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Ecos lusófonos no Japão: a era Meiji vista por Wenceslau de Moraes

Plinio Ribeiro Jr.

Abstract

During the three decades he lived in Japan, Wenceslau de Moraes (1854–1929) explored and identified the many nuances of the changes that took place during the Meiji era (1868–1912), a period of modernisation in Japan — modernisation based very much on a western model. His writings are of great use and relevance for anyone conducting research on twentieth-century Japanese society.

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Ecos lusófonos no Japão: aera Meiji vista por Wenceslau de Moraes Plinio Ribeiro Jr. Universidade Paris Diderot (Paris 7) Ver éestar distante. Ver claro éparar. Analisar éser estrangeiro. Fernando Pessoa Atrajetória de vida de Wenceslau de Moraes (1854–1929) foi marcada por inúmeras transversalidades: nascido no início da segunda metade do século XIX, em Lisboa, ele teve seu percurso profissional associado alugares marcados pela presença e/ou influência do império colonial português de outrora. As imagens apresentadas na página seguinte retratam as extremidades dessa trajetória: ao Wenceslau menino- -lisboeta, opõe-se モラエスさん (Moraesu-san), osenhor “orientalizado”, já integrado aos usos ecostumes da vida nipônica. Em ambas as fotos oolhar de Wenceslau instiga oespectador, ao mesmo tempo, amergulhar em todos os detalhes ali apresentados, eaavançar na direção das lacunas deixadas por este lapso de espaço-tempo. Apalavra japonesa MA (間) pode ser de grande serventia aos possíveis observadores. Comumente traduzida como “intervalo”, ela traduz na verdade um conceito mais elaborado, específico àestética nipônica, eque já foi estudado por diversos autores ocidentais, dentre os quais apesquisadora nipo-brasileira Michiko Okano, que odefiniu como “um espaço vazio onde vários fenômenos aparecem edesaparecem, fazendo nascer signos que se arranjam ese combinam livremente, de infinitas maneiras”1. Apartir dessa perspectiva, podemos considerar não apenas as duas fotos em questão, mas também avida eaobra de Wenceslau de Moraes, como uma chave de reflexão transversal entre diversas dicotomias: Portugal/Japão, Ocidente/Oriente, Literatura/História, século XIX/século XX etc., permitindo que sejam construídas diversas pontes correlatas às reflexões propostas por este volume. Através da percepção de Wenceslau de Moraes acerca do Japão da virada do século XIX para oséculo XX, podemos apreender elementos cuja pertinência ultrapassa omomento em que foram escritos epublicados. Eseria um erro considerá-los apenas no âmbito do período de vida do autor, afinal aefervescência encontrada por Moraes, resultado do processo de modernização ímpar vivido pelo Japão, encontra certamente ecos na realidade líquida2 do século XXI. 1 Okano 2012, p.53. 2 Bauman 2001. OPEN ACCESS 120 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA Oficial da marinha, diplomata eescritor, Wenceslau de Moraes tornou-se, de acordo com otradutor francês Dominique Nédellec, “cronista da vida do império do sol nascente”3. Esteve pela primeira vez no Japão em 1889, momento em que ainda vivia em Macau4. Mesmo Portugal eJapão tendo assinado um tratado de amizade já em 1860, apresença portuguesa no final da década de 80 era irrisória— em 1886, ingleses, franceses eamericanos residentes em Yokohama eram contados às centenas, em contraste com os vinte cidadãos portugueses que viviam na cidade àquela altura5. Eisso representava um imenso contraste em relação àherança deixada pelos portugueses que estiveram no Japão ao longo dos séculos XVI eXVII, época em que, de acordo com Eduardo Lourenço, acultura portuguesa era aprópria expressão do olhar europeu6. Os escritos deixados por João Rodrigues (c.1558–c.1633) eLuís Fróis (1532–1597) constituem ainda hoje uma preciosa fonte de estudos para os pesquisadores, incluindo os japoneses. Já no século XIX, asolitária voz portuguesa simbolizada pelos escritos de Wenceslau de Moraes encontrava-se em meio auma polifonia de vozes ocidentais que ecoavam há mais de trinta anos. Apesar disso, éinegável oseu pioneirismo, mani3 Nédellec 2005, p.9. 4 Wenceslau de Moraes viveu em Macau de 1888 a1898, exercendo as funções de imediato junto àCapitania do Porto ede professor junto ao Liceu de Macau. 5 Villaret 1889, p.231. 6 Lourenço 2004, p.38. Wenceslau de Moraes Fonte das imagens: Pires, Daniel. Wenceslau de Moraes: Fotobiografia. Lisboa, Fundação Oriente, 1993 OPEN ACCESS PLINIO RIbEIRO JR. 121 festo tanto em sua vida quanto em sua obra. Para apreender de que maneira esse “atraso” eesse pioneirismo podem estar ligados, éimportante não deixar de lado omomento histórico vivido pelo Japão. Aera Meiji, conhecida no Ocidente como omomento no qual ocorreu areabertura do país após mais de dois séculos de isolamento, é, sobretudo, uma fase de reestruturação profunda, na qual opaís buscou modernizar-se tendo como modelo os países que ele identificava então como os mais desenvolvidos: Inglaterra, França eEstados Unidos7. Dessa maneira militares, educadores, juristas, emuitos outros profissionais provenientes desses países instalaram-se no Japão com ointuito de colaborar para amodernização do país, provocando uma verdadeira revolução de hábitos etambém de mentalidade, projetando os japoneses no confronto entre tradição emodernidade. Segundo ohistoriador francês Louis Frédéric, “ohomem japonês encontra-se então dividido entre duas exigências incompatíveis: aquietude da vida tradicional eainseguridade da vida moderna, odesejo de imitar oOcidente eode preservar seus próprios valores”8. Yokohama, outrora um vilarejo de pescadores, tornara-se opalco da coabitação de japoneses eocidentais— compreendendo estes últimos tanto os residentes quanto os turistas. Tamanha revolução no cenário urbano esocial encontra-se refletida não só nos relatos enas fotografias feitos por ocidentais, mas também nas estampas (ukiyo-e) de artistas japoneses da época. Wenceslau de Moraes, ao desembarcar no Japão, depara-se com um país já confrontado àpresença ocidental eessa ocidentalização era vista por ele com uma certa reserva etambém com um certo sarcasmo: Um verdadeiro enxame, ogrupo de estrangeiros, pela maioria americanos esúbditos britânicos, que anualmente se oferecem asi mesmos afadiga d’uma longa viagem, para virem ao torrão nipónico gozar os simples encantos d’uma cozinha inglesa de hotel, oconforto das poltronas de um clube, aemoção de uma partida de tênis9. Cabe ressaltar que um contexto aparentemente desfavorável— em função da falta de relevância de Portugal no cenário imperialista mundial da época— possibilitou aMoraes lançar um olhar distinto sobre oJapão ecaptar nuances inéditas da paisagem urbana esociocultural deste país. Ao longo das suas primeiras obras sobre oJapão— Traços do Extremo Oriente (1895) eDai-Nippon 大日本 (1897)— evidencia-se amaneira pela qual asingularidade de Moraes éconstruída: se, por um lado, era evidente que ele não era um japonês, por outro, éimpossível ignorar asua não-identificação com ocenário ocidentalizado que fazia de Yokohama um local onde “oJapão 7 Uma cronologia sucinta do Japão durante asegunda metade do século XIX encontra-se no final deste documento. 8 Frédéric 1984, p.24. 9 Moraes 1946 (1895), p.163. OPEN ACCESS 122 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA émenos Japão”10. Seu olhar atentivo estava, portanto, sempre prestes amanifestar sua especificidade: Uma longa viagem em comboio, via-ferrea fóra, como aque eu varias vezes emprehendi entre Yokohama eOsaka, écoisa que interessa vivamente, pelo exame embora rápido da paisagem exterior, pela intimidade forçada com os bons filhos do sol; epara este último regalo, não seduzindo francamente oconforto da terceira classe, em que se acama amonte obaixo povo, éforçoso deixar-se agente ficar pela segunda, abandonando aprimeira aos ministros plenipotenciários, aos touristes enfadonhos, aos caixeiros ingleses, epor ventura aalgum alto magnata do império11. Ovagão de segunda classe, mais do que um espaço físico delimitado, éuma área em que ele afirma sua solidão esua perspicácia em “ler” oJapão apartir de um ponto de vista inédito em que ésublinhada amaneira como ocorre acoabitação entre japoneses eestrangeiros. Em um dado momento, Wenceslau pergunta-se: “oque irão pensando um do outro?”12, eprossegue uma linha de pensamento cuja perspicácia ecoa no Japão contemporâneo. Ao responder essa questão, ele vai resumir oprocesso de mudanças de paradigma que atravessa oJapão da era Meiji: Opovo japonês, farto de adaptar, de transformar tudo oque aChina lhe dava elhe podia dar, almejava inconscientemente […] por outro foco de civilização que lhe avivasse estímulos. AEuropa eaAmérica lho mostraram. […] Hoje, sabem tudo, ou pouco menos. Artes, indústrias, ciências, funcionalismo, arsenais, esquadras, de tudo têm, como nós, amercê duma assombrosa aprendizagem de alguns anos apenas13. Avitória na guerra sino-japonesa (1894–1895) mostrou ao mundo que oJapão havia encerrado afase de aprendizado ereestruturação ecomeçava anutrir ambições nacionalistas que resultaram naquilo que caracterizou aimagem do país ao longo da primeira metade do século XX: aconstituição de um império bélico cujas ações provocaram feridas que ainda hoje são evocadas com reserva pelas autoridades japonesas— prova disso éaatenção dada acada ano pela mídia àmaneira como aclasse política do Japão lida com aherança histórica relativa àSegunda Guerra Mundial (como aconteceu neste ano 2015, na ocasião do discurso proferido pelo primeiro ministro japonês, Shizō Abe, no contexto das comemorações dos setenta anos do lançamento da bomba atômica na cidade de Hiroshima). Um outro aspecto abordado por Wenceslau eque apresenta grande relevância no Japão atual refere-se àmestiçagem, já visível no cenário social do final do século XIX: 10 Ibidem, p.166. 11 Ibidem, p.215–216. 12 Ibidem, p.220. 13 Ibidem, p.221. OPEN ACCESS PLINIO RIbEIRO JR. 123 Como num campo de flores características de uma certa região, […] uma ou outra musuméaparece, japonesa pelo kimono epelos hábitos, estranha, porém, nos seus cabelos loiros, na cor da sua tez. Émestiça. Também não faltam, por estas ruas, mamãs indiscutivelmente nipónicas, dando opeito abebés de olhos azuis14. O“estranhamento” ressentido por Wenceslau em relação àintegração dos mestiços no panorama social da época ecoa ainda no Japão no século XXI. Aliás, opróprio idioma japonês— através do uso do alfabeto katakana (カタカナ) para as palavras de origem estrangeira— reflete essa realidade sócio-cultural que tende adiferenciar tudo aquilo que lhe éexterno. Em relação especificamente àsituação das musumés mestiças do século XXI, omundo presenciou recentemente apolêmica suscitada pela eleição de uma mestiça, Ariana Miyamoto (filha de mãe japonesa epai norteamericano), como Miss Japão 2015. Ou seja, as ressonâncias entre os séculos XIX eXXI são múltiplas. Acodificação estabelecida durante aera Meiji, estruturada no binômio modernização/ocidentalização foi abase do que tornou-se oJapão no século XX edo que éoJapão no século XXI: um país cuja identidade ainda oscila entre abusca de modelos ocidentais eapreservação de valores tradicionais. Nesse sentido, encontramos na obra de Wenceslau de Moraes um testemunho visionário, uma fonte preciosa que apresenta acada leitura novos elementos, como se fosse um caleidoscópio aunir Oriente eOcidente cuja beleza da imagem produzida depende também da capacidade de se adotar novas perspectivas, afim de que uma nova noção de modernidade, mais plural eheterogênea possa então ser erguida. 1853 chegada do comodoro Matthew J. Perry ao Japão 1854 tratado de Kanagawa entre Japão e Estados Unidos 1868 abolição do regime shogunal; Edo adota o nome de Tōkyō; início da era Meiji (Meiji ishin 明治維新) 1873 adoção do calendário gregoriano 1885 instauração de um sistema de gabinete ministerial (tendo por modelo os governos ocidentais) 1889 promulgação da Constituição 1895 vitória do Japão na guerra sino-japonesa (1894–1895) 1898 promulgação do código civil Breve cronologia do Japão na segunda metade do século XIX 14 Ibidem, p.200–201. OPEN ACCESS 124 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA BIBLIOGRAFIA Bauman, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. Frédéric, Louis. La Vie quotidienne au Japon au début de l’ère moderne (1868–1912). Paris: Hachette, 1984. Lourenço, Eduardo. Anau de Ícaro seguido de Imagem emiragem da lusofonia. Lisboa: Gradiva, 2004. Moraes, Wenceslau (de). Dai-Nippon 大日本. Porto: Livraria Civilização, 1983 (4a ed.). Moraes, Wenceslau (de). Traços do Extremo Oriente. Lisboa: Livraria Barateira, 1946 (2aed.). Nédellec, Dominique. Prefácio. In Wenceslau de Moraes: O-Yonéet Ko-Haru. Paris: Phébus, 2005. Okano, Michiko. MA, entre-espaço da arte eda comunicação no Japão. São Paulo: Annablume, 2012. Pires, Daniel. Wenceslau de Moraes: Fotobiografia. Lisboa: Fundação Oriente, 1993. Villaret, Etienne (de). Dai Nippon. Paris: Delagrave, 1889. LUSOPHONE ECHOES IN JAPAN: THE MEIJI PERIOD IN THE EYES OF WENCESLAU DE MORAES During the three decades he lived in Japan, Wenceslau de Moraes (1854–1929) explored and identified the many nuances of the changes that took place during the Meiji era (1868–1912), aperiod of modernisation in Japan— modernisation based very much on awestern model. His writings are of great use and relevance for anyone conducting research on twentieth-century Japanese society. KEY WORDS / PALAVRAS-CHAVE Alterity; Portugal–Japan relations; 19th and 20th century; Meiji period Alteridade; relações Portugal-Japão; séculos XIX eXX; era Meiji Endereço profissional: Universidade de Paris— Diderot Endereço eletrónico: [email protected] OPEN ACCESS