A Influência da Personalidade, Redes e Confiança no Bem-Estar Subjetivo: uma Análise em Contexto Empresarial
Abstract
Os estudos empíricos sobre bem-estar subjetivo centram-se em conceitos como a felicidade e a satisfação com a vida, recorrendo à análise de dados macro ou micro de regiões ou países. Esta tese pretende estudar o bem-estar subjetivo em empresas, devido ao seu potencial para a construção da vantagem competitiva e à ausência deste tipo de estudos em âmbito empresarial. Adicionalmente, propõe-se uma nova abordagem ao bem-estar subjetivo incluindo a satisfação com o trabalho. Os resultados obtidos mostram que a relação de confiança entre colegas de trabalho, bem como a confiança na empresa, nos outros e na família estão positivamente relacionados com a felicidade pessoal e satisfação com o trabalho.
Full text
Liliana Lima Lousinha Alves DEPARTAMENTO DE ECONOMÍA CUANTITATIVA PROGRAMA DE DOCTORADO EN ECONOMÍA Y EMPRESA FACULTAD DE CIENCIAS ECONÓMICAS Y EMPRESARIALES SANTIAGO DE COMPOSTELA 2016 TESIS DOCTORAL
Liliana Lima Lousinha Alves DEPARTAMENTO DE ECONOMÍA CUANTITATIVA PROGRAMA DE DOCTORADO EN ECONOMÍA Y EMPRESA FACULTAD DE CIENCIAS ECONÓMICAS Y EMPRESARIALES SANTIAGO DE COMPOSTELA 2016 TESIS DOCTORAL
Los estudios empíricos sobre bienestar subjetivo se centran en conceptos como la felicidad y la satisfacción con la vida, mediante el análisis de los datos macro o micro procedentes de regiones o países. Esta tesis tiene como objetivo estudiar el bienestar subjetivo en empresas, debido a su potencial para la construcción de ventaja competitiva y la ausencia de este tipo de estudios en el ámbito empresarial. Además, se propone un nuevo enfoque de bienestar subjetivo incluyendo la satisfacción con el trabajo. Los resultados obtenidos muestran que la relación de confianza entre los compañeros de trabajo, así como la confianza en la empresa, en los demás y en la familia están positivamente relacionados con la felicidad personal y la satisfacción en el trabajo. el bienestar subjetivo, satisfacción en el trabajo, el capital social, redes, confianza Os estudos empíricos sobre benestar subjetivo céntranse en conceptos como a felicidade e satisfacción coa vida, recorrendo á análise de datos macro ou micro de rexións ou países. Esta tese pretende estudar o benestar subxectivo en empresas, debido ao seu potencial para a construción da vantaxe competitiva e á ausencia deste tipo de estudos en ámbito empresarial. Adicionalmente, propóñense unha nova visión ao benestar subjetivo incluíndo a satisfacción co traballo. Os resultados obtidos mostran que a relación de confianza entre compañeiros de traballo, así como a confianza na empresa, nos outros e na familia están positivamente relacionados coa a felicidade persoal e a satisfacción co traballo. benestar subjetivo, satisfacción co traballo, capital social, redes, confianza
Empirical studies on subjective well-being focus on concepts such as happiness and life satisfaction, by analyzing macro or micro data from regions or countries. This thesis aims to study subjective well-being in companies, because of its potential for building competitive advantage and the absence of such studies in business scope. In addition, it is proposed a new approach to subjective well-being including job satisfaction. The results show that trust relationship between co-workers, as well as trust in the company, in others and in the family is positively related to personal happiness and job satisfaction. subjective well-being, job satisfaction, social capital, networks, trust Os estudos empíricos sobre bem-estar subjetivo centram-se em conceitos como a felicidade e a satisfação com a vida, recorrendo à análise de dados macro ou micro de regiões ou países. Esta tese pretende estudar o bem-estar subjetivo em empresas, devido ao seu potencial para a construção da vantagem competitiva e à ausência deste tipo de estudos em âmbito empresarial. Adicionalmente, propõe-se uma nova abordagem ao bem-estar subjetivo incluindo a satisfação com o trabalho. Os resultados obtidos mostram que a relação de confiança entre colegas de trabalho, bem como a confiança na empresa, nos outros e na família estão positivamente relacionados com a felicidade pessoal e satisfação com o trabalho. bem-estar subjetivo, satisfação com o trabalho, capital social, redes, confiança
vii AGRADECIMENTOS O trabalho apresentado é fruto de um enorme esforço pessoal, sacrifício e perseverança perante obstáculos de diversas naturezas. Este esforço e sacrífico, necessários para a prossecução da investigação, seria indubitavelmente inglório sem o apoio das pessoas que estiveram comigo neste caminho. Este texto não pretende apenas agradecer, mas acima de tudo reconhecer a importância das pessoas que me rodearam e contribuíram para a concretização e finalização da investigação. Importantes ao nível científico e importantes, igualmente, ao nível pessoal. Em primeira ordem quero agradecer profundamente todo o apoio que me foi dado pela Professora Doutora Helena Santos Rodrigues. Quero reconhecer publicamente a sua importância e o seu incentivo decisor na escolha deste caminho. Ao gosto pessoal pela investigação, as suas palavras de apoio e de orientação foram a pedra basilar deste percurso. Agradeço à Professora Doutora Helena Santos Rodrigues, mestre científica e orientadora, todas as condições que tornaram possível a elaboração e a finalização do trabalho. Muito obrigada, Professora Doutora Helena Santos Rodrigues. Em igual ordem, destaco e agradeço à Professora Doutora Isabel Neira Goméz toda a sua orientação e todo o seu apoio ao longo deste três anos. Reconheço nos seus ensinamentos a evolução das minhas capacidades nos últimos anos e na sua orientação o trabalho desenvolvido. Agradeço todo o tempo dispensado na orientação e todos os conselhos fundamentais na condução da investigação. Destaco e agradeço todas as palavras de incentivo e de reconhecimento, assim como todo o apoio nos processos burocráticos associados a este percurso. Muito obrigada, Professora Doutora Isabel Neira Goméz. Ao nível pessoal, e com enormes reflexos neste trabalho, quero agradecer ao Rui Rocha, meu companheiro de todas as horas e de todos os cenários. Apoio fundamental ao nível emocional e apoio fundamental na concretização da investigação. Além de companheiro, o Rui Rocha foi relevante no contacto com as empresas e na recolha de dados, sem os quais o resultado e a finalização desta investigação não seriam certamente estes. Rui, muito obrigada! Destaco neste percurso, a companhia e apoio das minhas amigas Luciana Correia e Olga Pereira. Muito obrigada Luciana pelo teu tempo. Muito obrigada Olga pelas tuas palavras. Aos meus pais, Artur Luís Alves e Maria da Piedade Lima, obrigada por sempre incentivarem a minha curiosidade e por sempre confiarem e apoiarem as minhas opções. Obrigada pelo seu esforço convertido em oportunidades para mim, pelas suas palavras convertidas em força, pelas suas horas que acrescentaram horas às minhas horas. Muito muito muito obrigada.
Índice Geral __________________________________________________________________________________ xv Introducción .................................................................................................................... 133 Discusión de las Hipótesis H1, H2 y H3 ......................................................................... 133 Discusión de las Hipótesis H4, H5 y H6 ......................................................................... 135 Discusión de los Resultados y Conclusiones .................................................................. 138 Limitaciones y Futuras Líneas de Investigación ............................................................. 140 Apêndice 2 – Questionário versão Portuguesa ....................................................................... 141 Apêndice 3 – Questionário versão Castelhana ....................................................................... 155 Apêndice 4 – Análise Descritiva ............................................................................................ 167 Apêndice 5 – Ordered Probit Regressions: todas as variáveis ............................................... 191 Referências Bibliográficas ...................................................................................................... 197
ÍNDICE DE TABELAS
Índice de Tabelas __________________________________________________________________________________ xix Tabela 1 – Tipologias de Questionários de Análise de Personalidade: Big Five Factor .......... 12 Tabela 2 – Medição do Bem-estar Subjetivo: European Values Study (2008) ........................ 70 Tabela 3 – Medição Redes: Tamanho, Frequência e Relação (Confiança, Colaboração e Sentido de Interajuda) ............................................................................................................... 73 Tabela 4 – Medição Confiança Pessoal .................................................................................... 74 Tabela 5 – Medição Confiança Organizacional ....................................................................... 74 Tabela 6 – Análise Descritiva ................................................................................................... 77 Tabela 7 – Análise Fatorial Exploratória da Personalidade ..................................................... 87 Tabela 8 – Análise Fatorial Exploratória das Redes................................................................. 88 Tabela 9 – Análise Fatorial Exploratória da Confiança Pessoal e da Confiança Organizacional .................................................................................................................................................. 89 Tabela 10 – SEM-PLS: Weight e Loading das variáveis observáveis ...................................... 91 Tabela 11 – Modelo SEM-PLS: Quality Criteria Overview .................................................... 93 Tabela 12 – Modelo SEM-PLS: Validade discriminante - Raiz Quadrada AVE ..................... 94 Tabela 13 – Modelo SEM-PLS: Validade discriminante – Crossloadings .............................. 95 Tabela 14 – Modelo SEM-PLS: Variância Explicada .............................................................. 97 Tabela 15 – Modelo SEM-PLS: Outer Wheights Blootstrapping ............................................ 98 Tabela 16 – Modelo SEM-PLS: Intervalos de Confiança ........................................................ 99 Tabela 17 –Modelo SEM-PLS: Indicador Cross-validated communality ............................. 100 Tabela 18 - Modelo SEM-PLS: Indicador Cross-validated redundancy ............................... 101 Tabela 19 – Modelo SEM-PLS: Construct Cross-validated communality ............................ 102 Tabela 20 - Modelo SEM-PLS: Construct Cross-validated redundancy ............................... 102 Tabela 21 – Resultados Ordered Probit Regressions – Modelos Finais ................................. 113 Tabela 22 – Idade: mínimo, máximo e média ........................................................................ 169 Tabela 23 – Idade: frequência e percentagem por faixa etária ............................................... 169 Tabela 24 – Estado Civil: frequência e percentagem ............................................................. 170
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ xx Tabela 25 – Estado de Saúdo por frequência e percentagem ................................................. 172 Tabela 26 - Anos na Empresa por frequência e percentagem ................................................ 173 Tabela 27 - Rede Família Tamanho: Mínimo, Máximo e Média ........................................... 176 Tabela 28 - Rede Família Tamanho: frequência e percentagem ............................................ 176 Tabela 29 - Rede Amigos Tamanho: Mínimo, Máximo e Média .......................................... 177 Tabela 30 – Rede Amigos Tamanho: frequência e percentagem ........................................... 177 Tabela 31Rede Vizinhos Tamanho: Mínimo, Máximo e Média .......................................... 178 Tabela 32 – Rede Vizinhos Tamanho: frequência e percentagem ......................................... 178 Tabela 33 - Rede Colegas Tamanho: Mínimo, Máximo e Média .......................................... 179 Tabela 34 – Rede Colegas Tamanho: frequência e percentagem ........................................... 179 Tabela 35 - Rede Família Frequência: Mínimo, Máximo e Média ........................................ 180 Tabela 36 – Rede Família Frequência: frequência e percentagem ......................................... 181 Tabela 37 - Rede Amigos Frequência: Mínimo, Máximo e Média ........................................ 181 Tabela 38 – Rede Amigos Frequência: frequência e percentagem ........................................ 181 Tabela 39 - Rede Vizinhos Frequência: Mínimo, Máximo e Média ...................................... 182 Tabela 40 – Rede Vizinhos Frequência: frequência e percentagem ....................................... 182 Tabela 41 - Rede Colegas Frequência: Mínimo, Máximo e Média........................................ 182 Tabela 42 - Rede Colegas Frequência: frequência e percentagem ......................................... 183 Tabela 43 - Redes Confiança, Colaboração e Sentido de Interajuda: Mínimo, Máximo e Média ................................................................................................................................................ 183 Tabela 44 – Variáveis Bem-estar Subjetivo: Mínimo, Máximo e Média ............................... 184 Tabela 45 - Felicidade Pessoal: frequência e percentagem .................................................... 184 Tabela 46 - Satisfação com a Vida: frequência e percentagem .............................................. 185 Tabela 47 - Satisfação com o Trabalho: frequência e percentagem ....................................... 185 Tabela 48 – Bem-estar Subjetivo e Variáveis Sociodemográficas ......................................... 186 Tabela 49 – Confiança nas Redes e Variáveis Sociodemográficas ........................................ 187
Índice de Tabelas __________________________________________________________________________________ xxi Tabela 50 – Colaboração nas Redes e Variáveis Sociodemográficas .................................... 188 Tabela 51 – Sentido de Interajuda nas Redes e Variáveis Sociodemográficas ...................... 189 Tabela 52 – Resultados Ordered Probit Regressions – Todas as variáveis ............................ 193
ÍNDICE DE GRÁFICOS
1. Introdução
Capítulo 1 - Introdução __________________________________________________________________________________ 3 A gestão de empresas foi pautada até à década de 80 pelo foco nos recursos materiais e financeiros da organização. A vantagem competitiva era concebida através da reorganização de recursos internos, da adoção de novos procedimentos produtivos, da compra de máquinas de produção de maior capacidade, e da consequente prática de preços altamente competitivos ou de produtos e serviços diferenciados. No entanto, os investigadores e os gestores consciencializaram que existe outro recurso muito valioso e com capacidade de criação de vantagem competitiva: o capital humano. Sobre este aspeto, o estudo do capital intelectual ganhou destaque na medida em que evidenciou a importância do conhecimento que existe dentro das organizações, dos gestores e dos colaboradores, por via do conhecimento das funções que exerce, da cultura organizacional que predomina e das relações entre os membros internos e parceiros externos da empresa. Este conhecimento viabiliza a criação de produtos e processos inovadores e competitivos face aos concorrentes. Assim, a valorização do capital humano, bem como a sua satisfação laboral ganhou protagonismo no ambiente empresarial e na investigação científica, enquanto possível fonte de vantagem competitiva. Por outro lado, o conceito de bem-estar subjetivo tem sido abordado profundamente pela psicologia, e posteriormente pela sociologia e pela economia. Com denominação não consensual, felicidade, afeto positivo, satisfação com a vida, bem-estar subjetivo são algumas das denominações mais comuns. Apesar de satisfação com a vida reunir mais consenso na sua definição, felicidade e bem-estar-subjetivo são conceitos que não encontram o mesmo tipo de consenso. Atendendo à ação do afeto e da cognição em todas as atitudes e comportamentos humanos, vários autores defendem que a felicidade ou bem-estar são referentes a sensações específicas e passageiras sobre determinado momento de vida, enquanto a satisfação com a vida reflete uma ponderação sobre todos os momentos vividos até ao momento. O estudo do bem-estar subjetivo tem alcançado conclusões válidas e corroboráveis sobre a influência da personalidade e do capital social no bem-estar subjetivo. Ao nível da personalidade, a teoria do Big Five Factor tem sido amplamente utilizada e consiste na caracterização da personalidade através de cinco fatores: extroversão, amabilidade, escrupulosidade, neuroticismo, e abertura à experiência. Diversos autores concluíram que elevados níveis de extroversão e baixos níveis de neuroticismo (estabilidade emocional) estão associados ao bem-estar. Adicionalmente, a satisfação com o trabalho também se encontra relacionada com outro fator de personalidade: a escrupulosidade, isto é, persistência na elaboração de determinada tarefa ou função. Entre os questionários utilizados o 44 Big Five Factor é um dos questionários mais utilizados quer na área da psicologia, quer na área da gestão, pela consistência interna que revela e pela abrangência e síntese da análise. Por sua vez, o capital social pode ser definido pelo valor em si de fazer parte de um agregação social, bem como pelo benefício e valor que pode alcançar através da pertença a determinada agregação social. O capital social é constituído pelas redes, normas e confiança que constituem a agregação, podendo esta agregação ser mais próxima – rede família, por exemplo – ou mais ampla – como é o caso dos sindicatos. Nesta conceptualização, a confiança é um fator chave enquanto motor das relações estabelecidas entres os membros das redes em que o indivíduo se insere. As investigações realizadas até ao momento centram-se em amostras de diferentes países ou regiões e exploram principalmente a relação entre o capital social e a felicidade e satisfação com a vida. Estas investigações analisam dados
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 4 recolhidos por questionário entre cidadãos de distintos países e que abordam distintos temas. A nível europeu, destaca-se a utilização do European Values Study e do European Social Survey a partir do qual se publica grande parte das conclusões sobre a influência do capital social na felicidade pessoal e na satisfação com a vida. No continente americano, e também nos restantes continentes, realça-se a utilização do World Values Survey, do Gallup World Poll e do Current Population Surveys. Os resultados destes questionários têm revelado que o capital social, presente na relação estabelecida com a família e os vizinhos, com a religião e a comunidade, é influente na felicidade sentida pelo indivíduo. Considera-se como ponto de partida do presente trabalho os resultados científicos sobre a importância do capital social para o bem-estar, assim como da personalidade e da relação com colegas e superiores laborais na satisfação com o trabalho, propondo uma nova abordagem ao bem-estar. Neste sentido, esta investigação pretende testar o conceito de bem-estar subjetivo enquanto conceito que engloba a felicidade pessoal, a satisfação com a vida e a satisfação com o trabalho. A felicidade pessoal define-se pela sensação afetiva positiva perante curtos momentos de vida. Por sua vez, a satisfação com a vida é uma satisfação que resulta da ponderação afetiva e cognitiva de diversos momentos da vida, tendo um caracter menos passageiros do que a felicidade pessoal. Assim, considerou-se neste trabalho a hipótese de que a felicidade pessoal e a satisfação com a vida conduzem a uma satisfação pessoal. Por outro lado, a satisfação com o trabalho resulta da ponderação afetiva e cognitiva sobre a atividade laboral de cada indivíduo, traduzindo-se em satisfação laboral, como o próprio nome indica. De acordo com a hipótese referida anteriormente, a satisfação pessoal e a satisfação laboral poderão ser os constituintes do bem-estar subjetivo. Este bem-estar dependerá da existência ou não existência dos dois tipos de satisfação, considerando-se assim a esfera pessoal e a esfera laboral como áreas distintas, mas fundamentais, pela importância que têm para cada indivíduo e pelo número de horas diários que despendem em cada uma das esferas. O modelo de investigação deste trabalho testa se o novo conceito de bem-estar subjetivo proposto nesta investigação, enquanto conceito que pela primeira vez acrescenta a satisfação com o trabalho, à felicidade pessoal e à satisfação com a vida num só constructo, poderá ser influenciado pela personalidade individual, pelas redes pessoais e profissionais em que se está envolvido, pela confiança sentida em relação a outra pessoa e pela confiança na empresa onde trabalha. Assim, a personalidade é analisada através da teoria do Big Five Factor e a importância da sua presença neste modelo está relacionada com a influência e monitorização que a personalidade exerce nas atitudes e comportamentos humanos. Por sua vez, as redes consideradas no modelo são a rede familiar, a rede de amigos, a rede de vizinhos e a rede de colegas de trabalho, sem diferença hierárquica. As quatro redes são analisadas nesta investigação do ponto de vista do tamanho da rede, da frequência de contacto, e da confiança, colaboração e sentido de interajuda entre os membros de cada rede. Por fim, a confiança pessoal é observada através da confiança em relação a outra pessoa enquanto a confiança organizacional é observada do ponto de vista da confiança sentida nos superiores hierárquicos, nos gestores e na empresa.
Capítulo 1 - Introdução __________________________________________________________________________________ 5 Além do modelo de investigação incluir uma nova conceptualização do bem-estar subjetivo, reforçando a importância da esfera laboral, o novo questionário desenvolvido foi aplicado num novo âmbito de investigação, pouco usual nas investigações sobre este tema: a empresa. Pretende-se assim testar as relações de influência entre capital social e felicidade pessoal e satisfação com a vida, exploradas em outras investigações, ao ambiente empresarial observado nesta investigação, com o objetivo de perceber os alicerces da satisfação pessoal e também da satisfação laboral nas empresas estudas neste trabalho. Neste sentido, o questionário foi aplicado em ambiente laboral a membros de empresas localizadas na Eurorregião Galiza – Norte de Portugal durante o ano de 2015. Entre os itens analisados no questionário, a presença de questões relacionadas com a confiança organizacional pretende ser um contributo relevante na medida em que a confiança nos superiores hierárquicos, nos gestores e na empresa poderá ser influente da satisfação laboral, mas também da satisfação pessoal. Assim, no capítulo 2 apresenta-se uma revisão de literatura sobre os conceitos fundamentais da presente investigação, sendo eles a personalidade e o capital social. São apresentadas as diversas definições dos conceitos, bem como abordagens científicas. Atendendo à importância da confiança nesta investigação, são referidas tipologias e abordagens da confiança, bem como as mais-valias organizacionais associadas a esta variável. Por sua vez, expõe-se no capítulo 3 a revisão de literatura realizada sobre o bem-estar subjetivo. Ao longo do capítulo são apresentados os contributos científicos de diversas áreas científicas, que dão um carácter eclético ao conceito, motivo pelo qual ainda não existe uma definição de bem-estar aceite com unanimidade. Considerando que se sugere a inclusão da satisfação com o trabalho enquanto variável de bem-estar subjetivo, são apresentados alguns estudos teóricos e empíricos realizados sobre este tipo de satisfação. O capítulo 4 encerra a revisão de literatura e apresenta os principais resultados científicos que relacionam os conceitos abordados neste estudo. Por sua vez, o capítulo 5 inicia a parte empírica desta investigação, expondo a questão de partida, o questionário desenvolvido, a análise descritiva e as hipóteses delineadas. Para o teste das hipóteses são realizadas análises fatoriais exploratórias, SEM-Partial Least Squares e Ordered Probit Regression. Os resultados das duas primeiras análises são apresentados no capítulo 6 e os resultados das Ordered Probit Regressions são expostos no capítulo 7. Assim, o capítulo 6 inicia com a fundamentação das três primeiras hipóteses, seguindo a análise estatística relacionada com os testes pretendidos e a respetiva análise e validação das hipóteses. O capítulo 7 expõe inicialmente a fundamentação das hipóteses 4, 5 e 6 cujo teste é realizado através de Ordered Probit Regressions. Segue-se assim a apresentação dos resultados e validação das hipóteses. A tese encerra no capítulo 8 onde são discutidas as hipóteses e os resultados alcançados, apresentando-se as limitações da investigações e futuras linhas de investigação.
2. Conceitos Prévios: Personalidade e Capital Social
Capítulo 2 - Conceitos Prévios: Personalidade e Capital Social __________________________________________________________________________________ 9 2.1. INTRODUÇÃO O capítulo 2 aborda as investigações científicas desenvolvidas nas últimas décadas sobre a personalidade e o capital social. Neste sentido o capítulo encontra-se dividido em duas secções principais: personalidade e capital social. Partindo de uma abordagem teórica dos principais conceitos da presente tese, o capítulo está organizado de forma a focalizar-se nos estudos desenvolvidos a priori e que apresentam um modelo semelhante ao desenvolvido nesta investigação ou com contributos importantes para este estudo. Assim, o capítulo inicia com contributos científicos da área da psicologia e da gestão sobre tipos de medição da personalidade. Nesta abordagem destaca-se a teoria da personalidade: Big Five Factor, validada na psicologia e aplicada em áreas científicas distintas. A secção dedicada à personalidade apresenta os traços e as componentes que constituem os diferentes fatores, atendendo a que é uma teoria agregadora. Adicionalmente, são expostos e comparados questionários desenvolvidos tendo como fundamento a teoria Big Five Factor, bem como estudos comparativos sobre a consistência de cada questionário enquanto medida de personalidade. A segunda secção deste capítulo inicia com a conceptualização de capital social e das distintas abordagens científicas ao mesmo. Atendendo que o capital social é um conceito agregador, são mencionados diversos estudos científicos sobre redes e confiança, enquanto constituintes do capital social. A revisão de literatura sobre confiança merece destaque e maior foco, uma vez que é fundamental na investigação do capital social e do bem-estar subjetivo. Assim, são referidas tipologias de confiança, tipos de abordagens e vantagens associadas à confiança em diversas redes. Todos os tópicos realçam estudos atuais com contributos de relevo para esta investigação. Na última secção apresentam-se as principais conclusões da revisão de literatura sobre personalidade e capital social. 2.2. PERSONALIDADE Na literatura científica da área da psicologia e da área da gestão, encontram-se diversos estudos que têm como base a personalidade, sendo esta analisada através de variáveis pessoais muito específicas, tais como a tenacidade (J. R. Baum & Locke, 2004); o locus control (Kroeck, Bullough, & Reynolds, 2010); o otimismo (Ferreira, 2003); a necessidade de realização pessoal (Shane, Locke, & Collins, 2003); a paixão pelo trabalho (Timmons, 2000); o controlo da ansiedade (Erez & Judge, 2001); o assumir riscos (García, Martínez, & Fernández, 2010). Contudo, estes estudos definem as características de personalidade de forma distinta e apresentam resultados desagregados. Assim, entre a comunidade científica de
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 10 psicologia surgiu uma teoria robusta que reúne grande consenso, sendo essa teoria a “Grande Teoria da Personalidade”: o Five-Factor Model (Envick & Langford, 2000; Judge & Zapata, 2014). Esta teoria da personalidade é também denominada como Big Five Factor e argumenta que todas as personalidades podem ser avaliadas através da análise de cinco fatores: extroversão; amabilidade; escrupulosidade; neuroticismo; e abertura à experiência (Ciavarella, Buchholtz, Riordan, Gatewood, & Stokes, 2004; J.M. Digman, 1990; Envick & Langford, 2000; Muris, Meesters, & Diederen, 2005; Seibert & Kraimer, 2001; Zhao & Seibert, 2006). O fator extroversão, também denominado de sociabilidade, mede a interação pessoal com o meio social, podendo a pessoa ser mais extrovertida – calorosa, faladora, otimista - ou mais introvertida – independente, reservada, de difícil “descodificação”. Por sua vez, o fator amabilidade mede a tendência individual para atitudes e comportamentos mais benévolos ou mais beligerantes. Contrasta características como generosidade, boa índole, confiável versus cinismo, rudeza, manipulativo. Relativamente ao fator escrupulosidade, este fator considera a capacidade de organização, concentração e motivação pessoal para atingir determinado objetivo. Uma pessoa organizada e que planeia as suas tarefas terá valores mais elevados de escrupulosidade, enquanto aquela que é desorganizada e não se foca em objetivos possui valores mais baixos. O fator neuroticismo, por sua vez, avalia o estado neurótico da pessoa, isto é, a sua estabilidade emocional. Uma pessoa que apresente valores baixos de neuroticismo tende a ser mais tranquila e segura de si mesmo. Se no extremo mínimo está a estabilidade e confiança pessoal, no outro extremo máximo encontram-se traços relacionados com a personalidade de uma pessoa nervosa, ansiosa e depressiva. Por fim, o fator abertura à experiência, ou também apelidado de abertura intelectual, avalia a tendência da pessoa para ser mais criativa, imaginativa e apreciadora de novas experiências, ou, por outro lado, mais convencional e mais focada em colocar em prática as ideias (Ciavarella et al., 2004; Envick & Langford, 2000; Seibert & Kraimer, 2001; Zhao & Seibert, 2006). A teoria do Big Five Factor teve como ponto de partida uma lista de variáveis criada por Cattell (1945) e que perspetivava a análise da personalidade de determinado indivíduo (John & Srivastava, 1999). Posterior à clarificação dos cinco fatores de personalidade por autores como Fiske (1949) e Tupes & Christal (1961), J. M. Digman & Takemoto-Chock (1981), Goldberg (1981), as denominações dos cinco fatores já se encontravam na década de 90 uniformizadas e científicamente aceites, bem como as características de personalidade a que se referiam (Costa & McCrae, 1985, 1992; John & Srivastava, 1999; Zhao & Seibert, 2006). Neste sentido, a teoria Big Five Factor agrupa, nos cinco fatores, os diversos traços de personalidade e as respetivas componentes, anteriormente investigadas individualmente ou segmentadas em pequenos grupos de características. Assim, ao fator extroversão estão associados traços de personalidade tais como sociável, gregário, assertivos, falador, ativo. Este fator analisa três componentes da personalidade: ambição, sociabilidade e individualidade. A ambição está relacionada com a toma de iniciativa, agilidade, impetuosidade, gosto pela liderança, e ser persuasivo. A segunda componente – sociabilidade – está relacionada com o gosto por conhecer pessoas e ser conversador. A individualidade – terceira componente do fator extroversão - está relacionada
Capítulo 2 - Conceitos Prévios: Personalidade e Capital Social __________________________________________________________________________________ 17 (2010) incluiu nos Putnam’s groups todos os grupos nos quais os indivíduos entram pelo prazer de serem membros de associações que prestam serviços de bem-estar social para: idosos, organizações pertencentes à Igreja, clubes desportivos, clubes de arte e literatura, grupos de fraternização e associações juvenis, grupos de defesa dos direitos humanos e dos animais, bem como movimentos de paz e grupos de proteção ambiental. Na segunda dimensão - capital social relacional extrínseco - Sarracino (2010) considerou o ato de ser membro e voluntário não renumerado em grupos nos quais o indivíduo participa por motivação extrínseca (apelidados de Olsonian’s groups). Foram considerados Olsonian’s groups os sindicatos, organizações profissionais e agrícolas, associações de fraternidade, bem como organizações relacionadas com a proteção do consumidor e da saúde. Por sua vez, a dimensão - outro capital social relacional - incluiu o ato de ser membro e voluntário não renumerado em outros grupos cuja distinção entre a motivação intrínseca e extrínseca não é muito clara. Por fim, a dimensão - não-capital social relacionalinclui a confiança na igreja, nas forças armadas, no sistema educativo, na imprensa, nos sindicatos, na polícia, no parlamento, nos serviços civis, nas grandes empresas e no sistema judicial (Rodríguez-Pose & von Berlepsch, 2014; Sarracino, 2010). Sarracino (2010) utiliza a denominação de Putnam’s groups e Olsonian’s groups uma vez que R. Putnam (1993) e Olson (1982) discordam na sobreposição de benefícios das redes sociais. R. Putnam (1993) defende que a participação em redes sociais produz benefícios, como o reforço da cooperação e da confiança, quer dentro do grupo quer na sociedade, aumentando o crescimento económico e a eficiência governamental. Olson (1982), por sua vez, defendeu que nem todas as redes sociais promovem esses fins, uma vez que existem associações sociais (sindicatos, organizações profissionais, grupos de lobby e partidos políticos) com interesses particulares que não são necessariamente benéficos para a sociedade. Na visão de Olson (1982), este tipo de associações não procuram “aumentar o tamanho do bolo”, mas sim esforçar-se para receber “a maior fatia do bolo social” (Olson, 1982, p. 43). Os grupos de interesse propostos por Olson (1982) procuram limitar a entrada de novos membros, com o objetivo de maximizar os benefícios de cada membro do grupo, sendo frequente observarem-se conflitos de interesse entre grupos sociais, transmitindo maior instabilidade à economia e limitando o crescimento económico (Olson, 1982; Rodríguez-Pose & Berlepsch, 2012). Por sua vez, Dasgupta (2010) apresentou uma definição sucinta de capital social. De acordo com Dasgupta (2010), o capital social deve ser interpretado como redes interpessoais onde os membros da rede desenvolvem e mantêm confiança uns nos outros com o objetivo de cumprirem as suas promessas através do cumprimento mútuo dos acordos. Van Oorschot & Arts (2005), bem como Portela, Neira, & Salinas-Jiménez (2013) consideraram que existe um crescente consenso sobre as três grandes dimensões do capital social, sendo elas: redes sociais (relações informais, voluntariado, membro de organizações); normas socias (partilha de normas, valores cívicos); e confiança social (confiança generalizada, confiança institucional, confiança interpessoal).
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 18 De igual modo, J. F. Helliwell, Huang, & Wang (2013) consideram a importância de incluir diversas medidas chave relacionadas com a qualidade do tecido social, de entre elas a qualidade das relações e normas sociais, bem como a confiança sentida. Klein (2013) identificou que os contactos sociais, a pertença a grupos sociais enquanto membro e a questão da confiança são os três conceitos transversais aos diversos autores do capital social. No entanto, Klein (2013) defende que o capital social deve ser considerado além da sua componente de estruturas sociais, consistindo num recurso que foi desenvolvido pelo indivíduo para gerar algum tipo de retorno no futuro. O capital social não consiste na estrutura que o suporta, mas nos resultados que advém da estrutura, sendo um resultado de interações em redes sociais, com base em normas e confiança entre indivíduos e instituições, resultando deste investimento retornos monetários ou físicos (como é o caso do aumento do bem-estar subjetivo)(Klein, 2013). Adler & Kwon (2002) argumentaram e defenderam a denominação dos resultados da interação social como capital, apresentando sete argumentos. Os autores comparam o capital social a outros tipos de capital, justificando que, à semelhança dos outros capitais, o capital social é um ativo a longo prazo no qual são investidos recursos com a perspetiva de obter benefícios no futuro. Estes benefícios podem ser solidariedade, poder, bem como um acesso superior a informação e resultam da construção de redes e no desenvolvimento das relações, aumentando a identidade coletiva e facilitando também a ação coletiva. Adler & Kwon (2002) consideraram que o capital social, à semelhança de outras formas de capital, é apropriável e convertível. O terceiro argumento está relacionado com o facto deste tipo de capital ter a capacidade de substituir ou completar outros recursos, como serve de exemplo a substituição de capital financeiro por ligações sociais privilegiadas. Ao contrário do capital financeiro, mas à semelhança do capital físico e humano, o capital social precisa de manutenção, sendo este o quarto argumento dos autores. O uso do capital contribui para o seu crescimento e desenvolvimento, sendo a confiança um exemplo deste argumento. Segue-se o quinto argumento, defendendo Adler & Kwon (2002) que algumas formas de capital social são bens coletivos, não sendo propriedade privada de quem beneficia deles. Os autores realçaram que este tipo de capital não está localizado nos atores envolvidos na relação, mas na própria relação, sendo necessário compromisso e cooperação de ambas as partes na construção do capital social. Por fim, o capital social é distinguido de outros ativos económicos pela sua característica de não poder ser quantificado. O capital social foi abordado na investigação científica das organizações, conhecendo-se atualmente diversos níveis de enfoque e relações de influência. A abordagem do capital social como fonte de impacto na performance realizou-se a vários níveis (Moran, 2005). Partindo de um nível mais individual ou de pequenos grupos (Brass & Burkhardt, 1993; R.S. Burt, 1992; Podolny & Baron, 1997), passando pela análise de grandes organizações, tais como empresas (M.T. Hansen, 1999; Rowley, Behrens, & Krackhardt, 2000; Tsai & Ghoshal, 1998; Walker, 1998; Walker, Kogut, & Shan, 1997) até comunidades e nações (R. D. Putnam, 1995), o capital social demonstrou-se importante nos diferentes níveis de análise (Moran, 2005).
Capítulo 2 - Conceitos Prévios: Personalidade e Capital Social __________________________________________________________________________________ 19 Do ponto de vista individual, o capital social é indicado por diversos autores como importante no encontro de emprego (M. S. Granovetter, 1973, 1995; Lin & Dumin, 1996; Lin, Ensel, & Vaughn, 1981), no ato de empreender (Chong & Gibbons, 1997), na formação de start-ups (Walker et al., 1997), no sucesso da carreira profissional (R.S. Burt, 1992; Gabbay & Zuckerman, 1998; Podolny & Baron, 1997), na renumeração dos executivos (Belliveau, O'Reilly, III, & Wade, 1996; R. S. Burt, 1997). Do ponto de vista organizacional, constatou-se na literatura científica que o capital social tem um papel preponderante no recrutamento de melhores colaboradores (Fernandez, Castilla, & Moore, 2000), na eficácia das equipas (Rosenthal, 1996), na troca de recursos e inovação de produto (Gabbay & Zuckerman, 1998; M. T. Hansen, 1998; Tsai & Ghoshal, 1998), na criação de capital intelectual (Hargadon & Sutton, 1997; Nahapiet & Ghoshal, 1998), no reforço das relações com os fornecedores (Asanuma, 1985; Baker, 1990; Dore, 1983; Gerlach, 1992; Helper, 1990; Smitka, 1991; Uzzi, 1997), na produção de redes regionais (Romo & Schwartz, 1995), na aprendizagem interempresas (Kraatz, 1998), reduzindo as taxas de rotatividade (Krackhardt & Hanson, 1993) e de falência organizacional (Adler & Kwon, 2002; Pennings, Lee, & Van Witteloostuijn, 1998). Mais recentemente, Moran (2005) desenvolveu um estudo com uma amostra de 120 gestores de produto e de vendas pertencentes a empresas indexadas na Fortune 100 pharmaceutical firm. O objetivo do estudo foi a análise do impacto do capital social na performance de gestão, tendo sido analisadas duas dimensões de capital social: a rede de relações laborais do gestor (capital social – estrutura) e a qualidade dessas relações (capital social – relação). Moran (2005) concluiu que maiores rotinas e orientação para a execução das tarefas pelo gestor de vendas são influenciadas pela dimensão estrutural do capital social, enquanto novas ações e tarefas orientadas para a inovação são explicadas pela dimensão relacional do capital social. Kemper, Engelen, & Brettel (2011) recolheram dados de 891 empresas localizadas na China, Alemanha, Hong Kong e Estados Unidos, com o objetivo de analisar o papel do capital social dos gestores de topo no desenvolvimento da estratégia de marketing-mix. Foram considerados como elementos de capital social a utilização da rede profissional do gestor, confiança e solidariedade, tendo investigado o efeito moderador da cultura nacional na ligação entre o capital social e a capacidade de marketing das empresas. Os resultados indicaram que a utilização da rede profissional do gestor e a solidariedade são mais importantes em países com culturas de baixa distância ao poder, elevados níveis de coletivismo e baixa aversão ao risco, segundo a tipologia cultural de Hofstede (1990). No que concerne à confiança, esta dimensão não evidenciou alterações relacionadas com a cultura nacional. Por sua vez, Klein (2013) investigou o impacto do capital social para a coesão social no Luxemburgo, enquanto país altamente desenvolvido e multicultural. Observou-se que investimentos no capital social originam retornos monetários (aumento do salário) e retornos físicos (aumento do bem-estar subjetivo). O estudo realizado revelou também que o capital social tem influência no rendimento familiar. De acordo com as análises realizadas por Klein (2013), viver com um parceiro, fazer parte de uma organização política e confiar nas
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 20 organizações está positivamente correlacionado com o rendimento líquido da família. No entanto, ter um filho, no mínimo, no agregado familiar e sentir preocupação pela situação em que se encontram outras pessoas, está negativamente relacionado com o rendimento líquido familiar. 2.3.1 Conceito Redes Putnam (2000) considerando as redes como o essencial do capital social, distingue capital social bonding de capital social bridging. Para o autor, o capital social bonding reforça a identidade da rede, homogeneizando-a. Por sua vez, o capital social bridging abrange pessoas de diferentes classes sociais. J. F. Helliwell & Putnam (2004) referem que as redes sociais podem ser um poderoso ativo quer ao nível individual quer ao nível comunitário. De acordo com os autores, o capital social bonding associa pessoas com semelhanças em determinadas características – idade, etnia, por exemplo - e origina externalidades positivas apenas para quem pertence à rede, existindo a possibilidade de externalidades negativas para quem não faz parte da rede. Por outro lado, o capital social bridging reune pessoas com diferenças nas suas caracteristísticas e origina externalidades positivas transversais à sociedade. J. F. Helliwell (2005) realça a importância da conexão com os outros, bem como o envolvimento nos processos em que estão inseridos. Esta conexão é procurada em todas as esferas da sua vida, envolvendo-se com os familiares, amigos, vizinhos, colegas de trabalho e organizações. Neste sentido, as conexões estão relacionadas com laços estabelecidos entre dois membros de uma determinada rede (Adler & Kwon, 2002). De acordo com Adler & Kwon (2002), a análise da estrutura das redes requer o estudo dos diferentes constituintes dos laços – frequência, intensidade, complexidade e configuração. Após este estudo, torna-se também importante a distinção entre laços diretos e laços indiretos, considerando que os laços diretos e indiretos das redes possibilitam o acesso a pessoas que podem prestar apoio ou permitir acesso a recursos através dos laços das suas redes. A interligação entre redes através de laços comuns e a possibilidade de mobilizar recursos através de redes é a chave da vida social (Adler & Kwon, 2002). Os autores apelidam de apropriabilidade o uso de determinado tipo de laços, podendo utilizar-se estes laços para outro tipo de fins, como é o exemplo de conseguir o acesso a recursos para a empresa através de laços de amizade. Adler & Kwon (2002) referem que o estudo dos laços varia quanto ao foco – ator, quanto à estrutura das relações, e quanto à interação atores – estrutura. A investigação que se foca no ator analisa as relações que determinado ator tem com outros atores, enquanto a investigação que se foca nas estruturas das relações observa a estrutura das relações entre atores de um determinado grupo. Por fim, a terceira abordagem analisa o ator e as estruturas das redes no qual está inserido. Por outro lado, Bae & Gargiulo (2004) fazem referência a duas caracterizações usuais na investigação da estrutura das redes: redes fechadas (Coleman, 1988) e redes com buracos estruturais (R.S. Burt, 1992). Como Burt (2000) defendeu, as redes fechadas estão relacionadas com o equilíbrio, a estabilidade e a consolidação, enquanto as redes com buracos estruturais originam mudança e renovação. A visão de redes fechadas de Coleman (1990)
Capítulo 2 - Conceitos Prévios: Personalidade e Capital Social __________________________________________________________________________________ 21 considera um tipo de rede onde todos estão em ligação uns com os outros e existe um contacto efetivo. Este tipo de estrutura de rede, também denominada por redes densas, facilita o acesso à informação e o desenvolvimento de um sistema de sanções. Coleman (1990) exemplifica esta facilidade de acesso à informação com a possibilidade de saber algo sobre determinado assunto através de alguém da sua rede que tenha interesse e conhecimento nessa área, sem que seja necessário a pesquisa aprofundada. Bae & Gargiulo (2004) referem-se a redes fechadas como redes que se baseiam no princípio do parceiro não substituível, cooperando profundamente e bloqueando contactos com outras redes com receio de afetar negativamente o comportamento interno. Os autores concluíram que a cooperação frequente entre os membros do grupo potencia a confiança, reduz comportamentos oportunistas e legitima as sanções em casos de incumprimento do acordado (Bae & Gargiulo, 2004). Burt (2000) afirma que as redes fechadas traduzem as vantagens de fazer parte de um grupo coeso, onde a estratégia central é afirmar o grupo e distinguir-se dos outros grupos, não existindo contactos com pessoas terceiras. Para o autor, a informação trocada entre os membros da rede é redundante uma vez que os contactos estruturais são redundantes. Burt (2000) afirma que existem dois indicadores de rede sobre a redundância, sendo eles a coesão e a equivalência. Neste sentido, os contactos individuais coesos, isto é, fortemente conectados uns com os outros, têm informação semelhante. De maneira oposta, Burt (2000) refere-se às redes com buracos estruturais enquanto fontes de criação de vantagem competitiva. Neste tipo de redes, o membro de determinado grupo coeso estabelece relações com outro membro de um grupo coeso partilhando informação não redundante e que adiciona informação distinta em vez de sobrepor informação semelhante. Burt (2000) define buracos estruturais enquanto espaço entre dois grupos que se focam no seu próprio grupo e não têm contacto entre si, apesar de existir essa hipótese. Assim, os buracos estruturais representam a oportunidade de interromper o fluxo de informação e proporcionar-lhe novo rumo: dirigi-lo para fora da rede, para outra rede, desenvolvendo projetos em comum. Por outro lado, Bae & Gargiulo (2004) referem os buracos estruturais como oportunidade de sair do controlo dos parceiros da rede e criar oportunidades próprias. Burt (2000) sintetiza os buracos estruturais com fonte de valor acrescentado e as redes fechadas como importantes para perceber o valor que existe nos fossos. Uzzi (1996) investigou o conceito de interligação e o efeito da estrutura da rede na ação económica. O autor concluiu que a interligação é um sistema de troca com oportunidades únicas face ao mercado, sendo que as empresas organizadas em rede têm maior hipóteses de sobrevivência do que as empresas que possuem relações duras no mercado. Por sua vez, Venkatraman & Lee (2004) realizaram um estudo sobre a cooperação entre empresas no lançamento de vídeo jogos na indústria norte-americana. Os autores procuram influências da estrutura das redes organizacionais das empresas nas características finais da plataforma criada. Considerando redes densas e redes de interligação, os autores concluíram que redes de interligação, observadas através do desenvolvimento conjunto de consolas e vídeo jogos, são as redes mais indicativas de laços.
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 22 Bae & Gargiulo (2004) estudaram os efeitos da substituição do parceiro e a estrutura da rede de aliança na rentabilidade organizacional na indústria das telecomunicações dos E.U.A. Os investigadores focaram-se nos custos dos laços de cooperação, concluindo que a aliança com um parceiro com grande controlo de recursos valiosos só é vantajosa se o benefício do acesso for superior ao custo de manter a parceria. Comparando as empresas com redes de interligação e as redes densas no contacto com parceiros de recursos não substituíveis, Bae & Gargiulo (2004) observaram que as empresas em redes densas têm maiores retornos. No entanto, os autores alertam para a necessidade de aprender a evitar ou gerir a dependência de recursos com o objetivo de reduzir as consequências negativas da dependência excessiva em relação a outras organizações. Gulati (1998) abordou as alianças e as redes do ponto de vista de cinco questões, sendo elas a formação de alianças, a escolha da estrutura de governação, a evolução dinâmica das alianças, a performance e as consequências na performance das empresas que aderem à aliança. Realça-se que Gulati (1998) definiu alianças estratégias como acordos voluntários entre empresas que têm como objetivo a troca, a partilha e o co-desenvolvimento de produtos, tecnologias ou serviços. A dinâmica das redes e os seus agentes foi abordada não só do ponto de vista empresarial mas também do ponto de vista social. Assim, Bruni & Stanca (2008) dividem o envolvimento ativo em atividades de voluntariado individual e em atividades de envolvimento em grupos de pessoas específicos. Enquanto o primeiro tipo de conexão social está relacionado com a religião, o desporto, a arte, os sindicatos, os partidos políticos, associações ambientais, associações profissionais, o segundo tipo de conexão social está relacionado com as redes, como a rede familiar, de amigos, colegas, pessoas que frequentam a mesma igreja. De forma similar, J. F. Helliwell et al. (2013) utilizam duas distinções de ligação social: engagement close e engagement broad. O engagment close inclui os contactos com as pessoas da rede familiar, amigos, vizinhos e religião sendo este tipo de ligação caracterizado por grande frequência de contactos. Por sua vez, o engagement broad está relacionado com a ligação social do indivíduo a questões de voluntariado, participação na política através do voto, bem como a comportamentos de generosidade. De acordo com a OECD (2001), a rede familiar e os grupos étnicos tem um efeito de coesão social, enquanto a ligação com amigos mais distantes, colegas e membros da mesma associação tem um efeito de criar pontes entre redes. Burt (2000) considera que pessoas com melhores conexões têm maiores retornos. Estes retornos são tangíveis e intangíveis quer no âmbito empresarial quer no âmbito social. Por um lado, os investigadores consideraram que as empresas que estão inseridas em redes têm a possibilidade de aceder a recursos valiosos (Bae & Gargiulo, 2004), reduzir os custos de transação (Hennart, 1988; Kogut, 1988), aceder a mercados com elevadas barreiras de entrada (J. Baum, Calabrese, & Silverman, 2000) e alcançar legitimidade (J. Baum & Oliver, 1991). Por outro lado, a nível social, defendem que redes de engagement close e engagement broad contribuem para a saúde física, melhoria do bem-estar, boa estratégia de carreira, diminuição da taxa de crime, administração governamental mais efetiva, redução de corrupção política,
Capítulo 2 - Conceitos Prévios: Personalidade e Capital Social __________________________________________________________________________________ 23 melhor performance educacional (J. F. Helliwell & Putnam, 2004). Em todos os tipos de rede, o conceito confiança é abordado enquanto mecanismo e resultado do fluxo de conexões. 2.3.2 Conceito Confiança Dirks & Ferrin (2002) esclarecem que uma das principais razões que justificam o interesse científico na confiança é a crença de que a confiança tem um impacto significativo numa grande variedade de resultados relevantes para as organizações. Os autores referem que a confiança na liderança organizacional pode estar associada a elevados níveis de compromisso organizacional e de satisfação no trabalho. Das & Teng (2001) consideram que a confiança auxilia na integração de parceiros, diminui as preocupações com comportamentos oportunistas e reduz contratos formais. J. F. Helliwell (2006) sugere que as empresas privadas devem voltar a sua atenção para as características não financeiras do local de trabalho e para os estudos que demonstram o seu impacto nas empresas. J. F. Helliwell & Putnam (2004) evidenciam que a vivência em comunidades com altos níveis de confiança melhora a saúde e, indiretamente, reforça o bem-estar subjetivo. Por sua vez, Schaubroeck et al.(2013) observaram que a redução da incerteza individual, provocada pela confiança, reforça a qualidade das trocas socias. Na mesma linha de pensamento, Rodríguez-Pose & Von Berlepsch (2014) afirmam que quanto mais os indivíduos interagirem, maior é a probabilidade de reforçar a confiança. Quanto maior a confiança, maior facilidade de partilha de informação, de comunicação aberta e gestão e conflitos (Abrams, Cross, Lesser, & Levin, 2003; Blomqvist, 2002; Chua et al., 2008; Creed & Miles, 1996; Seppanen et al., 2007; Uzzi, 1996). Seppanen et al.(2007) consideram a confiança um ativo crítico na medida em que aumenta a flexibilidade estratégica (Young-Ybarra & Wiersema, 1999), a previsibilidade (Sako, 1994), e a adaptação (Lorenz, 1988); reduz os custos de gestão e aquisição (Bidault & Jarillo, 1997; Williamson, 1993), bem como a complexidade social (Arrow, 1974; Luhmann, 1979); e incentiva redes informais de colaboração (Bidault & Jarillo, 1997) e inovação colaborativa (Miles, Snow, & Miles, 2000). Davis, Schoorman, Mayer, & Tan (2000) exploraram a confiança enquanto fonte de vantagem competitiva de empresas da restauração. Os autores mediram a confiança que os colaborares da empresa sentiam no gestor e relacionaram-na com as vendas, os lucros e a rotatividade de colaboradores posteriores à avaliação da confiança sentida. Os resultados foram indicativos de que a confiança no gestor previu significativamente as vendas, lucros e rotatividade nos restaurantes, defendendo Davis et al. (2000) que a confiança no gestor deve ser desenvolvida e sustentada como vantagem competitiva. Malik (2003) refere a confiança com sendo um dos seis princípios centrais de uma gestão efetiva. O investigador alerta que a confiança entre gestores e os seus colegas e subordinados não é um dado adquirido, pelo contrário, precisa de ser construído e depois de construído é constantemente testado. Assim, o gestor deve confiar nos subordinados e ganhar a confiança
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 24 deles através do seu comportamento fiável, sem descurar precauções em relação a possíveis abusos da confiança. Dirks & Ferrin (2002) construíram o seu estudo tendo por base a distinção entre confiança nos líderes diretos e confiança na liderança organizacional. Assim, a confiança no líder direto está relacionada com o supervisor, enquanto a confiança na liderança organizacional está relacionada com a liderança do CEO. Dirks & Ferrin (2002) sugerem que esta distinção está associada a diferentes antecedentes e resultados laborais, traçando duas perspetivas sobre a perceção do colaborador em relação ao líder. Na primeira perspetiva, baseada na relação, a confiança na liderança é entendida como um processo de troca social, um contrato económico. Nesta perspetiva, o colaborador, denominado por Dirks & Ferrin (2002) como seguidor, comporta-se com base na confiança, boa vontade, e obrigações mútuas, sendo que a troca evidência uma relação de alta qualidade. Na segunda perspetiva, o seguidor foca-se no caracter do líder e na forma como o caracter tem impacto na vulnerabilidade do seguidor nas relações hierárquicas. O seguidor centra a sua atenção no caracter do líder, enquanto pessoa com autoridade para tomar decisões com impacto significativo para si e para o seu percurso. Integridade, honestidade e capacidade são as características que o seguidor avalia no caracter do líder. Deste modo, Dirks & Ferrin (2002) consideram que a perspetiva baseada na relação está associada à dimensão afetiva da confiança, enquanto a perspetiva baseada no carácter está associada à dimensão cognitiva. Por sua vez, Galford & Drapeau (2003) defendem que existem três tipos de confiança dentro de uma organização: confiança estratégica, confiança pessoal e confiança organizacional. A confiança estratégica é a confiança sentida pelos colaboradores da empresa em relação às pessoas que tomam decisões estratégicas dentro da organização. A confiança que os colaboradores sentem em relação aos seus gestores é a confiança pessoal. Por fim, a confiança organizacional é referente à confiança sentida em relação à instituição, enquanto entidade. Galford & Drapeau (2003) realçam a importância e a dificuldade de construir estes tipos de confiança dentro de uma organização, onde existem diferentes grupos com metas concorrentes e onde todos os dias são bombardeados por mensagens contraditórias. De acordo com Seppanen et al. (2007), a investigação sobre a confiança é difícil porque o conceito tem propriedades muito específicas, nomeadamente no que se refere ao sentido da causalidade. Os autores exemplificam esta dificuldade com a inter-relação entre confiança e comunicação, confiança e desempenho, confiança e cooperação, uma vez que se influenciam mutuamente. Esta influência recíproca dificulta a investigação e a identificação de dimensões, antecedentes e consequências da confiança, sugerindo Seppanen et al.(2007) que a confiança pode ser um conceito reciproco, sendo potencialmente a causa e parcialmente o efeito. Por outro lado, alguns autores consideraram a confiança como constructo mediador dos seus modelos teóricos. Colquitt et al.(2012) exploraram o papel da confiança enquanto mediador das relações entre justiça organizacional e desempenho laboral. A análise da amostra, recolhida num sistema hospitalar, revelou que as variáveis da confiança medeiam de facto a relação justiça organizacional-desempenho laboral. Os autores observaram que a
Capítulo 2 - Conceitos Prévios: Personalidade e Capital Social __________________________________________________________________________________ 25 confiança baseada no afeto conduz a mediação baseada na troca e a confiança baseada na cognição conduz a mediação baseada na incerteza. Gong, Kim, Lee, & Zhu (2013) colocaram como hipótese o efeito mediador da confiança entre criatividade individual e criatividade do grupo. Os autores concluíram que o objetivo de aprendizagem da equipa e a abordagem do objetivo de desempenho da equipa estão positivamente relacionados quer com a criatividade da equipa, quer com a criatividade individual através da troca de informação da equipa. Os dados recolhidos em equipas de investigação e desenvolvimento demonstraram que a relação de confiança com o líder da equipa tem um papel moderador de relevo. Quando a confiança no líder da equipa era forte, a relação indireta entre a criatividade do grupo e a criatividade individual era positiva e forte para o objetivo de aprendizagem da equipa, mas fraca para a abordagem do objetivo do desempenho da equipa. Gong et al. (2013) observaram que a média de criatividade individual com a equipa estava positivamente relacionada com a criatividade de equipa, através de um clima favorável à criatividade. Argyris (1964) defendeu que o grau de confiança e respeito no ambiente empresarial tem influência direta na performance da empresa. De acordo com o autor, um baixo grau de confiança entre o gestor e os colaboradores provoca situações de frustração e agressividade nos colaboradores. Reações como estas originam o não cumprimento das regras, autodespedimento e estabelecimento de metas inadequadas ao desempenho da empresa (Argyris, 1964; Davis et al., 2000). Por sua vez, Layard (2005) adverte que estabelecer compromissos a curto prazo e aumentar a vinculação monetária ao desempenho individual dos colaboradores pode ter efeitos nefastos na confiança, na lealdade e na felicidade sentida pelos colaboradores da empresa. Colquitt et al. (2011) referem que a desconfiança dentro de uma organização consome atenção e tempo valioso. Neste sentido, os colaboradores que não confiam nos seus colegas de trabalho estão constantemente focados em agir de forma auto-protetora, monitorizando o seu comportamento. Este tipo de comportamento consome energia e atenção pessoal, causando situações de tensão, podendo prejudicar o desempenho individual. Neste sentido, Zaheer & Venkatraman (1995) afirmaram que a confiança origina vantagens para a empresa, reduzindo comportamentos oportunistas, baixa a necessidade de contratos formais e reduz a necessidade de controlo hierárquico. Hosmer (1995) defende que as empresas com relações de confiança entre os gestores e os colaboradores têm vantagens em relação às empresas que não têm relações de confiança na sua organização. Lawler (1992) argumenta que a mudança cultural das empresas de um paradigma orientado para o controlo para um paradigma orientado para o envolvimento dos colaboradores na gestão, baseado na confiança, é uma fonte de vantagem competitiva. Por sua vez, Davis et al. (2000) consideram que a confiança preenche três critérios de Barney (1986) para ser considerada vantagem competitiva: acrescenta valor através da redução de custos de transação (Milgrom & Roberts, 1992; Williamson, 1975); a confiança entre colaboradores e gestores é rara (Farnham, 1989); e pode ser considerada única, uma vez que é específica da relação e não pode ser copiada.
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 26 J. F. Helliwell (2006) afirma que as pessoas são, por natureza, sensíveis ao contexto social onde vivem e trabalham, valorizando a confiança que sentem nos vizinhos, no local de trabalho e nos serviços públicos. Esta afirmação é justificada pelo entendimento do ser humano enquanto ser social e da confiança enquanto elemento essencial para o funcionamento saudável da sociedade. Para que esta confiança se construa, J. F. Helliwell (2006) considera que a frequência de contactos com o meio envolvente é crucial, quanto mais estes contactos forem avaliados como contactos de sucesso. Se este cenário não ocorrer e instalar-se um ambiente de desconfiança, as pessoas sentem receio e não se mostram disponíveis para ações sociais colaborativas (J. F. Helliwell & Wang, 2011). Adler & Kwon (2002) consideram que o conceito de confiança e capital social encontrase abordado de forma confusa na literatura científica. De acordo com os autores, Fukuyama (1995, 1997) entende a confiança e o capital social como conceitos similares, Putnam (1993) define a confiança como fonte de capital social, Coleman (1988) considera a confiança uma forma de capital social, Knoke (1999) aborda a confiança como chave de motivação para o capital social, enquanto Lin (1999) coloca a confiança como resultado do ativo relacional do capital social. De igual forma, J. F. Helliwell & Wang (2011) fazem referência a estudos que colocam a confiança como causa e consequência do capital social, sendo que a confiança e o capital social têm sido abordados como conceitos que necessitam de mais tempo para serem construídos, do que para serem destruídos. Estes conceitos são influenciados pela distância geográfica, social e cultural, observados de forma específica ou abrangente, como tipo e propósito. Apesar de J. F. Helliwell & Putnam (2004) definirem de forma sucinta a confiança social como a crença de que as pessoas que nos rodeiam são de confiança, é necessário compreender as raízes do conceito de confiança. Porter, Lawler, & Hackman (1975) referiram-se à confiança como sendo a combinação do tempo e da maternidade, isto é, é algo de que todos falam e que é considerado bom para as organizações, mas sobre o qual todos têm dificuldade em definir num contexto organizacional, apresentando-se definições muito vagas. Assim, Porter, Lawler, & Hackman (1975) desconstroem o conceito de confiança através da assunção de risco, explicando que os locais onde existe confiança existe uma sensação de que os outros não vão tomar vantagem em relação a nós. A confiança baseia-se na expectativa de que vai acontecer o que se espera e não o que se teme (Deutsch, 1973). Segundo alguns autores, esta expectativa tem por base a competência e a responsabilidade do outro (Barber, 1983; Cook & Wall, 1980; McAllister, 1995; S. P. Shapiro, 1990), centrando-se muitas vezes na influência que a sua tomada de decisões terá sobre o nosso percurso (Luhrnann, 1979; McAllister, 1995). Ganesan (1994) e Doney & Cannon (1997) fazem referência à credibilidade e à benevolência quando abordam a confiança. Doney & Cannon (1997) definiram a confiança como a credibilidade e a benevolência percebida no alvo de confiança. Orbell & Dawes (1991) questionam a sobrevivência da confiança numa sociedade com a confiança em declínio, explicando que a confiança interpessoal baseia-se em métodos heurísticos. Os indivíduos projetam o seu comportamento e credibilidade na expectativa de atuação dos outros, esperando que os outros também sejam de confiança e honrem os seus compromissos.
3. Bem-estar Subjetivo: conceito explicado
Capítulo 3 – Bem-estar Subjetivo: conceito explicado __________________________________________________________________________________ 35 3.1. INTRODUÇÃO O capítulo 3 explora o conceito de bem-estar subjetivo, enquanto constructo explicado nesta investigação. Assim, realiza-se uma revisão de literatura sobre os trabalhos mais relevantes e de maior referência sobre o bem-estar subjetivo, contando-se essencialmente com contributos da área da psicologia, mas também da filosofia, sociologia e economia. Atendendo à diversidade de contributos a exploração dos conceitos relacionados com o bemestar inicia com um enquadramento do estudo do bem-estar subjetivo. Assim, são apresentadas a visões de bem-estar subjetivo na filosofia e na psicologia. Em seguida, faz-se referência ao Paradoxo de Easterlin enquanto referência na área da economia. Este paradoxo, que estabelece a ponte entre economia e sociologia é um ponto de referência de uma colaboração mais próxima entre estas duas áreas científicas no estudo do bem-estar subjetivo. Na secção seguinte são apresentadas as diferentes denominações de felicidade, satisfação com a vida e bem-estar subjetivo, bem como a sua forma de medição. Em seguida, na secção “Conceito de Satisfação com o Trabalho”, relacionada a satisfação com o trabalho e a satisfação com a vida. Este tipo de satisfação específico é abordado do ponto de vista de conceito, relação a personalidade e tipologia de medição. Por último, são apresentadas as principais conclusões do capítulo. 3.2. CONCEITO DE BEM-ESTAR O bem-estar é um conceito bastante lato, sendo referenciado por diversas áreas do saber. A sua exploração científica realiza-se através de diferentes indicadores, refletindo a diversidade de conhecimento que existe na investigação científica. Assim, considerando as diferentes abordagens científicas ao bem-estar, Gasper (2004) definiu três níveis de foco, possuindo cada nível diversos patamares. Os três níveis foram definidos de acordo com a natureza dos indicadores de bem-estar, denominando-se 1) Informação sobre Inputs, foco na métrica Monetária; 2) Não informação sobre Realização, nem sobre a métrica Monetária; 3) Informação sobre Realização/Satisfação. Estes três níveis são reflexo do contributo da economia – nível 1 - e do contributo da filosofia e psicologia – nível 3 – bem como da existência de categorias intermediárias – nível 2. No primeiro nível, apelidado de Informação sobre Inputs, foco na métrica Monetária, Gasper (2004) incluiu os estudos dos autores da área da economia que avaliam o bem-estar através dos inputs monetários na vida do indivíduo e do output psíquico expresso através da utilidade mental do dinheiro. Assim, Gasper (2004) estabelece três patamares: Salários e Recursos/Poder para adquirir bens; “Utilidade” como Escolha, sendo considerada reflexo de preferência e (conforme o caso) ponderada de acordo
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 36 com o poder de compra; Compras e outras aquisições (Baulch, 1996; Coudouel, Hentschel, & Wodon, 2001; Dasgupta, 2001; Doyal & Gough, 1991; Gasper, 2004; Kabeer, 1996; Sen, 2002). O patamar Salários e Recursos/Poder para adquirir bens, está relacionado com a investigação desenvolvida por economistas sobre salários e poder de compra de bens, não estando incluído o poder para conquistar/adquirir liberdade política, dignidade, relações pessoais gratificantes. Por sua vez, o patamar “Utilidade” como Escolha considera os estudos com variáveis utilizadas frequentemente na economia. O último patamar do nível 1, contempla as compras e aquisições dos indivíduos como fator de bem-estar, incluindo contributos de marketing, antropologia, sociologia e psicologia, à abordagem economista do bem-estar. Como anteriormente foi referido, o nível 2 está relacionado com primeira aproximação entre a economia e a psicologia no estudo do bem-estar, sendo este nível constituído por cinco patamares de investigação: Consumo Adequado das compras /aquisições; Características dos bens que são adquiridos através do consumo; S-Capacidades; O-Capacidades; e Funcionamento (Dasgupta, 2001; Deci & Ryan, 1991; Diener & Biswas-Diener, 2002; Doyal & Gough, 1991; Gasper, 2004; Kabeer, 1996; Nussbaum, 2000; Nussbaum & Sen, 1993). O patamar Consumo Adequado é pouco explorado por economistas, existindo preponderância de estudos da área da psicologia, antropologia, medicina e estudos culturais. Por sua vez, o patamar Características dos bens que são adquiridos através do consumo inclui estudos da área da nutrição, saúde, educação, transporte, moda e psicologia. Devido ao teor da análise, estes estudos são desenvolvidos por especialistas funcionais. Também englobando estudos que consideram o bem-estar através da medição de indicadores de saúde e psicológicos, o patamar S-Capacidades foca-se nas habilidades e capacidades pessoais, bem como outras características pessoais. No quarto patamar do nível Não informação sobre Realização, nem sobre a métrica Monetária, as O-Capacidades consistem nas capacidades operacionais que o indivíduo tem e que lhe proporcionam a vivência do dia-a-dia. Esta análise tem como proxy medidas médicas relacionadas com a (in) capacidade. Por fim, Gasper (2004) reservou o último patamar do nível 2 para os estudos sobre indicadores sociais e de qualidade de vida. Pouco estudado pela economia, com a exceção da economia da saúde, este patamar integra estudos das áreas da sociologia, da estatística social e da psicologia. No último nível - Informação sobre Realização/Satisfação - Gasper (2004) categorizou em três patamares os estudos desenvolvidos principalmente na filosofia e na psicologia, tendo o bem-estar como conceito em análise (Baulch, 1996; Coudouel et al., 2001; Dasgupta, 2001; Deci & Ryan, 1991; Diener & Biswas-Diener, 2002; Gasper, 2004; Kabeer, 1996; Sen, 2002). Assim, o primeiro patamar, apelidado como “Utilidade” como Desejo de Realização, utiliza o conceito de utilidade, enquanto escolha, para alcançar realização. Este tipo de medição foi utilizado por investigadores de diversas áreas. No segundo patamar, a “utilidade” é observada enquanto Satisfação, não encerrando a satisfação em apenas uma categoria, existindo a possibilidade de diferentes satisfações. Este patamar é explorado fundamentalmente pela psicologia, e de modo particular, por investigadores do bem-estar subjetivo. Por fim, no último patamar do último nível, Gasper (2004) considerou a Realização Humana, enquanto valor estudado por filósofos e psicólogos humanistas.
Capítulo 3 – Bem-estar Subjetivo: conceito explicado __________________________________________________________________________________ 37 Neste sentido, o conceito de bem-estar recebeu e recebe constantemente contributos de distintas áreas, originando denominações distintas para referir o mesmo conceito ou conceitos próximos. Assim, felicidade, satisfação com a vida e bem-estar subjetivo são as denominações mais utilizadas pelos investigadores. Kim-Prieto et al. (2005) consideram que a denominação que agrega todas as outras é o bem-estar subjetivo. Para os autores, o bem estar-subjetivo engloba uma enorme diversidade de denominações, tais como, felicidade, satisfação com a vida, realização pessoal, equilíbrio hedónico. Por sua vez, Lyubomirsky, King, & Diener (2005) referem-se ao afeto positivo como forma de bem-estar que resulta de características como confiança, otimismo, dinamismo, energia, sociabilidade, interpretação positiva dos outros, eficácia em situações de stress, flexibilidade, originalidade e bem-estar físico. Esta definição tem na sua génese a conceptualização de Diener (1984) que caracterizou o bemestar subjetivo pela predominância de afeto positivo e de satisfação global com a vida (Diener, 1984; Joshanloo & Afshari, 2011). Mais tarde, Diener et al. (1999) consideraram que o bem-estar subjetivo é constituído por três componentes: satisfação com a vida, afeto positivo e afeto negativo. No entanto, esta tripla divisão revela algum grau de independência entre os três componentes, devendo ser medidos e estudados individualmente (Diener, Oishi, & Lucas, 2003; R.E. Lucas, Diener, & Suh, 1996). 3.2.1 Bem-estar Subjetivo O conceito de felicidade é multidisciplinar, tendo recebido nas últimas décadas contributos de diversas áreas científicas. Este conceito inicialmente abordado em áreas como a filosofia, psicologia e biologia, evidenciou importância de investigação na sociologia e na economia (Akbarzadeh, Dehghani, Khoshfar, & Janalizadeh, 2013). Considerando a vertente filosófica da felicidade, Peterson, Park, & Seligman (2005) realizaram um estudo sobre as diferentes orientações para a felicidade e associação com a satisfação com a vida. Este estudo estabeleceu três possíveis caminhos para a felicidade: através do prazer, através do significado e através da conexão. O caminho para a felicidade através do prazer tem como referência a doutrina do hedonismo do filósofo Aristipo de Cirene. O hedonismo foca-se na maximização do prazer e na minimização da dor. Esta doutrina encontra-se ainda ativa no mundo ocidental e está latente na máxima “Don’t worry, be happy” (Peterson et al., 2005). De maneira oposta, Peterson et al. (2005) consideraram que o segundo caminho para a felicidade está na máxima de “ser fiel ao eu interior”. Esta doutrina apelida-se de eudaimonia e foi defendida por Aristótles. A doutrina da eudaimonia contempla o desenvolvimento das qualidades pessoais e o colocar as competências e talentos pessoais ao serviço de bens maiores. Esta doutrina exalta uma vida com significado e também se encontra ativa no mundo ocidental através de máximas como “Be all that you can be” e “Make a difference”. Por fim, Peterson et al. (2005) consideram como terceiro caminho para a felicidade a conexão. Este caminho fundamenta-se na teoria de flow, onde o indivíduo se foca profundamente numa determinada atividade, vivendo-a intensamente e perdendo o senso do
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 38 “eu” (Csikszentmihalyi, 1990; Peterson et al., 2005; Seligman, 2002). Peterson et al. (2005) concluíram que apesar dos três caminhos para a felicidade serem distintos, podem estar relacionados e não são incompatíveis. Os autores referem que o caminho através da conexão, difere do caminho através do prazer e do significado. Apesar da orientação para o prazer não ser um preditor da satisfação com a vida tão forte como a felicidade através do significado e da conexão, não é irrelevante, pois torna estes dois últimos caminhos ainda mais fortes. Peterson et al. (2005) defendem que uma vida plena está na soma das partes e na conjugação dos caminhos. Considerando a personalidade na equação da felicidade, Helliwell (2003) refere a personalidade como o fator preponderante nos objetivos e aspirações dos indivíduos, tendo concluído mais tarde que a personalidade tem de facto uma relação forte com a satisfação com a vida (J. F. Helliwell & Huang, 2005). Estas conclusões são similares às conclusões alcançadas pelos investigadores da área da psicologia (Costa & McCrae, 1980; Demir, 2008; Emmons & Diener, 1985). Observando a personalidade como ponto de partida, os investigadores utilizaram a teoria do Big Five Factor – extroversão, amabilidade, escrupulosidade, neuroticismo, e abertura à experiência - para testar a relação entre a personalidade e o bem-estar subjetivo. Kim-Prieto, Diener, Tamir, Scollon & Diner (2005) concluíram que a extroversão e o neuroticismo estão correlacionados em 0.80 ou mais com níveis de afeto positivo ou negativo a longo prazo. Hayes & Joseph (2003) observaram que elevados níveis de neuroticismo tornam menos provável a sensação de felicidade, enquanto elevados níveis de extroversão aumentam a probabilidade de sensação de felicidade. Por sua vez, McCann (2011) observou que o neuroticismo é o fator que mais contribui para a variação da saúde emocional. McCann (2011) considerou a ideia de Diener, Suh, Lucas, & Smith (1999) e de J.F. Helliweell & Huang (2005) de que existe um elevado grau de herança genética na felicidade, através da herança de traços de personalidade. Para McCann (2011) a personalidade e a felicidade poderão estar associados através de pré-disposições genéticas, referindo o estudo de Weiss, Bates, & Luciano (2008) que observaram 973 pares de gémeos e concluíram que a variação genética subjacente às diferenças individuais na sensação de felicidade é também responsável pelas diferenças individuais nos fatores de personalidade de neuroticismo e extroversão. Assim, Weiss, Bates, & Luciano (2008) concluíram que a personalidade – analisada através do Big Five Factor – e a sensação de bem-estar partilham uma estrutura genética comum, considerando a biologia como fator importante a ter em conta no estudo da personalidade. Nesta linha de investigação, Kim-Prieto et al. (2005) reconheceram no seu estudo que as reações emocionais estão relacionadas com diversos sistemas, sendo necessário acrescentar medidas biológicas e não-verbais a auto-análises sobre felicidade pessoal. Por sua vez, De Neve, Christakis, Fowler, & Frey (2012) desenvolveram um estudo sobre a influência genética no bem-estar subjetivo, tendo concluído que os fatores genéticos influenciam significativamente o bem-estar estar subjetivo. De acordo com os autores, 33% da variação do bem-estar subjetivo é explicada por fatores genéticos. Os contributos das diferentes áreas
Capítulo 3 – Bem-estar Subjetivo: conceito explicado __________________________________________________________________________________ 39 científicas enriqueceram o conhecimento sobre a felicidade ao mesmo tempo que proliferou o uso de diferentes denominações para o mesmo conceito ou conceitos confluentes. Por sua vez, a economia e a sociologia abordaram a felicidade considerando variáveis tais como o salário e a inclusão em redes. Easterlin (1974) observou que em 30 inquéritos submetidos ao longo de 25 anos, o salário per capita aumentou mais de 60%, mas a percentagem de pessoas que considerou-se “muito feliz” “feliz” ou “pouco feliz” permaneceu igual. Easterlin (1974) identificou um paradoxo entre o salário e a felicidade, uma vez que a sociedade tornou-se mais rica, mas a felicidade não aumentou. Contrariando a máxima de que mais dinheiro origina maior felicidade, Easterlin ficou cientificamente conhecido pelo paradoxo a que deu nome. Posterior à identificação do paradoxo de Easterlin, surgiram duas teorias que são amplamente aceites. A primeira refere-se à comparação do salário individual com o salário medio das pessoas envolventes (Bruni & Stanca, 2008). Atendendo que o salário per capita aumentou, a discrepância de salários entre indivíduos não é acentuada, não originando aumento da felicidade individual. Por outro lado, a sociologia explica este paradoxo enfatizando a importância das relações sociais na felicidade. As relações interpessoais têm sido reconhecidas, quer teoricamente, quer empiricamente, como a chave do bem-estar. A importância da dimensão relacional foi considerada fundamental, sendo entendida como uma necessidade humana básica essencial para o bem-estar (Baumeister & Leary, 1995; Bruni & Stanca, 2008; Deci & Ryan, 1991). A relação social-felicidade foi testada por Diener & Seligman (2002) que concluíram no seu estudo que pessoas muito felizes têm excelentes relações sociais. Os autores acrescentaram a esta constatação, que a qualidade das relações sociais tem ainda mais impacto na felicidade pessoal do que a quantidade de relações. Akbarzadeh et al. (2013) compararam o impacto do capital económico, cultural e social na felicidade, concluindo que o capital económico é o que apresenta menor impacto, ao contrário do capital social, que se destaca na sensação de felicidade. Os autores referem outros estudos que comprovaram a importância do dinheiro para a felicidade só até um certo ponto. A par desta necessidade, as relações sociais revelam-se importantes na medida em que fornecem suporte social e mental ao indivíduo (Akbarzadeh et al., 2013). J. F. Helliwell (2006) propõe o capital social como aspeto importante para a felicidade, considerando que o dinheiro é insuficiente para explicar todas as variações no bem-estar individual. Bartolini, Bilancini, & Pugno (2008a) analisaram os dados do General Social Survey Americano entre 1975 e 2004 e concluíram que o bem-estar subjetivo dos americanos é explicado profundamente por quatro forças: o crescimento do salário, a diminuição dos bens relacionais, decréscimo da confiança nas instituições e as comparações sociais. Neste sentido, Bartolini et al.(2008a) sugerem que a felicidade não aumentou proporcionalmente com o aumento dos salários, porque o efeito positivo do crescimento dos salários foi
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 40 contrabalançado pelo declínio do capital social, que por sua vez afetou negativamente o bemestar subjetivo. No seu estudo sobre as tendências do capital social e do bem-estar subjetivo em 11 países da europa ocidental, Sarracino (2010) identificou evidências de uma relação provável entre capital social e felicidade. O autor constatou que nos últimos 20 anos, os cidadãos dos países analisados têm perdido consecutivamente confiança no sistema jurídico, na igreja, nas forças armadas e na polícia. Neste sentido, Sarracino (2010) considera importante incluir o capital social na equação da felicidade. Por sua vez, Bruni & Stanca (2008) apresentaram um estudo tendo como base o World Values Survey e com o objetivo de testar a relação entre os bens relacionais e o bem-estar individual. As análises revelaram que a participação ativa em organizações de voluntariado está positivamente associada com elevados níveis de satisfação com a vida. O impacto do voluntariado ativo na satisfação com a vida tem um efeito semelhante ao aumento do salário. Adicionalmente, os autores verificaram que o tempo passado com pais, familiares e amigos exerce também um efeito positivo e significante na satisfação com a vida. De forma oposta, o consumo televisivo tem um efeito negativo na participação em ações de voluntariado e no tempo passado com amigos. Bruni & Stanca (2008) defendem que a teoria relacional da felicidade poderá explicar o paradoxo de Easterlin, na medida em que elevados salários associados a uma tendência de excesso de consumo de bens materiais e declínio de bens relacionais exercerão um efeito profundo no bem-estar subjetivo. 3.2.2 Felicidade, Satisfação com a Vida e Bem-estar Subjetivo Diener et al. (2003) afirmam que o estudo do bem-estar subjetivo diz respeito ao estudo da felicidade ou satisfação. A análise do bem-estar subjetivo inclui a avaliação pessoal sobre a vida, considerando a análise do momento atual e a análise de longos períodos de tempo. Este tipo de análise está dependente das reações emocionais de cada indivíduo, bem como do seu humor e julgamento, gerando posteriormente a satisfação com a vida, a realização pessoal, e a satisfação em determinadas esferas da vida, tais como o casamento e trabalho. Atendendo ao carácter de autoavaliação que o conceito implica, diversos autores consideram que a avaliação do bem-estar tem subjacente uma avaliação afetiva e uma avaliação cognitiva, enquanto o foco de análise pode variar entre situações concretas e situações globais e abstratas. Se por um lado, alguns autores consideram que todas as avaliações fazem parte de uma avaliação global, outros autores entendem que são avaliações distintas. McCann (2011) defende que o bem-estar subjetivo resulta da análise afetiva das experiências vividas, enquanto o resultado da análise cognitiva dá origem à satisfação com a vida. De maneira similar, J.F. Helliwell & Putnam (2004) diferenciam felicidade de satisfação com a vida, defendendo que a felicidade está associada ao humor e à avaliação de pequenos
Capítulo 3 – Bem-estar Subjetivo: conceito explicado __________________________________________________________________________________ 41 períodos de tempo, enquanto a satisfação com a vida encontra-se associada à avaliação de períodos de tempo mais longos e sem uma interferência emocional tão forte como na avaliação da felicidade. Esta distinção também é evidente em Pittau, Zelli, & Gelman (2010) que conceptualizam a felicidade e a satisfação com a vida como conceitos distintos, estando o primeiro relacionado com o estado emocional atual e o segundo com a avaliação global e racional da vida. Apesar dos autores considerarem que felicidade e satisfação com a vida não são o mesmo conceito, entendem ambos como medidas consistentes de bem-estar subjetivo. Para Pittau et al. (2010) o conceito agregador é o bem-estar pessoal e a felicidade é o conceito referente à análise emocional de pequenos períodos de tempo. De forma oposta, McCann (2011) denominam de bem-estar subjetivo a análise das experiências emocionais. Akbarzadeh et al. (2013) também reconhecem a existência de uma análise emocional e de uma análise cognitiva do indivíduo, denominando o resultado destas duas análises como felicidade. Esta resultaria da satisfação com a vida, da presença de afeto positivo e ausência de afeto negativo. A existência de uma avaliação emocional e de uma avaliação cognitiva é reconhecida pelos diferentes autores, reunindo consenso a ideia de que a análise da satisfação com a vida é realizada através da cognição. No entanto, a análise emocional divide os investigadores, sendo considerada como felicidade por uns e bem-estar subjetivo por outros. Acresce à discussão científica a confluência das análises num só conceito - a felicidade ou bem-estar subjetivo, bem como a validade da medição da felicidade através de uma auto-análise. Sobre este aspeto, a felicidade e a satisfação com a vida são frequentemente medidas através de respostas a questões como “No fim das contas, como um todo, diria que estou satisfeito com a minha vida” e “Considerando todas as áreas da minha vida, diria que sou uma pessoa feliz” (EVS, 2008). Estas perguntas mereceram críticas por parte de alguns investigadores (Ferrer-i-Carbonell & Frijters, 2004; B. Frey, 2008; Klein, 2013), questionando a validade de respostas tão genéricas e de introspeção. Todavia, estas questões têm sido empiricamente validadas após cruzamentos de respostas de auto-análise e análises bioquímicas (J. F. Helliwell & Putnam, 2004), bem como com taxas de suicídio entre a população (J. F. Helliwell, 2005). Pittau et al. (2010) realçam a correlação observada entre as respostas obtidas a perguntas de auto-análise sobre bem-estar e os resultados de exames fisiológicos e médicos (por exemplo, leitura elétrica no cérebro). Os autores referem os resultados alcançados por Krueger & Schkade (2007) sobre a correlação entre respostas de auto-análise e sinais físicos, como sorrir, gestos associados a dizer a verdade, ou comparação com avaliação feita por amigos. Bjørnskov (2014) também reconhece a medição do bem-estar pessoal através de perguntas como “Considerando todas as áreas da minha vida, diria que sou uma pessoa feliz” (EVS, 2008), como uma proxy para avaliar a felicidade pessoal de indivíduos de uma região ou país (Bjørnskov, 2014; B. S. Frey & Stutzer, 2000; Veenhoven, 2000). J. Helliwell (2003)
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 42 cita Aristóteles para se referir à importância de perguntar a cada indivíduo sobre a sua felicidade, não descurando que o conceito de felicidade pode variar de pessoa para pessoa. No que concerne à existência de um ou vários conceitos associados à felicidade, KimPrieto et al. (2005) contemplaram no seu estudo três tipos de abordagens do bem-estar subjetivo: avaliação global da vida, recolha de experiências emocionais passadas e agregação de múltiplas reações emocionais ao longo do tempo. Para estes autores, todas as análises são preponderantes na caracterização final do bem-estar subjetivo, defendendo que existem quatro estádios de bem-estar subjetivo estando relacionados entre si e que fluem no tempo: as circunstâncias da vida e seus eventos; as reações afetivas aos eventos da vida; a recordação das reações; e o julgamento global da vida. Apesar das etapas serem distintas, Kim-Prieto et al. (2005) propõem que o bem-estar subjetivo é um constructo único que muda ao longo do tempo. De igual forma, Klein (2013) considerou um indicador geral para o bem-estar subjetivo, agregando as respostas sobre a avaliação emocional e cognitiva da vida. 3.2.3 Satisfação com o Trabalho O conceito de satisfação com o trabalho foi definido por Locke (1976; Saari & Judge, 2004) como um estado emocional agradável ou positivo resultante de avaliação do trabalho ou das experiências de trabalho. De acordo com Saari & Judge (2004), esta definição, amplamente utilizada, reconhece a importância de dois tipos de avaliação na satisfação com o trabalho: afeto e cognição. Os autores consideram que o afeto e a cognição são indissociáveis quer na nossa biologia quer na nossa psicologia estando presentes em todas as avaliações que realizamos, nomeadamente na avaliação do trabalho. Por sua vez, Faragher, Cass, & Cooper (2005) fazem referência a diversos investigadores da satisfação com o trabalho e que têm como palavras-chave das suas definições reações emocionais positivas, satisfação intrínseca e satisfação extrínseca, satisfação e ausência de satisfação, descontentamento e ausência de descontentamento, conceito global vs conceito composto por facetas de satisfação (Faragher et al., 2005; Oshagbemi, 1999; Warr, Cook, & Wall, 1979; Winefield, Tiggemann, & Goldney, 1988). Apesar da satisfação com o trabalho e a satisfação com a vida estarem relacionadas serem considerados conceitos distintos (Judge & Watanabe, 1994; Saari & Judge, 2004; Tait, Padgett, & Baldwin, 1989). Saari & Judge (2004) referem três formas possíveis que a relação satisfação com o trabalho e satisfação com a vida podem assumir: spillover, segmentação e compensação. Os dois tipos de satisfação têm uma relação de spillover quando a satisfação com o trabalho reflete-se na satisfação com a vida, sendo também válido o oposto, isto é a satisfação com a vida interferir na satisfação com o trabalho. Neste tipo de relação existe permeabilidade entre os dois conceitos. O segundo tipo de relação – segmentação - é exatamente a relação contrária. Neste tipo de relação, a satisfação com o trabalho e a satisfação com a vida estão separadas e não interagem. Por último, uma relação de
4. Relação Personalidade e Capital Social - Bem-estar Subjetivo
Capítulo 4 – Relação Personalidade e Capital Social - Bem-estar Subjetivo __________________________________________________________________________________ 51 4.1 INTRODUÇÃO O capítulo 4 encerra a revisão de literatura que sustenta este trabalho. Após a clarificação dos conceitos prévios – personalidade e capital social -, bem como do bem-estar subjetivo, são apresentados os principais estudos científicos que relacionam estes conceitos. Deste modo, na secção 4.2 são apresentadas as principais conclusões sobre a relação entre a personalidade e o bem-estar subjetivo. Atendendo às diferentes denominações associadas ao bem-estar subjetivo, tais como felicidade e satisfação com a vida, são apresentadas investigações que exploram a relação da personalidade quer com o bem-estar subjetivo, quer com a felicidade e ou a satisfação com a vida. Partindo da mesma premissa - a bibliografia está repleta de investigações com estes conceitos, enquanto conceitos similares ou relacionados, o mesmo acontece nas secções seguintes. Assim, a secção 4.3 analisa as principais relações entre o capital social e o bem-estar subjetivo. Uma vez que o capital social é constituído, segundo vários autores, por redes e confiança, são abordados de forma específica. Na sub-secção 4.3.1 apresentam-se os principais resultados alcançados na investigação que explora a influência das redes no bem.estar subjetivo, enquanto a sub-secção 4.3.2 apresenta os resultos das pesquisas sobre a influência da confiança no bem-estar subjetivo. Por sua vez, a secção 4.4 aborda as principais variáveis sociodemográficas que se destacam no estudo do bem-estar: idade, estado civil, nível de escolaridade, salário, saúde, emprego e religião. O capítulo encerra com as principais conclusões apresentadas. 4.2 RELAÇÃO PERSONALIDADE - BEM-ESTAR SUBJETIVO Diener et al. (2003) investigaram a interação da personalidade com o bem-estar subjetivo, concluindo que as diferenças individuais na personalidade e no bem-estar subjetivo oscilam ao longo da vida relacionadas fortemente com a componente genética. De acordo com os autores, a componente genética que interage com o bem-estar subjetivo é a mesma que interage com a personalidade, na medida em que o bem-estar subjetivo poderá ser parcialmente determinado por predisposições à nascença (Diener & Lucas, 1999; Diener et al., 2003). Os autores fazem referência à interação da personalidade em três aspetos determinantes das diferenças individuais no bem-estar, sendo eles os níveis base do bem-estar afetivo e cognitivo; a reatividade emocional; e o processo cognitivo da informação emocional. Esta interação está na base da fundamentação de que existem pessoas que são cronicamente mais felizes e estão mais frequentemente satisfeitas com a vida (Diener et al., 2003). Por sua vez, Headey & Wearing (1992) consideraram a importância dos diferentes tipos de
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 52 personalidade nas diferentes experiências de vida. Assim, defendem que as pessoas que são mais extrovertidas têm maior propensão para casar ou ter um emprego com elevado estatuto, quando comparadas com pessoas introvertidas. A vivência destas experiências, consequentemente, poderá influenciar o nível de bem-estar, mostrando-se assim crucial a análise da personalidade das pessoas em estudo (Diener et al., 2003; Headey & Wearing, 1992). A teoria Big Five Factor é uma das teorias da personalidade mais amplamente validada e utilizada em diferentes áreas científicas. Esta teoria considera que a personalidade humana é constituída por cinco fatores: extroversão, amabilidade, escrupulosidade, neuroticismo, e abertura à experiência (Costa & McCrae, 1985; Goldberg, 1992; John & Srivastava, 1999). A dimensão extroversão está associada à sociabilização da pessoa. Pessoas com níveis de extroversão mais elevados são frequentemente faladoras, ativas, assertivas, agregadoras, calorosas, entusiastas. No lado oposto, baixos níveis de extroversão estão associados a pessoas mais solitárias, reservadas e caladas. Por sua vez, a dimensão amabilidade avalia a orientação interpessoal, considerando que pessoas com níveis de amabilidade mais elevados tendem a ser altruístas, francos, confiáveis, conformistas, carinhosos e humildes. A dimensão escrupulosidade examina o grau de organização e persistência individual para alcançar determinado objetivo. Pessoas com níveis de escrupulosidade mais elevados são frequentemente mais organizadas, disciplinadas, competentes, obedientes, persistentes. A dimensão neuroticismo analisa a estabilidade emocional da pessoa, sendo analisados traços como impulsividade, tristeza, ansiedade, hostilidade, autoconsciência, vulnerabilidade. Elevados níveis de neuroticismo estão associados a comportamentos de insegurança, frustração, oscilação do humor. Por fim, a dimensão abertura à experiência carateriza a curiosidade intelectual de cada indivíduo. Esta dimensão avalia a abertura e a procura de novas experiências e de novas ideias, considerando que quem tem níveis de abertura intelectual mais elevados tende a ser inovadora, criativa, imaginativa, curiosa, tolerante à diversidade, com sentido estético e reflexiva (Costa & McCrae, 1985, 1992; John & Srivastava, 1999; McCann, 2011; Zhao & Seibert, 2006). Apesar do Big Five Factor ter surgido na área da psicologia, a sua aplicação em investigações sobre o bem-estar subjetivo tem sido frequente. McCann (2011) utilizou o Big Five Factor para analisar a personalidade dos cidadãos americanos e cruzar a informação com a saúde emocional dos mesmos, tendo concluído que a dimensão neuroticismo é preponderante na saúde emocional dos cidadãos inquiridos. Hafen et al. (2011), com o objetivo de perceberem se a relação entre personalidade e felicidade é mediada pela inteligência emocional, utilizaram também o Big Five Factor para analisar a personalidade de estudantes universitários indianos. Os autores concluíram que a inteligência emocional media a escrupulosidade e a instabilidade emocional para a felicidade apenas no sexo feminino. Joshanloo & Afshari (2011) recorreram ao Big Five Factor para perceber a ligação que existe entre os traços de personalidade, auto-estima e satisfação com a vida em estudantes universitários do Irão. Os autores observaram que os traços de personalidade são responsáveis pela variação de 25% do nível de satisfação com a vida. De modo particular, a extroversão e o neuroticismo são as dimensões que mais contribuem para níveis mais elevados de satisfação com a vida. Por outro lado, Joshanloo & Afshari (2011) concluíram que a auto-estima prediz
Capítulo 4 – Relação Personalidade e Capital Social - Bem-estar Subjetivo __________________________________________________________________________________ 53 níveis mais elevados de satisfação com a vida, tendo a auto-estima um papel fundamental na mediação da influência da escrupulosidade e da amabilidade na satisfação com a vida. Por outro lado, na área da gestão existem estudos que procuram perceber a relação entre personalidade do gestor e sobrevivência empresarial (Ciavarella et al., 2004); sucesso profissional (Seibert & Kraimer, 2001); personalidade gestor vs personalidade empreendedor (Envick & Langford, 2000). O estudo da personalidade tem grande interesse no mundo empresarial uma vez que a personalidade do empreendedor e do gestor tem influência na vida da empresa (J.M. Digman, 1990; Seibert & Kraimer, 2001). Assim, Ciavarella et al. (2004) investigaram a relação entre a personalidade do empreendedor (teoria Big Five Factor) e a sobrevivência da empresa, concluindo que o fator escrupulosidade é um fator importante com influência na sobrevivência empresarial a longo prazo. Por sua vez, Seibert & Kraimer (2001) avaliam a personalidade e o sucesso profissional, concluindo que o fator extroversão, quando apresenta valores mais elevados está relacionado positivamente com o nível de salário, promoções profissionais e satisfação no trabalho. A distinção entre perfis de empreendedores e perfis de gestores também é realizada, enquanto os empreendedores estão mais voltados para o exterior da empresa, identificando novas oportunidades, produtos e clientes, o gestor desempenha tarefas relacionadas com a organização interna da empresa, estando a natureza das suas tarefas mais relacionada com a coordenação das atividades, supervisão, influência e motivação dos empregados (Chandler & Hanks, 1994; Envick & Langford, 2000). Existem estudos que comparam as personalidades dos empreendedores e dos gestores, tendo Envick & Langford (2000) concluído que enquanto os empreendedores têm valores mais elevados no estabilidade emocional e na abertura à experiência, os gestores são mais escrupulosos, amáveis e extrovertidos. 4.3 RELAÇÃO CAPITAL SOCIAL - BEM-ESTAR SUBJETIVO Entre os investigadores que exploram a influência do capital social no bem-estar subjetivo, Helliwell é um dos autores de referência. No ano de 2013, J. F. Helliwell et al. (2013) investigou a importância do capital social na resposta à crise de forma mais efetiva e feliz. Os autores analisaram questionários sobre capital social e avaliação da vida de 255 áreas metropolitanas dos Estados Unidos da América, conseguindo uma análise de cerca de 80% da população do país. J. F. Helliwell et al. (2013) dividiram os países da OECD em três grupos de acordo com a sua tendência de índice de felicidade durante e após a crise financeira de 2008. Por fim, analisaram especificamente os países europeus. No que concerne ao estudo dos cidadãos dos EUA, os autores mediram o capital social através dos dados obtidos nos Current Population Surveys 2004-2008, enquanto a medição do bem-estar subjetivo realizou-se através do Gallup-Healthways Well-Being Index, um questionário diário realizado pela Gallup Organization aos residentes dos EUA desde 2008. J. F. Helliwell et al. (2013) procuraram relações entre o capital social e a felicidade, de forma a minimizar os impactos da crise económica, nomeadamente o impacto do desemprego, na felicidade. Assim, concluíram
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 54 que o capital social melhorou o bem-estar subjetivo durante o período de crise económica, quer direta quer indiretamente, através da mitigação do impacto do aumento do desemprego, não atenuando a insegurança a nível individual causada pelo impacto do desemprego pessoal. As análises dos investigadores demonstraram que as comunidades dos EUA com maior conexão social são comunidades mais felizes, com maiores níveis de conexão social ampla e menor descida da satisfação com a vida face ao aumento do desemprego. No que diz respeito ao estudo dos países da OECD, J. F. Helliwell et al. (2013) dividiram os países em três grupos, utilizando como critério a evolução da felicidade, medida pela Cantril Ladder do Gallup World Poll 2006-2011. Japão, Chile e México foram incluídos no grupo 1 e foram agrupados neste grupo devido a terem registado um aumento da felicidade no período pós-crise. O grupo 2, por sua vez, incluiu países afetados fortemente pela crise e consequentes medidas de recuperação – Portugal, Espanha, Itália, Irlanda, Grécia, Estados Unidos da América e Nova Zelândia. O grupo 3 incluiu os restantes países da OECD - exceto a Coreia do Sul - que apresentaram níveis constantes de felicidade ao longo do período observado. A exclusão deste país nos três grupos está relacionada com o facto do seu cenário ser distinto dos cenários apresentados em cada grupo: antes da crise a Coreia do Sul apresentava níveis de bem-estar subjetivo mais baixos do que todos os países da OECD agrupados, apresentando em 2011 níveis superiores de felicidade em relação a todos os grupos. Durante o período em análise, J. F. Helliwell et al. (2013) indicam que a queda nos níveis de felicidade do grupo 2 é superior aquela que seria explicável pela queda do PIB per capita. Assim, os investigadores defendem que o capital social e outros fatores relacionados com a felicidade foram danificados durante a crise e após esta. De maneira oposta, e relacionada com a prática de políticas diferentes para a resolução da crise, a Coreia do Sul aumentou os níveis de felicidade. Este aumento, também superior ao que seria explicado pelo aumento dos salários, sugere que existiu um aumento da qualidade do tecido social, possivelmente associado às políticas de preocupação com o bem-estar. A última análise de J. F. Helliwell et al. (2013) focou-se nos dados do European Social Survey entre 2002 e 2010, revelando que a confiança social tem um forte potencial para aumentar diretamente a felicidade e atenuar o efeito dos choques económicos. J. F. Helliwell (2006) resumiu os principais determinantes do bem-estar subjetivo encontrados nas análises realizadas em diversas amostras internacionais. De acordo com o autor, a confiança específica e a confiança geral é um dos determinantes mais importantes do capital social no bem-estar subjetivo. Além da confiança, as medidas do capital social têm um efeito fundamental no bem-estar subjetivo, sendo este efeito evidente através de canais económicos. Por outro lado, a análise do nível de satisfação com a vida e das taxas de suicídio de amostras transnacionais revelou que a satisfação com a vida é influenciada pela qualidade das políticas governamentais. No que concerne ao ambiente de trabalho, J. F. Helliwell (2006) refere os três inquéritos realizados no Canadá que apresentaram pistas sobre a importância de aspetos financeiros equivalentes ao salário, nomeadamente a confiança sentida no local de trabalho, e que contribuem profundamente para o bem-estar subjetivo. J. F. Helliwell & Putnam (2004)
Capítulo 4 – Relação Personalidade e Capital Social - Bem-estar Subjetivo __________________________________________________________________________________ 55 exploraram o contexto social da evolução do bem-estar subjetivo, da felicidade e da saúde. Para tal investigação utilizaram amostras de grandes dimensões do World Values Survey, do US Benchmark Survey e Inquéritos Canadianos. Os resultados demonstraram que o capital social, medido pela força dos laços com a família, os vizinhos, a religião e a comunidade, afeta o bem-estar subjetivo e a saúde física. J. F. Helliwell & Putnam (2004) observaram que a família e o casamento, os laços com os amigos e os vizinhos, os laços no local de trabalho, a conexão cívica de forma individual e coletiva, bem como a confiança estão relacionados de forma independente e robusta com a felicidade e a satisfação com a vida, tendo ambos um impacto direto na saúde. Sarracino (2010) estudou a tendência do capital social e do bem-estar subjetivo de 11 países da europa ocidental, tendo como base os dados do World Values Survey 1980-2000. Partindo da premissa de que as tendências do capital social e do bem-estar subjetivo são diferentes das tendências observadas nos EUA, o autor observou que durante as duas décadas em análise as pessoas revelaram um aumento nos dois índices. Apesar do Reino Unido ter revelado um decréscimo no bem-estar subjetivo entre 1980-1995, a Noruega, França, Holanda, e Dinamarca revelaram tendências de aumento. A Suécia recuperou de uma descida, enquanto a Alemanha e a Itália, têm níveis positivos, embora em queda. Sarracino (2010) não rejeita a hipótese de que o capital social auxilia na explicação do bem-estar subjetivo, concordando que as tendências do capital social e do bem-estar subjetivo nos países europeus poderão ser explicadas pela componente relacional do paradoxo de Easterlin. Apesar dos países europeus ocidentais sentirem-se afetados pela crise de algumas instituições, assim como os EUA, os europeus demonstraram um aumento de capital social relacional e bemestar subjetivo. Por sua vez, Portela et al. (2013) investigaram a relação entre as dimensões do capital social (redes, normais e confiança) e as dimensões do bem-estar individual (satisfação com a vida, felicidade e bem-estar subjetivo). Através da análise dos dados do European Social Survey do ano de 2008, os autores concluíram que a confiança social, as redes sociais e a confiança institucional são as componentes com maior correlação com o bem-estar subjetivo. Apesar do capital social ter-se revelado influente no bem-estar individual, Portela et al. (2013) observaram que o impacto do capital social no bem-estar subjetivo varia de acordo com a componente do capital social em análise. Os autores concluíram que a dimensão da confiança revelava-se positiva e significativamente associada ao bem-estar subjetivo, incluindo as componentes de confiança institucional e social, quando a análise focava-se nas diferentes dimensões do capital social. Por sua vez, a dimensão das redes também revelou-se positivamente correlacionada com o bem-estar subjetivo, salientando os autores a função das redes sociais para este resultado. No entanto, a componente das redes formais demonstrou baixa correlação e níveis de significância, não estando associada à felicidade e aparecendo menos significativo do que a componente de redes sociais, na análise da satisfação com a vida. No que concerne à conexão político-cívica, os resultados foram distintos. A análise das diferentes dimensões do capital social demonstrou que este tipo de conexão estava negativamente associado com o bem-estar subjetivo, felicidade e satisfação com a vida. Todavia, a análise do capital social sem a distinção de dimensões, revelou ausência de relação
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 56 entre redes políticas e bem-estar subjetivo e correlação positiva e significativa entre conexões cívico-sociais e bem-estar individual. Deste modo, os investigadores concluíram que as redes sociais e as conexões cívicas e sociais estão associadas positiva e significativamente com o bem-estar subjetivo, enquanto o envolvimento político tem um efeito ambíguo no bem-estar subjetivo. Por fim, Portela et al. (2013) concluíram que o efeito ambiental do capital social, analisado de forma agregada, no bem-estar individual é positivo: pessoas que vivem em países com níveis médios de capital social apresentam maior satisfação com a vida e bem-estar subjetivo do que pessoas que vivem em países com baixo capital social. Rodríguez-Pose & von Berlepsch (2014) abordaram a influência do capital social (confiança, interação social, normas e sanções) na felicidade individual em 23 países europeus. Considerando as macro-regiões da Europa, em que os dados do European Social Survey 2006 e 2008 foram agrupados de acordo com a localização geográfica do país da Europa a que pertenciam: Norte, Sul, Este, Oeste. Os autores comprovaram que existe uma influência do capital social (as três dimensões) na felicidade, embora a interação varie de acordo com a macro-região europeia. Entre as dimensões do capital social, a interação social informal, a confiança genérica e a confiança institucional indicaram ser os principais condutores do efeito do capital social na felicidade na Europa. Atendendo às macro-regiões europeias, Rodríguez-Pose & von Berlepsch (2014) observaram que os canais de informação informais e as normas e sanções são os principais condutores de capital social para a felicidade individual no Sul e Este da Europa. Por sua vez, os canais de informação formais Olson-type são os que assumem maior importância na ligação entre o capital social e a felicidade individual no Oeste da Europa. No que concerne à Europa do Norte, além da confiança, onde se inclui a confiança genérica e a confiança institucional que se demonstrou significativa em todas as regiões, mais nenhuma dimensão do capital social revelou-se com impacto na felicidade. 4.3.1 Redes e Bem-estar Subjetivo J. F. Helliwell & Putnam (2004) identificaram a rede familiar e a rede de amigos como fatores importantes para a felicidade. Através dos dados de Inquéritos Canadianos, do US Benchmark Survey e do World Values Survey, os autores observaram fortes efeitos da rede familiar no bem-estar dos inquiridos. Esta constatação foi transversal a todas as amostras e foi medida, no mínimo, pelo estado civil. De igual modo, todas as amostras revelaram que estar casado aumenta a felicidade e a satisfação com a vida, ao invés de estar divorciado ou separado, e com maior intensidade do que estar a viver junto com o parceiro, sem casar. Relativamente ao género, não foram observadas diferenças no bem-estar subjetivo causado pelo casamento. Por sua vez, a rede familiar e a frequência de contacto com os membros da rede contribui significativamente para o bem-estar subjetivo. J. F. Helliwell & Putnam (2004)
Capítulo 4 – Relação Personalidade e Capital Social - Bem-estar Subjetivo __________________________________________________________________________________ 57 referem que os questionários submetidos no Canadá e nos EUA comprovaram a influência da frequente interação com os familiares na sensação de maior bem-estar subjetivo. À importância da rede familiar adiciona-se a importância da interação frequente com os membros da rede amigos. Tanto no Canadá como nos EUA, com mais evidências no último país, interações frequentes com os amigos são ainda mais importantes para o bem-estar subjetivo do que as interações com família e vizinhos. J. F. Helliwell & Putnam (2004) também concluíram que nos países em análise o contacto frequente com família, amigos e também com vizinhos, embora com menor impacto, está associado a avaliações sistemáticas de maior bem-estar subjetivo. Noutro estudo, J. F. Helliwell (2005) também refere que os resultados do Canadian ESC survey demonstram diferenças entre o bem-estar subjetivo sentido pelas pessoas que têm um contacto frequente com a família, amigos e vizinhos e o bem-estar subjetivo sentido pelas pessoas que não têm um contacto frequente com os membros dessas redes. As pessoas incluídas no primeiro grupo apresentaram um ponto acima das pessoas do segundo grupo na escala do bem-estar subjetivo (escala 1-10 pontos). Desta forma, o capital social informal revelou-se importante para um maior bem-estar subjetivo. Por outro lado, J. F. Helliwell & Putnam (2004) referiram também que a fé e a frequência da igreja, bem como o envolvimento na comunidade afetam o bem-estar subjetivo. Separando a crença em Deus da frequência da igreja, os resultados do Canadian ESC Survey e do Benchmark revelaram que os efeitos da crença em Deus são semelhantes no bem-estar subjetivo dos cidadãos canadianos e dos cidadãos norte-americanos. No que concerne à frequência da igreja, a influência no bem-estar subjetivo é mais evidente nos cidadãos dos EUA. Esta evidência reflete a forte prevalência religiosa dos norte-americanos, sendo que a elevada frequência da igreja e a forte crença religiosa é duas vezes maior do que frequência e a crença dos canadianos. Adicionalmente, os autores também sugerem que a frequência da igreja cria capital social ao nível comunitário, enquanto a crença em Deus apoia o bem-estar individual. De acordo com os autores, a frequência da igreja e de grupos comunitários e a consequente interação com outras pessoas da rede, potencia a crença de que os outros são de confiança, criando-se um padrão de confiança mais alargado. No entanto, J. F. Helliwell & Putnam (2004) advertem que as médias nacionais de frequência da igreja e de confiança devem ser consideradas em primeiro lugar em cada país analisado. Rodríguez-Pose & Berlepsch (2012), através do estudo realizado em 23 países europeus, indicam que a atividade social informal contribui para o bem-estar pessoal, ao contrário da interação social formal. Concordando com a distinção entre grupos Putman-type (informais) e Olson-type (formais), os investigadores referem o impacto distinto deste tipo de redes no bem-estar pessoal. Os grupos Putman-type, onde se inclui a rede familiar, rede de amigos e rede de colegas, contribuem profundamente para a conexão social da pessoa, bem como para o sentimento de pertença e integração de uma determinada sociedade. Centrando-se na
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 58 Europa, os autores indicam que ver um amigo todos os dias aumenta em 77% a probabilidade de ser muito feliz. A ligação à religião também contribui para a sensação de bem-estar dos europeus, uma vez que os autores observaram que a participação em serviços religiosos aumenta em 103% a probabilidade de sentir-se muito feliz, ceteris paribus, em relação às pessoas que não participam neste tipo de atividade. A participação em ações de voluntariado e a perceção de ajudar os outros indicou ser também importante na sensação de felicidade, aumentando em 98% a probabilidade para quem está envolvido em atividades de voluntariado. Observando a Europa por regiões, a interação informal Putman-type e a satisfação com a vida estão positiva e significativamente relacionadas no Sul, Este e Oeste da Europa. A frequência da igreja e a participação em atividades de voluntariado contribuem para o bem-estar individual de forma similar em todas a regiões da Europa, sendo que o voluntariado deixa de ser significativo quando a participação da igreja melhora o bem-estar individual. Por outro lado, Rodríguez-Pose & Berlepsch (2012) referem que os grupos Olson-type, onde se inclui redes de organizações profissionais, sindicatos, grupos de lobby e partidos políticos, têm apresentado correlações negativas com a felicidade. Os investigadores observaram no seu estudo que as pessoas que não se encontram diretamente envolvidas na política são mais felizes. De forma oposta, as pessoas filiadas em partidos políticos não têm alterações na sua felicidade relacionadas com este tipo envolvimento. A alteração só se evidencia, e de forma negativa, quando a pessoa está envolvida ativamente na ação política e em manifestações. Dentro dos grupos Olson-type, a participação em organizações profissionais aumenta em 16% a probabilidade de ser muito feliz. De igual modo, a pertença a sindicatos está associada positiva e significativamente à felicidade individual. Rodríguez-Pose & Berlepsch (2012) justificam este cenário, oposto ao identificado por Bartolini et al. (2008b) nos EUA, pelo facto da participação em organizações profissionais e sindicais ser valorizada e revelar-se vantajosa em alguns países europeus. 4.3.2 Confiança e Bem-estar Subjetivo J. F. Helliwell & Wang (2011) investigaram a relação entre a confiança e o bem-estar, recorrendo para tal estudo ao Gallup World Poll e ao 17º Canadian General Social Survey. Apesar da conclusão final dos autores ser de que existem fortes ligações entre as diversas medidas da confiança e o bem-estar subjetivo, realçam que a relação causa-efeito entre os dois é difícil de identificar. A estabilidade da confiança ao longo das gerações indicia que a confiança será a causa e a felicidade o efeito, sem que se possa afirmar indubitavelmente o sentido da relação. Considerando os dados do Gallup World Poll, J. F. Helliwell & Wang (2011) observaram que quem pensa que a sua carteira perdida será devolvida, se for encontrada pelo vizinho ou pelo polícia, avalia a sua vida de forma mais positiva em relação a quem pensa que a carteira não vai ser devolvida. Viver num ambiente confiável origina classificações de bem-estar subjetivo mais elevadas.
Capítulo 4 – Relação Personalidade e Capital Social - Bem-estar Subjetivo __________________________________________________________________________________ 65 trabalho, que por conseguinte exerce maior impacto no bem-estar do que determinados aumentos de rendimento. Entre as variáveis sociodemográficas mais estudadas, o desemprego, o casamento e a religião demonstraram ter uma relação forte com o bem-estar subjetivo, sendo que o primeiro tem uma relação inversa e o casamento e a prática religiosa uma relação positiva. No que concerne à idade, vários autores concluíram que maiores níveis de satisfação com a vida estão presentes entre jovens e idosos, enquanto pessoas de meia-idade apresentam valores mais baixos. Por sua vez, a saúde também se revelou importante para o bem-estar pessoal, enquanto a relação salário e felicidade é muito particular. De maneira similar ao que Easterlin defendeu, outros autores mais recentes concluíram que o salário é importante para a felicidade, no entanto, só até determinado ponto, na medida em que a componente relacional é fundamental para a felicidade e a satisfação com a vida.
5. Introdução à parte Empírica
Capítulo 5 - Introdução à parte Empírica __________________________________________________________________________________ 69 5.1. QUESTÃO DE PARTIDA E QUESTIONÁRIO A revisão de literatura demonstrou que a atual investigação utiliza os dados de inquéritos populacionais. Por sua vez, a análise da satisfação com o trabalho é investigada fundamentalmente em contextos laborais e de forma específica. Todavia, como algumas investigações já demonstraram, a satisfação pessoal e a satisfação com o trabalho interagem. Assim, esta investigação propõe que o bem-estar subjetivo é um constructo que agrega a satisfação pessoal e a satisfação laboral. A satisfação pessoal é composta pela sensação de felicidade pessoal, enraizada no humor e avaliações de momentos atuais, e pela satisfação com a vida, enraizada na ponderação cognitiva e afetiva dos longos períodos de tempo. Por sua vez, a satisfação laboral corresponde à satisfação com o trabalho, esfera que ocupa diversas horas do dia na vida pessoal. Atendendo às evidências científicas observadas por alguns autores sobre estes distintos conceitos de satisfação, colocamos em análise a influência que a personalidade e o capital social – redes e confiança - terão no constructo bem-estar subjetivo. Neste sentido a nossa questão de partida é: A Personalidade, as Redes pessoais e profissionais, a Confiança Pessoal e a Confiança Organizacional influenciam o Bem-estar Subjetivo? Sugerindo um novo conceito de Bem-estar Subjetivo, propomos analisar a influência do fator Personalidade – fator interno – e do Capital Social, através do fator Redes e do fator Confiança Organizacional - fatores externos – na Felicidade Pessoal, na Satisfação com a Vida e na Satisfação com o Trabalho, enquanto variáveis do constructo Bem-estar Subjetivo. Assim, a ausência de estudos sobre o Bem-estar Subjetivo, do ponto de vista da Felicidade Pessoal, da Satisfação com a Vida e da Satisfação com o Trabalho em ambiente empresarial, bem como o caracter exploratório da presente investigação revelou ser pertinente a elaboração de um questionário original. Considerando a inexistência deste tipo de estudo na eurorregião Galiza - Norte de Portugal, bem como a proximidade geográfica e de contacto, optou-se pela aplicação do questionário nesta região. Deste modo, para a medição do Bem-estar Subjetivo foram utilizadas três questões validadas e frequentemente utilizadas no European Values Study (2008) e no European Social Survey (2008). As questões foram traduzidas para português e castelhano e validadas por nativos, sendo a escala de resposta 1-10, correspondendo 1 a discordo totalmente e 10 a concordo totalmente. Colocaram-se questões em modo afirmativo e negativo com o objetivo de captar maior atenção e ponderação nas respostas obtidas.
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 70 Tabela 2 – Medição do Bem-estar Subjetivo: European Values Study (2008) Perguntas European Values Study (2008) Português Castelhano 1 - ‘‘Taking all things together, how happy would you say you are?’’ 1 - “Considerando todas as áreas da minha vida, diria que sou uma pessoa feliz.” 1- “Teniendo en cuenta todas las áreas de mi vida, yo diría que soy una persona feliz.” 2- ‘All things considered, how satisfied are you with your life as a whole nowadays?’’ 2 - “No fim das contas, como um todo, diria que estou satisfeito com a minha vida.” 2 - “Al final, en su conjunto, yo diría que estoy satisfecho con mi vida.” 3 -“Overall, how satisfied or dissatisfied are you with your job?” 3 - “No geral, considero-me satisfeito com o meu trabalho.” 3 - “En general, me considero satisfecho con mi trabajo.” No que concerne à análise da personalidade, optou-se por uma análise holística, recorrendo à teoria do Big Five Factor. Esta teoria desenvolvida pela área da psicologia, tem sido utilizada em outras áreas científicas pela sua abordagem completa e fiável. A sua aplicação realiza-se através de questionário, existindo para o efeito três frequentemente utilizados: TDA, composto por 100 adjetivos (Goldberg, 1992); o 60-item NEO-Five-Factor Inventory (NEO-FFI) (Costa & McCrae, 1992) e o 44-item Big Five Inventory (BenetMartinéz & John, 1998; John & Srivastava, 1999). Enquanto o TDA avalia a personalidade do entrevistado de acordo com a sua maior ou menor concordância de determinado adjetivo ser caracterizador da sua personalidade, o NEO-FFI e o BFI avaliam os traços da personalidade através de questões, onde a caracterização é contextualizada. Este tipo de questionário é aconselhado na medida em que permite ao entrevistado fazer a autocaracterizarão de acordo com determinada situação e não em formato genérico e abstrato (Benet-Martinéz & John, 1998). Neste sentido o TDA mostra-se desadequado pela sua extensão (100 itens), bem como pelo seu tipo abordagem. Por sua vez, uma comparação entre o NEO-FFI e o BFI revela o BFI como sendo o inquérito que corresponde à recolha de dados a realizar nesta investigação. Esta escolha está a associada à sua extensão - 44 questões, à abordagem realizada através de breves questões contextualizadas, bem como à sua validação em língua castelhana (Benet-Martinéz & John, 1998). Adicionalmente, investigadores portugueses da área da psicologia também validaram o 44-item Big Five Inventory na língua portuguesa (Palma, 2012). Apesar da ordem das questões ser muito similar, observaram-se algumas alterações nos questionários traduzidos e optou-se por seguir a ordem das questões do questionário original, em versão inglesa. À semelhança do que acontece em todo o questionário desenvolvido, a resposta às questões sobre personalidade realizam-se numa escala de 10 pontos, correspondendo 1 a discordo totalmente e 10 a concordo totalmente.
Capítulo 5 - Introdução à parte Empírica __________________________________________________________________________________ 71 Figura 1Medição da Personalidade: 44 Item – Big Five Inventory – versão inglesa (Benet-Martinéz & John, 1998) Figura 2Medição da Personalidade: 44 Item – Big Five Inventory – versão castelhana (BenetMartinéz & John, 1998)
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 72 Figura 3Medição da Personalidade: 44 Item – Big Five Inventory – versão portuguesa (Palma, 2012) Por sua vez, a análise do capital social realizou-se através do estudo da relação entre os membros da rede família, rede amigos, rede vizinhos e rede colegas de trabalho sem diferença hierárquica. De acordo com J. F. Helliwell & Putnam (2004), que utilizam dados do Current Population Survey (2012), a frequência de contacto com membros da rede familiar e da rede de amigos está relacionada com a felicidade e com o bem-estar subjetivo. De modo menos profundo, a frequência de contacto e a confiança sentido nos vizinhos também se revelaram relacionadas com a satisfação com a vida e o bem-estar subjetivo. No que concerne ao ambiente laboral, J. F. Helliwell & Wang (2011) referem que a relação com os colegas de trabalho, nomeadamente a confiança sentida, tem impacto na satisfação com a vida. Deste modo, estabelecemos quatro redes importantes para o nosso estudo: rede familiar, rede amigos, rede vizinhos e rede colegas de trabalho, sem diferença hierárquica, a partir de agora denominada como rede colegas de trabalho. Para a caracterização de cada uma das redes colocaram-se questões sobre o tamanho da rede e a frequência de contacto, bem como a relação de confiança, colaboração e sentido de interajuda estabelecida com os membros de cada rede.
Capítulo 5 - Introdução à parte Empírica __________________________________________________________________________________ 73 Tabela 3 – Medição Redes: Tamanho, Frequência e Relação (Confiança, Colaboração e Sentido de Interajuda) Número Português Castelhano 1 REDES X – XTamanho Indique o número de X, com quem contacta (pessoalmente ou através de telefone ou internet), no mínimo, uma vez por semana. REDES X - X - Tamaño Indique el número de X, con quien contacta (en persona o por teléfono o internet), por lo menos, una vez a la semana. 2 REDES X – XFrequência Pensando nos X, indique o número de vezes que contacta com eles ao longo de uma semana. 7 a 5 vezes por semana 4 a 3 vezes por semana 2 a 1 vez por semana REDES X - X - Frecuencia Pensando en X, indique el número de veces que contacta con ellos a lo largo de la semana. 7 a 5 veces a la semana 4 a 3 veces a la semana 2 a 1 veces a la semana 3 REDES X – X - Relação Considerando os X com quem contacta semanalmente, assinale numa escala de 1 a 10 a sua concordância com as seguintes frases. 1 - Discordo totalmente 10 - Concordo totalmente. 3.1 - Entre mim e os meus X existe confiança. 3.2 - Penso que eu e os meus X temos facilidade em colaborarmos. 3.3 - Se um de nós precisar de ajuda, pode contar com os X. REDES X - X - Relación Teniendo en cuenta los X con quien contacta a lo largo de la semana, escoja en una escala de 1 a 10 su acuerdo con las siguientes afirmaciones. 1 - Desacuerdo total 10 – Acuerdo total. 3.1 - Entre mis X y yo hay confianza. 3.2 - Creo que mis X y yo tenemos facilidad en colaborar. 3.3 - Si uno de nosotros necesita ayuda, puede contar con los X. Fonte: elaboração própria
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 74 No que concerne à confiança, além de ser um elemento de caracterização da relação entre os membros das diferentes redes analisadas, também foi aprofundada ao nível organizacional. Em primeira ordem, procurou-se perceber se a pessoa inquirida era uma pessoa com tendência para confiar nos outros. Assim, colocaram-se as seguintes questões, incluídas no tópico Confiança Organizacional, e apelidadas posteriormente como Confiança Pessoal: Tabela 4 – Medição Confiança Pessoal Número Português Castelhano 1 Considero que a maioria das pessoas é de confiança. Creo que la mayoría de la gente se puede confiar. 2 Sou uma pessoa que confia nos outros. Soy una persona que confía en los demás. Fonte: elaboração própria Bateman & Organ (1983) focaram-se na importância da supervisão praticada na empresa, na medida em que o tipo de acompanhamento dos supervisores influencia a satisfação com o trabalho e, consequentemente, o ambiente empresarial através da relação entre colaboradores e supervisores (acatamento de ordens, cumprimento de regras), colegas (partilha de informação, auxílio em obstáculos na execução de tarefas) e empresa (ausência de vontade de despedimento, desvio de recursos). Dirks & Ferrin (2002) distinguiram a confiança sentida nos líderes diretos e a confiança sentida na liderança organizacional. Enquanto o primeiro tipo de confiança consiste na confiança no supervisor, a segunda consiste na confiança sentida na liderança do CEO. Sobre este aspeto, Malik (2003) apresentou a confiança sentida no gestor da empresa como uma das bases de uma gestão efetiva, enquanto Davis et al. (2000) concluíram que a confiança é fonte de vantagem competitiva. Estabelecendo também diferentes tipologias de confiança relativamente à entidade alvo de confiança, Galford & Drapeau (2003) defenderam que dentro de uma organização é possível sentir-se um terceiro tipo de confiança: confiança institucional. Este tipo de confiança considera a confiança sentida em relação à empresa, enquanto uma entidade. Neste sentido, elaboraram-se as seguintes questões com base da revisão de literatura realizada: Tabela 5 – Medição Confiança Organizacional Número Português Castelhano 1 Muitas vezes penso que maioria das pessoas procura ajudar o outro, não olhando só pelos seus interesses. A menudo pienso que la mayoría de la gente busca ayudar a los demás, no sólo cuidando de sus propios intereses. 2 Estou certo que a maioria das pessoas, no meu local de trabalho, é justa e não tenta ter vantagem desonesta em relação aos colegas. Estoy seguro que la mayoría de la gente en mi lugar de trabajo es justo y no trata de tomar ventaja injusta con respecto a sus compañeros. 3 Considero que os meus superiores são de confiança. Creo que mis superiores son fiables.
6. Análise Fatorial Exploratória e SEMPartial Least Squares
Capítulo 6 - Análise Fatorial Exploratória e SEMPartial Least Squares __________________________________________________________________________________ 83 6.1. INTRODUÇÃO O capítulo 6 inicia com a fundamentação científica das três primeiras hipóteses. Estas hipóteses estão relacionadas com a essência do conceito Bem-estar Subjetivo enquanto conceito agregador da Felicidade Pessoal, da Satisfação com a Vida e da Satisfação com o Trabalho. Apesar da Felicidade Pessoal e da Satisfação com a Vida serem consideradas por alguns autores como componentes do Bem-estar Subjetivo, a Satisfação com o Trabalho não é incluída neste conceito agregador, facto que consideramos ser inadequado uma vez que este tipo de satisfação difere dos anteriores e resulta da satisfação resultante da esfera laboral que ocupa muitas horas do dia-a-dia pessoal. Por outro lado, a segunda hipótese considera a importância da Confiança na medição da relação entre os membros das Redes pessoais e profissionais, enquanto a terceira hipótese testa a influência da Personalidade, das Redes, da Confiança Pessoal e da Confiança Organizacional no Bem-estar Subjetivo enquanto conceito agregador. Após a apresentação da fundamentação científica das três primeiras hipóteses, a secção 6.3 inicia a análise estatística, começando pelas análises fatoriais exploratórias realizadas às variáveis relacionadas com os conceitos de Personalidade, Redes, Confiança Pessoal e Confiança Organizacional. Esta análise exploratória tem como objetivo comprovar a existência dos cinco fatores de personalidade, de acordo com a teoria da personalidade Big Five Factor, bem como dos fatores relacionados com as redes analisadas – família, amigos, vizinhos e colegas de trabalho – e os fatores Confiança Pessoal e Organizacional. Posteriormente, as hipóteses apresentadas neste capítulo são testadas em SEM-Partial Least Squares e os resultados alcançados são analisados na secção 6.4, validando-se ou rejeitando as hipóteses testadas. O capítulo concluiu na seção 6.5 com os resultados alcançados na análise estatística apresentada neste capítulo. 6.2. FUNDAMENTAÇÃO HIPÓTESES 6.2.1. H1: Conceito Bem-estar Subjetivo Diener et al. (1999) definiram o bem-estar subjetivo como o conceito resultante da avaliação de afeto positivo, afeto negativo e satisfação com a vida. Mais tarde, referem-se ao bem-estar subjetivo como o estudo da felicidade ou satisfação (Diener et al., 2003). Por sua vez, Kim-Prieto et al. (2005) contemplaram no seu estudo três tipos de abordagens do bemestar subjetivo: avaliação global da vida, recolha de experiências emocionais passadas e
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 84 agregação de múltiplas reações emocionais ao longo do tempo. De acordo com os autores, estas abordagens resultam da interação de quatro estádios psicológicos: circunstâncias da vida e seus eventos, reações afetivas aos eventos, recordação das reações perante as circunstâncias, e julgamento global da vida. Klein (2013) considera que o bem-estar subjetivo é o resultado da avaliação emocional e da avaliação cognitiva da vida. Atendendo a esta dicotomia e aos contributos de diversas áreas científicas, observam-se múltiplas denominações relacionadas com o bem-estar subjetivo: felicidade, equilíbrio hedónico, afeto positivo, realização pessoal, satisfação com a vida. A felicidade está associada à avaliação emocional de pequenos períodos de tempo atuais, enquanto a satisfação com a vida está relacionada com a avaliação cognitiva de longos períodos de tempo (Diener, 1984; J. F. Helliwell & Putnam, 2004; Pittau et al., 2010). O bem-estar subjetivo é habitualmente estudado desta perspetiva, com alguma discussão em torno das definições de felicidade e bem-estar subjetivo, apesar de uma das questões mais utilizadas para a medição da felicidade, enquanto avaliação emocional do momento atual da vida, ser ‘‘Taking all things together, how happy would you say you are?’’ (EVS, 2008). Neste sentido, os investigadores denominam de felicidade pessoal a avaliação emocional e bem-estar subjetivo o resultado da felicidade e da satisfação com a vida. No entanto, a satisfação com o trabalho não é considerada como indicador de bem-estar subjetivo, estando implicitamente incluída na avaliação da vida. Apesar da satisfação com a vida e da satisfação com trabalho estarem relacionadas (Judge & Watanabe, 1994; Saari & Judge, 2004; Tait et al., 1989), defendemos que são satisfações distintas com impacto distinto no bem-estar subjetivo. De acordo com Saari & Judge (2004), a interação entre satisfação com a vida e satisfação com o trabalho pode ser de spillover, segmentação e compensação. À exceção da relação da segmentação que considera que os dois tipos de satisfação não interagem, a relação de spillover e de compensação consideram que existe uma interação ou uma afetação entre a satisfação com a vida e a satisfação com o trabalho. Neste sentido, colocamos como hipótese a junção da satisfação com o trabalho à satisfação com a vida e à felicidade pessoal enquanto variáveis observáveis do constructo bem-estar subjetivo: H1: A Felicidade Pessoal, a Satisfação com a Vida e a Satisfação com o Trabalho são variáveis observáveis do constructo Bem-estar Subjetivo. 6.2.2. H2: Confiança enquanto variável observável Como a investigação já demonstrou, a confiança é propriedade dos indivíduos ou característica de uma relação (Gulati, 1998). A sua presença nas relações torna-se uma maisvalia na medida em que agiliza a troca de informação, baixa os custos de transação e reduz os custos de encontro de parceiros (Beugelsdijk, 2009; Tsai & Ghoshal, 1998). Adicionalmente, a confiança torna possível o acesso a recursos tangíveis e intangíveis e a concretização de metas pré-estabelecidas (Barney & Hansen, 1994; Gambetta, 1988; Ring & Van de Ven, 1994; Tsai & Ghoshal, 1998). De acordo com vários autores, a confiança faz parte do
Capítulo 6 - Análise Fatorial Exploratória e SEMPartial Least Squares __________________________________________________________________________________ 85 conceito de capital social (Bourdieu, 1986; Coleman, 1988; R. Putnam, 2000; R. D. Putnam, 1993). Bourdieu (1986) definiu o capital social como um tipo de capital que é composto pelas redes, normas e confiabilidade resultante da interação entre os membros da rede e as normas estabelecidas. Klein (2013) observou a predominância de estudos sobre os contactos sociais, a pertença a grupos e a confiança entre as investigações do capital social. Nahapiet & Ghoshal (1998) estudaram a tripla dimensionalidade do capital social – dimensão estrutural, dimensão relacional e dimensão cognitiva. Por sua vez, Tsai & Ghoshal (1998) utilizaram esta conceptualização do capital social para perceber a sua influência nos padrões da troca de recursos e na inovação de produto em unidades empresariais de uma empresa multinacional. De acordo com os autores, a dimensão estrutural (analisada através da interação social) e a dimensão relacional (analisada através da confiança) demonstraram estar relacionadas significativamente com a troca de recursos e, por consequência, na inovação de produto. Os resultados também evidenciaram que a dimensão estrutural (observada através da interação social) e a dimensão relacional (observada através da confiança) estavam significativamente relacionadas com a troca de recursos em cada unidade empresarial, refletindo-se na inovação de produto. Adler & Kwon (2002) afirmaram que o conceito fundamental do capital social é a boa vontade entre os indivíduos numa determinada relação. Para os investigadores a boa vontade é a confiança, simpatia e perdão endereçada a indivíduos de determinada relação com estrutura funcional própria. Mais tarde, Dasgupta (2010) investiga o capital social considerando-o como redes interpessoais dentro das quais os membros pertencentes à rede estabelecem e mantêm confiança entre si, cumprindo mutuamente acordos relacionais. Por sua vez, J. F. Helliwell et al. (2013) defendem a inclusão de medidas relacionadas com a confiança sentida entre os membros das redes, enquanto medida fundamental para a avaliação da qualidade das relações. Atendendo à relevância da confiança nas relações entre indivídudos, testou-se a hipótese da importância da sua medição enquanto variável observável das relações entre os membros de determinadas redes: H2: A Confiança é a variável observável mais importante na mediação dos constructos relacionados com as Redes pessoais e profissionais. 6.2.3. H3: Personalidade, Redes, Confiança Pessoal e Confiança Organizacional A psicologia aborda o bem-estar a partir da personalidade, defendendo que existem semelhanças genéticas entre a formação da personalidade e a avaliação do bem-estar subjetivo (Costa & McCrae, 1980; Demir, 2008; Emmons & Diener, 1985; J. F. Helliwell & Huang, 2005; Joshanloo & Afshari, 2011). Diener et al. (1999) e J.F. Helliweell & Huang (2005) afirmaram que a felicidade e os traços de personalidade têm o mesmo grau elevado de herança genética. Recorrendo à teoria da personalidade do Big Five Factor, os investigadores
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 86 procuraram relações entre os cinco fatores de personalidade e o bem-estar subjetivo. De acordo com a teoria da personalidade Big Five Factor, a personalidade pode ser avaliada a partir de cinco fatores: extroversão, amabilidade, escrupulosidade, neuroticismo, e abertura à experiência, (Costa & McCrae, 1985, 1992; Goldberg, 1992; John & Srivastava, 1999; McCann, 2011; Zhao & Seibert, 2006). Assim, Hayes & Joseph (2003) concluíram que elevados níveis de extroversão estão relacionados com a probabilidade de sentir felicidade, enquanto elevados níveis de neuroticismo diminuem essa probabilidade. Kim-Prieto et al. (2005) também observaram que os fatores extroversão e neuroticismo são preponderantes na sensação de afeto positivo ou negativo a longo prazo. Joshanloo & Afshari (2011) concluíram que os traços de personalidade estão relacionados com 25% da variação da satisfação com a vida, sendo o fator extroversão e o fator neuroticismo os principais responsáveis por essa variação. Por outro lado, Diener & Seligman (2002) observaram que pessoas com níveis de bemestar subjetivo mais elevados apresentavam excelentes relações sociais, enquanto pessoas em situações de solidão consideravam ter baixo bem-estar subjetivo. Este estudo é exemplo da abordagem da sociologia ao estudo do bem-estar. Nesta perspetiva, o ambiente cultural e social, bem como as relações estabelecidas com os outros influenciam o nosso bem-estar (Diener et al., 2003; Joshanloo & Weijers, 2014; Lu & Gilmour, 2004). Neste sentido, a interação frequente com família, amigos e vizinhos está relacionada com o bem-estar subjetivo (J. F. Helliwell, 2005; Rodríguez-Pose & von Berlepsch, 2014). Adicionalmente, Helliwell (2005) alertaram para a importância do contexto social onde cada indivíduo vive e trabalha, onde a confiança no outro ou nas instituições pode revelar-se importante. Assim, pretendemos explorar a hipótese de que a personalidade e a conexão social, nomeadamente a conexão social na organização onde trabalha, estão relacionadas com a variação do constructo Bem-estar Subjetivo, apresentando-se assim a hipótese 3: H3: A variação do constructo Bem-estar Subjetivo está relacionada com a variação dos constructos referentes à Personalidade, às Redes, à Confiança Pessoal e à Confiança Organizacional. 6.3. ANÁLISE ESTATÍSTICA 6.3.1. Análise Fatorial Exploratória Os dados obtidos através do questionário submetido a empresas do Norte de Portugal e da Galiza (Espanha) foram inicialmente sujeitos a uma análise fatorial exploratória, de forma a testar a consistência interna global. Realizaram-se três análises fatoriais exploratórias, sendo a primeira com as variáveis relacionadas com a Personalidade, a segunda com as variáveis relacionadas com as Redes, enquanto a terceira teve em conta as variáveis da Confiança
Capítulo 6 - Análise Fatorial Exploratória e SEMPartial Least Squares __________________________________________________________________________________ 87 Pessoal e da Confiança Organizacional. Deste modo, pretendeu-se testar consistência dos fatores a serem explorados nas análises estatísticas seguintes. A análise fatorial exploratória das 44 variáveis relacionadas com os cinco fatores da teoria da personalidade Big Five Factor revelou, numa primeira fase, a existência onze fatores. Realça-se que os fatores entre 6 e 11 eram constituídos por variáveis dispersas e com valores de extração inferiores a 0.5. Após a eliminação destas variáveis, a análise fatorial exploratória revelou a presença de 5 fatores, de acordo com a teoria da personalidade Big Five Factor. Assim, com um KMO de 0.710 e um total de variação explicada de 65,808%, o Bartlett's Test of Sphericity revelou um chi quadrado de 1067,664 e uma significância de 0.000. Cada fator é representado por duas a três variáveis, como se observa na tabela 7. O fator Extroversão é medido pelas variáveis Não Reservado, Não Sossegado_Ativo, e Não Tímido. Por sua vez, Atencioso_Bondoso, Sociavel_Amigavel, e Cooperativo são as variáveis que representam o fator Amabilidade, enquanto o fator Escrupulosidade é medido através das variáveis Organizado, Não Preguiçoso, e Não Distraído. O quarto fator, o Neuroticismo, inclui as variáveis Stressado, Emocionalmente Instável, e Não Calmo. Por fim, as variáveis Original, Imaginativo, e Inventivo representam o fator Abertura à Experiência. Tabela 7 – Análise Fatorial Exploratória da Personalidade Communality F1-AE F2-Extr F3-Ama F4-Neu F5-Escr Falador ,630 -,004 ,658 ,367 -,155 -,196 Original ,717 ,826 ,143 ,008 -,119 ,007 N_Reservado ,650 ,036 ,803 -,057 -,023 -,028 Stressado ,669 -,268 -,039 -,069 ,768 -,028 Organizado ,577 -,207 -,041 ,017 ,054 ,727 Imaginativo ,811 ,836 -,026 ,329 -,046 -,028 N_Sosseg_Ativo ,607 ,092 ,665 -,212 ,331 -,052 N_Preguiçoso ,655 ,169 ,049 ,169 ,013 ,772 Emocio_Instavel ,672 -,017 -,078 -,084 ,811 -,007 Inventivo ,738 ,771 ,093 ,011 -,331 -,156 N_Timido ,601 ,100 ,735 ,027 -,113 ,191 Atencioso_Bondoso ,598 ,032 -,240 ,716 -,123 -,105 N_Calmo ,615 -,259 ,118 -,288 ,647 -,180 Socia_Amigavel ,678 ,048 ,258 ,751 -,200 ,070
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 88 Communality F1-AE F2-Extr F3-Ama F4-Neu F5-Escr Cooperativo ,640 ,197 ,004 ,763 -,035 ,134 N_Distraído ,672 -,092 -,004 -,109 -,252 ,767 Variação Explicada (%) 14,108 13,994 13,041 12,890 11,774 Total de Variação Explicada (%) 65,808 Kaiser-Meyer-Olkin Measure of Sampling Adequacy ,710 Bartlett's Test of Sphericity Approx. ChiSquare 1067,664 df 120 Sig. ,000 Considerando a existência de quatro tipo de Redes – Família, Amigos, Vizinhos e Colegas de Trabalho – no questionário desenvolvido nesta tese, realizou-se também uma análise fatorial exploratória a todas as variáveis analisadas em cada uma das redes. Com o objetivo de verificar a consistência interna global, a primeira análise fatorial exploratória revelou cinco fatores e variáveis com valores de extração inferior a 0.5. Neste sentido, foram eliminadas as variáveis com valores inferiores a 0.5, realizando-se uma nova análise. Esta análise resultou em quatro fatores, com a presença da variável Confiança em todas as redes e da variável Colaboração em três das quatro redes, enquanto variáveis mais representativas dos fatores. Como se observada na tabela 8, o total da variação explicada é de 85.370 %. O KMO apresenta um valor relativamente baixo - 0.545 – enquanto o teste de Bartlett's Test of Sphericity tem um chi quadrado de 692,979 e uma significância de 0.000. Tabela 8 – Análise Fatorial Exploratória das Redes Communality F1-Colegas F2 - Vizinhos F3-Família F4 -Amigos F_Confiança ,856 ,103 ,103 ,913 -,042 F_Colaboração ,860 ,090 ,043 ,922 ,009 A_Confiança ,767 -,026 -,019 -,040 ,874 A_Colaboração ,763 ,046 -,075 ,010 ,869 V_Confiança ,890 ,064 ,934 ,101 -,055 V_Ajuda ,887 ,105 ,934 ,046 -,047 C_Confiança ,900 ,929 ,121 ,146 -,019 C_Colaboração ,908 ,949 ,052 ,057 ,040 Variação Explicada (%) 22,503 22,253 21,514 19,101 Total de Variação Explicada (%) 85,370
Capítulo 6 - Análise Fatorial Exploratória e SEMPartial Least Squares __________________________________________________________________________________ 89 Kaiser-Meyer-Olkin Measure of Sampling Adequacy ,545 Bartlett's Test of Sphericity Approx. ChiSquare 692,979 df 28 Sig. ,000 Por fim, a análise fatorial exploratória das variáveis referentes à Confiança Pessoal e à Confiança Organizacional, evidenciou que a variável Pessoas Confiáveis e a variável Confiança nos Outros é representativa do fator Confiança Pessoal, enquanto as variáveis Confiança nos Superiores no trabalho, Confiança na Empresa e Confiança nos Gestores são representativas do fator Confiança Organizacional. De acordo com os dados apresentados na tabela 9, o total de variação explicada dos fatores é de 72.625%. O Kaiser-Meyer-Olkin Measure of Sampling Adequacy é de 0,696, sendo um valor muito próximo de 0.7. Por sua vez, o Bartlett's Test of Sphericity demonstrou um chi quadrado de 246,868 e uma significância de 0.000. Tabela 9 – Análise Fatorial Exploratória da Confiança Pessoal e da Confiança Organizacional Communality F1 – CONF ORG F2 – CONF PESS P_Confiaveis ,713 -,002 ,844 C_Superiores_Trabalho ,732 ,854 ,059 C_Outros ,659 ,176 ,792 C_Empresa ,708 ,836 ,093 C_Gestores ,820 ,898 ,113 Variação Explicada (%) 45,318 27,308 Total de Variação Explicada (%) 72,625 Kaiser-Meyer-Olkin Measure of Sampling Adequacy ,696 Bartlett's Test of Sphericity Approx. ChiSquare 246,868 df 10 Sig. ,000
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 90 6.3.2. SEM-PLS Considerando a investigação científica até à atualidade e encontrando-se o estudo numa fase exploratória, optou-se por desenvolver um modelo de equações estruturais com o objetivo de aferir evidências sobre a essência e as relações entre constructos latentes (Williams, Vandenberg, & Edwards, 2009). De acordo com Williams et al. (2009), os modelos de equações estruturais são modelos que se têm tornado importantes na análise multivariante. Atendendo à existência de variáveis latentes (não observadas) que representam conceitos teóricos investigados cientificamente, os modelos de equações estruturais permitem estimar em que medida as variáveis latentes representam as variáveis observáveis (através da análise do modelo de medida) bem como as relações de causalidade entre os constructos (através da análise do modelo estrutural). Os modelos de equações estruturais podem ser operacionalizados através de dois tipos de técnicas estatísticas, sendo elas a técnica baseada em análise de covariâncias e a técnica baseada na análise dos componentes. Esta última é também apelidada de Partial Least Squares. Tendo em conta o cariz exploratório desta etapa da investigação, bem como a reduzida dimensão da amostra, considerou-se mais adequado um modelo de equações estruturais Partial Least Squares, convergindo com as indicações de Chin & Newsted (1999) e Reinartz, Haenlein, & Henseler (2009). Com base na literatura científica, delineou-se, no software SmartPLS Version: 2.0, um modelo constituído por doze constructos latentes: Bem-estar Subjetivo, Personalidade Extroversão, Personalidade Amabilidade, Personalidade Escrupulosidade, Personalidade Neuroticismo, Personalidade Abertura à Experiência, Rede Família, Rede Amigos, Rede Vizinhos, Rede Colegas de Trabalho, Confiança Pessoal e Confiança Organizacional. Como prevê o Modelo de Equações Estruturais Partial Least Squares, apesar dos constructos latentes não serem observáveis, são representados pelas variáveis observáveis. Foram consideradas variáveis observáveis do Bem-estar Subjetivo: a Felicidade Pessoal, a Satisfação com a Vida e a Satisfação com o Trabalho. Por sua vez, os cinco constructos relacionados com a Personalidade foram testados de acordo as variáveis da teoria da personalidade Big Five Factor, enquanto os constructos relacionados com as Redes foram observados através das variáveis Tamanho, Frequência, Confiança, Colaboração e Sentido de Interajuda, respetivos a cada tipo de rede. Por fim, Pessoas Confiáveis e Confiança nos Outros foram consideradas variáveis observáveis do constructo Confiança Pessoal, enquanto Confiança nos Superiores, Confiança na Empresa e Confiança nos Gestores representaram o constructo Confiança Organizacional. Numa primeira fase procedeu-se à avaliação do modelo de medida, tendo por objetivo verificar em que medida os constructos são medidos de facto pelas variáveis observáveis, realizando-se assim uma validação dos indicadores refletivos. Assim, analisaram-se as cargas fatoriais (loadings) dos constructos, mantendo-se apenas os que apresentavam valores
Capítulo 6 - Análise Fatorial Exploratória e SEMPartial Least Squares __________________________________________________________________________________ 97 Tabela 14 – Modelo SEM-PLS: Variância Explicada PLS Bootstrapping Variância Explicada Beta Path Coefficient P. Extroversão -> Bem-estar Subjetivo 0,2452 0,2452 6% Rede Amigos -> Bem-estar Subjetivo 0,1208 0,1208 1% Rede Colegas -> Bem-estar Subjetivo 0,2479 0,2479 6% Rede Família -> Bem-estar Subjetivo 0,2306 0,2306 5% Rede Vizinhos -> Bem-estar Subjetivo 0,1764 0,1764 3% Posteriormente, procedeu-se à análise da significância estatística dos caminhos, realizando-se este tipo de análise através da seleção dos valores críticos para a distribuição t Student. Quando as hipóteses não especificam a direção da relação (+/-), a distribuição t Student é de uma tale e n-1 graus de liberdade para n subamostras. Por sua vez, quando não é especificada a direção da relação, recorre-se a uma distribuição t Student duas tale e n-1 graus de liberdade para n subamostras. Os valores de referência para n=5000 amostras, baseados na distribuição t Student duas tale com *p <.05; **p <.01; ***<.001 são: t (0.1; 4999) = 1,645 t (0.05; 4999) = 1.960 t (0.01; 4999) = 2.557 t (0.001; 4999) = 3.292 Considerando que realizamos uma análise na distribuição t Student duas tale, n-1 graus de liberdade para 5000 subamostras, partindo dos resultados dos 224 casos analisados e tendo com referência t (0.05; 4999) = 1.960, apresentamos na tabela os valores obtidos. Como se observa, os valores são todos superiores ao valor mínimo, sendo o mais elevado 16,8432 (Rede Colegas Colaboração <- Rede Colegas).
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 98 Tabela 15 – Modelo SEM-PLS: Outer Wheights Blootstrapping Original Sample (O) Sample Mean (M) Standard Deviation (STDEV) Standard Error (STERR) T Statistics (|O/STERR|) R. Amigos Tamanho <- Rede Amigos 0,645 0,6431 0,127 0,127 5,0792 R. Vizinhos Tamanho <- Rede Vizinhos 0,3082 0,3076 0,0806 0,0806 3,8254 Felicidade Pessoal <- Bemestar Subjetivo 0,5686 0,5687 0,0518 0,0518 10,972 Satisfação Trabalho <- Bemestar Subjetivo 0,5799 0,5792 0,0412 0,0412 14,0918 P. Extroversão Energia <- P. Extroversão 0,4018 0,4031 0,0678 0,0678 5,9264 P. Extroversão Entusiasmo <- P. Extroversão 0,4425 0,4428 0,052 0,052 8,5163 P. Extroversão Assertivo <- P. Extroversão 0,3765 0,3733 0,0642 0,0642 5,8661 R. Amigos Frequência <- Rede Amigos 0,5237 0,5129 0,1417 0,1417 3,6966 R. Colegas Colaboração <- Rede Colegas 0,5493 0,5504 0,0326 0,0326 16,8432 R. Colegas Confiança <- Rede Colegas 0,5047 0,504 0,0309 0,0309 16,3506 R. Família Colaboração <- Rede Família 0,4852 0,4786 0,0582 0,0582 8,336 R. Família Confiança <- Rede Família 0,5943 0,6007 0,0641 0,0641 9,2683
Capítulo 6 - Análise Fatorial Exploratória e SEMPartial Least Squares __________________________________________________________________________________ 99 Original Sample (O) Sample Mean (M) Standard Deviation (STDEV) Standard Error (STERR) T Statistics (|O/STERR|) Rede Vizinhos Ajuda <- Rede Vizinhos 0,4452 0,444 0,0521 0,0521 8,549 Rede Vizinhos Confiança <- Rede Vizinhos 0,4372 0,4347 0,0479 0,0479 9,1183 Por sua vez, foram analisados os intervalos de confiança, tendo como referência Henseler et al (2009) que defendem que o intervalo de confiança para um coeficiente path estimado w não deve incluir o valor zero. Se o intervalo incluir o valor zero, a hipótese é eliminada pois é possível que a hipótese w ser igual a 0, logo nula. Após a aplicação da técnica de bootstrapping (5000 subamostras) e verificados os intervalos de confiança, observamos que não existe a possibilidade da hipótese w ser igual a zero, pois não existe mudança de sinal no intervalo de confiança. Como se observa na tabela 16, todos os valores são superiores a 0, não existindo mudança de sinal em nenhum caso. Os valores foram calculados de forma a ter um intervalo de confiança de 95%, obtido através da função percentil: limite inferior – percentil (intervalo; 0.025); limite superior – percentil (intervalo; 0.975). Tabela 16 – Modelo SEM-PLS: Intervalos de Confiança P. Extroversão -> Bem-estar Subjetivo R. Amigos -> Bem-estar Subjetivo R. Colegas - > Bem-estar Subjetivo R. Família - > Bem-estar Subjetivo R. Vizinhos -> Bem-estar Subjetivo LOWER 0,137595 0,02369 0,1177 0,110285 0,074995 UPPER 0,355905 0,229215 0,37161 0,338705 0,2743 Por fim, realizou-se um Teste de Stone-Geisser (Q2), com o objetivo de medir a relevância preditiva dos constructos dependentes. O Teste de Stone-Geisser (Q2), de acordo com Chin (1998), segue um procedimento blindfolding, procedimento este que se baseia na omissão de parte dos dados de determinado constructo durante a estimação de parâmetros, para em seguida tentar estimar os dados omitidos a partir dos parâmetros estimados. É possível estimar-se diferentes Q2 de acordo com a forma de predição, existindo duas formas de predição, sendo a regra geral: se Q2> 0, existe relevância preditiva. Por sua vez, a distância de omissão varia entre 5 e 10, tendo sido aplicada a técnica de blindfolding com uma distância de omissão 9.
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 100 A primeira forma de calcular Q2 é o Cross-validated communality Q2, realizando-se a predição dos dados a partir das pontuações da variável latente subjacente. A segunda forma de calcular Q2 é o Cross-validated redundancy Q2 verificando-se se a predição é realizada pelas variáveis latentes que predizem a variável endógena em questão. A Cross-validated redundancy Q2 é a forma mais adequada para examinar a relevância preditiva do modelo teórico ou estrutural. Apresentamos em seguida Cross-validated communality Q2 e Cross-validated redundancy Q2 para os indicadores e para os constructos. Tabela 17 –Modelo SEM-PLS: Indicador Cross-validated communality Total SSO SSE 1-SSE/SSO Rede Amigos Tamanho 224 178,2213 0,2044 0,998853111 Rede Vizinhos Tamanho 224 191,5461 0,1449 0,999243524 Felicidade Pessoal 224 163,815 0,2687 0,998359735 Satisfação com Trabalho 224 163,1985 0,2714 0,998336995 P. Extroversão Energia 224 158,1129 0,2941 0,998139937 P. Extroversão Entusiasmo 224 133,0982 0,4058 0,996951123 P. Extroversão Assertivo 224 153,6203 0,3142 0,997954697 Rede Amigos Frequência 224 179,0278 0,2008 0,998878386 Rede Colegas Colaboração 224 98,6025 0,5598 0,994322659 Rede Colegas Confiança 224 94,3335 0,5789 0,993863262 Rede Família Colaboração 224 113,7948 0,492 0,995676428 Rede Família Confiança 224 125,2283 0,4409 0,99647923
Capítulo 6 - Análise Fatorial Exploratória e SEMPartial Least Squares __________________________________________________________________________________ 101 Total SSO SSE 1-SSE/SSO Rede Vizinhos Ajuda 224 120,138 0,4637 0,996140272 Rede Vizinhos Confiança 224 92,6424 0,5864 0,993670285 Tabela 18 - Modelo SEM-PLS: Indicador Cross-validated redundancy Total SSO SSE 1-SSE/SSO Rede Amigos Tamanho 224 178,2213 0,2044 0,998853111 Rede Vizinhos Tamanho 224 191,5461 0,1449 0,999243524 Felicidade Pessoal 224 181,8591 0,1881 0,998965683 Satisfação com Trabalho 224 171,5255 0,2343 0,998634022 P. Extroversão Energia 224 158,1129 0,2941 0,998139937 P. Extroversão Entusiasmo 224 133,0982 0,4058 0,996951123 P. Extroversão Assertivo 224 153,6203 0,3142 0,997954697 Rede Amigos Frequência 224 179,0278 0,2008 0,998878386 Rede Colegas Colaboração 224 98,6025 0,5598 0,994322659 Rede Colegas Confiança 224 94,3335 0,5789 0,993863262 Rede Família Colaboração 224 113,7948 0,492 0,995676428 Rede Família Confiança 224 125,2283 0,4409 0,99647923 Rede Vizinhos Ajuda 224 120,138 0,4637 0,996140272 Rede Vizinhos Confiança 224 92,6424 0,5864 0,993670285
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 102 Tabela 19 – Modelo SEM-PLS: Construct Cross-validated communality Total SSO SSE 1-SSE/SSO Bem-estar Subjetivo 448 327,0135 0,2701 0,99917404 Personalidade Extroversão 672 444,8314 0,338 0,999240162 Rede Amigos 448 357,2491 0,2026 0,999432889 Rede Colegas 448 192,9361 0,5693 0,997049282 Rede Família 448 239,0231 0,4665 0,998048306 Rede Vizinhos 672 404,3264 0,3983 0,999014905 Tabela 20 - Modelo SEM-PLS: Construct Cross-validated redundancy Total SSO SSE 1-SSE/SSO Bem-estar Subjetivo 448 353,3847 0,2112 0,999402351 Como se observa nas tabelas anteriores, o Q2 foi sempre superior a zero, confirmando-se a relevância preditiva do modelo estrutural. Com esta análise conclui-se que o modelo estrutural proposto é válido. 6.4. VALIDAÇÃO DAS HIPÓTESES A análise fatorial exploratória realizada às 44 variáveis relacionadas com a personalidade revelou, após a eliminação de alguns variáveis, a existência de cinco fatores. Atendendo às variáveis agrupadas por fatores, comprovou-se que correspondiam aos cinco fatores da teoria Big Five Factor, cujo questionário foi utlizado. Por sua vez, a análise fatorial exploratória das variáveis correspondentes às redes família, amigos, vizinhos e colegas de trabalho demonstrou a existência de quatro fatores que correspondiam a cada uma das redes analisadas. Realça-se que a variável Confiança manteve-se em todos os fatores. Por fim, a análise fatorial exploratória às variáveis relacionadas com a Confiança Pessoal e a Confiança Organizacional comprovaram a existência destes dois fatores. A primeira hipótese desta investigação consiste na possibilidade das variáveis Felicidade Pessoal, Satisfação com a Vida e Satisfação com o Trabalho serem variáveis observáveis do constructo latente Bem-estar Subjetivo. Esta hipótese foi testada através dos resultados das distintas análises realizadas para verificar a validade do modelo de medida. A análise SEM-
Capítulo 6 - Análise Fatorial Exploratória e SEMPartial Least Squares __________________________________________________________________________________ 103 PLS aos loadings – ou cargas fatoriais - das três variáveis revelou que as variáveis Felicidade Pessoal e Satisfação com o Trabalho tinham uma carga fatorial superior a 0.7. Atendendo que a variável Satisfação com a Vida apresentava uma carga fatorial inferior foi eliminada da análise. A análise das cargas com apenas duas variáveis demonstrou que a variável Felicidade Pessoal tem um loading de 0.879 e um peso de 0.5686 enquanto a variável Satisfação com o Trabalho apresenta um loading de 0.8734 e um peso de 0.5799. Após a depuração dos itens, a avaliação da consistência interna dos constructos demonstrou que o constructo Bem-estar Subjetivo – medido através da variável Felicidade Pessoal e da variável Satisfação com o Trabalho – possuía validade convergente, com um AVE de 0.7581. Por sua vez, o constructo apresentou um valor de fiabilidade composta de 0.8624, superior a 0.7 conforme é preconizado, e um coeficiente Alpha de Cronbach de 0.6809 muito próximo do 0.7, valor de referência para uma etapa inicial da investigação. Adicionalmente, o teste de validade discriminante comprovou que o constructo de Bem-estar Subjetivo distinguia-se dos restantes, através do cálculo da raiz quadrada do AVE. Enquanto última análise da adequação do modelo de medida, os valores crossloadings revelaram que apenas a variável Felicidade Pessoal e a variável Satisfação com o Trabalho apresentaram valores mais elevados no constructo Bem-estar Subjetivo. Neste sentido, verificou-se que a H1 é parcialmente válida, na medida em que a Felicidade Pessoal e a Satisfação com o Trabalho são variáveis observáveis do constructo Bem-estar Subjetivo. Por sua vez, a variável Satisfação com a Vida não revelou cargas fatoriais significativas para o constructo Bem-estar Subjetivo, tendo sido eliminada do modelo SEM-PLS. A H2 foi também testada através das análises realizadas para teste do modelo de medida. Esta hipótese pretendia verificar se a variável observável Confiança demonstrava ser importante na medição dos constructos Rede Família, Rede Amigos, Rede Colegas de Trabalho e Rede Vizinhos. Neste sentido, na delineação do modelo SEM-PLS incluíram-se as cinco variáveis associadas às questões colocadas em relação a cada uma das redes: Tamanho da rede, Frequência de contacto entre os membros da rede, Confiança sentida nos membros, Colaboração entre os membros e Sentido de Interajuda entre os membros. O teste de depuração dos itens demonstrou que as variáveis com cargas fatoriais e pesos mais representativas no constructo Rede Família e no constructo Rede Colegas de Trabalho foram as variáveis observáveis Confiança e Colaboração. Por sua vez, as variáveis Tamanho, Confiança e Sentido de Interajuda foram as que se destacaram com cargas superiores no constructo Rede Vizinhos, enquanto observou-se que a variável Tamanho e a variável Frequência são as variáveis com cargas fatoriais significativas no constructo latente Rede Amigos. Realça-se que, nas três redes onde a variável Confiança revelou cargas fatoriais elevadas, as cargas fatoriais desta variável é superior às restantes dos constructos Rede Família e Rede Vizinhos. Em seguida, procedeu-se à avaliação da consistência interna dos constructos através do cálculo do AVE – validade convergente – da fiabilidade composta, do coeficiente de Alpha de Cronbach, e da raiz quadrada do AVE e valores crossloadings – validade discriminante. Assim, observou-se que os quatro constructos relacionados com as redes apresentaram valores
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 104 AVE superiores a 0.5, destacando-se os valores dos constructos latentes Rede Família (0.8554) e Rede Colegas de Trabalho (0.8999), sendo ambos medidos através das variáveis observáveis Confiança e Colaboração. De igual modo, estes dois constructos obtiveram valores mais elevados na fiabilidade composta e no coeficiente do Alpha de Cronbach. Apesar dos restantes constructos terem demonstrado valores superiores ao estabelecido cientificamente, realça-se um coeficiente de Alpha de Cronbach inferior no constructo Rede Amigos – 0.6287 – medido através das variáveis observáveis Tamanho e Frequência. Considerando que o valor mínimo aceitável é de 0.6, mantivemos o constructo no modelo (Nunnelly, 1978). Em seguida, o teste de validade discriminante através da raiz quadrada do AVE e dos valores crossloadings, confirmaram que o modelo de medida dos constructos era válido. Atendendo à validade do modelo de medida e aos resultados que originaram a sua validez, observou-se que a variável observável Confiança é de facto determinante na medição dos constructos latentes relacionados com as redes. Além desta variável ter revelado cargas fatoriais elevadas em três dos quatro constructos das redes, está presente, a par da variável Colaboração, nos constructos com maior validade convergente e discriminante, fiabilidade composta e coeficiente de Alpha de Cronbach – constructo Rede Família e constructo Rede Colegas de Trabalho. Atendendo a estas conclusões considerou-se que a Confiança é de facto uma variável observável importante na medição dos constructos relacionados com as redes pessoais e profissionais, validando-se assim a H2. Por fim, a hipótese 3 pressupunha a validação das variáveis observáveis dos constructos relacionados com o Bem-estar Subjetivo, a Personalidade, as Redes, a Confiança Pessoal e a Confiança Organizacional. Como anteriormente foi exposto, o constructo Bem-estar Subjetivo foi validado enquanto constructo latente medido pelas variáveis observáveis Felicidade Pessoal e Satisfação com o Trabalho. Por sua vez, os constructos Rede Família e Rede Colegas de Trabalho foram validados através das variáveis Confiança e Colaboração, enquanto o constructo Rede Vizinhos foi considerado válido quando medido pelas variáveis Tamanho, Confiança e Sentido de Interajuda e o constructo Rede Amigos através das variáveis Tamanho e Frequência. No que concerne aos constructos relacionados com os cinco fatores de personalidade, apenas o constructo Personalidade Extroversão, referente ao fator extroversão, demonstrou estar relacionado com a variação do constructo Bem-estar Subjetivo. As variáveis observáveis Energia, Entusiasmo e Assertivo foram as variáveis que demonstraram maior consistência nos testes relacionados com a avaliação do modelo de medida do constructo Personalidade Extroversão. Entre as três variáveis, a variável Entusiasmo foi a que apresentou maior carga fatorial no constructo – 0.8631 -, seguindo-se a variável Energia – 0.7978 – e a variável Assertivo - 0.7904 – com loadings muito próximos. A fiabilidade do constructo Personalidade Extroversão comprovou-se através de um AVE de 0.6687, uma fiabilidade composta de 0.8581 e um coeficiente de Alpha de Cronbach de 0.7518, tendo o teste da raiz quadrada do AVE e a comparação dos valores crossloadings comprovado também a validade discriminante do constructo. No que concerne às variáveis relacionadas com a Confiança Pessoal e a Confiança Organizacional, as análises para testar o modelo de medida dos constructos Confiança Pessoal e Confiança Organizacional revelaram que as variáveis estudadas não podem ser consideradas variáveis observáveis dos constructos propostos.
Capítulo 6 - Análise Fatorial Exploratória e SEMPartial Least Squares __________________________________________________________________________________ 105 Após a validação do modelo de medida dos constructos Bem-estar Subjetivo, Personalidade Extroversão, Rede Família, Rede Amigos, Rede Vizinhos e Rede Colegas de Trabalho, iniciou-se à avaliação do modelo estrutural. Em primeiro lugar, verificou-se através do R2, a quantidade de variância do constructo Bem-estar Subjetivo que é explicado pelos constructos independentes. O R2 do modelo é de 0.3446, sendo considerado um valor moderado. Em seguida, procedeu-se à aplicação da técnica bootstrapping, com previsão para uma subamostra de 5000 inquéritos. Esta técnica revelou os valores t e intervalo de confiança do modelo, sendo o intervalo de confiança de 95%. Por sua vez, os valores t statistics mais elevados encontram-se na influência da variável Colaboração (16.84352) e na variável Confiança (16.3506) no constructo Rede Colegas de Trabalho. Destaca-se também o valor t statistics da variável Satisfação com o Trabalho (14.0918) e da variável Felicidade Pessoal (10.972) no constructo Bem-estar Subjetivo. Por fim, a análise da multiplicação do coeficiente path pelo coeficiente que corresponde à correlação entre os constructos, indicou que o constructo Personalidade Extroversão explica 6% da variação do constructo Bem-estar Subjetivo; o constructo Rede Colegas de Trabalho explica igualmente 6% da variação do constructo explicado, seguindo-se o constructo Rede Família, explicando 5% da variação. Por último, o constructo Rede Vizinhos explica 3% da variação e o constructo Rede Amigos explica apenas 1% da variação do constructo Bem-estar Subjetivo. Considerando os resultados alcançados verifica-se que a H3 é parcialmente valida, uma vez que os constructos Personalidade Extroversão, Rede Família, Rede Amigos, Rede Vizinhos e Redes Colegas de Trabalho estão relacionados com a variação do constructo Bem-estar Subjetivo. 6.5. CONCLUSÃO As três hipóteses testadas neste capítulo estão relacionadas com a essência e relação dos constructos. A primeira hipótese – parcialmente validada – demonstrou que as variáveis observáveis Felicidade Pessoal e Satisfação com o Trabalho fazem parte de um constructo a que apelidamos Bem-estar Subjetivo. Apesar dos investigadores da área considerarem apenas a Felicidade Pessoal e a Satisfação com a Vida quando se referem ao Bem-estar Subjetivo, adicionamos ao constructo a variável Satisfação com o Trabalho, tendo-se verificado válida enquanto reflexo de satisfação. Atendendo que a Satisfação com a Vida não demonstrou carga fatorial significativa no constructo Bem-estar Subjetivo, foi eliminada da análise. Concluiu-se assim que o constructo de Bem-estar Subjetivo, validado pela análise SEM-PLS, é constituído pela satisfação pessoal – através da variável Felicidade Pessoal – e pela satisfação laboral – através da variável Satisfação com o Trabalho. Por sua vez, a segunda hipótese – validada – estava relacionada com a importância da Confiança na avaliação da relação entre os membros das redes pessoais e profissionais. A variável Confiança revelou cargas fatoriais significativas em três dos quatro constructos relacionados com as Redes – Família, Vizinhos e Colegas de Trabalho – apresentando os três constructos valores elevados nos testes de fiabilidade do constructo.
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 106 Por fim, a terceira hipótese pretendia testar a relação dos constructos independentes com a variação do constructo Bem-estar Subjetivo. Esta hipótese foi parcialmente validada, pois apenas os constructos Personalidade Extroversão, Rede Família, Rede Amigos, Rede Vizinhos e Rede Colegas de Trabalho revelaram influência na variação do constructo dependente. Deste modo, a análise SEM-PLS não comprovou a influência dos restantes constructos da Personalidade no constructo Bem-estar Subjetivo, medido pela Felicidade Pessoal e pela Satisfação com a Vida, nem comprovou a existência de um constructo que agrega as variáveis que considerou-se estarem relacionadas com a Confiança Pessoal e a Confiança Organizacional. No que concerne aos constructos validados por esta análise, os resultados revelaram que o constructo Personalidade Extroversão e o constructo Redes Colegas de Trabalho são os constructos que estão relacionados com maior variação do constructo Bem-estar Subjetivo, seguindo-se os constructos Rede Família, Rede Vizinhos e Rede Amigos.
Capítulo 7 - Ordered Probit Regressions __________________________________________________________________________________ 113 Tabela 21 – Resultados Ordered Probit Regressions – Modelos Finais Modelo 1 Modelo 2 Modelo 3 Felicidade Pessoal Satisfação com a Vida Satisfação com o Trabalho Personalidade Fator Personalidade Extroversão 0.140 (1.83) 0.118 (1.45) 0.0977 (1.30) Fator Personalidade Amabilidade 0.111 (1.31) 0.144 (1.68) 0.108 (1.30) Fator Personalidade Escrupulosidade -0.0370 (-0.47) 0.0885 (1.07) -0.0717 (-0.92) Fator Personalidade Neuroticismo -0.234** (-3.00) -0.132 (-1.64) -0.0548 (-0.71) Fator Personalidade Abertura à Experiência 0.0455 (0.55) 0.103 (1.20) -0.0688 (-0.84) Redes Fator Rede Família 0.230* (2.57) -0.0381 (-0.43) 0.150 (1.75) Fator Rede Amigos 0.00218 (0.03) 0.163* (2.06) -0.0762 (-1.02) Fator Rede Vizinhos 0.250** (3.07) -0.0310 (-0.37) 0.00819 (0.10) Fator Rede Colegas de Trabalho 0.188* (2.28) 0.0185 (0.21) 0.375*** (4.50) Confiança Pessoal Confiança – Pessoas Confiáveis 0.00821 (1.05) 0.00846 (0.92) 0.00946 (1.16) Confiança nos Outros 0.0168* (1.98) 0.0837** (2.70) 0.0281** (3.00) Confiança Organizacional Confiança – Pessoas N Interesseiras -0.00704 (-0.72) 0.00146 (0.13) -0.0105 (-1.02) Confiança – Pessoas Justas -0.0148 (-1.69) -0.0145 (-1.46) -0.0135 (-1.51) Confiança Superiores -0.000575 (-0.21) 0.00669* (2.20) 0.00414 (1.50) Confiança na Empresa 0.141*** (3.39) 0.0289 (0.67) 0.252*** (5.99) Confiança Gestor -0.00252 (-0.74) -0.00336 (-0.93) -0.00290 (-0.85) Variáveis de controlo Género (Feminino) Género (Masculino) 0.354* (2.09) Género 0.148 (0.88) 0.124 (0.71) Idade -0.179 (-1.80) -0.232* (-2.22) 0.0877 (0.92) Estado Civil -0.272 (-1.66) 0.0307 (0.18) -0.285 (-1.76) Escolaridade (Básico)
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 114 Modelo 1 Modelo 2 Modelo 3 Felicidade Pessoal Satisfação com a Vida Satisfação com o Trabalho Escolaridade (Secundário) -1.127** (-3.01) -0.568 (-1.48) Escolaridade (Universitário) -1.597*** (-4.06) -1.060** (-2.65) Escolaridade -0.381* (-2.39) Nacionalidade -0.0433 (-0.29) -0.304 (-1.81) -0.0921 (-0.61) Salário Mensal Líquido 0.0489 (0.77) 0.00573 (0.09) 0.0131 (0.21) Saúde 0.347*** (3.70) 0.0758 (0.80) 0.0828 (0.92) Anos na Empresa 0.0529 (0.59) -0.0245 (-0.26) 0.146 (1.75) Cargo na Empresa 0.129 (0.57) 0.0260 (0.11) -0.316 (-1.41) Pseudo R2 0.1483 0.0830 0.1479 Número de Observações 223 223 223 O modelo 1 da tabela 21 demonstra que a Confiança na Empresa e o Estado de Saúde aumentam positivamente a probabilidade de sentir Felicidade Pessoal, tendo esta probabilidade um nível de significância de 0.001. Por sua vez, o fator Rede Vizinhos contribui positivamente para a probabilidade de Felicidade Pessoal (nível de significância 0.01), enquanto o fator Rede Família, o fator Rede Colegas de Trabalho e a variável Confiança nos Outros estão positivamente relacionados, ao nível de significância de 0.05, com a probabilidade de sensação de Felicidade Pessoal. De forma oposta, o fator de Personalidade Neuroticismo contribui negativamente para a probabilidade de Felicidade Pessoal (nível de significância 0.01). Os níveis de escolaridade mais elevados estão relacionados negativamente com a probabilidade de Felicidade Pessoal (nível de significância 0.01 – Escolaridade Secundário – e nível de significância 0.001 – Escolaridade Universitário. O R2 do modelo 1 é de 0.1483. Os resultados da Ordered Probit Regression da Satisfação com a Vida (modelo 2) revelaram que a probabilidade de sentir este tipo de satisfação é influenciada positivamente pela variável Confiança nos Outros, nível de significância de 0.01, bem como pelo fator Rede Amigos e pela variável Confiança nos Superiores, nível de significância de 0.05. Relacionadas negativamente com a probabilidade de Satisfação com a Vida, a Idade revelou um nível de significância de 0.05 e o nível de Escolaridade Universitário com significância de 0.01. O modelo 2 demonstrou um R2 de 0.0830.
Capítulo 7 - Ordered Probit Regressions __________________________________________________________________________________ 115 A análise da terceira Ordered Probit Regression (modelo 3) demonstra que o fator Rede Colegas de Trabalho e a variável Confiança na Empresa relacionam-se positivamente, nível de significância de 0.001, com a probabilidade de sentir Satisfação com o Trabalho. À semelhança dos modelos anteriores, conclui-se que a variável Confiança nos Outros está relacionada positivamente com a probabilidade de observar a variável dependente, sendo a sua relação de probabilidade com a Satisfação com o Trabalho de um nível de significância de 0.01. Por fim, ser do sexo Masculino está relacionado positivamente, significância de 0.05, com a probabilidade de Satisfação com o Trabalho, enquanto o nível de Escolaridade relaciona-se negativamente com este tipo de satisfação, com nível de significância de 0.05. O R2 do modelo 3 é de 0.1479. 7.4. VALIDAÇÃO DAS HIPÓTESES Partindo das premissas fundamentadas na literatura científica, delinearam-se três hipóteses sobre a influência da Personalidade, das Redes Família, Amigos, Vizinhos e Colegas de Trabalho, da Confiança Pessoal e da Confiança Organizacional na probabilidade de sentir Felicidade Pessoal, Satisfação com a Vida, e Satisfação com o Trabalho, respetivamente. Considerando os diferentes tipos de análise – emocional e cognitivo – e os diferentes períodos temporais analisados – curtos ou longos - vários autores defenderam que, embora relacionados, Felicidade Pessoal e Satisfação com a Vida são conceitos distintos de Bem-estar Subjetivo. Neste sentido, propusemos a análise das variáveis independentes perante três variáveis dependentes: Felicidade Pessoal, Satisfação com a Vida e Satisfação com o Trabalho, colocando como hipótese que a Satisfação com a Vida e a Satisfação com o Trabalho são conceitos distintos, sendo Felicidade Pessoal e Satisfação com a Vida parte do conceito Satisfação Pessoal, enquanto a Satisfação com o Trabalho reflete a Satisfação Laboral. Definindo Satisfação Pessoal e Satisfação com o Trabalho o conceito de Bem-estar Subjetivo. Assim, a H4 propunha testar a validade da seguinte relação: H4: Personalidade, Redes Família, Amigos, Vizinhos e Colegas de Trabalho, Confiança Pessoal e Confiança Organizacional estão relacionadas com a probabilidade de sentir Felicidade Pessoal. Esta hipótese foi testada através da Ordered Probit Regression apresentada na tabela 21 como modelo 1 e cujos resultados deram origem ao seguinte modelo:
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 116 Figura 5Modelo 1: Felicidade Pessoal Os resultados da Ordered Probit Regression do modelo 1 são referentes à H4. Como se observa na figura anterior, entre os fatores de Personalidade apenas o fator Neuroticismo está relacionado com a probabilidade de sentir Felicidade Pessoal. Este fator, medido através das variáveis Stressado, Emocionalmente Instável, Não Calmo, revelou-se negativamente significativo (sig. 0.01) com a probabilidade de sentir Felicidade Pessoal. Por sua vez, à exceção do fator Rede Amigos, os restantes fatores das Redes analisadas demonstraram estar positivamente relacionados com a probabilidade de sentir Felicidade Pessoal. O fator Rede Vizinhos, medido através das variáveis Confiança e Sentido de Interajuda, revelou uma relação de probabilidade com a Felicidade Pessoal com maior nível de significância. Seguese, o fator Rede Família e o fator Rede Colegas de Trabalho, ambos medidos pelas variáveis Confiança e Colaboração sentida nos membros das respetivas redes. Salienta-se a presença da variável Confiança em todos os fatores, enquanto variável significativa para a relação com os membros da rede e enquanto influente na probabilidade de sentir Felicidade Pessoal. No que concerne às variáveis relacionadas com a Confiança Pessoal e a Confiança Organizacional, verificou-se que a variável Confiança nos Outros e a Confiança na Empresa estão positivamente relacionadas com a probabilidade de Felicidade Pessoal, destacando-se a significância de 0.001 da relação probabilística positiva entre Confiança na Empresa –> Felicidade Pessoal. Adicionalmente, as variáveis sociodemográficas relevantes nesta regressão foram o nível de Escolaridade e o estado de Saúde. Observamos que quanto maior o nível de Escolaridade maior a probabilidade de sentir menor Felicidade Pessoal. O estado de
Capítulo 7 - Ordered Probit Regressions __________________________________________________________________________________ 117 Saúde revelou estar positivamente relacionado com a Felicidade Pessoal, com nível de significância de 0.001. Atendendo aos resultados alcançados, a H4 foi validada, uma vez que a Personalidade – fator Neuroticismo -, o fator Rede Família, o fator Rede Vizinhos, o fator Rede Colegas de Trabalho, a Confiança Pessoal – variável Confiança nos Outros – e a Confiança Organizacional – variável Confiança na Empresa – revelaram estar relacionados com a probabilidade de Felicidade Pessoal. O fator Rede Amigos não demonstrou ser significativo nesta análise probabilística. Considera-se em seguida a análise dos resultados da Ordered Probit Regression do modelo 2, referente à H5: H5: Personalidade, Redes Família, Amigos, Vizinhos e Colegas de Trabalho, Confiança Pessoal e Confiança Organizacional estão relacionadas com a probabilidade de sentir Satisfação com a Vida. Figura 6 – Modelo 2: Satisfação com a Vida A probabilidade de Satisfação com a Vida não se demonstrou relacionada com os fatores de Personalidade, não existindo fatores da Teoria do Big Five Factor significativos na
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 118 Ordered Probit Regression realizada. No que concerne as quatro redes abordadas, apenas o fator Rede Amigos demonstrou estar relacionado com a probabilidade de sentir maior Satisfação com a Vida (sig. 0.05). Este fator foi medido através das variáveis Confiança e Colaboração sentida pelos membros da rede, revelando-se novamente a importância da confiança na relação e na probabilidade de sentir satisfação. Por sua vez, a crença de que os outros são de confiança, enquanto variável da Confiança Pessoal, demonstrou-se importante para maior probabilidade de estar satisfeito com a vida (sig. 0.01). No âmbito da Confiança Organizacional, a variável Confiança nos Superiores hierárquicos revelou-se importante para este tipo de satisfação, destacando-se como positivamente significativa (0.05) na probabilidade de sentir Satisfação com a Vida. O nível de Escolaridade Universitário, por sua vez, revelou-se negativamente associado à Satisfação com a Vida. Esta relação é significativa ao nível de 0.01. Atendendo à não validação de fatores de Personalidade e de três das quatro Redes abordadas, enquanto significativos na probabilidade de sentir Satisfação com a Vida, a H5 foi validada apenas parcialmente. Por fim, expõem-se os resultados do teste da H6, presentes no modelo 3. H6: Personalidade, Redes Família, Amigos, Vizinhos e Colegas de Trabalho, Confiança Pessoal e Confiança Organizacional estão relacionadas com a probabilidade de sentir Satisfação com o Trabalho. Figura 7 – Modelo 3: Satisfação com o Trabalho
Capítulo 7 - Ordered Probit Regressions __________________________________________________________________________________ 119 Os resultados do teste da H6 indicaram que nem os fatores de Personalidade, nem as Redes Família, Amigos e Vizinhos são importantes para a probabilidade de sentir Satisfação com o Trabalho. No entanto, conforme colocado em hipótese, a Rede Colegas de Trabalho demonstrou estar relacionada de maneira muito significativa com a Satisfação com o Trabalho. Relembrando que este fator é medido pelas variáveis Confiança e Colaboração entre os colegas de trabalho, sem diferença hierárquica, esta rede revelou estar positivamente relacionada com a Satisfação com o Trabalho, a um nível de significância de 0.001. À semelhança do que acontece nos dois modelos anteriores, ser uma pessoa que confia nos outros, está relacionada com a probabilidade de sentir Satisfação com o Trabalho. Entre as variáveis referentes à Confiança Organizacional, o modelo 3 evidencia a influência da Confiança na Empresa na probabilidade de maior Satisfação com o Trabalho (sig. 0.001). A observação dos resultados das variáveis sociodemográficas nesta Ordered Probit Regression, revela que o género é significativo para este tipo de Satisfação. Como se observa na figura 3, ser homem está positivamente relacionado com a probabilidade de Satisfação com o Trabalho. Conclui-se deste modo que a H6 é valida apenas parcialmente. 7.5. CONCLUSÃO Os resultados alcançados através das três Ordered Probit Regressions indicaram que a Felicidade Pessoal, a Satisfação com a Vida e a Satisfação com o Trabalho são influenciados de maneira distinta pelos fatores de Personalidade, pelos fatores relativos às Redes Família, Amigos, Vizinhos e Colegas de Trabalho, bem como pelas variáveis referentes à Confiança Pessoal, à Confiança Organizacional e às variáveis sociodemográficas. Assim, a probabilidade de sentir Felicidade Pessoal demonstrou estar relacionada positivamente com três das quatro redes analisadas. Neste sentido, Confiança e Colaboração nos membros das Redes Família e Colegas de Trabalho, e Confiança e Sentido de Interajuda nos membros da Rede Vizinhos, demonstraram estar relacionada positivamente com a probabilidade de Felicidade Pessoal. Além da Felicidade Pessoal estar fortemente relacionada com as redes e a confiança sentida nos seus membros, a Confiança na Empresa onde trabalha também está relacionada, com significância a 0.001, com a Felicidade Pessoal. Por outro lado, uma personalidade com elevado nível de Neuroticismo está relacionada negativamente com a probabilidade de sentir Felicidade Pessoal, enquanto ser uma pessoa que confia nos outros aumenta a probabilidade de Felicidade Pessoal, bem como de Satisfação com a Vida e de Satisfação com Trabalho. Com menor número de fatores e variáveis influentes, o modelo 2 - Satisfação com a Vida – revelou que a Confiança e a Colaboração sentida nos membros da Rede Amigos aumenta a probabilidade de estar satisfeito com a vida. Além deste alicerce pessoal, o ambiente laboral demonstrou-se também influente, uma vez que a Confiança nos Superiores da empresa contribui positivamente para a probabilidade de sentir Satisfação com a Vida. Por sua vez, a Satisfação com o Trabalho está significativamente relacionada com fatores e variáveis do ambiente laboral. Com significância de 0.001, a Confiança e a Colaboração entre os membros da Rede Colegas de Trabalho estão positivamente relacionadas com a probabilidade de Satisfação com o Trabalho. Além da confiança nos pares, a Confiança na Empresa é também importante nesta satisfação, sendo igualmente significativa ao nível de 0.001.
LILIANA LIMA LOUSINHA ALVES __________________________________________________________________________________ 120 Entre as variáveis sociodemográficas, o nível de Escolaridade demonstrou estar negativamente relacionado com a probabilidade de sentir Felicidade Pessoal, Satisfação com a Vida e Satisfação com o Trabalho. Quanto maior o nível de escolaridade menor a Felicidade e a Satisfação com a Vida. Por outro lado, ser do sexo Masculino está relacionado positivamente com a probabilidade de sentir Satisfação com o Trabalho, enquanto um bom estado de saúde é positivamente significativo para a probabilidade de Felicidade Pessoal.
8. Discussão e Conclusões