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REAd – Edição 60, Vol 14, N° 2 mai-ago 2008 COMPETITIVIDADE NA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO: UMA AVALIAÇÃO A PARTIR DA PERSPECTIVA DAS REDES DE EMPRESAS AGLOMERADAS TERRITORIALMENTE 1 Valmir Emil Hoffmann 2 E-mail: [email protected] Balneário Camboriú/SC/ Brasil F. Xavier Molina-Morales 3 Castellón Espanha E-mail: [email protected] UJI - Campus Riu Sec/Castellón/Espanha M. Teresa Martínez-Fernandez 4 E-mail: [email protected] UJI - Campus Riu Sec/Castellón/Espanha 1 Os autores agradecem aos revisores anônimos da REAd por suas contribuições na apresentação desta versão final. Os autores agradecem também à Fundação de Apoio à Pesquisa Científica e Tecnológica do Estado de Santa Catarina – FAPESC, pelo apoio material na execução do trabalho de campo, através do Edital Universal. 2 Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI Programa de Pós-Graduação em Administração e Turismo 5a. Avenida, s/n 88370-300 Balneário Camboriú/SC – BRASIL 3 Universitat Jaume I Facultad de Ciencias Económicas y Empresariales Campus Riu Sec Castellón – ESPAÑA 4 Universitat Jaume I Facultad de Ciencias Económicas y Empresariales Campus Riu Sec Castellón – ESPAÑA RESUMO O campo da organização industrial envolve o estudo de como a indústria está organizada e por quê. Essa organização se dá dentro de um continuum, onde de um lado existe a possibilidade de verticalizar o processo, através de uma organização hierárquica e, de outro, de adquirir os insumos no mercado, em uma relação de demanda e oferta. Formas alternativas a essas configurações têm sido discutidas na literatura, como é o caso das redes de empresas. O objetivo deste trabalho é avaliar a competitividade a partir da disponibilidade de recursos por parte de redes de empresas aglomeradas territorialmente. Foram tomados como recursos estratégicos, presentes em uma rede do tipo distrito industrial, a transferência de conhecimento entre as empresas, o papel das instituições de suporte industrial e a existência de relações sociais. Foram aplicados questionários aos dirigentes de empresas da indústria do
COMPETITIVIDADE NA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO: UMA AVALIAÇÃO A PARTIR DA PERSPECTIVA DAS REDES DE EMPRESAS AGLOMERADAS TERRITORIALMENTE REAd – Edição 60, Vol 14, N° 2 mai-ago 2008 vestuário e os dados foram tratados com estatística descritiva, testes de correlação e de comparação entre médias. Os resultados do estudo empírico apontam que se pode afirmar apenas parcialmente que as empresas aglomeradas territorialmente em uma rede do tipo distrito industrial têm disponibilidade de recursos estratégicos que geram competitividade superior àquelas dispersas geograficamente e que esses recursos se reportam às instituições de suporte industrial e ao relacionamento sociocultural. Palavras-chaves: Competitividade; redes interorganizacionais; distrito industrial; aglomerações territoriais; transferência de conhecimento. ABSTRACT The field of industrial organization involves the study of as the industry is organized and the reason. This organization takes place inside of a continuum, where on the one hand, there is possibility to turn vertical the process, through a hierarchic organization and, on the other one, to acquire the inputs in the market, in a demand and offer relationship. Alternative forms to this configuration have been discussed in literature, as it is the case of the firm networks. This article presents a work inside of this context that explores the idea that in a firm network there are strategic resources which make possible the creation of competitive advantage for its members. The knowledge transfer among the firms, the role of the institutions of industrial support and the existence of social relationships was taken as present strategic resources in a firm network of industrial district kind. The results of the empiric research carried with clothes manufacturer companies point to the hypotheses concerning the resources could be partially accepted, since the most present resource in the studied firm network is the institutions of industrial support and its services. Key-words: Competitiveness; inter-organizational networks; industrial district; clusters; knowledge transferring. INTRODUÇÃO O campo da organização industrial envolve o estudo de como a indústria está organizada e por quê. Mariti; Smiley (1983); Williamson (1991); e Ring; Van de Ven (1992) trataram desse tema desenvolvendo a idéia de um continuum de múltiplas formas de organização. Para esses autores, em uma extremidade do continuum está a organização de mercado, onde as relações se dão puramente pela competição, ou seja, através de vínculos pautados pela queda de braço entre as partes. Na outra extremidade está a hierarquia, que suscita vínculos de poder, onde uma parte depende de outra, e tem pouca margem para decisão. O ponto intermediário é formado por vários tipos de organização, como as joint ventures, as franquias, e até os contratos informais (MARITI; SMILEY, 1983; WILLIAMSON 1991; RING; VAN DE VEN, 1992).
Valmir Emil Hoffmann, F. Xavier Molina-Morales & M. Teresa Martínez-Fernandez REAd – Edição 60, Vol 14, N° 2 mai-ago 2008 Refletindo sobre esse continuum, pode-se incorporar no ponto médio as redes de empresas, que igualmente são estruturas entre o mercado e a hierarquia (THORELLI, 1986). Se as empresas se organizam em redes, certamente terão algum tipo de incentivo para fazê-lo. Com um enfoque voltado à competitividade, pode-se entender que, agindo dessa maneira, as empresas teriam alguma fonte de vantagem competitiva, ou atributo (COYNE, 1986), que as diferenciariam das demais. Para avaliar a competitividade, parece ser necessária a aplicação de modelos teóricos, que consigam explicá-la, através do levantamento desses atributos. Assim, parece ser importante medir a competitividade. Alguns modelos aceitos para avaliação da competitividade da empresa (PORTER, 1980); de nações (PORTER, 1991); ou mesmo de setores específicos (DWYER e KIM, 2003), estão disponíveis. No entanto, ainda fica descoberta a avaliação de competitividade de redes de empresas aglomeradas territorialmente. Poderia simplificar-se a questão, com uma avaliação em termos de desempenho do conjunto das empresas. Certamente isso teria sua validade, desde um ponto de vista econômico e/ou contábil. Mas, essa seria uma avaliação ex post facto, e dependeria, ao menos em parte, da acuracidade com que essas informações fossem levantadas. Neste trabalho, propõe-se utilizar a Visão Baseada em Recursos – VBR (RBV – do inglês Resource-Based View) para explicar a competitividade de uma rede de empresas. O uso dessa abordagem tem sido discutido na academia com diferentes enfoques, mas sobretudo, apontando as fontes de vantagem competitiva da empresa, que sejam endógenas. Diferente do proposto por Porter (1980), a Abordagem de Recursos ressalta que a empresa obtém vantagens por meio da posse ou acesso de recursos estratégicos (BARNEY, 1991). No caso de uma rede, esses recursos são gerados pela rede e estão à sua disposição. Um dos limites dessa abordagem que foi apontada por Grant (1991) e também por Fernández; Suárez (1996) é a dificuldade de operacionalizá-lo, uma vez que isso demanda medidas objetivas e generalizáveis dos recursos. Este trabalho procura contribuir com essa limitação, propondo a avaliação a partir de um conjunto de recursos que podem ser medidos e cuja aplicação pode ser testada em contextos de redes aglomeradas. Para efeito desta análise, concentra-se nos distritos industriais (DI), que são um tipo de rede de empresas (HANSEN, 1991) que apresenta algumas particularidades frente a outros tipos, principalmente o fato de estar aglomerado territorialmente. A indústria têxtil, notadamente o setor de confecções - objeto desse trabalho, tem seu relevo no contexto econômico nacional não só pelo intenso emprego de mão-de-obra e,
COMPETITIVIDADE NA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO: UMA AVALIAÇÃO A PARTIR DA PERSPECTIVA DAS REDES DE EMPRESAS AGLOMERADAS TERRITORIALMENTE REAd – Edição 60, Vol 14, N° 2 mai-ago 2008 portanto, como geradora de postos de trabalho, como também por proporcionar o contato direto com o consumidor, indicando suas preferências em termos de tecidos, cortes e acabamentos (IEL, CNA, SEBRAE, 2000). O objetivo do trabalho é avaliar a competitividade a partir da disponibilidade de recursos por parte de redes de empresas aglomeradas territorialmente. Especificamente, verifica-se a distribuição dos recursos e também a transferência de conhecimento entre as empresas presentes no distrito industrial; identifica-se a importância das instituições de suporte empresarial presentes no distrito industrial; e, averigua-se a intensidade das relações entre as empresas. A partir disso, elaboram-se hipóteses teóricas que são contrastadas com um estudo empírico realizado com empresas do vestuário, aglomeradas territorialmente ou não. Apresentam-se os resultados e por fim as conclusões e limites do trabalho. Distritos industriais e disponibilidade de recursos compartilhados A partir dos anos sessenta do século passado, vários estudos trataram de explicar o desempenho superior de uma região italiana, em um contexto de recessão nacional. Na década seguinte, uma série de pesquisadores italianos (BECATTINI, 1979; BRUSCO, 1982), para elucidar o fenômeno econômico da Emília Romanha, resgataram os escritos de Marshall (1925) sobre as aglomerações de manufatura, que o autor havia denominado de distrito industrial. Para Marshall (1925), naqueles distritos, havia uma atmosfera industrial que permitia a criação e desenvolvimento de novos negócios a partir das empresas já existentes. Fato semelhante era encontrado na Itália, visto que a indústria local era formada por pequenas empresas especializadas, que, através de sua interação, atingiam altos níveis de eficiência produtiva. Essa produtividade era o que permitia o crescimento local. No entanto, tal como descreveram os italianos então, os distritos industriais decorriam de uma complexidade histórica irrepetível e, portanto, sem condição de generalização. Contudo, Zeitlin (1993, p.366) apontou que a evolução de estudos em outras regiões redundou na descoberta de distritos industriais em outros países, o que evolucionou o conceito, tornando-o “mais tênue e aberto” [grifado no original]. Superada essa fase de ortodoxia, os distritos industriais começaram a ser pesquisados de maneira mais ampla, ainda que o viés tivesse se voltado mais à descrição de Porter (1991), e à imprecisão de seu modelo, que ao trabalho de Marshall (1925).
Valmir Emil Hoffmann, F. Xavier Molina-Morales & M. Teresa Martínez-Fernandez REAd – Edição 60, Vol 14, N° 2 mai-ago 2008 A imprecisão referida no texto de Porter (1991) se dá pela condicionante que o autor utiliza. Ao descrever a aglomeração (ou cluster), o autor aponta uma série de características e agentes que podem ou não estar presentes. Seu texto permite que qualquer tipo de aglomeração seja intitulada cluster e, mesmo uma rede não aglomerada territorialmente, igualmente possa ser chamada de cluster, ainda que conceitualmente essa palavra signifique aglomeração. No Brasil, parece ser que as publicações acabaram centrando nas reflexões de Porter (1991). Casarotto Fo.; Pires (1995); e Amato Neto (2000), apesar de discutirem redes com características de distritos industriais, fazem referência a cluster; Almeida; Fischmann (2002) descrevem a existência de pólos, ressaltando sua equivalência a cluster, onde pequenos grupos atuam com base na confiança. Na pesquisa bibliométrica que foi levada a cabo sobre a temática de redes, percebeu-se que a grande maioria das referências reporta-se a Porter (1991) e não a distrito industrial, quando o assunto é rede aglomerada territorialmente (REFERÊNCIA OMITIDA). Mas de que maneira os distritos industriais ajudam a entender a competitividade das empresas? Onde estaria sua fonte de vantagem competitiva? A resposta remete à Abordagem de Recursos. A partir de meados da década de oitenta e notadamente nos primeiros anos da década de noventa do século XX, vários trabalhos começaram a pôr em dúvida a idéia de vantagem competitiva externa à empresa (WERNERFELT, 1984; BARNEY, 1986; 1991; CONNER, 1991; GRANT, 1991; PETERAF, 1993). Para aqueles autores, a base da vantagem competitiva da empresa residia no acesso e/ou controle de recursos que tivessem por características ser raros, valiosos, imperfeitamente imitáveis e/ou insubstituíveis, cuja mobilidade e/ou negociação fosse imperfeita. Isto significava ter acesso e/ou controle de recursos marcadamente competitivos. Aqueles autores faziam referência ao trabalho de Penrose (1959) que já havia definido a empresa como um conjunto de recursos de natureza física ou de natureza humana. O que passava a importar para a empresa era a dotação ou acesso a determinados recursos e não sua posição nas relações de poder com as outras forças competitivas. A base da estratégia alcançava assim um caráter idiossincrático, dado que os conjuntos de recursos pertencentes a uma empresa ou o acesso a esses conjuntos, bem como a possibilidade de acumulá-los, eram sempre únicos. Isto também afetava a sua própria geração já que, em certa
COMPETITIVIDADE NA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO: UMA AVALIAÇÃO A PARTIR DA PERSPECTIVA DAS REDES DE EMPRESAS AGLOMERADAS TERRITORIALMENTE REAd – Edição 60, Vol 14, N° 2 mai-ago 2008 medida ao menos, o desenvolvimento de novos recursos depende da existência de um estoque anterior deles (DIERICKX; COOL, 1989; BLACK; BOAL, 1994). A mesma lógica se aplicava aos distritos industriais. Surgia então outra questão: como a Visão Baseada em Recursos que havia surgido para explicar a origem da competitividade da empresa poderia estar conectada às redes de empresas, notadamente com os distritos industriais? Um dos pontos primordiais da existência dos distritos industriais é a existência de recursos, que são coletivos com relação às empresas nele inseridas, mas são privados com relação às empresas de fora (MOLINA-MORALES, 1997). E são esses recursos que garantem maior competitividade às empresas. O uso da Visão Baseada em Recursos para análise da competitividade de aglomerações tem sido percebido em diversos trabalhos nos últimos cinco anos. Pode-se dizer que esse uso percorre duas linhas paralelas. A primeira é composta por trabalhos que assumem caráter mais amplo, e se referem aos recursos de maneira não específica. Esse é o caso da investigação elaborada por Huybers; Bennett (2003). Os autores tratam a natureza como sendo um recurso gerador de competitividade para as destinações turísticas, que, em função do atrativo ter configurações geográficas, em grande parte dos casos, são aglomeradas territorialmente. Também sobre aglomerações turísticas, destaca-se o trabalho de Dwyer; Kim (2003). Esses autores desenvolveram um modelo de determinação de competitividade turística de um destino a partir de cinco fatores, entre eles os recursos herdados e os recursos criados. O sentido empregado por Dwyer; Kim (2003) para recursos é o mesmo utilizado por Wernerfelt (1984), quando esta fala de recursos tangíveis e intangíveis. Ou seja, entre os recursos herdados no modelo de Dwyer; Kim (2003), pode-se falar da natureza (tangível), ou da cultura (intangível). Igualmente entre os criados, pode-se falar de via de acesso (tangível), ou de marca (intangível). A segunda linha tem característica específica. São autores que desenvolveram pesquisas utilizando o conhecimento como um recurso gerador de vantagem competitiva. No trabalho de Asheim; Isaken (2002) pesquisou-se a transferência interorganizacional de conhecimento, concluindo que a inovação e a aprendizagem, que são indicadores de competitividade para os autores, ocorrem pelo fato de a aglomeração conter um conjunto de empresas especializadas variadas, denotando que algumas firmas podem procurar outras para consultar ou para comprar competências especializadas (ASHEIM; ISAKEN, 2002). Nessa mesma linha, a publicação de Wilk; Fensterseifer (2003) centra-se na análise de uma aglomeração vinícula no sul do Brasil, utilizando a VBR. Os autores identificaram vários
Valmir Emil Hoffmann, F. Xavier Molina-Morales & M. Teresa Martínez-Fernandez REAd – Edição 60, Vol 14, N° 2 mai-ago 2008 recursos relacionados com a atividade vinícola que são próprios da aglomeração investigada e geram vantagem competitiva para ela, como a especialização em cultivar nas condições topográficas existentes, e denominação de origem, entre outras. Em um trabalho que versou sobre as concentrações de empresas de base tecnológicas próximas de universidades, Lindelöf; Löfstein (2004) demonstraram que as empresas aglomeradas interagiam mais em termos de inovação, quando comparadas àquelas não aglomeradas, reconhecendo a existência de recursos de cooperação e que isso contribui para sua vantagem competitiva. Esses trabalhos parecem indicar que havia um conjunto de recursos comuns a todas as empresas presentes à aglomeração. Ou seja, recursos aos que as empresas têm acesso e não controle. Eles são externos a elas, uma vez que nenhuma delas isoladamente pode exercer domínio sobre eles. Quanto à sua classificação, os recursos possuem distintas divisões. De acordo com Wernerfelt (1984), eles podem ser classificados como tangíveis, intangíveis e humanos. Em outro trabalho, a autora distingue os recursos em função de sua capacidade produtiva, classificando em recursos de capacidade fixa a curto e longo prazos, ampliável, e de capacidade fixa no curto prazo, mas ampliável a longo prazo (WERNERFELT, 1984). Já Teece et al. (1997) determinam a existência de sete tipos de recursos: tecnológicos, complementários, financeiros, reputacionais, estruturais, institucionais e de mercado. Dentro de um distrito industrial, os recursos que são compartilhados e que podem formatar uma vantagem competitiva são de vários tipos. Mas para que o distrito industrial gere o efeito de incrementar a competitividade das empresas aglomeradas, é preciso que o acesso e/ou controle de determinados recursos seja superior em seu interior, em relação às empresas externas. Surge então a primeira hipótese deste trabalho: H1: as empresas aglomeradas territorialmente em uma rede do tipo distrito industrial terão uma disponibilidade de recursos estratégicos significativamente superior àquelas dispersas geograficamente. Em um sentido mais amplo, todas as empresas, como já falado, têm acesso e/ou controle sobre recursos estratégicos. Isso significa que os benefícios do distrito industrial serão iguais para seus integrantes. Teece et al. (1997) nomeiam a existência de recursos reputacionais. A reputação como instrumento interno de geração da confiança, e então de governança da rede (RING; VAN DE VEN, 1992), é comum para todas as empresas presentes
COMPETITIVIDADE NA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO: UMA AVALIAÇÃO A PARTIR DA PERSPECTIVA DAS REDES DE EMPRESAS AGLOMERADAS TERRITORIALMENTE REAd – Edição 60, Vol 14, N° 2 mai-ago 2008 no distrito. Contudo, isso não acontece com aquela reputação aplicada como vantagem competitiva externa, como a marca do produto ou a denominação de origem (REFERÊNCIA OMITIDA), que vai depender mais da exposição da empresa. Assim, uma empresa que exporte mais poderá ter mais benefícios em função do uso de uma marca de denominação de origem. Dessa maneira surgem as próximas hipóteses deste trabalho: H2a: As empresas presentes no distrito industrial não apresentarão grande dispersão em termos de dotação de recursos, ceteris paribus. H2b: As empresas presentes fora do distrito industrial apresentarão grande dispersão em termos de dotação de recursos, ceteris paribus. Para o uso da Abordagem de Recursos é necessário determinar quais são as externalidades que podem levar à maior competitividade em um distrito, pois não existe unanimidade quanto a conceitos. A ambigüidade em termos da definição do que seja um recurso estratégico pode levar à sua incompreensão e, grosso modo, qualquer coisa pode ser um recurso estratégico (PETERAF, 1993; FERNÁNDEZ; SUÁREZ, 1996). Em função disso selecionou-se três recursos em particular: a transferência de conhecimento entre as empresas; o papel das instituições de suporte industrial e; as relações entre as empresas. Dentro de um DI, a transferência de conhecimento pode ocorrer de diversas maneiras. Além daquelas derivadas das relações entre empresas, a mobilidade interna da mão-de-obra, isto é, o deslocamento de trabalhadores entre empresas de um mesmo setor propicia a preservação do conhecimento tácito acumulado por esse trabalhador, dentro dos limites da própria indústria. Mesmo que isso signifique uma perda isolada para a empresa que está sendo deixada, há um ganho coletivo em comparação com o deslocamento extra-industrial (MOLINA-MORALES, 2001; MOLINA-MORALES et al., 2001). Desta maneira, as habilidades dos trabalhadores de dentro do DI serão mais importantes que aquelas existentes em trabalhadores de fora, levando a que a experiência profissional de cada funcionário seja um recurso importante, pois o conhecimento prévio facilita a aprendizagem de novos conhecimentos (COHEN; LEVINTHAL, 1990). Além disso, a transferência de conhecimento entre as empresas pode levar a menores custos de transação pelo conhecimento ex ante do comportamento das partes (DEI OTTATI, 1994). Daqui deriva-se a próxima hipótese de trabalho:
Valmir Emil Hoffmann, F. Xavier Molina-Morales & M. Teresa Martínez-Fernandez REAd – Edição 60, Vol 14, N° 2 mai-ago 2008 H3: as empresas aglomeradas territorialmente em uma rede do tipo distrito industrial apresentarão transferência de conhecimentos significativamente superior àquelas dispersas geograficamente. O papel das instituições foi pontuado como essencial dentro de um distrito, tendo em vista a capacidade de prestar serviços para a indústria de maneira mais focada e a preços mais baixos, em função da escala desses serviços (BENTON, 1993; SCHMITZ, 1993). Este suporte dá-se pelo desenvolvimento de apoio institucional não financeiro (BRUSCO, 1993); e também tem ainda a habilidade de captar externamente e internalizar no DI informações relevantes, através de sua rede de contatos com instituições de fora do DI, e mesmo de outros países (REFERÊNCIA OMITIDA). Essas instituições podem assumir várias configurações, como associações empresariais; instituições de tecnologia; agências governamentais, locais, regionais ou nacionais; e mesmo fontes públicas e privadas de financiamento. Essas instituições melhoram a comunicação externa das empresas (SWAN; NEWELL, 1995); regulam os impactos sobre o meio ambiente ecológico (PANICCIA, 1998); e diminuem os custos das empresas através da oferta de serviços públicos (DEI OTTATI, 1987). A partir de tantas atribuições, pode-se intuir que as instituições de suporte às indústrias inseridas em um DI formam um importante atrativo para as empresas. Além disso, podem aprimorar a competitividade interna do próprio distrito, sempre que sejam capazes de gerar serviços reais. De certa forma, estes serviços reais oportunizam relações de cooperação e competição que se ensejam no contexto do DI. Então: H4: as instituições de suporte industrial serão valoradas de maneira significativamente superior pelas empresas aglomeradas territorialmente em uma rede do tipo distrito industrial em relação àquelas dispersas geograficamente. As relações socioculturais dentro de um distrito industrial podem se dar de distintas formas. O DI é uma comunidade de pessoas e empresas que têm um convívio constante pela aproximação, retratado na vida extraprofissional existente, onde as pessoas acabam encontrando-se nos distintos eventos sociais, criando uma interdependência que vai além das relações puramente econômicas ou de negócio. Isto enseja uma atmosfera de conhecimento mútuo que, entre outras coisas, vai servir de mecanismo de governo do DI, com base na
COMPETITIVIDADE NA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO: UMA AVALIAÇÃO A PARTIR DA PERSPECTIVA DAS REDES DE EMPRESAS AGLOMERADAS TERRITORIALMENTE REAd – Edição 60, Vol 14, N° 2 mai-ago 2008 Tabela 3: comparação de resultados sobre transferência de conhecimento. Variáveis pesquisadas Distrito Industrial (DI) vs. fora Média Desvio Padrão t de Student 1. Experiência prévia da mão-de-obra operacional DI 5,5412 1,6659 -0,542 Fora 5,6885 1,5550 2. Experiência prévia da mão-de-obra gerencial DI 6,0633 1,5056 0,063 Fora 6,0500 1,4430 3. Mobilidade interna da mão-de-obra DI 5,2941 1,7239 0,340 Fora 5,1967 1,6815 4. Adaptabilidade da mão-de-obra local DI 5,3718 1,5687 1,614 Fora 4,9508 1,4540 5. Adaptabilidade da mão-de-obra de outras regiões DI 4,6220 1,6074 -0,185 Fora 4,6721 1,5992 Isto também pode ser um indicativo que os processos são similares, ainda que sejam organizados de forma distinta dentro ou fora da rede, como foi visto na Tabela 1, que discutiu a verticalização desses processos. Uma variável que, apesar de não ser significativamente distinta, mas apresentou uma diferença superior às demais está ligada à adaptabilidade da mão-de-obra local. Parece ser que existe um meio de produzir localmente que difere de outras cidades. No distrito estudado, parte das empresas produz artigos de vestuário tecnicamente sofisticados. Isso implica na necessidade de se ter mão-de-obra capacitada. Nas entrevistas em profundidade foi apurado que essa mão-de-obra é escassa, por diversas razões: o grande número de empresas que a demandam; o perfil do jovem trabalhador, que busca funções
Valmir Emil Hoffmann, F. Xavier Molina-Morales & M. Teresa Martínez-Fernandez REAd – Edição 60, Vol 14, N° 2 mai-ago 2008 ligadas ao comércio ou serviços mais que à manufatura; e mesmo a idade dos profissionais atuais, que começam a entrar em um ciclo de aposentadorias. Importância das Instituições de Suporte Industrial A discussão na academia acerca do papel das instituições dentro dos distritos industriais, embora presente em vários trabalhos (SCHMITZ, 1993; KRISTENSEN, 1993), foi explicitada por Brusco (1993). Neste trabalho o autor fez referência às instituições como organizações públicas ou de economia mista. Deve-se considerar que ele se reportava a um país europeu onde, como se pode perceber nos trabalhos referenciados neste parágrafo, notase forte presença do Estado, fazendo inclusive que essa presença sirva de parâmetro de análise do momento que vive o DI (BRUSCO, 1993). Neste estudo, como se percebe na Tabela 4, das seis variáveis pesquisadas, quatro apresentaram médias significativamente superiores no distrito industrial. Em duas dessas variáveis, elas beiraram o meio da escala. O significado desses resultados se relaciona ao que se falou sobre o papel das instituições. Mesmo no trabalho de Porter (1991), destacou-se a possibilidade da existência de instituições. Quando há aglomeração é maior a possibilidade da indústria em se reunir e resolver seus problemas comuns. Isso igualmente já foi detectado na Espanha (MARTÍNEZ-FERNANDEZ, 2001), onde o poder político dessas organizações é tal que a disputa por suas direções congrega diferentes facções políticas. Tabela 4: comparação de resultados sobre papel das instituições Variáveis pesquisadas Distrito Industrial (DI) vs. fora Média Desvio Padrão t de Student 6. Importância das instituições de suporte à P&D DI 3,9882 1,6654 3,912* Fora 2,9672 1,4716 7. Disponibilidade de serviços e apoio à P&D DI 5,2029 1,8102 4,626* Fora 4,0328 1,7221 8. Uso do centro de tecnologia de confecção DI 3,6353 1,9201 1,751** Fora 3,0656 1,9653 9. Importância das associações de negócio DI 5,1014 2,0707 4,626* Fora 4,7705 2,1322 10. Importância do SENAI DI 5,0235 2,8325 -0,061 Fora 5,0492 1,9444 11. Importância das IES DI 4,8235 2,0712 1,999**
COMPETITIVIDADE NA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO: UMA AVALIAÇÃO A PARTIR DA PERSPECTIVA DAS REDES DE EMPRESAS AGLOMERADAS TERRITORIALMENTE REAd – Edição 60, Vol 14, N° 2 mai-ago 2008 Fora 5,4590 1,7566 * p<0,05; ** p<0,10. Também, salienta-se o fato de que as variáveis pesquisadas se concentram em torno do tema de pesquisa e desenvolvimento (P&D). A indústria do vestuário apresenta produtos com ciclo de vida curto. A maioria das empresas da região trabalha com três coleções ao ano. Isso estabelece a pesquisa e o desenvolvimento como prioridade, como forma de manutenção de parcelas de mercado. Para as pequenas empresas, tamanho típico na indústria pesquisada como se pode perceber na informação disponibilizada anteriormente, o custo de P&D pode significar um impacto considerável nos custos totais. Por isso, o papel das instituições ligado à P&D parece apresentar relação direta com os resultados das empresas. O que não se pode deixar de comentar é que nas instituições de ensino superior (IES) da sede do DI (Brusque), a média de importância foi inferior às de fora. Talvez o que explique esse resultado é que duas IES que estão próximas de Brusque oferecem graduação superior em áreas relacionadas à indústria, como desenho industrial e moda. Contudo, o curso de moda com enfoque nessa área na cidade tem apenas 5 semestres, e um seqüencial voltado à administração de varejo que está na segunda turma, o que pode ainda não ter sensibilizado o empresariado. Relações entre Empresas As relações sociais em um distrito industrial são importantes pois, como definido por Molina-Morales et al. (2001), o DI é uma comunidade de pessoas. Essas relações sociais levam ao arraigo, ou ao sentimento de pertinência. Para Granovetter (1985), esse sentimento surge, pois o comportamento das empresas e instituições a serem analisadas é moldado por relações sociais dinâmicas que as constroem como dependentes. Essas relações sociais, igualmente, ampliam o conhecimento mútuo, fazendo com que os vínculos se reforcem (UZZI, 1996). A Tabela 5 resume os resultados desse objetivo específico. Apesar de estar próxima ao meio da escala, a média para o uso de fornecedores locais foi significativamente superior em Brusque em relação às empresas de fora. A Tabela 1 já mostrava que a quantidade de processos realizados internamente no distrito é superior às empresas de fora dele. Isso é possível graças a um grande número desses fornecedores, que
Valmir Emil Hoffmann, F. Xavier Molina-Morales & M. Teresa Martínez-Fernandez REAd – Edição 60, Vol 14, N° 2 mai-ago 2008 localmente encontram mercado para seus serviços, repetindo aquilo que Marshall (1925) havia encontrado em seus estudos: a reprodução da atividade industrial relacionada. Tabela 5: comparação de resultados sobre relações sociais Variáveis pesquisadas Distrito Industrial (DI) vs. fora Média Desvio Padrão t de Student 12. Acesso a canais informais de comunicação DI 5,1294 1,7981 -0,334 Fora 5,2295 1,7644 13. Facilidade em estabelecer relações DI 4,2857 1,9609 -0,776 com concorrentes Fora 4,5410 1,9457 14. Uso de fornecedores locais DI 3,9882 2,1519 2,398* Fora 3,1500 2,0154 15. Intercâmbio local de informações DI 3,0706 1,5259 0,609 relacionadas a produtos e tecnologias Fora 2,9016 1,7388 16. Intercâmbio de informações relacionadas DI 3,9661 1,6168 3,605* a mercados e consumidores Fora 2,8833 1,7859 ** p<0,01; *** p<0,05. Fonte: pesquisa de campo. O intercâmbio de informações de mercados e consumidores acaba acontecendo de maneira apenas média, mas ainda assim é superior ao que acontece fora da cidade. Isso pode refletir as correlações encontradas na Tabela 2 para esta variável. Nota-se que houve correlações com quase todas as variáveis que descreviam as instituições, tanto nominando-as (associações de negócio, IES), como de maneira anônima (importância das instituições).
COMPETITIVIDADE NA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO: UMA AVALIAÇÃO A PARTIR DA PERSPECTIVA DAS REDES DE EMPRESAS AGLOMERADAS TERRITORIALMENTE REAd – Edição 60, Vol 14, N° 2 mai-ago 2008 Além disso, as relações com concorrentes e os fornecedores locais podem ser outra via pela qual esse intercâmbio acontece. Discussão Os resultados apontam para a apreciação das hipóteses conforme o Quadro 2. A hipótese H1 estava relacionada à disponibilidade de recursos. Como foi discutido, a competitividade de uma rede do tipo distrito industrial pode ser verificada através do acesso a recursos estratégicos por parte de suas empresas membros. Os resultados apontam para o fato de que existem alguns recursos que realmente foram valorados de maneira significativamente superior no distrito em relação às empresas de fora, o que permite aceitar parcialmente H1. Esses recursos se referem principalmente à existência de instituições e o papel que elas desempenham e ao relacionamento social entre as empresas. O trabalho de Molina-Morales (1997) evidenciou que empresas presentes em um distrito industrial estudado apresentaram resultado econômico superior e menos disperso quando comparadas com suas congêneres não aglomeradas geograficamente. Também, a identificação do distrito industrial como uma comunidade de pessoas pelo mesmo autor (MOLINA-MORALES, 2001) e o sentimento de pertinência evocado com anterioridade (GRANOVETTER, 1985) fazem refletir em conjuntos de percepções mais próximas entre os empresários dentro dos distritos, e mais distantes, fora dele, o que não se confirmou. As hipóteses H2 versavam sobre a dispersão nas respostas acerca dos recursos. As empresas dentro de um distrito teriam impressões mais semelhantes que as de fora dele, em relação aos recursos disponíveis. Os resultados mostram que a dispersão é similar para todas as empresas, o que faz rejeitar a H2a, e aceitar a H2b. Como ressaltado por Prahalad; Hamel (1994), o conhecimento é uma fonte de vantagem competitiva e pode ser visto como um recurso das empresas. A hipótese H3 discutia a transferência de conhecimento entre as empresas presentes no distrito industrial. Com base em trabalhos anteriormente referendados, acreditava-se que essa transferência seria significativamente maior em contextos de distrito industrial, o que não foi comprovado pelos resultados. Um trabalho anterior sobre a indústria de revestimento cerâmico havia apontado que dentro dos distritos estudados, essa transferência era mais freqüente que fora deles (HOFFMANN, 2002). Naqueles três distritos estudados, um ponto que servia de base para
Valmir Emil Hoffmann, F. Xavier Molina-Morales & M. Teresa Martínez-Fernandez REAd – Edição 60, Vol 14, N° 2 mai-ago 2008 transferência de conhecimento era a própria mobilidade interna da mão-de-obra, que foi praticamente igual nos dois conjuntos de dados deste trabalho. O papel das instituições de suporte já havia sido contemplado por pesquisas que ressaltavam sua importância como dispersoras de tecnologia e informação dentro do distrito industrial (MOLINA-MORALES; HOFFMANN, 2002). Elas também estavam presentes no distrito estudado, fornecendo vários serviços como pressão política, serviços sociais e assessoria. Então, quanto ao papel das instituições (H4), pode-se aceitar, já que as instituições foram mais bem valoradas dentro do DI que fora dele. Mas o fato de que as IES tiveram melhor desempenho fora, sugere que a H4 seja aceita apenas parcialmente. As relações sociais dentro de um distrito são um de seus marcos diferenciadores. Inclusive já foi definido que mais que um limite geográfico, o distrito é um limite sócio cultural (MOLINA-MORALES et al., 2001). As relações sociais neste estudo se conectaram com pontos comuns nos distritos como as instituições (Tabela 2). A hipótese H5 foi testada e em duas variáveis as médias foram superiores para o distrito o que permitiu seu aceite parcial. O que fortaleceu essa dedução foi o fato de que a troca de informações é uma atividade comum nos distritos industriais e indicativa da existência de relacionamento social relevante (MOLINA-MORALES, 2001). Hipótese 1: as empresas aglomeradas territorialmente em uma rede do tipo distrito industrial terão uma disponibilidade de recursos estratégicos significativamente superior àquelas dispersas geograficamente. Aceita parcialmente Hipótese 2a.: As empresas presentes no distrito industrial não apresentarão grande dispersão em termos de dotação de recursos, ceteris paribus. Rejeitada Hipótese 2b: As empresas presentes fora do distrito industrial apresentarão grande dispersão em termos de dotação de recursos, ceteris paribus. Aceita Hipótese 3: as empresas aglomeradas territorialmente em uma rede do tipo distrito industrial apresentarão transferência de conhecimentos significativamente superior àquelas dispersas geograficamente. Rejeitada Hipótese 4: as instituições de suporte industrial serão valoradas de maneira significativamente superior pelas empresas aglomeradas territorialmente em uma rede do tipo distrito industrial em relação àquelas dispersas geograficamente. Aceita parcialmente Hipótese 5: o relacionamento sociocultural será significativamente superior entre as empresas aglomeradas territorialmente em uma rede do tipo distrito industrial em relação àquelas dispersas geograficamente Aceita parcialmente Quadro 2: resumo de resultados do teste de hipótese.
COMPETITIVIDADE NA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO: UMA AVALIAÇÃO A PARTIR DA PERSPECTIVA DAS REDES DE EMPRESAS AGLOMERADAS TERRITORIALMENTE REAd – Edição 60, Vol 14, N° 2 mai-ago 2008 CONCLUSÃO Este trabalho procurou avaliar a competitividade a partir da disponibilidade de recursos por parte de redes de empresas aglomeradas territorialmente, denominadas Distrito Industrial - DI (HANSEN, 1991). Partiu-se da elaboração de hipóteses teóricas que foram contrastadas com um estudo empírico realizado com empresas do vestuário, aglomeradas territorialmente ou não. Como objeto de estudo, tomou-se a indústria do vestuário da Região do Vale do Itajaí. Esta região é conhecida por sua aglomeração industrial têxtil que começou ainda no século XIX e desde então tem se incrementado (HERING, 1987; CAMPOS et al., 2000). O centro do DI que se avaliou foi a cidade de Brusque, por seu número de pequenas empresas ligadas ao setor, diferentemente de outras cidades do Vale, onde predominam as grandes plantas manufatureiras. A fundamentação teórica permitiu a elaboração de hipóteses que versaram sobre a disponibilidade de recursos por parte dos distritos industriais. Os recursos estratégicos de que fala a Visão Baseada em Recursos parecem servir tanto para explicar a competitividade de uma empresa, como de uma rede inter-organizacionais. Concluiu-se que nas redes do tipo DI, existem recursos que podem contribuir para a construção da vantagem competitiva das empresas aglomeradas. Ao se testar esta hipótese, inferiu-se que neste estudo específico, isso ocorre de maneira parcial, visto que os graus de significância foram baixos, quando se compararam as médias entre as empresas presentes e ausentes do DI. Também se concluiu que a dispersão sobre a opinião acerca da disponibilidade de recursos não foi menor dentro do DI. Isto pode ter ocorrido pelas particularidades da indústria. Empresas que estão aglomeradas tendem a ser mais homogêneas (MOLINAMORALES, 1997), e inferiu-se que isso seria percebido igualmente em termos de seus recursos. Mas a ausência de diferença significativa entre os dois conjuntos de dados mostrou que, com relação aos recursos, a percepção é semelhante. Analisando cada recurso em particular, já que a definição do que seja um recurso estratégico é uma atividade complexa, porém necessária (PETERAF, 1993), notou-se que tampouco existe homogeneidade em termos de percepção. O recurso que foi avaliado como sendo significativamente maior no DI foi o papel das instituições e, por corolário, sua presença. Isto traz algumas ponderações. A primeira está relacionada aos demais recursos. Em uma comunidade de pessoas como é o DI, a transferência de conhecimento e as relações sociais são típicas (HOFFMANN,
Valmir Emil Hoffmann, F. Xavier Molina-Morales & M. Teresa Martínez-Fernandez REAd – Edição 60, Vol 14, N° 2 mai-ago 2008 2002), e talvez até distintivas do próprio DI, enquanto tipologia de rede. Quanto à transferência de conhecimento, o que pode explicar a não-diferença é a própria dinamicidade dessa indústria, visto que conhecimentos sobre produtos são adquiridos até mesmo de maneira visual, e sua reprodução ocorre de modo involuntário e rápido. Ou seja, essa é uma característica de toda a indústria, e visto que existe circulação de pessoas e mercadorias por toda a região, a mão-de-obra pode não ter a mesma repercussão, de quando se está avaliando distâncias de dispersão maior. As relações sociais que apenas parcialmente são mais intensas no DI podem se referir igualmente à competição acirrada do setor e mesmo às taxas de crescimento reduzidas dos últimos anos. Em 2004, houve recuperação do setor, que ainda não atingiu os níveis de 2001. Isso pode ter diminuído as possibilidades de cooperação, fazendo com que cada negócio passasse a buscar seus próprios interesses, ou sua própria sobrevivência. Também cabe ressaltar que em uma aglomeração, a organização e as relações econômicas são tão entrelaçadas com as relações sociais que a fronteira entre as esferas empresariais e comunitárias tende a desaparecer. Desta maneira, como escrevem Camisón; Molina-Morales (1998), nos DI há dificuldades em se proteger os elementos distintivos de cada empresa, e assim suas fontes de vantagem competitiva. Isto igualmente pode estar contribuindo para um comportamento mais fechado das empresas em relação às demais. Pode-se concluir que o incremento da competitividade decorrente da organização da indústria em redes do tipo distrito industrial no setor do vestuário estudado não é tão significativamente superior quanto apontaram outros estudos sobre o tema (MOLINAMORALES, 1997; MARTÍNEZ-FERNANDEZ, 2001). Mas, se essa organização industrial não torna as empresas mais competitivas, ao menos permite que as barreiras de entrada sejam mais baixas ceteris paribus, permitindo seu crescimento endógeno (MOLINA-MORALES, 2002). As fontes de vantagem competitiva vão existir com relação a outros tipos de recursos como, por exemplo, as instituições e algum nível de troca de informação. Em termos de contribuição, esse trabalho procurou minimizar as limitações de operacionalização da VBR como instrumento de pesquisa. A partir de dois estudos prévios (MOLINA-MORALES, 2001; MARTÍNEZ-FERNANDEZ, 2001) que foram reforçados pelo trabalho de Asheim; Isaken (2002), foram operacionalizadas variáveis capazes de mensurar os recursos de uma aglomeração. Isso parece ter sido possível graças ao uso de empresas não aglomeradas como contraste. Ou seja, em algumas ocorrências não foram sentidas diferenças significativas em termos de recursos entre empresas aglomeradas e não aglomeradas, como é
COMPETITIVIDADE NA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO: UMA AVALIAÇÃO A PARTIR DA PERSPECTIVA DAS REDES DE EMPRESAS AGLOMERADAS TERRITORIALMENTE REAd – Edição 60, Vol 14, N° 2 mai-ago 2008 o caso da transferência de conhecimento. Desse modo, parece haver um efeito indústria que tornaria semelhante os resultados para todas as empresas. Contudo há indícios sobre relacionamento e instituições. Essa contribuição enseja a continuidade da pesquisa desse tema. Esta investigação apresenta algumas limitações. A primeira delas é quanto ao número de participantes da pesquisa. Talvez com um número maior de pesquisados os resultados poderiam se apresentar com as significâncias necessárias. Também, a falta de informação oficial sobre essa indústria, dada sua informalidade, dificulta o levantamento de dados descritivos quantitativos sobre o setor. Ainda, a própria indisponibilidade de muitos empresários em atender às entrevistas dificultou o trabalho e limitou a sua abrangência. Assim, este tema não se esgota com este trabalho. Ao contrário, ensejam-se várias oportunidades de seqüência, como ampliar o número de entrevistas nas diferentes localizações; fazer tratamento estatístico procurando isolar resultados por cidade; especificar os serviços institucionais e seu impacto sobre o desempenho; ou ainda, estudar os mecanismos de governança dessas aglomerações com enfoque especial na confiança e na reputação, todas essas sugestões aplicáveis ao estudo de outras indústrias. REFERÊNCIAS ALMEIDA, M. I. R.; FISCHMANN, A. A. Atuação estratégica em pólos empresariais: relato de duas experiências. Revista de Administração de São Paulo, São Paulo, v. 37, n. 3, p. 7985, Julho/ setembro 2002. AMATO NETO, J. Redes de cooperação produtiva e clusters regionais: oportunidades para as pequenas e médias empresas. São Paulo: Atlas: Fundação Vanzolini, 2000. ASHEIM, B.T.; ISAKSEN, A. Regional innovation systems: the integration of local ‘sticky’ and global ‘ubiquitous’ knowledge. Journal of Technology Transfer, v. 27, n. 1, 2002. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA TÊXTIL. Relatório anual, São Paulo: ABIT, 2003. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA TÊXTIL. Relatório anual, São Paulo: ABIT, 2007. BARNEY, J.B. Firm resources and sustained competitive advantage. Journal of Management, v. 17, 1991.
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