Reexaminando a interpolação de não: estudo num corpus de português clássico e moderno
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Reexaminando ainterpolação de não: estudo num corpus de português clássico emoderno1 Mikołaj Nkollo (Poznań) RESUMO Oassunto central éainterpolação, isto éafalta da adjacência clítico-verbo no português clássico eno início da fase moderna. Naquela altura, omarcador da negação predicativa foi aúnica expressão capaz de alterar acontinuidade da sequência clítico-verbo. No artigo pretendem-se alcançar dois objetivos. Oprimeiro éoconfronto dalgumas afirmações prévias acerca da sintaxe desse modelo linear com os dados extraídos de um corpus. Aanálise demonstra que, ao longo do período discutido, ainterpolação se verificava igualmente fora dos contextos de próclise obrigátoria. As suas ocorrências atestam-se em quatro posições estruturais onde imperava avariação livre: ênclise— próclise eonde aênclise éobrigatória hoje em dia. Osegundo objetivo relaciona-se com asobre-representação dos clíticos objeto direto da 3ª pessoa nas sequêncas com ainterpolação. Demonstra-se que anão-adjacência clítico-verbo pôs termo aos laços morfo-fonológicos que uniam opronome acertos proclisadores aele antepostos (os ditongos nasais em não, quem fazendo com que asequência se revestisse, por vezes, da forma quem no, não no). Uma vez invertida aordem das sílabas, deixou de poder ocorrer na posição pré-verbal aalomorfia específica aos clíticos. Assim, as alterações específicas à morfologia pronominal só se manifestam na ênclise no PE atual. PALAVRAS-CHAVE corpus, interpolação, colocação não-afixal, alomorfia específica aos clíticos, inserção do ataque ABSTRACT The central topic of the paper is interpolation (clitic-verb non-adjacency) in Classical and early Modern European Portuguese (EP). In that period, the não negative marker was the only expression eligible to break the continuity of clitic-verb sequences. The aims of the study are twofold. First, previous assumptions on the syntax of this linear model are matched against corpus data. The present analysis demonstrates, first, that interpolation was allowed outside obligatory proclisis contexts. They correspond to the presence of the não negative in four structural positions where enclisis and proclisis were freely interchangeable in previous stages and where enclisis is nowadays mandatory. The second aim is to account for the overrepresentation, underpinned by corpus data, of 3rd person direct object pronouns in sequences with interpolation. Interpolation is claimed to have enabled speakers to get rid of morpho-phonological ties between the o, a, os, as series and the preceding non-verbal sound material (nasal diphthongs in não, quem, etc, coercing pronouns into taking anasal onset quem no, nãono, etc.). As aconsequence, in contemporary standard EP, clitic-specific allomorphy is earmarked for enclisis. KEYWORDS corpus, interpolation, phrasal attachment, clitic allomorphy, onset insertion DOI https://doi.org/10.14712/18059635.2019.1.6 1 Oestudo recebeu oapoio financeiro por parte do Centro Nacional de Ciência (Narodowe Centrum Nauki) no âmbito do projeto UMO-2016/22/M/HS2/00168.
MIKOłAJ NKOLLO 101 1. ESBOÇO DO PROBLEMA Mais do que pretender escrever de novo ahistória da interpolação no português europeu (PE), oestudo que se apresenta em seguida visa, antes que tudo, reexaminar algumas das propriedades distributivas das construções onde oclítico ocorre separado do verbo. Estas propriedades, por mais que tenham sido mencionadas nos estudos anteriores, nem sempre resistem ao confronto com os dados autênticos. Uma vez terminada aobservação, tentar-se-á alcançar um objetivo mais exigente: ver como adistribuição previamente descrita pôde repercutir-se na colocação dos clíticos ao iniciar-se, na primeira metade do século XIX, afase contemporânea do PE (segundo aperiodização proposta por Castro 2006: 158–164, 188–193). Oenquadramento temporal do presente estudo localiza-se entre aprimeira metade do séc. XVII eos meados do séc. XIX, período esse que corresponde à interpolação exclusiva de não. Obviamente, oconfronto das afirmações anteriores com os dados empíricos exige um número elevado de exemplos autênticos, pelo que apresente análise se fundamenta num corpus compilado apartir dos textos disponibilizados pela Biblioteca Nacional Digital. Oartigo está organizado de modo seguinte: asecção 2 entretece operfil histórico da interpolação com um resumo das propriedades aela associadas. Na secção 3 estão expostos os princípios que presidiram à composição do corpus. Ao lado das questões técnicas que alinguística do corpus costuma enfrentar, identificam-se em pormenor os contextos em que ocorre ainterpolação eaqueles em que ela está omissa, apesar de ter estado possível. Sendo ambos os contextos agrupados num só conjunto— odos contextos propiciadores da interpolação— oreconhecimento destes será um pré-requisito para que seja corretamente determinado oescopo do fenómeno no período em análise. Asecção 4 destina-se às interpolações fora dos contextos de próclise obrigatória. Nos estudos prévios dedicados ao assunto, aexistência destas estruturas não foi consensual. Na melhor das hipóteses, as ocorrências das interpolações não-desencadeadas foram classificadas de ‘reduzidíssimas’ (Martins 1994: 188). Tanto mais interesse deveria despertar ocontributo dos exemplos autênticos. Na secção 5, demonstra-se que ambos os padrões lineares (adjacência enão-adjacência) nem sempre se assemelhavam, opondo-se pela frequência de vários tipos de pronomes que neles ocorriam. Prevaleciam na interpolação os pronomes objeto direto da 3ª pessoa, ao passo que os restantes possuíam uma distribuição mais equilibrada. Com base nesta observação, será estudada aincidência da interpolação do marcador negativo no surgimento do sistema contemporâneo dos clíticos. Oencerramento porá em ordem os resultados prévios, voltando acorroborar aanálise com os dados do corpus. Aparentemente, procurar uma análise aprofundada da interpolação de não no português clássico éuma tarefa oca eespoliada do valor logo à partida. Com efeito, segundo declara A.M.Martins (1994: 307–308), ao longo do período enfocado os dois modelos lineares alternavam entre si, dependendo apenas das preferências individuais de autores. Dito isto, parece que não resta muito para acrescentar. Como observam alguns estudiosos, apartir das variações com caráter individual não se deve depreender automaticamente que uma mudança gramatical está efetivamente adecorrer (Stark 2013: 149, 166–167). Assim sendo, em vez de anunciarem avinda de uma gramática dos clíticos inovadora, os séculos XVII aXIX apenas constituem uma fase
102 LINGUISTICA PRAGENSIA 1/2019 transitória na história da interpolação. Coube-lhe atuar como uma mera ponte entre duas gramáticas bastante diferentes relativamente ao modo como nelas costumava ser tratada ainterpolação. No entanto, alguns cálculos efetuados no corpus parecem prometedores, podendo esclarecer como se deu apassagem de uma colocação maioritariamente morfólogica dos clíticos pré-verbais no português clássico para aatual colocação pós-lexical. 2. ESBOÇO HISTÓRICO: ESTADO DA ARTE Numa etapa inicial, documentada logo desde oinício da tradição escrita portuguesa (Fiéis 2001: 198–199), qualquer constituinte sintático, independentemente da sua extensão, era capaz de ocorrer posposto ao pronome eanteposto ao verbo. Tão pouco houve restrições quanto ao número de itens interpolados, fazendo com que os textos contivessem com frequência interpolações múltiplas (Martins 2016b: 421). Éodenominado período da interpolação ‘generalizada’. Obviamente, foi naquela altura privilegiada ainserção do marcador da negação predicativa. Asua frequência superava ados demais constituintes interpolados, atingindo, entre os séculos XIII eXVI, taxas de incidência acima dos 90 por cento de todos os contextos possíveis (Martins 2016b: 422–423). Não obstante tamanha liberdade, ofuncionamento das sequências interpoladas não era completamente isento de restrições, obrigando os falantes acumprir alguns requisitos ligados ao encadeamento de várias expressões. Estas não eram colocadas simplesmente ao acaso. Na hipótese de uma série interpolada conter um sujeito, este sempre encabeçava asequência (Fiéis 2001: 205–207). Ao invés, no caso de ser nela incluído igualmente um não, este surgia sempre diretamente anteposto ao verbo, i.e. no fim da série (Raposo 2000: 278–279). Quanto aos mecanismos sintáticos que geravam tanta liberdade, oportuguês arcaico era, em medida muito superior àde hoje em dia, uma língua não-configuracional (veja-se Ledgeway 2012 pelas noções definitórias eexemplos latinos). Quer isto dizer, que nalguns agrupamentos sintáticos, raramente vigorava orequisito da contiguidade dos seus elementos. Apesar de serem hierarquicamente relacionados, estes elementos ocorriam de vez em quando àdistância, estando dispersos (ingl. scrambled; veja-se Costa eMartins 2010: 59–61) por vários loci dentro de uma frase. Da mesma forma, era variável oposicionamento mútuo dos componentes dos sintagmas formados por um termo sintaticamente subordinado eoseu subordinante. Assim se explica apresença dos complementos infinitivos antes da forma verbal conjugada, ou ainda dos predicados adjetivais antepostos à cópula verbal. À medida que ia se perdendo oparâmetro da localização à distância, começou arecuar concordantemente ainterpolação irrestrita. Oprocesso estendeu-se por vários séculos ajulgar pelas frequências decrescentes da interpolação nos textos portugueses dos séculos XIV aXVI. Apenas um item resistiu à erosão— omarcador da negação predicativa. Em consequência, por volta dos meados do século XVII, raras vezes se encontram os textos com outras expressões além do próprio não aseparar oclítico eoverbo. Costumavam, então, competir entre si duas gramáticas: aantiga onde oparâmetro de scrambling ainda tinha deixado alguns rastos, eamais moderna, na qual tal proprie-
MIKOłAJ NKOLLO 103 dade já tinha sido definitivamente extinta (Magro 2010b: 130). Assim surgiu avariação motivada por meras preferências individuais. Com efeito, ao serem analisados os dados do corpus, nenhuma linha divisória discrimina, sob oponto da vista da frequência da interpolação de não, os textos literários enão-literários, ou ainda os que pertencem ao polo distante ou ao polo próximo, conforme adicotomia proposta por Koch eOesterreicher (2011: 135, 148–152). Finalmente, ainterpolação moderna, documentada apartir dos anos trinta do século XIX, afasta-se das que se documentam nas fases anteriores do PE pelas propriedades seguintes: a) omarcador não deixa de ser aúnica expressão interpolada, ainda que mantenha asua posição dominadora comparativamente à frequência das demais expressões; b) ao contrário das interpolações que se verificam no português arcaico, ésemanticamente restrita. Tal como ocomprovam os estudos de C.Magro (2010a: 107–108), além do marcador da negação, apenas afetam acontiguidade do clítico edo verbo as expressões com um valor deítico. Pertencem ao conjunto os signos que transmitem informação acerca de pessoa, espaço, tempo, aspeto emodo. Além do mais, segundo se deduz dos dados dialetais, existem poucas restrições quanto à natureza morfólogica dos termos interpolados. Igualmente, voltaram aser admitidas as interpolações múltiplas. Relativamente aos mecanismos gramaticais que possibilitam oprocessamento acima descrito, trata-se de uma operação transpositiva pós-sintática cujo desfecho são reduplicações emetáteses, tomadas nesta ordem (Harris eHalle 2005: 199–201). Numa sequência como Se eu osoubesse, éativado oprocesso [copiar], que manipula ogrupo constituído por eu eo, dotados do traço [+ dependente], inerente aos pronomes argumentais. Assim se chega à Se eu oeu osoubesse. Numa segunda etapa, estão apagados os segmentos liminares, ou seja ‘oeu’, resultando na sequência Se oeu soubesse (veja-se Magro 2010b: 127–130 para mais pormenores). Écurioso ainterpolação contemporânea ter sido iniciada, segundo mostram os dados extraídos do corpus, nas obras literárias. Dali em diante, asua frequência ia diminuindo até atingir os valores que não ultrapassam amera fração do que representa atualmente aadjacência clítico-verbo. Entretanto, tem igualmente evoluído oseu perfil sociolinguístico. Sendo ainterpolação escassa na produção literária atual, éoportuguês dialetal que mais propicia as suas manifestações na linguagem falada (Magro 2010a: 106–107; Martins 2016b: 423). No que diz respeito aos julgamentos de aceitabilidade, apesar das divergências, amaioria dos péritos considera-anormativa (veja-se p.ex. Luís 2014: 223–224). Seja como for, ainterpolação continua aser um padrão linear minoritário, mas vivo no português contemporâneo. Resumindo, apesar de ainterpolação exclusiva do não se estender por quase duzentos anos, oseu estudo parece pouco convidativo. Opouco interesse por ela despertado relaciona-se com ofacto, assinalado por A.M.Martins que ‘não há nenhuma evolução aregistar’ (Martins 1994: 308). No entanto, no estudo que se segue, tentar-se-á identificar algumas áreas de interesse. Como éóbvio, uma prova suficientemente representativa de dados autênticos éum pré-requisito essencial para que tal objetivo possa ser alcançado.
104 LINGUISTICA PRAGENSIA 1/2019 3. OCORPUS EORECONHECIMENTO DOS CONTEXTOS PROPICIADORES DA INTERPOLAÇÃO Entram no corpus os dados recolhidos em 44 textos (tanto os textos integrais como os excertos contínuos) publicados entre 1614 e1858. Agrupam-se dentro desse material vários tamanhos, géneros literários (exceta apoesia) etendências estilísticas. Além do mais, procurou-se obter uma prova suficientemente diversificada no que diz respeito aos graus de formalidade edestinatários (coletivos vs. individuais, anónimos vs.conhecidos de antemão). Finalmente, segundo se pode deduzir do teor das obras recolhidas edo requinte gramatical elexical delas, os autores opõem-se pelo grau de educação, representando variadíssimos níveis do domínio da língua portuguesa. Só faz falta um dos parâmetros habitualmente tidos em conta na linguística variacionista. Por escassearem na BND os textos escritos por mulheres no período aqui discutido, não foi possível inclui-los no corpus. Apesar de algumas das obras serem anónimas, nada faz presumir aautoria feminina delas (veja-se p.ex. Donaldson 2014: 334–338, para um estudo de como as distinções nesse aspeto podem repercutir-se na gramática). Além do mais, entre os textos do século XVII só foram selecionados os que representam afase transicional, isto é, aqueles em que ainterpolação se realiza somente por meio de não2. Ototal das ocorrências de pronomes clíticos, em qualquer configuração, nos textos que se estendem por 243 anos do nosso corpus atinge as 13.708 incidências. Uma vez que nas obras disponíveis na BND não foi possível efetuar uma pesquisa automática, todas as ocorrências foram extraídas eanotadas manualmente. Em suma, foram identificados 784 contextos propiciadores da interpolação, abrangendo aproximadamente 5.72 por cento da totalidade dos casos. Formam esse conjunto, não apenas as sequências (desencadeador)-não-cl-verbo e(desencadeador)-cl-não-verbo, mas também os casos da ênclise. Tal se verifica no caso onde opronome segue uma combinação formada por um verbo conjugado euma forma infinita aele posposta (séries multiverbais ou predicados complexos; cf. Luís eKaiser 2016: 217–218). Significa isto que oescopo do fenómeno ultrapassa omero domínio pré-verbal. Os resultados encontram-se resumidos no quadro 1 abaixo, indicando um marcado desequilíbrio entre oséculo XVII eos séculos subsequentes no que diz respeito à frequência da interpolação de não. 2 Apenas um texto, relativamente tardio (1650), afasta-se do dito critério: acrónica de Bento Teixeira (http: // purl.pt/28100). Adecisão de inclui-la no corpus explica-se pelos seguintes motivos: não existem interpolações múltiplas, registam-se apenas duas exceções no que diz respeito aos itens interpolados (os advérbios bem emelhor; cf. …, tomando oq lhe melhor pareceo com grande feſta; p.48). Além do mais, em numerosas obras publicadas com antecedência no decorrer do século XVII, não éjá aúnica expressão aocorrer interpolada. Nessas circunstâncias, mais do que representar uma gramática antiquada (com oparâmetro scrambling ativo), Teixeira pôde tentar matizar oseu texto, conferindo-lhe assim um ar arcaizante. Com efeito, os dois exemplos da estrutura caída em desuso parecem estranhos no interior de sequências mais modernas, onde só não separa oclítico eoverbo.
MIKOłAJ NKOLLO 105 sequências com clíticos contextos propiciadores da interpolação não-adjacência vs. adjacência clítico-verbo frequência do padrão cl-não-verb (percentagem) Séc. XVII (13textos) 4.130 287 246:41 85,71% Séc. XVIII (15textos) 5.317 276 192:84 69,56% Séc. XIX (16textos) 4.261 221 142:79 64,25% Total (44textos) 13.708 784 580:204 73,97% Quadro 1.Distribuição cronológica da interpolação de não eda adjacência clítico-verbo Atomada em conta da sequência com aênclise ao infinitivo justifica-se pela sua equivalência semântica à de dois modelos em que opronome se coloca à esquerda do verbo, ou seja: (a) cl-não-Vfin-Vinf , (b) não-cl-Vfin-Vinf e(c) não-Vfin-Vinf-cl. Comprovam asinonímia dos três padrões os exemplos abaixo, em que os infinitivos acompanham um só verbo conjugado, hierarquicamente superior ao infinitivo. Tecnicamente, opadrão (c) deve-se à falta da subida do clítico. Entende-se por esta última aextração do pronome hospedado na oração infinitiva (sendo ela oseu lugar primário, pelo facto de oclítico representar um dos argumentos do infinitivo). Uma vez extraído, opronome passa para junto de um verbo finito que introduz oinfinitivo atítulo do seu complemento (Martins 2000: 169–171; Anderson 2005: 245–247). Aênclise ao verbo não finito éum padrão linear em crescimento só apartir do Português Médio, tendo sido practicamente inexistente nos textos da fase mais arcaica (Martins 2016a: 19–20). Relativamente aos contextos propiciadores da interpolação registados no nosso corpus, asubida do clítico já se verifica com pouca frequência (24 ocorrências), sendo aênclise ao infinitivo acentuadamente maioritária (49 ocorrências). (1a) Eaque teue, hauer ſido ſomente de alguns particulares, perſuadidos com grandes merces, q ſem eſtarem em Cortes, anão podiaõ dar, & aſentença, q deſpois alcançou, … (1641. Assento feito em cortes pelos tres estados dos Reynos de Portugal; pág.20)3 (1b) Mas oſegundo, fallando por ſi meſmo nos triſtes, admira, que naõ opudeſſemos julgar penalizado … (1785. José Anastácio da Silva eFonseca. Conclusões de rhetorica, epoetica. Cap. VII; pág. 8)4 (1c) Segundo os Rabbinos temos no fim do eſpinhaço hum oſſo, que naõ pode ofogo conſumillo, nem força alguma quebrallo (Pedro Norberto de Aucourt e Padilha 1759. Raridades da natureza, eda arte, … Parte VII.§.VIII. Amianto, eoutros corpos incombuſtiveis; pág. 500)5 3 http: // purl.pt/12093 [17/10/2018]. 4 http: // purl.pt/16610 [15/10/2018]. 5 http: // purl.pt/13915 [20/10/2018].
106 LINGUISTICA PRAGENSIA 1/2019 Fica por esclarecer arazão pela qual omarcador negativo tem sido interpolado com tanta persistência ao longo da história do PE. Foi inúmeras vezes sublinhada aimportância da negação para acompreensão do significado integral do enunciado. Quando anegação passa despercebida, acompreensão torna-se completamente errada (Dryer 1988: 99, 102). Ao contrário do cálculo das proposições no qual omarcador tem no seu escopo afrase inteira, nas línguas naturais os sujeitos raramente são afetados (Zanuttini 2001: 511). Em vez deles, são as combinações verbo-objeto que se encontram no escopo do marcador (negação predicativa). Ograu de interligação destes dois constituintes ultrapassa oque une as demais expressões ao verbo. De facto, enquanto marcador de negação predicativa, não forma com overbo (ou com oauxiliar nas formas compostas) um agrupamento sintático que não pode ser fragmentado. Aplica-se aos seus elementos anoção de c-comando, isto é, uma relação entre duas unidades, das quais nenhuma domina aoutra, sendo ambas imediatamente dominadas por uma só categoria superior (Matos 1999: 186–187; Matos 2003: 774–776). Do mesmo modo, nos esquemas de índole minimalista, não eleva-se eacaba adjunto ao mesmo nó em que se agrupam as caraterísticas flexivas do verbo (tempo-aspeto-modo). Assim, ambos os constituintes passam aformar uma unidade não apenas sintática, mas também linear, mesmo adespeito da presença de um pronome átono (‘[the domain of negation] includes the elements the negative marker incorporates into and c-commands, but excludes the subject and the other preverbal constituents’). Nesta perspetiva, ainterpolação teria sido oresultado da incorporação do marcador na negação no verbo, devendo oprocesso ocorrer antes do Spell-Out (Matos 1999: 186). Além do mais, os estudos tipológicos do sequenciamento das unidades sintáticas demonstram que aquelas que são semanticamente próximas tendem aocorrer justapostas (éafaceta semântica do conceito de configuracionalidade; veja-se Ledgeway 2012). Assim, não eaforma verbal adjacente teriam melhor retratada aideia de ofalante pretender referir-se aum só facto. Esta união semântica era capaz de fazer com que os falantes resistissem menos atransgredir orequisito da adjacência do clítico ao verbo. 4. INTERPOLAÇÃO FORA DOS CONTEXTOS DA PRÓCLISE OBRIGATÓRIA Como em cima foi aludido, os dados provenientes do corpus não condizem com algumas afirmações prévias, reiteradas em várias obras dedicadas ao assunto. Trata-se do requisito imposto às frases com ainterpolação: esta só se verifica na condição de oclítico ser precedido por uma expressão (chamada exordium) que obrigue aantepô- -lo (veja-se por exemplo Hinzelin 2010: 332 ‘L’exordium est un élément introducteur tel que le complémenteur, pronom relatif, pronom interrogatif, etc. dont la présence s’impose pour que l’interpolation soit admise’; cf. igualmente Magro 2010a: 109). Daqui depreende-se que oclítico não ocorre separado do verbo se oexordium está ausente, ou seja, não existe interpolação não desencadeada. Aliás, os contextos propiciadores da interpolação de não são iguais aos contextos de próclise obrigatória, com uma notável exceção: sendo omarcador negativo ele próprio diretamente anteposto ao verbo, os pronomes clíticos não se encontram no seu escopo.
MIKOłAJ NKOLLO 107 Estas declarações têm uma certa fundamentação observacional na medida em que se baseiam no seguinte raciocínio: por serem ambos os padrões lineares, adjacência enão-adjacência, mutuamente substituíveis, epor ser apróclise no PE forçosamente desencadeada (Duarte eMatos 2000: 117–121, 135–137; NB. os contextos da próclise obrigatória mantiveram-se praticamente intactos ao longo da história do PE), ainterpolação deve partilhar esta propriedade com ela. Uma das vantagens que estas afirmações oferecem éassinalar que évedada apresença dos clíticos na posição inicial absoluta de uma frase. Bloqueia-aopróprio exordium (cf. Ainda lhes não telefonei vs. *Lhes não ainda telefonei / *Lhes ainda não telefonei). Odefeito dessas propostas consiste numa projeção irrefletida dos traços gramaticais contemporâneos sobre as fases históricas da sintaxe pronominal portuguesa. Ao contrário do PE atual, em que apróclise não pode ser senão desencadeada, no português clássico verificavam-se quatro desvios desta regra. Em todos eles imperava avariação livre: próclise vs. ênclise (Martins 2016b: 416), ao passo que atualmente vigora neles aênclise. Ao longo do período discutido, apróclise prevalecia naqueles contextos, enquanto aênclise só lentamente ia abrindo oseu caminho. Em nenhum dos exemplos abaixo há desencadeador de próclise. (I) orações raiz encabeçadas por um verbo (V1) com uma subordinada anteposta (2a) Vindo às couſas particulares, fizeramſe eſte anno tres miſſoens … (1660. António Vieira. Copia de hvma carta para ElRey N.Senhor; pág. 4)6 (2b) …, edepoys de examinados, & julgados por legitimamente catiuos, os recebẽ … (1660. António Vieira. Copia de hvma carta para ElRey N.Senhor; pág. 5)7 (II) orações raiz V1, introduzidas pelas conjunções coordenativas e, mas, pois (Hinzelin 2007: 32–33, 35) (3a) Eſta doutrina he tranfcendente por todas as partes do Diſcurſo á proporção; mas recommenda-ſe muito mais nos Exordios, … (1785. José Anastácio da Silva eFonseca. Conclusões de rhetorica, epoetica §.XI; pág. 12)8 (3b) Receberão suas communicações, eas transmitirão … (1823. Luís da Silva Mousinho de Albuquerque. Ideas sobre oestabelecimento da instrucção publica; pág.34–35)9 (III) deslocação à esquerda clítica (CLLD) (4a) …: quanto aos mais, se lhes juntárão á hora da partida, … (1834. Horrosa mortandade, … Relação das pessoas; pág. 20)10 6 http: // purl.pt/16556 [20/10/2018]. 7 http: // purl.pt/16556 [20/10/2018]. 8 http: // purl.pt/16610 [17/10/2018]. 9 http: // purl.pt/6412 [19/10/2018]. 10 http: // purl.pt/31011 [13/10/2018].
108 LINGUISTICA PRAGENSIA 1/2019 (4b) Esta doutrina, posto que tenha vantagens no presente, reputo-asobretudo importante pelo seu alcance, … (1858. Alexandre Herculano, Carta aos leitores …, pág.3)11 (IV) orações raiz com um sujeito pré-verbal abertamente expresso (5a) Os primeiros habitantes do orbe terreste cobriram-se com as folhas das arvores … (Ocorreio das damas, … Janeiro 1836 n. 1; pág. 3, col. 2)12 (5b) … os guardas destes oaprehenderam, ecarregando-ode ferros, oconduziram ápresença do tyranno. (Ocorreio das damas, … Janeiro 1836 n. 1; pág. 6, col. 2)13 Impõe-se mais uma restrição sobre oúltimo modelo acima assinalado: aênclise eapróclise variam na condição de osujeito não estar no escopo de um quantificador, pois este éum desencadeador. Além disso, avariação dá-se independentemente da forma como os sujeitos estão realizados (nomes próprios vs. comuns) ou do seu grau de definitude (definidos vs. indefinidos)14. Éprecisamente nessas configurações onde, após ainserção do marcador da negação predicativa, competem entre si aadjacência clítico-verbo eainterpolação. Em suma, foram totalizados vinte etrês exemplos da interpolação fora dos contextos da próclise obrigatória, repartindo-se da forma como nos indica oquadro 2.Abaixo do quadro, seguem-se os exemplos Orações raiz com omarcador negativo pré-verbal número de interpolações não-desencadeadas Com uma subordinada anteposta 9 Introduzidas por uma conjunção coordenativa 2 Deslocação à esquerda clítica 3 Com um sujeito pré-verbal abertamente expresso 9 Total 23 Quadro 2.Interpolação de não fora dos contextos da próclise obrigatória no PE clássico ena primeira metade do século XIX (6a) … ſe achárão ao amanhecer atiro de canhão de Campo Mayor, & ſendo ſentidos pelas guardas inimigas, ainda que lhes atirárão, os não ſeguirão, com que puderão 11 http: // purl.pt/1682 [13/10/2018]. 12 http: // purl.pt/14346 [17/10/2018]. 13 http: // purl.pt/14346 [17/10/2018]. 14 No entanto, surgem algumas dúvidas quanto às sequências encabeçadas por pronomes sujeitos. Nas variedades ibero-românicas os pronomes sujeitos tendem ainserir-se na posição pré-verbal com ointuito de assinalar ofoco estreito (contrastivo; Gupton 2014: 141), oqual igualmente desencadeia apróclise (Duarte eMatos 2000: 117–119). Ao que parece, no português clássico, nas frases iniciadas por um pronome-sujeito, apróclise podia ser obrigatória, isto pelo menos nalguns casos (veja-se igualmente Vigário 2003: 54–55).
MIKOłAJ NKOLLO 115 (13b) …; eeu tambem oachey nos Athlas, eno correcto Diccionario de Evignè na palavra Tartaria, … (1759. Raridades da natureza, eda arte, … Parte ITerra §.XXXV. Plantas viventes; pág. 247)33 As alternâncias quem o/ quem no, não o/ nãono, nemno / nem ointerpretam-se como odesfecho da atuação de muitas regras contraditórias. Além dos fatores fonológicos, também incidiu no processamento destas combinações oconhecimento das alterações que afetam os pronomes objeto direto na posição pós-verbal. Parece ter-se manifestado avontade, motivada pelo comportamento dos demais pronomes, de conferir uma forma igual aos clíticos independentemente da sua colocação relativamente ao verbo. Por falta de um método estável no processamento da configuração não— clítico da 3ªpessoa (aprendizagem maquinal, analogia, intuição), coexistiam realizações divergentes dos clíticos pré-verbais. Ainterpolação consiste na interversão da ordem das sílabas que formam as sequências acima discutidas. No que respeita aos pronomes complemento direto da 3ªpessoa, os falantes ganharam deste modo apossibilidade de se descartar das combinações problemáticas. Uma vez eliminados os encadeamentos [nɐ w u] e[nɐ w nu], deixou de se colocar aquestão da forma que se havia de conferir ao clítico. Éaexplicação da sobre-representação dos objetos diretos da 3ª pessoa na interpolação. Esta praticava-se inclusive em detrimento do parâmetro da adjacência clítico-verbo. Ao mesmo tempo, não era à toa que os demais pronomes costumavam associar-se com menos frequência aeste padrão linear. Por nenhum deles apresentar um ataque vazio, asua composição silábica não permitia que sofressem alterações. Ao longo da história do PE, aforma dos restantes pronomes (exceta adivergência lhe elhes, tendo oprimeiro sido usado igualmente com ovalor do plural; Martins 2016a: 13–14) manteve-se inalterada tanto na próclise como na ênclise. Além disso, vieram acrescentar-se atodos estes fatores as propriedades semânticas peculiares do marcador da negação predicativa. Opresente estudo não pretende ficar neutro perante como atuava atendência de se evitar aalomorfia dos clíticos pré-verbais. Ahipótese aqui defendida éque orecuo da alomorfia teve um caráter incidental. Por ambas as estruturas— onão enão o(não no)— não ocorrerem simultaneamente num só contexto propiciador, apresença de uma delas obstava automaticamente ao uso da outra. Parecem confirmar-se neste ponto algumas teorias de mudança gramatical (usage-based theories of grammatical change; veja-se p.ex. Bybee 2011: 69–71), onde aessência do processo consiste no cúmulo dos usos de uma estrutura inovadora. Uma vez que se ultrapassa um número crítico de ocorrências de uma estrutura em progressão, enraíza-se uma mudança duradoura (“observable manifestation of grammar innovations in speech”; Andersen 2001: 225). Aevolução que assim decorre não implica que os falantes atuem de forma premeditada. Assim sendo, adiminuição do número dos casos da inserção do [n] em ataque nos pronomes pré-verbais éomero efeito secundário da popularidade da interpolação de não nas sequências com os clíticos objeto direto da 3ª pessoa. Cada uma das sequências atestadas no português clássico eno início da fase moderna, isto éque onão viu, que não no viu eque não oviu representa adominância de 33 http: // purl.pt/13915 [17/10/2018].
116 LINGUISTICA PRAGENSIA 1/2019 um outro parâmetro organizador da gramática dos clíticos. Como já aludido, avariação deve-se ao facto de estes parâmetros não terem podido ser satisfatoriamente aplicados em simultâneo. Procurando alcançar os seus objetivos comunicativos, os falantes ora privilegiavam um dos parâmetros, ora outros, sempre em detrimento dos restantes. Eis arede Parâmetro dominador Arealização das sequências com opronome objeto direto da 3ª pessoa Realizações prée pós-verbais do pronome iguais em contextos fonéticos iguais Adjacência clítico-verbo Colocação pós-lexical (excluindo aalomorfia) dos clíticos pré-verbais; forma homogénea do clítico na posição pré-verbal (desencadeador)— não— clítico— verbo (com alomorfia do clítico) + + – (desencadeador)— não— clítico— verbo (sem alomorfia) – + + (desencadeador)— clítico— não— verbo (interpolação) – – + Quadro 5.Relação dos três padrões lineares com referência aos parâmetros organizadores da colocação dos clíticos no PE 6. OBSERVAÇÕES DE ENCERRAMENTO Oraciocínio acima exposto tem uma índole funcionalista na medida em que aalgumas mudanças gramaticais se atribui uma finalidade— certas reestruturações que afetam agramática são julgadas úteis para um processamento menos dificultoso da linguagem. Praticando-as, os falantes obviam às dificuldades ocasionadas por uma composição gramatical concorrente. No entanto, isto não quer dizer que oprocesso decorreu de forma premeditada. Assim sendo, ainterpolação não deve ser considerada um método especialmente elaborado visando afastar as dúvidas quanto à forma como se devem revestir os proclíticos. Segundo sugerem os dados recolhidos no corpus, mais do que representar etapas sucessivas, ambas as realizações— onão enão no— coexistiam, assumindo as suas funções específicas. Consoante ométodo do processamento que lhes parecesse preferível, os participantes num ato comunicativo ora privilegiavam um dos padrões, ora oseu concorrente. Avariante ‘não no’ satisfaizia orequisito de um processamento igual dos pronomes independentemente da sua posição relativamente ao verbo. Em contextos fonéticos idênticos, opronome revestia-se de uma só forma, adquirindo um ataque nasal no caso de lhe anteceder um ditongo nasal (veja-se igualmente oconceito de ‘uniqueness of realization’; Thornton 2011: 360–361). Além do mais, aalo-
MIKOłAJ NKOLLO 117 morfia do pronome pré-verbal condisse com oparâmetro de adjacência do clítico ao verbo (14a) Asenhora Beatriz dá uma volta, suspira alto eelucida-me: ninguém ensina à gente; umas há que têm esse condão eoutras que não no têm (1956. Irene Lisboa, OPouco eoMuito: Crónica Urbana).34 (14b) Viram-na Pelo contrário, adeslocação do pronome para diante do marcador da negação acabou com aintegridade da combinação clítico-verbo. Deu-se assim um passo essencial para uma colocação exclusivamente pós-lexical dos proclíticos (Gerlach 2002: 61–63). Além do mais, sendo vedada ainserção do ataque nasal nas sequências onão, anão, etc. deixaram de ser mantidos os laços que uniam opronome com alguns dos descencadeadores. Tal sequenciamento representa igualmente um ganho comunicativo. Ao processarem os pronomes pré-verbais, os falantes encontram-se dispensados de acertar nas expressões propiciadoras da alomorfia do pronome da 3ª pessoa. Como ésabido, aseleção das expressões capazes de ainduzir foi uma questão delicada. Não bastava fiar-se na estrutura silábica dos desencadeadores. Ao lado dela, importava igualmente asua categoria sintática, sendo oacréscimo do [n] excluído na vizinhança das preposições eadvérbios (bem, também, sem). Mesmo assim, aalomorfia nunca foi sistemática aseguir anão, nem, quem. Ainterpolação de não, praticada sobretudo nas sequências com o, a, os, as, pôs fim atanta complexidade. Falta ainda verificar quais os desfechos quantitativos da evolução acima retratada no português moderno. Os resultados baseiam-se mais uma vez nos dados extraídos do corpus. Com esse intuito, foi pesquisado oacervo do corpusdoportugues.org. Asua versão presentemente acessível apenas abrange os séculos XIX eXX (osubcorpus ‘Genre / Historical’). Cronologicamente, esta faixa corresponde à interpolação moderna com asua forte propensão para privilegiar as expressões deíticas. No que respeita à inserção do ataque nasal aos pronomes objeto direto, osubcorpus ‘Web / Dialect’ não oferece exemplo algum. Foram incluídos na busca dois lexemas— quem enão. Numa primeira etapa, procuraram-se as variantes alomórficas. Das oito configurações possíveis (quem no, quem na, quem nos, quem nas enão no, não na, não nos, não nas), só seis foram tidas em consideração. Quem nos enão nos foram deixados fora da análise devido à ubíqua homonímia com opronome da 1ª pessoa do plural. Como seria de esperar, apesar de realizável, aseleção foi demasiadamente custosa em proporção com oresultado esperado. Apesquisa conduzida no subcorpus ‘Genre / Historical’ deu 28 resultados (quem no— 6, quem na— 3, quem nas— 5, não no— 5, não na— 5, não nas— 4). Todos eles foram descobertos na secção ‘Fict’, destinada aacolher aprodução literária. Em contraponto, não se conseguiram exemplos nas demais secções (‘oral’, ‘acad’ e‘news’, que só incluem os dados do século XX). Os resultados são indicadores do perfil sociolinguístico ediafásico da alomorfia pré-verbal dos pronomes. Éinteressante ofacto de dominarem os exemplos da segunda metade do século XX, oque comprova asobrevivência 34 https: // www.corpusdoportugues.org/hist-gen [14/10/2018].
118 LINGUISTICA PRAGENSIA 1/2019 residual do fenómeno. No entanto, uma análise mais pormenorizada demonstra que todas as ocorrências provêm das obras literárias, sendo na maioria dos casos localizadas nos diálogos ou nas cenas que, de outra forma, pretendem imitar acomunicação oral. Apresença das variantes alomórficas naqueles contextos parece, um tanto ou quanto, surpreendente, visto que asecção ‘oral’ não oferece ilustração alguma. Está aqui atratar-se, porventura, das tentativas dos autores de reconstruir odecurso das conversas da ‘vida real’. Seja como for, ainserção do ataque nasal no pronome objeto direto não éum padrão completamente extinto. (15) Pobrezinha, anda sem ter quem na aconselhe (1921. Júlio Dantas, Os Galos de Apollo)35 Numa segunda etapa, foram procuradas as realizações ditas ‘normais’. Obviamente, ultrapassam muitas vezes apresença das variantes alomórficas. As sequências nãoo, quem o, etc. estão presentes em todas as secções, estendendo-se assim por todos os registos, graus de formalidade etipos de contexto. Desta forma, asua presença não se restringe ao subcorpus ‘Genre / Historical’, tendo igualmente um grande número de incidências no subcorpus ‘Web / Dialects’. Édifícil totalizar onúmero global das ocorrências. Por exemplo, 482 resultados foram obtidos para asequência não a(unicamente pronome) apenas no subcorpus ‘Genre / Historical’. Adicionalmente, abusca foi limitada ao século XX. Este desequilíbrio estatístico deve-se, entre outros, à interpolação que tanto afetou os clíticos o, a, os, as no português clássico. REFERÊNCIAS 35 https: // archive.org/details/osgalosdeapollo00dant [14/10/2018]. Andersen, H. (2001) Actualization and the (uni)directionality of change. In: Andersen, H. (ed.) Actualization. Linguistic Change in Progress. Papers from aworkshop held at the 14th International Conference on Historical Linguistics, Vancouver, B.C., 14 August 1999, 225–248. Amsterdam-Philadelphia: John Benjamins. Anderson, S. (2005) Aspects of the Theory of Clitics. Oxford: Oxford University Press. Arteaga, D. (2009) On the existence of null complementizers in Old French. In: Masullo, P.J., E.O’Rourke, eCh-H. Huang (eds) Romance linguistics 2007: Selected Papers from the 37th Linguistic Symposium on Romance Languages (LSRL), Pittsburgh, 15–18 March 20017, 19–36. Amsterdam-Philadelphia: John Benjamins. Bybee, J. (2011) Usage-based Theory and Grammaticalization In: Narrog, H. eB.Heine (eds) The Oxford Handbook of Grammaticalization, 69–78. Oxford: Oxford University Press. Castro, I. (2006) Introdução à história do português (2nd ed). Lisboa: Edições Colibri. Costa, J. eA.M.Martins (2010) Middle scrambling with deictic locatives in European Portuguese. In: Bok-Bennema, R., B.KampersManhe eB.Hollebrandse (eds) Romance Languages and Linguistic Theory 2008. Selected papers from ‘Going Romance’ Groningen 2008, 59–76. Amsterdam-Philadelphia: John Benjamins. de Andrade, A. (2018) Aspecial type of left dislocation in Galician and Portuguese: the
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