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Lisboa, cidade aberta e fechada: das novas leituras em espaços públicos Lisbon, open and closed city: of the new readings in public spaces DANIEL MELO Universidade NOVA de Lisboa, Portugal danielseixasmelo[at]hotmail.com Impossibilia. Revista Internacional de Estudios Literarios. ISSN 2174-2464. No. 17 (mayo 2019). Páginas 148-179. Artículo recibido 17 septiembre 2018, aceptado 23 abril 2019, publicado 30 mayo 2019.
RESUMEN: Neste texto analisa-se o alcance educativo e sociocultural das bibliotecas ao ar livre na Lisboa novecentista, expoente em Portugal duma tendência internacional de modernização dos serviços bibliotecários. Expõem-se os limites da modernidade cultural numa sociedade em que a democratização educativa e cultural foi muito constrita e lenta mas na qual as sociabilidades de rua, as experiências educativas e o dinamismo sociocultural urbano foram amiúde expressivos. Verifica-se ainda como a função educativa da biblioteca teve sentidos distintos, consoante as concepções político-ideológicas dominantes, passando-se do potencial progressista e emancipatório do período republicano para a tónica na censura e no controle ideológico durante a ditadura salazarista. A ânsia de domesticação, pelas autoridades, de grupos de leitores emergentes enfrentou opções inexoráveis, pela imprensa e por uma leitura mais recreativa e ligada à indústria cultural ocidental. Ademais, a frequência destes espaços extra-domésticos contribuiu para a paulatina libertação feminina do patriarcalismo, plenamente assumida no pós-ditadura. PALABRAS CLAVE: bibliotecas ao ar livre, censura, cultura de massas, democratização da educação e da cultura, educação popular, história da leitura, imaginário cultural, modernidade cultural, nacionalismo, política cultural ABSTRACT: This text analyzes the educational and socio-cultural reach of the open-air libraries in 20th century Lisbon, a Portuguese exponent of an international tendency to modernize librarian services. It exposes the limits of cultural modernity in a society in which educational and cultural democratization was very restricted and slow, but where street sociabilities, educational experiences and urban sociocultural dynamism have often been expressive. It is also verified how the educational function of the library varied according to the dominant political-ideological conceptions, moving from the progressive and emancipatory potential of the republican period to the emphasis on censorship and ideological control during the dictatorship. The authorities' desire for domestication of groups of emerging readers faced inexorable options, regarding the press and a more 149
recreational reading, connected to Western cultural industry. In addition, the frequency of these extra-domestic spaces contributed to the gradual liberation of women from patriarchalism, fully assumed in the post-dictatorship. KEYWORDS: open-air libraries, censorship, cultural imaginary, cultural modernity, cultural policy, democratization of education and culture, history of reading, mass culture, nationalism, popular education ... INTRODUÇÃO Este texto faz um estudo das bibliotecas ao ar livre na cidade de Lisboa, as primeiras e mais relevantes deste tipo em Portugal, que integraram uma tendência internacional de expansão dos serviços de extensão bibliotecária (Traniello, 1997; Jenkins, 2000; Greenberg, 2003). Pretende-se contribuir para a análise da evolução da modernidade cultural numa sociedade em que a democratização da educação e da cultura foi muito constrita e lenta mas na qual as sociabilidades de rua, as experiências educativas e o dinamismo sociocultural urbano foram expressivos em certas fases (em especial, na capital) e ao nível do que ocorria noutras cidades do mundo ocidental. Em complemento, busca reflectir-se sobre o significado que tiveram estas bibliotecas face ao valor social do livro e da leitura e ao seu nexo com a educação formal, procurado pelas autoridades tanto nos enunciados retóricos como na aposta em certos conteúdos e na complementaridade e proximidade destes espaços face ao espaço e ao tempo escolares. 150
Se, dum certo ponto de vista, estes novos espaços pareciam ser um mero prolongamento das sociabilidades dos passeios públicos românticos do século XIX (Peixinho & Dias, 2015), o caso de Lisboa demonstrará que a sua vocação foi mais complexa, envolvente e politicamente dirigida para atrair e enquadrar as massas urbanas. Sob o regime republicano, a subordinação destas e de todas as bibliotecas à instrução estiveram no cerne tanto do sistema bibliotecário estatal como da experiência associativa pioneira nesta área. A preocupação das classes dirigentes com o enquadramento destas massas foi depois reforçada pela emergência e persistência duma ditadura de direita ultranacionalista no país, a qual se atarefou a propor uma rua mais domesticada, em contraponto à rua operária e republicana, propícia ao ócio disruptivo, à libertinagem social e cultural, ao tumulto, ao debate e conflito políticos, que entrelaçara essa mesma rua com os espaços semifechados e ruidosos dos muitos cafés, tascas, leitarias e clubes que pululavam na capital portuguesa de então (Janeiro, 1994; Melo, 2008 e 2010; Peixinho & Dias, 2015). O presente artigo cruza analiticamente história das bibliotecas e da leitura, história das representações e dos discursos e história da educação, mobilizando criticamente estudos e fontes primárias diversas (visuais e escritas, oficiais e testemunhais), do arquivo histórico da Câmara Municipal de Lisboa (CML), de diversos arquivos históricos do Estado central português, da imprensa periódica da época e da blogosfera.1 1Este texto, integrante dum projecto apoiado por bolsa de pós-doutoramento da FCT-MCTES, é uma versão da comunicação apresentada ao XIII Seminario Interdisciplinar de Estudios sobre Cultura Escrita (SIECE, Universidad de Alcalá, 2017). Agradece-se a Cláudia Castelo a cedência de informação preciosa sobre o serviço bibliotecário da CML. Sobre a documentação dos arquivos históricos do Estado central, a pesquisa básica foi realizada para outros estudos, nomeadamente para a tese de doutoramento (Melo, 2004), para um escorço panorâmico (Melo, 2008) e para um livro dedicado à I República (Melo, 2010). 151
A I REPÚBLICA: O PLANO DE BIBLIOTECAS MÓVEIS E A PRIMEIRA BIBLIOTECA AO AR LIVRE Uma vez que focamos as bibliotecas ao ar livre em Portugal cuja estreia se deu nos anos 1920, importa referir desde logo que o regime político da I República (1910-1926) apostou numa reforma bibliotecária ambiciosa, que reforçasse o papel patrimonial e custodial do Estado, potenciasse a educação formal e não formal e promovesse a consciencialização cívica. O desenho institucional revelava uma maior preocupação com a articulação entre Estados central e local, entre unidades fixas e móveis (e, nestas, destaque para as bibliotecas itinerantes) para satisfazer distintos públicos, tendo-se criado uma estrutura dinamizadora a nível central e para todo o país, a Biblioteca Popular de Lisboa (mais tarde, Biblioteca Popular Central de Lisboa, BPCL). Os republicanos no poder assumiram a relevância de novas funcionalidades no serviço público de leitura, como espaços e fundos especiais para certos públicos (crianças, senhoras, professores primários, soldados, etc.), ampliação dos horários de leitura pública (ao longo do dia, em todas as estações do ano, matutino e nocturno), diversificação dos tipos de leitura (presencial e domiciliário), especializações (como as bibliotecas infantis e as hemerotecas). Percepcionaram a importância da estruturação dos distintos tipos de bibliotecas a nível nacional e de disseminação do acesso ao livro a nível territorial; e, com as novas bibliotecas, tanto eruditas como populares, ajudou a que o livro e o jornal ganhassem maior circulação e visibilidade na sociedade. A atenção às bibliotecas ligava-se ao cerne da demopedia e, por conseguinte, a uma prioridade para a educação e sua laicização (Melo, 2010). Um dos diplomas basilares era taxativo: “as Bibliotecas são sempre instrumento de instrução” (Decreto-lei de 18/3/1911, 1911: 1245). Apesar das boas intenções e da existência duma visão oficial mais informada e articulada, a junção duma série de factores – nomeadamente os bloqueios estruturais da política sectorial, as carências financeiras, a instabilidade política, a curta duração do regime, o fraco crescimento da alfabetização e da escolaridade em termos nacionais – inviabilizou 152
grandes desenvolvimentos neste sector no primeiro quartel de novecentos (Melo, 2004; Nóvoa, 2005). Ademais, a extensão bibliotecária por pólos ao ar livre só se consolidou no mundo a partir dos anos 1930, mormente no âmbito anglo-saxónico e euro-setentrional (Greenberg, 2003), não sendo de estranhar que o fenómeno também tenha sido uma raridade no Portugal republicano. Com efeito, o único exemplo de que há registo para a I República é a biblioteca do Jardim da Estrela em Lisboa, criada em 1922 por iniciativa duma universidade popular (a Universidade Livre) e de Alexandre Ferreira, dirigente do pelouro municipal de Instrução e Assistência (1923-1926) e dinamizador republicano da democratização da educação (Melo, 2010).2 Teve por modelo inspirador directo a biblioteca madrilena do Parque do Retiro, de 1919, e a experiência foi desde logo defendida na imprensa portuguesa, inclusive com sugestões visuais para adopção nos jardins fechados de Lisboa (Ramos, 1919), demorando, porém, uns anos até ver a luz do dia. Segundo reportagem da revista Ilustração Portuguesa, desde a abertura que esta biblioteca estava “profusamente divulgando as maravilhas da poesia e da prosa portuguesa[s]”, para o que também contou com o apoio dalguns editores (Anónimo, 1922). Em cliché reproduzido neste suplemento semanal do diário de grande circulação O Século pode verificar-se que o acervo da biblioteca teria centenas de livros, incorporados em duas estantes e uma mesa de apoio (Anónimo, 1922). GÉNESE E EVOLUÇÃO DAS BIBLIOTECAS DE JARDIM DO GOVERNO MUNICIPAL DE LISBOA Esta ideia foi depois adoptada e expandida pelo município da capital a partir de 1937, seguindo-se-lhe outros municípios,3 agora sob uma ditadura que instrumentalizou a educação 2Sobre a relevância desta universidade e de Alexandre Ferreira cfr. (Bandeira, 1994; CML, 2000). 3Nos anos 1930-60, este modelo foi replicado noutras sete cidades (pelo menos), distribuídas de norte a sul do país e nas ilhas adjacentes, por iniciativa estatal em quase todas. 153
para fins de inculcação ideológica, fazendo censura política (e incentivando a censura social) ao impresso, vigiando e restringindo as leituras disponíveis em todas as bibliotecas (sobretudo as que considerava subversivas) e procurando impor um corpus literário nacionalista (Melo, 2004 e 2016; Nóvoa, 2005; Vaquinhas, 2012). A leitura pública será mais controlada nas bibliotecas estatais destinadas às classes populares, tal como consta em diploma basilar de 1931.4 Tratava-se de neutralizar um certo legado republicano e operário: a leitura instigadora de pensamento crítico e de emancipação social. Transferir a leitura para jardins públicos foi um outro modo de controlo e condicionamento das leituras: retirando-a dos espaços antes “contaminados”, como os cafés e tascas onde se comentavam jornais e folhetos, quantas vezes politicamente ou libertinamente disruptivos, ou das suspeitas “bibliotecas populares” das associações operárias. Evitava-se que os jovens estudantes seguissem a via disruptiva dos seus predecessores, levando-os da escola à biblioteca e assim acompanhando-os em todos os momentos possíveis do seu tempo social. O pretexto continuava a ser o formativo (ou a boa recreação, uma variante tolerável), ainda que a orientação e o contexto político-ideológico fosse assaz diverso. Neste sentido, em Lisboa, a instalação de bibliotecas ao ar livre em jardins, parques e pracetas passou a fazer parte do programa educativo-cultural municipal (Câmara Municipal de Lisboa,5 1959: 146/7). Dessas, cinco foram criadas nos anos 1930, seis nos anos 1940, duas nos anos 1950 e duas nos anos 1960, num total de quinze unidades. Cada unidade era constituída por um armário metálico (pintado de verde, com portas envidraçadas e portadas amovíveis, e “com capacidade para cerca de 300 a 350 volumes”), o elenco de livros e revistas a consulta, mesa de apoio para encarregado e cadeiras de abrir e fechar.6 A iniciativa coube à Câmara 4“Tanto na Biblioteca Popular Central de Lisboa, como em todas as bibliotecas populares e móveis, é absolutamente vedado fornecer livros, revistas e panfletos que contenham ofensas à moral e às religiões, ou doutrinas contrárias à segurança do Estado” (Decreto-lei nº 19952, 1931: art. 132º). 5En adelante, CML. 6Citado de ofício de 1950 in PT/AMLSB/AL/CMLSB/CULT/01/0181, cx. 5, processo 129. 154
Municipal de Lisboa mas quem tinha obrigação legal quanto à instalação de bibliotecas nos jardins era a BPCL, que nada fará nesse âmbito.7 As estruturas centrais, de que a BPCL era uma ramificação, estavam mais preocupadas com a função custodial e com as bibliotecas eruditas, longe das multidões e das ruas (Melo, 2010). No final da década de 1930, o balanço oficial das designadas “bibliotecas volantes” em Lisboa era positivo e inseria-se no projecto mais abrangente de levar a “leitura” às “várias zonas da cidade” e “a todas as camadas da população” (Dias, 1939a: 62). A mesma fonte refere que essas e as seis bibliotecas fixas8 eram “frequentadas por estudantes, operários, funcionários aposentados, militares, etc.” (62) e a “leitura popular” chegara a quase 240 mil munícipes nesse mesmo ano (Dias, 1939b: 24). Esta avaliação socioprofissional não é sustentada em dados objectivos quanto às bibliotecas ao ar livre, uma vez que o leitor destas unidades não tinha que declarar a sua profissão ou ocupação, apenas tinha que indicar a idade, o bilhete de identidade e preencher uma senha de leitura com o título da obra requisitada.9 Entre 1937 e 1958, as “bibliotecas volantes” serviram quase um milhão e oitocentos mil leitores (CML, 1959: 147). DOS PÚBLICOS E FUNÇÕES DAS BIBLIOTECAS DE JARDIM Apesar da apregoada preocupação com a “leitura popular”, o certo é que as bibliotecas ao ar livre de Lisboa foram instaladas sobretudo nas zonas novas, de classe média e de serviços 7Como consignado no diploma: “À Biblioteca Popular Central de Lisboa incumbe organizar nesta cidade um sistema de bibliotecas circulantes e móveis, incluindo as destinadas a jardins públicos” (Decreto-lei nº 19952, 1931: art. 135º). Ainda em 1955, se alertava para a persistência desta omissão por parte do Estado central (Sá, 1956: 282). 8Existiram ainda “bibliotecas itinerantes” nas juntas de freguesia de Lisboa, mas só duraram de 1937 a 1940, sendo transferidas para alguns bairros sociais, cadeias, hospitais, etc. (CML, 1959: 147/8). Unidades propriamente itinerantes (i.e., em contínua circulação por vários lugares) só surgiram em janeiro de 1961, começando com duas carrinhas. 9Esses indicadores socioprofissionais não foram apurados pelos responsáveis das bibliotecas ao ar livre, a crer no teor de certos relatórios e no facto das senhas de leitura serem vendidas a peso no final de cada ano. 155
da cidade. Não obstante, estes espaços foram muito frequentados, em especial pelos jovens, por quatro motivos principais: primeiro, as bibliotecas escolares eram poucas, mal apetrechadas e desagradáveis, tanto na capital como no país em geral; segundo, o empréstimo domiciliário era quase inexistente; terceiro, o serviço de leitura nocturna era também uma raridade, tendo surgido tardiamente (em Lisboa surgiu de modo sistemático apenas desde 1933/1934, ainda assim com interrupções várias);10 quarto, os poucos espaços para jovens existentes nas bibliotecas estatais eram pequenos11 e amiúde lotados (Melo, 2004). Em correspondência de 1950, o município de Lisboa assumia que não tinha regulamento próprio para as bibliotecas ao ar livre (apenas o geral, de 1931), que estas unidades eram formadas por “livros e publicações periódicas, estas últimas sempre actualizadas” (verificar-se-á adiante o seu incumprimento), tendo cada qual um “«catálogo de leitores», para uso do público, facilmente manuseável” (e havendo um catálogo geral “no serviço da sede”), supervisionadas por um funcionário sem formação profissional (designado por “vigilante de bibliotecas”, embora também “encarregado de atender o público” e zelar pelo serviço) e que o “horário de leitura” era das 9 às 12h e das 13h30 às 18h30, em “todos os dias úteis”.12 Em 1951, a oferta total quedou-se pelos 2500 volumes, que fizeram “‘roulement’ trimestral”.13 Isto significa que os armários-biblioteca estavam significativamente abaixo do limite, com uma média de 250 volumes por armário quando podia chegar aos 350. Em 10A leitura nocturna encerrava durante dois meses do ano (agosto e setembro), pelo menos; foi suspenso durante a II Guerra Mundial, devido ao racionamento do consumo de energia eléctrica, sendo retomado apenas em 1945. Quando este serviço foi novamente encerrado em todas as unidades fixas de Lisboa, em novembro de 1948, o movimento de leitura teve uma quebra imediata de um terço de utilizadores e levou a queixas, em especial no bairro operário do Poço do Bispo, as quais influenciaram na reposição do serviço em março de 1949. 11Imagem esclarecedora duma sala de leitura para crianças sobrelotada em CML, 1959: s.p. [folha intitulada “Biblioteca Municipal Central – Palácio Galveias – Sala de leitura infantil (1935)”]. 12PT/AMLSB/AL/CMLSB/CULT/01/0181, cx. 5, processo 129. Posteriores referências a este núcleo documental serão abreviadas. No Verão, o fecho passou para as 19h e a abertura para as 9h30 (CULT/01/0443, cx. 10). 13O recheio bibliográfico global (CULT/01/0523, cx. 11) permanecia o mesmo em 1955 (CULT/01/1672, cx. 35). 156
Em 1959/1960, efectuou-se uma renovação do recheio bibliográfico das bibliotecas ao ar livre, sendo algo heterogéneo o perfil das novas aquisições biblíacas, com autores do cânone literário e outros mais "populares", ficção e não-ficção, alguns géneros (romance, conto) e subgéneros literários (sentimental, policial), colecções para públicos infantil, juvenil e adulto, etc. Embora algo heterogénea, nota-se uma concentração em autores do cânone luso oitocentista (a maioria destes persistindo também enquanto cânone escolar), em escritores nacionalistas e tradicionalistas católicos lusos dos séculos XIX-XX (Reis, 1991, Melo, 2004 e 2010, e Trindade, 2014), em escritores estrangeiros de credo católico ou em voga, em certas colecções de romances e novelas, para crianças, infanto-juvenis e técnico-profissionais, e em livros de história (Fig. 4)22. Em suma, a nova proposta biblíaca visou satisfazer uma procura já existente e reforçar uma certa orientação ideológica, daí que pouco inovando. Por exemplo, os autores mais inovadores só entraram com títulos isolados; foi insignificante o peso das ciências sociais e humanas (excluindo história, e um pouco de geografia), da poesia e do teatro. Não obstante, esta renovação teve efeito positivo em termos quantitativos, pois em 1960 atingiu-se os cem mil leitores. 22Fonte: PT/AMLSB/AL/CMLSB/CULT/01/2939, 1959. Nb: quanto a autores, nomearam-se só aqueles que foram destacados na própria proposta oficial. Da colecção «Os Romances Universais» foi removido o Bel-ami, de Guy de Maupassant (constava da lista oficial de livros censurados). 163
Autor, área principal, subgénero e/ou colecção editora cânone luso oitocentista (vários títulos de Eça, Camilo e J. Dinis; também as obras de Arnaldo Gama, António Nobre e Conde de Sabugosa/ António Vasco de Melo) várias escritores nacionalistas neo-românticos e tradicionalistas católicos lusos dos séculos XIX-XX (obras de Antero de Figueiredo, Henrique Lopes de Mendonça, Campos Jr., Nuno de Montemor) várias escritores estrangeiros de credo católico ou em voga (Ernesto Psichari, Graham Greene; Hall Caine, Saint Exupéry) várias certas colecções de romances e novelas: Obras Escolhidas de Autores Escolhidos; Obras Primas Contemporâneas; Antologia; Grandes Clássicos; Clássicos do Tempo Presente; Os Romances Universais; Vampiro (policial); Xis, Colecção Minerva série amarela, e Colecção Minerva série branca (sentimental) Romano Torres; Guimarães; Estúdios Cor; Editorial Aster; Portugália; Livros do Brasil; Editorial Minerva certas colecções para crianças: Contos de Encantar; Azul; Condessa de Ségur; Gente Grande para Gente Pequena; Os Melhores Livros para Crianças Livr.ª Clássica; Casa do Livro; Livr.ª Figueirinhas + Educação Nacional de Adolfo Machado; Tavares Martins; A. M. Teixeira certas colecções infanto-juvenis: Juvenil; Mocidade; Colecção Viagens, aventuras, epopeias; Terramarear; Terra e Mar Empresa Nacional de Publicidade; Apostolado da Imprensa; Clássica Editora; Companhia Editora Nacional (SP, Brasil); Editorial Minerva certas colecções juvenis: Vida e Aventura (novelas, narrativas de viagens ou de experiências) Livros do Brasil certas colecções técnico-profissionais: Biblioteca de Instrução Profissional; Nova Biblioteca de Instrução Profissional Bertrand certas colecções de história: Grandes Biografias; A Vida Quotidiana; Colecção Henriquina; Os Portugueses no Mundo; Por Terras de Maravilha (memórias de estadias junto de povos ‘exóticos’) Aster; Bertrand; Comissão Executiva das Comemorações do Quinto Centenário da Morte do Infante D. Henrique; Sá da 164
Costa; Tavares Martins certas colecções de geografia: Antologia da Terra Portuguesa (antologia literária sobre regiões portuguesas e paratextos); Os Portugueses no Mundo; Por Terras de Maravilha (memórias de estadias junto de povos ‘exóticos’) Livros do Brasil; Sá da Costa; Tavares Martins Figura 4. Perfil da nova aquisição biblíaca para as bibliotecas ao ar livre da CML (1959/60) Para beneficiar este serviço, com renovação do mobiliário e local de instalação, um responsável municipal propôs em 1961 que se averiguasse as experiências ensaiadas nas principais cidades de vinte e quatro países, através de informações e imagens a obter junto das embaixadas.23 Tal proposta não terá tido grande efeito, pois nada mais há sobre a referida renovação. No final de 1961, foi também oferecido um recheio de trezentos setenta e quatro volumes para formar a Biblioteca para o Jardim dos Pequeninos, a instalar no Jardim Zoológico e de Aclimação em Portugal, em Lisboa, a pedido desta instituição privada. A preferência por publicações periódicas nas unidades ao ar livre era tão forte em 1962 que um responsável municipal propôs a transferência dalguns livros desse pequeno fundo para as bibliotecas itinerantes (que haviam arrancado em janeiro de 1961), pois estas novas unidades também estavam com muita procura.24 23Houve algumas respostas, mas boa parte enviava imagens de bibliotecas fixas, revelando incompreensão face ao pedido. O mesmo responsável também propôs a criação duma biblioteca ao ar livre no Parque Municipal de Campismo (Monsanto), duma outra para invisuais – à semelhança da existente em Viena de Áustria – que poderia funcionar no Jardim Guerra Junqueiro ou no Jardim Teófilo Braga, e a instalação de bibliotecas para crianças nos parques infantis do Campo Pequeno, do jardim Guerra Junqueiro e do Alvito (Parque Florestal de Monsanto). 24“Recorreu-se então ao recheio das Bibliotecas ao Ar Livre, donde, sem prejuízo do rendimento da leitura, visto as preferências dos leitores se inclinarem marcadamente para a consulta das muitas publicações periódicas, tanto noticiosas, como culturais e desportivas que, por já se encontrarem registadas e catalogadas, puderam ingressar rapidamente nas Bibliotecas Itinerantes”. Para contrabalançar, propunha agora o mesmo responsável a aquisição de dois mil volumes (custo de cinquenta mil escudos) para as unidades ao ar livre, “entre os quais figuram, a par de obras de excepcional valor, quer sob o aspecto literário, quer pelo assunto versado, outras de leitura mais acessível, de maneira que todos os leitores, qualquer que seja a sua preparação intelectual, encontrem, dentro do limitado âmbito duma Biblioteca de Jardim, a obra que melhor 165
Quanto a iconografia, temos prova de frequência das bibliotecas ao ar livre de Lisboa para quatro períodos: 1) 1922 (fotografias de autor não identificado); 2) 1939 (fotografias de Eduardo Portugal); 3) 1940-1949 (fotografias dos irmãos Horácio e Mário Novais; 4) novembro de 1959 (fotografias de Armando Serôdio). Em foto de 1922 pode ver-se quatro pessoas em torno a uma estantaria-biblioteca no jardim da Estrela: um rapaz e um senhor idoso sentados num banco, este lendo um folheto, e, próximos, uma senhora folheando livros sentada numa cadeira e debruçada numa mesa de apoio e um jovem adulto de pé lendo um livro (Fig. 5). Figura 5. Leitores junto à primeira biblioteca ao ar livre de Lisboa, no Jardim da Estrela (1922) corresponda às suas necessidades espirituais” (CULT/01/3915, cx. 110, procº privativo 140, of. 616/C-IV, do chefe da Repartição de Bibliotecas e Museus da CML, Joaquim da Silva Pinto, para o dir. dos serviços centrais e culturais, 29/8/1962, fl. 1). Sobre as bibliotecas itinerantes em Portugal veja-se Melo, 2004 e Neves, 2006. 166
Numa foto do jardim França Borges, na praça do Príncipe Real, então chamada de Praça do Rio de Janeiro (Lisboa, 1939), notam-se leitores de diversas gerações lendo junto à biblioteca (Eduardo Portugal, 1955).25 Numa foto do jardim da Estrela do mesmo ano e do mesmo fotógrafo, o espaço está cheio, já é maioritário o público infanto-juvenil (embora também haja leitores adultos), os bancos de jardim estão cheios e uma criança tem de ficar de pé para ler, lêem-se livros e um jornal grande (Fig. 6). Este predomínio foi potenciado pela expressiva proximidade de escolas públicas, em especial dos liceus Machado de Castro, Josefa de Óbidos e Pedro Nunes. Nos intervalos e após a frequência escolar, tornou-se um hábito para vários estudantes.26 Figura 6. Leitores na nova biblioteca do Jardim da Estrela (1939). Fotografia de Eduardo Portugal. ©Arquivo Fotográfico de Lisboa 25http://arquivomunicipal2.cm-lisboa.pt/x-arqweb/ContentDisplay.aspx?ID=9522e07c834e0 001e240&Pos=1&Tipo=PCD. 26Apud depoimento do ex-estudante e leitor João Celorico (Leite, 2014). 167
De ano indeterminado da década de 1940 existe uma imagem da biblioteca do Jardim da Estrela, com miúdos e graúdos na leitura, todos juntinhos debaixo da sombra das palmeiras, distinguindo-se crianças e adolescentes lendo revistas, provavelmente com banda-desenhada aos “quadradinhos” (Horácio Novais).27 Da biblioteca do Príncipe Real temos outra imagem, esta de 1949: as crianças dominam agora, havendo apenas um leitor adulto (Fig. 7). O miúdo que está junto ao encarregado da biblioteca está a ler a revista Stadium, uma então popular revista desportiva, sobretudo de futebol. Dois miúdos lêem a mesma revista, um deles está de pé. Este tipo de leituras, confirmado por outras fontes que referi(re)mos, é um índice notório da expansão da cultura de massas no país sob a forma de determinados impressos, das revistas desportivas aos “quadradinhos” (tema desenvolvido em Bagagem, 2008). Figura 7. Leitores maioritariamente jovens na biblioteca municipal do Príncipe Real (1949). Fotografia de Mário Novais. ©Arquivo Fotográfico de Lisboa 27 http://revelarlx.cm-lisboa.pt/fotos/gca/1168537965a12289g.jpg. 168
São de 1959 as restantes imagens localizadas, todas de Armando Serôdio e correspondendo à maioria das fontes visuais pertinentes localizadas (sete em onze). Na novel Praça João do Rio (ao Areeiro burguês) vêem-se leitores solitários, quase perdidos no arvoredo frondoso (PT/AMLSB/SER/100527).28 Ao Jardim António Feijó (no bairro popular de Arroios) iam leitores de jornais (PT/AMLSB/SER/100528).29 O mesmo ocorria no Jardim Augusto Gil, no bairro operário da Graça, onde até o guarda-bibliotecário aproveitava para se pôr a par das últimas da imprensa (PT/AMLSB/SER/I00529).30 No Jardim de Castilho (integrado no miradouro de Santa Luzia), no “bairro histórico” de Alfama, vêem-se jovens leitores de revistas juvenis e outros periódicos, incluindo crianças em leitura partilhada com jovem operário (Fig. 8). 28 http://arquivomunicipal2.cm-lisboa.pt/x-arqweb/ContentDisplay.aspx? ID=9521e578854a0001e240& Pos=1&Tipo=PCD. 29 http://arquivomunicipal2.cm-lisboa.pt/x-arqweb/ContentPage.aspx?ID=9521e578854b0001e240& Pos=1&Tipo=PCD. 30 http://arquivomunicipal2.cm-lisboa.pt/xarqdigitalizacaocontent/PaginaDocumento.aspx?Documento ID=282047&AplicacaoID=1&Pagina=1&Linha=1&Coluna=1. 169
Figura 8. Leitores na biblioteca municipal do mirador de santa Luzia, en Alfama (1959). Fotografia de Armando Serôdio. ©Arquivo Fotográfico de Lisboa No Jardin Teófilo Braga, situado noutro barrio popular, Campo de Ourique, a image, devolve-nos leitores em pose para fotografia institucional, ou seja, uma ‘leitura’ declaradamente encenada.31 No Jarim Nuno Álvares, situado num barrio de classes média e popular (Santos), vê-se um senhor idoso bem vestido, um par de raparigas e um par de rapazes lendo livros (Fig. 9). Os rapazes partilham uma leitura com boa disposição. 31http://arquivomunicipal2.cm-lisboa.pt/xarqdigitalizacaocontent/PaginaDocumento.aspx?Documento ID=282050&AplicacaoID=1&Pagina=1&Linha=1&Coluna=1. 170
Figura 9. Leitores na biblioteca municipal do Jardim Nuno Álvares, em Santos (1959). Fotografia de Armando Serôdio. ©Arquivo Fotográfico de Lisboa Por fim, no Jardim da Praça do Imperio, em Belém, a biblioteca serve apenas enquanto adereço do nacionalismo monumentalizado, pois não há leitores.32 Ressalve-se que em 1963 foi aberto um serviço de leitura para cegos na biblioteca ar livre do jardim da Estrela. As fotos atinentes não mostram a frequência por leitores, apenas a cerimónia de inauguração (veja-se por exemplo fotografia de Armando Serôdio, PT/AMLSB/ CMLSBAH/PCSP/004/SER/S02064).33 A iconografia permitiu-nos comprovar certas práticas e comportamentos (por exemplo, leitura de periódicos e de livros por todos) e formular interpretações que a documentação escrita não possibilitaria, a começar pela leitura em grupo por jovens enquanto prática de leitura comum nessas décadas. Tal prática pode testemunhar-se tanto para raparigas como para 32http://arquivomunicipal2.cm-lisboa.pt/x-arqweb/ContentPage.aspx?ID=9521e57885420001e240&Pos= 1&Tipo=PCD 33http://arquivomunicipal2.cm-lisboa.pt/x-arqweb/ContentDisplay.aspx?ID=9526e173834d0001e240& Pos=1&Tipo=PCD 171
rapazes (mais para estes, mas também estão mais presentes nas imagens disponíveis), patente em várias imagens específicas. A ÚLTIMA GERAÇÃO DE BIBLIOTECAS AO AR LIVRE Estas bibliotecas foram desactivadas em 1980 e não foi possível apurar informação adicional sobre os seus últimos anos de actividade. Em 1993, um organismo cultural do Estado central, o Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, lançou uma campanha nacional para a animação do livro e da leitura, que apoiou a reactivação de bibliotecas-quiosque nalguns jardins de Lisboa, nos meses de Verão. Foi uma iniciativa efémera, à qual sobreviveu apenas a unidade do Jardim da Estrela, de novo por amparo municipal. Passou esta a facultar a consulta presencial (ou o empréstimo domiciliário, uma novidade) de cerca de mil livros, além de jornais, revistas e jogos de entretenimento.34 Tal relançamento surgiu já numa época de democratização da educação e da cultura, exemplificado pelo lançamento duma rede nacional de bibliotecas municipais, a partir de 1986, e a expansão dos serviços bibliotecários em geral (com oferta generalista e diversificada, melhores equipamentos e modalidades de leitura), portanto, num contexto histórico diverso, de democracia política, e com possibilidades de acesso ao livro assaz ampliadas pelo empréstimo domiciliário e outros avanços (Gomes, 1992; Melo, 2004). Já no século XXI, a escola ocidental começou finalmente a dar atenção às vantagens da biblioteca ao ar livre, enquanto elemento fundamental da prática do “Dia de Aulas ao Ar Livre”, campanha global criada em 2011 no Reino Unido “para celebrar e inspirar a brincadeira e a aprendizagem ao ar livre”, tendo em conta as potencialidades intelectuais, psicológicas, sociais e culturais desta perspectiva.35 Hoje em dia os serviços de serviço de 34http://revelarlx.cm-lisboa.pt/gca/?id=1056 35https://diadeaulasaoarlivre.pt/sobre/ 172
REIS, Carlos (1991). A produção cultural entre a norma e a ruptura. In REIS, António (Ed.), Portugal contemporâneo. Vol. 4 (pp. 201-270). Lisboa: Alfa. SÁ, Victor de. (1956). As bibliotecas, o público e a cultura. Braga: ed. autor. TRANIELLO, Paolo. (1997). La biblioteca pubblica. Bolonha: Il Mulino. TRINDADE, Luís (2014). A cultura. In TEIXEIRA, Nuno Severiano (Ed.). História contemporânea de Portugal, 1808-2010 (pp. 196-234). Lisboa: Objetiva. VAQUINHAS, Irene. (2012). Los peligros de la lectura en femenino: de los libros prohibidos a los libros aconsejados (siglos XIX-XX). In ALTURO, Jesús; TORRAS Miquel, CASTRO, Ainoa. La producció i circulació de llibres clandestins des de l'antiguitat fins als nostres diez (pp. 95-112). Barcelona: Universidad Autònoma. 179