O imaginário popular no conto “Os Senhores de Montalvo” de Aquilino Ribeiro
Abstract
The turn of the 19th and 20th centuries can be seen as a literary period in which stimulation and renovation of the short story genre occurred. Aquilino Ribeiro, a famous Portuguese writer who published his first collection of short stories Jardim das tormentas in 1913, could be mentioned in this connection. This article focuses on one of the stories from this collection (“Os Senhores de Montalvo”), analysing the popular (traditional) imagination, as well as the modes of rewriting of original texts (Iberian medieval romances, legends and chivalric tradition). A brief comment on the film Silvestre (1981) by João César Monteiro, inspired by the same tradition, is included.
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Oimaginário popular no conto “Os Senhores de Montalvo” de Aquilino Ribeiro Silvie Špánková Universidade Masaryk de brno Para quem estuda aliteratura da época da viragem dos séculos, torna-se evidente que este período ostenta “uma fecunda crise dos modelos de ficção narrativa”, no dizer de Seabra Pereira1. Tal crise érealmente fecunda por gerar novas formas de construção narrativa e, também, por dar odevido relevo ànarrativa breve, marginalizada esubjugada no período anterior, dominado pelo romance realista enaturalista. Um dos motivos para aevidente prioridade do conto em dada época consiste no afastamento do mundo diretamente acessível, observado, objetivamente descrito eanalizado, como era ocredo realista/naturalista. Na época da viragem em que reinam os novos estilos epocais como oDecadentismo, oSimbolismo ou oImpressionismo, anarrativa breve (prioritariamente oconto) “possibilita aevocação de entidades remotas easugestão dum mundo evanescente, desprovido de significado explícito mas prenhe de sugestões simbólicas”2. Mas deve ser considerada ainda outra face da narrativa breve dos fins do século XIX edos alvores do século XX, essa ligada àrevisitação da tradição local/nacional edos mitos autóctones. Para além da poesia que com muito sucesso explorou tais filões da tradição (p. ex. apoesia de Alberto de Oliveira ede António Nobre), começaram aaparecer os contos que podiam ser também, pelo menos aproximadamente, inseridos nas correntes neorromânticas (dentro desta tendência situa-se, por exemplo, acontística de Júlio Brandão, repleta de reminiscências folclóricas, míticas ou lendárias). Auma das fontes constantemente aludidas etrabalhadas neste tipo de textos neorromânticos pertencem os romances velhos, herdeiros das canções de gesta peninsulares ou carolíngias, que circulavam na Península, vindo aser posteriormente recolhidos ecoligidos em vários romanceiros apartir do século XV (em Portugal, acompilação transcrita mais famosa einspiradora énaturalmente Romanceiro de Almeida Garrett, publicado em 1844). Dentro desta linha da reabilitação das lendas eromances peninsulares insere- -se também oconto “Os Senhores de Montalvo” de Aquilino Ribeiro, incluído na estreia do autor, intitulada Jardim das tormentas epublicada na época pré-moder1 Pereira 2004, p.1. 2 Ibidem, p.3. OPEN ACCESS
SILVIE ŠPÁNKOVÁ 81 nista em 1913. Nesta coletânea, exploram-se vários temas desde aambiência urbana parisiense (devido ao exílio do autor em Paris aquando da escrita dos contos), passando pela temática rural eregional (beirense) atéaos temas míticos elendários. Uma das grandes estudiosas desta estreia aquiliniana, Nelly Novaes de Coelho, sistematiza asua temática enquadrando-aem dois grandes núcleos. No primeiro núcleo dominam, segundo Novaes Coelho, as relações homem–mulher (com os contos de incidência alegórica, real-objetiva, lendária emítica), enquanto no segundo núcleo são sublinhadas as relações homem–natureza–grupo social (com os contos de cunho real-objetivo)3. Oconto “Os Senhores de Montalvo”, juntamente com oconto “ARevolução”, de caráter lendário ealegórico respetivamente, ficaram no entanto excluídos, pelo fato de se tratar, segundo Novaes Coelho, de temas independentes4. Por conseguinte, aensaísta evita qualquer referência mais detalhada ao conto “Os Senhores de Montalvo” eàsua temática. Pretendo no presente ensaio, portanto, comentar este conto hoje em dia um tanto esquecido, atentando no seu vínculo com oimaginário popular. OIMAGINÁRIO POPULAR NA CONTÍSTICA AQUILINIANA Oeco do legado mítico elendário está patente também noutros contos de Aquilino Ribeiro, como, por exemplo, nos contos Valeroso Milagre (1919) ou “Reencarnação deliciosa” (Quando ao gavião cai apena, 1935), nos quais se faz repercutir omito pigmaliónico como um aviso contra os perigos (einsanidade) de uma criação artificial, mesmo que milagrosa. Oeco do gesto pigmaliónico pode ser também entreouvido no conto “ACatedral de Córdova” (Jardim das tormentas), no qual uma figura do arcebispo dá vida, ao menos alucinatoriamente, àestátua adorada de Santa Inês, através de um exacerbado empenho erótico. Ao mesmo tempo, reforça-se nalguns destes textos uma linha esteticista, correspondente àpoética decadentista esimbolista, em que uma obra de arte sugere, incentivando, os impulsos vitais5. Asugestão artística está também no cerne do conto “ATentação do Sátiro”, com uma vaga ambiência medievalizante, que nas palavras de Serafina Martins “recupera matérias tão tradicionais como ado casamento entre uma mulher jovem eum homem com ‘cinquenta já dobradosʼ ou do marido atraiçoado epersonagens como ade D. Sol, guardiã implacável da fidelidade de D. Mafalda ao marido”6. Atrama, analisada por Serafina Martins como ademonstração dos arquétipos masculinos efemininos, incide sobre oamor-paixão extraconjugal entre uma jovem aristo3 Coelho 1973, p.39. 4 Ibidem. 5 Éevidente que Aquilino Ribeiro, dentro da sua filosofia vitalista, celebra tudo que énatural, subjugado ao princípio do Eros panteísta. Aliás, os mesmos vetores que demonstram aomnipotência do Eros como uma força universal constituem abase ética tanto do conto “Triunfal” (Jardim das tormentas), que configura um paraíso genesíaco transgressor, como no romance Andam faunos pelo bosque (1926). Para uma estética vitalista em Aquilino Ribeiro vede Pereira 2014. 6 Martins 2006, p.178. OPEN ACCESS
82 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA crata, já casada, eum jovem cavalheiro, amigo leal do marido dela. Os motivos da paixão, traição ecastigo correspondem ao material romanceado, em especial ao romance “OBernal-Francês”, em versão recolhida etranscrita por Almeida Garrett, aqual já tinha servido de hipotexto, entre outros, aAlexandre Herculano na famosa “ADama pé-de-cabra”. Este conto pode ser de certa maneira aproximado ao conto “Os Senhores de Montalvo”, devido ao seu caráter medievalizante, em que entra omotivo de amor-paixão. Oque, porém, Serafina Martins sublinha em “ATentação do Sátiro” éum especial tratamento narrativo ecomposicional, mais que aprópria história: Amão artística de Aquilino não está, pois, tanto no enredo, na história “ouvida” ou eventualmente “sonhada” mas sobretudo na composição, num peculiar arranjo narrativo que vai fazendo evoluir os pontos nucleares da intriga não através de acontecimentos, mas através de indícios transmitidos por vozes elinguagens variadas, passando, nomeadamente, pelas palavras do narrador edas personagens, pelos sinais da natureza epela linguagem plástica-alegórica de uma escultura representando uma ninfa esátiro7. Quanto ao conto “Os Senhores de Montalvo”, este não só evoca aatmosfera lendária, do velho romance ibérico, através de específicos recursos composicionais, mas revisita, entreligando, dois textos concretos que entram na narrativa. Trata-se de lenda da Mão do finado edo romance ibérico “Adonzela que vai àguerra”. Este conto de Aquilino Ribeiro, então, não pode ser percebido como uma estilização, termo mais adequado ao conto “ATentação do Sátiro”, mas como um palimpsesto. Os dois hipotextos em forma de lenda constituem também ovínculo da prosa aquiliniana com atradição popular. OCICLO DO BARBA AZUL Alenda da Mão do finado pertence ao ciclo do Barba Azul enão deve ser confundida com oromance Amão do finado de Alfredo Possolo Hogan, publicado em 1853 como oromance de A. Dumas que oferece oseguimento àhistória do Conde Monte-Cristo. Existem várias versões da lenda, sendo porventura uma das mais acessíveis econhecidas aque foi recolhida por Teófilo Braga nos Contos tradicionais do povo português (1883). Conta alenda ahistória de uma donzela, uma das três filhas dum mercador que, não sendo uma noite oseu pai em casa, abre com as suas irmãs aporta aum pedinte que pede ajuda. Permitem deixá-lo em casa, aceitando as duas irmãs amaçã oferecida pelo homem. Só amais nova não acome, cautelosamente. Trata-se de maçãs dormideiras. Alta noite, operegrino levanta-se ecomo se trata de um ladrão, escancara aporta do castelo, começando achamar oseu grupo de valdevinos. Nesta situação ésurpreendido pela donzela que repentinamente fecha aporta. Opedinte pede de volta oseu candeeiro em forma da mão de finado, oqual ficou na sala. Adonzela 7 Martins 2006, p.178. OPEN ACCESS
SILVIE ŠPÁNKOVÁ 83 arma uma armadilha: consentindo, diz ao peregrino para ele enfiar asua mão pelo buraco, para que lhe possa ser devolvido ocandeeiro. Feito isto, porém, adonzela corta-lhe amão. Algum tempo depois, adonzela épretendida por um fidalgo, mas recusa-se acasar. Em vez dela, casa asua irmã mais velha. Ofidalgo que na verdade não éfidalgo mas otal ladrão, força-aaescrever uma carta, convidando asua irmã mais nova. Após isto degola-a. Omesmo repete-se com aoutra irmã. Quando chega avez da terceira donzela, há uma modificação: oladrão proíbe-ade entrar no quarto dos mortos, sendo desobedecido. Adonzela entra eencontra dentro um príncipe por quem se apaixona ecom oqual foge. Após algumas peripécias salva-se, casando-se com opríncipe. Aparte na qual se fala do casamento da donzela com ofidalgo-ladrão eda proibição de entrar num quarto secreto coincide com outras versões tradicionais do Barba Azul, transcritas por Charles Perrault (Barbe-bleue) epelos irmãos Grimm (Der Räuberbräutigam, em português Anoiva do ladrão ou Noivo ladrão), as quais também foram várias vezes reescritas em forma de contos ou romances. Na época em que Aquilino Ribeiro escreveu asua versão, verificam-se pelo menos três versões de grande interesse8. Em primeiro lugar, deve ser mencionado oromance Là-bas (1891) de J.K.Huysmans, em que oprotagonista, um escritor, tenta fazer um livro sobre afigura histórica do fidalgo Gilles de Rais, cognominado Barba-Azul, um bravo defensor do reino eex-amigo de Joana dʼArc, que se tornou num assassino extremamente sádico erefinado. Ahistória deste monstro, delineada pelo escritor, éacompanhada por uma outra história, essa vivida pelo protagonista, sobre orelacionamento com uma mulher satânica. As reflexões sobre osatanismo, aliás, constituem aprópria base temática do romance. Outro exemplo éfornecido pelo escritor francês que tinha omaior impacto sobre Aquilino Ribeiro: Anatole France, cujo conto “Sete mulheres de Barba-Azul”9 édemonstrativo da ironia do seu autor. Nesta versão bem 8 Existem naturalmente muitas reescritas modernas. No espaço anglófono, entre as mais interessantes pertence oromance ANoiva Ladra (The Robber Bride, 1993) de Margaret Atwood que apresenta uma curiosa modificação, pois em vez do noivo ladrão figura uma mulher devoradora, ou oconto “OQuarto do Barba Azul“ (The Bloody Chamber and Other Stories, 1979) de Angela Carter, que éum dos mais próximos da versão tradicional (uma jovem casa-se com um marquês, homem mais velho emaravilhosamente rico, aquem desobedece ao entrar secretamente no quarto proibido, revelando ocaráter monstruoso eassassino do marido). Na literatura espanhola existe mais um exemplo que merece atenção: oromance El secreto de Barba Azul (1923) de Fernández Florez. Trata-se de um texto satírico que só livremente trabalha com omaterial lendário, reforçando asua dimensão iniciática com prenúncios existencialistas: oprotagonista procura osentido da vida eno momento de abrir aporta secreta verifica que oquarto de Barba Azul está vazio. No contexto português, gostaria de mencionar um romance que àprimeira vista não tem nada aver com esta lenda. Trata-se do romance Não entres tão depressa nessa noite escura (2000) de António Lobo Antunes em que aprotagonista, Maria Clara, transgride aproibição, entrando num quarto do sótão, pertencente ao pai, que era cuidadosamente guardado efechado àchave. Alenda do Barba Azul ecoa tanto no motivo do quarto misterioso, fechado àchave, contendo segredos acerca do seu proprietário, como no motivo da desobediência da jovem eno processo da sua iniciação. 9 France 1909. OPEN ACCESS
84 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA humorada, pois, ésubvertido oestatuto do Barba-Azul, passando aser, em vez de um assassino de mulheres, um homem solitário eincompreendido, fatalmente perseguido pelo azar no que diz respeito àvida conjugal. Oterceiro exemplo interessante, oconto “Barba Azul” (Negrinha, 1920), éda pena do escritor brasileiro Monteiro Lobato. Neste conto émantido ocaráter do assassino das mulheres, no entanto, como aintriga étransposta para os inícios do século XX, éevidente que este Barba Azul não pode praticar imunemente os rituais sanguinolentos. Amanobra assassina éneste caso extraordinariamente subtil: oBarba Azul escolhe as esposas entre as mais fracas emagras com ofim de as deixar morrer de parto. Amorte das esposas torna-se uma empresa de lucro, já que oBarba Azul cuida em fazer um bom seguro de vida para as mulheres logo após ocasamento10. Arevisitação da lenda empreendida por Aquilino Ribeiro fixa-se na versão portuguesa tradicional. Aprotagonista éadonzela Floripes, filha de D. Beltrão da família dos Montalvos de Riba-Doiro. Um dia, D. Beltrão decide casar afilha com um gentil-homem, desejando ir pedir ao rei para se tornar opadrinho da filha. Afilha tem ordem de não abrir aporta aninguém, oque, porém, não cumpre, oferecendo oalbergue aum pobrezinho de muletas. Uma modificação consiste no facto de em vez de maçãs serem oferecidas as laranjas dormideiras. Aseguir, ahistória não se desvia da versão tradicional atéao reencontro da donzela com oladrão, agora mascarado de fidalgo. Como D. Beltrão deseja oferecer ao seu genro um cavalo equivalente ao Azagaia de Floripes, “um bicho aque pouco faltava para voar” (p.112), recebe uma proposta de “um senhor de finas maneiras” (p.113) que exibe seus três cavalos, oTigre que “corre como ovento dos ciclones” (p.113), oRelâmpago que “mal arranca desaparece” (p.114) eoVingança que “voa como opensamento” (p.114). Os nomes dos cavalos esuas descrições evocam os cavalos Tempo, Vento ePensamento de uma outra fonte tradicional, alenda de Brancaflor, com aqual Floripes mantém ainda amesma conotação no nome. As duas são perseguidas pelo Diabo, pois diferentemente da versão tradicional da Mão do finado que fala prosaicamente sobre os ladrões, Aquilino reforça oteor maravilhoso do conto, aludindo constantemente às forças demoníacas (“Àcarga cerrada, primeiro, nem demónios afugir para omeio do inferno. Depois os lacaios viram-nos tresmalhar acorrer para alinha do horizonte como galgos endiabrados”, p.116, sublinhado meu). Mais uma alusão cruza oconto aquiliniano, desta vez ligada ao nome do pai, D. Beltrão, evocando, inevitavelmente, oromance “D. Beltrão” sobre ocavaleiro desaparecido, mais seu cavalo “tremedal”. Efetivamente, os três cavalos são mais rápidos que Azagaia. D. Beltrão, cavalgando oVingança, desaparece, desaparecendo ao mesmo tempo todos os cavaleiros epajens dos cavalos “enfeitiçados”. Neste momento da narrativa, não se sabe ainda se onome do pai devia antecipar odesenlace trágico, pois no romance ibérico, D. Beltrão épor fim achado morto ao lado do seu cavalo. Aqui acaba, temporariamente, areescrita da lenda da Mão do finado. 10 Esta enumeração de exemplos épuramente ilustrativa. Em dada época podemos naturalmente encontrar outras obras que desenvolvem tal tema, em especial na área dramática (p. ex. Ariane et Barbe-Bleue, 1901, de Maurice Maeterlinck). OPEN ACCESS
SILVIE ŠPÁNKOVÁ 85 ADONZELA-GUERREIRA Outro hipotexto da narrativa aquiliniana é, como já foi mencionado, oromance ibérico “Adonzela que vai àguerra”, conhecido em Portugal sobretudo na versão do Romanceiro de Almeida Garrett. Como se trata, porém, de um dos romances prediletos no mundo ibérico, tem sido espalhado em forma oral por toda aPenínsula em inúmeras variantes. Também épreciso tomar em conta que, como mostra Walnice Nogueira Galvão no seu livro ADonzela-Guerreira, um estudo de gênero, este tema éna verdade um dos mais antigos econhecidos não só na cultura europeia. Para além de versões eadatações, que diretamente evocam oromance ibérico, aestudiosa brasileira apresenta vários tipos de mulheres-guerreiras, atravessando as fronteiras temporais eespaciais, das quais há registo tanto nas lendas emitos, como na literatura erudita. Nesta linha sobressaem as deusas eorixás (Palas Atena, Iansã— mulher de Xangô), figuras bíblicas (Judite), heroínas— figuras históricas convertidas em mito— como Joana dʼArc, achinesa Mu-lan ou piratas Mary Read eAnne Bonny, atéas cangaceiras eheroínas modernas como Simone Weil11. Segundo Walnice Galvão, “adonzela-guerreira frequenta, na figura convencional da lady knight, aepopéia de cavalaria de fins do medievo einício do Renascimento, bem como os livros de aventuras da fase de popularização do romance prê-romântico”12. Em geral, otraço simbólico da donzela-guerreira éocabelo que “sobressai como um atributo privilegiado”13, servindo seja para dissimular osexo feminino (cortando ocabelo), seja para provar asua feminidade (quando fica longo, somente escondido eem certo momento revelado). Àbase da frequência epopularidade deste tema, penso que éadequado falar neste caso de um mito ou arquétipo literário. Não se sabe qual aversão aludida por Aquilino Ribeiro, mas prefiro tomar de partida aversão garrettiana, amais conhecida porque registada por escrito. Neste caso, trata-se de uma história sobre adonzela que se vestiu de homem para ir guerrear, passando por várias provas nas quais oseu capitão pretende averiguar se ela éum homem ou não. Em vários aspetos oconto aquiliniano, sempre evocando atradição cavaleiresca medieval, diverge da versão garrettiana: não são apresentadas as famosas réplicas iniciais da donzela que mostra asua decisão inabalável de se tornar um guerreiro (aparece logo um adolescente que se alista no exército como soldado raso), não se fala das provas femininas da maçã eda posição no jantar, tampouco da prova do nadar. Éreferida somente aprova da feira: Resolveu por isso experimentá-lo, ecom esse fim levou-oauma feira. Passando diante das tendas, onde se vendia ouro lavrado, disse-lhe: — Formosas jóias, amigo. Não gostas? Osoldado desviou oolhar de brincos etrancelins para os cuteleiros: — Formosas, não há que ver. Mas eu cá aprecio mais daquilo, aquelas facas de mato eos alfanges de guerra14. 11 Ver Galvão 1998. 12 Ibidem, p.172. 13 Ibidem. 14 Ribeiro 1985, p.118. OPEN ACCESS
86 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA Compare-se com aseguinte passagem do romance: — “Convidei-ovós, meu filho, Para convosco feirar, Que se ele mulher for, Às fitas se há-de pegar.” Adonzela, por discreta, Uma adaga foi comprar15. Para além disso, oconto aquiliniano, no qual éconstantemente sublinhada acoragem ebravura do soldado (Floripes), apresenta uns passos de intriga bem originais einovadores. Primeiro, oalferes manda osoldado (Floripes) adormir com ele num único catre que foi encontrado numa aldeia. Floripes põe aespada de permeio.16 Segundo, oalferes manda osoldado (Floripes) para ir com ele às mulheres de vida. Como as duas mulheres de vida desejam os favores do soldado (Floripes), este se torna um pomo de discórdia, salvando-se da situação embaraçosa. Terceiro, quando Floripes fica ferida, proíbe oalferes de tocar nela, preferindo ser enterrada vestida. Ooficial desobedece, procura tratar oferimento do soldado edescobre asua verdade secreta. Curiosamente, ao contrário da versão garrettiana eoutras variantes do mito, levantadas por Walnice Galvão, otraço revelador não são olhos, nem cabelo, mas oseio: Ooficial volveu com grande cólera edor ao combate e, mal os bandidos foram desalojados, oseu primeiro cuidado foi conduzir aordenança para uma cabana que ali havia. Ao examinar-lhe as feridas do colo, longe da ardilosa curiosidade que operseguia, depararam-se-lhe, como uma peanha àmedalha em que figurava D. Beltrão de rabona, calção ecabeleira de canudos, dois seios formosíssimos de donzela, como seriam pombos brancos egémeos, comprimidos, comprimidos, mesmo agachadinhos de medo numa condessinha17. Apesar dos tormentos de Floripes, oseu pai não foi encontrado. Neste momento, opera-se mais uma inovação no conto aquiliniano, pois as duas fontes principais são aqui entrelaçadas, desembocando numa encantadora harmonia narrativa. Revelada asua identidade, adonzela-guerreira épretendida por mais um fidalgo, D.Raimundo de Resquitela que diz ter D. Beltrão em seu poder no castelo, podendo soltá- -lo só após apromessa do casamento com Floripes. Ponderada eaceite esta condição, D.Beltrão regressa, pondo-se apreparar aboda da filha. Em meio do banquete, porém, fazem-se trevas de repente, nas quais aaia exibe aluzerna da mão do finado, mais amão mirrada que fora cortada ao ladrão eguardada na salgadeira. D. Raimundo precipita-se contra aaia, revelando assim asua verdadeira identidade: 15 Garrett, s/d, p.350. 16 Este motivo, pela repercussão do mito de Tristão eIsolda (aespada entre os amantes para manter, simbolicamente, asua pureza) evoca oimaginário tradicional cavaleiresco ligado àmística amorosa. 17 Ribeiro 1985, p.120. OPEN ACCESS
SILVIE ŠPÁNKOVÁ 87 — Nobres Senhores— exclamou avelha aia, com um ricto satisfeito que nem pedido às bruxas da Floresta Negra ao pescarem um anjinho— aí está ocapitão de ladrões que assaltou osolar, sequestrou osenhor Beltrão eintentava por aleivosia casar com aminha ama esenhora18. D. Raimundo éalgemado, afesta porém continua, casando-se Floripes com oseu alferes enamorado. FLORIPES/SILVESTRE: UMA PRESUMÍVEL ADAPTAÇÃO? Resumida aação da narrativa aquiliniana em cotejo com os hipotextos lendários, convém referir mais um facto interessante. Para quem conheça ocinema de João César Monteiro, deverá surpreender aconvergência entre oconto de Aquilino eofilme Silvestre (1981) de Monteiro, descrito na sinopse como ahistória “tirada de dois romances portugueses tradicionais: ADonzela que Vai àGuerra (Século XV?), de origem judaica peninsular ede uma novela, AMão do Finado, transmitida pela tradição oral que faz parte do Barba Azul” (Madragoa Filmes, 2003). Oargumento do filme foi feito pelo realizador, J. César Monteiro, os diálogos são da autoria dele ede Maria Velho da Costa. Os nomes das personagens são trocados: adonzela chama-se Sílvia/Silvestre, oseu pai éD. Rodrigo, em vez da aia há ameia-irmã Susana, ofidalgo misterioso chama-se D. Raimundo de Montenegro. Aintriga do filme segue, com parcas alterações, odelineamento do conto aquiliniano, convergindo atéem alguns diálogos: 1920 T. Braga A. Ribeiro J. C. Monteiro Amenina veiu cá acima buscar aespada que oladrão tinha deixado, edisse-lhe: Aqui está amão do finado. Ora na porta havia um buraco em cima em que cabia uma mão; edisselhe oladrão: — Metta amenina amão pelo buraco. — Se quer, metta asua, que eu lhe darei amão do finado19. Avoz do mendigo clamou: — Está bem, está bem, nós vamos embora, mas entregue ocandeeiro... — Que candeeiro? — Amão, que era da minha avó... — Earde? — Arde, mas não queima. [...] — Pois sim— respondeu Floripes reflectindo. — Passe asua mão pela gateira…20 — Dá-me oluzeiro. — Que luzeiro? — Amão que édos meus. — Earde? — Arde mas não queima. Émão benta. Abri! […] — Passai amão pelo janelo que vo-lo darei de volta. (34.58 min— 35.14 min) 18 Ibidem, p.124. 19 Braga 1883. 20 Ribeiro 1985, p.111. ftn 19,20 OPEN ACCESS
88 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA T. Braga A. Ribeiro J. C. Monteiro Deitaram-se, mas osoldadinho pôs aespada de permeio. Vendo tal, objectou-lhe ooalferes: — Pendura aespada, homem, que muito nos há-de magoar em cama tão estreita. Olha que eu não tenho maus costumes... Ao que retorquiu omagala: — Meu alferes, perdoe, mas da espada não me separo, nem de noite nem de dia, nem na vida nem na morte. Assim ojurei aNossa Senhora do Livramento que me tocou na pia benta com asua coroa de prata21. — Tira aespada que muito nos há-de magoar. — Meu alferes, perdoe, mas da espada não me separo, nem de noite nem de dia. Assim ojurei aNossa Senhora. (1.20.31 min— 1.20.42 min) 21 Embora ofilme mantenha ocunho irónico ebem-humorado, legível também no conto aquiliniano, apresenta umas cenas eróticas emacabras, inexistentes no conto. Isto éevidente sobretudo nas duas cenas da primeira parte, ligada àlenda da Mão do finado. Aprimeira corresponde àcena sexual do peregrino com airmã da donzela durante oseu sono, cena que pode ser percebida, anível simbólico, como oprimeiro indício da perturbação adolescente da donzela. Asegunda cena passa-se no castelo do fidalgo misterioso (omesmo peregrino eladrão) que ganhou amão de Sílvia após ter morto um dragão. Aqui orealizador, ao contrário do seu predecessor literário, aproveitou muito mais alenda do Barba Azul: ocenário escuro epesado de um castelo terrivelmente frio edespovoado, com sugestões agressivas emacabras, evoca bem ohorror do castelo do assassino lendário e, simultaneamente, realça aessência demoníaca do fidalgo impostor. Embora no conto aquiliniano sejam visíveis os motivos diabólicos, estes sugerem aatmosfera folclórico-lúdica em que afigura do diabo, sempre vencido, ganha contornos ridículos. Ofilme, ao contrário, aprofunda mais onível simbólico (se não mesmo psicanalítico) em que afiguração demoníaca corresponde àimagem tanto do mal edo pecado, como dos instintos ocultados. Neste sentido, afigura feminina passa por várias provas como se fosse um ritual iniciático. Sob tal perspetiva pode ser também interpretado ofinal do filme que é, ao contário do conto, profundamente melancólico. Em vez da alegria de vencer odemónio, evidente no conto aquiliniano, ofilme afunda-se numa atmosfera triste, selada pelas últimas palavras da donzela (“Agora estou sozinha diante das estrelas”) que afinal mostram oquão interiorizado efamiliar lhe era ovencido instinto demoníaco. 21 Ibidem, p.117. ftn 21 OPEN ACCESS