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Rimas de Joao Gabriel de Matos entre os Pastores da Arcadia Portuense : Albano Erithreo ... / Dadas a luz por Caetano de Lima e Mello

Matos, Joao Gabriel de

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RIMAS DE JOiO XAVIER DE MATOS • NA : Z eudCfi RIMAS DE JOAO XAVIER DE iSIATC ENTRE OS PASTORES DA ARCADIA PORTIJENSE ALBANÓ ERITHREÓ .  , DE DICADAS Á MEMORIA DO GRANDE  . LUIZ DE CAAIOES PRINC1PE DOS POETAS PORTUGUEZES D ADAS Á LUZ POR CAETANO DE LIMA E MELLO. TOMO ree P .. R T I AT r E_ . 1 . R O. 9 , __ ... _  .,, ....,.„. LISBOA NA REGIA OFFICINA TYPOGRAFICA. 1 . 712. Com iicenca da Real Meza C enfiria. — Vende na /ola da hurr  o 11.1' yCi Nem eu delicadezas vou cantando, Co' golfo do louvor, , nus explicando Puras verdades já por mi .pafradas Oxalá forão . fábulas fonhadas. CAMIíES. tanç.X. PROLOGO • i r Un c ' oso Leitor 7 as Poefias de JOX0 XAVIER DE MATOS táo conhecidas e ellimadas dos noltos Por- tuguezes , so as que offcrego nefie pe- quen ° volume á tua curiolidade: Elle poderia fer maior, fe fora vencivel o pouco aprego , que faz o A. das fuas admiraveis compolig6es , tanto em p re- juizo dos que amo a bella fimplici- dade , e prézáo mais os vellidos pro- prios da natureza, do que os adornos emprelIados da Arte : Tu, que deva fupp6r delte número, no defapprova- rás o trabalho , que tomei, para dar- te a ler cm hum 1 - 6 Livro os Teocri, tos, os Lobos e os Bernardes. Vale. O. .d Pe Pa Po o Po Sej Qjj % 9 .SONETO A FOITO córte o mar o navegante, Por engrotfar nos lucros a fazenda; Feche o foldado os olhos na contenda, Por deixar do valor próva baftante: Palacios mil o cortezáo levante, Porque a cega lifonja mais o attenda; O Rei grandes exercitos eflenda, Por conquiflar a terra mais diftante: Trabalhe em fim por tetra, e mar profunda A louca, irnmoderada gente humana, Qre eu na minha pobreza he que me fundo; Th hurna alta ventura náo me engana: Seja a todos pequen ° embora o Mundo, Que cu caibo multo bern nelta choupana. SO- E. 1MA SONETO 41". IN V1 Atino nefcador no Tejo andava, Deitando a réde hum ¿a, e outro dia; Mas por mais que a deitava, e recolhiai Náo recolhia mais que o que deitava. Qutra vida bufcar determinava, Vendo táo contra f: a pefcaria: Do lanço, e do batel fe defpedia, E nas humidas praias o cncalhava. Na pobre vida de paflor fuccede; Mas faltáo-lhe os cabritos na efpeffura Como algum dia os camaróes na rede; Por quanto he natureza a defventura Etn váo he trabalhar ; que náo procede D . n mundança do eftado a da ventura. SO, DE 3. X. 1SE m  S'„ SOMETO Efta Aldea, onde eflou , meu bom Fileno Crayas a Deos , alegremente paffo l'efco humad vezes, outras vezes cayo: O ar he sáo, he fertil o terreno. Náo bebo aqui de amor 'cruel veneno, Nem ouyo_as vis elCufas de hum efcaço; Náo ando as cortezias ; e fe as fayo , He a quem me náo tem por rnais pequen°. Os homens so fieis; ha temperança No veffir, , e comer ; paz, e alegria YivIráo'fempre nefta vizinhanya, A idade de Ouro pouco mais feria; Só me falta huma Bemaventuranya Qpe era o ter-vos na minha companhia. SO- 50- L A' vem apparecendo a minha Aldea Junto daquella ferra defabrida, Que por entre arvoredos efcondida Confufamente a vida me recrea. Mas a qual creatura ferá fea A habitaçáo, aonde foi nafcida! Por mais grandeza, em que fe pafre a vida, Sempre em fim he madrafta a terra albea: Alli , fugindo ás rnãos de quem me engana, Soubera-me livrar das falfidades, Qlte o Mundo rece á fimples gente humana; Quem de todo abraçára efias verdades; E lá da milla ruftica choupana Diírelfe,, para fempre: A Deos Cidades! RIMAS 4 SONETO, DE J. X. DE MATOS.  S . SONETO a, ma, a; N A45 chóro como aquelle, que em perigo Naufragou entre as ondas foçobrado: Nem clamo, como o rnifero foldado, Que foi cahir nas lanças do inimigo: No gemo como aquel/e, que em ea/ligo Tocou duros grill-J(3es encarcelado: Nem parmo como algurn , que defterrado Verdeo da amada Patria o doce abrigo: Sinto mais forre mal , pena mais dura; Pois fem nunca fahir da minha Aldea, Inda a vida anda cm mim menos fegura: E fe náo , vejo fe ha Ciaufa mais fea, 4C2e vir a precifar (trifte Ventura!) Na propria cena de cabana albea!' o. SO- 6  RIMAS SONETO VAIS os annos fngindo , e vai a idade ti Correndo ap8s dos meus: Váo as tardanças Entre confornidoras efperanyas  P Gaftando inutilmente a mocidade:  C I' Pluma vez defengana-fe a vontade No continuo exercicio das mudanças; Ontra vez j'a tentada das lembrarigas,  C le torna a confiar da variedade:  ./.' ( Aflim fe paffa o lempo mal feguro , Continuamente fabricando enganos, Com que a todos promette huna bem futuro ;  J  5 Mas eu, que eftou exprimenrando OS danos De táo incerta vida , que procuro? Se náo me aproveitar dos defenganos? so- DE J. X. DE MATOS.  7 SONETO J A', Fortuna cruel, tenho affentado Por mais eftaveis bens, que me offereças Que de balde no engallo me intereffas, Pois já vivo incapaz de fer tentado. Se tenhO,ha tanto tempo exprimentado ; Que fe, para os roubar, , he que os começas; Agora guarda as tuas vans promeffas, Que eu te perdoo haveres-me enganado. Dos teus dons apparentes defconfio; S6mente da razáo náo defefpero, Com que a viver leguro princifío: Já nem me tardas, nem tambem te efpero; E fe quanto me offreces renuncio, Tudo me fobra, porque nada quero. So- 13 ano; anos o- RIMAS SONETO S Alve, Templo feguro, onde a vontade„ Os ( naufragios de Amor já no recea , Beijando aquelle Altar, que fe alumea Da inextinguivel rocha da verdade: Aqui deixo á razáo , e á liberdade Deipedaçada a mifera cadea Agora ifenta a alma, e livre a idea Ouvirei cá de longe a tempeflade: Gemendo efláo os miferos humanos; E a mim já náo me altera aquelle earondo, Que infurdeceo ella alma tantos anuos: De 1á me chama Amor, e eu no refpondo; Que para náo me urdir novos enanos, Nunca mais faberá, que aqui me efcondo. S O- 2 lo; DE J. X. DE MATOS.  9 SONETO: S E acafo deito a villa da lembrança Pelos iongos defertos do paffado, Náo encontra o folícito cuidado, Mais que apenas os fajos da mudança: Se a memoria outra vez, que não defcança, Se volta para o tempo náo chegado , Nas contingencias de hum futuro eflado Tropcça com mil rifcos a efperança: Em fim, fe na prefente adverfidade Record() ellas razóes, baila hú ló dia, Para fazer-me trille em toda a ¡Jade: Pobre idéa, cançada fantezia? CILle não defcobre cm tanta variedade O mais pequen° inflame de alegría! S O- LO  RIMAS $ONET II tempos refifti á força dura Do feto Amor; mas elle acautelado Tinha a ultima induftria efcogitado Em fe valer da vofla formofura: Affirn o fez: Moftrou-me a face pura.; Ctliz fugir-vos, náo pude; enamorado Perdi o esforgo de que andava armado, Qué de vós nenhuma alma eftá fegura: De meu amor cruel evxecutora, He toda voffa a gloria da conquifta, Recolhei os triunfos vencedora: Quem no Mundo haver'a 4- vos refifta? Se o mefmo Amor, para render-me agora., Foi pedir.o foccorro á voffa vifta: Jui Su_ o A De A Po S'a( Q SO- Y_ Q U'ando nas mão.s de Amor me vi fujeito; A razáo em mil erros confentindo , Jurei de nunca más, cm lhe fuzindo, Sujeitar-me a feu barban) precei-co. Ora pude efcapar-lhe , e ver desfeito O duro laço , que me and:fra urdindo, Até, que pouco a pouco fui fentindo De novas chammas intlammar-fe o peito. Olhando entáo por mim, achei quebrada A ligeira promeffa, a hum brand° rogo, Por mirilla propria máci facriticada; Qzfe juras contra Amor, por defafogo, Sáo votos de tormenta jt pallada, 1:2 2 e depois que ferena. efquecem O- 'ton.  13  S O- DE J.X. DE MATOS. SONETO TZ  RIMAS 'SONETO V Em , ó Ninfa gentil, que no merece  9 O meu antigo amor, que aflim te efcondas:  O Vem , doura as aguas deffe mar, qué fondas,  Q! Bem como o faz o Sol, guando amanhece.  Pc , Se a converfaçáo tninha te aborrece; Ta náo digo, cruel, que me refpondas;  O . Mas fe quer, , lá de longe fobre as ondas;  40: A meus faudofos olhos aparece.  M Como fe me figura, 6 Ninfa amada, Que já o cryfiallino corpo erguendo ,  Pc Vens fobre as crefpas ondas levantada; Mas fó vem meu engano apparecendo; Era huma onda, ergueo-fe encapellada,  Pc La fe vAi entre as outras desfazendo.  Fe S O. ce  T Raz-me aos males de Amor táo col:turnado Jas:  O meu forçofo, o men cruel Dedino , ndas,  Que em fer alegre já , náo imagino, ce.   Pois vivo de viver,defefperado. . • , Deo-me a beber, por cópo táo dourado O veneno de Amor defde menino, Que as mefrnas qualidades de malino Me tem naturalmente faftentado. J1 matar-me no pode o meu tormento; Pois creado com elle por coftume, Fez em mim natureza o fentimento. O proprio mal, que a todos mais confbme, Porque narce de Amor, he o meu fuilento ; Que a quern'he fogo, náo offende o lame. so. DE J.'X. DE MATOS. SONETO 11. 1 M AS SONETO Ugindo fui de Amor, que ke feguia Com arco , aljava, e ferias indigriedo, De ver que tantos tiros tinha errado, Sem lhe deixar fazer a pontaria. Voltando o roa() ás vezes lhe dizia, Corno quem hia de correr cançado: • Que me queres, cruel? Defenganado Ji puderas eftar da vá porfia. Eis-que fuhitamente me apparece Defronie a iniqua Mái, que cm tním. pegava, Porque fugir ao Fallo náo pudeffe; Mas como eu , della, já. ferido andava, Amor, que o golpe vio, defapparece, Metiendo as feitas outra vez ná aljava. 10; DE J. X. DE MATOS. :O NETO a gava.D Q U'e me quereis, memorias de algurn dial Trazer-me nova m'agoa á conjeaura ? Onde he táo diligente a defventura, Efcufa menfageiros a agonia. Se vincles por fazer-me companhia, Fu cedo deffe obfequio; que he loucura Náo podendo eu comvofco ter ventura, quererdes vós comigo ter valia. Deixai-me defcançar, trille memoria! Que alern de fem razIo , ferá fraqueza Confeguir de quem foge huma Deixai-me ; e fe nafceis da ligeireza, Com que voou a minha inflavel gloria 5e t ,oui-1he agora a mefma natureza. S Q. S a RIMAS 5 • 9' N E TO S O'com o Grande, e immorta1 Cam5eg Me ponho a converfar noites, e dias: Ora nas lacrimofas Elegias,  • Ora nas magoadilfimas Canç6es: Aqui me coma mil perfeguiOes De Fortuna, e de Amor por tantas viaS; Que olhando para as minhas agonias, Tirando fempre vou labias lições. Sobe elle os olhos outras vezes paro jâ meios de agua; e digo entáo comigo: Oh alma grande, efpirito preclaro! Que cm váo me queixo ao Ceo do meu caíligo! Pois como náo ferá comigo avaro, Qupi foi táo pouco liberal comtigo: S 01 D O gofio, que j5 tive n'outra idade Que faço em recordar a longa hiftoria Senáo ierve de mais dio memoria, Que para mantimento da faudadel Só póde da apprehensáo aaividade Fingir prefente a coufa tranfitoria: Que lucro pois, de andar fingindo a gloria, Senáo fazer invejas it vontade Ora eu hei de vencer efta porfia, Por ver fe hum pouco o coraçáo defcança, Indo p6r n'outra parte a fantezia. Mas oh defejo vio, louca efperança! Como potro efquecer-me da alegria, Se confite o meu mal neila lembrança? ligo! DE J. X. DE MATOS. SONETO SO- R 1 M SONETO N Efle que julga o Mundo abatirnento, Em vez de me alterar, vou conformado : Se em lualquer tempo , fe em qualquer eftado kle cm a queda, de que ferve o augmento Se hum longo , e perennal contentamente) Entre os humanos a ninguem foi dado; Embora gyre o meu voluvel Fado, Com tanto que me deixe o foffrimento. Eu parto, fim , com animo difpofto; E quanto mais o meu pezar profundo, Tanto a razáo o vai trocando cm gofio, Inda o defterro me fer'á jucundo ; Porque renda á defgraça alegre o roflo, Irle Patria para o fabio todo o Mundo. lado nto Enhora , effes efpiritos ditofos, Que andáráo nefla vida defierrados, Na Patria efiáo dos Bernsaventurados Inda mais vivos, inda mais goflofos. Se perdIráo teus mimos amorofos, No Ceo náo falta quem lhes faça agrados; E nos braços dos Anjos defcançados Náo vivem já, como nos teus, chorofos: Bern fei que a maternal humanidade Náo e ferá facilmente tranfitoria ; Mas tambem a razáo vence a faudade. Conferva emhora delles a memoria; Ns cheia de huma tal conformidade , , Que, fe he pollivel, ihes augmente a gloria. Co DEI. X. DE MATOS. S ONETO zes  .11 IMAS SONEr0 Uantas vezes pacifico, e contente Q  P Debaixo daquella arvore fombria ,  E ¿ Deitado fobre a relva adorinecia ,  Ex( Ouvindo murmurar ella corrente?  De Qpntas tocando a flauta alegremente;  I (Porque inda entáo d'amores não fabía)  A f O pequeno rebanho que trazia,  Ma Era todo o meu trafego innocente?  Efr Perdí a quietação defla bonança;  f E f5 n'um voltar de olhos , fem cautela;  A 1 Perdi rudo o que tinha na efperança:  Do Ninguem fe fie cm fi, e menos nella : En fim , porque náo tenha igual mudança, Sé acafo vir Lorinda, foja della. A DE J. DE MATOS. SONETO :a3 P E i ga , Lucrecia, no punhal violento, E dando exemplo de conftancia ao Mundo> Executa no peito hurn fern fegundo De heroica acção honrado atrevimento. Parece que baftava o feu tormento 'A fazer-lhe inda hú golpe mais profundo; Mas no p6de com animo iracundo Efperar que a mataffe o fentimento: Abre a fatal ferida, o fangue corre • A remir tanta injútia; e antes que clame Do Efpofo a offenfa, honradamente morre: Cruel parece, mas ninguern 'rho chame , A mifera Lucrecia; pois difcorre Que ha morte honrada, quando ha vida infame,; RIMAS SONETO F Ilho , por mais que a Praça combatida  11;/ Veas, ou por valor, ou por deffreza,  En Náo recees morrer ; porque a vileza Q22 56 confille na entrega, ou na fugida:  Nii Ainda que ceda a efpada enfraquecida g  1 Corra por conta da alma a fortaleza, Nc Náo eft5 na tua máo ganhar a empreza, Qz..] 'No teu valor eílit perder a vida.  Ta Eu tambem aqui morro; mas o honrado Conflante amor da Patria efiá, prirneiro:  Fa I3em to deixo na acçáo recommendado;  As Que Ce S Praça no firvo j'a guerreiro; Ao menos no confelho , que te hei dado,  E 4 foccorro depois de prizioneiro.  Et DE 3. X. DE MATOS. \ SONETO ida A5 foi divida mas natural Em vós, do fal a A y a promogáo Que miniftrado por tão fabia m'a° Ninguem fe deve defgoaar do l'al. Será o bem commum , ferá igual No gyro da fiel diaribuição Q l ie o mefmo fal, que impede a corrupção Tambern corrompe, fe fe applica Dando á terra de noVo outro efplendor, , Fareis ern minas de ouro converrer As rnarinhas do [al, que daqui for. Os nacionaes, e ellranhos o hão de ver E huns , e ourros vos ciará° louvor, Em quanto o Sado para o aliar correr. lo n 0; SO- RIMAS (SONETO Eu Pa i , o nupcial ajuntamento Foi fempre todo o objedo ao meu cuidado; Achei Conforte em d:fcriçáo, e agrado De nobre, e fingular merecimento. Ella tem das virtudes o ornamento: Náo ha dote mais rico; e o noíro efiado Para fer táo feliz, como fagrado, Só lhe faltava o feu confentimento. Flem que delle abufei, ao que parece, Os meus defignios regulei de forte, Qe queixar-fe a razáo nunca pudeffe: Nem ha para o perdáo outra mais forte, Que fer tal a Conforte que elegeffe, Qual bufcando-ma Tu, foffe a Conforte. Da O Dei 1 A E: De An Os 1 Po Fe] SO. ado; e, DE J. X. DE MATOS.  :S ,SONETO O Uvio Amor ten canto, e fuTendido Di magica harmonia, que efcutava, O arco, e as duras fettas, que empunhavaí Deixou cahir das máos, como efquecido. Depois tornando cm fi mais advertido, A teus mimofos pés depoz a aljava ; E aquelle , que vencendo almas andava, De ten celefte canto foi vencido. Cada vez cheio de mais novo efpanto Amor confeffa, que da humana gente Os coraçóes náo l'alpe mover tanto. Rendeo-te as armas : Como andon prudente ! Pois de que fervem ellas, fe o ten canto Fere inda as almas mais fuavernente? o- SO. 2 6  RIMAS SONETO A C fo fui fenhor, , rico, &limado , ti r lye peideffe depois honra, e dinheiro? Depois de General, fui prizioneiro ? Dcfci do aureo Sceptro ao vil cajado? Fui guardador de numerofo gado, A quem depois ficaffe hum fe) cordeirol Fiz ferviços á Patria aventureiro, Qjje me viffe depois mal premiado ? Se nada diflo fui, onde me querern Levar ideas vans, que o Fado ordena, Só porque mais o meu focego alterem Seja qualquer que for a minha pena: Oh beinaventurados os que derem Ao cahir huma quéda táo pequena1 o Os Sen "1 Fói E Let E De 504 DE J. X. DE MATOS.  27 SONETO • • Q He ferá ifio? As Ninfas enfeitadas? O Téjo a longa barba perneando ? Os Paf - lores as francas temperando? Sem comer as pacificas manadas? Todas as portas dos cafaes ¡tincadas? Fóra do ninho os pallamos cantando ? E nos troncos das arvores gravando Letreiros as Serranas aprefladas? Hei de chegar-me a ler ; porque o que vejo, E traz a todos geralmente ufanos, Denota algum grandillimo fettejo: Diz o letreiro: Al-visaras , Serranos, Q .. tye a Ninfa Tutelar do nojjo Tejo, forniofa .Filippa, boje jai, annos. SO-  Ton. I.  e  SO- R I M AS SONETO IT Uns graciofos olhos matadores, Que ás vezes por mortaes ficáo mais bellos, Huns dourados finiflimos cabellos, Das madeixas do Sol defprezadores: Huma face, de donde as proprias cores Da matutina luz tiráo modllos; Huns agrados táo doces, fem fazellos , (Z . le por elles Amor morre de amores; Hum rifo táo parcial da honeflidade, Que no infenfivel caufar1 deftroço , Qganto mais na razáo , e na vontade: Ella he a Minha: Oh tímido alvoroço! Eu tomo de dizello a liberdade : ECU he a Minha . . a Minha . mas não poffo. Con 011-1; Val Se Efpe Ac-u( Que Não Q , u , e Sc 31 cp Que] s o- C ii P Or que foges Paffora , a hum defgraçado 2 Correndo atrás de ovelhas neffe outeiro? Olha que inda que bu pobre vaqueiro , Val o meu coraçáo mais que o teu gado : Sem ti ando ha mil días defgarrado: Efpera hum pouco; que náo he primeiro Acudir aos balidos de hum cordero, Que áS queixas de hum Paftor defconfolado. Mas vai , Paffora , a rnais cruel que ha hoje N'áo qucira o Ceo , que tanto me perfegue, Q..ge o meu continuo fufpírar te enoje. Socega tu, e eu tambern focegue ; Já que por hurn rebanho , que te foge, Queresdeixar hurna alma, que te Legue. offo. DE 3..X. DE MATOS.  29 SONETO S O- 30  RIMAS SONETO _. U vi huma Paftora em cerro dia  C Pelas praias do Téjo andar brincando,  Con Os redondos feixinhos apanhando ,  Teu Que no puro regaço recolhia.  D.n Eu vi nella tal graça , que faria Inveja a quantas ha ; e o géflo brand°, Com•que o fereno rofto levantando, Parece namorava quanto via. Eu vi o paffo airofo , a compoftura,  A Com que depois me pareceo mais bella,  Me Guiando os cordeirinhos na efpeffura.  Na Fu o digo de todo ; vi a Eftélla  E De graça, de candor, de formofura  Che poderei ver mais, tornando a vella. J5 .Refl Nen Faz SO- DE 3. S. DE MATOS. ;1. SONETO C Ruel, fica-te cm paz, e o vil intento Confegue embora , como o tens difpofto Teus olhos, tuas lagrimas, teu rollo, Já nada tem comigo valimento Já eftá no meu feliz conhecimento Reffaurada a razáo , perdido o gofio: Nem he a vez primeira, que o defgollo Faz cobrar o perdtdo entendimento. A rnefma dor da ofFenfa recebida Me fez tornar a mim Já náo me falles Na sota fé mil vezes promettida; . E por mais anfias, que affeecada exhales, Chega tarde o remedio da ferida, Qlje eu já curei mous males com meus males% O- Nác Qut Qut Amn O Do Hát 1- • 1 5 Se Pre 1z  RIMAS SONETO S E intentais neffe engano induatioCa Ser a minha gentil [era homicida, Para que he de cruel tirar-me a vida, Quando podeis matar-me de forrnofal Fareis, moarando a face- ortentofa, Que fique fendo a morte ap crecida: Deixai de acautelar-vos efcondida, Que cm vós indicios sáo de criminofa: Allim me matareis mais á vontade, Moarando-me effa Angelica figura: Que o mais náo he valor, fora impiedade: Tá.o infame fereis, e eu fem Ventura; Que por dar hurn triunfo á crueldade, Veg,ueis huma viaoria á formolura? S O- A Deos , Paflora ingrata, já de Aleixo Náo te recordes rnais, perde a efPerança; Que eu apago tambero a feg,urança, Que no tronco gravei defte alto freixo. TvIss fe entre os defenganos, que te deixo 5 Ainda record() a tua infiel mudança , O tempo rifcará ella lembrança, Que tambem a corrente galla o feixo. E podo, que lernbrar-me poffa a hifloria Do nolfo amor por força da faudade, Háo de os aggravos confundir a gloria: Mas trae allivio he elle na verdade! Se inda para rifcar-te da memoria, Precifo que me lembre a falfidade. SO. DE J. X. DE MATOS. 33 SONETO O- 34 RIMAS SONETO S E eu me vira n'um borque , onde náo déffe Sinaí, veftigio humano de habitado, De verdenegras ramas táo fechaJo, Que ajada alli de d'a anoiteceffe: Se entáo 111 de Mía batía ao longe houveffe Gemendo hum mocho, e tudo o mais calado 56 d'entre alguns rochedos pendurado Com fom medonho, huir: rio alli correffe: Em fim n'um lugar tal, onde os meus dias Confumindo fe foffem na certeza De náo tornarem mais as alegrias: Faminta ainda a trine Natureza, Cercada alli de tantas agonias "Nem entáo fe íartára de trifteza. Já Am Qu( Ij De Ou Tin Em Nel Da 0,1. 1 so- I) Epeis que a mil tormentos offrecido, )á de mui larga idadc tinha o pela), Amor me appareceo t'a() comrafeito•, Que me enganou depois de conhecido. Parece que ou Amor compadecido De meus males eflava fatisfei(0 Ou que eu de novo á dura Lei fujeito, Tinha já leus enganos efquecido. Mas no foi erro cm mim , nem nelle engano Em mim , porque mui bem o conhecia; Nelle, porque mil vezes fui tyrano. Pois donde tal defordem nal-ceria? Da fraqueza nafceo de hum peno humano, Que do mermo que teme, fe confia. .efTe do ias DE 3. X. DE MATOS. 1 5 SONETO RIMAS SONETO Q Ue affim fahe a manhá ferena , e bella! Como vem no Orizonte o Sol rajando! Já fe váo os outeiros divifando Já no Ceo fe náo ve nenhuma Effrella: Corno fe ouve na rufbca janela Do patrio ninho o ro-uxinol cantando! Já la vai para o monte o gado andando: Já começa o barqueiro a içar a vela: A Paílora acolá, por ver o Amante, Com o cantaro vai á fonte fria: Cá vem fahindo alegre o caminhante; Só eu no vejo o roffo da Alegria: ,Q 3 2e em guamo de outro Sol morar difiante, Eáo ha de para mim naícer o dia. Qu o Q11 Té Só ve Na Cc Fa S O- O- so. C Orno di efte fitio focegado! Que aflim caminha furdo efte ribeiro! O vento náo faz bulha no ialgueiro: Que feio o monte eltá, que tr'ifte o prado! Dos guardadores náo fe efcuta o brado; Té parece que dorme o Mundo inteiro Só pela encofta 1i daquelle oweiro Vejo buril lume ora accezo, ora apagado: Algum aftor ferá, que a porra abrindo, Na choupana eftará fazendo lume: Corno fe vai o coraçáo cubrindo! Pois que importa o focego, fe o coffume tnte,  Faz com que fempre n'alma efteja ouvindo Os eftrondos, que faz o meu ciume ? !la! DE J. X. DE MATOS. 37 SONETO Or mais que faça hom atrevido efiudo De expór á excelfa Tirce o meo defejo ,  Do 13ufcando vella fó, ió porque a vejo,  E Em lugar de dizer-lho, fico mudo:  De Animo-me mitra vez, fallo, e com todo Náo fei fe por temor, fe por cortejo,  Já Abaixo os olhos, encho-me de pejo, E fico entáo mais trate, que fluido.  5e Ella, que enes affedos me tem viflo, Pergunta-me Qlse tens Para explican° De milis valor o animo revino:  N( Vou a dizer-lho, balbuciente fallo, Formo algumas razóes, ateimo,  Er Mas de novo fufpiro, cremo, e callo.  Q1 so. RIMAS 3 3 SONETO s DE J. X. DE MATOS.  19 SONETO lo   P Oz-re o Sol; como j'a na fombra fea, Do dia pouco a pouco a luz defmaia! E a parda máo da Noite, antes que caja, De groffas nuvens todo o ar fernea! lo   Apenas j1 divifo a minha Aldea ; Já do cypretle náo diflingo a faja: Tudo cm filencio efiá: 86 lá na praia 5e ouvem quebrar as ondas pela ara. Co' a máo na face a villa ao Ceo levanto, cheio de mortal melancolia, Nos trifles olhos mal fuitenho o pranto: E fe inda algum alivio ter podía, Era ver ella Noite durar tanto, Que nunca más amanheceile o dia. 49  RIMAS SONETO O H quem pudera fombra defle arbufto Paffár o tempo da retiante vida, Cantando para fempre a defpedida Da habitaçáo, aonde mora o fulto! Faz defle monte o tráfego robufto Invea á dignidade mais fubida: E adora o - cortezáo a immenfa lida De hum mando inda pezado, guando he julio. Oh bemoventurada defiffencia Daquelles, que por táo feliz bonanga Trocáráo das Cidades a opulencia!. S6 em ti, fe ha no Mundo fegurança Póde, ó fanto lugar, fern contingencia Gozar huma alma a paz, cm que defcança. Se Ná Ná Pri Ná Fa QL A Ce Se SO- DE J.:11. DE MATOS.  41 so- SONETO Ue trille, que profunda foledade Se obferva aqui de fima defle outeiro! Náo anda lá no mar nenhum barqueiro, Náo fe ouve algum rumor cá na Cidade. Como da Lua a frouxa claridade Pratea aquelle monte derradeiro ! Náo fabe a villa aonde vá primeiro Fartar o penfamento de faudade: O Ceo fereno como eflá fizudo! Q 2 ie t a a planta, o mar adormecido, A terra focegada , o yerno mudo; Mas que eftrondo fizera , e que alarido Ceo, planta, mar, e terra, vento , tudo, Se rompeffe o filencio o meu gemido! Ro uflo. a. O- RIMAS S O_ N E T 9 D Ivina Laura, fe vencer deixalles Dos meus queixumes o teu genio efquivo, E para mim com rofto compaffivo Effes formofos olhos inclinaffes Viras fervir-re, em quanro me mandains y Ou forre com razão , ou fem motivo; Viras-me por meu gofio andar captivo, Por mais, e mais grilhaes, que me deiraffes; Viras efta alma , que tu mefma feres y ten mando fu¡eica , exp6r-fe forte A quantos rifcos idear puderes: Mas ah! Que inda es cruel da merma forte! Já fei que o que de inim f6mente queres, He ver em lugar dato a minha morte. Là Cio2 Se Con Ou) Que lv Cui Que N Con Qe 7 791n..7.  D  SO- ) y Gora, em quanto def t iertando a gente, 1.1 no 1 , a.rio Orizonte a luz náo raia, Gozarei da frefcura defta praia, Se tanto o meu Dellino me confente, "es 5 Verei do Téjo . a placida corrente, Como enrolada fobre a areia eipraia; Ouvirei entre os ramos deila Faja res;  C/Ireixar-fe o rouxinol fuavemente. Mas louco, em fim , em ¿J . me eflou detendo ! Queda eflar huma hora focegado, Cuidando que era pouco o que pertendo? Náo; que voando Amor junto a rneu lado, Com magoada voz me eflá dizendo, Q l e inda vivo de Lattra defpre2,ado. DE 3..X. DE MATOS. 43 SONETO 44  RIMAS %0NETO V io Alberto a Filena, enamorado Tanto no gello da l'aflora ardia, Qje f6 por merecella , lhe offrecia Tudo quanto mandava o feu cajado ; Mas ella, que f6 tem todo o cuidado Na tarefa , que traz da lá que fia, Buril forrifo lhe deo, com que tara Mover o caraçáo mais focegado. Sufpira Alberto, e chama-lhe tyrana Filena entáo fe fobrefalta, e altera, E da-lhe as máos receofamente humana. Satisfeito o Paflor confia , e el-pera: Váo ambos converfar para a cabana. Oh fe lb> mefrno a mim me fuccedera! E Jun: Ab! Coi Tar QL1( S6 De 1 Se Foí S O- 11) Ormindo eftava Algano ; e porque Alberta Junto a fi Ihe parece que efh. vendo, Abrindo os braços, as mentiras crendo, Com elles cuida .que a Paftora apena. Tanto aquella ventura tem por certa, Tanto fe vai de amor enternecendo , tIZIe á força de huna gemido eftremecendo Set comfigo abrasado entáo defperta. Defperta , e diz: Qye importa que a alegria De ver-te me fugiffe, fe .rufpeito Que me fays eterna companina a mefma no conceito: Se faltas no lugar, em que te via, Foi porque te efcondefle no,nteu peito. D  S O- 50- DE J. X. DE MATOS. 45 SONETO, SONETO,' C Flegou o tempo , em fim, que eu mais temía: Manda a Fortuna que de ti me aufente; E mil vezes Amor, que o náo confente, Ao coraçáo prefago mo dizia. As mimofas palavras, que te ouvia, Qpndo a efcutallas tornarei contente? Quando verei teu rorro brandamente Voltar-fe para mim como algum dia? Se ella certeza alguem me fora dando, Inda que tarde, ao menos com meus ais Táo longo mal iria alliviando ; Mas diz-me o coraçáo fegredos raes, Que até receio perguntar-Ihe o guando, Pois póde ,refponder-me: Nunca mis. S o - Que Alli Que Ago Imp De p, Que Em Fug Pois 46  RIMAS SO. O- Ormindo Anarda eflá. Qzyem te dilata Que náo vingas , Amor, a tua affronta Alli tens a cruel, de quem fe corita, Que íó teu forte Imperio desbarata. Gema huma vez, quem tantas vezes mata: .Agora, agora tens occafiáo prompta: Impunha o arco, e com dourada ponta De aguda fetta, fere s aquella ingrata; Porem olha no feas prefentido; Qie fe em ti peie os - olhos penetrantes, Em vez de Vencedor, ferás vencido. • Mas ai que ella acordou! Trilles amantes Fugi, fugi , que tudo ellá perdido, Pois vive Anarda ingrata, como d'antes. DE J. X. DE MATOS. 47 SONETO SONETO A Lhino, cuja idade inda o levava Por innocentes palios, cerro dia, Parando, a hum tanque, que fereno via, Com defiguaes pedrinhas atirava: AfTim que davão n'agua, efla faltava, E mil diverfos circulos fazia: A hum pequeno , outro grande fuccedia, Lté que outra pedrinha 1ie deitava. Eu cae fimples pairatutwo vendo, Lembrei.me que tambern os des favores, Que padeço , huns dos outros vão nafcendo: E no depondo a Sorte os feus rigores, Daquelle mefrno modo fuccedendo Verei.meus males cada vez maiores. S O- Vos (be Cui E Imz E f He Mil INJ'a Qu RIMAS T Arito nene faudofo apartamento Vos reprefcnta Amor na conjeaura, Qte erradamente a viffa vos procura, Cuidando fer verdade o fingimento. Entáo, guamo me pinta o penfamento, Imagens sáo da voffa formofura; E fe nelle outra coufa fe figura, He fó temor do voffo efquecitnento. A's vezes, qual depois de hû largo fonho Mil coufas, que me affutláo de comino, Na vaga idea a revolver me ponho; Mas queira o Ceo por efla vez benino ; 3'a que he faifa a Ventura que fupponho , Que fe¡a engano os males, que imagino. 3- so- DE 3. X. DE MATOS. 49 SONETO s 50  RIMAS SONETO D Epois que a linda Altea deftes prados Ditofa foi fazer outra efpetrura, Já náo vemos correr a fonte pura, Só fe for a dos olhos magoados. Tuclo nefles contornos são cuidados, Nafcidos de tamanha dcfventura, Piza fern dono o gado a ferneadura, Ji fe náo ve na Aldea entrar caiados. As Pafloras deixárão de ir ao rio, As abelhas fugíráo da colmea , O rebanho fe fez magro, e bravio: Ando todos dizendo: Altea, Altea, Onde eflds? Torna a -vir, , que o teu depvio Tenz-nos feito mutis perdiz que Unta chea. já já (2e A Sóm Mas já e: Ti He Para Das As c Deos, Natercia ingrata, a Dees impía, tudo fe acabou, rompeo-fe a venda, náo levo cadeia , que me prenda; Que a razáo he mais forte, que a porfia: A chamma fe extinguió , e a cinza fria Sómente guardo por final da emenda; Mas para que outra vez fe náo accenda , Já eílá fóra das Aras, cm que ardia. Tua mudança (bem que n'alma gravo) He na memoria fó onde a contemplo, Para náo fer já mais de Amor efcravo: E da Verdade no pieclofo Templo, Das injurias de Amor , por defaggravo, As cinzas, e os grilhóes finjo de exernp/o. SO- DE J. X. DE MATOS.  51 SONETO Page 58 could not be converted This page was skipped, but the rest of the document is available. 520 Server Error: <none> for url: https://convert.identific.com:2053/api/convert DE J. DE MATOS.  53 SONETO -1 57 lo-me Altea, com livre defafogo Gozar dos frutos de huna tranquillo etlado; E t achando-me de Amor táo defcuidado Chegou, ferio-me, e rctirou-fe logo Agora, que entre lagrimas lhe rogo , 0_ 1 2e remedee o mal, que me ha caufado, De longe eftá com géflo fimulado Ateando ainda mais de Amor o fogo. Náo ha maior t raiçáo , maior crueza, Do que ferir-me, e aflim negar-me a cura, Como que nada do meu mal lhe peza: Mal ha¡a Amor ! Mal haja a formlra! Ella, porque em amor náo tem firmeza; E elle, porque cm mina náo tem ventura. 54  RIMAS SONETCr ouvindo a doce tnelodia N Daquelle paffarinho namorado, Qje alliviaffe cm parte o meu cuidado,  E y Corno já n'outro tempo fuccedia: LoE E vendo as aguas, que ella rócha envia  1 A regar manfamente o verde prado,  Tm' Q:ae, efquecido das miras que hei chorado, 0.9 Com rollo enxuto agora cantaria.  Po: O contrario fuccede, porque cm guamo  1 O agradavel °bledo cita. detronte,  E Dos trilles olhos mais fe engroffa o pranto;  lit Pois foi a minha gloria nefte monte Mais fuave que as vozes deffe canto, Mais ligeira que as agoas defia fonte. o- DE J. X. DE MATOS.  55 SONETO MAndou-me, que cantaf r e Amor hum dia Qpantos effeitos feas huma alma fente; E para começar mais altamente,  - Loo á Ventura protecçáo pedia. Puz-me a cantar; mas ella me fugia: Imporuunei o Ceo, a una, e a gente; Que quem nafceo para chorar i5 mente, Por bem que cante, a todos enfarcia: Mil vezes diffe a Amor que eflava rouco, E que era tido já da gente dura, 'Jumas vezes por nefcio, outras por louco. Rindo-fe cm fim da minha defventura , Retpondeo-me: Itao fabes que val puco Querer cantar de Amor, fem ter Ventura? SO- s6  RIMAS SONETO que inda efpera ter Ventura Com peito feminil, que louco efpera! Pois quando mais feliz fe confidera, Entáo encontra a fé menos fegura. Como filha do mar a formofura, Com elle ora fe aman fa, ora fe altera: Náo le mais vária na Celefle Esfera, A que muda tres vezes de figura: O defengano, que elle avifo infpira, Náo he felredo, que revelo agora, He já défordern, com que o tempo gira: Porque no peito de quem cego adora, Se o gofio, ¿tirilla que nafce, logo elPira, já maís a defventura fe melhora. De Bu Hur Out No Ag( Ag( E For 1 Poi .Fa2 E Amor em trifles lagrimas banhado De que nunca fe falta o meu defgofto , Huma vez para o Ceo levanto u rofto, Outra vez para o cháo olho inclinado. 0 ,2 A fempre das gentes apartado, Nos fitios mais deferros eftou poflo: Agora fobre a mão a face encofto, Agora vou correndo exafperado: Mil idéas t formo, e j'a. clesfaço; E porque o Mundo em fim me no condene; Forço na boca hum rifo frio, e efcaço. Allim ando, 6 forrnofa Dinamene; Pois fendo a caufa tu de quanto pairo, ,Fazes tão pouco cafo de que eu pene. so. DE J. X. DE 'TATOS.  57 'SONETO S O-  Toi C Orno forrres, ó Jupiter Supremo,  p( Que a gentil Galatea por feu gofio Defcance indignamente o alvo rollo  E air Nos braços vís do bruto Fofa - cm°  Náo He pollivel pairar de extremo a extremo,  De Tocando aquelle finguiar compoflo  Nem Com feias máos , fujeito fó.difpofio  Cirag Ao duro punho do pezado remo?  Hora Tu pois , que o movimento te he fujeito Da natureza cm rudo táo conforme, Náo confintas agora elle defeito: • I  Conh Faze de Cíalatea hutn tronco informe: Vingue-fe allim das Ninfas o refpeito; E fe ama hum tronco, ern tronco fe transformeí Po Am Que 53  RIMAS SONETO ne; DE J. X. DE MATOS.  59 SONETO P Onho táo livre os olh g s erri Damiana; Que a vejo ás vezes, e náo fei fe he ella; E - ainda guando chego a conhecella, Náo me lembra fe quer que foi tyrana. De a ver albea, da a julgar ufana, Nem prazer, nem defgotio me defvela. (iraças a Deos, que ja chegou aquella llora feliz, que a pOucos delengana! C me deixafre cm fim , que me fugiffe, 0.22e me póde importar, fe daqui nafcc Conhecer a razáo, já fou felice; Porém nunca cuidei que ella chegafre A merecer táo pouco, guando a vifle, Que nem para o defprezu me lernbraffe. )«.  Ton;. .4 O S annos da feliz puerilídade Chorei fem culpa, e confumi fem gofto Depois crefcendo, vegetou-fe o rollo Daquella foinbra, que authoriza a idade. Foi-me fendo plaufivel a maldade, Bufcando o allivio por caminho oppofio: Chamei prazer, ao que me deo defgolto, Quiz acertar, fitgindo da verdade. Corno defpojo atado finalmente Ao carro infame da cegueira eflive: Que mais fizera irracional vivente? Nunca ufei da razão , depois que a tive; Que aílim he trifte, o que aili eflá contente!. Çomc p vive enganado, o que ailim vive! S O= Ond, Com Tant o' Oe Pois Hão A' Com P orét Nã P orqi En a e RIMAS SONETO DE J. X. DE MATOS.  6k SONETO Inte! Quelie amor , que tinhas n'alma efcritó, Onde efilt Dize , ó faifa? Tão depreffa Como he poiiivel , que hum amor fe efqueça Tantas vezes aos Ceos jurado, e dilo O'praza aos meftnosCeos,quedmploro Ozie inda igual defventura te aconteça1 Pois como teftemunhas da promeilã Hão de fer vingadores do deliao: A' minha villa te calliguem logo Com delãmor, defprezo, e defagrado; Porém que peço , que fupplico, e rogo? Não fea affim teu crime canigado; Porque eu tenho mais prompto defafogo En?, chamar-Te mulher; e enou vingado. Oa , faudofo Amor, e em breve giro .Abrindo as brancas azas docemente, A' bella Dinamene diligente Leva da minha parte elle fufpiro. Se o receber tão hem conforme infiro, Deíta memoria, que lhe devo aufente , Dize-lhe tudo, o que minlia alma fente, Defde o feu cultofiílimo retiro. Dize-lhe mais, que ao menos a amargura Do feu efquecimento hum pouco adoço Com táo nova, e fuaviflima efcritura: E que cm fé do meu íntimo alVoroço Fico (4i7,e que o vifie) com ternura Beijando as letras, já que a máo náo poíro; o As Av Hoj Que Em De E Prol ,Q33e 1M (be Acrt RIMAS SONETO SO- DE J. X. DE MATOS.  63, SO N1ETO O Tempo , que veloz defapparece, As coufas d'an:e os olhos apartando, A voffa formo Cura reipeitando, Hoje com ella a todos enriquece: No corre pava v6s, antes parece Que o veneravel galo levantando, Em voffas altas prendas contemplando, De voltar o relogio entáo fe elqucce. E com raz'ão , que opp8r-fe-vos fería Profanar cegamente a immunidade, pzie a táo gentil prefença fe devia Mas ou.por intereffe, ou por vaidade3 Q j er morar, quanto póde nelle di4 Acreditar-fe a fi com voffa idade. SO4 O- Eja-te parabem , Téjo fagrado, Do grande Antrito a cotnpanhia honrora; Outra vez efle bem desfrura, e goza Das tuas claras Ninfas rodeado; Das ondas gravemente levantado, Ouve-lhe agora o verfo , agora a profa, Com que a pezat da crítica invejofa Fuá fempre o Mondego celebrado ; E cm quanto o ouves cantar táo altamente De inviaa palma, de triunfante louro , Vai-lhe adornando a judiciofa frente: Depois reconra ao Seculo vindouro, Qt:e p6de em fim a Lufitana gente Ver na idade de Anfrifo a ti:Jade de. Ouro. Do ,Por 'S'en Lo Ont Vol Diz Ter IT A fli Dii S O. RIMAS 04 SONETO DE J. N. DE MITOS,  65 SONETO C Om alegre apreffado movimento Do Ceo vi já defcer a alta Lucina ,Porque affiffir ao voffo nafcimento, Senhora, o mefmo Ceo ihe determina; Nafcefles, e com brando tratamento Logo cm feus braços vos tomou benina, Onde cheia de amor, e acatamento Vos eftá embalando, e lendo a fina. De v6s goftofos vaticinios canta: Diz que fePeis feli k , quanto formo fa, Terna, compadecida ,affavel ,  a: Diz ern fin, que fereis niaravilhofa; Affirn vos louva, alfim vos acalanta I Ditofos voffos Pais, e vós ditofa. ).  so- 66  RIMAS SONETO Rm1 ditota, que de cá fubifte Lâ onde pena alguma fe náo fente, Se razáo p6de haver, com que fe augmente, Effa Gloria Immortal, que confeguifte: Que alegre ficatias, guando ville Entrar no Ceo effa alma inda innocentd. Como virias com razáo contente A receber o filho, que parifle! Que o defeiavas  Deos bem fabía, Náo te quíz demorar táo alta Sorte; Goza, goza da fua companhia; E praza a Deos, que na Celefie Corte Te dé depois do derradeiro dia igual contentarnento a minha morte. Em Efcã Que . Q 'Apa Che 4::/.11C As Dig, Din QL.1( S DE J. X. DE MATOS.  67 SONETO F Elices margens do faudofo Ent cuja branca ara finaladas Efláo de Dinamene inda as rizadas, Que aufente adoro, que inclinado bejo. Quando vejo eftas praias, e a no vejo 'Apanhando as conchinhas prateadas, Chóro as glorias de amor alli pafradas, Que nunca paffará6 do mcu defejo. Aqui lhe clifTe mens fieis amores., As ondas amancei, deíive os ares, Dig , áo-no ellas arlas , e ellas flores. Aqui rambem agora entre rezares Direi aos Navegantes, e Pafiores , Qe refreitem de . longe cites lugares. SO- 6a  RIMAS SONETO  Ncontron : -me ella graça etn tal defiroço, Que nein oufo , Senhor, , a recebella E por mais que cm bufcar-me fe defvela, Jâ náo percebo o minimo alvoroço. Andou nefle favor, que todo he voffo, Induilnofa a minha infaufla Porque, guando en podia , náo quiz ella; E agora, que ella quer, , he que eu náo poffo. Olhai como elle bem fe desfigura, Pondo-fe , ánte os meus olhos por negaça Q2ando ha de malogran ° a conjunerura! Que outra coufa , Senhor, quereis que eu agá? Se me chega de forte effa Ventura, Qje ji fe náo diftingue da defgraça. N Hur A or Viv .1N Met Pob Que E Mea Que Que Fug so- DE J. X. DE MATOS. 69 SONETO 'off°. faça? N A5 haverá hum z fitio táo farado Hum lugar tao feguro, e defendido Aonde vá da Fortuna perfeguido •iver por algum Lempo delOançado? Náo haverá ; porque ella o tem jurado; Metrenclo a máo no lago denegrido: Pobre de quem já vive táo perdido, Que eflá para as Venturas reprovado! E no receia o Mundo que o infefte 1VIeu hálito mortal? Inda confenre Que eu pize os matos delle monte agrefle: Como daquelle mifero doente, Que foi tocado da snafigna Fugi, fugi de mim, ditofa gente. o-  o- RIMAS íIONETO N O Templo entrei de Amor: Inda geladck O fangue tenho, do que nelle víra: Alli ella o ciofo, que delira, De mil fufpeitas vans atormentado. Aqui o aufente em lagrimas banhado , Longe hum pouco dos mais, trifieTufpira; }hm jura fé , mettendo a máo na Pyra, Outro náo póde co' grilháo pezado. • Sobre as cruentas Aras de Cupido Q2entes entranhas, que inda eftáo vivendo, Tem por tenções diverfas offrecido. Fugi , mortaes , defle lugar tremendo: Se he o Templo de Amor táo defabrido, Como ferá o feu Inferno horrendo! (Mi Serr Irei Do Sen Ind E De Fali Ani Suf SO- Q U e te vejo rneus olhos, no confente (Meus trilles - olhes) por mais tempo o Fado; 7‹ Sem ti para táo longe deflerrado Leí viver, fe viver pollo, aufente. -Comigo irá teu nome eternamente Do neo efquecirnento prefervado, Sendo, fe dio fer póde, articulado Inda ao paflar do Lethes a corrente. E fe algum dia vires, que á fineza De fer comtigo agradecido, e humano Falto, fem dar de tanto amor certeza, Não julgues nao, que a antiga fé profano, 'Antes baixos os olhos, de trifleza 5ufpita, e dize então: He morto Albano. ada DE J. X. DE MATOS. 7' SONETO S O- . SONETO P Ara ver fe cantar-vos faberia,  D Dep s ois que a frente de jafmins ornava,  Con A cythara comei, que náo foava,  A m E na garganta a voz fe me prendia.  Que . Do gráo Paflor de Adinero, que me ouvia  O rr Em meu ioccono o el - pinto invocava:  Entc De novo a voz, e a cythara esforçava,  O ti E de novo com ella ernudecia.  Seus Eis-que fe me aprefenta em fórma humana,í Sorrindo-fe de mim o Paítor Louro,  Neri Que ern vez de me ajudar, , me defengana:  A v Sabe, mortal, me difi - e, que no Douro,  N Para cantar de do gentil Sarrana ,  Q2e Sómente he digna a intnba Lyra de ouro.  Nad RIMAS SO- S O. DE MATOS. SONETO 11)0 rio as claras aguas, que foando Correm por fima de afperos ieixinhos, A mufica dos ledos paffarinhos, Que de longe fe eftáo defafiando: O murmurante vento , que affoprando , Entorna o frefco orvalho dos raminhos, O tremulo balar dos cordeírinhos , Seus curvos faltos lobre a relva dando. Tudo em vez de alegrar-me, me arriofina,, Nem o rollo huma vez fe quer levanto A ver, o que fe paffa na campina. No he allirn, ouv indo o voffo canto, Ql . le erra virtude de voz táo peregrina Nada no Mundo me confula tanto. :na DE via 74  RIMAS SONETO r u, que os collurnes , e as paixóes retratas Em teus verfos fuaves, e Divinos: Tu que das máos de G-regos, e Latinos A Tu,  cythara arrebatas: Tu , que as materias de Coturno tratas Por modos fó do feu caraaer dignos: Tu, que a pezar dos criticos malignos O ten, e o noffo credito dilatas: Sobe, 6 Aleino , ao Prendo, voando,1 .Da Arcadia o lauro cingirds na frente, one por lima dos mais , vds levantando: Diffe Apollo do throno refulgente, A' villa de teus emulos rafgando O volume da crítica infolente, , M eu M as S e mí Sob A offt Q ue e V icio Ben S ubir A quc Mal S aber M ais Ton s 0- F, Ton. L ID E J. X. DE MATOS. SONETO î i Ste obfequio, Senhor, que vos envia Meu animo fiel, curto parece; Mas quem o pouco, que poffue offrece, Se mais tivera, muito mais Sobre fingelas máos náo fe avalia A offerta pelo vulto, que apparece; Que entáo a acceitaçáo fora intereffe, Vicio, que nunca em vós haver rodia. Bem fei que de meus verfos a humildade Subir náo póde r aquelle defempenho, A que antiga affeiçáo me perfuade; r. Mas huma falvaçáo comvofco tenho; Saber que a voffa candida vonrade Mais préza humdom de amor,que d'alto enzenhor 'atas 75 76  RIMAS SONETO M Orreo o born L-u.iz: Jt náo veremos A.quelia boca para' todos rindo: Plum fono perennal eilá ddrm indo: 1á de ouvillo a Ventura ná'o tetemos. Hum novo Her6e cortado em flot choremos Qie por mais que fubamos o alto.Pindo, Ao Ceo, para onde foi de nós fugindo , 15 agora cm váo por elle chamaremos: Até para ficarmos mais fauclofos,, O feu frio cadaver nos tir5ráo D'ante os olhos táo trilles, e chorofos: De vello as efperanças fe acaVatá•; Venturofos aquelles , vena:rol-os, Que as ultimas palavras lhe efcm5ráo P Guar T omi L os o P ouc/ V end A Ve E m F P ara Se Q yan H e a] s D E J.  M A ‹)5.  77 SONETO P Romettendo a Lituano Dorbthea Guardar-lhe a fé,. que feu amor devia, Tomou por teflem-unha a luz do dia, E os juramentos efcreveo na aria. O vento , que a •revolve, e que a manea, Pouco a pouco a efcritura desfaia;  . Vendo ifto a Pailora, que faria? A Liman° lambem rifcou da idea. • Veo 15 corno a fe cfb bern fegura Em peito ferninil: Qpe documento Para quem crer mulher, ou crer Ventura! Se airada na que tem mais fundamento, Quanto diz, quanto efcreve, guamo jura, He aria, que a rnove qualquer vente. Fu  S O- , 78 RIMAS S ONE D O tim dia, de Liman ° acompanhado, Defcendo por hum valle manfamente, Cahio minha vita de repente De hum tiro da Fortuna derribado. Como vinha tán junto do feu lado, De medo me affufirei naturalmente Pois náo fou inda aflim táo defcontente, Que ya cahir náo polla cm baixo eftado: N'áo effou inda etn mirn, porque duvido Se daquelle defafire , por acerto Sahi, ou não , fem o faber, ferido; • .Que afrombrado fiquei , Beliza, he cerro; Mas náo culpes quern anda eftremecido, Vendo o rajo cahir de fi tão peno. Mea Do t Por Cá 0.2e Affirr Ten Da De ni Aon Po E fe De a S 0- DE J. X. DE MATOS. 79 SONETO Eu amado Mondego, meu amado Mettre gentil, que fabio me educafte Do tempo, que benigno me hofpedafie, Por onde quer que for ferei lembrado. Cá toma conta da Pailora , e gado, 9 e já com teus falgueiros abrigafte, Allim nunca a Eftaçáo do Elijo gafte Ten cryfiallino curfo focegado. Da Patria huma jufliffima vingança De ti me leva a outros Orizontes, Aonde pague a culpa como herança. 'o;   Por ti , por ella, sáo meus olhos fontes; E fe vivo, he fómente na efpetança De ainda tornar a [andar teus montes. R 1 rvil A S SONETO Q  A Ue effranhos cafos vi no monte, e prado, Em quanto ouvi ten canto : Aquelle outeiro  Enfa Ilum pouco fe moveo, e elle ríbeiro,  De 1 Para ce ouvir melhor, ficou parado.  Ides Derceo dos montes de tropel o gado,  C1 A Serrana, o Paffor, e o pegoreiro,  Faze O voraz'lobo , o tímido cordeiro  Con Tudo ficou attonito, e pafmado.  Dos Até a minha horrida Trilleza  V Batendo as negras azas fugiria ,  Abh Se Ilto n'áo impediffe a natureza;  Ergi Mas hum pouco fufpenfa da harmonia.  M Deixou-me refpirar, e foi deffreza,  Para Por ver fe me matava huma alegna.  E er S O- DE J. X.. DE MATOS.  81 SONETO rado,  Onde andais, ó Parcas venenofas, iro   Enfanguentando as mãos ? Como infolentes De Cidadáos fieis, de Heróes valentes Ides cortando as vidas preciofas ? Como em trifle viuvez tantas efpofas Fazendo andais no mundo dekontentes, Como tantos filinhos innocenres Dos braços arrancais das Máis chorofas? Voltai-vos contra mim , vingue-fe a Serte, Abbreviai-me a horrida partida, Erguei a máo , que eu me fujeito ao córte; Mas ha que imprecação mal proferida! Para a morte dos outros 'palla a mane, E einimim para morrer fobeja a vida. 82  RIMAS SONETO F OrrnofilTima Olaia , o teu femblante  N No fei qu'e graça ,tern , que almas cativa  Quc náo fora a tua táo efquiva ,  CuE Aflum náo fora a minha táo conftante.  Orr Ah! Qije fe te encontrára hum f6 inftante  S A minha adoraçáo menos altiva,  Nut Em vez de defprezar-me fugitiva,  Tan Paráras a efcutat meu rogo amante.  Ver Entáo compadecida do meu pranto  C Darlas mil finaes de fentimento  Da Neffe rofto gentil, fereno, e fanto í  Afli Mas táo altos favores não intento,  IN Nem póde fer, , nem eu mereço tanto,  , Coi Cura volver dos teus olhos me contenta,  La s DE 1. X.‘DE MATOS.  83 SONETO 2 ate N Infas defies vizinhos arredores, Que táo altivas prefumis de belas, Cubrindo os vultos de cuflofas telas, Ornando as tranças de feSes de flores. Sabei que Olaia, Olaia , os meus amores Nunca prccifará defras cautelas: Tanto vos vence a vós, quanto ás Efirellas Vencem do claro Sol os refplendores. Qual a frefca bonina, que florece Da máo da Natureza cultivada, Allim de Olaia a formofura crefce. Náo he táo bella a luz da madrugada, Como Olaia gentil, guando apparece Lá de longe a meus olhos deiloucada. so- RIMAS SONETO Q Uem nunca vio a luz formofa , e pura De teus olhos gentis, de teus cabellos, Póde, corno eu já fiz , antes de vellos Zombar de Amor, e rir-fe da Ventura. P6de defconhecendo, o que he ternura Perguntar o que he fé, e o que são zelos? Eáo ter faudades, n5.o fentir defvelos, E á minha inquietaçáo chamar loucura; Mas não depois de os ver, que derribado Do feu alto defcanço ficaria , Cheio de confusáo defenganado; Pois perclendo o valor, em que fe fia , Moneda em teus oIlios abrazado, Prezo nos teus cabellos gemeria. E E N Na arr E hurr Conta Ora Por eh Ora qt, Aos re Dep Doces Com No Dos o Nova O- so- DE J. X. DE MATOS-  85 SONETO E Ntra o foldado envolto cm fangue , e terra Na amada Patria a defcançar contente; E huma vez ao vizinho , outra ao patente, Conta os perigos da pairada guerra. Ora diz , que fubíra bunia alta ferra Por entre o Togo do pelouro ardenie: Ora que peleijando frente a frente Aos receios da ;norte os olhos cerra. Depois colhendo vai para o futuro Doces frutos da paz, que eftá gozando Com vida alegre, e animo feguro. Náo eu afiim , que apenas defcançando Dos conflietos de Amor t yranno, e duro, Nova guerra me faz teu géilo brand°. S O- so. Q Ual Pallar, que do fono accommettido, No cháo os lafros membos enconando, Da noite as trilles horas vai pallando Dos leus manfos cordeiros efquecido. Té que do refplendor do Sol ferido, A' força de feus raios defpertando , Abre os olhos, e o rollo levantando, Fica por grande efpaço fufpendido. Tal ett de ver teu rollo defcuidado, Nelle empregando a villa de repente, De tanto refplendor fiquei pafmado. Mas o fim defle cafo foi diffrente; O Paflor levantou-fe defcançado , E ce cahi ferido mortalmente. A Náo Qzté Onde Se te Porás Hum An Para Cuidz Poi Ze Que c 86  RIMAS SONETO A. Lbano , quem es tu? Teu baixo eftado Náo te confunde, náo te defengana ? Q 2 é das Iavras, que tens, qué da cabana, Onde efiáo as cohneas, onde o gado Qpe has de offrecer a Olaia confiado, Se re ouvir algum dia más humana: Porás aos pés de táo gentil Serrana Hum gurrão pobre, hum paftoril cajado?. Aníias, fufpiros, lagrimas, e ais Para quem dcfconhece, o que he ternura, Cuidas que são huns grandes cabedaes1 Pois fabe, que re diz a formofura, Qr_ie ames menos , fe vieres rvaler mais , Que onde fobeja Amor, falta a Ventura. So- DE J. X. DE MATOS.  87 SONETO 88  RIMAS SONETO en pudera viver de noite, e dia, Vendo fempre effe gérto delicado, 0e. ditofo , que bemaventurado , Formoía •laia, o meu amor feria! Mas, em que eflou rnettendo a fantazia Váo , ociofo , rnifero , coitado , Ditofos fó aquelles, que a ten lado Gozáo da tua amavel companhia. O' da Fortuna errado rnovirnento, O . De o bem que nega, a quem por ti fufpira, Dá talvez fern nenhum merecimento. No fe fez para rnim contentarnento, A deferperaçáo, a inveja, a ira Só fe fizeráo para meu fullento, S O- C U Z ,Iacul U nge T ao O( D o 11 D os n S e te De P orqu, A cho Am O rne 0 „Lre c DE J. X. DE MATOS. SONETO C Uidas talvez , Olaia , que imprudente ),}aculada tençáo meus paiTos guia? Longe, longe, ó terrena fantazia, Tão contraria a meu animo innocente. O Ceo, o jufto Ceo, que lhe he prefente Do Mundo a mais occulta fympathia, Dos meus olhos aparte a luz do día, Se te nao diz .a lingua, o que a alma fente. De idolatrar-me nenhum fruto efpero, Porque te devo mais, quantor.maisÇo Acho teu genio ou compailivo,,e.. Amo as tuas virtudes, farisfaço O meu amor co'ineu amor ; mas 'cillero Qe conhecas meta Bern , o mal que pairo. S o. io  RIMAS SONETO T )(t'arma Olaia , o mi defabrimento Troca , que he tempo j, troca em brand= , Faze que ene queixofo da Ventura Seja fe quer feliz por hum momento. L A' • Onde Aonde Ao fui De teus olhos gemís hum movimento Bem fei que militó val ; mas a ternura De táo conftante amor, de fé táo pura Tenha comtigo alguna merecimento. Nifb Té Ti( Olaia , ljtá , Valhá'o-me elles fufpiros innocentes, Que j'a para abrandar fiará ° bailantes Feítos de tigres , olhos de ferpentes. Corr E para Onde A mão para matar-me não levantes Ou moffra ao menos, que os meus males rentes, E clepois sl cruel , como eras d'antes. Ah c Huma Se tu r S O- Ton. Ton!. I.  1:5  S O- A'n'utria praia cavernofa, e fria, Onde chamar teu neme cofrumava, Acude citas, Olaia, perguntava Ao furdo mar, que nada refpondia. Nifto paffei, ó Ninfa, todo hurn dia Té que de novo a voz alevantava: Olaia , Olaia , aonde efiás, gritava LYtá , dizer-me o éco parecia. Corro vagando a humida efpenra, E para aquella parte me arrebato, Onde ouvir tua voz fe me figura. Ah que afrim foi o meu Deflino ingrato! Huma penha achei fb, formofa, e dura, Se tu náo eras, era o teu retrato. !S , DE J. X. DE MATOS. SONETO RIMAS SONETO E M . frauta agrefte , em lyra altitonante Siga cada Poeta o feu Defino, Cante a Narercia, o !neo Cam6es Divino, E o nome de Beatriz celebre Dante. Por Laura chore o feu Petrarca amante, A Livia dé louvores Andrelino, A Colona o fonoro Bernardino Por Genebra Ariolto a voz levante: Louve a Beliza a Mufa de Salado, Honre a Caffandra Sanazaro , era quanta Catulo a Lesbia, a Flora Maldonado; Que efe nome 'de Olaia, que amo tanto, Será de Albano cm verfo celebrado, Feliz affumpto de raais alto c3nto. T R Nos vi No dui Os del Ah Com ti Eem h A quer V6s, \rinde Caftas Vind Ide dia Para pa S O- DE J. X. DE MATOS.  93 SONETO T Razei, Ninfas, trazei, mimofa arla Nos virginaes regaços: Efpalhai,a No duro cháo : No mortifique °laja Os delicados p.és, guando pafrea. Ah como vena de maravilhas chea! Com tantas graças a manhá náo raja, Nem he tão belta a corpolenra Faja, A quem o brand° Zefiro menea. V6s, Napéas do hofque mais vizinho, \ r inde efperalla, derrarnai-lhe llores, Canas roías, devoto rofmaninho: o,  \rinde, beijai-/he a máo ; e v ' ós, Panores, Ide diame delta, abrí caminho Para paffar a Deofa dos Amores. O-  Gii  SO- .94  RIMAS SONETO Um mudo fufpirar continuamente, Em fegredo o tcu nome articulando, Agora feito eftatua, agora errando, Sendo talvez a fábula da gente. Huma c6r ja de morro propriamente Hum fallar fem faber que eftou fallando: Com vergonhofas lagrimas banhando Hum rofto para todos del-contente. So Olaia., os efltragos de hurna vida, Qe depois de morrer por ti de amores, He de balde cm defprezos coiifumida. Recorclallos , no he pedir favores, He porque vejas fó defvanecida O fruto, que háo tirado os teus rigores. .<5 • Louvo De pó Cahe-r Que Cheio Mas o Cante Que Ora o' Ora a: No Eftarei - No te: DE J. X. DE MATOS.  95 SONETO Uando , Anarda gentil, os merecidos Louvores teus a decantar começo, De pór a boca nelles efmoreço, Cahe-me a lyra das máos, perco os l'eneldos. Que so os meus defejos atrevidos Cheio de confusáo, mui bena conheço; Mas outra Mufa de mais alto preço Cante os louvores, que te so devidos. Que ett cá de longe, como envergonhado, Ora ouvindo louvar o rifo brando, Ora as palavras, ora o doce agrado; Náo a voz, mas os olhos ievantando, Eftarei fobre a lyra recollado, No reo forraofo gefto contemplando. a- S O- 1 1 \ A borda do feu concavo fáveiro,  V( Acafo huru dia, oh día aliignalado!  Nas O pefcador Albano achou gravado  Ora a Inda de frefco elle fatal lecreiro:  Ora ( Conhece , Albano , que es hum wil barqueiro,  15.4 o Ao trabalho do remo acos r luniado ,  Para Negro do Sol, dos eventos açoutado ,  Que ( De inembros torpe, de exprefsóes grojeiro.  Sois 1 Olaia ido te quer, , ella o tenz (lit° ,  J  Eni Efie he, o pefcador, , o extremo dano  Coral Da fentensa mortal do teu delito.  1  As cc Leo-o; e chorando o defgraçado Albano ,  E Arranca a taboa, aomie ellava efcrito,  Cantz E ao Templo a foi levar do Defengano.  Da A S O- 9 6  RIMAS SONETO DE J. X. DE MATOS.  97 SONETO O's, que fombra dos alarnos copados Nas voffas flautas pailoris tangendo, Ora as aguas parais, que váo coirendo, Ora os troncos movis, que cía() parados: Mofirai que cm voffos verfos levantados Para elles meus táo alto eftilo aprendo, Q i ye di do Tejo a fraca voz erguendo, Sois Fa de mim no Douro acompanhados: Ent'áo levando ao peito a fanfonina, Coroado de roías, e Amaranto, As cordas ferirei corn máo Divina; E fe acafo, 6 Paílores, poffo tanto, Cantando efpalharei nefla campina Da Arcadia Portuenre o novo canto. 98  RIMAS VERSOS GLOZA DOS NA REAL PRESENÇ A PE SUAS MAGESTADES, ALTEZAS,. MOTE Gloria dos Reis , do Reino figuranta, GLOZA SONETO J A' Portugal refpirará contente, O' formofa, ó Auguíta Succeffora: 4:12e tem a Inveja que fazer já agora; Mais quo eítar-fe a morder continuánaentel Alta eleiçáo do Rei , que fabiamente, Se Efpofa , a IVIonarquia vos adora, Nos recompenfa os fullos da demora Nefie impenfado jubilo prefente: Já, Princeza, na noffa intelligencia Tornando campo vai certa efperança Da voffa dilatada dofcenciencia: Por ella o Lufo Imperio cm vós defcança, Contemplansio-vos já fem contingencia, Gloria dos Reis, do Reino feguranya. S E c Porcp Fez c Pois Ve De h Fará Náo Se ir Eu i] E ht Sem 15 5 . O- DE J. X. DE MATOS.  99 MOTE Sen2 4 dita de Aquiles ter inveja. GLOZ A SONETO E o gyloCantor,EjolUundo encheo de efpanto, Porque - a fama de Aquiles poz notoria, Fez que Alexandre lhe invejafle a gloria, Pois náo devo ás Mofas outro tanto: Voffa Alteza, Senhor, , que fabe o quanto De hum , e outro Heroe vence a memoria, Fará que eu decantando a voffa hiftoria, Náo inveje tambern de Hornero o canto. Qtje affiarnpto mais feliz, ou rnais gloriofo! Se inda á vifta daquelles , faz que feja Fu invejacio , e vós nunca invejofo ! Hum novo Hornero cm mim por vós fe veja E hum Alexandre cm . vós por mirn famofo, S'ern á dita de Aquiles ter inveja.  • m0- roo  RIMAS MOTE A' grandeza do affiírnptc alpira a 1114. GLOZ A SONETO Li E a Fama, que altamente pregoeira Cantou fempre as acOes da voffa vida, Boje de aflombro conl razáo duvída Ser de rão faulias novas menfageira: De que forte, Senhor, de que rnaneira A minha voz, por baixa, nunca ouvida, Cantar póde huma empreza táo fubida, Que inda a Mufa rnais alta lhe he raffeirá? Materia he de coturno a acção prefente; E dizer coufa , que louvor produza, Náo póde o picares humilde, e defcontente: Mandai cantar por outro a gloria Luía; Que cm mim , por mais que louve , inutilmente A' grandeza do affumpto afpira a Mufa. Na Sen Par u Faz A ODES te Onde me arrebato. Na fanta devoçáo &tic alto empenho? Por mais que as azas bato, Sempre pezado, e froxo me detenho; Mas quena forças me deo Para fubir, para voar ao Ceo? V6s, Santo illuftre, e forte, 0,...ge de hum gloriofo rapto lá fubifte; Sebaftiáo, que a morte Fazer foubefte alegre, feudo trille; Vós fois, de quem en canto: A minha Mufa enchei d'hum furor funto. Hu- Taz  RIMAS Huma fetta brilhante, Das que foi alvo illuflre o voffo peito,  D( Fazei, que penetrante Defça já fobre mim : Oh prompto effeito 5  O Que n'alma vou fentindo! Agora firn, que v6s me eflais ferindo. Vós fois o valerofia Campiáo de Chrirto , que cm yirtuofa guerra Con fumma fles di to fo O triunfo melhor, que ha fobre a terra:  E A' Patria verdadeira Levando as almas por táo sá carreira.  E A cega idolatria /Zas máos o errado perfido volume  1  E Aberto revolvia; E vendo a Lei deffe infernal cofturne,  N Que aflim por vós fe infama, Sobre elle negras lagrimas derrama. Ella prefenceava Por voffo esforço, que com zelo ardente As coftas lhe voltava Quafi infinito numero de gente; E que com voffo exemplo Efiá fem culto o feu nefando Templo. No DE J. X. DE MATOS. No peito introduzida Deffe purpureo indomito tyrano Faz tiro á voffa vida: Oh ímpiol Oh infiel Diocteciano! VI o que determinas, Q . 22.e aquellas sáo as mais fieis doutrinas. A penitente boca, Que no farninto pavorofo Inferno Latindo fe fuffoca Entre o groffo vapor do Jume eterno, Abre a triforme fera, E por feu vulto denigrido efpera. Manda fechar a aljava, Em quanto he tempo , manda. Mas que cego Temor me alucinava! Vós efperais, ó Santo, com focego A mone; e na partida Morrendo ireis á mais illuftre vida. Sim,.que ji lá vivendo Defres miniftros do furor , triunfante O premio recebendo Eftais devido á vona Fé conflante:- Sem que a ferena face„ Levemente de funo fe enfiane ia  to4  RIMAS Vides a defcórada Ameaçadora m'a ° da Morte fla Contra vós levantada,  0_11e  fettas o corpo vos rodea; Porém fem fufto a vides, Que com ella do Ceo a porta ab.rides. Se frene aqui pudeffe Soltar por mina a voz , melhor dina, Corno vos fortalece O claro lume , que do Ceo defcia: E para o tranfe amargo Vos dá valor, e fofFrimento largo. Neffe tronco ditofo Os innocentes membros vos atárão Oh tronco venturofo ! Cuja alta forte os outros invejárão, Q i te na fertil carnpanha O Sacro Tibre vagarofo banha! A grande, amiga Roma Confufa o vio , e ainda vacillante No verdadeiro dogma Os olhos abaixou, mais já triunfante Vos chama; vos felleja Da Fé columna , Defenlor da Igreja. Mais DE J. X. DE MATOS.  105 Mais prodigios difiera Inda do voflo ungular martyrio: En fó, eu f6 fizera Morder-fe o Inferno, e alegrar-fe o Empyreo, Que inda cá fimo o eiTeito Da ardente fetta, que abrazou meu peito. Mas vós, ó Coro Santo, Quamo melhor que as filhas da memoria., Ern votfo irnmorral canto Deftes aífombros . numerais a gloria! Eu ouço, eu ouço os Flynos: Cantal , cantai, Efpiritos Divinos. Ntre as Deo fas tão célebres cm Ida Embora o fogo accenda Effa, que no aureo pomo introduzida Moveo alta contenda: Derrame embora tragico veneno Sobre amigas Cidades Qual Noto fero, contra o mar fereno Defate \ as tempettades: Das 206  RIMAS ' Das máos arranque de Hymineo fagéado A faxa Iuminofa; Arme agudo Orilla' enfanguentado Contra innocente Efpofa.: aça que o Pai fizudo ao filho vendo, Ao fillio que gerara, Os antigos agg,ravos revolvendo , De rancor volte a cara: Vt pelo Mundo murmurando . , e rindo Dos males, que femea; Com máo fubtil de caía em caía urdindo A fimulada tea: Feliz fóm ente noffo amor, Beliza, Náo terne fors:a eftranha: Longe do vulgo o excelfo curne piza Da Olimpica montanha: Náo teme da fevillima Megera O furibundo enfaio ; Multo além vive da eltrondora Esfera, Onde fe forja o raio: De alto verá beber no amigo Douro Mil apeadas rezes Cubrir-lhe as margens, no de atlas de euro, De verdenegías fézes Ce- Ce] Sey Do Far Qu, Ma Ah Ne. o A En /11, DE J. X. DE MATOS. to7 Celebre o Mundo do incendido Pado As aguas, que já foráo Sepulchro triite do mancebo oufado, Que as Helyadas choráo: Do formidavel bruto a grao viaoria, De toda a Arcadia efpanto , Famofo faya pela Herculea gloria O rapido . Erimanto Que o puro Amor, que o tempo náo confome 2 De Beliza , e Albano , Mals alto, 6 Douro , levará teu nome, Q..te as ondas do Oceano. Ah Beliza , no temas a inconflante 14Ientirofa Ventura; Amor náo firma o pé no difco errante Da roda mal fegura : Nella alma vives, de que tu es parte: Noffa maligna Eftrella O afpeao moltre de Saturno, ou Marte, Nenhum poder tem nella :• A fe nos une, a fronte nos coroa Pacifica oliveira: Em váo no punho ¡migo aos ares voa A purpurea bandeira. • Tom. I  A • aloa III Onde aonde, coraseies humanos, Batendo as roxas nas, Belleza encontrareis e fuavidade, Sem que os rapidos voos Vos levem diligentes, onde habita Isbella encantadora 1 De huns appetece o paladar aaivo Os faborofos frutos ; Revolvem outros na groffeita boca Infipidos manjares: Comtigo fallo, abominavel vulgo, Que dos lodofos charcos Farras a fede nas falobres aguas; E a fonte pura deixas Pela terra perder-fe inutilmente. Longe daqui te aparta ; Que a corrente das gratas harmonías Para ti fe náo folta. Culta Lisboa, ergue a fábia, fronte Para admirar Isbella : Verás hum novo, e delicado géflo Aonde as Grasas moráo O s Vo g  RIMAS Os fu  A DE  DE MATOS. ' Os c6pos de fuaviffimo veneno Dando a beber aos olhos , Corn que a vontade hydropica fe abraza De infaciavel fede. Oh que defejos mil andáo voando Ao redor de feu rofto! O narnorado Amor netle fe encofia Suave , e manfamente Para efcutar-lhe o canto de mais perro, A cuja força eftranha Váo, como de tropel , as mais ifentas Almas arrebatadas; Qz..)aes nos campos de Thracia ao fom Divino, As indornitas féras. Verás as Ninfas'defcuidadas tanto, Qlte as grinaldas, que tecem , Deix/o cabir das rnáos fobre o regaço. Nos cavernofos montes Eólo enfrea os vemos; f6 refpira Brand amente Favonio; Porque a noffos ouvidos traga, e cheguern Ellas celefies vozes: Eu vou, eu  ; a magica harmonia Me eleva, e me tranfporra: Da terra erguer me finto fobre as nuvens; Parece que ao Ceo voo. 109 A branda voz, que penetrou minha alma, Náo póde fer, náo pede Refpiraçáo de truco alento humano! As vozes sáo de Isbella. Com menos fuavidade, á frefca fombra Das arvores frondofas, A rnufica dos ledos paffarinhos Ao laffo caminhante' De hum irnperfeito fomno adormentado, Os fentidos !he prende. Oh bemaventurado , o que vos ouve! O Monftro macilento, Cujas accezos, revirados oihos Impacientes náo foffrem As luzes das Eftrellas , enfanguente Os eftiticos dedos Entre os immundos venenofos dentes; Que, para prefervar-te , Da torpe Inveja , que a Virrude opprime, Sempre o merecimento Mais alto, e fingular tens aor teu lado. Tu cauto, errante Grego Que 1s vozes de Partenope efcapafte Artiticiofamente, Senáo queres render-re ao novo canto, Ah foge, Olifes, foge De entrar fegunda vez a foz loberba Do Lufitano Téjo! Náó N Ir N E P, A no  RIMAS DE J. X. DE MATOS. No vas, 6 Formordlima Cantora, Como já para ouvir-te Inclina o Padre Oceano a veneran& E cerulea caheça Mudos efiáo os fátytos longevos As crefpas fobrancelhas, De admirados, erguendo ; e fobre a boca P6em o ruitico dedo. IV 0,940/ ti Con feguio a pallida doença Com defcarnada máo tocar teus membros, Verter ten fangue , desbotar ten rollo 1 Que deshumano infulto! E pode enfraquecer deffes tetas olhos; Deffes teus bellos olhos, a luz pura, Aonde o pio Amor continuamente Ardendo fe verja! V6s, juniflirnos Ceos! que o perrnittifIcs; Porque náo permittilles que eu ao menos, Chegado ao brando leito de Lo rinda, Chorar feu mal pudetre .Alli en mefmo , com piedofa mágoa, O c6po da afquerofa medicina A beber ihe daria, eu a animara, .  Se lhe voltaffe o roao, Alli receoro , e próvido eflivera De guando ern guando a pergunta r -lhe eu mermo;  A, Se éflava angufliada , ou fe ji tinha  A Mais algum refrigerio? Alli fora o primeiro, que velafre No filcncio da imite; e manfamente De inflante a infante a ella chegaria A ver le refpirava. Infeliz, tu primeiro dos humanos, Que com teu venenofo mal pudefte Inficionar a bella natureza Das miferaveis gentes! Tu fizelle caduca aquella idade, Que refpeitára a inexoravel Cloro De outros erros maiores es a caufa; Oh mal haja o teu erro! Que o tronco irnmovel , que a infenfixel pedra Sejáo unís perduraveis, mais radios, Que os bem fornidos membros, que organizáo O corpo mais robuflo! Mas ah! Náo queira o Ceo, Lorinda bella, D. que deftas pensóes re náo fez livre, Que tão cedo a corrupta natureza Dellas te peffa cuota. nn2  RIMAS DE J.1X.. DE MATOS. A% Refpirem fempre os ares mais benignos Ao redor de tea corpo delicado: A infefta vifta para ti náo volte A pállida doença. V edra .izáo, A O mais leve ruido, Co' a prompta vifta a caía rodeando, Acorda expavorido O vil ambiciofo , imaginando, Que o nodurno, e deltriflimo ladro As chaves Ihe tirou da efeaffa máo. Applica o temerofo Ouvido, receando, quanto efcuta, Infulto criminofo , Que cm feu thefouro avaro fe executa: Qual edificio , em que fe ateia a flama, Alvoraçando a caía , os fervos chama. Feliz, tu, que defpertas; Podendo, ern pobre cama focegado Com as portas abertas Tornar ao doce fomno começado, Até que volte o dia , fem mis pena,, Que adiar talvez a noite fer pequena. .ef- rr4 1 1, 1 M A S Qpieto o penfarnento Repoufa cm ti', fem nunca fatigar4e; Nem por mar, nem por'Vento: Com elle vás do mundo a qualquer parte: As coufas vls, e a difcorrer náo oufas; Trille, o que fabe du-v-idar das coufas! Da foffrega ambiçáo J.4 mais feguir os pafros determinas, Por medonho certáo A ir defencamar preciofas minas; Mas antes , fem tentar arduas emprezas, Zornbas das honras, zombas das riquezas. Rompendo o curvo arado Em paz a propria y erra, que femeas, Te contens moderado, Sem ir bufcar undivago as albeas, Ou por hum afperiflimo &ferro De hum perigofo, e vil mor cuberro, Da terra fobre a face Depois o fruto ir& que cm tempo veía; O ouro alli te nafce Nas barbadas efpigas do fenteio; Que, dando-lho . fingelo , tem cuidado De to reftituir multiplicado. Ern DE 3. X. D E "MA T O  Yrs Em pequen° eelleiro Recolhes mais feguro o teu fufiento, Que o inutil dinheiro Em chapeadas catres o avarento: Em tí difiribuida honeftamture, 'Nene guardado vergonhofamente. Ah que fe tu fouberas O que paira no-Mundo , e feus cofiumes, Outra ídéa fizeras Bem diffrente de ti, do que prefurnes! Que huma sá natural Filofofia "Náci fé) augrnenta a dor , mas a alegria. Quando ao morite fubiffes Alguma vez a aparcentar teu gado; E 1â ao longe viffes 5ahir a no , fendendo o mar cavado , A terra pouco a pouco atrás deixando , Até que volte fem faber-fe o guando: Entáo , entáo darias Todo o valor devido ao teu focego; E col-migo dinas: 'Oh tu que entregue vás ao alto pégo! Faminto, e váo entregue  te india a vela Puts vás com fede, e has de vir com ella. 7.,n1  Se n6  RIMAS Se fora a Natureza Com fabia máo teus paffos dirígindo Por toda a redondeza, Novos Ceos, novas terras defcubrindo ; Porque depois a nefcias creatuias Deixaffes proveitofas efcrituras: Arrifcaffes embora Entre fullos, e lagrimas a vida: A vida, que o náo Lora, Se fó fora em regalos confumida; Porque cm molles efpirítos náo cabem As coufas grandes, que os prudentes fabern. Mas ir abrindo os mares Agora ao fundo abyfmo fepultado, Agora pelos ares Voar ao Ceo nas ondas levantado, Tre mulo o corpo , e :la no rollo ah-lit° Da fria Morte o negro gato efcrito A doenças mortaes Humas vezes expolio , outras a fomes; Tudo por cabedaes, Que ou náo chegas a ter, ou mal conformes: Ah louco atrevimento de hornern louco , Tanto queres, bailando-te táo pouco! Ci Er Se Ji Si E DE J. X. DE MATOS.  ii 7 A' nefcio, aonde v5.s? Cuidas talvez que he pouco o que poffuo? A fama, a fanta Paz Em feos braços me aperta , no fluafio No golfo da ambiçáo, fempre cm bonança Me cérca Virtuofa Temperanga. Aquí reina a Verdade, Sem que a Iifonja lhe difpute o mando: A ferena Amizade Com pacifica máo vai derramando, Náo os venenos da fizania antiga Sim as doçuras da concordia ainiga. Aqui fem artificio Me veflem crefpas laos: Pobre apofento De baixo frontefpicio Me tólhe a chuva , e me repara o vento De día alegremente trabalhando, De noite do trabalho defcançando. Aquí da negra Inveja J'a iríais me infama o bafo Peftilente: Do que aos outros fcbeja Bem que me falte a rnim , vivo contente: Porçáo pequena de qualquer comida Baila para manter-me a curta vida. Das Mas i x 8  RIMAS Das tetas efpremendo Da maní - a vaca o leite faborofo ,  Pafl O vou depois bebendo Pelo concavo tarro mais gofiofo ;  Far Do que cffes odoríferos licores,  Coi (be talvez defeoncertáo teus humores..  O 1 Aqui, guando 'anoitece Tropel náo 111 que o fomno me embarace;  O E logo que amanbece, Alegre vem dizer-me que o Sol nafce  0.31 (Rodeando-me a choça) o pafrarinho,  Az< 4:Zie prirneiro do que eu deixa feu ninho.  Lo: Em vez de altos cuidados Doce canto me acorda brandamente: De empregos arrifcados Nác, me faço importuno pertendente: Badava-me a razáo, a faltar Lei:  Al: Adoro o Rci, fbinente porque he ReL Amiclas pcfcador:  Dt O' venturofo Amiclas, fe pudera , O váo fubjugador  Pi: Da Patria o Sceprro pelo remo dera 'Qgando pede, que o paífes , invelando A paz, que n'alta noite eftas gozando..  Aí In D E J. X. DF, ATO S.  f; Ir Mas ande caminbas, Fallor, , que eftás cm váo vociferando? Deixa as gentes metquinhas Fartar do Iodo vil, que váo boleando: Coroern reos trabalhos venturofos O curo náo  pampanos viçofos. Deixar o Mundo embora: O que boje vemos nós, já outros víráo : Náo he, náo he de agora, Qie peílimos , eoftumes mal le tiráo: Azolados cm f6rdida cubiça Longe de n6s, oh homens fcm jueciça vr Al, mefquinha Arnbiçáo, chega-te ao /cito Do langoido doente, Alli ihe reprefenta o rico aípeito •  Do Indico Oriente: Do awrifero Braza rimílra-lhe abertas As profundas entranhas, Finta-lhe os dons, repete-ine as offertas, 0.,,ge tu finges amarlas: Azues faflras , rígidos diamantes, Incendidas granadas, Inda as humidas pérolas brilhantes Nas conchas plateadas: :as  Com O ilo  RIMAS Com alcatifas de Achemenia lhe orna A cata de ouro chea , E com ambas as máos profufa entorna .0 corno de A.ma.lthea Infaciavel Moriftro-, que me queres ? Te diz entre gemidos; Em nada, cm nada tenho effes prazeres, Prazeres corrompidos: Sobre a rija bigorna o dia inteiro Co' duro braço erguido Inda he:mais rico o fordido ferreiro, De negro pó tingido Volvendo o nauta rude a groffa amarra No forte cabreftante Mais feliz he, lurgindo pela barra Coin robuito femblante: Quer antes que perdelio o vil forçado Paffar pelo defprezo, Com que o defcalço pé move cançado , Do vergonhofo pezo: O mendigo embrulhado cm roto manto, Que mal lhe tolhe o frio, Alegre vai de por t a em porta, cm quanto Sente coipo Jadio: mo0 Do c Ate f De b Novc De r E pr A ca Ond 1.<ao Huir DE J. X. DE MATO S. sur Do carrancudo Torrnentorio i villa Pafsára oufadamente , Até firmar os pes na gráo conquilla Da Luiltana gente: De baço, e nú falvage no temendo As fettas , e os alfanjes, Novos caminhos por certóes fazendo, Paf - 51ra aiem do Ganges: De mil polrantes naos gemer fizera As-concavas entranhas, E prenhes fobre o mar as eftencilra De riquezas efiranhas: A caía do foberho frontefpicio, Que fund:tra com ellas, Onde fe viffe o pródigo artificio De marmoreas janellas. No fora como a voffa., ó cega gente, Táo longe da Virtude: lium Templo fora a ti, a ti fómente Benefica Saude. 'P.brtí \Tu' N A6 de ,Carthago, nem de Troia canto Os já desfeitos, e abrazados muros: Mais alto a voz levanto, Que ha de ferv-ir nos fecolos futuros De exemplo, e mais de efpanto Longe fuperftiçáo, longe Deidade, Que influir- l'ave os canticos affedas Divina fthiviliade: Eu fou ferido das brillantes fettas Da candidarVerdade: Os altos edificios, cuja gloria Pdfcar náo póde a negra m'a() dos Fados, Padr6es de larga hiftoria A' publica faude confagrados Em honrofa memoria: Náo so muros de Thebas, erigidos Em virtude do canto fabuloío: Náo sáo montes erguidos Contra o poder de Jove refpeitofiy Por hornens atrevidos: 4, 419544'4 í V Ir E rzt  RIMAS DE J. X. DE MATOS.  ;12; Tu és, 6 gro Lisboa, alta Cidade, Do Mundo Emporio, a Capital das gentes, Patria da herolcidade, Que debaixo das cinzas inda quemes Refpiras Magettade: Todas effas Cidades, que acabáráo, Viama infaufta de fanguinea guerra s Que apenas te igualará°, Inda jazern cabidas fobre a cero.> Que fobetbas pizaráo; No foi de belicofa gente armada Repentina iovasáo, náo força efiranba De mina rebentada Náo foi efiraragema, náo foi manba De inirniga cilada: 1\ t áo foi efre flagello horrendo, e rejo, Q . ge miniftrado nas fataes cruezas Do ataque, e do bloqueio, Yer no podem munidas fortalezas ,Sem tremer de rcceio: - Effe, que pede de terror, e efpanto Fazer tremer o Mundo, e a fraca ¡erra Cubrir de amargo pranto Foi quem re conflernou, quem te fez guerra, Q 2 e outrem náo pode tanto: Tm!. L,  1  Eu s24  RIMAS Fu te vi ir corn a viva cor mudada, A mal vellida roupa fluauante Pelos hombros deicada: A huma , e orara parte, vacillante Correndo defgrenhada: Fu te vi levantar altos clamores, Tropeçar, e cahir atropellada Dos teus habitadores: Sobre mudos penhafcos , rodeada De pállidos horrores: Bem como aquelle, que cahio ferido Entre os foldados do efquadráo guerreiro, He logo foccorrido Do bom amigo, que Ihe deo ligeiro A máo compadecido: Aflim do meio de miferia tanta Te ergueo aquelle, que da negra Inveja Opp rime a vil garganta : Ah! Ciega ao grande Conde, a mão lhe beja, A máo, que te levanta : Oh Grande Poi da Patria, Heroe benino, Tua robuila máo capaz f6 era De tamanho Deftino: Por ti o Alto Júpiter efpera No aftemo cryítallino: Co rn e A A E A DE J. X. DE MATOS. us Com que rollo de lá do Soberano Throno das almas dos Heroes potentes, Verás, fenáo me engallo, Ferver cada vez maís, ellranhas gentes No Téj.e Luíitano: Quando voltarem para os patrios ninhos, Viráo, movidos de alta crofidade, • Sahindo-lhe aos caminhos, A perguntar-lhe pela Gráo Cidade, Parentes, e vizinhos: Agora louvar56 os beneficios Das fábias Leis , agora o fundamento Dos nob res edificios, QL:le inda poráo cm longo efqueciment9 Os célebres Egypcios. No confultei de viaima innocente As furnegantes hurnidas enrianhas: Náo o Ceo reluzente, Subido fobre o curne das monranhas Cona juizo imprudente: No aufpicio de curra luz os olhos fito: De huma alma grande as intençóes proponlio9 Con fulto o Conde inviao : Náo fe prefunaa que deliro, ou fonho; Coro elle o acredito: ii eja orn Ja ° E S RIMAS .Jadem-fe eres Heroes conquifladores (Nomes, com que fe o poyo neído engana) Dos barbaros furores ; Com que opprimindo a haca gente humana Se chamáráo Senhores : Entrem pelas Provincias defcuidadas A mal avindos Ovos façáo guerra: Vejáo defpedaçadas Cahir as altas povoaçóes por terra, Entre lunas, e efpadas: Façáo tremer Neptuno de afruftado: Rompáo-lhe á força de nadantes quilhas O ceruleo collado: Obrem outras mais altas maravilhas, Qge dáo no Mundo brado; Q 2 e tu, 6 Fama, no portal do Templo Defenderás a entrada iniqua , e dura A femelhante exemplo , Refervando fómente ella Ventura Ao Heroe, que contemplo: Ao filho de Laertes, c i ne importára O Auto esforço de afilar Dardania, Se por memoria rara Com bernfeitora máo na Lufitania Lisboa náo fundára. Ef- Eu DE J. X. DE I MATOS, 127 Efie da verdadeira heroicidade Será fómente o mulo, e o modo De entrar na Eternidade ; Que he mais, que desfazer o Mundo todo, Erguer hurna Cidade. VIII II. Anio feliz , de frutos efperados; Q 2 e a crefcer principias: Do Ceo, que te difpoz, abençoados Sejáo teus bellos dias: Oh nunca a máo cruel , do defabrido Noto, contra ti vejas! Antes de hum brand ° Zefiro movido> Co' elle brincando efiejas: Em frefco orvalho fobre ti defcenda Todo o rifo da Aurora: Elle ao frece Eftio te defenda Da calma abrazadora; Mas no és tu produelo florecente Do tronco generofo, Cujas folhas iráo perpetuamente Tocar o Ceo formófol ty• 123  RIMAS Eu no ercuto, Angelico Deflino Com voz ferena, e fanta, Qzle de , ten nafcirnento peregrino Alta venturas canta. No te promette cm reculo vindouro De Outono razonado, Melhores pomos, do que os pomos de curo, Qz . le Alcides tem roubado. Náo diz, que entáo á fombra recolhidos Dì tua excelfa rama, Virá5 do Téjo os cifnes efcolhidos Cantar a tua fama: Tu es ,•tu es o ramo abençoado Difpolto etn cho fecundo, Para feres no Mundo refpeitado Dos melhores do Mundo. Tragáo do campo as Tagides forrnofas Flores nas brancas fraldas De roixos lirios, de purpureas rofas Te fabriquem grinaldas; E as Graç r as , que em ti já. fe elláo revendo, Iráo cheas de gloria, Nas tuas verdes folhas cfcrevendo Deite- dia , a menaoria, IX Pe- DE J. X. DE MATOS.  sa9 IX E em teus puros Altares Em honra defte dia , 6 bella Olaia, iro  Náo -Ves fubir aos ares Os fimos da odorífera Pancaia: Se cm honrofa memoria' Com fetlivas geraes acclamaçóes Náo ves i tua gloria Fundir eflatuas, levantar padróes: Se do cedro aos ardores 'N.o vls chegar pacificas, e promptas Coroadas de flores, Cem brancas rezes de douradas pontas: Se no vls as difputas Das carroças nos círculos ligeiras, Nem fanguinofas hitas, Nem apoftas nas rapidas carreiras, He porque no difpenfa A avarenra Fortuna a hum baixo efiado A grande differença, Que vai do aureo Sceptro ao vil cajado. lo, IX I 30  RIMAS Pelas razas campinas No ha entre as pobrifiimas cabanas  Vive Mais que humildes boninas Moles juncos , g,rofreiras efpadanas.  Qye Nas malos Aldlas Náo ha mais do que alegres paffarinhos,  Dar e Mellifinas colrneas, Pobres tarros, malhados cordeirinhos.  Náo E'cos defafinados Al - peros fons de míticos falteiros, Louvores etna/hados Nos corruptiveis troncos des falgueiros. De huma fimples Pafiora Sáo eftes dons proporcionadas prendas De ti, minha Senhora, d N- a0 sáo , nena devem fer dignas offrendas.  Aon n Mas fe liorna alma, que renho,  A' fot Agora, ta náo der, para que a quero ? Eu offrecer-ta verano,  Na cc Recebe , ()laja, o dom, vê que he iincero,.; Nena o teu nome efieja  Quan( TVIais perduravel , do que cm bronze duro, Hurn novo Templo feja  Defcu Onde fe guarde do poder futuro. Neh DE J. X. DE MATOS.  131 Nelle fegura, e ufana Vive a pezar dos feculos ingratos, Queime-fe o de Diana, Qye efie náo teme a ITIá0 dos Herofiratos. Kde abater-fe a torre, Dar de fi a firmillima coluna; Mas n'alma , que náo morre, Eáo tem poder o braço da Fortuna. y- IN 'Una fino, que bufquei aecommodado Para chorar meus males , ,Aonde U> me via rodeado De montes, e de valles, A' fombra de hum altiffimo loureiro 0 .2 e tem o nafcimento Na corrente de huna candido ribeiro Ainda mal me affento 3 Quando a huns ternos ais defconhecidos O rofio levantando Defcubro entre foluços, e gemidos 111,11n menina chorando. ..Q.11C111 Por Iz  RIMAS Quena es? (lhe perguntei) quem te maltrata? Deo-te, menino, alguem? fort Amor, offende-me huma ingrata, Qye de nzim do' ?do tenz. Na face o beijo, e a meu colo o trago, As lagrimas intento Limpar-lhe internecido ; mas co' afago As lagrimas lhe augmento. Aonde dilo 3 s fettas, lhe dízia, Aonde o arco, a aljava? Qlyeria refponder-me , e náo podía, De novo foluçava. Aonde efta , Cupido, aquelle oufado, Aquelle atrevimento Com que as terríveis armas tens levado Até ao Firmamento ? Por ti náo defceo Jupiter t terra Ern diverfos femblantes? Náo temeo muito mais a tua guerra, Qpe a guerra dos gigantes? Contra Marre os reus raios náo defpedes, Náo lhe aplacas a ira? Náo fica prez° nas vulcaneas redes Por Venus náo fufpira A E E 5 e Amor, DE J. X. DE MATOS. Por ti o Louro Deos , que os carros g-uia Do día luminofo Ap6s da etquiva Daphne que fugia Náo correo amorato Por ti a calla Deofa não deixava Os Patrios Orizontes, E entre brancas ovelhas no bufcaVa Edymiáo nos montes? Tu f, tu forte Amor abrir pudefie A Porta Diamantina Sahir Ir luz do Sol Plutáo fizefle A bufcar Proferpina. elyantos Deofes cm fim, quantos humanos Sentíráo teu efirago? Digão-no os Gregos, digo-no os Troianos, E dize-o tu, Carthago. Eu vejo, eu vejo o fogo devorando Cidades, e campinas, As Máis correndo, os hilos efpirando No meio das ruinas. Se ver pudefle, Amor tanta defgrnça Com fembiante formo, Como he poffivel que chorar te faça klinn poder tão pequen° 1 33 ata? 3 Por I ;4 RIMAS Se u- Amor, que no rneu pe:ro recoftado, Ouvindo atuento efteve , Os olhos abaixou , de envergonhado A fallar náo fe atreve. Se Té que dando hum fui - piro, já difpofto Para fallar fe enfaia; Que mal conheces o Di-vino roflo Da podcrofa Olaia. refponder-lhe , e elle comirdla: Aquella ftra humana He ainda mais féra , inda tnais crua Do que be a Tigre frena. 'Zoniba das nimbas fettas pagadora, Meu poder defconbece , 1Yetn do que eu pap, nem do que tu choras Huma "ve; fe internece 'Arco , aliava, e Mil fettas fix, de t'ovo - De ponta mais aguda; E antes de atirar, , prirneiro as pro-vo Ent huma penba ruda. Pu; no arco as tnais fortes; e atirando A feu peito huma e huata, Ora fc entórtio, era rviio quebrando Sem a ferie nenhuma. Pe A /V 1  DE J. X. DE MATOS.  [35 Senrpre encontrei dóbrada regencia, Té os forros ¡he ervava, . Ni° me efqueceo nenhunta pro-videncia; Mas nenhuma baltava. Outros indos tentei: Parto voando ./los Cicilicos montes Bajos ellio a :yupiter forjando Eneropes , e Brontes: Pelo a 7/idean° que hum,grilhão me fasa, Mais forte, mais pe k ado , Que eje , que ten com ?vilera defgrasa Na roda a Ixion atado. rolto com elle cheio de efperança, Qye já me promettia Olaia bufco , e -vejo que defcança Entregue ao _fono hutn dia. Ah que no fei diker-te vivamente Daquelle galo brando A grasa natural, pura, innocente , Com que ala refpirando! Mío f ei dizp l por mais que a voklevante, Como he bella dormindo , Perdoa, minha  o tea Temblante 1‘1"ã0 he, nio he tio lindo. retn I 36  RIMAS Accende-fe de , vella o rneu defejo; E fezn que me fartaffe , No eburneo colo defcuberto a bejo Nos olhos , e na face. • Indo nos lifos bralos por cautela O grilb:io prevenido Lbe deito nianfamente , porque delta Nio foffe perfentido: Quando de/te meu pranto defprendida Huna lagrima ardente Lije cabe no bello roilo , e efpavorida Acorda de repente. Os olhos pokem injiui formofa, e fera, Tal fogo ? ' elles trak, Que como ao lume fe derrete a cera O mea valor desfak. Rompe a cadea dos mintofos braços Quenz tal imaginan! E enz defpre k o c' os miferos pedaços De longe me atirou. Defarnzado fiquei , fahi corrido Té parar nena praia: nie rt.Vo chamo Amor , nenz fou cupido, Sou o odio de Olaia. Só DE J. X. DE MATOS. So' de quantas idéas tenho  , Util póde fer ocia Deffe teu cora l io, deffe teu peito Hum fUfpiro me einprefla. Com elle juro aos Deofes , e as Es'irellas De obrar coufas tamanhas, 9 .2 e até ¡he fallí derreter aquellas .DurtGimas entranhas. Nenas armas f6mente confiado Pardo, Amor, voando, E eu a fufpirar acoftumado, Lhe diffe fufpirando: Aqui te efpero, Amor, nefles retiros: A viaoria fegura; Mas olha bem, que sáo os meus fufpiros Sufpiros fem Ventura. 137 CAN- Só E A CANÇÓES Onge barbar ° vulgo! Fugi, fugi de mim; porque os fubidos Rilyflerios, que divulgo Na attençáo dos incredulos ouvidos, Náo fazem doce effeito: P6e , 6 Mufa, tanta alma no conceito Dele alto affumpro, que me occupa a mentt, ferida de hum ralo intelligente, Faça o que for compondo Armonia no Ceo, no Inferno efirondo, Toril. I,  Náo • 140  RIMAS No cantarei de Ormias , De Lucrecias , de Porcias as vulgares Efiranhas oufadias , A quem no Mundo a Fama ergueo Altares; Nem de ourras de igual Fama : Cantarei a Matrona , que fe acclama Entre as forres mulheres , MULHER FORTE; Que as Leis vencendo da invencivel morte, Os vinculos defata Da culpa, e vive co' a pureza intata. Náo cantarei as Didos, As Sabás , as Simiramis , que a gloria De feus Reinos luzidos Inda duráo nas paginas da bufona, A Divina, a Profana: Canrarei a Rainha Soberana Que já muno antes de que hOuvefTe idade, A prefervou de humana enfermidade Quem todo o poder tem C'um poder alto, nunca dado a alguem. No DE J. X. DE MATOS, 4: Náo cantarei Joannas Urfulas, nem Luzias, que vencendo As fuggeftóes profanas, Que arma contra a pureza o vicio horrendo h De coroas, e palmas Ornáo triunfantes as preciofas almas: Canuarei a mais pura, intaaa, e Santa, Que a Fe adora, e que a Igreia canta, Que foi Mái, feudo Virgem , Ponte de Graça, da Pureza orig'ern. No cantarei as Saras, As Lyas, as Raqueis táo conhecidas, Na formofura raras, Grandes em nomes, célebres em vidas, Notaveis na Efcritura: Cantarei a celefte formofura , Que honrou da enferma Natureza a mafraj Que de graças encheo o Author da graça, A Rofa mais perfeita, Que o Ceo, plantada cm Jericó, refpeita. 5; TE; e, St áo Can- Oh! Cantarei a formofa Judith contra o Gigante do pecado, Tauro mais valerofa , Qllanto vai da figura ao figurado: Do Teftamento a Arca Canta rei , cantarei aquella barca, 0, , ye no Diluvio da original tormenta Entrou no Mundo do naufragio ifenta; E a pomba, que o virente Ramo trouxe da Paz a toda a gente. Cantarei huma Aurora, Náo como a que ante o Sol nos vem rajando; Mas outra Precurfora, Qpe á luz do mermo Sol as luzes dando, As recebeo mais bellas Do Creador do Ceo, e das Efirellas: E fe o meu fraco efpirito lá chega, Nette alto mar de luz, em que navega, Nova Eflrella me guia, Q .L ie es Tu> es Tu, Santillima MARIA. 142  RIMAS DE J. X. DE MATOS. 143 ido; Oh! Como vivamente Na idéa fe me d'Ya reprefentando Que no Ceo (altamente O teu Nome Santiflimo entoando) A Efpiritos Divinos Repetir ouço os Canticos, e os Hynos; E que o mefmo Senhor tres vezes Santo De hum amor ineffavel fe enche tanto, Que, fe poilivel fora, A gloria fua fe augmentára ac,ora b Oh! Como me parece (Zie as Eftrellas fcintilláo mais brilhantes! Que o mar no fe enfurece, Que eftáo de nós os Ceos menos diflantes! Que lá dos horizontes A terra inclina os levantados montes! Porém que o Reino de ira fempiterna, Onde tudo fem ordem fe governa, Onvido o nome Santo, Levanta horrendo, e inconfolavel pranto. >h Qtje Que trasbordando fóra Fervem da Eftige as denigridas aguas; Que a chufma gemedora O pezo foffre de dobradas mágoas; Que os impíos maldizentes A raiva exprimem no earidor dos dentes; E as almas novamente atormentadas A' força das cadeas arrafladas,  < Sentem tremer abfOrtas Nos duros eixos as Tartareas portas.  3 Megera efpavorida, Que quer fugir do carcere parece, E acbando-o fcm fabida , Contra os foltos cabellos fe.enfurece; Nas ímpias máos trazendo As víboras mortaes, que efla mordendo:  1 Que effe Dragáo, que prefidencia impía Tem da Regiáo, que náo conhece o día, Da immunda boca fólta Ríos de efpuma cm ncgi-o fangue envolta, Mas (. 144  RIMAS Já, VIas DE J. X. DE MATOS.  145 Mas já do infame throno Defcer o vejo tremulo, e forçado; E qual de grande fono Trez vezes cahe no cháo defacordado , Incendios vomitando: Ern tanto a devoçáo continuando A celebrar o Nome de IIARIA , O monflro , contumaz na reheldia , Na cauda quer firmar-fe ,_ Porém de balde intenta levantar-fe. Santiflima Senhora, V6s, que debaixo deffa inviaa planta Lhe pizais vencedora A venenola , e tumida garganta Por toda a Eternidade, Ponde tão milagrofa fuavidade No baixo fom da minha ronca lyra, Que fer a arpa de David fe infira; E em voffo Nome Santo Alfugente o Demonio com irieu canto. f4 6  RIMAS Já, Senhora, náo quero Aquella, que invoquel, profana Mufa; Pois f6 de vós el pero Aquelle ardor; que quem o alcança, efcufa Outro algum poderofo, Qpnro mais o do Pindo fabuloro: Cançáo rninha, publica a toda a gente, Que fe fe entoa algurn louvor diferente, Para fempre emudeça, Que outro louvor mais Santo fe começa. Ir C Om reo formofo ron° Enconado na máo ? C'os olhos bellos Cuhertos de defgollo , E fobre elles os lucidos cabellos Sern alinho pendentes! Que mágoa he effa, que 6 Beliza fentes? Mina de guando cm guando (Da velha, e trufe Mái defamparada) Mudos fufpiros dando ! 56 dos tenros filhinhos rodeada A carpir innocentes! » ie mágoa he effa, que 6 Belliza (entes? Aos DE j. X. DE MATOS.  147 Aos membros delicados Tirando as forgas! E na face linda Impreffos mil cuidados! Dos efiranhos deixada; e ?Dais ainda Dos indignos parentes ! Que mágoa he effa, que ó Beliza fentes1 Mas já, formofa Dama, Amor, o cego Amor o vai dizendo: Teus fufpiros derrama De mágoa o Ceo, a terra , o Mundo enchendo QI:e o mefmo Amor nos deve Dizer a caufa, já que a culpa teve. Ji ouço d' entre a gente Soar hum rumor trille, que levanta: Qua] geme defcontente, Q 2 a1 manea a cabeça , qual fe efpanta: Todos trines murrnuráo, Todos Beliza acompanhar procura°. Que faça hum vil marido A huma fraca mulher táo dura guerra! Torpe, e defeornmedido , Indigno em fim de que o fultente a terra! Infeliz formofura! Bpliza rriftç,mais q ue a noite efcura, Aquel- los Aquelle brand ° gato, Aquella compoftura , aquelle rifo Entre contente, e honeao; Retrato do fereno Paraifo: Com tanta femelhança, Que rudo o mais aparta da lembranga. J1 Rufticio te efcfnece? iá, Beliza, náo he como dizias ? Já trifte náo merece EATe grande fenhor, que fer quenas? Os mimofos infantes Já náo sáo teus filhinhos como d' antes Elles são os futuros Defcanços tantas vezes promettidos? Sáo effes os feguros Premios de Amor a tanto amor devidos Era ella a Ventura, Qe efperava a innocente formofura? Qtal o limpies menino, Que da tenra flo r zinha fe namora, Com, galos de comino Ena, quanto Iba náo ciáo fufpira, e chora; Que depois maltratada Cahir das máos a deixa defprezada: Não e E E 48  RIMAS DE J. X. DE MATOS. No de outra forte obrafie Com a trille Beliza, que algum dia, Como embebido olhafle, E agora a deixas (mas quem tal dina!) Nas máos da vil Pobreza, Táo arrifcada a fragil natureza Em funebre apofento Encerrada fem culpa; e para a vida Táo amargo lirfiento; Que entre a neceflidade aborrecida, He fe) por máos da borne, Que amaffado com lagrimas o come0 Jt tivera apartado De feus olhos a luz a noite eterna, Se por alto cuidado De quem f6 nos fu Renta, e nos governa Náo fora o beneficio Suftentador do Angelico Edificio. Defattento marido, Oze ás innocentes vidas náo reparas; O animo abatido Da Conforte fiel, das prendas charas Oh nunca farro fejas Dos fuperfluos manjares, que defejas ! 149 Não  In- aso  RIMAS Infolentes Arpias A' meza fobre ti com furia defçáo, Das máos as iguanas Levadas pelo ar defappareçáo, Como ja fuccedeo Com menos caufa a Eneas, e a Phinee: Onde rendes a efpada, Celefle Dom, Jufliça vingadora? Que na máo levantada Eáo vinga a pobre, e mifera fenhora? Mas ah que o náo confenre Da piedofa Beliza o rogo ardente! Se, inda mereço tanto, Que tens de  , ó Ceo, algum cuidado, Pelo continuo pranto Deftes trines meninos fern peccado, VI, que ped indo d'Ion O perdáo para aquelle , que os gerou. Perdoa ao inimigo, Que tu mefmo me défte por Efpofo; Senáo fer'as comigo Da rnefma forte, que elle rigorofo; Pois pela fé que trato, Eão deixou de fer meu, por ier-me ingrato. Ven- do, -ato. DE J. X. DE MATOS. t5t Venturofo Conforte, Que contra perigofa, e longa aufencia Podes feguro , e forte Ver de amor conjugal tanta excellencia, N'uma muiher táo rara, Qlje Olifes por Penelope trocára! Mulheres defcontentes Do cego Amor: Mu l leres que cafafles, E cegas, e imprudentes Em lugar de homens , troncos abraçaftes, Vinde ver cm Beliza QLanto mal, quanta dor vos martyriza. Chegai defconfo/adas A fazer-lhe piedofa companhia; E de pranto banhadas (Em quanto ILGuver no Mundo noite 9 e la) Chorai a toda a hora, Com quem de dia, e , mais de noite chora. Vereis como Hymineo De dor apaga a tocha fufpirando; A Lucha, onde accendeo Seus defejos , Amor, que já quebrando O arco fementido, PISe a rná,o iobre os olhos, de corrido, Ven- n ieg zgz  RAMAS D A clara eftirpe dos Heroes valentes, (be em memoria das horridas batalhas, Tora ° deixando nos portaes pendentes, Lanças, efcudos, capaceles , malhas, Nem me prézo, nem ando Caruncholbs papeis defenrolando; De baixo tronco venho: Humildes ramos por avás fá tenho. Náo me gabo de fálidos talentos: Falta-me applicaçáo , engenho, e arte: Náo recolho nos cofres avarentos Effes dons, que Fortuna mal reparte: Náo sáo os meus projetos Altas paredes, guarnecidos tetos: Sou pobre, e defte modo Ten'no por minha cafa o Mundo todo. Eu náo honro a Naçáo , nem firvo o Eftado, Q2e a tanto hum fraco efprito nlo fe atreve: Deffes náo fou, que o nome tem gravado Nos livros de ouro, mide a Fama efcreve: Náo me conhece o Mundo: Na efcuridáo daquelles me confundo, Cujo procedimento Cubrio o negro pá do efquecimento. Ni o o A Se In In Ir A Si lado, reve: e: DE J. X. DE MATOS.  is; Náo efpero que erguida fepultura O frio corpo meu , honre, e levante, Onde pare affombrado da eftrudura, A ler meu nome, o vago carninhante, Nem efpero Se a terra me faltar para cubrir-me: Do famofo Catáo, Infepultos os offos inda elláo. Inda vive a memoria dos tyrannos, E ainda , para affombro dos futuros, Vertendo eítáo o fangue dos humanos De Roma as praças, de Cicília os muros; E de (puntos Var6es Inda fe ignora a fama das acç6es. A verdadeira gloria Náo he encher Capitulos na Flifforia. A gloria de hum mortal náo fe alimenta De fangue, nem de lagrimas; fó , Saiba-fe, ou náo fe faiba, guando intenta Perdoar generofo ao que fe hurnilha: Quando vir levantada Contra a innocencia ameagadora elpada, Interpor fe valente, Seja de amigo, reja de patente. Náo N i() 154  RIMAS Náo ter cm menos conta, o que trabalha Co' arregaçado braço todo o dia, Que o feto Capitáo, que na batalha, Cego talvez pela ambiçáo porfia: Eflimar a virtude, Onde quer que efiiver, , no fabio, cu Ser grato aos beneficios : Amar os homens, reprovar-lhes os vicios. Cumprir o juramento huma vez dado, Inda que feja ao barbaro Africano: Ver fobre fi com roflo focegado A máo erguida de hum algoz tyrano: Amar a temperança, Seja na tempeffade , ou tia bonança: Aos foltos appetites Tomar o freio , e afinar limites. Ser fenfivel lis lagrimas daquelle' De quem talvez Fortuna fe náo doe: Enternecer-fe, fufpirar por elle, Que eu náo f6rmo de pedra o rneu Heme; Oh Santas qualidades Vós fóm ente he que fois heroicidades, Sois geraçáo do Ceo, Que táo pouco na terra fe cande() ! STá s .ide;t s. De: DE 3. X, DE MATOS.  ISS Vós fois capazes de fazer ditofa A alma de lum Partor, , e de hum Barqueiro; Mais livre eftá do raio quem vos goza, Do que á fagrada fombra do loureiro: Cornvofco ao Ceo voárá.o, Effes, que de morrer nunca acabáráo Eu vos amo, eu vos ligo; Mas fem vaidade , e fem foberba o digo.; Náo efludo palavras, e artificios Do manhofo 'Sináo, tecendo enganos ; Quaes elle fez nos dons, e facrificios, Que introduzio nos miferos Troianos: Náo foil lobo esfairnado Com pelle de cordeiro disfarçado: Amo por natureza A doce paz, a bella fingeleza.". Refpeito o fahio , o virtuofo , o forte, Eflirno ao bemfeitor ; por mais que vejo Crefcer ao meu vizinho os bens , e a Sarta Sabe, quem fabe rudo, fe os invejo Se poffo , ao pobre acudo, Dos primeiros propofitos náo mudo: No gofio, ou no perigo He a minha metade o meu amigo. 57(53  Tom. L RIMAS A faude me falta, e não.me altero; Soffro a murmuraç5o, foffro a violencia, Sómente o gofio de morrer efpero, Abraçado co' a minha paciencia : Elles so meus thefouros, Eftes os meus braz6es, elles os louros, 0 ... ye me adornáo a tefia; Efte he o meu nome, a minha efiatua he efia. ECLO. 7 :g efia. Abano, e Danziana. Or entre a nuvern roxa apparecia A deftoucada Aurora no Orizonte, E já de novo a efcaffa luz do dia Dourava o curne do apartado monte: A nevoa da rnanhá fe a desfazia , Cantava o roxinol, ria-fe a fonte, Abria a porra o milico na Aldla , Branquejava na praia ao longe a ara, ji  Tra- 1 5 8  RIMAS Trazia o Tempo as horas diligente, E os hombros fe deixaváo ver da terra: Já lá fe diftinguia claramente Furnegar o cafal na incuba ferra: O fimples cordeirinho de contente -ApOs da chara Mái , faltando , berra; E antes que o Serrano ao pallo a deite, No manfo aprifco lhe mugia o 'cite. Já fe efcutava da manada a choca .Ao longo da ca.mpina: De outra banda Ali punlía a Serrana a lá na roca, Aqui paftava a cabra a relva branda: Huin guardador além a flauta toca, 0ando a beber o gado á fonte manda: Ouvia-fe alternada em feus amores A fincera cantiga dos Paítores. O novo jugo a.tarda companhia, Defam parando o mítico agazalho, No calejado collo recebia, Para feguir o pri5vido trabalho: O peicador nas praias eftendia As redes a enxugar do freí - e ° orvalho: Todos que era chegado o Sol fabiáo: Huns acordaváo ouí r os já fahiáoe E E E Mas DE J. X. DE MATOS. Mas Albano Pallor, que madrugava• ¿‚inda mais que o lUzeito matutino, Já fem acordo folitario andava Pelas margens do Téjo cryflallino: E corno alli fentia , alli chorava A trine fem-razáo do feu Deficino : Nunca, por mais que via ao Sol o roflo, No feu femblante arnanhecia o gofto. ' Era elle entre os da Alaa o mais polido, Pobre PatIor ; porém de fangue honrado; E pofto que no monte foi nafcido, Tinha fido por Meflres educado: Mas rinha-lhe a Fortuna decahido, Contra quem nunca achou feguro eflado E com pobreza huna claro nafcimento Náo he fenáo fervil abatimento. Ama y a Albano ; e erío feus cuidados Da ingrata Damiana os váos favores: Aquella, que entre a plebe dos ea:lados Foi amorofa guerra dos Paítores: De fempre vivas cores animados Seus olhos, boca, e face, eráo melhores tiZue os da Mái de Cupido ,a quem p-uclera Ernulagáo fazer, , f c . ella o foubera. Mas  'N'as 760  RIMAS Nas ribeiras faudofas encoftado Se achava Albano ao tronco de hum falgueiro Cujo lugar hurn tanto levantado Ficava fendo ás aguas fobranceiro: A lace encofia ao curvo do cajado , Olhando para o Téjo Iifongeiro, A cuja villa o feu pezar foi tanto, 0.13e ellas palavras mifturou corn pranto: O ' río , venturofo , (principia, Arrancando primeiro hurn ai magoado) Oue'cedo alcançards nella porfia Satisfaz,er o fin do teu cuidado! Tri g le de quem rijo acha huma alegria, Por mais que corra cm lagrimas banhado; Mas tu, inda correndo , tens focego; Eu nem parado a ter defcanço cbego. Tu corres livre do amorofo encanto Mas oh! Que efiranho ePito exprimentáras, Se agim como te augmentas do mett pranto , Sentiras o meu mal, que -entIo feccaras! Qyanto de-ves temer o tempo! Qyanto! Que póde perturbar-te as aguas claras, 01,t faz,er-te tio pobre, que inda a nado Te - paff e a ma.-o o rneu pequen° gado. Q_uan- Qyan- Quantas ,vekes contente já me vine Ao pé dejle falgueiro , e des c la akerdza? _E agora de repente me , -oés trifie! Terás nzais  , que eu no tenha O benz de fer alegre ido conlifle Em que a Ventura hunz puco fe detenha: _Eu nio poffo já nzais coiwer goscioro, Mas tu podes deixar de fer ditofo. Prefla-me hum pouco compaffi , vo , e grato Piedofo otrvido a nzeu cruel lamento; Se he que die mefino pranto , que defato , Te mío aprega mais o moviznento; Como fuccerie a effa, a quem relato (Por nJo querer ouvillo) o meu tormento; Effa, a quem tanto imitas na helleka , Quanto ella a ti na propria ligeireyt. Aquí chegava Albano enternecido Sem refrigerio algum , que o feu cuidado 1,1 dentro n'alma 'he tanto mais crefcido, Q ,L tanto agora o fupp6e mal empregado: Envolto cm fow fahe qualquer gemido, As vozes fegue o pranto dilatado; Qge Amor quiz para próva defie affeto De chammas filho fer, das aguas neto. . Af- leíro, DE J. X. DE MATOS. 16z  RIMAS Aflim paffando as horas defcontente O Paflor defcontente a qualquer hora, Duvidofo de longe, efcuta, fente Os ecos doces de hunia voz fonora: Julgou fer da Pafiora facilmente O canto Angelical, que nunca o fora; E levantando os olhos para o monte, Vio que era delta, e que 6m:uva á fonte. QualLavrador, que atrás do curvo arado; Succedendo fugir-lhe algum bezerro, Para logo o apanhar todo affuilado, Deixa a lavoura , defampara o ferro, Aqui corre, acolá falta hum valado, Atalhando o caminho pelo ferro, Culpen ° de fuor, , e de poeira Continuando vai fernpre a carreira: Tal o Paflor, em quem fe verifica O quanto p6cle hum mífero cuidado: Náo lhe lembra a cabana , que cá fica, Larga o çurráo, efquece-lhe o ea:lado O por ir mais depreift , ao valle applica Os paffos, por caminho no trilhado , O gado larga j'a , nada o focega , As paffadás arniuda , á fonte chega. E E 1 11 DE,J. X. DE MATOS.  16; ado fe achava a Pafiora lá prefente , Ouando Albano , detrás de burn verde arbuflo Sahindo-lhe ao encontro de repente, Elle com dor náo falla ella com Qualquer dos dous ao Fado, impertinente Accufa nefte lance, mais que injullo: Duas imagens ficáo do fegredo, E junto de hurn pencdo , outro penedo. Até que 'Albano trifte corneyando: :Ardo te *ales; (lhe cliz) mas náo podendo Dar mis do hurra fufpiro , foluçando Lhe vai o pranto a voz interrompendo: ufpira fem fallar de guando em guando, E de novo outra vez convalecendo , Antes que a voz de todo embargue a morte Principia chorando detta forte: No te affunes , cruel, que o teu Albano Fu ainda fou (dizendo-lhe) a detinha; Que fora poder niais , que Amor ,- o engallo; 19o - fer teu , porque deixes de fer nánha; Entre o nufero horror de tanto ¿ano _inda refpira a fé , que a alma faiinha, Inda fayr niio póde o teu defeito A mais le-ve mudansa no feu Peito• 31  Fu  164  RIMAS Eu fou aquelle Albano, que alguna dia Por ti piza-va alegre efla efpeffitra;  Pois  cara tett favor me parecía, Que tinha que in - -vejar-me inda a Ventura; Mas boje huma mortal melancolia O ros% , o géflo , a voz me desfigura; Alegre aos campos vim die contorno, E qulo mudado agora a elles torno! g'd capellas de lauro ni ° pertendo .A r enz já cuido no apio do meu fato Depoas que me deixafte affina vivendo Dos mas Pas c iores aborreço o trato: A mira proprio confufo nao me entoldo, Finalmente ando a modo de infenfato, ji fe no vé na minha boca o rizó, So' me falta perder de todo o fi2,o. , gd para as cabras ido defcubro o patio, ijidclancolico fempre trago o rosclo Continuamente cona metí mal me agaflo , Defde que nafce o Sol até que he pos'io: • des7e modo ponto a pauto pifio A vida cá por dentro cona defgos7o , Confumindo:fe era fina, fem que a efperança Do que fui me prometta femelhanla. rid o, 7 - u me deixafle fent raçlo, Damíana, Que por mais que difcorro penfativo, rao-fe as horas, os dias , e a femana, E nao poffo julgar-te hum fó motivo: Acho te cada ve; rnais des/y:mina Na ,verdade não fei como fou vivo! Affin z paffo , affitn . chóro , affim me canço Sem  fem gofio, e feni defcanço. Parsão-fe dias , que nao vejo o gado Perdido pela ruilica rnontanha; E vivo á folidão tão colitunado , QUe entro na Aldea, como cm terra diranha: g'á me nao lembra o jogo  rajado, 'Ara carreira qualquer Pajior me-opanha; E fe algum me pergunta a caufa . g efpondo , que nao fei; mas he por Lao. e já não repito as doces cantilenas, Con; que alegre atí.qui faffava o anno Pois f chorz , ,ndo as magoas , que me ordenas Se ercuta na campina o trifle .Albano: frauta , con; que ja' _fi; mais pequenas .Antigas fem-rayes de Amor tyranno, (Poraue boje alli-vio nella ao mal não acho) .Na l'e'vada a deitei pella agua abaxo. Dei- DE J. X. DE MATOS. 14s I 66  *RIMAS Deixei nunca, cruel, por teu mandado De atraveffar o monte mais efiranho? .1Wo levava a beber fempre o ten gado1 Nio era como ten o mimen rebanho? Qyantas vekes por ti lá no ferrado Larguei da fementeira o pobre anianho? Que cabra leite ¿-leo , niel a colma, , Que nitO _foSe levar-to en mefmo á Aldea? Até dquella ovelba en mais quena, Que rnais que as outras todas te agradava: Seu paflo era o melbor, , porque fabia Que com die ferviço te obri-ava.; E fe acafo do monte fe perla, Prornptamente ao rebanho ta leva-va; Defejando nwitrar-te de algum modo, Que cm ti fo' tinha o metí cuidado todo. Acafo no arraial  Tregue;ia, Onde ao Domingo a feíta fe executa, Tiquei menos que os outros algum dia  Na apofla da - carreira, ou na  luta? _Mío te le-va.-va., allim que fe co . lbia, A no;, a amendoa , a macaroca , a fruta? E guando aqui paffavanios a f¿fla, .Na - o te da-va as Unirlas da florefla? J o O primeiro niio fui, que entre os Pafiores Enz ti bufquei honeila fociedade? Em pertender conflante os teus fa,vores Nio confurni a tenra mocidade? Que frios en: Janeiro , em julho ardores Ndo fojfri jd no monte , jd na herdade E he cri , vel que finems tão fabidas Caffigues , como ojjenfas recebidas! Tu fofle nunca ao monte, que "Ao rio que eu tambeni Id niio me Que Faia , por mais alta que ella Tolheo , que os ninhos para ti rou E que peixe fe cria na agua doce, Que eu para ti contente ndo pefcafr Tudo affinz foi , que deixo repetido Mas oxald que ¡idoti , vera fido! Nunca os olhos da efirada le,vantava, (Que dio fa' fakquern lifamente adora) Quando por efies campos encontraam No camtnho da fonte outra Panora: Se aqui alguma , vekte mío achava , Te efpera-va faudofo de hora cm hora; E lo' guando chegavas , e ett te , via , Grasas a Deos! Comigo entdo dizia. eu fore achate? fije , ,baffé? e? Ne- DE J. X. DE MATOS.  167 o i68  RIMAS Negar ella verdade , ala fineza, Pallora , em vio teu animo procura : Ou dá-me de o faker quaiquer defesa ; AlTim tenhas do que eu melhor Ventura! Mereça-te efla ves ntinha trifiesa O que nio confeguio a fé mais pura; E fe a piedade no tett, peito cabe, Saiba mover-te, ja que Amor não fabe. .Nio quero , rdo , Paflora rigorof a, Es c lorvar-te eJfe ajfedo , que pertendes ; Qz,tero , guando feja táo forlofa, Perguntar-te a rasão , por que me °leudes? Por ifro tneftno , Albano , ( defdenlioía Lhe refponde a Paítora ) mal me entoldes: Por iffo niefmo , que forlola a vejo, poffo dar-te milis que a do defejo. Se a féra mais cruel, que o monte cria , _Fallar foubera (Albano continúa) A , vo;talves com que re explicaria , Menos afpera !Ora do que a tua: Eu morro; e jci que morro cm fin, quería Saber antes que •-veja a morte ' atta , Em que rasío _re funda, fe afjim mata, Ejra Lei, que ce obriga a fer-me ingrata. 15, DE J. X. DE MATOS. 169 com voz, nada menos defabrida, teinzes , a Pailora lhe tornava ) cm fer /Nana mulher agradecida -.1 s Tenz por i . fro fe obriga a fer efcrava: En te quik, mas deixei-te aborrecida; já pelo Fado allim difpo g lo ejkao-va: No tens que te queixor da variedade , Que amor nio he razjo, he ló ,vontade. En bem fei, fe ¿e deixo, que te aggravo , Porque a fayllo fem rakão me atrevo; Mas como hei de livrar-te deffe aggra-vo , Se he mito ?mis o que amo, que o que devo? rai fer agora de oz:tro amor efcra-vo , Que cm coma teus . fervisos já näo levo: Lá tens Alberta, lá tens Benta, Todas formofas sio, nenhurna iynta. Bern fei de ten defgos c io a larga hitloria, g 'á n - ao finto de °un:W(1 alguna dejeonto: Suppd'e que cm ti pagou de Amor a gloria, Como o faz a mentira ern qualquer como: Não percas a cabana da memoria, Pai ten gado bufcar, , não fejas tonto; Que pode acafo pois ciofo vive, Saber Fileno , que comtigo Dei- J á it7o  R I M-A S Deixa, que eu goke os frutos do foeego Na , viçofa erperança de outro agrado: Deixa-me:  , que cm nzelhor emprego Se occupa no-yamente o nzeu cuidado: Ege no-yo Paftor, cm que me emprégo , Tenz drvez,as tambe . n, tambenz tenz gado: Finalmente mais nada te repito .Delle go's c io , de ti no necellito. Elles écos ouvia deshumanos O Paflor entre' novas agonias, Vendo na Primavera de feus annos no mal vingado o fruto dos feus dias: Que tarde próva extremos derenganos, Qyem fe deixou levar de vans porfias Inda mal, que he táo cerco! Oh cega gente!. Damiana o fahe, o trate Allano o fente. Quer fallar-lhe outra vez; porém avante Ir náo fe atreve ; e cm lagrimas desfeito , Ficando mudo por hurn breve inflame, Afilia° as máos apena junto ao peito: Como quem fente mágoa penetrante, Qtre promptatnente faz - mi - feto effeito , A/bano fica., cm quanto a anguftia calla; Mas rompendo o filencio , aílim lile falta: Ah DE J. `X. DE MATOS.  171 lo wite e. -ante Ah tyranna Pas9ora! Quem diría Naquelles ' da affeiçiio doces enganos , Que em hum inflan . te fd Amor faria O trabalho perder de tantos anuos! Aquelle olhar affavel de algum día Onde efid , de teus olhos foberanos? Se , tirando-os de mirn tit - o de repente, Com elles vás faz,er o chdo contente. Qyantas veys chorando me a rmavas, (Se acafo , ingrata, já me njio mentias) Que tanto de meus albos te alentavas Que fan elles do Sol a luknio vias! Entio cm mim os teus fo" recrea-vas, Hoje ,  por nJo '-ver-me, os tiranas Os MCUS fem  eflão , pois feudo amantes n'do achão nos teus o affago d' antes. He d'U aquella fé , com que algum Paffando a calma juntos defia fonte, Mil vekes ten amor me promettia: Ser mais claro que o Sol, , firme que o monte? Nio jura-vas endo , fe en te não cria , Que ao pagar huma ve; aquella ponte, Azuda com ella foffes ter ao rio, Se tiveffes na fo qualquer defvio Tom,  IVI  Ab!' Ah 172  RIMAS Ah! M'o paffes por ella na incertem De o Ceo tomar de ti :pifia ,vingansa,. Que as pedras deixario de ter firmeza, So para Cafligar huma inudança: A confusiío da tua ligeirem Eflás vendo na fua fegurança; Mas nio poffo efiranhar quanto fiyres , Porque cm fin: as Pa floras sio mulheres. Quantas rveys , fubindo aquelle outeiro Comtigo pela mío , efla que apertas (Me dizias) penhor nzais ,verdadeiro Será fempre de amor: (Palavras cenas) O tronco ,vendo eflou, onde en! letreiro Inda lá dijo por tefiemunbo abertas Ou cumpre quanto emito me tinhas dito, Ou deixa-me ir rifar tio -vil efcrito. Elfe Paflor, , que adoras novamente (Que íémpre caufa amor a novidade) Mais firme nio . ferá; que o ( - ello a gente, Ni° pro-vem da maior felicidade: Tu poderás fayllo raais contente Mas nio dar-lhe es9a minha si wontade: De mais , quem o fegura nefle cEado Se a indo !he dás , que já me tinhas dadol Bol§ DE 3.x. DE MATOS.  r7; Bem fei que tern cabana levantada, E que a ?nimba he pequena, pobre, e efcura; Mas olha , que ao cahir fempre a pancada Collunza fer d proporlio d' altura: Bent fei que traz,,-de bois grande manada; Mas repara , que o benz nem fempre dura, E que, guando o defejo he ,verdadeiro, 1/al mais do que hum rebanho hum  cordeiro, Teme as crueis difpofições do Fado, Que chegiío guando menos fe imagina: Nio te confies de hum rifonho agrado, j á que em nzim proprio ,vés effa doutrina: Tomarás no-va poffe do meu garlo, Seroir-te-hei como d' antes na carnpina, Farei de amar-te como fempre efiudo , A minha alma terds , que he mais que tudo. Se te deo Natureka bum gés`lo lindo, Toma conforme a elle hm genio brando: re ,.que zao quero , de te andar fervindol Mats premio, que a Ventura do teu mando: A nzeu mal efie ahliio permittindo, Com bem pouca te irás defobrigando: Ambos fujeitos , a affeilTto nos traga Tu lem mais detrimento, cu fem , mais paga, M ii 174  RIMAS l'arei por ti a ultima fineza, Que tenz viilo do monte a longa idade: Precifo nio ferá para a firmem Crear n' alma dé novo outra vontade.; Que inda que fe me eftranbe elta vileyt Entre a gente da Aldea ou da Cidade , Quero que vejas, que de mizn fe coma, Que os olbos fecho cm t . do notoria affronta. A r io me fa; a defgraça cJe fer pobre Soffrer o vil partido que fupplico; Que betn po'de morar hunza alma nobre Debaixo da rotura de hum pelico: Quent me fa;cego , quenz a fu; me encobre (Com que vergonha! Com que dor o explico!) He parecer-me ainda nefle engano Tu rnais formora , que o meu mal tyrano. Se tu Indina confeffas boje cm dia Ser a minba  tio verdadeira, tens para encubrir a tyrannia, Nenz fe quer a defculpa da cegueira! Quem tamanba inconftancia julgaria 2sio lifo trato de bruna fé ,primeira! Quein , depois de cm ti por toda a efpernsa, Ha-.a de fuppór efla nutdansa! D E J. X. D 1V1 A T O S.  175 Se procuras mudar-te, e defde a infancia O collinne de , ver-me te amofina, SoMente por feguires a inconflancia , Que fempre o peito fentinil domina: Fu tiío outro eflou t, tanta diftancia Do que fui, ao que fou o Ceo deflina , Que podes boje , ufando de piedade , Manter inda comigo a variedade. Torna, a querer-me, torna: Mais pequen° 1:Irás nieu mal oil tio fua-ve engano; Que, polio que não feja o teu Fileno, Tambem nio fou, no que pares° , Albano: Por antar-te olha a quanto me condeno, oue ouso , e tilo creio o mermo defengano. Que mais queres de inini? Tudo efrá dito: Té acceito en: defeulpa o teu delito. Sempre chorando, Albano affim fallava, Em tanto que Damiana o pote enchia, Que mais fria, que a fonte lhe efcutava As namoradas queixas , que Ihe ouvia: Sem refponder, , no canta ro pegava, Que elle ajudar-lhe a levantar quena; A,las cm váo, que a Pallora mui ligeira, Voltando as cofias, diz defta rnaneira: Se  Al- Alblno, ido te pogo ouvir já agora", Nem receber de amor ã nova offerta: Tens-me detido aquí ha mais de huni hora, deixei do ca ('al a porta aberta: Yai fervir, , já te di/Te, outra Pallora, Nio he dellas a Aldéa tEo deferta: Muito a tempo te a . vifo. E foi andando, De guando cm guando para tras oihando. Q 2 al a tenra novilha, que, perdida Das brutas companheiras, pela eflrada Berrando em cata dellas vai fentkla , Sem atinar co'fitio da malhacla: Tal o trae Paffor na defpedida Da Pailora cruel em váo bufcada O litio defampara, deixa a fonte, Outra vez defce ao valle, fobe ao monte. E vendo lá de longe inda a Paftora, Exclama (fem que os palios lhe detenha:) Deffes montes , vai fer ha,bitadora, Terio em ti cruel mais Urna penha: Em quanto o Sol lu;ir, , rajar a Aurora, Eu proteflo, que a elles . mais ,venha; Que já , guando o meu mal prefenceário, Mais do que tu, mil , vekes fe abalárilo. Efi' Pi: P 7 9 176  RIMAS DE J. X. DE MATOS.  177 E em guamo vago afflitio efla montanha En? pa; te deixo , fica fem cuidado, Que dor nenhuma fentirei tamanha , A' que tu me nao tenhas cofiumado: Pikarei para fempre a terra esqranha, Daquelle patrio abrigo deflerrado: mint te efquece , já que alegre pajas .11/tas temo, por pedir-to , que o não Aparta-te de mim: Fai , que algum Fortuna, onde ni° ha feguro efiado , l'ara que tambem eu de ti me ria , Pagando-me do tempo que hei chorado: fará, que inda tu merma a aleivokia 7 alvekque fintas de me ter deixado; Que o julio Ceo, que as fem-raes diffingue , A's tnãos te levará de quem me vingue. 3á tudo fe acabou: Logra, tyrana, O focego felikda tua Aldeia: Perca eu o agakalho da cabana Na peregrinalão de terra alheia: Tudo quanto lá fica na choupana Yenha De k entbro, leve embora a cheia, A' mingoa morra o gado, e eu aufente Nunca.mais veja, e trate humana gente. E E 178  RIMAS E chegando-fe a hum cedro corpulento Em cujo tronco, guando alli fe achava , Gravar, cm fe do feu contentamento , O nome de Damiana coilumava: Rifcando-o , grita, que tdo baja intento Nenz hum breve final de que te ama-va; Que inda huna tronco , que o tempo nio contorne, Inconflante ferd, tetado o ten nome. E vo's , canzpos , outeiros , nos, gados , Nunca a Sorte a fartura vos defconte Sena nzim ficai-vos betnaventurados Que en bafto a faker trifle esie horizonte; E re meu punto ha de affogar os prados, Meus fufpiros faker feccar o monte, A _Deos! Porque ferá , como cm minz vifies , Deixar-vos menor mal, que -ver-vos trifies, DiiTe: e na eterna aufencia que fazia, Tudo perder intenta da lembranya, Teniendo que pudefre inda algum dia Tornar pelas pegadas da efperança: Com pafTo incerto, e tremulo fugia Daquella perigofa vizinhança; E pelas ramas de huma mata efpeffa, Para nuis náo fer vifio,entrou deprefa. Buf Clu Gu: N'a( A' 1 Fen 13ui E ! A E Se Pe O Ai Pi E Tu le, - DE J. :`'‘. DE MATOS. Tu agora, mortal, que o vil tormento Bufcas de Amor , náo queiras como Albano, Chegando-lhe táo cedo o documento, Guardar para táo tarde o defengano: Náo catives o nobre entendirnento A' paixáo de hum eftimulo profano: Fenece Amor, caduca a formofora, bufca fómente o bem, que fempre.dura. ECLOGA , II. Agrario, Bra;, e Anfriro. QUafi de todo nos faltava o día; Mas inda a noite duvidofa eftava , E o vento j'a mais brand ° parecia Qlre entre as folhas do bol - que repoufava: Sobre as praias o mar adormecia: A fcintillar o Ceo principiava; E lá nos apartados horizontes Se via apenas terminar os montes. Entrava o paffarinho acautelado Pela confufa balfa, onde fe aninha : O Pallor manfamente leva o gado, Ainda maffigando a ()randa hervinha : Já, defcançando o iuzidio arado, Para a choupana o Lavrador caminha, E o vagarofo bol , rernoendo o parlo, Leva o duro refcolo já mais gallo. 179 Só r8o  RIMAS Só no meio de hurn monte folitario, Abundante de relva os mais dos mezes, Efquecido ficava o trifte Agrario Sem levar ao corral as manfas rezes: Pallar queixofo de hum Defino vário, Com que Amor o ferio baitantes vezes, E a quern táo fóra já de fi trazia, Que vinha a noite, e náo lho parecía. Náo acha allivio , que o pezar lhe abrande ; E entregue mudamente ao feu defgofto , Affim corno quem penfa cm cafo grande, Ora levanta, e ora abaixa o rollo: Vai-fe-lhe o gado fem Paftor, , que o mande, Aos pes cahindo-lhe o curvado encoao; E as mlos, com que tambern a dor explica, 1 3 6e debaixo dos braços; e allim fica. 9,_!! Pela encella do monte manían-lente, Ambos co' a lenha ás collas no cajado, Vinha defcendo Braz velho , e prudente, Com Anfrifo ainda moço, e namorado:  Po A elle ternpo Agrario, que iómente  N, Efiá cm feus pezares elevado, Imaginando que ninguem o ouvia, Com lagrimoia voz affirn dizia: Paflora desleal, cm cujo roflo Qr:tikanimar o ceo tanta belleka, Para efconder Amor tanto defgofio , Lá Por, Poi: Ni, Em Por io , DEI. X. DE MATOS. lb Sabe que de rneus males a grandezg, Lá onde quer que es c lás , farei notoria, Porque nem refle a Amor efia A todos contarei a miraba hisrloria; Pois jd que eu Terco o bem da tua Não percas tu do meu pekar a gloria: Fu farei que a miraba alma lá te affisqa .Ean fé de meus puriffimos amores , Por mais que o teu defprey ¡he rejilla: Ouvir fe-hão nefle valle os aneus clamores, Fin quanto me durar a vida breve, Que ten: feita mais curta os teus rigores. JVIorrer por ti ferá finem leve: Quem perdendo-te cm finz , não perde a vida, Airada a muito mais , e nzais fe atreve. A tua voluntaria defpedrela , Por naa i s que Alazor me leve a eflranbos lares , Nao poderd jd mais fer efquecida. Tal be a l fem-razão40 me debcares , Que inda tornando '-ver-te, o que Ido creio, nao  metts pekares. Té 182  RIMAS Té me parece o gado magro, e feio; j E o campo, que comtigo florecía, á me não fer-ve aos olhos de recreio: A fonte , que tal-vez adormecía Ao fom ola minha flauta, boje defperta Aos ais , que dou cm mifera agonia: Pa,ra o curra! o gado nio arena, Dormindo pelos montes: E rufpeito, Q_ue tudo de me -ver fe defconcerta. Inda a mais chegarei por teu refpeito; Que Amor ;tío guardará tyranno ¿lado (Se acafo o tem peior) para outro peito: Mas . fe ¿Id , cm que eu _finta o defagrado Da tua condilão formofa Altéa, O fer eu venturo:ro , ou defgralado , Torna a fayr alegre a no/fa Huma alma a con rolar , de que es ,fenhora, Feja-te antes ingrata, do que albea: Não ten!» de que,fejas poffuidora Outra coz:fa melhor , que boje te offrela Mas não fa;potwo quem fem premio adora: E A F, c • Ve Se ti ilont Hur Oh Pan E O Ac PC D E J. X. DE MATO S. 1 8; E ¡'cm que tão divina te contigo, Se te Mío merecer quem mais te es9inia, _donde irás bufcar quem te meresa? Broz,. Tu no ouves , Anfrifo , deffa parte Huma voz de peffoa magoada? Oh como he trate! O coraçáo me parte! Para a ouvir, tiremos-nos da ettrada. Anfrifo. Vamos, que foa aqui para o teu lado A voz piedofa, que ao depois ouvifle; E de tras deffe tuno fen-leado 'Veremos de quem he queíxa táo trille. Brok Paffa tu de vagar para diante, E no vamos de rijo converfando, Que já náo plule fer u-mito diflante O lugar, donde as vozes vem foando. Será de algum Paffor a trille queixa Que de Amor, ou Fortuna perfeguido Aqui talvez a fufpirar fe deixa Pois a tudo anda o homem offrecido. An- 184  RIMAS Anfrifo. Lá vejo hum vulto de homem levantado; Mas já náo potro bem ver-lhe o femblante: Sózinho ella fallando; e o feu cuidado Nafcer parece de algum cafo amante. E cuido (enganar-me-hei) que pela altura, Pela voz, e Paítora que nornea, Quem fe queixa de tanta defventura He Agrario, Paílor da notTa Aldéa. _Era; Agora vejo. O mefmo me parece, Porque depois que Altea eta diflante, uando fe falla nella , fe entrillece, Um poder disfarçallo no femblante. Nifto tcm reparado os mais Paflores; E a mim n'algumas vezes, cm que o via, Nunca me quiz fallar nos feus Amores, Como quem de eu fabellos fe affligia. .Anfrifo. Ora pois fe te apráz , daqui lhe fallo, Que he PaPror bein creado, e noffo amigo; Náo fora máo que foffes confolallo, Anda, aprefla-te, Braz, que eu vou corntigo. Bras. 13em E o Aind Mal Oh Se h E cc Que Que De Qut Do Me 0.1.11 DE 1. X. DE MATOS. t85 Bra;., Q2ern ama cegam ente huma Pallora, Pem he que poffa compaixáo dever-te; E o mefmo cafo, que elle fente agora, Ainda mal, que nao venha a fucceder-te. Guarde-te o Ceo, Paffor, elle te ajude: Mal fabes quanto fimo effa trifteza: Oh praza a Deos, que o genio fe te mude, Se he que póde mndar-fe a Natureza! Aqui me traz a queixa do teu dano; E confidero , vendo-o táo profundo, Que f6 póde nafcer daquelle engano, Que tantos defgraçados faz no Mundo. Agrario. Ah rneu bom velo, que mal fabes quanto De ver-te me alegrei , e fe, me reza, -4:Zue participes de meus males tanto! Deixa-me outra vez 1 - 6; porque a certeza Do mal, que tirei fempre da alegria Me faz goilar de Ludo o que he trifieza: Foge, foge da minha campanilla, Qzje fervir-re náo póde, fenáo queres Que te pepe hurna tal melancolia. Án- Agrario, aqui me tens tambem comtigo, Grande quina° deffe pezar me cabe: Eu tambern tenho amor, fou ten amigo; Qlanto finto ten mal 1 - 6 Deos o fabe. Soffrendo d'Ion continuas crueldades, Mil dias ha tambem de huma Patiora: O Mundo cheio efiá de falfidades; Feliz quem as náo fente, ou as ignora! Tambem tenho rneus dias de trifleza, Nada me alegra, o gado me enfaília ; E rudo o que náo he fallar a Andreza, Seja o que for, , me enfada, e me agonia: Outras vezes encontro a Braz no monte, VI-me trille, já fabe o meu cuidado: Mil cafos me repete ao pé da fonte, Com que fico algum tanto confolado, He Panor, a quem tenho meu refpeitersi (NI° he por elle eflar aqui prefente) A _fua companhia de proveito Tem icrvido na Aldea a muita gente. - E como pollo eu fer teu confelheiro Aonde Braz ella, e o feu bom dito? Pois fei, amigo Agrario, que primeiro- (Mais que tu) dos confelhos necellito. Agra- Qu o N Pl E A 186  RIMAS Anfi-ifo. DE 3.11, DE MATOS:, _Agrario. Que allivio me datas, que me conforte> Que na merma lembrança do que peno O náo converta Amor em dor inais forte? Fazer com que meu mal feja pequen°, ile o mefmo , que atiliao cm lugar de agua._ Querer matar a fede corn veneno. Bra;. Da-nos parte do mal, que o Ceo te manda y Tudo a noffa amizade te merece; Que o mal communicado l'a fe obrando, Porque em fim repartido fe padece. Náo bias tu dizendo o teu tormento Neffe lugar deferto aos matos broncos, Que nunca ter puderáo fentimento: Pois mereço-te eu menos, que effes troncosl Eubem fei que fou rudo, mas fou velho, Ná4, ha molor fciencia do que a idade: A's vezes vai o allivio no confelho kotico val o difcurfo fern vexdade: a-  1 Ton. 7,  Faz. RIMAS Faz-fe a todos o allivio táo precifo, Que inda ao boj mais forçofo afflige a carga; E a fimples ovelhinha fem juizo Deixa ás vezes a herva, que ihe amarga. De lerdo no tens nada, es avifado , Ern fim homem , que baila ella 1embrança, E bufcas , da razáo táo defcuidado, Aquillo mefino, que re afflige , e cana? Algum dia dirás: (oh, Deos o mande!) Benz me dizia Bra;, benz me di;ta! Que fempre hum homé , por mais cego que ande, Cahe na razáo mais dia , menos dia.: Qgem fegura affeiçáo no Mundo efpera, Expriencia náo tem dede trabalho: Bufcar fé nas Fafloras de tal era, He querer que dê pinhas hum carvalho. • Tu náo vifle ha dous días praticado Iflo mermo cm Albano, a quem Daniiana Por Fileno deixou , (fe eflou lembrado) Talvez 1 . 6 porque tem melhor cabana? Qliafi no mefrno tempo o pobre Aleixo Defprezo de Metilde, antes amores, (Hum moço certamente como hum freixo) Por Silverio, a deshonra dos Pallares? E Pal Po Se! (Q E Ba DE J. X. DE MATOS. E prefumias tu, que era baflante Para fer firme Altla , o ter Altla.? Por ventura á mulher faz mais conftante Ser Getrudes, Lucina, ou Dorothea? Deftes cafos ha mil mita campina; (Que trifies premios os que Amor concede!) E quando re faliaffe ella doutrina Bailava o que a ti rnefrno te fuccede, Agrario: .NiPto tenho ha mil dias affentado; Mas náo tiro do meu conhecimento Mais, que outra vez'ficar no mefrno eflado; Porém que queres tu, fe o penfamentó, Por rnais que n' outras coufas fe iniflura La vi fempre encontrar co' feu tormento? Em quanto a Primavera der verdura, O fogo der calor, o ar for leve, Me ha de lembrar de Altla a formofura: Inda por menos clara aquella neve, Que nas frias manhans cobre a canina, Comparar-fe com ella fe náo (leve: ii  Da de, ra, r q o  RIMAS Da vermelha papoula a c6r mais fina, Como angelicamente mifturada, Vive naquella face cryftallina. De tanta formotúra , e graça ornada, Que for lempre por toda a vizinhança Das mais lindas Pafioras invejadal ca alma finalmente efla lernbrança Tirar-fe-me náo pócle: Nem já agora Efqueccr-me táo afpera mudança: O que mais me atormenta a toda a hora São aquellas promeffas, que fazia. Aqui mefmo: Oxalá que afiim náo fan! Tão amantes palavras me dizia , Pondo os olhos cm mirri de agua arrazados, Que ao mais exprimentado enganaria. Huma tarde me lembra, que abrigados Do Sol, que dava entáo grande quentura, A' fombra dcfles alarnos copados : Depois de me eu queixar da mal fegura Afreiçáo defte Mundo, cm que náo cria, ie dilfe então, fazendo-me efia jura: Mais ra DE T. DE  T O S. ut Mais conflante, que a mefma penedia Serei, Agrario metí, por mais que faca zalquer outra mudansa cada dia: Eu perca a fementeira da !inhala, O gado a 'vida, tudo me aconteça , Antes que outro Paffor me caia en! grasa; E para que mais credito ineresa Tanta fe, tanto amor, tanta werdade, Enz lagrimas inca rollo to encaresa E chela de honeftiflima piedade, Qual a faudofa, e frefca madrugada Banha o peito, onde ef - conde a falfidade; Tanto eftimei aquella fé jurada, Que fe curnpridas taes pa.lavras viffe , Que mais do Mundo quererla? Nada. Caufa náo teve em fim para deixar-me E ver que lba náo dei, nem levemente, He a que Amor me di para queixar-me. Antes fora huma hiftoria impertinente Paftores meus , fe agora repetiffe Finezas, que por ella obrei comente: Que Que com o rio a ponte fe cubrirte: Que com a cheia o campo fe alagaffe, VIUM dia náo paffava „que a náo E portn*is que Pafioras enchntraffe Sem que alli viíre a minha Altla bella, Nia hora que cfte corpo fe alegraffe. alegria eta tal fómente em vella, Que ainda guando ao longe apparecia, Jit de cá me hia rindo para ella: Humas vezes cantando a divertía Nos verfos, que cornpunha aos meus amores Com muita mais verdade, que harmonia: Outras vezes , mais /ivre de temores, Quando lá pelo prado fe fentava, O regaço Ihe enchia de mil flores: Entáo a mais bonita lhe pregava Na cara do jubáo, e cuidadoio De brancos malrnequeres a toucava: t Seguro-te, me/3 Braz, que táo goflofo N'um Puro agrado hum peito fe intereffa, Que mffl julgava fer o mais ditofo; Po- 021 Dui .Att Cu As Ar Cc A Ir Y92  RIMAS DE J. S. DE MATOS.  i93 Porém faltou ás juras táo depreffa orbe creio , (e náo me engano) que cm Pafloras Dura mais hurna flor, que huma prometfa. Nefras confideragóes confumo as horas, .Atraveiro no dia mil caminhos, Cuidando que affim acho á dor melhoras. Qual ave, que roubando-lhe os filhinhos As ociofas máos da pouca idade, Anda como queixando-fe aos raminhos: Vai-fe outra vez ao ninho com faudade, revolvido o feno , e torna fóra Como quem náo dá credito á verdade : Afii.rn me traz o amor defla Paflora, A mirn , e ainda a todos parecendo, Que nunca chegaria a fer traidora. Elles são os motivos, porque entende Que remedio o meu mal nunca tenia, Inda que foffe feculos vivendo ; Mas ai, que já de longe parecia Oue o coraçáo prefago verdadeiro Táo grande defventura me dizia! a- E Ai , Paflores , que afiim que o meu rafeirat (Seudo a fazer-me fefla coflumado Com maior manfidáo, que a de hum cordeiro) Vi que huma vez fahindo de entre o gado Ladrando me avançou táo forremente, Como fe eu fora o lobo atraiçoado; E inda nefle cajado clara-mente, Que ao tempo me fervíra de defeza, Vereis as móffas do raivofo dente: Sobre mim caltio logo tal trifteza, Ta/ defgofto da vida, tal xeceio De algum futuro cafo de eftranheza, eQ . 12C mil vezes confufo nefle enleio, Valha-me Deos ! Queixando-me, dizia: Que Sorte efcura, que fucceffo tejo. Ter a de acontecer-me qualquer dia? Mas cumpra.fe o Decreto da Ventura, Q 2 e náo pócle durar fempre a alegria: Caja a choupana ; affogue a femeaaura Arrebatada cheia ; e o meu rebanho Caja mono de ronha na efpeffura. (Ctli .Vá E q Naf Fan Qut Net Ne Co Ne Vio De Ve 1 94  RIMAS o) DE  DE MATOS. 195 E mal logrando o tempo o pobre amanho, ((l i le :d'hm no pouco a Sorte me calliga) Vá mendigar fuffento a monte eltranho: As cabras pallem f6 afpera ortiga; E guando me defirua o trigo a chela, Nafláo abrolhos no lugar da efpiga. Náo veja para fempre a Patria Aldla, Parte-fe o Mell Deilino; mas com tamo, Que fe náo mude nunca a minha Altla. Cumptio-fe finalmente elle quebranto, Nem podia nafcer daquelle agouro Menor defgraça, mais pequen° elPanto. Que mais podia fer que o meu defdouro1 Nem fei , bebendo táo mortaes venenos, Como náo tenho dado já hum eflouro! Dos ontros males, como so pequenos, Nenhum me aconteceo; porque a Ventura Vio que todo elle mais a'inda era menos: Mas cm oue eflou detendo a conjeaura? Derenganado elan de que algutn dia Veja fereno o roa° da Ventura. Nem x96  RIMAS Nem tem remedio iá minha agonía, Que aorkie fe perdeo huma efperança, Ninguem lá vá bufcar huma aleg,ria. Aconfelha-me cm váo, cm váo fe cança Quem bufca coniolar-me , fe pertende Rifcar-me tanta mágoa da lembrança, Que o iegredo de Amor ninguem o entende. rak. Ai, Agrario infeliz! Melhor me fora No ter dos males teus lamben) fabido; Pois de ouvir qualquer delles, inda agora Sinto cá dentro o coraçáo partido: Que defmanchos no faz hurn moço louco 1 E depois quantas vezes os defpreza? Eu tambem fui rapaz, ria o rneu pouco, E foube o que era Amor, (do que me peza.) Hoje defres traballicys iá náo fimo, Bufcando á vida algum honrado efleio: SiS me ahíta, que o anuo vá farninto Que morra o gado, que náo de fenicio: Alegre paffo os días de bonança. Debaixo de algum abmo fombrio: Ao pé de mina fe deita a ovelha manía, Ouço as aves cantar, correr o rio: Ou- Gaft E fe De Em Troi O n Par¿ 40,13 e Que Ef1:1 Pur Enc Coi Ou Di2 Cal Te Qt2  DE J. X. DE MATOS.  197 Outros f6 faço , porque o Sol me a,quente : Gaflando alguns cm concertar o arado; E fe me afilijo ás vezes, he fómente De náo ver-me ha mais rempo nelle eflado: Pois ir gaflando os annos defattento Em negregado Amor, que n'um f6 dia Troca em lorigos efpaços de tormento O mais pequeno infiante de alegria, He coufa tão pezada-, cm que me fundo Para temer, que a todos aconteça, Q . ue no haverá homem nefie Mundo, Que inda que amores finta, o náo conheça. Náo so fabulas no , náo so enganos Filas, que julgarlis impertinencias, Puras -verdades sáo, com que os rneus annos. Encheo , Amor, de longas expriencias. Qual fern ver huma grande ribanceira, Correndo rara ella dercuídado, Outro dalem Ihe bradá  carreira, Dizendo-lhe, que vai precipitado; Affim eu, que,te vejo cm tal locura Caminhar cego ap6s o teu perigo, Te avifo da maldita defventura , Qi 2 e Amor cm feus effeitos traz condigo. Va- 198  R I MAS Vamos todos, Agrario, para a Aldba, Tem dó do pobre gado , que anda earanho, Pois das offenfas, que te fez Altla, Em nada foi culpado o teu rebanho. E eu, que já no andar fou vagarofo, Por cita encofia itei fallir á effrada, Que o monte he por aqui menos fragofo: (Ah velhice cruel, vida canfada!) .Anfrifo. Qneira Deos que effas horas lá na feria Náo tenhas os cabritos dizimados; Pois anda cheia toda a noffá terra De zorras, e de lobos esfaimados. Os roupeiros fe queixáo geralmenta Das cabeças , que faitáo na manada; E de que os rvfaioraes injultamente Lhes defcontem as rezes na foldada. Mas eu de boamente arrifcaria As melhores, que traz o meu rebanho, Se a troco deffe mal (que hum bem feria) Te pudera livrar de mal tamanho. Náo Qu e Se ht Devt Cuft, Ern Para Efpc Já n Ton Que Na Q.ut Nác Peç Qui a DE J. X. DE MATOS,  199 No digo, que no ames, fé) te digó, Que náo fejas no amor defefperado: Se he acafó, vencello; e fe : he Caftigo, Deve hum homem fentillo conformado. Braz por coma da fua muita idade Cutta-lhe andar de noite por máo Ern mim náo fallo já, que a mocidade Para tudo me dá`ldefembaraço nile já val defcendo ; vamos ora, Efperará o que chegar primeiro: Já náo permitta a noite haver demora: Toma o cajado , chama o teu rafeiro. Agrario. N.áo valem para mitni,rtz6es eflranhas, Quie eu de todo a morrer effou difpoilo Na muda folidáo deftas montanhas: Trago o animo em fim já defcompoflo ; Quem náo tem mais allivio, 'que o tormento, Náo quer mais companheiro , que o defgoflo. Deixa-me, amigo, 1 - 6, muda de intentó: Peço-re por aquella affeiçáo notra nem mais eu te venha ao penfamento. (-7 o Ca Cá te fica , o curral, os bois, a aoça Colmeias, olival, rebanho, e vinha Mais náo poffuo, que olfrecer-te poffa. Coufa rián tenho já, que feja minha, Depois que me deixou effa Paítora , Pois com ella perdi nido o que tinha: Perdi as efperanças da mentora, Só reffa vir a mOrte, e ao que fupporto, Náo poderei viver muito já agora: Até falta ao efpirito o conforto E effou do fim da vida já táo peno, Que náo fei fe vos fallo vivo, ou morro; Porém fe algum de vós nene deferto Meu corpo adiar defamparado, e frio, Náo o deixeis ao menos defcuberto. E junto do cipreffe mais fombrio , Que nas rnargens do Tejo fe'devante, Huna fepulcro lhe abri tofco, mas pio : De azares o cercai no rnefmo inflame E alli, no tronco funebre gravado Elle avifo, dizei ao caminhante: L)  • ,200  ZIMAS ç a 7 te DE 3. X. DE  T O S.  '101 Tu, que fegues de Amor o errado mando, Depois que a minba hinoria for fabida, ¡'ë, que premios te vai apparelhando E fe -vires Altéa derabrida , Inf orma-a de tamanha depventura: Que cm firn perdeo por ella Agrario a ,-vida, Por final que ¡he vine a fepultura. ECLOGA III. Galathea. H Avia largo tempo , que efcondlra A luz o Sol debaixo do horizonte, Por quem a defejofa gente efpera: Quieto o valle, folirrio osMonte, O refonar do boique fe miflura C'o grave fom da deipenhada Mas táo efeaffamente alli murmura De hum preguiçofo yervo maneado' (22e inda taz mais fauckfa•a noite efcufg: E c'o pezo das nuvens carregado Por toda a parte o Ceo le nos morcrava De hum vapor lento humedecendo o prado: En- . A act  .? O T '11. I ,Entre - quieta, e trille a noiteleftava , O mar nos váos rochedos náo batía, A' parte efquerda ao longe fuzilava: Humas vezes a Lua apparecia Os macilentos ralos efpalhando E outras tantas a nevoa os encubría: Ouvia-fe depois, de guando em guando, O paffaro nodurno, a voz tentida Pela deferta praia alevantando. Então la junto de hurna rocha erguida, Sobre as margens do Téjo debruçada, De fempre verdes rnufgos guarnecida,.: Aonde o rio fórm , a hurna quebrada, Para entrar pela fenda de hum u te i ro N'urna quieta, e placida enceada, Ao verde pé.de hum humido falgueiro O pefcador Marino havia atado, Como tem de coftume, o feu faveiro ; :rEnfobre a fraca borda recatado, Deitando a villa ao long ° da corrente, Do leu amor fórnente acompanhado y a £1;. :obwri DE J. 11. DE MATOS. 2b1 Da ingrata Ninfa, que adorava aufente ( Que tarde hum grande amor fe defengana) Della arte fe queixava triftemente. Galathea gentil, e desbumana, Náo cuides por fazer-te o Ceo formofa, Que ha de Amor defculpar-te o fer tyrana. Póde fer, , que a belleza rigorofa DI cauta tanta vez a que fe diga, Que náo ha formofura venturofa. A fer-me ingrata, ó Ninfa, quern te obriga? A natu reza náo, a razáo menos Olha que nada tanto o Ceo caftiga. Seno me aborreceffes, Ninfa, ao menos Tal fou eu, que illo fó me ballaria A fazer meus pezares mais pequenol. Q . nem defles olhos trilles te defvia Que náo vens corn teus olhos táo formofos Anticipar nos meus a luz do da? Senáo podem por meus fer venturofos, Ah Galathea, mováo-te a piedade, J'a riáo digo por 111C  mas por chororos. Ton L  O  Tu .0; te, 5 ro 11 2 0 4  RIMAS Tu fabes melhor que eu tanta verdade, Capaz de commover alma ferina, Qz . lanto mais huma Angelica vontade. Pois 15 no fundo d' agua cryfiallina, Onde banhas teu corpo delicado, Quando já do mais alto o Sol declina_, J5 terás o fabor exprimentado Do meu amargo pranto , que tem feito Mudar-fe o doce Téjo cm mar falgade. Em mar o Tajo, fern que fatisfeito Me finta de chorar ; e náo entendo Como inda tenho lagrimas no peito ; Pois guando vai o preamar defcendo, Se acafo com mais força o pranto folro, Torna a vir claramente a agua enchendo. Com meus fufpirós crefce o vento falto, E logo as manfas ondas encrefpando, DeiXáo por muito ternpo o mar revolto: Tudo finaes de compaixáo vai dando, A tudo vol: mudando a Natureza, E fó náo fei tornar teu genio brand°. Se Se O ii Se cm ti fizerá meffa a vá riqueza, O que eu de ti náo creio, julgaria Que defprezavas minha vil pobreza. Aqui por te abrandar trabalharia Mais que todos os outros pekadores, Para os vencer cm groffa pefcaria. Eáo sáo elles do que en mais foffredores Dos trabalhos maririmos , nem so Mais affoutos, e déltros nadadores. Ver-me-hias arrifcar a vida entáo, Náo cona mais gofto du que agora o faço, Bem que perdendo-a vou fern galardáo Mas, porque em teu ferviço deffe hum pafro Com fatisfaçáo tua , e náo defgofto , Como agora fuccede a quanto paffo: E fe forem no eflado, cm que ellou poflo , , Os mens pequenos ganhos táo ditofos, Qge venháo a fer inda do tea gofio, Aqui ha mil peixinhos faborofos, Vellos-has contra a veia da agua clara Ir forçando a corrente boliçaos: ;1to: o ). ndo. DE T. X. DE MATOS. 205 E para fui:tentar a vida citara, Verás como engodados cahir vão No torio anzol , que a morte lhes prepara Bem corno tu, tyrana, que á traição A vez primeira os olhos me puzefle, Para morrer por elles defde entáo. Aqui verás aonde, como invefle O meu batel nas praias encalhando Quando o ternpo correr do Sul agrefle: No fja diverte o rio focegado' "Lá recreia tambem , quando fe lança Por lima deftas pedras levantado ; Mas fe o vires, defp ida da efquivança , Ql_te ufas comigo, enião foceg2rá, Pois tantas vezes, vendo-te, fe amança: E - bem que o gordo xerne aqui náo ha, Nem morre o falmonete táo mimofo, Nem o rajado polvo aqui fe dá, 1-Ia o folho innocente , e proveitofo , A pintada , e feixatile lampreia, A frefca boga, o favel faborofo; 206  RIMAS DE J. X. DE ITATOS.  207 ara 2 te: ça: E fe mais o marifco te recreia, irei (fe for precifo) á Foz do Téjo , Sem me efcapar a rnais remota areia. Depois te contarei, corno forcejo Por tirar d entre os humidos penedos A liza amejoa, o tardo caranguejo: Dos negros caramujos, que eflão quedos, Nenhum me efcapará, inda que traga Calejados de novo cites meus dedos. l'orém que importa ? O corpo então fe eflraga Tambem por gofio meu, fe por teu gofio Nelle anda tela a alma em viva chaga : C i pe aílim trouera elle animo compofto , Se em premio deftes  176 ver pudera Huns longes de piedade no teu rollo! Corno contente a par de ti viv'éral Como ern teus olhos elles meus detidos, Todo elevado em ti fernpre eítiveral. Ein dar-te gofio f6 pondo os fentidos, Para ti neftas praias arenofas Fora colhendo os buzios retorcidos: E 208  RIMAS E as conchinhas córadas, e luarofas, Qpe eaáo inda orvalhadas, imitando Deffe reu alvo roao as freleas rofas. I-Iontem vi fobre as ondas vi boiando Huna ramo de boninas amarellas, A tomalJo de prella fui nadando: Recelo que fe murchern , vem por ellas, Prezas em verde juncos enfeitar56 De teu fino cabello as tranças bellas: 5e aqui as conchas perolas náo dáo, As fioreszinhas, que ellas margens tem 7 Pollas erra ti maior valor teráo. Luz dos meus oihos , no me tardes, vem , - Vem, que meus olhos triffes, e cançados Em te náo vendo a ti , mais nada vem. Mas a quern vou dizendo os meus cuidados ? Como de balde o fufpirar náo cleixo, Se ha fufpiros táo mal affortunados. A qtem me efiou queixando, cm váo me queixo: Náo tem humano coraçáo , f6 tem yor cotaláo algum gelado feixo. fltle DE J..X. DE MATOS.  209 Que Satyro falvagem te detlm? Ah Galathea! Sem razáo , que logo A foccorrer-me o teu amor náo vem. Fere-fe a dura pedra , e lança fogo , E tu de táo contraria natureza, Que esfrias mais com meu ardente rogo! Effeito de táo rigida crueza. Náo póde humana califa produzillo, - Náo tens de humana mais que a gentileza. •  Se ha crocodilos no famofo Nilo, Em ti tambem , 6 Ninfa, ingrata, e dura Creou o noffo Tejo hum crocodilo. No fei fe rneu amor já fe murmura Entre os patrios , e eftranhos pefcadores, Que fabern derca minha del-ventura. Serei talvez dos /edos amadores Apontados c'o dedo brevemente, Quando paffar chorando os teus rigores: Zornbará de meus males toda a gente, Tomará nova força o meu Defbno, Se para mim ha mal, que inda fe invente. Mas .219  RIMAS Mas terne, ingrata, terne o Ceo Divino, Antigo vingador do Mundo errado, Que de l'a vendo ellâ meu mal comino. Teme o poder dos Deofes indignado, Que a fórma a tantas Ninfas perverteo, C • m menos caufa que a que tu lhe has dado,- Como em Ida a i.ethea aconteceo; M Que o bello corpo ern pedra convertido, rnca mas os mimofos pés moveo. Deixo de repetir o parecido Exemplo de outras Ninfas fem Ventura Que de ti, alta Ninfa, he bem fabido. Mas que fizera nifto a defventnra? P6de fer que mais branda te fizera, Se agora es mais do que ella rócha dura. -E guando affim acafo fuccedIra, Tal he o meu amor brand ° , e piedofo, Que ver-fe táo vingado náo quizera. Primeiro nefie rio o furiofo \ r ento, dando na vela de pan cada, Quando en f o r navegando mais gonofo,- Se Po DE 3. X. DE MATOS. 211 Se deite fobre as ondas, e alagacla Co' meu pobre batel, enuao fe veja A aguda quilha para o Ceo virada. ,Que a Fortuna, que agora te fobeja , Te de por algum meio náo cuidado Q9alquer mal, por pequeno que elle feja; Pois não fou eu táo pouco arrazoado , Q2e ernendar queira hurn erro da Ventura Com Amor, que já mais anda acertado: Defenganou-me a minha defventura : Como de mim náo fugirás efquiva , Se em firn fou eu fou eu quem te procura ? nata-me embora , ó Ninfa fugitiva, Oe aqui meus trifies olhos feito fonte Por ti choraráõ fempre , em quanto eu viva. Calou,fe o pefeador, ergueo a fronte A ver o Sol, que vinha já rajando Por entre as pardas nuvens do horizonte: F icor por multo tempo a voz foando; E o Téjo , que a ouvio , de enternecido Abaixou a cabeça , e fufpirando Chegou hum pouco ao mar desfalecido. EPIS- EPISTOL AS. Rezado Jofefino; Entre os Paliores o Paffor mais din°, De quem eftou por meu injuflo Fado Ainda mais faudofo, que apartado. Depois que aquella aufencia, Contra quem foi de balde a relifiencia; Por força em mirn pegou, E táo longe de vós ca me deitou, Deveis-me, bom Paftor, hum tal cuidados Que dera por vos ver, cabana, e galo; Ma s bem Pouco faria , Que vale n ‘ lais a voffa companhia. E Sei 1114( Ca En Cc Pa Le .A‹ Al 11 -1\Í A )5 S( A Sem DE J. X. DE MATOS. 213 Sem ella defcontente Náo ha Sol, que me aquente; E fe talvez Limano por piedade Me aconfelha que bufque a fociedade, Sem faber o que faço Cabido o rato , vagarofo o paffo, Em vós fó conremplando, Com elle caminbando Para as converfaçóes de outros Paftores Lernbra-me entáo que as vallas so melhores, Qual o touro rnatreiro Que no alcance do incauto paffageiro, Quando faz que o náo fegue, mais vizinho Ao encomio lhe fahe n' outro caminho ; Affim a minha pena, Q L iando cuido que eflá já mais pequena, Be porque vai bufcando ovos caminhos de me andar matando. 3 etrt Sern voz a minha doce fanfonina Tempero hum dia inteiro, e náo fe affina: A flauta lifonjeira Que em fim depois da voffa era a primeira, Já muda cita de todo, e defprezada, De pó cuberta , ha mezes pendurada: Se por fucceiTo a vejo, Alernbrando-me a voffa o meu defejo, Náo fei COMO a náo quebro de faudade; VPde o que faz a voffa fuavidade. Tra- ,214  RIMAS Trago logo á memoria quantas vezes As minhas proprias rezes, Ouvindo o voffo canto, Se deicuidaváo tanro, Q i2 e as cabegas artonitas erguendo, Deixaváo de ir comendo ; E fe inda alguma a relva maffigava, Como preza entre os (lentes lhe ficava. Manfos os paffarinhos, Deixando a leve habitaçáo dos ninhos, Vos andaváo cercéndo, Liçóes de vós tomando. Q2antas vezes o Tejo Deitou por fóra as aguas, com defejo De poder de mais perro Ouvir da voffa mufica o concerto! Vede, Paffor, , agora Se a voffa voz fonora Aves, gados, e nos punha cm calma, 0,2e rada ás potencias da rrlinha alma Coi Os V6 Q.11 Poi Co O Se; E ;Se Pa 56 Ds N A, N Oh Que DE J. X. DE MATOS.  zis Oh guamo devo á voffa companhia! Comvofco divertia Os meus juitos pezares; Vós fabieis os MetIS particulares, Que de ninguem fiava ; Pois fó cm vós achava, Como fe foffeis hum Paftor mais velho, O experto avifo , o próvido confeiho. Vós me claveis quinháo na voffa terra Sern que houveffe entre nós huma f6 guerra; E guamas vezes com igual ,fartura, S endo voffa tambera: a femeadura, Participei do fruto, e do agazalho, Que deo voffo trabaiho? Náo fou daquella gente, em culo vicio Só le/libra, em guamo dura o beneficio: Daqueila gente da razáo alhh, De que ha tanta (inda mal!) na noffa Aldla. Qjuern me quena achar toda a feroana, 1-ha á voffa cabana: Nella vivia mais do que na rninha, Aonde me detinha Mil horas, fem faber que eráo pairadas, Que fe> conivofto me náo sáo pezadas. Oh 216  RIMAS Que proveitofos coritos, De exempio alli táo prontos, Trazieis na memoria Para qualquer hiftoria, Para qualquer confito, Dando logo a razáo do vofro dito! Todo me efiá lembrando a toda a hora, Como fe fofre agora Neflas confideraçOes pondo o fentido, Ando como perdido. Queixo-me aos troncos, que fentir náo podé, E torno-me a queixar, pois náo me acodem: Náo ha montes, ribeiras, náo ha prados, Que náo tenháo ouvido os meus cuidados. Dizendo alTira meus males, Mais compridos ainda que cites valles, Dota cornigo no outeiro, - Que fica mais fronteiro Da voira vizinhança , Fixando nelle os oihos, e a efperança De inda torwr a ver-vos. Ah! Que náo fei dizer-vos, Como fico triflonho! E mais guando fupponho, Que efquecido talvez do afredo nolTo Vivais bom Jofefino , e que náo Só para que melhor la vos afila, Levar o corpo aonde mando a villa. E de Ale Neft E, c( Vivo Náo Not Náo Da Por Sen Tat Qu Ob Q11 Dal- Af- Ll D E J. X. D E r‘l A T O S.  217 Dalli defappareço , E de novo começo A lembrar-me de v6s, paffando os dias Neftas, e femelhantes asonias. E como o meu cuidado Vive fórnente deltas occupado, Náo potro de mim dar-vos Noticias, que náo façáo magoar-vos. De huma duzia de ovelhas , que me deráo Náo fei fe tenho tres , as rnais rnorréráo. Dous dias  , que cm bufca Da minha vaca fufca Por todos elles montes ando á toa, Sem ter della noticia má, nem boa. O branco bezerrinho Tambem levou carninho. De mim julgo que foge a outra gente: Quanto vejo prefente Obfervo táo mudado, e por tacs modos, Que creio que pesuei meu mal a todos. a 2'8  RIMAS Mina nefle fombrio Monte, deferto , afpero , e bravío, Vendo fempre defpidos arvoredos, Debruçados penedos, Sem ter quena me confole , Vivo fó entre gente efiranha, e mole; Entre quatro Paffores todo o anno, (Ah defgraçado Albano!) Sem faberern fallar mais que no arado, Na tofquía do gado; (Olhai que lições tómo) E nifto labe Deos ainda o como. Pois fe acafo fe trata outra materia Mais polida, mais feria, Dizem que he coufa feia Metter a fouce na fcara alheia. Cuidáo fómente cm ferrolhar o milho, Se lhes foge hum novilho, Náo berra cm bufca delle a vaca tanto Pelos °metros, guamo lIum delles fe amofina, agaffa , e anda; E ern fim,quandoDeos qucr que as coufas manda, (O que elle náo permirta) eng,roffar a cheia, .AfFoga-lhe o rebotaba , e alaga a Aldea. te Cos Sea-1 Elle A t C22t En Me O Na Sen De Ind Ser Co. 0.11 To Pai Qn Tr, No Eis-, DE J. X. IDE MATO S.  219 Eis-aqui como o Mundo fe govema; em confusáo eterna, Colno deíde que he Mundo fe colluma, Sera efperança de melhora alguma: Elle dá qualquer gottó- A trocó de mil dias de defgollo: Que vezes no que vejo, E no que vou pintando no defejo, Me fuccede inda agora? O que provera a De,os que alijan no fota1 Q2e foi aquelle meu contentamento Nas vcfperas do notro apartamento, Senáo cerro prefagio De ter eu que paifar elle naufragio? Eu mefmo em mim fentia, Inda na maior força da alegria, 2  Ser ella na verdade Como contra vontade: Que anda j'a mm de longe a Sorre efcura, Tornando fempre o rofto da Ventura, Para que a náo conheça [da,  (bando para enganar-me me appareça, a,  Trazendo, como viftes, Nos alegres lindes agouros triftes. ron!. L.  0 2 . 20  RIMAS O mais fupponde-o vós: No fei dizello Que afshs no fas..c• pouco em padecello; Pois fe a hifloria, que n' alma anda gravada, Pudeffe fer fiada De palavras, talvez que por comprida, 16 cm comalia, confumille a vida. Paffai, amigo, a 1:oil-a Com defeanços na clioça, • Com proveitos na lavra, Sem que fe vos trefrnalhe huma fó cabra; E fe no monte andarem, No tempo que pailarem, Em vez de agudo cardo que as molefle, Lncontrcm branda relva, je ihes preite. Primeiro do que aos mais o trigo crefga, A fruta amadureça Na volfa terra tarta, e abundante, E o Paffor !h da ferra mais dittante A Sorre vos inveje; Mas fem faltar a elle, a vós fobeje. E tanto da Ventura Sejais a mais valida creatura, Que neffes campos mora, (li j e allim como anda agora Buicando para mim novos tormentos, Invente para vós contentamentos. Fi- ví Del Qu Qui Ma Da E Fas Ef Dil 1VL 1\13 De A De Cc N a Ire M. Finalmente abanado Vivei, Pallor honrado Deffes grandes haveres , Que dá Pomona , e multiplica Ceres; Que eu outros náo procuro, Mais que viver feguro Lá na voffa lembrança : Dai-me  fegurança; E de - forte nenhuma Faça em vós a diaancia o que cofiuma. Nem receeis que poffa em curra idade Efquecer-me de vós; porque a amizade Difpoz cm meu afea° verdadeiro Mais forçofas raizes que hum fobreiro. Paffai alegres Nas doces cornpanhia.s Deffas gentis Paftoras: Vós ji iabeis as horas, A que ellas váo ao rio, ou váo a fefia: De tarde na ilorefia , Com ellas de máos dadas, Nas danças engraçadas Deis de Amor cantando; Mas vede, amigo, no venhais chorando, Qge dellas 1 - 6 sáo lagrimas o fruto De que inda trago o rollo mal enxuto. Pii  Mas DE J. X. DE MATOS. 221 IL 222  RAMAS Mas ron bom difcurfo nada ignora: Diverti-vos embora; E lá do grande Menalo vizinho Achareis de carninho A communicaçáo dos feus cultores, Que com tantos fuores As terras fabricando, Utcis , e novos troncos enxertando, Tvloaráo a preguiçofos defcuidados Mil faudofos ftutos fazonados. Ouvi-os lá cantar corn voz mais alta', E não vos fará falta, Por triffe, e por pequena A baixa voz de minha rude avena. Ir E agora, que de todo enrouquecida Delta a refpiraçáo desfalecida Da frouxa voz cançada, (Porque . fa começou deaemperada) Permitti-me que hum pouco defcançando, Nova força tomando Vá, para dar-vos conta , como quero , D'outros matores males, que inda efpero.; o A N .o I. A mil tempos, bom Silva , que faudofo Da voffa companhia, determino Ir ver-vos, como poffo, aiim queixofo. O como, o guando, e os modos imagino ; Mas as coufas baralháo-fe de forte, Que eu mefmo dentro dellas perco o tino. Ante mcus olhos vejo a fria Morte puafi lançar-me a máo, e náo me arredo, Porque eflou já difpollo a todo o córte. Tenho ás moleflias tío perdido o medo Q . 32.e cahem fohre  corno fe déffem Já no cOrpo infenfivel de hum rochedo. Affim meus males, Jofefino, crefcem; .Aflim nefie meu corpo magoado Novos finaes funeflos apparecem: Languido 9 pulfo, o rollo deshotado O paffo lento, os olhos fem viveza, O langue frio, 9 animo cançado; Em fim tío pervertida a Natureza Dos fyficos principios, que náo tenlva Mais qualidades, do que a da trifteza: Com DE J. X. DE MATOS. 22; nn • 2/4  RIMAS Cm ella a vida f6 'he que entretenho; Nem eu por outro modo viveria , Pois já com alegrias náo me avenho. Envolto aflim \ no manto da Agonia, O amortalhado efpírito preparo Para o fatal, e derradeiro dia. S6 entá'o he que efpero amigo charo, Depois dos trilles dias , que aqu, levo, Que me amanheça outro horizonte claro. Nem fei como a fallar inda me atrevo; V6s o vereis na rnefrna frialdade,  35 Corn que ellas raz6es minhas vos efcrevo;  1-7í E fe confervo algurna affivitlade, He 1 . 6 para fantallicas idéas,  E Que augmentáo mais a minha enfermidade. E-u revolvo as Eftrellas , e as arlas, Metto-me n'outras coufas de alto dado, Da rninha coma, e profifsáo alh'eas: Faço tornar a vir, o que he pallado; O que inda no chegou, faço prelente: Como anda o tempO em mim defconcertado! Ve- Ve Cu A Vejo em defcanço alegre alguma gente, Vejo outra toda a vida trabalhando Cuberta de fuor, , e del-contente. Em fantazias tacs de guando em guando 2 ( Fois o quer affim n-iefmo a Providencia) A fanta Providencia ellou louvando. Defejo armar a todos de paciencia, Qi2e he 16 aquelle bem, que me ha ficado, Para fazer aos males refiftencia. Enfermo , ou so , em baixo , ou alto eftadQ 35 náo terno Fortuna, que eu fó potro Eazer-me venturofo , pu defgraçado. Se dentro de mirn mermo me alvoroço p Effeitos sáo da fraca humanidade, Q2e náo fe regern pelo arbi.rio noffo. Amigo, ter valor, a adverfidade He hum rico veftido, que orna , e enfeita O homem na rnaior neceffidade: A pompa vá tambera fe lhe fujeita 3 A Fortuna náo dura, e a Natureza iguala a todos, e a ninguem refpeita. Cal- DE J. S. DE MATOS.  225 226  RIMAS •  Calce embora a magnífica riqueza O dourddo corbona ° , com que piza A defeaiça humilifiiina pobreza: Que a carne do Filofof ° precifa De bern facil fuftento, e cuberiura , O corpo acaba, a alma fe eterniza. Jaae-fe a Fidalguia„ ou a loucura Defre explendor dos Lus autepaffados, Que codos ha de aehar na lepultura. Mollre co'dedo os porticos gravados De genero fos timbres; que cu fertadnte Terei os virtuofos por honrados. Cançai, amigo, o braço honradamente, Que ailirn fe abre o carninho á Fama , e gloria, Deixai fálar eiTa inienfata gente: Se o voíro t'orne fe no ler na hifieria„ Din - o náo fe vos dl, porque ando neila Muitos, que sáo indignos de merncria. A fama efl'a fómente em rnere'&11a, Confeguilla he acafo, e ráo virtude; E vós dentro cm vós rnefino podeis tella, Sua A Já Se O Do Os Ba Va 112 IJ O DEI. X. DE MATOS. 227 O trabalho mais afpero, e mais rude, Suave, e nobre fe fará , corn tanto Que de hum honrofo proceder Le ajude. Aqui tecIra en rnais alto canto A voffos altos doris, fenáo anara Já efia lyra convenida ern pranto. Oh quien/ antes que a vida fe acabára, Se quer a par de vós corn fingeleza O rnais que fimo em rnim ,•commu.nicára! Agora ao brando fogo na afpereza Do defabrido Inverno efpeculando Os fegredos da fábia Natureza : Agora o penfamento levantando, No como os infoffriveis talladores, Baixas, e vis materias ptaticando Mas revolvendo amigos Efcrítores, Varias razaes, diverfos ienrimenros, Ceno manjar das almas ínpriores; Mas efies racionaes diverrirnentos Haviáo fer, amigo , fepar2,dos Dc confufos, e tallos tratam,enlos, La 228  RIMAS Lá neffes campos bemaventurados, Pat'onde foi a candida innocencia,  Dos Fuginek) cá dos animos dobtados:  0.2e De hurn cafal na pobrifTima aíliftencia y Onde não nos mordeffe, nern ladraffe  Der De zoilos vis cruel maledicencia:  Vel Alli verja hurn hornera, quancio nafce A blanca, e roxa Autora no horizonte,  Do! Moftrando á gente a lurninofa face:  Par Ir manfarnente o gado para o monte Comer da branda hervinha , e maftigandu  Va Defcer a procurar a frefca tome:  Ve Sahir o boj pacifico, inclinando .Ao duro jugo o milico pekoço,  De Pelas redondas ventas fumegando:  )No O geral, e follíciro alvoroço, Com que para o trabalho, a choça abrindo,   Po Ná Sabe o velo encurvado, o ag,i1 moço: Brotar depois a fruta, que apparece No frondedo raminho pendurada ,  D( Que cm tempo accommod.do amadurece: Ef. 3 Eflar ouvindo a mufica alternada Dos doces namorados paffarinhos , Qe a meus brandos ouvidos nunca enfada: Vellos andar faltando nos raminhos, Depenicando as folhas inquietos, Vellos depois voar aos altos ninhos: Oh ! Qz2e dignos feráo effes objeaos Dos cuidados de hum animo innocente, Para eflar contemplando cm feus fecretos vamos, amigo, dai-me a mão contente, Vamos fe quer hurn dia em noffa idade Ver o roilo da Paz refplandecente. A Deos , vans efperanças da Cidade, Deixai-me ir acabar os triftes dias No fanto Domicilio da Verdade. Mas ah! Qpe todas eflas alegrias, Por rnais, e mais que certas me pareção, Eáo pafsáo de fonhadas fantazias! Aquelles- negros Fados, que no cersão De perfeguír-me, pondo-fe diante rara prender-me os paffos, fe atravefiáo. En DE J. X. DE MATOS. 229 En vejo, en vejo o horrido femblante, Com que me eaáo dizendo , (ab charo amigo)  Que] Que nunca chegará fío doce infante.  Inda Eaas confiderações, que andáo comigo, Para confusáo rninha he que fe inventáo,  Con- Qt . te en mermo me convenço , e me deidigo.  Me Qtaes pelo Ceo nas nuvens fe aprefentáo A'vifta mil fantafficas figuras,  Dep Que desfeitas no ar logo fe aufentáo:  No Tacs as minhas erradas conjeauras, Levan t ando caaellos (obre o vento,  Sua Andáo fazendo vans arquiteduras;  Pois 4 E corno tem táo fragil fundamento, Qpanto havia formado em militas horas,  Os Perco logo de vial n'una momento.  Dep Bem fiz por me entreter nenas demoras A Fprtuna outra vez com efperanças,  Con Que de l'alfas im.agens sáo pintoras;  Cor Mas en que a temerarias cOnfianças Já. ouvidos náo dou feguramente,  Q1.1 Defvio do defejo ea ' as lembranças:  Beij Af. 230  RIMAS Náo Aflim pudera eu táo facilmente 'o)   Quebrar , d' alma as prizóes, que envergonhado Inda arrollando vou por entre a gente. Asprizóes doces de hum grilháo dourado Com que Amor , nieus defejos enganando , ;o.  Me fez parecer leve, o que he rezado. itáck   Eu lile fui ao principio repugnando, Depois-com menos força me efquecia No milagrofo galo contemplando: Aflim foi a razáo de dia em dia Sua virtude natural perdendo, pois fó pela vontode fe regia: E qual foberbo tigre, ,que mordendo Os novos ferros da prizáo que eflranha, Dcpois já'coftumado os voi lambendo: 'Oefta arte,Amor, que fempre me acornpanha, Convertendo a violencia em fuavida,de, Contra quem j'a náo val esforço, e manha. Comigo faz táo meiga fociedade, Que lb. por galio de lhe fer captivo , BeijO o , grilháo da mirilla libeldade. 'as DE J. X. DE MATOS.  2;I 23z  RIMAS Náo baftaváo trabalhos, com que vivo; Mil milhóes de fuccefibs náo cuidados, Que me trazem da gente fugitivo: Refpoflas  defprezos obrigados, Vans cfperangas, feias impofinras, Sufpiros de trilteza ao vento dados: Enfadonhas molefiias, largas curas Para a vida, táo perto de perdella No rucio de tamanhas defventuras? Senáo tambem agora no fim della Ter mais cae contrario de fobejo, Para poder de novo aborrecella. Mas nos males crucis, cm que me vejo, 56 me fervíra, amigo, de foccorro Hum Bem, que n'alma pinta o meu defejo: Que era ter (mas de balde cm firn difcorro) Ruma certeza fó de que vivia Na memoria daquella, por quem morro: Eis-aqui como levo a noite, e dia , Sern ter a quem me queixe, que náo faga De meus trates errores zonallaria. Di- 'A (II O ri 1-Ion Fon Que A fe Se a Cor Ver -Que Ver Por Por Ditofa gente feita de outra maffa, quem de Amor o dardo MaiS agudo O rijo coragáo nunca trafpaila Ciabáo-fe de hum efpirito fizudo : Homens de carne, e pedra juntamente, Fortes por condiyao, náo por efludo. iNá.o fei que tern Amor com certa gente, Que fempre fisio della, e fó fe inclina A ferir mais hum' alma intelligente. Oh das mortaes paix5es , paixáo mais digna! Se algurna culpa mollras , no .he tua, He 1 . 6 de quem táo mal te determina. Q23ein ha no Mundo, que de ti' fe exclua? Correi v6s, homens, todo o Mundo inteiro, Vereis efta verdade pura, e nua: Vereis tremer de Amor o Heroe guerreiro , -Que náo tem i era- de Mavorte as iras Vereis de Amor o fabio prizioneiro: Vereis chorar ao fom de tantas lyras Por elle as altas Mufas , fem que feja Por fazer agradaveis as mentiras. o ro) DE 3. X. DE MATOS.  23; 34  RIMAS O meu grande Carnees, que cm paz efieja Em guanto andou no mifeto defierro, Para próva de tudo me lobeja: Elle defles , que fallo , nota o erro; Pois teve amor, e muico betn labia, Que doutos coray6es náo sáo de fetro. Com elle defabafo, elle me guia Das Canoras Irmans ao claro accento Cona lea doce, e immortal Poefia, Bem que já a Mufa fem calor, e alentó Com defgrenhada fronte, e voz chorofa Fere táo mal as cordas do inftrumento ; J'a no meio de vida táo penofa Froxa , e cançacia ella de andar forçando Táu frios verlos, que parecern prora: Naquelies, que vos ouço citar cantando; Tenia o meu mais certo formulario, Se inda fizeire alguns de guando cm guando. O bom Lima, que he delles Secretario, Bem fabe as vezes, que embebido os lelo, Quando aqui palio as horas folicario. Se y Que nt A m Den: Mais ia, DE J. X. DE MATOS.  '1331 Mais de mim vos contára; mas receio 0.: L ie corra de tal forte elle meu pranto, Que para o fufpender náo ¿che freio; E fe por cafo grande de alto efpanto Se vos fizer incrivel defta forte, Que hornera já moribundo falle tanto, Sabei amigo, cm fim , que cm mal táo forre n'áo bu eu quetn faz táo longa efcrita: má Fortuna he fó , que até na morte centro defte rneu corpo falla, e grita. 3 Lis "10  RIMAS Abio Jurifconfulto, Da Juítiça eiplendor, freio do infulto, Em cuja máo reaillima defcança Todo o equilibrio da legal balança: Se o julto minifterio, Qge a hurn tempo exercitais piedofo, e ferio; Ern táo importantillimo negocio, Vos permitte algum oció, (Porque nem fempre he vicio Nufpender o exercicio; E faz, que o arco a enfraquecer-fe venba, Quem fempre em comprimillo a força empanha) Depondo por hum,poueo agravidade Da voffa authoridade' Permitti-me: que poffa Ir á prefença voffa; E para vós, Senhor, de guando em guando Eftes medrofos olhos levantando, Livremente eamVofco falle, é diga QLianto a Fortuna, e a razáo me obriga. Entrei, Senhor, no Mundo táo malquifto, Que inda náo t inha viffo Raiar neile a formofa luz do dia; • já me faiecia O piedofo alento De met primairo maternal fuftento. Trift Tri De Co Ná En De Da Vi En Se E Já Po Po Mt ito De NI( Ne Le At o Ct. DE J. X. DE MATOS. TrifI infallibilidade De huma futura trahalhofa idade! Com ella fui crefcendo, Náo fei fe mais durando, que vivendo Ern continuo defprezo, Depois ao lume accezo Da razáo natural, que cm mim crefcia, Vi que por força de huma Elarella impia Em . vida táo pequena Se comprehendiáo feculos de pena; E ás curtas horas de meus triLles anuos la excedia o numero dos danos. Mas ella, que fedenta Nunca de grandes males fe contenta; Me piSe de todos no maior perigo , Por ver fe acaba de hurna vez comigo. roucos annos beijei a mão paterna ;, o   Porque outra rao, que rudo emfiin govetta,, Me poz em huma mífera orfandade , ,Aonde não,herdei mais que a faudade. Defde entáo conhecendo Melhor o Mundo, que já agora entendo, Nelle peregrinando Levei fernpre arraftrando, Arado á paciencia, O pezado grilháo da dependencia; Que em lugar  deaa forte, Cuido que o ufo ajada o faz mais forre. tift  ,Qìi Sa- 237 2;8  RIMAS Sacudillo de mim ji quiz de rodo; Mas em váo me cancei ; nem de alguna modoi Encontro quem me valha, (be todo o Mundo contra mim batalha. Encontro hurn valle, guando bufco hum monte; lVforrendo eflou de fede ao pé da fonte; Só para mirn, náo fei porque fegredo, Nafce rnais tarde o Sol, p8e-fe mais cedo: A ordem natural de mim fe efquece; E já de horror, de enfado me parece, Que até lhe cufta diipender cornigo A terra encuito, as arvores abrigo. Como não ha de a rnifera Fortuna Ser-me táo importuna, Se para fegurar melhor a empreza, Se poz da fua parte a Natureza "Vede agora, Senhor, com que efperança Nos hornens hei de ir p8r a fegurança: Hum fó por me náo ver, foge, e fe efconde; Ourro por mais que o chamo, náo refponde. Efle immovel fe faz, foberbo aquelle; E eftou dianre delle Cheio de hum folfrimento táo precifo, Como a réo cm Juizo. ()Jamo 'mis me ello vendo, Mais váo endurecendo: Ser Ale Hu Qg Ser Ou No Pei (111 14:á Qu De Or A' Le Cc 0] M. Ni Hi SeM*, :e; io DE J. X. DE MATO S. 2 39 Sempre acho nelles huma fria efcufa , Que mais fez a cabeça de Medufa? E fe a algum defies fe lhe ve na boca Alegre differença., he que o provoca Hum odio disfarçado , ("pe val fempre no rifo mifturado. Sem longa experiencia euem náo fe enganará del'ca apparencia 1 Nova efpecie de féra, Peito de pedrenal, reflo de cera. Mas já do Mundo errado, Que tanto me enganou defenganado, Náo fou como algum Que as vans prometí - as da efperança cria: Delle fugindo vou , e a feus enganos, Mas fem proveito confumindo os annos. Ora da trate idéa , que me inclina A' folidáo da pafioral campina, Levar me deixo para a pobre Aldla; Mas rambem a zizania alli feméa Contra mim novos males, novos danos, Que cm toda a parte ello chovendo enganos; E l naquella gente,  • (be eu fuppunha viver rnais fimplesmente, Acho da mefma forte Os clefconcertos, que obfervei na Corte. Ora bufco outra. terra; Mas fea  ou Corte, valle, ou ferra, Náo ha, por mais que corro, ou que procuro, Hurn lugar, onde ponha os pés feguro. Qgal 240  RIMAS !as Attt E Ach Da Dai CO1 Del Ef As Poi Ca En o Da Or Ru Ei E N N Qual o CerVO ferido , Que cm fi leva efcondido No mortal infirumento Da vida o - temió , e Ibais veloz que o yerno Em váo fw,indo...vai e cm váo le cança , ,L. Que a pomos pálTos fernpre a morte o akarna; Affinir ,eu , guando fulc, á minha Eftrella, Mens5s me aparto della; Que mal poffo . efcapar,defle perigo, . Se aonde quér que fujo, vou comigo. Em firn para contar-vos mudamente De meu Fado inclemente, Quahtes cafés por Intiu já rem paírado, „As vezes que pizado Fui dos pes .infolentes Do defprezo , de amigos , e parentel, As injultas vinganças : , que héi foffrido, Ser cm todos os latid-es preterido, Confumindo cm demoras Infrudiferas -horas; zTamas nifio. gaara , Qe em mirn pritneiro a vida fe acaMra. De algum Afro a benefica virtude, Fazeruto em mirn , que a amiga Lei te mude, Me deitou odia terra Onde o Fado me faz mais In-anda guerra, Seno for de mens males nova rraça, TQC Gomigo defcuidos a defgraça; Mas DE J. X. DE MATOS. 24,i Mas voffa prefença Attribuo, Senhor, , tanta diffrença; E fe fugindo venho, onde he que poffc• Achar rnelhor amparo do que o voffo? Dai-me (fe be que merep confeguillo) Da voffa.,rnáo o podetofo afylo Dai-me, Senhor, , que ainda a defventura Correr atrás de mirn fe me figura: Defla hydra mortal Alcides forte, Eflingui de hunl fó córte As pulantes cabeças renovadas, Por meu cafligo fempre em váo cortadas; Porque fó pede a voffa heroicidade Cauterizar táo vil malignidade. Ern mim mefmo a defgraça vos offrece O mais nobre intereffe, Dando-vos hum motivo, Onde fe próve o voflo esforço altivo. Nunca os bomens mais Deofes fe parecem, Que guando favorecem: Derribar fortalezas, Romper muralhas, confeguir emptezas, Armadas dirigir a Climas novos, Em fujeiçáo dos Ovos, Pór atTedio 'as Cidades, E o mais, que o Mundo chama heroicidades; Nada diflo ferá de tanta gloria . No futuro ¡Inmortal pregáo da hiftoria, Co- a; 242  RIMAS E Corno fazer hum peito generofo, Rico a hum pobre, feliz a hum defditofo; Vós , que melhor fabeis quanto eu vos digo, Ea virrude exercitai comigo: Náo entendais que ínvejo Effa aura popular de hum váo cortejo.; Nern me renta a ambiçáo infaciaver: Tenho fina huna defejo mais louvavel, Vlais racional , mais pio, mais prudente, Que me faz defprezar natúralmente Patios de rico, prefumpOes de Noble; Poi s rudo piro I e r e mais fer pobre. O que fómente quero, E o que de balde ha tanto ternpo efpero, He arrancar ella agil mocidade Da inutil, melle, torpe ociofidade; De quena tantos defmanchos perigofos Sáo filiaos monftruoios: Sómente infedos vis geráo , danadas De cortupçáo as aguas encharcadas. Quero fó ter hum meto, Com que me encofte a alguna honrado efleio; Porque mai, defcançada chegue a vida La ao fim da carreira bem fabida ; Que, a quem táo polaco inveja, Lf.to náo fó lhe bafta, mas fobeja, Em Aca No Faz Def S De E e Erg Ah QH Fu 'Dei Ea Dei Ale Fet Oìj Ca 5e E IV. DE 3. X. DE MATOS. E fe as conftantes Leis da sá JuPtiça, Frn vós nunca rerniffa, Acafo náo ofrendo No pequen° defpacho que pertendo, Fazei á Patria hurn proveitofo filho, Defie que he da Republica ernpecilho. Se affim me acontecer, como confio De hum coraçáo táo  ; E entáo me virem com alegre rofio Erguer do baixo eftado , em que ettou Ah Senhor ! Corno he crivel, Qzie a defgraça infoffrivel Fugirá. de me ver torcendo a vifta ,Ra'ivofa de perder ella conquala, Deixando o feu arrojo Na voffa máo por mifero defpojo. E lá depois, que a minha rouca lyra Deixar o enfermo fom, com que relpira, Alegre, e fonorofa Ferida defla máo menos medrofa, Q2e a temperalla agora mal fe v.treve, Outro louvor rnaior, , que fe vos deve, Cantando efpalharei por t oda a parte; le a tanto me ajudar engenho, e Arte, ) En. IV. V O's , que da rica rnáo da Naru reza Recebeftes os dons, que ella mais pféza; Aquelles altos dons de foimofura, De graça , difcriçáo , de compodura, CIDe ratas vezes por occulro arcano Unir-fe labern no cornpofto humano: V6s . , que por força de hum penfar feguro, Illuminando as fombras do futuro, Dos mefmos coraç6es, e entendimentos Penetrais as tenç6es, e os movimentos: V6s, finalmente, qbe fabeis aonde Allifte Amor, por nrais que Amor fe erconde¡ Náo entendais que a declarar-vos veniio , Se acafo tenho amor, e a quem o tenho. 1\/1 Venho á yo g a prefença ,  E; 56 como aquelle , que cm- : mortal doença,  S< Dos ardores da fehre feote a calma Qge atenuando-lhe as potencias d' alma, A cada infiante affliao delirando,  e A' fecca 'nigua le lhe váo pegando  3 As truncadas palavras , fern que tenha,  I\ Qpando o Medico venha ,  ,..  C Elum habil enfermeiro , hum afluente,  ; .  C CI,De exponha miudamente  3 Com zelo , e com piedade  7 Os progreffos da tonga enfermidade, (22 De E Fai En Vt Cc Dt Itt Pa 244  RIMAS de; Enfermo vivo, mas de hum mal táo forte, Que cm vida bebo a cada inflante a morte: Defamparad o ellou , Amor me mata, E ajucla-o a matar-me aquella ingrata Que 1 - 6 c'um favor feu , que emfim me détre., Paria que pudeffe, Em lugar ce matar-me de defgolio, Ver-me morrer de gofio. Com cite bem , que pouco lhe cullára, De inirnigas Etitellas me vingára: Ito f6, ifio fá me bailarla, Para dizer ao Fado, fe algurn día Me t ornaiTe, corno boje, a fer contrario; Que queres , temerario? - F,m váo, cm váo já agora,. Depois daquella hora, Em que tu compallivo , ou defcuidado Me deixafte gozar táo alto citado; Era váo, de tanta .gloria p.ezarofo, Solicitas fazer-rue.defditofo. Mas que contas so  penfamento, Que andas férnpre a dcitar fem fundamento, Mais que a vá conjeaura? Eáo ha n-aior loucura, Que andares nefia mifera memoria Cortando os louros antes da viaoria. Mas ah! Minha Senhora, 'Yudo fine quem ama, e quem adora. :n. Cetç DE J. X.: DE MATOS. 245 2 4 6  RIMAS Cercado eflou das lunas do inirnigo, Cruel Amor, que fempre anda comigo: E em tío ardua conquifia Q Náo volto a qualquer parre a trille ue contra mim nao veja levantada Eíra máo poderofa, e delicada, Que inda tem !mis robufla fortaleza, Que a dcfpedida bala, cm fogo acceza, Contra foberbos muros, Que os peitos de aço , que os broqueis feeuros, Q_Ie de AlCides a clava, Que de Cupido a vencedora aljava. Peço que lhe digais, Se tambera contra mina vos náo voitais, Que cm fim (pois o defeja) que me mate, Que excogite; que trate Os mais tyranos gereros de morte; Qe eu os erpero forte; Náo para refiiiir-lhe confiado, Mas a feus pés proftrado, Para a morral ferida, (Inda guando me culle a doce vida) De novo o trille coraçáo lhe ofFerto A peito dercuberto; Mas que repare bem , que fe me offende, Náo contra mitn , mas contra fi contende; Pois matar quem fe entrega ao rendimenro, Bem que affegura, infama o vencimento. Af- 1 Ná En Qu E Co Sal A Ml Cl: Fa Dc E De Ne 01 Sa Cc 56 (P E Ef DE J. X. DE MATOS. 247 Affim de vós o julgo , affim o efpero, Náo por mim , pelo multo que venero Ern vós aquellas altas qualidades, Que vos igualáo tanto ás Divindades E mais que tudo , por aquelle affedo , Com que (faudofo de táo lindo objeao) Sahir das ondas vejo A efperar-vos contente o Padre Téjo: Affim nunca o vejais correr turvado, Mas antes focegado, Claro , doce, fu ave, e abundante Fartar-vos poffa toda a fede amante Do voffo coraçáo, oh Ninfa pura! E defcançando , de temor fegura, Dentro das fuas margens, como entendo, Nelle vos ellejais fempre revendo. Náo cuideis que efla empreza Offender pofra a voffa fizudeza: Salvar a huna infeliz, guiar a hum cego Náo he táo baixo emprego, Como o vulgo infenfivel imagina: Sómente huma alma grande fe dellina ( Pois filbe o que he Amor) a foccorrello, E náo a defprezallo , e offendello: E ló quena apadruaha, e quem refpeita Effa paixáo, que as mais paixóes fujeita, De benigno, de Nobre Toda a grandeza, que em í tem, dekobre: E E em quem melhor a vofla poderla MofIrar-fe atfavel , branda, heroica, e pia, Qz . re em foccorrer em feu pezar profundo O maior trifle, que conhece o Mundo. E fe eu merecer tanto, Q .j e vos moya a piedade ene meu pranto, INas brancas máos de Dinamene juro, Por mina, por ella , e pelo fanto, e puro Ceo , que ouvindo-me efta , que em quanto a vida Deite corpo mortal náo for partida, Corn vida, corpo, e alma, Por yer g o frio, por ardente calma Servir-vos-hei, Senhora, de maneira, Q ea rnáo fobre a fogueira , sobre o cepo a garganta Porei cern fé, e obediencia tanta, 4:be , fe pollivel for, A meu mortal valor Irei , Ninfa, por vós de qualquer modo O Inferno revolver, e o Mundo todo. E ao foro da minha eythara piedofa, Affim mefrno chorofa, Cheia de m l agoa ' cheia de afflicçáo, Em quanto a füftentar na frouxa tnáo; Proteflo toda a hora De vós, minha Senhora, Efpalhar, , guando cante, Louvores tacs, que todo o Mundo efpante. V. Que < Em b Ahi v Vos De A Ve Ferer Mas Fazer Dc Mais De 11 Nern P6de Qge V< E do Qlre Faze 248  RIMAS As L °rinda bella, as obras paftoris, Qge com tão grande empenho me pedis Ern brand° verfo , em bem tecida profa, Ahi y o-las remen° ; e mais piedofa Vos peço , que vejais De Amor tantos fucceffos defiguais. Vede , que as fuas armas atrevidas Ferem náo f6 as innocentes vidas, Mas inda em duros peitos , como o voffo, Fazem qual rajo mais voraz dearaço. Do grande monte o curthe levantado Mais peno eftá de Jupiter irado: De Amor, e de Fortuna Nern choça, nem tribuna P6de ter fegurança , Qge Fortuna, e Amor a tudo alcança. Vede pois que fazeis , E dos males , a,theios não zombeis , Qe sáo de hurna alma indignos penfamentos F4zer do,que he pezar diverrimentos. DE J. X. DE MATOS. 249 17. 250  RIMAS As -mágoas, os retiros, As afflicções, as anfias, os fufpiros, O devotante fume Do impaciente, do infernal ciume: As duras efquivanças , As aufencias , as falcas, as mudanças Em fin, de Amor táo longo prejuizo, He materia de rizo? Ifto náo he o mefmo que eflar vendo De longe a hurn miferavel ir morrendo A's máos do feu defgofto, Sem querer acudir-lhe por feu gofio? Ah Lorinda, Lorínda, guando eu lia As paftoris tragedias aigum dia, Plum fuor frío o rofto me banhava , Sobre a máo encoftava •A languida cabeça; e entáo de mágoa O pranco me arrazava os oihos d'agua ; iflo naquella idade , (Ah doce lempo!) Em que inda na vontade Náo tinha exprimentado aquelle effeico, A que troj.e ió por vós vivo fujeito. Neffe livro de Amor, cu?a efcritura Contérn do monte a varia Jet-ventura, .Aprendei os humanos fentimentos Corn que haveis de efcutar os meus tormentos : Divertí-vos embora ; Porém náo com Amor, que fempre chora. Dos Dos Se pr( Ah! D Torná Quant Só de E y& Rirv Ná( Mas z De A Mude E que Os m De y Do q Ve ja Da cc To DE J. X. DE MATOS. Dos clamores da Aldla, Se procurais encher a voffa idea Ah! Náo fe diga, que indo a vós piedofos, Tornáo a vir de novo mais queixofus Quantos tem defmaiado, SO de ouvir hum fucceffo defgraçado; E N'Os, ouvindo tantos, pode reis Rir-vos de Amor, zumbar de fuas Lcis? No efpero de %T'as coufa táo dura; Mas antes que cm ternura De Amor, e piedade Mudeis a natural ferocidade; E que guando efcutardes Os rneus julIos pezares , De que poffo compdr livros iwaiores, Do que o deffes Padores , Vejais quanta ficafles develara Da coinpaixáo , que me negais agora. Tom. L VI. zsz  RIMAS A AfTh bel! Cada Logra Qual , De mi Dizen Táo d Náo qua Ao 1") Qie t As rtz Por n Se E fe En as De g< Efta 1 Se efi Coof: Mais Mas De ci Eu o Que 1 Que O nv VI. M Mía inimiga bella, Gloria da rninha dor, e a caufa della, Em cuja rnáo Amor depoíitado Tem a minha Fortuna, e o meu cuidado: Tu honras efes boíques, e eflas Fraias, Ora encoftada á.fombra de altas fajas, Ora pizando, guando aqui patreas, Com branco pé as humidas arlas. Tu envergonhas eftas Ninfas bellas, Pois es mais linda, mais formofa que ellas; Huma vetado-te epflá, como admirada, D' entre a lirnofa concava morada; Outra do banho fahe, e bracejando As enroladas ondas vena cortando C'o delicado peito: Deixa aquella O rico fio, com que urdia a tella; liuma deixa do Satyro o queixume, Outra de ver os peixes cm cardume, Corno falrlo na rede aos pefcadores; E ora cheias de inveja , ora de amores, Eftáo debaixo d' agua a huma e l'urna Levantando as cabeças fobre a efpuma.  DE J. X. DE MATOS.  253 Mina por ver-te, 6 Ninfa, fe alvorola A beililErna chufrna, porque poffa Cada huma afta arte Lograr de tanto bero táo grande parte: Qual , para as mais De teu Divino géfto eítá tratando, Dizendo todas, táo Celeíte aceio , Táo defuiado géfio donde veio1 Náo fe recolhem , fem que tu te aufenres; r guando o fazem, trates, defcontentes Ao Padre Téjo contáo, Qs j e te víráo , meu Bem, e alli !he apontáv As tuas perfeiOes, que nunca dizein , Por mais e mais que as exprefsóes repizem. Se dizellas pudeffern, que diriáo E fe as viffem como eu, que fentiriáb? Eu as vi, eu as vi: Com que minuta De gofto, e de pezar fe me figura Efta visáo ! 0' penhas circurnftantes Se ettamos fós, direi as penetrantes Coufas, que efta alma firmemente enferra Mais entranhadas do que vós na terra Mas até tenho medo De confiar de v6s tanto fegredo: Eu o direi cm  com ta ) . cautella Que o ou9a fó aquella, Que foi a doce caufa, por que ni figo O mal que p4fo, as . ew , 7,refsócs que dile,. Ru  No ?54  RIMAS Náo cuides, Ninfa , náo, que da memoria Rifeaf  mais fe poffa huma viecoria, Que Amor a vez primeira celebrara; Bern que depois cm mágoa fe trocara: Inda tenho prefente De mens dias o ¿ja mais contente: Inda me lembráo os piedofos ais, Os gefios, as palavras, os finaes, As brandas petiç6es, os juramentos Em tim os narnorados movimentos, Com que ora examinando os olhos bellos; Ora enfeitando os lucidos cabellos, Toquei a face pura, Onde Fiora miftura A branca, e a roxa cór da madrugada. Ah Ninfa delicada! Todas citas razóes, fe me acreditas, , Vivem , e viverá6 nefla,alma efcricas! Eflas as caufas sáo do meu defgofio, Que me vem fempre na afflicçáo do rofto: Ellas continuas lagrimal, que chóro, Eafcem do que recelo, e do que adoro: Olio cm fim para ti i - e guando meço Entre nt'is as diffancias , efmoreço: Vejo que es !turna Ninfa celebrada, E das mais altas prendas adornada Eu hurn Paftor fem nome, que fe attenda, Sem parte, fem razáo, que me defenda: Tu do Os bo Eu po Só de Tu de Eu tác Tu po Que a Qua Po rqu Depoi E cert O dar Refoln Que r Mais AlTi Conhe Que e Náo f Com (Porqz Me dt De te Oh! De ta Que, Merec Tu DE J. X. 'D'E MATOS.  155 Tu dominando os campos, fenhoreas Os horques, e- as aras; Eu pollo cm monte alheio , e táo deferto , Só de rufficas pelles mal cuberto : Tu de formoCo roto delicado; Eu táo mal figurado: Tu polida; eu mais bronco Que a groffa carca defigual de hurn tronco. 0 , ual Lavrador, , que alguma rez comprara, Porque coni outros -náo fe aconfelhára, Depois Ihe dizern todos, que he pequena, E cerro que foi pena O dar tanto por el/a; como lonco Refolve-fe a largaIla por táo pouco , Que perde o pobre cm fim 1 . 6 por vendella, Mais de metade do que deo por ella. AlTim receio eu, que tu, Senhora, Conhecendo algum' hora Que effe amor repentino Náo foca amor, mas fora deratino , Com que ao princípio para mim olhafie, (Porque conitigo nio te aconfelbascie) Me deixes pezarofa De ter fido cornigo táo piedofa: Oh! Nunca chegue o dia De tanto mal, de tanta tyrannia! Que, inda que os teus favores valem tanto, Merece-os o meu pranto Me- RIMAS rvIcrece-os a conflancia,  Aquel! A inquietação , o amor, o Inflo, a anfia  Qye p Que dentro d' alma finto:  E fe c S6 neflas qualidades fou diftinto.  Suave' Conft Onde Se aca Se me Seja a Qze Náo Traze Efe Trufe No tenho largos camros femeados, 'Que te roffa ofrecer, nílo tenho gados: Náo poffuo colmas, Vivo peregrinando nas Alaas De cabana cm caballa: Ilum mez aqui , além huata femana; Mas tenho huma alma, bem que trirle , Nobre : }Turna vida,' que he tua , ainda que pobre: }km amor, que te iguala: I-Iuma fé , que a nenhum temor fe abxla: Ern fim hum coraçáo , de quem tu fabes A grandeza que tem , pois nene cabes. N.o tenho outros haveres,, Se difto re contentas, fe ifto queres, Como jlt n > eutro tempo ficcedia; Que para ti , ó Ninfa, no havia Outro preço mejor. Que huma alma cheia de hum . fincero amor, Tudo cm mira adiarás da mefrna forte; E fe he pollivel, inda amor rnais forte. Mas fe eftás 'de querer-me arrerendida No te:.arrepndas de me dar fingida Aquel- Aquella branda merara de piedade , Q 2 e paffou tantos tempos por—verisladeg E fe quer nefle engano , Suave ao mermo tempo que tyrano , Conferva o meu defejo, Onde tenho mil mortes de fubejo. Se acafo me aborreces, como entendo, Se me deixares , de que eflou tremendo, Seja allim, pois o queres; mas de modo, Oze eu o náo chegue a conhecer de rodo: Náo te cuftara multo nelle cítalo Trazeres-me enganado Elle pequeno allívio me confente; Trille quem de táo pouco ella contente! TER- DE 3. X. DE MATOS.  257 25/  RIMAS TERCETOS. Irnofo Infante, Principe adorado, Efperança :luís firme do futuro, Confolagáo mais certa do paffado: Amparai cae p/etro mal feguro, Como fuccede a hera trepadora, Qziando fraca fe arrima ao forte muro. Nova Mufa me dai, pois temo agora Defentoar no canto defta minha, Por cofiumada as lagrimas que chota. Oh Mufa a mais feliz! Q l tem te apadrinha? Que ja fin:o fabir-rne a voz do peito 1 s /renos selada, do que d'antes vinba. Vós fois, ,Senhor, , a caufa defie effeito; Por ifío iicclaufulas pequenas Ouvir-me-h^do o Mundo com refpeito. E protegendo rufbcas avenas, Ir-vos-beis coflumando de Menino, Antes de ferdes Rei , a fer Mecenas: Qte 03. DefF l'era No Amy Ven( o Que Bem AL Den V Del De Que Irá Con Nos Que fe o forte Thebano cm pequenino Defpedaçava já drag6es no berço , Pera he tambem o meu fatal Dercino. Novo Alcides , Senhor, , meu tofco verfo Amparai ; que he mais ardua refiftencia Vencer as forças de hurn Deftino adverfo. Cluvi-me pois, ouvi-me fem violencia, Que as raz6es da fiel finceridade Bem pócle percebellas a innocencia. Vós fois aquelle ramo, cm cuja ¡dada A Lei florecerá conftantemente Defla pequena amiga Chriftandade: Vós fois aquelle fruto inda pendente De huma arvore de Chriflo ao Ceo fubida, De que hoje faz a Portugal prefente: Vós fois aquella palma enobrecida, Que na frente das noffas efperanças Irá crefcendo para fempre erguida: Vós o Iris fois daquellas feguranças; Com que Deos táo benigno, táo piedofo Nos promette pacificas bonanças. Benl- DE 3. X. DE MATOS. 2 59 160  RIMAS Bemdito Reino! Portugal ditofo!  Vos Se es do Ceo táo bem val°, e táo mimofo.  Por óbe ot S  1 Oh ná.o te affufles mais ! Oh náo l'oí-pires! De 1 t te diz Affonfo, que refpires,  E et De l i nefte feu novo defcendente  Vos e: Te manda o ramo , o fruto, a palma, o Iris:  De yo O  or uardai, como promeffa, cita. memoria ente Pa r: Alvtneu Senh ! AIeu Principe excell! cCohm eio De huma boca infallivel, que náo mente. Lá guando lerdes a famofa hiftoria  Ves Dos voiTos Immortaes Progenitores ,  Semp Vereis mais altamente a voffa gloria: ,  Enfre i* Vereis , que so eternos moradores-  Ve -- Do Verdadeiro Olympo , onde ficáráo  Com Suftendo fempre os Regios Succeffores:  Defes Vereis o claro accento , a que chegráo;  Ve Náo porque foráo Reis, mas virtuofos  ,  Do N No ardor, com qUehuns aos outros fe imitáráo:  Da f Mas voffos Pais Auguflos , e famofos,  Vc Qge as facrofantaS Less da heroicidade  Com Sabem dar, e feguir táo cuidadofos ,  End V os DE J. X. DE MATOS. z6t Vos levarla á excelfa extrernidade, Por onde com trabalho , e com defvelo Sóbe a gozar o Heroe da Eternidade. E cm quanto no podeis reconbecello, \ Vos cía preparando burn novo eftado De voffo Augufto A y a o amor, e o zelo. Para vós vai creando efte Reinado Cheio de gloria, cheio de exceliencia , Com que fe faz no Mundo refpeitado : Vereis nelle invariavel a obediencia, Sempre conftante a Fé, reeca a Juftiça, Enfreada a Ambiçáo , muda a Infolencia: Vereis a applicaçáo nunca remiffa, Com que entretida a molle ociofidade, Defentorpece os rnembros a preguiça: Vereis feguir-fe as regras da piedade, Do valor , da fciencia, da conftancia Da fanta Paz , da juíta liberdade: Vereis aquella radical fubflancia Com que nutre o Cornmercio as Monarquias, Encher voffos eftados de abundancia: Af- Em Affirn vereis, Senhor, todos os dias Com proveitofa fingular cultura O Reino florecer por tantas vias: Como aquelle, que cm grande femeadura De bem mondado trigo vai com gofto Cortando a loura efpiga já madura. Crefcei , qual tronco cm fertil chao difpofto Que des que os largos ramos eicendlra Servindo a tantos, vai de abrigo, e encollo. Vinde illuffrar de todo a Luía Esfera; (li j e feudo milito, o que de vos alcança, He muito mais o que de vós elpera: Grao parte do feu pezo cm vós defcança; E já iem que o fintais fe differença O multo que podeis fó na efperança: Por nós ao Ceo chegou fúpplica imrnenfa; E de raes qualidades quiz encher-vos, Que fez maior que o voto a recompenfa. Elle, que tanto fouhe enriquecer-vos, Ha de, affeiçoado ao voiro gefto lindo, De fafcina.ntes olhos defender-ves. Er Brini Q„pa< Hun Outi o Ora Ora Efco Qu:e Ci Nos Tor< A já fi Ban S( Defi Que 262  RIMAS DE J. X. DE MATOS. 261 Em vós todas as Graças fe erro rindo, Brincando trío comvorco melindrofas , Ques ao filho de Venus divertindo. Do voffo tratamento cuidadofas Hurna no berço de ouro vos reclina, Ourra vos cobre de purpureas roías. Ora Piro embalando-vos benigna, Ora nos braços da rifonha Aglasya, Ora no brando coito de Eufrofina: Para vós anda Theris ji na praia Efcolhendo do mar alvas pedrinhas, Qu_e a onda arroja, e lambe, guando efpraia„ Com ella váo as Ninfas mais vizinivs Nes virginaes regaços apanhando Torcidos buzios, concavas conchinhas. A lona, e branca barba penteando Já fobre as manías ondas apparece Banhado ern goa() o Tejo venerando. Seu futuro Senhor vos reconhece: Defcubri-lhe eiTa rnáo candida, e pura, Que ja para a beijar fe enfoberbece. Voa, Voa, 6 Fama veloz, pelo ar fegura Sacode as pandas azas, val feguindo O caminho, que te abre ella Ventura. Defle Principe o nome diffundindo A's mais remotas gentes, que encontrares Na didancia, que vai do Tejo ao Indo: Voa áquelles longillimos lugares, Que com teu brado univerfal abranges, De Africa as terras, e do Oriente os mares: Tremáo de fullo os barbaros alfanges, Que inda para cercar a Luía frente Cria palmares inclytos o Ganges : Dize ao torpe, e toflado continente Da inculta Abylla , que vá já tirando O perfido turbante reverente: Ao feio Tormentorio vai chegando, Arroa-lhe os afperrimos ouvidos , Nunca fabidas coufas efcutando: E que dos navegantes deftruidos O erime pagar, que inda Ihe reffa, Vendo os rnembros grandillimos tolhidos; Por As Lr Lhe h Faz Depoi Lá pe Ag Agora Affarn Pro De fe Deja Em Anntr Mil E 1 Toda Arma Fui Tribu Perol Por- 264  RIMAS Porque fe os mares ainda agora infeaa As Lufitanas proas, que algum dia Lhe ha de abaixar a carrancuda tefta: Faze-te ouvir por toda a Cafraria , Depois avante palia, e vai correndo Lá por outra Regiáo menos fornbria: Agora a rica 0111111Z eftremecendo , Agora Meliapeir, e o Guzarate, Mamados dearidos difcorrcndo: Prognoaíca hum cruifiimo combate De fegura viaoria ás fortaiezas De Jalofo, Tidore, e de l'enlate: Ern fim das fortes armas Portuguezas Annuncía do Mundo cm toda a parte Mil futuras, e profperas grandezas. E vós, corn quena benigno o Ceo repatre Toda a graça de Adonis, algum dia Armado filho vos veráo de Marte: Europa a voffos pés, de medo fria, Tributos vos dará; e a Afia ingente Ferolas Orientaes, que a Aurora cría: Na- DE J. X. DE MATO S. 265 Negros vulros iráo de Africa ardente  Dirá Defentranhar na America faivagem  Que f, Thefouros ricos de metal luzente.  De tal De tal Po y o earanho de barbara linguagem, Pela foberba foz do Tejo entrando, Vos jurará firmiflima homenagem: Entáo corn lyra de ouro cm verfo brand° 3 A vas mais 'dignamente altos boyares Os Paftores da Arcadia iráo cantando: Louvai louvai , follícitos Panores, O novo Succeffor do Reino: Ceffe O coílumado canto dos amores: Cantai o amor da Patria ; o intereffe Commurn da Monarquia: E o bom Pai (Ha, Por quern dos Pavos todo o bem florece: M'un vos fareis dignos da capella, Que Febo para aquelles tern guadado , Que louvar falx;rn a Virtude bella; E guando o aureo Tempo for chegado Que de Saturno o feculo finja, (Ah Tempo ! Tempo Bernav'enturado!) Di- 266  RIMAS DE J. X. DE MATOS. 20 Dirlo, verificada a profecia , Qt_te fatidicamente fe cantava: De tal Pai, que outro Filho nafceria? De tal Avo, que Neto fe elperaval 'VD111.  S  E E, 268  RIMAS BEL1Z A. P Ois náo quereis , memorias imprudentes Senáo andar continuo revolver:cm Coufas, que mais vos façáo defcontentes: Com inquietas azas De novo vivas d ' almas accendendo, E nellas reduzindo ,L vos a brazas: Fattai-vos, loucas, confurni-me embora: Voemos onde mora • O principal motivo, Por quem no meio de mil mortes vivo; En vos darei materia accommodada , A todas as idades ráo eftranha , Q 12 e nunca em verfo trifte foi cantada: Qyal louco mal guiado Correndo vai 20 alto da montanha, E fe deita de lá defefperado .Aflim perdidos já, da melma forte Vamos bufcar a morre: Primeiro fubiremos, Depois precipitados cahiremos. Sub Onde A' fre Recor Como SOmer IVIas f Ser m E aílii Demo Aqi A rna Defde Inda 1 Que Ou Aquel Beliza Aquel Onde S il  A Subamos pelas rnargens do alto Douro, ende cuido inda agora que me vejo A' frefca fombra do fronclofo louro: Recorde as alegrias, Como aquelle, que ceva vo defejo Sómente com pintadas iguanas; Mas fenáo podem glorias já paffadas Ser mais que imaginadas, E aflim vos fatisfaço, Demos, memorias mirillas, mais hura paffo Aquelle o bofque á Ninfa confagrado, A mais famofa, que o gráo Douro ha viflo, Defde que corre para o mar falgado: Inda fe me figura, Qz.ie alli as horas palló, alli pedal°, Ou feja dia claro, ou noite efcura: Aquelles os confufos ramos, onde Beliza fe me efconde: Aquelles os lugares, Onde a Amor :la Fortuna ergueo Altares, DE J. X. DE MATOS  26y 270  RIMAS A quem direi os cafos venturofos; Que alli pafiei, cm quanto o quiz rneu Fado, Que os náo tenha talvez por fabulolos? Oxalá , que pudeffe &r fonho aquelle tempo já paffado, Alfim como inda agora mo parece! Mas effes altos montes fe abaixáráo, Efias aguas paráráo ouvir os louvores, Que allí me deráo Ninfas, e Pafiores. Alli vi de Beliza os olhos bellos: "Náo fei que rnovimento os meus lhe acháráo, Q . ue defde emáo náo pude eftar fem vellos: Allí hum ceno día Das palavras ufei, que me enfináráo Os ditofos exernplos da oufadia: Logo Fortuna encaminhou rneus paffos; Levantou-me nos braços, E pela roda vária brota a Amor de lhe não fer contraria. O n' tape a De go Mace( E das Hirma Para f A pon Que q Arma Vos' Beliza A m'a( Vós, Lile o Que e De E logi Por tá Que i: DE J. X. DE MATOS. 27 I O menino, que nunca prefumio Ozie a forre Deofa em feu favor tenia, De goa ° as brancas azas facudio Metteo a máo na. aljava, E das agudas fettas, que trazia , Huma e - fcolheo, que mais aguda eflava: Para ferir Beliza a deltinou, A poma lhe dourou, Que quer que a arma feja Arma igual á viaotia, que defeja. Voando foi Amor com rorro 11do, Beliza vio , e difparando o tiro A mão tres vezes lhe tremeo de medo: V6s, ditofas monranhas, Lhc ouvifles o ardentiílimo fufpiro, Que en:áo lançou das intimas entranhas: De piedade os olhos fe lhe enchlráo, E logo fe volvIráo Por tao doce maneira , Que inda náo fimo coufa que mais queíra.; Qu 27±  RIMAS (be devotos louvores náo me ouvírão, Dar a Amor, e Fortuna elles outeitos, Quando entáo meus t riunfos de alto víráo Náo ihe queirnei perfumes, Náo Ihe emulei novilhos, nem cordeiros, Sacrifiquei a vida a feos cabales, Ardeo fern fe gaffar nunca a vontade, Para ter liberdade De pár no Altar mil vezes Novos defejos, cm lugar de rezes. Os t'Abres, que o víráo entre tanto; Nos rnais duravels troncos o entalháráo Para letvir aos Satyros de efpanto: As Naydes, e Napeas, Por mandado de Amor o recitáráo, Elumas nos bofques, outras nas aréas; E ás que erá.o mais deftras nos lavores, Por Tritóes nadadores, O rnefmo Padre Douro Mandou recelo n'urna téla de ouro. Mía Eo ráo Erguln Enrre I Armar E as f( Qual e As per Qual r De ric Hay Da Que fi Do rm Táo p A mei As cal Ao E na pin Mi; DE J. X. DE MATOS. Affirn que as alvas filhas informadas r oro de feu paterno mandamenro, Ergulráo máo das obras começadas: Entre fi concerráráo Armar novos theares n'um momento, E as fedas de mil cores ajuntáráo: Qua' efcolhe das conchas cryltallinas As percas mais finas, Qual renova ligeira De rico fio, eburnea /ançadeira. FIavia Hirene debuxado a hifloria Da filha de Nereo formofa, e pura, Que foi de Polifemo pena, e gloria: Do monfIro a fymmetria Táo propría , e feia effá, que da figura A mefma Ninfa, que a bordou fugia: As canas defiguaes, com que tocaya, Ao cólo nú levava, E na mão por casado O pinheiro maior, , que fe ha cortado: 271 Mais l 2.74  RIMAS Mais ao longe alvejando ertava a atla De huma praia deferta , e deleitofa, ende fe via a linda Galathea: Nos bracas tinha o moço , Que fez depois Fortuna , de invejofa; Das duras máos do Cyclope defiroço: N'outra parre coriendo váo fem tino, Que era o cruel Detlino Do doro Gigante, A's máos haver, o feu contrario amante. Tanto á pintura as dellras mãos foccorrern Que quein ah os vl fe lile figura Que por lima do panno vivos corrern Depois apparecia O Killorinho inerme, e fem Ventura Debaixo de hum penedo , que o cubria: Com elle do falvage a l'orla bruta crueza executa De ouvir cm tal crueldade Ranger-lhe os tenros offos, fem piedade. Log Perdei Em Que e Da gr E o n Até cy A con Q 2 e al De fel Clit N' out Qge Daqtú EuroF &fto Allt a Pintan E do ,Altera DE J. X. DE MATOS. 275 Logo 9 itrifte mancebo deixa ver-fe, Ferdendo a fórma humana, e começava Em gottas de agua o corpo a desfazer-fe, Que cm rio convertido, Da grão Cecilia os ferteis campos lava E o nome de Acis tem , bein conhecido: Até que entra no mar, e cm mar fe troca • compaixáo provoca, Q j e ainda muriumIndo, De feu antigo mal fe eftá queíxando. Climene ouro, e feda entretecendo N' outro delgado patino, alli parece Que as ondas do Helefponto eftão fervend o: Daquém na populofa Europa Abido avulta ; e apparece &ftc> dalém na Afia poderofa: Ah; as trifies cores lhe miftura; Pintando a noite efcura, E do mar reprefenta ,Alieradas as,aguas co' a tormptl. Nel- N 276  RIMAS Nellas Leandro vai quafi affogado, 56 hum braço entre as ondas fe lhe via Que o outro tena já de nadar cançado: Ao longe efcaffarnen:e Na torre de Ero a frouxa luz ardia; Porérn naquella noite inutilmente. Ah que farias Ero, guando vifte Na praia o corpo trille Deffe, que por amar-te, Inda depois de mono foí bufcar-te Eur O bru E a cc N' out Em fe Que t, Mas a Ellas A out De na Entretida Leriope bordava  Em Os campos de Fenicia, onde abundante  Mas a O groffo gado de Agenor pallava:  Que c Logo o filho de Mala  V6s, Guiando as manías vacas mais diflantes,  V6s , Se vl ao longo da efpaçofa praia:  Aiuda Da branca, e fliva c6r, que imita o carro  As az, Pinta o formofo touro,  Ao P: Em que fora mudado  Empn Jupiter, d'alta Europa namorado.  Qge r Etla En s D E 3. DE M - A T O S. Europa alli de flores mil o enfeita, O bruto as alvas máos lhe efta lamhendo, E a cornigera fronte ihe fujeira: N' outra parre co' a preza Em feus hombros no mar fe vai mertendo, Que táo formula carga no lhe éza; Mas as Ninfas aqui chegavão, guando Ellas obras deixando , A outras dáo começo De mais verdade, de mais alto preço. Em nova tella Hirene principia Mas ah lonco, onde vou, que náo conheço, Que ern lugar tal náo po b ffo entrar fem guia V6s, Filhas da Memoria Vós foberano Amor, por quem padeço, Ajud ' ai-me a recer ráo nova hiftoria t As azas , cona que já voar pudefte Ao Parnafo Celefte, Empreftai a meu canto, Que nunca precifou de fubir tanto. 278  RIMAS Em nova tella Hirene reprefenta  N'or Hum horque de altas arvores copadas;  Entre ( Que nas margens do Douro fe apofenta;  Eum í Pelos troncos . bordando  Lugar; As brancas madrefilvas, enroladas  Muitas Parece, que por elles vão trepando ;  eaflei O verde cho femea de outras flores  Mas in De mil diverfas cores,  1  Parece E entre ellas miftura  Segred Fugitivos regatos de agua pura.  quie eí No fundo do arvoredo fe divifa De huma f5 madre perola formada cavernofa gruta d Q Beliza: De Ninfas inferiores Servida alli fe moftra, e rodeada, Bem como a roía em meio de outras flores; Alli genios folícitos voando A mão lhe efião beijando, E o Sacro Pan lhe rece As capellas de lyrios, que lhe offerecei Clin mmn Vagan, Agora As má A ver Agora Sobre Woutr Correr N'ouj, N'outra parte do panno eft5 pintado Entre os viçofos ramos da florefla Pium fornbrio lugar do Sol vedado: Lugar, ende algum dia IVIuitas vezes as horas da alta céfla eaftei com ella, cm quanto Amor- quena; Mas inda guando alli Mudos eflamos , Parece que fallamos Segredos delicados, Qe efcreve Amor nos géflos namorados. Climene denramente 15 figura minha inquietaçáo : Allí me vejo :Vagando peda mítica efpeiTura: Agora levantando As maos ao Ceo, que me levou do Téjo, A ver do Douro o rollo venerando: Agora penfativo , e recoftado Sobre o curvo cajado, Woutra parte da tedia Correr me vejo para os braços della.' DE J. X. DE MATOS. 279 180  RIMAS Já me recebe nelles, já me apena, Turbada a face tem de vergonhofa , De amor, de peijo, e de fuor cuberta Logo os .. olhos levanta, P8e - fobre o branco peito a máo forrnofa, Juizando a fé, que nunca mais quebranta: D' entre os ramos os Satyros Caprinos ( Com feus olhos malinos) Porque vifios náo fejáo, Notando efiáo o rnefmo , que defejáo.. N' cuna parte fe vl com brando rofio Na lyra modulando, os namorados Doces verfos, que Amor lhe tern compollo: Os vizinhos penedos Das imminentes ferras defpegados Rolando vera ouvilla : Os arvoredos As raizes da terra já tem fóra Ao forn da voz fonora, E o leve paffarinho No ar parado náo lhe lembra o ninho: Mas Pelo ci E cm O cafe TecenC Com Traba' A quell Que al Afflige A hl Em ca Denou Carreg De for E em As Nit r  Pinta, Beliza Perdid Alas Mas Leriope deftra, que alcançava Pelo enrío das aguas o tuturo E cm mudas profecias trabalhava: O cafo defaftrado Tecendo eftava do Deflino efcuro, Com que fui defles montes apanado: Trabalhando chorando j temia Aquelle triPce dia, Que ainda na memoria Afflige ver táo laltimofa hifforia. A hora do fatal defpedimento Em campo borda am de pardo, e °m'o, Denotando trifteza, e fentirnento: Carregados os montes De fombra efláo do verdenegro /ouro, E cm roda os macilentes horizontes: As Ninfas arrancando as tranças bellas Pinta, e no meio dellas Beliza magoada, Perdida a cór, e cm lagrimas banhada. DE J. X. DE MATOS.  281 181  RIMAS Alli elan fem faber determinar-me, Os faudofos olhos alongando, Se'rn haver quem dos feus potra apartar-me; E corno por violencia Dous ininiftros crucis me váo levando Ao facrificio da forçada aufencia: Já lá vou n'urn lugar mais apartado Co' rollo atrás voltado , E por mais que defejo Tornar a ver Beliza 5 náo a vejo. São Outros Sáo ou Eflas a "Náo As agu Nenhu He a r Nem F 'Que Mas onde, 6 penfamentos, me levaftes,  Náo Onde, falles tocar, que das feridas  E inda Que n'alma tenho, o fangue renovarces?  Váo Agora, que eu julgava,  Que in Vendo no Douro as Ninfas entretidas,  Pinte a Que léclas horas inda alli paffava:  Se pód c Ante os olhos me póes táo vivamente  De qui Ora táo defconrente,  Se táo Que já náo foffre engano  Pelas n , A verdade táo cerca do meu darlo.  Mofirá SU)  Ton. Toril, I:  TSe In DE  DE MATOS. Sáo outros efles campos , caes ares °Litros caes Paffores, e efe gado, Sáo outras as cabanas, e os lugares: Eflas aguas, que vejo, Náo sáo as aguas do meu Muro amado, As aguas sáo do aborrecido Téjo: Nenhuma Ninfa das que o monte piza He a minha Beliza, Nem podía fer ella, f ,), , ue he mais amante, e tnais que todas bella. Náo vejo rnais, que imagens de trifieza E inda algumas, que nafcem de alegría, Váo perdendo comigo a natureza: Q l re importa que a Ventura Pinte a confolaçáo de ver hum día, Se póde vir primeiro a noite efcura. De que valem raz6es hem começadas, Se táo mal acabadas Pelas máos da Efperança, Mofiráo depois táo pouca fegurança. RIMAS 284 Sem ti Beliza eliou , como acontece eftrangeíro Paflor, que erra o caminho, E no meio do monte lhe anoitece: Alli a noite pafia Debaixo de alguma arvore fózinho, Efperando impaciente que o Sol nafça ; Mas bemaventurado, que ha de ver O dia amanhecer, , E eu trille, que náo fei Clgando a ver os teus olhos tornarei. Imagino que ás vezes refplandecem Muito peno de mim; porém que importa, Sáo nuves de Ixion , que me apparecem ; Se as almas acabafTem , D. de mágoa ella minha andára morta ; Mas de huma fonte fem principio nafcern • Para náo terem firn; e ella certeza Faz maior a trifleza, Com que andarei fem termo lentindo os males, de que vivo enfermo,: Para De fe fp Mas fe E fe n Me di2 Zue Nem a Nem I Pois Que ni A ffir Como Qe já Ja de r Que di Pois 01 A ning Nos m Os ow Pelo f Pa r4  DE J. *.k. DE MATOS.  28; Paraiconfolaçáo ás vezes quero Defefperar de todo, fe pudeffe; Mas fe, porque he allivio, náo o efpero; E fe náo efperára, Me diz Amor, (que os males bem conhece) Que outros nzales matares me atfiára, Nem a Amor creio, nem a mirn me entendo, Nem fei o que perrendo , Pois quem morre efperando, Ozie mal terá maior defefperando? Mina me queixo a Deos, ao Mundo, e la gente, Como aquelle, que , grita  pancada, Qe já foffrer náo pode a dor, que fente: J'a de mais nada curo, Que de trazer a voz alevantada, Pois outra medicina no procuro: A ninguem que me acuda rogo, e peço Nos males que padeço: Os ouvidos me fechem , pe l o fOmen t e, que gritar me deixem* Tu  Aré 86  RIMAS Até que ella voz tremula , e femida, penetrando as entranhas defte monte No gráo Reino de Dite feja ouvida: O fom de minhas mSgoas Enfreará do fervido Acharonte As venenofas denegridas aguas: Tantalo entáo verá, que a ícele amiga Alli fe 'he mitiga, Vendo que he mais ardente A fede trille, que fupporto aufente. Sefifo, o pezo fentir'a mais leve Da pedra, com que aos hombros nunca pára Em pena do fegredo, que náo Leve, Porque efes meus cuidados ( Qpe eu inda affirn com elle náo troara) Mais trabalhofos sáo, e mais pezados. Orfeo tambern verá que excede tanto .Ao feu efle rneu canto, Que com elle podia Trazer de novo a Efpofa a luz do dia. Efle Qele Tendo Pico, Menor Que o Depois Que p Trifles Defcan Inda (te lá Apieda Se diff n De epa Capaz Mas ni Onda, Deixe Q4 yo Ef- rat DE J. X. DE MATOS. 187 Efle roedor defejo da faudade, Qz t e lentamente eftraga , e náo confome, Tendo fernpre materia na vontade: Fico, que em Thicio faça Menor do Abutre effa perpetua fome, Que o figado immortal lhe defpedaça: Depois que chorar lagrimas de modo, Que pelo Inferno todo Triftes , e derramadas Defcanço dem ás almas condenadas. Inda verei de cl fe poffo tanto, (te lt vou esfoiçando a voz com ellas Apiedar no Ceo o Coro Santo: Se differ, que o que fimo, De que sáo teflemunhas as Effrellas, Capaz ferá de mais e mais, náo mimo; Mas náo temas, Beliza, que entre tanta Onda, que o mar levanta, Deixe a Náo de ir fegura, Ot1 ror vento contrario, ou noite efcura, Tas 288  RIMAS Por ferras de crucis impedimentos, Que diante dos olhos crelcer vejo Indo, e viudo efiaráo meus penfamentos: Náo ptSde fer atado A' roda da Fortuna efte derejo, Que nafceo livre , e náo fe quer forçado: Elle fará, Tic eu viva 15. comtigo-, E tu aqui comigo, Que fem que os corpos mude, Para mudar, as almas tem virtude. Mais te differa defia s'á vontade,  Af Que Amor com puras máos para offerecer-m  Fujo Limpa efcolheo de toda a falfidade;  Ate i Mas já o não pertendo,  De 1 Porque iffo fora o mefmo que dizer-te,  Para Que para o mar os nos vão correndo;  A fa. Que os montes não fe movem; que o fobreird>  Náo He maior que o falgueiro;  Que Finalmente feria  Ve ( Accender tochas, guando nafce o dia l  O pi To Que Sein Diani Por Triflt Após De ti Deitc Sem eir* DE J. X. DE MATOS. 289 Todos so fabedores de meus males, Que o mal foffrido Amor anda contando, Sem eu querer, por montes, e por vales: Diante de mim vai Por onde quer que vou, como lançando Trae pregáo de alguem, que a morrer fai; Após delle fufpiros magoados De trilleza efpalhados Deiro por toda a parte, &ni que já mais de fufpirar me t'arte: Affim por eftes campos vago errante Pujo dos homens, vou bufcando as féras Até parar no monte mais diftante: De lá os olhos viro Para a parte onde eflás: Ah fe fouberas A faudade com que entáo fufpiro , N'áo fei que acho no ar, que dalli corre íi Que a vida me foccorre: Vé quanto Ocie, e mente O penfamento de quem ama, e rente. íto RIMA Inda maiores coufas me acontecem... Continuamente as aguas deíte rio Sendó claras, rnedonhas me patecem ; Dos campos a verdura Náo he rnais feia, no mirrado Eftio As namoradas Ninfas da eipeintra Como paffo fem pór os olhos nellas Nada fei dizer dellas Só fei , que fe re vira O contrarió de tudo, aqui fentíra. Mas em quanti), 6 Beliza idolatrada No for minha Ventura ruentirofa., Pe Amor pela palavra demandada Ern quanto neffas praias Náo fijar eIta flauta fi:mol:ola, Corno algum dia, á fombra de altas fajas: Em guamo náo puzer meus olhos rédos Neffes longes penedos ; Em guamo onde tu moras Náo pafIa.r,.(Irsal pajfei) alegres . horas,: Aqui Aq Miftu Darei Náo f Se ch Defeo Antes Hurn Come Dos a E v N'io Qae O qu, be a Efe Por if Sabei Tenht Que D E J. .X. D E ISJ A T O S.  291 Aqui desfeito em lagrimas, e dores, Mifturando ITICU choro, c'o meu canto, Darei queixa/ a Amor, e a ti louvores: Náo fejáo mal ouvidos' Se cliegarein molhados do meu pranto Defcompoltos de dor, de arte defpidos; Antes ache por iffo acolhimento Hum pobre entendimento, Corno o que falva a vida Dos altos mares, cm que a vio perdida. E v6s, Pafteres meus, do que me ouviffes N o vos peço louvor, , menos cupellas , já mais fe fizeráo para os trilles: O que peço fómente He a voffa piedade cm lugar dellas ; E fe ficar meu canto impertinente, Por iiTo entre vós-outres condenado, Sabei que inda guardado Tenho mais do que hei dito, Que hc a tamanha dor, pequen° grito. 29 z .  RI MAS IDILIO, P Reparemos, 6 Mufa, hum nov'o canto; Temperemos a lyra, Náo feja urdo pranto: Cante huma vez quem tantas mil fufpira; E fe a fuprema vez,  que n' alma ternos, Apenar ás vezes gritaremos: Airrrn de guando cm guando Por efpinhos, e flores iremos pelo Mundo mifturando Lagrimas com louvores. Honre-fe o géllo, o peregrino gétleí Daquella , cujo peito Forrnofo, corno honeflo , Traz elle meu em lagrimas desfeito. Ah bella, Olaia , Olaia inda mais bella Que a flor do campo, que do Ceo a Efirella: Mais grata, mais amena Do que amanhece o dia , Mais viflofa, mais pura, mais fuella (be o mar em calmarla. Apar, Quei Das y Dandi Tens Ah ti Ir-te Ou e Que De fi Apn DE J. X.'DE MATOS.  Z91 A par de ti as Ninfas defta felva De Oto mais formofo Sáo como a baixa relva , Que nafce junto ao Piaran° frondofo Das praias a conxinha mais luftrofa , Dando-lhe o Sol, náo fica tão formofa Como tu me pareces Formofa , defloucada: l;  Tens á luz natural, e náo careces  7 De outra luz emprellada. Ah thefouro a meus olhos efcondido! - S6 defcuberto agora; Qual tentou atrevido Ir-te bufcar âs Regiões da Aurora ? Ou es, talvez Ola ja, effe thefouro Que já cahio do Ceo cm chova de churo; Mas de outro Ceo defeéráo As tuas perfeiy6es De fabulas fubtis, náo fe fizerácr .Táo raras propors6es. ella: Tan:. Di Tanta graça os tettis membros foberanos, De donde he que a tirfiráo Da matra dos humanos, Nunea raes dons no Mundo fe formáráo Em géflo , e partes taes eu imagino Que fe empenhou G Artífice Divino: Náo tem 2 Natureza Tanto poder, e efludo, Que multo pois quern fez tanta belleza, Que polla fazer rudo? De teus olhos namorão-fe as Efirellas, E nas fuas meninas Vem feus retratos ellas, De donde tiró luzes mais Divinas: Para ver effe c6lo mageflofo , O monte fe ch-bruça: O rio undofo Por mais que ¿teja em calma O curfo apreffa , e corre. 111-1 bella Olaia, que fará huma alma, Que fente, que difcorre Dito5 Que Ditofi Ora Claro A qu: Na te E, a c Das t A qui RIMA S 2 94 Di E Dirofo fea aquelle , que embebido P6de ¿lar no teu roa°, Sem ter (narro fenrido Que examinar de efpaço effe compofio: Dtrofo fea aquelle , que ¿curando Ora as palavras, ora o rizo brand() Vé um , e d' outro géfto O moto peregrino, Claro , puro , fuave, manifeffo, Que eu de ver náo fou dino. A quanta gente barbara, e inculta Concede a Natureza O ouro , que fe occulta Na terra, fem faber o que he riqueza! E a quantos Ovos, que lhe dáo valia, Das terras aparrou, onde ella o cria! Mina Ventura agora Dá teu valor, e preço • quem talvez o teu valor ignora, E a rnini náo, que o conheço.. 4.1 95. DE J. X. DE MATOS. 296  RIMAS E ha quem nas máns a cithara no tome, Efpalhando louvores Em honra do teu nome! Ha quem te veja fem morrer de amores! Vós, rnuficos Paffores das campinas, .Vinde, coroai de candidas boninas A voffa Tutelar, Moftrai o Mell defejo A' Ninfa mais gentil , mais fingular; Que tem o voffo Téjo. Camões, honra das IVIufas, que a primeira Fama ter'as por forte Bernardes , tu Ferreira; E outro - s, em quem poder n'áo teve a morte: De lá vos inclinai do Coro Santo, Com voflo canto acompanhai tneu canto: Náo fahe elle de peito Impuro, e corrompido: De huma caufa Divina hum baixo effeito Nunca foi produzido. Volvc E ver Verei Défiel Que Olaia Mais Ella 1 Por q C'o n q Vol- 11-01- Em Volvei o rofto lá do Ceo fereno, Lançai a villa pura Ao noffo vil terreno, E vereis huma nova formofura, Vereis fe á \ r oía cithara fonora Défies táo alta empreza como agora: A temperada chamma Louvai de huns olhos bellos, Que fabe moderar, cm quem os ama O defejo de vellos. Olaia he mais formofa, e foberana Que Lucrecias , e Helenas ; Mais pura que Diana, Mais fuave, que as nove Irmans Camenas: Ella he por quem, de fufpirar náo can9o, Por quem enfreio o venteo, e o mar amanfo Dizendo minhas mágoas , Por quem do claro Téjo C'o meu amargo pranto curvo as agoas O dia que a náó vejo. o r te: DE J. X. DE MATOS. 297 Tom, SO- 198  RIMAS Em quanto a feca mão da Morte fria Contra mim levantada No derradeiro dia Me no gelar no peito a voz cançada: Por mei-o, Olaia, de mortaes perigos, De N'euros folios, mares inimigos, Rodeado de horrores Ja fem ter falvaçáo: Primeiro que os meus ais, os teus louvores Na boca me onvirá6. 114 I Que f( O levi Aonde Ca del 0, 2 e ir E logc Que a Mais Alli a Que el Tal et VE J.  MATOS.  z.99 SONHO. Um dia, que o met: gado apaCcentava Nas ribeiras do Téjo Que fempre com meu pranto accrefcentava, Ap6s do =u defejo O leve Penfamento me voava. Aonde vás? Mil vezes lhe dizia: A Tirce , a Tirce rvou , Ca dentro de mim mefmo refpondiai Mas guando imaginou, Que inda voar tão atto poderia! E logo fobre a relva reclinado Tantos fufpiros dei, Que adormeci de fufpirar cançado. Mas ah! Que inda figuei Mais do que ao fomno , entregue a Mell cuidado. Alli a mentirofa fan:razia, Que coufas me figura! Que eflava dando Leis me parecia Sobre a mefma Ventura; Tal era a elevaçáo, cm que me via! ;O-  Tonel  V QL10- 300  RIMAS Que dominava os Ovos mais difiantes, Que os empolados mares Via cubrir de immenfos navegantes; E folias pelos ares Ondear as bandeiras tremolantes: Que com fubrnilTo roffo a mim chegavão As Naçóes Eftrangeiras, E a máo medrofamente me beijaváo Que Provincias inreiras Copiofos tributos me pagaváo. Que cm douradas carroças caminhava Com guardas Militares; Que pofto á Regia meza 1 . 6 gollava Exquifitos manjares, Que alli merc'és, e novas honras dava.: Que cm foberbos Palacios De preciofos lavores Cubertas as paredes, onde via De meus Progenitores Succelliva Real Genealogia. Que hum numero infinito de criados Me rodeava o leito ; Em fim, que en era Rei , que tinha Efiados; E que, fe era fujeito Era lbmerite Lei dos meus cuidados. Que De Par: Aq Era Do Que Ea Par: Qie E q Lhe Qu< A c Ab] Que DE Y.. DE MATO S.  ;of Cwe Tiro, (a mais difcreta, a mais formo/a Ninfa, que o Tejo calma, De fangue  geraç'áo famofa, A quem mais alta rima Fara eternamente gloriofa.) Aquella Tirce , aquella Divindade, Oue transformar pudera F,rn alta, a rninha humilde qualidade, Ouvia menos féra Dó cego Amor a gráo temetidade. Que a feus mimofos pés depollo havia O mermo Sceptro Auguflo , E a tronce c'o Diadema lhe cingia: Nena Throno de mais cufto Para mim, que os feus braços pertendia. (be com o rofto feu cm laço eftreito Apertava o meu roilo; E que de tanta gloria fatisfeito, Cona lagrimas de goa() Lhe regava o mimofo, e branco peito; Que a cor de rofa niais fe /he accendia No purpureo fernblante A cada favor feu, que Ihe pedia, E que de inftante a inflante 'Vais forrnofa no géfto parcela, 'OS; D..110 Que y .402  RIMAS Que os engraçados olhos lhe beijava; Que de finos diamantes Os dourados cabellos Ihe adornava; Que palavras amantes Eu Ihe dizia, ella me tornava. (bando nena reciproca ternura Da mais completa dit Que , nunca figurar foube a Ventura, Por mirn hum Paflor grita, .Que o carninho da Aldéa me procura. Acórdo efpavorido , e o Regio trato Veloz fe delvanece: Fico alheio de rnim, fico infenfato, E de novo apparece O mcu amigo, e paitoral ornato. Olhava para mim : De meu n'áo via Mais que hum pobre cajado; Hum pequeno rebanho fem valía, Hum çurráo pendurado Ao canto da cabana, em que vivia. A huma, e outra parte afilia° olhava, Náo via Tirce; e cm váo Tirce , Tira , por ella cm fim chamava; E fó no coraçáo, No cornac, a rninha Tirce achava. Que; Se a Me Oh 'Ma. Ufol Qui G02,, O a, Orri( Ma Zue Ah Suln Se i Quern DE J. X. DE MATOS. zens te arrancou da minha companhia? ( azia fui-Orando) Se acordado gomr-te nio podía, Porque ao menos fonhando Me não duro u mais tempo efta alegria? Oh quenz pudera , amada Tirce, achar-te Outra venos meus bralos! ' MaS como de hurn Pafior, para apertar-te ; Sio indignos os laços , Ufou talve;comigo Amor des c ia Arte. Qui; dar-me a conhecer , que con! decencia Huna Paflor não podia Go;ar a Tira' ainda n' apparencia; E desqa fantazia O acafo tomará por providencia. Ordena-me a ra;ão que mere orte , 1 Olhando os nieus dt , eitos; Mas no Mundo não fo' a fria ;norte Fakiguae s os fujeitos , zue Amor os fabe unir da merina forte.' Ah fufpirada Tirce! Se eu pudera, Affim como fonhei , Subir de Rei á imaginada Esfera; .  l'ora mais do que Rei , Se inda fendo PaSior, 3 fer teu pudera! 30 ni  TA- De t r Pa AL Ago Albi AL Aqu Aqu Aon Alb, A Aor A Alb Agi TABELLA ALFABETICA De todos os Sonetos , que contém ene primei- ro Tomo, affinalados alfabeticamente com as paginas, cm que vão lançados cada hurn per fi; e allim tambem todas as mais Obras. SONETOS: A A Ffoito cénte o mar o navegante, pág. T. Acafo fui fenhor, , rico, eflimado, A Deos Paflora ingrata, ¡S. de Aleixo , ;3. Agora, cm quanto defpertando a gente, 43. Albino, cuja idade inda o levava, 48. A Deos Natercia ingrata, a Deos impia, 51. Aquelle, que inda efpera ter ventura, 56. Aquelle amor, que tinhas n'alma efcrito, 61. Aonde andais, ó Parcas venenofas , 81. Allano quem es tu? Teu baixo citado, 87. O D E S. Aonde me arrebato, Aonde, aonde, cotaç6es humanos, io8. Ao mais leve ruido, ti ;. ECLOGAS. Albano, e Minina, 157. Agrado, Braz, e Anfrifo, 179. S o- TABELLA SONETOS. Cruel, fica-te em paz, e o vil intento, 31; Corno ela efte fui ° focegado! 37. Cuidei, ouvindo a doce melodia , 54. Como foffres, ó Jupiter foptemo, 58. Corn alegre s apreffado movimento, 65. Cuidas talvez, Olaia, que imprudente, 89.: CANO:5ES. COm teu formoro rollo, r46. SONETOS.. Do gofio, que ya tive n'outra idade, 17. Depois que a mil tormentos offrecido , 35: Divina Laura, fe vencer deixaffes , 42. Dormindo eflava M'uno, e porque Alberca, 45. Dormindo Anarcla eíb. Quem te dilata, 47. Depois que a linda Altea deffes prados, 50. De amor cm trilles lagrimas banhado, 57. Do rio as claras aguas, que foancio , 73. CANÇOES. Da clara cairpe cl2s Heroes valentes, 152. S O- s o l Eu Enco Entr: Ella 1 Entrt E co Fugii Filho Felici Futir Hunl }luna Hum n Havi 3 ALFABET 1 CA. SONETOS. E Eu vi huma Paftora cm certo dia , vp. Encontro,u-me efla graça cm tal defiroço , 68. Ene obfequio , fenhar, , que vos envia , 75. Entra o foldado envolto em fangue , e terra , 85. Fin frauta agrelle, ein lyra altifonante, 9z. O D E S. Entre as Deofas táo célebres cm Ida, 195. E confeguio a pállida doença , II. SONETOS. Fuginclo fui de amor, que me feguia, 14. Filho, por mais que a Praça combatida, 22. Felices margens do faudofo Téjo , 82. Formofillima Olaia , o teu femblante, 8z, SONETOS. IT Huns graciofos olhos matadores, 28. Hum dia de Liman ° acompanhado, 78. Hum mudo fufpirar continuamente, 94. ECLOGA PISCKTORIA. Havia largo Lempo, que efcondbra, 2or. EPIS- ;o8  TABELLA EPISTOLA 5. Ha mil tempos , born Silva, que faudofo, 2.2;. SONHO. que o meu gado apafcentava, 2 99 . Hum dia, SONETOS. 3t, Fortuna cruel, tenho afrentado, 7. Irman dirofa , que de c'a fubifle , 66. já Portugal refpirar5. contente, 98. SONETOS. Lá vem apparecendo a minha Aldea, 4. Lá n'uma praia. cavernofa , e fria. 91. CANÇÕES. Longe barbaro vulgo, 12,8. EPISTOLA.S. Lorinda bella as obras Pailoris, 249. SONETOS. Marinho Pefcador no Téjo ándava, 2. Mil ternpos refifti á força dura, TO. Meu Pai, o nupcial ajuntamento M and, • M orre M eu M inh¿ M imo N ena i Náo < N efle l áo áo 11 N °T N infa N a N o N 'um O uvil O h q. Man- ALFABETICA.  3o9 Manden-me, que cantaffe Amor huM dia , 5 Morreo o bom Luiz: Já náo veremos, 76. Meu amado Mondego, meu amado, 79. 299.   EPISTOLA S. Minha inimiga bella , 252. TERCETOS. Mimoro Infante, Frincipe adorado, 258. SONETOS. N Nena Aldea, onde eflou , meu bom Fileno, 3. Náo chóro como aquelle, que cm perigo , 5. Nefle que • juiga o Mundo abatimento , 18. Náo foi divida f6, mas natural, 23. . Náo haverá hura Edil táo fagrado ? 69. No Templo entrel de Amor: Inda gelado, 7. Ninfas deftes vizinhos arredores, 83. Na borda do feu concavo faveiro, 96. O D E S. No de Carthago, nem de Trola canto, 122. N'um fitio, que bufquei accomrnodado, 131. SONETOS. O Ouvio Amor teu canto, e furprendido , 25. Oh quem rudera á fombra defie arbuilo, Os 223. lan- 3 1 0  TABELLA Os annos da feliz puerilidade, 60. O Tempo que veloz defapparece, 634 SONETOS. Péga Lucrecia, no punhal violento, 21. Porque foges, Partora, a hum defgraçado, Por mais que faya lium atrevido efludo, 38. Poz-fe o Sol; como já na fornbra fea, 39. Faifa o frio Janeiro, o ardente Agolle , 52. Ponho táo livre os olhos ern Damiana, 59. Para ver fe cantar-vos faberia 72. Promettendo a Limano Dorothea, 77. Q ue': Q u e t Q ue t Q ue Q uerr Q ual Q uani R amc EPISTOLAS. Prezado Jofefino, zrz. BELIZ A. Pois no quereis , memorias imprudentes, 268 IDILIO S. Preparemos, ó Mufa, hum novo canto, 292. SONETOS. Q - Quando nas máos de Amor me vi fujeito, Que me uuereis , memorias de algum-dia, 15. Quantas vezcs pacífico, e contente, zo. Que ferá illo 1 As Ninfas enfeitadas, 27. S alve S e,aci S ó co S odio S e int S e eu S eja-t1 S e eu S e o efpl S e a Que EPIS- 9.  Ramo feliz, de frutos efperados, SONETOS.. S Salve Templo feguro , onde a vontade, 8. Se acafo deito a villa da lembrança , 9. S6 com o Grande, e Immortal Camóes, 16. Senhora, effes efpiritos dicofos , 19. Se imentais neffe engano indufbriofa, 32. Se eu me víra n'um bofque , onde náo deffe , 34; Seja-te parabem Téjo fagrado, 64. Se eu pudera viver de noite, e dia, 88. Se o Gráo Cantor , que o Mundo encheo de efpanto, 99. Se a fama, que altamente pregoeira, zoo. O D E S. Se cm teus puros Altares, Iz9; ALFABETICA.  311 Que "affim fahe a manbá ferena, e bella, 36. Que trille, que profunda foledade, 41. Que te vejáo meus olhos, no confente, 71. Que eitranhos cafos vi no monte, e prado ' 80. Quem nunca vio a luz formofa, e pura, 84. 0,2a1 Patlor, que do fono accommettido, 86. Quando Anarda gentil, os merecidos, 95. 5 29.;. ' 38-  O D E S. 9. 292. , Que, ;12 TABELLA ALFABETICA.: EPISTOLAS. Sabio Jurifconfulto , 236. SONETOS. Traznne 2os males de Amor tão coflumado , t ;. Tanto nefte faudofo apartamento, 49. Tu que os collumes, e as paix6es retratas, 74. Tyrana Olaia , o teu defabrimenro , 9o. Trazei Ninfas, trazei mimofa area, 93. SONETOS. Vão os annos fugindo , e vai a idade, 6. Vem , 6 Ninfa gentil, que não merece , Vio Alberto a Fitlena , e nam ,rado, 44. Vio-me Altea, com livre defafogo, 53. Voa faudofo Amor, e cm breve giro, 68. V6s, que á fombra dos alarnos copados, 97. O D E S. Vai metquinha Ambição , chega-te a o leito , 119. EPISTOLAS. V6s, que da rica máo da Natureza 244- F I M. SW1 em exp ten cor Au lho PRO- 74. PROTEST AÇÁO. N , S palavras Numen, Fado, I Deftino , Divindade , &c. empregadas fómente para melhor exprimir a ficçáo Poetica , no tem alguma coufa de commum com os internos fentimentos do Author, que corno obediente fi- lho da Igreja cm nido fe fub- mette ás determinaOes della. 97. , 119. 'RO- RIMAS DF j0i0 XAVIER DE MATOS J ^. Ia ï D CA NA R: I k TA REGIA OFFICINA TYI J OGRAICA. 1712, Can liceaça  ¡<cal Meza Ce3pria. Ik g i+de-je na lefa da linprelMa Regia d Real Rraça dt CumPnerria.- RIMAS DE JOAÓ XAVIER DE MATO ENTRE OS PASTORES DA ARCADIA PORTUENSE •  • ALBANÓ ERITHREO DEDICADAS A MEMORIA DO GRANDE LUIZ DE CAMÓES PRINC1PE DOS POETAS PORTUGTJEZES DADAS A LUZ POR CAETANO DE LIMA E MELL, TOMO SEGUNDO. Terceira LnprersZio. LISBOA Ilflettido tenho a mao ria confeiencia E nao fallo fenáo verdades puras nue ale enfinou a viva experiencia. fr C A DI6 s. San. LXXXVIL 1 J i trat reo 1710 MA ra con dec clic nos cia efp foc dei cor Se fe PROLOGO. J Uptcroso Leitor , latamente perfuadido de que té foi grato o trabalho, que tomei de juntar, e offe- recer átua curiofidade o Primeiro To- rno das Poefias de JO7k0 XAVIER DE MATOS, me animei a continuallo , pa- ra agora te dar a ler o Segundo. As continuas moleftias, que o A. tern pa- decido, e padece, no permittiáo que elle ainda fe déffe á luz, e muito me- nos as Tragedias; porém a impacien- cia d'alguns curiofos náo confente fe efpere , que elle o pofra rever corn o foc ego, que pede a materia, nem que deixe de fe juntar a mecellania , que com repugnancia do A. vai no fim. Se fores pio , rogo-te que diffimules; fe o no fores ) peso-te que o no las. Vale. so Q ue c S ó de Dir Quani TD orq Que i te ru Zern Qu Fre _Q,21 nsfflull „.„ mumn SONETO p .0 chorarei de Amor táo triftemente '‘ d Por hum modo táo novo, e defufado; Que quem nunca o tiver exprimentado , Só de ouvir feus effeitos o exprimente: Direi n'um breve efcrito a toda a gente Quantos cafos por mim j tem paírado; Porque faiba qualquer defefperado, Que inda ha outro mais  , e defcontente. O' v6s, que Amor, com atoaras de innocencía, De novo as fans vontades contamina, Zem lhe valer a amiga experiencia, Quando lerdes em mim quanto ella enfma, nreis dos voffos erros penitencia, Que os rneus erros ferio voffa dourrina. SO. SONETO III Emáo ernbora a morte os que afrerrado 4os groiros cabedaes , que poffuiáo, Nunca táo brevemente prefumiáo , 0 .2 e Ihes foffern das mácfs arrebatados: Temo deixar co'a vida os comegados Muros das altas caías, que erigiáo; A cara eiofa, os filhos, que crefciáo, Os brandos leitos, OS tremós dourados: Que eu fem bens, e fem caía, vagabundo, Mal cuberto c' o manto da indigencia, Já náo temo da morte o horror profundo: J A Berp Ik Ee iacis A Já b Conl Vai- PC E pi De E Pai No que me tira n'áo me faz violencia; Que o melhor modo de fahir do Mundo, He chelo ou de miloria, ou de innocencia.. R IM A S S O. DE J. X. D  O S. SONETO A'15, vão fete Luftros , que cae monte Berço me foi Já da vital jornada Mais de meia carreira efiá pallada; E cedo iremos ver outro Horizonte: 05 A mío já treme , á fe enruga a fronte, 35 branqueja a cabeça , e co' a pezada Confidraçáo da vida mal gafada, Vai-fe apagando a luz, feccando a fonte. Pouco nos refia, que paffar já agora ; E para as derradeiras agonias De tantos annos, aproveite hum'hora. Efperanças , temores, vans porfias, Paix6es, defejos, ide-vos embora ; Favor, que me fareis por poucos días. S O- RIMAS SONETO tj A' me no enganais , roffos fingidos, Inda em mais f6rmas que Proreo mudados, A contrafeitos rifos coflumados , Quaes em fonte Sardonica bebidos. Algum fruto dos males padecidos Háo de tirar os km exprimentados; Que he vir a conhecer difiimulados , Raras vezes no Mundo conhecidos: Já fou outro ; mudei de qualidade; Fechou- e o coraçáo: ficai de fóra , Subris itiitadores da verdade: Ide-vos delle , para fempre, ernbora; Qie já náo tem as portas da amizade T'áo faceis de fe abrir, como até agora: A c O Arr A mbo Q u e a Am D eftrt E dep E ntre N'a.< E flim C ouf: Le l bias Nas DE J. X. DE M.ATOS.  5 SONETO Quelles dous , que oppoflos fempre andkrão, O Amor, e a Fortuna, as máos fe deráo : s, Ambos meus inimigos fe fizeráo; Que a náo fer iflo, nunca fe ajuntáráo. Ambos a mim t falfa fé cheg'aráo , Deftruindo , affolando , em fim venclráo E depois que os defpójos recolhéráo , Entre fi repartidos os leváráo. Náo me leváráo mandos, nem grandezas, Eflimaçóes, thefouros , nem privança , Coufas, que para mim náo sáo riquezas: Levárío-me a alegria, e a efperança ; loias de más valor, que vejo prezas Nas mãos de huma Mulher, e huma Changa. RIMAS SONETO C Hegou, Paftora , o termo dcrradeiro Deffa paixho, que cego me trazia; Táo fria ella, que náo ella táo fria A mefma agua na força de Janeiro: 35 pollo eflar fem ver-te hum día inteiro; Huna mez , hum anuo, hum feculo eftaria; E c' o mefmo focego te verla • Nos braços do mais ruftico vaqueiro. Ouço o ten neme, e já náo finto aquella Suave commoçáo, que exprimentava: Cuflou-rne, mas triunfei da caufa della: E as cores, com que Amor te retratava, 31 te náo pintáo táo formofa, e bella : Olha corno a paixáo Me allucinava. J A' N cm ) 5 ve, D a m Di Os fe E, , Que Qz Quet Dia He Da S O- J A' me no venço , Amor, de hum géflo lindo, Nem de huma voz de Circe encantadora; 35 venci ' triunfei da máo traidora Da máo daquella, que me andou ferindo. Dize-lhe , que, o fu jugo facudindo, Os ferros quebro „que arrojei té agora; E, que fe rir cofruma de quem chóra, Que eu já náo chóro , e que me fico rindo. Que nefte ¿ja, da razão armado, Q i ebrei o encarno, defatei o enredo: Dia por cerro bernawenturado Mas que no cuide, que o fugir-lhe he medo He odio ; e que 1 . 6 vou acornpanhado Da viva dar, de lho náo ter mais sedo. :ja; J3, DE J. X. DE MATOS. 7 SONETO S O- RIMAS SONETO F M batalha campal tne defafia Cupido, 16 por ° fó. Náo fei que faça; Se houvera fó valor, e náo defgraça, Nenhurn receio de o vencer teria: Mas quem fempre da forte defconfia, Porque lhe fora em toda a vida efcaçal Que triunfos efpera de quem rraça, Para matar, enganos cada dia? Eu bem fei que a matallo fó me atrevo; Mas para me vingar, fern defvarios, Bala . ° as fem-razóes, que delle efcrevo. Que Se elle quer, venha c5; verá meus brios: eu amo a Deos , e ao Rei ; , e obrar náo devo Contra a Leí, que prohibe os defafios.. C O Qnem Para r Para 1 A n De al E fe Juro, Por E, be Nella Poi Mais Para 1 SO- DE J. X. DE MATOS. 9 SONETO C Ontra o poder de voffas míos, Senhora, Quem ha de refiftir? Se bata vellas, Para morrer de amor por gofio nellas, Para vos declarar por vencedora. A mefma Naturezia fe namora De táo formofas máos , de máos ro bellas; E l'e eu fou digno de jurar por ellas, Juro, que outras iguaes náo faz já agora. Por ellas deixa Amor da Mái os braços; E, beijando-as, os ferros paffadores Nenas vos p6e, já feitos em pedaços: Pois acha neffas máos, mais fupriores, Mais fuaves farp6es , mais doces laços, ro  Para prender, para matar de amores. so- T on:. tu  RIMAS SONETO Ai, (5 caro Liman°, que a ventura Náo fe fez para mim, vai ver aquella, Como a qual ntinca vifte outra táo bella Em graça, cm difcriçáo, e era formofura. Pinta-lhe a melancolica figura, Em que aqui fico a fuIpirar por ella: Pinta-lhe a dor de náo poder ir vella, Se he que podes fazer-lhe efta pintura. Dize-lhe, que te invejo a liberdade De ir ver fcus olhos, unico conforto, ftbe eu tenia na minha enfermidade: Dize-lhe, cm fina, que fico tal de abforto, (be mais te quiz dizer; mas que a faudade Náo deixou dizer mais, po-is me tem morro. SE < Morre Leite Ou pa 0,12e Graça Náo Na vi; Con Sé a Para v Mas Que te Culpa so- DE J. X. DE MATOS,  tx to , e to. SONETO S E quem te vl, belliffima tyrana Morrer por ti de amores fe não Leite mamou de Libica Serpente, Ou parto foi de alguma Tigre Ircana: Qltem haverá, que, vendo a foberaná Graça gentil de teu olhar fómente, Náo fe abraze na luz refplandecente, Na viva luz, que dos teus olhos mana! Como pertendes, pois, que eu te refifla? Se a tua, nunca villa, formofura Para vencer as mais, baila fer villa1 Mas fe he porque em mim vls tanta branclara Que tens cm pouco a g!oria da conquifla, Culpa quern me náo deo alma mais dura. o-  Tom.  So ti mft-Graças fempre eflo chovendo: Se fallas, Graças mil fe eftáo ouvindo; íii Graças neffa boca fe eftáo rindo; eraças mil neffes olhos fe eftáo vendo: Beijáo-te hurnas as míos ; outras , correndek A teus mimofos pés, te váo feguindo; Humos por tuas faces vem fubindo; Outras por teus cabellos váo defecado. isZáo sáo f6 tres as Graças, milhaes dellas, Que te acompanháo táo gentil figura, Ficáo, poftas em ti, feudo mais bellas. quiz contallas, mas achei loucura; Que .he reduzir a numero as Eftrellas, Contar as Graças neffa forrnofura. A Q1 Cheio Sempre Tanto Aque (Ditofc Aquelle Cujas r Tude Nem, Efta vil Po Ngl isiafó quando so- u  2 R IMAS SONETO DE J. X. DE IVIATOS.  xl D: as, SONETO Quelle rolo, aquelle affavel rolo, Cheio d'um náo fei que, nrais do que agrado, Sempre innocente, fempre delicado, Tanto ao nafcer do Sol , como ao Sol polo; Aquelle fitio, que fervio de encolo (Ditofo fitio! ) A tanto bem amado; Aquelle chao, por elle já pizado, Cujas pégadas beijarei por gofio; Tudo me manda Amor, que n'alma traga; Nem, por mais que nos fuja o tempo leve, Ella viva lembrança em mim fe apaga. Ninguem rifcar memorias raes fe atreve; Pois 1 - 6 a máo da morte he que as eftraga, Quando a pena de Amor he que as efcreve. Bit  SO. RIMAS 14 SONETO PAra que cm mim os olhos teus puzefte, Táo cheia de piedade, e de brandura? l'ara que ¡he augmentaffe a formofura No lindo movimento, que lhe défie? Se foi, para ferir-me, que os moveffe, Deixa-me agradecer-te ella ventura; Torna a ferir-me , que eu náo peço a cura Das chagas immortaes, que me fizefie. Se me vires cubrir de amargo pranto Náo perguntes porque; pois nao duvidas, Que a caufa és tu, meu Bem , de eu chorar tanto So fangue d'alma as lagrimas vertidas; E á vifla do aggrefror náo cauía efpanto, Que torne a fahir fangue das feridas. N Porq Diz, De c Que 3á m 1\Zuni Et Eu c De c Quai Sern so. DE J. X. DE MATOS.  'as SONETO N Unca mais tornarei a ver teu rollo; Porque Amor, a quem tenho confultado, Diz, que náo fabe , que o pergunte ao Fado, De cuja negra máo pende o meu gofio: De quem foi fempre a meu alivio oppofto, Que bcm devo efperar? Defenganado 3á me tem a expriencia do paffado; Nunca mais tornarei a ver teu rofto. Eu o diffe mil vezes, na memoria Eu o diffe mil vezes, guando vinha De confeguir de amor tanta viaoria: Que a gloria de te ver , que me mantinha, Quando náo foffe breve, por fer gloria, Sernpre havia acabar-fe, por fer minha. SO- 16  RIMAS SONETO D o Téjo as manías ondas apartava ç No feu pobre batel, Albano, hum dia, Pefcador de miuda pcfcaria,  Ven Com que apenas a vida fuftentava:  Mol Com os olhos nas praias, que deixava 1  T Cheio das faudades , que trazia,  Em Da Ninfa o doce nome repetia,  Surj Da Ninfa, por quem tanto fufpirava:  Dos Chegando á praia oppofta fe entriftece y  E O faudofo Albano , de tal forte,  Elle Que vivo náo, mas morto já parece: Salta n'arda, e diz: Cruel tranfporte! Trille de quem fe aufenta, que padece  E c fluma faudade mais cruel, que a morre!  Por SO- DE 3. X. D'E MATOS. SONETO Ual depois de horrorofa tempellacle, ''``‘ De que a vida efcapou fahindo a nado, Veril c'o vellido unico molhado ' - Move n do as gentes todas á piedade: Tal en depois da negra efcuridadel Em que eflive aré agora fepultado, Surjo ante v6s, 6 Jonia , deflroçado Dos procelofos mares da faudade. Elles no fundo abyfmo me tiveráo: Elles ás altas nuvens me leváráo; Mas falvei-me onde tantos fe perdIráo. Piedade, oh Jonia ! A huns olhos que choráráo, E que no mar do pranto, que fizeráo, Por milagre de Amor náo fe affog,áráo. SO- E1 Q Iral muda Rez , de pés, e mãos ligada, ,  Sem fazer ao cutélo refifiencia ,  Cuid, Quer Jonia que eu me cale, e que á violencia  E qu Traga feinpre a razáo facrificada.  Mora Qner que huma alma, de amor ao jugo atada,  Ac Tenha cm foffrer tamanha perfiftencia ,  Ilbe Que no affrontofo carro da paciencia  TI um Va ern triunfo público levada.  Enga Que roáis quererh Jonia ? Que inda ufano  01 Da caufa vil, por que de novo peno,  E en Adore o erro, conhecendo o engano 1  flum Vá Jonja amar hum coração pequeno p  M Que antes a Furia reduzido Albano,  Fez Comerá ferro, beberá veneno.  Que s O- RIMAS SONETO • ...YZ  s o- DE J. X. DE MATOS.  19 SONETO Nganei - me com Jonia : Paciencia: Cuidel que achaffe hum coraçáo conftante; E que debaixo de hum gentil femblante Moraffe huma alma cheia de innocencia: da I  Achei , em vez de amor, huma apparencia , Qie paffou por verdad e, e a cada inftante Pluma alma enganadora 'Paciencia. hum genio errante; Enganei-me com Jonia: Oh! Quena antes de amar a conhecera; E entáo tivera , corno tenho agora, flum coraçáo de bronze, e náo de cera. Mas fe era coftumada a fer traidora, Fez muiro bem , obrou como quem era, Que no fora mulher, fe allin náo fora. A6 vades hoje ao campo, 6 Lavradores; Debtai , Ninfas do Téjo , as aureas teas; Ce% nas praias, ceffe nas Aldeas Yola trato Barqueiros, e Paftores. , Vós Virtudes, vós Graças , vós Amores 1  E Defcei do Ceo; e em feftivaes ChoreasTe h Serranas, Ninfas, Dryades , Napeas ,  Fiqui Dai a Anarda, comigo , altos louvores.  Fiqui Elle he de nós o Idolo adorado:  11 Vede, que Amor, e o Tempo , ame fen vulto;  Zbri. Hum a fouce , outro as Letras tem quebrado;  E qt Faz annos a pezar do feu infulto:  E Ah! Feftejai hum dia táo fagtado , cr (2 22 e até eftes tyrannos lhe dáo culto.  .  Ef Em 1T Em Que Bem RIMAS SONETO DE l'Y. DE MATOS.  .2t (SONETO V Ai Genoveva: os favoraveis ventos Em paz te levem pelas ondas rnanfas; Que erguendo os olhos , j efpalhando as tranças, Bem podes ferenar os Elementos: E fe de ir ver eRranhos apofenros, Te háo de feguir altillimas bonanças, Fiquem fem vida as noffas efperanças, Fiquem aun premio os teus merecímenros. Dos altos dons, que te negou Lisboa, 'Abrir os cofres á fortuna vejo, E que cm Fans com elles te coroa: E cm quanto fe náo cumpre o teu defejo Efcuta alegre, o que de ti preg6a Em.frania o Sena, CM Portugal e Tejo. tO do; 12  RIMAS SONETO N , Um tronco Amor á vifla dos Paflores  A (!) arco, e as fettas pendurado havia, ciofos os ferros paffadores.  P T Q9 : e dr O  éal Pois quiz , em teu obfequio, ter hum dia; Huma capélla de cheirofas llores  ih Elle nas crefpas azas te offrecia ;  De a E cheio de doçura , e de alegria;  V6s Cantando derramou cites louvores:  Pois Vive, Ninfa gentil, desfruta a gloria  13( Da minha protecçáo, que, entre os humanos,  Tenl A ninguem concedi tanta viaoria:  Que Vive a pezar dos feculos tyrannos;  N Que de teus bellos annos, a memoria  56 1 Ha de durar, cm quanto houverem annos.  mo DE J. X. DE MATOS.  2; os' SONETO A. Narda, vofra Mana ferá. bella; Porém a par de v6s nunca o parece, Que huma fe, gtaça voffa lhe efcurece Todas as graças, que fe encontráo nena: D. que lhe quereis bem, ten& a cautela De a náo levar comvofco onde apparece; Vós o fabeis, o Mundo o reconhece , Pois á vifta do Sol náo luz a Eftrella. Bem que mil vezes me digais, que miura, Tenho razóes táo altas de fobejo , Que igualalla comvofco náo confinto. No fei fe he illusáo do meu defejo, 5 6 fei que, vendo es olhos feus , náo tinto, Ifto, que finto, guando os vollos vejo. SO» 24  RIM A S SONETO O Ra aqui, ora alli, ferindo a gente Anda Amor, em teus olhos disfarçado; E por náo fer (como he razáo) culp2do Diz , que lho mandas tu, náo fei le mente. Quando teme palTar por delinquente, A teus cabellos voa , onde enredado Dentro delles effá, corno em fagrado, Armando laços de ouro fubtilmente. ,Mais do que Amor, é.s tu quem nos maltratas Pois as mottes, que faz, tu lhas decretas; Que elle com fer cruel, tem Leis mais gratas: Trazes todas as almas inquietas Porque tens, com que as prendes, com zi as matase Nos cabellos grill-16es, nos olhos fettas. s o I os b E co' IVlais Ehl Em Manc Em z Dás Eáo A Dilat Náo 251, DE J.:51.'DE MATOS. SONETO E M brand° y erro celebrar quería Os bellos annos de Marina bella; E co'a Lyra na máo, e os olhos nella, IVIais que ás Mufas, influxo a Amor pedia. Elle que já mil flores lhe trazia, Em quanto lhe formava huma capélla, Mandando-me calar, diante della, Em alta voz em feu louvor dizia: , ¿:) Jove immortal, que dos humanos Dás, e tiras a vida, cm vituperio, Eáo 15 dos Altos Reis, dos vís Serranos: A de Marilia, por maior myfferio Dilata, que, fem ella fazer annos, Iláo fe furcenta o meu famofo Imperio. S a La  RIMAS SONETO V A5 de valor, váo de Fortuna armados #  N) x r A conquiftar o dundo Heroes valentes;  Querr E na téltá de exercitos rompentes,  Outra Voltem de mil defpojos carregados.  B eija Soltos ao vento mil pend5es ganhados # O I Co'as . .)1 cativas numerofas gentes,  V oa : Cortem do mar as túmidas correntes  E da Altas galéras de efporóes dourados:  O ma Entrem por Grecia, e Roma ;:a generclfi  Tet Sombra de arcos triunfaes de palma, e louro #  T eu c Ouçáo acclama£5es cm verfo, e profa;  D efpr Que eu maiores triunfos enthefouro,  He Contente da conquifta gloríofa  Q ue De huns olhos pardos, de huns cabellos de ouro.  P ara c Ton DE J. X. DE MATOS. SONETO 1Ç A5 foi, Marilia, a tua forincifura Quem mc prendeo a folta liberdade, Outras sáo as cadeias, que a vontade Beija por gofio, arrafta por ventura. O fragil dom de huma gentil figura Voa nas azas da primeira idadc, E da pállida fuá() da enferrnidade O nias ligeiro toque a desfigura. Teu grande coraçáo, tua alma grata, 11"0 #  Teu claro efprito , de virtudes cheio, Defprezador de todo o ouro, e 'Kan, He fe, a formofura, em que me enleio., Que cita, guando do corpo fe defata, Para o Ceo torna a ir, de donde veio. Tom. H. Is uroé 28  RIMAS SONETO O's , arenaras, Efcalabitanas Margens do Tejo, a cujo antigo afrento Deo noma o curvo, o bellico infirumento, Que orna o cinto das gentes Africanas, Croadas de Salgueiros , e Efpadanas, Vede alegres o meo apartamento; Que tu vou , como jh fiz , n'outro aparento Infamar, com meus ais, outras cabanas;• Mas fe a vizinha, fe a furiora cheia, Que j'a nos traz boiando o Chopo, e a Faia, Ameaçar de mais perro a voffa Aldeia; Porque refpeite o litio deffa praia , Moftrai-lhe , que aqui fica , robra a areia 9 Efcrico o nome da formofa Olaia. So- E IV D a be I nquic P or m O d M as v A h! F D izeric Náo S o de L impa; E pl D a má Fe cha-; IDE J. DE MATQS.  29 SONETO E NI torno de hurn Altar, onde apparece Da bella Olaia o mageftofo vulto, Inquietos amantes lhe dáo culto Por máos d'um Sacerdote, que Ih'offrece. O devoto Miniffro Amor parece, Mas vive nene disfarçado o infulto: Ah! Foge, Olaia, de quem anda occulto, Dizendo, que he Amor, fendo intereffe. No cuides fempre que,ernhurn peito humano, ia,  So de Amor as offertas ungulares, Limpas de má tençáo, como as de Albano; E para o facrilegio caftigares Da máo fagrada, que dirige o engano, Fecha-lhe o Templo, efcande-lhe os Altares. • Cii  s O- 30  [RIMAS SONETO Ual o menino, pela máo levado Para ver algum público tellejo, Sem faber regular o feu cortejo, No meio cita dos mais, como pafmado. Tal eu, Senhora , pela m'a ° guiado De hum feftival, de hum candido defejo Junto c'os mais , a IlluRre máo vos beijo, Sem que polla louvar-vos de admirado ; ,Mas fe os puros affedos da vontade Tambem sáo eloquentes nefie dia, Sirva de panegyrico a humildade; Pois fei , que para vós tem mais valía Os sáos conhecimentos da verdade , Do que os dons foberanos d'arrnonia. SO- E ent Que Co' Os lo E c'u Traba Par Que Torne C29 Se a A cor Indo Carden! tila dos DE J. X. DE MATOS. SONETO ;O - A Os fantos bofques do Tojal me guia máo fiel de hum feftival cortejo ; E entre as ramas vagando o Monftro vejo, Que faz dos filhos feus crua iguaria, Co'a curva fouce, que na máo trazia, Os louros córta infignias de [dejo; E c'uma voz, que lá fe ouvio no Téjo, Trabalhando , cantando, allim dizia: Para o jufto Saldanha , que ennobrece, Que adorna, e felicita a noffa idade , Torne efte louro, que á fua fombra crefce. 02.2em terá contra elle authoridade? Se a mefma eftragadora máo Ihe téce A coroa immortal da eternidade. s ()- Indo o A. fallar no Enzinentijrno , e Reverendijipto Cardeal Patriarca , t'Un* ea fua Quinta do T'ojal, 'ens tila dos feas almo. 1 RIMAS IQ N E'T• O T Razei do Ceo medicinal virtude 'Ao Regio Infante alegre melhoria; Annunciai á timida Maria Do amado efpofo a proxima faude. Por mais que a valla medicina eftude Em que várnente o Medico fe fia , N.o acerta fem vós , náo tem valla, Que páde más a natureza rude. Os rogos acceitai , que vos enroa O afruftado Belem , a pobre ,rente, Os V2dTallos, a Corte, o 1 2 .ei., Lisboa; Nem fó Pedro, e Maria die mal lente; Fez-fe contagio, a toda a parte voa, E todo o Vorcugal ficou doente. S O- 11." .117a moleflia de S. A. R. o Serenijmo Senhor Irfaule D. Pedro. Ser Vaft Na ( 0.32i2 A ni Do 1 De Forr Mul DE T. X. DE MATOS. 3; SONETO Q Uiz ver o Sol de note, o Luar de dias, Benigno rofto na horro roía Aleao , Ser de torres no ar novo Arquiteao 3 Vaftos fertóes atraveffar fem guía. Quiz achar nos Internos harmonia 2 Na Glotia contusáo , o mar quieto; Q .L itz ver hum Corvo branco , hum Cifne preto 2 A neve ardente , a lavareda fria; Quiz contar as arlas do Otean°, Do fepulcro de Jove achar certeza, De altos myllerios defcubrir o arcano; Quiz em fina, pervertendo a Natureza, Formar hum novo cáos , buftando Albano, Mulher com fé , Fortuna com firmeza. O- Ifaule SONETO A Bre as azas de linho, Ave ralleira, E fobre o campo azul do mar falgado Leva em paz o rneu filho idolatrado, Que vai bufcarjem mim, praia eftrangeira. Val, de feus annos na eflação primeira, Do bafo maternal defamparado O Ceo fereno, o vento focegado Te facilitem a feliz carreira. Das ferreas unhas as priz6es defata; E leva hum finto de fua Mi aufente, Carga mais rica, que todo o ouro, e prata: Se não por filho meu, por innocente, O perigofo baixo , o vil pirata Foja, ruja de ti: voa contente. M O- Offet Da g Fe: "No f Com A fi A Tal Que Ne Que De r 14  RIMAS ra. DE J. X. DE MATOS. MOTE .De meu não pero mais , que o meu defejo. GLOZA SONETO Q . Uem corre ap¿is do bem , que no alcança, Porque de Amor algum vil premio intenta, 01f:ende Amor, que Amor náo le alimenta Da groffeira materia da efperança. Feliz o meu amor, que fem mudanga "No feu puro delejo fe fuftenta: Com elle fatisfeito fe contenta: A fi fe tem, por fim, em fi defcança. A califa donde vem, que eu náo explico, Tal virtude me (I, defde que a vejo, Que todo nella transformado fico: Nem outra alguma recompenfa invejo , Que fe com meu defejo eflou táo rico, De meu não quero mais , que o nieu defejo. 3 6 RIMAS MOTE • ,Ou me leva, ou Id& partas de 'Lisboa. GLOZA SONETO  -- A Minar-me de Marcia pertendia,  P ( Marcia, a quem mais, do íj a mim meten ° , amava; Por E 16 de imaginar que me apartava,  Que 1 Antes de me apartar morrer temia.  Sáo 1 Curvando o corpo fobre a vara hum día,  Po Da area o tneu batel defencalhava ;  E Salnvaa E vendo enráo, que o barco já naciava, Deitando-o para o mar, partir queria.  Pouc Eis-que o vento fe agita , a agua fe altera;  Tu E henil mar, que cm flor me rebentou na praa „  Que Torna a pór-me na praia , onde ellivera.  Nem Qrando efta voz a . meus ouv idos foa:  Po Ah não fijas, • aonde cds efpera Pren n O 111C  ou n'do partas de Lila..  D25 lava; ra; réia, DE J. X. DE 15,1 A TO S. MOTE Das indu.s c irias humanas te efids rindo. GLOZ SONETO P Odem contra le6es , contra ferpentes, Por arte os homens defender a vida Que a lança, a efpada, a fetta defpedida, Sáo para iffo as armas competentes. Podem contra piratas infolentes Salvar a liberdade pa fugida, E nas mafmorras, guando a vem perdida, Pouco a pouco limar groffas correntes. Tudo podem fazer ; mas contra os laços, Que tu Ihes téces, náo lhes val , fugindo, Nem pés ligeiros , nem forofos braços; Pois corno fabes, com teu géflo lindo, Prender-lhe as máos , embaraçar-lhe es paffos, Das indunrias &Imanas te efiás rindo. ;7 SO- RIMAS SONETO O Roxo Baccho , que efpremendo eflava  F1 Maduros caxos, que cm Setembro cria,  Náo Porque foube dos Deofes , que cite dia  De a A Anardina gentil fe dedicava ;  Que Em ricas taeas derramando andava  MI O efpumante licor, pai da alegria,  Da r E cm lugar da fuavillima Ambrofia ,  E vi Com elle hum brinde a todos preparava:  Que Dando final c'o verde Tirro erguido,  Pt Bebendo foráo cm louvor daquella ,  Para Que o mez honrou de Baccho táo querido :  Para E a feus annos tecendo huma capella ,  Al Os más Deofes fiará ° , f6 Cupido  Porc Tornou voando para os olhos della.  Poft S o- Pazenclo annos ti IlluftriOnta , e ExcellentiAna nfiora Coneja Vambeire. DE J. X. DE MATOS. SONETO F Ugi, prazeres, de quem chora, e fente Náo ver de Marcia a divinal figura; De alegres corações náo falta gente, Que, em váo , por vós trabalha , e vos procura. Moilrai-me, fe podeis, a formofura Da minhá Marcia, por quem choro aufente; E vinde , entSo chamar-vos-hei ventura, Que antes náo me podeis fazer contente; Pois fe nenhum alivio podeis dar-me, Para que vindes , tendo ella certeza, Para que vindes fem razáo cançar-me Moilrai-me Marcia , ou defilli da emp reza, Porque fem ella fempre havcis de achar-me Pollo i fombra das azas da tracza. 49 J-• Se.  so- 40  RIMAS SONETO Q :lerendo erguer, em honra defte dial Ao reo norne huma &tatua , imaginava Sobre a digna mareria, e duvidava Se de bronze, ou de marmore a faria; Mas o Tempo, que rudo deftruia, E já cantando o teu louvor andava, Das fracas máos a obra me tirava, E encolfado na fouce, alfini dala Pede do teu Liz,o , o nzufico infIrtunento 0 Se do bonz Te/les, com voz,ciara , e pura . Qzferes cantar o ato nalcimento: O zneu poder efiatuas desfigura, E no Mando bulla feliz nterecinzento Mais que nos jafpes enz bons verlos dura, SO- O Nos E tan Que Bai No fi Tanu, Qge Ehl Sahir O mi E Nefle O m Fazendo andas o Illafirliimo , e Excellentijiazo Senhar, D. Francil:co Xavier 2'elles, DE J. X. DE MATOS.  41 S O N, E T O O S rijas ventas, que as priz6es quebráráo Nos penhafcos as ondas desfizeráo ; E tanto contra o Ceo fe,revolvIram Que ,ao Ceo fubindo as nuvens falpicáráo: Batendo, as fracas vélas fe tafglltáo No fundo mar o meu batel mettéráo ; Tanto por mono as gentes me tiveráo , Que ralvo em terra de me ver pafrnáráo. Ellas nos groffos mares enrolado Sahir me vítáo a beijar devoto O milagrofo cháo , que me ha falvado : E ellas me vírlo , pendurar, , por voto Nelle Templo, i Piedade confagrado, O meo I l eftido mal e t ncuto , e roto. hor A S negras roupas com ïeliceagouro Depóe, 6 Mufa, e de prazcr te vefle; Da frome arranca o funebre Cyprette, E as tranças orna de Amaranto, e Louro. Entra d'Apollo no immortal thefouro; Ricas palavras, dize , que te emprelle; E cm vez do Deos Caprino a frauta agrejle, Fere, do Grao Thebano, Lyra de oura. Com ledas azas de formofas penas Vai dar, voando, hum grito no Univerfo Em companhia das Irmans Camenas: E canta, que a pezar do Fado adverfa, Ilum novo Anua ° , hum fingular Mecenas Ornou teu vulto, protege° teu veda. SO-  Toi (1e Arma Pollo Co D'aiji E mt Coni Dii Po rcp Cahic Eis No a Genv 4Z  RIMAS SONETO DE J. X. DE MATOS. 43 SONETO A Mor, por fe vingar d'urna alma izenta, Que fempre efcarneceo dos feus rigores, Armado de arco, e ferros pairadores, Pollo em campo, bacalha lhe aprefenta: Como ferir hum' alma illuftre intenta, D'aljava eftolhe huna ferro dos melhores; fe,  E murmurando, a força dos Amores Com magicas palavras accrefcenta : Difp'ara a fetta, a fetta neto fez nada, Porque a pezar do impulfo foberano Cahio no cháo des feita da pancada: Eis-que lhe lembra a que feríra Albano, No arco a póe; e como Ha ed-vada, Gemeo Fileno, rio-fe o DCGS tyrano. Ton'. H.  SO- CH Que ei (Zie a E que Mas Chami Sabei, Náo v Lig( Truño Q9e h Ah! E nos Cravai Na Cuídela so- 40 44  RIMAS SONETO N 'Um valle, culo nome náo fabía, Rodeado de tortas Oliveiras , Por tofcas efcarpadas ribanceiras l'urna tarde hum Pallor me conduzia. kbafadas montanhas dalli via, Fazendo fombra ás placidas ribeiras; E as macilentas luzes derradeiras ?bebo nas negras aguas efcondia. Pal/or, , (lhe digo) que medonhos ares! Parece que mais funebre náo fora O mefmo domicilio dos pezares. Paftor, fujamos, vamo-nos embora , Que ficará6 , fe eu fico , elles lugares Inda mais trilles, -do que os vejo agora. • DE J. X. DE MATOS.  45 SONETO C Hora/ Graças , chorai chorai Amores, Que em fim morreo... Mas náo queirais fabello 2 (Zje arrancareis o lucido cabello, E quebrareis os ferros paffadmes. Mas fe de tantas almas os clamores, Chamando por Anarda, háo de dizello, Sabei, que ji daquelle roíto bello Náo vereis mais as engrayadas cores. Ligeira máo de negra enfermidade Truncou em flor aquellas efperanças , Que hiáo já rebentando em noffa idade.; Ah! Confagrai-lhe funeraes lembranças E nos Altares da immortal faudade Cravai as fettas, pendufai as tranças, D O   Na morle da Illufirifinia j e ExcellenVima Snshora Condes Pornbeiro. 4 4  RIMAS SONETO Q lje dotas, dignos de ti, offleceria Boje aos teus pes, Pattor illuftre, e honrado! Nakette Grande, vives aballado, E eu (como tu fabes) fem valia. Fruta ? Caca? Teu campo tudo cria. Fiel rafeiro? Muitos tens ao lado. Burna rez enfézada ? Tu tens gado Qe cancei, guando quiz contallo hum dia. Que retta? O coraçáo? Bem fe conhece One todo he t eu, que fe te humjlha , e dobra Cbal boj, que ao jugo o mango colo OfffeCe: S6 poffo dar-te ; porque em filn me fobra, C'os parabens, que hum dia tal merece, Mil beijos neffas maos, de quem fou obra. S O- P( Iguat Todc Dar Sal Tomi Que irtt Po Litro De n Ni Que Mais -Fazendo  o 1/hl/ 1 ejía:o e ExcellentiVine Senhor Conlo da Vidiguoira. P Obre, ou rico, vaffallo, ou Soberano, Iguaes sáo todos , todos sáo parentes, Todos nafc'éráo ramos dekendentes Do tronco antigo , do primen() humano. Saiba, quem de feus titulos ufano Toma por qualidade os accidentes, Que duas geraçóes ha fe) diferentes, lia.  Virtude, e vicio, tudo mais he engano. e  Por mais que affeae a vá Genealogia dobra  Introcluzir nas veias a nobreza 'rece:  De melhor fangue, do que Adío teria, Sra,   No fatl, defmcntindo a Natureza, Que Ceja, fem virtudes, a Fidalguia, Mais que hum ttifie fantafma da grandeza. O- Senho r 110- A 47 DE J. X. DE MATOS. SONETO RIMAS MOTE Aceendo as toxas [obre os tests Altares.; GLOZA SONETO O S verfos que cantei já n'outra hora Ao baixo fom do rufbco falteiro; Ora vendo correr claro ribeiro, Ora ouvindo cantar ave fonora: Cl Incli Goti Que Outros já feitos ao romper da Aurora, Dourando o cume do impinado outeiro: Outros áquelle affumpto derradeiro , Que eftimo mais, que todos, anida agora,- Todos, á villa dos que tu tens feito , rftranhos, puros, novos, fingulares Sáo , de Mufa infeliz, parto imperfeito ; E as folhas dos feus mefmos exemplares Queimo; e com ellas por maior refpeito, Acodo as toxas fobre os teus Altares. Reir Eh 0.11e Sc A P Por( Cor Dé] MO: DE J. X. DE MATOS. MOTE Défies a norte ao Autbor da Pida. GLOZ A SONETO C Ra y ados pés , e máos , e da cabeça Inclinada no peito ercorregando tintas de fangue pelo rollo brando, Que a fer cadaver pillido começa: Do coraçáo , que a lança lhe arrayeça, Remedio para o Mundo cita. manando ; E ha po y o inda táo barbaro , e nefando, 0,11e por Filho de Deos o defconheça! Se eflá nefte Exemplar da penitencit A Profecia de Daniel cumprida , Porque fazeis incredula a expriencia Que pena a tanto mal fea devida? Confundates a culpa co' a innocencia: Défies a norte ao _babor da Pida. SONETO Inde, 6 Anjo da paz, e da alliança, Dos Reis, e dos Profetas fufpirad.o Honra daquelle, por quem fois mandado, E dos Padres do Limbo alta efperança. Mas ah Senhor! (Trifliflima lembrança!) Náo venhais, que vos tem appatelhado Os homens, para o hombro, e para o lado, Vergonhofo madeiro , aguda lança. Porém V6s fabeis tudo ; e já fallátáo, Cheios do voffo Celeffial conforto, Os tnefmos, que de vás profetizáráo. Será° fem fruto as petiOes do Horto; aquelles dous primeiros, que peccáráo, Náo poderá6 viver, fem ver-vos mono. -ODES Cyth E o Ouvi Em Para As c 50  RIMAS ODES I Nfeliz inftrumento, Cythara fem ventura, fe algutn dia Adormecefle o vento, E o Tejo recoftado a voz te ouvia: Se os famintos cordeiros, Ouvindo os écos teus no monte agrefte, Já dos altos outeiros Em confuto tropel defcer fizelle: Se as fonoras abelhas Para efcutar-te, as azas encolltl-áo; E erguendo as fobrancelhas, As cabeças os Satyros movIráo: Se 5z  RIMAS Se o tyranno Cupido Com tuas aureas cordas já bríncou;  Fort E no ar fufpendido , Mil vezes fufpirando te efcutou:  De Se implacaveis rigores Já vencefle de Ninfas defdenhofas:  Que Se défiros tangedores Já te enfeitáráo de purpureas roías:  Das Já lá vai effa idade ; Dos olhos me fugio táo doce eflado,  Nafi Com maior brevidade, Que luz, e morre o lume fuzilado.  Gui Cytara minha, a Deos, Ja náo lerás das minhas máos emprego;  Out Querem que feja os Ceos Efia a ultima vez, que a mim te chego:  Do Os Ceos, os Ceos o querem, Que allim a dura Anarda o quer , e manda;  Eu Os ouvidos Ihe ferem Os écos teus, e delles náo fe abranda.  Da! O rouco mar batendo Nos váos oachopos, com que em váo peleja;  Do O eftampido horrendo Do turbulen t o Ceo', guando troveja:  (111 Os nda :la; D E J. X. D E, A T O S.  53 Os efpantofos ventos Fort crnente abalando os troncos graves: Os femidos accentos De mil noaurnas , e agoureiras aves: Quer a minha ventura, Que ainda feja mais grato aos feus ouvidos, Do que toda a ternura Das tuas vozes , e dos meus gemidos. Offendem-na clamores Nafcidos de refpeiro , e de piedade: Náo quer ouvir louvores Guiados pela nao da sá verdade: Outras cordas maís altas Outra mais défIra ináo, outro inftrumento Vir'a8 fupprir as faltas Do teu fraco, e mortal rnerecimento. De hum fufto reverente Eu me confundo, e gello, a lingua fe ata: Quem he que de repente Das máos táo alto affumpto me arrebata? Ouve , Anarda formofa, Dos bellos olhos, do engraçado rizo, Os louvores gollofa, Qge eu manchei com mcu mítico juizo. Os  Tu t54  RIMAS Tu; Cythara calada No amigo ramo defie tronco fecco, Seinpre dependurada, Se> ferida dos vemos, farás ecco. II Ocega-te , e refpira, Forrnofa Melibea: que fernblante He effe cheio de irá! Ouve-me hum pouco, efcuta-me hum inftante; Pócie fer, , fe me ouvires, Que cm vez de raiva, fó d' amor fufpires. A mão do vencedor, Que enfanguentada na batalha he gloria, He infamia , he horror, Se depois, abufando da vidoria, Se v'é de novo erguida Contra a mifera gente já rendida. Formofa vencedora, Como te atreves a ferir o peito, O licito, que re adora: Deffes teus olbos ao poder fujeito Não maten teus rigores Huma alma, que por ti morre de amores. Te D'al Reí'; Con Scm Q11 O ( Par Por Tei Os Re Se une, ;. DE J. X. DE MATOS, Se a pouca refiftencia Te diminue a gloria da conquifia , Defafia a violencia D'algum Tigre cruel, que te refifta, Que eu, inda que pudera Refar a teus olhos, náo quizera. No são teus olhos bellos Como so os mais cilios, que fegura Bem póde a gente vellos, Scm fufpirar de amor, nem de ternura; Mas os teus poden: tanto, Que fó de vellos me derreto ein pranto. Formo fas fotribras, ende O criminofo Amor , réo de mil mortes, Táo déflro a rnáo erconde, Para ferir os coraçóes mais fortes; Que deffas cores pretas, Por mais fe disfarçar, , tingio as fettas. Correm de toda a parte Tenros Amores, que voando , e rindo, Na,s azas váo levar-te Os rotos coral6es, que elfas ferindo: Táo cruento tributo Receber podes com femblante e,nxuro! se Oh 16  RIMAS Oh que de a/mas humanas ) C'o laço na garganta eflão pendentes Defras negras pefianas! Levas hum pezo tal, e náo o fentes E vives deCcançada De táo triíes defpojos carregada? Tu es a que no queres Mais que hum fó coraçáo por ten cativo? E tanto aos outros feres, Que para os efcutar lhes das motivo: Ouve o meu fó, que fente Cou fas, que juntas fe acháo raramente. Nelle negros enganos Não for j a a vil, a fordida mentira; Sentimentos humanos He quanto encobre, he quanto cm fim refpira; He ineflre dos amantes, Tem palav ras mais doces, que elegantes: A grofi r eira efperança De hum fim commum , j iguala a gente ás féras Náo he onde defcança Hum grande coraçáo, que ama de véras: Plum grande ¿oraçáo Tem mais lotivavel, racional paila°. As cc Doce Delle Aond He a Inda De ti Em Que A' m Dize Fere- Da DE J. X. DE MATO S.  57 Da tua alma os deflinos, As coufas grandes, que o teu genio encetra: Elles sáo os divinos, Doces contrarios, que me fazem guerra: Delles ando ferido , Delles tenho por gloria o fer vencido. Ninguem , ninguem me valhá, Aonde contra mim raes armas vejo; Que morrer na batalha, He a gloria maior do meu defejo; Com táo bello inimigo, Inda a gloria he maior, do que o perigo. Contra mim novos ralos De teus formofos olhos arremeça, Farás, que entre defmaios, Em quanto náo morrer, mais ralos pega; Fere, derriba, e mata, Que eu te prometto náo chamar-te ingrata. Chama agora fraqueza A' minha fujeiçáo : crimina , e infama A minha fingeleza: Dize que he falfo o rito, impura a chama Delle meu facrificio ; Fere-me a alma, faze o teu officio. Ou. ira; a s o a 58  RIMAS Ontros modos procura De arruinar o rneu tranquillo eflado;  1,Iuni Segue a minha ventura, E em carnpo , contra rnim, pae-te a feu lado;  Que One por tal humicida Em oblequio da máo , beijo a ferida.  Com III  A tei F Ez-fe calvo elle monte,  Faze Que inda hum lultro náo ha que fiorecia; Seccou-fe aquella fonte,  Tudt Qg e arrebatada para o mar corria; Murchou-fe cite arvoredo, Defpegou-fe efte rigido penedo.  Desf Neftas defconjuntadas,  Paze Carcomidas paredes, algum' hora .Eu já vi levantadas  Yen< Soberbas torres, que náo vejo agora; Choveo , tubo a chela, E fez o Téjo praia , onde era Aldeia.  Inve Pouco a pouco batendo  (Por Cavou o mar táo horridas montanhas, Como fe lile eíiáo vendo  Mais Cada vez mais as hurnidas entranhas, Té o ferro deíte arado Se tem feito ha tres dias mais delgado. Af- DE J. X. Dt MATOS.  59 lado ; Mira nos val levando táo difFrente de outro dia, O Padre venerando, Que faz dos proprios filhos iguana: Ah Tempo avaro, e forte, Companheiro da vida, irmáo da morte I Tu, que prendes oufado A ten carro veloz ligeiros ventos, E em gyro arrebatado, Fazendo táo contrarios movimentos, Co' as rodas de diamante nido atropelas, que fe póe diante. Derribas a coluna, Desfazes pouco a pouco a rócha erguida; E da mcfma Fortuna Fazes mudar a face defabrida; E no podes, ao menos, Vencer em mim contrarios táo pequenos. Que he do ten foberano Invencivel poder? Se a paixáo céga Do fraco peito humano (Por mais que por mim paffes) náo focega? Ella alma he por ventura Mais do que o ferro, mais que a pedra dura? Af. • K0111. IL  E  Ton- Tempo, que tudo galtas, Gafta-me , efla paixáo, que o pea° encerra; Mas tu, tu fó náo baftas Para a gaftar, , para fazer-lhe guerra: Tempo , náo podes nada Se de ti zomba huma alma apaixonada. Mas que milagre he efte? Que he ifto , jullos Ceos , que cm mim prefinto , Que refplendor Celefte Me vai ailumiando! Eu vejo extinto O horror dos olhos meus: Foi o tempol Ou fui eu ? Foftes vós , Ceos. 31 os amortecidos Olhos, contente para vós levanto ; Já dou promptos ouvidos A'quellas vozes, que defprezei tanto: Refpiro como d'antes, Inda yenha igual bem aos rnais amantes. •  1114orr, Forác Sem Que Quen Náo De lb Rio-f Da d Dos E j5. Ven< RIMAS DE J. X. DE MATOS.  6t ra; fimo , :eos. IV Lviçaras , humanos, Morreo, marre° Amor: A' fria terra Foráo, foráo com elle os vís enganosl Com que já vos fez guerra: Aqui o Deos vendado, Sem honras funeraes jaz fepultado; Nem merecia te - lias , (2e os rnalfeitores sáo indignos dellas. No houve cm verfo , ou pro fa Quern o trate Epicedio lhe cantafle Náo houve máo de amigo, que piedofa Os olhos lhe cerraffe; Ninguem teve a 1embrança De lhe dizer fe quer: Em paz defcança. Acabou defta forte, Rio-fe delle a Fortuna, o Tempo, e a Morte Eu fui qu,em aos impulfos Da dor de ímpias cadeias , que trazia, Dos denigridos pés, dos roxos pulfos Defpedacei hum dia Táo vergonhofos laffos; E j á foltas as máos, livres os patros, En fui quem defte modo Vencí o vencedor do Mundo todo. E  De Qyal De hum novo esforço armado Triunfar, ou morrer (diffe a Cupido) Fofte no Lago Efligio mergulhado , Para náo ler ferido Se lá houve com rudo Para o filho de Thetis ferro agudo, Padece o rnefmo darlo Tu, que es hurn falfo Deos, hum Rei tyrano; Entre os braços o apeno, Dentro d'aljava as fettas fe quebráráo; E de hum mortal frio fuor cuberto , Os offos lhe enaláráo. Por Marfiza chamou: Mal diffe o nome amado, e fufpirou , Beijando-me na face, Pedindo-me por ella que o foltaffe. Com que vergonha o digo! Entro os braços affroxei hurn tanto; Quiz perdoar-lhe, contendi comigo, Paro, vacillo , cm quanto Mil coufas me lemhráráo , Náo fei fe d'agua os olhos le arrazáráo; Lembrou-me o quanto excede A máo, que clá, á pobre máo, que pede. Vend Surpt Pend Nellc Do h Inda E c't Batel Eftas 49.2e Men Eda RIMAS rrano; DE 11. DE MATOS. Qual Eneas piedofo, Vendo Turno a feus pés pedindo a vida, Sufpendeo por hum pouco duvidofo A efpada no ar erguida: Té que vendo-/he ao lado Pender o cinto de PaIante amado, Com tão trifte lembrança Nelle executa a ultima vingança. Tal eu, vendo pendentes Do hombro do inimigo os vís farp6es, Inda c'o frefco fangue de innocentes, Humanos coraçóes: De novo me enfureço, E c'uma fetta o peito Ibe atraveço, As azas fem conforto Bateo efpavorido, e cahio morto. Ella a Tragedia trille, Eflas as fettas, elle o arco , e a venda Que feráo teftemunhas do que ouvifte, Defpojos da contenda: Jade-fe Alcides forte Menos de feus triunfos; porque a /norte Do porco de Enmanto, E da Hydra fatal, não valeo tanto. Qyal  Con RIMAS Com a pelle Nemea Cubra a robula efpadoa vidoríofo, Que ellas infignias dáo-vos etnia idéa De cafo mais famofo:  Que De Amor queixofas gentes  1V1of Vinguei-vos, e vinguei-me, andai contentes,  Vírl Já lá áo os enganos, Moneo Amor, alviçaras humanos. for Táo 1 5 /1 Lfa minha , voemos,  Qua Onde as Virtudes moráo; Nofros verfos levemos, Por onde nunca noffos verfos foro: ya fobre as nuvens levantar-me vejo.  Vel Ah náo fijamos 'caros do Téjo!  A c Ve] Q jl e Horizontes so eles! Que Paiz! Que habitantes! Tóco os Orbes Celedes! Bebo o lume dos Aftros rutilantes! Como já vejo dele litio efiranho ;  Ná A Terra táo pequena, o Sol tamanlio!  Co Or Tu, DE J. X. DE MATOS. nreS; Tu , que as cafas pafreas Dos Animaes Celeftes, Que as terras allumeas, (be as flores pintas, que as montanhas velles Moftra-me o Signo, dize me que Efirella Víráo nafcer de Anarda a filha bella. Mas aqui chega a armada Tala do roubador, , Da fempre celebrada, ,Formofiffima filha de Agenor; Táo enfeitada a fronte náo trazia, Qyando com ella pelo mar fugia. O' Signo venturofo , Alegria do Mundo, O' Nuncio do formofo Verálo , a que abre a porta Abril fecundo; A quem ferás fatal de boje cm diante Vendo cm ti Marcia o feu Natal brilhante. Conflellagáo propicia Seras a toda a gente; Nos campos de Fenicia Náo Vafcias por cerro táo contente, Como depois que vas nos foberanos Orbes de Marcia afiinalando os anuos. Fu No Zodiaco ardente, Tu náo tens companheiro, Que náo gyre contente: S acode o vello o humido carnero: Os abraços redobráo de alegria Os dos Irmáos en honra deile dia, Olhando-te de inveja , Cada hum delles arde; Quer o Ceo que aflim feia , Hum por náo vir mais cedo, outro mais tarde; Náo he aiiim a calla Cagadora, Que entre o ,rebanho das Efirellás mora. No he affim Lucina ; Porque logo que nafce Uta illuare Menina, Diffe, beijando-a na virginea face: :Defrei , o' Mufas , a cantar-lhe cm -verfo'; Yintk , Tintures , embalar-/he o berfo. Deos te falve, mimofa, Tenra, innocente planta, O' máo , ó voz ditofa, Qpe primeiro que as outras te acalanta O Ceo, de quern es fruto abençoado, Te livrarh do traf-Cinapte Por C'o Será; Se f Ardí Sem De Pay: Dar Ea Qu Toi po:„ RIMAS Deffas Graças Celeffes, Que fobre ti defclráo, Guarda intaaas as veítes: Por ti as Virgens do meu Coro efperáo: C'o pé defcalço accezas brazas piza, Serás do Templo meu Sacerdotiza. Se hoje fora o infulto Deffe váo Horottrato, Que ettragando o meu culto ; Se fez odiofo ao Mundo, ao Ceo ingrato: Ardéra o Templo, o Simulacro arara, Sem que outro filho de Filippe houvera. Náo sáo os afcendentes, De que elle procedia, Que os teus mais excellentes, De mais confelho , de mais gráo valia: Vaya dos filhos cru manjar Saturno, Darás materia de maior Coturno. Quando Cloro engroffado O branco fio tenia Do tempo ten dourado , E a Primavera fazonando venha ; Quando a luz da razáo dobrar feus ralos, Tornem a vir Abris, voltarem Malos. arde ; DE J. X. DE MATOS.  67 68  RIMAS Entáo cheia de gloria, De affombro, e maravilha , Lerás a amiga hifloria Dos genero íos Pais, de quem es fillía ; E elles rendo em ti glorias iguais, Veráo a fillia , de quem foráo Pais. Inda agouros mais dinos Eu Ji no volumoro Livro dos Dellinos O quinto dia delle mez famoro Dia capaz, de que os Varóes mais catios Te veráo lançar nos Lufitanos Fallos. 'Vós , Thagides vizinhas, Ide efcolher redondas Quarro brancas pedrinhas Que mis políráo as lambentes ondas, Com ellas numerai, entre os humanos» Quarro formofos apraziveis annos. Tu, l'aun* armas a IlkOriginza , e Excelientijima nZ e fra Pena Atarla >lita Cqflelli-Pranco. vai Náo Ner Cht O Efr( Sac N't Ne VI T U, brilhante Chiméra , Sonho dos acordados, Vai tentar effa gente, que te efpersa; Que os já defenganados Náo crem protneffas vans, falos agou ros, De fonhados thefouros: Fortuna, náo es nada, Nem in podes fer mais que imaginada: Chamem-te nas campanhas Arbitra das viaorias Chamem-te proteaora das façanhas Nas corruptas hiflorias; O primeiro, que os gellos mal feguros Forçou dos Alpes duros, Confefre que te deve Eíres triunfus, que de Roma teve. Mas de que lhe fervifte Se no meio da gloria, Sacudindo os cabellos, lhe fugifte, Levando-lhe a viaoria ? N'um Templo aerio , hum culto imaginario Te dé Jugurtha, e Mario, Scipiáo, e Pompeo, Nenhum defies Val-6es te conheceo. la SO Di- DE J. X. DE MATOS.  6p 7 3  RIMAS Dizem, que o cofre abrindo • Das riquezas avaras, As vás depois ás cégas conferindo ; Que os remos, e as Tiaras Pendem das tuas máos; que guando queres, Sem efcolha as conferes; Que os Sceptros, e os cajados Dás a quem caes premios náo sáo dados. Dizem, que favoreces Os tímidos Pilotos Que es o Iris da paz, que lhe appareces Sobre os madros já. rotos; Que , a ti f6 deve o havido dinheiro Vem dizendo o Mineiro; Diz o Cultor de Ceres, Que mil frutos terá, fe a máo 'he deres. Ah gentes infenfatas, Que chamailes Fortuna As acções mais infames , mais ingratas ! Effa Deofa importuna Náo influe nada nas ten 9 6es humanas Sáo defculpas tyranas Dos Ardas, dos Neros, Dos crucis Scylas, dos Dionyfios feros. O fi Am Elle Vai E o Nác Dei Os Ná o Da Tes, DE I. X. DE MATOS. Da montanha Tarpeya, Vendo abrazar-fe Roma, O filho de Agripnia fe recreia, E por Fortuna o toma: A maldade de Fálaris cruenta Contra os morraes inventa Tormentos exquifitos; Elle os tern por Fortuna, e sáo delitos; Vai o Gráo Macedonio A terra devaftando ; Vai Wavio, vai Lepido, e Antonio Cidades arrazando; E os horrendos eliragos, que fizerão, Por Fortuna tiveráo Que a faifa hcroicidade Náo he Fortuna, fenáo he crueldade. Monarchas poderofos, Que viveis entre fuaos, Deixai de fer Oaavios fanguinofos, Se quereis fer Auguflos: Os vencidos defcalços prizioneiros, Que em triunfos gucrreiros Levais ao carro arados, Náo vos faz fer, 6 Reis, affortunados, S6 Da RIMAS Só guando ferrolhares Effas portas de Jano, guando cheios de amor do Throno °atares Para o genero humano, Entáo fereis Heroes, tereis o nome, Que o tempo náo conforne: Tilo he que he fer Seguiroa Cefar, hombrear com Tito. Fortuna do Univerío , Que máo te fez fenhora ? He indigno o ten nome do meu verfo Foge perturbadora, Que tu náo tens que dar, mais do que enganos Aos mileros humanos: Se es táo forte, táo rica Que podes tudo, a ,Jupiter que fica? Não tens , Fortuna avara , Dominio fobre a terra ; Quem fertiliza a próvida feara, Quem triunfa na guerra Quem falva a Não, quem defencanta a mina> Quem muros arruina, He a necellidade, A força, a indufirla , a mifera vaidade. Dign Que O T •es DE J. X. DE MATOS. Maldita a máo primeira, Que efiatoas te eregíra; Digna de Fama náo, mas de fogueira: Maldita a voz, e a Lyra, Que louvores te der profcrito feja Algum , que te proteja: Extinga-fe o teu vulto , O Templo, o Altar, o Sacerdote, o Culto. 7t ;ano.s [al.  IDL RIMAS Fa: IDILIOS  Jul.; Já Pel Par } - 1 - Um dia ao p6r do Sol, hum trate dia,  Lu; Que nunca para mim amanhec'éra, Encontrei defgarrada  NI `A mais formofa Rez , que o Téjo cria;  Sol Do rico Melibeo a gráo manada, Náo traz outi : a tão bella;  Pel Se quereis, 6 Pallares, conhecella,  Co Para dar-lhe louvores, Elles são os finaes, ouvi Pallores:  Hu Formofo, e largo o pciro, erguida a fronte, Negros os olhos, os cabellos negros, O paffo mais airofo De tez, que o monte vio, de fde que he monte; Até do feu balar brando , e mimofo. Pende corno paímado, Por mais faminto que fe veja o gado; Que he mais doce mil vezes, Que o groffeiro balar das outras rezes. Q1.1 Or Pa Fe Po ID( Ni Ef- DEI. X. DE MATOS. Ella a formofa Rez, que achei fózinha, Juiguei-a fem Paftor cm monte eftranho; E porque a noite efcura eftendendo a trifle fombra vinha Pelos (Venos campos da efpeçura, Fui levando-a comigo Para lhe dar no meu cutral abrigo, Antes que o tempo deire lia,  Lugar a vir o Lobo, que a comerte. No vai elle•táo faffregO levando Sobre o faminto queixo atraveffado O tenro cordeirinho, Pela faudofa mfti cm váo balando, Como eu contente de a levar caminho. Pelo meu mefmo braço Hum novo aprirco para ella faço De Cedro, e de Loureiro , nte,  0.zie lhe repare o Sol, vede o chuveiro. Ora de verde myrto , e roías bellas onte;  Para a trame grinaldas the tecla Ora para o pefcoço FetieSes de flores brancas, e arnareffas; Por mais que diga, encarecer náo potro O cuidado, que tinha De apafcentalla na mais branda hervinha., Q:ie por elles outeiros Nunca pizada foi dos meus cordeiros. Efi  IL  Nun- 75 7 6 RIMAS Nunca a beber co' as outras a levava E ao brando fom da minha doce avena, Comigo aos faltos hia Ora corria alegre, ora parava E a cabeça inclinando, o cóio erguia , Como para ercurar-me. Ah! que inda dalo tanto fei lembrar-me, Que aré das mais amigas Repito, cm feu louvor, eftas cantigas. Minha linda Achada, (be nefta efpeçura Tu achafte abrigo, E eu achei ventura. Tija formofura Di-me tal cuidado, Que até zelos tenho Do meu mefmo gado. De mirn apartado Anda o meu defejo; Quando cm mim o bufco, cm ti o vejo. Todo o que he no Tejo Baixo, ou gráo l'aftor; Se da inveja efcapa , Cahe nas máos de Amor. Gil, DE 3. "X. DE MATOS.  77 Gil, outra melhor Diz que tem de cria; Que de leite hutn tarro, Enche cada dia. E eu apoffaria Todo meu cutral; (be fe elle te achltra, Náo differa tal. Náo ha Rez igual Em quaiquer manada. Ah, benza-te Deos, Aljuba linda Achada. Agora fe quereis faber, Paflores, O premio dalo todo , ouvi o premio: Hum dia, que acabava De entoar-lhe contente elles louvores Vi, que como os mais dias náo brincava: Náo fei que me dizia O trille coraçáo, e a fantazia! Inda agora ella rrillgoa Me cuche o peito de fullo, os olhos de agoa. Fu  Fi. 78  RIMAS Finalmente fugio, fem que até agora Alguem por elles campos dé fé della, Faz hoje tres femanas. Bufco-a fem defcançar a toda a hora Por montes, valles, moitas , e choupanas. Paftores, nas Aldeias Fugi de agazalhar RIzes alheias, Que deixáo quem as ama Pelo primeiro, que talvez as chama. N A6 so dos paffarinhos os reclamos, A' fombra buliçofa Dos movediços ramos, Pela alta céfla da eftaçáo frondofa, Táo gratos, como as breves, Simples palavras, com que Amor defcrevesé Não he ls flores táo precifo o orvalho, O cudeço ás cabrinhas, A's terras o trabalho, Como as tuas letras ás laudades minbas Difcorre , efcreve, falla, Marcia te cede, Ulinda náo te igualla. Di- eves, DE J. X. DE MATOS. Dize, formofa Isbela: Onde bebefie Hum eiblo táo grato ? Dize: Quando efcrevefle, Molhalle a penna no licor de Erato? Náo me agradára tanto Poflo à meza de Jove o Neaar fanto. Da Náo, que vem de longe , o paffageiro Ouvindo dizer, terra , Ao excelfo gageiro, Menos contentamento n'alma encerra , Do que eu ouvíndo a pura Voz da tua fuavillima efcritura. Fluidas vozes, frafes innocentes Te cahem da boca cm fio ; Náo cm groffas correntes Por catadupas de efirondofo río; Es fonte de alta grap Que murmurando, os coraçóes trafpaça. Ellas sáo as palavras poderofas Da Magica fciencia ; As hervas virtuofas Que mudáo pouco a pouco a minha efrencia; Já creio que ha Medeas, Que he polfivel o . canto das Sereas. 79 Di-  Quan- 8°  RIMAS Qliando na boca taes palavras tomo, tlue em teus efcriros leio Náo fei como os náo como: Ser mais fuave o noiro mel náo dejo, Nem en creio que foffe Dos niefmos favos de Hybla o mel mais doce. Ana() de regra em regra os Arnotínhos Cada letra beijando, Qjaes ando nos raminhos Ao redor as abelhas fuçurrando; Os Rifos, e os Enfados Andáo brincando nenas abraçados. Todas as Graças para ti fugíráo Fizeráo-re hurn thefouro De guamo repartirá° Nas Marinhas do fal, nas Minas do ouro; i. n ;a boca re eftáo dando Lafcivos beijos, quando eilás fallando. Ellas re diaáo guamo efcrever deves, E das azas lhe tiras A peona, com que efcreves : Ouvem-fe fufpirar, fe tu fufpiras; E fe brincar te vem, Brincáo comtigo, alegráo-fe rambem. V6s; DE J. X. DE MATOS  8t Vós, mulheres, que tendes decorado Em rançofas novellas Flum fallar efludado , Que nada fignifica: Longe dellas 9 Longe frafe importuna Em cryflaes d'alma, cm Roda da Fortuna. O livro abri da menra Natureza , Vereis como reparte O gofio, e a trifteza: Clamern ernbora os profeifores da Arte, Que hurn fallar innocente, Fará fentir o peito, que náo fente. Confultai, como Isbela , o que cm vós paffa: Exprimi, fe puderdes, C'o mefmo eiIilo , e graça Da voffa alma as paix6es, guando efcreverdes: Isbela encantadora Q 2 em te fallára, quem te ouvíra agora! G Oflofa companhia, Onde acharei fem ti, gentil Paflora, Onde verei, fem ver-te, a luz do día, . Por mais alegre, que amanheça a Aurora? Aonde o trae roflo Voltarei , que náo veja o meu defgoflo? Sem s doce. o; ,7"ós Sem ti, fono ras fontes, Amenas fombras, viraçóes fuaves, Verdes campos ,,roiádos Horizontes; Ao p¿ir do Sol a muiica das aves, A prática de amores, Canto de Ninfas, baile de Pafiores. Sem ti , Marcia querida Em vez de gofio , me fará trifieza; Náo póde haver tamanho bem na vida, A quem eu náo perverta a natureza; Nem coufa ráo gofiola, Que a náo corrompa ella paixáo faudofa. Sem ti, defconfolado, Efquecido talvez de que ha ribeiros, Pelo monte andarei como pafrnado, Sem levar a beber os meus cordeiros: Magros fe tornaráó Como en, de pena, á fede acabará6. Verei crefcer meus males, Como algum dia as mirillas efperanças; E la n'outros outeiros, n'outros vales, Em vez de ovelhas, guardarei lembranças; Lagrimas, que a alma encerra, Sernentes feráo 16, que en lance á terra. 8z  RIMAS No as DE J. X. DE MATOS.  81 No meu trille femblante Ler"a6, finaes de mágoa, o Ceo, e a gente: Que ou a luz fe fepulte, ou Silevance, Tellemunhas feráo continuamente Delta minha agonia As Eflrellas de noite, o Sol de dia. Irei ao mais fombrio, Mais deferto lugar, que o campo tenha; E na margem faudofa de algum rio , (be fe) a hum melancolico convenha Marcia, de guando cm guando, N'alma os teus gellos eflarei pintando. Agora o peregrino Rollo da cor do Ceo, guando amanhece ; Agora aquelle efpirito Divino D'uns &los cor do Ceo, guando anoitece; Agora as tranças bellas, Com que Amor brinea, por prender-fe nellas. Agora as niáos formofas , Onde a minha vontade ficou preza ; Agora a boca de jafmins , e rofas, Onde a Graya fe ri por natureza ; Agora o peito , aonde Contempla o golto , o que a modellia efconde. De No 84  RIMAS De lá meu penfamento Te virá vifirar nelles lugares; De 15 fufpiroweus foltos ao vento, Noticia te trarao dos meus pezares: Ouve-os compadecida Que podem fer os ultimos da vida. Quantas vezes no dia Náo recordarei n'alma aquelle inflante, Inflame de prazer, , e de agonia, Que mitiorou Amor no teu temblante! Mil mortes , que eu padeça Nunca faráo que tal favor me efquega. Qjantas vezes olhando Para as aguas do Tejo vagarofo , vem para onde eftás efcorregando, Quererei vir com ellas de faudofo ! Mas eu chorarei tanto, Que nellas venha transformado em pranto. Ditofos elles prados, Que iráo f6 com te ver reverdecendo Mais que ditofos, bemaventurados Aquelles olhos, que te ficho vendo: Os meus pois re perdIráo Não para ver, para chorar nafcêrão. A V E A A F 5 Qual DE J. X. DE MATOS.  85 nto. Qgal ramo, que cortado Do t ronco radical no cháo expofio, A fer dos pés de todos maltrat.ad.o, Vai ficando fem folhas defcompoflo; Té que fecco, e defpido , Já náo parece o mefrno, que tem fido. Tal eu , fem ver teus olhos Aonde deixo co l a efperança a vida, Em vez de flotes, pizarei abrolhos Co' a macilenta face defcahicla; Ficarei táo diffiente, Que a mim mefino por mina pergunte a gente. Aflim , gentil Pallora, A vida pafTarei, (fe lit) he ter vida) Até que chegue (fe chegar) a hora Por mim continuamente aos Ceos pedida: Só efte allivio quero, Só die alivio (fe he alivio) efpero. Qual  E 1'1- EPICEDIO D A chata voffa Irmá, illuflre Conde, Jaz o frio cadaver fepultado, Por final, que o lugar em que fe efconde, Deixei com minhas lagrimas banhado: He do cofre medonho A fatal chave, que na máo vos ponho. .Alli ficou depofitada aquel/a, Que /dolo foi do . noilb amor na .vida, Nem Ihe valer o fer illuftre,ou bella, Para efcapar della mortal partida. Que diffrentes lugares, Baje cm fepulchro, hontem nos Altares! Eu vi, Senhor,  quem tirar pudera, Por náo ver tal, os olhos rnagoados) A boca muda, o rollo cor de cera, Prezas as máos, os olhos encovados, Fluduante a cabega Da deftmta Illuftrifiima .Condeça. Quaes pelo cháo aos impetos do vento ,• ,De antigos troncos feccas folhas jazem, Q 2 aes defpegadas taboas no violento Naufragio a praia horriveis ondas trazem: Tal, Anarda querida, He Náo desfeita, he arvore defpida. Ei- 86  RIMAS  DE J. X. DE MATOS.  87 Eis-aqui os thefouros, que ella chave Erconde, guarda, e para fempre encerra; le,  Onde, pomais que fe profunde , e cave, Ver-fe-ha I) o ouro convertido ern terra; )nde,  Que he no fraco , e no forre, 1-lum fonho a vida, huma verdade a morte. o.   Mas feliz vofra Irmã , que depois della Voou ao Ceo ; e já batendo as azas, VI, fe o Sol he tamanho de huma Eftrella, Corno gyra do armo as doze Cazas; fabe de rnais perto, • Qual dos varios fyflemas he mais cerro. Contempla as Leis eternas, com que eflão Os Orbes em perpetuo movimenro; E onde náo fe atreve() chegar Platão , Chega ella ró c'o puro entendimenro: Ouve , e vl fem defmaio , O éco do trováo, a luz do rajo. Lt no clima dos Bemaventurados, Onde impuras particulas n'áo gyráo, Como nos ares cá inficionados 7   Da corrupçáo, que os vis mortaes refpiráo, Já. náo teme a prefença Da intempeíliva, da mortal doenya. u: Eís-  14 1..  De 88  RIMAS De impaffiveis efpiritos cercada Efiá hombro com hombro c' os famoíos Progenitores ieus, que a mefma eirada Seguirá ° cá no Mundo viriuofos: náo cura da vida Em materias mais altas embebida. Pagou em fim á morte o feu tributo, ozbe be fujeiro a mor rer todo o que nafce; E fováo noilas lagrimas de fruto Se ella fó com cborar refurcitaile; Porém a Lei , que o manda, Nem com pedir, nem com chorar fe abranda.1 Náo quer, , Senhor, , quem marre efte fuffragio, Perturbador da paz de hurna alma bella; 1-le cruel, mas precifo die naufragio Contra quem náo valeo força de vela: Embora a Nho fe alague, Mas nunca o foffrimento ern nós naufrague. C A N- .4 5 nzorte da 11Wirijima , e Excellentijima Sen hora Candela Pombeiro. E A S la [fce; brandal ffragio, A N- DE J. X. DE MATOS.  89 CANÇÓES. r f U, que tens feito na minha alma afrento, Nume fatal, cruel melaneolia, Merega-te elle dia Que me deixes , que mudes de apofenco; Polla huma vez com gofio Erguer a voz, alevantar o rollo. Aquelle negro humor, que derramafte Sobre meus trilles verfos are agora Boje lancemos tóra: Das aguas, que com elle invenenafle, A beber náo tornemos: Outras mais puras, mais vizinhas ternos. Ninfas, que fois cullodias de huma fonte, Que ha de ler hoje confagrada s Mufas Nas noffas praias Luías Fazei que S. terra , ao mar, e ao Ceo fe come, Que da Samaritana O licor de Aganipe corre, e mana. Senbora  No Def- No efcrevo c'o dedo em folta ara Moles verfos de Amor, mais alto intento Levar meu penfamento ; Creai, Ninfas, creai na minha idéa Coufas dignas de Conde, Vós me influi, rneu animo difponde. Vinde enramar-me a Cythara de louro, A par-lhe os rudes dedos enfinai-me; Ab Ninfas , emprefiai-me Voffos cabellos para cordas de ouro; Farei, fe puder tanto, Que tambem feja voffo dic meu canto. E tu, longiquo, affamado Oriente, Que cá mandafie o vulto luminofo De dia táo famofo, Tanto te fica agradecida a gente, Que fó por hum tal dia, Toda a tua riqueza engeitaria. Deffe atrevido Lavrador primeiro, Que fulcos fez nos campos de Anfitrite, A pezar do limite, Que nene cm váo poz Hercules guerreiro; E que táo longe fora, Que vio nafcer em feu regaço Aurora. 4- 9 0 RIMAS Deffe tul immortal defcubridor, Por quena chorarSó fempre o Ciange , e o Inda, Para os Pais nafceo rindo flum juíto herdeiro , hum digno fucceffor Do titulo, e da gloria n as virtudes, dos bens, e da memoria. Logo cm feu nafcimento os Vares Santos, Que a urna dos futuros revolvéráo, Dia, ó dia, differáo, Amanhecido para bem de tantos: As Mufas fe alegrará°, Mordeo-fe a Inveja, as Parcas fufpiráráa. Y - cm , hum dizia, o' rama generofa, Honrar de teus Avós o tronco antigo: ron a fervir de abrigo Com tua fombra á gente defdito_fa, Que em ti os olhos tem Da ;vais certa efperansa , do feu bel% lfriette , adorado, prodigiofo Infante, A tenra ;no nos cofres da ventura; E por trofeo pendura No teu portal a roda de diamante; Porque a Firtude bella, g'á no teu corasJo triunfa della. >ef- Ou- Tour. II,  G DE J. X. DE MATOS. 91 92  RIMAS Outro as doces priióes lhe vaticina,  DO De que Hymineo a faxa lhe prepara:  Qty, Elege a efpofa chara, Que de conjuge tal, ha de fer digna, Imagens tuas no devido leito.  En Ca, D'a-nos para o refpeito  t Outra nova figura Ihe levanta  De De coroas, e palmas, diffe, eu vejo  A Cercado o Padre Téjo , Que para o ten Palacio aponta , e canta,  De Meneando a cabeça, Que a fabricallas para ti começa.  Se; Mas hum, que aos mais interpretes prefíde,  Ma Soltando as roupas augu raes, prepara  Qg Na dextra a fatal vara, Em quatro partes co' ella o Ceo divide;  cc E dando hurn al primeiro, Mira diffe o fatidico Agoureiro :  E Effe , que corre d difcrilio do vello,  Q Entregue ás tempeflades do Des`lino ,  Q1: A quem fe k de menino l'orlado na Galé do foffrintento ,  Sei 74 perdendo a efperança De ver hum dia a face da bonança.  A Gii  Tu Do Pirulo as fraldas fenteard fem fruto, Que en: 've; de Louró ¡he darño Cyprefie E no fon: da frauta agres'le , En: va - o ás portas cantará de Pluto, .N'um , e n'oucro perigo Cahird , fóra aquel/es, que cu :do digo. Depois , con: tudo , de cantar chorando lirvre , vida de ernharalos ckeia Na comprida cadeia De feus nntigos males tropelando, A ti rvirá correndo Sea Fado o deixard logo en: te -vendo. Mais queda dizer; mas a Alegria 0.12e voando ao redor do berço andava; Lhe ditle , que turvavá C'o canto fe:: a gloria defie día: ,  Mudou de tom , e rollo, E encheo, cantando, os coraçóes de gofto. Quena náo dirá, excelfo Vidigueira , Que eu fou o trille, de que o Vate falla; A quern, a quem iguana Senáo a mim, Fortuna táo rafteira: Quem me enchugára o pronto?, A tu náo feres, quem podio tanto? le, DE 3. X. DE MATOS. 93 P4  RIMAS Tu no naufragio ao porto me levafle  A' Unico porto, que encontrei de abrigo:  V¿ En me abracei comtigo, A taboa falle, a vida me falvafle;  Di Que em final da viaoria, Inda hei de ir p6r no Templo da Memoria.  So Náo nafce o grande para fi f6mente,  O Ha de fer util, ha de fer piedofo :  Ni Sabe, ó Conde virtuofo, Que náo es todo ten, que es da mais gente:  TI Sem ellas preeminencias, De pouco importa illuflres defcendencias.  Li Que importa aos Reis o Sceptro feu dourado,  N Gráo poder aos Senhores, e aos Dinaflas,  Di Se a aculeos, e catadas Inda c'o frelco fangue derramado  Ti De tantos innocentes, Os fez indignos do louvor das gentes? •  'N Defcender de Varóes , que cm mil batalbas,  N Cheios de fangue, e pó, fe allinalluáo ,  Pi De que depois deixásáo Para memoria authenticas medalhas;  Q P6de honrar os fujeitos, Mas náo fazellos, fe o náo sáo, perfeiros.  C A' carroça t riunfal levem mil vezes Varrendo.a terra mil pendes guillados, Corpos defcenjuntados, Douradas lanças, inclytos arnezes; E com as máos atadas, Sobre as collas mil gentes defgraçadas. O teu triunfo, ó Conde, he mais luzido ; Náo fe comp5e de ferro, ou fangue Por mais  meio Tu es o vencedor, e es o vencido: Náo te vingas , podendo , Dillimulas do ingrato o crime horrendo. Náo podes ver o rofto defcórado Da encolhicla pobreza, fem que logo Da caridade o fogo Te náo abraze peito magoado : Em quem nunca foi pobre, Náo ha, Sonhor, eftimulo mais nobre. Náo te chegas a vis aduladores Para fer da hfonja bafejado Pois t ens efpritnentado , Q2e he a mentira quem Ihe finge as cores; E ainda allim póde tanto, Que náo lembrou ás Circes cite encanto. me: rado, s, 15. las, a. Se DE J. X. DE MATOS. 96  RIMAS Se te enfureces, porque fe no infira, Que ella paixáo c'o odio fe malura, lima doce ternura Acode logo a temperar-te a ira, Efcufas o confeiho De te veres colerico no efpelho. Tu pizas a Soberba por mil modos, Salvo o refpeito, a ordena náo confundo, Pois libes que he no Mundo O Chefe das Naç5es o Pai de todos: Se ha algum mais que humano, He quem fe faz por obras foberano. Fis-aqui a materia, cm que tu cévas Do teu benigno coraçáo a gloria, Defpojos da vidoria, Que gloriofamente a todos levas: Elles sáo nefle dia Quena o faz claro, quena lhe dá valla. Ellas novas infignias, que fe adoro, E inda háo de fer no efcudo ten gravadas Com fabulas forjadas Nas fornalha5 de Upad , náo foro Pelos Cyclopes rudes, Sim pelas máos das immortaes Virtudes. E E 1 Em DE J. X. DE MATOS.  ,.97 Ern Em quanto, e) Conde, no regaço dellas, Dos annos teus os parabens eletitas, E das mufgolas grutas Te vem beijar a máo as Ninfas bellas, Co' a lanya efcreva Marte O teu neme no bejuco eftendarte. No Reino efcuro dos tormentos vivos Pofsáo , primeiro hurn dia, defcançando Do trabalho execrando, Seu tanque d'agua encher c'os rotos crivog As Belides ímpias , Que fe terrninem teus farnofos dias. Cançáo , guando chcgares Diante dos Altares Daquelle Heroe, de quem tu fe) es digna, Encolhe as azas , a cabeça Ern meu nome o corteia , E o pedettal da fua cazalla lieija. .Aquer. Fazendo armas o  , e Excellentijfirno Senhor Conde da Vidigueira. RI MA S .S Quelle, que furcando Vai procelofos mares, Ao y erno as vélas dando Em demanda de inhofpítos lugares: .Aquelle, que fózinho De enrofcada ferpente, Em deferto caminho , Expóe a vida ao venenofo dente: Aquel/e, a quem fuccede Paffar ferra rnui alta, Que olha dehaixo, e medo A grande altura, que fuhir lhe falta; Aquelle, que apoitando Chegar primeilo 5 raia Perde o triunfo, guando Cheio de pó, e de fuor defmaia Menos ando accufa O feu arduo projeao , Do que boje a rninha Mufa Peço'valor para ramanho objeao, Ef, A Eflende, 6 Mufa noffa, As crefpas azas bellas, E permitte que poffa Boje a penna melhor arrancar dellas. Efcrevamos o dia Maior, , que o Sol tem feitó , Para quem fer devia Melhor que pedra branca, o noffo Peito: Dia, dia ditofo , De quern o efquecimento Fugirá refreitofo, Em quanto houver no Mundo entendimento: Dia ,  Concieffa, Em que a noffa memoria Náo defcança , náo ceffa De honrar, podendo, do teu nome a gloria: Dia, cm que os Amores O berço te embararáo, E os ferros paffadores Dos olhos teus, na viva luz forjáráo. TornSráo-te nos braços As tres gentis Donzellas, E ficalle entre abraços A quarta Grasa, entre as Grasas bellas. Ao DE J. X. DE MATOS. 99 ,100  .  RIMAS .Ao fom do ten louvor Entáo adonnecias Era o fabio Cantor O doce genio, que depois tenias. já nos dons foberanos, Q2e em ti vemos agora, Piometria a teus annos Frutos Pomona na Eflaçáo de Flora. Hum rajo intelligente Ferio a rua infancia Oh como vivamente Brilhar o vemos na maior diftancia ! Que virtude celefte Por ti fe náo reparte! Mas fe do Ceo viefte, Corno 1-avía deixat de acompanhar-te? Com ellas re coroas Em final da v.iaoria, Sáo azas , com que voas Ao refpeitavel Templo da Memoria. Em torno dos Altares, Que a reu norne erigirá°, Verás fubir aos ares Louvores raes, que nunca lá fubíráo. 1 Por Por mais que a tnorte eílude, Zomba do feu defignio, OZIe cita. ftra a vir-tude Das implacaveis Leis do feu dominio. O Tempo devorante Encolla a fouce injufla; E abforto , em teu temblante , O relogio lhe cahe da máo robuila. O Odio, que embebia Duro punhal no peito , Em honra den dia Se arrepende dos males, que tem feito. A merma torpe Inveja , Dando menos gemidos, Porque rnelhor te veja, Concerta hum pouco os olhos retorcidos. Desfaz-fe a noite efcura, (bando a Aurora amanhece: He noite quem murmura, He luz do claro dia quem merece. Ah! Refpeitai humanos Huna dia . táo fagrado: Defies mefmos tiranos, Para rnaior afrombro refpettado. Can- DE J. X. DE MATO S.  tol Por 102 RIMAS Canção mirilla, fe fores Beijar a !nao daquell De  , quem cantando vás eftes louvores3 Dize, jurando.nella Inda que venho falta Dos brin-lames adornos defie día, Virtude fó fe exalta Com a verdade honrofa, Czaanto mis nua, tanto mais formofa; Fazendo annos a Illufirifflina 3 e ExcellenViina Sonha• ra Conde s a de Oeyras. III A fobre os Horizontes Sobem os aureos crinos facuclindo Os rapidos Etontr; Já Phebo , novos circulos abrindo, Nos vem apparecendo; E os rutilantes eixos revolvendo Do coche etereo , que modera, e guía; Traz aos rnortaes o mais briihante día. Co. Corno vem debruçado , Tornando as redeas do immortal governo Para ver fe parado Pócle fazer-nos efte dia eterno: Ah que cm váo curva o braço Para derer dos feus friz6es o payo ! Que a pezar feu, e a meu rezar o vejo Narcer no Hydafpe, e vir rnorrer no Tejo. 'enha• O livido veneno, Que derramado cm frivolos Altares , He no grande, e pequen° Suflento a) das almas populares: Aonio meu , náo creias Que no ten dia me corrompe as veías; Bem longe do teu halito maligno Refpiro, ó monliro da lifonja indigno. Náo efperes que diga, Que torne a vir o Seculo dourado; Q .Li e nafça a verde efpiga, Sem a cultura do engenhofo arado; Que elleja doce, e.brando O loiro mel dos ramos gorOando ; Ou que (cm rifcos alerta o innocente A tenia Mát) na boca da ferpente. Que DE J. X. DE MATOS.  le; 104  RIMAS Que potra animo egregio Correr Jivre das Leis da humanidade, Que tetillas privilegio De pallar, fem morrer, a Eternidade: Mmha Mufa náo finge Cor, que do 'Ternpo a negra máo diftinge: Pinte Alexandre iem defeito Apenes, Porque eu náo tenho que efconder cm Telles, Em ti, Aonio, vemos Nafcer outro Alexandre rnais perfeito, Para ti f6 labemos, Que inda mais Mundos, eráo campo efireito: Aquelle peleijava, Só para dar as coufas, que tirava: Olha a diffrença , com que tu fufpiras, Que para dallas, a u mefmo as tiras. Já guando re embaláráo, Cuido que ao fom de mufica celefie As ac96 - cs te comáráo Das almas grandes, que por Pais tivelle: Se ha Heroes pequeninos, Tu fó nafcefle Heroe entre os rreninos: Do kifi ° nafce o julio, e ¿os gueueiros Leóes, náo vein os di-nidos cordeiros. Q11 . a 1 DE J. X. DE MATOS.  101 Qual hera retrocida , Que vai trepando aos troncos abraçada , A tua heroica vida Co' as florentes Virtudes enlaçada; Da Fama ao Santo Templo Subindo ira, para fervir de exemplo Que logo a rica, e ferril Primavera Aponta os frutos, que o Outono ¿pera; Oh fe affim os mais Netos As frias cinzas dos Avós honraffem Erguei-vos, efqueletos, ) ( r inde vello .... oh fe aqui refufcitaffem Co'as frontes enramadas Das incorruptas palmas já ganhadas, Os Heroes todos !... Mas batIava hurn Gama De quem es digno de imitar,na Fama. Náo f6 a máo tingida No fangue do contrario en terra alheia; Náo fó pór cm fugida A grao Cidade , a t ernorofa Aldeia; Nao f6 vencer as guerras Do vento cm forac6es, do mar ern l'erras: Sáo coufas dignas de fecunda hiftoria, Tein entre nós mais ticulos a gloria. Ein Vaí to6  RIMAS Em ti, de tronco altivo, Em flor hum novo Heroe vem rebentando; Inda darás motivo, A que efla fraca voz alevantando, Por mim declare o Fado Os altos fins, para que eftás guardado Qual prudente cultor, que a terra amanha, (be antes de tempo, nunca o fruto apanha. O mefrno Author do Mundo Náo o fez todo, corno eftá, n'una dia ; O mefmo Author fecundo, Que fó com dizer Fasa-fe , podia Formar mil Univerfos Muito maiores, muito mais diverfos: Foi primeiro Cemente a fecca eftriga: O gráo, primeiro he gráo, que feja efpiga. f r  Curtas afteas plantadas, Formando polleo a pouco huna tronco eterne-, Tem depois de copadas Nos Ceos os ramos, a raiz no Inferno. Virá tempo , em que poffas Ser , claro Telles, as delicias noffas; Fartarás o faminto , e so clefejo De fazer coufas, com que pafme o TéiG, E E lA E E DE J. X. DE MATOS.  107 a. Vai cultivando a bella Virtude, a cujos peitos te creafte , OfFerece-lhe aquella Rara viecoria, que ás pairóes negaffe; Piza, como até agora ,, EflI paixáo das tnais paixóes, Senhora; Vinga as mais almas, que náo podem tanto, ta.  Darás materia a nunca ouvido canto. Em veneno banhada 'A negra villa da enfezada Inveja Contra ti revirada, Para te dar quebranto, cm váo forceja, Nem precifas do agouro Do Santo Nardo, ou mafculino Louro; Pots tens mais fanto, e eterno defenfivo iNa luz do teu merecimento altivo. Por mais que abra Pandora Do cofre feu as porras refulgentes , E dure.a vida embora, Em planto o claro Sol der luz ás gentes, Entre os fracos humanos Náo ferá vida a duraçáo dos anuos, Sem que a razáo de algum merecimento sirva aos noffos efpiritos de aluno. Vai  Ton.  In- 108  RIMAS Inda durão rochedós, Qije do Diluvio as aguas alagáráo, Robuflos arvoredos , Q l e os indomitos Euros açoutáráo, Na memoria dos homens Tem mil Sphinges eliampado os nomes: Qyern fó mais anuos de virtudes conta, Mais nas azas do Teinpo fe remonta. Canção , fe te notarem de cançada, Refponde, que náo vinhas Para voar táo alto preparada; Mas que contemplas na prefaga idéa , Que inda has de converter-te cm Epopéa. Frezando annos o Illtsdrilinio , e Excellentijima Senho« D. Antonio Xavier Telles. IV Q tiem são? Quem so aquelles exemplares De valor, e deftreza, Que ora juntos ao Throno , ora aos Altares, 'Sáo ja por natureza , Nos lances mais forçofos, Ao Rei fieis, a Deos Religiofos? Qcni 'enher 'e s tares DE J. X. DE MATOS. Ouern háo de fer ? Os Marialvas sáo ; Que gerar náo podía Cordeiros  magnanimo Leáo:, A virtude , que os guía, He outra excelfa herança, Que os faz mais dignos de irnmortal lembrançaí santo ditiriero da feliz Merceana , Em teus filveares braços Vem recebellos , e ve:11a dar-lhe ufana Refpeitofos abraços; E de novo ein teus montes Renafçáo flotes, e borbulhem fontes. Teus redondos, e milicos Pinheiros Em Cedros transformados, Teu mato agrelle em delficos Loureiros Lhe fejáo confagrados;, Porque outrem appareça , Que eftatuas lavre, que grinaidas tega. Que eu potro, apenas de refpeito, e medo, C1 de longe mofirar-te Com balbuciente voz, tremulo dedo Do todo a menor parte; Nem p6de a rninha Maza Dizer-lhe coufa, que louvor produza. tein no  RIMAS Tu os verás no Sacrofanao Templo, Da intaaa Maria, A sá piedade promover o exemplo Na nobre companhia , Para que o nobre eftude Em lhe fer companheiro na Virtude. Tu os verás belligeros , e aftutos Em campo deftemidos, Ora vencendo, ora domando os brutos Por arte conduziclos , Efcurecer a nefcia Carreira, e luta , da alta Roma, e Grecia. Mas fóbe a vellos do lugar mais alto Deffes teus arredores , VI-os entrar já no primeiro afralto C'os brutos contendores; Vé-os por força, e geito Ferillos frente a frente, e peito a peito. Verás .... Mas como o geno de admirallos Eu te eftou demorando? Ah que eu já vejo os ferv idos cavallos Os freios maftigando! Já de córagem fremem, c'o pezo dos duros Marres gemem. 'En- DE J. X. DE MATOS.  tTit Entrai fem fuflo , 6 devoçáo conffante, Que ao triunfo vizinho Eu já vejo a Fortuna vir diante Abrindo-vos emula° : Fazei , que cm vós fe veja , Que mais que o braço, o coraçáo peleja. Cançáo , náo fe te d'é de fer pequena; E faiba quem por iffo te condena, Que baila aos grandes hotnés Para elogio o repetir-lhe os nomeE. Fejlejando o , e ExcellentUirno Senhor Már- quez de Marialva , e leus Filhos a Virgenz Santiginia da Merceasza. V I Liante Dom Gaffáo , -fabio COutinho , Que nas aguas do Téjo, OS  Do Téjo teu vizinho , Qual branco Cifne mergulhar te vejo, Se náo cantas agora, Que interromper no quero a voz fonora De teu Divino canto, De huma ave noaurna efcuta o pranto. En-  Que II!  KIMAS 0 .3 ye sáo as aves trilles agoureiras De caros defafirados, Dizem almas rafteiras, Q2e beblráo coflumes eflragados: A tua illuftre, e forte Penfa de outra rnaneira, de outra forte> Náo crê fuperflições De corruptas , de barbaras naçóes. E pois tens coflumados os ouvidos A füpplicas, e queixas , A prantos , e gemidos, A cujo trifte fom já mis os feixas: Tu, que por toda a parte Favordes Apollo, honras a Marte, Sobre os feus profeffores Efpalbando ás máos chelas os favores. Benigno efaltarás a voz doente De huna Mufa, que chora Defprezada da gente, Da mefma gente, que ella honrou té agora; Pedia a dor da injuria Que a Mufa aqui fe converteffe etri Furia; Qge as tranças arrancalre, gpe ein vez de flores, viboras foltaffe. No ra; DE!. X. DE MATOS. No que, por tal , meus yerros pertendeflern , (1 . ye Louros, e Amaranto Capellas lhe teceiTem, Qge ei fei, Senhor, , que náo merecem tanto: Contento-me com menos, A pequenos convem premios pequenos: Armas,_ que a Ayax fe devem, Só váos Oliffes a pedir fe atrever% Humo geno humano, hum doce acolhimento Contente me traria Mas onde o penfamento Me levais inquieto a fantazia! De ricos defenganos , Thefouro fiz para futuros danos: Longe de mirn lembrança De acçáo , que poli - a parecer vingança. Só tu, Gaftáo , fó tu, Senhor es dino: De hura elogio eterno, De hum canto mais Divino, Qye o que tirou Euridice do Inferno: Náo prefumas, que a arte Da lifonja me guia , náo tern parte Em candido fujeito Tal he minha exprefsáo, tal he meu peito. Ten vao 114  RIMAS Tentem de Pindaro a venal poefia, Grecia dracmas lhe offreça, Porque em folta harmonía As acçóes de Pitheas engrandeça: Louve encontros, e rircos De feccas lutas , de pezados difcos: Nada invejo , que eu tenho AiTais alto affiumpto , fe mais baixo engenho. Bern longe efláo meus verfos de louvallos: Olimpicas fadigas De efpumantes cava/los, ,Açoutados de Heroes deftros aurigas; Difputas indifcretas De nús untados corpos dos Athletas, Yudo exercicios rudes, Maravilhas feráo, mas náo Virtudes. Foi por mais alto preço que compráráo Sujeitos eminentes O no me, que alcangSráo De almos Var6,es, Heroes refplandecentes: He, Senhor, de outra forre, Que fe triunfa do poder da morte: Outra he a coroa, Ourras as azas, com que ao Ceo fe voa. Olha [Document text truncated for crawler view.]