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Euclides da Cunha nas vascas da modernidade

Walnice Nogueira Galvão

Abstract

Euclides da Cunha embraced the role of posthumous champion of the backlanders slaughtered by the Brazilian army during the Canudos War. He claimed to have written an “avenging book”. Coming of age at the turn of the century, his work would bear witness to a Modernity that was both historical and aesthetic.

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Euclides da Cunha nas vascas da modernidade Walnice Nogueira galvão Faculdade de Filosofia, Letras eCiências Humanas da Universidade de São Paulo Duas forças motoras da modernidade atravessaram avida eaobra de Euclides; e, pode-se mesmo dizer, levaram-no de roldão. Aprimeira foi oimperialismo easegunda sua derivação: ocolonialismo. Pode parece impróprio falar de imperialismo ecolonialismo acerca de uma nação de há muito independente: oBrasil conquistou sua autonomia em 1822 eOs sertões saiu em 1902. Mas houve, como se sabe, uma recrudescência do imperialismo, sob aforma de colonialismo, no final do século XIX, sob cujo influxo as potências europeias praticamente dividiram omundo entre si, operando atéuma famigerada “Partilha da África”, cujas nefastas consequências se fazem sentir atéhoje. Do lado das ideias, esse novo imperialismo, ou colonialismo, concretizou-se numa espécie de levantamento dos recursos do mundo mais atrasado— como se dizia então— para fins de exploração pelo mundo mais adiantado. E, como aprodução de ciência ainda era incipiente nesse mundo mais atrasado, todo osaber que alguém como Euclides tinha que absorver eaplicar era essa ciência imperialista ecolonialista— contra ele próprio, portanto. Ora, para justificar aexploração, as nações europeias não só mobilizaram muitos cientistas, no caso exploradores, naturalistas, botânicos, mineralogistas, etc., como também produziram teorias que analisavam cientificamente os povos desse mundo mais atrasado como raças inferiores: esse era otermo usado. Etemos então Euclides às voltas com essas condenações de sua própria inferioridade, ede seu país, ede sua gente. Tudo isso para entender oque se passou com os rebeldes de Canudos, que ele aprendeu aadmirar aduras penas econtradizendo aciência europeia. Foi ele quem declarou num poema: “Sou um misto de celta, de tapuia egrego”, admitindo amiscigenação típica de sua gente ede seu país, mas omitindo oelemento africano, de que todos se envergonhavam porque aciência europeia assim odecretava. Vale enfatizar que as doutrinas do cientificismo são oequivalente, àépoca, ao que areligião fora nas cruzadas ena conquista do Novo Mundo. Tempos depois de publicar seu livro, vemo-lo numa carta indagando as razões de sermos obrigados adepender de um saber que não vem de dentro mas de fora: “se as nações estrangeiras mandam cientistas ao Brasil, que absurdo haverá no encarregar-se de idêntico objetivo um brasileiro?” (Carta aJoséVeríssimo, 24. 6. 1904) OPEN ACCESS 72 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA Isto posto, um balanço da contribuição de Euclides da Cunha deve levar em conta as múltiplas facetas de sua atuação ede sua obra. Pouco nos lembramos de que Euclides da Cunha está escrevendo Os sertões na contemporaneidade do grande romance realista brasileiro de Machado de Assis, que marca amaturidade deste eseus últimos anos de vida. Ambos foram participantes da cena literária simultaneamente pelo menos por uma década, como mostram as cartas que trocaram. Eviriam amorrer com pequeno intervalo— Machado aos 69 anos em 1908 eEuclides aos 43 anos em 1909. Ainda assim, não se pode imaginar obras mais dessemelhantes. Se, por um lado, oNaturalismo, tanto quanto oRealismo, já dera seus melhores frutos, por outro lado os primeiros sinais do Modernismo, que faria sua rumorosa aparição em cena na Semana da Arte Modema de 1922, não chegariam aalcançar Euclides em vida. Por tudo isso, costuma-se colocar Euclides no Pré-modernismo, sem dúvida na falta de melhor categoria. Quando se considera que ooutro prosador do mesmo período que sobressai da média éLima Barreto, aheterogeneidade se acentua desconfortavelmente. Sobretudo naturalista epositivista, Euclides vai ser rejeitado pelo Modemismo. Aretórica do excesso, oregistro grandíloquo, otom altíssono só poderiam ser avessos ao espírito modernista. Acrescente-se aisso sua preocupação pelo uso de uma língua portuguesa castiça eatéarcaizante, ao tempo em que Mário de Andrade ameaçava todo mundo com seu projeto de escrever uma Gramatiquinha da fala brasileira. No entanto, mal sabiam os modernistas que em Euclides contavam com um abridor de caminhos. As numerosas emendas aque submeteu as sucessivas edições de Os sertões, enquanto viveu, apontam para um progressivo abrasileiramento do discurso. No longo processo de emendar seu próprio texto, aprosódia vai aos poucos ganhando da ortoépia, esta sim portuguesa, mostrando que oouvido do autor ia desautorizando sua sintaxe e, principalmente, sua colocação de pronomes. Ainda mais, oModernismo vai dar continuidade aalgumas das preocupações de Euclides com os interiores do país ecom arepulsa àmacaqueação europeia nos focos populacionais litorâneos. Partilha igualmente com ele areflexão sobre aespecificidade das condições históricas do país, na medida em que, já em Os sertões, Euclides realizara um mapeamento de temas que se tornarão centrais na produção intelectual eartística do século XX. Nele se debruçara sobre onegro, oíndio, os pobres, os sertanejos, acondição colonizada, areligiosidade popular, as insurreições, osubdesenvolvimento eadependência. Aí fincam suas raízes não só oModernismo mas também oromance regionalista de 1930 eonascimento das ciências sociais no país na década de 40. Muitas dessas preocupações não eram, evidentemente, exclusivas de Euclides, mas comuns às elites ilustradas nas quais ele se integrava edas quais vai se destacar ao escrever Os sertões. Ede muitas delas atése pode dizer que ele as aprendeu na escola, pois amarca do militar émuito forte em seu livro. Este militar cedo se licenciou do exêrcito para nunca mais retornar; e, sem dúvida, apartir de certo ponto se sentia pouco àvontade na farda, como mostram suas cartas aamigos efamiliares no período de decisão. Mas não se deve perder de vista que se trata do livro de um OPEN ACCESS WALNICE NOgUEIRA gALVÃO 73 militar por formação, oque éfundamental para que se entendam tanto as origens de tais preocupações quanto aextraordinária reviravolta de consciência causada pela guerra de Canudos, testemunhada de corpo presente. Ofato de Euclides ter feito seus estudos completos na Escola Militar do Rio de Janeiro, de onde saiu apto para se profissionalizar como engenheiro militar, pesa poderosamente em seus escritos. Essa era uma escola de ponta que, produzindo vanguardas, constituiria um foco modernizador eteria atuação marcante na política brasileira, sobretudo na década em que Euclides foi aluno. Seu prestígio pode ser inferido do fato de que muito senador eministro continuava aser professor nela durante sua carreira política. Foram seus alunos oduque de Caxias, estrategista ecomandante-em-chefe da Guerra do Paraguai; os dois primeiros presidentes da República, marechais Deodoro da Fonseca eFloriano Peixoto; AndréRebouças que se realizou como engenheiro eprofessor de engenharia; Pereira Passos, oresponsável pela urbanização do Rio de Janeiro. Obarão do Rio Branco, um estadista de envergadura, prestou inestimáveis serviços na demarcação de fronteiras, quando ministro das Relações Exteriores. Benjamin Constant, ministro da Guerra da recém-proclamada República eem seguida ministro da Educação, foi oautor da primeira reforma de ensino republicana, de inspiração positivista. Para terminar, registre-se onome de Cândido Mariano Rondon, idealizador do indigenismo brasileiro, fundador do primeiro Serviço de Proteção ao Índio, aque se dedicou durante toda avida, após ter sido colega de turma de Euclides. Eainda muitíssimos outros, que transformaram de várias maneiras os destinos do país. Marcas da Escola Militar foram opositivismo, oabolicionismo eorepublicanismo: olema da nova bandeira vai ser, como éatéhoje, Ordem eProgresso, diretamente extraído dos livros de Auguste Comte. Benjamin Constant pregava aseus alunos que osoldado deveria ser antes de tudo um cidadão armado, com uma missão ao mesmo tempo civilizatória, humanitária emoral. Esses princípios viriam mais tarde ase institucionalizar na reforma da Escola Militar de que foi autor, em 1900. Ora, tal concepção tinha sido uma criação da Revolução Francesa, só que ao contrário: eram os cidadãos que se tinham armado para propagar os ideais revolucionários pelo mundo, para civilizar omundo ainda oprimido pelo Antigo Regime, enão para militarizá-lo. Estava pronto para ser usado— como de fato ofoi, atépara legitimar achacina dos pobres em Canudos— omito da Revolução Francesa àbrasileira. Amaior contribuição de Euclides pode ser vista na revelação da verdade sobre aGuerra da Canudos. Tudo começou quando um bando itinerante de crentes liderados por um pregador leigo, Antônio Conselheiro, depois de ser escorraçado por toda parte no interior dos estados do Nordeste, acabou por se refugiar numa fazenda abandonada, no fundo do sertão da Bahia, numa localidade chamada Canudos, ao fim de duas décadas de peregrinação. Declaravam-se monarquistas erejeitavam aRepública. Pequenos contingentes de tropas foram enviados contra eles, em mais de uma ocasião, eforam rechaçados. Preparou-se então uma expedição maior, que passaria para ahistória como aterceira expedição, sob ocomando do coronel Moreira César. Este militar distinguira-se na repressão àRevolução Federalista do Rio Grande do OPEN ACCESS 74 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA Sul, já no período republicano, tornando-se conhecido pelo apelido de Corta-pescoço. Aexpedição dirige-se aCanudos e, no primeiro ataque, bate em retirada com pesadas perdas, inclusive ade seu comandante, numa debandada geral, deixando para trás peças de roupa, mochilas, armas emunições. Eque caíram do céu para armar os canudenses, que só dispunham de obsoletos arcabuzes ebacamartes de armar pela boca, municiados com pregos epedregulhos. Foi oestopim para oalarma nacional, que começou com adepredação de quatro jornais monarquistas que ainda sobreviviam, um deles em São Paulo etrês no Rio, continuou em atentados eresultou na convocação da quarta expedição. Esta reuniu tropas vindas de todos os estados do país sob ocomando de nada menos que quatro generais e, apartir de certa altura, atéum marechal, oministro da Guerra, que se deslocou pessoalmente para lá. Oexame dos documentos eda imprensa da época mostra como foi feita amontagem dessa reação desmedida. Arquitetou-se uma representação de Canudos como ofoco de uma contra-revolução monarquista internacional, com sede em Nova York, Paris eBuenos Aires. Essa conspiração contaria com ramificações de toda sorte em território brasileiro, navios ao largo, rede de apoio logístico emesmo treinadores estrangeiros no local. Ainda não existiam na época “armas de destruição em massa”, mas se existissem, teriam sido atribuídas aos canudenses. Após apublicação de dois artigos intitulados “Anossa Vendeia” em OEstado de S.Paulo, artigos que opinavam sobre aguerra, Euclides écontratado pelo jornal para fazer acobertura da campanha como enviado especial. Dessa missão resultou apublicação de uma série de reportagens sobre aguerra, só muitos anos após sua morte recolhidas em livro, que seria oembrião de Os sertões. Ocolegial que escrevera quatro sonetos intitulados “Robespierre”, “Danton”, “Marat” e“Saint-Just”, alimentado com ideias francesas na Escola Militar, iria finalmente viver em pleno omito da Revolucão Francesa àmoda da casa. Ainsurreição dos conselheiristas seria liquidada em 5 de outubro de 1897. Assinala- -se então uma reviravolta de opinião. Mas ébom lembrar que com Canudos ofantasma de um retorno do Antigo Regime ficou exorcizado para sempre, enunca mais foi manipulado como ofora por essa ocasião. Aconspiração monarquista internacional esfumara-se no ar eem lugar dela, acionado apretexto dela, ficara omassacre indiscriminado de gente pobre. Os mesmos líderes que clamavam pelo extermínio agora falam com emoção em crime. Os manifestos estudantis que antes eram cheios de ardor republicano agora protestam indignados. As forças armadas se viram cobertas de opróbrio. Oarraial de Canudos fora arrasado, depois de empapado em querosene aque foi ateado fogo com bombas de dinamite— uma forma primitiva de napalm, inventada pelo irreprimível “jeitinho brasileiro”, orgulho nacional. Resistiria atéoúltimo homem tombar morto; alguns dias antes do fim, fora negociada aretirada de cerca de trezentos prisioneiros, constituídos por mulheres, crianças evelhos. Todos os prisioneiros válidos feitos ao longo da guerra tinham sido manietados edegolados, desde oinício, ante avista dos generais. Éessa reviravolta de opinião que Os sertões expressará cinco anos mais tarde, quando de sua publicação, vindo aser amaior mea culpa da literatura brasileira. Esta OPEN ACCESS WALNICE NOgUEIRA gALVÃO 75 éanada desprezível razão para seu êxito imediato efulminante, concretizado em edições sucessivas, juntamente com aeleição do autor para aAcademia Brasileira de Letras epara oInstituto Histórico eGeográfico. Erazão também de sua permanência na estima geral atéhoje. Se oembrião do futuro livro está na série de reportagens, todavia éainda em escala muito modesta enem de longe dá ideia do que resultaria. Pois, ao mandar os primeiros relatos, Euclides, como todo mundo, inclusive os correspondentes de guerra dos outros periódicos, está convicto de que aRepública se encontra em perigo. Assina os telegramas com asaudação final: “Viva aRepublica!”, oque também era ogrito de guerra das tropas quando avançavam para oataque. Os canudenses seriam contra-revolucionários que visavam derrubar aRepública, aqual, juntamente com aemancipação do cativeiro que imediatamente aprecedera, era oprimeiro passo efetivo no resgate do atraso brasileiro eno rumo da entrada do país no concerto das nações civilizadas. Como pode uma nação ser moderna se tem escravos erei? Mas, àmedida que asérie avança, seu autor torna-se mais reticente, menos ardoroso no entusiasmo republicano. E, mais sintomático ainda, asérie ficará incompleta: nunca foi publicada, nunca apareceu enunca se apurou se afinal foi ou não escrita areportagem que relataria os últimos dias da guerra eachacina da vitória. Olivro, que Euclides levaria cinco anos aelaborar epara oqual faria detidos estudos, seria finalmente um enorme volume de mais de seiscentas páginas. Se compararmos as áreas do conhecimento que lá são mobilizadas com ocurrículo da Escola em seu tempo de aluno, verificamos que já estava familiarizado com boa parte delas. Tinha estudado química orgânica, mineralogia, geologia, botânica, arquitetura civil emilitar, construção de estradas, desenho geográfico, física experimental, topografia edesenho topográfico, ótica, astronomia, geodésia, administração militar, tática eestratégia, história militar, balística, mecânica racional, tecnologia militar eas matemáticas. Afora outras, de natureza diversa destas, como direito natural edireito público, direito militar, análise da Constituição, direito internacional aplicado às relações de guerra. Todas essas, emais algumas, faziam parte de seu currículo escolar. Como matérias de currículo, não teriam sido obrigatoriamente estudadas afundo, conforme se percebe no livro, mas écom as vistas afinadas por esses saberes que Euclides avalia Canudos eaguerra. Mas ainda não era suficiente. Aparecem no livro extensos estudos de história de Portugal edo Brasil, sobretudo no que diz respeito àcolonização eao povoamento, necessários para responder asuas indagações quanto àorigem eformação da gente de Canudos. Concorrem igualmente noções de antropologia, de sociologia, de folclore, de religião ede psicologia social, esta última com ênfase no que os cientistas sociais do século XIX chamavam de comportamento anormal das multidões, preocupados como andavam com aprimeira evitoriosa revolução social de massas desencadeada nas ruas pela Revolução Francesa. Assim considerado, olivro aparece como uma formidável enciclopédia onde teorias sobre as causas das secas que assolam oNordeste ombreiam com interpretações psicocriminais da instabilidade nervosa dos mestiços, eacrítica às taticas desenvolvidas pelo exército com análises de preceitos religiosos. Essa denúncia que tem ao mesmo tempo uma ambição enciclopédica éomelhor legado de Euclides àposteridade. OPEN ACCESS 76 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA Entretanto, sua contribuição não se restringiria ao sertão. Em fase subsequente de sua vida, iria àAmazônia eali se indignaria ante amiséria sem alívio dos seringueiros, sobre os quais escreveria páginas memoráveis eatéhoje insuperadas. Uma constante insatisfação eoimpulso ao nomadismo eram traços da personalidade de Euclides. Não conseguia ficar parado em lugar nenhum eera portador de um espírito de aventura que oespicaçava. Acabaria por transferir-se para oRio de Janeiro, seu último local de residência, após muitos anos de pular de cidade em cidade enquanto exercia as funções de engenheiro civil da Secretaria de Obras Públicas do Estado de São Paulo. Morou em São Josédo Rio Pardo, onde escreveu Os sertões, mas também em Lorena eGuarujá, sempre levado pelo exercício da profissão. Mas, naquele tempo, todo mundo queria ir para oRio, capital eúnica cidade digna desse nome no país, enquanto São Paulo mal chegava aos 200 mil habitantes, na virada de século. EEuclides obedeceria àmesma tendência. Fizera de tudo para obter uma posição na Guerra de Canudos, conseguindo que Júlio Mesquita, diretor de OEstado de S. Paulo, jornal para oqual escrevia regularmente, pedisse sua colocação em telegrama ao presidente da República, Prudente de Morais. Como vimos, seguiria para lá como adido ao estado-maior do Marechal Machado Bittencourt, ministro da Guerra ecomandante-em-chefe das forças em campanha, mas também como enviado especial do jornal ao palco dos acontecimentos. Quando já residindo no Rio, soube que se preparava uma excursão oficial àAmazônia. Novamente, moveu céus eterras epistolões— no caso, Oliveira Lima eJoséVeríssimo, dois destacados intelectuais da época— junto ao barão do Rio Branco, para conseguir anomeação para achefia da Expedição de Reconhecimento ao Alto Purus. Era importante fazer oreconhecimento desse afluente do Amazonas, bem como olevantamento cartográfico do curso do rio, porque havia nessa época questões de fronteiras com oPeru eaBolívia que precisavam ser acertadas, como de fato foram, com nosso Ministério das Relações Exteriores, de que era chefe Rio Branco. Este, como aprendemos na escola, foi oestadista que conseguiu, através de tratados amigáveis, sem guerras, fixar de uma vez por todas as fronteiras do Brasil. EEuclides, felicíssimo, dando largas asua personalidade aventuresca, novamente partiu para uma expedição que se embrenhava por territórios não desbravados. Onavio que otransportava zarpou do Rio em dezembro de 1904, fundeando em Manaus. Ali hospedou-se na Vila Glicínia, como era chamada acasa de Alberto Rangel, seu colega de Escola Militar, discípulo literário efuturo autor de Inferno Verde, de contos amazônicos. Os preparativos se arrastam de janeiro aabril, para desespero de Euclides: faltam instruções, falta material, faltam verbas, falta tudo. Finalmente, aexpedição arranca, em duas lanchas eum batelão com mantimentos. Ajornada, varando Amazônia afora, em meio aperigos etremendo desconforto, foi cheia de percalços. Obatelão naufragou, tiveram que abandonar as lanchas earrastar canoas na vazante, em que chafurdaram devido ao atraso, chegando ao destino famintos, esfarrapados ecom malária. Ao todo, durou seis meses emeio. Mas cumpriram amissão acontento, como se pode ler no Relatório que Euclides escreveria em seguida, depois de voltar ao Rio, onde chegou no dia 5 de janeiro de 1906. OPEN ACCESS WALNICE NOgUEIRA gALVÃO 77 Forneceu mapas sobre pontos litigiosos da fronteira einstruções para aconstrução da ferrovia Madeira–Mamoré. Logo denunciaria otrabalho semi-escravo usual na região no artigo denominado “Entre os seringueiros”, na revista Kosmos. Trazia da Amazônia aintenção de escrever um livro intitulado Um paraíso perdido, que seria, como dizia, Os sertões do Norte, todo de denúncia das terríveis condições de vida dos trabalhadores da borracha. Mas morreria três anos depois sem oescrever. Décadas mais tarde, os artigos avulsos sobre otema seriam reunidos numa compilação epublicados sob esse título. Omais notável deles é“Judas Ahasverus”, em que, num lance de interpretação arrojado, compara oJudas da malhação no sábado de Aleluia aum bode expiatório do sofrimento dos seringueiros. Estes jamais pagarão sua dívida ao armazém do dono do seringal eportanto não poderão ir embora dali, enquanto oJudas-boneco-malhado compensatoriamente desliza rio abaixo na jangada em que ocolocaram. Obscurecida pela fama de seus livros, pode passar despercebida sua prática constante do jornalismo. Nesse campo, foi grande também sua contribuição. Desse modo, na inexistência de outra mídia, estabelecia relações imediatas com os leitores elevava atéeles questões de relevância. Opercurso irrequieto de Euclides da Cunha inclui um jornalismo multifacetado, de um intelectual que nunca se considerou jornalista, mas sim engenheiro eescritor, ambas as profissões tomadas com amaior seriedade. No capítulo das profissões, mais uma vez enfatizamos que ele era, inicialmente senão primordialmente, militar. Eum muito especial, que cursara aEscola Militar da Praia Vermelha. Euclides, bem como sua turma de colegas, seria muito cônscio de afiliar-se auma elite epor isso ter deveres para com acoletividade. Não se considerava um mero soldado, mas algo bem superior. Como exemplo, seu cartão de visita levava gravado, abaixo do nome, “Bacharel em matemáticas eciências físicas enaturais”, título que recebera ao se formar: oque não podia ser mais civil, como identidade eauto-apresentação. Odesgosto com acarreira logo se manifestaria, levando-oareformar-se precocemente aos trinta anos, em 1896. Mas continuaria exercendo aprofissão de engenheiro, só que civil enão mais militar. Que espécie de engenheiro era? Os passos de sua trajetória, depois que deixou oexército, são comentados sobretudo na correspondência, preciosa para adocumentação dos lugares por onde andava, das tarefas que executava ede seu estado de ânimo. Reparava ou construía quartéis, pontes, calçadas, prisões, estradas. Seria obrigado amorar sucessivamente em diferentes cidades e, fazendo pião em cada uma delas, viajar incansavelmente para vistoriar os trabalhos. Transferindo-se para oRio, ao voltar da Amazônia conseguiria um posto no Ministério das Relações Exteriores junto ao barão do Rio Branco. Eno ano em que morreu, trataria de fazer concurso para tornar-se professor de Lógica no Colégio Pedro II. Fazendo as contas, foi àprofissão de engenheiro aquela aque se dedicou com maior constância, durante um maior número de anos. Isso não impediu que dela reclamasse incessantemente, como antes reclamava da carreira militar. Queixava-se, nas cartas, da fadiga edo nomadismo, mas também da mediocridade do ambiente edos contatos. Equipara sua casa auma “tenda árabe”, OPEN ACCESS 78 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA asi mesmo aum “peregrino” atémunido de cajado, sua vida de trabalhos auma “peregrinação”. Seu ofício éàs vezes “uma engenharia errante”, às vezes “uma engenharia andante”, outras vezes “uma engenharia fatigante”, ou ainda uma “profissão ingrata”. Atribuía esse desgosto ao fato de que ocunho andarilho de sua vida nessa fase omantivesse afastado dos livros, dos estudos eda escrita. Entretanto, um passo amais logo seria dado. Após osucesso instantâneo de Os sertões em 1902, que ometamorfoseia de engenheiro em escritor, Euclides torna-se mais explícito em seus termos, tendendo aconsiderar aprofissão como coisa do passado, quase um equívoco. Équando manifesta seu anseio de “sair breve desse desvio morto da engenharia” e, mais do que isso, mostra que está perfeitamente ciente do salto que acabara de dar. Em carta de 1903 aAraripe Júnior, diz-se modestamente “um engenheiro-letrado”, que da noite para odia se tornara “um escritor, apenas transitoriamente desgarrado na engenharia”. Pode-se dizer que obicho da imprensa mordeu Euclides desde muito cedo. Como todo escritor brasileiro— no que constitui um rito de passagem obrigatório, conforme figura na biografia dos verdes anos deles— já no Colégio Aquino (1883–1884) fazia parte da equipe que produzia ojornalzinho dos estudantes, oDemocrata. Na Escola Militar, fez omesmo, escrevendo para aRevista da Família Acadêmica. Eao ser expulso da Escola, após seu gesto de insubordinação— quando atirara osabre ao chão em desacato ao ministro da monarquia que passava em revista os cadetes perfilados, em 1888— vai estrear no diário paulista. Éaí que começa sua atuação na imprensa profissional, ou naquilo que hoje se chama agrande imprensa. Euclides, aexemplo dos escritores coevos, exercia com muita naturalidade ojornalismo, para ele um canal de expressão de que se utilizava sem maiores problemas. Mas ébom atentar que não passava daí. Relegaria ao ineditismo amaior parte de sua colaboração na imprensa. Apenas tratou de abrigar em livro os artigos mais cuidados ede maior peso, que iriam para as páginas de Contrastes econfrontos ede Àmargem da história. Oórgão de eleição continuaria aser OEstado de S. Paulo, embora fizesse incursões por alguns poucos outros, como OPaís, ou mesmo um mais literário como arevista Kosmos. Todo orestante permaneceria relegado, enão só oDiário de uma expedição, mas todas as séries assinadas com vários pseudônimos. Tentando uma síntese, talvez se possa dizer que Euclides teria passado por três fases no exercício do periodismo. Aprimeira foi afase da militância republicana. Ao ser expulso da Escola Militar, com reintegração após oadvento da República ao cabo de um ano, publicaria de 1889 a1892 na folha paulista constantes ataques ao regime monárquico, os quais nunca se interessou em recolher em livro. Também não oforam alguns para oDemocracia, da mesma época. Constituiriam conjuntamente, vários decênios após sua morte, aseção Crônica, quando se editou pela primeira vez aObra completa, em 1966, evidenciando como participara vivamente da discussão dos rumos da novel República. Asegunda fase, curta porém significativa, foi ada série de reportagens sobre aGuerra de Canudos, de 1897, osupracitado Diário de uma expedição, que tampouco sequer pensou em pôr em livro. Uma terceira fase éados artigos de maior ambição, contendo contribuições originais, parte dos quais iria integrar, como vimos, dois de seus últimos livros. Tão OPEN ACCESS WALNICE NOgUEIRA gALVÃO 79 pouca era aimportância que atribuía asuas matérias na imprensa que só acompilação dos inéditos forneceria todo um novo livro na Obra completa, aque foi dado otítulo de Outros contrastes econfrontos. Integra amesma coletânea mais um conjunto de inéditos, porém menos extenso, chamado Àmargem da geografia. Vê-se, portanto, que afora os dois volumes por ele mesmo montados com os artigos emais relatórios de trabalho, resenhas de livros, prefácios epalestras, ainda sobrou muita coisa, que só pudemos apreciar depois que houve essa primeira edição de sua Obra completa. Poderemos errar redondamente se examinarmos ojornalismo de Euclides como um processo linear, ase desenrolar retilinea eevolutivamente desde ouso de suas outras assinaturas— ou mesmo antes, nas duas publicações escolares— atéoúltimo artigo, que ficou incompleto, culminando em algumas de suas melhores páginas, coligidas em Contrastes econfrontos eem Àmargem da história. Talvez fosse mais adequado considerar essa prática com uma certa perspectiva, que levasse em conta aintenção de examinar separadamente, ecom olhares diferentes, aquilo que Euclides selecionou para livro eaquilo que jamais quis republicar. Assim poderíamos ver dois profissionais simultaneamente em ação, ojornalista eoescritor. Ou quem sabe quatro: afora esses dois, também omilitar eoengenheiro. De qualquer modo, sua contribuição para os estudos brasileiros ombreia com ade nossos maiores mestres. EUCLIDES DA CUNHA IN THE THROES OF MODERNITY Euclides da Cunha embraced the role of posthumous champion of the backlanders slaughtered by the Brazilian army during the Canudos War. He claimed to have written an “avenging book”. Coming of age at the turn of the century, his work would bear witness to aModernity that was both historical and aesthetic. KEY WORDS / PALAVRAS-CHAVE: Euclides da Cunha; tradition; Modernity Euclides da Cunha; tradição; modernidade Endereço profissional: Faculdade de Filosofia, Letras eCiências Humanas da Universidade de São Paulo Endereço eletrónico: [email protected] OPEN ACCESS