Raul Brandão— ACondição Trágica do Homem Moderno Teresa Martins Marques CLEPUL, Universidade de Lisboa Todos os dias dizemos as mesmas palavras, cumprimentamos com omesmo sorriso efazemos as mesmas mesuras. Petrificam-se os hábitos lentamente acumulados. Raul Brandão: Húmus AObra de Raul Brandão afirma acondição trágica do homem moderno, numa íntima conexão entre avida eaescrita, conjugando acontestação earevolta, levando, ao mais alto grau, os paradoxos reflexivos do sujeito agónico. Maria João Reynaud, editora de Raul Brandão euma das suas melhores exegetas, situa oautor dentro das linhas fundamentais da estética finessecular, superando oimpacto de várias influências contraditórias que vão do spleen baudelairiano ao pessimismo de Schopenhauer, ao psicologismo de Paul Bourget eàs influências do romance russo, particularmente de Dostoievski. Raul Brandão pôs radicalmente em causa os modelos literários vigentes na sua época, abolindo aoposição entre prosa epoema, subvertendo as categorias genéricas, desvalorizando os elementos convencionais da narrativa eantecipando as experiências mais inovadoras da ficção portuguesa contemporânea, de que constituem exemplo Finisterra de Carlos deOliveira ou aobra de Maria Gabriela Llansol1. Húmus, opus magnum brandoniano, teve asua primeira versão editada em 1917, no Porto, pela Renascença Portuguesa; uma segunda, muito refundida, em 1921, no Rio de Janeiro, pelo Anuário do Brasil, também com chancela da Renascença Portuguesa; aterceira, resultante de nova refundição, editada em Lisboa em 1926, pelas livrarias Aillaud & Bertrand, esta aedição de última mão, ne varietur. Inclassificável quanto ao género, nas palavras de JoséRégio: “Em vão se tentará arrumá-la dentro de qualquer género definido: nem romance, nem diário, nem colectânea de crónicas, nem ensaio, nem poema, nem confissões; de tudo isto comparticipa eatudo isto se evade”2. Asua estrutura éade um angustioso diário, entretecido de reflexões poéticas emetafísicas, abrangendo cerca de um ano (na terceira edição, de 13 de Novembro a30 de Novembro do ano seguinte), onde alternam dois monólogos interiores, 1 Reynaud, “Introdução”, Brandão 2015, p.8. 2 Régio 1952. OPEN ACCESS
126 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA plasmando um estado alterado da consciência de uma primeira pessoa eavoz do seu duplo, oGabiru, numa atmosfera eminentemente subjectiva, de uma vila estagnada, povoada de velhos, onde oespaço eotempo são deformados eas imagens irrompem reiteradamente como fantasmas. Húmus releva do sentimento do absurdo eantecipa-se ao surrealismo, ao existencialismo eao nouveau roman pelo desmantelamento da intriga tradicional, pela criação de um espaço simbólico, pela diluição das personagens num magma narrativo em que oTempo se torna omotor da “acção”. Idêntico papel inovador lhe reconhece David Mourão-Ferreira como precursor do nouveau roman3. António Sérgio, no terceiro volume dos Ensaios (1932), terá sido porventura um dos primeiros achamar aatenção para aObra brandoniana considerada como “um longo monólogo interior, donde se elevam de espaço aespaço alguns trechos hamléticos de humanidade”4. Guilherme de Castilho afirma que ameditação eosolilóquio sustentam aobra do autor de Húmus5, com asua multiplicidade de intuições marginais, com aprofundidade que atingem certos momentos de penetração iluminante, com aforça emotiva de que se revestem, com opoder de transfiguração poética que os caracterizam. N’AFarsa eno Húmus omonólogo interior exprime um discurso mental eaestrutura que osuporta éelíptica, sincopada, por vezes caótica, como aconhecemos desde Les Lauriers sont coupés (1887) de Edouard Dujardin para atingir oseu pleno desenvolvimento com Ulisses (1922) de James Joyce. Em Raul Brandão opresente da actividade mental das personagens éainda otempo estruturador da narrativa, como muito pertinentemente notou Maria Alzira Seixo, num dos seus primeiros trabalhos ensaísticos— Para um estudo da expressão do tempo no romance português contemporâneo (1966) referindo-se particularmente ao Húmus: Há uma atmosfera de imobilidade que nos colhe eque, sendo anegação do movimento, étambém anegação do tempo. Anarração é-nos feita quase sempre no presente verbal eeste facto, que poderia estabelecer um contacto mais imediato com avida àmedida que vai sendo realizada com oquotidiano, não ofaz porque se situa numa atitude estática que, pelo contrário, conduz auma espécie de eterno presente. Este presente não é, como deveria ser por essência, fugidio, evanescente— éum presente que dura6. Na Obra brandoniana as definições entrecruzam-se atéàcontradição máxima einstituem oprimado da multiplicidade do “Eu“, que filtra apercepção de realidades tão diversas quanto asua capacidade de se fragmentar nos seus contrários, numa perturbante luta interior, num espelho paralelo das múltiplas faces do “fantasma” que se impõe ao ponto de ser ele próprio ojuiz, na peça ORei imaginário. Jacinto do Prado Coelho entende que ogrande assunto de Húmus éadicotomia terrífica do homem eda vida: 3 Cf. Mourão-Ferreira 1969, p.123. 4 Cit. ibidem, pp.126–127. 5 Castilho 1978, p.148. 6 Seixo 1987, p.47. OPEN ACCESS
TERESA MARTINS MARQUES 127 Ese acção existe nesta obra singular, ela parece consistir no choque entre omundo aparente, arotina eomundo autêntico, na descoberta desnorteante, súbita como um relâmpago, de algo monstruoso, informe. Brusca iluminação projectada nos habitantes desta vila onírica etumular onde otempo corrói as almas eas pedras7. Omonólogo aparece-nos sob aforma de diálogo aparente, porquanto os intervenientes são duplos fantasmáticos de contornos indistintos. Essa indistinção reforça a“dissolução do acontecer”8 como em Ulysses por via da “vulgarização”9 daquele 16 de Junho de 1904, dia vulgar na vida vulgar de Leopold Bloom, de Molly Bloom, de Stephen Dedalus. Quer em Ulysses quer no Húmus omundo érepresentado na sua essencialidade ecertos monólogos da Candidinha d’AFarsa oscilando entre arememoração eoprojecto, oreal eoimaginário filiam-se avant la lettre no paradigma do discurso interior de Molly Bloom. Asua fantasia auto-erótica poderá encontrar correspondência na fantasia-vendetta daquela personagem d’AFarsa. AObra brandoniana assenta nos processos narrativos da reiteração eda ressonância, do monólogo simulado em diálogo entre orosto eamáscara, entre ohomem eoseu fantasma. Aprópria vida será dicotomicamente definida como se ela própria fosse rosto emáscara, acto de féde todos instantes eacto estúpido einútil. São os mortos que mandam nos vivos. Esta obsessão brandoniana, “necrofilia” como lhe chama Aquilino Ribeiro10, encontrará porventura oclímax no final de Húmus— “Épreciso matar segunda vez os mortos”. Machado Pires salienta aduplicidade brandoniana em duas facetas distintas: aapolínea-diurna, da luz eda cor, eadionisíaca-nocturna, “um homem em luta com um fantasma”11. Ou ainda como escreve Marques Gastão: Oconflito brandoniano éuma luta febril, gigantesca, brutal, contínua, macabra, entre duas personalidades bem distintas: uma aambiciosa, que vai atodos os limites; aoutra, aemotiva, que se alimenta de contrastes, de conflitos, nesse eterno desespero de definições12. Teixeira de Pascoaes sintetiza exemplarmente aproblemática das “formas indecisas” brandonianas: Não há sentimentos terminantes ou em nítido recorte. Os que parecem mais contrários, tocam-se efundem-se nos seus contornos fugidios; originam uma espécie de nebulosa donde se elevam formas indecisas, que participam umas das outras: ódio eamor, crença edescrença, tristeza ealegria. OHomem éenão é, avanço erecuo... Aum sim responde sempre um não. Quando 7 Coelho 1979, p.448. 8 Como adesigna Seixo 1987, p.54. 9 Cf. Rebelo 1982, p.6. 10 Ribeiro 1975, p.187. 11 Pires 1988, p.25. 12 Gastão 1942, p.22. OPEN ACCESS
128 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA afirmamos, negamos, porque vivemos eexistimos eavida nega aexistência, como aexistência nega avida13. Avila do Húmus éum simulacro. Atrás desta vila há outra vila maior, ambas situadas num espaço ambiguamente simbólico. Segundo Raul Brandão, osupremo valor da vida éaMorte, ou um momento de ternura que extrai de cada pedra, como Joana, amulher da esfrega. Na Carta-Prefácio aOs pobres, Guerra Junqueiro observa que Mouca, Luísa, Gebo, Gabiru são simples pseudónimos. Onome real, overdadeiro nome de todos eles éum só: aDor, que não assume adignidade da tragédia clássica, mas ada farsa trágica como em Odoido eamorte. Éador grotesca emesquinha, reles erepulsiva que encontramos n’OGebo easombra, n’Os pobres, n’Afarsa, no Húmus ou mesmo nos gritos de El-Rei Junot. Dor, luz esonho, são lexemas que ocorrem obsessivamente na obra brandoniana. Sonho— ambição egoísta, desforra interior da Candidinha d’AFarsa. Sonho— amentira que avelha exige ao Gebo para poder viver. Sonho— oterreno da memória— amãe, nascente de onde lhe vem osonho. Quimera de um artista frustrado na História dum palhaço, vontade de poder de uma alma rudimentar n’AFarsa, evasão dos humildes condenados auma vida embrionária, beleza pressentida, universo realizado sonho étudo isto, mas também um processo de transfiguração poética, meio de libertação espiritual, oInominado. Dotado de uma vitalidade prodigiosa, osonho tudo invade epõe as árvores aflorir. Mas étambém pasmo, vertigem, descida aos infernos14. Segundo Machado Pires, em Raul Brandão, osonho não édevaneio onírico; éoprojecto, oplano, adesforra, aquimera, mas quando aspiração íntima secreta efuga ao real. Tanto pode ser osonho que liberta esantifica, plasmado pela Dor (Santa Eponina, oGebo), como oque se transforma em ódio na Candidinha, ou “ochale velho aque D. Leocádia se achega todas as tardes, mesmo no pino do Verão[...] e, quanto mais no fio, mais peso tem: está encharcado de sonho”15. Sonho situado num Tempo que mói eremói, fundura constante que se traduz na humidade que alastra nas paredes, nas teias que aaranha tece nos corredores, no granito carcomido das estátuas, na cinza invisível que recobre avila do Húmus. Tempo— personagem tão real como olume da lareira. Um tempo atravessado pela Dor, húmus da Vida. Otempo da árvore— reflorescimento da Dor através das gerações. Tempo lento, gradual, percurso do amor capaz de fazer florir aárvore que naquele reino servia de forca. Tempo-Amor que transforma odeus feroz do país quimérico (História de um palhaço eoMistério da árvore). Tempo-Amor— dedicação de Prisca que lentamente transforma oRuço de Má Pêlo (Portugal pequenino). Tempo— Futuro de Esperança, anúncio da grande revolução social que tenderá ainstaurar aigualdade que, em tom apocalíptico, fora descrita em 1917, na primeira edição do Húmus eretomada n’Opobre de pedir através da análise da oposição entre exploradores eexplorados epela expressão obsessiva dum sentimento de culpa16. Segundo Óscar Lopes, as posições sociais de Raul Brandão remetem para um igualitarismo agrário cristão de influência tolstoiana, uma das constantes do autor desde ofolheto 13 Cit. em Gastão 1942, p.35. 14 Coelho 1976, p.237. 15 Pires 1988, p.23. 16 Coelho 1976, pp.232–233. OPEN ACCESS
TERESA MARTINS MARQUES 129 OPadre, onde aliás se põem reservas àrevolução liberal erepublicana, as quais teriam liquidado, com as esperanças do Céu, os motivos de humildade eresignação popular17. As oscilações entre as diversas noções de Tempo encontram igual correspondência nas oscilações da cor, pretendendo captar os instantâneos da vida: “Esta paisagem entranhou-se-me na alma, não como paisagem, mas como sentimento”18. Os jogos de luz ecor representam oreal eoirreal, oquotidiano eosonho. Fotolatria ecromolatria, policromia orgiástica, num processo de transfiguração sinestésica de verde macio, de verde molhado de silêncio verde (As ilhas desconhecidas). Ou ainda oazul— acor dominante na Obra, ao lado do oiro que Raul Brandão, pintor impressionista, captou na sua tela. Esta visualidade ou sensorialidade construída apartir de sinestesias ou hipálages estonteantes— “oar éum perfume gordo”, omar o“caldo azul do Algarve”, aespuma “um mosto branco esalgado”, osilêncio “húmido everde”— inscreve-se num universo de sensorial espanto19. Apaisagem reflecte oespanto de existir, face poliédrica da Vida azul, verde, doirada, silenciosa ehúmida. João Pedro de Andrade considera que Raul Brandão conseguiu um estilo característico eindividual, apesar das frequentes incoerências, do desgrenhamento dos períodos, da ausência de composição paciente emetódica20. Amesma oscilação lhe atribui Aquilino: “Asua frase tanto se eleva ao píncaro como baixa àplatitude sem pejo... Meia dúzia de páginas decorrem articuladas aprimor... Sucedem-se outras, descosidas de sentido, supérfluas, palha emedada sem grão”21. Castelo Branco Chaves, porventura oautor da crítica mais contundente sobre Brandão— “Improvisador, não trabalhou asua arte, não raciocinou asua emoção, não lapidou asua prosa, não corrigiu nem disciplinou acriação”— ainda assim lhe prestou homenagem: “Se não éhistoricamente rigoroso, éliterariamente inexcedível como criador de figuras cheias de pitoresco”22. Esta opinião de Castelo Branco Chaves haveria de contaminar outras opiniões críticas: éocaso de Álvaro Salema que afirma: oseu destino literário, oque mais opersonalizou como escritor, foi ode quedar-se nesse primarismo do instinto sem osuperar eorganizar numa estética de prosador, sem osubmeter auma reflexão instruída por uma cultura, sem osubmeter àoficina de artista, na lavra do trabalho depurador23. António Sérgio deseja que “os seus pastores, os operários eos lavradores, sejam ahistória humilde do nosso povo enão só apaisagem em que vive opovo”. Muito embora aprecie aexpressividade da linguagem de Brandão, declara que “apintura por palavras éfatigante”24. Vitorino Nemésio considera Raul Brandão aindividualidade 17 Lopes 1987, p.363. 18 Pires 1988, p.30. 19 Lopes 1987, p.360. 20 Andrade s/d [1963], pp.25–26. 21 Ribeiro 1975, p.203. 22 Chaves 1981, pp.112 e115. 23 Salema 1982, p.118. 24 Cit. ibidem, p.120. OPEN ACCESS
130 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA mais forte da literatura portuguesa da primeira metade do século XX, mau grado um estilo sem plano, um ideário desfeito em nebulosas sentimentais eum instinto que deforma arealidade para tratá-la aseu gosto. Adialéctica interior do bem edo mal, do anjo edo demónio constituem, na opinião de Nemésio, um drama único na arte portuguesa de sempre, sintetizado lapidarmente: “Uma vida que ésonho na lama eluz nas catacumbas”25. Segundo Óscar Lopes omais visível traço estrutural da Obra de Raul Brandão éode uma certa deficiência de estrutura ficcionista, inacabada eimprovisada. Este crítico considera OGebo easombra aobra que atingiu omáximo equilíbrio, sendo oresto uma espécie de diário, de memórias ou reflexões em busca de uma filosofia ou de uma cristalização literária, ora lírica, ora dramática, ora narrativa imaginária, géneros que se interferem eatéreciprocamente se atrofiam acada passo26. Opinião oposta ésustentada por David Mourão-Ferreira que considera OGebo easombra apeça de teatro mais ambiciosa mas também amenos conseguida, não por falta de qualidades dramáticas, mas por carência de qualidade literária, devido auma fusão indiscriminada de linguagens em que todas as personagens falam como oGebo eoGebo fala como escreve Raul Brandão, ficando aobra ameio caminho da tradição eda modernidade, do drama social edo drama psicológico, da criação plurívoca edo estrangulamento monologal. Já ORei imaginário se afigura aDavid Mourão-Ferreira como uma verdadeira obra-prima, comparável apenas acertos monólogos de Tchekhov27. Conforme escreve Vítor Viçoso, Raul Brandão não terá sabido superar as contradições que foram inerentes atodo um grupo de intelectuais pequeno-burgueses imbuídos do mais profundo pessimismo, fruto da sua incompatibilidade ideológica com uma sociedade cujos valores dominantes lhes eram inaceitáveis28. Se, no plano social, Raul Brandão não terá superado tais contradições, no plano literário elas foram omaterial precioso com que construiu amultiplicidade do Eu, afantástica visão do “magma ectoplásmico”, de uma sociedade de títeres, que impõe afuga para osonho. Oautor de Húmus, magma sem nome esem contornos no que tem de destruidor das tradicionais categorias da narrativa, éconsiderado por David Mourão-Ferreira uma influência determinante “na formação daqueles que constituem anotável plêiade de narradores da geração de 1930: JoséRégio, Rodrigues Miguéis, Nemésio, Tomás de Figueiredo, Domingos Monteiro, Branquinho da Fonseca, Miguel Torga”29. Raul Brandão não fez como Gorki uma galeria social de tipos capazes de influírem no conjunto das sociedades. Não fez como Dostoievski um tratado de tipos patológicos de alcance universal. Não fez como Eça uma galeria maravilhosa, mas sem influência nos destinos do conjunto social. Não fez como Camilo oretrato de figuras passionais. Não fez como Dickens ocenário risonho eprofundo duma sociedade. Não fez como Balzac ahistória de uma época de ambições ede transição, onde aburgue25 Cit. em Pires 1988, pp.19–20. 26 Lopes 1987, pp.346–347. 27 Mourão-Ferreira 1969, p.110. 28 Viçoso 1978, p.9. 29 Mourão-Ferreira 1969, pp.110, 122, 123. OPEN ACCESS
TERESA MARTINS MARQUES 131 sia disputava lugar na escala social ànobreza em decadência30. Tendo consciência do fosso que oseparava dos escritores do século XIX, Raul Brandão confessou aAugusto Casimiro: “Não. Não sou um escritor. Sinto ador humana, aamargura dos seres, vazo-as em figuras”31. Em jeito de conclusão poderemos dizer que alição da modernidade em Raul Brandão se manifesta pelo discurso onírico, fragmentário, nebuloso, dominado pela perda, através do monólogo interior como meditação esolilóquio, pelo desmantelamento da intriga tradicional, pela criação de um espaço simbólico, pela diluição das personagens num magma narrativo em que oTempo se torna omotor da acção, representando omundo na sua essencialidade equebrando os protocolos do género romanesco, atingindo um clímax no Húmus, como “aexpressão mais radical esublime da tragédia íntima do ser humano na literatura portuguesa do século XX”32. BIBLIOGRAFIA 30 Gastão 1942, p.14. 31 Cit. em Castilho 1978, p. 127. 32 Reynaud, loc. cit., p.14. Andrade, João Pedro de. Vida eobra de Raul Brandão. Lisboa: Arcádia, s/d [1963]. Brandão, Raul. Húmus. (Ed. Maria João Reynaud.) Lisboa: Relógio D’ Água, 2015. Castilho, Guilherme de. Vida eobra de Raul Brandão. Lisboa: Livraria Bertrand, 1978. Chaves, Castelo Branco. Crítica inactual. Lisboa: Arcádia, 1981. Coelho, Jacinto do Prado. Ao contrário de Penélope. Lisboa: Bertrand, 1976. Coelho, Jacinto do Prado. “Raul Brandão”. In Coelho, Jacinto do Prado (dir.). Dicionário das literaturas portuguesa, galega ebrasileira. Vol.2. Porto: Figueirinhas 1979 (3a ed.). Gastão, Marques. Joana eGabiru— Dois símbolos na obra de Raul Brandão. Lisboa: Edição da Imprensa Baroeth, 1942. Lopes, Óscar. Entre Fialho eNemésio. Vol. 1. Lisboa: Imprensa Nacional–Casa da Moeda, 1987. Mourão-Ferreira, David. “Releitura do Húmus ou um Novo Romance com cinquenta anos”. In Tópicos de crítica ede História literária. Lisboa: União Gráfica, 1969. Pires, António Machado. Raul Brandão eVitorino Nemésio. Lisboa: Imprensa Nacional–Casa da Moeda, 1988. Rebelo, Luís de Sousa. “James Joyce eaconquista da consciência total”. Colóquio– Letras n.º 70, Novembro de 1982. Régio, José. “Húmus”. Ler, Novembro de 1952. Ribeiro, Aquilino. Camões, Camilo, Eça ealguns mais. Lisboa: Livraria Bertrand, 1975. Salema, Álvaro. Tempo de leitura. Lisboa: Moraes, 1982. Seixo, Maria Alzira. Para um estudo da expressão do tempo no romance português contemporâneo. Lisboa: Imprensa Nacional–Casa da Moeda, 1987 (2ª ed.). Viçoso, Vítor. Húmus— Raul Brandão (Textos Escolhidos). Lisboa: Seara Nova, 1978. OPEN ACCESS
132 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA RAUL BRANDÃO— THE TRAGIC CONDITION OF MODERN MAN Lessons from Modernity are sought in the early work of Raul Brandão, with particular reference to the construction of the “interior monologue” as “meditation” and “soliloquy”, as well as the stream of consciousness, which, especially in AFarsa and Humus, expresses amental speech approximate to the “nouveau roman”. Because of the dismantling of the traditional intrigue through the creation of asymbolic space and the dilution of the characters in anarrative magma, in which Time becomes the driving force for the “action”, Raul Brandão’s work could be regarded as a“nouveau roman” avant la lettre: the monologues oscillate between remembrance and project, the real and the imaginary, and so anticipate James Joyceʼs Ulysses, which represents the world in its essentiality; under the aegis of Modernity, there is an interruption of the gender protocols of the novel. KEY WORDS / PALAVRAS-CHAVE Raul Brandão; Nouveau Roman; interior monologue Raul Brandão; Nouveau Roman; monólogo interior Endereço profissional: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa Centro de Literaturas eCulturas Lusófonas eEuropeias Endereço eletrónico:
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