Full text
20.12.12
Departamento de Didáctica e Organização Escolar
Facultad de Ciencias de la Educación
UNIVERSIDAD DE SANTIA GO DE COMPOSTEL A
Tesis Doctora l
A Aprendizage m ao Longo da Vida
A Língua e a Liter atura Maternas como base da For mação In tegral:
o Ser no M undo
Autora: Mar garida Maria Si lv a G om es
Directora: Profesora Catedrát ica Est ela P into Ribeiro Lam as
Santiago de Co mpostela, Deze mbro de 201 2
D EPARTAMENTO DE D IDACTIC A E
O RGANIZACION E SCOL AR
Facultad de Ciencias da Ed ucación
Campus Un iversitário Sur
15 782 Sant ia go de Compos tela
Tel: 981563100 Fax: 98 1599 854
http://www .usc.es/
V ISTO E P ARECER
E STELA P INTO R IBEIRO L AMAS , Professora Catedrática em Didáctica da L íngua e
Literatura Maternas (Ciê ncias da Educação), como Directora e Tese de Doutoramento
realizada por M ARGARIDA M ARIA S ILVA G OMES , intitulada Aprendizagem ao Longo
da Vida, A L íngua e a Literatura Maternas como base da Formação Integral: O Ser no
Mundo, e Q UINTÍ N Á LVARE Z N ÚÑEZ , Po rfessor Titular em Organización e Xestión de
Centros Educativos, como Tutor por parte d a Universidade de Santiago de Compostela
F AZEM CONSTAR
Que a referida Tese de Doutora mento reúne os re quisitos acadé micos e científicos
necessários para p roceder à sua leitura pública.
Santiago de Compostela, Dezembro 2012
Directora da Tese Tutor da Tese
Estela Pinto Ribeiro La m as Quintín Álvarez Núñez
v
Isto
(…)
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É c omo que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
(…)
Fernando Pessoa, P oesia 1933
Ventana sobre la Utop ía
Ella está en el horizonte —dice Fernando Birri — . Me acerco dos pasos, ella
se aleja dos pasos. Camino diez pasos y el h orizonte se corre diez pasos más
allá. Por mucho que yo cam ine, nu nca la alcanzaré . ¿P ara qué sirve la u t op ía?
Para eso sirve: para cam inar.
Eduardo Galeano , Las palabras andantes, (1993:230)
vii
Sumário
Este trabalho de investigação assume -se como um passo na longa caminhada a encetar,
no sentido de acompanhar a mudança d e pa radigma a que a escola e o ensino estão
sujeitos neste novo milénio – um modelo em que o aluno a ap rendizagem assumem
centralida d e, sendo esta perspectivada ao lon go da vida é encarada como alg o que
acompanha o ser humano ao longo do seu ciclo vital, contribuindo decisiva e
continuadamente para seu desenvolvimento. Esta centralidade confere ao aluno, ao
mesmo tempo, mais proactividade e mais res ponsabilidade na construção do seu
conhecimento, transformando-o num ser activo e co -agente do processo de
aprendizagem, c ujo sucesso depe nd e e m grande pa rt e do s eu envolvim ento e d a
curiosidade pelo sab er; ao profe sso r compete d espertar nele essa curiosidade e ess e
envolvimento. Daí que, esse processo venha de dentro para fora – dependendo, por iss o,
da vontade int rínseca do aprendente. Mais uma v ez, o professor é chamado a contribuir
para o de s envolvimento do aluno, fac ultando estímulos, desafios e r ecompensas.
Foi nossa intenção, com este traba lho, criar condições para um traba lho comprometido
por parte de um grupo de alunos adultos, tendo em vist a desenvolver competências.
Para isso foram convocadas aprendizagens formais, informais e não formais, com vist a
a uma formaçã o holística e integ ral. Questionamos o papel da língua e da literatura
maternas nessa formação int eg ral; questionamos também os princípios didácticos para o
ensino da lí ng ua e da li teratura que melhor de ad aptam às novas demandas da sociedade
do século XXI e aos novos desafios. Ne sse sentido, centrámos o noss o estudo na
construção curricular integrada e flexível como a que melhor se adequa a esse novo
paradigma educacional, em que o pape l do profe ssor tem necessariamente de mudar
também.
Assim, apresentamos u ma praxis em que o trabalho colaborativo, em equipa, e a
reflexão servem de pilares ao desenrolar da p rática docente. Esta, por seu turno, é
implementada com base nas teorias educativas que se v ão adaptando e act ualizando em
função da realidade em q ue a escola se insere. O professor do sé culo XXI é aquele que é
viii
chamado a agir e reflectir na prática e sobre a prática, não s endo mai s possível o
divórcio entre a teoria e a prática .
O conceito de formação holística e integral que defendemos, sedimen ta -se na, cada vez
mais, actual e pertinente concepção de educação, apresentada po r Delors, e sustentad a
nos quatro pilares fundamentais – o saber , o saber fazer , o saber ser e o saber viver
com o outro. Da mesma forma, alertamos aind a para a necessidade d e interve nção
social, sendo a educa çã o o meio de ex celênc ia p ara a formação de cidad ãos activos e
conscientes – da su a indi vidualidade, da sua pertença a uma comunidade local e
nacional, mas também global.
Esta dimensão da cidadania activa e consciente lev a-nos a reflectir sobre o papel da
língua materna na su a dimensão ontológica, na m edida em que é na e p ela língua que o
ser humano se afirma no mundo, é por ela que modeliz a esse mesmo mundo e, através
dela, se identifica numa comunidade, com os seu s valores e tradições e cult ura. Desta
forma, destacamos a centralidade da aprendiza gem da língua e da li teratura não apenas
como objecto de estudo isolado, mas particularmente como crucial para o
desenvolvimento de competências comunic ativas que se assumem como indi spensáve is
na vida do ser huma no.
O saber estar no mundo – a cidadania activa –, o ser linguística e culturalmente
competente é, para nós, factor decisivo para a transformação soci al requerida,
particularme nte numa época em que os problemas económicos e financeir os domi nam
as preoc up ações sociais. A educação de v e, portanto, ser vista como factor de
desagra v amento da crise, na medida em que co ntribui para a formação de cidadãos
profissionalmente competentes e flex íveis e, ao mesmo tempo, mais atentos às questões
culturais, que lhes permitam tomar melhore s opções.
ix
Resumen
Este traballo de investigación asúmese como un paso na longa camiñada a encetar, no
sentido de acompañar a mudanza de paradig m a a que a escola e o ensino están suxeitos
neste novo milénio – un modelo en que o alumno a aprendizaxe asumen centralidade,
sendo esta p erspectivada ao lon go da vida é encarada como al go que ac ompaña o se r
humano ao longo do seu ciclo vit al, contribuíndo decisiva e continuadamente para seu
desenvolvemento. Esta centralida de re vis a ao alumno, ao mesmo tempo, máis
proactividade e máis responsabilidade na construción d o seu coñecemento,
transformando o nun ser activo e co -axente do proceso de aprendizaxe, cuxo é xit o
depende en gran parte d o seu envolvemento e d a cur iosidade polo saber; ao profesor
compite despertar nel esa curiosidade e ese e nvolv emento.
De aí que, ese proceso veña de dentro para fóra dependendo, por i so, das g anas
intrínseca do a p rendente. Unha vez máis, o profesor é chamado a contribuír para o
desenvolvemento do alu mno, facultando estímulos, desafíos e recompensas. Foi nosa
intención, con este traballo, crear condicións para un traballo comp rometido por parte
dun grupo de alumnos adultos, para dese nvo lver compete ncias. Par a iso foron
convocadas aprendiz axes formais, informais e non formais, con vista a un ha form ación
holística e int egra l. Cuestionamos o papel da lingua e da literatura materna s nesa
formación integral; cu estionamos tamén os principios didácticos para o ensino da lingua
e da literatura que mello r de adaptan ás nov as demandas da socied ade do século XXI e
aos novos desafíos. Nese sentido, centra mos o noso estudo na construción curricular
integrada e flex íbel como a que mellor se adequa a ese novo p aradigma educacional, en
que o papel do profesor ten necesaria m ente de mudar tamén.
Así, presentamos unha praxis en que o traballo colaborativo, en equipo, e a reflex ión
serven de pi are s ao desenrolar da p ráctica docente. Esta, por súa qu enda, é aplicada con
base nas teorí as educativas que se van adaptando e actualizando en función da realidade
en que a escola s e inser e. O profesor do século XXI é aquel que é chamado a actuar e
reflexionar na pr áctica e sobre a pr áctica, non s endo máis posíbel o divorcio entre a
teoría e a p ráctica.
xvii
Listagem de Siglas
AF – Área de For m açã o
AI – Actividade inte gradora
ALV – Apre ndiz agem ao Longo da Vida
ANQ – Agência Nacional para a Qualificação
BIE - Bureau Internacional de Educação
CE – Comissão Europeia
CLC – Cultura, L ín gua e Comunicação
CM – Complexidade e Mudança
CNQ – Catálogo Nac ion al de Qualificaçõe s
CP – Cidadania e profissionalidade
DR – Domínio de Referência
EFA-NS – Educação e Formaçã o d e Adultos, Nível Secundá rio
EST – Equipamentos e Sistemas Técnicos
EG – Ec onomia e Gestão
ISD – I nstru ctional System Desig n
NG – Núcleo Gerador
OCDE – Organização para a Cooperaç ão e o D esenvolvimento Económico
PEA – Projecto Educativo de Agrupa m ento
PNACE - Programa Nacional de Acção para o Cre scimento e o Empreg o
QEQ – Quadr o Europeu de Qualificaçã o p ara a Aprendizagem ao Longo da Vida
QECR – Quadro Europeu Comum de Referê n cia para as L ín guas
QNQ – Quadro Nacional de Qualificações
PEL – Portefólio Eur op eu de Línguas
xviii
PRA – Portefólio Reflexivo de Apre ndiz agens
RVCC – Reconhecimento, Validaçã o e Certificação de Competê ncias
SF – Sabere s Fundamentais;
STC – Sociedade, Tec nol ogia e Ciência
TI C – T ecnologias da Informação e Comunicação
UC – Unidade de Competência
UE – União Europeia
UNESCO – United Nations Educationa l S cientific and Cultural Organization
xix
Índice
INTRODUÇÃO 1
PARTE 1: DIDÁC TIC A DAS LÍNGUA E LITERATURA MATERNAS 15
1 Educação, Pedagog ia e Didáctica 17
1.1 A emancip ação da Didáct ica: Comenius, Ro usseau, Pestalozzi, Frö ebel 25
1.2 A con solidação da did áctica: Freinet e Dew ey 32
1.3 O d ese n volvimento cogn itivo: Piaget e Vigotsky 41
1.4 O in divíduo no seu todo e o contexto: Bloom, Brun er e Ausu bel 50
1.4.1 A recup eração de Piaget e Vig otsky: Bruner e Ausube l 53
2 A actualidade: re percussões na praxis edu cativa 59
2.1 Instru cional System Design: B roderick e Merrill 67
2.2 A p erspectiva experiencial: Ko lb 74
2.3 A p raxis educativa: Schul man 80
3 O relevo da especificidade do sab er na Didáctica 85
3.1 Especificida des da didáctica d as língua e literatura mate rnas 89
3.2 Ed ucação e Formação d e Adultos - tipologias textuais el eitas 100
3.3 Área de Forma ção Cultura , Língua e Comunicação – comuni cação modelização e
património cultu ral 110
3.4 Capacid ade, Competência e C omunicação 116
3.5 A implicação d o sujeito na ap rendiza gem da língua 129
4 A Educação no Século XXI 139
4.1 Directriz es Europeias para a Educação d e Adultos 142
4.1.1 A E stratégia de Lisboa 144
4.1.2 O Memorand o Aprendizagem ao Longo da Vida – SE C (2000)1832 146
4.1.3 No vas metas para a ALV 152
4.1.3.1 O d estaque para as compet ências – as competências comun icacionais 156
4.1.4 Ên fase na Educação d e Adultos 161
4.1.5 Das des igualdades – sociais, geracionais e d e género, à con strução d a equidade 166
4.1.6 Benchmark s europeus para 2 010 e 2020 170
4.2 O Qu adro Eu ropeu Comum de Referência para as Línguas [ QECR] 174
xx
4.2.1 Portefólio E uropeu das Lín guas 192
4.2.2 Abord agem comunicativa do ensino-aprend izagem da língua materna 194
4.3 A E ducação de Adu ltos em Portugal 198
4.3.1 Os Curso s EFA-NS – R eferencial de Compet ências -Chave 200
4.3.2 Áreas de For mação 205
4.4 Área de Forma ção Cultura , Língua e Comunicação 215
4.4.1 Das comp etências transver sais (Educaçã o e Formação de A dultos – Cultura, Língua e
Comunicação) à s competências esp ecíficas 217
4.5 Do c urriculum flexível e in tegrado a o curriculum globalizad or: perpectivas actuai s 220
4.5.1 Perspectiva s actuais a cons iderar 229
PARTE 2: ESTUDO EMPÍRICO 237
1 Metodo logias de investigação 243
1.1 Abord agem epistemológica 243
1.2 Metodo logias qualitativas 247
1.2.1 Estu dos Etnográficos 249
1.2.2 Investigação -acção 254
1.2.2.1 Estu do Explorató rio 261
1.2.3 Recolha d e dados e respect ivos instrumentos 263
1.2.3.1 Tratamento d e dados 272
2 Caracter ização do Conc elho e do Público -Alvo 275
2.1 O Con celho 275
2.2 A In stituição 279
2.3 O Pú blico-alvo 282
3 Implementaç ão 291
3.1 A Mu dança – Ab ertura de pistas 291
3.1.1 NG: Sab eres Fundamenta is 292
3.2 A Mu dança – Con solidação 323
3.2.1 NG: TI C – Planificação e impl ementação: 323
3.2.1.1 Língu a – discurso directo e in directo 329
3.2.1.2 Literatu ra Portuguesa – con teúdos 330
3.2.1.3 Prod ução escrita do texto d ramático 343
3.2.2 NG: Urban ismo e Mobilidade – Plan ificação e implementaç ão: 352
3.2.2.1 Da formação à cultura 361
xxi
3.2.3 NG: Eq uipamentos e Sistema s Técnico s – Planif icação e impl ementação: 374
3.2.3.1 Gerir experiências e program ar novos caminho s 378
3.3 A Mu dança – Avaliação/ Va loração e (re) Construção da exp eriência 409
CONCLUSÃO 425
BIBLIOGRAFIA 441
INDECIS REMISSIV OS 463
Índice de p alavras-chave 465
Índice de au tores 471
ANEXOS 475
xxiii
Evidências
Evidência 1 – Refle x ão e comentário do tra b alho sobre Personalidades do s éc. XX .. 307
Evidência 2 – Refle x ão e comentário do tra b alho sobre personalidades do s éc . XX ... 313
Evidência 3 – Refle x ão e comentário do tra b alho sobre “O Eu na Família” ............... 314
Evidência 4 – Refle x ão e comentário sobr e o t rabalho “O Eu na Família” ................. 315
Evidência 5 – Te stemunh os sobre a peça de tea tro “Viajando pe lo Sé culo XX” ........ 327
Evidência 6 – Exemplos de trabalhos r ealizados pelos alunos, com sugestões de
correcção. .............................................................................................................. 332
Evidência 7 – Exemplos de traba lhos produzidos p elos alunos com recurso às TIC ... 335
Evidência 8 – Comentário do Carlos I , face às emoções provo cada s pela peça de teatro
.............................................................................................................................. 344
Evidência 9 – F otos d a Actividade Integradora “Viajando pelo Século XX” ............. 345
Evidência 10 – Testemunhos de alunos após a peça d e teatro “Viajando pelo séc. XX”
.............................................................................................................................. 351
Evidência 11 – Exemplo de sugestão de correcção de traba lho ................................... 368
Evidência 12 – Panfleto informativo, sobre a Visi ta de Estudo a Paris, elaborado pelos
alunos ................................ .................................................................................... 383
Evidência 13 – Exemplo de sugestão de correcção de traba lho ................................... 396
Evidência 14 – Ex emplos de trabalhos rea liz ados pelos alunos, para a activ idade “Jantar
com Letras”........................................................................................................... 404
Evidência 15 – Exemplos de refle x ões sobre o restauro da sala de música, NG EST . 407
Evidência 16 – Exemplos de vários portefólios ................................ ........................... 419
xxv
Figuras
Fig u ra 1 – Educação, Pedagog i a e Didáctica - sistematiz aç ão ....................................... 25
Fig u ra 2 – Esquema co mparativo da Taxonomia de Bloom e sua reinterpretação em
2001 ........................................................................................................................ 52
Fig u ra 3 – Modelo tradicional (Ponte, 2003) ................................................................ . 60
Fig u ra 4 – Triângulo didáctico de L am as (1992) ........................................................... 61
Fig u ra 5 – (re)Interpretação do c onc eito de Didá cti ca ................................................... 62
Fig u ra 6 – Taxas de r etençã o de aprendizagem, retirado d e Chi, M. et al “Self
explanations: How to Study and Use Ex amples in Problem Solving” , in Broderick
(2001) ..................................................................................................................... 70
Fig u ra 7 – Instructional Sy stem Desi gn esquematizado (Dick & Care y , 2001 )............. 71
Fig u ra 8 – Modelo ‘Pedrada no Charco’, esquema adaptado de Merrill (2002) ............ 73
Fig u ra 9 – Modelo lewiniano de aprendizagem experienc ial (Kolb, 1984:21) .............. 76
Fig u ra 10 – Modelo de aprendizagem de Dewey (Kolb, 1984:23) ................................ 76
Fig u ra 11 – Modelo de desenvolvimento cognitivo de Piaget (Kolb, 1984:25)............. 77
Fig u ra 12 – Reinterpretação dos esquemas dos modelos de aprendizagem experienc ial,
aprese nt ados por Kolb, com base em modelos passados........................................ 78
Fig u ra 13 – Interpretação de esquema de Chapman (2005 -2006) sobre os e stilos de
aprendizagem de K olb ............................................................................................ 79
Fig u ra 14 – Esquematiz açã o da perspectiva de Schulman para o conhecimento
profissional docente ................................................................................................ 81
Fig u ra 15 – Árvore dos hipertextos (QECR, 2001:48) ................................................. 182
Fig u ra 16 – Escala de nove níveis coe rent es, sug e ridos por estudos suíços (QECR,
2001:59) ................................ ................................................................................ 189
Fig u ra 17 – Modelo Conceptual Refere ncial de Competências - Chave (Gomes,
op.cit.: 24) ............................................................................................................. 206
Introdução
3
A democra tiz açã o do ensino fez surg ir o conceito de ‘educação de massas’, o que implicou
a normalização do ensi no e a definição de objectivos c omuns a todos os apr end entes.
Fomentou ainda a criação de um p aradigma educacional baseado na instru ção, ou seja, u m
modelo unidireccional, em que o professor era o detentor do conhecimento e o aluno o seu
reprodutor.
As grandes transformaç ões no mundo do trabalho, o avanço tecnológico e os meios de
informaçã o e comunicaç ão exercem uma força ex tremamente poderosa nas relaç ões sociais
e em todas as instit uições da sociedade contempo râne a, a que a escola não se pode alhea r.
Estas alterações tr azem, de novo, a debate, várias questões, n omeadamente: qual o
conhecimento mais válido e, consequentemente, o que e o como ensinar, isto é, qual o
curriculum e quais os processos didácticos mais adequados para um a escola que pret ende
fazer face aos novos desafios da sociedade do séc. XXI.
O re conh ec imento destes dilemas e das transformações sociais a que aludimos
funcionaram par a o desencadear da investigação que agora apresentamos . O curso de
doutoramento em P erspectivas Didácticas em Áreas Curriculares , iniciado em 2007 ,
despoletou a nossa curio sidade pela investigação educacional, numa perspectiva em qu e a
teoria se encontra d e forma dialógica com a praxis ; daí que optamos por centrar a noss a
investigação na educação de adultos. Esta opção prende-se fundamentalmente com o nosso
percur so profissional, de uma experiência de onz e anos, quase em ex clusivo, dedicados a
este público, e també m c om o gosto que senti mos por esta área de ensino.
Não tem havido grande preocupação, por p arte dos responsáve is da educação, em Portuga l ,
com esta modalidade de e nsino , o que, quanto a nós, não é a postura mais a certada,
particularme nte quando se pretende que a população esteja preparada p ara enfrentar os
desafios que a sociedade do conhecimento nos la nça, diariamente. Salient amos que, até h á
pouco tempo, o ensino para adultos era designado como “ensino recorrente”, o que, de
alguma fo rma, permite a associação subjectiva a um ensino alternativo, de ‘segunda
opção’.
Porém, em 2006 , o governo portu guês lançou uma modalidade de ensino , em nosso
entender, inovadora – os cursos de edu cação e formaçã o de adultos, nível secundário
[EFA- NS ], mas escasseou a prep araçã o de doc entes para a im plementar. Trata -se de cursos
Introdução
4
cuja tónica assenta na certificação ou creditação de competências . Nesta modalidade de
ensino, os alunos são sujeitos a um processo de formação individualiz ado e centrado nos
seus interesses, embora os temas a abordar estejam definidos à partida, por indicaç ões do
Referenc ial de Comp etências-Cha ve e do Guia de Operacionalização (cf. Anexo 4) . Estes
cursos pretendem tomar em linha de conta as aprendizagens formais, informais e não
formais, que o aluno realizou ao longo da sua experiência de vida. Ap esar de os temas
estarem definidos no dit o Referencial, a legislação prevê a flexibi lização, para além dos
interesses e nece ssidad es mencionadas, de acordo com o contexto dos aprendentes.
Esta é a filosofia de base desta nova modalidade de ensino e, n a nossa perspectiva,
constitui a grande inovaç ão, o grande desafio que se nos coloca, n a medida em que, logo à
partida, o f acto de n ão haver um curriculum determinado superiormente, i mplica uma nova
postura profissional, face ao processo ensino-aprendiz ag em. Ao mesmo tempo, sentimos
que os alunos, eles pr ó prios, necessitam de mudar a sua forma de encarar o ensino.
Efectivamente , cremos na nec essidade de os f azer entender – a eles, adultos, cujo contexto
escolar s e associa v a a um para digma mais tradicional – que, face às novas demandas
sociais, profissionais e económicas, o paradigma d a escola actu al assenta na aprendizagem,
mudando, desta forma o enfoque, e lev ando, consequentemente os alunos a assumirem
uma postura mais activa e p roac tiva no seu proc esso de formação e d e d esenvolvimento
pessoal ao longo de todo o ciclo vital, por forma a que sejam cidadãos plenamente
integrados na c omunidad e, loca l, na cional e g lobal .
Nos cursos EFA - NS há referência a um conjunto de evidências qu e os a lunos terão de
demonstrar, no final do processo; a possibil idade de escolh a dos conteúd os programáticos
leva à selecçã o de estratégias e à p reparação de ac tividad es que melhor c onduzam à
demonstraçã o do d esenvolvimento das competências esper adas. Esta din âmica resulta d e
um processo negociado entre professor e alunos, de acordo com as necessidades, interesses
e expectativas destes. Pela primeira vez, prevê- se a preocupa ção de envolver os alunos no
seu processo de formação; d e torna r as aprendizagens significativas e contextualizadas,
partindo das e x periênc i as pessoais, profissionais e culturais dos aprendentes e, depois
disso, estabelecer o ‘plano de aprendizagem ’ mais adequado ao alunos, sem perder de
vista, os supra referidos temas definidos pela tutela.
Introdução
5
Tendo pre s ente este des afio lançado aos professores, parece -nos de todo o intere sse e
pertinência a investigação nesta área, pois, como referido, a formação disponibi lizada aos
docentes, no âmbito desta nova modalidade de ensino, foi escassa. Na v erdade, os reptos
do novo milénio são inúmeros pelo que a exigência f ace à formação é mais premente.
Atendendo ao facto de que as novas directrizes mudam radicalmente o enfoque do ensino
para a aprendizagem e de nem todos estarem preparados para alterar as suas práticas,
parece-nos essencial reflectir e investigar sobre as mudanças a rea liz ar, no sentido de
acompanharmos as novas exigências pr o fissionais.
Pretendemos, pois, contr ibuir para uma tomada d e posição de não acomodação perante a
profissão, cons ciente que estamos da n ec essidade de formação p ermanente, contínua e, po r
isso, a o long o de toda a vida, para qu e poss amos responder aos des afios que nos são
lançados a todo o momento, por um lado, numa i nstituição viva e que reflecte as mudanças
sociais, que é a escola; por outro, numa sociedade em que o conhecime nto evolui e se
modifica permanentemente, não esquecendo que à esc ola cabe o papel fundamental de
preparar cada ser humano “(…) para elaborar p ensamentos autónomos e críticos e para
formular os seus próprios juízos de valor, de modo a poder decidir, por si mesmo, como
ag ir n as diferentes circunstâncias da vida. (…)” (Delors, 1998:86 ). Face aos constantes
desafios com os quais as escolas se debatem, r elacionados com as novas demandas do s éc.
XXI, entendemos ser esta preparação do ser humano a melhor forma de encarar a educaçã o
de adultos, pois, quanto a nós, este se rá o caminho para a promoção da autonomia e d a
aprendizagem ao long o d a vida [ALV].
Assim, a problemática, que está na base da nossa investi g ação e que dá nome à tese que
ag o ra apresentamos – A Aprendizagem ao Longo da Vida, a Língua e a Literatura
Maternas como base da Formação Integral: o Ser no Mundo –, é a análise do papel da
língua e da literatura maternas na formação de alunos adultos; a identificação dos
conteúdos mais ad equados ao grupo-turma, face aos temas propostos para a área de
formação [AF] Cultura, Língua e Comunicação [C L C ], tendo como questões subjace ntes
(i) Qual o papel da lí ngua e da literatu ra maternas como elementos
ag lutinador es, neste modelo de aprendizagem?
(ii) Qual o contributo da língua e da literatura ma ternas para a formação
holística do ser humano?
Introdução
6
(iii) Quais as perspectivas curriculares a considerar para este modelo d e
ensino-apre ndiz age m?
(iv) Quais as metodolo g ias mais adequadas para o ensino -aprendizagem das
língua e liter atura nos Cu rsos EFA- NS ?
Pretendemos, portanto, em termos metodoló gicos, tendo em conta os interesses e as
necessidades dos alunos em causa :
- pesquisar, no âmbito da língua e li teratura m aternas, os cont eúdos mais
pertinentes para a área de formação CL C ;
- questionar como def inir um curriculum adequado e flexível;
- indagar como adaptá-lo, pelo recurso à pedagogia e à didáctica, com vista
a conferir mais centralidade ao a luno ;
- procurar a s estratégias e actividades que melhor sir vam os propósitos
destes cursos.
Destaca mos, assim, a dimensão ontológ ica e, também, a dimensão estética da língua,
enquanto mar ca d e iden tidade pessoal e nacional, e enquanto re flexo da cultura d e um
povo. Este tema é, para nós, de extrema relevâ ncia, em termos de investigaçã o , pois
constitui, na nossa óptica, um contributo para a formação de cidad ãos mais conscie ntes,
capacitados para enfre nta rem os novos desa fios da sociedade do conhecime nto.
Para promover esta fo rmação integral, propom o-nos re considerar um o utro papel p ara a
escola. Assim, vamos, pois, nesta investigação, tentar aprofundar a ideia de Morin (1999)
sobre o paradigma da complexidade, em que a questão de “religar os conhecimentos” surge
como um imperativo no mundo actual, com vista a uma formação holística do cidadã o bem
como da sua inserção no mundo g lobal e da sua i nteg r ação consciente e c rítica no mundo
complexo em que vive.
Com este trabalho de in vestigaçã o , temos como meta contribuir pa ra a construção de um
currículo mais exequível e, portanto, m ais a dequado aos Cursos EFA - NS , nos tempos
controversos e m qu e vivemos.
Acredita mos que à escola compete responder ad equada ment e aos desafios impostos pela
mudança. Partimos do pressuposto de que a prática docente, bem como a s ua adaptação às
Introdução
7
transformações sociais , precisa de ser alterada para que o contributo da escola, na
construção do saber, seja eficaz aos seus vári os níveis, de acordo co m o paradigma
emerge nte que leva à orquestração dos quatro eix os que sust entam a educaç ão: saber,
saber fazer, saber ser e saber viver com o outro . Tal como afirma Ausubel , citado por
Montero (2008), “averigue-se o que o aluno sabe e actue-se em consequência” , para que a
aprendizagem seja si gnificativa. Esta terá de ser, consequentemente, a nova postura do
professor do séc. XXI – um profe ssor re flexivo, que questione p ermanentemente a sua
prática, norteado pela construção d e ambi entes propiciadores de aprendizagens
significa tivas.
Enquanto professora de aprendentes adultos, tentaremos dar cont a de que forma estes
novos pressupostos da escola estão a ser cons idera dos no ensino púb li co português,
particularme nte no que diz respeito à educaçã o d e adultos, em consonânc ia com directrizes
da União Europeia pois, de acordo com Fernández Batanero (2003), n ão podemos deixar
de a cre dita r na utopia de conseg uir, de forma real e efectiva, uma escola que responda às
necessidades de todos os alunos, no séc. XX I .
Em consonânc ia com o novo paradigma educacional, espera-se que os pr ofessores
assumam a post ura de facilitadores, (re)orientadore s da aprendizagem; daí a grande
importância de um estud o aprofundado sobr e o q ue ensinar e como o fazer, tendo em conta
as motivações e a finalidade da aprendizagem, sem descurar as experiê ncias – passadas e
presentes –, e os interesses dos alunos – presentes, mas projectados no futuro.
Parece-nos aqui pe rtin ente re ferir a importância que a autonomia assume, no
desenvolvimento dos cidadãos e, particularmente, na educação de adult os, pois está
directamente ligada aos contextos em que se inserem e à re construção d e conhecimentos
resultantes das a prendiz agens significativas que re alizaram, conduzindo desse modo à
construção da sua própria identidade , pr epa r ando-os para um tempo por vir.
Fernández Batanero (2003) alerta qu e o currículo se evidencia como intenção, mas também
como prática, tendo, por isso uma natureza d inâmica. Desta fo rma, contamos que a
didáctica oriente o ‘pôr em prática’ o currículo, contribuindo, esta para u ma evolução em
espiral da im plementaç ã o do curríc ulo, ajustando -o às condições reais, já que se prevê qu e
esta dinâmica evite qu e o cur rículo se convert a numa sé rie de princípios imutáveis e
incapazes d e promover a inovação educativa. Ass im sendo, procura-se qu e o currículo seja
Introdução
8
flexível, diversificado e participativo, pois cremos que a sua im plementação é um processo
que inclui apre ndiz agens formais, não for ma is e informais, que se org anizam e
desenvolvem em função do aluno e do s eu contex to. É, na verdade, a id eia de “ curriculum
como engrenagem”, defendida por Zabalza (2008), que tentamos aprofundar para a
construção do programa da área de formação – CLC, nos novos cursos EFA- NS –, o que
implica procurar uma mudança de post ura, por parte dos professores. Para isso,
procura mos, também, o trabalho em co-docência, por um lado, e em equipa peda g ó gica,
por outro. Procuramos ainda, neste tr abalho de in vestig a çã o, a negociação constante com
os alunos, pois o trabalho colaborativo torna -se imperativo nesta modal idade de formação,
na perspectiva como a entendemos. Para isso contribui a aná lise e reflexão sobre as
directrizes institucionais.
A filosofia subjac ente aos novos cur sos refe rid os remete-nos também para a formação
integral do indivíduo, levando, ao mesmo tempo, a questionar o papel da líng ua e literatura
maternas n a formação d o sujeito. Daí sentirmos o repto de pesquisar sobre o que se tem
escrito no âmbito do papel desemp enhado pela lín gua, a qual, na sua dime nsão ontológica ,
se assume como elemento int eg rador da formação e desenvolvimento do ser humano, a
formação integra l que vi abiliza a manifestaç ão do ser no mundo.
Face ao exposto, o trabalho que agora apr esentamos organiza -se em duas partes. A
primeira, mais teórica e conceptual, subdivide-s e em quatro pontos estruturantes, que
abordam questõe s converge nt es com a didáctica d as língua e litera tur a maternas:
(i) os eixos teóricos fundamentais, nomea damente no que diz respeito à
evolução dos conceitos de educação, pedagogia e didáctica;
(ii) a reperc ussão d as metodologias actuais nas práticas educa tivas;
(iii) a espec i ficidade do saber na didác tica;
(iv) a educaç ão no s éc ulo XX I .
O primeiro ponto – Edu cação, Pedagogia e Didáctica – pretende dar conta dos momentos-
chave r egistados na evolução destes conceitos. Para tal fazemos uma revisão da li tera tura ,
sustentada em autores que entendemos ser marcan tes para as mudanças con ceptuais a nível
da educação. Destacam os, neste prime iro ponto, metodologias activas, centra das na
perspec tiva construtivista do conh ecimento, em que questionamos , por um lado a
interacção social – Vigotsk y e Piaget – e, por outro, o relevo dado às aprendizagens
Introdução
9
significa tivas, p elo facto de valorizarmos as ex periê ncias que os aprendentes foram
acumulando em contextos informais e nã o formais – Ausubel.
No segundo ponto – A actualidade: repercussões na praxis edu cativa – c entramos a nossa
atençã o em abordagens didácticas relacionada s com um con ceito de educação, onde a
experiência assume particular destaque, o que, tendo em mente o nosso públi co -alvo,
alunos adultos, se torna essencial par a a promoção de uma ap rendizagem, significativa,
consciente, participada e autónoma. A aprendizagem po r problemas, cujo grau de
complexidade vai aumenta ndo, à medida que os alunos evoluem em termos de
conhecimentos e de autonomia, parece -nos que pode vir a ser uma excelente metodologia a
dinamizar, através, nomeada mente d e guias de apr endizage m , com alunos adult os.
Relativamente ao ponto três – O relevo da especificidade do saber na didáct ica – centramo-
nos na especificida d e da didáctica da língua e li teratura maternas, invest igando sobre o
ensino das tipologias textuais que melhor se adequem a uma for ma ção hol ística de alunos
adultos, cuja experiência de vida lhes confere um leque de experiênc ia m ais vasto e mais
complexo; destacamos também, neste ponto, um a vez que trabalhamos a ár ea de fo rmaç ão
CLC, a importância da língua, pela sua dim ensão ontológica, e o papel da li teratura como
forma d e modeliz aç ão do mun do. Um outr o aspe cto que tenta mos ex planar é a
conceptualizaçã o de capacidade, competên cia e comunicação, na medida em que
encaramos o domí nio d a língua como uma competência-chave para a fo rmaçã o integral do
indivíduo, pois é pela língua e na língua que o sujeito se afirma como ser no mundo.
Assim, ex ploramos a pe rs pec tiva da transversalidade de que a competência li ng uística se
reveste, na medida em q ue o domínio e a proficiência da língua se m anifestam, se revelam
e se afir m am em todos os momentos, etapas e c ont extos da vida ser humano.
Por fim, centramos tamb ém a nossa atenção na importância de implicar o sujeito no seu
processo d e aprendizagem para melhor s e poder afirmar no mundo, quer enquanto ser
individual, quer enquanto elemento de uma comunidade, cuja cult ura é um reflexo da
modelização do mundo que a líng u a lhe c on fere.
O ponto quatro, desta primeira pa rte, reporta- se à análise d e dir ectrizes europeias e
nacionais para a educação de adultos. Apresentamos, assim, documento s seleccionados,
pela importância qu e o al cance das suas medidas atinge nas políti cas europeias e nacionais.
Destaca mos, a Estraté g ia de Lisboa, de 2000, que define a educação de adultos como uma
Introdução
10
prioridade, que r a nível do desenvolvimento de competênc ias par a a emprega bilidad e, quer
a nível do desenvolvimento da cidadania euro peia; sublinhamos também documentos
posteriores que rea l çam as competênc ias -chave pa ra os cidadãos europeus, inicialmente até
2010 e mais rece ntemente até 2020 e que valorizam, quanto a nós, as competências
comunicaciona is, como meio para alcançar a fo rmação holística , na medida em que é o
sustentáculo para o sujeito se afirmar enqu anto ser humano. Um outro aspe c to a valorizar é
a importância qu e se dá à educação de adultos como forma de minimiz ar e de esbater as
desigua ld ades sociais, nomeadamente as gerac ionais e de gé n ero, tendo em vista a
equidade soci al. Realçamos também, neste ponto, a importância do Quadro Europeu
Comum de Referência para as Línguas [QECR], se assume como um documento
estruturante para a uniformiz açã o do ensino das línguas estrangeira s, mas que, em nosso
entender, deve ser també m tido em conta na conceptualização do ensino da língua materna,
pois a proficiência e o conhecimento desta interf erem na aprendizagem d aquelas. Por esta
razão, consideramos, est e documento relevante para a abordagem comunicativa do ensino -
aprendizagem da lí ngua materna, que por sua ve z, é essencial para o desenvolvimento de
competências comunicacionais numa língua estr ange ir a.
Ainda, neste ponto qu atro, dedic amos um subponto à educação de adultos em Portugal,
analisando de que forma as di rectrizes europeias são postas em prática no nosso País.
Assim, trabalhamos o Referencial de Competências-Chave , (Gomes, 2006) e o respectivo
Guia de Operacionalização (Canelas, 2007), provenientes da Direcção Geral de Formação
Vocac ion al e do Ministério da Educação, por serem os documentos estruturantes dos
cursos EFA- NS . De sta forma, apresentamos a filosofia in erente a estes cursos e a
interpretação qu e deles fazemos, à luz das directrizes europeias. Ao mesmo tempo,
probletizamos as consequências das medidas em c ausa, particularme nt e agora, que os
cursos EF A-NS de certificação escolar, estã o suspensos, em Portu ga l, po r r azões
economicistas, fr uto da (s) crise(s) que assola(m) a Europa e o mundo.
A análise da documentaçã o, relativa à e du cação de adultos em Portug al, p ermite-nos
conhecer, de forma mais pertinente, a implementação e as finalidades dos cursos EFA - NS ,
através também da análise do P rog rama N acional de Ac ção para o C rescimento e o
Emprego [PNACE] (cf. Anex o 4) e da análise da legislação de base aos referidos cursos, a
saber a Portaria nº 230/2 008 (cf. Anexo 3), de 7 de Março. Se bem que a intenção seja uma
Introdução
11
contextualização, quer em termos eu ropeus, que r em t ermos na cionais, de facto,
procederemos, a inda, a uma análise da do cumentação à luz das teorias que convocaremos.
A seg und a parte do nosso trabalho prende-s e com o estudo empírico realizado. No entanto,
previamente à sua aprese ntaçã o, ex planamos a metodologia de investigação na qu al el e se
enquadra , correspondendo este conteúdo a o p rimeiro ponto.
Ultrapassada a primeira f ase realizada, a nível do trabalho de investi gação tutelado, em que
desenvolvemos um estudo exploratório, em que nos centra mos num único NG,
pretendemos, agora, nesta etapa de tese, aprofundar o caminho da investigação, se guindo,
um modelo de inv estigação-acção participant e e fundamentada, optando pela metodologia
etnográfica, pois conside ramos ser esta a metodologia de investigação que melhor se
adapta a o tipo de tr abalho que nos propomos desenvolver.
Mantermos uma postura de busca constante d e aperfeiçoamento e sup orte teórico que
sustentem as nossas acções, enquanto professora, pois, perante os no vos desafios da
sociedade do conhecimento e da consequente alteração dos públicos -alvo, que se
aprese nt am à escola – heterogéneos e diversos a nível ec onómico e social – esta e o
professor têm de repensar as suas práticas e estr atégias. É neste sentido que elegemos a
metodologia de inv estigaç ão- acção para o nosso trabalho, uma vez que ela propicia uma
constante atmosfera de a prec iação e consequente alteração de aspectos rel acionados com a
educação. Do confronto entre teoria e prática nascem melhorias p ara uma educação m ais
eficaz. Partindo da reflexão e da indagaçã o, o professor detecta falhas e supera-as. A
continuidade do p rocesso e a indagação permanente cont ribui para u m ajuste, quas e
constante, do processo e consequentemente para o seu melhoramento. É a postur a do
professor que aprende com as suas próprias acções, com o confronto dela s com a opini ão
participada dos seus pares e dos alunos que no s parece ser a mais ade quada para esta
modalidade de educação de adultos – C ursos EFA- NS – c erne deste trabalho doutor al.
Importa, pois, entende r a investigação-acção também como um meio conducente à
transformação de práticas educativas – pela aproxim açã o entre teori a e pra xis – que, como
um meio para a mudança de para di g ma n ecessár ia à esc ola actual.
O questionamento consta nte, a reflexão perma n ente, subjac ent es à investiga ção -acção,
implicam necessariamente uma postura interpretativa/avaliativa e descritiva/projectiva ,
face ao problema determinado, face à es cola e face à edu cação , o que nos parece ser a
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
18
pessoas com quem lidamos e com quem interag im os, na nossa prática docente. É, por isso,
um traba lho exigente, mas, acima de tudo, desafia nte e motivador. Tal como dizia Platão,
‘A educaçã o é capaz de produzir filósofos-reis’.
Cientes da importânc ia que a educ a çã o t em pa r a a formaçã o de cidadãos conscientes,
responsáveis e activos, não podemos concebê-la como al go estático. Ela tem de
acompanhar a evolu ção s ocial pois esta é uma relação dialéctica, uma v ez que a sociedade
também só evolui em função da formação e d a educação dos seus cid adãos. Sendo assim,
constatamos que a atitude dos docentes, face ao conceito, tem vindo também a ser alterada,
apesar de ser um processo lento e controverso, verificando-se al g um a resistência à
mudança.
A educação tem de ser e ncara da como o processo de desenvolvimento do ser humano, em
interacção social, ou seja , na sua relação com os o utros e também com o meio em que está
inserido. É esta rede de relaç ões que leva o homem a mudanças de co mportamento, de
aco rdo com a f ase evolutiva desse processo que ac ompanha as nossas vidas. Invocando o
pensamento de Nivagara (2011:317), concluímos, portanto, que
A educação é o conjunto das acções, proce ssos, influênc i as e estruturas que
intervêm no desenvolvim en to hum ano de indivíduos e grupos na sua relação activ a
com o m eio nat ura l e so cial, num det erm inado contexto de relações. São esses
processos f orm ativos que constituem obj ecto de estudo da pedagogia e, de modo
geral, das c iências da educ ação.
Nesta p erspectiva, entendemos que compete àqueles que se encontram em fases mais
avançadas do s eu desenv olvimento pessoal e soci al, contribuir para o desenvolvi ment o dos
seus semelhantes. Na verdade, todos nós, enquanto seres sociais, devemos colaborar para o
aperfeiçoa m ento do outro, destacando -se assim, o carácter social da educação, que deve
iniciar-se no seio familiar e que se estende à esf era social, pelas e nas relações que v amos
estabelecendo ao lon go das nossas vidas. No entanto, enqua nto docentes, é imperioso que
destaquemos o contributo de ex celênc ia que a escola presta ao processo de
desenvolvimento integral de cada um de nós. Pela especificida d e das metas da escola, pela
formação profissional d os seus técnicos – os professores – a escola é, por excelência, o
local onde o conh ec imen to aca démico se consubst ancia, se efectua, se concretiza. Assim, à
escola compete – particularmente no que diz respeito ao conhecimento académico – a
criação de c ondi ções propícias para qu e a educação ac onteça.
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
19
É ainda o local por ex celênc ia, onde se reúnem as diferentes fontes do saber – as informais
e não formais, como a formal – numa p erspectiva transdis ciplinar, evidenciando a
realidade que subj az à educação e que a alimenta; a escola é o local, po r excelência, onde a
funcionalidade da educação se conc retiza, ou seja, onde a pedagogia se constrói. Esta
concre tiz ação do process o de desenvolvimento humano é tanto mais eficaz quan to maior
for a transdisciplinaridade fomentada na medida em que o sab er deve se r o estímul o e a
sua (re)construção prom ovida, estimulada e desenvolvida de fo rma integrada e partilhada,
sempre tendo em conta o contexto envolvente, o todo de que faz parte – a realidade
intrínseca, na sua acepç ã o complexa e multifac etada.
Segundo o conceito tradicional de educação, o a luno chega à escola co mo um livro em
branco, um s aco vazio, sendo da competência da escola e dos professores irem
preenc h endo esse livro, ou enchendo esse sa co com determinados conhecimentos e
destrezas intelectuais, d os quais se destacam a leitura, a compr eensão, a escrita e a
capacidade lógico-matemática. Desta forma, ao longo do período escolar, os alunos vão
sendo sujeitos a provas periódica s sobre os conhecimentos pré-estabelecidos e que lhes são
transmitidos e para os quais lhes é exigida, essencialmente, a reprodução com base na
memorização, raramente, se fazendo apelo à compreensão, através da ex perimentaç ão e
posterior abstracçã o e, muito menos, à reflexão e argumentação, ist o é, à metacognição .
Nesta pe rspectiva, a educação é vist a como um modelo e stereotipado, nivelando
conhecimentos; institui -se, pois, como um model o único para todos os alunos, e assume
como objectivo principal ‘moldá-los’ para o mund o do trabalho; por um lado, o professor é
visto como a autoridade máxima detentora do saber , e o seu principal papel é expor o
conhecimento, tr ansmiti-lo e verificar se ele é reproduzido, tan to quant o possível, ipsi s
verbis. A compreensão, a imaginação e o espí rito crítico são, portanto, ignorados; em
muitos casos, ainda continuam a se r descurados.
Por outro lado, desta camos, nesta concepção de educação, e na de ensino que nela está
implícita, a fragmentação do conhe cimento, n ão se proporcionando a int erdisciplinaridade
e, consequentemente n ão promovendo a inte r-relação dos saberes nem tão pouco a inter e a
transdisciplinaridade que, ao não serem promovidas, limi tam a compreensão do todo
contemplado – a realidade em si –; d estacamos, ainda, a sepa ração que leva, para além da
frac tur a, ao isolamento dos sabere s, i gnorando as inter-relações.
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
20
Importa, pois, realçar que a compreensão do r eal só é possível se assumir mos uma atitude
que contrarie ess a fragmentação do conhecimento. Daí que sejam fundamentais as
interconexões entre dis ciplinas e, o diálogo entre as diferentes áreas do saber, alargando,
assim, o foco numa aprendizag em em que a tra nsdisciplinaridade emerj a. Na s enda d e
Nicolescu (2002:50), verificamos que “O pont o de vista transdisciplinar nos permite
considerar uma realidade multidimensional, estruturada por múltiplos níveis, ao invés do
nível único, da rea lidad e unidimensional do pensamento clássico (…)”. Da mesma forma,
Mello, Barros & Sommerman (2002:9-10) destacam que
A Transdisciplinaridade é uma t eoria do conhecim ento, é uma compreensão de
processos, é um diálog o entre as diferentes áreas do sa ber e uma aventura do
espírito. A Trans disciplinaridade é um a nova atitude, é a assi m ilação de uma
cultura, é uma ar te, no sentido da capacidade de articu lar a multir referencialidade e
a m ult idim ensionalidade do ser hum ano e do m undo. Ela im plica numa postu ra
sensível, intelectua l e tr ans cendental perante si m esmo e perante o mundo. Implica,
também , em aprenderm os a decodificar as inform ações provenien tes do s diferentes
níveis que com põem o ser hum ano e como eles repe rcutem uns nos o utros.
Podemos, pois, concluir que, por um lado, a tr ansdisciplinaridade r equer dos docentes uma
mudança de postura fa c e ao ensino e à aprendiza g em m as, por outro, ela é a chave para a
formação integral do ser humano, na medida em que convoca os diferentes sabere s que
cada um vai desenvolvendo, fruto das suas experiências e interacções.
Tendo em conta uma perspectiva etimo lógica, deparamo-nos com éti mos latinos que
desenca d eiam, per se , difere ntes acções, associadas ao termo educação; retomamos a
sistematização feita por L amas (2009):
1. educare – conduzir; levar para, t ransm itir, par tilhar, form ar , or ien tar, m otivar,
aprender, ens inar, instruir, disciplinar social izar, infor mar, moldar, integ rar.
2. educere – tirar de dent ro para fora, motivar, aprender, (re)orientar, comunicar,
interagir, facilitar, construir saberes, desenv olver com petênci as, ganhar
autonomia, responsabi lizar, desab rochar, abr ir horizontes, enrique cer,
desenvolver a (s) inteligênc ia(s).
No nosso ponto de vista, este s egundo étimo parece -nos ser aquele que m elhor se adequa
ao novo pa radigma educativo, pois, desta for m a, a educ a çã o assume-s e c omo al go d e
dinâmico – acções diversificadas – ou seja, acções que despertam o sujeit o, o envolvem, o
levam a um estado de busca de conhecimentos para uma fas e de curiosidade pelo sab er ,
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
21
isto é, para a fase de constante busca de novos conhecimentos, pelo uso d e capacidades,
conducentes ao desenvolvimento de competê n cias, que lhe p ermitam ac ompanhar as
mudanças socia is em que vive, levando-o assim, àquilo que deve ser uma ‘educa ção
contínua e conti nuada’, no dizer de Comenius – a apre ndiz agem desde a nascença até à
morte – contribuindo para o desenvolvimento de todas as facetas da personalidade do se r
humano.
Remontando à civilização grega, ao séc. V a.c., verificamos que a educaç ão era ent endida
como algo mais do qu e a simples transmissão de conhec imentos; era vist a como a
formação global do ser humano. Assim , é na cultura grega que a educação surge como a
preocupaçã o principal da vida do ser humano. Entendendo o conceito de Arete , como “(…)
a força e a destrez a dos g uerreiros ou lut adores e, acima de tudo, a h eroicidade (…)”
(Jaeger, s/d:24), asso ciado ao conjunto de quali dade s físic as, mas sobr etudo espirituais e
morais que o sujeito teria de aprimorar – a virtude, “(…) não atenuada pelo uso puramente
moral (…)”, (op.cit.: 23), concluímos que a educação era or ganizada em função das
qualidades morais a propiciar ao Homem, estando pois, o conceito de educação, mais
relacionado com a cultu ra, ou seja, “(…) a form a integral do Homem, na sua condut a e
comportamento exterior e na sua a titude inte rior.” ( op.cit.: 22).
Desta forma, encaramos também o conceito kalos kagathia pois, no final da época arcaica,
os gregos consideram qu e os apr ende ntes, mais d o que a honra e a glória – por imitação de
heróis (Ulisses e Homer o), ex emplos de coragem, int elig ência e civismo –, têm atingir a
excelência física e moral , associada à aristocracia cavaleiresca. O ser humano tem, então,
de procurar atingir a bele za ( kalos ) e a bondade ( kagathos ). P ara tal, emerge a propo sta de
um prog rama educativo composto pela ginástica , para o desenvolvimento do corpo, e pela
música, aliada à leitura e ao canto, pa ra o desenvolvimento da alma. Mais tarde, este
programa educativo completa-se com a gramática. Na verdade, trata -se de aperfeiçoar o
homem pela arte da linguagem. Recorrendo de novo à Paidéia (Jaeger , 1995:24),
perce b emos a importância dada à educação do espírito e do corpo, na mesma medida,
apontando de forma explícita a importância da formação integral do indivíduo:
A formação manifesta-se na f orm a integral do Homem, na sua conduta e
comportam ento exterior e n a sua atitude inte rior. (…)
É fato fundamental da história da form ação que toda a cultura superior surge da
diferenciação das clas ses sociais, que por sua vez se orig ina da diferença natu ral de
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
22
valor espiri tual e cor p oral dos i nd ivíduos. Mesm o onde a diferenç a de f orm ação
conduz à consti tuição de castas rí g idas, o princípio da herança que nelas domin a é
corrigido e compensa do pela ascensão de novas forças procedentes do pov o. E
ainda, quando uma brusca mudança arr uína ou destrói as classes dominante s,
forma- se r apidamente , pela própri a naturez a das coisas , uma classe d irigente que se
constitui em nova aristocracia.
Importa ainda salientarmos que, na mesma obra, ( op.cit .:651 ), se destaca a importância qu e
a retórica assume para a mencionada formação integral. Na verdade, podemos, pois, inferir
da importância do conhecimento da língua e d as competências comun icativas para o
desenvolvimento integral do ser humano, uma ve z que a retórica, tal como é mencionada
na Paidéia se relaciona directamente com o domí nio da lí ng ua – “Não fora m os arquitectos
e en g enh eiros navais, (…) quem lev antou as fo rtificações e os portos de Atenas, mas sim
Temístocles e Péricles, que, apoiados no pod er da retórica, conv encera m o povo da
necessidade de rea liz ar estas obras. ”.
No entanto, a partir do séc. V a. c., começa a ex igir-se mais da edu cação. Para além de
formar o ser humano, a educação, na sua essência, tem também de formá-lo para a cidade,
na qual vive e ac tua. Desta forma, o ideal edu ca tivo da civilização g r ega surge como
Paideia , ou seja, a essência da educação, enquanto condições que permitem que o Homem
sinta o desejo de se tornar um cidadã o perfeito, tendo a justiça como alicerce da sua
formação, assumindo, de sta forma, um carácter mais associado à ética. Segundo a Paideia ,
o resultado da educação é al go que se p rolonga p or toda a vida do indi víduo, uma vez que
se trata “d a formação d o espírito, destinado a fazer participar o indivíduo no universo
intelectual e e spiritual da socieda de.” Arénilla, Gossot, Rolland & Rossel (2 001:180).
Arriscamos dizer que parece ser esta a conceptu alização que s e pretende recuperar, nest e
século da globalização. Na verdade, a formação integra l e continuada do indivíduo
constituem as preocupações que, cada v ez mais, se destacam nas políticas e uropeias, sob re
as quais reflectire mos no ponto quatro da primeira parte deste trabalho.
Etimologicamente , o te rmo ‘pedagogo’ remonta à antiguidade grega, sendo usado para
designar o escravo qu e e ncaminhava , qu e conduzia as crianças ao mestre encarregue de as
ensinar. Daí que a relação entre pedagogia e o ensino seja estreita e se tenha perpetuado n o
tempo. No entanto, este termo sofreu uma grande evoluçã o, ao longo dos t empos, sendo a
evolução social a grande responsável por essa alte raç ão. N a verdade, ced o se verificou que
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
23
não bastava ensinar – transmitir conhecimentos ao ser humano; era ne cessário educá -lo, ou
seja, contribuir para a su a formação ética, assumindo então o pedagogo um papel essencial.
Relembramos aqui, uma da s fontes etimológica s de educa r – educere – que significa
“conduzir para” (C abra l et al, 1989:1083); segundo este autor, a partir d o R enasc imento
tenta-se separar, de novo, pedagogia de educação, definindo aquela como ‘ teoria que torna
a acção educativa melhor’, o qu e se deve em grande parte ao avolumar d e conhecimentos
científicos na época e à valorização da razã o, p articularmente os saber fazer e o saber
( op.cit: 1083); o saber ser foi descurado nesta fase.
No início do século XX, os autores da escola nov a consideram que, afastada a a fec tividad e
da esc ola, não se conse g uiria formar integra lm ente o homem e, por is so, pedagogia e
educação voltaram a est ar intim amente li gadas, passando então a pedagogia a ser vista
como o conjunto d e tod os os meios usados p ara que a educação aconteça, necessitando,
assim, a educação, de conhecimentos, de técnic as educativas e também da arte de as pô r
em prática – a p edagogia como suporte, como meio para viabiliz ar a educação. Na
verdade , a pedagogia, passou a ser encarada como o confronto de teori as passíveis de
perspec tiva r a e du cação; a teoria e a reflexão que levam a uma melhor p rática educativa.
O(s) saber(es), convocados, questionados e (re)construídos em situação formal , informal e
não formal necessita(m), para se consubstanciar(em) em conhecimento, de técnicas que
o(s) torne(m) apreendível(eis) e integrado(s). Surge, então, a necessidade de aboradarmos o
conceito d e didáctica, ou seja , de nos questionarmos sobr e a ne cessidade de nos
confrontar mos com
- a identifica ç ão objec tiva do saber a foca liz ar e trabalhar;
- a operacionalização de meios – estratégias, a ctividades, recursos, entre
outros;
- o envolvimento sujeito/ objecto.
É controversa, até hoje, a distinção entre pedagogia e didáctica . Se esta é encarada como “a
ciência e a arte de ensinar” (Cabral et al , op.cit. :247), facilmente se entende a dificuldade
de a distinguir da ‘teoria que torna a acção educativa melhor’. De acordo com os mesmos
autores, o c onc eito de didáctica des envolve-se particularmente na segunda metade do
século XIX, aquando d a clarificação dos con ceitos de ensino e de apre ndi zage m. Assim, a
actividade didáctica p assa a ser estrutur ada em cinco fases – preparação, apresentação,
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
24
associação, generalização e aplicação – f ases esta s que ainda hoje são a ba se que sustenta a
planificação do ensino e , por inerê n cia, da apre ndi zagem.
Na segunda metade do século XX, com a importância dada ao desenvolvimento curric ula r
e com a rentabilidade qu e passa a ser exigida à acção doc ente, a avaliação passa também a
ser considerada como fundamental para a ac tividade didáctica. O qu e inicialmente era visto
como uma arte, foi assumi ndo, ao longo dos tempos, um carácter cada ve z mais normativo,
na medida em que a avaliação passou a implicar um ‘pr estar contas’, um ‘medir os
conhecimentos’, o que passou a condicionar a a cçã o doce nte.
Desde a antiguidade grega até ao século XX qu e a didáctica assume o pa pel de ‘resolver
os problemas da educação’ a priori; pensava-se na educação, em quais eram as melhores
metodologias e técnicas a adoptar, em função dos objectivos da educa ção e agia -se em
conformidade com isso. Hoje em dia, a tendência é inversa isto é, a didáctica tende a
resolver os problemas d a educação a posteriori , na medida em que é “(…) a partir do
estudo dos problemas concre tos das actividades de ensino, aprendizagem e a valiação.”
( op.cit.: 248), que os pr ofessores tentam melhorar a eficácia do processo ensino -
aprendizagem.
Destaca mos que a divisão entre pedagogia e didáctica apenas se acentua, a partir do século
XIX, com o desenvolvim ento das ciências da educação e com a maior preocupação com as
questões edu cativas. Essa distinção começa a tra çar-se, sendo ainda hoje alvo de atenção,
particularme nte promovi da pelas grandes a lteraç ões sociais qu e temos v indo a assistir.
Assim, é oportuno apresentar o pensamento de M artins (2011:51), qu e aponta exactamente
para a consciência dessa indefinição entre pedagogia e didáctica , ao longo dos tempos.
Na Grécia as noções sobre prátic as educativas apresentav am -se limitadas e
incompletas. Em termos práticos, o saber educar consistia num saber intuitiv o, não
reflexivo e apoiado nas qu alidades pessoais e form ativas do educador (a educaç ão
como arte), pois o saber educar fazia pa rt e de um saber popular (conhecim ento pré-
científico) que se transm itia aos educando s. Des te m odo, as reflexões sobre a
prática educat iva eram inexisten tes . O estatuto do saber pedagóg i co começou a
constituir- se com J. A, Com eni us (século XVII ), sendo considerado uma derivação
do saber fi losófico (Rico, 2009).
Retomando o conc eito de e ducação, destacamos que , em g rande parte, e la é também
influenciada pelo pensamento de Dewey, apresentado por Westbrook & Teixeira
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
25
(2010:37), na medida em que ele a define como sendo “(…) o processo de reconstrução e
reorga niz ação da experiência , (…) e com isso no s habilitamos a melhor d irigir o curso d e
nossas experiências futuras”.
Podemos, pois, concluir que educação é a p rópria vida no seu desenrolar, no seu acontecer.
A pedagogia é, neste contex to, tudo o que facilite o processo de educação, enquanto a
didáctica se concentra na identificação do saber na sua espec ificidade, na s técnicas e na
arte de pôr em prática essa especificidade, c riando condições para que, na (re)construção
do saber, este possa s er usado em função das necessidades do sujeito, das condiçõe s
contextuais e epocais.
Em termos esquem áticos, apresentamos os tr ês conceitos em destaque – educação,
pedagogia e did áctica ; a i ntenção é p erspectivar a relaçã o intrínse ca e nt re el es existente:
Figura 1 – Educação, Ped agogia e Didáctica - sistematização
Debruçar-nos-emos, em seguida, na ap rese nt ação ainda que sumária, de uma perspectiva
diacrónica do conceito de didáctic a.
1.1 A emancipação da Didáctica: Comenius, R ousseau , P estaloz zi, Fröe bel
Destaca mos Co menius, pela sua importância reconhecida, até aos nossos dias; no século
XVII, o autor considera a sua obra Didáctica Magna (2001:7,8) como um “Tratado da Arte
Universal de Ensinar T udo a Todos”, assumindo, assim, a didácti ca co mo ‘arte’, como
Educa ção - processo de desenvolvimento humano, qu e leva à muda nça de
comportamentos, em função do desenvolvimento de conhecimentos e
competências; em consonâ ncia com a vida
Pedagogia
Didáctica
Processo transdisciplinar sustentado teoricamente,
propiciador da edu cação
Ciência
Arte
Técnica
Domínio da especificidade de determonad o saber
Capacidade de relacionamento humano
propiciado r da empatia necessária à educação
Meios tecnológicos (inter)disciplinares
facilitadores da educação
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
26
‘ciência’, f acilitadora da aprendizagem, promovendo a educação, na me dida em que se
trata de um
Processo seguro e excelente de institu ir , em todas as com unidade s (…) escol as tais
que t oda a juventude de um e de ou tr o sexo, sem excetuar ninguém (…), possa se r
formada nos estudos, educada nos bons costumes, impregnada de piedade, e, desta
m aneir a, possa ser, nos anos da puberdade, instruída em tudo o que d iz respeito à
vida presente e à futura, com econo m ia de tempo e de fadiga, com a grado e com
solidez.
Afirma ainda que “A pro a e a popa da nossa Didá tica será investigar e d escobrir o método
segundo o qual os professores ensinem menos e os estudantes aprendam mais (…)”
( op.cit.: 8), o qu e nos leva a pensar que os mét odos activos estariam já na sua linha de
pensamento. Por outro lado, considera também que o melhor modelo a seguir é a natureza,
que nos ensina não apenas o que ensinar, mas sobretudo qu ando e como o fazer,
obedecendo, de acordo c om Castro (1991:16), “(…) à utopia da época: a idéia b aconiana
dá atenção à natureza – esta é o modelo que os didatas supõem im itar quando aconselha m
seguir sempr e do fácil ao difícil, ir das coisas às ideias e do particular ao ger al, tudo sem
pressa.”.
Após esta preocupação manifestada por Comenius , relativamente à ‘arte de ensinar’,
podemos afirmar que pouco se evoluiu , em t ermos epistemológicos e conceptuais, at é ao
século XX, momento em que, em consequência das alterações polític as, económicas,
tecnológ i cas e sociais, a escola se viu obri ga d a a repensar o seu papel e ne cessar iam ente a
adaptar as suas p ráticas, para, assim, dar respost as às novas nec essidade s dos alunos. Na
verdade , a escola teve d e encontrar novos meios, novas estratégias, novos instrumentos
para efectivar o se u p apel – preparar cidadãos conscientes e c omp etentes.
No entanto, é importante mencionar que, no s éc ulo XV III , Rousseau preconiza, na su a
obra Emile , publicada em 1762, aquilo a que Castro ( op. cit. :17) intitula de “segunda
grande revolução didác t ica”, n a medida em que propõe uma nova form a d e e ncarar o
aluno, pois defende que uma criança não pode se r encarada como um adulto pequeno, um a
vez que passa por estados de desenvolvimento distintos, dando portanto, orige m a um novo
conceito de infância. Assim , para pod ermos educar uma c riança h á que conhecer as suas
caracter ísticas e, consequentemente, o e stado de dese nvolvimento em que se encontra.
Consideramos que se anuncia aqui aquilo qu e, apenas no séc ulo XX, se encara como
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
27
óbvio, mas que, mesmo assim, não facilmente aplicáve l para alguns. Na verdade, Rousseau
defende que a educação só se consegue verdadeiramente se se basear nos interesses da
criança e não nos do adulto, ou seja, se for pensada em função de quem a recebe e não d e
quem a ministra. Ro usseau vai, então m ais além, em termos didácticos, po is ao enfatizar a
natureza da criança, ele sugere um método de ensino natural, que deve ser posto em prátic a
sem pressa, sem li vros e, acima de tud o, em contacto com a naturez a, d ado o carácter
intrínseco que esta assume nas nossa s vidas.
Aprendemos, d esde que nascemos, mesmo que não tenhamos essa consciência – “(…)
man’s edu cation b egins at birth; b efore h e can speak or understand he is learnin g.”
(Rousseau, 2007:29). Por isso, o autor enfatiza a naturalidade com que se aprende. Por nós,
reitera mos a ideia de que aprender é parte int egrante do crescimento hu mano, daí que o
autor defenda a procura da abordagem natural e em ambient e o men os contaminado
possível pelas transformações sociais. Alertamos para aquilo que aparenta s er uma
contradiçã o na natur eza humana – a dicotomia en tre o ser so cial e o s er natural, na medida
em que considera que, por um lado, o Homem destrói a natureza – “God makes all things
good; man meddles with them and they b ec ome evil.” ( op.cit.: 6 ) – e, po r outro, depend e
dela para se formar um ser perfeito e capaz de sobreviver. Na verdade, o pensamento de
Rousseau revela uma necessidade vital do ser humano, face à educação, como podemos
concluir pelas seguintes palavra s: “Plants are fashioned by cultivation, man by edu cation”
( op.cit.: 6). Destacamos, assim, a ideia de que a educação é um acto, ant es de mais, de
sobrevivência, pois “W e are born weak, we need strength; helpless, we need aid; foolish,
we nee d reason. All that we lack at birth, all that we ne ed when we c om e to man’s estate, is
the gift of education.” ( op.cit: 7).
Quando se refere às origens da educação, Rousseau menciona três fontes essenciais:
(i) a nature za;
(ii) os homens;
(iii) outras coisa s;
atribuindo a cada uma delas tarefas específicas – “The inner grow th of our organs and
faculties is the education of nature, the use we learn to mak e of this growth is the education
of men, what we gain by our ex perie nce of our surroundings is the education of things.”
( op.cit. :7). A este ponto do trabalho, gostaríamos de destacar um outro fa ctor relevante do
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
34
enquanto técnico, ‘orquestrar’, fomentar e p romover esse envolvimento. Assim , a arte do
diálogo é também ela essencial. Todavia, que o conhecimento académico – a ciência – não
é descurado. Ele é um dos objectivos principais da educação, mas não destacado como a
essência; s erá antes um a das componente s a considerar no todo d a actividade que se
desenvolve com a criança. É ela quem, pela sua curiosidade, int egra d a num contexto do
seu dia-a- di a, questiona a rea lidade e conduz à descoberta do conhec imento .
Para efectivar a proposta, Freinet sente como imperioso sair da sala de aula e contactar
directamente com a vida, recorrendo ao trabalho artesanal. Assim, su rgem as “aulas -
passeio”, que, na óptica de Legrand ( ibid:ibide m ), têm por finalidade “(…) observar o
ambiente natur al e humano (…)”. Depois, numa outra fa se do processo ensino-
aprendizagem, d e regresso à sala de aula, é feit a a recolha dos ‘f rutos da observação’,
particularme nte recorrendo à criação de tex tos que, depois de corri g idos e enriquecidos
serão a b ase da aprendizage m d as competências c o municativas.
Na verda d e, Fre in et assume-se como um homem simples. No prólogo da obra Pedagogia
do bom senso (2004:1), ele afirma que:
Minha longa experiência dos hom ens simples, das crianç as e dos anim ai s
persuadiu-m e de que as leis da v ida são gera is, naturais e v álidas para todos os
seres. Foi a escolástica que complicou perigosamente o conhecim ento dessas leis,
fazendo- nos crer qu e o com portamento dos indivíduos não obedece senão a dados
m ist eriosos, cuja pa ternidade é reiv indicada por uma ci ênci a pretensiosa, num a
espécie de reduto a que a gente do povo, incl usiv e os professores primários, não
tem acesso.
Um outro aspecto que nos parece curioso no pensamento de Freinet é a pouca valoriz ação
que ele d á ao contex to, na medida em que ele con sidera que a p reocupação excessiva com
o contex to pode “(…) impedir que venham à tona os verdadeiros intere sses da criança.”
( op.cit.: 16). Se gundo Legrand (2010 ), par a Fr einet, o contexto só se torna relevante
quando há intencionalidade de agir sobre ele e de o transformar. Desta forma, o estudo do
contexto impor ta , mas como objecto de descriçã o exaustiva, para ser comunicado ao outro.
Para ele, comunicar é a forma de soci alização, po r ex celênc ia, cujo inst rumento é a escrita.
Daí, quanto a nós, a sua preocupação no desenvolvimento de competências comunicativas
e na partilha das suas experiênc ias.
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
35
No processo ensino -aprendiz ag em, Freinet valoriza o trabalho individu al dos alunos e, por
isso, a centralidade do ‘tex to livre’, mas ao mes mo tempo, o trab alho colaborativo, pel a
escolha participada dos ‘textos livres’ a inse rir no ‘jornal escolar’ – a partilhar com a s
famílias dos alunos e com a comunidade – e a fazer parte integrante da ‘correspondênc i a
interescolar’ “(…) pela q ual uma escola comunic a a outras o essencial desses testemunhos
individuais, escolhidos de forma democrática em sala e editados coletiv amente para sua
comunicação (…)” (Legrand, op.cit. :16).
No que diz respeito à gestão do tempo, para a a prendizagem , Freinet apresenta uma
perspec tiva nova e que vem a ser adoptada p elos s eus seguidores. S eg undo ele, os
acontec imentos do dia- a-dia salientam-se como os mais importantes a t er em conta; no
entanto, re comenda que o imprevisível seja também equa cionado, reconhecendo que a
tomada de consciência d os alunos , r elativame nte a este aspe cto, levará ao desenvolvimento
da autonomia dos alunos. Para isso, ele opta pelo uso de períodos de tempo para
actividades em grande grupo, mas também recorre à elaboração de ‘plan os de trabalho’
individualizados, pensad os e desenvolvidos por cada um dos alunos, semana lmente. E stes
planos de trabalho p ermitem também apurar o s entido de r esponsabilidade assumido pelos
alunos, pois eram enca rados como compromissos ou, como lhe chama Legra nd
( op.cit.: 26), “contratos p essoais de trabalho”, estratégia que visava conquistar “(…) uma
autonomia e um senso do social totalmente ausentes entre os alunos da escola tradicional.”.
Da mesma forma, a avaliação foge a os parâmetros tradicionais de então. Dada a
importância que este pedagogo lhe confere, ao invés de s er pontual, e realiz ada através de
provas colectivas, ela é essencialmente um p roce s so de autoavaliação, no qual os próprios
alunos se consciencializam das aprendiza g ens desenvolvidas. Para este efeito, Fre inet
desenvolve o sistema d e “fichas de autocorrecção” que os alunos podiam aplicar, quer por
iniciativa própria, qu er por indicação do professor , para tomarem consciência das suas
aprendizagens ou dificul dades. Ao mesmo tempo, os alunos eram convidados a criar o seu
‘livro da vida’ – próximo ao diário, de reg isto livre, em que o aluno escreve o que quiser,
sobre o que quise r e qua ndo sentir vontade. Esta actividade visa particul armente motivar
para a expressão livre e descomprometida assim como a partilha do apreendido através da
comunicação com o outro, ac tividades que pode m servir de sust entác ulo da aprendiza g em
e, em simultâneo, de ponto de partida para nova s apre ndiz age ns.
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
36
A filosofia da escola moderna conside ra tam bém a avaliação como algo inerente ao
processo ensino- apre ndiz agem, assente não só na observa ção, mas os re g is tos colectivos e
individuais da perc epção do desenvolvimento do processo, pelo recurso ao diário, às
comunicações, ao debate e à reflexão , em assembleia; a av aliaçã o p erspectivada no sentido
da auto-regulação, numa óptica construtivista que aponta para avanços e recuos, análises e
problematizações, que s e transformam em verdadeiras ap rendiz agens. Esta pode fazer-se a
vários níveis, sendo que pontualmente e de forma sistemática os pais são convidados a
participar, pr o cedendo, nesse momento, a um balanço do trabalho desenvolvido.
Queremos desta car d a obra de Freinet a sua ino vação em termos peda g ó g icos, pois ele é
essencialmente um homem de acção, que inova em termos metodológ icos e cuj a
preocupaçã o com a diss eminação d e conceitos, de práticas e de materiais é notória. Esta
preocupaçã o, quanto a nós , e na senda de Legrand ( op.cit. 27) , dev e-se ao facto d e que
“Freinet acreditava na pedagogia como um c aminho ou até mesmo como o caminho para
transformar a humanidade.”. Assim, ao se guirmos a sua prática, estamos a contribuir para a
regeneração social. Su bentendemos aqui, a perspectiva política de Freinet. A este
propósito, Legrand ( op.cit.: 28) afir ma qu e
A renov ação do ensino, i ndispensável p ara a libert ação do homem , não se dá
m ediant e discursos e t ext os, mas com práticas e meios técnicos que, d e alg um
m odo, tornem real essa l ibe rtação. A impren sa é a técn ica por exce lência, é ela qu e
m elhor m aterializa o pensa mento e a com unicação esc rita.
Na ve rdade , como qualquer outra corrente da e ducação nova, a pedagogia de Freinet
promove a espontaneidade e a autonomia dos alu nos, pelo rec u rso a méto dos activos e pel a
promoção do trab alho e do espírito coope rativo, pois para ele , a prop ensão natural da
criança é para o tr abalho e não p ara o jogo. Assim, outra novidade do trabalho de Freinet é
o incentivo ao trabalho de campo, ao in citar os alunos a saírem d a sala de aula,
observando, assim, quer o ambiente quer a comunidade . Ao mesmo tempo, Freinet convida
também os pais a participare m nas aulas.
Não g ostaríamos de concluir e sta nossa apresentação do trabalho de Freinet , sem
partilharmos uma das suas experiências relatadas (2004:36-37), cujo título é Por que
trabalhar? , onde o autor nos dá a conhecer o pensamento de uma criança.
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
37
Por que traba lhar? – poderia dizer candidam ente a criança de ho je... (…)
O essencial do que o mundo nos oferece ou nos i m põe são a bola, os soldad os de
chumbo, as coleções de figurinhas e nossas revistinhas... sem contar o cinem a,
sempre que po demos entrar.
Trabalhar! Se algum di a pego clandestinam ent e a pá do pedreiro, a enxada ou o
carrinho do j ardineiro, o martelo ou o alicate do meu pai , sou perseguido como s e
tivesse com etido um cri m e.
Escavar gruta s, construir ca stelo s, preparar uma sem entei ra, levant ar barragens,
esquadrinha r os riac hos, montar e desmontar m áquinas seriam para m im as mais
apaixonantes ocupações, a tal ponto que esquecer ia o Mickey ou o cinema; m as,
infelizm ent e, são fr uto pro ibido: par ece que su j amos a roupa, esfolamos dedos e
pernas, perdem os a ferram enta... E então mandam- nos par a aquilo que dep ois
chamam de futilidades.
O trabalho, para nós, concluiria esta criança, é a maldição, a ferramenta que suja as
m ãos, a f ábric a que estraga nossa vida, a esc ravidão qu e nos desonra.
Só o divertim ento nos faz desabrochar e nos li b era. Veja as suas v edetes.
E, com ef eito, poderíam os fazer nosso mea culpa reconhecendo que há erros nos
princípios da nossa educação e que é, em primeiro lugar, pelo t raba lho que se
prepara par a o trabalho, nu ma escola e numa soci edade do trabalho.
Se retomarmos a ori gem etimológica de educação, sistematiz ado por Lamas (2009, d.4) e
já por nós apresentado – educere –, cujo significado é “ tirar de dentro para fora, motivar,
aprender (…) ”, compreendemos que é esta a id eia que está na b ase da t eori a educativa dos
seguidores do moviment o da escola moderna, n a medida em que ela parte daquilo que o
aprende nt e já sabe e já é, constructos que o professor potencia, para o desenvolvimento das
capacidades a eles ine rentes. A teoria educativa em causa defende que as crianças são
capazes de aprender de forma activa, bus cando as soluçõ es para o s seus próp rios
problemas. Há, pois, subjacente ao trabalho desen volvido por Freinet a pre ocupação de um
envolvimento efe ctivo e afe ctivo das crianças no trabalho que lhes propõe a partir do que
nelas está presente – experiências passadas, capacidades inatas, desejos de descoberta.
O a luno passa a ser o centro da aprendizagem. Pelo pensame nto de L eandro (2008),
depree nd emos que o processo educativo , na linha se Freinet, se des envolve atr avés de um a
interacção consta nte q ue aproxim a professor es, alunos e familiares, bem como a
comunidade em geral. Ao mesmo tempo a liberdade de expressão dos alunos é também
fundamental, pois as actividades de exploração co nduzem ao questionamen to, por pa rte da
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
38
criança e, a partir daí se desenvolve a consolid ação de conhecimentos. A sua liberdade
passa também pela esc olha de actividades, sendo portanto o professor um guia, um
orientador, mais do que alguém que apresenta o saber.
Relativamente a J ohn Dewe y, não podemos deixar de salientar o seu papel de “reformador
da educação”, classific ação atribuída por Westbrook & Teix eira (2010:11), na medida em
que o filósofo norte-americano defendia a uniã o da teoria e da prá tic a, uma vez que
considerava essencial co mprovar o pensamento com a acç ão, para assim se transformar em
conhecimento. Desta forma, no que diz respeito à educação, Dewe y considerava que a
aprendizagem dependia do confronto que cria nças ou adultos e nfrentam, no dia-a-dia .
Assim, se o pensamento era a forma de resolver e sses problemas, a sua res olução seria, d e
acordo c om o filósofo-pedagogo, o próprio conhecimento.
Um outro aspecto, qu e consideramos de extrema pertinência, pela im portância que assume
para o trabalho doc ente, ist o é, pela relevância qu e tem na perspectiva didácti ca , é o facto
de que, para Dewe y , as crianças não são ‘tábuas rasas’, nas quais, retomando as palav ras
de Westbrook, & Teixeira (2010:15) “(… ) os professores poderiam escrever as liçõe s
sobre a civiliz açã o.”. O professor d eve ter em conta que a c riança, quan do chega à aula,
“(…) já é intensamente ativa e a incumb ência d a educação consiste em assumir a atividade
e orientá-la”. ( Dewey, 1899:25). Para além deste background, Dewe y r ecomenda qu e o
professor considere que a criança tem também interesses e está habituada a determinadas
tarefas quotidianas do seu contexto familiar e social que devem ser utilizados, enquanto
‘matéria prima’, p ara se t ransformarem e m conh ecimento. P ara que ist o ocorra, o professor
não pode e sque ce r os quatro “impulsos inatos – o de c omunicar, o de construir, o de
indagar e o de expressar-se de forma mais precisa” – que constit uem “os recursos naturais,
o capital para investir, de cujo exercício depende o c resc imento ativo da criança”
( op.cit. :30).
Destaca mos, então, do pensamento de Dewe y , a importância que ele atribui para que a
educação aconteça de fo rma natural:
- ao contexto de onde provém o aluno ;
- à necessidade dos professores ‘usarem’ os conhecimentos que os alunos
possuem, e que foram desenvolvidos e m a mbientes nã o for mais e/ou
informais; e,
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
39
- à necessidade de conhe cer a natureza humana, e os “impulsos inatos” do
ser humano.
Enfatizamos a opinião de Westbrook & Teixeira (2010:15), ao apont ar as críticas a Dewey
como sendo alvo, quer “(…) dos defensores de uma educação tradicio nal, centra d a no
programa (…)”, quer dos “(…) reformadores românticos, que de fendiam uma pedagogia
“centrada na criança” (…)”. Estas devem- se ao grande du alismo entre estas duas facções.
Os mesmos autores ( op. cit .:17), referem que
É muito conhecida a cr ít ica que Dewey faz aos tradicionalistas por eles não
relacionarem as disciplinas do prog rama de estudos com os interesses da crianç a.
Em contr apart ida, amiúde passa m por cima seus ataques contra os partidários d a
educação centrada n a criança, por não re lacionarem os int eresses e atividades
infantis com os c om ponentes da grad e curricular.
Para Dewe y , os professores têm uma tarefa extremamente difícil que é a de inte grar os
conteúdos na ex periê nci a, na medida em que considera que o conhecimento é o resultado
do esforço do homem p ara resolver os problemas colocados na/pela experiência. Por isso
mesmo, a experiência precede a tomada de consciên cia do conhecimento, ou seja, a prática
conduz, pela reflexão, à teoria. É à escola, e por inerênc ia ao professor , q ue cabe a tarefa
de criar condições para, de forma natural e harmoniosa, transformar os resul tados da
educação não fo rmal e/ ou informal em educação formal, atendendo às componentes da
“grade cu rricular”, isto é, os prof essore s, enquanto pedagogos e didactas, têm de con seguir
a articulação entre os conteúdos a abordar em cada disciplina e em cada ano de ensino,
com os conhecimentos e competências que os alunos desenvolveram em contextos
exteriores à escola. Está, pois, em evidência a ne cessidade de n ão criar b arre ir as en tre a
educação formal e a não formal; bem pelo contrário, importa sempre enfatiz ar as conexões,
reforçá- l as e delas tirar partido.
Em suma, Dewey apresenta a educação como uma reconstrução e reor g anização d a
experiência, reorganização essa que nos p ermite maior eficácia em experiências futuras. É
neste sentido que temos de considerar a importância da soci edade no processo de
aprendizagem. Na ve rdade, a educação é um acto de renova ção social, pois o acumular de
experiências leva à criação d e crenças, ideias, esperanças, ou em sentido mais lacto , à
cultura – às ex periênc ias de um g rupo social, q ue se renovam, pela ed ucação dos seus
elementos. Por conseguinte, Dewey considera a educação c omo sendo
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
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el medio de (…) con tinuidad de la vida. Cad a uno de los elem entos constitu ti v os de
un grupo soc ial (…) nace i nm aturo, indefenso, sin lenguaje, creencias, ideas ni
normas sociales. Cada indiv iduo, cada unidad de portadores de la experiencia vital
de su g rupo desaparece co n el ti em po. Y si n embargo, la v ida d el g rupo continúa.
(Dewey, 2002:1 4)
Na verdade, para ele, a e ducação é a própria vida da sociedade, na medida em que “Lo que
la nutrición y la reproducción son a l a vida fisiológica, es la educación a la vida social.”
( op.cit. :20-21). A este propósito, enfatizamos ainda a importância que a comunicação e,
consequenteme nt e, a linguagem assumem no pensamento deste filósofo, na medida em que
é pela comunicação que se dá a r enovação soci al, pela p assagem d e testemunhos dos mais
velhos para os mais novos, ou seja, “La sociedad ex iste mediante un proceso de
transmisión (…). Esta transmisión se realiza por medio de la comunicación de hábitos de
hacer, pensar y s entir de los más viejos a los más jóvenes.” ( op.cit. 15).
A ALV sur ge então com o forma de cada um se enriquecer e melhorar a consciência de si e
do mundo que o rodeia. Segundo este ponto de vi sta, afirmamos a centralidade do aluno na
aprendizagem e, por essa razão, adoptamos uma metodologia de trabalho em que os alunos
são encorajados a desb ravar c aminhos e a const ruir conhec imentos, o q ue estamos certa
surge na linha de pensa mento de Freinet que defende a curiosidade como fonte de ignição
para a aprendizagem. Tal como vere mos na pa rte empírica desta tese, part imos da criação
de instrumentos, a que chamamos guias d e a prendizagem, pa ra l evar os alunos ao
questionamento e, através da investiga ção, desenvolverem os seus próprios projec tos de
trabalho, par tindo de su gestões nossas, em acordo com as suas opções pessoais.
Alertamos que, se por um lado, há momentos em que é útil promover situa ções de trabalho
individual, por outro, reconhecemos a socialização como fundamental, especialmente se
pensarmos que esta é um dos valores que tem vin do, na actualidade, a dar lugar a um maior
individualismo; este valor é apontado por S antos Guerra (2002) como um dos que marcam
a contemporaneidade. Po r isso, incentivamos os alunos a desenvolverem pr ojectos comuns
que têm implicaçõe s no seu relacionamento int erpessoal e cujo êxito depende dos níveis de
responsabilidade individual, mas, muito particul armente, do trabalho colaborativo e da
partilha. Com estes trabalhos, promovemos o desenvolvimento de competências
individuais relacionadas com o saber e com o saber fazer , ao mes mo tempo que
estimulamos também o saber estar e o saber (com)vive r . Enfatizamos ainda, a promoç ão
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
41
da autonomia, associada à centralidade dada ao aluno , não apenas tendo em vista o
desenvolvimento pessoal, mas também como meio de gerar uma m elhor consciência de si,
das suas ne c essidade s e da interacção com os outros. Por último, pretende mos que o
desenvolvimento dos alunos se re flicta em termos de interve nção social e comunitária.
Noutro momento desta tese doutoral, destacamos como as comp etências linguística s são
fundamentais para a for maçã o dos indi víduos. Esta é a razão pela qual ad optamos algumas
das propostas de Freinet, nomea damente no que c oncerne à prod ução e scrita, e
subsequente auto-correcç ão, já que pensamos ser de particular importância o aluno ass umir
a consciênc ia do erro e ter a oportunidade de rectificar a falha detectada, podendo
aperfeiçoar as suas competências comunicacionais . Neste sentido, valorizamos uma
avaliação contínua, e inv ocamos (Boggino, 2009:83) que indica que:
No seu trabalho d iário na sa la de aula, o docente avalia continuamente e é,
precisamente , em função dos er ros que os alunos com etem ou dos conheci m en tos
que têm dos conteúdos abordados, que o professor poderá dar um contr a -exem pl o,
colocar uma pergunta ou dar uma inform ação, mas sempre partindo do
conhecim ento acerca da pr odução do aluno.
Ciente de que o envolvimento dos alunos é efectivo, estamos certa que esta perspectiva d a
avaliação é mais um contributo para fomentar, de forma natural os quatro “impulsos
inatos” ao ser humano ( Dewey , 1899) – comunicar, construir, inda gar e expressar -se de
forma precisa –, os quais estão sempre presentes na nossa actividade, enquanto docente d e
língua e liter atura maternas.
Face ao exposto , podemos afirmar que a p rimeira metade do sécul o XX assiste à
emergê n cia de contribut os determinantes p ara a consolidaç ão das tarefas da didáctica, que
ainda hoje são pertinentes.
1.3 O desenvolvimento c ognitivo: Piaget e Vigotsky
Não podemos deix ar de mencionar o contributo de Jean P iag et p ara o mundo da educação .
Apesar d e nã o s er ped agogo, em termos prof i ssionais, este psicólogo suíço de monstra
grandes preocupações no que diz respei to à forma como a edu cação deve s er encarada, na
medida em qu e, p ara ele, a educação é a t arefa principal dos povos, pois conduz à
(re)construçã o social. E ste pensamento sur ge, particularme nte na épo ca da II Guerra
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
42
Mundial, como afirma Munari (2010:17), ao comentar as seguintes palavras de Piaget, no
“Discurso do Diretor” , para a décima primeira reunião do Conselho do Bureau
Internacional de Edu cação: “Após os cataclismos que marcaram estes últimos meses, a
educação constituirá, uma vez mais, o fator decisivo não só da reconstrução, mas inclusive
e, sobretudo, da construção propriamente dita. ” (Piaget, 1940:12 ). Es te é o grande
argumento que leva Piaget a considerar qu e a educação d eve estar acima de qualquer
diferença ideoló gica e políti ca; daí que, de a cordo com o s eu ponto de vista, a grand e
questão passa por s aber o que fazer, que tipo de educação da r às cr ian ça s.
Assim, e como consequência destas suas preocupações, resultantes da importância que
atribui à educação, e a o tomar consciência de que esta es tá à mercê de influências
sociopolíticas, particularmente após ter aceitado o cargo d e Director do Bureau
International d’Éducation [ BIE], em 1929, ele aponta algumas regras chave para que a
educação se con cretize, através de “técnicas melhor adapt adas ao espírito infantil (…)”
(Piage t , 1976:17). Em p rimeiro lu g ar, menciona a importância do exemplo que deve s er
dado à criança. Pa ra ele, a eficácia d a educação não r eside na coerção, mas antes nos
exemplos que os adultos dão à s crianças.
Realçamos que a sua grande preocupação foi tentar pe rce b er como o conhec imento é
construído. Desta forma, não podemos dizer que haja um ‘método peda g ó gico’ de Piaget .
Há sim, várias propostas pedagógicas resultantes das ideias de Piaget, que são tomadas
como directrizes de metodologias que se pretende m mais eficazes, levando, por isso, a u ma
nova forma d e ver a did áctica. Na verdade, ele não propõe um a m etodolog ia de ensino-
aprendizagem, nem aponta ‘o que’ ou ‘como’ ensinar ; contudo, el abor a uma teoria do
conhecimento que p ermite compreender como a criança, o se r humano latus sensus
aprende , permitindo, desta forma, aos pedagogos, delinear melhores metodologias e
recorrer a estratégias mais envolventes, e até mesmo construir melhores programas.
Para além da abolição da coerção e do recurso ao exemplo, Piag et apon ta a ex periênc ia
como fonte de apr endiz ag em e conhecimento. “Não se aprende a ex perimentar
simplesmente vendo o professor experimentar, ou dedicando-se a ex erc ícios já
previamente organizados: só se ap rende a ex perimentar, tateando, por si mesmo,
trabalhando ativamente, ou seja, em li berdade e dispond o de todo o tempo necessário.”
Piaget (1949:39). Vai ainda mais longe ao afirmar que
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
43
(…) na m aior parte dos paí ses, a escola for m a linguistas, gramáticos, hi sto riadores,
m atemáticos, m as não educa o espírito experiment al. É necessário insisti r na
dificuldade muito maior de se f o rmar o es p írito experim ental do que o espírit o
m atemático nas es c olas prim árias e secundá rias. (...) É muito mais fácil racioci nar
do que expe rimentar.
Efectivamente , d enotamos nestas palavras que a sua preocupação com a educação passa
necessariamente pela forma como se progra mam as aulas e pela escolha de metodologias e
estratégias por p arte dos professores. O aflorar da importância da experiência sur ge
também em Piaget, quando ele menciona o ex em plo que os adultos têm de dar às crianças
e o “e spírito experimental”. Corroboramos esta id eia, recorrendo, a mais u m detalhe do seu
pensamento, relativo à escola : “ A escola ideal não teria livros ob rigatórios para os alunos ,
mas somente obras d e referência qu e se empregariam livremente: (...) os únicos manuais
indispensáveis são os de uso do professor” ( ibid:ibidem ) .
É evidente a valorização que Piaget faz dos métodos activos de apre ndiz agem. Para ele a
aprendizagem é resultante da acção e “(…) uma verdadeira aprendiz agem não é mais que
meia verdade, enquant o a ve rdade inteira deve ser reconquista da, reconstruída ou
redesc ob erta pelo próp rio aluno.” (1950:35). Com efe ito, reconhecemos, em Piaget, que,
quer a r elação social, qu er a experiência são também importantes p ara o desenvolvimento
co gnitivo. Estes dois aspectos serão desenvolvidos posteriormente por Vigotsk y e por Kolb
e que, seguidamente, apresentaremos. De acordo com Cole & Werstsch (1996: 250), “(…)
for Piaget, individual children construc t knowledge through their a ctions on the world (…),
o que demonstra que a relação que a criança estabelece com o mundo – a sua relação social
– é também determinante para a construção do conhecimento. Os mesmos autores
( ibid:ibidem ) referem qu e “(…) P iaget did not den y th e co -equal role of th e social world i n
the construction of kno wledge.”, no entanto, para ele, a primazia da construção do
conhecimento foi a “individual psy chogenesis” ( i bid:ibidem ).
Piaget serviu-se dos seus discursos anuais, enquanto director do BIE, para i r ex planando as
suas ideias, relativame nt e à teoria do desenvolvimento do cognitivo. Trata-se de uma teoria
de etapas, que defende que o ser humano passa por um conjunto de mudanças sequenciais
e previsíveis – estádios de desenvolvimento – que ocorrem desd e o nascimento até se
consolidarem na fase d a adolescência.
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
50
resultado das vivên cias sociais que cada um vai experienciando e que sim ultaneamente vão
contribuindo para o seu p róprio dese nvolvimento e enriquecimento.
Recorre mos a Sirgado (2000:51) que, a p ropósito do pensamento de Vigostsk y , reforça o
contributo da socieda d e na formação indivivual e vive-versa, afirmando que
(…) o desenvolv imento humano é cultural equivale portant o a dizer que é
histórico, ou seja, traduz o longo processo de t rans for m ação qu e o homem oper a na
natureza e nele m esmo co m o par te dessa naturez a. Isso faz do homem o artí fice de
si mesm o.
Relembramos que a linguagem assume um p apel essenc ial na media ção entre o indivíduo e
a sociedade, e por in erência a cultura, s endo que o professor, p articularmente o professor
de língua , cultura e comunicação, é o facilitador dessa mediação.
1.4 O indivíduo no s eu tod o e o contex to : Bloom, Bruner e Ausubel
Nos anos ’50, surge Bloom que apresenta a sua Taxonomia dos Objectivos do processo de
Aprendizagem (1956) que levou à criação de um c urrículo e à avaliação dos conhecimentos
que ele pre ssupunh a, e s tando assim subjac ent e a im portância a tribuída à classificação.
Bloom aponta tr ês grandes domínios para a aprendizagem – o cognitivo, o afectivo e o
psicomotor. Para cada d omínio, o autor apresenta um livro explicativo, em 1954 e 1964,
para os domínios cognitivo e afectivo, respectivamente. Para o domínio ps icomotor, tal não
aconteceu, vist o n ão ter conseguido a criação de obje ctivos . Em termos do domínio
co gnitivo, Bloom estabe lece seis categorias que devem constituir -se como resultados de
aprendizagem: (i) conhecimento; (ii) compreensão; (iii) aplicação; (iv) análise; (v) síntese;
(vi) avaliação. No que di z respeito ao domínio afectivo, Bloom refere senti mentos ocultos,
difíceis de categor iz ar e consequentemente de medir. Em termos ps icomotores, os
objectivos são sin gelos e prendem -se com a destreza. Apesar das críticas a esta tax onomia,
ela tem servido de g ui a ao professor desde o seu aparecimento.
É necessár io estruturar o processo educativo por forma a optimizar o seu pressuposto de
base – o sucesso do processo ensino-ap rendizage m. Estruturar o proce sso educativo é
articular estrate g icamente os conteúdos, as estratégias e metodologias, o tempo e os
instrumentos de avaliação, em função dos objectivos a atingir e das competências a
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
51
desenvolver, face a determinados conteúdos, p or um lado, e fa ce às necessidades e
expectativas por outro.
A delimitação de objectivos é uma questão difíci l e nem sempre clara, que pode pôr em
risco o sucesso da apre nd izage m . Ferraz & Belhot (2010:421) referem que
(…) infe li zm ent e alg uns desses obje ti vos podem não ser bem definidos e outros
podem ficar i m plícitos ao proce sso de aprendizag em e, muitas ve zes,
(re)conhec ido s apen as pelo educad or.
O educador pod e ter expect ativas e diretrizes para o processo de e nsino que não são
oficialm ente declarad as, m as que farão parte do processo d e avaliaçã o da
aprendizag em. É notóri o que é mais fácil atingir obje ti v os quando estes estã o bem
definidos, entretanto fica mais difícil, para os discentes, atingirem o nív el de
desenvolvim ent o c ognitivo, por não saberem exatamente o que deles é esperad o
durante e após o p rocesso de ens ino.
No sentido de minorar as dificuldades sentidas para a delimitação dos objectivos e a
planificação do proce ss o e ducativo, em 1956, Bloom apresenta a sua taxonomia que,
apesar de cont estada, con tinua a ser usada por muitos professores. Mesmo tendo em conta
a alteração do paradi gma educacional ent ão em vigor, tendo o enfoque do processo
passado a centrar-se mais no aluno e no seu saber faz er , a taxonomia de Bloom é usada,
particularme nte no qu e diz respeito ao domínio cognitivo, tal como afirmam Fe r raz &
Belhot (op. c it.:423 )
Em bora todos os três dom ínios (cog nitivo, afetivo e psicom otor) tenha m sido
amplam ent e di scutidos e di vulgados, em m o m entos diferentes e por pesquisadores
diferentes, o domínio cogni ti v o é o mais conhecido e utilizado. Muitos educador es
se ap oiam nos pressupo stos teóricos desse domínio para definirem , em seus
planejamento s educacionais, ob jetivos, estratég ias e sistemas de aval iação.
Mantém-se a ideia inicial de Bloom, qu e pr etendia que a taxonomia fosse uma ferramenta
que ajudasse a clarificar e, consequentemente a simpli fica r o process o educativo. Com o
mesmo int uito, Anderson, discípulo de Bloom, nos anos ’90, procede a u ma actualização
da sua tax onomia, tendo em conta as mudanças paradigmáticas e co nceptuais que a
educação sofreu e que, de al guma forma, já fomos apr esentando. Ao proced ermos ao
estudo comparativo das duas versões, r econhecemos que a de Anderson se ap roxima de
modelos mais activos de conce b er a educação. Como exemplo, destacamos o recurso a
verbos, por forma a ex plicar, de forma mais consentânea com a in tencionalidade do
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
52
processo educativo, o q ue os alunos são capa z es de realizar, com o co nhecimento, em
substituição dos seis graus de complexidade, que Bloom apresentou. Kr athwohl (2002:214)
explana o processo da seguinte forma:
The verb aspect of the original Knowledge ca teg ory was kept as t he first of the six
m aj or categories, but was renamed Remember. Comprehen sion was renam ed (…)
But, to t h e r evis ing authors there se em ed t o be popula r usage i n which understan d
was a wide spread synonym for comprehen ding. (…) Applicat ion, Analysis, and
Evaluation were reta ined, but in their verb form s as Apply, Analyze, and Evaluate .
Synthesis chang ed places with Evalu ation and was ren am ed Create.
Na ve rdade, e tendo em mente o pensam ento do autor convocado ( op.cit. :213), verbos e
substantivos devem ser mantidos, nesta nova interpretação da tax onomia de Bloom, apesar
de se reportarem a di mensões distintas, uma vez que os substa ntivos se associam à
dimensão do conhecimento (o quê) e os verbos à dimensão relacionada com aspectos
cog nitivos (como): “ (…) the noun and verb, to form separate dimensions, the noun
providing the b asis for the Knowled ge dimensio n and the v erb forming the basis for the
Cognitive Proce ss dimen sion.”.
Apresentamos, de se guida, um esquema comparat ivo em que se evidenciam as diferenças
mencionadas, na inte rpretaçã o de Ferraz & Be lhot ( op. cit. :424 e 427).
Figura 2 – Esquema comparativo d a Taxonomia de Blo om e sua reinterpretação e m 2001
Assim, podemos conclui r que houve renomeação das várias etapas do processo educativo,
por exemplo, o “conhecimento” passou a “lembrar”; a “compreensão” deu lugar a
“entender”, bem como “aplicação”, “a n álise” e “síntese” e “avaliação” deram lu gar às
formas verbais – “a plic ar” , “analisar”, “sintetizar” e criar, na medida em que traduzem
melhor a acção que se pretende, bem como o resultado esperado a d eterminada ação d o
processo educativo. Destacamos ainda que as categorias “avaliação” e “ síntese” – a gor a
“avaliar” e “criar” foram alteradas na sua ordem, pelo que se infere, quanto a nós, a
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
53
importância dada à autonomia dos aprendentes, e a uti lidade do conhecime nto
desenvolvido.
Segundo Ferraz & Belhot ( op. cit.: 427), esta adequação conceptual p ermite aos docentes
estruturarem melhor as suas planificações, nomeadamente no que diz r espeito à escolha
mais adequada de estratégias para a sua p rática lectiva, na medida em que surgem
claramente de finidas as diferentes etap as, dedi cadas à “aquisição de con hecimento ”, ao
“desenvolvimento da habilidade e à “competê nci a ”.
Associada aos princípios subjacentes à taxonomia de Bloom, encontramos a necessidade
de estruturar hierarquicamente o desenvolvimento cognitivo, por fo rma a que os al unos
sejam capazes de “(…) aplicar e transferir, de forma multidisciplinar, um conhe cimento
adquirido.” ( op.c it. :431).
Assim, é fundamental a planificação e estruturação da actividade docente , no sentido de
optimizar o proce sso ensino-apr endiza g em. Daí a importância do uso de instrumentos que
facilitem essa planificação, como é o caso da Taxonomia de Bloom, em q ue os objectivos
surgem de forma hier árquica. Ao mesmo tempo, e após a sua revisão, ela permite -nos uma
visão bidimensiona l; a sua centralidade deix a de estar apenas nos objectivos a atingir, mas
assume também a perspectiva da aplicabilidade do conhecimento , isto é, a perspectiva da
habilidade e da competência. Esta taxonomia con duz os docentes na procura das melhores
estratégias edu cativa s p ara mais eficazmente atingir em os objectivos, em função de
determinados conteúdos.
1.4.1 A recuperação de Piaget e Vigotsky: Bruner e Au subel
Na década de 70, surge Bruner que se destaca nos campos da psicologia, da linguagem e da
educação. É uma voz eminentemente defensora da aprendiza gem pela desc oberta, que
retoma o p ensamento de Vigotsk y , e que considerava que o contexto e a in tera cção sociais,
e os sistemas de signos que representam, estão na base das operaçõ es mentais que
potenciam a linguage m. Para B runer, existem as etapa s de Piage t , a s qua is considera
efec tivas p ara a constr ução do pensamento e também na natureza do conhecimento ,
extremamente bem definida em cada estádio de dese nvolvimento da criança. Existem
também as ideias de Vi gotsky, às quais recorre quando apresenta os principais elem entos
do conhec imento. Para Bru ner (1999:22 ), “ O des envolvimento intelectual depende de uma
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
54
interacção sis temática entre um educador e um educando (…)”; da m esma forma, para ele
“(…) o crescimento men tal está em larga medida dependente do crescimento de fo ra p ara
dentro – a mestria de técnicas que estão consubst anciada s na cultura e que são transmitidas
por agentes da cultura , n um diálogo c ontin ge nte. ” ( op.cit.: 39).
Quanto a nó s, são visíveis as semelhanç as de pensamento entre Vigostsk y e Bruner .
Contudo, este autor considera também essenciais, para essa mesm a construção, os
contextos culturais, as relaçõe s afectivas, a nat ureza da tarefa proposta e o papel de
terceiros. Na sua obra Para uma T eoria da Educação (1999:64), Bruner afirma que as
relações afectivas, nomeadamente ent re o professor e o aluno são de ex trema im portância
na aprendizagem, na medida em que ela influi e pode condicionar o processo de
desenvolvimento de conhecimento. “As relações entre quem ensina e quem é ensinado
nunca é indiferente no seu efe ito sobre a aprendizagem.” . Do seu p onto de vist a, o
aprende nt e dev e dominar minimamente as aptidões sociais, para que a relação pedagógica
seja favorá vel; por seu turno, o professor tem de ser c apaz de regular a situação de
aprendizagem que é naturalmente dese quilibrad a, pois “(…) a relação do educador com o
estudante (…) [é uma] relação entre alguém que possui algo e alguém qu e não o possui, a
relação educativa implica sempre um probl ema especial d e autoridade. A relação dessa
autoridade afecta a natu reza da aprendizagem (…)”.
Ao mesmo tempo, Bruner ( op.cit.: 65 ) menciona a curiosidade como uma “ (…) reacção à
incerteza e à ambiguidade (…)”, ou seja, aponta a curiosidade da criança como m eio para o
desenvolvimento do conhecimento. Acreditamos que está aqui apontada uma directriz para
os docentes, na m edida em que, para não ‘matar’ essa curiosidade, potenciador a d a
aprendizagem, o professor deverá recorrer a metodologias activas pa ra a aprendizage m.
Por outro lado, inferimo s, das palavras de Brun er, que o traba lho docent e, no sentido de
orientar a curiosidade dos alunos, depende de dois factores: a clarificação de tarefas e o
esclarecimento da importância das mesmas, face a outras formas de aprendizagem.
Segundo ele, a “(…) ori entaç ão apropriada da ex ploraçã o depende de duas considerações
de actuaçã o recíproca: u m sentido de meta de uma tarefa e um conhecimento da relevância
das alterna tivas test adas para o a l cance dessa meta.”.
Neste nosso elen car de marcos im portantes na e volução do con ceito de didáctica e das
diferentes perspectiva s educacionais, aos longo dos tempos, não poderíamos deixar de
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
55
mencionar a obra de David Ausubel, que releva da importância de aprendizagens
significa tivas para um verdadeiro desenvolvimento do conhecimento, bem como da
importância da apr endizagem pela descoberta. P ara Ausubel (1962:2) “Meaningfulness is
perhaps the c entral issue underly in g the learnin g b y discovery (…), o que nos mostra a
estreita re l açã o entre estes dois conceitos.
Cabe-nos aqui clar i ficar o conceito de ‘ap rendizage m significativa’, po is cremos que o
conceito foi mal interpretado, por mui tos, tendo como consequência uma mudança de
nomenclatura – “No entanto, na prática a maioria dessas estratégias , ou a escola de um modo
geral, continuam promo vendo muito mais a aprendiz agem mecânica, purame nte memorístic a,
do que a significativ a .” (Moreira, 200 2:1). Sendo assim, Mor eira disting ue ‘aprendizage m
signif icati v a ’ como sendo
(…) aque la em que i dei as expressas sim bo licamente interagem de maneira
substantiva e não-arbitrária com aquilo que o aprendiz j á sabe. Subst antiva quer
dizer não - literal, não ao pé-da- let ra, e não - arbitrária significa que a interação não é
com qualquer id éia prév ia, m as sim com al g u m conheciment o e specificam ente
relevante já e xistente na e strutura cognit iva do sujeito que aprende. ( op.ci t.: 2)
Para Ausubel, o conhecimento novo que o aluno constrói tem de se relacionar com
conhecimentos p révios, aos quais Ausubel chama ‘subsunçores’, os qu ais s e alterarão pel a
ancoragem do novo conhecimento. Tal como no s explica Moreira ( ibid:ibidem ), “Tanto
por recepção como po r d escobrimento, a atribuição de significados a novos conhec imentos
depende d a ex istência de conhecimentos prévios especificamente relevantes e da inte ração
com eles”. Relativamente ao ‘subsunçor’, o mesmo autor ( ibid:ibidem ) clarifica o seu
conceito, afirmando que
(…) é o nom e que se dá a um conheci m ento específi co, existente na estrutura de
conhecim entos do indivídu o, que per m ite dar significado a um novo conheci m ento
que lhe é apresentado ou por ele descoberto. (…) quando serve de idéia -âncora
para um novo conhecimento ele próprio se modifica adquir indo novos significados,
corroborando significados j á existentes.
À medida qu e o conhecimento se desenvolve, os subsunçor es vão -se tornando m ais
estáveis e, portanto, mais favorá veis a ancorar nov os conhecimentos. “Progressivamente o
subsunçor vai ficando m ais estável mais diferenciado, mais rico em significados, podendo
cada vez mais facilitar novas aprendizagens.” ( op .cit. :3 ). Em suma, e ainda de acordo com
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
56
Moreira ( op.cit. :4), “O s ubsunçor é, portanto, um conhecimento estabelecido na estrutura
cog nitiva do sujeito que apr ende e que permite, por int eração, dar si g ni ficado a outros
conhecimentos.”. Associamos esta visão do processo de desenvolvimento do conhecimento
à im agem da espiral; há como que um ‘repescar’, um ‘servir-se de ’ r elativamente ao
conhecimento do sujeit o, para o fazer evoluir, c onsolidar e, cons equentemente, crescer.
Assim, diremos que os subsunçores são a lgo de dinâmico, que podem es tar em constante
evolução, ao longo das nossas vidas. Em simultâne o, eles assumem níveis de importância
distintos – “hierarquias” difere ntes.
Na verda d e, inferimos q ue o conhe cimento prévio dos alunos, segundo Ausubel, é uma
condição essencial para a aprendizagem. Recorrendo, de novo ao estudo de Moreira
( op.cit.: 7 ), reiteramos a nossa opinião, pois
O conhecimento prév io é, na v isã o de Ausubel, a variável isolada mais importan te
para a apre ndizagem si gnificat iva de novos conhecim entos. I sto é, se fosse possív el
isolar uma única variável com o se ndo a que m ais influencia novas aprend izagens ,
esta variável seria o conhecim ento prévio, os subsunço res já existentes na estru tura
cognitiva do sujeito que apr ende.
No entanto, esse conhecimento prévio, se não for bem gerido, poderá bloquear novas
aprendizagens, na medida em que, segundo Morei ra ( op.cit. ) alguns conhecim entos prévios
podem estar de turp ados e assim serem um entra v e a novas aprendizagens.
Um outro asp ecto que não podemos d eixar de re ferir é qu e “apr endizagem significativa ”
não é ne cessariamente s inónimo de apre ndiz ag em ‘cor recta’ ou daquela que ‘nunc a se
esquece’ – ela é, sim , a quela que assenta em conhecimentos prévios e, neles e por eles,
ga nh a um significado, in dependentemente de ela ser a qu e se considera corre cta no âmbito
de algum conteúdo disciplinar, por exemplo.
Para Ausubel, o evoluir do/no conhecimento é e x ponencialmente potenciado pela
aprendizagem por descoberta, que el e defende como essencial tal como a pré-disposição do
aluno para a aprendizagem, neste processo, a su a maturidade intelectual e a adequação dos
materiais desenvolvidos pelo professor, no sentido de auxiliar essa aprendizag em.
(…) meaningful learning in st udents does not necessarily take pl ace j ust because
the teacher is academica ll y knowledgeabl e. T o relate a new abstract -v erbal
learning task t o their existing k nowledge in nonarbi trary substantive fashio n,
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
57
students r equi re an adequate repertoire of abstract term s and sym bols based on
previous concret e experien ce. (…) Then the problem of meaningful instruc tion can
ignore neither the develop m ental status of t he learne r nor var ious su bstan ti v e and
programm at ic aspects o f presenting subject m att e r. (1962:2)
Assim, apontamos duas condições essenciais par a que a aprendizage m seja significativa:
por um lado, os materiais têm de ter signific ado lógico, ou seja, serem pa ssíveis de virem a
ser significativos, apesar de não o serem, na med ida em que este atributo está no aluno e
não nos materiais; é o aluno que lhes atribui significado; por outro, a pr edisposição para a
aprendizagem, por parte do aluno, que é o mais difícil de conseguir, pois trata-se de uma
motivação intrínseca; de acordo com Moreira ( op.cit. ), não falamos de ‘ gostar ou não da
matéria’ ou ‘estar motiva do’, mas ante s, de querer relacionar novos conhecimentos.
Como forma de sintetizar o pensamento de Ausubel, destaca mos o conheci mento prévio do
aluno como sendo a base, para qu e o p rocesso de desenvolvimento do conhecimento se
torne eficaz. Efectivamente, a construção d e con hecimento do aluno, se gundo o autor, tem
de ser feita através de u ma apr endizagem significativa, que pa rta dos seu s conhecimentos
anteriore s. Assim , defende (1968) que o profe ssor deve descobrir o que o aluno já sabe e
partir daí para o a juda r a desenvolver o s eu conhecimento.
Para que este desenvolvim ento do conhecimento do aluno se construa, valorizamos a
importância da relação p edagóg ica que é imperioso est abelecer entre prof essor e aluno, e a
qual o envolvimento é o seu sustentáculo. Apelamos ao pensamento de Delors (1998: 134-
135) que nos relembra que
A forte relaç ão es tabelecida entre p rofessor e aluno, constitu i o cerne do proces so
pedagóg ico. (…) O trabalho do pr ofesso r não consiste si m plesmente em tr ansm itir
inform ações ou conhecim entos, mas em apr esenta-los sob a form a de problemas a
resolver, contextua lizando - os e perspectivando- os de tal m odo que o aluno possa
estabelecer a li gaç ão entre a sua solução e outras i nte rrogações m ais abrang entes.
A relação pedag ógica visa o pleno desenv olvim ento d a persona lidade do aluno no
respeito pela sua autonom ia (…).
Nesta pass agem, inf erimos que, para além d a relação peda g ó gica, a aprendizagem pel a
descoberta assume relevância no sucesso dos alunos, pelo que se nos afigura de particular
destaque também o conhecimento didáctico d o professor, qu e o conduz às opções
didácticas mais adequadas ao a luno e ao seu contexto.
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
59
2 A actualidade : r epe rc ussõe s na praxis educa tiva
Considerando as mud anças sociais a que a escola tem de se adaptar, apontamos também as
alteraç õ es no campo da didáctica, particularmente nos últimos 50 anos . Na verdade, esta
ciência tem-se desenvolvido, fruto das pesquisas teóricas feitas no seio da comunidade
científica, mas também fruto das d emanda s sociais a qu e temos vin do a assistir. S e
considerarmos uma perspectiva diacrónica para o estudo da didáctica, podemos afirmar
que, primeira m ente e, de acordo com Ponte (2003 ) , ela encerrava um s aber eminentemente
prático, pois e ra vist a como um conjunto de métodos e técnicas de cada disciplina para pôr
em prática o processo ensino-aprendizagem; mais tarde, ela assume um cariz mais
académico, passando a sua maior preocupação a fundamentar-se na origem histórico-
filosófica e a promover a reflexão sobre a prática; por fim, mais recentemente, a didáctica
surge como campo de investigação empírica, suportada pelas Ciências Sociais e Humanas
e pelas Ciências da Ed ucação, assumindo, assim, como estudo centra l os fenómenos
educativos de cad a disciplin a. Neste terceiro par adigma, Ponte ( op.cit. :4 ) apont a, como
grande desafio pa ra a di dáctica , “(…) a necessidade de resolver os impasses emerge nt es
(…) tornando mais e streita a relação entre teoria e prática , tanto no que se refere , à
produção como à mobi liz açã o do conhecimentos didáctico.”. Em suma, a didáctica passa
de uma perspectiva p rática a uma teórica, pa ra vi r a des embocar numa terceira dim ensão
que implica a dialé ctica t eoria/prá tic a.
Ponte considera fundamental uma nova mudança de para di gma para uma atitude mais
transversa l e globalizante, em que a ‘impermeabilidade’ entre disciplinas se esbata ou se
anule, e em qu e o di álogo e a colaboraçã o entre os a gentes do processo ensino-
aprendizagem se estabeleça, assim como a comunicação entre o mundo académico e a
investigação empírica se torne mais eficaz. Nesse sentido, o autor ( op.cit. :5) afirma:
Estes desafio s exigem que se caminhe para um novo paradigm a, desejavelment e
um paradi g ma que integ re os três anterio res (saber p rático, saber his tórico-
filosófico, investigação empírica) e ac resc ente elementos qualitativam ente novos.
A m eu ver, esse paradigm a só pode ser o pa radigm a da colabo ração.
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
66
cada um dos p edagogos apr esentados t rouxe para o nosso trabalho, enqu anto docente d e
língua e literatura maternas, particularmente aportada(s) à educação de adultos e ao caso do
trabalho empírico apre s entado nesta investigação doutoral.
No século XXI, a discuss ão sobre o que é educaçã o e apre ndiza ge m e sobre o que ensinar e
como o fazer, continuam na ordem do dia. Estas preocupações d emonstram, qu anto a nó s,
a importância que o contex to tem no processo de desenvolvimento do conhecimento, pois
são as mudanças sociais a que temos assistido, nas últimas década s, qu e levam a este
questionar constante so bre a educação, a pedagogia e a didáctica, promovendo uma
investigação contínua e continuada.
Para alguns investigadores, defensores do modelo instrucional, a ed uc açã o está
intimamente ligada à aprendizagem que, por sua vez, acontece a través da ex periênc i a .
Assim, a funçã o do educador é, essencialmente criar condiçõ es propícias par a que a
aprendizagem aconteça, orientando, guiando e acompanhando o processo de aprendizagem
dos alunos. O verdadeiro objectivo da educação, de acordo com este modelo, é fornecer
aos alunos instrumentos que facilitem a sua aprendizagem, assumindo o professor o pape l
de tutor, de orientador e facilitador da a p rendizagem.
Efectivamente , o perío do de ince rtezas provocadas pelas tran sformações políticas,
económicas e so ciais, te m proporcionado à educ açã o constrangimentos – pela inse gur ança
provocada pe la mudança de paradig m as –, mas, ao mesmo tempo, tem proporcionado
oportunidades de questi onamento e re fl exão que, por seu turno, pe rmite a evolução, o
aperfeiçoa m ento e ade qu açã o d e prá tic as, face à nova realidade.
Cada vez mais constatamos a existência de professores inquietos, o que, em sentido
filosófico, leva ao questionamento constante e, por conseguinte à mudança e ao
aperfeiçoa m ento. A centralidade do processo ensino -aprendizagem está, ag ora, cada v ez
mais, no aluno e nos seus interesses e necessidades, cabendo -nos a nós, enquanto docente,
o papel de orientar esse mesmo processo, partilhando as nossas ex periênc ias e saber es, e
aplicando os conhecimentos teóricos à nossa praxis .
Destaca mos assim, o novo papel do professor investigador que reflecte s obre a acção p ara
mudar a prática e que i nstiga também os seus alunos à refle x ão. Este é o professor do
século XXI – aquele que melhor sabe ler e interpretar os contextos e, a partir deles dar o
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
67
seu contributo para o desenvolvimento de apre nd izage ns significativas, po tenciando todas
as capacidade s dos s eus alunos.
2.1 Instrucional System Design: Brod erick e Mer rill
De acordo c om Molenda, Reigeluth & Nelson (2003:574) o modelo instrucional “(…)
came from B . F. S kinner’s su ggestions regarding the a pplication operant conditioning
principles to edu cation ( …)”. Estes princípios ba seavam-se na apresentação de estímulos
aos alunos, que respond iam de uma forma específica e cuja avaliação de resultados era
imediata. Assim, passo a passo os alunos iam evoluindo nas suas aprendizagens, por
tentativa e erro, pe lo trei no e re petição, até atingirem o conhecimento.
O modelo inst rucional tem-se desenvolvido com base nestes princípios, mas também
recorrendo a os p rincípios do cog nitivismo. De acordo com o mesmo autor ( ibid:ibidem)
Cognitive models for i n struction emphasize the importance of the le a rner ’s
cognitive and affect ive processes in mediating t he ef fect s of in structi on. (…)
learners use their memory and thought processes to generate strategies as well as to
store and m ani pulate m ental representa tions of im ages and ideas .
Aplicado à educação fo rmal, este modelo assume -se como o Instructional S y stem Desi gn
[ I SD] inspirado no sis tema de abordagem e na teor ia behaviorista, e q ue se inici a no
período pós II Guerra Mundial. No entanto, não podemos deix ar de mencionar que em
termos educativos, o ISD não se prende especificamente com a pe rspectiva proce ssual,
necessária para a preparação de aulas, mas com o todo, ou seja, com a criaçã o de
ambientes de aprendizagem conducentes ao sucesso, incluindo os materiai s e as estratégias
de processo ensino- aprendizag em. Rao (2010:1) reforça esta ideia, ao af irmar que o ISD
“(…) is helpin g peopl e learn and develop in a st ructured mann er. The kinds of learning
and deve lopment ma y i nclude co g nitive , emotional, social, ph y sical, and spiritual.”. O
mesmo autor ( ibi d:ibidem) considera que a apr endizagem pode acontecer sem
“instruction”, uma vez q ue “Learning is a natural process that leads to changes in wh at we
know, what we can do, and how we behave .”. Todavia, “(…) one function of an
educational system is to fac ilitate intentional learning, in order to accomplish man y goals
that would take much longer without instruction.”.
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
68
Cabe-nos aqui um breve apontamento sobre o ter mo ‘instruction’, para Rao ( op.c it: 1 ),
“‘Instruc tion’ puts emphasis on a whole range of activities the teacher uses to eng age the
students.”. Para nós, esta definição aproxima o conceito d e ‘instructi on’ não tanto à
definição que a tradução literal nos fornece – inst ruçã o –, mas mais ao conceito d e
didáctica, enquanto tech ne, que ex plorámos anteriormente, na medida em que apetrecha os
docentes de melhores capacidades técnicas que lhe s permitem ser um verdadeiro
facilitador d a apr endiza gem. Invocamos de novo Rao ( op. cit: 1-2), na me dida em que ele
considera que
An instructo r who has knowledg e of the principles of inst ruction design has a
broader vision of w hat it takes to help studen ts learn: when it would benef it
students to be put into groups, when practice and fee dback will be most effectiv e,
and what are the pre-requis it es for problem-solv ing and hi gher- order learning
skills, for ex ample.
No que ao ISD diz respeito, destacamos o co ntributo de Broderick que, em 2001, criou um
suporte teórico para a p lanificação do p roce sso ensino -apr endiza g em, de acordo com o
ISD. Reafirmamos o que apresentamos anteriorment e – de que neste modelo é bastante
evidente a pr eocupação didáctica, uma vez que o objectivo principa l é cria r condições
propiciadora s d e aprendizagens; refere o a utor a arte/ ciência d e produz ir materiais que
permitam ao aluno passar do estado do “nã o ser capaz” de desempenhar certas tarefas, para
o estado do “ser c apa z ” – “ I nstructional Design is the art and scienc e of creating an
instructional environment and materials t hat will bring the learner from the state of not
being able to accomplish certain tasks to the state of being able to accomplish those tasks.”
(Broderick, 2001:1).
O I DS viabiliza a criação de materiais e a planificaç ão de a ctividades que, de fac to,
propiciem condições potenciadoras do desenvolvimento de competências, por p arte dos
alunos, levando-os a s aber fazer , colmatando, dessa forma, as l acunas que , no se u
desempenho, possam te r sido diagnosticadas. Recorre à metodologia da resoluçã o d e
problemas, partindo da análise de ne cessida des, passando à identificação de problemas e
seguindo d epois a abordagem ‘ADDIE’: analysis, design, development, implementation
and evaluation , visando a tomada de d ecisões e m termos de aprendizagem.
Salientamos que esta abordagem vai ao en contro da im age m do d esenvolvimento do
processo ensino -aprendizagem por espiral. D e fa cto, após a análise do problema, o aluno
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
69
parte para o planeamento, a ‘construção’ do seu ‘desenho de actuação’ q ue dá origem ao
desenvolvimento de acções conducentes à implementação do seu trabalho que reflecte a
sua apre ndiz age m; por úl timo, parte para a f ase de avaliação de todo o processo, o qual lhe
permite identificar os se us pontos fortes e fra cos . Todo o processo, mas particularmente
neste momento de reflexão sobre a sua p rática , permite ao aluno sedimentar conhecimentos
e identificar aspectos a melhorar. É com esta consciê ncia que ele p arte par a novos
problemas, para novos desafios de aprendizagem, mas já enriquecido pelo
desenvolvimento de actividades anteriores, o q ue nos remete par a a referida aprendizagem
em espiral, na medida em q ue as aprendizagens novas partem das anteriores que, por seu
turno, contribuem para o aumentar da complex idade das seguintes. Esta é a opção
metodológica seguida co m os nossos alunos e que daremos conta na segunda parte deste
trabalho.
O ‘desenho inst rucional’ considera todos os elementos necessários para uma experiência
de aprendizagem de sucesso, baseada na pesquisa prática; tem em conta a compreensão das
motivações humanas, os seus conhec ime ntos pré vios – apr endizagem signific ativ a
(interesses, processos e ritmos de aprendizagem), o que em nosso entender está em sintoni a
com os actuais paradigmas de ap rendizage m, bem como com os cursos d e educação de
adultos em que desenvolvemos a nossa prática lectiva. É, portanto, uma modalidade de
trabalho que s e cent ra na aprendiz agem por problemas, e que envolve o estudante no
processo d e construção de con hecimento pa ra encontrar soluções que viabilizem
ultrapassar as dificuldades, as ba rreiras encontrada s.
Tendo em mente o pensamento de Broderick ( op.cit. :1 ), reconhecemos a importância dada
à pedagogia e à didáctic a, na medida em que cabe ao prof essor de cidir o quê, quando, e
como aplicar as diferentes estratég ias e materiais. Afirma que:
(…) the requirem ent for effective instruction doesn't guar antee that the instruction
will be effective and engaging . T he art of instruc tional design com es in when you
have to dec ide how t he m at erial will be presented , w hat k ind of prac tice a nd
feedback exe rcises you will use, a nd what are the follo w up m ater ials.
Para qu e o proc esso de aprendizagem se efective com sucesso, B roderic k ( op.cit. ) realça a
importância dos modos de a prendizagem. No artigo em e studo, apres enta um g ráfico
repre s entativo dos diferentes modos de aprendizagem.
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
70
Figura 6 – Taxas de retenção de aprendizage m , retir ado de Chi, M. et a l “Self expla nations: Ho w to Study
and Use Examples i n Prob lem Solving”, in Broder ick (2001)
Este gráfico é bastante elucidativo face à importância do ‘learning by doing ”; isto é, ao
perce p cionarmos que os aprendentes retêm 80% da informação pelo f azer, entendemos
como a abordagem de resolução de prob lem as é crucial neste modelo de aprendiz ag em.
Br oderick ( op.cit. ) recorre ao Micro Soft Project [ MS Project ] , para exemplificar o
propósito do ISD. Na prática, o trabalho é apresentado na sua versão final e depois vai
sendo desmontado.
(…) you start fro m the final product and work backwards collecting and pasting in
the elements and events you need to reach your goal. After a couple of hours or
days, you have t his huge chart showing each element you will need to get to your
final produ ct.
Seems logical, no? Wr ite down precisely what your goal i s, then work backwards
to wha t sub i tem s ar e needed to make it, and what sub -sub-item s are needed to
m a ke those, etc., etc. So, if our fina l produc t is instruction, why should we sit
down and start cr eat ing t he materials without analyz ing carefully what it is that we
need t o get there. The in st ructiona l conten t is the end product, n ot the sta rting
place.
Esquematicamente , Broderick ( op.cit. :2) apres enta da seg uinte form a, o explanado
anteriormente :
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
71
Figura 7 – Instructional System Desi gn esquematizado (Dic k & Care y , 2001)
Apesar de uma programação tão esqu ematizada, Broderick (2001 :5 ) alerta, no entanto,
para um aspecto que consideramos de ex trema importância, uma vez que, que não
queremos perder o conceito de ‘escola humaniz ada’ em que os alunos s ão o verdadeiro
centro do processo – a liberdade do doce nte em adaptar quer os materiais, quer as
estratégi as à realidade com que lida. Sendo q ue a pe rspec tiva da ci ência nunca foi
descura d a, o autor destaca a questão da didáctica enquanto techne e també m enquanto arte ,
conforme atesta a passagem seg uinte:
Although it takes i nto account all the necessary items needed to create effective
instruction, it should no t be followed so strict ly that i t im pedes your creativ e
expression, which in the end, draws the learne r into the materia l. Whet her or not
the instruction is truly effective, interesting , and engag ing, depe nds on your ability
to put on the scient ist's lab coa t whe n analyz ing the inst ruct ional goals, and putting
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
72
on the artist's smock when creating engaging and enjoyable way s t o present the
inform ati on to t he learner and provide him or her with meaning ful practice and
feedback .
Para nós, a importância e a valorização deste modelo prende -se essencialmente com o facto
de que o ISD centra a pla nificaç ão na aprendizagem centra a planificação no aluno, c riando
situações propiciadoras de uma aprendizagem ac tiva por oposição às metodolog ias
tradicionais que tom am os conteúdos por object o de atenção e, portanto , como ponto de
partida e de chegada (a transmissão de conhecimentos).
Como uma ada ptação deste modelo, destacamos o pensamento de Merrill (2002), que
aprese nt a uma v ariante d o modelo ISD – Pebble i n the Pond – que se d esenrola em qu atro
fases distintas.
(i) activação da experiência;
(ii) demonstraçã o d e competências;
(iii) aplicação das compe t ências;
(iv) integ r aç ão d essas c omp etências na vida quotidiana.
Efectivamente , para Merrill, torna-se essencial o envolvimento dos alunos na
aprendizagem que, por sua vez, dev e evoluir através de métodos activos , particularmente
pela resolução de probl emas. Afirma M errill q ue “Many current instructional models
suggest that the most effective learning products or environment are those that are problem
centered and involve the student in a cy cle of learning (…) ” ( op.cit. :40).
Esta variação do I SD, apresentada por Merrill, li vremente tr aduzida por nós como ‘Pedrada
no Charco’, considera que os assuntos/conteúdos a serem abordados são referidos no iní cio
do processo, sendo que a orientação/tutoria do professor vai diminuindo à medida que as
tarefas se vão desenr olan do, promovendo, desta f o rma, a autonomia dos alunos.
Com este modelo, e aind a de acordo com Merrill (2002b), a aprendizagem é fa cilitada, na
me dida em que a s actividade s a desenvolver têm c omo propósitos:
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
73
(i) activar c onhecimentos anteriores relevantes;
(ii) proporcionar aos aprendentes o relacionar conhecimentos, o relembra r, o
chamar o conhecimento de experiências anter ior es relevantes, que podem
ser usadas na fundação de novos conhecimentos;
(iii) demonstrar os novos co nhecime ntos a a dquirir, mais do que informa r
sobre eles;
(iv) proporc ionar oportunidades aos aprendentes de aplicar os novos
conhecimentos a novas situaçõe s (resolução de prob lemas);
(v) proporcionar a oportunid ade d e publicam ente de monstrar a aquisição do
conhecimento, d e reflectir sobre isso e de discutir e defender ess e
conhecimento;
(vi) permitir aos aprendentes criar, inventar, ex plicar novas e pessoais formas
de usar o c onh ecimento e as capacidade s.
O ensino/ aprendizagem é, assim, pro gramado como ‘pedrada no charco’ – actividades em
progressão, desde o problema (tema a tr abalhar e negociado com os alunos ) que conduzem
à produção – ao ‘fazer’ que, em termos dos cursos EFA - NS , se traduz na actividade
integradora [A I ] , qu e explanaremos posteriorme nte. Desta negociação constante com os
alunos resulta uma apr endiza g em ve rdadei ramente contex tualizada; motivada e
significa tiva; e intencional e direccionada.
Esquematicamente , podemos apresentar a aprendiz ag em , na percepção de Merrill e do
conceito de ‘pedrada n o charco’, através do efe ito de onda, que e ssa mesma pedrada
provoca em á g uas pa radas. Na verdade, cremos que se trata de uma metáfora eficaz para a
visualização do efe ito da apre ndiz age m nos alunos .
Figura 8 – Mo delo ‘Pedrad a no Charco’, esquema a daptad o de Mer rill (200 2)
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
74
Efectivamente , este modelo consiste numa sequência de actividades, cujo grau d e
complexidade vai aumentando, qual efeito de uma pedrada num charco, cujas ondas se vão
propagando. Mais uma vez recor rendo a Merrill ( op.cit .:40 ): “Pebble- in -the-Pond design
model consists of a series of expanding activities initi ated by first castin g in a pebble, that
is, a whole task or pro blem of the t y pe that lea rners will be taught t o accom plish b y
instruction.”. Acrescenta ainda: “Having speci fied a t y pical probl em for the goals of the
instruction, the nex t ripple in the pond is to spec if y a progression of problems that
gradually increase in co mplexit y (…)” ( op. cit. :4 2) .
Quanto a nós, e pelas características apresentadas, este modelo é o ponto de partida para a
construção de guias de aprendizagem que estimula a autonomia dos alunos. Assim , a sua
elaboração e estruturação requer um cuidado especial, na medida em que eles têm de se r
claros e de ter em conta as expectativas dos alunos. Ao mesmo tempo, eles têm de
aprese nt ar diversas propostas de actividades, para que m ais abrangentes se torne m e ,
assim, mais facilmente possa ir ao e ncontro não apenas das ex pectativas, mas
particularme nte dos objectivos dos alunos que, por serem adultos são ma is imediatos, ou
de curto prazo ( Knowles, 1980). Por outro lado, a construção d estes guias tem de ter em
conta a complexidade da s actividades proposta, p or forma a obedecerem à ideia de espiral
aprese nt ada. Na verdade, elas devem ser apresentadas com um g rau de complex idade
crescente, ao lon g o do guia, b em como os próprios g uias dev em ser planeados para
aprese nt arem graus de complexidade diferentes e n tre si.
2.2 A perspectiva experiencial: Kolb
Uma outra dinâmica que con corre para a aprendiz ag em e que, pa r a nós, se tornou de
extrema relevância para o trabalho que desenvo lvemos com os nossos al unos adultos, é a
que está presente no processo proposto por Kolb , mais precisamente a sua teoria de
‘apre ndiz agem experiencial’, quanto a nós, contributo de terminante para um maior
distanciaçã o da perspectiva tradicional da tr ansmissão de conhecimentos. Segundo o autor
(1981:235), o modelo p or si proposto deve o se u nome à importância que é atribuída à
experiência, no processo de aprendizagem, que a distingue de outros modelos:
(…) it emphasiz es the im portance role that experience plays in t he learning
process. (…) The core of the m odel is a si m ple description of the learning cycle –
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
75
of how experience is translated i n to c oncepts, w hich in turn, are used as guides i n
the choice o f new experiences.
Na verd ade, p ara Kolb (1984:38) a aprendizagem “(…) is the pro cess w here b y knowl edge
is c reated through the aspects of the learning process as viewed f rom the ex perie ntial
perspec tive. (…) knowledge is a transformation process, a cquired or transmitted. (…)
learning transforms experience in both it s objective a nd subjective forms”.
Na sua obr a Apr endizagem Experiencial: Experiência Como A Fonte de Aprendi zagem e
Desenvolvimento (1984 ), Kolb destaca três estilos de aprendizagem qu e, por sua v ez, se
baseiam num círculo de quatro fases, no qu al as experiências imediatas fornecem uma base
para observações. Estas são assimil adas como sendo “conceitos abstratos” (Batista &
Silva, 2005:2), que g eram novas ex periênc i as. Encontramos aqui, novamente, a ideia de
aprendizagem em espiral , que impli ca a experiência, a refle x ão, o pensamento e a acção. A
reflexão sobre a experiência traduz - se , consequentemente, nos “conceitos abstratos” ( op.
cit.: 2), que se repercutem na acção, na medida em que o aprendente aplica e testa, criando,
assim, novas ex periê n cias, reconstruindo o conhecimento em função de novos contextos,
aplicando-o e t eorizando-o.
Os três modelos de aprendizagem, defendidos por Kolb, ( op. cit. :21-25) são os seguintes:
(i) o lewiniano de investi gaçã o- acção e de p rác tic a laborato rial –“The
Lewinian Model of Action Resea rch and L aborato ry T raining” ;
(ii) o de Dewey – “Dewey ’s Model of Le a rning”;
(iii) o do desenvolvimento cog nitivo de Pia ge t – “Piaget’s Model of
Learning a nd Co gnitive Development”.
O primeiro estilo baseia-se na id eia d e que o desenvolvimento da aprendizage m é
facilitado pela ex periência dos aprendentes, seguida da recolha de dados e da obs ervação
sobre essa mesm a experiência, o que se t raduz numa alteraç ão de práticas e,
consequenteme nt e, na re alização de mais experiência – uma maior m estria. O próprio Kolb
afirma ( op. cit.:2 1) que, neste método,
(…) learning, change and growth are seen to b e facilitated best by an integrated
process that beg ins with here - and-now experi ence followed by collection of data
and observations about exp erience. Th e data are then analyz ed and the conclusions
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
82
Na verdade, o p rofessor será aquele que domina e compreende os processos, os princípios
e a estrutura da ciência, compreensão essa que Schulman denomina de “ s yntactic
structure” ( op.cit. :9), ou seja, as regras de r elacionamento subjacentes à ciência; ao mesmo
tempo, destaca também “substanti ve str ucture”, ou seja, o conteúdo, isto é, a ciência pe r
se . Para além disso, S chulman rea lç a a forma de tornar o conhecimento compreensível, as
estratégias de o fazer chegar aos alunos , considerando as diferenças cognitivas de cada
aprende nt e – o que temos vindo a apelidar de tecnhe – a didáctica enquanto técnica. P ara
que o processo seja eficaz, o professor tem de conhecer o currículo – os prog ramas e as
matérias –, e evidenciar capacidade de os adaptar a dete rminadas circunstânc ias e/ou
necessidades dos alunos; deve a inda manifestar a capacidade de articul ar transversal e
verticalmente os conteúdos.
Em suma, e n a pe rspectiva de Schulman, o p apel primeiro do profes sor é transferir
conhecimento e não tran smiti-lo; diremos nós, transformá-lo de forma a o adequa r a novos
a contextos diversificado s e a perfis específicos. P ara Schulman, há então que considerar
três tipos de conhec iment o docente:
(i) Propositional knowledge , ou seja, o que se ensina surge sob a forma
de propostas, resultantes da ex periênc ia d e ensin o, fundamentada em
princípios teóricos. Poderá ser uma p esquisa teó rica, nomeadamente
literatura técnica que in clui ex emplos de té cnicas de ensino; uma
pesquisa prática, ou seja, as situações transmitidas entre pares, ou
normas e valores filosóficos e cívicos.
(ii) Case knowledge – conhecimento de “casos”, que impl ica uma situaç ão
estudada, com base teórica; um acontecimento específico
documentado e descrito c uidadosamente, que serve de exemplo às
teorias abordadas.
(iii) Strategic knowledge , que se reporta ao momento em que o professor
se confronta com uma situação específica, ond e seus princípios e
valores colidem e as solu ções são difíc eis. Mesmo assim, é necessária
uma resposta imediata .
Em suma, de acor do com Schulman, ao professor solicita-se que :
(i) domine o conhecime nto;
(ii) domine os processos;
(iii) reflicta para melhorar o conhecimento de si próprio;
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
83
(iv) desenvolva a capacidade metacognitiva;
(v) comunique as razões das decisões e acç õ es profissionais;
(vi) reconheça as diferenças dos alunos e entre eles.
O último teste à compreensão reside na capacidade de transformar o que se sabe, de forma
a poder ser recepcionado e apreendido num d eterminado contexto espácio-temporal por um
determinado indivíduo; isto é, na óptica que temos vindo a uti lizar, articular a didáctica n as
suas diferentes acepções – a ciência, a técnica, a arte. Focar os conteúdos seleccionados,
trabalhá- los e torná -los ade quados e ainda envolver os destinatários para a apreensão
desses mesmos conteúdos.
Não podemos, portanto, se gundo este autor, esquecer a especificidade de cada área do
saber, que convoca um a dimensão científica, na medida em que o processo ensino-
aprendizag em é construído a partir de c ada uma d as áreas qu e é contemplada como objecto
de estudo. Assim sendo, consideramos a existência de didácticas e s pecífica s e da
importância destas para que os conteúdos de cada área ci entífica possam ser devidament e
abordados; sublinhamos a importância da dimensão das formas de que se reve stem. A
dimensão epistémica é, sem dúvida, específica; as dimensões técnica e artística, se bem
que transversais a todas as áreas, assumem espec ificidades , decorrentes da área de qu e
procede m.
Destacaremos, então, a p artir de agora, a didáctica das lín gua e literatura maternas, já que
elas constituem a ár ea científica em qu e actuamos; fá- lo -emos nas três acepções
decorrentes da s dimensõ es assumidas – epistémica, técnica e artística.
Em suma, considerando a didáctica como pote nciadora de condições que f acilitam o
processo ensino-aprendi zag em, não pod emos deix ar de compreender os princípios que
subjazem a esse processo, para entendermos as transformações a que está sujeita. Ao
pretendermos mudar o enfoque e a valorização d ados à educação, teremos necessariamente
que alterar as condições f acilitadora s e as técnicas ao dispor dos professor es para optimizar
o processo.
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
85
3 O relevo da especificidade do saber na Didác tica
Ficou comprov ado que o conceito de didáctica tem evoluído ao longo dos tempos.
Inicialmente considerava- se que, pel a natureza referida, ‘did áctica ’ s e prendia
essencialmente com a relação de professores com os conteúdos, descurando a
especificidade da área e m que actuavam, as metodologias, os contex tos ou até mesmo os
próprios alunos; ao longo dos tempos, esta focalização deu lugar a modelos que incentivam
a criatividade e a compreensão, pelo recurso à ex perimentaç ão e à descoberta ,
flexibilizando-se, assim, os modelos didácticos que, de alguma forma, foram tendo em
linha de conta a auto- apre ndiz age m , assumindo, deste modo, uma postura mais d e
mediação. Na verdade, o acto didáctico pressup õe, não apenas os conteúdos per se e a
relação do professor com os conteúdos, como i nicialmente se acreditou. As consequentes
abordage ns feitas ao longo do tempo, de forma tão diversifica da, comprovam que se trata
de um processo ba stante complexo que não p ode excluir o aluno , o contexto nem o
curriculum , na sua acepção mais abr angente e articulada . Não podemos, pois, dei xar de
mencionar que os diferentes modelos didácticos perspectivados por tantos pedagogos e
cientistas de renome, ao longo do tempo, dão u m enfoque maior a um ou a outro dos
elementos implicados no complexo processo ensino-apr endiza ge m.
Podemos, assim, referir, na óptica de T avares (2007):
- o modelo mais nor mativo , que tem como aspecto central o conteúdo, ou
seja, o saber ;
- o modelo incitativo , base ado no aluno, que pressupõe a sua im plicaç ão
no processo d e aprendizagem, ou seja, a mot ivação e a pr edisposição
para a p render;
- o modelo aproximativo que, centrado na construção do saber por part e
do aluno, recorre a meto dologias e t écnicas que a dequam o saber ao seu
perfil cognitivo, ou seja, a for ma como o sabe r é abordado.
Estamos, pois, na nossa perspectiva, pe rante as diferentes con cepç õ es da didáctica,
respec tivam ente, assumida como ciência, como arte, como técnica.
Desta forma, destacamo s a existência de três factores-base indissociáveis: o professor, o
aluno e o conteúdo que, numa situação de ensino e aprendizagem, se confrontam e
interagem entr e si. O professor e o aluno podem e devem dialogar, acordando a melhor
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
86
fo rma de desenvolver o processo ensino-aprendizagem de determinado conteúdo. D e
acordo c om A rénilla, Gossot, Rolland & Roussel (2001:125), podemos afirmar que
O contrato didác tico, possui, assim, si m ultane am ente um enr aizam ento psicológic o
e ep istemológico. Põ e em j og o as repr esentações que utilizam o pro fessor e aluno
na triang ulação didáct ica em rel ação à situação do ens ino . ( ...) O contrato didáctico
traduz então um a si tuaçã o de aprendizag e m interactiv a e i n stável, que o bserva a
procura contínua de um a j ustam ento dos comport amentos ao pro blema abordado .
Mais uma vez chamamos a atenção para a necessidade de diálogo e de colaboração entr e
os diferentes actores do processo ensino-aprendi zage m – entre alunos e professores, por
um lado, mas também entre pares – de professores e de alunos. Também Lamas (2000:126)
refere que a didáctic a é “(…) uma arte que recorre ao diálo g o, visando o entendimento, a
compreensão mútua, a inserçã o numa comunidade , no mundo. (…) só através dela o ensino
resulta mais efic i ente, servindo, desse modo e a o mesmo tempo, aluno e sociedade (…)”.
Deste mod o, tendo em linha de conta as mudanças paradigmáticas que têm vindo a ocorrer
na educação, é p ertinente encararmos todos os int erveniente s no processo como agentes do
mesmo, fazendo jus ao próprio termo ‘inte rveniente’. P or outras palavras , referimo-nos à
dimensão sócio-comunicativa da didáctica, em qu e o diálogo entre os diferentes actores do
processo se reve la fundamental.
De acordo com Medina Rivilla & Salvador Mata (2005:24) “La Didáctica se preocupa de
la calidad expresiva y formativa del discurso, y de l papel creador que doce nte y estudiantes
han de incorporar como una cualidad distintiva de los procesos formativos.” . Este enfoque
sócio-comunicativo, permite, segundo os mesmo s autores ( op. cit. ), classificar o processo
ensino-apre ndiz age m como um acto comunicativo único, caracterizado pela
intencionalidade formativa e o compromisso dos interveniente s pa ra c riar um processo de
ensino transformador e inovador. Tendo aind a em consideração o pensamento de
Hernández-Pizarro & Caballero (2009:65), imp orta perspectivar “La e nseñanza como
forma de comunicación del conocimiento (…) la enseñanza (comunicación didáctica) es el
medio a travé s del cual el sujeto se relaciona con su sociocultura .”. Assim sendo,
destacamos, pois, o carácter intencional que visa a melhora educativa ; n a verdade a falha
de comunica ção didáctica significa a falha do processo ensino-aprendizagem.
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
87
Invocamos novamente o pensamento das autoras referidas, pa ra enfatiz ar a importância
que o processo comun icativo assume no processo ensino- aprendizagem, no qual a
linguage m assume particular destaque :
La comunicación d idáctica supone un interc ambio cultural en tre dos elem entos
personales – profesor y alum no – y para que se verifique esa com unicación, am bos
necesitan com part ir y utilizar una herramienta básica e indis pensable: el leng uaje.
El lengua je no es sól o el v ehícul o que utiliza mos para hacer efectiva la
comunicación: es el gran protagonista en la inter acción entre los elementos
personales d e la comunica ción. ( op.cit.: 66)
Sendo nós professora d e língua materna, esta q uestão assume particular importância na
nossa pr ática docente, tendo se mpre em mente a preocupação de desenvolver a
competência co municativa dos nossos alunos, alertando-os para a su a i mportância como
ferramenta para encarar o mundo, para s e a firmarem n ele e para nele agirem, de forma
mais eficaz e, antes de mais, para que a próp ria apr endizagem ac ont eça. Recorrendo de
novo ao pensamento de Hernández-Pizarro & Caballero ( op.cit. :70), devemos sublinhar a
ideia de que
(…) el a lumno necesita com prender e interpret ar l os nuevos m ensajes desde los
conocim ientos que ya posee (conocim ient o s previos). El alum no no es un receptor
pasivo, si no un constructor act ivo de los mensajes de la com unicación didáctica .
Esta construcción de significados es, como ya hemos señalad o, un proceso
consciente, que requiere de un esfuerzo person al por par te d el alumno, pero en el
que el profe sor y el resto d e compañeros también partic ipan.
Efectivamente , a comunicação didáctica é, qu anto a nós, fundament al para cumprirmos
com o que nos comprometemos com os nossos alunos – orientá-los para a construção de
aprendizagens significativas, inspi rada s em Ausubel , tal como já mencion ámos, na medida
em que
(…) el alum no tiene que interpre tar y construir su conocimiento a part ir de
significados anteriore s (…) m ient ras que el profesor e l os compañero s ayudan al
alumno regulando la interv ención para favorecer la cons truc ción de signific ados,
recayendo en el profesor l a responsabilidad de ver ificar si el conoc imiento (…) es
adecuado co n respecto al conocimien to científico. ( o p.cit .:71)
Cremos, pois, que a didác tica assume um papel ess enc ial no pr oce sso ensino-
aprendizagem, na m edida em que, p ara além do seu carácter científico, é ela que leva ao
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
88
objectivo final desse proce sso – a aprendizagem efectiva, por parte dos alunos . Retomamos
o pensamento de La m as (2000:127), quando afirma que
Num segundo estádio, ter em os de pri v ilegiar uma outra dim ensão da didáctica (…)
será agora o m omento de considerar o objectivo que se pretende alcanç ar e, se ndo
ele o ajustamento dos vários saberes, a s ua interpenetraçã o, h á qu e p ensar em
tornar exequ ível a sua apre ensão pelos destina tários.
No entanto, para nós, importa aind a consid erar o que se ensina, onde se e nsina e para que
se ensina. Daí que o contex to, as motivações dos alunos e os seus interesses sejam
determinantes para a elaboração do desenho curricular e mesmo do did áctico. No caso
particular dos nossos alunos e, tendo em linha de conta a natureza dos cursos EFA - NS , a
consciência do papel que o professor e a didáctica assumem no processo educativo torna -se
essencial, na medida em que o desenho curricular é construído pela equipa pedagógica , em
neg o ciação permanente com os alunos, todavia assente nas temáticas obri gatórias – o saber
que sustentará a construção do conhec imento em consonância com a especificidade dos
perfis envolvidos.
Este é o grande desafio desta modalidade de educação de adultos – a possi bilidade de
construção de um desenho curricular variado, flex ível, ajustado às necessidades e
interesses dos nossos alunos e, ao mesmo tempo, integ r ado, na medida em que é pensado
para s er ex ecutado por u ma equipa p edagógica n a verdadeira acepção do termo. Assim, a
preocupaçã o na escolha dos conteúdos não passa exclusivamente por nós, no que diz
respeito à nossa área de formação – a cultur a, a lí ng ua e a comunic açã o – mas antes pela
articulação das diferentes especificida d es de cada elemento da equipa pedagógica que
encontrará al go que possa ser trabalhado na su a particularidade e, ao m esmo tempo, de
forma tr ansversal, para que o resultado seja um trabalho coeso, fruto da integ ração dos
diversos saberes.
Por outro lado, enquanto docentes, compete-nos alarg ar os horizontes dos nossos alunos ,
guiando-os para além do que já sabem, consolidando conhecimentos construídos em
contextos diversos, reconstruindo -os em função de novas situações e construindo novos
conhecimentos, com base no desenho curricular que para eles foi construído, consolidando,
desta forma, a image m d a apre ndiz age m como es piral que a pr esentaremos posteriormente.
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
89
Ao mesmo tempo, aquando da elaboração do d esenho curricular, em tr abalho de equipa
pedagógica , os docentes estão a esboçar um desenho didáctico que melho r se ade qu e, não
apenas aos conteúdos curriculare s d efinidos no desenho curricular, m as so bretudo ao p er fil
dos alunos e à finalidade da unidade de formação em desenvolvimento. Construímos assim
um desenho didáctico pensado em função de um grupo de alunos, com os seus pontos
fortes, que prec isam de ser reforçados, mas ta mbém com os seus pontos fr acos que,
necessariamente teremos de melhorar; construímos um desenho didáctico pensado na
especificidade dos cont eúdos a abordar e tendo por cenário, o(s) contexto (s) em que se
situam/age m os in tervenientes.
Para além disso, a edu cação pa ra o desenvolvimento social e p essoal e p ara valores como a
cidadania, ou o d esenvolvimento de competênci as transversais, como o u so das T I C , são
essenciais para uma educação que corresponda às demandas da sociedade actual. A est e
propósito, Ponte (2003:2) destaca ainda “(…) uma nova rel açã o escola -sociedade, ond e se
evidencia um a acrescida atenção à diversidade cultura l; e (…) uma nova organização
pedagógica , potenciadora da autonomia, onde se destaca a afirmação da cultura de
projecto.”. Esta nova “organização ped agógica” é o ponto -chave do trabalho que
desenvolvemos e que assenta na “cultura de projecto”, mencionada pelo autor convoc ado.
Todavia, a investigação centra-se também sob re o saber em causa, isto é, sobre a
especificidade do nosso objecto do ensino – a língua e li teratura mat ernas –, tendo em
mente, especificamente, o trabalho de co-docência com uma docente cuja formação de
base é o ensino da hist ória. Este será um passo posterior ao desenho curricular e ao esboço
do desenho didá ctico, na medida em que s e trata de um trabalho mais isol ado, porque mais
específico da nossa formação de base. Assim sendo, encontramo -nos já no c ampo da
didáctica específica, sendo que também ela tem de ser p ensada em funçã o da realidade do
grupo turma, em ge r al, e de ca d a aluno, em particular.
3.1 Especificidades da didáctica das lí ngua e literatura maternas
Sistematizando o que apre sentámos nos pontos anteriores, mais especificamente, no ponto
2, da primeira parte deste trabalho doutoral, diremos que a praxis ed ucativa tem vindo,
com o andar do tempo, a exigir po r parte do professor uma postura latus sensus , isto é,
aberta à r econstrução e à transformação do saber por ele eleito, em ter mos de
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
90
especializaçã o académic o-investiga tiva. Essa p ostura prende-se não só com o saber
propriamente dito, que lhe compete explorar e manter sempre ac tu alizado, mas também
com a forma como esse saber é tra balhado por ele, com vista a ap resentá -lo, disponibilizá-
lo ao aluno – o saber fazer do professor; é nesse trabalho que entram as dinâmicas da
didáctica.
Por um lado, o recurso à técnica – consubstanciação prática do m étodo – que transforma o
saber e o torna p assível de ser apreendido pelo aluno; por outro lado, a art e de envolver o
aluno – o saber conviver –, captando a sua at enção, implicando-o n a apreensão do saber,
na sua compreensão e n a sua aplicação prática. É nesse labo r que a didáctica, enquanto
ciência, se vai construind o e aperfe i çoando – a didáctica específica, neste caso, a didáctica
das língua e literatura maternas, cuja essência se sustenta das especificidades dos saberes
que a líng u a e a literatura implicam.
A tí tulo de exemplo, que exploraremos mais adiante, importa -nos conhece r as
caracter ísticas do texto narrativo, p ara sabermos como o apresentar d e forma sugestiva aos
alunos para que eles pos sam reconstruir as noções que já possuem, qu er linguísticas quer
literárias, e melhor dele se apoderare m para o utilizarem como forma de se ex pressar em e
comunicare m com os outros. Para Bolívar ( 2005), como veremos de seg uida, o
conhecimento de uma matéria específica de determinado saber é o conhecimento da
matéria [CM] e o conhecimento construído a pa rtir dessa maté ria, com a int ençã o de
despoletar o processo en sino-aprendizagem, ao qual ele chama d e conh ecimento didáctico
do conteúdo [CDC].
Recorre ndo ao pensamento de Bolívar (2005), a partir da sua análise de Schulman,
verifica mos o realce d ado não apenas do conhecimento que o professor tem da matéria e
do conhec imento peda góg ico geral, mas também do conhecimento esp ecífico, ou seja,
aquele que lhe permite ensinar a sua matéria específica. Para este autor ( op.cit. :6 -7) o saber
específico do cente
Implica una comprensión de lo que sig nifica la enseñanz a de un tópico particular,
así como de l os principios , formas y modos di dáctic os de represent ación. Parece
que este conocim i ento (CD C) se construy e con y sobre el conoc imiento del
contenido (CM ), conocim iento pedagógico g eneral y conocim iento de los alum nos.
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
91
Esta ideia assume particular significado para nó s, na medida em que, no caso concreto,
abordado nesta tes e doutoral, temos de proceder a uma tripla adaptação – por um lado, a
adaptação aos saberes es pecíficos d as língua e literatura mate rnas; por outro, a adaptação
dos conteúdos seleccionados e o seu ensino a alunos adultos e por fim, a adaptação a uma
AF abrangente – Cultura, L ín gua e Comunicação – traba lhad a em regime de co-docência,
com uma colega d e História.
Este processo de adaptação entre o conhecimento da matéria e o conhecimento didáctico
do conteúdo, ainda segundo Bolívar ( op.cit. ), qu ando invoca o trabalho d e Marks (1990),
implica três fase s distinta s:
- a interpre t ação dos diversos conteúdos para os sequenciar;
- a especificação, ou seja, a aplicação dos p rincípios pedagógicos gerais a
um tópico específico;
- a síntese, isto é a articulação da s duas fases anteriores com outros
aspectos do conhecimentos didáctico do conteúdo.
Estamos, pois, a falar, nomeadamente, do conh ecimento dos alunos e do dos contextos, o
que no nosso ca so se torna particularmente im portante, na medida em que, reitera mos,
trabalhamos com alun os adultos, com experiências de vida riquíssimas que têm
forçosame nt e de ser convocadas para as apre ndizagens que lhes propomos, sempre com a
intenção de as tornar significativas para eles e para as suas actividades. Desta forma,
seguimos os modelos apresentados por Ausu bel e ainda po r Kolb, que já tivemos
oportunidade de prob l ematizar anteriorme nte.
Nesta medida, torna-se i mperativo ‘transpor’ o sa ber específico da nossa área de formação
de base – líng ua e literatura portugue sas – para um saber ‘ensináve l’ , ‘apre ndível’ e
‘apreendível’. Este conceito de “transposição” é defendido por Chevallard (1991:15) que,
na mesma linha de Schulman, afirma que
El concepto de t ranspo sición didáctica se refiere al paso del saber académico al
saber enseñado, pues por la eventual y obl igato ria di st ancia que los separa, m uestra
este cuestionam iento neces ari o y su ut il idad. Para el di dacta es un útil que permite
desprenderse de la engañosa familiaridad de su objeto de estudio. Es uno de l os
instrumentos de la ruptu ra que la didáct ica debe operar para constituirse en campo
proprio.
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
98
inserem; assim sendo, mais facilmente eles percepcionam a info rmação e (re)constroem
o(s) conhecimento(s) a p artir do ‘se u mundo’.
Apresentamos, ainda, uma outra perspectiva que contribui para est a nossa postura que,
reitera mos, se adequa a aprendentes adultos. Falamos do pensamento de Halliday
(1974:271 e 273) que, mesmo referindo-se a crianças, quanto a nós assume ainda mais
relevância em apre nd entes adultos, cuja experiência de vida é maior. Com efeito, refere o
autor que
Não é necess ário dizer às crianças o que dev em dizer. O que tem importância é que
elas observem o resultado do que diz em e lhes seja mostrado, pela i ntrodu ção de
variantes, qual a causa que conduz a esse resultado. (…) Qualquer expressão oral
do aluno ou do pro fessor pode se r usada para m ost rar a m ágica de um a lí ng ua viva.
Por outro lado, lembra mos de novo que cabe ao professor envolver e comprometer os
alunos no seu proc esso de aprendizagem, ou seja, compete -lhe desenvolver a didáctica
como uma arte – uma arte que lhe p ermita, pelo diálog o e pelo envolvim ento, estabelecer
uma empatia com os alunos, criando desse modo um ambiente de confi ança par a que o
diálogo possa acontecer. Na senda de Belo (2008:313), entendemos a competê ncia de
comunicação
(…) como o conhecim ent o das convenções linguí sticas e comunic ativ as com elas
relacionadas qu e os f alantes dev em possuir p ara ini ciar e m anter uma relaç ão
conversacion al mutuam ente sat isfatória atrav és da construção de m ensagens
adequadas e eficazes, send o que o envolvim ento conversacio nal é um a precond ição
necessária para a c ompreen são.
Partindo deste pressuposto, consideramos também a comunicação didáctica e, tal como o
autor ( op.cit. :314), de fendemos que “(…) o modelo relacional de competência d e
comunicação didáctica (…) é um modelo compree nsivo, baseado em princ í pios teóricos da
relação, e que procura integrar componentes im portantes da comunicaçã o enquanto
processo dinâmico.” .
Para que tal se v erifique, como afirma Delors (1998), o envolvimento entre professor e
alunos é fundamental, na medida em que, para que os alunos s e possam exprimir,
manifestar as suas ideias, questionar, interagir, deve estar li ga do afectivamente à
aprendizagem e cons equentemente ao professor; por seu turno, conhecend o -os, o professor
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
99
pode orientá-los, conduz i-los, abrir-lhes novos c aminhos, novas formas de construção de
sabere s – a comunicaçã o didáctica – que oport unamente problem atizámos, apoiada em
Halliday (1974), Lamas (2000), Belo (2008) e Fernandes (2009).
Assim, e retomando a ideia apresentada anterior mente, da didáctica como a articulação de
vários saberes, no caso concreto da língua materna, reconhecemos a complexidade da
tarefa do professor, n ão apenas no que concerne a investigação que lhe compete realizar
para estar ciente dos sab ere s em causa – a did áctica enqu anto epistema –, mas também no
que diz respeito à forma de os apresentar aos alunos – a didática como techne –, sobretudo
no caso da educação e formação de adultos, já que, por part e destes al unos, se regista ,
como houve oportunidade de referir, um facilitismo face a esta disciplina , na medid a em
que assumem à partida um excesso de confiança, no que diz respeito aos seus
conhecimentos e às competências linguísticas e comunicativas. Para disponibili zar
condições propiciadoras para esta abo rdagem, importa ainda c riar u m ambiente de
confiança, implicando os alunos no processo ensino -apre ndiz agem, a partir dos seus
conhecimentos, das suas vivências e experiências, relacionando -as co m os saberes a
abordar – a didática como arte .
Destaca mos, assim, o papel do professor qu e deve assumir -se tam bém como um
investigador sobre a sua própria acção, no sentid o de a melhorar, em consonância com os
seus pares mas, ao mesmo tempo com o(s) contexto(s) dos al unos, que têm de ser
encarados como po rtadores de diversos sab eres cujas origens, não se confinam à escola.
Neste sentido, importa destacarmos a competência de comunicação – base do
relacionamento humano – mas também a competência de comunicação didáctica – trunfo
dos docentes para qu e o envolvimento aconteça, para que a aprendizagem se desenvolva e
para que o aluno lhe dê significado.
Consideramos, então, a relevância qu e o papel da língua e da literatura assume no
desenvolvimento da men cionada competência comunicativa, a qual se ev idencia pelo seu
carácter de t ransversalidade presente em todo o processo de aprendizagem ao lon go d a
vida. No sentido de a perfe i çoar essa transver salidade da competência comunicativa ,
proporcionamos, aos nossos alunos, um contacto o mais vasto, variado e abrangente quanto
possível, com diversas tipologias te x tuais.
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
100
3.2 Educação e Formação de Adultos - tipologias textuais eleitas
Recorre ndo à etimol og i a do termo ‘texto ’, verificamos, através do dicionário etimológico
digital Origen de las Palabras que ele deriva do latim textus, particípio de texu, do verbo
texere, que significa “tec er” , “entrançar”. Servindo-nos, igualmente, de Dicionário Verbo
da Língua Portuguesa (Guedes, 2008:1175), podemos concluir que ‘texto’ é “uma unidade
de linguagem oral ou escrita, supe rior à frase, com uma estrutura organizativa, um
conteúdo semântico e uma intenção comunicativ a particular (explícita ou implícita)”, isto
é, uma sequência ord enada de enunciados orais ou escritos, o que para nós, é a base da
comunicação – eleme nto central da área de formação que leccionamos.
Como temos vindo a afirmar , no âmbito dos cursos EFA- NS e tendo em mente que são
freque nt ados por adult os, consideramos que o desenvolvimento da competência
comunicativa, quer oral, quer escrita, assume um papel de r elevo no seu p rocesso ensino-
aprendizagem.
Para concretizar o objecti vo aprese ntado – d esenvolver e aperfeiçoar a sua competência
comunicativa –, recorremos ao texto escrito:
como fonte de infor m ação para as difer entes tarefas a r ealiz ar;
como forma de expressão e de argumentação;
como fonte lúdica e cultural.
Recorre mos também ao texto oral, como meio pri ncipal de comunicação, mas implicando
sempre os alunos na metacogniçã o, como fonte de aprendizagem. P roce demos àquilo a que
chamamos – e ao qual já nos referimos anteriormente – a aprendizagem em contexto rea l.
Desta forma, cabe a qui uma ex planaç ão sobre as principais ti pologias por nós abordadas,
para um melhor enquadramento do ponto trê s da seg und a pa rt e deste trabalho doutoral.
Tendo presente o se nti do etimológico de ‘texto ’, ac ima qu estionado, e convocando a
conceptualizaçã o do termo por parte de Pereira (2009:1), – “uma sequência ordenada e
hierarquizada de enunciados” –, tomamos c onsciênc ia de que a int enc ionalidade
comunicativa que subjaz aos enunciados tex tuais, deter mina a sua tipologia e o seu género,
com regras próprias que lhes conferem identidade, distinguindo -se, portanto, dos demais.
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
101
Assim, de acordo com a int enc ionalidade comunicativa, as macro -estruturas semânticas e
formais têm necessar iam ente de ser dife r entes.
Além do domínio das tipologias textuais e das diferenças entre si, importa salientarmos que
uma das nossas preoc up açõe s fund amentais, para a qual Pereira ( ibid:ib idem ) cham a a
atençã o, é “(…) saber escolher o re g isto ad equa d o e o léxico apropriado à matéria tratada e
aos destinatários (…)”. Na verdade, a adequação comunicativa é a nossa principal
preocupaçã o, tendo em vista o nosso públi co-alvo, pois ela é fundamental para que a
comunicação seja eficaz e eficiente. Para que isto aconteça, destacamos a importância da
correcção, da clareza e da elegância, isto é, torna -se imperioso o domínio da ortografia e da
sintaxe, por um lado, da propriedade semântica e da articulação lógica das palavras, por
outro; por fim, do uso cuidado e cuidadoso dos recursos estilísticos, tendo sempre em
mente a intencionalidade comunicativa. No c aso dos nossos alunos, o uso correcto da
língua o ral e escrita, e m contexto, é o mais importante, uma vez que são adultos em
contexto de trabalho, cuja urgência de uti lização se revela maior, comparativamente com
as crianças em idade no rmal de escolaridade. Assim, não descurando a importância do
saber teórico e conceptual, inerente às tipologias tex tuais, a nossa maior p reocupaçã o foi o
processo efectivo de tex tualização, o saber fazer tex tos coerentes, estruturados e
adequados face à sua intencionalidade, implicando o ser e a fo rma d e estar, ou seja ,
potenciando o saber ser e o saber estar sempre implicados na comunicação.
Importa também menc ionar que, em termos de trabalho empírico, apresentamos e stes
conteúdos, recorrendo p redominantemente às tipologias tex tuais clássicas/ tradicionais –
texto narra tivo, lírico e dramático – sendo qu e a seu tempo, fomos procedendo à
clarificaçã o de conceitos das referidas tipologias, de acordo com a intencionalidade que r
do texto em análise, qu er dos alunos , aquando da produção tex tual. Relembramos ainda
que o desenvolvimento d e competências comunicativas, para um grupo de alunos adultos,
na modalidade d e ensin o e m que s e inserem, não contempla a exploração exaustiva e
específica destas temá tic as.
Por outro lado, estamos conscientes da mescla que se verifica, mui tas vezes, tornando a
classificação tex tual difícil e confusa . H á dive rsas classificaçõe s no q ue concerne à
tipologia textual, sendo que, muitas vezes, as diferentes características se mes clam no
mesmo tex to, tornando a sua cl assificação d ifícil e controversa. Assi m sendo, e
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
102
considerando qu e este não é objecto de es tudo do nosso trabalho, optamos pela
aprese nt ação d a classificação considerada como uma das mais consensuais, a de Werlich
(1975), ap resentada por P ere ira (2009). Trata -se de uma divisão em cinco tipologias
textuais, que passamos a elencar:
(i) textos narrativos – onde algué m conta uma dete rminada acção, que
ocorre num tempo e num espaço; para tal recorre-s e a verbos de
acção, predominantemente no pr etérito perfeito e no pretérito
imperfeito.
(ii) textos descritivos – usados com a finalidade de caracterizar pessoas,
espaços, estados de coisas e cujas sequências se constroe m recorrendo
ao verbo ser e a v erbos estáticos, no presente e no pretérito imperfeito;
(iii) textos expositivos – cujo objectivo principal é a “(…) análise ou
síntese de ideias, conceitos e teorias, com estrutura ve rbal em que
figuram predominantem ente o verbo s er com um predicativo do
sujeito nominal ou o verbo ter com um complemento direc to, e tendo
como tempo peculiar o prese nte;” ( op.cit.: 2)
(iv) textos argumentativos – nos quais se estabelece uma r elação entre
ideias, argumentos e contra argumentos e onde predomina o tempo
presente;
(v) textos instrucionais – onde se apresentam instruções, indicaçõe s de
como fazer determinada coisa, e onde, portanto, predomina o
imperativo.
Enquadrados nestas tipologias tex tuais trabalhamos os tex tos não literários,
particularme nte o texto jornalístico, a saber a notí cia, a reportagem e a cró nica, opção que
nos facilitou o desenvolvim ento da c apac idad e argumentativa, pe rante a reflexão sobre o
contexto local, regional, nacional e intern acional, pela análise de textos dos media,
relacionados com temáticas eleitas e que se perspectivam nestas dife rentes dimensões.
A lacuna que apontamos à classificação tipológica tex tual, aprese ntada por Werlich, atrás
mencionada, prende-se c om o texto literá rio. Assim, e porque pretendemos, neste trabalho,
aprese nt ar o nosso contributo no sentido de mostrar que a literatura é a arte que fo rtemente
contribui para a formação int egra l do ser humano, rec o rre mos à classificação est abelec id a
pela poética clássica, na qual se estab elec e uma divisão tripartida de géneros – o género
lírico, o gé n ero narrativo e o género dramático.
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
103
Ceia, no seu E-Dicionário de Termos Li terários, afirma que os géneros literários são “(...)
formas de c lassifi cação dos tex tos li terá rios, a grupados por qualid ades formais e
conceptuais em categorias fixadas e descritas por códi g os estéticos” (s /d:§1) e que a
problemática dos gé n eros li terários surge com P latão, no Livro III de A República, onde
afirma que todos os tex tos literários são
(…) uma narrativa de acontecim ent os, o que pres supõe três modalidades de
concretização : po r um simples acto narrativ o, dominado pelo discurso de prim eira
pessoa do próprio na rrador-poeta (…), por um acto mim éti co, dom inado pelo
discurso das perso nagens, (…) e por um m odo misto, que combina os dois modos
de represen tação anteriores (…). ( op. cit.: §3)
Subentendemos, nesta co nce pç ão de Platão, apresentada por Ceia , os três géneros clássicos
– o narrativo, o dramático e o lírico, este último, ainda assim, nos su rge m enos definido. O
mesmo acontec e na Poética, de Aristóteles, onde ele defende a arte como mimesis , ou seja,
como imitação do real e onde nos apresenta a imitação narrativa e a imit açã o dr amática,
ignora nd o a poesia, pois, para A ristóteles, esta não é considerada como uma forma d e
imitação narrativa ou dramática (Ce ia, op.cit. ).
No caso concreto do tra balho que desenvolvemo s, apresentamos aos discentes tex tos de
gé n eros dif erentes e su scitamos o debate, conducente ao levantamento das diferentes
caracter ísticas e p articularidades, ou seja, aos traços distintivos de cada um. P retende mos
que os alunos s e consciencializem de que um d eterminado género li terário apresenta um
discurso codifica do, de acordo com determinadas regras, reflectindo, ant es de mais, um
tempo histórico, político, social e cultural. Desta forma, estamos a contribu ir para que eles
entendam a li teratura como projecção do r eal, apesar d e transformado pela estética que a
língua, na sua excelênci a proporciona, através da perspectiva afectiva e simbólica do seu
autor.
Latus sensu s, entendemos ter de guiar os alunos até ao conhecimento de que o texto
narra tivo é aquele que, apesar de poder ser escrito em verso é, maioritariamente escrito em
prosa, através do qu al um narrador (entidade fictícia ou não, participante ou não) conta
uma história, desempenhada por personagens, e que acontece num deter minado tempo e
num determinado esp aço. É um tex to que obedece a uma s equencialidade tripartida, ist o é,
em qualquer narrativa existe sempre uma situação inicial – a introdução –, as peripécias – o
desenvolvimento – e o desenlace, ou seja, a co nclusão. O recurso ao diálogo em que os
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
104
alunos, através de textos apresentados, concluem das restantes categorias da narr ativa,
nomeadamente sobre a acção, e que, d e acordo com o seu g rau d e importância a acção
pode ser principal ou secundária, o mesmo acontecendo com as p ersonagens, ou seja, de
acordo com a relevância que estas assumem na hi stória , podem s er p ersonagens principais,
secundárias ou figura ntes . Tal como afirma Calatrava (2008:145):
(…) los dist intos compon entes que puden dife renciarse nítidam ent e en el texto
narrativo: de um l ado, l os el em entos de la di ég esi s (acontecim ientos, personajes,
espacio y tiempo); de otro, los factores v inculados a las operac iones n arrativ as
(narración, representa ción, autor y l ector implíci tos), que configuran verbalm ente
el discurso (…).
Ainda com o propósito de concluir sobre as categ orias da narrativa, cremos que uma
análise mais específica d a construçã o textual, levando a concluir que o narrador tem ao seu
dispor vários modos de ex pressão – narra ção, d escrição, diálogo e monól og o, é uma forma
de tornar perceptível a tipologia em causa. Salientamos que, segundo a no ssa experiência ,
esta abordagem permite trabalhar a lín gua e o seu funcionamento, nomeadamente, no que
diz respeito aos articuladores do discurso, sendo que o nosso ponto de partida é a literatura .
Para nós, é uma questão de extrema im portânc ia que a aprendiza ge m da língua seja feita
através da liter atura – servimo-nos de exemplos do uso da líng ua, na sua plenitude de
perfe i ção e bel eza, como modelos a apresenta r aos alunos . A e ste nível, re tomamos o
conceito de mimesis , apontado por Aristóteles, salvaguardando a criatividade e o livre
arbítrio de cada um. Na verdade, sabemos que o contacto com textos bem escritos contribui
para um maior e melhor desenvolvimento da competência da escrita.
Estamos certa d as divergentes opiniões sobre o uso da literatura como instrumento de
estudo da língua. Esta é uma discussão que não cabe neste trabalho. No entanto,
aprese nt amos o pensamento de Fiorin (2008:30-31), que alert a para a importância de uma
postura intermédia, a o afirmar que
Nas Letras, o campo dos estudos da linguag em t radic ionalmente div ide - se em, de
um lado, os estudos de língua e, de outro, as investig ações sobre a literatura. (…) O
primeiro, como j á se diss e aci m a, tem por objeto o estudo dos mecanism os da
linguagem humana por meio do exam e das dif erentes línguas faladas pelo homem .
O segundo tem por finali dade a compreen sã o de um fato linguístico singular, que é
a literatura. Embora claram ente di stintos, esses dois m ódulos dos estudos da
linguagem deveriam mante r relações m uit o estreitas. De um lado, um literato n ão
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
105
pode voltar as costas para os estudos lingüísticos, porque a literatura é um f ato de
linguagem ; de outro, não p ode o lingüista ignor ar a l itera tura, po rque ela é o campo
da l inguag em e m que se trabalha a língua em todas as suas possibilida des e em que
se condensam as maneiras de ver, de pensa r e de sentir de um a dada formação
social num a determinada época. A literatura é a súm ula de toda a produção do
espírito hum ano ao longo d a História.
Na mesma orde m de id eias, Fonseca (2000) menciona que o estudo da literatura é uma
forma privilegiada de aprender a lín gua materna, na medida em que permite a tomada de
consciência da lín gua e das suas regras; no entanto, vai mais além, uma vez que permite a
compreensão da complex idade de recursos linguísticos, a sua plasticidade. Na verdade, a
literatura nã o é um ‘mundo à parte’ da língua, mas sim a intensificaçã o do seu potencial.
A autora def ende, por is so, que o ensino da literatura não se pode dissociar do ensino da
língua, ideia com a qual concorda mos e que pomos em prática na nossa acti vidade doce nte.
A este propósito, não podemos deixar de invocar o pensamento de Lamas (1992:164)
quando se refere à r elação leitura/ escrita:
(…) a leitura assume duas dimensões: apropriação concre ta/sensível tal como a dos
animais e apropr iação abstr acta/intelectu al exclusiv a do ser humano. (…)
Do contacto d ir e cto com o real, o ser hum ano ca pta f orm as vivenciais — 'lê' o
m undo; es sa l eitu ra que aparentemente é imediata, só é possív el p ela l íngua e n a
língua que lhe pe rmite a preen são do mundo. Uma percepção abstr acta/intelectu al
— o conhecim ent o do m undo. (…)
É o trabalho de produção si mbólica que origina a signi ficação, sendo, a nosso ver, a
produção sim bólica cons tituída por três dim ensões: a material — da existência do
real —, a poïética — da produção —, a estética — da r ecepção — . Só na
globalidade se constrói o sentido. A l eitura do mundo, i sto é, a modeliz ação
envolv e, pois, esta tríade da qual resulta a produção si mbólica.
Subentende-se, pois, a relação intrínseca entr e a arte li terária , neste caso, e a realidade, isto
é, entre a literatura e a língua. C om efeito, e atravé s do pensamento da mesma autora
(Lamas, 1992:166), de p reendemos que
O hom e m , portanto, n ão se defron ta com o real. No símbolo e pelo sím bolo,
afastando- se do rea l, ele organiz a a sua expe ri ênci a e consequentem ente não o
reflecte, mas constrói- o, rec orrendo ao sím bolo; m elhor, recria o m undo. A leitura
do m undo é, pois, mediatizada pela líng ua, e esta, por sua v ez, dá lugar à expre ssão
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
106
das nossas estratégias cog niti v as, à expressão do nosso sentir. A presença da
poesia. (…) ambas as l eitu ras, conside radas i ntelectu ais e abstractas – as excl usivas
do género hum ano – recorrem à língua com o medianeira entre o sujeit o
cognoscente e o objec to cognoscível. Pe la língua, pelas palav ras, as 'coisas' – o
m undo que se constitui em obj ecto cognoscív el –, 'nascem' par a o sujeito
cognoscível. Aquilo que distingue essas duas l eitu ras é, ent ão, como já r e ferido:
não a mediatez linguística (pois ambas são media tas), m as o facto de um a
percepciona r o mundo em directo e a out ra o percepcio nar nos e pelos t extos.
Por fim, invocamos também o pensamento d e Re y es (1984:193), na medida em que
sumaria as ideias anteriormente explanadas:
(…) citar la li tera tur a como ejemplo de lengua c ulta prestigiosa ( … ) es u n
error que surge de la creencia de que la literatura es la culminación del bien
hablar de la comunidad. La liter atura es mucho más que eso, desde una
perspec tiva lingüística: la li tera tura es un experimento que supone un bien
hablar, lo consolida y lo pervierte p ara innov arlo.
Esta é a ideia que defendemos e que nos leva a usar a literatura como forma de consolidar a
aprendizagem da língua .
Relativamente ao tex to poético, a problemática ap rese ntad a ainda se evidencia mais, dadas
as carac terísticas específicas deste tipo de texto literá rio. Todavia, mantemos a nossa
postura de não s eparação da literatura face à aprendiz age m da língua. Nes te contexto, uma
das referê n cias incontorn áveis é Jakobson (1969:162) que apresenta a estreita liga ção entre
a poesia e a língua ao afirmar que “ Todos nós (…) compree nd emos definitivamente que
um lingüista surdo à função po ética da linguagem e um esp ecialista de literatura
indiferente aos problemas li ng üísticos são, um e outro, flagrantes anacronismos.” ; convém,
portanto, procurar se mpr e a interde pendên cia língua-literatura-líng u a.
Apresentamos ainda o pensamento de Carvalho (1994) ao apresentar a Poesia como
Documento Social , onde aprese nt a o poeta como
(…) um ser at ento aos acontecim entos que o rodeiam , e envolvem , no a mbiente
social em que o poeta se m ovimenta. (...) qualquer te xto poét ico const itui u m
documento social na medida em que o assunto de que trata, os termos em que é
redigido, a escolha dos vocábulos que utiliza, a sua ordenação f orm al, o seu ritm o
ou f alta dele, a sua inten cionalidade, t ud o são si n ais definidore s de u ma sociedade
determ inada.
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
107
Desta fo rma, de fende m os que, através d a apresentação de vários po emas de autores
portugue s es, é possí vel levar os alunos a concluírem das particularidades deste género
literário, f ace aos d emais. Assim, facilmente d etectam as diferenças fo rmais, percebendo
que a po esia, em geral, é escrita em verso, que se organiza em estro fes e q ue tem rima. De
notar que estes conceitos são, regra geral, conhecidos empiricamente , por meio das suas
experiências – participaçã o em grupos de cantares locais, bandas filarmónicas e
colaboração em f estas tradicionais lo cais. Reconhecemos como extremamente
enriquecedor o contributo das aprendizagens informais para a consolidação das
aprendizagens formais, que ag ora têm lugar.
Em termos de conteúdo, pretendemos que os alunos compreendam que o tex to lírico tem
como objectivo principal a ex pressão de sentimentos do ‘eu’. Tornando-se, assim, um texto
de carácter mai s egocêntrico, sem, contudo, ser eg oísta ; pelo contrário, o egoc entrism o
referido emerge do ‘eu’, numa perspectiva do ser, na sua identificaç ão com o outro, isto é,
libertando-se das contingências pessoais e catapultando -se para uma ab rangê n cia ampla no
que ao ser hum ano diz respeito.
Há um maior investimento nas experiências do suj eito da enunciação e na forma como elas
nos são perpassadas, isto é na linguagem qu e as v eicula. É, por conse g uint e, um texto que,
embora mar c adamente subjec tivo, recorre a uma ling uagem simbólica, pelo recurso à
primeira pessoa e abre hipóteses de esta ser assumida por outros seres em quem o
simbolismo utilizado ecoe os sentimentos experienciados. Pela sua nat ureza intim ista e
pela sua intencion alidade – transmissão de s entimentos –, trata-se também de um texto
atemporal e atópico, onde as referê n cias espaciais estão intimamente relacionadas com os
sentimentos do sujeito poético que o (re)vive no acto da escrita e/ou no ato da leitur a. A
este propósito, apresentamos o pensamento de Paz Gag o (1999:6), que se refere ao sujeito
poético como um s er fi ctício, o qual terá de s er projectado, imaginado pelo receptor ,
completanto, assim, a mensagem poética:
En el ca so de que l a po esía lírica sea repres entativa y ficcional o com o aqu í
propondrem os, m etafórica, el responsable de su enunciación será una entidad
igualm ente ficticia, t extu al e también metafórica. El tantas vec es evocado yo lírico,
ese egolátrico p ronombre per sonal que domina y esclaviza tod a la creación literal
del yo per sonal del poeta real, es j ust amente el otro, una metáfora gram atical del tú
del receptor. Para llevar a cabo una recepció n plena e placentera, en el sentid o
estético que implica los efectos emocionales característi cos del poem a lírico, el
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
114
consciência de si, dos outros, da própria sociedade, do mundo em si mesmo. Estes são
aspectos essenciais qua n do trabalhamos com aprendentes adultos, numa perspectiva de
formação holística e de aprendizagem ao longo da vida.
Na actividade docente, compete ao professor tentar não perder de vist a a importância de
inter-relacionar competências linguísticas, poi s na base da aprendiz ag em está a
necessidade de aprender a dialog ar, aprender a en trar em int eracç ão com o outro, isto é a
integrar a comunidade.
A língua, como v eículo de afirmação do eu no m undo, não poderá nun ca ser dissociada da
aprendizagem e do des envolvimento do ser humano, que é simultan eamente um ser
cultural e artístico. Do mesmo modo, haverá que recorrer, por isso, à literatura en quanto
potenciadora d as virtualidades da língua materna; na óptica de Lamas (1993:106,107):
(...) tendo em conta os pressupostos (...) – a língu a com o fundam ento do ser
(permitindo- lhe a conquist a da individua li d ade), a lí ngua como matéria -prim a (a
que reco rre a poes ia, conferindo-lhe a possibilidad e da extensão filosó fica da
existência humana) e a inda o fenóm eno literário (no qual inserimos o poético)
como participante do fenóm eno da comunicação – a literatura er g ue-se co m o a
interpretaçã o da vida e do m undo (...) oferece aos que falam a mesm a l íngua a
ocasião de viverem mais plenam ente as experiências que eles não soubera m
verbalizar e reter, para sem pre, pela palavra escr ita e através de um a forma es t ét ica
(...) como cada ser humano ganha a sua individual idade e fundamenta o seu ser no
uso particula r que faz da lín gua (...).
Partindo da ideia de formaçã o integral, é importante perspectivar a língua na sua dimensão
ontológica e a li tera tur a, como um reflexo da natureza humana, nas suas múl tiplas
dimensões – alegrias, tristezas, paixões, desconcertos, face ao ‘eu’ e aos outros –
disponibiliza um manancial de ocasiões propícias a essa formação. Neste contexto, importa
recuperar as palavras d e Mendoza Fillola (2011:40) quando afirm a que “ La funcionalidad
de la li tera tura y de la educación literaria, el desarrollo de las competencias q ue se integran
en la competencia li teraria se pro y e ctan en ámbitos y ha bilidades qu e se consideraban
específicas del espa cio ‘ de lengua’.”. Para além disso, destacamos também que “(… ) a
formação literária ajud a a desenvolver uma capacidade analítica qu e u lt rapa ssa o
julgamento da ob ra liter ária. Torna -nos mais apto s a julgar os nossos próprios valores, em
primeiro lugar.” (Ceia, 2002:11).
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
115
Ao doce nte de língua e literatura maternas, compete c riar condições que viabilizem aos
alunos a oportunidade de se darem conta de que a língua se aprende , parti cularmente pelo
contacto com exemplos do seu bom uso – “A uni dade texto adquire relevância como loc al
privilegiado do encontro entre o estudo da Língua e o da L it eratura (…)” Duarte,
2008:219) –. Assim , sabendo que a literatura é um excelente instrume nto de e nsino e
aprendizagem da lí ngua, da sua abordagem e est udo, tiramos partido para os levar a essa
descoberta. Novamente, somos levada a reco nhece r qu e o recurso à literatura na
aprendizagem da língua é não só aconselhável, mas recomendável. O facto de trabalharmos
com alunos adultos, numa modalidade de ensino em que não existe um prog rama pré-
definido, leva-nos a te r uma preocupação r edobrada com a selecção dos te xtos a trabalhar,
na medida em que o processo de negociação com os discentes tem de estar patente, por um
lado, e a opção pelo texto literário é posta em causa nessa n eg o ciação, pelo
desconhec imento e receio habitual dos alunos, face à literatura.
Desta forma, tal como abordare mos mais tarde, relativamente às competências linguísticas ,
numa primeira fase é nossa int ençã o a proficiência literária dos nossos alunos, ou seja,
queremos que eles se ambientem ao texto literário, desmistificando a ideia de que é
acessível apenas a alguns – os mais cultos ou erudit os – ; começamos, p ois, pela fase da
interpretação, d e questionamento de id eias, da identificação de acontecimentos, da
descoberta de situaçõe s, tentando dessa forma envolvê-los, implicá-los na descoberta do
texto no seu todo – forma e c onteúdo.
As questões de an álise li terária são, po rtanto, deix adas para se gundo plano. P or esta razão,
a estratégia inicial passa por desmontar o tex to , interpretar as su as lingua g ens simbóli ca s e
estabelecer as pont es com a realidade em que o s nossos alunos se inserem. Destacamos,
mais uma vez, a importância do trabalho colegial, particularmente o de col abora ção a nível
do corpo docente, onde a interligação entre a literatura e o contexto real é reforçado pela
componente da história, abordada pelo trabalho d esenvolvido pela doc ente que connosco
partilha esta área d e formação.
Pelo jogo conceptual, pelo recurso à imaginaçã o, leva mos os nossos a lunos a passar em do
texto ao contexto e/ou do contex to ao texto, alertando-os para a relação q ue se estabelece
entre os dois, ou até mesmo para a d ependência que existe entre um e outro. Trazemos d e
novo o contributo de Ceia (2002:53):
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
116
Se ao es tudan te de hoje ensinarm os que o texto literário é não só um exercício da
imag inação artí st ica, mas também , e m muitos casos, uma nova forma de v er o
m undo que pode cons titui r em si m es ma u m en sinam ent o novo, pel o exem p lo
extraordinár io das p ersonagens ou pela expressão cuidada e origina l da es crita,
então terem os inaugurado u ma nov a didáctica .
Corroboramos a ideia d e construir uma nova di dáctica assente na dime nsão artística ( o
saber ser e o saber estar ) que tivemos ocasião de evidenciar sem , contudo , esquec e r as
duas outras facetas – a e pistemológica (o saber ) e a estratégica (o saber fazer ). Este é um
dos nossos propósitos – contribuir para uma nov a forma de ensinar, e conseq uentemente,
de aprender literatura, onde esta seja vist a como u m meio “(…) de d espertar a curiosidade
intelectual que faz nasce r a imag inação artística.” ( ibid:ibidem ).
3.4 Capacidade, Competência e Comunicação
Para melhor esclarecermos a im portância qu e damos à comunicação e ao desenvolvimento
das competên cias comu nicativas, apresentamos ag ora uma c larificação conc eptual, por
forma a traçarmos um caminho que conduza à fundamentação da nossa prática doce nte .
Iniciamos esta explanação pelo conceito de comunicação, na medida em q ue nos pare ce se r
o mais abrangente e até mesmo transversa l à própria existência hum ana. Recorrendo ao
pensamento de Azeve do (1996:10), importa sublinhar que
Sem pre se comunicou. Até os anim ais emitem sinais e orientam-se por eles. A
espécie humana, porém , fez da comunicação uma ar te com pl exa e, nos últimos
tempos, transform ou-a e m alavanca de progresso social. (…) e deixou de ser
possível asseg urar m íni m os de sobreviv ência sem comunicç ão.
Este a ssegurar dos “mí nimos de sobrevivênc ia” é que confere à comunica ç ão a
sustentabilidade da hum anidade nas suas mais essenciais dimensões , p articularmente na
actualidade , a nível mundial, tendo em conta a importância que assu me na relação
estabelec id a entre os povos e na construção do multi culturalismo e da glob alidade, não
esquece ndo a identidade de cada um deles sustent ada pela sua lín gua e pela especificidade
da sua cultura. Se atendermos ao sentido restricto e denot ativo, comunicação é o “Ato o u
efeito de comunicar, de t rocar informação, através de meios e códigos diversos, verbais e
não-verbais. Ato de codificar ou descodificar u ma mensagem verbal. (…) Apresentação
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
117
oral ou escrita (…) R elação interpessoal d e caráter intelectual ou af etivo (…)” (Guedes ,
2008:251).
Uma reflex ão mais atenta permite-nos tomar consciência de que comunic ar é mui to mais
do que o mero acto de “ trocar info rmação”, s eja qual for o código usado, na medida em
que a quantidade de informação, a varie dade dos códigos e a rapidez com que eles
evoluem, faz com que a dificuldade em comunicar, de forma eficaz e clara, aumente. Para
um melhor entendimento da situaçã o, partilhamos o pensamento de Azevedo ( op. cit :10)
quando def ende a pr ática de uma “comunicação assertiva”, já que “ Com o aumento
gigantesco do volume da comunicação cres cera m ig u almente as dificuldades em
comunicar (...)”; continua o autor, alertando para as dificuldades sentidas na comunicação,
dificuldades essas que
(...) têm também a ver com a satur ação de f requên cias e de meios, com diversidad e
de códigos e linguag ens, com a falta de pr eparação dos comunicadores e com
enviezam ent o premeditado de que se r ev estem muitas mensag ens. Fre quentem ente
as paravras extorquem dinheiro, atiçam ódios m ortífer o s, agridem convicções
legítmas, ocu ltam a v erdade (…). ( ibid:ibidem )
Daí que enfatize a idei a de que para “(...) comunicar com eficácia e simultaneamente com
integrida d e, isto é, promovendo os seus di reitos e não viol ando os direitos dos seus
interlocutores, deverá s er capaz de uma comunicação assertiva.” ( ib id:ibidem ).
Neste sentido, destacamos a centralidade d a promoção do desenvolvi mento de
competências linguísticas e comunicacionais, que necessitam de constante
aperfeiçoa m ento/ melhoramento, na medida em que as vivências do ser humano, a sua
própria vida, e as relações que estabelece com os outros, são um processo que não pode
nunca ser en carado como algo estático. Assim, o f enómeno comunicativo é, também ele, e
consequenteme nt e, algo dinâmico, e que, por isso , deve estar em constante evolução, para
fazer frente, de forma eficaz, às rápidas mudan ças sociais . N a verdade, a sociedade é o
produto do homem nas suas múlti plas relações c om os outros e com o real – o processo
comunicativo está em constante mudança, mudan ça essa que todos pre cisam acompanhar
para que a exclusão social n ão aconteça. Esta é, em nossa opini ão, a grande razão para a
valorização do p apel da escola, e p ara a do papel d o professo r, particularmente o de lín gua.
Convocando Delors (1998:47-48), diremos que :
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
118
A educação pode ser um factor de coesão se procurar ter em conta a diversidad e
dos i nd ivíduos e dos grupos humanos, evitando tornar-se u m f actor de exclusão
social. (…) Os sistem as educativos f orm ais são, muitas vez es acusados, e com
razão, de l imitar o desen volvimento pessoal (…) tendem ca da m ais (…) a
privilegiar o desenvolv imento de conhecim ento abs tr acto, em detrimento de
outras qualidades hum anas, como a imaginação, a aptidão para com unicar, o
gosto pela anim ação do tr abalho em equipa, o sentido do belo, a dimensão
espiritual ou a destreza m anual.
A chave para a redução d a exclusão social está, quanto a nós, na oferta, por parte da escola
e dos agentes edu cativos, de uma educação holísti ca e integral que abarque div ersas
dimensões, várias vertentes da própria vida, incluindo a comunicação verbal (oral e escrita)
– meio imediato de afirmação do homem sin gular todavia, pertencente a uma comunidade ,
cada vez mais diversificada e multicultural. C omo afirma Lazzarin (2008:122), o homem
vive em “(…) sociedades formadas por múlti plas comunidades culturais, que convivem
entre si.”. É no sentido d e preservar a identidade individual, numa plurali dade de culturas
que, consideramos, cada vez mais pertinente a aprendizagem da língua materna, numa
perspec tiva p roce ssu al, ou seja, numa pe rsp ectiva de apr endiza g em ao longo da vida.
Delors (1998:14) alert a para o facto de existirem várias tensões na soci e dade actual, d as
quais destaca mos :
(…) a tensão entre o global e o loca l: tornar -se, pouco a pouco, cidadão do mundo
sem perder as suas raízes e participando, activam ente na vida do se u país e das
comunidades de base.
A tensão entre o un ivers al e o sing ular: a mundialização da cultura vai-se
realizando progressiva mas parcialmente. É, de facto, inevitável com as sua s
promessas e os seus riscos, um dos quais (…) cons iste no esquec imento do carácter
único de cada pessoa, do apel o que cada um sente de escolher o seu des tino e
realizar to das as suas potencialidade s, m antendo a riqueza das suas trad ições e da
sua própria cultura, ameaça da, se não tiverm os c uidado , pelas evoluções em curso.
Para nós, estas tensões e ntre o global e o local, entre o universal e o sin gular, não podem
ser enc ara d as como entr aves a uma Europa mais unida, a um mundo ma is unido. P elo
contrário, dess as tensões deve resultar o progresso cultural dos povos, o enr iquecimento
pessoal e social. A multiculturalidade não pode ser uma amea ça à perd a de identidade, pelo
contrário, a identidade d e um povo reforça-se pela aprendizagem que faz do contacto com
outras culturas. No entanto, entendemos como necessário que os cidadãos sejam linguístic a
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
119
e comunica tivamente competentes na sua própria líng ua e em pelo menos uma líng ua
estrangeira.
Na senda de V ez (2009:13), apresentamos a ideia de que “Language is the most direct
expression of culture; it is what makes us human and what g ive s each of us a sense of
identity”. Simultaneamente, o mesmo autor defende o multili nguismo, na linha d as
políticas europeias, na medida em que, numa Europa mul ticultural, é necessário a
aprendizagem de pelo m enos mais uma língua, além da materna. Ainda de acordo com este
autor ( op.cit. :11), as políticas europeias têm apostado na promoção do mul tilinguismo e da
multiculturalidade: “The Council of Europe is ver y active in enh ancing E urope’s cultural
heritage promotin g unity in diversity particularl y in educational fields.”, elencando os
objectivos do Modern Language Project , do C onselho da Europa, de 2000, do qual
destacamos o p rimeiro ( ibid:ibidem ): “(...) to promote large-scale multili ngua lism b y
assisting member states in encouraging all Europeans to achieve a degree o f
communicative ability in a number o f langua ge s and to continue their lan guage learning o n
a lifelong b asis;”.
Na verda d e, a competência comunicativa não se esgota no conhecimento /uso da língua ,
apesar da competência linguística, composta pelas dimensões lex ical, gramatical,
semântica e fonoló g ica, ser essencial p ara compreender e falar uma lín gua. Porém, há que
considerar as compe t ências sociolinguísticas e pragmáticas.
De acordo com Tavares ( op.cit.: 39), a competência socioli ng uística “(…) articula[-se] com
as competências individuais ge rais, e n globa dimensões de ordem do conhecimento do
mundo, das culturas, dos referentes, dos rituais co municativos.”. Esta com petênc ia implica
o conhecimento d a complex idade de aspec to s culturais. No que diz respeito às
competências pra g m áticas, a mesma autora ( ibi d:ibidem) subdivide- as em componente
discursiva, funcional e esquemática, o que im plica o conhecimento de organiz ação textual,
com a sua estruturação, com argumentação, sistematização, relacionaçã o. Esta
competência assume um a intencionalidade dupla , na medida em que ela não se prende
apenas com o saber fazer , mas também com o “querer comunicar”.
Quando o saber fazer linguístico e comunicacional é deficitário, o s obstáculos à
comunicação evidenciam -se, criando constrangimentos ao “querer comunicar”. É
precisame nt e devido a estas dificuldade s, e aos consequentes perigos a que o ser humano,
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
120
enquanto ser social, fica sujeito, qu e damos particula r importância, enquanto docente de
língua materna, a o d esenvolvimento das competências comunicativas, particularmente:
a interacçã o v erbal;
a interpre t ação oral e escrita;
a compreensão oral e e s crita;
a interpre t ação de ling u agens simbólicas;
o conhecimento de linguagem não verbal;
a intencionalidade comunicativa.
Esta preo cupação assume um maior destaqu e qu ando se tr abalha com alun os adultos, cuja
vivência social está já mais fortemente enraizada – e nem sempre da melhor forma – o que
se traduz numa maior urgência em d esenvolver competências c omunicativas, qu e
adquirem, neste c aso concreto, um carácter tr ansversal. No General Survey of Aspects of
Foreign Language Teache r Traini ng , a UNESCO (1986 :3), ainda que a propósito da
aprendizagem de uma língua estrangeira, realça-se o facto de que
Understanding am ong peoples and peace around th e w orld d epends to a g reat
extent on t he capaci ty of human beings to co mmunicate with each other in
constructive ways. T he languag e teaching prof ess ion has therefore t he unique
opportunity to contribute tow ards t he attainm ent of the m ost important goa ls in the
developm ent of mankind.
É tendo em mente esta função da lin g ua gem – que ultrapassa o saber restrito e específico
da língua, assumindo um carácter transversal – e o seu papel na vida de cada um de nós
que destacamos a tarefa crucial que um professor de língua desempenha.
Quando o que está em causa é a educação de adultos, consideramos que a abordagem aos
conteúdos requer um cuidado particular e uma int encionalidade própria, na medida em qu e
é necessário que ela parta das reais n ecessidades dos alunos e sempre em negociação com
eles. Neste contexto, convocamos de novo o pe nsamento de Ausu bel (1 962), que ap ela a
aprendizagens significativas, o que nos parece se r a via a escolher, na medida em que a
consciencialização das v ivências e experiências do indivíduo está, no caso dos adultos,
muito mais fortemente p resente e, por isso, são c om maior frequência convocadas p ara as
aprendizagens a desenvolver. Desta forma, a implicação e a co -responsabili zação dos
alunos no seu processo de aprendizagem é cond ição indispensável, pois, quanto a nós,
optimiza esse mesmo processo.
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
121
Ao professor compete ser um facilitador de aprendizagens, em função das necessidade s e
dos interesses reveladas pelos discentes, mas, ao mesmo tempo, em função de um
objectivo fulcral, na actualidade, que é a inserção dos adultos numa Europa cada vez mais
diversa e plural, sem perder nunca de mira a identi dade de cada um e da sua comunidade .
Para tal, o docente faculta aos alunos o contacto c om diferentes instrumentos de
comunicação, com diferentes finalidades comunicativas, lev ando à metacognição, isto é,
levando os alunos a tom arem consciência d essas diferentes finalidades, p ara que poss am,
eles próprios, comunicarem com assertividade, como tivemos oportunidade de referir
anteriormente. Quando nos referimos a instrumentos de comunicação, pretendemos dizer:
consciência da intenc ion alidade c omunicativa;
consciência da importância da postur a e da coloca çã o de voz;
vocabulário variado e adequado a diferentes contextos;
articulação lóg i ca do discurso;
clareza e obj ectividade e rigor.
Importa sublinhar que, se as questões que aqui levantamos se prende m em primeira análise
com a líng ua materna, elas não se esgotam nela. A aprendiza g em de, pelo menos , uma
língua estr angeira , assume-se como u m objectivo principal na Europa. No entanto, para
que tal aconteça o aperfeiçoamento das competências em língua materna torna -se ainda
mais importante. I mpor ta, agora, mencionar um re latório de trabalh o da Comissão
Europeia [CE] – Key competences for Lifelong Learning European R eference Framework
(2007:4) –, no qu al se estabelece uma definição de comunicação em lí ngua materna qu e
consideramos pertinente:
Comm uni cation in t he mother tong ue is the ab ility to express and inte rpret
concepts, thoug hts, feelin gs, facts and opini ons in both oral a nd written form
(listening , spe aking , rea ding and writing), and to interact linguis tically in an
appropriate and creative way in a full range of societal and cultural contex ts; in
education and training, wor k, home and le isure.
Estamos certa, pois, que o desenvolvimento da competência comunicativa é basilar, não
apenas c omo o caminho para a melhor afirmação de cada indivíduo no mundo, mas
também para o desenvol vimento e a consolidação de outras compet ências , nomeadamente
a proficiê n cia noutros idiomas.
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
122
Recorre ndo de novo ao relatório mencionado ( op.cit.:5 ), encontramos a definição de
comunicação em língua estra n g eira: “Comm unication in foreig n languages broadly shares
the main skill dimensions of communication in the mother tongue (…) according to one’s
wants or n eeds. Comm unication in foreign l anguages also calls for skills such as m ediation
and intercultural under standing ” . Esta é a razão que nos leva a considerar que o
aperfeiçoa m ento das competênc ias em lí ngua materna é fundamental para o
desenvolvimento do pr óprio indivíduo, mas também para o poten ciar de outras
competências. Assim, o conhecimento da língua assume a dupla vertente; por um lado
quando tomado como objecto de estudo, evidencia -se como conhecimento específico a
trabalhar , p ara o utiliz ar apropriadamente; por outro, evidencia-se como meio, como
veículo de outros conhecimentos e, por conseguinte, assume -se na sua dimensão
transversa l, contribuindo definitivamente pa r a o desenvolvimento dos cidadãos.
Por tudo ist o, entendemos que a abordagem à aprendizagem da lí ngua materna tem de ser
feita, também el a, numa perspec tiva transversal, levando os alunos , at ravés de um processo
reflexivo, a tomarem con sciência da importân cia que a sua lín g ua assume no dia -a-dia. No
caso de alunos adultos, sentimos a tendência que têm em desvalorizar o estudo da lí ng ua
que falam ‘ d esde crianças’, considera ndo -a como um ‘dado adquirido’.
Amor (2006:8) aponta esta atitude como um problema para o ensino da língua materna,
numa perspectiva geral, atingindo todas as faixas etárias; isto é, também no que a cri anç as ,
jovens e adultos concern e; a autora afirma que uma das complex idades do ensino da língua
materna se relaciona co m o facto de “(…) no iní cio da escolaridade o aluno possui r já um
conhecimento subst ancial da sua língua, adquirido em meio natural.”. Quanto a nós, esta
dificuldade a figura-se como um desafio n a educação de adultos, na medida em que “o
conhecimento substancial da lí ng ua” não é, para nós, sinónimo de competência linguística
ou comunicativa. Na v erdade, e se g uindo, d e novo , o pensame nto de Amo r ( op.c it. :10)
(…) a l íngua é sis tema e códig o (…) [mas] a líng ua é t am bém praxis , ac ção
actualizadora – simultanea mente instauradora e transgress ora – do refer ido si stem a,
no plano das r elaç ões intersub j ectiv as. Daí o relevo conferido, na actualidade, às
dimensões ou nív eis que de correm não j á do sist ema, m as do uso, a saber:
Pragmático-soc iocomunic ativo , que se ocupa d os dife rentes actos e
estratégias que a língua perm ite concret izar e das consequentes
transform ações operadas no quadro interlocut ivo;
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
123
Discursivo-tex tual que, tom ando o di scurso, e a sua realidade materia l, o
texto – como uma pr odução socialm ente situada, visa dar conta dos
constrangim entos linguísti cos e extraling uísticos que o sobredeterm inam e
configuram .
A abertura para encarar estas diferentes pe rspectivas, conferem ao professor um a
importância redobrada. Neste sentido, consideramos vir a propósito aqui uma referência
especial ao contributo da didáctica geral e ao da didáctica específica em particular, que nos
dá o suporte, a fundamentação, para det erminada s opções metodológicas em detrimento de
outras. Falamos d a didác tica enquanto techne , qu e nos leva a abordagens específicas, face
ao potencial humano com o qual nos envolvemos, obrigando -nos a recorrer a estraté g ias
diferenciadas, a actividades múltiplas que nos permitam ir ao encontro desse potencial,
criando condições para que ele se torne uma mais-valia.
Na nossa perspe ctiva, a inevitabili dade do acto comunicativo – até pelo silêncio e pelos
ge stos, que adoptamos, quando estamos a comu nicar – contribui para a especificidade da
didáctica da língua m aterna, conferi ndo-lhe caracter ísticas únicas, extraordinárias e
poderosas – a lín g ua é o objecto de estudo, mas é, ao mesmo tempo, o veículo, o meio d e
comunicação usado para que a apre ndiz agem aconteça. É essa a razão da inevitabilidade do
acto comunicativo; é po r isso que confere a importância referida à didáctica da língua,
apesar de termos presente que comunicar não se realiza ap enas de forma verbal –
complementa-se pela “(…) dimensão n ão verbal (gestos, sorrisos, olhares…) paraverbal
(altura de voz, ritmo, déb ito…) (…)” (Tavares, 2007:38).
Como se infere da leitura do Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas
[QECR], quando se trata de optimi zar a competência comunicativa, o e nsino da língua
materna a ssume um a tripla dimensão:
- a competência linguístic a, propriamente dita, isto é, o conhe cimento da
língua, em termos lexicais, gramaticais, semânticos e fonológ ico s – o
saber linguístico ;
- a competênc i a sociolinguística , que vai mais além e implica o
conhecimento de aspectos culturais e da complexidade social – o sa ber
ser , o saber estar e, portanto o saber conviver –, no sentido de
adaptação comunic ativa e até da abordagem aos outros; e
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
226
nos sobre as mais-v alias que os alunos poder ão ter da e n a escol a. Surge, então, o conceito
de apre ndiz age m por competências, que se organiza sust enta por quatro eix os:
(i) competências p essoais ( saber ser );
(ii) competências sociais ( saber estar com o outro );
(iii) competências académicas ( saber );
(iv) competências d e desempenho ( saber fazer ).
Assim, uma boa formação é aquela que evidencia a pre s ença dos princípios subjacentes aos
eixos recomendados pelo R elatório da UN ESCO (1998). Actualment e, formar não é ‘para
o empreg o’ ou ‘para a vida’, mas antes, algo que envolva o ser humano em todas as suas
dimensões – uma formação integral.
Antes de mais, gostar íamos aqui de marcar a nossa postura, face à probl emática
relacionada com as com petênc ias . Para nós, elas estão em estreita relação com o saber, ou
seja, não há pessoas com petentes se não desenvolverem conhecimentos qu e fundamentem
e legitimem as competências per se e integradas num deter minado contexto, isto é, na
relação que com ele e com os seus actores estabelece, convocando portanto o saber ser e o
saber estar . Tal como afirma Perr enoud (2008:3),
Las competencia s elem ent ales evocad as no exis ten sin relación con los program as
escolares y l o s saberes discip linares; ellas ex igen nociones y conocimiento s de
m atemáticas, de geografía , de biología, de física, d e economía, de psicolog ía;
suponen un dominio de la lengua y de las operac iones matem áticas básicas;
convocan una forma de cul tura g eneral que se adq uiere también en la escuela. ( …)
Una parte de la s competenc ias que se desarr ollan fuera de la escuela convocan a los
saberes escolares básicos (la noción de mapa, de moneda, de ángulo derecho, de
interés, de periódico, de it inerario, etc…), y a las hab ilidades concret as
fundamenta les (leer, escribi r, contar).
Deste modo, perante este novo conceito de f ormaç ão , onde a compone nte académica se
entrecruza e se complementa com a componente não formal e informal d e aprendizage m ,
desenvolvendo assim competências essenciai s, há que ter em conta também “a im portância
da competência reflexiva (individual e col ectiva) como factor decisivo na qualidade da
acção humanizante e tra n sformador a das pessoas e dos contextos” (Sá Chaves, 2008:10).
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
227
Assim sendo, torna-se pois evidente que os curricula sejam repe nsados por forma a que
estes novos conceitos se consubstanciem e s e tornem ex equíveis, promovendo-se a
articulação entre teoria e prátic a, quer a nível do ensino, quer a nível da apre ndiz agem .
Perrenoud (2008) afirma, também, que a pr ática é fundamenta l para que os aprendentes s e
tornem cidadãos competentes; para além disso, destaca a importância d a refl exibilidade
para o aprimorar da competência. Efectivamente, nin g uém será verdadeiramente
competente se não reflect ir sobre a sua acção e se, a partir dessa reflexã o, não adaptar a sua
conduta, através de novas aprendizagens, de transferência de conhecimentos, sua
adaptação e rec onstru ção, de inovação; como o autor refere:
(…) el “transfert” de conoc imientos no es automático, se adqu iere por el ejercicio y
una práctica reflexiva, en situaciones que propician la ocasión de mov ili z ar los
saberes, de extrapolarlos, de cruzarlos, de com binarlos, de construir una estra tegia
original a par tir de recursos que no la contien en y que no la d ictan. (2008:4)
Esta nova vis ão im plica necessariamente o repensar da posição e postura do professor . D o
paradigma do professor técnico, estamos a avançar para o do pro fessor p rático-reflexivo,
pesquisador da própria p rática e preparado para ver o mundo na sua complexidade. É neste
sentido que Sá Chaves (2008) reflecte sobre o elogio do pensar , defendido por Alarcão,
relativamente à prof issão docente.
É também neste sentido que, já em 1983, Schön afirma que
(…) when we reject the traditional view of profe ssional knowledg e, recognizin g
that practitione rs may become r eflectiv e researchers in si tuation s of uncertainty ,
instability, uniqueness, and conflict, we have recast the rel ationship betwee n
research and practic e. For on this perspec ti ve, res e arch is an activity of
practitioners. (1983 : 308)
Como já re ferimos, esta nova perspectiva de encarar a educ ação exige a alteração d e
práticas, mas t ambém uma nova forma de encar ar e conceber os currículos académicos.
Não podemos esquecer, todavia, que nem sempre é fácil encetar estas m udança s. No que
diz respeito à concepção de um currículo com bas e nas competências , traz emos a debate o
pensamento de Roldão (2009:592), que afir ma qu e
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
228
Não se trata (…) no plano cu rricular escolar, de “substitui r” saberes po r
competências – trata- se sim de revitalizar os conhec imentos transform an do- os em
agentes activ os de compreensão, de organização do co nhecimento e de acção; tra ta-
se afinal d e orientar os conhecim entos/conteú dos no sentido de alimentarem
eficazm en te a construção da com petência do aprendente. Um a educaç ão
“competenc ializadora” não dispensa nenhum saber , antes exige m ais e m ai s
diversos saberes, acrescido s da sua articulação orientada para a po ss ibilidade d e
uso (cognitiv o, prático, intelec tivo, de fruição, ou out ros).
Por norma, as propostas curriculares têm- se baseado na just aposição, ou seja, as várias
disciplinas funcionam c omo ‘ilhas’, independentes umas das outras, obedecendo ao seu
próprio projecto, para da r cumprimento aos seus próprios objectivos, com as suas p róprias
estratégias, tipos de avaliaçã o , entre outros. Tendo em conta as ideias da autora, não é esse
o caminho a seguir; será antes o caminho do questionamento que nos perm ite confrontar,
reorga niz ar os conhecimentos , articulá-los e, então, por eles sust ent ad os, entrarmos em
acção, dese nvolvendo competências.
De acordo com Zabalza (2008), o projecto curricular tem de s er visto numa perspectiva
‘integradora’, ou seja, o projecto formativo deve ser, tem de ser o con junto das várias
disciplinas. Cada uma delas funciona como peças de um todo, como engrenagem da
mesma máquina, e não apenas uma peça isolada que se soma às outras. Cada profe ssor
deveria ‘a ga rrar’ aquilo que os alunos desenvolveram, ao nível das outras discipl inas, e dar
seguime nto ao processo, assemelhando -se, assi m, em nosso entender, o processo de
aprendizagem a uma ‘corrida d e estafetas’, em que determinado professor ‘pe ga ’ o
testemunho deixado pelo anterior, dando, assim, continuidade e permitindo a prog ressão
curricular desejada. É, por outras palavras, um processo facilitador da aprendizagem em
espiral, pelo trabalho col abora tivo que se pretende – um trabalho em rede em que há um a
estreita relação entr e o q ue u m professor ‘d eixa’ e o outro ‘pe ga’, estabelecendo-se, assim,
elos de ligaçã o n a forma como ca da docente realiza, de forma partilhada a sua praxis.
Esta é a pe rspectiva subjacente aos novos Cur sos EFA - NS , através do trabalho
colaborativo que se pretende seja realizado por toda a equip a pedagógica e,
particularme nte, através do trabalho de co-docência previsto para cada AF.
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
229
A finalizar este subponto, gostaríamos de relembrar, mais uma ve z , o pensamento de
Perenoud (2008:7), na medida em que sintetiza o que nós própria consideramos, quer
relativamente ao ensino por competências, quer em relação às competências transversais d a
língua materna que anter iormente mencionámos: “ La trilogía de saber -hacer-leer, escribir,
contar - que ha fundado la escolarización obligatoria en el s ig lo XXI no está a la altura de
las ex ige ncias d e nues tra época. El enfoqu e por competencias bus ca simplemente
actualizarla.”. Na r ealidade, como já tivemos oportunidade de referir, não partilhamos da
ideia, quanto a nós errónea, de que a aprendizage m po r competências descura o saber;
quanto a nós, não há competência sem conh ecimento. A a bordagem feita ao processo
ensino aprendizagem é o utra, como tivemos oportunidade de ap resentar, mas nunca abdi ca
do saber , do conhec imen to.
4.5.1 Perspectivas actuais a considerar
Ao fa larmos de curricu lum , nã o podemos deixar de considerar dua s perspectivas – a
diacrónica e a sincrónic a. Na primeira, r eferimo-nos à dinâmica processual, sequenciada
em fases, d esde a pl anificaçã o do curriculu m até à su a avaliação assim como das
caminhadas que o sujeito vai fazendo, uma após a outra, mas nunca desligadas – uma
caminha de vida, sequenciada, também ela, em fas es, tal como o curriculum . Na
perspec tiva sincrónica, consideramos o ti po de componentes que integra m o curriculum ;
vem à nossa mente a interdisciplinaridade e a complexidade do conhecimento (Morin,
1999), assim como a transdisciplinaridade Nicolescu (1997).
Na perspectiva dia crónica, que abrange naturalmente diversas instituições e agentes,
hierarquicamente or ganizados, consideram-se três níveis de acção, ou sej a, três etapas d e
decisão, pois, t emos de considerar o tempo que decorre entre a escolha do curriculum ,
realizada pe la tutel a, e a implementação por parte dos professore s.
Desta forma, referimos como interveniente s , no tempo:
(i) o estado;
(ii) as instituições;
(iii) os actores.
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
230
Invocando Zabalza (20 08), enquanto as escolas fore m encaradas com o ‘sucursais de
bancos’ ou seja, apenas um local onde acontece a educação, elas não t erão capacidade de
desenvolvimento cur ricular, isto é, não serão agentes/actantes, isto é, não assumirão a sua
parte na acção. P ara o mesmo autor, e ainda n esta perspectiva, temos de ter em conta as
várias fa s es a que o curriculum está sujeito:
(i) iniciação;
(ii) fu ndamentação (difusão e adopção) ;
(iii) implementação;
(iv) avaliação.
Relativamente à iniciaçã o – a fase de elaboração – salientamos que esta é uma decisão
política, pois referimo-nos ao plano deter minado pela tutela, que en cerra em si a estrutura
formal dos conteúdos e dos propósitos instrutivos. Na verdade, é a antecipação formativa, a
expressão formal do que se pretende que os alun os atinjam, por exemp lo, no final de cada
ciclo de apre ndiza ge m (Zabalza, op.cit .). Assim, dependendo dos propósitos do Estado
para a Aprendizagem dos seus cidadãos, são vária s as possibilidades de modelos de
construção curric ul ar. O curriculum pode então ser criado através de um modelo:
(i) ‘centro – perife ria’, um modelo centralizado, cuja responsabilidade é
exclusivamente da tutela;
(ii) ‘periferia – periferia’, um modelo descentra liz ado, que pode partir de
uma escola e que pode ser aplicado noutras esc olas com o qual se
identifiquem;
(iii) ‘periferia – centro – periferia’, modelo inicialmente descentralizado, pois ,
surge numa de terminada região e, por ser modelo de boas práticas , é
legitimado pela t utela, d e forma a se r posto em pr ática, nas outras escolas
– o que fará dele um novo modelo centra liz ado.
A construção curricular im plica ainda outras opções, nomea dament e a escolha dos
elementos da equipa que o irão elaborar. De sta forma, e continuando na linha de
pensamento de Zabalza ( op.cit. ), importa mencionar 3 modelos:
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
231
(i) o modelo técnico, elaborado por peritos, e qu e lhe confere mais
credibilidade e actualidade, embora a sua viabilidade possa estar
comprometida, dado o afastamento desses p er ito s, relativamente à
realidade escolar;
(ii) o modelo prático, elaborado por pro fissionais do ensino, o que lhe poderá
garantir viabilidade, embora, embora a credibilidade e a actualidade
estarão aquém do dese j ado, por falta de marcos teóricos que o sustente;
(iii) o modelo misto, com a participação dos dois tipos de profissionais.
Este último é considerado o mais adequado, na medida em que é o m ais equilibrado, pois
permite a articulação e ntre os ‘saberes técnicos’ e aqueles que resultam dos ‘sabere s ’
enriquecidos pe l a experiência em campo.
Em fase de fundamentaç ão do plano curricular importa considerar a difusão e a adop ção,
ou seja, a divul gação do projecto a todos os que irão aplicá-lo e a sua aceitaçã o por pa rte
destes.
Destaca mos aqui que, inf elizmente, os professores são normalmente esquecidos na fase da
difusão – parte-se do princípio que nos consegui mos adaptar a todas as propostas que se
nos apre sentem. Este esquecimento, porém, acarreta o risco do pouco env olvimento pelos
professores, o que poderá conduzir a f alsas adopções. Para que a adopção seja efec tiva, a
força da mudanç a terá de ser mais forte do que a da estabilidade. Muitas ve zes, o medo de
perda de pod er, por parte dos professore s pod e ser um grande entrave à adopção real.
A impl ementaç ão – o pôr em prática, em acção o projec to – depende r á de opções d e
execução ; pode acontecer com base na fidelidade, isto é, muito próxim o do plano
elaborado ou, por outro lado, pode ser adaptado face ao contexto , em que a rigidez do
plano é mais diluída.
Finalmente, no que diz r espeito à avaliação do p lano curricular estabelec ido, importa ter
em linha de cont a, a decisão tom ada, em termos de implementação; impo rta con siderar o
facto de o plano ter sido seg uido fielmente ou ter sido adaptado . Perante os resultados
obtidos, a s mudança s, e m termos curriculares podem continuar ou não. S erá , também,
pertinente r eferirmos que as mudanças curriculares são muito vulneráveis, p ois há vários
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
232
factores que as podem influenciar, nom eadamente questões polí ticas, históricas,
económicas e sociais.
Após esta breve d escrição sobre as fases por qu e passa um plano/ project o curricular – a
sua concepção, a implementação, a avaliação –, importa reiterar a ideia de que o
curriculum é al go compl exo que envolve tudo aquil o que se relaciona com a escola e o seu
meio; os alunos e os s eus interesses, vivências, n ece ssidad es e expe ctativ as; a sociedade e
o país em que ele se aplica. Como refere Za b alza ( op.cit. :4 ):
(…) llam amos curriculum a todo aque l tipo de dispos iciones y procesos que ca da
sociedad pone en m archa para hace r efect ivo, a t rav és de la escue la, el derec ho de
los niños/ as y jóvenes a recib ir educación y a que se facilite su desarro llo personal
y social.
Nesta linha de pensamento, destacamos a pertinência que a perspectiva sincrónica assume
para o desenvolvimento curric ula r, para o qual é necessário ter em linha de conta os seus
quatro elementos canónicos: (i) os objectivos; (ii) os conteúdos; (iii) as actividades e (iv) a
avaliação, que partem se mpre de tom adas de d ecisão fundam entada s. Como temos vindo a
referir, no entanto, actualmente, há que ter em consideração que curriculum é muito mais
do que estes elementos. Tudo é curriculum . Assi m é, pois, fundamental t er em conta as
fontes do curriculum para qu e o d esenvolvimento curricular sej a coerente com as
necessidades actuais da sociedade e, consequentemente da escola, ou seja, o curriculum
tem de ser, útil, adequado e ajustado à realidade em que vivemos.
São quatro as fonte s a considerar:
(i) a fonte sociológica ;
(ii) a fonte pedagógica;
(iii) a fonte epistemológica;
(iv) a fonte psicológica .
Estas fontes fundamentam as opções das propostas curric ulares: just ificam a leitura que
cada u m faz da realidade escolar e das co mponentes ideológ i ca e técnica que a
condicionam. São as considerações prévias que p ermitem entender os porquês da escolh a
do curriculum . Atravé s delas, obtemos a s respostas a questões como: (i) porquê esta
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
233
estrutura cu rricular e não o utra? (ii) porquê esta concepção de e scola? (iii) porquê estes
conteúdos?
Em suma, as fontes do curriculum justificam as r azões pelas qu ais um de terminado país,
num deter minado momento, toma determinadas de cisões curric ul are s, or ga niza a oferta
educativa e a mane i ra c o mo o faz.
A fonte sociológica possibi lita-nos identifica r qual o papel que a escola tem na sociedade
actual. Ela deve formar cidadãos, munindo-os de competências que lh es permitam a
integraçã o plena na socie dade, no m undo adulto. Por outro lado, a escola tem ainda o papel
de guarda, de controlo, de apoio familiar, entre outros. Neste sentido, poderemos apontar
algumas incongruências entre aquilo que d eve ser a sua fun ção e aquilo qu e lhe é, d e facto
exigido: pede-se qu e a e scola forme integralmente indivíduos autónomos e responsáveis,
que responda às suas n ecessida d es e que desenvolva valore s morais, mas na realidade ,
espera-se que os alunos tenham boas notas, que aceitem as normas. Esta é, quanto a nós,
uma questão de ex trema importância, sobre a q ual terá de haver r eflexão , por parte de
todos os envolvidos no processo, por forma a que a esc ola acompanhe efectivamente as
mudanças sociais que se têm verificado; cabe-lhe a função de preparar para
- o mundo do trabalho (c o mponente prof issional);
- o lazer (c omponentes cultural/ artística e ambienta l);
- as relaçõe s pessoais e sociais (relacionamento interpessoal);
- a democrac ia (componente cívica );
- a aquisiçã o de novos conhecimentos e de str ezas ao longo da vida.
Em nosso entender e, de acordo com Zabalza (2008), é pensando nestas componentes, que
são criadas condiçõe s p ara a construção do c u rrículo.
No que concerne à fonte pedagógica, temos de ter pres ente que ela nos ajuda a
compreender qual o mo delo educativo que s e pretende com o cur rículo. Na verdade, a
escola edu ca, mas não ex iste educação sem um bom ensino. O ensino e a formação não se
produzem só na escola; no entanto, a esta cabe u m papel importante. A p ar do curriculum
formal, que ela oferece, há o curriculum informal e não formal. Em nossa opinião, o
grande d esafio é romper com as barreiras e integrar os vários tipos de curricula . Não
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
234
podemos deix ar de ter p resente que curriculum é um ‘projecto de formação integrado’, d aí
que todos os elementos que contribuem para a formaç ão de indivíduos, cidadãos do
mundo, têm de ser tomad os em conta. A escola faz parte de um sistema de formação, não é
o sistema de formação.
Ao ter em linha de co nta a fonte epistemoló gica, importa p ensar q uais os tipos de
conhecimentos que a escola deve proporcionar. Ao considerarmos que : “( …) la función
básica da escuela es e duca r y que educar significa dotar a los sujetos de aquellos
conocimientos y competencias que poten cien su desarrollo personal y cultural y fa ciliten si
inserción social (…) (Zabalza, op.cit. :7).
Torna-se importante de finir quais os conhecimentos a proporcionar aos al unos. É sensato
oferecer, por exemplo, a nível do e nsino secundá rio, um leque o mais vasto possível de
conhecimentos, de forma generalizada, sem a p rofundar grandemente ? Por outro lado, não é
melhor dotar os alunos de menos conhecimento s, mas de forma m ais aprofundada, d e
maneira a que possam conc luir os seus estudos , com ‘al g uma especialização’ em
determinada s áreas, quer seja em cursos de carác te r profissional ou para prosseguimento de
estudos? São questões de masiado importantes, e que não são alvo de estudo neste trabalho.
Todavia, elas emerge m n aturalmente.
Há aind a outra questão a destacar, pela sua importância – as ti pologias de curriculum .
Podemos considera r um curriculum disponibiliz a do instit ucionalmente, que é aquilo que a
escola oferece; depois, o curriculum assimilado, ou seja, as aprendizagens reais que, no
final do processo, os alu nos demonstram ter realizado; de grande importância aind a, há a
considerar o curriculum oculto, isto é , os valo res que c ada um dos intervenientes no
processo tem, e que, consciente ou inconscientemente, revelam ao longo do processo
ensino-apre ndiz age m . A forma como se abordam os conteúdos é fundamental; p ode partir-
se do princípio que estes estão definidos ou entã o que podem ser discutidos .
Po r fim, ao fal armos da f onte psicológica, temos de pensa r a quem se diri ge o curriculum .
A escola n ão tem de se adaptar aos int eresses e capacidades dos s eus alunos . Ela tem, sim ,
de os saber ap roveitar e de os usar pa ra lhes p roporcionar o s eu desenvolvimento. Há que
referir que a construção curricular se faz sobre o programa, onde o sujeito aprendente est á
Parte 1: Didáctica das Língua e Literatura Maternas
235
apenas em teor i a, e m conceito. Este é uma constru ção c oncebida, por parte da tutela ,
ge n eralizada ao país. Daqui, parte-se então para a pro gramação, ou sej a, parte -se para a
adaptação do pro g rama a uma situação específic a, a um loc al, onde o sujei to aprendente é
já enc ara do como sendo alg u ém com co rpo e alma. É tendo em vista este aprendente que
devem ser elaborados os projectos de e scola, em bora isso nem sempre a conteça. Também
o professor d everá fazer o mesmo ao planificar as suas aulas, ao optar por uns ‘mediadore s
de planificação’ (Zabalza, 2007:52) e não po r outros – didactiz ar o s conteúdos do
currículo. Em vez de se guir os projectos maquinalmente, o professor deveria ser capaz de
seleccionar os materiais didácticos a utilizar, de acordo com a realidade dos seus alunos.
Na sua prática, o curriculum deveria passar sempre por uma fas e de ‘programação’, na
qual os docentes t êm de assumir um papel a ctivo, mas infeliz mente a tendência é aplicar o
‘progra ma ’, ou por ma ior segurança, ou por maior comodidade , ou por dificul dade s de
adaptação ao contexto escola e alunos.
Desta forma, convoc am os, mais uma vez, Zabalza ( op.cit :50), quando afirma:
(…) el prof esor como participe y g est o r de la programación , no como pr op ietario y
factótum de ella. Los profeso res como colectivo y en unión (…) diseñan al
comienz o de cada curso cuáles son las líneas maestras de su trabajo, com o puede n
resolverse los problemas ha bidos con anterioridad y re forzarse los éx itos (…)
Em nossa opinião, a escola só c onseguirá acompanhar as alterações da sociedade do
conhecimento, e responder aos seus desafios, s e nela se assumir um ‘p ensar reflexivo , e um
compromisso com a cidadania, desenvolvendo a capacidade c rítica. Para tal, é necessário
conceber a escola como uma ‘instituição social’ – lugar onde se entrecruzam
repre s entações e saberes do mundo sócio-cultural e científico. A escola é, por isso, de
acordo com Giroux (citado por Aranguren , 2007) , um espaço público onde se ne goceiam
processos de socialização.
Este é o nosso ponto de partida, em termos de tra balho com os alunos adultos , com quem
desenvolvemos a nossa p rática docente. Esta é, também, em nosso entender, a f ilo sofia de
ensino subjacente aos c ursos EFA- NS . Assim, pretendemos desenvol ver um trabalho
atento às realidades dos alunos, às suas experiências de vida e aos seus i nteresses, para,
Parte 2: Estudo Empírico
243
1 Metodologia s de inv es tigação
1.1 Abordagem epistemológica
Considerando a epistemologia d a investigação científica, há duas perspectivas a t er em
conta – a investigação quantitativa e a investigaçã o qualitativa. No que diz respeito às
Ciências Sociais e, particularme nte à educação, é a segunda que melh or se adapta à
natureza do objec to em estudo, já que, de acordo com Afonso (2005:9):
(…) privileg iam a compreensão das estruturas sociais e organizacionai s, a
construção de contextos de acção e das ordens locais, a ca rac terização das
relações de pode r, as lógicas de acção, as culturas org anizacionais e
profissionais , e as construç ões identitárias.
Cientes que estamos da s limitações das investi g ações qu antitativas e qualitativas em
Ciências da educação, importa aqui um a breve referência às c aracterísticas d e cada uma
delas, no sentido de justificar a nossa escolha, de ac ordo com o nosso objec to de estudo e a
nossa questão de base para e sta investi gaçã o .
Considerando ainda Afonso ( op.cit.) , historicamente, a inv estigação educacional assenta
nos paradigmas que con stituem os pilares da inv estigação social, fortemente influenciada
pelas metodolo g ias adoptadas, pa rticularme nt e pela Sociologia, Psicologia e Antropologia.
Questões especific amente re lacionadas com o ensi no e com a aprendizagem têm sido
abordada s de acordo co m a tradição quantitativa da Psicologia experimental e diferenc i al.
Por outro lado, temáticas como a organização escolar e ge st ão têm sido abordadas numa
perspec tiva mui to mais influenciada pela Antropologia e pela Sociologia, ou seja, através
de uma aná lise qu alitativa.
A questão d e fundo , qu e aqui colocamos , é a co ntrovérsia entre a maior objetividade ou
subjectividade que cada uma delas, ap are ntem ente, implica. A p rimeira pressupõe-se muito
mais objectiva, na medida em que a an álise de da dos é quantitativa, estatística, baseada na
linguage m matemática a nalítica. No entanto, até mesmo numa investigação quantitativa
existe um determinado grau de subjectividade , pois ela implica o conhecimento de uma
determinada r ealidade social, que é intrinsecamente subjectivo. As próprias tomadas de
decisão, por parte do investiga do r, em determinados moment os da investig ação, são fruto
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da sua interpretação da rea lidade. Ainda a ter em conta, nesta abordage m quantitativa, é o
facto de a ela estar ass ociada o método experimental, que se li g a, por sua vez, a um
conceito limitativo da ciência.
Quando o obj ecto d e estudo é a sociedade, ou mais particularmente o ser humano ,
entendemos que o conceito de ciência tem de ser mais la to, levando a que as abordage n s
metodológica s se estendam também à investi ga ção qualitativa, que, p or cor rer o ris co de s e
tornar mais subjectiva, se mune de inst rumentos de rec olha de dados fiáveis e sistemáticos,
sobre determinados aspectos da sociedade, de carácter empírico, po r forma a interpretar
essa realidade.
A controvérsia ent re metodologias quantitativas e qualitativas assenta na tradicional
discussão entre a concepção posi tivista e a beh aviorista em contex to científico que negava
o acesso de outras metodologias, de carácter int erpre t ativo, ao estatuto de “cie ntíficas”,
uma vez que os resultados, assim obtidos, não permitiam a formulação de leis ou
ge n eralizações. No e nta nto, nas déc adas de 60 e 70, do século XX , as metodologias
qualitativas foram ga nh ando o seu espaço no mundo da investigaçã o .
O desenvolvimento da soc iolog ia do conhecim ento e a acei tação
subsequente de que a realidade é socialm ente construída (Luckm an, 1966),
bem com o o reconhecimento da pluralid ade de paradigmas científicos
m utuamente exclusiv os (Kuhn, 1970 ), produzira m a legitim ação das
m etodol og ias qua litativas, durante muito tempo perspectivadas com o
alternativas e marginais e a sua gradual integração no establishmen t
científico das ciências sociais, e, especificamente, na inv esti gação científica .
(op.cit .:15)
Não podemos, contudo , deix ar de referir que esta dicotomia e controvérsia entre
metodologias quantitativas e qualitativas, ainda h oje não está completamente resolvida. O
peso e a i mportância que a objectivação e a qu antificação ganharam, desde a evolução
tecnológ i ca que se fez sentir, a partir do iní cio do século XIX – levando a concepções
limitativas e castradoras de ciência, en carada co mo algo restrito ao estudo de fenómenos
do mundo na tural através do método ex perimental – nã o é f ácil de alterar. S e
considerarmos as tendências economicistas da actualidade, verificamos uma tendência
cada vez maior em traduzir toda a realidade em n úmeros, em explicar toda a realida de de
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forma objectiva, ri g o rosa e quantificada. No entanto, cada vez mais há a percepção de que
fenómenos r elacionados com a natureza huma na, quando r eduzidos a números e a
estatísticas, ficam muito aquém da realidade, po is o Homem tem de ser encarado na s ua
vertente holí stica, no seu todo, onde naturalmente se enquadram todas a s subjectividades
que o engra nd ecem.
Hoje em dia, a abordagem conceptual de ciência é mais ampla e abrangente, na medida em
que engloba a vertente do estudo da cond ição humana nas su as va riada s facetas, onde a
educação se assume como um campo específico da actividade do Homem. Desta forma, o
conhecimento científico passou a ser encarado como “(…) uma cons trução social e
histórica, org anizada e m “para di gmas” const ruídos e r econstruídos no seio de
comunidades (…) qu e reflectem e influenciam o contex to social (…)” ( op. cit. :19)
Os diferentes “modos de conhecer” men cionados por Afonso ( op.cit . ), ao evocar
Eichelberger, contribuem para esta alte ração conce ptual de ciência. Na verdade,
considerando que um dos ‘modos de conhecer’ se consegue recorrendo ao estudo empírico,
através d e uma recolha sis temática de informaç ão, com o int uito de descrever, o mais
rigor os amente possível, um determinado fenómeno, do mundo que nos rodeia, o conce ito
de ‘ciência’ tem de ser mais amplo, pois direcc iona -nos para o c onceito de processo
relacional entre a observação empíri ca ri gor os a e a sua reformulação com base no
raciocínio lógico.
Assim, o conhecimento científico será o produt o final de um pro cesso de investigação
expresso, atravé s de um discurso descritivo de c asos concretos da realidade , assente numa
lógica argumentativa q ue sust ente as interpretações realizadas. Efectivamente, o paradigma
interpretativo, como metodologia de investi ga ção , visa a compreensão do mundo social,
através d e uma experiência subjectiva. N esta linha de pensamento, sur gem correntes de
investigação educacional das quais destacamos aquela que escolhemos como a mais
adequada ao trab alho desenvolvido nesta nossa investigação – o estu do etnog r áfic o,
desenvolvido em estreita ligação c om a antropologia.
De modo esquemático, damos a conh ecer o est udo por nós desenvolvido, em termos da
metodologia científi ca, n omeada mente no qu e concerne a esta dicotomia, que temos vindo
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a analisar, entre os métodos qualitativo e quant itativo que nos permitiu fundament a r a
nossa opção metodológica.
Figura 24 – Metodologia científica: qualitati va e quantitativa
A necessidade de compreender al g uns fenómenos sociais ou, no caso da nossa
investigação, de reflectir sobre o pap el da lín gua e da li teratura mate rnas na educação de
adultos, tem, quanto a nós, de ser feita pelo recurso à interpretação e à descrição de
comportamentos. Ao me smo tempo, em r eflexão permanente investigamos as melhor es
estratégias, as melhor es metodologias e os melh ores conteúdos par a che g a r a conclusões
que nos permitam analisar a(s) nossa (s) questão( ões) de partida. D aí tenhamos eleito os
estudos qualitativos e, consequentemente uma perspectiva interpretativa e descritiva par a
este traba lho.
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Para melhor comp reensão da abordagem qu e realiz amos, apresentamos também
esquematica ment e o conceito de ‘estudos etnográficos’, que orientou a est rutura ção deste
capítulo.
Figura 25 – Perspectiva etnográfica
1.2 Metodologias qualitativas
Ao iniciarmos este percurso nos caminhos da investigação, uma das questões com que nos
depara mos foi a escolha da metodolo gia mais adequada ao nosso tr aba lho. Na nossa mente,
esteve s empre presente que uma investigação quantitativa não seria a mais adequada, pois
o nosso estudo incide e recai sobre pessoas, n as s uas múltiplas facetas, o que, quanto a nós
extravasa o espartilho da s estatísticas e da quantificação, isto é, d a objectiva per se . Então,
um dos primeiros passos, nesta nossa caminhada, foi a recolha documental que poderia
fundamentar a nossa opção por uma metodolo gia qualitativa, uma vez que, ela per mite, d e
acordo c om Lamas (2008):
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a exist ência de um vínc ulo indissociável, entre o mundo objectivo e a
subjectividade do investigador, que não pod e ser traduzido em números,
particularme nte se tivermos em linha de conta a natureza das matérias
aqui abordadas e ainda o objectivo primeiro do traba lho que estamos a
desenvolver;
a interpretação dos fenómenos e fazem uso de ambientes naturais, onde
se crê qu e a relação entre o mundo real e o sujeito é dinâmica;
a escolha da fonte a partir de situações reais;
a eleição do investigador, como instrumento-chave para a inv estigaçã o.
Ao longo de todo o noss o trabalho, e como estr atégia que queremos r ealçar como uma das
posturas de investigaçã o , destaca mos a compon ente reflexiva que é preciso assumir no
ensino por todos os interve nientes do processo. Assim sendo, a metodolog ia por nós
adoptada tem, também ela, de privilegiar a reflexão , com vist a a um constante ajustamento,
aperfeiçoa m ento e at é r eestruturaçã o do processo, das estratégias e d as metodologias
pedagógico-didáctica s. Na verdade, este trabalho a ssentou sempre num diálogo estreito não
apenas com os nossos alunos, mas também com os nossos colega s de eq uipa pedag ó gica ,
em particular a co -docente com quem partilhamos CL C. S eguindo a linha de pensamento
de Bogdan & B iklen (1994), este diálogo é uma das características fundamentais de um
processo investigativo qualitativo.
Assim, e de forma quase int rínseca, surge no nosso trabalho a v ertente de estudo
etnográfic o, pois ela leva-nos a uma dupla perspectiva na investigação – uma perspectiva
interpretativa e uma perspectiva crítica. De acordo com F ino (2008:3-4), pre t endemos
levar a cabo uma investigação c entra d a na “(...) etnografia crítica, ou seja, resultado de um
olhar qualificado pela experiência dir ecta do terreno, e multi-referencialmente informado e
reflectido, talvez possa ajudar a provocar, nem que seja, um p ouco de mudança.”.
Como temos vindo a referir, pretendemos com este trabalho demonstrar a importância e o
contributo que a Língua e L it eratura portu guesas assumem, na área de formação C LC, na
modalidade de Ensino, proposta pela tutela, através do Programa Novas Oportunidades,
nos cursos EFA- NS . Na verdade, pretendemos destacar a importância que a Língua e
Literatura maternas t êm na educação de adultos. Realçamos o car ác ter inovador que esta
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modalidade de Ensino traz para a educação, em geral, e para a educação de adultos, em
particular, em Portuga l.
Ao querermos apresentar uma forma diferente de traba lh ar conteúdos e competências ,
tendo por base uma filosofia de ensino diferente da tradicion al, ou seja, ao pretendermos
romper com as concepções paradigmática s c entradas em modelos de ensino, passando para
concepções c entradas na aprendizagem, optamos por uma metodologia i nvestiga tiva qu e
nos permita a descrição dos f actos que apresentamos e, ao mesmo tempo a nossa
interpretação dos mesmos. Ao mesmo tempo, ao estarmos em acção, no mesmo contex to
que os nossos alunos, a investigaç ão-acção é, para nós, uma metodologia d e eleição
também.
Assim, optamos por seg u ir uma metodologia, ins crita nos modelos qualitativos, recorrendo
a uma p erspectiva narrativa/descritiva, aqu ela que mais valorizamos, para apresentar os
resultados do estudo efectuado, os quais nos induzem a c onclusões de carácter generalista.
A opção por esta subcategoria d a investigação qualitativa prende -se com as suas
caracter ísticas, apresentadas no ponto seguinte.
1.2.1 Estudos Etnográficos
Proveniente do grego, et nografia – et hnos , « povo » + graphein , « d escrever » + - ia – é, em
sentido lato, o estudo descritivo da História dos povos, que nos permite entendê -los nos
seus próprios contextos, pois o investigador vive e assume uma atitude participante,
observando e registando fac tos e histórias vividos, que só poderão ser interpretados em
contexto. Historicamente, os estudos etnográficos surgem no campo da Antropologia
So cial e Cult ural, nos finais do séc. X I X, como forma de colmatar a curiosidade que o
Ocidente s entia f ace às c ulturas dos povos coloniz ados; na se gunda metad e do século XX,
a Etnografia centra-se mais nas sociedades ocidentais, adoptando uma post ura de
estranheza de s construindo realidade s do s enso comum. (Afonso, 2005)
É neste s entido que a e tn ografia, enquanto forma de investigação social, es tá ao s erviço da
educação, pois permite-nos compreender o outro, estudar as suas formas de ser e estar, em
contexto, sob a mira de um olha r cultur al, desprovido de preconceito. Para isso é
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necessário que o investi gador se im iscua na comunidade em estudo e participe dela, o que
nos encaminha para a observação participante que abordaremos posteriormente. Atendendo
a carac te rísticas específicas dos estudos etnográficos, afirmamos que ele s se adequam à
investigação e m edu cação, particularmente porque permitem a
(…) investig ação de um grupo m ais pequeno d e casos (…) [e] a análise de
dados que envolve a interpretação expl ícita de si g nificados e funções das
acções h umanas, cujo produto t om a principalm ent e a f o rma de desc rições
verbais e explicações, sendo que a quan ti ficação e a análise estatísti ca
desempenham um papel subordinado.
Desta forma consid eramos que esta será a metodologia mais adequada pa ra a investigação
que pretendemos levar a cabo, f acilitando uma melhor compreensão do processo de
aprendizag em de alunos adultos, numa modalidade de ensino nova em Portugal.
Retomando o pensamento de Fino (2008:4), compreende mos qu e
(…) a etnog rafia da educação, sobretudo por r ecusar qual quer possib ilidade
de arranjo de natureza exp erimental, e por, ao invés, es tudar os suje itos nos
seus ambientes naturais, pode constituir uma ferramenta podero síssima para
a compreensão desses i nte nsos e complexos diálog os i nter-subjectivos que
são as p raticas pedag ógicas. Um di álogo inter - subjectivo, o que decorre
entre os actores que pov oam u m cont exto esco lar, e narrado “de den tro”,
como se fosse po r alguém que se torna tam bém actor.
Verdadeiramente, não preparamos ambientes, nã o observamos realidade ‘em laboratório’,
mas antes no seu contexto natural, de forma espontânea. Por isso, a prese ntamos um
desenho de investigação ‘não experimental’, numa perspectiva positivista, n a medida em
que ele im plica uma investigação “(...) por s u dimensión temporal o el número de
momentos o puntos en el tiempo, en los cuales se recolectan datos” (Hern ández Sampieri ,
et al, 2007:142). De aco rdo com o s mesmos aut or es ( op. cit. ), ela é ainda ‘transaccional’,
ou ‘transversal’, pois permi te que se “recolectan datos en un solo momento, en un tiempo
único” ( ibid ibi dem ), sem que haja manipulação das difere nt es vari áveis em causa.
Procedemos a uma interpretação dos dados recolhidos no período em qu e decorre o nosso
estudo – 50 horas de for maçã o de uma turma de alunos adultos, da Escola EB 2,3/S Pedro
Ferreiro, em Ferreira do Zê ze re, cujas conclusões são alvo de uma reflexão , numa primeira
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parte da investigação. Em sequência deste estud o inicial apresentaremos os resultados de
uma investigação mais aprofundada porque mais longa no tempo – 150 horas de formação,
em que pretendemos consolidar as conclusões apontadas na primeira fase do estudo. Na
verdade , fomos ao en contro do pensam ento de S ilva (2003:27), quando afir ma que o
método etnográfico é “(...) um método de investigação assente no contacto directo e
prolongado com os ac tor es sociais cuja inte racção constitui o objecto de estudo.”.
A investigação etnográfica permi te -nos, apresentar resultados, não de uma forma estatística
ou quantitativa, mas antes de forma descritiva e discursiva. Enquan to investiga dor a
etnográfica, preocupa-no s mais o processo da i nvestigação do que a quantificação dos
resultados, pois, tendo em mente a problemática inicial, para além d e po uco interessante,
resultaria em algo muito pouc o substancial, visto que a natureza deste estudo não se
coaduna com uma perspectiva quantitativa. É isso que aqui apresentamos – o processo da
investigação. Re alça m os ainda qu e, nos estudos etnográficos, o “laboratório” em que a
investigação se d esenrola é o contexto re al em que a vida acontece, daí que a análise
quantitativa ou estatística se torn a d emasiado redutora e castradora da ve rdadeira dimen são
do fenómeno em estudo. P or outro lado, a metodologia mais pertinente na tradição
etnográfica é a observação participa nte, de qu e daremos conta no próximo sub-ponto.
De acordo com Genzuk (2003), há três p rincípios metodológicos i nere ntes método
etnográfic o:
(i) naturalismo;
(ii) compree ns ão;
(iii) desc oberta.
Relativamente ao método naturalista, este aplica- se quando o propósito da investigação é a
compreensão do comportamento humano, o que só pode ser conseguido , através de um
contacto directo com o modo como as pessoas se comportam em ambientes naturais e
nunca experimentais e a rtificiais, isto é, sem manipulação física, propositada, de qualquer
variável; ou a partir do mod o como, em entrevistas elas declaram comportar-se. D aí que,
ao optar pelo método e tnográfic o, a investi g aç ão tem d e ser realizada em cenários já
existentes e não construídos especificamente para o e feito – o que se as socia à id eia de
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A vertente estratégica co nsidera que a a cçã o e a reflexão são pontos fulcrais do processo,
enquanto que a s egunda vertente envolve a reflexão sobre a pl anificação e a observação,
numa interacção constante de ambos, para a resol ução de problemas e para a compreensão
das prática s educa tivas.
Neste modelo, estão presentes quatro fases d e im plementação – a planificação, a acção, a
observação e a reflexão – tendo cada uma delas implícita a retrospecção e a p rospecção,
aludindo, assim, de novo à im ag em de uma espiral, onde a auto-reflexão sobre o
conhecimento e a acção estão sempre prese ntes . Na verdade , para Kemmis (1989), o
desenvolvimento de um plano de a cção visa melhorar uma determinada situaçã o; há,
portanto, que estab elecer um acordo para qu e o pl ano se aplique; de seguida é necessária a
observação dos efeitos da acção, enquadrados no seu con texto ; por fim, há que r eflectir
sobre esses resultados, sendo estes o ponto d e partida para uma no va planificação,
iniciando-se de novo o ciclo.
Elliot (1991) altera d e alguma forma o model o de Lewin, ao enfatizar o proc esso de
revisão de f actos e do reconhecimento de erros, antes de iniciar os diferentes passos em
cada percurso das espirais já menciondas. Desta forma, o modelo apresenta as seguintes
fases:
(i) identificaçã o d a ideia geral e descriçã o do probl ema a investigar;
(ii) aprese nt ação de hipót eses de acção – acções a levar a cabo pa ra
potenciar a mud ança;
(iii) elabor ação do plano de acção, cujo primeiro pas so abarca a revisão do
problema de partida, a análise de meios para iniciar a acção e a
planificação de instrumentos de rec olha d e da dos.
Whitehead & McNiff (2006) defendem que ‘investigação-acção’ é uma metodologia qu e
leva os professore s, em qualquer ci rcunstânc ia, a investigar e a avaliar o seu trabalho,
sendo eles próprios a interroga r em essa s pr áticas:
(i) O que estou a fazer?
(ii) O que preciso de fazer para melhor a r?
(iii) Porque o fa ço?
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259
(iv) Para que o faç o?
(v) Como posso fazê-lo?
Esta nova versão de W hitehead & McNi ff (2006 ) está, qu anto a nós, muit o mais próxim o
da realidade educativa, destacando a necessida de e o desejo de mudanças na prática
pedagógica , com características muito mais lineares condu centes a um resulta do, em que a
espiral se esbate. Podemos apre s entá-lo de forma contínua – experimentar um problem a
conduz ao desejo de encontrar a sua solução; assim , é posta em prática a solução
imaginada, seguida da avaliação dos resultados das acções realizadas e , finalmente, se rão
alterada s as práticas, face aos re sultados obtidos.
Nesta nova versã o apresenta- se uma re-interpretação do conceito de ‘investigação-acção’,
que complementa o que McNiff tinha apre sent ado em 2003, onde a ideia de espiral voltava
a estar pr esente. Desta fe ita, Whitehead & M cNiff falam em “acção-reflexão”. Os autores
(2006:13) mencionam que
I n ac tion research, t h e f ocus swing s away from the spectato r researcher and onto
the p ractitioner researcher s. Practitione rs i nvest igate their own prac tice, observe,
describe and explain what they are doing i n company with one another, and
produce thei r own explana tions (…) Prac titioner rese arc hers already know what
they are doing in their eve ryday l ives in the sense t hat k nowledge is embodied in
what t hey do. ( … ) They m onit or what they ar e learning, and how their learni ng
influences t heir actions. B ecause they are doing research, t hey bear i n mind t hat
they need to e xplain how w hat they are doing counts as theory (…)
Como exemplo desta nova conceptualização, os autores esclarecem que u m profe ssor que
identifica um problema e escolhe um cole ga de trabalho para o ajudar a resolvê -lo. Em
conjunto, trabalham dentro e fora da sala de aula, no sentido de encontrar uma abordagem
que permita, e vise, minorar ou resolver o p roblema. A nov a abordagem é testada e as
informaçõe s vão sendo recolhidas, por forma a determinar se a estratégia é eficaz ou não.
No final da aula, a estratégia é avaliada pelos dois professores e, com base na ex periênc ia
adquirida; numa nova etapa, é criada uma nova abordagem pa ra melhora r ainda mais o
tópico em causa, a cons trução de mat eriais, etc. Com esta nova perspectiva, o ciclo de
acontec imentos pod e s er continuado, sendo que, desta feita, dois colega s sairão
beneficiados da ex periência profissional, assim como a qualidade de ensino e,
Parte 2: Estudo Empírico
260
consequenteme nt e, os r esultados de aprendizag em. Atrevemos-nos a relacionar este
trabalho colaborativo, implícito nesta proposta, com o papel do amigo crítico, na medida
em que os dois benefic i am da investigação, melhorando, assim, a sua prática.
Destaca mos, então, a pe rspectiva col aborativa necessária ao sucesso. Relevamos as
próprias palavras dos autores ( op.cit. 25), ao afirm arem que “The idea o f n ever b eing alone
is the key.”. Afirmam ai nda que “Action researchers alwa y s see themselv es in a relation
with others in te rms o f their p rac tic es and a lso their ideas, and th e rest of thei r
environment. The y do n ot adopt a spectator approach (…). The y underta ke enquiries with
others, rec o gnizing th at people are a lwa y s in company . ( ibid:ibidem )
Esta abordagem é, para nós, aquela que se adequa melhor ao trabalho que desenvolvemos
com os nossos alunos . Apropriamo-nos, assim , das concepções já apresentadas
(re)construindo um esquema que melhor e sp elhe o decorrer da noss a acção.
Fi gura 27 – Esquema da nossa inv e stigação
Parte 2: Estudo Empírico
261
Este esquema resume a técnica d e investi gação-acção que, no c aso do nosso trabalho d e
investigação, nos permite analisar o contributo da lí ngua e literatura materna s para a
formação integral do aluno adulto. Na verdade, a investigação sim ultaneamente suscitada
pela prática e dela deco rrente e uma pr ática baseada no questionamento e na reflexão,
induzem-nos tirar conclusões fundamentadas e consistentes que, de novo, influenciam a
prática e nos fazem chegar a outras con clusões – apresentadas posterior mente – sobre o
contributo da língua e lit era tura maternas, pa ra o desenvolvimento do aluno numa
perspec tiva holísti ca e assente nos quatro pilares-chave da educação.
Em jeito de conclusão, afirmamos, na nossa óptica e segundo a nossa ex periênc ia , que a
investigação-acção é das metodologias que mais contribui para a melhoria e mudanç a de
práticas educa tivas, uma vez que:
(i) leva a uma dia lé ctica contínua praxis / teoria;
(ii) aproxima o investigador e o investig ado;
(iii) favorec e o diálogo e a reflex ão.
Podemos, pois afirmar que, desta forma, os result ados surg em, de modo fundamentado,
através de um ambiente de colaboração e partilh a. Esta metodologia utiliza as categ o rias
interpretativas, sem esquecer a nece ssidad e de uma análise rigorosa em que o
envolvimento emocional é reduzido o mais possível, através de uma panóplia de
instrumentos de recolha de informação que p ermite diferentes abordagens e leituras, o que
leva à trian g ulaçã o de dados. Apesar d e tod a a subj ectividade está pre sente uma
intersubjectividade controlada, f azendo, assim, emerg ir a objectividad e, sem contud o
eliminar os suj eitos envolvidos. Na nossa óptica , numa es cola que pret ende responder às
demandas do século XX I , a investigação- acção é, sem dúvida, um modo de actuação dos
professores. Só assim contribuem, de forma implicada, para a formação holística do ser
humano.
1.2.2.1 Estudo Exploratório
No primeiro ano em que nos envolvemos num trabalho empírico planeado, desenvolvemos
um estudo exploratório, pois sentimos necessidade de nos ambientarmos a o problema em
estudo – qual o melhor curriculum a estabelecer para aprendentes adultos, cujo processo de
Parte 2: Estudo Empírico
262
formação foi interrompido, dura nte vários anos; com isso, visamos fazer sobressair o
contributo que a língua e literatura m aternas dão para a formação de cidadãos mais
conscientes e eficazes.
De aco rdo com Hernández S ampieri et al (2007 ), os estudos exploratórios servem para nos
familiarizarmos com fenómenos relativame nte novos, obtermos informação sobre a
possibilidade de levar a cabo uma investigação mais completa num contexto particular,
identificamos conceitos e estabelecemos priorida des para futuras investi gaçõe s. Os cursos
EFA- NS são um fenómeno relativamente recente em Portugal e, por isso, consideramos
pertinente aferir em que medida podere mos p artir para um trabalho mais aprofundado.
Ainda seguindo o pensamento de He rn ández Sampieri et al ( op. cit. :59), salientamos que
Los estudios exploratorios son como realizar un viaje a un sitio desconocido, del
cual no hemos visto ningún documental ni leído al gún libro, sino que sim plemente
al guien nos hizo un brev e comentario sobre el lugar. Al llegar no sa b emos qué
atracciones v isitar, a qué museos ir, (…) como es la g ente; en otra s palab ras
ignoram os mucho el sitio.
Na ve rdade , também nós desconhecemos o ca min ho que temos de percorrer; també m nós
estamos pera nt e um ‘terreno desconhecido’ que cremos ter muito para explorar.
Efectivamente , apesar de haver v ários estudos sobre educação d e adultos – a sua
importância, a sua p remência e as metodolo gias mais adequadas – há mu ito poucos cujo
tema central seja re ferente ao p rogra ma ‘Novas Oportunidades’, a que agora nos
dedicamos, até porque, nunca até hoje, nenhum curso de educação de adult os foi concebido
sem um curriculum determinado.
Importa, no entanto, salientar, mais uma vez, que o estudo exploratório, que aqui
aprese nt amos, não é um fim e m si mesmo, é apena s um ponto de partida para uma
verdade i ra inv estigação-acção. Daí a nossa opção por um estudo ex ploratório, que p arte de
questões e pr opo rciona maior fa miliaridade com o problema. Estamos certa de que o
estudo exploratório serv e de ponto de partida que nos leve a definir área s de actuação, e
contextos a trabalhar e m investiga çõ es futuras.
Parte 2: Estudo Empírico
263
É um estudo de inve stigação descritiva, um a vez que tentaremos dar conta d as
caracter ísticas do grupo -alvo, do s eu contexto socioeconómico, dos seus interesses e
expectativas, como ponto de partida para a criação do currículo na área de formaçã o CLC.
Este é, em nossa opinião, a melhor forma de da rmos conta do trabalho desenvolvido, das
acções e reacçõe s que os nossos a lunos e nós própria teremos fac e ao desenrolar do
processo.
Um estudo exploratório, como fase i nicial de um trabalho de investi g ação -acçã o, atr avé s
de uma metodologia narrativa e interpretativa, dá -nos a liberdade de tecer considerações,
assumindo uma postura de observação p articipante que, apesar do risco que,
conscientemente cor remos de um envolvimento e xcessivo, nos permite um “(…) captar las
relaciones, las int eracciones, la cultura .” (García Gutiérre z & P rellezo, 2003:168), posição
que, vai ao encontro das nossas questões e problemas de partida. Na mesa linha de
pensamento, tentaremos também proceder, ainda que de forma não exaustiva, a uma
investigação e x plicativa, uma vez que recorremos à observação, para melhor adequar
metodologias, estratégias e até mesmo conteúdos.
Assumimos, assim, que o nosso trabalho é um trabalho de pesquisa aberto a uma
permanente adequação e rea justamento, como consequência da observação efec tuad a, com
vista a contribuir para o desenvolvimento integral dos alunos envolvidos bem como do
nosso próprio desenvol vimento profissional. Essa adequação e ajustamento dependem
também do trabalho em colaboração com os resta ntes elementos da equipa pedag ó gica, em
geral, e com a c o -docente da AF, em particular.
1.2.3 Recolha de dados e respectivos instrum ento s
Após a escolha d a metodologia investigativa mais ade quada ao nosso estudo, há que
avançar para a recolha de dados pe rtinentes para a fundamentação da investigaçã o .
Recorre ndo ao pens amento de Hernández Sampieri et al (2007), afirmamos que esta etapa
implica três ac tividades q ue se inter li gam entre si:
(i) a selecção dos instrumentos de re colha de dados, disponíveis de acordo
com o tipo de metodologia de investigação seleccionada. Devem ser
instrumentos válidos e confiá veis, para que os resultados sejam também
eles credíveis;
Parte 2: Estudo Empírico
264
(ii) a a plicação d esses i nstrumentos, isto é obter/recolher dados,
observaç õ es, registos, informações que sejam pertinentes para o nosso
estudo;
(iii) o disponibiliz ar da informação obtida para que seja analisada
correctamente.
São vários os instrumen tos ao nosso dispor para uma recolha de dados eficaz e útil, de
acordo com a natureza do nosso estudo. No entanto, e tendo iss o em mente, há duas
variáveis fund amentais a ter em conta, quando se fala em instrumentos de recolha d e
dados, a que Herná nd ez Sampieri et al ( op. cit :176) chama “confiabilidad e validez”.
Com ‘confiabilidade’, o autor refere - se ao grau em que a aplicação repetida, de um
determinado instrumento, junto do mesmo sujeito ou objecto, se traduz em resultados
iguais. Se os resultados não forem consistentes, não se pode confiar neles. P or seu lado, a
‘validade’ r elac iona -se com o g rau específico e ex clusivo para os dados q ue se pretendem
obter. Por exemplo, a validade de conteúdo refere -se ao grau qu e um inst rumento reflecte
um domínio específico de conteúdo do que se pre t ende investigar.
Para Hernánde z S ampieri et al , ( op.cit. :177):
Un instrum ento de medic ión requiere contener represent ados prác ticamente
a todos los ítems del dominio de contenido de las variables a medir. (…) un
instrumento de medición p uede ser confiable, pero no necesar iamente válido
(un aparato, por ejem pl o quizá sea cons istente en los r esultado s que produce,
pero no m ida lo que preten de).
Partindo destas duas características-base dos instrumentos de r ecolha de dados, a selecção,
de entre a panóplia existente, depende qu ase em exclusivo da naturez a do estudo em
questão. Apresentaremos, nesta explanação, aqu eles de que nos servim os para o nosso
trabalho, por considerarmos serem os que estão maior consonância com ele , pelas
caracter ísticas.
No caso da investi ga ç ão em educação, a r ecolha de dados, por parte do professor
investigador, tem de ser feita, de forma contínua, sobre a prática, de modo a que analise os
dados com um certo dist anciamento, não estando já tão envolvido na mes ma, isto é, para
que confira os ef eitos da sua prática, sep arando o essencial do acessório, facilitando a
Parte 2: Estudo Empírico
265
análise e reflexão . No s entido de contribuir, p ara a efi các i a dessa reflexão, ex istem, como
já afirmámos, vários instrumentos que têm de ser escolhidos, tendo em consideração a
natureza do estudo e m c ausa.
La to rre (2003) subdivi de esses instrumentos e técnicas de re colha de dados em 3
categor ias:
(i) técnicas e instrumentos de observação, qu e são centrados no
observador, e p ermitem a recolha de dados de uma obser vação directa,
em directo e em pre sen ça;
(ii) técnicas e instrumentos baseados na conversação, mais centrados nos
participantes, que n ece ssi tam de ambientes de diálogo e d e interacção;
(iii) técnica s e instrumentos de análise de dados, que se centram também na
perspec tiva do investigador, implicando pes quisa e leitura de
documentos escritos, considerados uma f onte d e informação.
Explanaremos em primeiro lugar a última categor ia apontada por Latorre ( op. cit ), pois o
início desta investigação não pode deixar de abarcar uma revisão bibliográfica e
documental que melhor nos possibil ite de uma fundamentação teó rica essencial pa ra o
desenvolvimento deste trabalho.
Assim, a an álise docum ental a qu e pro cedemos, é feita a dois níveis: por u m lado, uma d e
carácter metodológico e teórico que nos dá mais segurança no tr abalho a desenvolver , e
aquela espec ífica do tra balho de investigação. Na verdade, esta análise prende -se não
apenas com aspectos directamente r elacionados com a temática central do trabalho,
nomeadamente políticas nacionais e intern acionais para a educação de adultos, ensino -
aprendizagem, competên cias, curriculum, avaliação integrada, trabalho co laborativo, entre
outros, mas também com questões relacionadas com a metodologia de i nvestig ação, de
trabalho de projecto, e ntre outros. A nossa análise documental abrange tr ês pontos
essenciais pa ra um t rabalho desta natur eza – uma análise que permite o en quadramento d a
nossa investigação, numa perspe ctiva político -social, teórica e metodológ i ca.
Sentimos a necessidade de contex tualizar a nossa problemática na soci edade actual para,
assim, justificarmos a sua pertinência p ara a investigação em educação; a investigação
documental, por outro lado, leva-nos con ceptualizar, fundamentar a construção do nos so
Parte 2: Estudo Empírico
266
marco teórico, que contribui para identificar os campos teóricos em que a problemática se
insere e onde ser á reconceptualizada; por último, a necessidade de encontrar a metodologia
mais adequada é também a razão da análise doc u mental.
Para além dos do cumentos oficiais, recorremos vá rias vezes a documentos de carácter
pessoal, uma vez que, subjacente aos C ursos E FA - NS e ao trabalho a des envolver com os
nossos alunos, está a m etodologia de histórias de vida. C onsiderando a filosof ia deste
modelo de ensino e aprendizagem, temos presente que um dos principais pontos de pa rtida,
para o trabalho com alunos adultos , é o conjunt o d as experiências e das vivências dos
alunos, no sentido de desenvolver um processo d e aprendizage m que está em li nha com o
conceito de aprendizagem significativa, como tivemos oportunidade de explanar, na
primeira parte deste trabalho. Assim, uti liz amo s documentos, pr oduzidos pelos nossos
alunos, resultado da nossa sugestão, ou de iniciativa própria (documentos naturais). Esta
opção tem como finalidade a recolha informa ções com base na reflex ão, quer sobre
acontec imentos d a sua vi da que influenciam ou contribuam para despoletar aprendiz agens ,
quer sobre o próprio processo ensino-aprendizagem, neste caso, já no seu decorrer, por
forma a (re)estruturar, (r e)organizar e até ( re)inventar o trabalho plane ado. Neste contexto ,
socorremo- nos, al gumas vezes, do di ário de aula, mas com mais frequência às reflexões
feitas no âmbito do portefólio de aprendizagem.
Após a ex planaçã o da m etodologia etnográfica, i mporta subl inhar qu e esta não é um mero
recolher de informação. É também nec essário analisá-la e interpretá-la de acordo com
determinados critérios. Podemos encontrar mui tas semelhanças entre etno g r afia , enquanto
metodologia inv estig ativ a e o tr abalho p edag ó gico e didáctico que desenvolvemos com os
nossos alunos e que aqui apresentamos. E fec tiva mente, pretendemos um modelo de ensino
e aprendizage m reflexivo e reflectido, ne goc iado e em constante ad equação ao contexto e
ao próprio desenrolar do processo, aspectos que se podem identificar com a s característica s
essenciais da etnografia pois, também aqui, o desenho investigativo vai sendo traçado com
o desenrolar do processo, mediante o confronto e ntre o qu e é observado e a interpretação e
reflexão daí resultante, facilitando a tomada de determinadas opções f ace aos dados e a o
observado. A observação participante é, na verdade, uma obse rvação directa , por p arte d o
investigador , qu e pretende compreender determinado fenómeno no qua l se implica.
Parte 2: Estudo Empírico
267
Para que a análise de dados e a sua interpretação sejam feitas de forma c riteriosa e
rigor os a, a pesquisa e tnográfica usa técnica s específicas, das qua is destacamos a
‘observação participant e’, uma téc nic a interactiva. Assim, dare mos c onta da base
conceptual que lhe é subjacente, apresentando uma ideia fulcral, para nós, e que a
observação participante nos permite – “aprende r com as pessoas” (Spradley, 1979). N a
verdade , a empatia é necessária a uma boa observação participante pois de outra forma não
se atingem os objectivos traçados; para tal, é fundamental estar no terre no, interagir com os
envolvidos, nos seus contex tos naturais, por f orma a recolher dados detalhados pa ra
posterior análise. Há, portanto, necessidade de um envolvimento directo entre o
investigador e o investigado, sendo que o suc esso da investigação depende, em grande
parte, da empatia que se cria entre estes dois intervenientes do proc esso, principalmente
porque a presença do investigador no contexto em estudo é prolongada.
Esta pres ença e participa ção é o maior problema nesta abordagem, pois o estabelecimento
do g r au de envolvência e de participação não é tarefa fácil, na medida em que depende de
factores extremamente variáveis que não permitem estabelecer padrões. O c arácter e
personalidade do investi gador e dos investigados , assim como a temática em estudo são
alguns dos aspectos que podem fazer variar esse grau de envolvência e, consequentemente ,
alterar toda a investi g aç ão. De salientar que o e nvolvimento do investigador varia de
pesquisa para pesquisa, mas também dentro de uma mesma investi gação, nomeadamente,
de acor do com o grau de aceitação pelo grupo investigado.
Outra problemática a considerar é o ti po de actividades que o investigador leva (ou não) a
cabo. Esta escolha e o se u carácter opcional não é desprovida de subjectividade – inerente
não só ao estudo em causa, mas também ao perfil do investigador.
Há ainda uma outra dimensão a ter em conta numa investigação de observação
participante, que p assa p elo assumir de uma postura por parte do investigador como send o
alguém que “pa rticipa de dentro” da acção, ou alguém que adopta uma visão mais
“externa” daquilo que i nvestig a. Em termos a n tropológicos, r eferimo-nos à abordagem
émica ou ética. Na prim eira, o trabalho é interpretativo e a construçã o d e sentido faz -se
através de quadros referenciais criados no próprio contex to de acçã o, através da análi se do
discurso e do comportamento dos actores. Na s egunda aborda g em – abordagem ética –, a
Parte 2: Estudo Empírico
274
ge n eralizações sobre a situação em estudo, e ainda re flecte sobre as
implicações dessas conclusões e sobre a forma de as confrontar com
novos dados que vão sendo recolhidos, no sentido de consolidar a teoria
aprese nt ada.
Uma sequencialização id êntica é também proposta por Vasconcelos (2006), que já tivemos
oportunidade de apresentar neste trab alho. Efect ivamente, ambos su gerem três fases da
abordage m naturalista, resultante d a observ ação, sendo que a pri meira se prende
essencialmente com a “observação directa” (Vasconcelos, op. cit. :89) e com a construção
da ‘imagem mental d a situação’ (Afonso , 2005); quanto à se gunda etapa, se Vasconcelos
(2006 . ) menciona a relação entre variáveis, Afonso ( op. cit. ) aponta para a categorização
dos dados; por fim, Vasconce los ( op. cit. ) refere o estabelecimento de r elações de
causalidade e Afonso (2005) apre s enta o pr ocesso e x plicativo e c onclusivo, para essa
terceira et apa . Este é ta mbém o nosso proc esso de escrita sobre a acção – observamos e
tomamos o contacto com a realidade a trabalhar; estabelecemos um projecto de trabalho
em função do observa do, aplicamos e, por fim, concluímos sobre o trabalho implementado.
Este processo repetiu-s e sis tematica mente, ao longo da nossa actuação enquanto docente
isolada, enquanto co-docente, e enqu anto elemento da equipa peda g ó g ic a. Não esquecemos
nunca a relação d e cum plicidade e de envolvimento necessárias com os observados, por
isso, os nossos alunos , foram sempre chamados a opinar, a su gerir e man ifestar em as suas
impressões, face a o tr abalho.
Parte 2: Estudo Empírico
275
2 Caracteriza ção do C oncelho e do Públ ico -Alv o
2.1 O Concelho
O Concelho, ao qual pertence a insti tuição, onde desenvolvemos a nossa prática docente ,
situa-se no ex tremo norte da re gião do Médio Tejo, Distrito de Santarém, e é um Concelh o
marcado pela interioridade. Situado na margem direita do rio Zêzere, jun to à albufeira do
Castelo do Bode , está integrado n a R egião de Tur ismo dos Templários, embora a realidade
demonstre que este n ão é um factor de crescimento. Pelo contrário, tem -se vindo a registar
uma diminuição do número de habitantes, a deslocação destes para a sede do Concelho, o
envelhec imento d a populaçã o e o aumento do sector terc iário.
Para a análise dos d ados referentes ao Conc elho, foram dois os documentos -base de qu e
nos servimos: o Projecto Educativo do Agrupa mento [PEA] de Escolas do Concelho de
Ferreira do Zêzere e o Re latório da Rede Social: Pré Diagnóstico Social , elaborado por u m
grupo de trabalho mul tidisciplinar, criado pela Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere ,
em 2006. Neste documento, é realizada uma análise do Concelho em di versas áreas. Os
dados apresentados referem -se ao Censo , de 1991 e de 2001, e a outras té cnicas de re colha,
desenvolvidas pelo grupo de trabalho, onde a esc ola estava rep rese nt ada pela P residente do
Conselho Executivo da Escola EB 2,3/S Pedro Ferreiro.
Para a contextualização da região, focare mo s a evolução da população, aspectos
relacionados com número de habitantes, estrutura etária, nível socioe conómico e de
instrução.
Começando pela análise da população, verificamos, a partir dos dados fornecidos pelo
PEA (2008:3), um decré scimo da população residente no Concelho, be m como o
envelhec imento d a mesma, confor m e se pode constatar nos gráficos nº1 e nº2.
Parte 2: Estudo Empírico
276
Gráfico 1 – População do Concelho, co nstruído a partir de d ados do P EA ( 2008 )
Gráfico 2 – Evolução De m ogr áfica, co nstruído a par tir de dados d o PE A (2008)
Através destes dados, consta ta mos que esta região segue a tendência nacional, de
desertificaçã o do inte rior e envelhecimento da população. O gráfico nº2 mostra,
precisame nt e, que o g rup o etário que mais cre s ceu, em 2001, é o da popul ação a partir dos
65 anos, tendo-se verificado uma re du ção, no grupo etár io situado entre os 0 e os 14 anos.
No que respeita à distribuição espacial, salientam os que é a Sede de Concelho que continua
a registar ma io r índice de habitantes.
Pop ul a çã o d o Conc e lho
8. 000
9. 000
10. 000
11. 000
12. 000
A no s
Mi l har e s de
H a b itantes
1981
1991
2001
E volu ção D e m o gr áf ica
0
1.00 0
2.00 0
3.00 0
4.00 0
5.00 0
0 – 14 15 – 24 2 5 – 64 65 o u mais
Idade s
Milhar es de Ha b itan tes
1991
2001
Parte 2: Estudo Empírico
277
População re sident e
1981
1991
2001
Concelho
11.099
9.954
9.422
Águas Belas
1.372
1.225
1.140
Areias
2.202
1.992
1.772
Bêc o
1.367
1.211
1.111
Chãos
999
844
744
Dornes
678
796
714
Ferreira do Zêzere
1.997
1.948
2.156
Igreja N ov a
943
752
704
Paio Mendes
659
564
547
Pias
682
622
534
Quadro 7 – População Reside nte (P EA, 2008 : 3 )
Quanto à distribuição da população a ctiva, destac amos uma taxa de activi dade próxim a de
37%, sendo que houve u m aumento durante o período aprese ntado.
Gráfico 3 – Taxa de A ctivid ade, co nstruído a partir d e dados do P EA ( 2008 )
No que se refere aos sectores de actividade económi ca, observamos uma evolução notória
para a terciarizaçã o, entre 1991 e 2001, por oposição à populaçã o que se dedica ao sector
primário. Apesa r disto, ainda se regista uma a gricultura de subsistência , o que constitui um
T ax a d e Act ividad e
31, 5
32
32, 5
33
33, 5
34
34, 5
35
35, 5
36
36, 5
37
A n o s
P er cent ag em
1991
2001
Parte 2: Estudo Empírico
278
recur so importante pa ra algumas famílias. De salientar também, e de acordo com o P EA
(2008), que o Concelho aprese nt a característica s típicas da interioridade. No que respeita
ao sector secundário, há a registar que subsi ste al guma ind ústria, essencial mente ligada ao
ramo alimentar.
Gráfico 4 – Distribuição da População Activa por Sector de Actividade, co nstr uído a partir de d ados do P EA
(2008)
No que diz respeito à escolarização, e de acordo com o gráfico nº 5, o nde se apresentam
dados do Censo de 20 01, verificamos qu e ela é fraca, registando -se uma quantidade
elevada de habitantes de tentores apenas do primeiro ciclo de escolaridade. O número de
habitantes sem instrução revela-se ainda ligeiramente superior aos que po ssuem o 6º ano.
A partir deste nível de ensino, os resultados dimin uem substancialmente, sendo um número
muito reduzido dos que possuem qualific ação académica correspondente ao Ensino
Superior.
D i s t rubui çã o da P opul a çã o por N í ve l de E s cola rida de
9442
1846
4345
1177
843
882
23
306
0
2000
4000
6000
8000
10000
Po p u l a çã o T o tal
Se m Instruçã o
1 º Ci cl o
2 º Ci cl o
3 º Ci cl o
Se cu n d á ri o
C u rso Méd i o
C u rso Sup e ri o r
Mi l har e s de Ha bi ta n te s
Parte 2: Estudo Empírico
279
Gráfico 5 – Distribuição da População po r Nível de Escolaridade, construído a p artir do documento da Rede
Social (20 06)
Estes dados levam-nos a reflectir sobr e as dificuldades que a es cola tem em apre sentar -se
como uma alternativa, que possa conduzir a uma melhoria das competências da população
do Conce lho. No c ont acto diário com outros e lementos da comuni dade educativa,
sentimos, por vezes, que está muito enraizado, um certo desinteresse pelas aprendizagens
que a es cola pode dis ponibilizar, uma vez que as pessoas não têm consciênc ia da
importância que a formação pode ter, para o s eu aperfeiçoamento pess oal e social, no
sentido do desenvolvimento humano.
2.2 A Instituição
A escola, onde desenvolvemos este trabalho de investigaçã o , é sede do a g rupamento de
escolas do concelho d e Ferreira do Zê zer e e inc lui estabelec imentos escolares do ensino
pré-e s colar, do p rimeiro ciclo do ensino bási co, dispersos por todo o conce lho, e, na escola
sede, do ensino básico – 2º e 3º ciclos – e ensino secundário. Ao nível da educação de
adultos, funcionam, na e s cola sede, Cursos Novas Oportunidades – EFA- NS .
No que diz respeito à população e scolar, salientamos que o total de alunos é de 1220, com
idades compreendidas entre os 3 e os 64 anos. Quanto aos alunos do ensino n octurno,
trabalhamos com 57 a lunos. Os professores, no seu total, são 125 e, do pessoal não
docente, há 7 funcionários administrativos, 2 técnicos de acção soci al escolar e 36
auxiliares de acção e duca tiva.
Considerando as p alavras de Rodriguez Rojo (2002:41): “La escuela no es un a isl a
separa d a de la realidad social y e conómica.”. É, n esta perspectiva, que nos parece de toda a
relevância, também, espelhar aqui, ainda que d e forma breve, a situação económica da
população escolar com que trabalhamos: num universo de cerca de 1200 alunos do
Agrupamento de Escola s, dos quais cerca de 550 pertencem à escola s ede, 41% destes
usufruem de apoio da Acção S ocial Escolar, continuando a ser a escola da região com mais
situações de jovens que obtêm apoio deste serviço. Este facto surge com o um reflexo da
situação das famílias no Concelho. Segundo o mesmo serviç o, ainda se registam sit uaç ões
de alunos que fazem, na escola, a sua única refeição.
Parte 2: Estudo Empírico
280
Escalão
2º Ciclo
3ºCiclo
Secundário
Totais
A
52
99
22
173
B
10
34
11
55
Total alunos
141
321
88
550
Quadro 8 – Alunos da Esco la Sede, subsidiados por Ciclo e Escalão (PE A, 2008)
De ac o rdo com o propo sto, neste trabalho de in vestigaçã o , a nossa atenção centrar- se - á
particularme nte nos estudantes adultos. Os alunos que freque ntam os cursos de educação
de adultos fazem-no, em geral, não por necessidade profissional, mas, em muitos casos,
para enriquecimento pess oal e p ara estabelecer laços interpessoais. Para muitos dos alunos,
a es cola constitui um meio para conviver e realizar outras aprendizag ens , que não são
ainda ca p azes de realizar em processos de auto-for maçã o.
Inserimos esta referênci a, relativa à população adulta, que faz parte da comunidade
ed ucativa, uma vez que, nos parece interessante verificar que estes dados , recolhidos em
2006, no âmbito da equipa de auto- avaliação da escola, se integram na t endência geral do
Concelho, conforme sup ra mencionado. Assim, q uanto à escolaridade dos pais dos alunos
do Agrupamento, 50% te m apenas o 1º ciclo de e scolaridade, sendo qu e, em alguns casos,
não é completo. Quanto aos ciclos seguintes, encontram-se 26% d etentores do 2º Cicl o;
15% do 3º Ciclo; apena s 7% dos pais concluiu o Ensino Secundário e somente 2% é
detentor de um grau de Ensino Universitário. Est es dados demonstram uma cultura escolar
francamente baixa.
Em nossa opinião, estes dados corrobor am a ide ia de que a aprendizagem é pouco
valorizada, pela população do Concelho. Salientamos, ainda, que esta ideia é, de alguma
forma, passad a às crianças e jovens, o que se r eflecte na sua postura enquanto aprendentes.
Esta atitude da população adulta é também reite r ada p ela pouca ade são à oferta formativa
para a dultos que a es col a oferece.
Finalmente, destacamos os valores, al gumas metas e li nhas de acção no P EA , a considerar
na elaboraçã o dos plano s de trabalho com os nossos alun os. Assim, no que respeita aos
valores, o r eferido documento interno (2008:1 7-18) menciona que: “ Os valores do
Agrupamento reflec t em-se na promoção das seguintes a titudes: a proc ura do sa ber , a
Parte 2: Estudo Empírico
281
responsabilidade p essoal e cívica, a autonomia, a solidariedade, a confiança, o espírito
crítico e a criatividade . (…)”
Perante e stes v alores, segue a enumeração da s met as, das quais destacamos:
3. Promov er o conhe cim ento como dimensão da realização e valorizaçã o
pessoais e p rofissionais;
Promov er a educaç ão ao longo da v ida co mo factor de v alori zaç ão
profissional, satisfação pessoal e de maior capacidade de intervenç ão na
sociedade.
(…)
4. Diversificar e flexib ilizar e stratégias e soluções em função das características
da população escolar criando condições para atenuar desvantagens de ordem
cognitiva, c ultural ou outra s;
Promov er a educação para os valores sociais e humano s. (…)
( op.cit. :18 )
Das linhas de acçã o d efinidas ainda no documento referido, salientamos:
(…)
Reforçar um a cul tura de rig or e exigênc ia na prática pe dagóg ica e na aval iação ;
(…)
Desenvolv er o domínio da Língua Portuguesa ;
(… )
Fom entar a uti li zaç ão das TI C;
Promov er a interdiscipl inaridade e a articul ação dos sabere s e com petências;
Proporcionar e p romov er o conhecim ento da históri a e da cultura portug uesas
integrado n o contexto eu ropeu e m undial, perspec tivando a intervenção cívica e
democrática ;
(…).
Após a caracterização do Concelho e da i nstituição, avanç aremos para a c ara cterização da
turma com que trabalhamos e, consequentemente, para o desenvolvimento do trabalho
docente que realiz ámos, tendo presente a ideia de articular os documentos produz idos pela
tutela com as condições do meio envolvente à escola e as orientações internas da mesma.
Parte 2: Estudo Empírico
282
2.3 O Público -alv o
A turma B, dos Cursos EFA- NS , com a qual desenvolvemos este trabalho de investigação ,
é composta por 16 alunos , dos quais 9 são mulheres e 7 são homen s (gráfico 6). A média
de idade dos elementos da turma é de 39,5 anos, sendo que as mulheres são mais novas,
embora a diferença – 2 anos – não nos pa reça si gnificativa (gráfico 7). Pa ra nós, o qu e se
revelou mais si gnifica tiv o foi a diferença entre os elem entos mais novos e os mais velhos –
o elemento m ais novo tem 20 anos e o mais velho 52 – pois levou a que houvess e
consideráveis difere n ça s de experiências de vida e, conseque ntemente , de interesses.
Gráfico 6 – Média de idades por sexo
Gráfico 7 – Número de Ho m ens e M ulheres na
Turma
Apesar d a maioria deles se conhecerem entre si, n ão podemos afirmar que haja um grau de
aproximação que nos per mita considera r um grupo unido, coeso, pelo menos em term os de
afinidades relativas aos seus conhecimentos, necessidad es de forma çã o , ritmos de
aprendizagem, experiências de vida e curiosidade pelo sabe r. O gr au de familiaridade,
entre eles, advém d a di mensão do Conc elho e do facto de s e tratar de uma r egião d e
interior, o que possibilita uma relação de proximidade.
Os alunos, mais p róximos entre si, são aquel es que tinham pe rtenc ido à mesma t urma no
ano lectivo anterior. Importante também é referir mos que estes alunos têm todos, tal como
definido pela Portaria nº 230/ 2008, de 7 d e Março , o 9º ano de escolaridade. No entanto,
Parte 2: Estudo Empírico
283
os seus percursos escolares divergem, a nível d a f ormaçã o individual, conforme se verific a
no Gráfic o 8.
Gráfico 8 – Escolarizaç ão do público-alvo
Apenas 4 dos alunos concluíram o 9º Ano, em es colaridade obri ga tória, sendo alvo de um
processo de formação regular. Os 12 element os restante s concluíram o 3º ciclo de
escolaridade, atr avé s dos Cursos Novas Oportunidades – EFA- NB , equivalente ao 3º ciclo
de escolaridade, nesta instituição, no ano lec tivo a nterior.
Os 4 alunos referidos são os mais jovens da turma, cujas idades variam ent re os 20 e os 24
anos e a conclusão do Ensino Básico foi há mais de dois anos. Os restantes elementos
concluíram o 9º Ano, em certificação escolar, em 2007/2008, apesar de se rem oriundos de
duas turmas diferentes, cujo processo de f o rmação foi, também ele, bastante diverso.
Se, inicialmente, os dados apresentados nos f azem acreditar qu e se trata de uma turma de
alunos com cara ct erística s semelhantes, podemos afirmar que na realidade , isso não se
verifica , pois, apesar de ter mos apenas dois processos de formação, como origem de
escolarização destes alunos, eles revel am -se extremamente diferentes em termos de
desenvolvimento de competências.
Também em relação ao s interesses dos alunos, podemos afirmar que esta é uma turma
apare nt emente homogénea, diz emos ‘aparentemente’, uma vez que cada um deles revela
experiências de vida diversas e, consequentemente, visões e expectativas, r elativamente ao
mundo, distintas entre si.
Parte 2: Estudo Empírico
291
3 Implementa ção
Gostaríamos de referir que, aquando da imple mentaçã o da primeira fase de ste estudo
empírico, a dificuldade acre s cida de implementar o NG Saberes Fundamentais, no início
do ano lectivo, uma vez que o conhecimento que tínhamos dos alunos, em termos de perfis
cog nitivos, de ritmos de aprendizagem, de expe riências de vida e daquilo que lhes era
significa tivo, era ainda escasso. Estamos certa de que as experiências desenvolvidas,
posteriormente, se virão a revelar mais eficazes, no que diz respeito à adesão imediata ao
proposto.
Tendo em conta a filosofia subjacente a este curso, o pôr em prática este ex perimento
dependeu fortemente dos intere sses dos alunos e as competências que estes deveriam
atingir no final das 50 horas, destinadas a este NG. Assim sendo, tentámo s desenvolver as
competências de produção es crita e oral – apontadas por todos el es com o sendo as suas
principais lacuna s – m as, ao mesmo tempo, proporcionar-lhes o contacto com a literatura e
cultura portugue s as, nã o só como uma forma de tomada d e consciência da identidade
nacional, mas também como uma forma difere nte de expressão do home m e do mundo.
3.1 A Mudança – Abertura de pistas
Como mencionado no p onto 4.3.1, é necessár io proporcionar aos aprendentes a realização
de uma a ctividade inte gradora em que os saberes e competências possam ser evidenciados.
Esta actividade va i ao encontro da metodologia por que optamos.
De referir, aind a, que as ac tividades a propo rcionar aos alunos visam, em nosso entender, e
de acor do com esta met odolog ia , de um gra u d e complexidade crescente, ao long o do
processo, pode m metaforicament e associar- se às várias ondas qu e a pedrada no ch arc o
origina, t al como sugerido por Merrill (2002), q uando apr esenta a meto dologia de ISD,
atrás explanada. Assim, a pedrada s erá a apr esentação dos problemas aos alunos e as várias
ondas geradas por essa pedra da s erã o as actividade s que se des envolverão a partir daí e
cujo g rau de complexidade vai aumentando, à medida que o proc esso se vai
desenvolvendo.
Parte 2: Estudo Empírico
292
Aquando da caracterização do público- alvo, estes alunos revelam bastantes lacunas a o
nível da ex pressão, da interpretação e da compreensão de enunciados escritos. Estas
lacunas são li mitativas para o desenvolvimento do trabalho que pretendíamos. Por outro
lado, considerando um imperativo legal dos curs os EFA – a criação do P RA, bem como a
nossa postura enquanto docentes, tentamos im plementar a reflexão como forma de auto -
análise, melhor consciencialização das dificuldades e, ao mesmo tempo como forma de
implicar mais os alunos no seu proce sso d e aprendizagem.
Não pe rdendo de vista estes conceitos, nem o fact o de que o nosso problema de p artida se
prender com o estabelec imento do melhor currículo para trabalhar com alunos adultos,
consideramos a metodologia de Instructiona l System Design como a mais adequada ao tipo
de trabalho a desenvolver e a os alunos com quem dese nvolveremos o ex perimento.
3.1.1 NG : Saberes Fundamentais
No que diz respeito ao primeiro NG trabalhado, o NG7 – Saberes Fundamentais – o seu
objectivo fulcral é permiti r aos alunos uma tomada de consciência relativamente aos
percur sos individuais e a uma postur a crítica relativamente a qu estões variadas do
quotidiano e do mundo.
Considerando que os temas aqui a desenvolver são:
- O Elemento, para odomínio de re f erê n cia [ DR ] 1;
- Processos e Mé todos Cie ntíficos, para o DR2;
- Ciência e Controvérsia s Públicas, no DR3;
- Le is Mod elos Científicos, no DR4;
cabe- nos a ta refa de, em equipa pedag ó gica , elaborar o d esenho curricular mais adequado
não só aos temas, mas ao perfil dos alunos com quem desenvolvemos este trabalho. Assim,
começa mos por analisar os NG a abordar e os temas corresponde ntes, no sentido de
encontrar afinidades e um fio condutor de toda a nossa prática, que se venha a traduzir na
actividade integradora, negociada com os alunos. P onderamos também qu ais os melhor es
conteúdos a aborda r e as melhores e stratégias de implementação do desenho curricula r
para este NG. Antes de apre sent armos a planificação do desenho g lobal, apresentamos o
Parte 2: Estudo Empírico
293
esboço elaborado, em equipa pedagógica, numa p rimeira fase do processo e onde se aponta
já, não só os temas a abordar, bem como as propostas de trabalho a aprese ntar aos alunos.
Ao mesmo tempo, destacamos que, em C L C , procedemos já à união dos DR3 e 4,
abandonando a concepção espar tilhad a, proposta pela t utela, e que já tive mos oportunidad e
de referir na primeira pa rte deste trabalho. Este esboço precedente d a grelha de desenho
global constitui -se como um ponto de partida, como uma forma da equipa ini ciar o
processo de or g anização das temáticas e da selecção de conteúdos a propiciar aos alu nos e
à sua possível articulação entre si. Funciona portan to, como um exercício de Brainstorming
para a p rópria equipa pedag ó g i ca. (cf. Figura 30)
De seguida, ainda em equipa pedagógica , elabora mos a gre lha de desenho global, que aqui
aprese nt amos. (cf. Figura 31)
Parte 2: Estudo Empírico
294
Fig u ra 30 – Articulação das diferentes Áreas de Formação no Curso EFA- NS
Parte 2: Estudo Empírico
Escola E B 2, 3 / S Pedro Fer reiro
Curso de Educação e For mação de Adu lto s, Nível Secund ário
DESENHO GLOBAL DO NÚCLEO GERADOR: Saberes Fundamentais e Li berdade e R esponsabilidade Pes s oa l
CLC - Ag ir em contextos diversificados con seg uindo identifi car o s
principais Factores q ue af ectam quer a m ud ança social quer a evolução
dos p ercursos individuais e sendo capaz d e mobilizar saberes r elati vos à
ciência e a dinâmicas in stitucionais de modo a pod er formular o piniões
críticas perante variadas questões
STC - Id entificar, compreender e agir criticamente em qu estões
relacionadas com visão científica do indivíduo, da sociedade e do
universo.
CP - Id entif icar direitos e d eve res pessoais, colectivos
e globais e
Compreender da sua emergência e aplicação co m o
expressões ora de tensão ora de converg ência
CONTEÚDO S/ACT IVIDADES
CP
CLC
Competênc i as: Conhecimentos culturais, linguísticos e
comunicacionais que permitam a actuação consciente e m co ntexto
profissional
STC
Competênc i as: Con hecimento e Util izaçã o de processos e métod os
científicos qu e po ssibilitem uma melhor actuação e m di f er entes
domínios da vida social
NG – Liberdade e responsabilidade Pessoal
TEMA: Direitos, liberdades e garantia e
responsabilidade pessoal
Competênc i as : conhecimento dos direito s e devere s
pessoais, colectivos e globais e compreensão da sua
emergência e aplicação como expressões o ra de
tensão ora de convergência
Conceitos de Cultura, Linguagem
e Comunicação
- Modelos de Comunicação não
verbal - a Pintura:
- intencionalidade;
- simbologias;
- efeitos no receptor;
- interpretação de ima gens
simbólicas.
- Intencionalidade comunicativa:
- pública ;
- privada.
- Exercícios de Expressão oral e
escrita
- Conceitos de Cultura, Linguag e m
e Comunicação
- Evolução do conceito de fam ília:
- da f a m ília tradicio nal à fam ília
pós -m oderna:
- fam ília alargada:
- fam ília n uclear;
- fam ília monop arenta l;
- fam ília d igital;
- fam ília h omosse xual.
- Papéis sociais na fam ília:
- idosos ;
- homem ;
- mulher;
- criança;
- criados.
Elemento – conceito na
perspectiva das Ciências;
Célula - unidade de estrutura e de
função nos seres vivos
Observação microsc óp ica de
células Procarióticas e
Eucarióticas.
Registo e legendagem das
observações.
O Homem : do m un do pessoal a
uma perspectiv a de in serçã o
noutras dimensões até ao
infinito
Visionamento de um
PowerPoint sobre o infinito.
Elaboração de um pequeno
texto sobre o assunto.
Conteúdos
- O Homem enq uanto pessoa
e enquanto cidadão
- Liberdade e
responsabilidade pessoal
- O Homem con textualizado
no Mundo
Actividades
Debate.
- Localizaçã o e
contextualização
Mundial: Países
Desenvolvidos e
Países em
Desenvolvime nto
- Elaboração de um
texto sobre a
Liberdade/
Responsabilidade
Avaliação: Reflex i va, f or madora, participada e construtiva
Figura 31 – Grelha de Desenho global dos NG Saberes Fund amentais, a CLC e T C e ‘Ident idade e Alteridad e’, a CP
Parte 2: Estudo Empírico
296
De salientar qu e este é também um trabalho de co-docência, pelo que a elaboração do
desenho curricular de CLC contou com a trab alho da colega, cuja form ação de base é
licenciatura em h istória. Além do mais, a nossa p reocupaçã o é a a rticulação dos conteúdos
seleccionados, por ca d a uma de nós.
Assim, tendo como ponto de partida o objectivo mencionado, e não perdendo de vist a as
competências que os alunos teriam de evidenciar, neste NG, em cada um dos DR , de
acordo c om o R eferencial de Competênc ias -Chave , a saber:
(i) intervir tendo em conta que os percursos individuais são afectados pela
posse de diversos recursos, incluindo competências ao nível da cultura,
da língua e da comunicação – DR1;
(ii) ag ir em contextos profissionais, com rec urso aos sabere s em cultura ,
língua e comunicação – DR2;
(iii) formular opiniões c rític as mobilizando sabere s vários e competênc ias
culturais, linguística s e comunicacionais – DR3;
(iv) identificar os prin cipais factores que influen ciam a mudança socia l ,
reconhece ndo nessa mudança o papel da cultura , da lín gua e d a
comunicação – DR4;
desenvolvemos o desenho de co-docênc ia qu e implementamos nas nossas aulas.
Parte 2: Estudo Empírico
297
Grelha de co -docênc ia do Núcleo Gerador Saberes Fu nda m ent ais, Cultura , Língua e Comunicaçã o
Núcleo Ge r ador (Total de 50 Horas)
CLC – SABERES FUNDAMENTAIS
Unidade de competênc ia
Acção em c on textos diversif icados:
- identificação dos principais fac t ores que afectam , a m u dan ça social e a evolução dos p ercursos in dividuais;
- mobilização de saberes, relativos à ciência e a dinâm ic as institucionais, de modo a poder formular opin iões
críticas perante variadas questões
DR1 (Privado) - Consciência da influência d e diversos recursos nos p ercursos
individuais;
- Competências ao nível da Cultura, L íngua e Comunicação
Tema : O ele mento – 15 horas
Conteúdos
Critérios de Ev i dência
Actividades por ele mentos de c om plex idad e / Avaliação
CLC (P)
CLC (H)
- Con ceitos de Cultura, Linguagem e
Comunicação
- Modelos de Comunicação n ão
verbal - a Pintura:
- intencionalidade;
- simbologias;
- efeitos no receptor;
- interpretação d e imagens
simbólicas.
- Intencionalidade comunicativa:
- pública ;
- privada.
- Expressão escrita
- Con ceitos de Cultura, Linguagem e
Comunicação
- Evolução do conceito de fam ília:
- da fam íl ia trad icional à fam ília
pós -m oderna:
- fam ília alargada:
- fam ília n uclear;
- fam ília monop arental;
- fam ília d igital;
- fam ília h omossex ual.
- Papéis sociais na fam ília:
- idosos ;
- homem ;
- mulher;
- criança;
- criados.
Critérios a considerar (pressupostos d e
partida):
- Percursos individuais / trajectória s de vida;
- Condições sociais envolventes
- Diferentes recursos e diversos contextos na
(re)construção das trajectórias de vida
Evidênc i as / Outcomes :
- interpretação de pintura;
- consciencialização de diferen tes formas de
comunicação;
- apropriação de metodologias de pesquisa;
- utilização das TIC;
- conhecimento do s elem entos estrutu rais de um
texto;
- conhecimento das c aracterísticas de tex tos de
carácter autobiográfico;
- correcta utilização da Língua Materna;
- co nhecim en to d as diferentes in tencionalidades
da Comunicação e os seus efeitos no receptor.
1 – Identif icação
- da pintura de autores dos s éc. XVI a XX , representando
diferentes tipos de fam ília e diferentes tip os sociais;
- das artes plásticas como f or ma d e comunicação.
2 – Com preensão
- da m ensagem transmitida;
- do objectivo do trabalho a realiza r.
3- Intervenção
- observaçã o, análise e interpreta ção das imagens;
- elaboração de um p owerpoint d e apresentação do
trabalho;
- apresentação, em grande grupo, do trabalho realizado;
- elaboração u m texto re flexivo sobre o seu papel na
fam ília a qu e pertence;
- reorganização / reestruturaçã o do s trabalhos elaborad os
Avaliação
- Observação directa;
- Observação indirecta;
- (Re)orientação dos trabalhos desenvolvidos;
Parte 2: Estudo Empírico
298
Núcleo Gerador (Total de 50 Horas)
CLC - SABERES FUNDAMENTAIS
Unidade de competênc ia
Acção em c on textos diversif icados:
- identificação dos principais fac t ores que afectam , a m ud ança social e a ev olu ção dos percursos indiv idu ais;
- mobilização de saberes, relativos à ciência e a d inâm ic as in stitucionais, d e modo a poder formular o piniões
críticas perante variadas questões
DR2 (profissional)
- Actuaçã o consciente e fundamentada em contexto p rofissional
Tema: Processos e Métodos Científicos – 15 horas
Conteúdos
Critérios de Ev i dência
Actividades por el ementos de complexidad e / Avaliação
CLC (P)
CLC (H)
O Texto literário / não literário
- A notícia:
- estrutura;
- intencionalidade;
- características.
- O texto poético:
- poemas d e Cesário V erde
(“Contrariedades”, “Num Bair ro
Moderno”, “Deslum bra mentos” ,
“Sentimento de u m Ocidental” –
exce rto s)
- po em a de António Gedeão,
“Calçada da Carriche”
- Intencionalidade comunicativa:
- pública ;
- privada.
- Expressão escrita
- Métodos de Investig ação em Ci ências
Humanas:
- do Positivismo à História Total
- relatividade do conhecimento
histórico
- A Sociedade industrial:
- o aparecim ento d a classe m édia;
- profissões do séc. XIX.
- Novas profissões da So cieda de d a
Informação:
- da Sociedade d a Informação à
Sociedade do Conhecimento
Critérios
- Contextos pro fissionais e p rocedim ento s
científicos
- Diferentes suportes e m eios d e com un icaçã o
Evidênc i as / Outcomes:
- consciencialização sobre os seus procedimentos
profissionais;
- apropriação de técnicas de pesquisa
- consciencializaçã o das d if eren tes formas de
produção de conhecim ento ;
- consciencialização sobre p rocedim entos
científicos em Ciências Huma nas;
- co nhecim en to d e novos su portes de
comunicação para a in serção profissional, os
modos de trabalho e de produção de riqueza;
- consciencialização da importância da aqu isição
de n ovas competências para u m a melhor inserção
profissional;
- conhecimento do s elementos estru turais de um
texto oral e / ou escrito;
- conhecimento de diferentes tipos de texto:
- literário /não literário
- descritivo
- argumentativo
- correcta utilização da Língua Materna;
- co nhecim en to d as diferentes in tencionalidades
da Comunicação e os seus efeitos no receptor
1 – Identif icação:
- de procedimentos utilizados na p esquisa e apresentação
do trabalho realizado, ao nível de DR1;
- de difere ntes ti pos de texto;
- de difere ntes métod os de produção de conhecim ento;
2 – Com preensão:
- da especif icidade do s m étod os das Ciências Hum anas;
- de técnicas de elaboração dos dif erentes tipo s de texto;
- das m ensagens sub jacentes aos dife rentes tip os de texto;
- d as mudanças no mundo do trabalho, operadas p elo uso
das TIC.
3- Intervenção:
- elaboração u m texto ref lexivo sobre o s p r ocedimentos
seguidos;
- diálogo em grupo sobre as diferentes mensagens
apresentadas, ma ni festando opinião crítica.
- apresentação dos resultados das pesquisas ef ectuadas.
Avaliação
- Observação directa;
- Observação indirecta;
- (Re)orientação dos trabalhos.
Na elaboração dos trabalhos, ao nível do DR1 , foram já se ndo introduzidos aspe ctos relacionados com M étodos e processos cien tíficos, ao nível das C i ê ncias Humanas, a sab er:
- investigação e pesquisa; in d i caçõe s bibliográ fi cas; elaboração de s uportes de apoio a comunicações pública; aprese n tação públ ic a de um t rabalho – postura, colocação de voz, lingu a gem.
Parte 2: Estudo Empírico
299
Núcleo Ge r ador (Total de 50 Horas)
CLC - SABERES FUNDAMENTAIS
Unidade de competênc ia
Acção em c on textos diversif icados:
- identificação dos principais fac t ores que afectam , a m ud ança social e a evolução dos percursos indiv idu ais;
- mobilização de saberes, relativ os à ciência e a d inâm ic as institucion ais, de modo a poder formular o piniões
críticas perante variadas questões
DR 3 - (Institucional)
Formulação de opinião crítica e f un dam entada mobi lizando competências
adquiridas
Tema: Ciência e Co ntrové rsias Púb licas – 1 0 ho ras
Conteúdos
Critérios de Ev i dência
Actividades por ele mentos de c om plex idad e / Avaliação
CLC (P)
CLC (H)
- Argumentação:
- Textos de o pinião – crónicas de
autores contemporâneos
- Intencionalidade com unicativa:
- pública ;
- privada.
- Da Sociedade da Inform ação à
Sociedade do Conhecim ento :
- Declaraçã o Universal dos Direitos
do Homem , ONU
- Propostas da UE;
Critérios
- m ult iplicidade de institu iç ões, agen tes e
interesses em presença
- a língua com o veículo de interve nção cívica e
social
- o papel central dos sistem as de comunicaçã o
como modeladores da opinião pública m un dial.
Evidênc i as / Outcomes :
- co nhecim ento de Institui ç ões Internacionais que
influenciam a co nstrução da opinião pública
mundial e as tomadas de decisões;
- consciência da importância da Educação;
- co nsciência da importância da Aprendizagem ao
Longo da Vida;
- conhecimento sobre as d irectrizes da UE so bre
as com petências para o séc. XXI;
- atitude crítica sob re a influência das Instituições
Internacionais abordadas no quotidiano;
- capacidade de argume ntação;
- co nsciência dos elem entos estruturais de um
texto oral e / ou escrito;
- conhecimento de diferentes tipos de texto:
- discurso argume ntativo (o ratória)
- correcta utilização da Língua Materna;
- conhecim ento das diferentes intencionalidad es
da Comunicação e os seus efeitos no receptor.
1 – Identif icação:
- d e Instituições In ternacionais q ue influenciam a
construção da opinião pública m un dial e as tomadas de
decisões;
- de difere ntes ti pos de texto;
- de m eios d e com un icaçã o / inform ação do s éc. XXI.
2 – Com preensão:
- d as propostas da EU relativamente aos con hecim entos
para o século XXI;
- dos procedime nto s conducentes à apresentaçã o/d ebate de
ideias.
3- Intervenção:
- diálogo/debate em grup o sobre as assuntos abordados,
manifestando opinião crítica;
- co m entário sobr e a n ova visão do trabalho no séc.
XXI;
- exercícios de escrita e ree scrita.
Avaliação
- Observação directa;
- Observação indirecta;
- (Re)orientação dos trabalhos.
Parte 2: Estudo Empírico
306
[Document text truncated for crawler view.]