Alguns aspetos da interferência das ideias da revolução científica do início do século XX na poesia de Mário de Sá-Carneiro
Abstract
The article explores the relationship between poetic creativity and the achievements of scientific thought in the early twentieth century. It does this through an analysis of aesthetic concepts and examples from the poetry of Mário de Sá-Carneiro, alongside an exploration of the main provisions of Theoretical Physics from the early twentieth century as far as the conceptions of space are concerned.
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Alguns aspetos da interferência das ideias da revolução científica do início do século XX na poesia de Mário de Sá-Carneiro Maria Mazniak Universidade Estatal de São Petersburgo Ocaminho da vida do poeta português Mário de Sá-Carneiro (1890–1916) foi extremamente breve. Mas operíodo— ainda mais curto— da sua atividade criativa (1912–1916) insere-se no meio de uma busca mundial por ideias novas eradicais, ediferentes abordagens na arte, ciência, política, medicina eem quase todas as áreas da vida pública. Aopinião corrente de que Mário de Sá-Carneiro não criou nem formulou conceitos filosóficos ou estéticos próprios, mas apenas seguia as sugestões do seu amigo Fernando Pessoa ou adaptava as tendências estéticas então em voga, não écorreta. Averdade éque Sá-Carneiro, sendo amigo ecolaborador próximo de Pessoa, discutiu elevou em conta muitas das propostas deste, conforme se vê pela extensa correspondência trocada entre os dois. No entanto, todas as práticas literárias de Sá-Carneiro em poesia eprosa resultado do seu próprio conceito estético de “Arte fluida”. A“Arte fluida” éaarte de fluxo livre, volátil, etérea. Éuma arte que supera agravidade, dirige-se para cima, para aatmosfera,, para aesfera celeste; lá, onde reina aimponderabilidade, aspira àleveza edesafiaa gravidade1.Então, oconceito da “Arte fluida” representa: Uma arte fluida, meu amigo, uma arte gasosa... [...]— uma arte sobre aqual agravidade não tenha acção!... [...]. Chamo assim as estrofes irregulares em que se dividem os meus poemas: suspensas, automáticas, com asua velocidade própria— mas todas ligadas entre si por ligações fluidas, por elementos gasosos...2 Emais além: Uma Arte gasosa... poemas sem suporte... flexíveis... que se podem deslocar em todos os sentidos... Uma Arte sem articulações!... Uma Arte correspondente às formas aéreas que as realidades incrustam!... Sons interseccionados, planos 1 Mazniak 2015, p.190. 2 Sá-Carneiro 1999, p.126. OPEN ACCESS
MARIA MAZNIAK 115 cortados, múltiplos planos— ideias inflectidas, súbitas divergências... Tudo se transpassará, se esgueirará, perpetuamente variável, ondulante— mas, sem somatório, sempre omesmo conjunto!...3 Estas citações emocionais podem ser percebidas como um manifesto do conceito. Todas as teses aqui presentes— “sem gravidade”, “não suportando”, “suspensas”, “automáticas”, “sem articulações”, “sem somatório”— têm um denominador comum: aafirmação de uma Liberdade omnipresente: 1) liberdade de objetos face ao mundo real, superando os seus inúmeros obstáculos; 2) liberdade do autor ao superar os grilhões da composição, da sintaxe eda semântica; 3) liberdade dos próprios versos cujas linhas eletras fogem da composição rígida; 4) liberdade do percetor cujos sentidos não são limitados por coisa alguma. Outra condição importante da “Arte fluida” éomovimento contínuo, perpétuo, “eterno” de todos os elementos da imagem. Orequisito para omovimento éabsoluto eindiscutível, talvez mais forte do que nas outras correntes modernistas. Eanatureza desses movimentos deve manifestar-se de modo harmonioso, variado ebonito, de tal forma que se assemelhem àdança emúsica das Temporadas Russas de Diaghilev eStravinsky, emais: de Schoenberg, por exemplo. Tal tipo de movimento na “Arte fluida” de Sá-Carneiro distingue-se, pelo seu dinamismo excecional, do movimento mecânico do Futurismo ou dos movimentos circulares do Vorticismo. Éque esta arte— a“Arte fluida”’— pode mover-se em qualquer direção ecom qualquer velocidade, supera agravidade e, não estando num movimento de queda livre, permanece antes num estado de no “pairar livre”. Ouso dos termos adotados na física parece-nos apropriado neste caso. Aprópria física éuma ciência ambígua. Com oseu arsenal de precisos cálculos matemáticos, não abandona, ao mesmo tempo, generalizações filosóficas sobre oser eoexistir, trabalhando-as tendo por base as fundamentais propriedades da matéria. Assim como no início do século XX afísica clássica de Newton acaba por substituir-se pela física relativista enão-euclidiana de Einstein, eprobabilística de Bohr, aarte clássica com asua composição construída, as suas expressões figurativas, ideológicas eespecíficas acaba por ser substituida por uma arte livre, compreendida, de um modo geral, como arte modernista. Onovo modelo do mundo proposto por matemáticos efísicos influenciou amente dos artistas, pintores eintelectuais do início do século XX. Amudança do cronotopo eaconsciência da existência de muitos “cronotopos” , de certa forma iguais, foi um dos sinais principais daquele golpe da conceção do mundo que marcou adécada de 1907 a1917, eque acabou por constituir achave de toda ahistória do século. Opróprio início do século XX, como ofenómeno cultural na área estética, émarcado por múltiplos “ismos”— oFuturismo, oExpressionismo, oCubismo eCubofuturismo russo, oDadaísmo, oSurrealismo, passando pelo Modernismo Português, oPaulismo, oInterseccionismo, oSensacionismo pessoanos— todos unidos por um 3 Ibidem, p.128. OPEN ACCESS
116 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA objetivo: modernizar aarte, libertando-a. Desta forma, a“Arte fluida” de Mário de Sá-Carneiro, com asua primeira condição para aisenção de quaisquer restrições, pode ser considerada como criada “no espírito da época”, que compreendia a“livre circulação” de pensamentos eimagens divulgada pela sintaxe epela linearidade do texto, correspondendo as declarações da sintaxe no Futurismo (“Palavras em liberdade”, por exemplo), e, ainda, as conquistas poéticas dos simbolistas. Num manifesto “improvisado” do conceito de “Arte fluida” podemos notar um grande número de termos ambíguos possuindo, nesse caso, oimpulso dual de interpretações cognitivas: nas áreas da literatura eda arte, ena área das ciências exatas enaturais: 1) deslocação em todos os sentidos— poemas que podem mover-se em todas as direções, adquirindo, ao mesmo tempo, todos os tipos de significados; 2) súbitas divergências— discrepâncias não-determinísticas ou divergências ocasionais; 3) planos cortados— planos caifados ou sentidos reprovados; 4) múltiplos planos— múltiplos significados eplanos, eespaços multiplicados. Uma parte do vocabulário usado está diretamente relacionada com as ciências naturais eexatas, como afísica eamatemática: ligações fluidas; elementos gasosos; flexíveis; ondulantes; as formas aéreas; ideias inflectidas; com asua velocidade própria; agravidade; sons intersecionados; sem somatório. Ecomo apogeu destas reflexões, opoeta conclui: “Poemas sem suporte”, isto é, poemas apairarem no espaço “físico” emetafórico. Todo este movimento realiza-se no espaço. Opróprio espaço torna-se condição necessária eindispensável para alcançar um estado do pairo: Etudo, tudo assim me éconduzido no espaço Por inúmeras intersecções de planos Múltiplos, livres, resvalantes. Aconfiguração espacial éomelhor espelho da forma como os seres humanos codificam conceptualmente arealidade em que estão inseridos, desde arealidade física do mundo que os rodeia atéàs relações eestruturas conceptuais que constroem enas quais se inserem. Aontologia não clássica do espaço éformada dentro da teoria da relatividade esuas aplicações, efornece oespaço que existe objetivamente em relação ao tempo, àmatéria eàenergia. Em 1905 surgiu ateoria da relatividade especial cuja ideia principal era ade que, em determinadas condições (longas distâncias elimites de velocidade aproximando-se da luz) opróprio tempo devia ser considerado como uma categoria do próprio espaço— sendo, assim, aquarta dimensão do espaço. De um modo geral, na teoria da relatividade especial ou restrita, oespaço eotempo perdem asua autonomia eformam oconjunto único do espaço-tempo, ou seja, oespaço quadridimensional, um certo “mundo” de quatro dimensões. Assim, aeterna dialética do tempo edo espaço resolve-se no início do século XX afavor do último. OPEN ACCESS
MARIA MAZNIAK 117 Em Sá-Carneiro, oespaço está presente implícita emetaforicamente como condição necessária para aexecução de qualquer movimento— voo, pairo... Neste caso, osinónimo do espaço representa-se através da palavra “ar”: Mil cores no Ar, mil vibrações latejantes... [...] Lá vão todas no Ar às cabriolas... [...] Éno ar que ondeia tudo! Élá que tudo existe! Todas as citações acima referidas são do poema “Manucure”, publicado pela primeira vez em 1915 na revista Orpheu. Em “Manucure” toda aação se efetua no Ar: as visões refratam-se nos espelhos, os objetos enxameiam oar, formando uma espécie de mosaico. Os dizeres dos caixotes edos embrulhos amontoados nas estações formam uma névoa variegada na qual se entrelaçam os arcos dos estribos, ocontorno dos bancos, acabeça dos pregos: — Olha as mesas… Eia! Eia! Lá vão todas no Ar às cabriolas, Em séries instantâneas de quadrados Ali— mas já, mais longe, em losangos desviados… Eentregolfam-se as filas indestrinçavelmente, Emisturam-se às mesas as insinuações berrantes Das bancadas de veludo vermelho Que, ladeando-o, correm todo oCafé… Nota-se aqui adeformação dos objetos: fundo alusivo àdesfiguração das proporções, achatamento das superfícies, fragmentação de objetos, angularidade das formas, preservando-se, contudo, aideia do objeto representado. Opoeta olha para amesa evê asua: … chávena banal de porcelana… Ah, essa esgota-se em curvas gregas de ânfora, Ascende num vértice de espiras Que oseu rebordo frisado aouro emite… As linhas dos objetos circunvizinhos estreitam-se earqueiam-se eas cores atingem amáxima intensidade. Essas citações correspondem às ideias da teoria da relatividade, onde opróprio espaço não éestático, mas sim dinâmico, que se muda, se curva, recebe as propriedade da curvatura eestá estreitamente ligado ao fenómeno da gravidade. Mário de Sá-Carneiro no momento do aparecimento da teoria da relatividade especial tinha quinze anos e, embora não tenhamos conseguido encontrar testemunhos diretos do conhecimento do jovem poeta com as novas ideias dos físicos ematemáticos, supomos que ele não se tenha mantido afastado do novo paradigma da consciência. Além disso, durante as suas frequentes estadias em Paris, opoeta OPEN ACCESS
118 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA português apaixonou-se por um romance de Gaston de Pawlowski “Vouage au pays du quatrième dimention” que se baseia na adaptação mística das ideias científicas. BIBLIOGRAFIA Mazniak, Maria. “Oconceito do espaço como abase para aconvergência da teoria da relatividade de Albert Einstein eda ‘Arte fluidaʼ de Mário de Sá-Carneiro”. In Isabel Ponce de Leão, Maria do Carmo Mendes & Sérgio Lira (eds.). As Artes eas Ciências em Diálogo. Actas do Congresso Internacional. Porto, 2015, p.189–194. Sá-Carneiro, Mário de. Céu em fogo. Lisboa: Assírio & Alvim, 1999. Sá-Carneiro, Mário de. Poemas completos. Lisboa: Assírio & Alvim, 2005. SOME ASPECTS OF THE INTERFERENCE OF THE IDEAS OF THE SCIENTIFIC REVOLUTION OF THE BEGINNING OF THE TWENTIETH CENTURY IN THE POETRY OF MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO The article explores the relationship between poetic creativity and the achievements of scientific thought in the early twentieth century. It does this through an analysis of aesthetic concepts and examples from the poetry of Mário de Sá-Carneiro, alongside an exploration of the main provisions of Theoretical Physics from the early twentieth century as far as the conceptions of space are concerned. KEY WORDS / PALAVRAS-CHAVE: Scientific revolution; Portuguese Modernism; Mário de Sá-Carneiro Revolução científica; modernismo português; Mário de Sá-Carneiro Endereço profissional: Universidade Estatal de São Petersburgo Endereço eletrónico: [email protected] OPEN ACCESS