola, a ‘violência’, a débil motivação dos
jovens deco rreria ap enas das relações de produção.”
Para o Conselho da CEE (1990) as pessoas pobres, s ão os indivíduos, a s
famílias e os grupos de pessoas cujos recursos (materiais, culturais e sociais) são tão
débeis que estão excluídos dos níveis de vida mí nim os aceitáveis no estado-membro
em que vivem. P ortuga l tem actualmente um eleva do númer o de jovens a pretender
entrar no mercado de trabalho sem finalizar a escolaridade ob rigatória, procurando
entrar no mundo laboral com fracas qualificaçõ es e sentindo -se à pa rtida com um
futuro forteme nt e comprometido.
Por outro lado, encontramos também enorme n úmero de jovens a ingr essar
muito tarde no mercado de trabalho, consequência do prosseg uimento dos estudos.
Existe um desequilíbrio entre as qualificações adquiridas pelos jovens e as ex igências
do mer cado de trabalho. Há ainda a ponder ar a falta de e x periência p rofissional,
ex igida pe las empresas.
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Observamos duas situações distintas : por um lado, jovens detentores de
qualificaç õ es académicas, mas sem experiênc ia de trabalho e , por outro, jovens sem
qualificaç õ es. Há sem dúvida um desencontro entre as necessidades do mercado
laboral e os cursos maior itariamente frequ entados pelos nossos jovens; são cursos ‘de
lápis e papel’, sem qua lquer experiência profissional . Faltam as especialidades, as
competências laborais. Somos especialistas de ideias gerais, com a qual o mundo
laboral não se compadece. Os currículos são essencialmente teór icos.
O sistema escolar administra uma aprendiza gem muito teórica, que não
corre spond e às n ecessidades reais de mão - de - obra . Assim , as qualificações adquiridas
na escola p arecem est ar muito long e das ex igências do mercado de trabal ho. Há um
desfasamento entre os currículos e scolares e o mundo laboral.
No que diz respeito aos jove ns detentores de qual ificações, há ainda a ass ociar
aos problemas habituais as expectativas criadas com a aquisição de altas qu alificações
e o investimento que a família faz na educa ção. Hoje os nossos jovens terminam os
cursos e ficam dependentes das ajudas familiares; são as famílias a instituição que os
subsidia, quando não seguem caminhos desviantes e sinuosos.
É caso para questionar: Afinal quem somo s no contexto social? Quem somos
como indivíduos?
Sentimos uma necessidade do reconhecimento que nos é dado p elos outros:
“Ning u ém pode edificar a sua próp ria identidade independentemente das
identificaçõe s que os outros fazem del e ” ( Habermas, 1983: 22). E há que te r em
mente, como afirma T ay l or (1994: 58), que “(…) um indivíduo ou um g rupo de
pessoas podem so frer u m verdadeiro dano, uma autêntica d eformação se a gente ou a
sociedade que os rodeiam lhes mostram co mo reflexo, uma im a gem limitada,
degrada nt e, depreciada sobre ele.”
Entendemos que o não r econhecimento é uma fo rma de opress ão. A imagem
que, mui tas vezes, construímos sobre os detentores de deficiências físicas e mentais e
os grupos subordinados (pobres, ne gros, prostitut as, homossexuais, ...) é degr adante e
vexatória, sendo, por v ezes, a causa d e sofrimento e humilhação. Estas rep resentações
de vidas sofridas são construídas, várias vezes, no reconhecimento da ex clusão social e
política dos grupos disc ri minados.
Por outro lado, na escola portuguesa , os grupos de imigrantes e das etnias mais
destacados são: brasileiros, africa nos, u cranianos, chineses e etnia ci ga na.
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Importa, pois, para qu e ex ista respeito pela diversidade e p ela diferença na
escola, que todos sejam reconhe cidos como iguais em di gnidade , respeito e em direitos
humanos. Assim, devemos questionar as estruturas sociais e os mecanismos políti cos,
como a concentração do poder, que hierarquiza os indivíduos diferentes em superiores
e sobera nos e em inferiores os subordinados.
Se considerarmos que os seres humanos são o resultado do reconhecimento que
lhes é atribuído, compreendemos que a identidade do se r humano n ão é inata ou
natural, razão pela qual nos tornamos pessoas mais críticas e reflex ivas na forma como
contribuímos para o desenvolvimento da identidade dos jovens e para a construção de
uma sã convivência. R eiteramos a este propósito Ta y lo r (1994: 58), “ (…) a projecção
sobre o outro d e uma imagem inferior ou humi lhante pode deformar e oprimir até a o
ponto em que essa imagem s eja internalizada” (e não) “dar um reconhecimento
igualitár io a alguém pode ser uma for m a de opressão .”
No entanto, quando dize mos que “ (…) todos os seres hum anos são i gualmente
dignos de respeito.” (Ta y l or, 1994: 65), não quer emos dizer que devemos deixar de
considerar as extensas formas de diferenciação que ex istem entre os indivíduos e os
grupos. I gualmente espera-se dos profissionais da educação que procurem
proporcionar o apoio e os recursos necessários para que não haja desi gualdad e d e
oportunidades e de ac esso aos recursos. Também Taylor nos l embra (199 4: 64) que :
“(…) aqueles que têm desvantage ns ou mais n ecessidades é necessário que sejam
destinados maiores recursos ou direitos do que para os demais .”
Não restam dúvidas que as sociedades actuais sã o heterogéneas, formadas por
grupos humanos diferentes, com centros de interesse a ntagónicos, classes e
identidades culturais em constante conflito. Convivemos numa socied ade com gr andes
diversidades e diferenças. Temos que e star permanentemente em contacto. Somos
obriga dos a dialogar a conviver diariamente na escola e na comunidade.
Reconhecemos que o multiculturalismo nos ensina que identifi car a diferença é estar
atentos à ex istência de indivíduos e grupos que são diferentes entre si, mas que
possuem direitos rec íprocos. A convivência numa sociedade democ rática resulta da
aceitação de uma sociedade heterogénea, na qual, nós:
não pod emos excluir nenhu m ele m e nto da socied ade;
temos que contribuir para que os co nflitos e os valores se jam negociados co m r espeito
pelo o utro;
reconhecemos que a diferença deverá ser respeitada.
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Os vários conceitos de multiculturalismo refe rem a necessidade de admitirmos
a diferença d a relação com o outro. I sto é, ter capacidade par a ser compreensivo e
conviver com aqueles que são diferentes de nós, pensar que todos temos o direito de
acesso às mesmas oportunidades, à atenção, ao r espeito, à consideraç ão, ao apoio e aos
recur sos. O facto de viv ermos em democracia ex ige-nos a ne cessidade de conviver
com os que diferem de nós, ou seja, exige tolerância, soli dariedade, educação para
convivência, para a paz, para a não-violênci a. Mas, para valorizar essas ati tudes entre
os que são diferentes, temos que admitir também o que nos une . Só assim poderemos
atender às diversidad es e às diferen ças humana s, participar e deixar qu e os outros
participem na vida em socieda de. Em erge, então, mais uma questão:
Qual o lugar das questões da multiculturalidade em Portugal?
Stoer e Cortesão (1999: 113), as sinalam qu e, na pr imeira metade dos anos 9 0, o
Conselho Europeu (1992), apresentou um relatório cujo título era “Acção para
combater a Intolerância e a Xenofobia” . Este relatório afirmava que a educação ideal
era a qu ela que:
toma e m l inha de conta as mensa gens contraditórias da socieda de e do ambiente
politico;
torna os jo vens ca pazes de interp retar e julgar a co nduta do Estado em r elação às
pessoas e às co munidades;
não tem medo d os aconteci mentos quotidianos;
pode vencer as reticências d o s alunos e a relutâ ncia do s pr ofessores e m con f r ontar
assuntos contro versos;
aceita que o en sino d os direit os hu manos deve prevalecer a c ima d e todo s o s outro s
assuntos ” .
Le ite (2007: 39), aderindo a estas ideias e centrando -se apenas nos índices d e
retenção dos ensinos bá sicos e secundário, afirma ainda que “(…) a sit uação está
melhor do que há décadas atrás, nomeadam ente n os anos 70 e 80 do séc. XX, estamos
ainda lon ge d a igualdade de oportunidad es de sucesso a que se obriga o sistema
educativo português.” A autora apresenta da dos do Gabinete de Informação e
Avaliação do Sistema Ed ucativo ( GIASE), divul gados em 2004/05: 11,8% dos alunos
do ensino básico, isto é do ensino obrigatório, nã o tiveram sucesso . E no ensino
secundário, nível d e ensino que tem sido apresentado como futuramente obrigatório,
ess a percentagem subiu para 32,1%.
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No entanto, a educação escolar em Portugal tem-se preocupado com os
problemas da mul ticulturalidade, embora a partir dos anos 70 , com a descolonização
dos países afr icanos de língua portuguesa, se t ivesse assistido a uma alter ação d a
população residente em Portugal, o que “(…) tornou mais invisível a inadequação do
currículo baseado na id eia de cultura úni ca ” (Leite , 2007: 39).
O debate sob re as questões multi culturais ganhou mais expressão , entre nós , na
década de 90 . O fenómeno imigratório, no fin al do século XX, aumentou em P ortugal;
os luso-africanos, africanos de países de expressão portu guesa , comunidade de etnia
cigana, imigrantes provenientes do Brasil, de países do Leste Europeu (Ucrânia,
Roménia, Rússia e Moldávia), d a C hina, d a Índia, do Paquistão e d e Marrocos,
incorporam a massa de imigra ntes (Leite, 2007 ).
2. A violência social e es colar
A violência social pode ser conceptualizada c om um enorme número de
comportamentos anti-sociais cometidos nas escolas, nos bairros, nos transporte s
públicos, entre outros, podendo incluir comportamentos de oposição, agressões a
pares, a pro fessores e f uncionários e assaltos (Blaker, 1998). A violência tem uma
orige m social sendo, historicamente, um fenó meno humano. A caracterização da
violência abr ange a superaçã o da força física; ela apre senta “(… ) a possibilidade ou
ameaça de usá- la” (Velho, 2000: 11). Assim, a ideia de que o poder permeia a acção
violenta, parte do pressuposto de que o poder transporta na sua essência, as diferenças
sociais, culturais e económi cas, demonstrando a sua heterogene idade , sobretudo
repre sso ra. O poder, tal como a força física é u m valor relacional, que perde todo o
sentido se não for ex ercido com pessoas e grupos formados por pessoa s diferentes .
Permite controlar o com portamento do outro, impor sanções, dist ribuir elo gios, moldar
atitudes, crenças e discursos, influenciar o s conhe cimentos. O poder d e su perioridade
na escola manifesta-se na ‘ imposição ’ das normas e das r egras. A disciplina imposta
ao não considerar o mo do como são p artilhados os espaç os, o tempo, as difere n ças
sociais e culturais, nas relações entre os actores, provoca uma reacção que termina em
problemas de c onviv ência ou em violência escolar.
Sabemos que a nossa sociedade acarreta transfo rmações que, pela sua
diversidade de desenvolvim ento, origina conflitos, tensões, incerteza e desigualdade.
Como refere Micha ud (1989: 14) :
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“(…) ap esar da diversidade d os grupo s h umanos, alguns valores r ecebe m u ma
adesão mais a mpla, mas i sso não pod e d issi mular a divergê ncia e a heterogeneidad e
das convicções. A ideia de violência cr istaliza essa h eterogeneidade e essas
divergências, tanto que o recurso a ela p ara apr eender o s factos é o i ndício mais
seguro de que estão e m caus a valores i m po rtantes. ”
A inex istência de referências culturais, de normas e de valores, a proc u ra de
uma identificaç ão é tnica e de pertença, faz em com que os jovens reproduzam na
escola os comporta m entos que têm na rua . Não podemos nem devemos esquecer que:
“(…) la viole ncia constit u ye una de las tres fuentes pr incipales de pod er humano; las
otras dos son el co nocim ie nto y el di nero. Estas tres fuerzas afectan a nuestras vida s,
desde que nace m o s hasta que nos morimos. La violencia, s in e mbargo, es la forma
más inferio r y pri mitiva d e po der, p orque sólo se p uede usar para castigar, p ara
destruir, par a hacer daño ” (Roj as Marco , 1996: 241) .
Não é qualquer pessoa que tem acesso ao dinheiro ou ao conhe cimento, mas
qualquer pessoa tem acesso à violência. Esta é a forç a de poder d e mais f ácil acesso e
mais antiga que ape nas é utilizada para fins nega ti vos e de destruição.
A violência é socialmente construída. Como Chesnais demonstra (1981), no
seu estudo sobre a violê ncia, de 1800 até aos nossos dias, a percepção do fenómeno é
construída individualmente (enquanto vitima, agressor ou testemunha) ou
colectivamente (por via dos m eios de comunicação e a cultura própria da sociedade em
que nos inscrevemos) e varia c onso ante as épocas e o contexto.
Já Blaya (2008: 11) ap resenta a violência numa p er spectiva sócio construtivista
como o “(…) produto de uma interacçã o entre indivíduos, das int erpretações das suas
acções e das de cisões que daí decorrem em dad o contexto ideológico e polí tico, em
função dos interesses e de uma posição social que lh es são próprios em dado
momento ” . Reconhecemos, pois, que a sociedade em que n ascemos e crescemos é
produto dos valores e do s interesses daqu eles que têm o poder de toma r de cisões, que ,
no caso da familia, são os adultos.
2.1. Os contextos fam iliares potenciadores de violência
Os homens e as mulheres, jovens e crianças pertencem a diversos grupos
sociais. Desses grupos destaca-se a família . Esta pode definir- se como“(...) um
agrupamento de p arentesco que se incumbe da c riação dos filhos e do atendimento de
certas outras ne cessidades humanas” (Horton & Hunt, 1981: 166). Na família, o
trabalho, o lazer, o estud o e, sob retudo, a convivência familiar, si gnificam formas de
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participação, ond e o objectivo para a consecução de um su posto bem comum exige,
em maior ou menor es cala, const antes adaptações. Concordamos como Bruschini
(1997: 63), quando este afirma:
“(…) alé m d e ser o lugar o nde se forma a estr utura p síquica, a fa mília constit ui u m
espaço social distinto, na medida em que gera e co nsubstanc ia hierar quias d e idade e
de sexo. Ela é um esp aço social o nde as gerações se d efrontam mútua e
directa men te, é o nde os se xos d efinem suas diferença s e relaçõ es de poder .”
As funções da família englobam também aspectos económicos, sociais e
ideológicos que não são destacáveis do quot idiano familiar e que, por isso, sugere m
que esta merece uma ate nção esp ecial pel as particularidades d e que é composta, face
ao facto de que “(…) ela não é uma soma de indivíduos, mas um conjunto vivo,
contraditório e cambiante de pessoas com sua própria i ndividualidade e
personalidade”(Brusc hini , 1997: 77). Estas relações, por sua vez, são interc aladas
também com tensões e conflitos que, em virtude do movimento social e do desejo de
integraçã o, muitas vezes, desencadeiam a a gressividade que, em algumas oca siões, se
desvirtua em actos de violência.
Os padrões famili ares têm, ao longo dos séculos, revelado uma variação
fascinante da família suj eita a constantes mudanças - única instituição, na s sociedades
primitivas, locus de exercício de poder e autoridade, passou a constitui r-se como
instituição social básica -. Actualmente esta en frenta desenvolvimentos vários que
revelam dil emas e stress que atra vessam esta pós-modernidade; como, por ex emplo,
essa ‘revolução silenc ios a’ simbolizada no emprego da s mulhe res .
Para Bla y a (2008: 82) , o s pais são os primeiros referentes d a criança e servem
de modelo em termos de comportamentos a adoptar: “ Alg uns factores fami liares são
prenúncio de comportamentos perturbadores, e at é violentos ”. As crianças que sof rem
violência ou as que testemunham actos de violência na família ou no contexto social
onde habitam, estão mais expost as ao risco e têm mais probabilidades de serem
violentas do que as crianças que não p resenciam estes actos. A f amília que devia ser o
‘porto abrigo’ d as crianças é por vezes , um ‘lugar de ris co’. Assim, as crianças que
vivem em ambientes de viol ência conjugal têm vindo a ser designadas de vítimas
‘escondidas’ , ‘desconhecidas’, ‘esquecidas’ ou ‘silenciosas’ (Holden, 1998: 17 -18).
O conceito de ‘violênci a doméstica’ encontra-se bastante aprofundado, em
termos investigativos, nos Estados Unidos, Grã- Bretanha, mas ao invés, em Portuga l,
dá os primeiros passos. Tem sido dramático, nos últimos anos, como se tem observado
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Como neg ação da disciplina, surge , pois, a ind isciplina , conceito, também ele,
impreciso e vago, d ada a pluralidade d e con cepções que d ecorre desta temática. O
conceito de indisciplina, surgiu no rmalmente co mo o contrário ao de disciplina. Este
difere do de violência , já que não implica a existência de agressões intenci onais, com
clara violação dos direitos dos outros. Por um la do, enquanto a violência tem um
car ácter esporádico e surge só d e v ez em quando, a indi sciplina tende a ser
repre s entada por comportamentos de baixa intensidade, mas de elevada frequência.
Assim, enquanto os actos violentos são tendencialmente r aros , mas prod uzem
danos elevados, os actos de indi sciplina são tendencialmente mais
continuados/freque nt es, mas produzem menos efe itos negativos, p ara além dos efeitos
serem menos dur adouros. Uma outra característica distinta entre est es dois termos diz
respeito ao contexto de exibição dos comporta m entos e à sensibilidade destes às
estratégias utilizadas pelos prof essores.
Os alunos que ex ibem comportamentos violentos ou de oposição, têm uma
maior probabilidade de os manifestar perante qualquer professor ou me smo perante
qualquer pessoa, desde q ue p ercepcionem que o poder de retaliação é bai xo. Não que
sejam completamente insensíveis ao professor que têm pela frente; simplesmente
revelam uma considerável indiferença perante as ameaças ou os castigos, p orque
muitas vezes sentem que “(…) não t êm nada a p erder” (Lopes, 2001: 263). Rodríguez
Nora (2004: 27 ) vai mais longe e afirma que “h ay col egios que son verda deras
‘fábricas’ de ‘bullying’.”
Contudo, falar de indis ciplina é evidenciar o não cumprimento de regras
estabelec id as (Estrela, 1 994), quer sejam impostas ou negociadas. Tema complex o, a
indisciplina é um dos fenómenos que mais preocupa os responsáveis pe los sistemas
educativos, pautando-se mesmo como uma das principais causas de preocupação e de
stress prof issional dos pr ofessores (Jesus, 1996; Silva, 1995). Pese embora o seu
carácter ancestral no contex to esc olar e mesmo social, já que é “(…) um fenómeno
essencialmente escolar, tão antig o como a própria esc ola e tão inevitável como ela”
(Estrela, 1996: 13), a indisciplina tem vindo a assumir uma v isibilidade cada vez mais
acentuada nas escolas de hoje, n ão podendo, embora, s er d escontextualizada da
vivência social e familiar.
As desigualdade s que a sociedade n eoliberal vem acentuando, a alienação das
responsabilidades educat ivas por parte de numero sas famílias, o dist anci amento da
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escola face à r ealidade da vida, a falta d e condições das escolas e a própr ia gestão d a
relação pedagógica são, entre uma vasta panóplia causal, algumas das referências que
poderão s ervir de indicadores c ausais de um fenóm eno tão complex o. Assim , Sampaio
(1996: 32) n ã o hesita me smo em afirmar que “ (… ) a questão da indisciplina na escola
é um mar de equívocos” . O que nos remete para um conceito deveras complexo e onde
não mora certamente a univocidade, pois que , segundo Estrela. (1996: 35) “(…)
integra não só va riáveis de ordem bio-psico-soci al referentes ao aluno, mas também
variáveis referentes à famí lia, à sociedade, ao sistema educativo, à instituição escolar,
ao profe sso r (…)”
Porque a “(…) questão da indisciplina é um p roblema que contribui para a
crescente imagem negativa da escola, afli gindo pais e professores dos div ersos gra us
de ensino” (Amado, 200 5: 5), vamos procura r analisar alguns dos conto rnos de tão
diversificado p roblema. Não é fácil delimi tar com precisão o conceito de indisciplina.
O comportamento qu e uns podem considerar c omo indisciplinado é, muitas vezes,
encarado por outros como normal, sem a gravidade que aqueles lhe atribuem. Para
Amado (2001), um comportamento em si mesmo não é n em d eixa de ser
indisciplinado ; O que lhe confere tal carácter é o contex to em que ele ocorre , a
maneira como é encarado e avaliado. Esta disparidade, na apreciação das
caracter ísticas d a indiscipli na, most ra-nos, desde log o, quão complexo é o fenómeno
em si e quão diversa s s ão as suas manifestações e interpretações.
De um modo genérico e, consequentemente abrange nt e, podere mos com
Estrela (1996: 5) encarar a indisciplina como a “ (…) desordem proveniente da quebra
de re gras estabelecidas” . Quebra d e regras que , no contexto sala de aula, acaba
geralmente por se trad uzir em atitudes “ (…) perturbadoras e inviabiliz adoras do
trabalho que o professor pretende realizar ” (Jesus, 1996: 31) .
Reportando-nos ao cont exto escolar , n a opinião de V eiga (1995), a violação
das regras é denominad a ‘disrupção escolar’. Este autor defin e, então, a disrupção
escolar como o “(...) conjunto dos comportament os escolares disruptivos, sendo estes
definidos como a transgressão das normas escolares, prejudicando as condições de
aprendizagem, o ambiente de en sino, ou o relaci onamento das pessoas na escola”
(Veiga, 1995: 12). Esta persp ectiva parece-nos ser a m elhor aceite no seio da
comunidade de pais e professores, p ara quem ex iste indisciplina quando se violam as
normas estabelecidas, quando se perturba ou di ficult a o processo de aprendiz age m. É o
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sentido mais comummente aceite, pois quando se fala em indisc i plina fala-s e,
geralmente d e “ (…) alg u ma coisa de particularmente pertu rbador para a generalidade
dos professore s ” (Carita & Fernandes, 2000: 15).
Convocamos Magalhães (1992: 18) pa ra afirmar que “(…) comportamentos
disruptivos, indi sciplinados ou desviantes assumem o mesmo significado e estão
intimamente associados ao conceito de indisciplina”. Acrescentamos, sintetizando, que
na literatura espe cífica sob re esta problemática, também é freque nt e aparecer a
designaçã o de comportamentos de oposição . Para V ale e Costa (1994: 262), estes
comportamentos são assim considerados se pais o u professore s os julgarem num “ (…)
nível inaceitáve l de coop eração com a sua autoridade .”
2.2.1. Os vários níveis de indisc iplin a
A clarificação dos conceitos de indisciplina, vi olência, comportamento anti -
social, intolerância, delinquência, ‘bullying’ , conflitos de convivência na escola não é
fácil, uma vez que ab range qu adros de referência multi disciplinares, ângulos distintos
através dos quais estes fenómenos podem s er perspectivados e tomados sob
paradigmas de abordagem que estão longe de ser consensuais.
Alguma literatura da esp ecialidade apresenta uma perspectiva det erminística e,
de certa forma, fatalística da violência, considerando- a endémica da própria sociedade
e que impre gna a vida pública e privada dos grupos sociais ou dos indivíduos. É o caso
de Torrego e Moreno (2003: 14 -15), para quem é perce pcionada como u m fenómeno
“(…) qu e existe y que se re produce por todas partes, al que ningún te rre no está
vedado, y que se sitúa en la zona más oscura, ir racional e insondable de la naturaleza
humana”. Se guindo a ideia d estes autores, a violência apresenta as seguintes
caracter ísticas: versátil, ubíqua, fonte de múltiplos poderes, é uma mercadoria que se
compra e se vende , com efeitos devastadores a curto ou a longo prazo.
A violência e a intolerância são das relações mais recorrentes entr e as
diferentes formas de organização social, e conómica e cultur al do século XX. Entre as
instituições mais atingidas pela violência social difusa, a escola apresenta -se também,
como o lugar de ocorrência que produz e destrói valores antes sa grados para a cultur a
ocidental.
O acto desviante, na opinião de Alaoui (1999), dependerá, fundamenta lm ente,
do seu grau d e visibilidade. O carácter de ‘desvio’ será antes ‘uma categoria
semântica’, ou uma ‘etiqueta’ qu e é atribuída a um comporta mento , em funçã o dos
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padrões vi gentes em determinados grupos sociais. S ão estes grupos que, ao instit uírem
as normas, c riam o desvi o e aplicam o rótulo de d esviante aos sup ostos tr ansgressores
das mesmas, Becker (1985: 32) comenta que “(…) deste ponto d e vist a, o desvio não é
mais uma qualidade do acto cometido por uma pessoa, m as ant es a con sequência d a
aplicação, pelos outros, de norma s e sanções a um transgressor.” Portanto, antes de
admitir que os actos são por sua natureza desvian te, há que t er em conta as condições
em que eles se v erificam e o ‘processo’ em que ele é julgad o como tal.
Estes aspectos aplic am -se também à dif erença entre os fe nóm enos de
delinquência e os de indisciplina e violência na escola. A delinquência juvenil remete,
necessariamente , p ara um quadro jurídico u niforme, codificado e oficia lmente
estabelec ido num país, com prescrições e penas definidas para os actos considerados
como infracçõe s criminais; ao passo que os actos d e indisciplina (infracção às regras) e
de violência (c omporta mentos que põem em causa a sociabilidade) praticados no
interior da escola não são considerados, na maior parte das vezes , como infracção à
ordem le gal geral. Limitando-se a atin gir uma or dem normativa inst ituída , de natur eza
escolar ou ético-social, destinada a assegurar as condições de aprendizagem e a
garantir a so cialização dos alunos (Estrela, 2000).
Os códigos de conduta de referência são muito difusos, variáveis ou m enos
imperativos que os códig os legais. Os actos de indisciplina (e muitos ac tos ditos de
violência) estão longe de se poderem considerar cr imes, até porque p esa a atenuante de
serem praticados por ‘menores’ a quem não é, ainda, imputada uma responsabilidade
criminal total.
Se assumirmos que a violência e a d elinquência na escola são sempre actos de
indisciplina, també m ace itamos que a gra nd e parte dos actos de indisciplina
verifica dos na escola tê m um cará cter não violento, tal como a violência nem sempre
atinge os foros de delinquência. Podemos, então, pensar que, quando falamos de
indisciplina, não falamos sempre de um mesmo fenómeno, mas de fenómenos distint os
por detrás de uma mesm a designação. Relativamente a esta distinção, Amado (2000:
7 ) propõe que s e fale em três ‘níveis de indisciplina’.
O pr im eiro nível, que designa d e ‘ d esvios à s regras da produ ção ’, ab arca aq ueles
incidentes a q ue é i m putad o um car ácter ‘di sruptivo’ em virtude da ‘perturbação ’
que causam ao ‘bo m funciona mento’ da aula.
O segu ndo, dos ‘ con flitos in ter- pa res’ , abrange o s inc identes que traduzem,
essencialmente, um dis funciona m e nto das relações formais e informais entre os
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alunos, p od endo m anife star-se e m co m po rtamentos d e alguma a gressividade e
violência (e xtorsão, violência física ou verb al, int imidação sexual, r oubo e
vandalismo), e atin gindo , por vezes, contor nos e gravidades d e acto s delinque ntes,
portanto d e foro legal.
O tercei ro, dos ‘ con flitos da relação professor - aluno ’ , é com po sto por
comportamentos q ue, d e algum modo, põ em e m ca usa a au toridad e e o estatuto d o
professor (insultos, obscenid ades, d esobed iência, contestação afrontosa, réplica
desabrid a a cha madas d e aten ção e castigos), abrangendo, ta mbém, a m a nifestação
de alguma agressivid ade e vio lência contra docente s (e outros funcionários) e o
vandalismo co ntra a pro priedade dos m esmos e da escola . A s circunstâncias e a
gravidade de tais co mporta mentos ditarão a necessida de d e passar o u não do foro
escolar e institucio nal, para o foro judicial.
A partir d esta tipologia analisamos alguns asp ectos importantes; no primeiro
nível “ (...) n ão se consideram os factos de carácter violento e delinquente do
comportamento dos alunos, o mesmo já não se verifica das manif estações do segundo
e do ter ceiro nív eis onde os comportamentos são geralmente agressivos.” (Amado,
2000: 7). Assim, a manter-se esta dist inção de ní veis, exist e a necessidad e de te r em
atençã o uma s érie de aspectos que, sendo co muns na sua designação, serão d e
conteúdo muito diferente para cada um desses níveis, como as manifestações,
particulares e específicas dos int ervenientes no acto educativo: professores e alunos, as
regra s, normas e v alores em jo go, os factores, as funções, as consequ ências e sua
respec tiva gravidade.
Torrego e Moreno (2003), por sua vez, apr esentam a seg uinte categorização
dos comportamentos indisciplinados :
disrupção na sala de aulas;
problemas de discipli na (pro blemas interpessoais);
‘bullying ‘(assédio , intimidaçã o e maltrato e ntre iguais);
vandalismo;
agressão física;
assédio sexual;
absentismo e abando no;
fraude (copiar nos exames ou p rovas de avaliação , plágio o u tráfico de influências).
Não h á uma definição concreta sobre o conceito de indisciplina. Sendo uma
palavra composta por prefix ação - prefixo que signi fica a ne gação de qualq uer coisa - ,
é analisada por vários autores, sob pontos de vista diferentes. Falar de indisciplina não
é um assunto consensual. Não há um conceito partilhado de indisciplina, pois a não
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observânc i a de leis e de ordenamentos explícitos e im plícitos na escola, não é
entendida pelos dif erentes actores do mesmo modo. Mui tos actores tendem a
considerá- l a como um problema essencialmente relacional e , por cons eguinte, n ão
imputável apenas a um dos actores dessa relação. Dentro dessa óptica, numa situação
de sala de aula, uma p arte da res ponsabilidade ca be ao professor e outra ao aluno, n ão
esquece ndo a responsabilidade da escola, da família e da sociedade.
Alunos, professores e pais convergem no sentido de que os alunos
indisciplinados ‘que se p ortam mal’ n ão se conformam com os padrões considerados ,
pela escola e pelos professores, como necessários ao ensino e a inserção no grupo ou
turma. Poder- se -á diz er que a indiscipl ina se caracteriza por c omport amentos nã o
coincidentes com as regras consideradas necessárias ao eficaz desenvolvimento de
situações escolares. Estas re gras s ão definidas pela própria organização e também pelo
professor que, nas su as a ulas, usa fr equentemente o poder d e exigir comportamentos e
atitudes nec essários ao seu desempenho profissional e deter mina quais deles podem
ser qualifica dos d e indisciplinados.
Há professores que distinguem a indisciplina dos comportamentos
perturbadores ou de distracç ão dos alunos e os que consideram que qu alquer acto
perturbador do funciona mento da aula é indiscip lina. Assim sendo, falar sem levantar
o braço é considerado po r alguns prof essores indisciplina, enquanto, que para outros é
considerado apenas um excesso de vitalidade pr óprio da idade, No entanto, outros
professores, referem que a indisciplina é um sinal de que algo está mal. Na sala d e
aula, professores e alunos são detentores de poder de carácter e natureza diferentes e,
cada um deles, tentará uti lizar a sua parcela de poder para atingir os se us ob jectivos.
Parece evidente que a dificuldade que os prof essores sentem em gerir a
heteroge n eidade dos alunos deve- se , em pa rte, à manutenção de estruturas e modos de
organização peda gógica desajustados dos princípios que levara m à generalização da
escola e à ‘pr omoç ão da escola para todos’.
A indisciplina é um f enómeno que causa múlti p los conflitos no meio escolar. E
de novo nos questionam os: Mas, o que levará o aluno a ter estes comportamentos na
escola? P oderão ser problemas familiares, o contexto social, a sua personalidade, o
incremento da intolerância social, o aumento de escolaridade, a f alta de disciplina
escolar, a organização e clima da escola?
Nos seg uintes apartados tentamos responder a e stas questões.
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2.2.2. As fronteiras de um comportamento in disciplinado n a sala de
aulas
Os comportamentos indi sciplinados são, por su a vez, muito sensíveis à fi gura
do professor. Exist em turmas que são incontroláveis com um determinado professor, e
inofensivas com um outro. Isto é, no mínimo , o professor constitui o principal
responsável pela indi sciplina, uma vez que não tem capacidade para gerir a aula de
forma a evitar o aparecimento e desenvolvimento dos comportamentos
indisciplinados. A indisciplina assume, com frequência, formas grupais. I sso não
acontece em relação aos casos de violência e de agressão, relativamente aos quais o
professor não constitui origem e cujo cont rolo em grande medid a lhe escapa
(Gottfredson, Fink & Graham, 1994; O’Donoghue, 1995). S ejam ‘bons’ o u ‘maus’, os
comportamentos dos alunos, não podem ser vist os apenas como proveni entes deles
próprios. Torna-se indi spensável consid erá-los como parte d e uma situação total, na
qual actuam vários intervenientes atribuindo sig ni ficados diferentes ao que se faz.
Assim, o grande object ivo dos comportamentos do indivíduo é atingir e
desempenhar um p apel de a ceitação da sociedade, fazer pa rte d e um grupo e, ao
mesmo tempo, ser r econhecido por ele. Contudo, sur gem problemas quando a s
condutas resultantes daq uelas nec essidades encontram obstáculos que dificultam ou
impedem a obtenção de situações capazes de satisfazer essas necessidades. Por outro
lado, se a pessoa em causa tem a convicção de que não lhe é possível conquistar lugar
no grupo, a frequência dos comportamentos inadequados torna -se maior . Assim, a
indisciplina consubst ancia-se n as salas de aulas em condutas que colidem com os
objectivos dos conteúdo s de aul a que o professor pretende atingir, atr avés de um
determinado c onjunto de estratégias.
Segundo Brophy (1996), estes comportamentos podem constituir
manifestações individuais ou grupais e apresentam usualmente um carácter benigno .
Os comportamentos p roblemáticos mais comuns são ‘ chegar tarde’, ‘interromper as
aulas’, ‘faltas de material’, ‘desatenção’, ‘ fal ar para o l ado’ e ‘ fo rmas menores de
agressão física e verbal’ (Amado, 1998). Porém, se o professor se revelar incapaz d e
lidar adequ adamente com eles, o seu grau de recorrência pode conduzir a uma
escalada de sérias con sequências p ara a sua saúde mental, pois, para além d e
desenvolver um forte rancor par a com os alunos, pode igualmente pe rcepcionar -se
como ‘incompetente’, ‘incapaz’, e ‘não digno de respeito’ por parte dos alunos.
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Como facilmente podemos verificar, nenhum destes comportamentos é
passível, por si só, de pe rturbar gravemente uma aula ou um professor. N o entanto, a
possibilidade de tais comporta mentos sere m exibidos por diversos (ou p or ‘muit os’)
alunos, e po r períodos de t empo prolon gados, pode tr ansformar o seu c arácter
‘benig no ’ em ‘maligno’ , com grave prejuízo para o ensino.
Na sequência do que se entende por indi sciplina, os comportamentos
indisciplinados violam as re gras, prejudicam o processo de ensino aprendizagem e as
interacç õ es na sala de aula e na escola. Mas os comportamentos parece m assumir
conotaçõe s dife rentes entre os professores, sendo , deste modo , muito difícil
especificar, com precisã o, quais os que são con siderados de indisciplina . P or outro
lado, os docentes pa recem tomar atitudes dif erentes fa ce aos comportamentos que
consideram de indisciplina, o que pode dificultar aos alunos a perce pçã o de quais
desses comportamentos são considerados indisciplinados (Amado, 1998).
Já Va le e Costa (1994) referem qu e há uma sob reposição de conce itos neste
domínio, podendo mesmo a s investig adoras usare m designações diferentes para o
mesmo tipo de acção. Est as autoras t êm por ba se a teoria psicodinâmic a de Veiga
(1985), onde refere que, se quisermos compreender os comportamentos humanos,
torna-se necessário ter e m conta todo o contexto onde o aluno se insere e do qual
fazem parte os significados atribuídos às suas atitudes pelas pessoas que com ele
interagem: c ole gas, pais e professores.
Um outro factor a ter em conta será conhecer as ra zões que desencadeiam os
comportamentos, já que o indi víduo actua influenciado por determinados objectivos.
Segundo Ma galhães (1992), o comport amento não é indi sciplinado por si. É
considerado como indisciplinado, ou não, conforme o contex to em que ocorre, bem
como as perspectivas de quem o obse rva e de que m o adopta. Assim f ará s entido, dizer
que um comportament o, num mesmo contexto, visto por pessoas diferentes, é
entendido de forma diversa, tanto no seu grau de gravidade, como na sua adequação à
situação.
Deste modo, afigura- se -nos pertinente colocar alg umas reservas qu anto ao
rótulo de comportamento indi sciplinado até porque, associado a el e, surge a rotula ge m
dos alunos. Esta rotulagem, por pa rte de um grupo de pessoas, pela escola ou pel a
sociedade, pode levar à criação de estigmas so ciais. E, como os alunos tendem a
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comportar-se de acordo c om as percepções que tê m de si, criarão por vent ura situações
de indisciplina.
Neste sentido poder- se -ão desencadear actos de m arginalidade, delinquênci a ou
mesmo o aparecimento d e subculturas e contraculturas opostas aos valores defendidos
pela escola e pela sociedade. Assim, a escola pode tornar-se susceptível de fomentar
comportamentos marginais quando, pelo contrário, era esp erado evitá-los.
2.3. A violência em conte x to escolar
A violência em contex to escolar é um assunt o de elevada pertinênc ia e
actualidade . Todos os países industrializados se confr ontam com esta p roblemática,
que tem implicações, a nível escolar, familiar e da própria socied ade. A escola é um
local de aperfeiçoamento int electual, de aquisição de conhecime nto e está cada v ez
mais a assisti r a actos de violência vindos de todos os lados. A violência envolve
muitos âng ulos distintos, que t ê m a v er com aspectos éticos, políticos, económicos e
sociais.
Debarbie ux , (2007: 113) critica a d efinição lat a de viol ên cia e afirma que “ (…)
a maior p arte dos autores sobre a violência na escola aceita uma d efinição lat a da
mesma, incluindo, para além da delinquência, ‘ factos’ que es capam largamente à s
descrições judiciárias”. O autor entend e que “( …) não pode exist ir saber total sobre a
coisa violenta – sobre o facto social violência na escola – pois nós só poderemos ter
repre s entações par ciais d esta”. P rocurando, assim, ultrapassar certas cliva gens e certas
divergências, ao most rar que os diferentes pontos de vist a permitem uma pluralidade
de esclarec imento e de r epresentações. Para este mesmo autor:
“(…) a pesquisa sobr e violência é ta mbém: u ma série de p ontos de vista, co m
disciplinas diferentes que ab ord am de maneiras diversas, por vezes co ntraditó rias,
aquilo que e m p ri meiro l ugar é um fe nómeno. Assim, exis tem diferentes ab ordagen s e
definições: co m po rtamentos anti -sociais, distúrbios de conduta, violê ncia criminosa,
delitos periféricos, m icro viol ências, ab ordagen s p ela vítima ou pelos agres sores. A u m
fenómeno co mplexo só p odem cor resp onder p ontos de vista co mplexos ” ( Debarb ieux,
2007 : 117).
Deste modo, entendemos que falar de violên cia n os limita porque seria atr ibuir
uma categoria permanente para definir um a situação em que s e encont ra a escola,
quando a evidência aponta que a violência está presente mas apenas em casos isolados.
Sabemos que ca da escola é um microcosmos, c ada sa l a de a ula é uma re alidade
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distinta, cada aluno é um ser indi vidual e não podemos fazer generalizaçõe s. N ão
podemos ignorar qu e as i nstituições e a soci edade ex ercem alguma form a d e violência
sobre os actores. O que pretendemos é compreender estes desvios do comportamento
escolar entre os diferente s públicos. A nossa preocupação passa por conhecer, qu ais as
formas de prevenção e in tervenção, para evitar a violência.
A violência e nvolv e muitos aspectos diferentes. Em diversas investigações
aparece como uma etiq ueta que s e aplica a numerosos problemas d e convivência.
Assim, vários autores ref erem a violência como um conjunto de comporta mentos anti-
sociais praticados nas escolas, tais como: co mportamento de incom patibilidade,
agressões a p ares, a pro fessores, funcionários, roubos e vandalismo. É um problema
social, político e pedagógico que se apresenta como um gra nde desafio para todos os
actores do sis tema educativo e social. Observamos, oca sionalmente, algumas formas
de violência na escola e na sociedade, por exemplo uma atitude ou um comportamento
de ameaça ao ser human o em alg o que para si é fundamental enquanto p essoa, como
seja a sua integridade fís ica, hierárquica, psicológica, moral ou social , os direitos e as
liberdades, assim c omo t odas as formas de violação dos direitos humanos.
Encontramos na literatura consultada referência a vários ti pos de violência tais
como: a violência delinquente e a de atitudes. A primeira refere-se ao s atentados
físicos contra p essoas e i nstalações, violên cia ver bal ligada a insultos graves, ameaças
e ca lúnias. A violência das atitudes poderá incluir também a viol ência verbal, mais
atenuada , assim como a resistência à participação e à comunicação. Esta violência
aproxima- se , nos países de língua in glesa, ao ‘ bullying ’ : As conotações negativas são
substituídas por ‘agressividade’, ‘comportamentos anti - sociais’, ‘incivilidade,’
‘compo rtamentos disrupti vos`, violên cia cult ural, mac hismo, competitividade,
xenofobia; violência sim bólica e violên cia psicol ógica, como, po r exemp lo, mandar
fazer os trabalhos de casa aos alunos e não os corrig ir ou fazer perguntas que o aluno
não sabe responder, para o humilhar perante a turma.
A violência escolar tem muito a ver com a cultura da escola e com as rela ções
interpessoais que aí se estabelecem. A cultura humana controla a capacidade de
moldar e transformar o comportamento que pod e ser modificado e corri gido com a
aprendizagem. A resposta passa por int ervir para prevenir esta s condutas. As
responsabilidades n ão sã o fáceis de aceitar: os pr ofessores referem, várias vezes, qu e
as causas das condutas anti -sociais têm a sua ori gem no exterior da es cola, em grande
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institucionais que se tra duzem por um aumento das devastações dos lo cais ou das
agressões contra os professores.”
Ser vítim a ou a gre ssor torna-se um acumular de tr aços de carácter que culmina
nos agressores numa personalidade ‘anti - soci al’. O problema do ‘bullying’ é
complicado e assume diversas dimensões que necessi tam de ser estudadas
individualmente, isto é, caso a c aso.
O ‘bullying’ ultimamente tem sofrido algumas alterações, aproveitando as
potencialidades da Inter net. Referimo- nos ao ‘ cyber- bullying’ ou ‘ bullying virtual’. O
‘ cybe r - bullying’ consiste no recurso à tecnologia para ameaçar, humilhar ou intimidar
alguém, seja po r via de cor reio electrónico, salas de conversa (chats), me ssenger ou
telemóvel. Lançam-se b oatos na rede, fotografias que muitas vezes s ão retocadas e
modificadas, revelam-se pormenores ínti mos e pessoais que podem se r ve rdadeiros ou
falsos.
A rede social na I nternet ‘ Y ouTube ’ tem sido muito uti lizada para a prática do
‘ cybe r - bullying’ ao se rem colocados vídeos co m o intuito de ag redir. Encontramos
vários vídeos onde vítimas de violência e d e ameaças na escola ex põem os seus casos
e incentivam os mais novos a denunciarem sit uações semelhante s. Na r evista Sábado
nº 204- 27/03/2008, aparece em grande título a no tícia transcrita da autoria de Lacerda,
et al. (2008: 49).
“(…) ameaça m , espanca m e filmam” (….) “batem nos pr ofessores a p ontapé, dão -lhes
socos ou atiram- lhes navalhas. Alguns gra vam tudo co m os telemóvei s e põe m os
vídeos n a Internet. Estes são os p iores casos de violência nas escolas” (….) “Vários
vídeos co m ins ultos e agres sõ es, grav ado s po r alunos e m esco las po rtuguesas, estão
disponíveis no ‘ YouT ube ’.”
Uma das grandes diferenças entre o ‘ bullying ’ tradicional e o ‘ ciber- bullying’ é
o facto de, neste últ imo, os jovens não estare m frente a frente e, por vezes, nunca
chegam a s aber quem é o agressor, s endo que as acções são muitas vezes pra ticadas
por sim ples entretenimento, sem que os agre ssores conheçam as vítimas. Esta forma
de violência ultrapassa os muros da escola para um plano virtual, onde qualquer
pessoa pode ter acesso. O ‘ adolescente vitima de ‘bullying’ , no entendimento de
Rodríguez (2004: 63), expressa uma necessidade de impressionar, de destruir, de
protag onismo, de se sentir superior, de se r difer ente, de preencher o vazio emocional.
Um adolescente que s eja vít ima diariamente de roubos, ameaças e h umilhações,
sentirá a escola como uma tortura. Car ra e Sicot (1997 ) afirmam que o ‘ bullying’
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permite uma aborda gem pertinente dos efeitos psicológicos e individuais sobre as
vítimas. Eles mostram que o stress causado pela vitim ização pode ser um stress
cumulativo e, por esse motivo, difícil de tratar , por se encontrar profundamente
instalado na estrutura psi cológica dos sujeitos.
2.3.2. Estudo do ‘bullying’ em Portugal
Ao iniciarmo s este estudo sobre “ a disciplina e convivência na escola: a
prevenção, dia gnóstico e intervenção” , realizámos um levantamento da revisão da
literatura sob re o ‘ bullyi ng ’ produz ida em termos nacionais e internaciona is. Quanto à
pesquisa bibliográfica sobre os estudos portugueses, d a mo -nos conta que as
preocupações com esta problemática apareciam em algumas p esquisas empíricas no
âmbito da indi sciplina na escola, quanto ao controlo da actividade dos alunos na sala
de aula, e m tr abalhos centrados a partir das representações dos professores.
Trabalhos específicos so bre o ‘ bullying ’ , qu estionando a própria c riança eram
quase inexist entes. Fonseca (1992) estudou o s comportamentos anti -sociais de
crianças dos 8 aos 17 anos, através de qu estionário, estando contempladas questões
sobre a agressão entre pares na escola. Pe r eira et a l. (1996) c entram a su a i nvestigação
nas práticas agressivas dos alunos do 1.º e 2.º Ciclos de Escolaridade (crianças entre os
5 e os 12 anos), sobretudo a vitimação/agressão nos recreios e a caminho de c asa,
envolvendo toda a comunidade educativa, inquiri da por questionário. P arece subsisti r
a ideia de qu e nas escola s de p equenas dimensões e em turmas de poucos alunos estes
problemas não existiam ou assumiam pequenas dim ensões. Em estudos de Pereira et
al. (1996), concluiu-se que se trata d e um m ito , pois o ‘ bullying ’ não parece se r mais
freque nt e em turmas com maior número de alunos.
A investigação de Matos e Carvalhosa (2001) enfatiza a diferenc iação entre
jovens provocadores e vítim as nas escolas portuguesas. O seu estudo centra- se em
alunos com idades compreendidas entre os 11 e os 16 anos e a frequentar o 6º, 8º e 10º
ano de escolaridade. A sua amostra foi de 191 escolas nac ionais, num to tal de 6903
alunos. O instrumento de recolha de dados utiliz ado foi o questi onário, sobre
comportamentos de saúd e. Analis am os comportamentos que o ‘bullying’ provoca em
contexto escolar. Este e studo vem realçar as característi cas físicas dos jovens que
provocam outros na escola , e dos que são provo cados, bem como os factores que os
diferenciam e que determinam estes dois comportamentos. O que se p retende é que as
intervençõe s a s er implementadas acabem com os comportamentos de ‘ b ullying ’ e se
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tornem adequadas e adaptadas às características dos nossos jovens e não somente
baseada s em experiências de outros paíse s.
Pensamos que esta é u ma das áreas onde é necessário desenvolver mais
estudos. A grande maioria dos tr abalhos produzid os tem sofrido sobretudo a influência
da li teratura da área da psicologia, ficando de fora outras persp ectivas de estudo, tais
como a sociologia da educação e das organizações que, ao cruzarem-se, iriam
contribuir para o aprofundamento e melhor compreensão do problema, a complexidade
do processo e a necessidade de o isolar .
A partir do estudo do ‘ b ullying ’ , verificamos que um outro factor d everia ser
equacionado no estudo da violência na escola, envolvendo a agressão entre docentes,
funcionários e alunos, onde a relação de autorid ade é dife rente daquela que se regista
entre pares. Os problemas vivi dos pela escola e m cada mom ento , no nosso entender,
devem ser assumidos, partilhados e discutidos por professores, alunos e pais. A relação
professor/aluno com abu so de pode r pelo profess or que, d e forma sistemática ‘goza’ o
aluno e o ridicular iza aos olhos dos colegas, co m efeitos negativos sobr e a su a auto-
estima, é fonte de um mal -estar generalizado na sala. Os professores podem adoptar,
perante os alunos, atitudes def ensivas como: rejeição, abuso de poder, passividade ou
alguma ingenuidade num excesso de companhe iris mo Sampaio (1996).
O ‘ bullying ’ não s e con fina aos r ecreios, refeitóri os, espaços d esportivos ou na
sala de aulas, envolvendo membros do seu grupo ou extra grupos. Envolve,
igualmente, os professores, que são agredidos, a meaçados com armas de fogo e armas
branca s, insultos, roub os e outro tipo de danos físicos, psicológ icos e morais,
fragilizando a sua prof iss ionalidade.
As crianças e os jovens passam uma grande parte do seu dia na escola, ond e as
relações que estabelecem com os colegas e os adultos e mesmo com o espaço físico da
escola e dos recreios , são fundamentais para a sua formação e vida futura. É no recreio
onde se realiza uma parte importante da experiência de vida da criança na escola, em
particular qu anto ao desenvolvimento de compet ências sociais (Pellegrini & S mith,
1993). A g rande maioria dos jovens gosta ou ad ora os rec reios. É no recreio que as
relações entre pares são mais livres e espontâneas e se fazem aprendizagens diferentes
mas tão importantes c omo as da sala de aula (Blatchf o rd & S harp, 1994).
Questionamo-nos: Será o recreio um espa ço de socialização e de autonomia para o
aluno?
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Entendemos que o recreio é um espaço e um tempo em que o aluno pode
livremente escolher o que quer apr ender, os seus amigos, fora das ordens do adulto.
Assim Soeiro (2003: 31) refere que
“(…) p ara a gra nde par te dos j ovens, há dua s escola s: a esco la dos inter valos, do grupo
de amigos, dos to rneios de f utebol ou até do s debates, e a escola das aulas, d o co nselho
executivo, dos p rofessor es, d os a migos mome ntaneamente tra nsfor m ado s em
advers ários na corrida para o suce sso… Estas escolas não cost umam coincidir. ”
(Estudante do En sino Secundário e Mem bro da Associação d e Estudantes - Escola
Secundária d e António Sérgio, Vila Nova de Gaia) .
Segundo o autor, a grande diferença inicia- se logo porque a primeira escola não
é obri ga tória; vai-se porque se quer, porque s e gosta . Aqui, as pessoas falam a mesma
linguage m, podem dar gar galhadas e até fazer al gumas imbecilidades; aq ui o tempo
corre mais rápido, nem é necessário olhar p ara o relógio. A s egun da é uma obrigação,
porque a lei assim o im põe, ou porque os pais assim o determinam; tem de se falar
baixíssimo e muitas ve zes as pessoas não entendem porque f alam linguagens
diferentes. M as sucede que, tendo em conta a afirmação de Soeiro (2003: 32), “ a
primeira escola tem, para quem nela vive, mais sentido , que a segunda mas tem menos
sentido para os professores ou os ministros.”
Consideramos que, apesar da exist ência de violências nas duas escolas, a maior
violência de todas é que estas duas escolas pou cas vezes se encontram. Quando se
encontram raramente se compreendem já que c ada uma delas se considera a mais
importante, negando a i mportância uma à outra. A segunda manda m ais que a primeir a
e é esta, que é ch amada de escola, que i gnora a existência da primei ra, para continuar
intocável e imutável na s ua missão. No entanto, e ste espaço da primeira escola é posto
em causa pelo número de a gre ssõ es e de ofensas q ue aí acontecem. Então p orque é que
o ‘ bullying ’ é mais frequ ente no recreio, quando s e trata de um tempo d e la zer e de um
espaço de jo go e recreação?
Parece se r difícil de explicar. Contudo, alguns factores parecem estar
associados à frequência mais elevada de práticas agressivas no rec reio,
nomeadamente , associad as às características d esses contex tos e dos te mpos livres.
Quanto aos espaços, a oferta é pouco diversificada e as suas dim ensões reduzidas face
à densidade de alunos. Quanto aos tempos livres, são períodos em que ca be a cada
criança fazer a sua ge stã o; cada um tem a oportu nidade de escolher os s eus parce i ros
de jo go, as actividades ou jogos a realizar e definir o início e o fim d as mesmas .
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(Marques, Neto & Pereira, 2001 b: 556) concluíram que “(…) os recre ios vazios são
locais onde o ‘ bullying ’ é mais frequente; pelo co ntrário, nos recreios mel horados com
equipamentos móveis, menor percenta gem d e crianças foi vítima e agressora ” . N a
óptica destes autores, neste espaço de desenvolvimento, de socializ ação, de
aprendizagem e jogo, que são os recreios, é q ue são permitidos e são possíveis
contactos com os pares e são escolhidos os amigos, actividades, j ogos, sem a
influência directa dos a d ultos.
Sabemos da inseg urança exist ente, hoje, nas cidades e vilas e que a vida das
famílias não permite que as crianças e os jovens usufruam de espaços como a rua e o
parque de jo gos, tornando-se assim, o recreio o seu substituto mais seguro.
2.4. Agressividade, violência e delinquência
Procuramos, neste breve enqua dramento teórico , verificar a distinção e ntre
agressividade , viol ência e delinquênci a. Na sequência de alguns autores, remetemos o
mero fenóm eno da agressividade para um quadro biológico e social d eterminado pela
satisfaçã o de necessidades básicas, enqua nto consideramos a violência como uma
forma de agre ssividade ‘i njustificada e cruel’ (Ruíz & Mora -Meschán, 1997).
As agressões pod em ter a int encionalidade de m agoar ou n ão . Isto é, pod em ser
premeditadas ou impulsivas, podem estar associadas a instinto de sobre vivência, ou
pode ser uma provocação ou apenas uma re sposta no sentido de defesa. Para que a
delinquência atinja as raias da criminalidade é necessário que os comportamentos em
causa caíam sob a alçada do Códig o Penal e sejam, por isso, considerados crimes.
Por outro lado, ex iste uma certa dificuldade em estabelecer fronteiras rígidas
entre a agressividade, a v iolência moral e a delinq uência. Há que reconhecer, por outro
lado, que a indisciplina escolar pode degenerar, com facilidade, em violência e em
delinquência ‘persistent e’, havendo autor es que vêem nela (sobretudo quando se
mantém fre quente e con tumaz, num mesmo indivíduo, entre os 12 e os 18 anos), o
princípio de uma carre i ra de desvio (Coulb y & Ha rper, 1985).
2.4.1. Conduta anti-social e tipos de agressividade
Para Loeber e Ha y (1997: 373) a conduta anti-social ou agressiva é vista como
“(…) aqu ela q ue inflige dano físico ou psicológico ao outro; e/ou perda ou dano de
propriedade, podendo ou não constituir um a infracção às leis vigentes”. Por sua v ez,
Coie e Dodge (1998: 78 1) salientam, ainda, por oposição aos autores pre cedentes, o
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papel da intenção subj acente a esse dano co mo aspecto importante a lev ar em
consideração na definição. L oeber e Hay (1997) dist inguem também entre ‘actos de
agressão menor’ e ‘a ctos de violência’ co nsoante o g rau de gravidade das
consequênc i as da conduta anti-social.
Coie e Dodge (1998) e Dí az -Aguado (1996) sugerem que se diferencie ainda
dois subtipos de violência ou agressão e pa ra este s autores não há difer ença en tre elas :
a violência reac tiva ou ex pressiva e a violência instrumental ou proactiva.
A violência reactiva é d esencadeada pelas condi ções que a ante cedem, isto é,
surge como uma explosão emocional, um nível de tens ão e crispação elevados qu e
ultrapassam a capacidad e da pessoa p ara enfrentar o evento soci al de outra forma. A
violência instrumental ou proactiva é desencadeada p ela perspectiva dos resultados
que o indivíduo esper a obter, ist o é, utiliza-se para se conseguir um deter minado
resultado. Os indivíduos que rec o rrem a este tip o de violência tendem a justificá -la,
dando-lhe uma aparência legítima. É ainda p ossível identificar indivíduos que
praticam mais a violência reactiva, outros que recorrem mais à violência proactiva e
ainda al guns em que estão as duas p resentes. Esta diferenciação pode con duzir -nos a
formas diferenciadas d e i ntervenção, ev entualmente m ais eficaz segundo o s casos. No
primeiro caso, seria ao nível do controle emocional, da auto -regulação dos impulsos
que pareceria mais adequado actuar; enquanto, no segundo caso, seria ao nível da
repre s entação cognitiva interpessoal e da diferenciaçã o e m odificação de estratégias
para a l cançar determinados objectivos.
A ideia de que violência gera violência é amplamente confirmada pelas
investigaç õ es (Coie & D odge, 1998; Dí az -Aguad o & Arias, 1995) na medida em que
“(…) conviver com a vi olência aumenta o ri sco de a vir a exercer ou de converter-se
numa sua vítima, especialmente quando a exposição se pr oduz em m omentos de
especial vulnerabilidade como a infância e a adolescência” (D í az -A guado, 1996: 59).
2.4.2. A Delinquência juvenil
Em Portugal, na década de noventa, esta problemática tornou -se mais visí vel e
começou a tornar-se obj ecto de inte resse por parte da cl asse política n a a presentação
de novas propostas de in tervenção nos casos que chega m aos Tribunais d e Família e
Menores. N esta período, a “ Comissão de R eforma do Sistema de Ex ecução de P enas e
Medidas ” cuja acção veio a traduzir -se n a apr ov ação pela Assembleia da República,
em 1999, da “ L ei de Protecção de Cria nças e Jovens e m Perig o ” (Ministério do
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Trabalho e da Solidariedade) e da “ Lei Tutelar Educativa ” do Minist ério da Justiça .
Tendo entrado em vigor no dia 1 de Janeiro de 2001, estas duas leis substituem o
modelo consubstanciado na Organização Tutelar de Menores (OTM), diploma legal
que, nas últim as déc adas , servira de enquadramento ao sis tema de justiça tutelar de
menores.
A intervenção tutelar de protecção , expressa na primeira, desenvolve-se
relativamente a casos em que se verifique a ameaça dos direitos essenciais, cívicos,
sociais, económicos e culturais, da crianç a ou jov em requerendo - se , assim, a actuação
do Estado. A intervenção tutelar educativa pre conizada pela se gunda está reservada a
jovens que, entre os 12 e os 16 anos de idade, tenham praticado f acto qualificado pela
lei como crime, c oloc ando em causa os valores jurídicos essenciais à vida social.
A expressão ‘d elinquência juvenil’ tem, geralmente, uma conota ção juríd ica e
designa os a ctos cometi dos por um indivíduo abaix o da idade de responsabilidade
criminal, que infringe as leis estabelecidas. Esta designaçã o, embora relacionada com
a conduta anti-social, porque a p rimeira pressu põe em geral esta última, pode dela
diferenciar- s e, na medid a em que sob a desi gnação de conduta anti -social se incluem
os comportamentos que desrespeitam os outros e violam as norm as de uma
determinada comunidade, sem necessar iame nte infringirem as le is vige ntes .
Manifestando-se de for ma diferente, consoante se trate de crianças, adolescentes, ou
adultos (Fonseca, 2000a: 9-12).
Assim Weiner (1995) considera que, do ponto de vista da sua gravidade, os
actos delinquentes podem ser graves (contra pessoas ou bens, como assaltos e roubos),
ou constituir peque nos delitos (como vandalismo, actuação desordeira), ou respeitar
apenas o estatuto dos jovens por serem menores (por ex emplo , fugir de casa). Este
mesmo autor sugere ai nda que os estudos clínicos e a investi ga ção permitem
classificar os jove ns d elinquentes em quatro grandes tipos:
“(…) os d elinquentes socializado s que apr esentam pouca perturbaç ão psico lógica mas
que se envolvem e m actos a nti -sociais, enq uanto membros r eputado s de uma subc ultura
delinquente” q ue per tencem a o tipo mais frequente, e act uando se m pre e m gr upo o u e m
gangs;
“(…) os delinquentes caract erológico s nos quais a conduta anti -social deriva de u m
estilo de perso nalidade cronicamente centrad o e m si p r óprio, explorador e sem
consideração p elo outro”, um tipo p ouco frequente talvez precursor da p sicopatia no
adulto;
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“(…) os delinque ntes neurótic os q ue se por tam mal co mo u ma expressão si ntomática de
necessidades e pr eocupaçõ es s ubjac entes; e o s d elinqu en tes psicó ticos ou neuro
psicológicos, cuj a transgressão da lei resulta de substanciai s deficiências de r aciocínio,
do contro lo dos impulsos e de outras funções integrador as da perso nalidade.” (Weiner,
1995 : 312).
Carvalho (2003: ix ) faz refe rência a um est udo sobre a caracterização do grupo
de rapazes e raparigas q ue estão referenciados nos Centros Educativos de R einserçã o
Social, sobre o que se passa nos trajectos de vida indi vidual e social destes grupos de
risco. Onde nos mostra vidas prematur am ente
“ (… ) marcad as p elo abandon o, morte, separ ação, desa mparo, violência, inter mitência,
descontinuidade, ab uso, ne gligência. Vid as d e crianças p ri meiro vítima s, r epetida mente
vítimas, vítimas d eixadas ao sabor de quem não nasce ig ual e m d ireitos: bairro s so ciais
pobr es, de co ndições de vida humilhante, fa mílias destr oçad as pelo s prob lemas de
álcool e dr oga, p ais incapazes d e ass umir as suas responsab ilidades e, po r isso mesmo,
sem hipótese prática de cuidar d os filh os. Crianças que sucessivamente vão dando
sinais, grito s mudos q ue a s malhas se esq uecem d e ap ertar, e que ced o caem no
insucesso e ab andono escolar preco ce, na vida deitad a à rua, se m regra s e limites, tão
igualmente fa scinante e fáci l como e xtre mamente difícil e ar dilosa, cr ianças a quem à
esquina p rega m rasteira s, lá onde mora a droga, a possibilidade do furto fácil, a
mendicidade, a p rostituição , (…) lá o nde as malhas d a saúde, da ed ucação, da
intervenção so cial se esquecer a m d e ap ertar, lá onde estes destino s tão pr evisivelmente
ruinosos per maneceram inexplicavel mente se m re sposta efic az.”
Vidas marcadas pela desgraça e pela adversidade, a qu em não são reconhecidos
os seus direitos como cidadã os, crianças sem presente e sem futuro.
3. Convivência e co nflito escolar
A palavra conf lito não tem muito crédito. É habitual ser definido como um
processo que se inicia quando uma das parte s reconhece que a outra, através da sua
actividade, interferiu d e um modo desfavorável, em algo que de alguma maneira lhe
interessa, com al guma coisa que a p reocupa, o que quer q ue e sta seja. Assim , o
conflito surge qu ando ocorrem actividades incompatíveis, aquelas que im pedem,
obstruem ou interfe rem c om a acção do outro ou que o injuriam.
As conotações que o termo conflito pode ter estão, provavelmente, associadas a
situações desa gradáveis, incómodas, problemáticas e normalmente relacionadas com
processos de tomada d e decisões. Provavelmente, se nos dessem a opção de escolher
uma vida sem conflitos, ou com conflitos, estaríamos muito tentados a optar pela
primeira. Mas pod e não se r assim para todas as pessoas. Algumas sentem -se atraídas
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pelo conflito, traçam-no como um desafio, como uma forma de se auto -avaliarem,
como uma oportunidade de desenvolver novas capa cidades, par a inovar, para se
desenvolverem.
Quando falamos de conflito existe a propensão para o considerar de uma
maneira negativa, com o justifica D ios (2008: 93): “ (...) porque, ha bitualmente,
confundimos os conflitos en si mesmos, coa m aneira en que tradicionalmente os
resolvemos, é dicir, coa forza, coa imposición, coa do minación, coa viol encia ou co a
guerra , no peor dos casos. ” Os conflitos exist em e sempre existiram com consequência
de diferentes critérios, aspirações, projectos, desejos entre pessoas, grupos e nações. A
resposta não passa por ignorá -los, mas sim em aprender a resolvê-los de um modo
conciliador.
A escola é, especialmente, um dos contextos con siderados conflituosos. Mais
concre t amente os alunos do 2º e 3º ciclos do En sino Bá sico, são considerados pelos
adultos como conflituosos. Quando pensamos nos conflitos que surgem no contexto
educativo, norm almente associamos estes problemas à indisciplina, à agre ssão, ao
' bullying' , à violência, ao vandalismo, à falta d e respeito dos alunos para com os
professores e com os auxil iares da acção edu cativa, p orque, normalment e, são estes os
temas que os órgãos de comunicação nos apresentam . Reconhecemos que o contexto
educativo é, em si mesmo, conflituoso, mas esse con flito é indis pensável par a
colaborar no desenvolvimento e na aprendizagem dos alunos.
Quando abordamos o conflito em g eral e, de um modo específico, o conflito
escolar, s e gundo Iborra ( 2007: 108), deve diferenciar- se , “ (...) dois tipos de conflitos :
interpessoais e int rapessoais. Os primeiros, são os que ocorrem entre os a lunos, entre
os professores e os aluno s, e entre os próp rios pro fessores ou, inclusivamente, entre os
professores e outra s figuras administrativas da escola. ”
Os conflitos intrapessoais são aqueles em que uma só pesso a an alisa, qu ando
necessita tomar decisões para fazer determinada escolha , e em que assume a totalidade
da responsabilidade. Dizemos, em oposiç ão, i nterpessoal, isto é, conflito entre duas ou
mais pessoas, porqu e os centros de interesse, as necessidades ou os desejos são
incompatíveis, podendo o resultado terminar nu ma relação fort alecida ou deteriora d a.
Algumas investigações (Noronha & Noronha, 19 92: 28), em organizações indicam que
existe conflito:
“(…) intergrupa l , quando é ocasionado entre grupo de p essoas,
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92
Intragru pal , quando se instala dentro do pró prio grupo;
Interinstitucio nal e intra-institucional , quando envolve instituições e s e instala,
respectivamente, e ntre ou dentr o das mesmas. ”
Várias vezes, os comportamentos e as int eracções são inconvenientes, emb ora,
por vezes, b em-intencionadas mas despropositadas, originam resul tados insatisfatórios
e incómodos, lesando tanto o aluno como o professor e até o bom ambiente no seio da
instituição. No entanto, actualmente existe um consenso entre vários investigadores
que consideram o confli to natural no contexto das relações humanas . Em todas as
relações, que oc orrem seja no campo familiar, no profissional, no desportivo, no
social, no cultural e no p olítico produzem-se situa ções de tensão. Se essas tensões são
controladas e orientadas, estamos dentro dos crité rios da regularidade, d o normal. O
problema surge quando estas tensões não são f acilmente compatíveis . Estas situações
de acareação de interesses e de difícil concertação leva m a posi ções de conflito e por
vezes de violência verbal. É impensável uma comunidade educativa sem conf litos ,
onde as pessoas estejam sempre de acordo. Na vida, movemo-nos por o bjectivos e,
ocasionalmente, cruzamo-nos com pessoas que possuem objectivos diferentes dos
nossos. Surge m conflitos quando existe incompatibilidade nos objectivos que uns e
outros definem.
Quando pensamos na vida em sociedade , em que realizamos um conjunto de
acções partilhadas, no local de residência, no tr abalho, em casa, na escola ou n um
outro qualquer espaço. Como diz Vallejo e Gestoso (2006: 34) “ (...) no podemos
pensar como seres neutr os. Somos un entramado de puntos de vist a, de s entimientos,
de impresiones, de imágenes y int ereses que construimos a partir de la relación activa
com los otros. ” Todas a s acções, comportamentos ou até acontecimentos provoc am,
geralmente, um a reacçã o, que tanto pode ser de indi ferença como de agrado ou
desagra do. Porém o estímulo que provoca respostas antagónicas, incompatíveis ou
divergentes, faz nasce r o conflito.
Por vezes, o conflito confunde-se com violên cia, ist o é, a viol ência é a
patologia do conflito, m as este deve resolver-se, de forma não violenta. A violência
deve des aprender-se e a convivência aprend er - se . Cerezo (2001: 53-54), referindo-se
aos conflitos na sala de aula apre s enta quatro tipos de conflito:
“ Conflitos entre os valo res cult urais fora da au la e a s expectativas institucion ais dentro
dela.
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Já quanto à delinquência juvenil, concluímos que remete pa ra um quadro
jurídico uniforme, codificado e oficialmente est abelecido num p aís, com prescriç ões e
penas definidas p ara os actos considerados como infracções criminais. Mas os actos de
indisciplina (infracção de regras) e de viol ência ( comportamentos que põem em causa
a sociabilidade) praticados no interior da escola, não são considerados, na maior parte
das vezes, como infrac ção à ordem legal geral, eles limita m-se a atingir uma ordem
normativa inst ituída de natureza escolar ou ético -social destinada a a ssegurar as
condições de apre ndiza gem e a garantir a socialização dos a lunos (Estrela, 2000: 251).
Podemos então rematar esta reflexão, diz endo que quando falamos de
indisciplina, não falamos sempre de um mesmo fenómeno, mas de fenómenos distintos
por detrás de uma mesm a designação. Tendo em atenção esta dist inção, Amado (2000 )
refere três níveis de ind isciplina: O 1º nível que designa de “ desvio às regras de
produção” , que inclui os incidentes de carácter “disruptivo” em virtude d a
“perturbaçã o ” do fun cionamento da aula; 2º nível, dos “conflitos inter - pares”,
manifestando-se através de comportamentos agressivos e violência (extorsão,
violência física ou verbal, intim idação, abuso s exual, roubo e vandalismo), atingindo
por vezes, contornos e gravidades de actos de d elinquência; 3º nív el, dos “ conflitos da
relação professor- aluno” que, de algum modo, põem em ca us a a autoridade e o
estatuto do professor (i nsultos, obscenidades, desobediência, contestação afrontosa,
chamada de a t enção e castigos). Eles abrangem manifestaçõe s de agressividade e
violência contra docentes e fun cionários; o va ndalismo contra a propriedade.
Passando, de ac o rdo com a gravidade, para o foro institucional ou jud icial.
Vimos também como os contextos familiares são , por vezes, potenciadores de
violência; Por isso, defendemos que é im portante que os profissionais da educação
saibam que na família coexistem dimensões paradoxais, onde coa bitam as
componentes afectivas e a dimensão conflitual.
101
CAPÍTU LO III - A CONVIVÊN CIA EM CONTEX TO EDUCATIV O
CAPI TULO II I – C ONVI VÊNCIA EM CONTEXT O EDUCATI VO
103
Este capítulo tem como principal objectivo reflectir sobre a temática da
convivência em contexto educativo, uma vez que esta surge como priorida de básica na
educação par a o século XX I. Dado que, no s últimos anos, assistirmos dia riamente a
situações de conflito n as escolas, temos a n ecessidade d e rever as práticas de actuação
e de reconstruir o discur so à volta delas, para melhor compreendermos o fenómeno e
conseguirmos elaborar respostas verda deiramente úteis. Neste sentido, procuramos
unir esforços para dar respostas conscientes, tendo como ponto de partida a educação
para a convivên cia, baseada na aprendizagem dos valores cívicos e democráticos. Este
é, sem dúvida, um dos de safios que a escola do século XXI enfrenta e qu e não pode
abandonar.
Falar de convivência é falar de um a construção po sitiva. É pensar a escola e a s
relações que aí se estabelecem, como um espaço verdadeiramente e ducativo, um lugar
agradá v el e se guro, onde todos se sintam bem. É partir da ideia da escola como
organização dinâmica, portadora de sentido e não apenas de um espaço físico,
despersonalizado e tutela do à dist ância pela Administração Central. Podemos falar de
um espaço humano onde o professor rev ele capacidade d e r eflectir so bre as sua s
práticas e as questione criticamente, com a pre ocupação de realiz ar m udanças, de
forma a ultr apassar uma concepção tradicional de escol a, local onde, para muitos,
apenas acontece a tr ansmissão de conhecimentos afastados de va lo res.
Ao longo da história, observamos que as relações entre os ser es humanos não
se limitam a um m omento esporádico e tr ansitório. E las são constituídas por laços
fortes e sólidos ancorados na sociedade e que se tornam evidentes na c omunidade
envolvente. Assim, entendemos que a convivên cia social é essencial para o respeito
pela pessoa humana, con tribuindo deste modo para que cada um se sinta em segurança
e se considere uma pe sso a digna e respeitada .
Pa ra Ortega (1997), a co nvivência é entendida co mo uma rede de relações que
existe entre todos os membros da comunidade educativa, na qual os processos d e
comunicação são configurados por sentimentos, valores, atitudes, papéi s, status e
poder. J á no ent ender de Bardisa (2006), falar de violência seria a ceitá-l a como se esta
fizesse parte do nosso dia-a-dia, porque seria a tribuir uma c ategoria estável, para
definir um estado em que se encontram as escolas, quando a evidência mostra que a
violência está presente só em episódios esporádicos. Aceitar que a vio lência é um
produto da modernidade é aceitar como inevitável o seu apare cimento. Aceitar esta
CAPI TULO II I – C ONVI VÊNCIA EM CONTEXT O EDUCATI VO
104
posição de fatalismo tem consequênc ias imediatas, paralisa a acção pa ra a construçã o
positiva das rel ações pedagógicas e afectivas quotidianas e ilude a responsabilidade
individual e colectiva pa ra mudar as condições em que sur ge o con flito e a violência
escolar.
Não se trata de i gnorar que as instituições educati vas exercem um a “violência
simbólica” (Bourdieu & Passeron, 1975) sobre os actores, principalmente sobre os
alunos, senão de evitar desvios dos comportamentos escolares dos dife rentes
colectivos e intervir quando se produzem. Estamos, pois a falar em prevenir e não em
remediar, caminho que, quanto a nós, é o r ecomendável. A violência escolar tem sido
abordada através de diferentes pontos de vista e ca mpos, como : o sociológico, o
psicológico, o educacional e o criminal. Este último está a ser superado pelos outros,
porque a violência, cad a vez mais, está a ser v ista pelos políticos e pela opinião
pública como uma consequência da d elinquência e da violência juvenil , q ue aumenta
no seio dos centros urbanos, desorganizados e socialmente desfavorecidos, e que é
urgente erra dic ar.
No entender de Bardisa (2006: 41) “ la violencia envuelve muchos asp ectos
diferentes y tiene que v er con aspectos éticos, políticos, económicos y sociales ” . A
autora refere, aind a, que não se fala de violência do mesmo modo nos diferentes
países, nem as respostas que os governos dão a este fen ómeno são idênticas. Para el a
existem critér ios , que se podem traba lhar a nível da org anização, que nos permitem
analisar uma ocorrência que orig inou a quebra de convivência:
“ Especificar el luga r en el que se p roducen los a ctos con tra la convive ncia .
Iden tificar a los actores ; v íctimas y agresor es. Tendremos que señalar q ue los
jóvenes so n las primeras vícti mas a causa d e lo s fenómenos sociales como
violaciones, d esempleo de sus fa milias, violencia simbólica, etc. ”
Discriminar la no rma transgredid a . No es lo mismo u n ase sinato e n el interior d el
centro que co meter faltas de i ndisciplina que co nculcan la l e y, pero ro mpen nor m a s
de civ ismo i mplícitas, no es critas, como por ejem plo, los insulto s, atropellar a
empellones en pasillos o al entrar en clase. En res umen, conductas de m ala
educación.
Diferenciar la forma de viol encia , q ue no siempre es un acto q ue dej a hu e lla
“física” puede ser verbal, una frase hiriente, pero también puede ser mediante la
comunicación no verb al co mo es “ ignorar ” a un co mpañero o compañera.
Comprender la in tención o modo en que la conducta es realizada y p ercibida . Por
ejemplo, una bro ma pod ría ser una conducta violenta si fue ra dicha seria mente. La
línea que separa u na bro ma del insulto o la hu millación es frágil.
CAPI TULO II I – C ONVI VÊNCIA EM CONTEXT O EDUCATI VO
105
El tiempo , no es igual u n comportamien to viole nto único que reiter ado ” ( Bardisa,
2006: 41 -41).
Na violência, qu ando se manifesta através d e condutas de má educação ou
outras, seja por palavras, actos ou por omissão, está -se a tr atar o ser hum ano como se
de um objecto se tratass e. Isto é, impli ca a falta de re sp eito e d e venerabilidade da
pessoa, e a n egação da dignidade humana para com o outro.
Na perspectiva de Monjas (2007: 19), “(…) la convivencia no es solo la mera
coexistência de una persona a l lado de otr a u otra s, sino el processo activo y el
resultado de la interacción entre ellas; Neste sentido, “l a convivência supone relac ión,
trato, roce, tiempos, actividades y espacios en los que se coincide y u na serie de
valores y normas, ex plícitas o implí citas, que regulan esos contactos con las y los
demás. ”
Esta autor a r efere, ainda que quando se fala em convivênc ia escolar: “ (...) se
hace alusión a las relaciones int erpersona l es que se producen en el contex to escolar
entre los distintos miembros de la comunidad educ ativa y t ambién al c lima
interpersona l que resulta de ese complejo entram ado de interacciones qu e supone la
acción de convivir ” (Monjas, 2007: 19).
Sublinhamos: a convivência e s colar p ressupõe todo um conjunto de relações
que se produzem em contexto escolar e que prevê a int erac ção de toda a c omunidade
educativa. Actualmente, a convivência ne cessita uma especial atenção, por parte tanto
dos profissionais da educação, como das f amílias, dos meios de comunicação e da
sociedade em geral. Sem dúvida que, na li nha de pensamento de García R aga e L ópez
Martín (2010: 18 ), “ apre nder a viver juntos ” , “ a compreensão do outro ” , a tolerância
do difere nte é um dos desafios da educ ação futura . Defendemos a sua p resença em
todos os níveis de ensino, o que levará, sem dúvi da, a uma r eforma das m entalidades.
Só assim a convivência será ent endida como um aspecto pr ático da ‘ compreensão ’ ou
‘ vivência do outro ’ .
Desta forma, importa ampl iar os objectivos educ ativos de carácter intelectual
para dar lu gar a outras dimensões da pessoa humana . Só assim o indiví duo poderá
encontrar o seu bem-esta r pessoal e soci al. O estudo da convivência escolar constitui
um tema de investigação muito recente. Sobre ele têm surgido perspectivas diversas e
uma multiplicidade de publicaç ões, que most ram uma sensibi lidade social pera nt e
estas questões. D evido a o facto d e al guns casos de violência n as escol as tere m tido
CAPI TULO II I – C ONVI VÊNCIA EM CONTEXT O EDUCATI VO
106
algum prota gonismo mediático, or ganismos e instituições, tanto pú blicas como
privadas, têm-se empenhado na prevenção, procurando desenvolver estrat égias, n o
sentido de implementar um plano de convivênc i a nas escolas.
É, pois, indi scutível que a temática da convivência se tenha convertido num
tema de fundamental pri oridade para as sociedades do séc ulo XX I, e para as escolas
em particula r, uma vez que estas constituem um marco essencial na construção dos
indivíduos. De fa cto, a escola não pode ficar alheia a toda esta pr oblemática.
Rodríguez J ares (2006 ) reforça a ideia de que a educação para a conviv ência é uma
questão prioritária a ser desenvolvida nas escolas, uma vez que assistimos a uma série
de rupturas sociais, a uma pe rda de valores básicos e também a um aumento d a
presença da violê n cia nas suas múltiplas formas, em toda a comunidade educativa.
Nesta mesma linha de pensamento, Monjas (2007: 20) afirma que “ l a
convivencia y el buen clima interpersonal son condiciones necesarias para que s e
produzca el aprendizaje ” . O que significa que a acção educativa só é possível num
clima tranquilo, disciplinado e ord enado. Um bom clima na sala de aula é condiç ão
fundamental para um bo m ensino e, consequentemente, uma boa aprendizagem. Os
alunos estão mais motivados em todo o proce ss o ensino -aprendizagem quando estão
num g rupo onde são aceites, va lorizados, quando têm amigos, quando e ncontram
apoio e afecto. Daqui se compree nde que a convivência na escola melhora o
rendimento escolar e o comportamento dos a lunos.
1. A convivência e o s normativos le gais
Na pesquisa que r ealizamos sobre os problem as da convivência, tivemos
dificuldade em encontrar o termo ‘convivência’, quer em documentos ofici ais, quer em
estudos rea liz ados. No entanto, e a nível oficial, o primeiro documento, em termos
cronológ i cos, que encontramos, é o D ecreto nº 22574, sobre as penalidades a aplic ar
aos alunos dos liceus, datado de 25 de Maio de 19 33. Tr ata-se de um decreto que
pretende determinar sanções disciplinares, aos alunos, estabelec endo um código de
multas pecuniárias com que podem ser san cionados pelo incumprimento das condutas
e regras de convivência e disciplina escolar. Assim, um aluno que tenha recebido uma
ordem de expulsão da sala de aula, em v ez de d ar cumprimento a ess a san ção, é neste
período, obrigado a p agar uma multa que oscilava entre 10 cêntimos e 40 cêntimos.
CAPI TULO II I – C ONVI VÊNCIA EM CONTEXT O EDUCATI VO
107
No período que vai de 1926 a 1974, a convivência social e escolar é marcada
pelas instituições de inspiração corporativa, militarista e cristã, com especial destaqu e
para a Mo cidade Portuguesa
3
.
Com o golpe militar de 25 de Abril de 1974, inici a-se um período muito
conturbado nas relações dominantes nas instituições escolares. Neste contex to surge a
Portaria nº 679/77 qu e procura definir um r egime s ancionatório, m a rcada m ente
punitivo e disciplinar. U ns anos mais tarde, é pu blicado o Decreto – Lei nº 270/98, de
1 de S etembro. O objectivo passa por procurar introduz ir nesta matéria novas
disposições; nele pod e- se ler: “ (… ) criar condições de convivência cívica, … devendo
a regulação da convivê ncia e da disciplina s er devidamente enqu adrada.” Neste
documento a adjectivaçã o do termo convivência –‘ cívica ’– , e a referência à formação
para a cidadania confi rmam a relação entre o conceito de convivênc ia e o de civismo:
“(…) à inte gração de tod os os membros da comunidade educativa e à uti lização social
dos saberes e do conhecimento, devendo a regulação d a convivência e d a disciplina
(…)”
Com a publicação do Estatuto do Aluno, o Decreto- Lei nº 270 -98 de 1 de
Setembro, introduz- se , nesta matéria, nov as disposições que só são alteradas com a
entrada em vi gor do Estatuto do Aluno do Ensino Não Superior, nos t ermos da Le i Nº
30/2002, de 20 de Novembro. Por seu lado, o do cumento, designado por “ Contributos
para a elabo ração do 1º Reg ulamento Interno da Escola ” , de Outubro do mesmo ano
refere- s e a “princípios orientadores da convivência de toda a comunidade .”
Na (L.B.S.E.) Le i de Base s do Sistema Educativo (n.º 46/86, de 1 4 de
Outubro), com alterações introduzidas pelo Decreto- Lei n.º 115 A/9 8, de 19 de
Setembro, entre os princí pios gerais, o destaqu e v ai para o princípio da tol erância e d a
convivência. Pode-se le r no ponto 3, do arti go 2º: “(…) no ac esso à educação e n a sua
prática é garantido a todos os portugueses o respeito pelo princípio da liberdade d e
aprender e de ensinar, com tolerânc ia para com as escolhas possíveis”. No ponto 5 do
mesmo artigo, esta opção é ainda m ais evidente: “(…) a educação promove o
3
Criada em 19 de Maio de 1936, a Mocidade Portuguesa, era uma org anização of icial juvenil, dirigida por um Comissár io
Nacional, n omea do pelo Ministério d a Educação Nacio nal. Os seus obje cti vos, enq uadrados n o espírito do regime d o Estado
Novo , eram o de « enraizar uma nova mentalidade» que def endesse a trilogia « Deus , Pátria e Família» . Par a isso d evia a
organização «e stimular o desenvo lvimento integral da c apaci dade física da juventude, a formação do carácter e a devoção à Pát ria
no sentimento da ordem, no gosto da di sci plina e no culto do dever cumprido» . Encontrava -se esta instituição juve nil dividida por
quatro escalõ es etários, a saber: os lusitos (dos 7 aos 10 anos), os infantes (dos 10 aos 14), os vangu ardistas (dos 14 aos 1 7) e os
cadetes (dos 1 7 a os 25). Todo s os sáb ados os filia dos rece biam instru ção q ue c omp reendia o içar da bandei ra e saudação à
romana, mar chas militares, e xercícios físicos, palestra patriótica e cantar o hi no da Mocidade. ( mocidade-por tuguesa.htm l)
CAPI TULO II I – C ONVI VÊNCIA EM CONTEXT O EDUCATI VO
108
desenvolvimento do espírito democrático e plur alista, respeitador dos outro s e das suas
ideias, aberto ao diálogo e à livre troca d e opiniões, formando cidad ãos capazes de
julgarem com espírito crítico e criativo o meio social em que se inte gram e de se
empenharem na sua transformação progressiva”. Mas é sobretudo no compromisso
reitera do de asse gurar a formação cívic a e moral dos jovens , que a L ei de Bases
assume a sua dimensão fundamental de c onviv ência e sociabilidade.
A complementar, as sinalamos que no documento refe rido à “Organização do
Procedimento Disciplinar dos A lunos”, se en contra a seguinte afir mação “(…)
prejudicou a c onviv ência entre os colegas da turma .”
Por sua vez, no documento que estabelece o “Perfil Geral de co mpetência para
a docência” – Decreto-lei n.º 240/2001 de 30 d e Agosto, d estacamos do p onto II-2 f)
“Manifesta capacidade relacional e de comunicação” e no ponto III - 2, i) “Inc entiva a
construção participada de regras de convivência democrática”. Identificamos, ainda, a
utilização do termo convivência na obra “ Indisciplina e violência na escola –
compreender para prevenir ” (Amado & Freire, 20 02: 7 ) “ (...) quer a conviv ência social
decorrente da definição de um quadro de ex pectativas que tornem os comportamentos
previsíveis. ”
Pelo acima referido, concluímos que, neste momento, há consciência do
problema e empenho na procura de soluçõ es. Efectivamente, existe no meio escolar
um clima de indisciplina e de violência para o qual, quer ao nível macro de polí tica
ed ucativa, quer ao nível da investigação no mesm o âmbito, se procuram respostas e/ou
uma actuação de prevenç ão. No entanto, as investigações que nos sur giram são, na sua
essência, tratam p roblemas de indisciplina e violência. Entre outros referimo-nos às
desenvolvidas pelos auto res: Amado e Freire (2002); Estrela. (1986); Estrela e Ferreira
(2002); J esus (1996, 1999); Magalhães (1992 ); Neves (1999); Pereira (2002); Pereira
et al (1996); Va l e e Costa (1994) e Veiga (1995, 1999, 2001).
2. Apoios necessários à c ons trução da co nvivência
A organização da convivência no sis tema esc olar responsabiliza todos os
actores na pa rticipação da estruturação dos instrumentos operacionalizadores, isto é,
na construção do Project o Educativo de Escola, do P rojecto Curricular de Esc ola, do
Projecto Curricular de Turma e de Projectos de C onvivência. I mplica, d esta forma,
CAPI TULO II I – C ONVI VÊNCIA EM CONTEXT O EDUCATI VO
109
todos os actore s no acto educativo, na negociação das normas de conviv ência, que se
pretende impleme nta r no agrupamento de escola.
A UNESCO
4
, através do Relatório Delors (1996), dá um grande contrib uto
para a orientação d as p olíticas multi -transversa i s da educação par a o s éculo XXI,
procura ndo um sentido é tico para a educação e pa ra a convivên cia, ao conferir -lhe um
papel fundamental na construção dos v alores civilizac ionais: democracia, paz,
liberdade e justiça social. Nele são definidos quatro grandes pilares para a s políticas e
para a acção educativa, para a ac ção pedag ó gica e didáctica, mas também para a
formação: ‘aprend er a conhecer’, ‘aprender a fa zer’, ‘aprender a ser’ e ‘aprender a
viver juntos’ . Apre nder a viver com os outros constitui não só uma finalidade, como
um dos maiores desafios educa tivos. De s afios, que são essenciais, para atingir as
metas que se pretende m no mundo da educação.
Entre estes quatro pila res, ex iste uma int er-relaçã o que contribui para um
efec tivo carácter inte gral da educação, s em que nenhum deles possa de sconhecer o
outro. Nenhum deles pode ser encarado como de maior ou menor importância do que o
outro, numa persp ectiva integral do desenvolvimento do indivíduo, o que subentende
uma e ducação holística. Nenhum destes pilare s pode ser ignorado sob pe na de o
‘edifício’ perder solidez ou desabar. No e ntant o, sabe mos que a preocupação em
desenvolver competências inerentes a estas aprendiz ag ens é, po r vezes, esquecida. É o
que acontece, por exemplo, com o ‘aprender a viver juntos’, levando a que a
‘estrutura’ do mundo da educação perca est abilidade. O ‘aprend er a v iver com os
outros’ entende -se como a inclusão e compre ensão do outro e a percepção das
corre l ações da apr endizage m , da gestão d e conflitos, do r espeito pelo plur alismo, pela
diversidade e ainda pela construção da convivência.
A aprendizagem do ser humano constrói-se através do desenvolvimento da
autonomia e da responsabiliz ação pessoal, sendo, por isso, importante valoriz ar as
potencialidades de cada pessoa, nome adamente a nível da memória, do raciocínio, do
sentido estético, das capacidade s físicas, d as habilidades sociais e da ca p acidade de
dialogar e comunicar co m os outros. Os desafios para a educação são, po is enormes.
Pretende-se respeitar a interculturalidade e o seu papel potenciador da convivênc ia,
como uma das orientações básicas para a con dução das polí ticas educativas, se
queremos partilhar uma vida pacífica e sustentada pelas dive rsas etni as, culturas
4
A Organização das Naçõe s Unidas para a Educa ção, a Ciência e a Cultura
CAPI TULO II I – C ONVI VÊNCIA EM CONTEXT O EDUCATI VO
110
sociais e linguísticas, a que nos obriga a escola mul ticultural dos dias de hoje. São
muitas as razões qu e fazem com que a aprendizagem se considere não só relevante em
si, mas indispensável para configurar um a sociedade mais jus ta, pa cífica, solidária,
democrática e humana (Garc ía R aga & López Martín, 2010).
A nece ssidade e a urgência de educar, par a e na convivên cia, ex ige a
construção de proj ectos educativos de convivência, constituição d e comissões de
convivência e moviment os sociais, com diversos centros de interesse, m as com um
objectivo comum: a construçã o d esta nos agrupamentos educa tivos. A educação deve
proporcionar aos alunos uma formação integral, não apenas de conh ecimento, mas
também de atitude, r espeito, solidariedad e, de identidade e di álogo. Para tal,
consideramos ser ne cessário ala rgar os objectivos educativos d e c arácter intelectual
para, deste modo, garantir ao aluno um autêntico bem -estar pessoal e social através do
seu envolvimento na construção da c onvivência : “La educación, como una de las
herra mient as más eficaces con las que cuentan los poderes públicos para cumplir sus
compromisos constitucionales, debe constituirse a modo de un conjunto de procesos
formativos encaminado a atender no sólo las capacidade s de cada uno, sino – sobre
todo – sus necesidades ” (García Raga & López Martín, 2010: 18) .
Entendemos, deste modo, que a educação n ecessita ser mais abran gente. A não
preocupaçã o ape nas com aspec tos formais e burocráticos é funda ment al pa ra que
exista um equilíbrio entre o individuo e o contexto social em que se insere, tornando -
se a relação cada vez mais concreta, objectiva e próx ima, capaz de r esponder às
necessidades de cada aluno em particular, fazendo com que as desigualdades se
possam ir atenuando e suprimindo. Deste modo, promove-se a e xist ência de uma
maior justiça, tendo em vista “(…) o equilibrio entre lo individual y lo so cial, lo propio
y lo ajeno, lo global y lo local, dond e la educación deberá adquirir su verdadero
sentido de equidad y luc ha contra las d esigualdades ” ( García Raga & L ópez Martín,
2010: 18). Estes autores remetem, também, para o conceito de convivênc ia
aprese nt ado por T edesco (1995: 129) . Este aborda o refere nt e educativo da
convivência, indicando que é necessár io
“(…) promover el ví nculo entre los d iferentes, promover la d iscusión, el diálogo y el
intercambio. Son e l límite a toda tentativa de i mposició n de un solo modelo d e
personalidad . E n este sentido, y frente a la gran d iversidad d e o pciones que un sujeto
encontrará en el d esarr ollo d e sus víncu los sociales, la f unción d e la escuela en relació n
con la formación de la personalidad, co nsiste en fijar los marcos de referencia que
CAPI TULO II I – C ONVI VÊNCIA EM CONTEXT O EDUCATI VO
117
ausência da violência e do respeito pelo p rofessor, bem como o c uidado com o s
materiais é o que eles entendem por convivência. Assim, compr eendemos que para
iniciar um processo de compreensão da for ma como as escolas constroem a
convivência, é ne cessário e fundament al que se conheça o contexto em que se
desenvolve a escolaridad e obrigatória. Num siste ma educativo de tr adição centralista,
em que a modalidade ha bitual de mudança é através da ‘reforma’ do sistema e , antes
de ess a ‘reforma’ modificar a forma de func ionar das instituições e scolares, já
aparece u uma nova ‘reforma’ que anula todo o trabalho iniciado na primeira. Deitamo -
nos com uma lei e acordamos no dia seguinte com outra que nos solicita exactamente
o contrário. Estas s ão algumas das razões que lev am os pro fissionais da e ducação, em
Portugal, a viver num cepticismo permanente e desconfiados de tudo que seja realizar
mudança e inov ação.
Questionar-nos-emos:
Quais os obstác ulos que se er guem, hoj e em dia, à constr ução d a convivência?
Quais as possí veis ca usas da indiscipli na?
O que pensam sob re o assunto alunos e pr ofessores?
O que pretendemos é identificar al guns dos problemas e mudanças, que
atravessam as escol as básicas de segundo e ter ceiro ciclo, e m Portu gal. Um país que
vivencia trinta e sete anos de democracia e que enfre nta o desafio d e construir uma
escola que supere os se us atrasos e d esequilíbrios, possivelmente mais preocupantes
por ser um modelo ce nt ralizado e uniforme.
Com a L BSE (1986) , promove-se uma escola atenta à diversidade individ ua l e
aos processos de int egração, educando para uma cidadania a ctiva que faç a dos alunos
pessoas capazes de co nviver uns com os outros, int eriorizando um progressivo
universo de representações culturais, sociais, científicas, psicológicas e po líticas. Nela
se define os objectivos do ensino básico ( artº 7º)
“ a) Assegurar uma for mação geral co mum a to dos os po rtugueses que lhe gara nta a
descober ta e o d esenvolvimento dos seus i nteresses e aptidõ es, capacidad e de
raciocínio, memória e espír ito crítico , criativ idad e, se ntido moral e sensibilidade
estética, pr omovendo a rea lização individual em har monia co m o s valores d a
solidariedad e social (…)”
Os processos mi gratórios e a inserção n a es cola de alunos estrangeiros coloca m
mais uma preocupação nas escolas. Alunos de difere ntes países e difer entes etnias e
CAPI TULO II I – C ONVI VÊNCIA EM CONTEXT O EDUCATI VO
118
culturas cri am nas escolas uma necessidade urgente de int ervençã o , no senti do de estas
se adequarem a esta nova realidade. Sem dúvida, a evolução das mudanças sociais e
históricas, ao longo dos tempos, têm influ enciado a concepção de educação e
regulamentação da convivência. P orém, quando falamos de convivência, estamos a
referir-nos à construção positiva da escola como um lugar s eguro, o nd e dê prazer estar
e trabalhar; um espaço que nos permita levar os alunos a desenvolver valore s de
convivência; em que se respeite e aceite a div ersidade; exista o respeito mút uo, a
cooperaçã o e a toler ância; onde se respi re u m clima de convivência e existam
condições para realizar um trabalho doce nte efica z.
Como afirma Fernánde z García (1998: 14): “El clima escolar generado por las
relaciones int erpersonales es el eslabón necesario para una tarea educat iva eficaz”.
Entendemos, deste modo, que a aprendizagem da convivência educativa é um
objectivo tão importante que mer ece ser ap rendido na escola, atribuindo -lhe o mesmo
grau de im portância q ue aos conteúdos programáticos. O desenvolvimento da
convivência, assim como a integração social de todos os alunos, no dizer de Cava e
Musitu (2002: 17):
“(…) no es sólo una alter nativa a las situac iones más graves de violencia q ue se puede n
prod ucir (…) sino que, sobre tod o, es una for ma e ficaz de co ntrarrestar las situacio nes
de violencia indirecta (a través del rechazo y la e xclusió n social) que muchos
adolescentes e xperimentan en el contex to escolar. ”
No nosso entender, os actores d a escola, princip almente os do centes , têm de
desempenhar um pape l ac tivo pera nte os actos de violência, de modo a tornare m -se
agentes de socialização e integração social dos jovens. No dizer dos autores
referenc i ados, a cooperação e a empatia são, pr ovavelmente, os dois el ementos que
mais podem ajuda r na melhoria da integração social dos alunos com dificuldades
sociais e emocionais. Assim sendo, consideramos fun damental q ue a escola
proporcione aos docentes um conjunto de actividades, integradas dentro de um modelo
teórico coerente, que contribuam para favorecer a convivência com os alunos, na sala
de aula.
Apostamos nas medidas de prevençã o p ara dim inuir, de acordo com as
situações, a in cidência de condutas viol entas e actos de vandalismo dentr o da es cola,
assim como recomendamos, em contexto sala de aula, utilizar estratég ias qu e
permitam reduz ir a indi sciplina. Necessitamos fa vorecer a integração social de todos
os alunos na comunidade es colar. A escola não p ode ser nunca um lugar de exclusão.
CAPI TULO II I – C ONVI VÊNCIA EM CONTEXT O EDUCATI VO
119
Para que isso não aconteça, importa potenc iar os recursos pessoais e sociais dos
jovens, no sentido de melhorar a sua auto-estima, as suas habilidades comunicacionais,
a sua empatia, a sua disponibi lidade de apoio social, as suas capacidades cognitivas e a
sua capacidade para enfrentar os conflitos que lhe surgem. Em suma, há que fazer com
que eles se sintam bem neste espaço que é o deles e o nosso. A convivência tem que
ser uma construção cole ctiva, participada por todos, em interacção uns com os outros,
dentro da comunida d e educativa.
Consideramos fundamental a formaç ão sobre a re solução de c onflitos para
docentes, não docentes, alunos e pais, tal como a constituição de equipas de mediação
de conflitos, nelas integrando al unos. Também García Ra ga e Lópe z Martín (2010: 22)
entendem que convivência é “(…) una construcción colectiva y dinámica constituida
por el conjunto de interrelaciones humanas que establecen los actores de la comunidad
educativa en el interior del establec imiento, entre sí y con el propio medio, en el marco
de unos derechos y deberes, y cu y a influencia traspasa los límites del espacio escolar.”
Deste modo , d efendemos a idei a de que a convivência é um pro cesso dinâ mico
que procura envolver todos os actores q ue actuam na escola. Estamos, toda via, cientes
de que este processo transpõe as fronteiras físicas da instituição e projecta -se na
sociedade, pois a escola é um microcosmo da sociedade .
2.3. A solidariedade e afectividade
Outros elementos que faz em parte da convivência é a solidariedade . Esta pode
considerar- se como “(…) uma qualidade de hum anização (…) um aspecto que deve
estar pr esente na vida das pessoas para serem plenamente humanas e felizes.” Ou seja,
se não partilharmos com os outros os nossos momentos de tristez a e de felicidade, n ão
nos sentimos pessoas realiz adas e, logicamente, a nossa apre ndiza gem da convivência
passa pelo convívio com os outros e com o outro. Para o autor, “(…) a soci alização e a
aprendizagem d a convivência, par a serem plen as, requ erem soli dariedade, porque não
há forma de conviver sem partilhar, sem o cuidado, sem a entreg a ao outro ”
(Rodriguez Jares, 2007: 36).
Esta é uma atitude que se apr ende desde os primeiros anos de vida. Desde a
infância, à criança se devem proporcionar sit uações que lh e pe rmitam apre nder a
partilhar os brinquedos, as fantasias e os s entimentos. Da mesm a forma, importa qu e
seja ince ntivada a ser solidária com a família, o s amig os e companheiros que, num
CAPI TULO II I – C ONVI VÊNCIA EM CONTEXT O EDUCATI VO
120
determinado momento da vida, pass am momentos controve rsos e, muito
especialmente , com aqu eles que sof rem com a s injusti ças de outros. As escolas,
enquanto centros estratégicos da políti ca edu cativa, são orga nizações onde estudam ,
trabalham e convivem pe ssoas, com as suas re gras, os seus hábitos, as suas opiniões e
as suas competências. É fundamenta l melhorar as práticas educativas nas nossas
escolas, criar c ondições de convivência cívica e solidariedade, o que implica um
desenvolvimento de processos participa dos e solid ários.
A instabilidade, a insegurança e a in certeza em q ue vive o homem obrigam-no
a ser soli dário, até p ara a sua própria sobreviv ência. M as a solidariedade não é apenas
uma qualidade; é, antes, um valor educativo, que contribui para a felicidade do ser
humano e uma mais-valia para a construção da convivência. De acordo c om o autor
que vimos convocando, a solidariedade começa com a compaix ão, mas para além d e
esta, também traz consigo outras duas características: “(…) a relação com a justiça e a
necessidade de tra ns formar as situações injustas ” (Rod riguez Jares, 2007: 37).
Togne tta e Assis (2006: 64) consideram ainda, a afectividade um outro aspecto
imprescindível na construção da convivência. Afirmando que, talvez, esta seja a
“chave par a entender o porquê de a educação se queix ar tanto da indiscip lina por part e
dos alunos”. Os autores referem que trabalhar:
“(…) co m a afeti vidade na esco la não signi fica acari nha r e relevar comporta mentos
inadequados. O ca rinho ou a atenção que d am os às crianças encontra m -se na
possibilidad e de que elas construam sua estima própria e seu autoco ntrole , regulando
suas açõ es e per m it indo q ue, pelo exercício desse falar de si, po ssam to rnar - se
futuramente adultos eq uilibrad o s e sensíveis às nece ssidades do outro.”
Assim, neste sentido , e em relaçã o à justiça, a solidariedade reivindic a uma
transformação das situaç ões de injusti ça, ond e se distingue a caridade. Pa ra Rodriguez
Jares (2007), não se trata apenas de apoiar os necessitados, mas t ambém de assumir
um compromisso de mudança social, política, económica e cultural . Para que exista
solidariedade, em contexto educativo, é ne cessário que ela se pratique n as diferentes
instâncias em que crianças e jovens se sit uam: familiares, es colares, associações
culturais e recreativas, na comunidade local, regional e nacional. É fundamental que
este princípio p ermaneça actual nos diferentes espaços d e construção da convivência.
Para que a cultura da solidariedade seja praticável, ne cessita de uma presença
constante no contexto social e cultural em que vivemos. A ssi m sendo, os direi tos
humanos “(…) favo recem a convivência democ rática no sentido em que apostam num
tipo de sociedade assente em valor es democráticos e na justiça soci al, dimensões que
CAPI TULO II I – C ONVI VÊNCIA EM CONTEXT O EDUCATI VO
121
chocam frontalmente com os int eresses dos que defendem o be neficio particular e o
domíni o.” (Rodriguez Jares, 2007: 27). M ais diremos nós: os direitos humanos
acompanha m os modelos de r elações sociais e económicas, assentes n a justiça, na
igualdade e na dig nid ade da pessoa humana.
É consensual a ideia de que estamos numa crise de valores, cujas manifestações
mais visí veis são a s condutas de matriz individualista, a não solidarieda d e, a
intolerância e a agressividade. Estamos perante u ma crise na relação da educação com
os valores do ser humano, uma vez que é indi scutível a pr esença de valores nos
discursos e n as práticas educativas numa sociedade ond e não existe um consenso
global de valores. Assi m, é fundamental prom over uma le gítima educação para os
valores, no sentido de pre parar as pessoas para conviverem com contradições
quotidianas, discernindo entre o bem e o mal, o justo e o injusto em defesa do bem
comum. Contribuindo desta forma para que os alunos das diferentes escolas não
procure m resolver as situações problemáticas através de actos de in disciplina e
violência, bem p elo contrário , pr etende-se qu e cultivem princípios que garantam o
bem comum: a honestidade, a solidariedade e a humildade.
Estes valores implicam uma construção da pess oa: “ (… ) a solidari edade, a
tolerância, a just iça e o re speito, que tanto desejamos, dependem de uma construção
progressiva do próprio sujeito que age .” Construção que deve ser acompanhada pela
escola e por todas as instituições, que têm o objectivo de educar c ri anças e jovens.
Devemos ter em conta que o s valores são ensinados não apenas pelos livros,
mas at ravés de modelos. Necessitamos uma peda gogia qu e valorize não só a dimensão
cog nitiva, mas que procure sensibiliz ar para um saber ser e estar. De modo a encontrar
caminhos que permitam desenvolver os domínios afe ctivos dos valores. Assim, para
Togne tta e A ssis, (2006: 63) “(…) a soli dariedade pede empatia com o estado afectivo
do outro, mas essa só é c onquistada em equilíbrio em si”. Daí que é fund amental estar
bem consigo, para conseguir estar bem com os outros.
2.4. A participação da família e da escola
Recordamos as antigas escolas, cuja expansão é f ruto da revolução indus trial,
mantendo, em parte , as analogias com as a ctuais . No entanto, existem difere nças n a
relação que s e est abelece entre a escola e a família. Queremos com isto diz er que as
relações entr e a família e a escola sofreram v árias transformações ao longo dos
CAPI TULO II I – C ONVI VÊNCIA EM CONTEXT O EDUCATI VO
122
tempos. As primeiras escolas demonstravam uma relação restrit a com a co munidade e
a i greja, pais e escola e tinham um objectivo comum: a integração dos i ndivíduos na
sua comunidade. No séc ulo XX, a escola exige uma maior especialização e aumenta
na complexidade, pelo que começa a senti r-se que pais e doce ntes têm
responsabilidades di ferentes perante a escola; enquanto os docentes s e centram no
ensino de conteúdos programáticos, os pais necessi t am transmiti r atitudes e condutas
adaptada s p ara o seu contexto (Musitu & Cava, 2001).
Entre outros, os trabalhos de Musitu e Cava (2001) têm confirmado que a
participação e implicação dos pais na escola originam efeitos positivos na criança.
Verifica-se qu e quando os pais animam e apoiam os seus filhos em matérias
instrucionais, e stes têm maiore s vantagens na escola (Epstein, 1984). Também se
observa que exist em cara cterísticas do ambiente fa miliar , associadas ao insucesso
escolar (Samuel, 1986). Pode constatar-se a inf luência d a família na ex istência de
problemas de c omport amento, emocionais e ac adémicos no contexto escolar
(Hether in gton & M artin, 1979). Também se d emons trou que a colaboração entre a
família e a escola tem efeitos p articularmente posi tivos em famílias cujos filhos
aprese nt am problemas escolares (Osborne, 1996).
Ao abordar os contextos dos pais, fic amos conscientes da necessidade de
terminar com um modelo tradicional de educação. A participação se ju stifica pela
necessidade de educar p ara os valores democráticos, atra v és do ex ercício quoti diano
de comportamentos democráticos e não apenas em grandes ocasiões como
freque nt emente acontece, traduzindo deste modo a espírito da d emocracia. Esta
participação prende-se em parte com a representação e as expectativas q ue se tem da
escola.
Um estudo por nós real izado em 1998, sobre Pais Professores e Pais não
professores: Diferenças e semelhanças , demonstra que as relaçõe s que se estabelecem
no âmbito familiar e escolar respondem a dif erentes expectativ as recíprocas que
mantém cada uma delas. Assim, verificamos que quanto maior é o gra u de educação
dos pais, melhor estes compreendem as regras da escola e mais exigentes s e tornam a
respeito do funcioname nto da escola. Uns valorizam mais os resultados ac ad émicos,
outros preocupam-se mais com os valor es mor ais e sociais. É habitual ouvi r pais dizer
que a escola actual ensina pouco e mal os s eus filhos; já não observamos as mesmas
preocupaçõe s ao nível dos comportamentos.
CAPI TULO II I – C ONVI VÊNCIA EM CONTEXT O EDUCATI VO
123
Para nós, a pa rticipação das famílias na vida da escola é um f actor que
influencia positivamente o rendimento dos a lun os . Entendemos que a abe rtura da
escola às famílias deveria constituir-se como um objectivo prioritário. Ass im, poderia
melhorar- se a particip ação democrática atr avés das estrutur as formais, como, por
exemplo, através das Associações de Pais e nos órgãos colegiais da escola; no
envolvimento nas actividades diárias dos seus filhos; no desenvolvimento do currículo
e na tomada de decisões sobre o funcionamento da escola. As escola s per si não têm
capacidade de responder às exigências r esultantes da d iversidade de perfis dos alunos
que actualmente as frequentam; nem de fomentar a soli dariedade, o respeit o por todos
e a disciplina; nem tão pouco de disponibiliz ar apoio no estudo, na resolução dos
trabalhos de c asa, na resolução dos con flitos e na construção de espaços de
convivência, de bem-estar e de ócio. Pa ra permitir uma resposta a todas estas situações
é necessária a exist ência de colaboração entre as famílias e a escola . Uma escola qu e
se preocupa em colocar o aluno no centro, tem nece ss ariamente que investir na
colegialidade e na participação de todos os actores responsáve is pelo act o educativo.
As relações que s e estabelecem entre a escola e a comunidad e educativa não podem
ignorar a media ção das f amílias. Não pod emos esquecer que a socialização primária
se ini cia na família, e esta é o locus onde ap rendemos os primeiros hábitos de
convivência. Estes exemplos são determinantes nos modelos de convivência qu e
aprende mos e que nos marcam ao longo da vida.
Os tipos de convivência que a família estabelece com os filhos, as relaçõe s que
se estabelecem entre os próprios filhos, os valores, que se vivenciam e que várias
vezes se impõem, são determinados à priori . Vejamos, por exemplo, o s casos de
alguns pais que, ainda a criança não nasceu, mas já é sócia de um det erminado clube
de futebol, já foi alvo de opção por uma de terminada crença reli giosa, já está
dependente do compromisso social dos pais; as relações afectivas já estão pré -
determinadas; os hábitos culturais já foram delin eados, etc. (Rodríg uez Jares, 2007).
Na escola, as relações te ndem a se r “(... ) transitór ias, impessoais e r acionais, enquanto
as relações da família com a criança são prolongadas, pessoalizadas e e mocionais”
(D avies, 1989: 43). Os sociólogos têm identificado diferenças cla ras e conceptuais
entre as estruturas e os papéis das famílias e das escolas. Os pais, os professores e as
crianças nem sempre sentem que essas fronteiras sejam tão claras, levand o por vezes
“ (...) à d esconfiança mútua ” (Davies, 1989: 44).
CAPI TULO II I – C ONVI VÊNCIA EM CONTEXT O EDUCATI VO
124
A sociali zação secundária , onde a escola tem um lugar de excelência, também
ela assumida por Rodríguez J ares (2007: 27) como um “ (...) artefacto cultural que gera
rituais que deix am marca s no âmbito da convi vê ncia”. Na verdade , a s estratégias
utilizadas pela escola, a nível d a organização, da administração e da gestão, do
paradigma de pr o fessor e de a valiação, determinam em boa parte os modelos de
convivência praticados em contexto escolar. Tudo o que fazemos e o que não fazemos
reflecte a qualidade da escola, a aposta na (des)construção da convivência. D aí que
reconheça mos o grupo dos cole ga s como outro espaço de socialização de extrema
importância, que n ão po demos descurar. É através das relações que se vivem, nesta
fase, do seu desenvolvimento, que se descobre m algumas culturas dominantes, por
vezes encorajada s pelos próprios pais.
Consideramos, pois, que a escola nece ss ita ajudar os alunos no
desenvolvimento da formação de conceitos e p ensamentos si gnificativ os e
construtivos. Decorrente do que temos vindo a problematizar, consideramos que um
dos factores ine rentes ao desenvolvimento do processo educativo , e necessário à
construção da convivência, é a participação. Efectivamente, a participação activa
aprese nt a-se como uma competência básic a para a construção da c onvivência.
Entendemos, que só este tipo de participação permite converter os agrupamentos
escolares em autênticas comunidades educativas, onde todos os actores (professores,
alunos, não docentes, pais ) se sentem impulsionadores e responsáveis, implicados em
atingir objectivos comuns a toda a comunidade educativa.
Num estudo realizado por García Raga e López M artín (2010 : 196), em relação
aos programas d e convivência, afirm am que, a maioria, considera fundamental a
implicação e participação dos alunos, como um elemento im portante para a construção
da convivência. Os autores referem a esse propós ito: “(...) participación en las aulas,
en los cons ejos escolar es, en l a ge stión de co nflictos, en la vida org aniz ativa del
centro, en asambleas y tu torías (…)”. S e a escola tem como principal finalidade servir
a comunidade e como objectivo básico satisfazer as necessidades dos alunos e das
famílias, a interacção ent re ela e o meio onde se insere é essencial. É importante para
os actores que, de uma forma directa ou indirecta, estejam e nvolvidos no proce sso
educativo e assumam determinadas formas d e participação. D e mod o a que os
objectivos, para a construção da convivência sejam alcançados.
CAPI TULO II I – C ONVI VÊNCIA EM CONTEXT O EDUCATI VO
125
Complementarmente, não podemos esquecer que, as atitudes e
comportamentos dos vários actores perante a escola, são influenciados pelas
repre s entações que estes actores têm da convivê ncia escolar. Com efe ito , conceber a
escola como um espa ço de convivência e de parti lha, aberto à influência e participação
de todos os int eressados no acto educativo, pode f avorecer a int eracção entre os p ais e
os professores ou entr e os professore s e os alunos . Não esqueça mos que as
repre s entações sociais são estabelecidas “ (...) pelo próprio sujeito (a sua história, a sua
vivência), pelo sistema social, ideológico no qual está inserido e pela n atureza das
relações que o sujeito mantém com este sistema social ” (Abric, 1989: 188).
A educaçã o, entendida numa dupla dimensão ensino-aprendizagem, não se
reduz a uma mera transmissão de conhecimentos, mas compreende também o
desenvolvimento de competências, valores e atitudes, mentores da formação d o
homem e da constituição de uma subjectividade. Entendemos que a difusão dos
conteúdos de uma cultura entre o s indi víduos e os grupos sociais, não é arbitrária,
assim como também não o é a edu cação para a convivência. Está submetida a
determinada s regras. Não ensinamos n em aprend emos qualquer coisa, nem o fazemos
de qualquer maneira. Essas formas estão reg ulamentadas, aind a que ex ista
flexibilidade na sua prática. Mas sofrem sempre influência dos valores do minantes, em
função de diferentes téc nicas para conse guir aceder ao conhecimento dispo nível e
segundo determinados modelos de transmissão considerados adequados . I mporta ter
em mente que a escola, com o seu curríc ulo e com as tradições metodológicas
utilizadas, é um age nte de difusão cultural que tem regra s p róprias. Por vezes, estas
normas colidem com as regra s familiares e podem criar conflitos ao aluno.
Os seres humanos são criadores n atos de significados, que fazem p arte da sua
cultura geral, e de relações que os vinculam, de um modo mais ou menos estreito , uns
com os outros, contribuindo, deste modo , para a formação de uma cultura social . Isso
acontece porque temos capacidade mental e apetê ncia para compreender e dar sentido
a tudo q ue nos envolve e a nós mesmos e porque necessitamos sempre de alguém, que
também necessite de nós: o qual im plica desenvolver a interajuda e a solidariedade.
Tal como afirma Gimen o S acristán (2001: 105 ): “(…) La educación incl u y e siempre
en su proyec to un a imagen de individuo – en sociedad.”
CAPI TULO II I – C ONVI VÊNCIA EM CONTEXT O EDUCATI VO
126
2.5. A Interacção dos grupo s: natureza e papéis
Desde os estudos de Hawthorne e o movimento das R elações Humanas (Ma y o,
1932), os investi gadores têm vindo a presta r atenção à estrutu ra, din âmica e ao
impacto do comportamento grupa l. Estas pesquisas centra m -se nas maneiras como os
grupos podem influenci ar, positiva ou ne gativamente, a satisfação e o dese mpenho dos
actores organizacionais. Ou seja, o sucesso de uma organização complexa, neste caso a
escola, d epende do desempenho dos diferentes grupos que interagem entre si. Na
óptica de Doise e Moscovici (1990), todos nós somos membros de um grupo. J á
Aristóteles afirmava que o homem é um se r social e que sempre viveu em pequenos ou
grandes grupos. Hoje, esta sociedade pluralista partilha o espaço social e não é raro
que o indivíduo perten ça a uma complexa rede de grupos (Jacques, 1994).
Reconhecemos que interessa reflectir sobre a questão. Para Lapa ssade (1989),
um grupo é constituído por um conjunto d e p essoas, em relação um as com as outras,
que se uniram por diversas razões: a vida familiar, uma actividade desportiva, por
projectos desportivos ou políticos, pela amizade ou outra razão. Sabemos que os
grupos não são estáticos e evoluem perante a complexidade dos co nflitos e a
compreensão da vida nas orga niz ações.
Na escola não é diferente. A realidade social do grupo-turma , na opinião d e
Herlyn (1984), apresent a algumas das características próprias de um grupo: pessoas
reunidas para atingir determinados fins, normas para as alcançarem, tarefas, stat us e
papéis diversificados, de entre outras. S ubsistindo a dúvida, todavia, se reúne todas as
restantes, como sejam as de intimidade e for tes vínculos de pertença . No mesmo
sentido, o grupo turm a pode ver-se como uma unidade específica, em que normas,
regra s, papéis, jog os de poder, coesão, climas e micro climas estão em constante
mutação. No seu interior se desenvolve, igualmente, a coesão, essa “ (...) argamassa
que mantém unido o grupo, ou a atracção qu e os membros sentem pelo grupo ”
(Sprinthall & Sprinthall, 1993: 478-479). Coesão, essa construída através da interacção
amigá v el, da coop eração, dos estatutos do g rupo, das potenciais ameaças ex ternas e
dos estilos de liderança .
Apesar de opiniões mais optimistas, L opes (1997: 131-134), embora não
negando o conceito de escola como local de convívio, discorda das visões 'românticas'
sobre a soci abilidade estudantil, enfatizando o ‘té dio deslizante’ . Se gundo este autor,
os a lunos valorizam o capital de sociabilidade, e m detrimento do capital escolar,
CAPI TULO V – METODOL OGIA
232
Gráfico I. Anos de escolarida de
0
200
400
600
800
1000
1200
1400
N º de A lun os
355
353
218
163
127
1216
N º de A lun os R ep etidos
68
67
44
24
5
208
N º de Tur mas
15
14
9
8
6
52
5º
6º
7º
8º
9º
Total
A maioria dos alunos é de nacionalidade portuguesa . Exist em ainda alunos,
cerca de duas dezenas, d e outras origens étnico-culturais: 9 oriundos da França , 4 da
Guiné-B issau, 3 do Brasil , 3 da Venezuela, 1 dos Estados-Unidos e 1 da Rússi a. P ara
além das dificuldades, óbvias, com a língua portuguesa, sentem outras di fic uldades d e
integraçã o n a escola. Al guns alunos, com origem em famílias disfuncionais e/ou com
graves probl emas sociais carregam para a escola essas marcas, que s e manifestam na
sua postura, no grau de desenvolvimento da sua linguagem, na forma como s e
relacionam uns com os o utros, ou na f alta, mais o u menos generalizada, de motivação
para os processos tradi cionais de ensino aprendizagem. Assim, enquanto alguns
procura m, na es cola e nos profe ssor es, as referências e os afectos que n unca tiveram,
outros descarregam ne la uma enorme carga de agressividade, ap resentando
comportamentos muito perturba dores do dia- a-dia da mesma.
A maioria dos Pais/Encarregados de Educ ação dos alunos são classificados nas
estatísticas como tr abalhadores d a produção ou desempr egados, com habilitações
literárias mínimas. Os que trabalham cumprem horários de trabalho muito extensos,
pelo que, ao longo dos anos , tem sido muito difícil manter uma Associação de Pais a
funcionar e a conseguir que os pais se envolvam nas suas actividad es. S egundo o
último inquérito efectuado pela Esc ola e divulgado no seu sit e :
“(...) os pais e encarregados d e educação valoriza m todas as for mas de co municação
utilizadas pela e scola, co m d estaque para a s re uniões de pa is co m o directo r de t urma,
que co nsidera m dever ser mais freque ntes e envolver todos os pr ofessores d a tu r ma,
pensam que os se us filhos tê m u ma atitude positiva face à esco la e que a escola tem
ajudad o os seus filhos a m a nter u m a atit ude po sitiva em rela ção a eles p róprios .”
Estes dados pod em esta r rel acionados com o facto de os pais começarem a
tomar consciência de que uma boa comunicação entre a escola e a família é essencial
CAPI TULO V – METODOL OGIA
233
para o desenvolvime nto pessoal e so cial dos fi lhos e que contribui p ara uma boa
convivência na esc ola, n a família e na sociedade.
Gráfico II. Pessoa l não do cente
0
10
20
30
40
C ateg or i a do s Fun c i on á rio s Nº de Fun c ion ár i os
C ateg or i a do s Fun c i on á rio s
N º de Fun c ioná r ios
8
20
6
2
36
A dminis t r
ativ o
A ux ili ar
da A c ç ão
A ux ili ar es
de
Gu ar da-
no c t ur no
TOTAL
As funções dos auxil iar es da acção educativa no contexto escolar, asseg uram a
ligação entre os diversos elementos (alunos, pro fessores, administrativos e visitantes,
etc.) Garantem, assim, o funcionamento da inst ituição, t endo ainda responsabilidades
em termos de organização, higiene e limpeza. Tem a seu cargo a guarda dos espaços e
materiais, bem como a vigilâ nci a e acompanhamento dos alunos.
A escola necessita criar condições, a nível da gestão de espaços e temp os, para
que não existam alunos que, em pleno século X XI, se sintam excluídos. Sabemos que
as crianças com deficiê ncias são as principais vít imas de ex clusão, por parte da
sociedade e, por vezes, p or parte da escola. Mas r econhecer às pessoas com deficiência
os mesmos dire itos dos outros c idadãos, passa por aceitá -los co m as suas
especificidades próprias, proporc ionar-lh es serviços na comunidade, que contribuíam
para desenvolver as suas competências e os seus comportamentos, através de um apoio
especial. Na nossa ópti ca, para que uma escola sej a inclusiva, não basta acolher no seu
seio alunos diferentes, el a terá n ecessariamente s e adaptar, à diversidade. A adaptação
e a dinamiz ação d e estr atégias e metodolo gias que promovam o suc esso e uma s ã
convivência, passa por um conhecimento apr ofun dado da criança.
De se guida apresentamos os alunos com necessidades educ ativas ex istentes na
escola, que são num total de 103 alunos e ta mb ém o número muito reduzido de
pessoas espe cialistas que ex istem na escola para os apoiar: dois orientadore s
vocacionais e um p rofessor do Ensino Especial.
CAPI TULO V – METODOL OGIA
234
Gráfico III. Apoios Educa tivos
0
20
40
60
80
100
120
A lun os c om Ne c es s idad es E ducat iv as E s peci ais po r A no Nº de A lun os
A lun os c om Ne c es s idad es
E du c ati v a s E s pe c iais po r
A no N º de A lun os
25
34
27
13
4
103
5º
6º
7º
8º
9º
Total
Dos dois orientadores referidos um psicólogo efectivo na escola e outro
contratado pela esc ola e um professor do ensino especial. No gabinete do aluno,
permanecem dois a três professores, de acordo c om as disponibilidades dos horários.
O gabinete funciona como resposta na escola a casos de indisciplina, pretende ser um a
estratégia de m ediação dos conflitos sur gidos no dia -a-dia entre professores e alunos ,
quando estes são expulsos da sala de aula, devido a problemas de convivência.
3.3. Opções Metodológicas
O ser humano, como lhe é próprio, preo cupa-se em conhecer a r ealidade
existencial em que vive, e diariamente se interroga sobr e as relaç ões entre ele e o
outro, entre o espaço ex istencial e o transce ndental, entre crenças e atitudes perante a
verdade , recorrendo a diversas metodologias pa ra construir o conhecimento (Taylor &
Bogdan, 1990 ). A vida social e os probl emas educativos constituem re alidades fluidas
e abertas, que n ão se podem conhecer ex clusivamente através das interacções
circunstanc i ais observadas e mensuráveis, mas também atravé s d as int enções e dos
campos semânticos da s s uas acções.
Ao reflectirmos sobr e o trabalho de campo em contexto escolar , d eparámos
com algumas dificuld ades, em parte esp eradas, ao consultarmos al gumas das mais
importantes obras d e investigação sobre esta técnica d e recolha de dados, pouco
elucidativas das potencialidades. Como re fere S take (2007: 65) “(...) o estudo
qualitativo tira partido das formas triviais de familiarizaçã o com as coisas. O
conhecimento é largamente cere b ral, só algumas coisas são registadas.” S abendo nós
que a mente humana nã o tem capacidade p ara lidar com toda a informação, que não
CAPI TULO V – METODOL OGIA
235
somos portadores de u ma racionalidad e olímpica, mas sim li mitada (Simon, 1989),
desde cedo nos aperceb emos das virtualidades conjugadas de várias metodologias,
ainda que mais morosas e dispendiosas: a qua litat iva e a análise documental.
A principal preocupação desta investi gação é aceder ao mundo da vida escolar,
tal como a pe rcebiam o s diferentes actores: professores, alunos, pais, aux iliare s de
acção educativa e outros actores sociais. Também, em determinados momentos desta
nossa investigação senti mos que algumas palav ras e símbolos utiliz ados po ssuíam
significa dos diferentes para al guns informant es. Por isso, o nosso o bjectivo foi
procurar identificar os caminhos da “construç ão” da convivência e disciplina, desde a
prevenção, dia gnóstico e intervenç ão em contexto educativo. Assim, para esta
finalidade, afig u rou-se mais adequada a metodologia qualitativa .
Reconhecemos que a investigação qualitativa é considerada um pro cesso
activo, sistemático e rigoroso de indag ação, que privilegia “(...) la investigación que
produce datos descriptivos: las propia s palabras de la s personas, habladas o escritas y
la conducta observ able” (Ta y lor & Bogdan, 1990: 20). Ela encara o mun do empírico
de forma indut iva, ana lisa a realidade da vi da quoti diana e interpreta -a numa
perspec tiva humanista, c onstituída não apenas por “(…) hechos observables y ex ternos
sino también por significados, símbolos e int erpretac iones elaboradas por el propio
sujeto a tr avés de una interacción con los demás”, (Pérez Serrano, 1994: 27), seja,
visando “ (…) c omprender a las personas dentro del mar co de refe rencia de ellas
mismas” (Taylor & B o gdan, 1990: 20).
Para uns, o caso de L ewis, (1965), esta é a única metodologia que pode tornar
possível um estudo sério sobre os vários cenários da vida social. C omo a arte, a
investigação qualitativa considera o inv estigador como um artífice, flex ível na forma
como conduz as suas in vestigações, convidado a criar o s eu próp rio méto do, a se guir
orientaçõe s e não regras inflex íveis, ou seja, “(…) los métodos sirven al investig ador,
nunca es el investigador el esclavo de un procedimiento o técnica” (Ta ylor & Bogdan,
1990: 23).
Também é ce rto que a “verda d e absoluta” est á cada v ez mais longe da
inteligênc ia hum ana e “(…) el investigador no es una pura máquina ni l as personas
observada s son autónomas y c arentes d e historia ” (Pérez Serrano, 1994: 56) e temos
que ter em conta que as i nterpretações qu e cad a p essoa re aliza tem muito que ver com
CAPI TULO V – METODOL OGIA
236
as suas “(…) ex periencia previas que condicionan sus expectativas, realiz aciones e
interacc ion es ” (Goetz & Lecompte, 1988: 15 ).
Em síntese, a investigação qualitativa, segundo Pérez Serrano (1994: 71), é
“(…) m ás adecuada par a el análisis de los fenómenos complejos, para el estudio de
casos, para el análisis de las homologías estructurales, para poner de manifiesto el
parentesco lógico entre fenómenos social es, para la descripción y estudio de unidades
naturales c omo or ganizaciones y comunidades concretas .”
Dentro desta modalidade da investigação qualitativa, decidimos realiza r um
estudo de caso . Isto é , tentámos realizar um “(… ) exame int ensivo, tanto em
amplitude como em profundidade e utili zando todas as técnicas disponíveis, com a
finalidade última de obter uma ampla compreensão dos fenómenos n a sua totalidade”
(L ima, 1987: 18). O estudo de caso é, para Andrés (1980: 140), “( …) esencialmente
activo y, po r lo tanto, a plicable en innumer ables campos donde se trate de combinar
eficientemente la teoría y l a práctica. Es inaplicable donde sólo se int ente la pura
erudición o el mero tecnicismo” . Na inv estigação educa tiva, o ‘estudo d e caso’ centra -
se, na opinião de M artínez Bonafé (1990), nos ní veis ‘micro’ do sis tema, sem excluir
as perspectivas mais amplas relacionadas com a estrutura da sociedade ou com o
sistema e ducativo e m geral. Estuda a complexidade do proc esso educativo, num a
perspec tiva humanista, partindo de contex tos sit uacionais para compreender
significa dos, numa implicação dialéctica entre o investiga dor, os indivíduos e as
situações.
Dadas as características do estudo de caso – particularista, descriptiva,
heurística e indutiva - este aplica-se a diversas perspectivas: “(…) como medio de
formación d e p rofesionales o estudiantes, como modalidad de inv estigación educativa
y como instrumento d e conocimiento de un suje to o realidad única con finalidad de
diagnóstico, terapi a y orientación” (M artínez Bonafé, 1990: 86). Podemos, então,
afirmar que se trata de uma metodologia considerada como “ un paso a la acción”
(Pérez Serrano, 1994: 10 0), para estuda r a compl exa natureza human a: as dim ensões
psicológica s, so ciológicas, morais e profissionais.
No nosso processo inv estigativo re gistamos algumas notas de campo , que
foram recolhidas e transformadas no significado mais aproxim ado, segundo categorias
previamente definidas. Realizamos entrevistas e utiliz amos pseudónimos para os
ac tores entrevistados, salvaguardando o anonimato e a confidencialidade.
CAPI TULO V – METODOL OGIA
237
Passamos algumas horas, no espaço exterior à escola, nos corredores, no
recreio, no gabinete do aluno, na sala de profess ores, locais onde centrámos o nosso
trabalho de campo, obs ervando os rostos e as dinâmicas de trabalho d e grupos de
alunos e professores, no refeitório ou no bar, ou em qualquer outro cenário, todos
dignos de estudo, mirando como ‘ mosca en la pared’ (Woods, 1989: 52) mas
procura ndo respostas a lógicas, por vezes , contra ditórias. A consciência discursiva dos
actores foi-se desnudando, sem, todavia, se evitar que inicialmente se troca ssem
acusaç õ es/críticas a qualquer mudança e se defendesse, aberta ou veladamente, as
rotinas. Notámos, nos p rofessores e nas famílias, discur sos implícito s, cuidado na
linguage m e nas ex pressões, frases sem a cabar e pensamentos escondidos. Os alunos
pareceram-nos mais transpare ntes. A ética das observações, a confiança, a curiosidade
e a naturalidade a conqui star foram, paulatinamente, negociadas.
Tendo em c onta a complexidade que o tema implica, necessitamos ter em
consideração múltiplas variáveis que, no contex to da escola actual, sã o difíceis de
operac ion alizar de for ma conjugada. Procur amos alargar a comp reensão da
problemática, atravé s de uma abordage m quantitativa para, deste modo, abranger um
maior número de sujeitos, no espaço de tempo, que possuímos para o efeito. Tendo em
atençã o, como refere Afonso (2005: 101), que “(…) os questionários facilitam o
acesso a um número elevado de sujei tos e a contex tos diferenciados”, optámos por
utilizar, neste segundo momento, o qu estionário para recolha de da dos com o
objectivo de indagar o ti po de relaç õ es que exist em entre docentes e disce ntes e entre
os próprios alunos, como se desencadeiam as con dutas que afec t am a convivência e
qual a o rigem do descontentamento dos actores na escol a, em relação à in disciplina e
violência. S empre com a preocupação de interpretar , com cuidado, as image ns que os
actores lhe atribuem.
Embora reconheçamos que os inquéritos por questionário são algo débeis e
limitados, no que diz respeito à dive rsidade de questões e respostas obtidas, adoptámos
este instrumento de aná li se por quatro razões:
Porque esta metodolo gia facilita a codificação e exploração d as
respostas, sem grande dispersão das mesmas, possibilitando uma
maior objectividade e compreensão das questões conside radas
fundamentais para a noss a investigação;
CAPI TULO V – METODOL OGIA
238
para poder abranger o maior número de sujeitos que constituem a
nossa amostra, dum modo mais rápido e e fi caz;
porque na primeira fa se do nosso estudo te mos utiliz ado entrevistas
semi-estruturada s, grupos de discussão e análise documental e para
complementar os da dos o btidos com estas metodologias.
A busca incessante da verdade acons elha a utilização de métod os e técnicas
variadas, em triangulação . Desde sempre soubemos da complementaridade necessária
a conferir aos dados recolhidos, através de outras técnicas. Para Flick (2005: 270) “A
triangulaçã o pode si gnificar a combinação de vários métodos qualitativos ( …) mas
pode também significar a combinação de métodos qualitativos e quantitativos”. Neste
estudo, os dois métodos mantê m-se autónomos, tendo como ponto de encontro a
temática estudada. A combinação da s duas abordagens, têm como objectivos:
obter sobre o assunto em estudo um conhecimento mais alargado e
aprofunda do do que o proporcionado por u ma única abordagem e
limitada a um determinado contexto;
validar mutuamente os resultados das duas abordagens (Flick, 2005).
3.4. Técnicas utilizadas para a rec olha de i nformação
Para a r ealização deste estudo, foi nossa intenção planear metodic amente com
etapas pre viamente definidas, relacionando as varáve is em estudo, procurando que a
interacção de factores e acontecimentos daí decorrentes nos forneçam uma visão
alarga d a da problemática da indi sciplina e da convivência nos contextos em que se
inserem as quatro escolas estudadas, de forma a or ientarmos a nossa actuação.
3.4.1. A obser vação
A observação pode s er entendida como um fenómeno mul tifacetado de
repre s entação da realida de, ou sej a, “(…) un proceso de mediación en v arios niveles:
el nivel de observador como persona con prejuicios, creencias, formación y aptitudes,
y e l nivel del instrumento o herramienta uti lizado para efectuar y r eg istr ar un a
observac ión ” (Wittrock, 1989 a : 9). Na observação participante , o investig ador
intervêm na vida do g rupo ou da or ganização que estuda, inclui- se nos seus actos e
manifestações de vida, tem acesso aos lugares que frequenta “(…) penetra en la
experiencia de los otros (…) pu ede oper ar po r reflexión y analogía, analizando sus
CAPI TULO V – METODOL OGIA
239
propias reacciones, intenciones y motivaciones, c ómo y cuándo o curren en el curso del
proceso de qu e forma parte” (Woods, 1989: 49 -50).
A observação participante, apesar do peri go da su bjectividade, pode permiti r o
mais fácil a cesso a ambientes da investi gação, maior acessibilidade ao obs ervável, sej a
um objecto, temática, po nto de vista, problem a, apenas ex igindo “(… ) las facultades
de observa ción, comparación, contraste y reflexión que poseen todos los seres
humanos ” (Wittrock, 1989: 291). Na observ ação não p articipante, o investigador
unicamente desempenha o papel de investi gador; observando e registando situações
relevantes, adoptando a técnica da ‘mos ca na parede’ (W oods, 1989: 52) , estimulando
um distanciamento estr atégico ne cessário a u ma correcta avaliação científica dos
dados recolhidos e apresentados. Fundamentalmente, é necessár io “(…) fundirse con
el escenario, ocultarse y acechar, un ojo aviz or, un oído fino y una buena memoria ”
(Woods, 1989: 56) para captar o fluxo dos acontecimentos.
A nossa ex periência com alunos do Ensino Secundário, não muito longínqua, e
a nossa actividade profissional, im plicando investigações anterio res, permitiram uma
incursão pela Escola Básica do 2º e 3º ciclos, para realizarmos entrevistas e análise de
conteúdo documenta l.
As primeiras impressões revelaram uma “ilusão de familiaridade” ou de “ sábia
ingenuidade” (L opes, 1997: 90) que foram orientadas, embora não cegam ente, para a
função de comando d a teoria. A realidade é mais complex a que a teoria e, po r isso,
novas questões foram apreendidas, num permanente vaivém entre teoria e pesquisa
empírica. A própri a ob servação participante obedeceu a procedimentos bastante
diversificados, perante cenários e problemas c om que o investigado r se defronta.
Durante as nossas inc ursões no c ampo, preocupa mo -nos em observar posturas,
“fac h adas”, indumentárias, sím bolos, grafites, linguagens grupa is, pr eenchimento de
espaços internos e externos às escolas, ou s eja, uma panóplia compl exa que se
cara cter iza por o “aparecer e m palco .”
3.4.2. A análise de conteúdo
A análise de conteúdo existe desde os primórdios da humanidade, desde qu e, se
tentou fazer a inte rpretação dos art igos escritos exist entes nos livros sagra dos. No
entanto, só na década de vinte, foi sistematizada como método, através dos estudos de
Leave ll sobre a propaganda na primeira guerra mundial, conseg uindo , desta forma, o
CAPI TULO V – METODOL OGIA
240
carácter de método de investigação (Trivinos, 1987). Para Bardin (1994: 18) , a
definição de análise de conteúdo emerge no final dos anos 40-50, com Berelson ,
afirmando que “ a anális e de conteúdo é uma té cnica de investi gação q ue tem por
finalidade a descrição objectiva, sis temática e quantitativa do c onteúdo da
comunicação”. Através da análise de conteúdo o investig ador “ (...) pro cura conhecer
aquilo que está por trás das palav ras sobre as quai s se debruça” (Bardin, 1991: 44). No
entender de Lessard-Hébert et al. (2005: 144) “( …) trata-se de uma técnica que tem,
com frequência, uma função de complementaridade na investi gação qu alitativa, isto é,
que é utilizada para « tr iangular » os dados obti dos através d e uma ou duas outras
técnicas.”
Para Fox (1981: 709), a análise de conteúdo permite estudar temas de uma
comunicação escrita, ora l ou visual e é “(…) un procedimiento para la ca tegorización
de datos verbales o de conducta con fines de clasificación, resumen y tabulación ” . Esta
técnica foi usada inicialmente como uma técnica de análise e quantificação de
materiais de comunicação, tais como jornais, revistas e prog ramas de rádio. O autor
estabelece uma diferenç a entre o que se fa z “ al nivel manif iesto ” e o qu e se faz “ al
nivel latente ” . Na primeira referência, a análise d o conteúdo limita-se apenas ao que o
sujeito verbalizou, fix ando-se apenas na resposta, sem f azer leituras p ara a lém do qu e
está escrito no texto. A este nível é uma transc rição directa da resposta , em função de
um código determinado. P elo contrário a “ ni vel latente ”, o investigador codifica o
significa do da resposta o u da mot ivação, que está subjacente, qu e ocasionou a condut a
descrita, isto é, trata-se de ir p ara além do que está transcrito e de duzir o que
entendemos que o sujeito quis dizer ou dar a entender. Daí qu e as análises de conteúdo
a “nível manifesto” possam realizar-se com fia bilidade e validade; no entan to , não
podemos afirmar o mesmo da análise de conteúdo a “nível latente” (Fox, 1981: 910).
Deste modo, trat a-se de uma “(…) técnica de i nvestigación destinada a formular, a
partir de ciertos datos, inferencias reproducibles y válidas que pued an a plicarse a un
contexto ” (Pérez Serra no, 1994: 134).
A análise de conteúdo surge como um meio utilizado para a compree nsão da
construção de si gnificados, que os actores sociais manifestam no seu discurso. A sua
realizaçã o permit iu -nos compreender as representações que os actores da es cola
mostram ter em r elação à causalidade d a indisc iplina e às form as de construção de
convivência e a int erpretação que fazem do que acontece no contexto escolar em que
CAPI TULO V – METODOL OGIA
241
estão inseridos. O dia-a-dia das escolas envolve proce ssos simbólicos e, portanto,
processos de si gnificação referente a diferentes r ealidades que estão relacionados com
a interpre t ação dos actores, ou seja, a r epresentação que atribuem aos seus
significa dos. Pela análise de conteúdo procurámos indag ar hipóteses de causalidade,
frequê n cia de ocorrências, segundo c ategorias sel eccionadas ‘a posteriori’, convenções
e símbolos conscientes e inconsci entes das linguagens, indicadores l inguísticos,
campos semânticos de conceitos, condições de produção de discursos, potenciais
desvios, associação de constrangimentos, materiais não programados
intencionalmente, mas recolhidos em dife rentes momentos.
3.4.3. G rupos de d iscussão
Podemos entender que “(…) el grupo de discusión es una vía para conocer y no
una finalidad ” . No grup o de discussão dialoga-se, conversa-se, fala-se produz-se e
reproduz-se um dis curso : “(…) l os g rupos sociales pueden generar dis cursos comunes
porque p arten d e discursos y posiciones comunes. Los discursos son comunes porque
parten se situac ion es sociales comunes” (Callejo, 2001: 22).
Por seu lado, Krueger ( 1 991: 24) define grupos de discussão c omo :
“(…) u na conversació n c uidadosa m e nte pla neada, diseñada par a ob tener infor m ación de
un área definida de interés, e n u n ambiente p ermisivo, no -dir ectivo. Se lleva a cabo con
aproxi m ada mente siete a diez personas, g uiadas por un moder ador experto. La discusión
es r elajad a, confortable y a menudo satis factoria para lo s par ticipantes, ya que e xponen
sus idea s y co mentarios en c omún. Los mie mbros del grup o se i nfluyen mutua mente,
puesto que respo nden a las ide as y co m e ntarios que sur gen en la discusió n . ”
Assim, enquadrado na metodolog ia qualitativa de investigação, o grupo de
discussão privile gia a perspectiva dos actores e as relações sociais. D este m odo, Fabra
e Domène ch (2001) descobrem nesta técnica um caminho para os estudo s que,
fundamentalmente, s e p reocupam pela análise d os espaços es colares e que querem
privilegiar alguns actor es como, por ex emplo, os professore s e os alunos. Como
afirmam, o grupo de discussão pode ser ente ndido como um modo de “ (...) dar poder
(...), fomentar nel es um juízo independente, a habilidade de tomar decisões, e,
sobretudo, a c apacidade de expressar-se; de comunicar, não só o que foi aprendido,
mas também o reflectido, o descoberto, o pensado e o r epensado” (Fabra &
Domènech, 2001: 19).
Alguns dos nossos objectivos passavam por um percurso que iria privilegiar
alguns grupos de alunos , que frequentavam o 2º e o 3º ciclos do Ensino Básico, que
CAPI TULO V – METODOL OGIA
248
conversa mos com um grupo seleccionado d e alunos do 5º ao 9º anos de escolaridade,
com idades compreendidas entre os d ez e os dez asseis anos, do conc elho de Penafiel,
distrito do Porto. Da co nversa havida resultara m as questões que aprese ntamos de
seguida e que nos permitiram, posteriormente, construir as entrevistas que realizamos
aos alunos da Escola “A”.
Questões colo cadas aos alunos da Escola “A”: Existe indisciplina nas vo ssas
escolas? O que consideram os professores um acto indisciplinado? E a violência ser á a
mesma coisa? Achas, qu e na tua escola há violência? Na s vossas escolas ex iste um
Regulame nto Interno? Acham que o Reg ulamento I nterno tem int eresse? Onde
pensam que o correm com maior frequência os casos de indi sciplina na vossa escola?
Pensam que a vio lência acontece mais entre os mais novos ou os mais velhos? Que
tipos de penalizações, são aplicada s na tu a escola?
Concluída que foi esta primeira etapa de constr ução e validação dos nossos
instrumentos de recolha de dados, iniciámos um conjunto de conta ctos exploratórios
com cada um dos info rmantes da Escol a “A” sobre temas peri féricos, tod avia longe d a
problemática central, para criar um clima cultural e afe ctivo, despole tar situações d e
entrevista, avaliar os con hecimentos e viv ências d a problemática, e sboçar as temáticas
a incluir, obse rvar o cli ma organizacional d a Es cola, procurar o vivido, os modos de
abordar o inconfessável ‘la do obscuro’ . Deixando, no entanto, total liberda de aos
entrevistados de e s colher o itinerário das suas ideias.
Procurámos antes de ini ciar as entrevistas, através da nossa presença na escola
e da utilização da observação directa criar um c lima em que a nossa p resença fosse
aceite e n ão ti vesse efeito desestabilizador , junto daqueles qu e iriam constit uir a nossa
amostra e que nos permit isse ter um conhecimento do contexto da escola, para m elhor
podermos compreender as respostas que iríamos obter. Procuramos assim t er em conta
a primeira grande característica que Bogdan e Biklen (1994: 47) definem em termos da
investigação qu alitativa e que passa pelo facto d e se entender qu e , no que r espeita à
recolha de dados, “(...) a fonte direc t a de dados é o ambiente natural”.
São também est es autores que nos chamam a atenção para o facto de os l ocais
terem de se r entendidos “(...) no contex to da história das inst ituições a que pertencem”
(Bogda n & Biklen, 1994 : 48). R azão pela qual fizemos, a par da observação dire cta,
durante um período de c erca de três meses, a calendarização de entrevistas, a procura
das carac terísticas da esc ola, a aquisição e leitura de normativos legais e documentos
CAPI TULO V – METODOL OGIA
249
vários (Plano Anual d e Actividades, P rojecto Ed ucativo e Regulamento Interno), p ara
melhor enquadrar a investigação que nos propus emos e compreender o contexto da
história da Escola “A”.
3.6. A constituição do corpus e a recolha de dados
Estando de posse da análise dos resultados das entrevistas preparatórias feitas
quer a professores quer a alunos , assim como da revisão de um conjunto de
documentos que nos permitiram compree nder e situar , em termos de hist ória da
organização, a Escola “A” , decidimos, num se gundo mom ento, iniciar as e ntrevistas a
professores, a alunos, ao pessoal não docente a Encarreg ados d e Educação e ao
Conselho Executivo da Escola.
Os discursos, as narrativas e as descrições foram descodificados atravé s dos
objectivos em estudo, das nossas interrogações. Os professores não têm o ‘hábito’ de
serem entrevistados e, s obretudo, não estão habituados a que alguém re colha as suas
opiniões, indague d as suas dificuldades e realid ades. ‘Contar - se’ signifi ca expor-se,
reflectir e ‘dar - se’ a reflectir, coloc ar distância entre si próprio e o seu trabalho
profissional, ultrapassar interferências entre entrevistados e entrevistador. Obtivemos
uma ‘ordem de realidad e’, uma expressão, uma visão parcelar do univer so micro -
político da escola num contexto muito peculiar. Uma leitura de entre outras possíveis.
A constituição deste corpus obedeceu a leit uras em sentido vertica l e
horizontal. Sentimos o ‘tom’, as coerências e incoerências, as contradições, os medos e
desabafos, em torno dos conceito-chave, tr anscrevemos passa gens significativas de
discursos; classificámos as entre vistas em torno de temas introduzidas por frases ou
comentários pr é-elaborados, organizando-as em categorias. As unidad es significativas,
as proximidades e difere nças, foram estruturadas em torno das nossas interrogações,
integradas em leituras e suportes teóricos, ideológicos e enquadramentos legais, sob a
forma de ‘ símbolos cultu rais’ codificados.
O material recolhido começou, de imediato, a surpreender-nos, apesar de ser
conhecedora de alguns problemas relacionados com as regras de convivência de
universos e contex tos diferentes, fruto da prática de vinte anos a reunir e trabalhar com
professores, na qualidade de dirigente sindi cal, onde eles a presentam muitas das suas
ang ústias e des contentamento. Todavia, cedo no s apercebe mos do muito que se passa
CAPI TULO V – METODOL OGIA
250
na escola e na sala de professores e qu e, em micropolítica, nos escapa,
independenteme nt e do tipo de liderança da escola.
Num terceiro mom ento, e pe rante uma amostra restrita, p ropusemo- nos
comentar, descrever e interpretar este corpus , previamente apresentado em documento,
quinze dias antes. Foram ouvidas gravações, debateram -se discursos previamente
assinalados por cada um dos presentes, reinterpretaram-se passagens dos normativos
legais, contextualiz aram- se afirmações, catalogaram-se r esistências e deram-se a
conhecer al guns conceitos teóricos não dominados. Da riqueza das intervenções e
discursos, das diversidades de leituras s e ficaram a dever est e d esvendar algumas das
‘rea lidad es ocultas’.
Num quarto momento, um ano após este trabalho de campo, rea lizamos uma
nova intervenção metodológica e situacional, na tentativa de confirmação ou
infirmação de dados investigados, fi zemos entrevistas a dir ectores de turmas dos
Cursos de Educaç ão e Formação (CEF) e, analisamos alguns processos disciplinares,
após a alteração do Estatuto do Aluno, Le i nº3/2008.
Num quinto momento procura mos informação exterior à escola. Na tentativa
de perceber de que forma os po líticos, os juíz es, os especialistas ligados à educação e à
polícia de segurança pública , encaram esta probl emática. O nosso obj ectivo era o d e
analisar as r epresentações que os superiores hier árquicos possuem em relaçã o a esta
problemática e os tipos d e resposta para a solução destes conflitos.
Certa de que percorremos problemáticas não muito habituais para a maiori a dos
professores, nomea da mente motivaç ões/rela ções pessoais e profissionais ,
seleccioná mos recursos que pretendiam ser provocatórias, com o intuito de envolver
os entrevistados : ‘histórias de vida’, contradições e ex istências, conflit os e modus
vivendi dos conflitos, formas de os sentir e d e os ult rapassar , rep resentações e outros
elementos sobre os processos de mudança. Para realizar este trabalho, como
anteriormente afirmámos , construímos entre vistas semi -estruturada s. Organiz ámo-las
para que tivessem a dur ação de, mais ou menos , 60 minutos. Estas foram previamente
marcadas, à razão de duas por semana, após ‘negociação’, e , po steriormente,
transcritas dum modo integra l. Elas fo ram dirigidas a grupos distintos:
Professores (5); Professores com cargo de Directo r de Turma (6); Elemento do
Conselho Ex ecutivo (1); Alunos (10); P ais e mães (3); Auxiliares de Acção Educativa
(3); Polícia de Segura nça P úbli ca ( 1 )
CAPI TULO V – METODOL OGIA
251
A escolha destes grupos ex plica-se pelo facto de interag irem quotidianamente
no espaço da escola, por terem p articipado directamente em situaçõe s de viol ência e
por serem informantes privilegiados relativamente à realidade da Escola. “A” . O
elemento da Dire cção Ex ecutiva entrevistou-se para verificar o grau de autonomia de
que dispõe para a resolução destes problema s e o seu estilo de liderança.
Para além d as entrevistas que realizámos , decidimos analisar um conjunto de
documentos que nos dão o sentir de alguns dos responsáveis pela Edu cação e p ela
Justiça em Portugal. Entendemos que, tal como Croz ier (1983) diz , não é possível
mudar uma sociedade p or decreto e por isso nos interessa percebe r se as ideias que
perpassam entre os responsáveis pelo p oder e até pela aplicação da J ustiça em Portugal
estão ou não em sintonia com o que pensam os alunos, professore s, pais, pessoal não
docente e agentes de Se gurança. Assim, foi nossa int enção contrastar as opi niões sobre
a convivência, a (in)disciplina e a viol ência que os nossos respondentes têm com as
opiniões daqueles que es tão directamente li ga dos à definição da política em Portugal e
da aplicação da J ustiça. Analisaremos, pois um conjunto de entrevistas, depoimentos
publicados em jornais, d iários, em r evist as e até programas d e TV que nos permitem
ter em conta o que tem vindo a ser veiculado. Entrevistas e depoimentos exteriores à
escola:
Segurança Nacional (P SP- Polícia de Seg urança Pública; GNR- Guarda
Nacional Republicana ; Coordenador do Observatório da Segurança Escolar); Política e
Educação (Presidente da R epública; L ideres Partidários; Minist ra da Educação;
Secretário de Estado da Educação; CONFAP- Confederação Nacion al das Associações
de Pais); Justiça (Procurador-geral da República; Presidente do Supremo Tribunal de
Justiça).
4. Um segundo momento – o alargar da ex per iência
Numa primeira etapa, a da componente teóric a, procurámos aprof und ar e
consolidar os nossos conhecimentos. Nesse senti do, tentámos perspectivar a escola e
os fenómenos de convivência que nela ocorrem. Servimo -nos de uma construção
teórica dos conceitos r eferentes: à escola como organização social e enquanto
comunidade educativa; as regras de convivência e disciplina na escola e na sala de
aula; o ‘ bull y in g ’ nos rec reios; os comportamentos indisciplinados, o papel do
CAPI TULO V – METODOL OGIA
252
professor e d a f amília, a importância axiológica educativa . Perspectivámos, ainda, as
condições necessárias para desenvolver a aprendizage m nas s alas de aula.
Tendo passado à componente empírica, avançámos para um primeiro momento,
que consideramos ter sido de cariz exploratório; situámo-nos num contexto real e nele
nos integrá mos, para melhor o compreendermos: a Escola “A”. Após os dados obti dos
nesta primeira parte do nosso estudo empírico, ficámos com a curiosidade de al argar a
nossa re colha a um público mais vasto e em contex tos diferentes, com o objectivo d e
nos proporc ionar elementos de resposta às questões que se fo ram ergue ndo .
Construímos, a partir d aí, um questionário que nos permitisse indagar o tipo de
relações que existem entre docentes e discentes e entre os próp rios alunos, como se
desenca d eiam as condutas que afectam a convivência e qual a origem de
descontentamento dos a ctores na escola em rel ação à indisciplina e violênc ia. S empre
com a preocupação de int erpretar as imagens que os actores lhe atribuem.
Perante esta complexidade, sentimos que necessitávamos tomar o pulso à
realidade num contexto mais alargado, pelo que decidimos eleger como metodologia,
para a prossecução do nosso tra balho, a utiliz aç ão da análise qualitativa partindo do
estudo exploratório rea liz ado na Escola “ A ” , uma escola EB2,3. Como já temos
referido, este estudo alargou-se a três escolas do dist rito do P orto, com uma população
bastante heterogénea e em contextos diferentes: uma num centro urbano, outra na
periferia e uma terc ei ra no meio rural.
4.1. Contexto geográfico-social das Escolas em e s tudo
Na esc ola do centro coexist em bairros c onsiderados problemáticos,
care n ciados, com níve is elevados de desem prego e imi grantes, que vivem
essencialmente de subsídios.
Na escola da periferia, localiz a-se na z ona metropolitana, esta freguesia
funciona como um dormitório e com tendência a aumentar. Existem alguns alunos,
com origem em famílias disfuncionais e/ou com graves problem as sociais, apresentam
problemas ao nível do desenvolvimento da sua linguagem, na forma como se
relacionam uns com os outros e na fa lta de motiva ção.
A escola rural, mais pequena, com uma diminuição acentuada de alunos, está
numa área essenc ialmente agrícola e uma pa rte da população trabalha na cidade d o
CAPI TULO V – METODOL OGIA
253
Porto e arredores. O nível de inst rução familiar é baixo, o que se reflecte,
naturalmente, no ba ix o nível cultural dos alunos.
De se guida apresentamos os dados d e caracterização destas escolas. A fonte de
recolha d estes dados resultou da consulta dos s ites das respectivas escol as e os dados
são retira dos dos Proje ctos Educativos das esc olas em análise.
4.1.1. Escola da periferia (B )
O A grupamento de Escolas é um agrupamento verti cal constituído por: J ardim -
de-infância, 4 Escola E B1, e a Escola S ecundária/2,3, onde fica a Sede da Unidade
Orgânica do Agrupamento. Situa-se na pe riferia da cidade do Porto. As vias de
comunicação e a rede de transportes são boas.
A fregue sia, devido à sua privilegiada localização e a uma boa rede de
transportes públicos tem conhecido, nas últimas décadas, uma contínua ex pansão
urbanística e populacional, tendo -se mesmo tornado na mais populosa fr eguesia do
concelho. Mantém uma economia rur al, foi desenvolvendo o seu comércio e viram
criadas alg um as estruturas industriais. Mantendo, no entanto, o seu estatuto de
fregue sia do rmitório da cidade do Porto.
Anualmente a freguesia rece be, aproximadamente, um milhar de novas
pessoas, facto que p er si, revela mui to sobr e a diversidade sociológica da sua
população e sobre as implicações que daí d ecorrem : desenraizamen to cultural,
heteroge n eidade socioeconómica, díspares níveis de escolarização e fo rmação. O
impacto desta diversificação na popula ção disc ente, repercute-s e na necessidade de
adaptação a uma r ealidade e ducativa diferente. Tem alunos oriundos também de outras
fregue sias e concelhos, dada a sua localização limí trofe, e ainda de outros países ,
maior diversidade, mais e maiores desafios e maior necessidade de dar respostas a
outras rea lidad es.
O corpo docente do agrupamento é composto p or 218 professores no t otal,
sendo 122 pertencentes já há al guns anos ao quadro de a grupamento, com estabilidade.
O número de alunos são 1279, do 2º e 3º cicl o ( 593) e secundário (6 86). Os não
docentes do agrupamento são 49 fun cionários. Registamos tamb ém q ue a Escola
Secundária apresenta di ficuldades nas acessibilidades, envolvida por ruelas mui to
estreitas.
CAPI TULO V – METODOL OGIA
254
4.1.2. Escola ce ntro urbano (C)
O A grupa m ento Ve rtical das Escolas é composto por 6 J ardins -de- Infância, 4
Escolas EB 1 e por uma E B 2.3, totalizando 1204 alunos na sua maioria p rovenientes
de 3 Ba i rros e situa-se na cidade do Porto.
Esta freguesia que teve o utrora um cariz rural, do qual, se vislumbra, a espa ços,
alguns recantos d e épocas passadas, viu, desde a década de sessenta, o s s eus campos
agrícolas serem substituídos por zonas habitacionais, que foram crescendo a um ritmo
avassalador, ocupad as por um extracto social, prio ritariamente, op erariado. A partir do
‘ boom ’ de construção dos anos oitenta, a misci ge n ação artificial acon te ceu com a
edificação de zonas habitacionais de luxo. Esta dicotomia de géneros e de poder
económico a centuou as diferenças sociais, sendo que a grande maio ria dos alunos
provém do ex tracto menos beneficiado. Pela confluência deste e de outros factores nã o
é difícil adivinhar a situação actual: droga, alc oolismo, pr ostituição assintom ática,
roubo, marginalidade, desligamento afectivo dos laços familiares e falta de
perspec tivas futuras. Ex istem 12 bairros sociais, onde reside cerca de 40% da
população da freguesia de Ramalde do concelho do Porto, com 37.647 habitantes e
que abrange uma supe rfície d e 5,68 Km2 e que apresenta a maio r densidade
populacional (ap roximadamente 6650 habitantes por Km2) num total de 3772 fogos,
das 38 ilhas ex istentes em 2001 foram demolidas ou abandonadas 12 nos últ imos anos.
Alguns de stes bairros remontam aos anos 30, m as a maioria é da década de 60, para alojar
a população desaloj ada pelas demoli ções no centro do P orto.
Nos anos mais recentes, assistiu - se a um crescimento mui to significativo de
conjuntos residenciais de muita qualidade e até de lux o, que vieram ocupar alguns dos
terrenos agrícolas devol utos e, outros, onde se localizavam unidades industriais,
entretanto, ex tintas. A falta de qu alificação dos espaços ex teriores dos bairros sociais e
os baixos níveis escolares da popula ção, o exercício de a ctividades pou co qualificadas
e com precariedade de ví nculo laboral favorecem uma maior incidência de problemas
de cariz sociocultural e económico. É, pois, uma área da cidade onde predominam
graves problemas sociais como a precariedade económica, a desestruturação das
relações fa miliar es e a entrada precoce em trajec tos pré e delinquência juvenil, para
além da toxicodependência (c onsumo e tráfico).
Uma grande franja da po pulação nã o é escolarizada, não vê qualquer interesse
em investir na instrução dos seus educandos, pelo que o seu nível de envolvência na
CAPI TULO V – METODOL OGIA
255
formação é sempre de ficitário. Por um lado, uma grande parte dos alunos tem como
objectivo andar na escol a o máx imo de tempo pos sível, sem que tal se traduza em
sucesso educativo, reprovando ano após ano, se ndo no li mite a escola um meio de
inserção soci al que não encontram extra-muros. Por outro lado, há um pequeno grupo
que prossegue o seu p ercurso escolar com um êxit o assinalável. De aco rdo com os
dados oficiais, exist em 1357 beneficiários da medida de apoio social de nominada
Rendimento Social de I nserção (RS I). Dos dados obtidos constata-se que 50% destes
beneficiários residem nos bairros envolventes à EB 2.3. A precariedade eco nómica é
constatada nos ag regados familiares do agrupamento pelos dados do Apoio social
escolar (ASE)
5
de 2009/2010 em que 70,3 % dos alunos têm ASE.
Neste Agrupamento, ex istem 46 alunos, com necessidades educativas especiais
de carácter permanente, int eg r ados em grupos-turma, beneficiando de legislação
própria (D. L.nº 3/2008). Estão present es alunos de países de ori gem di versificada,
distribuídos por todos os ciclos de e nsino, do pré -escolar ao 3º ciclo.
O total do número de alunos do ag rupamento é de 111 3. O corpo docente conta
com 160 prof essores e, em termos pessoal n ão docente, com 79 funcionários. No ano
lectivo 2009/2010 frequentam o progra ma de novas oportunidades
6
178 alunos.
5
De fine as condiçõ es d e aplicação das medid as d e acção so cial es colar, d a respo nsabilidade do Ministério da
Educação e dos municípios, nas m od alidades de apoio alime ntar, alojamento, auxílios económicos e acesso a
recursos p edagógicos, destinadas às crianças da educação p r é -escolar, aos aluno s dos ensinos b ásico e secund ário e
do ensino recorrente nocturno que frequentam escolas públicas, escolas particulares ou cooperativas.
6
O programa Novas Oport un i dades é u ma iniciativa do Governo Português que pretende facilitar o acesso à
escolaridade po r parte da p opulação, visando aumentar a percentag em de alfabetizaç ão de P ortugal. P retende aind a
disponibilizar aos alunos d o Ensino Secundário a possibilidade d e poderem apren der u ma profissão com
equivalência ao 12º a no de escolaridade, visando d iminuir o núme ro de aluno s q ue desiste m da escola após
term inare m o 9º ano de escolaridade, e dar àqu eles que não tiveram opo rtunidade de estudar, verem as suas
competências re conhecidas co m u m gr au escolar p reviam ente su stentado e estabelecido de ac ordo com critérios
específ i cos.
CAPI TULO V – METODOL OGIA
256
4.1.3. Escola rural (D)
O Agrupamento de Escolas situa-se num concelho próximo da cidade do Porto.
É constituído por 7 Jardins de Infância; 9 escolas do 1º ciclo; 2 Escolas de 1º ciclo com
Jardins-de-infância: EB1; 1 Escola de 2º e 3º ciclos: EB2/3 ( a escola sede do
Agrupamento).
O povoamento do con celho desenvolve-s e, em al gumas áreas, em fun ção dos
melhores solos agrícolas , aproveitando os de me nores altitudes e menos inclinados.
Trata-se do povoamento disperso a que se associa o minifúndio, sur gindo aqui e ali
antiga s quint as senhoriais. Verifica-se uma tendência para o envelhe cimento do
concelho devido à dim inuição das tax as de natalidade. Tal facto está a repercutir -se na
frequê n cia escolar do A grupamento que tem ve rificado um decréscimo de alunos,
ainda que nã o acentuado.
Uma percenta ge m muito significa tiva da população activa do concelho em
geral, e da área deste Agrupamento em particular, desenvolve a sua actividade
profissional no Porto e arredore s. As freguesias de ste Agrupamento são me dianamente
urbanas, ma rcadas por características rurais. Apesar d a exist ência d e peque n as
unidades indus triais, ligadas, essencialmente ao ramo têx til, a agricultura praticada
assenta no minifúndio , predominando as explorações a gríc ol as com menos de 1
hectare de área. Tr ata-se, na maior parte dos casos , de uma agricultura a te mpo parcial,
subsidiária da ac tividade principal. Além das culturas for rageiras, a vinha também é
um dos produtos de bastante peso na economia agrícola da área, além do mi lho e da
batata. Qua nto às uni dades industriais existentes são de pequena dimensão,
abrange ndo a área da confecçã o têxtil e construção civil . Na área do comércio
predominam as pequenas unidades (merce arias, papelarias e cafés).
Na sua maioria, os alunos apresentam uma idade considerada normal para o
nível de ensino que frequentam, concluindo -se qu e a pe rcentagem anual de retenções é
bastante baix a, sendo mais elevada no terceiro ciclo do que no segundo ou no
primeiro. Praticamente todos os alunos frequentaram o pré-escolar, beneficiando das
vantagens desse facto. Em 2009/10 o n.º de alunos subsidiados pe la ASE, no 2.º e 3.º
ciclo é elev ado: 307 têm escalão A e 286 têm escalão B; no 1.º Ciclo são subsidiados
291 alunos e no Pré-escolar são subsidiadas 127 crianças. Em todo o Agrupamento
existem 32 alunos com NEE: 2 no Pré-Escolar, 9 no 1º CEB e 21 no 2º e 3º Ciclos.
CAPI TULO V – METODOL OGIA
257
Ao longo destes últ imos anos tem -se verificado uma leve redução da popu lação
escolar ao nível ensino básico, mas tem havido uma oscilação positiva no pré-escolar,
com uma frequência cada vez mais elevada nos jardins-de-infância. A ctualmente, o
número total de alunos do Agrupamento é de 1755. No ano 2009-2010 a f requênc i a é
de 268 crianças a nível d o P ré-escolar; 58 1 alunos a nível do 1º Ciclo; 343 a nível do
2º Ciclo ; 563 alunos e 16 frequentam o s Curso s de Educação e Formação ( CE F) a
nível do 3º Ciclo.
O corpo docente do Agrupamento é formado p or um tot al de 147 docentes,
sendo 123 do sexo fe mini no e 24 do sexo masculino. São 46% os docentes que
exercem a sua profissão neste Agrupamento há 5 anos ou mais e 19% há menos de 5 e
mais de 3 anos; pela 1ª vez exercem 35%. R egist amos que a estabilidade do corpo
docente, no ano em curso , sofreu alte rações em função do Concurso Nacional. Assim ,
num total de 147 docentes, 51 ex erce m pela 1.ª vez no Agrupamento (35%) , docentes
dos quadros são 116 (79%) e contratados são 31 (21%).
4.2. Pr o cedimentos seguidos no estudo realizado na 2ª parte
Após termos realizado um estudo qualitativo pelo recurso à metodologia do
estudo de caso, considerámos qu e as técnicas do inquérito por questionário, da
observação n ão p articip ante, da análise de conteúdo documental, da análise de
conteúdo das respostas e da realização de entrevistas prévias e xploratórias
constituiriam um suporte metodológico razoavelmente enqu adrador dos nossos
objectivos, cientes, no entanto das limitações que, inevitavelmente, se poderi am
colocar ao long o d este processo de investigação empírica .
4.2.1. O inquérito por questionário
Nesta fase, o vaivém teoria/pesquisa empírica ob edecia a um quadro teórico de
partida, num difícil diálo go entre os conceitos sub sta ntivos e os conceitos processuais.
Guiada p elos objectivos do nosso estudo p artimos para a construção do q uestionário,
tendo presente que “(…) o inquérito por questionário consiste em colocar a um
conjunto de inqui ridos, geralmente representativo de uma populaçã o, uma série de
perguntas relativas à su a situação soci al, profissional ou familiar, às suas opiniões,
(…) às suas expectativas, ou ainda sobre qualquer outro ponto que interesse aos
investigadores” ( Quivy , 1992: 190).
CAPI TULO V – METODOL OGIA
264
Conclusão p arcial
Neste ponto do nosso estudo ti vemos como principal objectivo dar a conhecer a
metodologia que elegemos para a componente empírica, os objectivos da investig ação,
as opções metodoló gicas que efectuámos, os cuidados que ti vemos na elaboração do
nosso questionário e a descrição das perguntas que o constituem; complementámos
com a apresentação das g relhas construídas vis ando obter uma análise objectiva.
Fizemos também a descrição da nossa amostr a, de acordo com as características
pessoais dos alunos e professores e com o tipo de escola onde se encontram .
Consideramos, portanto, criada s as condições para prosseguir com a apresentaçã o do s
dados rec olhidos e a respectiva análise.
Com o j á referimos, na segunda fase, decidim os construir um questionário estruturado
com o obj ectivo de no s pr oporciona r elementos d e resposta que nos permi tam conhecer
m elhor as opiniões e atitudes dos alunos e professo res, sobre a problem ática e m quest ão e
tentar alcanç ar deste m odo um m aior número de sujeitos.
Após a recolha dos dados, procedemos ao l ançam ento dos dados neles contidos numa
folha de cálculo. Posteriorm ente executám os o tr atamento estatístico, de forma a pr oporciona r
a anál ise e interpretação e o seu relacionam ento co m a problemática em questão e com os
objectiv os desejados.
Para a análise das respostas do questioná rio servim o -nos da est atística i nfe rencial.
Tivem os o cuidado de nunca nos refe rirmos a certezas, m as sim a probabilidade s. O teste do
Qui- quadrado, ap licado na relaç ão mútua das variáveis consider adas (dependentes e
independente s). Entendem os por variáv el significat iva todos os cruzam entos efec t uados entre
duas questões cuja probab ilidade observada obti da fo sse m enor ou igual a 0,05.
Apontam os para as causas da indiscipl ina, vistas por alunos e professores da escola do
2º e 3º ciclo do ensino bási co, que constituem obstácul os à construção da convivênci a.
Dividim os o nosso questi onário em dois grandes blocos, no prim eiro analisam os as
possíveis causas da indisciplina, por entenderm os que a indisciplina é um si ntoma de que algo
vai m al e que pert urba a construção da convivência na escola e que como qualqu er doença
necessitam os fazer um diagnóstico exacto, uma compreensão clara do fenómeno e do que ele
fomenta, para posteriormen te actuar. No segundo bloco procuramos saber com o se constrói a
conviv ência nestas escolas. Realizam os doi s questionários, um para professo res e outro para
alunos com o mesmo tipo de questões, cuja aná lise e tratamento de dados apresentam os no
séptim o e no oitavo capítul o desta investig ação.
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