Opovo eapolícia: conflitos sociais em Ocortiço, de Aluísio Azevedo, eRecordações do escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto Edu Teruki Otsuka Universidade de São Paulo As relações entre opovo eapolícia no Brasil, marcadas por uma tensão permanente, estão presentes na tradição romanesca do país pelo menos desde as Memórias de um sargento de milícias (1854–45), de Manuel Antônio de Almeida. Naquele romance, amuitos títulos inaugural, oconflito entre as personagens da camada popular eaforça repressiva da polícia acompanha aação praticamente em sua integralidade. Os pobres eos não-proprietários que transitam entre olícito eoilícito são alvo de contínua vigilância das tropas comandadas pelo major Vidigal. Não apenas os dois Leonardos, pai efilho, cujas trajetórias sustentam ofio narrativo, mas também esobretudo os desvalidos que povoam oromance, sofrem aviolência incessante da polícia. No fim, Leonardo alcança aimprovável ascensão econômico-social por meio de heranças earranjos e, por isso mesmo, deixará de ser perseguido ese conciliará com omajor, mas aos outros, apopulação supérflua que continuará pobre einintegrável, resta aação punitiva earbitrária da polícia. Do ângulo da atualidade, talvez aí já se possa entrever algo do sentido da modernidade que efetivamente viria ase instalar nos sucessivos ciclos de desenvolvimento da sociedade brasileira nas décadas seguintes. Para sugerir articulações entre diferentes momentos históricos por meio do romance brasileiro, podem-se tomar duas cenas que apresentam conflitos entre opovo eapolícia. Aprimeira ocorre no cap. X de Ocortiço (1890), de Aluísio Azevedo. Nesse capítulo, Jerônimo, oportuguês empregado na pedreira, tenta aproximar-se de Rita Baiana, amulata por quem se apaixona, eéconfrontado por Firmo, oamante da lavadeira; os dois lutam earma-se um tumulto no cortiço de João Romão. Logo em seguida, surge apolícia forçando aentrada com pancadas no portão da estalagem. João Romão exorta os moradores aresistirem, impedindo ainvasão da polícia; assim, eles se armam com paus evarais de ferro e, enquanto os homens sustentam oportão, as mulheres montam uma barricada. Oportão acaba por ceder, e, em um primeiro momento, os policiais não conseguem vencer adefesa dos moradores, mas um incêndio se inicia em uma das casas, ameaçando espalhar-se para as outras. Otemor provocado pelo fogo leva os moradores aabandonarem aluta contra os policiais, dispersando-se para salvar seus pertences. Os policiais aproveitam aconfusão eavançam com violência, distribuindo golpes de espada edestruindo oque encontram pela frente. OPEN ACCESS
100 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA No romance, esse conflito entre os trabalhadores pobres eos agentes da repressão não chega ater consequências narrativas importantes: oincêndio éapagado por uma chuva providencial, e, depois, apolícia se retira sem levar nenhum preso (cap. XI). Na articulação narrativa, importa apenas que adestruição parcial do cortiço leva João Romão acolocar suas propriedades sob seguro (como se revela no cap. XVIII), e, após osegundo incêndio (cap. XVII), odinheiro do seguro lhe permite investir na reconstrução da estalagem. Na cena em questão, no entanto, oconflito não produz desdobramentos narrativos, eosentido da ação da polícia não éexplorado de maneira mais profunda. No momento em que os policiais investem contra oportão da estalagem, os moradores se unem “como se ficassem desonrados para sempre se apolícia entrasse ali”1; os policiais, por sua vez, sentem aresistência dos moradores como uma humilhação. Onarrador comenta ainda: Apolícia era ogrande terror daquela gente, porque, sempre que penetrava em qualquer estalagem, havia grande estropício; àcapa de evitar epunir ojogo eabebedeira, os urbanos invadiam os quartos, quebravam oque lá estava, punham tudo em polvorosa. Era uma questão de ódio velho2. Por fim, quando os policiais, loucos de cólera, invadem as casas quebrando tudo, onarrador indica que eles ofaziam “sequiosos de vingança”3. Aqui, oconflito entre os pobres eapolícia éapresentado como se fosse uma rivalidade de caráter pessoal, visto que ser vencido pelo oponente implicaria desonra ehumilhação. Para onarrador, aluta seria movida por ódio edesejo de vingança, ealei não seria mais do que um pretexto para oexercício da violência física. Limitando-se àaparência do evento, onarrador pretende explicar oconflito como uma espécie de rixa entre grupos rivais. Eembora essa maneira de compreender arelação entre os trabalhadores pobres eos policiais esteja longe de captar os fundamentos sociológicos do problema, aaparência de rixa pessoal já assinala um dado histórico internalizado na figuração do conflito. Com efeito, ahistória da polícia do Rio de Janeiro ao longo do século XIX evidencia apersistência de práticas ligadas ao escravismo, em que os homens livres pobres eram identificados auma condição de inferioridade semelhante àatribuída aos escravos. Como indica ohistoriador Thomas Holloway, no início do século apolícia funcionava como extensão da classe proprietária no domínio sobre os escravos eatuava com igual violência contra os pobres livres. Com agradativa diminuição do número de escravos na segunda metade do século, as práticas disciplinares erepressivas foram transferidas para as classes inferiores livres, perdurando após aAbolição. Adespeito das mudanças institucionais que retiraram aautoridade judicial dos funcionários da polícia (de modo que atruculência soberana de um major Vidigal, por exemplo, não seria mais legalmente admitida), ofato éque as práticas punitivas da polícia incidiam sobre toda asubclasse urbana cuja abrangência dissolvia as fron1 Azevedo 1973, pp.139–140. 2 Ibidem, p.140. 3 Ibidem, p.141. OPEN ACCESS
EDU TERUKI OTSUKA 101 teiras do estatuto civil que separava escravos ehomens livres, do espectro racial que ia do negro ao branco eda etnia/nacionalidade que diferenciava africanos, brasileiros de ascendência portuguesa eimigrantes europeus recentes. Assim, acondição de subcidadania imposta aos pobres eotratamento incivil dispensado aeles favoreceram apermanência das atitudes mutuamente hostis entre apolícia eos setores sociais que sofriam as ações repressivas4. Voltando àcena de Ocortiço, pode-se dizer que, no discurso do narrador, fica em primeiro plano adimensão dos afetos eda honra pessoal, mas oromance, em sua estruturação, internaliza elementos sociais ehistóricos mais complexos. Arelação entre os homens livres pobres eos policiais aparece ao narrador como uma rixa, mas seus fundamentos histórico-sociais remetem atodo um complexo de efeitos do sistema escravista. Tais efeitos remontam ao período colonial— em que aatividade governamental éacima de tudo aadministração de um território destinado àprodução para omercado externo5— e, também depois da Independência, ultrapassam oâmbito estrito do controle dos escravos, voltando-se para todos os pobres que estavam àmargem dos grandes processos produtivos da economia do país. Assim, aatuação da polícia em relação aos pobres (trabalhadores ou não), mesmo na segunda metade do século XIX, revela uma lógica em que aforça policial se volta ao controle da população supérflua, vista como elemento de perturbação da ordem. Como ésabido, aação do romance se passa pouco antes do fim da escravidão, em um momento em que odiscurso abolicionista ganhava força, ejá estava em curso aredefinição das relações de trabalho. Tanto assim que amaior parte dos moradores da estalagem écomposta de trabalhadores livres (operários da pedreira elavadeiras). Desse modo, n’Ocortiço, aação da polícia não se pauta tanto pela tradicional repressão àvadiagem, que, no século XX, seria reativada juntamente com aideologia da valorização do trabalho articulada àarregimentação de mão-de- -obra; parece ser antes uma ação disciplinar, que pretende governar os comportamentos dos pobres. Tendo em vista aorganização formal do romance como um todo, cabe lembrar ainterpretação de Antonio Candido, no ensaio “De cortiço acortiço”, que mostrou como anarrativa se constrói segundo adinâmica da acumulação capitalista, manifestando oprogressivo predomínio do desígnio racional sobre oritmo espontâneo da natureza. Importa aqui destacar afiguração da estalagem reconstruída após osegundo incêndio, em oposição ao cortiço vizinho, o“Cabeça-de-Gato”. Adescrição final do “Cabeça-de-Gato” pretende sugerir apersistência do cortiço-tipo, isto é, uma habitação coletiva para apopulação pobre, que éapresentada no romance como oespaço da degradação, da miséria, da sujeira, da imoralidade, do vício edo crime— um reduto social que teima em reproduzir-se adespeito da tendência modernizadora (cap. XXII). Em contraste, anova estalagem de João Romão, reconstruída, limpa edevidamente rebatizada como “Avenida São Romão”, passa areceber estudantes pobres, artistas de teatro etrabalhadores em funções modestas (contínuos de repartições públicas, caixeiros de botequim, condutores de bondes evendedores de bilhetes de loteria). Àmedida que João Romão aumenta os preços dos cômodos, os mais 4 Holloway 1997, pp.215, 257–9. 5 Ver Prado Júnior 1995. OPEN ACCESS
102 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA pobres vão sendo enxotados para o“Cabeça-de-Gato” e, nas palavras do narrador, “sendo substituídos por gente mais limpa”6. A“limpeza” da estalagem reconstruída édeterminada pelo poder do capital imobiliário corporificado em João Romão, eocorre paralelamente ao empenho do proprietário em adquirir modos “civilizados”, ou seja, modos que lhe permitissem marcar adistinção de classe. Como oseu proprietário, também anova estalagem se “civiliza”, eisso ocorre com aprogressiva expulsão dos mais pobres, que passam ase aglomerar no cortiço vizinho. Oprocesso modernizador, que no romance se concretiza na reconstrução da estalagem, não produz resultados integradores, favorecendo antes amanutenção de um setor social permanentemente segregado. Eembora no romance oespaço degradado do “Cabeça-de-Gato” seja apresentado como um lugar imperecível, no plano da realidade histórica os cortiços tradicionais, sobretudo os do centro da cidade, estavam condenados adesaparecer e, de fato, seriam eliminados nos anos seguintes como parte de um processo mais amplo que obrigaria os pobres aocupar regiões mais distantes do centro7. No romance de Aluísio, oconflito entre os pobres eapolícia apenas vagamente indica afunção disciplinadora do aparato repressivo, mas adinâmica narrativa já apreende algo da tendência histórica que nos anos seguintes àpublicação do romance se concretizaria no projeto de “Regeneração” da cidade do Rio de Janeiro, expulsando àforça apopulação mais pobre do centro da cidade. Esse momento histórico posterior corresponde àsegunda cena aque farei menção eque se encontra no capítulo XII das Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909), de Lima Barreto. Ali, oconflito apresenta feições nítidas de protesto social: acena descreve omotim contra certa “lei dos sapatos obrigatórios”, que éuma paródia da lei da vacina obrigatória de 1904, em torno da qual se armou ainsurreição popular que, como se sabe, ficou conhecida como aRevolta da Vacina— quando, durante sete dias, ocorreram sucessivas manifestações populares em reação àobrigatoriedade da vacina contra avaríola, que foram reprimidas pela força militar. No romance, adescrição do conflito apresenta um cenário de guerra, com barricadas, tiroteios eamotinados em confronto com acavalaria de polícia. Também aqui abelicosidade do povo é, em parte, atribuída ao ódio àpolícia, mas étambém vista como decorrência da indignação com as condições de vida ecom ogoverno: “Todos se misturavam, afrontavam as balas, unidos pela mesma irritação epelo mesmo ódio àpolícia, onde uns viam oseu inimigo natural eoutros oEstado, que não dava afelicidade, ariqueza eaabundância”8. Também aqui acena de conflito entre opovo eapolícia éum episódio secundário na economia do enredo, pois serve antes para reforçar otema central do romance, indicando mais uma instância do poder do jornal eda manipulação no jogo da política: amobilização dos manifestantes éexplicada pelo narrador como efeito da influência insidiosa dos jornalistas. Oepisódio serve ainda para expressar opiniões do personagem-narrador, que reprova aqueima de um bonde como “atentado brutal 6 Azevedo 1973, p.244. 7 Éemblemática, nesse sentido, adestruição do “Cabeça-de-porco”, cortiço do centro do Rio de Janeiro, em 1893. Ver Chalhoub 1996. 8 Barreto 1989, p.197. OPEN ACCESS
EDU TERUKI OTSUKA 103 contra apropriedade particular epública”, ou então serve para explorar sentimentalmente opesar de Isaías Caminha pelas vítimas do motim, sobretudo as atingidas por balas perdidas. Ao mesmo tempo, porém, adescrição da revolta capta certa ausência de contornos nítidos emotivações claras do motim, que não se deixa enquadrar facilmente em categorias pré-estabelecidas e, desse modo, indica um fundo mais complexo: Havia apoeira de garotos emoleques; havia ovagabundo, odesordeiro profissional, opequeno burguês, empregado, caixeiro eestudante; havia emissários de políticos descontentes. [...] / Omotim não tem fisionomia, não tem forma, éimprovisado. Propaga-se, espalha-se, mas não se liga. Ogrupo que opera aqui não tem ligação alguma com oque tiroteia acolá. São independentes; não há um chefe geral nem um plano estabelecido. Numa esquina, numa travessa, forma-se um grupo, seis, dez, vinte pessoas diferentes, de profissão, inteligência emoralidade9. Este trecho sugere que, um pouco àmaneira do que havia ocorrido na realidade histórica, isto é, na Revolta da Vacina, amobilização popular não se deveu unicamente àinfluência de oradores, publicistas elideranças políticas pertencentes àelite; abarcando pequenos comerciantes, funcionários públicos, artesãos eoperários, arevolta estendeu-se para as camadas mais pobres, que encontraram na insurreição um modo de expressão política. Essa dinâmica da mobilização popular havia sido inaugurada pela Revolta do Vintém em 1880, quando apopulação do Rio de Janeiro se opôs ao aumento da passagem dos bondes no valor de um vintém (20 réis), uma vez que ocusto do imposto então aprovado para conter odéficit orçamentário da Coroa recaía sobre os usuários dos serviços, enão sobre as empresas de bonde. Esse modo de mobilização política do povo teve continuidade em outros protestos de menor escala até1904, quando da Revolta da Vacina, mas agora em um quadro modernizador marcado pelas políticas de saneamento ede reestruturação urbana que modificaram aaparência do Rio de Janeiro10. No romance, ésignificativo que alei contra aqual apopulação se rebela seja ada obrigatoriedade do uso de sapatos. Primeiramente, isso faz pensar num desejo de afirmação de uma sociedade de homens livres, ao mesmo tempo em que sugere apermanência do fantasma da escravidão, pois, antes da abolição, era proibido aos escravos ouso de calçados. No novo contexto modernizador em que oescravismo está formalmente abolido, impõe-se por força de lei amarca aparente da liberdade do povo, devidamente calçado ecivilizado. Um pouco nessa direção, uma das personagens (Floc) considera que aobrigatoriedade dos sapatos éuma medida que fomenta oprogresso nacional: “Causa má impressão ver essa gente descalça... Isso só nos países atrasados! Eu nunca vi isso na Europa...”11. Alei surge em um contexto em que está se difundindo ointuito de civilizar opaís epromover amodernização 9 Barreto 1989, p.197. 10 Ver Graham 1980; Meade 1986 e1989; Needell 1987; Jesus 2006. 11 Barreto 1989, p.192. OPEN ACCESS
104 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA por meio de reformas urbanas12; outra personagem (Aires d’Ávila) escreve um artigo “mostrando anecessidade de ruas largas para diminuir aprostituição eocrime edesenvolver ainteligência nacional”13. Como se vê, embora as indicações sejam pontuais enão encontrem desenvolvimento narrativo, aparecendo somente como assunto do discurso das personagens, são indícios inequívocos da modernidade que aelite ansiava naquele período, em que predominava aideologia do progresso civilizatório. Digamos então que ainsurreição popular— tanto afigurada no romance quanto aocorrida na realidade histórica— talvez possa ser entendida como uma revolta contra opróprio rumo histórico que vinha se impondo pelo projeto de modernização nacional, ainda que isso não emergisse claramente àconsciência da população envolvida14. Em Ocortiço, oconflito entre opovo eapolícia não éapresentado como uma atuação conscientemente política por parte dos pobres, mas se funda nas desigualdades econômico-sociais eno tratamento discriminatório reservado aos pobres, que permanecem confinados em territórios degradados. Em Isaías Caminha, énotório no conflito areivindicação política do povo dirigida ao Estado. Mais significativo, porém, éque, embora arevolta seja vitoriosa em seu objetivo imediato— pois alei dos sapatos ésuspensa, assim como havia sido revogada aobrigatoriedade da vacina—, as condições de vida dos pobres não foram substancialmente alteradas. Além disso, no que diz respeito àRevolta da Vacina, as práticas adotadas para reprimi-la, implicando discriminação earbitrariedade dos policiais contra apopulação pobre, eram um prolongamento dos antigos métodos de controle dos escravos por meio da violência; nas palavras de Nicolau Sevcenko, “oque antes fora uma justiça particular, aplicada no interior das fazendas ecasas senhoriais, tornou-se prática institucional da própria autoridade pública no regime republicano”15. Cabe enfatizar que isso se deu sob estado de sítio, decretado em 16 de novembro, quando arevolta foi derrotada, eprorrogado duas vezes até18 de março. Opróprio Lima Barreto, em uma anotação sem data de seu diário, registrou considerações sobre oestado de sítio instalado após aRevolta da Vacina: Trinta dias depois, osítio éamesma coisa. Toda aviolência do governo se demonstra na ilha das Cobras. Inocentes vagabundos são aí recolhidos, surrados emandados para oAcre. Um progresso! Atéaqui se fazia isso sem ser preciso estado de sítio; oBrasil já estava habituado aessa história. Durante quatrocentos anos não se fez outra cousa pelo Brasil. Creio que se modificará onome: estado de sítio passará aser estado de fazenda. De sítio para fazenda, há sempre um aumento, pelo menos no número de escravos16. 12 Ver Benchimol 1990. 13 Barreto 1989, p.158. 14 Apoio-me em observação de Sevcenko 2010, p.120. 15 Sevcenko 2010, p.116. 16 Barreto 1956, p.49. Otrecho éem parte citado por Sevcenko 2010, pp.116–7. OPEN ACCESS
EDU TERUKI OTSUKA 105 Hoje, oque mais chama aatenção na passagem acima talvez não seja tanto aconexão com opassado escravista, esim opressentimento— irônico àépoca, mas hoje sombriamente realista— da ampliação enormalização do estado de sítio como prática governamental para controlar ou eliminar apopulação pobre17. Por fim, cumpre lembrar mais uma observação de Nicolau Sevcenko, útil para se pensar, do ângulo da atualidade, osentido da modernização promovida na Belle Époque brasileira. Compreendendo aRevolta da Vacina esuas consequências como parte de um processo mais amplo de segregação econômica, social eurbana, Sevcenko identifica naquele período “agênese de um modo de administração no qual oobjetivo não éasuperação, mas agestão burocrática da pobreza como opilar básico da política social”18. Embora as duas cenas literárias analisadas não cheguem arevelar esse modo de administração em sua efetiva complexidade, elas fornecem elementos para se pensar não apenas areprodução da pobreza como parte iniludível da modernização brasileira, mas também os aparatos governamentais com que, cada vez mais, apopulação segregada edescartável passou aser gerida. Assim, apolítica higienista earemodelação urbana do “bota-abaixo”, que levaram àremoção dos cortiços do centro do Rio de Janeiro, expulsando apopulação excedente para os morros, compõem parte daquela modernidade que se anunciou na passagem do século XIX para oséculo XX. Mas dela também participam, de maneira central, medidas administrativas como amobilização das forças policiais para acontenção das revoltas epara ocontrole dos pobres que não serão integrados. No cenário do Brasil atual, que desde 2013 passa por uma série de manifestações populares cujo sentido político se inverteu, eem que agestão da pobreza como política social se tornou uma realidade incontestada, operíodo abarcado pelos dois romances em foco talvez possa funcionar também como um termo de comparação para areflexão histórica sobre osentido da atualidade. BIBLIOGRAFIA 17 Ver Arantes 2014. 18 Sevcenko 2010, p.134. Arantes, Paulo. Onovo tempo do mundo eoutros estudos sobre aera da emergência. São Paulo: Boitempo, 2014. Azevedo, Aluísio. Ocortiço. Introdução de Sérgio Milliet. São Paulo: Martins, 1973. Barreto, Lima. Recordações do escrivão Isaías Caminha. Rio de Janeiro: Garnier, 1989. Barreto, Lima. Diário íntimo. São Paulo: Brasiliense, 1956. Benchimol, Jaime Larry. Pereira Passos: um Haussman tropical. Arenovação urbana da cidade do Rio de Janeiro no início do séculoXX. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Turismo eEsportes, Departamento Geral de Documentação eInformação Cultural, 1990. Candido, Antonio. “De cortiço acortiço”. In Odiscurso eacidade. São Paulo: Duas Cidades, 1993, pp.123–152. Carvalho, JoséMurilo de. Os bestializados: oRio de Janeiro eaRepública que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. Chalhoub, Sidney. Cidade febril: cortiços eepidemias na Corte imperial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. OPEN ACCESS
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